• Share
  • Email
  • Embed
  • Like
  • Save
  • Private Content
Cheryl holt   além da paixão
 

Cheryl holt além da paixão

on

  • 3,780 views

 

Statistics

Views

Total Views
3,780
Views on SlideShare
3,780
Embed Views
0

Actions

Likes
1
Downloads
62
Comments
0

0 Embeds 0

No embeds

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

    Cheryl holt   além da paixão Cheryl holt além da paixão Document Transcript

    • Cheryl Holt Além Da Paixão (Further Than Passion) Kate Duncan concorda em ajudar sua jovem prima a encontrar um marido, ela pretende usar uma poção de amor de um farmacêutico para seduzir o famoso Marcus Pelham. Marcus vive rodeado de numerosas damas dispostas a compartilhar sua cama. Entretanto, nada o excitou tanto como a imagem de Kate observando-o. Marcus tenta divertir-se um pouco com Kate, bebe o elixir e perde o controle cada vez que se aproxima dela. A travessura acaba quando ele percebe que a atração que sente por Kate é selvagem e real. Enquanto a ensina na arte da sedução, ele se apaixonará perdidamente pela primeira vez? Disponibilização, Tradução e Formatação: Gisa Revisão: Irany Projeto Revisoras Traduções
    • Capítulo 1 Londres, Inglaterra, 1813… - Uma poção de amor? - brincou Kate Duncan. - Diga que é uma brincadeira, por favor. - Não, não é. - E o que imagina ganhar? Lady Melanie Lewis, sua prima longínqua, de dezesseis anos, respondeu com rebeldia: - O que você acha? Quero que Lorde Stanford se apaixone por mim. Kate logo mal pôde conter as gargalhadas. - Lorde Stanford? Apaixonar-se? - exclamou. - Sim. Kate respirou profundamente para tentar acalmar-se. - Onde a conseguiu? - Um farmacêutico vendeu-me. Melanie se inclinou para frente e acrescentou sussurrando: - O homem assegura que é extremamente forte, assim devo ser prudente e administrá-la de forma adequada; do contrário podem aparecer conseqüências imprevisíveis. - Que tipo de conseqüências? - Se não agir com cuidado, duas pessoas que não se dêem poderiam sentir-se atraídas, e isso seria catastrófico. Kate olhou o teto com desdém. - Melanie, não pode acreditar que esta beberagem seja autêntica. - Por que não seria? - As poções mágicas não existem! - Pare! Isso demonstra o pouco que sabe. Paguei uma fortuna por esta. Tem que ser autêntica. Kate segurou o frasco contra o abajur e o sacudiu levemente. Viu que continha um líquido escuro e teria apostado seu último níquel que se tratava de vinho tinto. - O que é exatamente o que devo fazer? - perguntou. - Tem que dar-lhe pouco antes da minha entrevista com ele. Ponha no brandy ou na sopa, sem que ele veja, é obvio. - É obvio… - Amanhã pela tarde, quando nos apresentarem, seria o momento ideal. Quero-o encantado desde o começo. - Encantado? - Sim. Kate suspirou. Durante anos tinha sido dama de companhia de Melanie, e também sua tutora, instrutora e guardiã. Não era a primeira vez que a ouvia dizer uma série de bobagens, que a via engendrar idéias estranhas e insensatas, mas esta era, com certeza a mais extravagante. Para todos, Marcus Pelham, de trinta anos, Conde de Stanford, era uma uva sem semente, frio, libertino e distante. O anseio de Melanie
    • para deixá-lo apaixonado perdidamente era uma loucura. Não, era mais que uma loucura: roçava a demência. Teria ela enlouquecido? Marcus Pelham jamais amaria Melanie. Pusesse a beberagem em sua comida ou não, ele jamais ia apaixonar-se. Sem dúvida, Melanie conhecia os limites e as repercussões de um matrimônio aristocrático. Sua mãe Regina, mostrou-lhe todos os detalhes. Se Lorde Stanford escolhesse Melanie como prometida, seria pelos motivos habituais: dinheiro, propriedades, alianças familiares. O carinho não desempenharia nenhum papel. - O momento em que o faça é crucial - prosseguiu Melanie. - Tem que falar com o serviço para saber quando e onde é mais provável que ele… - Melanie, me escute. - Kate tomou pelos ombros e a sacudiu. - Não vamos fazer isso. Não vou fazer. - Vai sim! - Stanford é um cavalheiro inteligente, ardiloso e perspicaz. E se me surpreendesse? Como ia justificar-me? - Francamente, Kate, você não tem imaginação. - Melanie a separou de si. - Tem que começar inventando uma história. Assim, se lhe descobrirem, terá uma desculpa pronta. E bem, quando será? Kate contou até dez, rogando para ter paciência. Melanie sempre tinha sido obstinada e Kate já se cansara dos seus desejos. - Vejamos se assim me entende: você está proibida de tentar. Se insistir, falarei com sua mãe e farei que a detenha em seus propósitos. Ante a menção de sua mãe, Regina Lewis, Condessa viúva de Doncaster, Melanie se encolerizou e seus cachos de cabelo dourados se agitaram com fúria. - Se te atrever a fazer isso, - ameaçou gritando - consagrarei o resto de minha vida a fazer com que se arrependa. - Se cale antes que desperte a toda a casa - ordenou Kate, tão zangada como sua prima. Tinha vivido longo tempo com Melanie e tinha suportado muitas manhas de criança para tolerar outra, menos ainda na metade da noite. Colocou o frasco na cômoda e se dispôs a partir irada. - É muito tarde e amanhã teremos um dia ocupado. - Leve a poção. - ordenou Melanie agarrando o frasco e o esgrimindo como se ele fosse uma arma. - Não pode me dar ordens. - Se não levar isso, farei algo drástico, como… como… Parecia em seu arrebatamento que não conseguia encontrar nenhuma conduta o bastante censurável, mas seu semblante acalorado fazia temer que se encontrasse quase tendo um colapso nervoso. - Pelo amor de Deus! - resmungou Kate. - Dê-me isso. Aproximou-se dela e agarrou o frasco. Melanie a olhou com ar triunfal, pois em nenhum momento tinha duvidado de sua capacidade para coagi-la e conseguir que se submetesse aos seus desejos, fossem quais fossem.
    • Chiando os dentes, Kate saiu com toda pressa e fechou a porta. Sua anfitriã, a lady sofisticada madrasta de Lorde Stanford, era de natureza despreendida, por isso um abajur colocado junto ao patamar e aceso permanentemente iluminava o seu caminho. Dirigiu seus passos cansativamente para a escada com a intenção de subir aos seus aposentos, mas se sentia fatigada, exausta pela viagem a Londres e por ter que batalhar todas as horas com Regina e Melanie. No terceiro degrau se deixou cair com a cara entre as mãos. Não havia pressa. Seu dormitório era um espaço ordenado, limpo e cômodo, mas com poucos móveis e silencioso, situado no final de um corredor deserto. Aquela localização isolada só acentuava a solidão que vinha sentindo nos últimos tempos. Ao menos não a tinham hospedado no desvão com os serviçais! Tinha sofrido uma infinidade de humilhações desde os oito anos de idade, depois de ficar órfã, mas seu orgulho não teria suportado mais essa. Tinham se passado tantos anos desde que seu pai ostentou o título de Conde de Doncaster…, desde que morrera e o filho de Regina, Christopher, fosse resgatado da pobreza e das sombras para substituir seu pai. Kate mal podia recordar aquele período de riqueza e privilégios. Realmente tinha sido filha de um Conde? Realmente tinha sido sua mãe a mulher mais formosa da Inglaterra? Era certo que tinha vivido como uma princesa? Ou tudo se tratava de um sonho, recorrente e inexplicável? A mãe de Kate se casou muito jovem. Sentiu-se angustiada e infeliz naquele matrimônio e, no final, fugiu para a Itália com um amante. O pai de Kate foi incapaz de suportar tamanho escárnio e se suicidou, deixando Kate desamparada, sem recursos, sem dote e sem ter designado nenhum tutor responsável por ela. Antes de ter tempo de digerir a tragédia, a indômita Regina se mudou a Doncaster e tomou as rédeas do poder. Em poucas semanas, seu doentio marido tinha herdado o Condado e havia falecido, para sorte dela, viúva e com um bebê que seria o novo Lorde. Desde então tinha administrado as propriedades como uma rainha despótica, dirigindo com mão de ferro e intimidando todo mundo até que todos cediam as suas ordens. Regina nunca permitia que Kate esquecesse que era uma fastidiosa carga, que começava a envelhecer, que os egoístas dos seus pais não tinham pensado no seu bem-estar e que a tinham abandonado aos caprichos do destino. Regina aproveitava a menor ocasião para recordar o quanto fracos e dementes tinham sido os pais de Kate e que seu sangue manchado corria por suas veias. Repreendia-a tão freqüentemente e com tal veemência que as críticas acabaram arraigando-se em Kate, que para impedir que outras pessoas descobrissem sua esquecida linhagem e a julgassem severamente, não revelava a ninguém seu sobrenome.
    • Havia um espelho na parede e ela contemplou seu reflexo com atenção. Sob a luz mortiça, não aparentava absolutamente ter vinte e cinco anos, embora fosse essa sua idade. Seu cabelo mogno brilhava denso e sedoso, e não era, como Regina se empenhava em proclamar de vez em quando, indicador de um temperamento hedonista. Regina afirmava que era o tipo de cabelo das bruxas, que a cor incitava as maneiras selvagens e que tinha sido a ruína da mãe de Kate. Por medo de ser acusada de ter caráter dissoluto, como sua mãe, Kate estava acostumada a ocultar seu cabelo sob toucas e capuzes. Entre as sombras, seus verdes olhos cintilavam com vida, seu rosto era muito formoso e atraente. Sua esbelta figura era feminina e suas curvas, bem definidas e sedutoras, por isso não conseguia detectar indício algum da patética criatura que Regina a fazia sentir-se. Era como se estivesse contemplando a mulher que desejava ser em lugar da que era. Baixou o olhar e inspecionou o frasco, ainda em seu poder. - Uma poção de amor. - murmurou.- O que virá depois? Fazia já tempo que tinha percebido a estupidez que a cercava. Tal e como seus pais tinham evidenciado, o excesso de paixão conduzia à desgraça e a tragédia, e Kate não estava disposta a ajudar Melanie a cometer nenhuma imprudência. Kate desarrolhou o frasco com a intenção de verter o líquido na terra de um vaso de barro, quando um impulso estranho (travessura? loucura?, tédio?) desviou-a de seu propósito inicial: longe de desfazer do conteúdo do frasco, ingeriu-o de um só gole. O preparado, diferente do que tinha previsto, não tinha gosto de vinho. Seu sabor era mais terroso, mais doce e aromático, como se tivesse sido destilado a partir de flores e hortelã. Lambeu-se deleitosamente, lamentando não dispor de um pouco mais. De repente percebeu algo similar a um rumor em seus ouvidos, como se estivesse ouvindo as ondas de um oceano enfurecido rompendo na praia. Sentiu uma repentina rajada de calor no corpo. Afrouxou o cinturão e as lapelas cederam, mas não sentiu alívio algum. Incomodada desabotoou a camisola e abriu um pouco o sutiã para que passasse ar pelo seu interior. O tecido parecia quente e áspero, e seu tato a irritava. Embora fosse uma agradável noite de junho, a casa estava fria. Mas Kate ardeu com desejo de rasgar a roupa e correr nua pelos corredores. Como em um estado de embriaguez, aquela idéia lhe arrancou uma risada nervosa. O cabelo lhe pesava, a larga trança se tornou incômoda e lhe provocou dor na cabeça. Desfez-se do laço, afundou os dedos entre as mechas, liberando-os, permitindo que se pendurassem ao seu desejo. Aquela desibinição a fez sentir-se redimida, travessa, inclusive metida.
    • Procurou de novo sua imagem no espelho e lhe pareceu que resplandecia com um inusitado atrativo que a fascinou. Suas mechas envolviam seus quadris com brilhos vermelhos e dourados que cintilavam em uma espécie de halo. Seus olhos se tornaram esmeraldas e desprendiam um brilho misterioso, como os de um gato; suas bochechas se acenderam. Tinha um aspecto atrevido, apaixonado, indômito, como se acabasse de cometer um ato escandaloso… ou como se estivesse a ponto de cometê-lo. Olhou ao redor e se assombrou ao descobrir que já não estava sentada na escada. Não tinha a menor ideia de como tinha chegado até ali, mas se encontrava em um comprido corredor, frente a um arsenal de portas que se perdiam no infinito. Sua visão era limitada e imprecisa; entretanto, o resto de seus sentidos se aguçou. Era capaz de cheirar a cera nas molduras de madeira, perceber as partículas de pó sob a mesinha ornamental, ouvir um ratinho brincando de correr dentro da parede. Onde estava? Não duvidava que aquele lugar fosse a mansão de Lady Pelham, mas desconhecia sua localização exata. Era aquele o corredor que levava aos seus aposentos? Todas as portas pareciam iguais. Qual era o seu? Desesperada para se deitar e se recuperar da vertigem, pôs-se a andar por aquele corredor que a constrangia como uma luva. Seus membros pesavam como pedra, seu corpo se movia lento e lânguido, como se em lugar de caminhar, nadasse. Baixou o olhar e se surpreendeu segurando a maçaneta de uma porta com uma de suas mãos; decidiu-se girá-la e entrou num dormitório. Mas não era o seu! No que estava pensando? Penetrou-se em uma grande suíte, que sem dúvida alojava a um homem, adornada com cortinas granada, tapetes felpudos e um imponente mobiliário de mogno. A sala estava vazia, mas ao fundo havia um segundo quarto. Caminhou sigilosamente para a porta, seus pés nem pareciam tocar o chão. Era maior que o primeiro. Nela havia uma extravagante chaminé de mármore na qual, em que pese a estar no verão, um vivo fogo ardia esbanjado no lar. O centro era ocupado por uma magnífica cama apostada sobre um pedestal. Com uma robusta armação, um colchão elegante, e postes e cabeceira esculpidos à mão, parecia o tipo de leito destinado ao sono de um Príncipe ou um Rei. Um homem e uma mulher jaziam sobre a roupa de cama, totalmente nus. Kate soube que devia partir imediatamente, mas não podia deixar de olhar. O homem estava estendido; a mulher, ajoelhada sobre ele. Era loira, meio roliça; com a juba dourada se derramando sobre suas costas. Seus voluptuosos peitos ondeavam ritmicamente, seus quadris oscilavam enquanto se balançava sobre o homem. Cavalgava-o como no lombo de um cavalo; seus movimentos eram peritos, fluídos, elegantes.
    • Kate tentou identificá-la. Achou-a meio parecida com lady Pelham, mas concluiu que podia tratar-se de qualquer uma. Na realidade, ao aguçar a vista, viu seu próprio rosto onde deveria ter estado o da mulher. Era ela aquela mulher? Estava tão aturdida… Espiou-os, muda e ansiosa, indiferente à possibilidade de repararem em sua presença. Era invisível, flutuava no ar, um fantasma intangível. Escondeu-se entre as sombras e se concentrou no homem. Moreno e de olhos escuros, era o homem mais belo que jamais tinha visto. Traços perfeitos. Esbelto, robusto, musculoso; provavelmente praticava esgrima para manter-se em forma. Embora não o reconhecesse e não tinha idéia de quem podia ser, achou-o familiar, querido, como um velho amigo com quem se reencontrou. «Finalmente te encontrei», esteve a ponto de dizer, mas se conteve bem a tempo, entusiasmada por um súbito e transbordante arrebatamento de alegria. Ele beliscou os mamilos da mulher, manipulou-os e os apertou entre os dedos enquanto a mulher estremecia, extasiada. Kate sentiu um calafrio nas costas. Era como se aquele homem estivesse acariciando seus próprios mamilos, seus próprios peitos. Sentiu uma pontada no útero, seguida de um espasmo. No rincão secreto que custodiavam suas pernas cresceram o calor e a umidade. Seu corpo compreendia e acolhia de boa vontade tal libidinosa conduta. Sentia que estalava, que irradiava um vigor e uma energia que a incitavam a desejar e cobiçar. Vibrou com uma necessidade e um desejo de sensações às que nem sequer sabia dar nome. O casal perpetrava uma dança incrível, um balé de sensualidade e finura deliciosas, cada um com um papel a interpretar. Estiravam-se e se contraíam, atraíam-se e rodavam, suas pernas e braços em uma coordenação perfeita, e de maneira instintiva Kate entendeu que estavam fazendo amor. Estava sendo testemunha do ato secreto no leito conjugal. E o ato era tão formoso, tão fascinante… Ela teria ficado ali eternamente, olhando-os, estudando-os e perguntando-se sobre sua relação, suas intenções. «Poderia estar com ele, sussurrou uma voz. Poderia amá-lo. Ele poderia corresponder ao seu amor. Não é isso o que quer, o que sempre quis?» A voz era tão categórica, tão firme e tão real que a fez vibrar, excitou-a e lhe inspirou a suspeita de que, se apressasse a seguir seus ditados, podia converter-se na mulher que estava com ele. Sentia-se perplexa, não compreendia o que estava ocorrendo; tentou fugir, mas descobriu ser impossível arrancar-se dali. O homem olhou para ela e lhe sorriu. Pôde ver então que seus olhos não eram escuros, mas sim de um tom azul brilhante, abrasador.
    • Resplandeciam com intensidade. Ela percebeu aquele olhar tão tangível como uma carícia. «Vêem - lhe ouviu sussurrar com voz sedutora. Deixe-me ser seu homem.» O homem amassou de novo os seios de sua amante; logo foi descendendo para o ventre, até que sua mão se perdeu entre as pernas da mulher. Kate podia sentir o roce, o suave tremor, o calor da mão, podia cheirar o excitante aroma que emanava da pele dele. Tinha estimulado um lugar sensível, desconhecido até então para ela, mas que palpitava e doía ao ritmo de seu próprio pulso… e também o dele. Estavam conectados, unidos na raiz de suas almas. Dentro dela crescia uma estranha pulsação. Era tão potente, tão arrebatadora, que lutou por segui-la, para não perder seu compasso, convencida de que em algum momento ia explodir de prazer, que ia estalar em mil pedaços. Piscou e ele estava em frente a ela, sem ser consciente de quando ou como se tinha aproximado. Era alto, ao redor do metro oitenta, e se inclinava para ela; sua robusta anatomia a empurrava, pressionava-a contra a parede. Cada ápice de seu corpo estava já imprensado contra o dela. Ele era tenso onde ela apresentava relevos, magro onde ela tinha curvas. Pela mente de Kate cruzou por um instante a fugaz idéia de que seus corpos tinham sido especificamente criados para encaixarem entre si. «Quero-te», murmurou ela em silêncio. «Sempre me quis», respondeu ele. Ele elevou a mão e mostrou um anel com um sem-fim de pedras preciosas e diamantes transpassados. No centro luzia uma safira, da mesma cor que seus olhos. «É para ti, ele disse. Fique com ele para que possa recordar.» «Não posso.» Mesmo na confusão do momento, Kate soube que aquele anel era muito valioso para que ele o desse de presente e, ainda mais importante, considerava-se muito insignificante para ser sua depositária. Como ia justificar que estivesse em sua posse? Kate o rechaçou com delicadeza, mas ele o deslizou em seu dedo e logo lhe fechou a mão com firmeza para que não o deixasse cair. «Faça-o por mim.» Sua expressão era tão convincente e sincera que não pôde rechaçar a oferenda. «De acordo.» Ele se inclinou para ela e ela se preparou para receber o beijo que esperava, mas, no último momento, ele tirou o corpete de sua camisola e deixou no ar um de seus seios, cujo mamilo se contraiu imediatamente. Ele o lambeu com ânsia e depois o sugou.
    • Algo pareceu rasgar-se de súbito dentro dela, sacudindo o lugar secreto onde habitavam sua solidão e seu desespero. Kate aferrou-se ao seu amante e o atraiu para si, desejando poder fundir-se com seu corpo e não voltar a separar-se dele. Ele mordiscou sua carne tensa, lhe provocando uma dolorosa agitação que mal podia suportar. Kate se separou dele capengando… e se surpreendeu em seu quarto, em sua cama. Seu aspecto evidenciava que tinha estado movendo-se e derrubando-se. Os lençóis estavam úmidos e o travesseiro, no chão. Devia ter sonhado. Tinha que ser um sonho! Tentou levantar-se, aturdida, e estremeceu ao sentir as pontadas de uma repentina e terrível enxaqueca. O coração pulsava com tal ferocidade que inclusive as veias lhe doíam. Notou algo úmido e pegajoso entre as pernas, seu corpo chorava o anseio insatisfeito. Estava banhada em suor e tremia. Precisava proteger-se daquele frio repentino. Surpreendeu-se ao ver seu corpete abaixado e um de seus seios nu. Tremendo de desgosto, esfregou com a palma de uma mão o rígido mamilo. Gemeu agoniada ante a corrente de sensações que tal gesto liberou. Apressou-se a recolocar a roupa e tampar-se com ela. O que tinha acontecido? O que tinha feito? A luz da lua projetava misteriosas sombras sobre a penteadeira. Kate esquadrinhava ao redor, tentando extrair conclusões do que via, até que reparou no frasco vazio da poção de amor que havia bebido na escada. Retrocedeu assustada e afastou a vista dele. Ao agachar-se para recolher o travesseiro, notou um peso incomum em sua mão. Elevou-a e observou alarmada o elaborado anel de pedras preciosas. - Meu Deus! - exclamou quase sem fôlego. Era robusto, intrincado, de ouro gentil e lustroso, com pedras de corte fino e elegante. Por que tinha aquele anel? O que significado? Se a descobrissem com ele, o que ia dizer? Nem sequer podia imaginar uma resposta coerente. Deixou-se cair e fechou os olhos com força, ansiosa por conciliar um comprido sono. Tinha a esperança de que ao despertar o anel e o frasco teriam desaparecido.
    • Capítulo 2 - Quem é a encantadora ruiva que se hospeda com os Lewis? - A ruiva? - Sim - respondeu Marcus. - É miúda, esbelta, muito formosa. - Não tenho menor idéia – respondeu Pamela. - Pensei que todas eram loiras. Escondido parcialmente pelas cortinas, Marcus espiou o salão de baile por cima do balcão. Ocupavam-no não menos que uma centena de pessoas; o que para Pamela era um jantar íntimo e exatamente por isso era o tipo de evento social que ele detestava. A orquestra que Pamela tinha contratado tocou os primeiros acordes e os casais se apressaram a tomar posições na pista de baile. - Está segura de que não há com eles uma mulher que se ajuste a minha descrição? - Certamente - insistiu Pamela - Lady Regina foi tediosamente explícita ao me apresentar todos os seus familiares. Trouxe com ela a sua filha Melanie e a seu filho Christopher. - O Conde? - Meu preferido, devo acrescentar. Marcus a examinou. Com trinta anos, a sua mesma idade, era famosa por sua beleza. Exibia seu cativante cabelo loiro em um coque e um caro vestido, gentileza dele, que acentuava sua gloriosa figura. Mas seu esplendor físico não conseguia ocultar o tubarão que espreitava em seu interior. Era uma arpía, uma caça fortunas, e a julgar pelo comentário que acabava de emitir sobre o Conde de Doncaster, parecia evidente que tinha os olhos postos nele. Pobre homem. - Que idade tem? Uns dezoito? - Acredito que sim. - Não é um pouco jovem, inclusive para seus escassos escrúpulos? Ante o insulto, Pamela se arrepiou. - Não mencionei ter interesse nele. - Não foi necessário. Conheciam-se desde meninos. Na adolescência, ele imaginou insensatamente que a amava, durou só até que ela se casou com seu pai viúvo. Pamela tinha cobiçado com ardor ser Condessa e tinha lutado sem
    • cessar pelo título, o que sem dúvida ensinou a Marcus uma lição decisiva sobre o modo como o mundo funcionava. Nunca mais voltou a confiar em ninguém. Tampouco se importou com alguém mais. - Simplesmente o achei bonito - concordou ela. - E agradável. É um menino muito agradável, o que não posso afirmar de outros nobres que conheço. - Também é muito rico. - Sim, obviamente. Marcus fez uma careta de desdém e contemplou a concorrência, irritado pela obrigação de travar amizade com o inocente e ingênuo Christopher Lewis, embora só fosse para lhe sussurrar algumas palavras de aviso. Claramente, o moço era um camponês vaidoso e leigo. Pamela o comeria vivo. - Está segura de que não há uma ruiva com eles? Marcus detestava voltar ao tema, detestava oferecer a Pamela algum indício de que algo lhe importava, mas não podia evitar. Morria para saber mais da mulher que tinha irrompido em seus aposentos na noite anterior. Parecia drogada, ou talvez era sonâmbula… Estava intrigado. Pamela lhe tinha suplicado que se reunisse com ela na noite anterior e, contra sua vontade, ele concordou e foi à mansão, algo que só fazia em pouquíssimas ocasiões. Durante seu encontro secreto, estava convencido de ter trancado a porta da suíte particular em que se alojava, por isso não conseguia deduzir como tinha acessado a ela sua sedutora observadora. O encontro tinha sido estranho. Enquanto a mulher estava no quarto, via seu rosto olhando Pamela, como se fosse com ela com quem deveria estar na cama, como se se concentrando no desejo tivesse podido dobrar sua vontade para que se aproximasse. Depois, aquele sonho no qual faziam amor. Tinha sido tão excitante, tão real, que ainda lhe incomodavam as calças cada vez que o recordava. Sabia que a mulher tinha uma pequena e linda marca de nascimento na nádega, podia descrever o perfil exato de seus mamilos. Mas como era possível? Seu encontro imaginário tinha sido emocionante, enlouquecedor, e no seu fim sentiu grande paz e serenidade. Estava decidido a encontrá-la, a averiguar se as qualidades que tinha detectado eram reais ou se aquela conexão mágica não tinha sido mais que o fruto de um inexplicável sonho. Mas dificilmente podia dizer algo disto a Pamela. Ela nem tinha reparado que tinham visita. Tinha concentrado todos seus esforços em lhe demonstrar a perita amante que era, um ardil patético com o qual ela confiava obter um incremento em seus ganhos. Era uma puta; divertia-lhe jogar com ela, deixá-la acreditar que podia reavivar seu amor. Ele era um homem ardiloso. Já tinha lhe
    • decepcionado uma vez e não permitiria que a serpente voltasse a aproximar-se demais dele. - A que se deve este interesse repentino pelas ruivas? - perguntou ela. Observou-o receosa, mas ele dominava à perfeição a arte da indiferença. Sabia mostrar-se frio e distraído para não transmitir informação alguma a respeito das suas intenções. Ela podia olhá-lo intensamente sem obter a menor pista sobre seus pensamentos. Ele mudou de assunto. - Viu meu anel, o do selo? - Por quê? - Esta manhã, ao me vestir, não estava onde o deixei. - Está insinuando que a ruiva anônima o roubou? - Para falar a verdade, suspeitava de você. Pamela se esticou em uma careta desagradável. - É um animal! Não sei por que abri a porta! - Seria porque esta casa é minha? Marcus vivia em um aposento alugado sobre o salão de jogos dos irmãos Steven e permitia que Pamela habitasse uma casa que, no fim das contas, ele sempre tinha detestado. - Não se cansa de me recordar isso cada vez que passa por aqui. Se tanto me odeia, por que não me deixa na rua e termina com isto? - Uma idéia maravilhosa, a levarei em consideração. - É muito cruel, Marcus. É condenadamente cruel. Seus olhos se alagaram em lágrimas, mas com as habilidades dramáticas das que fazia alarde não era fácil saber se eram reais ou fingidas. - Por que insiste em me atormentar? Ele encolheu de ombros. - Diverte-me. - Brinca comigo, me convida a sua cama, mas na manhã seguinte não tem uma palavra amável para mim. - Não me culpe de optar por se comportar como uma rameira. Se morrer por abrir as pernas, com muito gosto me encaixo entre elas. Ela o olhou carrancuda. - Céus, como te detesto! - Acredite, minha queridíssima mamãe: o sentimento é mútuo. - Não se dirija a mim como a sua mãe! - Não é isso o que é? - Por que não traz a carruagem agora mesmo e me leva a uma casa de caridade? Livre-me deste suplício! Pamela se queixava sem trégua de quão jovem tinha sido ao casar-se. Seu pai tinha blindado as propriedades, a separação de bens não se produziria até que Marcus se casasse aos trinta e um anos, para o quais faltavam uns poucos meses, mas a Marcus nada disto lhe importava absolutamente.
    • Tinha economizado um pouco de dinheiro, o suficiente para viajar de navio a Índia ou a Jamaica. Voltaria a começar, viveria como um homem comum, sem as obrigações aborrecidas que vinham com o título de Stanford. As décadas que seu pai tinha passado sumido na recriminação e o menosprezo, na duplicidade e a decepção, não lhe inspiravam o menor ápice de orgulho ou afeto. Albert, sua primo longínquo, podia ficar com tudo, com a bênção de Marcus, mas em tal caso Pamela ficaria também arruinada, e este era um dos temas recorrentes das suas arengas. O pai de Marcus não lhe tinha legado dinheiro próprio - sintoma de sua sorte conjugal, sem dúvida, de modo que dependia de Marcus para tudo. Se ele não assegurasse suas posses, o fim de Pamela seria funesto, daí sua doentia compulsão para acelerar as bodas, entusiasmo do qual ele não compartilhava. Pamela o pressionava com toda jovem disponível e desesperada no reino, desejosa de que ele se apaixonasse por alguma delas; mas quanto maior era seu empenho em lhe arranjar um compromisso, tão menos disposto ele se mostrava em considerar as candidatas. De repente, sentiu-se afortunado por ele ter rejeitado sua proposta de matrimônio anos atrás. Com seus permanentes lamentos e exigências o teria levado prematuramente à tumba. - Ainda não estou disposto a te abandonar. É muito mais divertido ver como sofres. - É um canalha! - Pamela se encaminhou furiosa para a escada. - Estou farta de ti. Vamos conhecer os Lewis. Quero acabar já com esta tortura e assim te evitar o resto da noite. - Até que necessite de mim novamente. - Comeria brasas antes de voltar a me deitar contigo. Tinha alcançado já o patamar da planta superior quando viu que ele não a seguia. - Vem ou não? - E se não for? Parecia que desta vez Marcus a tinha empurrado além dos seus limites e Pamela tremeu de raiva. - Juro por Deus, Marcus: se não me acompanhar, entrarei no salão e anunciarei bem alto, para que todos me ouçam, que decidiu desprezar aos Lewis, apesar de serem meus convidados especiais. - E por que eu deveria me importar que montasse uma cena? - Exato, por que deveria se importar? Crê que as pretendentes crescem nas árvores? São muito poucos os pais dispostos a considerar sua proposição. Dedicou-se a insultar e ofender todos aqueles que se viram tentados. Regina Lewis não sabe o quanto é desprezível. Sua filha Melanie é nossa última esperança. Diga-me, o que decide? Em sua opinião, lady Regina e lady Melanie podiam apodrecer junto com todos os que estavam naquele salão lhe era indiferente. Tinha
    • considerado inclusive a possibilidade de não vir à festa, mas o anseio por saber se sua misteriosa bisbilhoteira se achava na mansão foi mais forte que ele. Tinha que tratar-se de uma acompanhante dos Lewis. - Leve-me, minha amada madrasta. - Se cale. Ao chegar na metade da escada, a caminho do salão de baile, Pamela se voltou para Marcus. - Acabo de lembrar: há uma ruiva com eles. É uma instrutora ou uma dama de companhia ou algo assim. Diga-me a verdade, se preocupa que seja uma ladra? Deveria fechar com chave o faqueiro de prata? - Não é necessário. Se desaparecer algo mais, revistarei seu dormitório, e depois o seu. - Oh, é… Seguiu descendo, irada, mas recuperou o aprumo ao alcançar o vestíbulo. Em público sempre fingiam manter uma relação amistosa. Pegou-o por um braço e o conduziu lentamente para a sala de baile. Como era de esperar, sua presença desatou um murmúrio coletivo, o qual garantia que as especulações a respeito de Melanie Lewis estavam indo vento em popa. Pamela o acompanhou ao fundo da sala, onde os Lewis escutavam música e aguardavam impacientem sua chegada. Eram um grupo triste, embelezados com um estilo antiquado, um indicador da falta de sofisticação e preparação para a temporada em Londres. Soava uma valsa e os Lewis observavam boquiabertos o baile, como se assistissem a aquele espetáculo pela primeira vez. Pareciam tão deslocados que quase sentiu lástima por eles. - Não podia ter encontrado a uma costureira para a garota, - sussurrou Marcus, antes de soltá-la entre as víboras da alta sociedade? - Não houve tempo, - murmurou Pamela sem deixar de sorrir com cortesia. - Além disso, não sou sua mãe. Não sou responsável pelo seu traje. Regina, obesa e séria, estava no meio. Transmitia melancolia e arrogância. Marcus estremeceu em apenas imaginá-la como sogra. Melanie era terrivelmente jovem, formosa e roliça, como um saca- rolhas loiro, grandes olhos azuis e bochechas rosadas. Salvo pelo detalhe de seu semblante carrancudo, parecia uma boneca de porcelana. Christopher era belo e encantador. Embora seu traje fosse velho, usava-o com elegância e não chamava a atenção, como as mulheres de sua família. Era alto, desajeitado e também tinha os olhos azuis, como Melanie, mas emanava uma distinção e um ar amistoso que devia ter herdado da família paterna. Junto a eles, mas em segundo plano, de pé, encontrava-se sua fantasia ruiva. O fabuloso cabelo da jovem, de um esplendor que ele não tinha visto antes em nenhuma mulher, estava escondido sob um estúpido boné, como temerosa de que alguém descobrisse o quão chamativa era.
    • Usava um feio vestido cinza, com botões no pescoço e nos pulsos, que não deixavam à vista nem um pedacinho da cremosa pele que escondia. Embora tentasse se confundir com o papel da parede, era única, excepcional, e brilhava como a estrela mais radiante. Ao vê-la de novo, seu coração se deteve uns instantes. Lembraria-se ela do que tinha ocorrido? Adoraria saber. Aproximaram-se deles e Pamela ostentou seu estilo mais adulador e obsequioso. - Aqui estão! - disse a Regina com afetação. - Os procuramos por toda parte. Apresento-lhes o filho de meu defunto marido, Marcus Pelham, Lorde Stanford. Enquanto Pamela borboleteava, sua visitante de sonho lhe dirigiu um olhar e ao fazê-lo seu rosto empalideceu horrorizado, tanto, que Marcus surpreendeu que ela não desmaiasse. Teve a esperança de que não se tratasse de uma atuação, embora suas expressões fossem muito reveladoras. A moça se sentia aterrorizada, desesperada para fundir-se com o gesso da parede e desaparecer. Em uma tentativa de afastar-se, retrocedeu com sigilo um passo. Regina tinha se posto em pé para as apresentações, mas Marcus a desprezou dirigindo-se sem mais preâmbulos para a ruiva. Fez uma reverência. - Lady Melanie, é você muito mais formosa do que tinha imaginado. Obrigado por vir. Sua presença me agrada enormemente. Era uma conduta ofensiva, mas foi incapaz de conter-se. Detestava tudo em relação aquele encontro, em particular o desejo de Pamela que ocorresse de uma maneira tão pública. A ruiva fez uma careta de dor, desejando que o chão se abrisse e a engolisse. Regina balbuciou ofendida, Christopher afogou uma risada e piscou os olhos à ruiva, e Melanie soltou um grito e se abanou. Os convidados que formavam redemoinhos ao redor riram dissimuladamente do que acreditavam que tinha sido um delicioso fora por parte de Marcus. Com os olhos cravados nos dela, tomou sua mão e a levou aos lábios, mas Pamela o afastou com brutalidade e o fulminou com o olhar. - Marcus - o admoestou brincalhona, como se fosse uma brincadeira da qual todos tinham desfrutado. - Esta é a instrutora de lady Melanie. Miss… miss… Desculpe-me, não consigo recordar seu nome. Como se chama? - Duncan. - respondeu a ruiva com voz pausada - Kate Duncan. - Tem algum vínculo com os Doncaster Duncan? - perguntou ele. - Absolutamente. Estava petrificada, horrorizada de que lhe tivesse perguntado se tinha conexão com o conde anterior. Por que aquele elo devia ser secreto?
    • Tinha detrás de si uma história de escândalo? Oxalá fosse assim! Seria fantástico! - Bem, desculpe-me, miss Duncan. Teria jurado que você pertencia à nobreza. Doída, deixou-o com a palavra na boca e lhe brindou um olhar furioso e uma careta de recriminação. Sua natureza temerária o assombrou. Por algum motivo, não tinha previsto algo assim. Não era afetada nem tímida e isso ainda o intrigou mais. - E esta é lady Melanie - dizia Pamela, arrastando-o - sua mãe e seu irmão… Pamela falou em torrentes, enchendo o incômodo momento com seu bate-papo estúpido. Melanie e Regina fizeram uma reverência, mas sua irritação era tão patente que Lorde Stanford se perguntou-se se vingariam do desprezo, se miss Duncan seria castigada. Não tinha pensado nisso antes de comportar-se daquele modo. Em situações sociais, importava-lhe tão pouco a opinião dos outros que mal reparava em sua própria conduta. Suportou os Lewis o tempo suficiente para sossegar os ânimos; propôs um encontro com Christopher para montar a cavalo e permitiu que Pamela o comprometesse para um jantar na noite seguinte. Com a extremidade do olho percebeu como a indomável miss Duncan planejava sua escapada. Assim que soube que todos tinham esquecido sua presença, a jovem se confundiu com a multidão e escapuliu às escondidas pela porta mais próxima, que dava à galeria. Ela desapareceu assim que teve ocasião de fazê-lo, mas não pôde correr detrás dela. Muitos convidados tinham sido testemunhas da sua travessura, de modo que teve que cruzar o salão antes de sair e assim passar inadvertido. Viu-a imediatamente, escondida sob uma árvore junto à cerca posterior. Nervosa, caminhava de um lado a outro, observando a casa, esperando a que o caminho estivesse livre para poder penetrar pela porta de serviço sem topar com ninguém. Não o tinha visto abandonar a mansão e, acreditando-se só no jardim, saiu disparada para a porta. Ele se escondeu entre as sombras, olhando como se aproximava, e assim que ela agarrou a maçaneta, ele pôs uma mão sobre a dela. Ela deu um salto e soltou um grito de medo. - Olá, miss Duncan. - Sorriu como um gato que acaba de comer um canário - Interessante encontrá-la aqui. - Você…! - exclamou ela, retrocedendo com passo inseguro. - É assim como se saúda um Conde? - Ofereceria-lhe a deferência de conde… se atuasse como tal. - Fere-me, - burlou ele. - É um desprezível descarado! Dá-se conta dos problemas que causou? - Não. Por que não me explica isso tudo?
    • - Tem as maneiras de uma cabra. Ele riu sufocadamente. - Não é a primeira vez que me dizem algo assim. - Não me surpreende. É um chato, um maníaco. - Também me dizem isso com freqüência. - Sabia que eu não era lady Melanie. O que pretendia envergonhando- a e a sua mãe? E a mim? - Nada, gostei de fazê-lo. - Quantos anos tem? Oito? Nove? Não é mais que um menino. Estou segura de que um bom açoite o curaria de muitas de suas aflições. - Não sou um menino, como bem sabe depois de sua aventura noturna. - Começou a empurrá-la para a balaustrada. Com cada passo, ela retrocedia, até que suas pernas se chocaram contra o corrimão. - Sou um homem feito. - Está balbuciando como um idiota, talvez outros tenham que tolerar seu comportamento grosseiro, mas eu não. Adeus. Kate tentou escapar, mas ele não estava disposto a deixá-la escapar. Aproximou-se dela, seus corpos se roçaram. A sensação o estremeceu. Saltavam faíscas ali onde se tocavam e lhe resultava fascinante voltar a estar perto dela. Compartilhavam uma afinidade física, o tipo de compatibilidade que só os amantes mais afortunados conseguiam. Estavam sintonizados e se ele fosse o bastante insensato para tomá-la como amante, o sexo entre ambos seria fabuloso, incrível. Ela podia perceber isso também? Era acaso inocente? Sendo tão excitante, tão sedutora, era meio difícil de aventurar. Devia ter ao redor de vinte e cinco anos. Como podia ter vivido tanto tempo sem que nenhum homem a reclamasse? - Por que me espiava? - O que? - Vi-a ontem à noite, em meu dormitório. Ela tropeçou e seus joelhos pareceram debilitar-se, mas rapidamente recuperou o controle. - Não tenho nem idéia do que está falando. Cheguei ontem a Londres e até há uns minutos, quando se plantou frente a mim de um modo detestável, não nos conhecíamos. Não sei onde estão seus aposentos ou por que dá por feito que estive ali. Mentia pior que ninguém! Era mais que evidente que recordava cada instante da aventura e lhe deleitou saber que não era sonâmbula, que lhe tinha espiado intencionalmente. Estava interessada nele porque era uma virgem amadurecida que desejava pôr fim a sua castidade? Ou era uma mulher que não tinha um homem em sua cama há muito tempo? Em qualquer caso, resultava-lhe impossível resistir a ela e estava mais que disposto e encantado de submeter-se a qualquer que fora seu delírio. Apertou-se contra ela e lhe aconteceu um dedo pelos lábios carmim. Estavam úmidos, convidavam-no. Sentiu a tentação de beijá-la. A
    • experiência seria nova e excitante, pois fazia já tempo que tinha deixado o amor à margem, quando ainda era muito jovem e imprudente para permitir que o coração interviesse em seus assuntos. Seu mundo se encheu de prostitutas pegajosas e submissas, dispostas a fazer tudo ele lhes pedisse, mas nunca experimentava prazer algum em sua companhia. Quão refrescante seria passar o tempo com ela, derrubar-se em seu resplendor, inundar-se na excitação que sentia junto a ela. Talvez encontrasse a maneira de reacender a capacidade de maravilhar-se e regozijar-se que não sentia há tanto tempo. - Quero que sejamos amantes, lhe disse. Quero saber o que é estar com você. Ouvir esta sugestão a ofendeu de tal modo a jovem perdeu o fôlego. - Minha impressão inicial de você foi a de uma pessoa simplesmente tola, além do imaginável, mas troquei que opinião. Acredito que é louco de pedra. Tentou afastá-lo. Ele a agarrou por uma mão e a sacudiu para que se detivesse. - Reúna-se comigo em minha suíte. A meia-noite. - Que suíte? Você não vive aqui. Esta é a casa de lady Pamela. - Sou o proprietário desta monstruosidade. O quarto do senhor é meu, sempre que quiser usá-lo. - A noite anterior se mostrou desorientada; era possível que não fosse capaz de recordar sua localização, por isso acrescentou- : Está na ala sul, no quarto andar, no final do corredor. Use a escada de serviço. - É evidente que não farei algo semelhante. Sou uma dama respeitável e a instrutora de lady Melanie. Como se atreve a me pedir isso? - Não lhe estou pedindo isso. - Está-me obrigando a aceitar? Em que pese a ostentar a pior reputação de Londres, ainda respeitava certos princípios e jamais teria tentado arruinar a vida de mulheres castas. Tinha muitas fêmeas dissolutas ao seu alcance, mas parecia que com ela não era capaz de comportar-se melhor. - Se não vir - lhe advertiu- , acusarei-a de roubar meu anel. De modo que… o tinha roubado. Até esse momento não tinha estado seguro disso, mas já não lhe cabia a menor duvida. Kate se tinha ficado boquiaberta, tratando de encontrar a resposta mais apropriada. Ao final, murmurou: - Que anel? - Não sei quando ou como se apoderou dele, nem por que. Tampouco posso dizer que pareça uma ladra, de modo que não posso deduzir um propósito para o furto. Só quero que venha a meia-noite e se tiver que coagi-la para contar com sua presença, farei-o. - É um animal. - Não o nego.
    • - Um fanfarrão. - Com efeito. Ela o olhou fixamente. Seus verdes olhos cintilavam banhados por lágrimas de raiva e frustração. - Não me faça isto. Por favor. - Tenho que fazê-lo. Com um gemido de cólera, ou talvez de desespero, ela se afastou e correu para a porta. Capítulo 3 Kate perambulava por seu dormitório. O relógio marcava seu inexorável passo para meia-noite e o momento em que Lorde Stanford esperava sua chegada. Sentia-se tão irada que ansiava destroçar algo. Como tinha se envolvido em tal enredo? E como ia sair dele? Marcus Pelham! De todas as malditas possibilidades! Tinha-o visto em seu quarto! Sabia quem era e ele era desse tipo de desgraçados que se pavoneiam constantemente; estava segura de que a envergonharia sempre que pudesse. Nunca a deixaria em paz, nunca lhe permitiria esquecê-lo. Deixou-se cair na cama com a cara entre as mãos. Como desejava que tudo tivesse sido um pesadelo! Dispunha ainda de dez minutos para decidir se obedecia ou evitava sua ordem. Se optasse por evitá-lo, ele a acusaria de roubo, e então, o que ia ser dela? Nem sequer Christopher, um conde de pleno direito, teria
    • meios para ajudá-la. Tratando-se de um anel tão valioso, encarcerariam- na, poderiam inclusive deportá-la às colônias penais ou, Deus não o queria, executá-la. Se decidisse ir à entrevista, era muito consciente de que os propósitos daquele homem distavam muito de ser inocentes. Sem o menor respeito por sua castidade ou qualquer das possíveis conseqüências do encontro, o grande canalha a seduziria e, desgraçadamente, não estava segura de ter arrependimentos. Não teria necessidade de empregar a força. Era a poção de amor? Como podia ser? O que havia no interior daquele maldito frasco? Kate estava segura de que sucumbiria de bom grau aos seus encantos, o que a fazia ponderar a possibilidade de que a beberagem a tivesse transtornado um pouco. Acaso não tinha aprendido nenhuma lição da insensatez da sua mãe? Até estando casada e sendo uma Condessa, sua mãe tinha fugido com seu amante italiano. Até então tinha sido desventurada, havia-se sentido insatisfeita, tinha odiado seu marido, o pai de Kate, um homem aflito e sufocante, e tinha fugido para a perdição, sem lhe importar a desolação que deixava atrás de si. Seu pai se retirou da vida e Kate ficou órfã no mundo, sem um centavo. Sua mãe, como resultado de seu temerário flerte, deu a luz a uma filha ilegítima. A garota, Selena Bela, tinha já dezesseis anos, a mesma idade que Melanie. Apresentou-se na Inglaterra sem avisar, dois anos atrás, com uma acompanhante e com Kate designada como sua tutora no testamento da sua mãe. Kate não tinha chegado a conhecê-la, mas com a ajuda da Regina se pôs de acordo com o fiduciário de Selena - um advogado de Londres- para arrumar seus assuntos. Kate tinha coordenado o aluguel de uma casa, a contratação de serventes e a escolha de uma dama de companhia, e tinha autorizado o pagamento de todos os gastos. Entretanto, tudo isso era ao que tinha decidido limitar a conexão com sua irmã. Não suportava a idéia de ter uma meia irmã de origem secreta, não podia suportar lembrar-se de sua mãe e de sua apaixonada natureza. Quando Kate se atrevia a examinar sua própria vida, horrorizava-se ao comprovar que sob sua fachada plácida e amável se escondia uma mulher tão temerária como tinha sido sua mãe. Era a insatisfação uma característica que se herdava? Kate estava farta de sua vida de faxineira, em que era tratada como uma obrigação não desejada e na qual tinha que consultar Regina mesmo para o assunto mais insignificante. Asfixiava-se no mundano e estava disposta a aceitar a provocação de ser imprudente e irresponsável. E isso a assustava.
    • Quanto se parecia com sua formosa e irrefletida mãe? Se lhe apresentasse a ocasião de desfrutar, seria capaz de conter seus impulsos desenfreados? O relógio marcou a hora. Kate olhou a penteadeira. O frasco vazio seguia ali, burlando-se de como se deixou levar por suas inclinações mais hedonistas. Aproximou-se dele, agarrou-o e o atirou pela janela que dava ao jardim. Em seguida voltou para a cama e procurou debaixo do travesseiro. O anel estava onde o tinha deixado, envolvido em um lenço. Deu uns passos inseguros para a chaminé, revolveu entre as brasas até encontrar uma greta na argamassa e escondeu ali o anel. Stanford podia acusar a de ter roubado seu anel, mas antes teria que encontrá-lo! Kate agarrou a capa, a jogou sobre os ombros e se cobriu a cabeça com o capuz, para ocultar-se. Logo se aproximou da porta e apareceu ao corredor. Ao não ver ninguém, correu para a escada e subiu. Para sua surpresa, o dormitório do Marcus estava situado exatamente em cima do dela. Era uma pequena distância, um breve passeio entre ambos. A proximidade podia facilitar os encontros, em caso de estar disposta a sucumbir na libertinagem, e tal não era o caso. Tinha a intenção de esclarecer as coisas, lhe demonstrar que não ia tolerar más condutas e lhe convencer de que era uma mulher honrada e virtuosa. Quando menos, a visita lhe serviria para estudar a disposição da casa e poder assim devolver o anel em algum momento sem que ele tivesse modo de averiguar como tinha retornado a seu poder. A porta estava entreaberta, indício inequívoco de que Marcus a esperava. O muito canalha! Entrou nas pontas dos pés. Como um felino faminto, preparado para atacar, ele se regozijava no sofá. Sem a jaqueta e o laço; tinha desabotoados os primeiros botões da camisa, que deixavam à vista um arbusto de cabelo escuro no peito. As mangas enrugadas mostravam sombras do mesmo pêlo nos braços. A noite anterior lhe tinha observado nu mas, por algum motivo, esta displicência casual lhe resultava mais fascinante que a nudez total. - Feche a porta - disse ele com voz pausada, uma voz de barítono que lhe estremeceu as vísceras. Sem opor reparos, ela cumpriu a ordem e logo se aproximou até que seus pés se roçaram. Ele a olhou com uma concentração selvagem que acendeu uma chama em seu ventre. Aquela sensação a alarmou. Não ia permitir que a afetasse! O seguia escrutinando-a e o silêncio se fez opressivo. - Estou aqui, senhor - começou ela . O que é o que quer? - Chama-se Kate? - Sim, Kate Duncan. - Quando estivermos sozinhos, Kate, me chamará de Marcus.
    • Assombrava-se daquela situação, de se sentir tão familiar com ele, e se negava a dar asas às fantasias daquele homem que dava por certo que se produziria um segundo encontro. - Não o farei, Lorde Stanford. E você não deve me chamar Kate. Para você sou miss Duncan. Com a graça de um leopardo, ele ficou em pé. Na sombra, parecia mais alto do que recordava. Estava bebendo um licor, brandy ou uísque, a julgar pelo aroma. Apurou o conteúdo do copo e o deixou em uma mesa que havia perto. Apesar da sua altura imponente, ela não se sentiu ameaçada e suspeitou que grande parte de sua jactância era presunção. Podia admoestá-la e rugir, podia lhe dar ordens e gritar, mas jamais lhe faria mal. Ao constatar isso, relaxou e se sentiu menos angustiada ante algum perigo potencial para sua virtude ou alguma intenção arteira por parte dele. De um puxão, Marcus lhe tirou a capa, que foi cair aos seus pés. - Tem alguma roupa que não seja cinza? - Tenho um vestido de domingo. É negro. - Detesto o efeito que tem em ti o cinza. Desvanece a cor de sua pele. - Sim, é minha maior preocupação. - Deveria se vestir com roupa verde, combinando com a cor de seus olhos. - Estou segura de que ficaria muito bem. - respondeu ela com ironia. - Comprarei-te alguns vestidos e os guardarei aqui, em meu quarto Poderá vesti-los só para mim. - Não o fará. - Farei-o. - Permiti-lhe que me coaja desta vez, mas se acha que vou obedecer suas próximas ordens, seu otimismo é absurdo. - Sempre consigo o que quero. - Comigo não. Ele se aproximou; seus pés se introduziram sob seu vestido, suas pernas se enredaram nas dela. Kate nunca tinha estado tão perto de um varão adulto e seus sentidos se dispararam. Sentia seu calor, o aroma do sabão com o que se banhou; assaltavam-lhe fragrâncias fortes e masculinas, de tabaco, de cavalo. Ainda havia outra mais sutil, almiscarada, e acreditou que devia ser sua mais íntima essência. Todo o corpo de Kate estava eletrificado. Entre ambos cintilavam faíscas. De repente, sentia tantos desejos de tocá-lo, de lhe passar a mão por entre a camisa ou talvez acariciar seus musculosos braços… Ardia para estreitar-se contra ele, convencida de que seus corpos se encaixariam à perfeição. O anseia era primitivo, arrebatador e lutava contra ele com cada fibra de seu ser. Ele levou uma mão aos seus cabelos e acariciou o pesado coque; foi retirando lentamente os grampos e os ornamentos que o prendiam, que
    • foram caindo ao chão, onde ricocheteavam e tilintavam. Kate tentou espiar aonde foram parar, sabendo que jamais os encontraria e perguntando-se o que iriam pensar as criadas quando varressem pela manhã. Não obstante, que ele tivesse uma convidada em seus aposentos privados era um acontecimento habitual. Seus serventes não se surpreenderiam ante tal descoberta e era necessário que recordasse tal detalhe. Ele era um libertino sofisticado e experiente, e para ela aquele era só o segundo dia de sua primeira viagem a Londres. - Tem um cabelo fabuloso. - E você é um adulador incorrigível. Ele jogou com as largas mechas, elevando-as e separando-as. O coração de Kate se acelerou. Nunca antes tinha recebido um elogio de um homem, nunca tinha caminhado com um amante sob a luz da lua, nem a tinham acompanhado a casa da igreja. Sem herança e sem projetos, era insignificante, invisível, apenas perceptível, não era ninguém, nem sequer criada ou membro da família. Nenhum cavalheiro que valesse a pena a quereria. Seu elogio lhe avivou a vaidade; desejou que fosse sincero. Fazia tanto tempo que ninguém se fixava nela e estava tão penosamente se desesperada por obter aprovação… - Quando vier ver-me - proclamou ele- , deverá deixá-lo solto e escovado. A ofensa era intolerável! Acaso estava surdo? - Não vou voltar. Não ouviu uma só palavra do que lhe disse? - Não. Ele a agarrou por uma mão, reclinou-se no sofá e puxou-a dela até que a teve em cima. Kate gritou de indignação, tentou escapar do seu abraço, mas ele a tinha bem apanhada. Era impossível escapar. Estavam unidos em um mesmo molde, os pés, as coxas, as cinturas, os ventres… Se ajustaram com rapidez. Os seios dela estavam esmagados contra o peito dele e seus mamilos se despertaram. Com o menor movimento palpitavam e doíam. Sentia-se completamente envergonhada e lutou com maior empenho para separar-se dele, ansiosa para abrir um espaço entre ambos, mas ele a impediu lhe pondo a mão nas costas. Deslocou-a para que suas entrepernas se encontrassem, e o torso do Kate soube imediatamente que isso era justo o que necessitava. Instintivamente, flexionou as pernas. E ele pôs-se a rir! O muito vilão! - Miúda, parece uma fera. - Solte-me. - Não. Atraiu-a ainda mais e se flexionou para ela, e ela sentiu algo que jamais tinha experimentado, que nem sequer tinha imaginado. - Por que se aperta assim contra mim?
    • Ele evitou sua pergunta e interpelou a sua vez: - Como conseguiu entrar ontem à noite? - Não tenho nem idéia ao que se refere. Pensava negar eternamente. - Por que pegou meu anel? - Não o peguei! Ele a escrutinou e lhe advertiu: - Não deveria me mentir, Kate. Posso saber quando o está fazendo. - Acariciava-lhe uma nádega, era difícil concentrar-se, pensar com certa distância. - O que vais fazer com ele? Vais ficar como uma lembrança? Ou o devolverá ao seu lugar quando eu não estiver? Desse modo, poderíamos agir como se nunca tivesse desaparecido. Ela franziu o sobrecenho: Marcus tinha adivinhado suas intenções. Ele esboçou um sorriso de satisfação. - Já vejo. Tinha decidido devolvê-lo na minha ausência. Então, por que não me avisa com antecipação, para que não apareça de improviso? Deste modo, tudo seria mais fácil. - Eu não tenho seu anel, insistiu ela. Ele a fez rodar para inverter suas posições. Kate ficou debaixo dele. Estava apanhada, e furiosa! Tinha pretendido dominar o encontro, expondo seus argumentos com brevidade, e depois dedicar-se a suas coisas, com a reputação e a castidade intactas. O que ia fazer agora? Devia convencer este homem da sua deliciosa postura ética, mas seu corpo a impelia com força a um lugar que não queria visitar. - Deixe que me levante. - Não. Kate suspirou. - Falar com você é como falar com a parede. - Prestaria atenção se dissesse algo interessante. Brincava com seu vestido, tentando desabotoá-lo. - Vai violar-me? - Sim, mas você gostará. - Detenha-se. Agora. - Sinto muito, mas não posso te agradar. - Lorde Stanford! - O primeiro botão se soltou- . Lorde Stanford! Marcus! Ele sorriu, pois jamais tinha duvidado de que podia convencê-la a lhe chamar pelo seu nome de batismo, e assim de repente… - Sim, Kate. O que quer? - Não penso me relaxar sem mais enquanto me tira a roupa e… e… Queria lhe informar de todas as coisas que não pensava fazer, mas seu léxico tinha graves carências para discutir sobre assuntos carnais, e não estava disposta a usar palavras tais como «nua» e «despida». Na sua presença era tão difícil manter a compostura que naquele instante soube
    • que não devia ter-se arriscado a ir ao encontro, por muito obstinado que ele se mostrasse em suas exigências. Tinha que tê-lo sabido. Realmente tinha que ter previsto. - E…? - inquiriu ele, lhe recordando que não tinha terminado a frase. - Não importa, vagabundo. Solte-me! - Divertiu-se enquanto me via com Pamela? Assim que recordou todos os detalhes eróticos da cena, suas bochechas se acenderam de tal modo que se surpreendeu de não estalar em chamas. - Suas acusações são insultantes e não tenho a mais remota… Marcus a beijou. O movimento foi imprevisto, repentino, e ela se esticou e manobrou para lhe afastar, decidida a negar-se e resistir até que ele desistisse, mas antes de poder reagir, percebeu o empenho como um pouco tão doce, tão íntimo, que não se fazia à idéia de boicotá-lo subitamente. Os lábios de Marcus eram suaves, quentes, e pressionavam gentilmente os seus. Fechou os olhos. Sendo esse seu primeiro beijo, viu- se sobressaltada por sua formosura, seu feitiço. Como podia ter vinte e cinco anos e nenhuma vez ter experimentado semelhante gozo? Surpreendendo-a por completo, ele deslizou a língua dentro de sua boca; suas línguas se encontraram. O gesto lhe desatou um súbito comichão no estômago. Tinha o gosto de brandy que tinha estado bebendo e aquele sabor era tão esplêndido e tão libidinoso que a fez gemer de prazer. Hipnotizada, extasiada, nesse momento teria feito tudo que lhe pedisse e concluiu que esse era o motivo pelos quais as mulheres eram cortejadas e persuadidas até os abismos do pecado. Outras conheciam os perigos de uma paixão tão temerária, mas ela, acanhada e rendida já, não encontrou remédio em nenhuma das advertências que até então tinha acatado. Queria mais… Queria abandonar-se a aquela desenfreada espiral, a aquele pandemônio incomparável e, e qualquer proeza que fosse necessária para que ele continuasse, continuaria com gosto. Estava tão transbordada que não era consciente de tudo que acontecia, e pouco a pouco reparou que seu sutiã estava já desabotoado e que ele o arrancava. Em poucos segundos, seus seios ficariam expostos e não havia maneira de predizer o que aconteceria depois. Em sua mente soaram os alarmes. De algum modo, tinha caído de cabeça em um inferno selvagem que transcendia ao seu controle. Não tinha sido sua intenção encontrar-se em tal apuro! Eram essas as propensões de sua mãe, que saltavam em primeiro plano? Tinha lutado com tanta tenacidade para ser virtuosa, para ser um exemplo, uma boa pessoa… e tinha bastado que um homem bonito a
    • olhasse para abandonar em um instante sua integridade e seus princípios. Acaso não tinha orgulho nem dignidade? Separou-se dele violentamente. - Marcus, por favor. Ele se deteve e a olhou, franzindo o cenho, tão arrebatado pela paixão que pareceu não reconhecê-la, e o coração do Kate se nublou. Provavelmente tinha seduzido toda criada que entrou pela porta. Que mulher estaria a salvo em tal ninho de pecado? Sem dúvida, ela era só uma mais na longa lista de mulheres que tinham sido beijadas até tocar o céu naquele cômodo sofá. - O que ocorre? - perguntou ele. - Não posso seguir. Sentia-se humilhada, envergonhada de não poder ser a meretriz que ele esperava. - Por que está tão preocupada? Só estamos nos beijando. Não há nada de mau nisso. - Sim, mas você espera muito mais que um beijo e eu seria incapaz. Ele se fez a um lado; com aquele gesto lhe proporcionou a oportunidade de escapar. Ela estremeceu e se sentou, lhe dando as costas. - Acredita que sou alguém que não sou. - É apaixonada, Kate. Não pode negar esse aspecto de sua pessoa. Tampouco eu posso. - Insiste nessa idéia absurda de que sou decadente, que sou o tipo de mulher que pode comportar-se segundo seus costumes, aqui, na cidade. Mas sou uma garota do campo. Não estou preparada para a libertinagem e me desculpo se lhe fiz acreditar o contrário. Ele se incorporou e a abraçou, lhe acariciando a nuca com o nariz. Ela desconhecia a sensibilidade daquele ponto e estremeceu; lhe arrepiou a pele dos braços. - Não esteja triste - sussurrou ele. - Não estou, só quero… - O que quer? - insistiu ele ao vê-la incapaz de prosseguir. - Quero ser mais liberal. Oxalá pudesse ser a pessoa que acredita que sou. É patético, não é? Ele se afogou em uma gargalhada. - É tão lasciva, Kate, e está tão preparada para o que eu posso te dar… - Não, equivoca-se. Ela se voltou, ansiosa de persuadi-lo que a tinha julgado mal, mas estava tão perto dele e seus formosos olhos azuis a esperavam ali mesmo… Poderia ter tentado à Santa Virgem, como esperava resistir ela a seus encantos se era uma simples mortal? Kate se sentia tão fraca frente a ele que acreditava ser ele capaz de derrubar qualquer muro que ela interpor entre ambos para mantê-lo afastado, e esta certeza a aterrorizava.
    • - Seremos amantes, Kate, durante o tempo que se prolongue sua visita. Será maravilhoso. Prometo-lhe isso. - Não vamos ser nada. Vou e não retornarei. Não me peça isso, não me pressione, não me ordene. Não cederei. Como se Kate não tivesse pronunciado nenhuma palavra, ele anunciou: - Encontraremo-nos todos os dias, a meia-noite. Começava a acostumar-se a que não a ouvisse. Era um menino mimado. - Não, Marcus. Levantou-se, recolheu sua capa e se envolveu com ela os ombros. Cobriu-se a cabeça com o capuz. Ele a olhava, sem mover-se, sem intervir. Era o momento de partir, mas não encontrava a coragem para fazê-lo. Olhou-o, com mil considerações na ponta da língua. E se não voltasse a estar a sós com ele? O que lamentaria não ter feito? Nada parecia apropriado, de modo que deu a volta e saiu correndo, mas antes que alcançasse a porta, ele a chamou. - Amanhã de noite, Kate. Estarei esperando. - Esperará em vão, insistiu ela. - Não acredito. Virá. Sua confiança, a certeza de que ela cederia, enfurecia-a. Com um grunhido de frustração, abriu a porta e se deslizou para o corredor. Capítulo 4 - Qual é sua opinião, mãe? - A respeito de que? Christopher Lewis estava sentado na suíte de sua mãe, vendo-a comer um doce atrás de outro de uma grande caixa. Não podia recordar nenhum momento em que a tivesse visto sem comida diante, e que o céu assistisse a aquele servente que deixasse vazio o prato de Regina. Obcecava-se com as provisões como um banqueiro com o ouro. Comia em todas as horas uma ou outra guloseima. Esse era o motivo pelo qual estava extremamente obesa. Christopher se surpreendeu de
    • que a pequena cadeira em que sua mãe se escorou não cedesse ao seu peso. Tinha o cabelo de um cinza monótono; os traços, inchados e avultados. Pelo que ouvia, tinha sido formosa no passado, mas pelo seu aspecto atual era difícil discernir se aqueles falatórios eram certos. - Em relação às novas sementes que quero adquirir para nossas terras… - Parece-me um esbanjamento colossal. - Mas é o último avanço científico. - Tolices, folhetins. Christopher suspirou. Estava tão acomodada nos velhos tempos que se mostrava suspicaz ante qualquer sugestão. Ele tinha tantos planos para a fazenda, tantas inovações que ansiava levar a cabo… Não encontrava o modo de influir nela. Sua mãe mantinha sempre a bolsa tão bem fechada que provavelmente não seria capaz de arrancar-lhe até tê-la na tumba. Desejava reafirmar-se como Conde. Não podia imaginar de onde lhe vinha a necessidade para melhorar Doncaster, mas intuía que a tinha herdado de seu pai, que havia falecido quando ele ainda engatinhava. Sem dúvida não a tinha adquirido de Regina! Uma pessoa fria e reivindicativa a quem teria preferido conhecer nunca. A seguinte pergunta, Regina se mofou de suas idéias, como sempre fazia, mas ele insistiu: - E quanto aos pedidos da esposa do pároco? Regina esteve a ponto de engasgar-se com um bombom. - Nem pensar. - Mas é uma idéia magnífica. Poderíamos criar uma escola sem dificuldade. - O que é o que nesta verde terra de Deus te leva a acreditar que devemos educar a cada criança que perambula frente a nossa porta? - Nossos trabalhadores devem saber ler e escrever. E multiplicar. Sorriu, sabendo que sua mãe estaria mais molesta pelo segundo que pelo primeiro. Odiava suas idéias inovadoras. - Seriam capazes de contar com precisão nosso dinheiro, quando o estivessem ganhando para nós. - Jamais. Regina se ruborizou até a incandescência e se concentrou de novo em engolir e em revisar seus papéis. Nesse mesmo instante, Christopher decidiu que compraria a maldita escola. Embora Regina fosse uma avara de marca maior, dava-lhe uma mesada, da qual ele jamais gastava nem um centavo. Tinha economias e estava decidido a fundar uma escola e a levar até o fim os seus propósitos. Não seria difícil ocultar o projeto dos olhos de Regina. Ela nunca se preocupava com a vida do resto da humanidade, de modo que não perceberia o que estaria ocorrendo.
    • Melanie, que parecia um saca-rolhas em frente ao espelho, gorjeou alegremente: - Parece-me tolice que seja capaz de gastar seu tempo e energia em tais sandices. - Tem razão, Melanie - concordou ele ironicamente. - Em troca, poderia me dedicar de corpo e alma a propósitos transcendentais como provar roupa. - Exatamente - respondeu ela, muito obtusa para compreender que seu irmão acabava de provocá-la. Christopher suspirou de novo. Como podia ter Regina como mãe e Melanie como irmã? Que giro do destino os tinha agrupado na mesma família? Os homens do campo difundiam histórias sobre intercâmbios de meninos recém-nascidos e ele se perguntava freqüentemente se algum elfo não o teria raptado ao nascer e o teria deixado depois na casa equivocada. Se não fosse pela presença tranqüilizadora de Kate ao longo dos anos, não sabia adivinhar o que teria sido dele. Ela, e os criados com quem travava amizade, o tinham orientado na vida e o ajudado a descobrir o homem que realmente era. Agora que já contava dezoito anos, esse homem lutava para emergir à superfície. Estava ansioso para que sua mãe reconhecesse e lhe cedesse o lugar que lhe correspondia por direito próprio, mas não sabia como consegui-lo. Ficou em pé. Necessitava de ar fresco, afastar-se daquela companhia sufocante, sofrível. - Aonde vai? - perguntou sua mãe. - Vou cavalgar com o Stanford. - Estará de volta na hora do jantar? - Sim, mãe. - Nem a menor algazarra com ele. Ou qualquer tipo de coisa que lhe proponha. Christopher pôs os olhos em branco. Sua mãe ainda o via como um pirralho. Se chegasse tarde da noite era porque que tinha saído às escondidas, de suas correrias com os meninos do povo ou de seus flertes com as garotas do botequim, sofreria uma síncope. - Sossegue, resistirei a suas tentativas de me corromper. Dirigiu-lhe um olhar admoestador: - Não se faça o preparado, não estou de humor para seus descaramentos. - Sim, senhora - respondeu ele com tom adulador, embora sem arrepender-se absolutamente de suas palavras. - Empregue a ocasião sabiamente. Não poupe adulações para sua irmã. Melanie acrescentou:
    • - Deveria lhe informar da freqüência com que se comenta quão formosa sou. «Formosa como uma estátua de mármore», pensou. Por fora era atraente, mas por dentro era vaidosa, frívola e malvada. - A elogiarei até que brilhe - mentiu Chris. À margem da vontade de ambas, não tinha intenção alguma de ajudar no intuito de unir Stanford e Melanie. Chris não desejava isso nem ao seu pior inimigo. Nem se vendo preso a um poste e ameaçado por uma tribo selvagem diria uma palavra elogiosa sobre Melanie; antes estaria disposto a que lhe cortassem a língua. Aquela moça carecia de toda virtude e não pensava em ajudá-la, nem tampouco a sua mãe, a enganar o Stanford. Partiu antes que o curvassem com mais ordens absurdas que não tinha intenção de acatar. Regina manobrou sua imponente massa corporal para observar Christopher afastando-se; logo examinou o correio que lhe tinham enviado de casa. Melanie rondava perto e Regina considerou oportuno esconder a primeira página, como também faria quando chegasse Kate, embora Melanie não lesse o bastante bem para entender aquele escrito; o segredo era desnecessário com ela. Regina não recordava quando tinha decidido roubar Selena Bela, mas sim a facilidade com que o tinha conseguido. Outros eram incrivelmente ingênuos, sobretudo alguém como Kate, que só via a bondade nas pessoas e jamais se dispunha do mau; de fato, nunca lhe tinha ocorrido comprovar as faturas que enviava Bela. Kate não conhecia sua meio-irmã, circunstância que Regina tentava perpetuar por todos os meios para que Kate não fosse testemunha da modéstia com que Bela se via forçada a subsistir por culpa dos seus furtos. Além disso, Kate nunca tinha tido ao seu cargo a administração de um lar, assim não podia saber com exatidão o preço das coisas ou quanto se requeria para cobrir gastos. Regina falsificava as faturas que Bela enviava a Kate e esta não as questionava, como tampouco tinha questionado a garantia de que seus pais não lhe tinham deixado herança alguma. Tinha sido fácil enganá-la. Obviamente, Kate era muito jovem quando se produziu o suicídio de seu pai e não pôde perceber que a tinham manipulado. Regina tinha furtado seu dote, que levava uma eternidade desaparecido sem o menor rastro que pudesse culpá-la. Agarrou a carteira onde guardava seus documentos e sorriu para si, satisfeita com sua perícia na arte da duplicidade. Suas economias cresciam exponencialmente e nestas ocasiões sentia tentação de alardear sua sagacidade, mas nunca o faria. Não poderia justificar seu comportamento frente aos outros. Nestas ocasiões lhe resultava difícil inclusive explicar a si mesma, mas sabia melhor que ninguém com que rapidez as fortunas podiam trocar de
    • mãos. Em um só dia, ela mesma tinha passado de estar cozinhando em seu lar na Cornualhes, com seu marido às portas da morte, suas economias esbanjadas em remédios inúteis e dois bebês mugindo e atirando de suas saias, a ter um marido elevado a Conde. O marido tinha morrido de forma repentina e seu filho tinha herdado o título, e se mudaram para uma mansão com duzentos cômodos. Christopher e Melanie não recordavam os embaraçosos tempos nos quais seu pai tinha sido o seguinte na linhagem para herdar um grande Condado e mesmo assim trabalhava para ganhar a vida, coisa que lhe tinha granjeado o desprezo de todo o povo. Os filhos acreditavam que a vida era uma celebração de gente rica que esbanjava e se abandonava facilmente a qualquer prazer, mas Regina jamais esqueceria como tinha sido antes e jamais voltaria para a terrível situação de ter que humilhar- se ante seus vizinhos. Não podia depender da sorte. Se tinham conseguido ascender tanto, também podiam cair em seguida, e se negava a sumir-se de novo na penumbra. Se viesse alguma tragédia, as posses de Kate e Bela a amparariam, e não albergava nenhum sentimento de culpa pela situação. Essas duas mulheres não mereciam tal riqueza caída do céu. Eram filhas de uma puta. Deviam pagar pelos pecados de sua mãe. Regina engoliu o último pastel, molesta por ter tido que pedir ao serviço que lhe servissem mais quantidade quando era sua obrigação fazê-lo. Gostava de ter comida à mão e poder beliscar cada vez que gostasse. Durante um tempo não tinha disposto de um chefe francês e freqüentemente tinha que preparar ela mesma as sobremesas; nunca se tinha recuperado de tão horrível experiência. - Onde está Kate? - protestou Melanie, golpeando o chão com um pé em um gesto petulante que incomodou a Regina. Tinha lutado para proporcionar estabilidade e uma educação aos seus filhos, mas em retorno de semelhante opulência, o intento se converteu em desafio. Melanie assumia que o mundo girava ao seu redor, por muito que Regina se empenhasse em lhe advertir do contrário. A garota era irritante, mimada e presunçosa, e exasperava a Regina. Quando a realidade lhe chegasse como uma bofetada, quando a tragédia se desatasse, Melanie seria incapaz de se encaixar as circunstâncias, desmoronaria-se ante os primeiros indícios de adversidade. Graças ao céu, tinha dado a luz ao Christopher, possuidor do intelecto, juízo e a astúcia de Regina. Embora em ocasiões o menino fosse também muito compassivo, sob sua tutela chegaria longe. - Não demorará a vir. - Disse o mesmo há quinze minutos. - Pois deixe de insistir. Sempre tenho razão. Dirigiu um olhar furioso a Melanie e se perguntou quando tinha mostrado aquela moça algum interesse por algo alheio a si mesmo ou
    • seus objetivos. Acaso não compartilhava seu mesmo interesse por forjar um matrimônio importante? Durante anos, Regina tinha suportado uma infinidade de rejeições e lhe tinha cozido o sangue tentando ignorar os falatórios que questionavam a legitimidade de Christopher como herdeiro ou que apontavam a sua família como intrusos no círculo da nobreza. Quando Melanie desposasse o Stanford, Regina se regozijaria no triunfo. - Quais são seus planos com Lorde Stanford? - perguntou. - É evidente que ontem não lhe causou a menor impressão. - E foi minha culpa? - Tendo sido considerada uma criada, de quem crê que deve ser a culpa? - De Kate. Estava pavoneando-se frente a ele. Você a viu. Se tivesse sido mais comedida, nada disto teria passado. Falará com ela? Regina já tinha decidido falar com Kate sobre seu descaramento. Repreendia-a a respeito com freqüência. Kate era vítima direta de muitos dos piores aspectos de sua mãe - o orgulho, a teimosia, o desdém e também mais ousada do que se esperava em uma mulher. Embora Kate não percebesse, os homens se sentiam atraídos por ela, motivo pelo qual Regina a obrigava a usar o cabelo coberto. Do contrário, qualquer cavalheiro despreparado poderia ver-se levado à perdição, e Regina não ia permitir que Kate perpetuasse os estragos que sua mãe tinha instigado; não, enquanto vivesse sob seu teto e sua conduta pudesse dar mau exemplo ao Melanie ou ao Christopher. - Sim, falarei com ela, mas enquanto isso você precisa se organizar. Stanford nos visitará esta noite, de modo que tenho que te perguntar de novo: como vai impressioná-lo? - Não o farei - respondeu, elevando seu presumido nariz - . O odeio, é um grosseiro e não quero que seja meu marido. - Não tem voz a respeito. Se casará com quem eu diga e o fará de boa vontade. - Não. Casarei-me com alguém que me ame e não com esse ser cruel e vicioso. Tem o coração de pedra. - Se cale. Não suporto seus desvarios românticos. Melanie parecia disposta a replicar irada, mas por sorte Kate bateu na porta e sua presença as salvou de uma discussão. - A castigará de verdade, mamãe? Por ter chamado a atenção? - Se preocupa com Kate quando seus próprios atos foram abomináveis. Vá ao seu quarto e não saia até que esteja preparada para me explicar com todos os detalhes como pensa em seduzir Lorde Stanford. - Não o farei. Já lhe disse. Não o farei!
    • Regina não pôde controlar mais seu temperamento. Levantou-se e caminhou para Melanie até que a teve frente a si, a apenas uns centímetros. Regina sobressaía sobre sua filha. - Não quero ouvir nenhuma palavra mais, maldita ingrata! - Ou? Vais bater-me? Mandar-me à cama sem jantar? - Não se considere adulta, ainda posso te castigar. - Sempre acha que pode me obrigar a fazer o que for, mas desta vez não. Não me importa que tenhamos tido que viajar tão longe. Não me importa que te envergonhe. Não aceitarei uma imposição desta. Regina lhe deu uma bofetada e Melanie tropeçou e esteve a ponto de perder o equilíbrio. - Não vais faltar-me ao respeito! - gritou Regina indignada. Menos ainda depois de ter lutado tanto para conseguir este convite e solucionar seu futuro. Kate chamou de novo, mais brandamente que antes, o que indicava que estava ouvindo a discussão, e Regina se enfureceu ainda mais. - Vai-te! - gritou. - Estou farta de ti. Engolindo as lágrimas e com uma mão em sua avermelhada bochecha, Melanie saiu correndo. Kate murmurou algo sobre uns novos vestidos que chegavam da costureira, mas a informação não a deteve. Inquieta, Kate a viu correr até o final do corredor, mas não fez nenhum comentário. Fazia tempo que tinha aprendido que o que ocorresse entre a Regina e seus filhos não era assunto dela. Entrou e fechou a porta; soube imediatamente que o que ali lhe esperava era uma inspeção e que Regina estava impaciente para levá-la a cabo. Kate nunca tinha aceito o fato de que as circunstâncias não lhe tivessem sido favoráveis. Mesmo assim, mantinha a compostura com a dignidade de uma rainha, como se seu pai ainda governasse Doncaster, como se em suas veias não corresse o sangue manchado de seus desenquadrados progenitores. Para evitar que esquecesse sua insignificante condição, Regina se encarregava de recordar-lhe em todo momento. - Bem - começou Regina - o que tem a dizer a seu favor? - Não tenho explicação para o comportamento de Lorde Stanford. Quando menos, não ia fingir que não sabia o motivo pelo que a tinha convocado. - Não me canso de te advertir que evite chamar a atenção. Acaso desejas que lhe pontuem de puta, como a sua mãe? - Você sabe que não o sou. Os lábios do Kate se contraíram até quase desaparecer de seu rosto. Embora nunca havia dito nada a respeito, aborrecia o modo em que Regina criticava seus pais, e o fazia tão freqüentemente como lhe era possível. Kate se parecia com sua mãe e Regina vivia com a certeza de que ao menor empurrão se comportaria como ela. Terei que esporeá-la continuamente para que não se desviasse do bom caminho.
    • - Se segue te pavoneando aqui, em Londres, quanto tempo acha que levará até que te reconheçam, até que a gente saiba quem é? - Não saberão. - Se correr o menor rumor sobre sua procedência, abandonarei-a a sua sorte. - Era uma ameaça efetiva e Regina a tinha usado para pressionar Kate em todo tipo de ocasiões. Seu temor de ser expulsa de Doncaster era real e uma arma que Regina esgrimia repetidamente. - Carece de ofício, de dinheiro, de contatos. Aonde irá se lhe desterro? Como sobreviverá? Suplicará a sua irmã bastarda que te acolha e te alimente? - Christopher jamais consentiria que me desterrasse. - se defendeu Kate, com um indício de integridade. - Como ia impedir? Inclusive no caso de que lhe convencesse de contradizer minhas ordens, pode imaginar como seria sua vida? Juro-te que faria dela um inferno. - Estou segura de que o faria. - Não consigo compreender por que me ocorreu permitir que viesse conosco a Londres, mas a partir deste momento permanecerá fora de vista. - Assim o farei. - Não voltará a ter oportunidade de envergonhar ao Melanie ou desonrar a família. - Como queira. - Acompanhará Melanie em seus passeios, mas não estará presente em nenhuma ocasião em que Lorde Stanford possa ver-te. - Como desejar. - Se tiver dúvidas sobre os acontecimentos aos quais pode assistir e quais deverá evitar, me pergunte. - Assinalou o corredor com uma mão - . Agora vá, estou farta de ti. Kate partiu sem questionar seus intuitos e Regina se apressou a fazer soar a campainha para chamar um criado. A discussão lhe tinha despertado o apetite. Confiava em que ficassem mais doces na cozinha. Pamela caminhou lentamente para o vestidor e se olhou no espelho. Embora tivesse completado os trintas, seguia sendo formosa. Nunca tinha estado grávida, por isso seu corpo conservava as curvas e a graça de antigamente, seus peitos luziam firmes e abundantes. Era sensual, esplêndida, uma mulher no ápice de sua vida que sabia o que queria e o que tinha que fazer para poder consegui-lo. Inclinou-se um pouco para verificar melhor o decote e se o negligé que tinha escolhido era o adequado. À vista ficava a atraente firmeza de seu peito; a provocadora orografia de seus mamilos se adivinhava atrás do fino tecido. Através de uma fresta na porta vislumbrou Christopher Lewis esperando pacientemente no sofá, na sala de espera do seu quarto. Tinha sido fácil o seduzir. Até com dezoito tenros anos, era já um homem. Não
    • tinha duvidado nem um instante em aceitar o insinuante convite de Pamela, que sentia curiosidade por saber se teria adivinhado suas intenções. Estaria impaciente? Seria bom amante? Ou só um ingênuo? Qualquer das possibilidades resultava tentadora. Se iria iniciá-lo no ato sexual, seria um amante entusiasta e fogoso - como estavam acostumados a serem os homens jovens, mas se era virgem, Pamela o doutrinaria encantada. Deteve-se para aplicar uma última gota de perfume e logo se aproximou dele sem pressas. - Olá, Christopher. - Seguiu avançando com sigilo, desfrutando da admiração do jovem frente a semelhante escassez de roupa. - Posso te chamar Chris? - Sim. - E você deve me chamar de Pamela. Lady Pamela é tão aborrecido e formal… O moço tinha uns grandes olhos azuis, cabelos loiros ondulados e uma figura um tanto desajeitada. Resultava adorável em extremo. Também era rico, um fator que ela sempre considerava muito atraente e que se tornava ainda mais interessante agora que Marcus tinha esbanjado seus últimos recursos. Christopher escolheria em algum momento a uma Condessa e ela fazia já anos que o era; além disso, por que devia escolher a uma afetada principiante? Considerando sua juventude e ingenuidade, acaso não lhe conviria mais uma mulher mais velha? E quem melhor que ela? A emoção lhe acelerou o pulso. - Gostaria de um brandy? - A minha mãe não gosta que eu beba, especialmente de dia. - Bom, Regina não está aqui, não é? Ele riu entre dentes. - Não, não está. - Acompanha-me? - Que diabos…? - A expressão tinha escapado de sua boca contra sua vontade e, como o pequeno cavalheiro que era, apressou-se a desculpar: - Eu sinto muito. - Não terá que lamentar o que acontecer quando estamos sozinhos. Pamela caminhou para trás do sofá e passeou um dedo brincalhão por sua nuca. - Sinta-se livre para ser você mesmo. Conduziu seus passos para o armário dos licores e percebeu que ele a examinava. Seu salto de cama era apertado e cativante. Serviu as taças lentamente, para que ele pudesse contemplá-la. Pamela se voltou e um súbito halo de cumplicidade pareceu lhes unir. Ele já não era um menino. Sabia para que o tinha convocado e estava disposto a consentir.
    • Ela se encaminhou para o sofá enquanto ele seguia cada um de seus movimentos; sentou-se ao seu lado e lhe estendeu a taça. Ao mínimo contato, uma faísca lhe queimou o braço. Do primeiro momento havia sentido uma atração irresistível por ele e não podia compreender a razão. Não tinham nada em comum. Nem bagagem, nem experiência, nem formação, nem idade, mas estava gostando muito dele, de modo que não ia tentar desvelar o mistério. Freqüentemente, a atração física a desconcertava. Ela tomou um gole e se sentiu ferver ante o olhar descarado dele. - Diga-me, Chris, tem alguma garota te esperando em casa? - Não há muitas candidatas em Doncaster apropriadas para mim. - Acredito. Irá à caça de prometida durante sua estadia em Londres? - Não estou preparado para me casar. Minha mãe diz que não há pressa. - Uma mulher sábia. - Provavelmente isso era o único no que conviria com a antipática e provinciana Regina. - Pois, se não estar no mercado dos esponsais, terá que procurar outras atividades para te entreter. - Estava pensando exatamente o mesmo. Ele mal tinha provado o licor, por isso ela tomou seu copo e o deixou na mesa. Se aproximou um pouco mais; um de seus seios pressionou o braço do Christopher. O mamilo se endureceu, lhe ferroando. Ele sorriu. Talvez fosse mais sofisticado do que ela tinha suspeitado. - Beijaram-lhe alguma vez? - perguntou ela. - Muitas vezes. Pamela fez uma careta reprovadora. - Mas disse que não tinha nenhuma garota especial… - Sabe guardar um segredo? - Sim. - Algumas noites saio incógnito ao botequim do povo. Com um gesto de ofensa fingida, ela procurou ar para dizer: - Sua mãe se escandalizaria. - Sem dúvida. - Ouvi que as garotas dos botequins são meretrizes. Ele se pôs a rir. - Sim, algumas sem dúvida são. - Por que não me mostra o que lhe ensinaram? Morro por aprender. - Acho que sim. Por um instante teve a sensação de que tinha empregado um tom depreciativo, como se também a considerasse uma meretriz, mas sua expressão era convincente; seu sorriso, imutável. Deviam ser impressões delas. Olhou-o fixamente, perguntando-se se ele iniciaria o encontro, mas seu acompanhante permanecia imóvel e a espera a mortificava. Incapaz de suportar aquela incerteza por mais tempo, deu o primeiro passo: posou seus lábios nos dele. Christopher pareceu interpretá-lo como uma
    • amostra de consentimento e assumiu o controle do abraço, acolhendo-a e estreitando-a nos braços. Introduziu os dedos entre seus cabelos e a língua em sua boca; ela se deleitou ao descobrir que as rameiras com as quais tinha flertado tinham sido excelentes tutoras. Estava louca por ele e seu desejo não se originava nem da sua fortuna nem do seu título. Ele amassou seu peito até que Pamela se retorceu de agonia, desesperada-se para que lhe oprimisse o mamilo. Ele não o fez, de modo que ela guiou sua mão para onde precisava tê-la. Contudo, não estava recebendo suficiente estimulação, por isso soltou o cinto de seu negligé e deixou seu peito ao descoberto. - Toque aqui - disse sem fôlego, excitada. Desejava muito mais do que lhe oferecia. Ensinou-o a ferroar e espremer, a beliscar e ferir. Era um aluno ávido e entendeu imediatamente o que se requeria dele. - Assim? - perguntou. - Ah, sim, não pare. Pamela estava fascinada, arrebatada, aflita. Tinha tido muitos amantes, antes e depois de seu matrimônio, mas todos sem exceção tinham resultado insatisfatórios. Sempre a tinham deixado com a sensação de que estava perdendo algo, que a autêntica paixão pura jamais lhe seria concedida, e nesse instante um brilho antecipatório se prendeu em seu interior. Talvez Christopher ia proporcionar lhe o que não tinha conseguido nenhum homem antes. Incitando-o, acendendo-o, massageou entre suas pernas. Seu falo se endureceu sob a calça. Desabotoou-lhe os botões abrindo passo para sua mão. - O que está fazendo? - perguntou ele. - Quero acariciar suas partes íntimas. Vai-te encantar. Estava já tão excitado como ela. - Sim, sim… Seu verga apareceu para recebê-la. Ela a envolveu com uma mão e começou a acariciá-lo num ritmo constante. Ele estava exaltado, ereto, e se movia com uma exuberância juvenil que a enfeitiçava. Estava segura de ser a única mulher que o havia meio tocado com tal intimidade, e que por conseguinte ele não resistiria muito mais. Pamela queria que sua viagem inicial fosse memorável, espetacular. - Vou pôr minha boca sobre ti. - anunciou. - Alguma mulher lhe fez isso antes? - Não. Nunca. - Sabe do que se trata? Alguém lhe explicou isso? - Ouvi comentá-lo de alguns homens… Sendo conhecida por sua destreza em cometidos carnais, Pamela sorriu satisfeita:
    • - Querido, me permita que te demonstre no que consiste. Ele se reclinou e ela lhe afrouxou as calças para ter mais espaço de manobra. Situou-se sobre seu membro e passou a língua pela cabeça, lambendo o suco sexual. Depois de umas poucas carícias ele estava já ao limite e Pamela introduziu o falo em sua boca, segura de que seria uma curta carreira para o final. Ele empurrou com força, uma, dois, três vezes e seu sêmen saiu a fervuras. Derramou-se com um gemido de prazer, correndo-se extasiado, empurrando dentro dela uma e outra vez, como se não conseguisse alcançar o final. Em algum momento, a tormenta se acalmou, seus embates se sossegaram, sua ereção se relaxou. Ela ainda desfrutou de um último gosto da sensível cabeça, saboreando seu gosto, seu aroma; logo se afastou. Satisfeita e agradada com suas armas sedutoras, Pamela se abraçou a ele, impaciente por receber algum elogio ou, quando menos, algum comentário adulador, mas ele guardava silêncio. - Foi incrível - aventurou ela. - Sim, incrível, concordou ele. - Alegro-me de que me tenha permitido te mimar. - Estava um pouco confusa por sua reticência, mas obviamente ele era virgem. Era compreensível que não encontrasse as palavras apropriadas. – Vamos para minha cama? - perguntou, gemendo e estirando-se, desejosa de continuar. - Poderíamos fazer amor durante horas. Ele consultou o relógio. - A verdade é que devo me reunir com minha mãe em poucos minutos. - Sua mãe? - Odiava a Regina e não pôde simular a mofa em sua voz. - Acreditava que acabava de falar com ela. - Tenho que falar com ela de novo. - Já é um homem. Um Conde. Sua mãe pode esperar. Ele encolheu de ombros. - Quando ela está feliz, tudo é mais fácil para outros. Pamela sentiu um acesso de ira. Como ousava aquele moço ser tão ingrato? Como ousava pensar em partir sem uma palavra amável? Esteve a ponto de desprezá-lo, mas em seguida recordou que era acanhado em jogos carnais. Não compreendia que era rude passar bem e logo desaparecer. Existia também um protocolo sujeito à lascívia, mas nunca o tinham ensinado. Como podia esperar que seguisse as normas? Era outro aspecto sobre o que teria que lhe educar durante as horas de deleite, os encontros de prazer que compartilhariam. - A que hora acabará a reunião com sua mãe? - Não sei, mas estarei ocupado depois. Tenho encontros programados para toda a tarde. - Mas esperava que pudesse escapar de volta… - Não será possível.
    • Ela reprimiu uma careta amarga. Insensato! Ele que não era consciente do que estava desperdiçando? Os homens suplicavam uma oportunidade para estar com ela! Ela podia escolher e tinha escolhido a ele, e mesmo assim ele se comportava como se o ocorrido não tivesse significado nada, como se ela não significasse nada. Pamela conservava seu orgulho, de modo que não lhe deixou ver quão furiosa estava. - Talvez esta noite, depois, que todo mundo dormir. - Talvez - respondeu ele, sem deixar claro o que pensava, fazendo que Pamela, atônita, se perguntasse se estava ou não interessado. Os amantes nunca a desdenhavam, muito menos depois de ter provado seus frutos luxuriosos. Sua falta de entusiasmo era tão chocante e insólito que a deixava perplexa. Na vez que estava desejosa e disposta para um segundo encontro, ele se mostrava indiferente. - Suponho que te verei no jantar. Estava decidida a atuar com sua mesma despreocupação. - Se não antes. Como uma menina, tocou as nuvens ante aquela possibilidade. - Que tenha uma tarde fantástica. - Terei. Christopher se levantou e aparou sua roupa, passou os dedos pelo cabelo e, em um abrir e fechar de olhos, já estava preparado para partir. Inclinou-se e pousou as mãos nos braços de Pamela. - Foi fabuloso. - Deu-lhe um beijo rápido nos lábios. - Obrigado. E imediatamente deu a volta e partiu. Ela olhou em direção à porta, escutando sua retirada. Aquela não podia ter sido sua única visita! Tinha sido muito excepcional, muito extraordinário, embora devido a sua inexperiência, era provável que ele não pudesse percebê-lo. Precisava lhe iluminar. O sabor de seu sêmen era forte e já não lhe resultava prazenteiro. Alcançou o copo dele e bebeu seu brandy, limpando assim os últimos restos de sua escaramuça. Não sabia por que, mas se sentia deprimida e suja. Serviu-se um pouco de vinho e o bebeu também de um gole. Logo fez soar a campainha para que lhe preparassem um banho. Capítulo 5
    • - Bem - espetou Melanie, - se não tivesse derramado o primeiro frasco de poção de amor, não teríamos que comprar outro. É culpa minha que seja tão torpe? Era uma tarde ensolarada de verão, mas mal entrava luz no interior da carruagem e Kate agradecia as sombras, pois ocultavam seu semblante crispado dos olhos de Melanie. Essa maldita poção! Acaso não tinha ocasionado já suficientes estragos? Melanie tinha exigido ver o frasco e Kate não podia explicar sua ausência, de modo que tinha mentido sobre o ocorrido, quando na realidade teria que tê-lo evitado: era péssima mentindo. - Não o derramei intencionalmente. Escorregou de minha mão. - Pelo amor de Deus, Kate! Cada dia se pode confiar menos em ti. Mamãe diz que se continuar assim, te expulsará de casa. O que será de ti então? Kate esteve tentada a proferir umas quantas réplicas mordazes, mas se conteve. Regina estava acostumada ameaçá-la e, sendo mais jovem, a idéia a tinha aterrorizado. Mas já não. Estava tão farta que o desterro seria um alívio. Isso a obrigaria a virar-se sozinha, coisa que tinha que ter feito muitos anos antes, mas o hábito e a rotina lhe tinham impedido de seguir outro caminho. Em qualquer caso, estava decidida a que se a expulsassem o fizessem em conseqüência de uma infração drástica. Não ia permitir perder tudo por uma estúpida beberagem, embora não acabava de atrevesse a considerá-la uma fraude. Embora desejasse negar, o elixir possuía propriedades misteriosas. Tinha-a levado contra sua vontade, aos aposentos de Stanford e já não conseguia pensar em nada que não fosse ele. Sua mente se viu afetada até tal extremo que temia que a beberagem fosse perigosa, que fosse capaz de modificar sua personalidade. Quanto tempo durariam os efeitos adversos? E se alguma vez chegasse a enlouquecer? Estava destinada a consumir sua vida nos pensamentos obsessivos por Stanford? Uma mulher bem podia voltar-se louca, adoecer em tais sonhos perversos. Kate desejou poder penetrar em sua própria cabeça, limpar seu interior com uma boa vassoura e eliminar todas as imagens e fantasias relacionadas com o Stanford. - Podemos nos esquecer da poção? - Não, não podemos - resmungou Melanie. - Acaso te pedi eu a lua? Ordenei-te que o vertesse em sua taça de vinho e nem sequer foi capaz de fazer tão simples gesto. - Não é tão singelo como o expõe. E se tivesse dado no momento equivocado? Poderia ele ter se apaixonado pela faxineira. O que teríamos feito então?
    • - Anda já, Kate - se mofou Melanie. - Como se Stanford fosse capaz de apaixonar-se por uma criada! Nem um tônico mágico poderia ocasionar algo tão anormal! - Pode me escutar, por favor? - Não. Estou decidida. - A carruagem estralou e se deteve, e Melanie espiou o exterior. - Chegamos. A loja do farmacêutico está ao final da rua, em um beco. Esperarei-te aqui. Kate suspirou, perguntando-se se poderia convencer Melanie de que tivesse em conta suas advertências. Embora Stanford ingerisse vários litros daquela beberagem, sua conduta não experimentaria a menor mudança. Era um homem infame, jogaria com sua própria madrasta, com o Kate e com ela mesma. No que outra aventura libertina poderia incorrer? Que mulher se entregaria a semelhante vilão dissoluto? Trocou de tática. - Melanie, já conheceste Lorde Stanford. Já viu como é. - E? - Sua missão não sortirá efeito. - Fará. Mamãe assegura que é um homem muito apaixonado, mais ainda depois de saber quão formosa sou. - É o que ela espera, Melanie. - Era muito arriscado contradizer a Regina, de modo que Kate estava entrando em um terreno bastante perigoso. Regina estava acostumada enfurecer freqüentemente a Melanie, mas esta jamais admitiria que sua mãe pudesse estar lhe mentindo. - E se te fizer uma proposta? É muito maior que você, muito mais experiente e sofisticado. - Insinuas que não sou suficientemente boa para ele? - Não! Só digo que não é o homem que te convém. Será muito desgraçada. - Absolutamente. - insistiu obcecada. - Há tantos jovens disponíveis na cidade… Se aproximam mais a sua idade e compartilham suas afeições e diversões. Por que não amplia o espectro de busca? Não tem por que se limitar a ele desde o começo. - Mamãe decidiu que seja Stanford e nenhum outro, assim não cabe a menor duvida de que será meu marido. - E acrescentou, com aspereza : De modo que te cale de uma vez e me traga essa poção! Abriu a porta da carruagem e empurrou Kate à rua. Um lacaio correu a ajudá-la a baixar a escadinha. Intercambiaram um leve sorriso; o gênio de Melanie não lhes surpreendia. Seu temperamento fervia com freqüência. Enquanto avançava rua abaixo, Kate refletiu sobre os vínculos que entrelaçavam sua vida com a de Melanie, quão estranha era sua relação. Kate tinha nascido com tudo e tudo lhe tinha sido arrebatado. Melanie tinha nascido sem nada, mas lhe chovia a riqueza e o prestígio; e, entretanto, as duas eram infelizes.
    • Kate entrou na farmácia. Ao tempo que olhava a seu redor soou uma campainha. Era um lugar pitoresco, repleto de vidros e aromas exóticos. As paredes estavam cheias com estantes que continham curiosas garrafas e potes. O proprietário apareceu da parte traseira e Kate mal pôde conter uma gargalhada. Embelezado com roupas folgadas, bem poderia ter saído das páginas de uma lenda ancestral de dragões e cavalheiros. Tinha o cabelo prateado e luzia um gorro bicudo. - Posso ajudá-la? - perguntou. - Sim - respondeu Kate. - Faz uns dias, uma conhecida lhe comprou uma poção de amor e queria comprar outra. Para ela, não para mim. - Outra? - exclamou ele. - Os ingredientes são muito fortes. Não me sentiria cômodo vendendo mais. Ela extraiu o maço de notas que Melanie lhe tinha dado e o estendeu, imaginando que o dinheiro lhe faria trocar de opinião. Melanie podia ser sofrível e Kate não retornaria à carruagem sem um novo frasco. - O outro me caiu. Rompeu-se. Desconfiado, ele a esquadrinhou. - Deve me garantir que não o administrou ao cavalheiro objeto de seu interesse. Não posso permitir que o sature com uma dupla dose, pois não há modo de prever o prejuízo que estaria lhe ocasionando. Se o pobre homem se apaixonasse em excesso, poderia lhe falhar o coração. Não serei responsável por… um assassinato. - Oh! Pelo amor de Deus! - Kate lançou um olhar desdenhoso ao teto e elevou uma mão como o teria feito ante um juiz. - Juro que caiu. - Bem, em tal caso… Acredito que poderia você me convencer… a um preço justo. - Não penso lhe dar nem um centavo mais, enganador. Isto é tudo o que tenho. - Não fique assim, não é para tanto. Encaminhou-se à estante adjacente e, depois de uma prolongada ausência, retornou com outro frasco, que ela se apressou a guardar em sua bolsa de mão. Dispunha-se a partir quando no último instante se deteve. Segura como estava de que aquele homem era um estelionatário, detestava ter que lhe consultar a ele, mas não sabia a quem mais recorrer. - Poderia lhe fazer uma pergunta hipotética? - É obvio. - Suponhamos que alguém tivesse ingerido a poção. O que ocorreria se, por exemplo, uma pessoa despreparada o ingerisse acidentalmente? Existe algum antídoto? - Um antídoto? - Sim. Se uma pessoa o bebesse sem saber o que é, tornaria-se algo ansiosa. Para estes casos deve existir algum… remédio. O farmacêutico, ardiloso como era, sopesou-a a consciência.
    • - Tomou-o você. - Eu não queria! - espetou ela. Ele estalou a língua. - Diga-me: você tem em seu poder algum objeto de propriedade do homem em questão? Deve tratar-se de um objeto exclusivamente pessoal que você não possa compreender como chegou as suas mãos. Ela sentiu um tombo no estômago seguido de náuseas. - Um anel. - Oh, santo… As novas o consternaram e seu desassossego aterrou a jovem. - O que? O que ocorre? Ele se encaminhou a uma das prateleiras e tomou uns pós que depois verteu um sobre o outro. - Dissolva este preparado em chá bem quente. Tome-o três vezes hoje e outra manhã cedo, e devolva o anel ao seu proprietário. Mas se esta reaparecer em sua custódia, então já não haverá esperança. - Não seja tão enigmático. Fale-me em termos mais claros. - Se o anel retornar a você, o antídoto não sortirá efeito. Há coisas na vida que estão predestinadas. As pessoas não podem modificar seu destino. As palavras do homem a mergulharam no pânico. O elixir lhe tinha alterado o juízo e a lógica, e era evidente que a tornou incapaz de combater por si só a fixação que sentia pelo Stanford. Tinha que deter aquela obsessão, mas se o remédio não funcionasse, como ia retificar a situação? Arrebatada, pegou os pós e saiu da farmácia a toda pressa. Marcus observava a avenida e viu Kate Duncan aparecendo por um beco. O que tramava? A jovem se apressou até uma carruagem, que ele identificou como a sua própria. Era o que permitia Pamela utilizar, de modo que Kate a tinha tomado emprestado para sair às compras. Mas o que tinha comprado? E o que a fazia correr como se fosse perseguida pelo demônio? A curiosidade lhe carcomia. Sentia-se fascinado por ela, embora não conseguisse saber o motivo. Muitas mulheres cruzaram sua vida, muito poucas das quais lhe tinham comovido realmente, mas ela sim. Ela era tão autêntica, tão humilde… No mundo em que vivia, repleto de aduladores e adúlteras, era como um sopro de ar fresco. E além disso, endiabradamente atraente. Como ia resistir aos seus encantos? Manteve-se oculto até que o carro se afastou pesadamente; logo se encaminhou ao beco do qual tinha saído a jovem. Para sua surpresa, o único estabelecimento que ali havia pertencia a um farmacêutico. Entrou no local.
    • Um comerciante entrado em idade e de aspecto estranho ordenava frascos. Marcus deixou uma moeda de ouro no mostrador. Fiel a sua astúcia, o homem a aceitou. - Sinto curiosidade - comentou Marcus, por que jovem acabou de lhe visitar. O que queria? O farmacêutico estalou a língua. - Comprou uma poção de amor. - Uma poção de amor? - Sim. Sua amiga, uma loira miúda e altiva, tinha vindo antes em busca de uma beberagem para um tipo rico com quem deseja desposar- se, mas a dama de seu interesse o ingeriu por equívoco. Por isso quis comprar outro frasco, para que a loira o administre ao seu incauto prometido. - E para ela? - Queria saber se tinha algum remédio. - Acaso a beberagem a fez apaixonar-se perdidamente? - Isso ela crê. Marcus se pôs a rir ante aquela ridícula idéia, mas se sentia desconcertado. Não dava crédito a que ela se acreditasse loucamente apaixonada por outro. Ao menos, não em um futuro imediato. A jovem lhe atraía muito. - Está dizendo que é autêntico? - Com as jovens e seus romances nunca se sabe. É uma receita ancestral e a dama possui um objeto do homem sem saber exatamente como chegou a suas mãos. É, pois, presumível que a magia esteja surtindo efeito. - Que objeto possui? - Um anel. Marcus perdeu o fôlego. - Está brincando. - Não. E ela também parecia consternada a respeito. Esporeado por esta informação, Marcus esboçou um sorriso malicioso. Como ia divertir se! - Proporcionou-lhe você alguma cura para seu mau? - Sim. Dei-lhe uns pós que deverá tomar com chá, e lhe aconselhei que devolvesse o quanto antes o anel ao seu proprietário e que rezasse para que ele não retornasse a ela, mas duvido que minha prescrição vá servir de grande coisa. - Por quê? Os olhos do homem se tornaram frágeis e sua voz adquiriu de repente um tom distante. - Uma vez que o destino interveio, não há modo de variar o resultado. Ao ouvir esta declaração, Marcus poderia ter jurado que uma brisa glacial procedente de nenhum lugar girou em torno de suas pernas e se
    • filtrou sob suas calças. Era a sensação mais assustadora que tinha experimentado em toda sua vida, e ele estremeceu. - Se retornar, faça-me saber. Extraiu um cartão de visita e a deixou sobre o mostrador, mas o homem parecia ter entrado em transe. Agitado pela conversação, Marcus se apressou a partir sem despedir-se. Melanie se banhava para refrescar-se. O salão de lady Pamela não estava tão concorrido como na noite anterior - só umas trinta pessoas e se afastaram as cadeiras para deixar um espaço ao baile. O dueto musical confinado a um rincão tocava o piano e o violino, mas ela estava a tanto tempo dançando que necessitou de uma pausa. Adorava dançar e o fazia sempre que se apresentava a ocasião, algo que não ocorria com muita freqüência. Regina não estava acostumada a ter tanta diversão ao seu redor, mas tinha distendido um pouco suas normas. Em Londres todo mundo dançava, de modo que Melanie também podia fazê-lo, porque se havia algo que Regina não podia suportar era que alguém se destacasse em algum sentido ou se comportasse de forma inadequada. Regina nunca tinha superado suas origens humildes e, para constante desgosto de Melanie, passava a vida tentando se encaixar na nobreza, sem o menor êxito. Gostava de passear pelo jardim, mas, estando Kate afastada das festas, Melanie carecia de acompanhante e se via obrigada a permanecer na casa, o que a enfurecia. Kate adorava luzir-se e chamar a atenção. Melanie estava já cansada da sua conduta indisciplinada, mais ainda necessitava de tal modo sua ajuda. Se Kate não fosse permitia estar com o Stanford em uma mesma sala, como iriam administrar lhe a poção? Um cavalheiro se aproximou com sigilo. Não era um homem relevante - filho de um barão desonrado e acossado pela pobreza, por isso no jantar lhe tinha dado uma cadeira em um dos extremos da mesa. Regina se tinha indignado ante sua modesta presença, mas o resto de convidados se mostraram cordiais com ele. Era muito maior que Melanie, possivelmente teria a idade de Stanford ou inclusive mais, e não era atraente, a diferença da maioria da concorrência masculina. Seu cabelo loiro começava a clarear, seu rosto luzia corado e picado, e sua magreza era extrema, como se o homem nunca comesse quando devia. Mas se vestia com elegância, o que era um indício inequívoco de riqueza e de que não era o pobretão que sua mãe se empenhava em retratar. Tinha passado toda a noite observando-a e ela se deleitava em seu escrutínio. Seu olhar era exatamente o que deveria estar recebendo de Stanford, o muito caipira!
    • Quando Stanford perceberia que não só era formosa, mas também rica? Seu dote era abundante e sólido, composta como estava por dinheiro e as propriedades que deviam pertencer a Kate. Melanie não estava em situação de conhecer a procedência dos ativos, mas de quando em quando ouvia comentários velados a respeito. Voltou-se para um lado e seu olhar se encontrou com o do homem; emocionou-lhe aquela admiração manifesta. Ao menos um homem naquela condenada mansão reconhecia um tesouro ao vê-lo! Ansiosa por parecer mais alta e amadurecida, ergueu-se. Não queria que aquele homem a tomasse por uma menina, como ao parecer fazia Stanford. Jogou os ombros atrás; o sutiã de seu vestido novo acentuava sua figura e o homem saboreou aquela visão, embora tentasse ocultar seu renovado interesse. Aproximou-se dela, fez uma reverência e se apresentou sem mais demora. - Lady Melanie, mister Elliot Featherstone, para servi-la. - Encantada, mister Featherstone. - Bem-vinda a Londres. - inclinou-se levemente para ela. - Dança você como um anjo. É você tão grácil… Ela se ruborizou. - Vá, obrigada. - Pediria-lhe que fora meu par de baile, mas estou francamente mal. - Sossegue. Eu também necessito uma pausa. Faz tanto calor aqui… - Sou da mesma opinião. Iria bem um pouco de ar fresco. - Dirigiu o olhar a Regina, que estava aborrecendo a várias mulheres até as lágrimas e não se fixou nele. - Imagino que sua mãe não lhe permitiria passear pelo jardim em minha companhia. - Estou segura disso. - É uma lástima. Voltou a escrutiná-la com tal intensidade que ela se sentiu de repente mais velha e capaz de decidir por si mesma; desejou ser bastante corajosa para sair sem mais ao terraço. Acabaria o mundo se o fizesse? - Talvez poderíamos tomar um ponche - propôs ela. Os refrescos se serviam no salão contíguo, cuja porta estava aberta. A idéia era inocente. Ele sorriu, agradado pelo modo em que ela tinha salvado a situação, e a escoltou até a mesa. Sentaram-se e um criado lhes serviu as bebidas. Uma vez sozinhos, ele extraiu um frasco de sua jaqueta e verteu algo em sua taça. - Uísque escocês - sussurrou ao ver que ela arqueava uma sobrancelha. - Quer um pouco? Ao não perceber nenhum olhar curioso, assentiu, e ele verteu uma generosa quantidade em sua taça. Sendo a primeira vez em sua vida que provava um licor, sentia-se eufórica ante aquela travessa maldade.
    • Tomou com um pequeno gole e não gostou de muito o sabor, mas não estava disposta que ele soubesse de sua inexperiência. A aquele gole inaugural seguiram-se outros, embora a jovem tivesse que desviar o olhar para que ele não detectasse as leves lágrimas que apareciam em seus olhos como conseqüência do forte gosto da bebida. O álcool a ajudou a sentir-se mais corajosa; estava convencida de que lhe proporcionaria um aspecto mais sofisticado e desenvolvido. - É você uma influência perversa. - Isso eu espero. - Ele estalou a língua, como encontrando-se em companhia de seu amiga mais íntima. - Posso confiar em você, lady Melanie? - É obvio. - Não me considerará imprudente ou excessivamente descarado? - Não. Era a primeira conversação que mantinha com um homem adulto e se sentia extasiada. Desejava parecer coquete e atraente. Regina sempre a repreendia para que se mostrasse mais admirável, mas nunca se dignava a lhe ensinar como fazê-lo. - Qual é seu segredo, mister Featherstone? - Observei com que desdém a tratou Stanford. Todo mundo comentou. - Seriamente? - Sim. - Comportou-se de um modo detestável - admitiu, encantada de poder desafogar-se com alguém disposto a escutá-la. - Pobre criatura, - a consolou. - Depois de uma viagem tão comprida… É você consciente do que está acontecendo? Ela franziu o sobrecenho. - Há talvez algo que devesse saber? - Não posso acreditar que sua mãe não te disse. Não a surpreendeu que Regina guardasse para si algum detalhe vil e notou como o sangue começava a lhe bulir nas veias. - Do que se trata? - Não deveria falar disto aqui, em sua própria casa, sendo ele meu amigo. Não é oportuno. - Deve dizer-me isso. - É você uma moça tão doce… Não poderia suportar que algo a ferisse. Justo então sua mãe lhes viu conversando. Azedou-lhe o semblante e Melanie soube que devia retornar ao salão de baile nesse preciso instante. - Devo ir, disse. Ele olhou a Regina com um sorriso próprio de um bate-papo inofensivo.
    • - Se a chamasse, acredita que sua mãe nos permitiria passear pelo parque? - Não. - Nem sequer com uma dama de companhia? - Está obcecada em me casar com o Stanford. Jamais concordará a que nos relacionemos. A consternação era evidente no rosto do homem. - Jamais teria ousado sugerir… - Diga! - Aterrava-lhe que Regina aparecesse para levar-lhe antes que aquela conversação acabasse. - Estava pensando que poderíamos nos encontrar. - Fez uma pausa para que a gravidade de sua proposta impregnasse nela. - Ninguém teria que sabê-lo. Melanie o escrutinou, logo olhou a Regina e voltou a posar seu olhar no homem. Se Regina tinha tido conhecimento daquele terrível rumor sobre o Stanford, jamais o divulgaria e Melanie devia saber o que sua mãe ocultava. Regina lhe fez um sinal; Melanie não podia atrasar-se por mais tempo, de modo que ficou em pé e murmurou: - A meia-noite, detrás das cavalariças. Ele assentiu. - foi um prazer tomar um ponche em sua companhia, lady Melanie. - O prazer foi meu, mister Featherstone. Melanie se deu meia volta e foi sentar se junto a sua mãe. Capítulo 6 Marcus escapuliu com sigilo para o dormitório de Kate com uma garrafa de vinho e duas taças. Tinha rondado pela soirée de Pamela o tempo justo para averiguar que Kate não tinha ido e, quando se certificou de sua ausência, não encontrou motivo para ficar ali. A porta estava fechada, mas a luz de uma vela aparecia por debaixo; tentou girar a maçaneta e se sentiu eufórico ao comprovar que cedia. Se a encontrasse fechada, a teria aberto com a chave que levava consigo. Estava decidido a estar com ela. Com o coração acelerado, entrou de um modo tão sigiloso e furtivo que bem poderia ter sido invisível. Ela descansava em um sofá, junto à janela, e observava o jardim. Vestia um négligé verde e fino cujas alças deixavam à vista os magros ombros e braços da jovem. Era uma roupa sensual, provavelmente de seda, e sua deliciosa qualidade o intrigou. Presumia ser uma mulher de recursos extremamente modestos e imaginou a possibilidade que o tivesse herdado de Melanie.
    • O elegante traje abraçava sua miúda cintura e seus esculturais quadris e coxas. Tinha uma abertura em um dos lados, através da qual viu uma moldada panturrilha e um pé descalço. Usava seu fabuloso cabelo avermelhado solto e recém escovado, as mechas recolhidas amplamente com uma fita verde. As pontas se frisavam deliciosamente e contrastavam com a cor da camisola. Parecia absorta enquanto tomava uma taça de chá; o bule descansava na penteadeira. Junto a ela, havia também um frasco que continha um líquido vermelho. Marcus deduziu que se tratava da poção de amor e dos antitodos que tinha comprado do farmacêutico. Sorriu, comovido pela desconcerta da jovem ante os acontecimentos. Parecia tão pragmática… Quem ia imaginar que acabaria sendo vítima de semelhante argúcia? E como podia ele manipular sua ansiedade para conseguir seus próprios fins? - Olá, Kate. Ao ouvir sua voz, ela se voltou subitamente e derramou o chá sobre sua camisola. Chiou, ficou em pé de um salto e começou a sacudir a roupa para evitar queimar-se com a infusão. Seus bruscos movimentos permitiram ao Marcus espiar os peitos de Kate e sentiu um arrebatamento de euforia ao descobrir que seus sonhos tinham sido muito realistas. - O que está fazendo aqui? - sussurrou ela. - Já é mais de meia-noite. Não veio ao meu dormitório, como te pedi que fizesse. - Não me pediu isso. Ordenou-me isso, e lhe disse que não obedeceria. - De modo que eu decidi fazer uma parada em seu dormitório. - Gesticulou assinalando ao seu redor. - Não é mais íntimo? Nós dois sozinhos? Juntos? Posou o vinho e as taças na cômoda. - Como conseguiu entrar? - A porta não estava fechada. - Extraiu a chave e a fez soar. - E se tivesse estado, vinha preparado. - Parta! Agora! - Não. - Não pode apresentar-se aqui sem ser convidado. - Já vim. - Queixarei a lady Pamela. Uma vã ameaça. Não podia arriscar-se a que outros soubessem de sua visita. - Esta é minha casa. Pamela vive aqui por minha cortesia. Sou o rei deste gélido castelo e posso fazer tudo que desejar dentro de seus muros. - É você o homem mais mimado que jamais conheci. Ele se pôs a rir e se encaminhou para a cama, sentou-se na beira e se balançou para provar a firmeza do colchão. - Parece-te aceitável o alojamento?
    • - Muito. Obrigado pelo interesse. E agora, vá! - Porque poderia ordenar que te mudassem a outro, se assim o desejar. - Não se atreva a fazê-lo! Quão último preciso é que se interesse por mim. - Isso te ocasionaria todo tipo de problemas, não é certo? - Sim, e já me ocasionou muitos. - Temo que tenha em mente alguns mais. Avaliou o mobiliário. Era um quarto pequeno, acolhedor, mas austero, e muito comum para a pessoa única e excepcional que ela a considerava. Um simples gesto à ama de chaves e Kate seria transladada a outro quarto, mas a jovem tinha razão: sua ordem seria mortal para ela. Por outra parte, aquele dormitório tinha uma vantagem: estava perto do dele. Um encontro clandestino seria assim mais fácil; a possibilidade de serem descobertos, nula. Lançou-lhe um olhar furioso que não causou nele efeito algum, por isso correu para o armário. Desesperada por tampar-se, agarrou uma luxuosa bata que combinava com a camisola que tinha posto. Ele não ia consentir que ela se cobrisse com mais roupas, por isso se apressou a detê-la em seu propósito. O tecido era tão delicioso como aparentava e o acariciou; o frio material se deslizou sobre sua mão. - De onde tiraste isto? - Não o roubei, se for isso o que está pensando. - Jamais me teria ocorrido semelhante ideia. Com atitude rebelde, a jovem acrescentou: - Era de minha mãe. O que significava que no passado tinha pertencido a uma família próspera. O que lhe teria ocorrido para perder sua fortuna? Era um detalhe fascinante que investigaria mais adiante; nesses momentos preferia centrar-se em desvelar aspectos mais cativantes. - Devia ter sido muito formosa. - Era. Ele atirou a bata ao chão e ela não tentou impedi-lo. Escrutinou-lhe com o cenho franzido, como se olhasse um depredador perigoso, e fazia bem em ser precavida. Em todo o relacionado com ela, ele se sentia capaz das condutas mais abomináveis. Inclinou-se para ela para lhe beijar os lábios cor rubi. Durante um muito breve instante, ela permitiu o contato; em seguida girou o rosto e lhe lambeu a bochecha, a orelha. - Deixe de me atormentar, sussurrou ela. Por favor. - É tão condenadamente doce… Como vou resistir? Encolheu os ombros, incapaz de encontrar mais justificações a seu atrevimento. Qualquer mulher coquete teria estado encantada de entretê-lo, por isso não podia explicar por que persistia na conquista de
    • Kate. Uma mulher com menos prejuízos morais resultaria muito mais dócil à sedução. Ante sua negativa em partir, ela pareceu sumir-se na tristeza e ele não podia suportar vê-la infeliz. A jovem tinha despertado nele uma rara alegria e desejava para ela a mesma satisfação. Compartilhavam uma conexão muito especial que precisavam explorar, e ele estava decidido a persegui-la até compreender aquele profundo vínculo. - O que quer de mim? - implorou-lhe ela. - Além de relações sexuais fabulosas? - Sim, além disso. Ela se ruborizou de tal maneira que já não lhe coube dúvida de que era virgem. E se realmente o era? Arruinaria-lhe a vida? Ele tinha algum direito a fazê-lo? Embora tivesse muitos defeitos, não era tão canalha. Entretanto, estava seguro de que o fato de manter relações íntimas com ela seria um acontecimento que lhe mudaria a vida. Se algo tão maravilhoso podia ocorrer, que sentido tinha deixá-lo passar? Desejava vê-la sorrir, mas não estava seguro de como animá-la. O bule seguia na penteadeira; aproximou-se dela. - É chá? - Sim. Levantou a tampa e inalou. - Tem um aroma peculiar. O que lhe acrescentou? - Para sua informação, acrescentei-lhe um reconstituinte. Não tenho me sentido bem nos últimos dias. - Desde quando, exatamente? - Desde que lhe conheci você. Ele o tomou o sobre com os pós e ela correu até ele, disposta a arrebatar-lhe ele fez um gesto torpe e exagerado e derramou o conteúdo. Os grânulos se dispersaram e se filtraram por entre a trama do tapete. - Oh, não! - lamentou-se ela - . Olhe o que fez. Ajoelhou-se e tentou recolhê-lo, mas resultava impossível recuperar as partículas. Elevou o olhar, tão aflita que ele quase lamentou ter se comportado como um asno. Quase. Sentia-se muito cativado pelo modo como até a mais mínima expressão se refletia em seu formoso rosto. - E o que é isto? Ele agarrou o frasco e o sustentou contra a vela. O líquido parecia vinho tinto e se perguntou se o seria. - É… um remédio para doenças femininas. - Seriamente? Está doente? - Escrutinou sua cativante figura; seu olhar se entreteve ao chegar aos seus peitos. - Refiro a alguma doença feminina. Em minha opinião, tem um aspecto fabuloso. O rosto da jovem voltou a adquirir um delicioso tom ruborizado e ele abriu o frasco, o que a aterrorizou. - Dê-me isso Marcus! Não brinque com isso.
    • Ele elevou o frasco até onde ela não podia alcançá-lo, embora a jovem tentasse apanhá-lo por todos os meios. Seus esforços a obrigaram a apertar-se contra Marcus, o que permitiu a ele distinguir cada milímetro de seu delicioso torso. Seu corpo era exuberante embora esbelto, luzia curvas nos pontos precisos, e ambos encaixavam entre si à perfeição. Saltavam faíscas, o ar se eletrificou com sua proximidade. Ele a atraiu para si, seus dedos lhes subiram por suas nádegas. Seu ventre estava pressionado contra o dela. Seu falo reagiu tornando-se rígido como uma pedra e se inclinou sobre ela. Bem podia ser uma moça inocente, mas quando o corpo daquele homem começou a mover-se contra o seu, ela pareceu petrificar-se e perder o fôlego, surpreendida. - Você também o sente, verdade? - perguntou-lhe. - Não, - mentiu ela. - Isto tem que ocorrer, Kate. Se lembrando das palavras do farmacêutico, ela empalideceu. Haveria-lhe dito o mesmo aquele homem? Repicou com os dedos no frasco e ingeriu de um gole seu conteúdo. Mas não era vinho, tal e como tinha imaginado, a não ser um pouco mais terroso, mais adocicado. - Marcus! Não! Arremeteu contra ele, mas não conseguiu impedir que apurasse o frasco. - Eu adoro que me chame Marcus. Nesse mesmo instante começou a sentir peso nos braços. Caíram de lado e ela recuperou o frasco. - Não posso acreditar que o tenha bebido! - gemeu - Por que o fez? Está louco? - Tomemos um pouco de vinho? Entre nós não está ocorrendo nada que uma leve embriaguez não possa solucionar. - Não preciso me embriagar! Necessito intimidade, e solidão, e… e… e… Para surpresa dele, as lágrimas alagaram os olhos de Kate. Não suportava ser testemunha de sua dor, por isso decidiu afastar-se um pouco dela e servir o vinho. Sentia as pernas pesadas, mas os sentidos mais aguçados. As cores eram mais vivas; os aromas, mais fortes; os sons, mais intensos e reais. De fato, acreditava-se capaz de ouvir o tictac de um relógio situado no andar de baixo. Talvez o elixir não fosse mais que um narcótico. Não era usuário de ópios e outros soníferos. Tais substâncias se distribuíam com freqüência nas festas em que acostumava ir como convidado. Entretanto, enquanto estas produziam uma sensação de plácida letargia, nenhuma lhe tinha afinado a percepção daquele modo. Voltou-se. Ela olhava pela janela. Estava radiante, um halo dourado parecia envolvê-la; suas mechas escarlates desprendiam um quente
    • ardor. A sensação que o entusiasmou foi tal que inclusive lhe provocou certas moléstias no peito. Tinha a impressão de que o coração lhe crescia nas vísceras, aprisionado sob as costelas. O gelo que o havia recoberto durante muitos anos começava a derreter-se e suas gotas se transformavam em sangue renovado. «Aí está!», proclamou uma voz ditosa. Marcus se sentiu aflito pela certeza de ter estado esperando-a toda a vida sem saber, e que seu destino tinha chegado, ao fim. Ante seus olhos desfilou uma rápida seqüência de imagens nas que apareciam os dois, imagens de outras épocas, juntos em infinidade de vidas anteriores. Perturbado pelos potentes efeitos da droga, sacudiu a cabeça em um intento de pensar com maior claridade. Teve que fazer grandes esforços para manter a compostura, pois em tal estado de confusão não estava seguro do que seria capaz de dizer ou fazer. Aproximou-se de suas costas. Precisava estar com ela, tocá-la, mas ela não se voltou. Sentia tal sintonia com ela que acreditava poder ler seus pensamentos, e assim conheceu muitos mais detalhes. Kate sempre tinha estado sozinha, isolada. Ansiava amar e ser amada, encontrar a alguém que a apreciasse. Sentia-se abandonada e desejava companhia e carinho. Tal e como ocorria a ele, emocionava-a ter despertado seu interesse, mas também temia que pudesse feri-la e que as feridas em seu coração não chegassem a cicatrizar. Ele sorriu, pegou-a pela cintura e a girou até ter a de frente. Ela seguia sumida em um silêncio taciturno, por isso ele a puxou e a beijou na fronte. - Não vou ferir-te. Prometo. - Não posso acreditar que não vá fazer me nada mais. - Não, não vou fazer te nada mais - confirmou ele, desesperado por tranqüilizá-la- . Eu… eu… Interrompeu-se, confuso e desconcertado. Tinha estado a ponto de lhe confessar que a amava, o que não era possível. Não amava a ninguém. Jamais o faria. Disso estava seguro. Eram os efeitos da poção e sua assombrosa capacidade para nublar a mente. Não era de sentir saudades que Kate se houvesse sentido tão inquieta para procurar um antídoto. - Vêem, a convidou. Entrelaçou seus dedos e a conduziu à cama. Ela o seguiu, resignada. Marcus se deitou e fez que Kate se deitasse sobre ele. Tinham ultrapassado já o limite até onde ela podia lhe dissuadir. Marcus desfez o laço que Kate usava no cabelo e liberou suas avermelhadas mechas, que se derramaram como uma cascata carmesim sobre o ombro. Estreitou-a com ternura. Seus seios ficaram em contato com seu peito, seus mamilos lhe cravavam como lanças. O tecido do négligé era tão fino
    • que Kate parecia nua. Marcus notou como seu falo se endurecia e palpitava com renovada obrigação. - Está obcecado em me ter - aventurou ela. - Sim. - Até onde? - Não sei. Ele a fez rodar sobre um lado até tê-la debaixo de si, mas se deteve o constatar que aquele era o instante com o qual tinha sonhado infinidade de vezes. Podia visualizar tudo o que ia ocorrer, como se desenvolveria o encontro, como concluiria. Ou, ao menos, isso acreditava. A perigosa poção lhe tinha aturdido de tal modo que era já incapaz de distinguir entre fantasia e realidade. - Já deitou alguma vez com um homem, Kate? Ela bufou. - Centenas de vezes. Os homens fazem fila frente a minha porta. Não posso afugentá-los com uma vara. - Tem idéia do que desejo de ti? - Não. Mas tinha estado em seu dormitório, tinha-o visto com Pamela. De modo que tinha uma ligeira idéia. Sentindo-se virgem, aprendendo também, ele a beijou. Era uma mulher única, delicada, e ele estava apaixonado. Aterrava-lhe proceder muito depressa, ser muito exigente e assustá-la com sua crescente paixão. Tinha previsto que cada instante seria extraordinário e tinha que lhe demonstrar quanto a apreciava. Mas como? Nunca lhe tinham importado seus amantes. Nunca tinha se preocupado com a felicidade delas. Mas com ela se sentia como um moço com sua primeira noiva. Marcus a estreitou ainda mais; acariciou-lhe o lábio inferior com a língua, lhe pedindo permissão, lhe pedindo permissão uma e outra vez. Finalmente, Kate abriu a boca e o acolheu. Ele brincou sem pausa e a atormentou. Alagou-a de carícias e, muito devagar, os braços dela se renderam ao redor de seu corpo. Ela ansiava lhe devolver as carícias… mas não sabia como. - Está bem que me toque, Kate. Eu gosto. - Faz com que eu deseje ser perversa. - Nunca acreditei que um pouco de perversidade seja uma qualidade negativa nas mulheres. - Já. Apertou-se contra ele; seu ardor crescia, excitante, cativante. Paquerava com a libertinagem própria de uma cortesã, mas também com a naturalidade e a curiosidade de uma donzela. Aquele paradoxo o deixava louco. Em sua exploração, introduziu os dedos entre seus cabelos. Foi descendo pelo pescoço e os ombros até as costas, mas não se atreveu a ir
    • mais à frente. A expectativa pelo que faria a seguir, a ânsia e o ardor subseqüentes, empurravam-no com força a um precipício. Em questão de segundos, Marcus estava muito excitado para seguir sendo prudente e se inquietou ante a idéia de ter instigado algo temerário, algo irreversível. Estava disposto a deflorá-la? Podia lhe roubar a castidade, ali e nesse momento, sem apenas deliberação nem preparação? Estava preparada? Estava-o ele? Tirou o cinto de seu négligé e o tirou, deixando ao descoberto a voluptuosidade de seus doces seios. Tinha os mamilos eretos e ele os beliscou e os apertou com os dedos. - OH, Marcus… Não deveríamos… Não podemos… Não pode… - Podemos fazer o que quisermos, Kate. Ninguém vai dizer-nos o contrário. - Mas não está bem. - Está bem. - É a poção que bebeu. - Acreditava tê-la ouvido dizer que era um remédio para doenças femininas. Surpreendida em uma mentira, ela balbuciou: - Bem… Verá… Sim, é um remédio, mas é evidente que está fazendo que se comporte de forma irracional. - Crê que fazer o amor é algo irracional? - É porque está obcecado por me converter em seu amante. - Tenta me convencer de que tive que me beber uma poção para que me cativasse? - Esboçou um sorriso malicioso. - É perfeita, Kate. E é minha, toda minha. - Não compreendo o que quer de mim - protestou, aflita. - Sim, sabe. Abandonou sua boca e desenhou um caminho por seu pescoço e seu peito até um mamilo. Deteve-se nele para lambê-lo e sugá-lo; não acreditava na sensação de quietude e conforto que sentia. - Oh, sim, sim… - suspirou ela, e pareceu acrescentar: sonhei com isto… Não estava seguro de tê-la ouvido bem. Tinham experimentado o mesmo sonho erótico? Era possível? Ou só se tratava de outro dos desconcertantes efeitos da droga? Ela o estreitou mais contra si, dando-lhe vontade de devorá-la. Marcus beliscou e mordiscou, até que o seio estava totalmente empapado e ela inflamada; logo trocou de peito e investiu nele a mesma dedicação. Logo mais abaixo, Marcus começou a pressioná-la, deixando-a comprovar quão duro estava, quão desesperado estava por tê-la, e Kate se adequou a seu ritmo, movendo seus quadris furiosamente. A paixão dela crescia por momentos e ele estava ansioso para levá-la ao limite, para conseguir que o transpassasse.
    • Começou a atirar de seu négligé, e ela tinha perdido o controle de tal modo que não percebeu suas intenções até que sua mão chegou ao vértice de suas coxas. - Marcus, não! Tentou escapulir-se, mas lhe colocou uma perna entre as suas e bloqueou qualquer movimento. - Relaxe, Kate, me deixe fazer isto por ti. Ele mediu e introduziu dois dedos até o fundo. Estava úmida, preparada para o que ia chegar, lhe empapando a mão. Arqueou-se e gemeu. - Não, não o faça… É muito… muito… - Depravado? Delicioso? - Sim. E não o posso suportar. Ferroou com o polegar seu centro sexual e ela gritou surpresa; seu corpo lutava para chegar ao final, inclusive quando sua mente tentava arrancá-la dali. - O que me está fazendo? - conseguiu ofegar. - É prazer, querida. - Não quero isto de ti. - Talvez não, mas você corpo está pedindo a gritos. - Não posso, - choramingou. - Não o farei. - Por mim, Kate. Faça-o por mim. Tocou-a outra vez, enquanto sugava seu mamilo, e ela gritou desesperada e saltou para o precipício com uma ferocidade que não tinha encontrado em nenhuma de seus anteriores amantes. Estava convencido de que era seu primeiro orgasmo e atônito de ter conseguido estimulá-la para uma excitação tão desenfreada. A agitação foi crescendo e crescendo até que finalmente chegou à cúpula e começou a acalmar-se. Moveu-se sobre ela e a beijou suave, meigamente, assombrado de que tivesse acreditado nele o suficiente para perder o controle, de que pudesse comportar-se assim em sua presença. Piscou e abriu os olhos, sem estar muito seguro do que esperava, possivelmente um suspiro delicado ou talvez um de seus lacônicos comentários. Entretanto, Kate o olhou atentamente e logo rompeu a chorar. - O que ocorre? - perguntou ele com o coração encolhido. Tomou o manto e os cobriu a ambos. - Era isso paixão feminina? - Um exemplo fascinante. - Sou uma perdida? - Absolutamente. - Crê que o levo no sangue? - Sem dúvida.
    • Ele brincava, mas o comentário a assolou. Seguiu um prolongado intervalo de pranto. Durante o dilúvio, ele se aninhou ao seu lado, lhe sussurrando palavras doces, estava atônito de sua própria reação. Nunca antes tinha confortado a uma mulher angustiada, nunca havia se sentido inclinado a ficar durante uma exibição de dramatismo. As emoções de uma mulher não tinham impacto algum na relação que mantivesse com ela, de modo que em sua presença não permitia uma explosão de fúria ou de dor. Não sendo especial para ninguém, ninguém se atrevia a lhe impor tal comportamento; nesse momento considerou este fator uma triste verdade sobre a tônica de sua vida. Vivia isolado, algo que nunca antes lhe tinha preocupado. Tinha gostado de sua existência independente, mas se sentia sozinho e começou a perceber que, em realidade, tinha estranhado a doce satisfação que percebia ao consolar Kate. Apenas se conheciam, mas lhe proporcionava valiosas oportunidades para mudar sua conduta, a visão que tinha de si mesmo. Uma faísca de emoção se prendeu em seu interior. Talvez não fosse tão frio e insensível como outros supunham. Finalmente, Kate pareceu ir sossegando-se; sua respiração se acalmou e ficou meio adormecida, o que foi outra surpresa para ele. Quando estava com uma mulher, jamais se detinha até ter satisfeito por completo sua luxúria. Ficou muito quieto, analisando cada detalhe do precioso momento. Seu sutiã estava aberto e desordenado; o recompôs e a cobriu com as mantas. Estava tão exausta que nem sequer se moveu e ele a beijou imperceptivelmente nos lábios. - Boa noite, minha querida Kate - murmurou. - Verei-te pela manhã. E como se tivesse ouvido e compreendido suas palavras, Kate sorriu em sonhos. Ele tinha tido a intenção de levantar-se e ir-se, mas não conseguia mover-se. Decidiu descansar a seu lado uns minutos mais. Fechou os olhos e, quando despertou, a primeira luz da manhã despontava já e um pássaro gorjeava no jardim. Rodou sobre si mesmo para abraçá-la, mas ela não estava. Olhou ao seu redor e ficou atônito ao comprovar que estava em seu próprio quarto, em sua própria cama. Aturdido, sentou-se e de repente notou na cabeça as palpitações de uma dor tão aguda que acreditou que ia estalar lhe em qualquer momento, como se tivesse a pior ressaca de todos os tempos, e não havia motivo para isso. Não tinha bebido nada, exceto a maldita poção. Quando tinha abandonado o quarto de Kate? Como tinha chegado ao seu? Tinha sido seu encontro um sonho? Estava desorientado, enjoado, sua memória oscilava. Eram reais suas lembranças ou só outra das fantasias eróticas que sua imaginação seguia conjurando? Ao olhar a mão, surpreendeu-se ao descobrir entre seus dedos a fita verde que Kate levava no cabelo e que ele tinha desatado. Um
    • comentário do farmacêutico reviveu em sua mente: a posse de um objeto era um sinal inequívoco de que o misterioso elixir tinha funcionado. Estremeceu. Não havia no mundo magia alguma que pudesse fazer que se apaixonasse. Já tinha acontecido uma vez e quase tinha morrido em conseqüência da profunda ferida; jamais voltaria a ser tão insensato. A fita era uma simples prova de que o encontro realmente tinha culminado, que tinha estado com ela. Não significava mais que isso, era impossível. Perguntou-se se ela se teria levantado já e tinha curiosidade por saber o que pensaria das intimidades que tinham compartilhado. Sem dúvida, estaria envergonhada e tentaria evitá-lo, mas ele não o permitiria. Kate era como um ouriço sob seus arreios, sua proximidade o aguilhoava, incitava-o a falar com ela, a estar com ela. Evitando os batimentos da enxaqueca, levantou-se e se dispôs a vestir-se e ocupar-se de seus assuntos. Pediu o café da manhã, já com energia renovada, e enquanto esperava que aparecesse algum dos serventes, pesou todas as possíveis maneiras de garantir que miss Kate Duncan lhe entretivesse o resto do dia e também a noite. A perspectiva era excitante e em seguida percebeu de que fazia muito, muito tempo que não se sentia tão entusiasmado.
    • Capítulo 7 - Que amável é por me acompanhar. - Kate brindou um sorriso afetuoso ao Christopher. - Como podia me negar? - Está seguro de que não se importa? - Se não tivesse querido vir, teria lhe isso dito. Deixe de preocupar-se. - Bom, não preferiria se dedicar a outras atividades na casa? Qualquer delas seria mais divertida que andar por Londres comigo. - Já tive minha ração de atividades na casa de lady Pamela - Christopher se relaxou sobre a almofada e estirou as pernas, o que não era fácil naquela estreita carruagem. - Acredite, estou encantado de ter uma desculpa para escapulir da mansão. Estava ele tão cansado como ela dos complôs matrimoniais? Ou estava farto dos olhares ladinos das mães que o mediam para verem se podia ser um marido digno para suas filhas, ricas e disponíveis? Chris sempre se mostrava otimista e entusiasta, amável e educado, e Kate o adorava por isso. - Prometa que nunca informará a sua mãe de aonde fomos hoje e que nunca me perguntará sobre o que estou fazendo. Exasperado, pôs os olhos em branco. - Já te dei minha palavra dez vezes! - Pois façamos que sejam onze. - Sobre uma pilha de Bíblias, juro! Levou-se a mão ao coração e Kate riu. Tinha que visitar Selena, não por curiosidade, mas sim por dever, mas carecia de dinheiro para alugar um serviço e tampouco podia usar a carruagem familiar. Não estava em disposição de pedir nada a lady Pamela e a única pessoa a que podia ter recorrido era Stanford, mas teria engolido uma rã antes que aproximar-se dele. O homem era um bruxo, um feiticeiro, um depredador de mulheres despreparadas; obrigava-as a cometer atos que elas nem sequer tinham imaginado. Pelo menos, essa era a conclusão a que tinha chegado depois de observar seu comportamento. Não existia maneira humana de convence-la de que não tinha desfrutado da travessura, que se sentisse cúmplice da perda absoluta de sua honra. Se tivesse protestado, possivelmente ele se teria detido. Em qualquer momento poderia ter escapado de suas garras. Mas não pôde porque sua verdadeira natureza emergiu. Era uma rameira. Tudo era culpa dela. Era um alívio ter uma missão que a afastasse da mansão por toda a tarde. Negava-se a encerrar-se e deprimir-se em seu dormitório, perguntando-se onde estaria ele, no que andaria ocupado e se, por acaso, estaria pensando nela.
    • Christopher tinha sido uma salvação, encantado de ajudá-la e bastante discreto para não crivá-la com perguntas sobre seu encargo. A carruagem emitiu um ruído surdo e se deteve. Estranhando, Chris deu uma olhada através das cortinas. - Está segura de que tem o endereço correto? - Sim. Por que? - Não estamos no melhor subúrbio da cidade, precisamente. Talvez não deveria te deixar sair. Ocultando seu desalento, ela também saiu a rua. A zona era sórdida em extremo. Indivíduos desalinhados perambulavam pelas ruas e um grupo de meninos esfarrapados passou correndo junto a eles. O edifício que tinham em frente estava em ruínas, a pintura descascada, a cerca desmantelada. O lugar a desconcertou. O imóvel parecia albergar diferentes apartamentos, de modo que não podia tratar-se da casa que tinha alugado para Selena. Kate tinha visto as faturas que sua irmã enviava e estava à corrente da quantidade que pagava todos os trimestres. Era impossível que aquela generosa soma desse para tão pouco. Embora, obviamente, aquilo era Londres e Kate não tinha idéia de quanto custavam os produtos e os serviços na cidade. Mesmo assim… - Poderia perguntar ao condutor, se por acaso não entendeu bem minhas indicações? - É obvio. Chris saiu para falar com os serventes e retornou consternado. - É aqui. Observou-a e deveu perceber sua inquietação. - Kate, pode confiar em mim, não vou contar a ninguém. Não podia saber o que Christopher conhecia os escândalos de seus pais. Se lhe confessasse os detalhes e lhe pusesse à corrente da verdadeira ascendência da Selena, talvez ele se sentisse aflito ou sentisse repugnância, e não podia pôr em perigo sua amizade. - Não é nada horrível, como sem dúvida imagina - mentiu. Só devo visitar uma velha amiga de minha mãe. Ao Christopher não passou por cima que sua resposta tinha sido uma invenção para sair da situação, mas a deixou continuar com o ardil. Sua sincera preocupação a fez sentir-se mesquinha e mentirosa. - Está segura de que tem que fazer isto? - insistiu. - Só demorarei uns minutos. Estarei de volta em seguida. Kate se apressou a sair antes que ele pudesse fazer mais pergunta e a compelisse a dizer toda aquela história, tão sórdida. Franqueou a maltratada grade e se encaminhou pelo atalho que desembocava em um alpendre decrépito e sujo. Umas escadas insalubres levavam aos pisos superiores. Do muro pendurava a lista dos residentes; o alojamento da Selena parecia estar ao final do corredor principal. Ao chegar ali, Kate bateu na porta.
    • Sua meia irmã não tinha idéia de quem quereria visitá-la e a Kate lhe acelerou o pulso de medo e antecipação. Sentia-se tão emocionada como aterrorizada. Como seria Selena? Combinariam? De repente, Kate percebeu que a opinião da Selena lhe importava muito e desejou ter posto um chapéu ou um vestido novo para a ocasião. Uma criada abriu a porta e, ao conhecer a identidade de Kate, comportou-se rudemente, como se sua mera presença a enojasse. Foi escoltada a um saguão lúgubre e frio. Do piso de acima lhe chegava o barulho dos vizinhos brigando. Enquanto esperava que aparecesse Selena, observou os móveis puídos, as cortinas e os tapetes desfiados. Sua consternação aumentou. Tinha imaginado Selena em um lugar acolhedor. Como podia ter relegado à moça a uma existência como aquela? Tinha que retificar a situação, mas não estava segura de como ia fazer o nem a quem poderia consultar. Regina era incapaz de falar sobre Selena sem rancor nem ressentimento. Christopher só tinha dezoito anos e escassa experiência em assuntos de adultos. Talvez ficaria em contato com o senhor Thumberton, o procurador que a tinha ajudado à chegada da Selena a Inglaterra. Não podia estar à corrente das condições deprimentes às que a tinham abandonado. - Kate! Kate! - A alegre boas-vindas da Selena retumbou do fundo do apartamento; suas palavras melodiosas se alinhavavam em um encantador acento estrangeiro. - Vieste, por fim! Estou tão contente! Kate tomou fôlego, preparada para quanto pudesse acontecer, quando Selena irrompeu na estadia como dançando. Esbelta, elegante, formosa, parecia-se com Kate, mas tinha mais graça, era mais magra, mais exótica, mais misteriosa. Ambas se assemelhavam a sua mãe, não havia dúvida alguma de que eram parentas diretas, mas Selena tinha os olhos e o cabelo negros, e um brilho dourado na pele que Kate nunca antes tinha visto. - Kate, minha querida irmã! - Selena correu para Kate, pegou-a nas mãos e a beijou em ambas as bochechas. Quanto desejei que chegasse este maravilhoso dia! Kate estava desconcertada ante tanta cordialidade. Além dos cuidados ímpios de Stanford, não recordava de ninguém que a houvesse tocado antes. Estava tão isolada que freqüentemente pensava que vivia em uma bolha. Várias lágrimas apareceram em seus olhos. Apressou-se a seca-las com uma mão enquanto Selena a abraçava com calor maternal e a guiava para um sofá próximo. - É maravilhoso te conhecer fim, - conseguiu dizer Kate com voz trêmula. Outra mulher lhes uniu, uma matrona algo major cuja presença sumiu a Selena em uma alegria desenfreada.
    • - Miss Fitzsimmons, Kate chegou! Não é maravilhoso? - A mulher não fez comentário algum, mas cravou no Kate um olhar, reprovador que a alagou de culpa. - Miss Fitzsimmons é a dama de companhia que contratou para mim - esclareceu Selena, - foi uma bênção. Kate assentiu, tentando mostrar-se sociável, o qual era difícil ante o escrutínio crítico e nada amistoso de Fitzsimmons. - É um prazer, miss Fitzsimmons. Ante a ausência de alguma réplica cordial, a risada alegre da Selena suavizou o estranho intercâmbio. - Não ligue. É tão protetora… Edith - disse, dirigindo-se a miss Fitzsimmons- , vamos pedir que nos tragam o chá. Ou ainda melhor, tomemos um pouco de vinho. Isto merece uma celebração! - Não tem chá nem vinho, miss Selena - replicou miss Fitzsimmons com tom azedo e dirigindo de novo seu odioso olhar a Kate, como acusando-a de ter ido à despensa e ter roubado as provisões. - Esqueceu? Passamo-nos do limite e não pudemos comprar mais. Fitzsimmons partiu irada e Kate a observou, com uma confusão crescente. Como era possível que não tivessem bebidas? Tinha autorizado muitos gastos, nunca tinha negado nenhuma dos modestos pedidos de sua irmã. Selena se ruborizou mas sorriu ante o insulto que se proferiu. Kate se assombrou com sua maturidade e compostura. Tinha um estilo e uma aura das que careciam as moças inglesas, como Melanie, embora fosse certo que Selena tinha sofrido mais que nenhuma delas. Como Kate bem sabia, a tragédia fazia crescer mais depressa. - É uma surpresa esplêndida, - comentou Selena assim que ficaram sozinhas. - O que te trouxe para Londres? - A festa de comprimento de lady Melanie. - Magnífico! - Selena suspirou. - Não te pareceria divertido… que nós pudéssemos celebrá-la? - Bom… Eu já sou um pouco mais velha. - As duas riram e suas vozes soaram idênticas. - Mas queria que você tivesse a oportunidade. Os meninos que conheci brigariam por te cortejar. - Estiveste em grandes festas e atos? - Em alguns - mentiu Kate, pois só tinha assistido a uma festa, depois da qual, por culpa do descaramento de Stanford, tinham-lhe proibido a assistir a outras. - A nossa mãe adorava as festas. Kate sentiu um tombo no coração ante aquele comentário afetuoso. Recordava muito pouco de sua mãe, por isso a breve frase da Selena lhe resultou eletrizante. Aquele dado ínfimo era para ela como ter encontrado uma pedra preciosa em uma montanha de pedras brutas. Kate murmurou: - Não sabia.
    • - Pois sim. Não havia nada que lhe fizesse desfrutar tanto como por seu vestido mais sublime e suas jóias mais brilhantes. O meu pai também. Eram um casal tão atraente, tão feliz e tão apaixonado… Sua vida era como um conto de fadas. Kate seguiu olhando-a, estupefata. Conhecia poucos detalhes sobre as circunstâncias de sua mãe depois de abandonar a Inglaterra, e a maioria deles lhe tinham chegado através das observações sarcásticas da Regina. Ao conhecer uma versão distinta, os alicerces de sua vida tremeram e o mundo perdeu seu eixo. Mal conseguia manter o equilíbrio. - Era feliz? - Muito feliz, - afirmou Selena. - Tenho algo para ti. Encaminhou-se a um escritório e procurou em uma gaveta, de que tirou uma fina caixa de madeira que estendeu ao Kate. - Isto é para ti. - O que é? - Um dos leques de mamãe. Utilizou-o em suas bodas, assim era seu favorito. Sempre o levava com ela quando assistia à ópera. - Casou-se com seu pai? - Sim, claro! Kate estava aturdida. Casaram-se? Isso significava que Selena não era ilegítima. Como podia Kate ter desconhecido um detalhe tão crucial? Abriu a caixa com dedos trêmulos. O leque era delicado, velho; abriu- o e observou as violetas pintadas com soma meticulosidade e o elegante laço, e lhe abateu a estranha impressão de que podia perceber o aroma de sua mãe naquele objeto. Inquieta, pregou-o, devolveu-o à caixa e fechou a tampa. - É muito valioso. Não posso aceitá-lo. - Insisto - repôs Selena, rechaçando-a. - Ela queria que o tivesse. - De verdade? - Kate se sentia entusiasmada por uma insólita emoção. Selena assentiu. - Além disso, tenho muitas outras lembranças. Nesse instante se ouviu um golpe ao outro lado da porta e as duas ficaram geladas. Kate soube imediatamente que se tratava de Christopher, que quereria assegurar-se de que tudo ia bem, e se reprovou não ter pensado que o moço faria algo assim. Em um instante, a criada já o tinha acompanhado ao salão. Ambas o olhavam como meninas surpreendidas em alguma maldade. A criada estava muito impressionada para apresentá-lo, de modo que Kate se aproximou dele. - Desculpe, Christopher, por te haver feito esperar. - Não estava impaciente, Kate. Só queria me assegurar de que estava bem. - Como pode ver, estou bem. - Sim, já vejo. - Dedicou a Selena um olhar de admiração. - Quem é sua encantadora acompanhante?
    • - Apresento a miss Selena Bela, que acaba de mudar-se a Londres procedente de Veneza. - Encantado - disse cortesmente, e acrescentou com galanteria: - Benvenuta a Grande Bretagna! Kate o olhou assombrada, incapaz de imaginar de onde podia ter aprendido uma frase em italiano. Tinha educação, mas Regina se limitou a ajudar o mais elementar. Embora seu acento era atroz, Selena estava encantada. - Grazie, respondeu. - Selena, este é o Conde de Doncaster, Christopher Lewis. - Oh, vá. Selena não tinha reparado em sua condição e efetuou uma reverência perfeita. Ele se precipitou para ela e lhe suplicou que se incorporasse. - Não há nenhuma necessidade de tanta cerimônia, miss Bela - esclareceu ele- . No fundo não sou mais que um menino de campo e não estou acostumado a tanta formalidade. Brindou-lhe um sorriso sem lhe soltar a mão, prolongando o momento mais que o habitual. Kate lhes olhou e pensou no casal tão delicioso que formavam. Chris, os cabelos loiros e finos de Adonis; Selena, sua morena e ágil beleza. Eram jovens e deslumbrantes. Ambos emanavam um carisma natural e o simples feito de contemplá-los era um prazer. - Estou muito emocionada por sua visita, exclamou Selena. Dá-me a oportunidade de lhe agradecer que tenha sido tão considerado com Kate durante todos estes anos. Kate me tem escrito freqüentemente me falando de sua bondade. Eu agradeço muito. Kate nunca tinha feito nada semelhante e mal que pôde conter a tentação de ir e açoitar a sua irmã por aquela travessura. Em uma ou duas cartas tinha mencionado ao Christopher, mas nunca lhe tinha elogiado. Selena tinha o porte real de uma rainha e Kate estava assombrada de seu decoro, de sua educação. Comparada com ela, Kate não era mais que uma vulgar camponesa; de novo se perguntou o que teria sido de sua vida se sua mãe não tivesse fugido. Chris sorria. - Kate é minha pessoa favorita em Doncaster. - Alegra-me muito ouvi-lo. Kate foi meu anjo. Não sei como teria sobrevivido se não me tivesse ajudado com o traslado. Kate se esforçava por não olhar o lúgubre saguão, mortificada pelo fato de que Selena se mostrasse tão efusiva quando era mais que óbvio que Kate não tinha sido de nenhuma ajuda. Selena era muito generosa. - Como se conheceram? - quis saber Chris. A pergunta tinha sido muito ousada para o gosto de Kate. Aterravam- lhe as perspectivas da tragédia - imaginava a Regina furiosa e se
    • estremecia, de modo que interveio antes que Selena revelasse a verdade, mas sua língua ficou em movimento sem ter decidido o que ia admitir. - É meu… meu… Não conseguia terminar a frase pois não sabia como descrever sua relação. Apesar de que Christopher e ela eram amigos, não podia compartilhar com ele questões como as relações sexuais ilícitas e os nascimentos escandalosos. Selena era incapaz de esperar a dar uma resposta e sua decepção era evidente ante a falta de coragem de Kate, mas a encobriu com estilo. - Sua mãe e a minha, inventou eram muito amigas. Chris as escrutinou, mascarando sua incredulidade. - É maravilhoso que estejam tão unidas. - Não é? A humilhação acendeu as bochechas de Kate. Estava ansiosa para desaparecer, ficar a sós e assimilar tudo o que tinha caído sobre ela como uma avalanche. - Selena, eu devo ir. Envergonha-me ser a causa de que Lorde Doncaster se atrase tanto. - Não há nenhum problema, Kate - manteve Chris. - Nem pensar, intercedeu Selena. Fomos muito sem consideração abusando assim de sua confiança. Mas Kate, por favor, me prometa que voltará logo que possa. - Não consigo imaginar como vou poder fazê-lo, confessou Kate. - Trarei-te sempre que me peça, ofereceu Chris. - Que gentil és! - exclamou Selena. Seu delicioso sorriso iluminava o quarto. Desejosa de partir, Kate tropeçou contra a porta e, na metade da escapada, Selena lhe introduziu sob o braço a caixa com o leque de ópera de sua mãe. Kate estava muito alterada para fazer um comentário ou rechaçar o presente, e nesse momento tampouco lhe teria ocorrido o que dizer, com o Christopher à espreita. Apressou-se para a rua com o Chris lhe seguindo de perto. Quando se dispunha a sair do apartamento, Edith Fitzsimmons surgiu das sombras, sem que seu desdém tivesse minguado um ápice. - Olhe bem ao seu redor, miss Duncan - espetou com mordacidade. Deveria envergonhar-se. Ante o insulto, Kate empalideceu. Fitzsimmons a culpava da situação da Selena, embora ela não compreendesse o motivo, e sentiu a necessidade de defender-se. - Aprovei todos os gastos, miss Fitzsimmons. - Seja, seja; conte outra. - Mas o tenho feito! - insistiu. Não compreendo o que está acontecendo. A mulher soprou zangada.
    • - Sou consciente do que está fazendo senhorita, e não vai sair se com a sua; não, se Edith Fitzsimmons tiver algo que dizer a respeito. Farei que a encarcerem. Espere e verá! Kate tentou de recuperar o fôlego, mas Christopher lhe adiantou dedicando ao Fitzsimmons um olhar furioso que deteve seu ataque. - Nos desculpe, senhora. Depois de tirar-lhe de cima com rudeza, escoltou Kate à rua. Ambos observaram o lugar, pensativos e desolados. - Responda-me a uma pergunta, pediu ele. - Se puder… - Como acabou tão encantadora e jovem dama vivendo em um lugar como este? - Não sei - respondeu Kate, mas tenho a intenção de averiguar.
    • Capítulo 8 Pamela se reclinou na cama de Christopher enquanto ouvia seus passos aproximar-se pelo corredor. Conteve um acesso de ira ao vê-lo entrar no dormitório. Tinham passado já três horas desde que lhe sussurrasse que desejava um encontro particular. Embora ela tivesse mostrado abertamente seu desejo por ele, não haviam tornado a encontrar-se desde aquela primeira e gloriosa tarde, e não podia a compreender como podia ele resistir aos seus encantos. - Olá, querido - cantarolou ao tempo que ele se aproximava. Estava nua, oculta sob um fino lençol. Por um segundo teve a impressão de que o moço ia sorrir, mas em seguida soube que tinha sido um efeito óptico provocado pela chama da vela. - Pamela? - Parecia confuso por vê-la ali. O que faz aqui? - Esperei em meus aposentos - respondeu ela afetadamente, mas não veio. Sentia-me sozinha. Estirou-se e deixou que o lençol caísse a um lado, mostrando seus peitos nus. A atenção que ansiava lhe chegou imediatamente. Christopher sentiu como seu falo ansioso crescia aprisionado pelas calças. - Entretiveram-me. - Quem? Pamela lamentou que aquela pergunta tivesse escapado, pois a fazia parecer uma esposa controladora, mas não tinha podido evitar. Depois de tê-lo acolhido sob sua tutela, não ia permitir que pululasse com gente inapropriada. - Lorde Stanford convidou-me a um brandy. Não podia me negar. - Não, é obvio. Seus passos eram instáveis e ela pensou que tinha tomado alguma taça a mais. Deviam ter falado durante horas e isso a preocupava. Não lhe agradava sua camaradagem com Marcus, ou seja, pelos conselhos que ele podia receber. - O que queria? - perguntou-lhe. Um brilho perspicaz resplandeceu nos olhos de Christopher enquanto a observava. - Advertiu-me sobre os perigos de Londres. - E são muitos? - A maioria está relacionados com a condição feminina. - Estou de acordo. Não é consciente dos desejos que despertas nas mulheres. Deve ser prudente com as companhias que escolha ou poderia se encontrar em um atoleiro se optar pela mulher equivocada. - Sem dúvida. Ela repicou na cama, desejosa do tê-lo ao seu lado.
    • - Por que não vem e fica cômodo? - O que propõe? - Pensava que poderíamos começar por onde o deixamos o outro dia. Pamela se esticou novamente; o lençol deslizou até seu abdômen insinuando suas intimidades. Parece muito tenso. Quer que te dê uma massagem nas costas? Ele considerou a proposta durante uma eternidade. Pamela estava desconcertada ante sua reticência. O que estava pensando aquele parvo imaturo? Considerando sua atitude, bem poderia ter concluído que aquele galhardo era homossexual. Ela se afastou um pouco para que ele pudesse ter uma panorâmica de seu corpo. - Alguma vez lhe deram uma massagem? - Não. - Por que não deixa que esta noite seja a primeira vez? Lambeu-se o lábio inferior, lhe tentando com a lembrança do prazer que lhe tinha proporcionado anteriormente. - Você vai gostar de muito. O jovem acabou decidindo-se. Desfez-se de sua jaqueta e disse: - Estou seguro disso. Ela se incorporou sobre os joelhos e o atraiu para si até que seus corpos se amoldaram; seus mamilos lhe roçavam a camisa. Sem necessidade de receber instruções, ele começou a beijá-la. Ela se deleitou com aquela paixão sem restrições, sua língua em sua boca, seus dedos em seus peitos. Tinha conseguido lhe arrancar qualquer prejuízo que pudesse tê-lo feito duvidar. Queria o ter nu, como ela, e puxou sua camisa, mas não podia tirar- lhe tão depressa como desejava, de modo que a rasgou até lhe deixar o torso à vista. Tinha o peito suave e sedoso, sem pêlo, liso. Pamela acariciou aquela aveludada superfície, tocou-a com admiração e beliscou com ternura seus miúdos mamilos. Christopher notou como seu falo se inchava e parecia querer lhe romper as calças. Pamela se reclinou e o arrastou consigo até que, em um enredo de pernas e braços, caíram sobre o colchão. Christopher era flexível e ágil, e o abraço foi convertendo-se em um pouco mais selvagem à medida que ele adquiria confiança em seus movimentos. Pamela rodou sobre ele até colocar-se em cima, escarranchado sobre seus quadris, e se abateu sobre seu corpo apoiada nas mãos. - Vou ensinar-te tantas coisas… - murmurou. Farei que me peça, que me suplique. Não tem idéia de quanto vais adorar o que posso fazer por ti. «Nem de quanto chegará a me amar!», fantasiou. Ele também a amaria. Era tão doce, tão ingênuo… Pamela desejava que se apaixonasse por ela. Uma mulher ardilosa podia beneficiar-se de um sem-fim de
    • favores tendo um moço tão encantado dela, e até o momento ninguém a tinha considerado néscia. Christopher celebraria eternamente ter perdido a virgindade com ela e contar com alguém que lhe organizasse o futuro; sua vida não voltaria a ser a mesma. Como não ia ficar cativado? Como não ia estar lhe agradecido? Um jovem tão rico e poderoso devia lhe estar muito, muito agradecido. - Ensinarei-te a ser um magnífico amante - lhe disse, lhe passando um mamilo sobre seus lábios impaciente. Você gostaria de aprender? - Sim. - Deve te concentrar em dar prazer ao seu par. - Uma excelente idéia. - É possível excitar a uma mulher. - Seriamente? - Deve se assegurar de que esteja satisfeita. Sua satisfação precisa mais atenção que a do homem. Ele deixou escapar uma risada maliciosa ante aquela fantástica notícia. - Me sugue,ordenou ela, como um bebê a sua mãe. - Assim? Christopher arremeteu contra o topo daquele seio túrgido. - Mais forte, particularizou, muito mais forte. E aperte o outro. Tomou uma mão, colocou-a sobre o outro peito e lhe mostrou como devia amoldá-la e acariciá-la. Era um tutelado hábil, que executava cada uma de suas indicações; sem deixar de sugá-la, seus movimentos foram tornando-se mais assertivos e agressivos. Era um gênio para ler suas reações, para descobrir como fazê-la estremecer e contorcer-se. Tinha acreditado que seria ela quem orquestraria o encontro, quem ditaria o ritmo, mas recebia tal estimulação que mal podia conter-se. Ele a arrastou logo até o limite, o que lhe surpreendeu. Estava acostumada a ter dificuldades para chegar ao orgasmo e seu par devia ser extremamente habilidoso para levá-la ao clímax. O vínculo carnal era diferente com ele, embora não compreendesse o motivo. Queria que o encontro fosse especial, que não se limitasse a um manuseio na escuridão. - Vamos tirar-te a roupa, querido. Desabotoou-lhe a calça. Ele contribuiu tirando os sapatos e outros objetos. Ela se deteve admirando o contorno de seu torso atlético. Não tinha um só defeito, era viril e arrebatador. Rodeou com uma mão seu verga proeminente para que ele pudesse empurrar e retroceder. A luxúria adolescente despertou nele; estava preparado para correr- se, mas ela não permitiria que acabasse com a mão. - Sabe como copulam um homem e uma mulher? - Ouvi algo a respeito. Ela guiou seus dedos entre suas pernas, lhe ensinando a investigar seu sexo barbeado, seu fluxo denso.
    • - Vou colocar-te dentro de meu corpo. Será maravilhoso para ti. Nunca haverá sentido nada assim. Ele não respondeu e, se estava nervoso, não o demonstrou. Relaxando-se sobre as costas Pamela abriu as pernas e o atraiu contra seu corpo. Tomou seu falo e o guiou para sua entrepernas ansiosa. Ele se deslizou dentro sem impedimentos. - Oh, Deus! Os olhos de Christopher se abriram, perplexos. - Sim, é maravilhoso. Agarrou-o pelas nádegas e moveu seus quadris, lhe indicando o ritmo, mas o excesso de sensação era entristecedor e em breves instantes ele se correu, explodindo com grande alívio. Ela o abraçou até que a agitação minguou. Embora seus músculos se relaxassem, ele seguia parecido a ela, com o membro rígido e disposto a outra rodada. Tinha um olhar de animal assustado, como se tivesse feito algo ruim. - Sinto ter terminado tão depressa - se desculpou, não pude evitar. - Era sua primeira experiência. Um acoplamento apressado é exatamente o que se espera de tais circunstâncias. - Mas teria que ser mais lento? E mais… romântico. O menino era delicioso. - Com a prática será capaz de controlar a espiral. Isso forma parte da diversão. Quanto mais dure, quanto mais desfrutará. Ele sorriu. - Acredito que deveríamos tentar outra vez. - Que grande idéia! Sem pausa nem explicações necessárias, Chris se flexionou e captou imediatamente o que devia fazer. Kate penetrou no quarto do Marcus, decidida a desfazer-se do anel (e dele!) de uma vez por todas. Não estava segura do que tinha desencadeado ao beber-se aquela poção, mas tinha que pôr fim aquele assunto tão estranho. Não podia ter se apaixonado pelo Marcus Pelham! Não se apaixonaria. Era muito racional e pragmática. Embora estivesse acostumada a burlar-se das superstições, estava desesperada para romper toda conexão que pudesse haver-se estabelecido com aquele libertino e poderoso nobre. Se separar do anel ia proporcionar-lhe paz de espírito e estabilidade em seus assuntos pessoais, merecia a pena correr qualquer risco para devolvê-lo. Depois de seu encontro com Selena, Kate sentia que suas febris emoções se desbocaram. O menor obstáculo no caminho poderia reduzi- la a pedacinhos; se sobreviesse uma catástrofe, não ia ser capaz de superá-la.
    • O anel encarnava uma tragédia a ponto de estourar. Tinha que desfazer-se dele com discrição e não havia melhor oportunidade que ao final da tarde. Stanford vivia em um apartamento (sobre uma sala de jogos, nada mais e nada menos), e nunca se aproximava da mansão a menos que fosse para torturá-la ou para mofar-se de Melanie. A essa hora não estava ali. Os criados se encontravam no andar inferior, tomando chá na cozinha antes de começar os preparativos do jantar. Kate poderia entrar no dormitório e retornar rapidamente. Entrou com o pulso acelerado. Apoiou-se contra a fria madeira da porta e aguçou o ouvido, segura de que morreria de medo e vergonha em caso de topar-se com alguém naquele momento. Sobre uma cômoda descansava um cofre no que ele guardava as jóias. Aproximou-se nas pontas dos pés e depositou o anel em seu interior. Logo removeu o abundante conteúdo para que desse a impressão de que o anel nunca tinha saído dali. No instante de soltá-lo, apoderou-se dela uma estranha tristeza. O anel tinha trazido excitação e dramatismo, tudo com que tinha fantasiado até então na escuridão da noite mas que nunca se atreveu a procurar com a luz do dia. Afligiu-a a sensação de estar abandonando um importante elo com seu autêntico eu. Agarrou-o por última vez e o aproximou do coração. O ouro estava quente e as pedras pareciam brilhar e vibrar. - Kate, ouviu dizer a uma voz tênue situada a suas costas. Soltou o anel como se fosse uma brasa e rezou. «Por favor, senhor, não deixe que seja Marcus. Sou tão fraca… Não posso resistir a ele ou às coisas que me contribui na vida.» - Kate - sussurrou ele de novo, alegra-me tanto que esteja aqui… Enquanto se voltava para ele, seus confusos sentimentos se debatiam entre o terror e a exaltação. Marcus estava apoiado contra a porta que conduzia à estadia adjacente, embelezado unicamente com umas calças brancas muito finas, os que ela imaginava que um sultão devia escolher quando se dispunha a entreter a seu harém. Acabava de banhar-se e a umidade ainda refulgia em sua pele. Levava o cabelo molhado, penteado para trás. Sendo a primeira vez que via o corpo de um homem semidesnudo, Kate estava fascinada, encantada, segura de que aquele era um ótimo exemplar. Tinha os ombros largos, a cintura fina, as pernas esbeltas. Uma capa de pêlo escuro cobria seu peito. Era espessa na parte superior, mais espaçado no centro e descendia para rincões que era incapaz de sondar. Não se tinha barbeado e uma leve sombra lhe cobria as bochechas. Seus olhos eram incrivelmente azuis. Parecia perigoso, tentador, sedutor; a aterrava como poderia comportar-se em presença daquele homem. Com apenas um estalo de seus dedos, entraria em transe, disposta a cometer qualquer loucura que lhe pedisse.
    • Marcus esboçou um sorriso enviesado e lhe perguntou: - Decidiu me roubar alguma outra jóia? Kate não podia falar, nem para negar a acusação nem para defender- se. Ele se aproximou dela até tê-la a apenas uns centímetros. A Kate assaltou o aroma de água quente e sais de banho. Marcus alargou uma mão para o cofre, passando por cima do ombro dela; ali encontrou o anel que tinha posto em perigo a reputação da jovem. - Vejo que já o devolveu. Já não o quer? Ou encontrou algo que você goste mais? Rindo, elevou-o e o observou a contraluz para comprovar que conservava todas as pedras preciosas. - Sinto que não possa ficar com este, mas estarei encantado que escolha qualquer outro. Estendeu-lhe o cofre, exortando-a a escolher, e a montanha de tesouros sem preço brilhou, pondo-a em interdição, condenando-a, por sua vida aborrecida e vulgar. Ele suspirou. - Sabe? Na realidade quase não me importa que me roube. Devolveu o cofre à cômoda. - Mas preferiria que não o fizesse. Considero que somos bons amigos. Se tiver problemas ou necessitar minha ajuda, pode confiar em mim. Ajudarei-te. - Não estava roubando, disse ela ao fim. Rígida como uma tábua, com os braços junto ao corpo, lutava contra a assustadora necessidade de lhe acariciar o peito. Se o tocasse, não podia predizer em que tipo de pecado incorreria esta vez. Ele esperou a que ela se explicasse ou justificasse suas ações e, ao ver que não o fazia, sua decepção foi evidente. Tinha esperado mais dela, tinha esperado que confiasse nele. - Ocorreu algo mau? Ela estava aturdida pela pergunta. - Não. Por que? - Parece preocupada. Acaso levava os problemas escritos na cara? - Não estou. - Pode me contar isso tudo, Kate. Apesar do que tenha ouvido sobre mim, não te falharei. Parecia sincero e veemente, e lhe inspirava confiança para compartilhar com ele seus segredos. Não era habitual que a gente se interessasse por ela, que lhe mostrassem preocupação ou oferecessem apoio. Ele tinha os ombros robustos, o tipo de ombros que podiam suportar facilmente os problemas de uma mulher; seria um alívio confessar-se sobre sua mãe, sobre a Selena, lhe pedir seu conselho sobre os pormenores no relativo às finanças de sua irmã. Era rico e estava
    • acostumado a dirigir dinheiro diariamente. Mas quando estava a ponto de fazê-lo, sentiu-se incapaz. Tal e como Regina não se cansava de lhe advertir, Kate ficava em ridículo quando falava de seus pais. Suas ignomínias flutuavam sobre ela e provocavam que outros especulassem sobre sua integridade e seu caráter. Embora parecesse absurdo, estava ansiosa que Stanford, gostasse dela, que desfrutasse de sua companhia, o que até o momento parecia fazer. Encontrar-lhe tinha sido o único acontecimento extraordinário em sua aborrecida e sórdida existência, e não queria fazer nada que pudesse mudar os cuidados que lhe dedicava. Além disso, por que ia ele a misturar-se em seus miseráveis e aborrecidos dilemas familiares? Sempre se vangloriava de sua escassez de ligações, de seu isolamento e solidão. Nunca entenderia o porquê de suas preocupações, tacharia-a de louca. - Não estou preocupada, mentiu. E não sou uma ladra. Só vim porque… - Senti sua falta todo o dia, interrompeu ele. - Não diga essas ridicularias. - Por que não? - Porque sou o bastante imprudente para desejar que seja verdade. - Oh, Kate, em um conceito tão baixo me tem? Crê que jogaria contigo e te deixaria sucumbir baixo falsos louvores? - Sopesou suas palavras e pôs-se a rir. Não responda a isso, por favor. Sem lhe avisar, inclinou-se e estampou um tenro beijo sobre seus lábios. O movimento a desconcertou, acendeu-a por dentro. Simplesmente era impossível manter-se firme em sua presença. Estava faminta de afeto e logo perdeu a batalha para conter seus mais baixos impulsos. Atraiu-o para si e o abraço começou a converter-se em muito mais do que ao princípio tinha pretendido. Mancaram pela estadia, beijando-se e acariciando-se. Ela perdeu a noção do tempo, porque a doçura do momento lhe tinha arroubado os sentidos. Finalmente, ele se separou um pouco e a tirou da mão. - Vêem. Escoltou-a para a quarto adjacente, que ela conhecia por sua prévia desventura. Era a quarto da cama grande. A que estava feita para um rei, onde (não lhe cabia a menor duvida) compartilhava regularmente intimidades com todo tipo de mulheres corruptas. Se o acompanhasse ali, o que ia isso a dizer dela e de sua natureza? O que diria dele e de sua atitude para com ela? A ele não pareceu importar. Supunha possivelmente que ela era promíscua e imprudente, imoral ou dissoluta? Estava desejando experimentar o prazer e o alívio que tão habilmente lhe tinha dado. Compreendeu então que tinha passado todo o dia esperando que ele estivesse em casa. Depois de sua estressante visita a Selena, precisava estar com o Marcus. Em que pese a ter acreditado que ele estaria fora de
    • casa, perpetrando qualquer das desprezíveis atividades que o mantinham ocupado, uma pequena parte dela tinha desejado que a apanhasse. Que patética era! Fugindo dele e ao mesmo tempo morrendo por estar em seus braços, que loucura! Em tão pouco tempo tinha começado a significar tanto para ela… E embora a aterrorizava a possibilidade de que lhe rompesse o coração, decidiu não lutar contra a atração. Algo nele a chamava gritos, algo a obrigava a lançar as precauções ao vento, a tentar ao destino e evitar as conseqüências. Quando estava com ele se sentia viva, transbordante de energia, não invisível a não ser vibrante, atraente e merecedora de seu afeto. Apertou-lhe a mão com mais força, assinalando com o gesto que era cúmplice, companheira na libertinagem, disposta e preparada para a maldade. Para sua surpresa, ele a conduziu até além da cama, guiando-a para o vestidor adjacente. Sua banheira ornamentada estava justo no centro. - O que estamos fazendo? - perguntou ela. - A água ainda está quente. Pensei que gostaria de te dar um banho. Um banho! Que extravagância! Algo que tinha sido normal durante sua infância, que tinha formado parte de seu cotidiano, reduziu-se a uma deliciosa lembrança porque apenas lhe permitia nunca tal luxo. - Acredito que sim, que gostaria de - assentiu tentativamente, muito mais excitada ante a idéia do que queria mostrar. - Assim me deixará te lavar as costas. E logo faremos o amor toda a noite. Assaltaram-lhe mil imagens perversas de ambos molhados, deitados juntos na banheira. Cometiam os homens e as mulheres tais travessuras? Era habitual? Como podia ter vinte e cinco anos e não ter experimentado alguma vez tal desenfreio? Atrevia-se a unir-se a ele em sua depravação? Estava preparada para ser corrompida? Refletiu sobre todas essas perguntas com grande deliberação e a resposta, quando chegou, foi singela e excitante. - Por que não? - respondeu. Por que não? Exatamente. Ao fim e ao cabo, quem ia dizer lhe que não o fizesse? Capítulo 9 Marcus lhe desabotoou o vestido sem pressas, embora morresse por despedaçar aquele lúgubre objeto. Kate era muito excepcional, muito vital para viver confinada ao simples e feio traje de uma criada e a tão triste mediocridade.
    • Ter descoberto as sombrias perspectivas que se abatiam sobre a vida de Kate o fazia considerar possíveis passos radicais para trocar sua situação. Mas quais passos? O único papel que poderia desempenhar ao seu lado seria o de seu amante, e até sendo o bastante temerário para pedir-lhe sabia que ela jamais consentiria. Que mulher em seu são julgamento o aceitaria? E no caso de que aceitasse, estava ele preparado para seguir adiante? Não a queria como amante. O conceito era muito degradante e não expressava o que sentia por ela, mas tampouco podia definir o lugar que Kate ocuparia em sua vida. Quão único sabia era que tinha que estar com ela, que se tinha passado o dia considerando e ideando planos para poder desfrutar dela às escondidas. Como uma mansão tão grande podia parecer de repente tão endemoniadamente pequena? Havia muita gente vivendo ali, pouca intimidade. Teria-lhe gostado de levá-la a sua casa de campo onde poderiam estar os dois sozinhos, escapulir-se com ela em sua carruagem. Pulariam e se amariam até que estivesse satisfeito, até que não pudesse suportar sua fascinante companhia nem um segundo mais, até que pudesse voltar a concentrar-se em outros assuntos. Estava-lhe transtornando aquela obsessão? Ou (Deus lhe liberasse!) tinha-lhe prejudicado as faculdades mentais a maldita beberagem? E em tal caso, como ia neutralizar o efeito? Liberou-a do vestido e logo a acomodou em uma cadeira. A delicadeza de seus pés era deliciosa. Marcus se deleitou e demorou ao lhe tirar os sapatos; desabotoou as fivelas e deslizou as meias, lentamente por suas pernas. Ao igual ao négligé que usava quando estava sozinha, as meias eram de encaixe fino, mas estavam já alhadas, com muitos quebrados remendados com amor. Ante a qualidade de sua roupa, Marcus voltou a refletir sobre sua mãe. Prosseguiu extasiado com o ritual de despi-la e ela o tolerou com boa têmpera, embora de vez em quando murmurava e se ruborizava. Ele experimentava uma estranha sensação de irrealidade, como se estivesse fora de seu corpo, observando como outro homem a seduzia. Em que pese a carregar sobre as costas com infinidade de culpas, jamais paquerava com seres inocentes. Não valiam a pena, ocasionavam muitos problemas e, a fim de contas, sempre havia suficientes rameiras à mão. Kate rompia a norma, mas era impossível resistir a ela. Afligia-o como uma enfermidade grave, uma afecção no sangue da que não podia livrar-se e para a que não existia remédio. Sentia-se patético, triste, consternado. Quando lhe teve tirado toda a roupa exceto a interior, fez que se levantasse. Ato seguido deslizou os suspensórios por ambos os braços e se extasiou contemplando como o andrajoso objeto escorregava por seu corpo.
    • Tendo-a já totalmente nua, acreditou que ela se intimidaria, mas Kate tinha chegado a uma conclusão a respeito a sua relação com ele. Estava ansiosa para transgredir sem deixar-se enrolar. O que pressagiava aquela mudança de atitude? Começava a apreciá-lo? Ou acaso sentia algo mais que carinho? Como desejava que se apaixonasse por ele! Ao longo de toda sua vida, tinha investido tanta energia em distanciar-se de outros que mal recordava como relacionar-se com eles de um modo natural. Queria que ela esperasse o melhor dele, que o visse como a um homem distinto, um homem muito melhor do que realmente era. O encaixe foi parar ao chão e, tranqüila e confiada, separou-se dele, como se o fato de luzir sua nudez fosse algo habitual nela. - É tão formosa, Kate… - Admirado, Marcus passeou o olhar por seu corpo. Roçava a perfeição, com curvas onde devia as ter e também magra onde devia ser. Já havia lhe dito isso? - Não. - Que terrível descuido! A excitação começou a apoderar-se dele. Seu falo crescia, ansioso por entrar em contato com o corpo daquela mulher. O descaramento de seus mamilos e o penacho mogno que luzia entre as pernas o impeliam para a depravação. Estava impaciente por tocar aquele lugar secreto, por degustá-lo. Tirou-a de uma mão e a guiou para a banheira. Ela se inundou na água quente e se relaxou imediatamente. - Ah! - ronronou . Que luxo! - Se soubesse que podia conseguir que me sorrisse desse modo com um algo tão simples como um banho, lhe teria devotado faz isso dias. - É o presente mais doce que poderia me haver feito. - Quer que te lave o cabelo? - Demoraria uma eternidade em secar. - O escovarei na frente à chaminé. - Acenderia um fogo? No meio da tarde? Que extravagante é! Sua risada sedutora alagou a pequena estadia. - Sou rico. Se quiser desfrutar da chaminé em junho, farei. - Tem idéia de quão afortunado é? - Sim. Aproximou uma banqueta à banheira e se sentou a suas costas. Ela introduziu a cabeça na água e, ao emergir, ele ensaboou seus cabelos. Logo deixou que seguisse ela e por fim os lavou com a água morna. Quando acabou, serviu-lhe uma taça de brandy. - Bebe isto. - Licor? Não servirei para nada o resto do dia. - Será mais divertido se estiver um pouco embriagada. - É a pior das influências. - Alegro-me.
    • Kate apoiou a cabeça contra a borda da banheira e se relaxou, enquanto ele se entretinha lhe desenredando as mechas. Seus largos cabelos se derramavam até quase roçar o chão. Ela se deixou mimar e ele teve a suspeita de que não a tratavam com atenção com freqüência. Trabalhar para a Regina Lewis supunha levar uma vida difícil. Preocupava-se alguém por Kate? Queria-a alguém? Ou estava sozinha no mundo, como ele mesmo? A água começou a esfriar e ele a ensaboou. Esfregou-a brandamente com um pano, sem deixar-se levar por seus desejos mais escuros. Com cada movimento, ela o olhava provocante e desse modo o impelia para a temeridade; não era capaz de predizer o que poderia fazer a seguir. Estava a ponto de meter-se na banheira com ela e desflorá-la ali mesmo. Estava ela preparada para tal circunstância? Estava ele? Um momento antes, ao encontrá-la em sua quarto, tinha ideado planos nefastos para a ocasião, mas agora que o lascivo episódio se aproximava, não estava seguro de como devia proceder. Precisava refletir e racionalizar, assim começaria por ajudá-la a sair da banheira. Ocorreu-lhe que talvez podia escoltá-la até a cama, mas não se atreveu a considerar a possibilidade de aconchegar-se junto a ela naquele imenso colchão, suave e luxuoso. Ofereceu-lhe uma mão para que se apoiasse nela e a abrigou com seu roupão, atou o cinturão ao redor de sua magra cintura e dobrou as mangas para cima. Ela o olhou sem medo, com aqueles olhos verdes, confiantes, muito mais confiantes do que deveriam. Parecia incrivelmente jovem e inocente. Sua consciência dormida começou a despertar. No que estava pensando, jogando desse modo com ela? Pretendia lhe arruinar toda a vida? Era essa sua intenção? Por que estava tão disposto a pôr em perigo seu bem-estar? Se os descobrissem, ela perderia tudo e ele não merecia que ela corresse um risco tão grande. A afeição que sentia por ela era real e não podia suportar a idéia de que lhe ocorresse algo mau. Então, o que se propunha? Conduziu-a para o aposento adjacente. De caminho, ela se deteve e o olhou; parecia ver muito mais do que ele desejava que visse. Afastou-se, nervoso e assustado do que ela pudesse ter percebido. - É aqui onde entretém a seus amantes? - perguntou-lhe. - Não, nunca. - Marcus - disse ela, sei que está mentindo. Tinha esquecido que o tinha visto ali mesmo com Pamela. Ruborizou- se, e se surpreendeu ao sentir-se envergonhado. Em que opinião devia lhe ter? - Ocorre muito poucas vezes, Kate - respondeu com sinceridade. Pamela era a única e seus encontros eram muito esporádicos, sempre instigados por ela quando desejava obter algum favor que ele não estava disposto a lhe conceder.
    • - Nem sequer vivo nesta casa. - Está aqui sempre. - Só porque seu dormitório está no andar debaixo. - É um lisonjeador. - Não o sou! Estou louco por ti. Sorriu, desejoso de resolver aquele incômodo momento, mas ela o olhou cética. Não acreditava nas suas palavras e lhe doía que tivesse tão pouca confiança na atração que sentia por ela. Se pudesse lhe haver lido os pensamentos, teria ficado atônita ante o grau de fascinação que teria encontrado. - Tudo irá bem, Kate - disse com voz tênue, consciente de que a frase era inapropriada mas sem saber muito bem como lhe transmitir confiança. Não tinha garantias. Não podia lhe oferecer amparo contra o escândalo ou a desonra, mas mesmo depois de que os Lewis tivessem abandonado a cidade e Kate partisse para sempre, seguiria guardando na memória a imagem dela estendida na cama. Sendo um homem reticente a fantasiar, não podia a compreender por que se sentia aflito por idéias tão românticas, mas a cada hora que passava seus sentimentos se tornavam mais desmedidos. Estava apaixonado e cativado, e não sabia por que. Apenas se conheciam e, entretanto, tinha a impressão de estava mil anos ao seu lado. Ele se sentou na cama e se estendeu. Ela, circunspeta, seguiu-o. Puxou-a com suavidade até que a teve em cima, com os seios esmagados contra seu torso, as pernas de ambos em contato. Ela perguntou de improviso: - Está apaixonado por lady Pamela? - Por Deus, não! Detesto-a. - Mas ocasionalmente a recebe aqui? Era uma maneira pouco ortodoxa de admitir que tinha estado ali aquela noite tão estranha. - Visitou-me, admitiu ele sinceramente , mas nunca a convidei. - Mesmo assim, permite-lhe ficar. - Não sou tão néscio para rechaçar o que livremente me oferece. - E, até detestando-a, pode manter com ela relações íntimas? Não entendo. Acreditava que os casais tinham que estar casados. Ele rondava pelas zonas mais sórdidas de Londres, mas Kate era tão inexperiente… Sua ingenuidade mostrou o quão baixo que tinha caído, quão pura ela era, quão execrável era ele. Como lhe tinha ocorrido a possibilidade de jogar com ela? Era um anjo e ele, um sujo canalha. - Nós dois não estamos casados, particularizou ele , mas compartilhamos certa intimidade. Ela avermelhou por completo. - É algo habitual entre adultos?
    • - O que? - Tudo isto… Tocar-se e beijar-se… - Sim. - Então, se desfrutar com isso, não sou uma libertina? - É muito normal, Kate. Provavelmente a pessoa mais normal que jamais conheci. Conjeturou sobre seu passado. Por que os limites da luxúria despertavam nela tanta neura? Tinha a esperança de mitigar tal apreensão no transcurso de seus encontros. - Pode me prometer uma coisa? - perguntou ela. - O que seja que esteja em minhas mãos. - Jure que seus dias de jogo com lady Pamela se acabaram. É algo mau. - Está preocupada com a imortalidade de minha alma? - É obvio, vagabundo, mas além não posso suportar a idéia de que lhe as faça mesmas coisas que me faz. Era uma petição possessiva e, em circunstâncias normais, a teria rejeitado; não se adequava aos seus princípios. Não gostava que ninguém lhe dissesse o que tinha que fazer e jamais permitia que lhe dessem ordens, mas lhe tinha comovido vê-la preocupada a respeito, e lhe pedir um comportamento mais nobre só podia ser indício de afeto. - É uma promessa fácil de cumprir, declarou ele, ao tempo que em seu interior estalava um vulcão de felicidade - e será um voto singelo de respeitar. - Obrigado. Ela selou o pacto com um beijo que o fez sentir-se querido e extraordinário. Talvez em sua companhia acabaria redimindo-se, depois de tudo. Ele afrouxou o cinturão do roupão e empurrou as lapelas para trás, para poder acariciar seus peitos. - Adoro seu corpo. - Vais mostrar-me como entretém às mulheres que traz aqui? Quero saber o que se sente. Esteve tentado a repetir que não levava a ninguém a seu dormitório, mas ela não acreditaria. A opinião que tinha dele era muito lamentável. Além disso, não estava disposto a esbanjar as poucas oportunidades que tinham de estarem sozinhos falando de seus defeitos. - Já te mostrei algumas coisas e podemos provar outras, mas não podemos fazer o amor por completo. - Por que não? Não o deseja? - Mais que nada, mas isso significaria que perderia a virgindade. - E o que? - Que nunca poderia se casar.
    • - Mas se mais adiante me casasse, como poderia saber meu marido que não sou virgem? - ruborizou-se de novo. Eu sinto, não tenho idéia de como funciona o mundo. - O qual não está tão mal. Ele pensou quão fantástico seria retornar à idade da inocência, quando ainda se tem mistérios por desvelar. - Não estou de acordo. Sempre estou na escuridão, me perguntando por coisas que outros souberam sempre. Ele deslizou a mão com ternura para seu umbigo e depois para seu sexo, e a deixou ali, abraçando-o. - Este é um lugar importante para uma mulher. Está destinado à copulação. - Como ocorre? Sinto tanta curiosidade… - Somos feitos de distinta maneira. Eu tenho uma espécie… de… - Não tinha percebido como difícil seria esclarecer os detalhes a alguém que os desconhecia. Uma espécie de bastãozinho entre as pernas e, se decidíssemos proceder, introduziria-o em ti. - Dentro de mim? - Sim, então flexionaria os quadris. A fricção é prazenteira e ocasiona a emissão de um líquido que sai da ponta e que contém a semente que faz germinar um bebê. - Não brinque. - Não. - Mas se fôssemos copular, sigo sem entender como detectaria meu futuro algemo que já não sou uma donzela. - Tem uma fina capa de pele, aqui dentro, que se rompe com o primeiro acoplamento. Dói um pouco e sangra. - Não volta a crescer? - Não. - De modo que se decidimos seguir adiante, antes deveria ponderar as conseqüências com cautela. - Sim, e posso te assegurar que não valho tanto sacrifício. - Eu não estaria tão segura disso. Sorriu e ele a estreitou contra si. - É perfeita para mim. Faz-me feliz. - De verdade? - Sim. - Alegro-me. Mais ousada do que tinha sido em anteriores ocasiões, posou uma mão sobre o abdômen dele, justo sobre a área onde seu rígido sexo pressionava contra as calças. - Com estas calças parece um xeque árabe. - São um presente de um amigo que viajou ao Sahara. - Ficam bem, muito melhor que os trajes formais. - Talvez deveria escandalizar a Londres usando-os pela rua.
    • - Pagaria por vê-lo. Riu outra vez, e suas gargalhadas chegavam a ele como uma cascata de alegria e paz. - Posso vê-lo? - pediu ela. - Não acredito que deva. Ela arqueou uma sobrancelha. - Tornaste-te tímido comigo de repente? - Não, mas um homem pode excitar-se muito, até o ponto de não poder controlar seus impulsos. Se os dois estivermos nus, não sei o que poderia passar. - Mas nunca me faria mal - insistiu ela. - Intencionalmente não, mas aqui dentro há uma besta esperando uma oportunidade para atacar. - Não tenho medo do que espreita em seu interior. Era um comentário que se referia a algo mais que a suas peripécias sexuais. Estava lhe dizendo que confiava nele, mas ele era só um ser humano e mortal, e ela era maravilhosa e estava lhe tentando além de onde podia conter-se. Por uma vez tinha tido a intenção de manter-se firme, de deixar que seu cavalheirismo, tempo atrás esquecido, salvasse-a. Kate não tinha idéia da rapidez com que a espiral da paixão podia desatar-se, a ferocidade com que podia apoderar-se de tudo, o tremendo prejuízo que podia ocasionar antes que a razão fosse capaz de voltar a impor-se. Seu corpo já tinha desligado do cérebro: seus dedos atiravam do laço das calças e abriam a parte frontal para que Kate pudesse começar sua viagem para o descobrimento. Tomou uma mão, guiou-a sob a malha e envolveu seu crescido sexo com ela. Com supremo cuidado se dispôs a lhe mostrar como apertar e acariciar. Era uma excelente aluna. Torturava-lhe o esforço por permanecer impassível enquanto ela jogava e aprendia, enquanto murmurava seus femininos suspiros. Atraiu-a contra seu peito e a instruiu sobre como sugar o mamilo; ela se consagrou à tarefa com entusiasmo. Era hábil interpretando suas reações e logo aprendeu a deduzir como podia fazê-lo gemer e contorsionar-se de prazer, como obter dele a máxima resposta. Como devia ter intuído, Kate não estava satisfeita com apenas tocar: queria vê-lo. Abandonou seu peito e percorreu o estômago até que esteve situada sobre a besta que se estremecia sob as calças. - Posso? - perguntou com as mãos na cintura. - Sim - concedeu ele sem fôlego, incapaz de lhe negar nada. Estava tão excitado que se sentiu de cristal, seguro de que a menor carícia se romperia em mil pedaços. Ela afastou a malha e ficou gelada, olhando-o como se se tratasse de um curioso espécime científico. Ele se deleitou ao ver que ela não se mostrava assustada nem repugnada.
    • - Oh, vá - sussurrou- , é muito maior do que tinha imaginado. Acariciou seu falo de cima abaixo, mediu o contorno, flertou com a cabeça. Todos os homens têm o membro igual? - Quase. Alguns são maiores. Outros menores. - E o teu? - É maior que a maioria. - Não consigo imaginar como pode caber dentro de mim. Ensinar-me- á isso? - Hoje não. Kate fez uma panela. - Por quê? - Não está preparada. - Por que não me deixa decidi-lo ? - Não. - Tirano! - Sempre. Era tão formosa, tão arrebatadora e adorável… Arrancou o roupão de seus ombros e deixou que lhe caísse sobre a cintura. Agora podia admirar seus seios. Acariciou-lhe um mamilo e a sensação injetou mais sangue em seu sexo. - me lamba - lhe pediu. Tratando-se do primeiro encontro de Kate com a nudez de um homem, Marcus não se comportava como devia, mas não ia dar a visita por concluída até que pudesse, de algum modo, estar dentro dela. Não tinha intenção de desonrá-la, por isso se conformou com a alternativa, embora não esperava agüentar mais de dois segundos. Tomou pela nuca para orientá-la, mas ela se mostrou muito disposta, impaciente por agradá-lo. Limpou-lhe o suco que emanava da ponta com breves lambidas, deixando-o louco de prazer sem saber se ela mesma experimentava uma sensação similar. - É esta sua semente? - Não, é uma indicação de que estou muito excitado, de que estou muito perto do final. - Como saberei quando terminaste? - Quando me derramar. - Estou-o fazendo bem? - Oh, sim. Segurou o falo e o esfregou contra os lábios dela. - Abra para mim, tome. - Introduzo-o em minha boca? - Sim. Kate pareceu duvidar uns instantes antes de decidir-se a rodear o prepúcio com os lábios. Ante seu comedimento, ele elevou um pouco a pélvis… e percebeu uma deliciosa sensação de calor e prazer. Cravou o olhar no teto, tentando anular seus pensamentos, deixar a mente em
    • branco para que aquele momento glorioso se prolongasse ao máximo, mas a estimulação era muito intensa. Saiu dela, tomou em seus braços e a aproximou do peito. Ela não compreendia aquele movimento tão brusco. - O que ocorre? - Preciso me correr. - Não sei o que tenho que fazer. - Abrace-me com seus braços, lhe indicou, bem forte. Estreitou-a contra si, pressionou a pélvis contra seu ventre e empurrou uma, dois, três vezes até que se derramou. Sua semente brotou em uma erupção tórrida e úmida, e a grossa emulsão os manteve unidos. Com um gemido de euforia atravessou o universo; a espiral era tão intensa que mal percebia o grau de satisfação que sentia. Se tivesse estado no interior dela, o coração teria deixado de lhe pulsar. O êxtase foi minguando paulatinamente e retornou leve à terra. Kate se aconchegou contra ele e Marcus começou a sentir-se pesaroso ao perguntar-se como teria ela entendido tudo. Afastou-se um pouco para poder admirar seu delicioso rosto. Era tão formosa, tão excepcional…, muito mais do que ele merecia. - Sinto-o, comentou ele. - Por que? - Tinha pensado ir mais devagar. Envergonhado pela cena, acrescentou: - Me excita além de meus limites. - É fantástico! - Pequena arpía… - E lhe deu uma palmada na nádega. Kate comentou, com ar tímido e solene: - Gostei. - Bem, porque nosso futuro vai estar infestado de jogos como este. - É insaciável. - Só contigo. Não pararia nunca. Encantada com suas palavras, ela suspirou: - Fingirei te acreditar. - É verdade, minha amada Kate. É verdade. Beijou-a e se levantou da cama. Caminhou para o vestidor, de onde retornou com uma toalha úmida com a qual limpou os rastros da travessura. Logo se abraçou a ela de novo. - Quando sai de ti tudo isto, o que sente? - perguntou. - Espero que algo muito parecido ao que você sinta quando te ocorrer o mesmo. - Vá, que afortunado é. - Sou? Ela retornou à zona de jogo e voltou a acariciá-lo. E embora ele acabasse de aterrissar das mais elevadas alturas, seu falo se ergueu de novo.
    • - Não sabia que podia acontecer sem que estivesse dentro de mim. - Posso fazê-lo em qualquer momento - se vangloriou ele- , e vou ensinar te todas as maneiras de consegui-lo. - Podemos começar agora? - É obvio. Ele a beijou e a estendeu sobre a cama, excitado e impaciente para começar de novo.
    • Capítulo 10 Elliot Featherstone rondava o fundo do salão de baile com a esperança de encontrar lady Melanie. Apesar da conversa que tinham mantido dias antes, embebedou-se muito, entreteve-se nas apostas e tinha esquecido que devia encontrar-se com aquela condenada moça. Era tão ingênua, estava tão a ponto de caramelo… Não podia acreditar que o tivesse estragado tudo. Aquele dia lhe tinha permitido acrescentar um pouco de uísque ao ponche. Que menina tão débil! Era vulnerável a toda tipo de más influências, exatamente o protótipo de vítima que tinha andado procurando com desespero. Estava sem recursos e sem sorte, e disposto a trocar as circunstâncias. Cada vez que Regina alardeava o generoso dote de Melanie, ele escutava com atenção, especialmente o que era relativo à soma que iria parar ao seu prometido, logo depois de assinar os contratos matrimoniais. Enquanto os membros da elite sorriam com ar de suficiência, chamando a família de provinciana e vulgar, ele via nela uma oportunidade de ouro. Aos trinta e cinco anos e sendo o quarto filho de um barão conhecido por seus escândalos, estava na ruína. Tinha dilapidado sua exígua herança e contraído um sem-fim de dívidas. A pobreza não era um pecado cardeal nas altas esferas, de modo que ainda era bem recebido nas melhores casas, mas precisava de um compromisso para que seus credores não o apanhassem. Pamela trabalhava com diligencia para forjar um acordo entre Marcus e Melanie. Se a união acontecesse, todas as esperanças de Elliot acabariam. Embora ele não imaginasse Stanford fazendo uma proposta de matrimônio. Quando fosse irrefutável que não haveria núpcias, aonde iria destinado o dinheiro de Melanie? A fortuna poderia chover sobre ele, pois era uma lástima que se desperdiçasse. Naquele mesmo momento, abriu-se um oco entre os convidados que ocupavam a sala de baile e Melanie reparou em sua presença. Por fim estava longe de sua mãe e da sua instrutora, e ele, ao vê-la, indicou-lhe com um gesto que lhe seguisse até a galeria. Faria tal coisa? Provavelmente seguiria furiosa pelo bolo e ele já tinha uma dúzia de desculpas preparadas para justificar-se. Não ia permitir que suspeitasse que o descuido de seus delicados encantos tinha sido em realidade conseqüência da embriaguez e a visita às mesas de jogo com a intenção de ganhar umas libras. Além disso, se havia algo que fazia bem era falar. Era capaz de sair gracioso de qualquer situação embaraçosa e ela era tão inexperiente que jamais constataria suas mentiras.
    • Saiu e se precipitou para o enorme jardim, desejoso de que as árvores e matagais o ocultassem. Os convidados passeavam pelos atalhos iluminados com lanternas e não era conveniente que os vissem juntos, pelo menos no momento. Quando o «descobrissem» com lady Melanie, tudo devia estar bem planejado para que causasse o maior efeito possível; queria tê-la bem apanhada em sua rede antes de dar algum passo em falso. Em questão de segundos, ela apareceu atrás dele e se encaminhou ao jardim. - Estou aqui, murmurou ele assim que a viu aproximar-se de seu esconderijo. Melanie abandonou o atalho e lhe indicou com gestos que procedesse sigilosamente. Ato seguido a guiou para a cabana do jardineiro, situada ao final do jardim; estava isolada e era o lugar perfeito para desfrutar de um pouco de intimidade. A luz da lua se filtrava por uma pequena janela em quantidade suficiente para lhe permitir constatar que aquela aventura clandestina a havia posto nervosa e, de certo modo, emocionada. Demente insensata! Levar até o fim os seus planos para arruiná-la ia ser um encargo muito fácil. Para sua surpresa, foi ela quem rompeu o silêncio. - Sinto não ter podido ir aos estábulos na outra noite. Poderá me perdoar? «Deus existe!», pensou ele. Trocou de tática e simulou afronta. - Esperei uma hora! Onde estava? - Minha mãe insistiu em conversar. Não pude escapar até passadas as duas. - Ela a trata de uma maneira abominável. Era a melhor direção em que podia represar a conversação: seriam aliados contra sua mãe. - O que queria? - Destrambelhava contra Stanford e suas intenções para comigo, embora saiba perfeitamente que não tem nenhuma. agitou-se com ferocidade. Estou doente de tanto ouvir falar dele! - Não é de estranhar, meu pobre anjo. Convertendo-se em um verdadeiro refúgio de compaixão, deu-lhe umas quantas tapinhas afetuosos no ombro enquanto com a outra mão resgatava uma garrafa de sua jaqueta e tomava um gole comprido. Logo a passou a ela. Melanie bebeu e quando tentou devolver-lhe ele insistiu em que tomasse um pouco mais. Com a urgência do momento, ingeriu mais do que devia e sua falta de comedimento fascinou Elliot. - Estava ansiosa por falar com você, confessou ela. - Bom, agora pode fazê-lo. Ela pôs suas mãos nas as bochechas rosadas por efeito do álcool: - Diga tudo o que saiba sobre o Stanford.
    • Ele fingiu ponderar a pergunta, quando o último que queria era mantê-la em suspense. - Não estou seguro de que deva, Melanie. Posso chamá-la Melanie? - Sim, quando estivermos sozinhos - particularizou a pequena esnobe. Em público, não posso permitir que outros saibam que somos amigos. Mesquinha convencida! Quem se acreditava que era? Muitos séculos antes que sua família tivesse escavado o primeiro filão de carvão na Cornualhes, sua família era já uma das mais proeminentes da Inglaterra! Esforçou-se por reprimir a ira. - Melanie, conhecer as verdadeiras intenções de Stanford poderia lhe resultar muito angustiante. - O que quer dizer? - inclinou-se para ele. Revele-me seus segredos, eu suplico. - É você a parte inocente desta história. Suspirou. - Suponho que é meu dever. - Não me oculte nem um só detalhe! - Stanford precisa casar-se por dinheiro. - Mas parece muito rico. - É, no momento. Se não se desposar antes de fazer trinta e um anos, perderá tudo. É detestável que sua mãe não a tenha avisado. - Estou segura de que sabe. - Confie em mim, prosseguiu ele. Consta-me que lady Pamela influiu na decisão de sua mãe de sacrificá-la a você. Deixou que a implicação de que Regina e Pamela conspiravam em seu contrário arraigasse. - Se não sentir o menor interesse por mim, por que insistiu em que me convidasse a vir a Londres? - Porque ninguém mais se casaria com ele, querida. - Era eu seu último recurso? Ele fingiu lástima e ela empalideceu até a soleira do desmaio. Para ajudá-la a recuperar a compostura, abraçou-a e a atraiu para si. - Lamento-o… Não deveria ter sido tão ousado. - Não… Não… Está bem. Ela estava absorta e ele abusou de sua perplexidade para fazer o que não devia: posar as mãos em sua cintura e lhe acariciar um braço. Sobre o sutiã de seu vestido, desfrutava de uma vista central do decote. Com aqueles seios generosos e túrgidos, Melanie era uma deliciosa guloseima que o excitaria o suficiente quando chegasse o momento. - Por que o rechaçaram as outras? - perguntou ela. - É um canalha e um patife. Bebe, joga e anda com mulheres libertinas. Fez uma pausa. - Posso prosseguir? - Sim, sim! - Mantém três amantes. Era uma mentira repugnante, mas ela nunca teria a oportunidade de comprová-lo.
    • - Três! - A cidade bole com rumores sobre suas nefastas aventuras e nem um só pai lhe permitiria franquear a soleira da porta. - Está minha mãe à corrente desta situação? Sem ter idéia do que Regina sabia ou não, encolheu os ombros com ar de suficiência, como estando em posse de muita mais informação confidencial. - E agora todos fofocam e riem de mim a minhas costas… - Não tome à tremenda, Melanie - a tranqüilizou ele, são uma fileira de depravados. Feita uma fúria, a jovem olhou ao chão e finalmente murmurou: - Tenho que retornar ao baile. - Não pode partir assim, tão zangada. - Regina deve estar me buscando. - Mas queria lhe referir muitas mais questões, queria as compartilhar com você. Acariciou-lhe o lábio inferior com o polegar, observando-a com atenção, deixando que captasse sua admiração masculina. Embora fosse uma donzela, teria que ser muito mentecapto para não imaginar suas intenções. - Devo ir. - Merece você um marido que a ame - declarou Elliot, um marido que a adore, respeite-a, entenda-a e a venere. Não um trapaceiro egoísta e imaturo que a única coisa que lhe reportaria seria sofrimento e desdita. - Sinto-me tão confusa… - Levou as mãos às têmporas, como aflita de uma terrível enxaqueca. Não estou segura do que é o que mais me convém. - Embora contraiam matrimônio, ele seguirá alternando com todas as meretrizes da cidade e esfregará as suas amantes pela cara. Poderia suportar algo assim? - Não, não. - Deixe que a ajude, Melanie; me permita resgatar a da insensatez de sua mãe. - Devo ir, repetiu ela. Visivelmente consternada, saiu a toda pressa da cabana; ele não tentou detê-la. Observou-a afastar-se com um sorriso nos lábios. Acabava de plantar sementes férteis; regaria-as e esperaria a que germinassem. - Selena! - Agitada e sem fôlego, Edith Fitzsimmons entrou correndo no vestíbulo. O Conde de Doncaster está aqui. - Está brincando? - Não. - Deus meu! Selena não acreditava. Durante sua recente e breve visita tinha experimentado uma assombrosa conexão com ele, mas não tinha
    • considerado a possibilidade de que o sentimento fosse mútuo. Nos últimos anos tinha sofrido muitas decepções para conservar o otimismo. Seu primeiro pretendente! E um Conde! Depois de tantos meses míseros e solitários naquela lôbrega e cinza cidade, aquilo era mais do que podia assimilar. A emoção lhe acelerou o pulso. Levantou-se de um salto, compôs o cabelo e alisou o vestido. Quanto teria desejado um aviso… e ter um vestido novo e jóias exóticas que luzir em tão maravilhosa ocasião. - Como estou? - Fantástica, como sempre. Edith a puxou com força. - Parece muito bom moço. Poderia mudar sua vida. - Isso eu espero. - Quando menos, poderia averiguar o que tem feito sua irmã com seu dinheiro. - Não discutamos sobre isso agora, Edith, por favor. Convencida de que Kate era uma ladra, Edith a culpava a todas as horas, mas Selena não queria ouvir suas acusações. Edith tinha sido uma bênção, tinha cuidado dela e a tinha orientado ao longo dos meses de adaptação na Inglaterra. Selena confiava nela e valorizava seus conselhos, mas Kate era a único parente que tinha e não ia permitir que em sua presença se fizesse o menor comentário negativo sobre ela. - Deveria falar com ele, insistiu Edith. Ele poderia te ajudar. - Edith - a atalhou Selena, obcecada como estava em ser feliz, de repente este é um grande dia. O Conde veio quando menos o esperávamos. Não podemos deixá-lo esperar do lado de fora! O convide a entrar, vá buscá-lo. Edith sorriu, consciente de que não ia poder ganhar a discussão. Selena só tinha dezesseis anos, mas era muito teimosa. A adversidade tinha sido um excelente tutor e se conhecia muito bem, era firme em suas decisões e mais amadurecida do que cabia esperar em alguém de sua idade. - Deveria ficar com vocês enquanto falam? - Nem se atreva! - Mas nunca atuei como sua guardiã ainda, tenho que ganhar o salário. - O que imagina que vai passar? Crê que vai fazer-me o amor louca e apaixonadamente, enquanto você nos espera no corredor? - É um moço muito bonito, reconheceu Edith. Tampouco seria uma catástrofe se ficasse brincalhão… - Não - concordou Selena entre risadas, não o seria. Anda, vá e lhe faça entrar! Sentou-se com pose elegante no maltratado sofá e esperou com paciência enquanto Edith dava a bem-vinda a Lorde Doncaster e o acompanhava ao salão. No segundo último, Selena atirou um pouco do sutiã para aumentar o decote.
    • Não imaginava que Lorde Doncaster tivesse ido visitar a para falar do tempo! Edith considerava as garotas britânicas meio dissimuladas e muito corretas, vítimas de uma educação excessivamente estrita e um severo controle na relação que mantinham com os meninos. Selena tinha crescido em Veneza e o sangue italiano de seu pai corria por suas veias. Ela estava sozinha e as circunstâncias a tinham obrigado a fazer seu próprio caminho. As Parcas tinham levado ao Christopher Lewis a sua casa e tinha que existir um motivo. Extrairia toda a alegria possível daquela prodigiosa oportunidade. Ao lhe ver entrar, Selena teve a sensação de que o coração lhe detinha uns décimos de segundo. Era alto e atraente e parecia tão seguro de si mesmo… - Lorde Doncaster - o saudou ela, é maravilhoso voltar a vê-lo. - Chame-me de Christopher, por favor. - Obrigada. Pode me chamar de Selena. Levantou-se e se dispôs a fazer uma reverência, mas ele o impediu. Permaneceram uma eternidade de pé, sem falar-se, só olhando-se aos olhos como um casal loucamente apaixonado. - Tinha que vir ver-te, admitiu ele. - Alegra-me muito que o tenha feito. Estavam tão perto que parte das botas dele desapareceram da vista sob o vestido dela. Seus corpos quase se roçavam e entre ambos saltavam faíscas de exaltação. - É irmã de Kate? Não podia predizer o que teria querido Kate que respondesse, mas ela era partidária de não mentir nunca. - Somos meio-irmãs. - Ah, isso explica a semelhança. Têm a mesma mãe? - Sim. Conhece os detalhes de seu tórrido amor? - Não todos. Minha mãe pragueja a respeito sempre que gosta ou quando quer mortificar Kate, mas no Doncaster se correu um denso véu sobre a história. - Minha mãe se haveria sentido abatida se ouvisse isto! - Selena se pôs-se a rir ao recordar a sua exuberante mãe. Adorava provocar e não teria suportado pensar que suas travessuras poderiam acabar caindo no esquecimento. - Devia ter muito caráter para fazer frente a semelhante escândalo. - Estava apaixonada e não acreditou ter mais opção que a fuga. - Mas abandonou Kate. - Não de forma intencional. Feria-a que ele tendesse a pensar o pior. Mandou buscar Kate uma vez instalada na Itália. - Seriamente? Essa informação jamais saiu à luz.
    • - Houve processos legais, mas a consideraram inepta como mãe e lhe denegaram a custódia. Foi à tumba lamentando a perda de Kate. - Como acabou em Londres? - Vim depois da morte de meus pais. Minha mãe o deixou tudo disposto no testamento. Tinha previsto que Kate e eu formássemos uma família, mas nunca imaginou quão difícil seria para nós estar juntas ou que eu tivesse que viver em Londres. - por que não se muda mais perto do Doncaster? A menção daquele doloroso assunto a entristeceu. - Já sabe que não posso - respondeu, ruborizada. - Não, não sei. Ela o escrutinou, tratando de averiguar se era um excelente mentiroso ou se simplesmente lhe falhava a memória. - Sua mãe disse a Kate que tinha falado contigo e que você tinha negado. Ele balbuciou e titubeou, procurando o que dizer. - Regina afirmou que tinha discutido esse assunto comigo? - Sim. Envergonhada de ter tirado reluzir aquela questão, abaixou o olhar. Disse-lhe que você considerava que minha presença seria prejudicial, que podia despertar comentários entre os empregados ou os vizinhos. O silêncio dele se prolongou tanto que se transformou em uma agonia para Selena. Tudo se tinha quebrado antes inclusive de começar! Oh, quando ia aprender a refrear sua língua! - Selena - murmurou ele com voz tão doce e suave que lhe devolveu a confiança para olhá-lo aos olhos , é a primeira notícia que tenho de tudo isto. Nem sequer sabia de sua existência antes de te conhecer no outro dia. Juro-o. - Por que necessita sua mãe ir propagando uma mentira tão imunda? - É seu estilo, mas não o meu. Pode ser muito malvada. - Por que não intervém? - Muito recentemente sou o suficientemente mais velho para lhe enfrentar. Toma muitas decisões sem me consultar, o que era necessário quando eu era mais jovem, mas estou começando a lutar por me fazer com o controle de tudo. Ela não quer renunciar a ele e a situação é todo um desafio. - Kate diz que será um Conde magnífico. - Kate está certa. Olhou para o corredor. Vai unir se a nós miss Fitzsimmons? - Acredito que é sua hora da sesta - explicou com uma piscada, e dorme como uma ratazana. - Fantástico. Precedeu-a ao sofá e se sentou. Ela se teria situado ao seu lado, mas ele a sentou em seu colo. Suas nádegas se balançaram sobre suas coxas. Atraiu-a contra si, para que seus seios lhe caíssem sobre o peito.
    • Ela se perguntou o que pretendia e começou a considerar seriamente até onde estava disposta a deixá-lo chegar. Não lhe cabia a menor duvida de que lhe deixaria chegar bastante longe. Não era uma garota afetada. Das experiências de sua mãe tinha aprendido que os homens e as mulheres podiam ficar em apuros, mas não ia renunciar às travessuras que lhe propor, embora tampouco lhe permitiria tudo. Uma mulher tem que manter alguns segredos, tem que dar ao homem uma razão para que volte de visita. - Quanto tempo pode ficar ? - perguntou-lhe. - Até miss Fitzsimmons despertar e me expulsar - respondeu, sorrindo, o que com um pouco de sorte, não ocorrerá até manhã pela manhã. Lhe devolveu o sorriso. - por que não corro o fecho da porta para que não nos incomode ninguém? - por que não? Talvez devia sentir-se assustada ou preocupada de estar a sós com ele, mas não era o caso. Quem ia incomodar se porque passariam umas horas juntos? Na casa não havia ninguém que pudesse lhes surpreender, de modo que sua reputação ficaria intacta, e com respeito ao que Christopher queria fazer, estava segura de que nunca lhe faria mal. Ajudou-a a ficar em pé e ela cruzou o quarto a toda pressa, girou a chave e se apressou a retornar ao sofá. Ele a esperava com os braços abertos, atraiu-a para si e a beijou com ternura deliciosa. Seu primeiro beijo! E devotado pelo menino mais bonito e mais elegante que tinha visto depois de seu cortês pai. Aquela sensação era celestial, a sorte absoluta. deleitou-se em cada segundo daquele abraço, fechou os olhos e se deixou levar por ele. Regina esperava na galeria de lady Pamela, abanando-se e beliscando um prato de caramelos que os indolentes criados de Pamela tinham aprendido por fim a manter cheio. Distraídos como eram alguns deles lhe surpreendia que conservassem seu emprego. Em Doncaster os teria açoitado e despedido. Melanie passeava com Kate pelo jardim. Era evidente que discutiam e Regina sentia curiosidade para conhecer o motivo que as tinha encetado em tal rixa, claro que, sabendo como era Melanie, podia tratar-se de qualquer frivolidade. Regina tinha tentado educá-la apropriadamente, lhe inspirar boas maneiras e uma disposição agradável, mas isso era tudo que podia fazer uma mãe. Apesar dos esforços investidos, Melanie era uma vaidosa e não se dava conta de quão privilegiada era por ter crescido entre sedas e estar a ponto de casar-se com o Stanford. De momento ele se fazia o duro, o que não tinha sentido. Regina estava obcecada em que o matrimônio se consumasse, embora só fosse
    • para lhe mostrar ao Stanford que as coisas se faziam sempre a sua maneira. Sua perseverança e sua resistência eram ilimitadas, e se Stanford tivesse uma mínima idéia de sua resolução, aceleraria o processo e pediria entrevista com o alfaiate para pôr em marcha seu traje de bodas. Nesse momento, as duas garotas olharam para a galeria e franziram o sobrecenho. Era óbvio que tinham estado fofocando sobre ela e Regina as escrutinou. Comportavam-se de um modo estranho, com conversações entrecortadas e comentários furtivos que Regina não conseguia decifrar. Melanie, em particular, parecia furiosa, mas era muito tímida para admitir o motivo de seu desgosto. Era áspera e rebelde, e mostrava uma constante inclinação à rixa. Regina não suportava mais sua atitude. Melanie estava a ponto de ser a esposa do Stanford e quanto antes se fizesse à idéia e aceitasse a situação, quanto mais plácidas seriam as núpcias. As duas jovens tomaram outro atalho e então foi Kate quem chamou a atenção da Regina. Não a tinha visto a dias e se surpreendeu ao ver como tinha mudado seu aspecto. Seus olhos brilhavam mais, sua pele estava mais radiante, seu cabelo mais lustroso. Mesmo usando o mais nefasto dos trajes, resplandecia e, caminhando junto ao Melanie, não cabia dúvida de quem era mais atraente. Infelizmente, a beleza impetuosa de sua mãe estava aflorando nela, e isso preocupava Regina enormemente. A possibilidade de que Kate chegasse a gotejar alguns dos encantos e a elegância da de sua mãe sempre a tinha apavorado, e seus piores temores começavam a materializar-se. Além disso, uma aura de sorte envolvia Kate. Emanava uma felicidade e satisfação desconhecidas até então. Quando se tinha obrado a mudança? E o que a tinha ocasionado? Regina estava desconcertada. De tê-la pressionado para descrever a transformação, haveria dito que Kate tinha o aspecto de quem acabava de apaixonar-se, o que era ridículo. Que homem em seu são julgamento se interessaria por ela? Era a miserável filha de uma puta e o sangue dizia tudo. Mesmo assim, a Regina preocupava aquela peculiar metamorfose. Tinha o futuro imediato planejado e não queria surpresas. Enquanto caminhavam para ela, Regina as saudou e lhes indicou que subissem à galeria. Avançavam com passo lento e pesado, como encaminhando-se à forca. Por fim chegaram e Melanie lhe perguntou com rabugice: - O que quer? - Passaste muito tempo ao sol. - E o que?
    • Sua insolência tinha que acabar! Regina não ia permitir que os empregados fofocassem sobre sua incapacidade para ganhar o respeito de sua própria filha. - Vá ao seu quarto e deixe que a criada prepare a roupa que vais usar na soirée desta noite. Eu irei em seguida inspecioná-la. - Não quero ir ao minha quarto. Regina contou até dez, tentando acalmar-se antes de sofrer um arrebatamento irracional em um lugar público onde todo mundo podia ser testemunha de seu mau humor. Quando teve controlado de novo seu temperamento, ficou em pé. Melanie não se moveu, embora tivesse começado a tremer. - Vá imediatamente - ordenou Regina com voz serena, antes de que se meta em outro problema. Puxou Melanie pelo braço. Se alguém espionasse a cena não veria naquele gesto nada violento ou estranho, mas Regina a aferrava com tal força que sem dúvida lhe provocaria um hematoma. Os olhos de Melanie se alagaram em lágrimas provocadas pela dor mas também pela raiva. - Crê que pode me obrigar a fazer tudo. - Sim, com efeito. Melanie escapou da mão de sua mãe e partiu zangada. Entrou na casa e deu uma portada, sem lhe importar o que os criados pudessem opinar de seu comportamento. Uns açoites a tranqüilizariam e Regina ia dá-los assim que terminasse com Kate. Kate permanecia imóvel, incômoda por ter tido que presenciar a briga, mas já tinha sido testemunha de muitas outras e tinha aprendido a calar suas opiniões. Regina retornou a sua cadeira, com ar de falso tédio, como se não acabasse de ser humilhada por uma filha impertinente, e fez um gesto ao Kate para que se sentasse junto a ela. - O correio de Doncaster chegou e tenho correspondência para ti. - Da Selena? - Sim, enviou um montão de faturas insultantes e vais ter que assinar as autorizações para que as possa enviar a mister Thumberton. Por sua condição de mulher, Kate não podia ser a procuradora da Selena, de modo que sua mãe tinha contratado a tal efeito ao advogado Thumberton. Mas por algum motivo tinha opinado que Kate revisasse e aprovasse os pagamentos antes que chegassem ao procurador. Regina imaginava que a defunta mulher tinha querido que as duas filhas tivessem relação, o qual tinha resultado ser uma grande vantagem. Para ela! As comunicações da Selena se enviavam ao Doncaster, onde Regina as examinava e procedia em conseqüência. Como iria ingênua e néscia Kate se inteirar de que as faturas não eram autênticas?
    • Kate tomou assento e revisou os falsos documentos; logo enrugou a frente, perplexa ao observar as largas colunas de números. Na folha que listava os gastos domésticos, passou o dedo uma e outra vez sobre a linha em que Regina tinha acrescentado várias caixas de vinho caro. Contemplou a quantidade como se estivesse cifrada em um idioma estrangeiro. - É uma soma enorme, não é? Parece excessiva para uma garota só e tão jovem… - Sua irmã é uma esbanjadora, claro que também o era sua mãe. Deve ter herdado isso dela. Kate lhe dedicou um olhar transbordante de raiva que pôs visivelmente nervosa a Regina. Em geral, Kate não prestava atenção a Regina quando injuriava a seu mãe, mas nesse momento, de repente, parecia a ponto de lhe saltar em cima. - Por que te considera perita nos hábitos econômicos de minha mãe? Nas quase duas décadas que fazia que a conhecia, nunca se tinha atrevido a lhe questionar nada, nem em uma só ocasião. Por muito que Regina a denegrisse, Kate sempre engolia os insultos, aceitando que devia carregar sobre seus ombros com a vergonha de seus pais. - Por que você acha? - replicou Regina com desdém. Quando chegamos ao Doncaster comprovei os livros de contas. Era uma consentida, uma esbanjadora que quase nos arruína com seus esbanjamentos egoístas. - Não acredito. Regina ficou perplexa para ouvi-la replicar. Era o primeiro comentário rude e descortês que Kate pronunciava em sua presença. O desconcerto da Regina crescia por momentos. O que lhe tinha passado? - Sua mãe educou a miss Bela com o mesmo estilo, lhe dando tudo, enganando-a para que crescesse pensando que poderia ter tudo. Bela não sabe conter-se porque nunca teve limites. - Não sabe do que fala. Regina se arrepiou. - Se necessitasse de sua opinião, Kate, pediria-lhe isso. Enquanto isso, sugiro-te que fique em silêncio. Já recebi muita falta de respeito por parte de Melanie ultimamente e não penso ser tão tolerante contigo. Sem mostrar-se acovardada, Kate a olhou diretamente aos olhos. - Algo não está bem nestes papéis e eu gostaria de comentá-los com mister Thumberton. Seria muito conveniente falar com ele enquanto estamos em Londres. Como posso contatar com ele para solicitar uma reunião? - Escreva uma nota. Empurrou uma pluma e tinta sobre a mesa. - Farei que a enviem quanto antes. Embora não sei como se atreve a imaginar que um cavalheiro tão importante e distinto vá ter interesse algum em discutir assuntos contigo. - Eu perguntarei amavelmente - disse ela, com tom sarcástico.
    • Regina a observou enquanto Kate assinava e sorriu satisfeita. «Pobre Kate.» Seria como lhe roubar um caramelo a um bebê. Era tão confiante, tão cândida… Thumberton nunca receberia aquela nota e se Kate era tão néscia para impacientar-se e reunir-se com ele a suas costas, ia ter uma surpresa. Nos falsos gastos que Regina inventou para esconder seu desfalque, havia um claro caminho para o ladrão e levava diretamente a Kate. Ia ser uma lástima perdê-la! De todos os habitantes de Doncaster, ela era a mais fácil de moldar, a mais fácil de manipular. Sua relação tinha dado tantos frutos, tinha-a recompensado tanto…, mas Regina tampouco esperava que durasse para sempre. Enquanto Kate secava a tinta e dobrava a mensagem, Regina especulou se não devia ser ela mesma quem fosse falar com o Thumberton e começar a mover o assunto. Desde o começo tinha tido vontades de lhe dar forma ao final, mas não havia pressa alguma. Tinha todo o tempo do mundo, enquanto o destino de Kate tomava velocidade e começava a descarrilar-se, como uma carruagem à deriva.
    • Capítulo 11 - Vais casar com Melanie? - Crê que deveria fazê-lo? Kate escrutinou ao Marcus, tentando decifrar seus pensamentos. Encontrava-se no outro extremo do quarto, nu, cuidando do fogo e sorrindo como se acabasse de ouvir uma piada graciosa. Ela estava estendida na cama, também nua, o que era sua condição normal em companhia do Marcus. Nunca se encontravam de dia, mas de noite pulavam como se cada encontro fosse ser o último. Kate estava atônita pela rapidez com que se converteu em uma perdida. Marcus a incitava a transgredir e lhe tinha resultado impossível resistir, embora tampouco encontrava razão alguma para deter aquela loucura. Por que negar-se semelhante prazer e satisfação? Queria entesourar a maior quantidade possível de lembranças perfeitas até que sua mágica viagem a Londres tivesse concluído (e concluiria logo) e estivesse de retorno ao Doncaster. Restava pouco tempo e estava convencida de que aquela ia ser a única experiência especial e fascinante de sua vida, o que certamente a fazia pensar nos apuros de sua mãe. Kate sempre a tinha julgado com rigor, tinha visto seu abandono com olhos infantis, de menina assustada; suas opiniões eram além disso distorcidas pelas de Regina. Mas tinham sido os sentimentos de sua mãe pelos do pai da Selena similares aos que albergava ela pelo Marcus? Tinha estado sua mãe obcecada, consumida, viciada nele e ao que contribuía a sua vida? Pela primeira vez, Kate considerava o caso de sua mãe de outra perspectiva, desde a de uma mulher desesperadamente apaixonada por homem equivocado. Se as situações de ambas tinham sido similares, a pobre mulher não tinha tido outra opção. Kate nunca confessava seus sentimentos ao Marcus. A atmosfera de seu romance furtivo era frívola e bastante divertida. Jogavam e flertavam, entregavam-se a condutas proibidas, mas suas conversas nunca se derivavam em nenhum tópico crucial nem mencionavam suas vidas fora do dormitório. Estavam encerrados em um casulo, em que se isolavam das pessoas que em realidade eram, e o mundo exterior não tinha impacto algum em suas noites. Se se encontrassem em algum outro lugar da mansão, como ia reagir ela? Se caminhasse pelo corredor ou se sentasse para jantar e de repente aparecesse ele, que diabos ia dizer lhe? Ele terminou com o fogo e se aproximou; subiu ao colchão e se deitou ao seu lado. Deitados de lado, frente a frente, olharam-se. - Fará? - perguntou ela de novo. Ele já tinha esquecido a pergunta. - O que?
    • - Casará com Melanie? Sua resposta a inquietava. Enquanto estava seqüestrada com ele, resultava fácil fingir que os problemas externos não tinham importância, mas nesse momento o desgosto por sua possível resposta ia aumentando. Como era já típico em sua relação, ele jamais mencionava os motivos que tinham levado Kate a Londres, nunca falava de Melanie nem lhe contava intrigas da cidade. Seus planos matrimoniais eram um mistério e Kate estava ansiosa por conhecê-los. Tinha assumido que podia manter um romance frívolo, que podia desfrutar sem preocupar-se com as conseqüências, mas tinha calculado mal suas possibilidades. Não podia manter-se passiva, era impossível não envolver-se. Ao final, lhe romperia o coração e ela tinha que começar a preparar-se, para que a dor não fosse muito devastadora. Se se casasse com a Melanie, Kate teria que partir de Doncaster. Não poderia residir na mesma casa que ele, especialmente depois do que tinha descoberto a respeito da intimidade matrimonial. Não poderia suportar passar as noites só e ao final do corredor imaginando-o na cama com a Melanie. O que é o que faria? Aonde iria? Mediu a possibilidade de mudar-se com a Selena. Sua irmã era uma pessoa deliciosa e a acolheria, mas tendo em conta o miserável estado de suas finanças, não seria justo impor sua presença. A outra opção seria pressionar Christopher para obter uma atribuição que lhe permitisse viver sozinha, mas Regina nunca o autorizaria e Kate não podia predizer se Chris ficaria de seu lado ou não. Preocupava-lhe que não lhe tivesse devotado ajuda. Nunca tinha duvidado das palavras da Regina e de que não lhe correspondia suporte econômico algum. Mas por que não? Ao fim e ao cabo era filha de um Conde e tinha perdido sua posição simplesmente porque seu pai tinha morrido. Por que tinha a tragédia que lhe negar seu direito à subsistência? Tinham previsto ficar em Londres duas semanas mais e para então devia ter alguma pista do que ia ocorrer. O que lhe proporcionava o futuro? - Suponho que sim, que me casarei com ela - respondeu Marcus, como se não lhe tivesse dedicado a aquela decisão mais tempo que a de que camisa ficar. - Não te burle de mim - lhe brigou ela, falo a sério. - Como pode te importar minha resposta, seja qual for? Ele era mais sábio e já tinha constatado (ela não podia) que ia ser impossível que chegassem a manter um diálogo civilizado sobre algum tema vital. Não havia respostas corretas para nenhum dos assuntos que a preocupavam.
    • Mesmo assim, ela estava decidida a obter respostas. Se suas palavras a corroíam, que assim fosse. Era melhor morrer então que perecer depois de angústia e desconsolo, de um sofrimento para o qual jamais estaria preparada. - Crê que poderia se casar com o Melanie sem que me afetasse? - Não, mas para que preocupar-se? Por que quer se torturar? «Certo. por que?» - Um pouco de tortura talvez me ajude a compreender por que te suporto. Ele riu com ar presumido. - Diz isso porque está louca por mim. E assim era, mas como odiava ser tão débil! Deixou-se cair bruscamente sobre as costas e ficou olhando ao teto, aliviada de ter algo mais ao que olhar além de seus olhos indiferentes. Como podia ser ele tão importante em sua vida quando estava mais que claro que ela era insignificante na dele? Não obstante, decidiu prosseguir com a discussão. Tinha-a começado e a veria terminar, por muito corrosiva que pudesse chegar a ser. - Por que te deita comigo? - Porque é prazenteiro, porque desfruto de sua companhia. Não estava segura do que tinha esperado, mas sua resposta não se aproximava nem de longe. A fazia sentir-se como seu mascote, seu amante mulherengo. - Se te casar com a Melanie, que tipo de relação imaginaste que manteremos? - O que quer dizer? - Vamos seguir como até agora? - Não me cabe a menor duvida. Sua insolência demonstrava que não tinha refletido absolutamente sobre as circunstâncias que afetavam a ambos; que quando pensava seriamente no futuro, ela não estava na cena. - De modo que pensa me visitar de incógnito, provocando a fofoca dos empregados e se arriscando a que sua prometida te descubra em qualquer momento? - O que faça não será assunto da minha esposa. - Nem sequer o fato de dormir com sua amante sob o mesmo teto? Finalmente tinha conseguido exasperá-lo e Marcus soltou um suspiro comprido e pesado. - Por que se preocupa a respeito, Kate? Não me pode dizer que tenha lealdade alguma a Melanie. Guardava-lhe alguma fidelidade? É certo que nunca tinha apreciado realmente a Melanie, mas não lhe desejava nenhum mal. Melanie era jovem, imatura, tola e lhe exasperava, mas tendo crescido sob a asa da Regina, quem não ia o ser?
    • - Consideraste alguma vez que eu não poderia flertar com um homem casado? Inclusive sendo exatamente amigas, Melanie deseja ter uma relação afetuosa com seu marido e se acha que a posso trair, então é que não me conhece absolutamente. Ele se burlou. - Se acreditar que vai ter uma relação afetuosa comigo, está assobiada. - Se se casar com ela, não vou poder seguir vivendo em Doncaster. - Não seja ridícula. - Ajudará-me a me mudar, a encontrar um novo lar? Poderia fazer ao menos isso por mim? - Só está imaginando calamidades e não entendo por que. Deixe disso, Kate. Deixa de preocupar-se. Tinha evitado lhe oferecer garantia alguma, do qual deduziu que se finalmente ocorresse o pior e ele acabava formando parte da família, ela estaria sozinha e não poderia contar com ele. A idéia não deveria feri-la (depois de tudo, sempre tinha estado sozinha), mas tinha acreditado que ele se importaria o suficiente para, ao menos, ajudá-la a instalar-se e estar a salvo em qualquer outro lugar. - Por que está considerando a possibilidade de se casar com ela? Está claro que não te interessa. Seria melhor que a esquecesse. Por que não lhe diz claramente que não tem nenhuma possibilidade? Evite o sofrimento e lhe diga que volte para casa. - Tenho que me casar antes de fazer trinta e um anos - explicou ele, mas não quero, de modo que tudo me é indiferente. - É indiferente com quem se case? - Sim. - Oh, Marcus… Desejava lhe sacudir. Como podia ser tão desdenhoso em uma decisão tão importante? - Se não a pedir em matrimônio, partiremos em duas semanas. - Sei. - O tom de sua voz era frio, evasivo. - Não voltará para ver-me. - Não. Alagou-a uma profunda melancolia. Ia morrer se concordasse a lhe dar uma ínfima mostra do carinho que sentia por ela? Realmente era tão indiferente a tudo? Em seus pensamentos se filtraram as dúzias de mulheres que se teriam deitado com ele antes que ela e as dúzias que o fariam quando ela já não estivesse. Sentia-se tão abatida… Ainda se humilhou mais perguntando: - Não te preocupa minha iminente partida? - Kate - respondeu ele em tom conciliador- , o que quer que te diga? Deveria te declarar minha devoção infinita e reconhecer que estarei desolado, que não serei capaz de seguir com minha vida sem ti? - Talvez é o que precise ouvir. - Sem dúvida…, mas aonde nos levaria isso?
    • - Não sei. - Deveria te suplicar que ficasse em Londres? Começava a zangar-se e ela estava satisfeita de lhe haver arrancado algum tipo de emoção, embora não fosse a que esperava- . Muito bem, ficará comigo e será minha amante? É essa a vida que quer levar? - Não. - Por que não? Adulou-a com sarcasmo. Te situarei bem, em uma casa luxuosa, e te comprarei vestidos na moda. Aparecerei duas vezes por semana para que possa ganhar a vida sem que precise fazer nada. Os vizinhos se fixarão nas horas estranhas às que minha carruagem estará estacionada fora e fuxicarão sobre quem é e como ganha a vida. Seguiremos nos vendo até que me farte de ti e, quando a magia tiver desaparecido e seja outra mulher a que chame minha atenção, pagarei-te uma boa soma e me desfarei de ti. Será tudo muito agradável e limpo. Ela desviou o olhar para a parede. - Não é necessário ser cruel. - Não estou sendo cruel, minha querida Kate. Estou sendo brutalmente franco. Levou uma mão a sua bochecha e a obrigou a olhá- lo. Pode imaginar o que seria sua vida se ficasse comigo? É muito especial e deveria ser adorada e venerada, mas eu não sou o homem adequado para te amar. Não saberia como fazê-lo. - Acredito que é. - É um gasto de energia lamentar-se e chorar pelo que nunca poderá ser. - Mas eu quero mais que isto… Mais que estes encontros rápidos e furtivos na escuridão, com medo constante de sermos descobertos. - Claro que quer mais. - Por que não pode haver mais? - Porque merece alguém melhor que eu. Beijou-a no nariz e na boca. Temos muito pouco tempo para estar juntos. Não o esbanjemos. Desfrutemos do que temos e não estejamos tristes pelo que poderia ter sido. Kate tentou encontrar consolo no fato de que ele a considerasse especial, uma adulação algo morno ao que de todos os modos se aferrou. O que ia ganhar lamentando a realidade, desejando mais? Abraçou-o com força e sussurrou: - Quando for, sentirei sua falta a cada minuto do dia. Ingênua, esperou ouvir um comentário similar, mas ele respondeu: - Sei. Ela grunhiu e lhe deu uma palmada no ombro. - É uma besta vaidosa! - Nunca o neguei. Olhou-a fixamente, pensativo e sério. Mil sentimentos percorreram seu arrumado rosto, mas não expressou nenhum deles com palavras. - Não esteja triste, Kate. Não posso suportá-lo.
    • Como podia ela arrepender-se de algo? Especialmente, quando a olhava desse modo, como se fora única e excepcional, tão extraordinária como ele imaginava. - Não estarei triste. Marcus a beijou de novo e a abraçou com desespero, lhe transmitindo tudo aquilo que jamais expressaria pessoalmente. Os homens não eram as criaturas mais ardilosas, por isso pensou que talvez ele a queria e não podia confessar seus sentimentos ou que possivelmente ainda não fosse consciente da intensidade dos mesmos. Relaxou-se e saboreou o abraço, feliz por ter tido a oportunidade de descobrir o que se sentia estando tão perto de outro ser humano. Nos últimos dias se havia sentido angustiada, como se tivesse estado vivendo sob uma nuvem sinistra, temerosa de não contar com as duas semanas que ficavam até que partisse de Londres. E se aquele fosse seu último encontro? Se algo ocorresse e não tivessem outra oportunidade de ficarem juntos, nunca se perdoaria não ter chegado com ele até o final. Tinha-lhe explicado com certo luxo de detalhes no que consistia e Kate sentia curiosidade… e também desejo de prová-lo. A paixão buliu entre ambos e ele desenhou um atalho de saliva por seu pescoço e seu decote, e ao alcançar um de seus seios o sugou até que a fez contorsionar-se e enlouquecer. Prosseguiu sua viagem para o estômago e o abdômen, até que começou a pular por entre o pêlo púbico. - Abra as pernas para mim, Kate - lhe ordenou. - Por que? - Vou ensinar-te algo. - O que vais ensinar-me? - Kate - a repreendeu , faz o que te peço. - Não, até que me explique suas intenções. - Confia em mim? - Não, absolutamente. O muito patife soltou uma gargalhada e ela o olhou ofendida, insegura de como devia proceder, mas lhe sorriu como o muito mesmo diabo e não pôde recusar. Ele abriu suas coxas até que obteve o espaço que necessitava para manobrar. Então provou seu sabor com a língua, lambeu-a, pinçou em seu interior… - Ah, ah… - exclamou ela sem fôlego - O que está fazendo? - Posso conseguir que te corra deste modo. - Não devemos… Não podemos… - Era incapaz de pôr em palavras todos os motivos pelos que não deviam fazer algo tão perverso. Era muito prazenteiro para não ser pecaminoso - . É muito… muito… - Muito o que? - perguntou ele antes de fazer uma pausa no tortura. - Muito delicioso? Muito depravado? - Sim. - Por isso sabia que você gostaria. Tem o coração de uma meretriz.
    • - Não é certo! - Queria insistir, mas ele começou de novo e qualquer outro protesto resultava vão. Marcus deslocou os braços sob as pernas dela até alcançar os seios com as mãos. Acariciou-lhe os mamilos e logo passou a beliscá-los, depois do qual lhe resultaria fácil empurrá-la ao precipício. Sem grande esforço por sua parte, Kate se quebrou em mil pedaços, planejava pelas cúpulas do prazer, totalmente fora de controle; acreditava que tinha gritado, mas não estava segura. Sentiu-se alagada por ondas de êxtase que demoravam uma eternidade em passar. Quando começaram a diminuir, ele serpenteou por seu corpo, mordiscou-lhe o umbigo, lambeu-lhe o decote; a Kate chateou que tivesse durado tão pouco. Quando se tocavam, ele sempre era capaz de resistir a investida, de controlar a espiral, mas ela nunca podia. Marcus estava certo! Tinha o coração de uma meretriz! Ele alcançou sua nuca e depois seus lábios; beijou-a lentamente, deixando que provasse o sabor de seu próprio sexo, e ela saboreou a impudicícia. Que displicente era! - Faça amor comigo, Marcus. - Kate… - Por favor. Marcus estava acostumado a acreditar-se incapaz de lhe negar nada; ela o escrutinou, deixando-o apreciar o muito que desejava aquilo, seu fervente desejo de que ele fosse o primeiro. - Deixa de me olhar assim. - Como? - Como se pudesse me obrigar a fazê-lo. - Quero que você seja. - Eu não o quero. - Mente. Acariciou-lhe o falo e o encontrou rígido, palpitante. Tinha-lhe ensinado a lhe dar agradar com a boca, a satisfazê-lo com a mão, mas essa noite ela necessitava algo distinto. Não ia poder retornar ao Doncaster sem havê-lo feito. Com algo mais de estímulo, talvez o levasse ao ponto no qual ele já não pudesse negar-se. Girou-o e o deixou de barriga para cima, para poder incitá-lo até o limite. Ele estava duro, impaciente. Ela desceu por seu ventre até dar com o membro. Lambeu o contorno, uma e outra vez, distraindo-o. Sem avisar, sugou-o e lhe deixou empurrar, deixou-lhe deleitar-se até que esteve a ponto de explorar. Quando ele já não pôde esperar mais, ela se afastou e montou sobre seus quadris; seus sexos entraram em contato. Inclinou-se sobre ele; em seu falo brilhava a umidade que brotava dela. Ele tremeu de antecipação e de frustração. Estava desesperado para continuar, mas lutava contra
    • seus instintos mais primários, negava-se a ceder, negava-se a lhe fazer mal. Maldita louca! Mas era uma adulta, sabia o que fazia. - Tome, Marcus! - ordenou-lhe. - Agora! Agarrou-a pelas coxas e a deslocou sobre sua ereção; cada roçar era como um relâmpago que os fulminava. - Está preparada para me receber. - Sim. Para ti, Marcus. Só para ti. - Seria tão fácil… - murmurou ele, mais para si que para ela. Empurrou-a de novo sobre seu sexo. Os seios dela dançavam sobre sua pele. Nutriu-se de seu mamilo. - Mostre como se faz, Marcus. Suplico-lhe isso. Ele investiu suas posições, para que ela ficasse debaixo. Parecia malvado, patético, propenso a cometer qualquer ato infausto. - Não sou um santo, Kate. - Não, não é. - Não lhe posso negar isso, desejo-o muito. - Sim, deseja-o. Talvez aquele fosse o modo de lhe demonstrar o muito que lhe importava. Dava-lhe melhor expressar afeto com atos que com palavras. - Doerá… A primeira vez… Não se pode evitar. - Isso já me disse isso. - Prometa algo. - Tudo, querido, o que quiser. - Prometa que nunca se arrependerá de haver me pedido isso. Como ia arrepender se daquela experiência? Tinha a impressão de que toda sua vida tinha sido só uma viagem até esse lugar, e ali, em seus braços, faria-se mulher. - Sempre me alegrarei de que tenha sido você. Juro. - Oh, Kate… Com seu mútuo consentimento para seguir adiante, a intensidade cresceu nele, sua luxúria aumentou. Arrebatado, entregue, obcecado em conseguir seu propósito, concentrou-se mais que nunca. Suas mãos estavam por toda parte, levando-a para as estrelas; seu desejo se elevava com o dela. Ela estava a ponto de perder a razão, ardente, febril. Ele centrou seu verga e acariciou a entrada com a ponta nua; logo, muito devagar, entrou, só um pouco. Perdendo a confiança de repente, ela se esticou e se arqueou. - Se relaxe. - Estou assustada. - Não esteja. - Não posso evitar. - Acabará logo. Era muito grande! Lutou contra a invasão como a boba inocente que era.
    • - Marcus! Não estava segura do que queria. Ia receber aquilo que tanto tinha suplicado. Era muito tarde para tornar-se atrás. - É perfeita para mim. - Marcus! - Cale-se! - rugiu ele. Estava centrado em sua tarefa, de modo que as súplicas cairiam em saco quebrado. Agarrou-lhe as coxas e os separou mais. - Tenho medo… Eu… Eu… - Sem arrependimentos, Kate. Recorda? Ela lutou com todas suas forças para resistir, mas ele não ia desistir. Empurrou mais dentro, sua haste insistente e determinada, lhe atravessou o hímen, mergulhando-se na vagina. Aturdida pelas estranhas sensações, Kate gritou e ele a beijou, tragando-se seu gemido de agonia e surpresa. Ficou muito quieto, enquanto o corpo virginal do Kate se aclimava, enquanto sua mente se reconciliava com o que tinham feito. Tinha-lhe advertido do que seria, mas não lhe tinha escutado e tinha suposto que o processo seria algo como morrer. Era possível descrevê-lo, mas não se podia compreender a enormidade das sensações que se viveriam até que a gente mesmo franqueasse a soleira. - Essa era a pior parte, - murmurou ele. - E sobrevivi - disse ela, tentando sorrir e mascarando sua histeria. - Tem-no feito muito bem. Ele esboçou um sorriso que a apaziguou. Gradualmente, Kate se adaptou e sua anatomia começou a lhe dar as boas-vindas. - Cabe dentro de mim! - Disse-te que assim seria. - Não te acreditei. - Nunca acredita em mim, - sentia-se feliz e incrivelmente excitado. - Terminemos o que começamos. Ele moveu seus quadris e a sensação do ter tão dentro não se assemelhava a nenhuma que pudesse recordar. Quando a dor inicial começou a remeter, esteve ansiosa para unir-se à dança. Encontrou-se com ele a cada empurrão, os quadris de ambos se moviam ao uníssono. Ele estava mais agitado, mais nervoso, seus movimentos eram mais regulares e precisos. A excitação foi aumentando e, com ele preso em seu interior, o ímpeto era muito mais poderoso. Outro orgasmo lhe estremeceu o corpo e, quando seus músculos internos se esticaram, a pressão precipitou o orgasmo dele. Marcus empurrou mais depressa, uma e outra vez, até que seu sêmen brotou com força. Mas no último instante se afastou, lhe negando a última e definitiva experiência da culminação. Correu-se sobre seu ventre e ela suspirou, de bem-estar, mas também de melancolia. Deveria ter sabido que ele não se arriscaria a engendrar
    • um bebê. Enquanto reconhecia que era sua maneira de ser galante, de protegê-la, lamentou que não pudesse lhe garantir essa parte de si mesmo. Enquanto a paixão minguava, o silêncio e a quietude reinaram no dormitório. Tendo terminado, Kate se perguntava do que falariam. Sentia-se muito mais aflita do que tinha imaginado e um arrojo de lágrimas sulcou suas bochechas. Desconcertado, ele tomou uma ponta do lençol e as secou. - Por que está triste? - Não estou triste, - respondeu ela com sinceridade. - Estou muito, muito contente. - São lágrimas de felicidade? - Não acreditava. - Sim. - Já não é virgem. - E me alegro muito de não sê-lo. - Minha formosa menina. Que feliz me faz que seja minha! Permaneceram aconchegados uns minutos. Depois ele alcançou uma toalhinha com a que limpar os restos da temerária aventura. - Dói? - Passará. Ele a resguardou em seu abraço. - Vamos descansar um momento. Logo pedirei um banho. Não doerá tanto na água. - Parece-me fantástico - concordou ela, embora não lhe deixaria ordenar que preparassem o banho. Era tão mimado! Não percebia que eram duas da manhã e que ela não ia permitir despertar um criado por uma necessidade tão frívola. - Poderemos repetir depois? Ele se pôs a rir. - Morrerei em seus braços! Tampou seu corpo com uma manta e ela descansou, tomando nota de cada detalhe e pensando em quão fácil era tudo com ele. Seu desfloramento podia ter resultado torpe e abafadiço, mas ele era tão doce, tão alegre e despreocupado… E isso a fazia querê-lo ainda mais. Marcus demorou poucos segundos em dormir, e teve a oportunidade de observá-lo ao seu desejo, sem que ele pudesse ocultar seus pensamentos, suas vulnerabilidades e suas emoções. Dormindo parecia tão jovem, livre e despreocupado que ela se perguntou como teria sido sua infância. Ele nunca falava sobre o tema. Tinha ouvido rumores de que sua mãe tinha morrido quando ele nasceu, que ele tinha crescido com seu pai, um homem distante e frio. Jamais mencionava o seu pai, jamais comentava lembranças de travessuras de juventude, amáveis instrutores ou tias que lhe levassem presentes, e Kate suspeitava que tinha sido um menino muito solitário, que a indiferença e arrogância que exibia eram uma reação a aquelas primeiras contrariedades.
    • O quarto se esfriou e Kate o agasalhou com outra manta. Estava tão cansada como ele, mas não se atrevia a ficar adormecida. Seu pior pesadelo era despertar de madrugada e ver uma criada avivando o fogo ou a seu assistente lhe preparando a roupa do dia. Não podiam surpreendê-la com ele! O sonho de Marcus se fez mais profundo e roncou levemente. Ela se inclinou e beijou sua bochecha. Ele sorriu, mas não se moveu. - Amo-te, - sussurrou ela. Desceu da cama com sigilo, apressou-se a recolher seus objetos e saiu nas pontas dos pés. O corredor estava escuro e a escada estava ainda mais. Correu para seu quarto e entrou sem que ninguém a visse. Tudo estava tão silencioso, tão lúgubre… A alagou a impressão de que aquele mundo tétrico e monótono seria o que encontraria de retorno ao Doncaster. Lembraria-se ele dela? A resposta provavelmente era não e resultava muito deprimente. Acendeu uma vela para afugentar a sensação de isolamento. A chama piscou e adquiriu força. Kate se despiu, ficou de camisola e, quando se voltou para agarrar a escova com a intenção de arrumar o cabelo, ficou como pedra. Ali, no centro da cômoda, estava o anel do selo. Aquela visão a mergulhou no pânico. Tomou-o em sua mão, rezando para que não fosse real. Mas o era. Parecia brilhar e palpitar de novo, como se estivesse vivo, como se estivesse tentando comunicar uma mensagem que ela não conseguia decifrar. Ele também tinha tomado a poção e, vítima de seus efeitos, apaixonou-se por ela. Perguntava-se se ele teria em seu poder algum objeto de sua propriedade. Tratou de aniquilar aquela idéia assim que brotou de sua mente. Acaso tinha começado a acreditar em bruxas, em remédios e superstições ancestrais para encontrar seu caminho? Talvez devia visitar o farmacêutico e comprar olhos de tigre e asas de morcego! Gemeu. Como ia se livrar daquele maldito anel? Deslizou-o em um de seus dedos e fechou o punho sobre ele. Mal se deitou e se escondeu sob os lençóis confiando, uma vez mais, em que a jóia desaparecesse pela manhã.
    • Capítulo 12 Pamela estava de pé ao final do salão, abanando-se. Sendo um baile de máscaras, a identidade dos convidados devia ser secreta, mas Pamela os conhecia todos muito bem e para ela não existia o anonimato. Melanie tinha se disfarçado de donzela medieval e dançava enloquecidamente com qualquer um que pedisse. Sua instrutora estava ausente, de modo que ninguém podia lhe aconselhar com quem lhe convinha relacionar-se e com quem não; sua mãe era muito néscia para compreender que devia vetar algumas das escolhas de Melanie. Regina estava sentada do outro lado da sala, fantasiada como a rainha Isabel, mas era muito corpulenta e séria como para que o personagem resultasse acreditável. Como a gulodice era seu único entretenimento, não parava de comer (miúda surpresa!) e Pamela contava já os dias que faltavam para que aquela velha bruxa partisse. Olhou entre a multidão, tentando controlar o Christopher, enquanto se perguntava como podia lhe persuadir para ficar mais tempo uma vez que sua mãe tivesse partido. Pamela tinha que manter sua imagem e fingia não interessar-se por ninguém em particular. Não lhe convinha que seu amor se fizesse público. Podiam propagar-se rumores de sua avançada idade e seu conseguinte desespero por encontrar um par, além de que estava enrolando-a um pirralho, e era algo que não podia permitir-se. Aproximou-se um pouco mais e o espiou, enquanto ele escoltava seu par para o final da fila. A moça ria com deleite, enquanto outros os observavam com inveja. Chris se tinha convertido na atração de todo baile; com seu encanto e atração, ganhou inclusive os membros mais vaidosos da alta sociedade, e isto despertava ciúmes em Pamela. Seu instrutor de baile tinha sido um inepto; Christopher não se mostrava muito hábil com os compassos mais difíceis e as debutantes o tinham adotado sob seu amparo coletivo. Aparentavam divertir-se muito enquanto lhe ensinavam os diferentes passos que, é obvio, ele apanhava ao vôo. Tal e como tinha descoberto em seu dormitório, possuía uma graça atlética natural que o guiava nos encargos físicos e que tinha prendado às jovens; todas o adulavam enquanto ele as fazia girar pelo salão. Elliot se aproximou sorvendo um uísque, embora menos embriagado do habitual. Antes que ela pudesse desviar o olhar, ele se dispôs do objeto de seu interesse. - Tem um trio excepcional de visita, comentou. Como o leva? Fazia anos que compartilhavam uma linda amizade e ele era uma das poucas pessoas com as quais podia ser totalmente franco. - Restam menos de duas semanas. Ou se forja um compromisso logo ou irão a casa. Elliot apontou com o copo em direção ao Christopher.
    • - Parece um bom menino. - Sim, é. E me agrada te informar que não se parece em nada a sua mãe. - Graças a Deus! - exclamou Elliot com sarcasmo. Todo Londres falava de Regina. Apostava-se se por acaso Regina poderia trapacear ao Stanford para que se casasse com a Melanie e, em tal caso, por quanto tempo agüentaria Stanford antes das enviar às duas a algum lugar perdido e inóspito. - Vejo que sente certo interesse pelo moço… Deixou a insinuação suspensa no ar. Ela estava ansiosa por cortar pela raiz qualquer especulação. - Só estou preocupada com ele. Nesta selva de caça fortunas poderia lhe ocorrer qualquer calamidade. - Certamente. - Oxalá Stanford pudesse decidir-se de uma vez. - O que é o que ouviste a respeito? - perguntou ele, cravando o olhar em Melanie- . Hão-me dito que mal falou com ela. - Com o Marcus nunca se sabe… Nem sequer posso imaginar o que é o que vai decidir. - Discuti todo este sórdido assunto com lady Melanie - admitiu, surpreendendo-a- . Com muito detalhe. - Seriamente? - Sim. Pasmava-lhe que tivesse encontrado a ocasião de fazê-lo, claro que o fato de que Elliot pudesse espreitar ao Melanie era só um claro exemplo da péssima tutela de Regina. Qualquer mãe em seu são julgamento o teria açoitado com um pau. - O que diz ela? - Sua mãe a convenceu que haverá bodas. - Como pode estar tão segura? Stanford não ofereceu nem a menor pista de suas intenções. - Melanie está tão convencida que comprou uma poção de amor. Pamela balbuciou, atônita. - Para usá-la com o Stanford? - Está teimando em que ele se apaixone por ela antes da noite de bodas e tem a uma criada instruída para verter a beberagem em seu brandy assim que esteja distraído. - Oh, por favor! E o que mais! - Pôs os olhos em branco- . Onde encontrou algo assim? - Em uma farmácia que está depois da rua onde compra os chapéus. Pamela se pôs-se a rir. Talvez Melanie envenenasse acidentalmente ao Stanford e acabasse assim com o suplício de todos. Daria uma boa lição, por animal! - Lady Melanie está louca.
    • - Provavelmente, concedeu Elliot. De modo que… qual é sua impressão sobre os sentimentos do Stanford? - Não tenho nem idéia, Elliot. Neste preciso momento poderia aparecer e lhe pedir a mão. - Se não o fizer, o que acha que faria ela? - Ela fará o que lhe ordene sua mãe. Não tem muito caráter. Elliot escrutinou ao Melanie com descaramento. - Crê que Regina está considerando alguma outra opção? - Por Deus, Elliot! - A idéia era tão absurda que Pamela soltou uma gargalhada. - Ou seja as influências que poderiam manipular a vontade do Melanie… - Poderia ser você uma delas? - Nunca se sabe, Pamela. - encolheu-se de ombros. Algo poderia acontecer. «Especialmente se não ser muito precavida e sua mãe não a controla o suficiente.» A afirmação flutuou entre eles. O torvelinho social de Londres transcendia a capacidade manipuladora de Melanie ou de sua mãe e Regina não aceitaria conselho de ninguém, embora lhe oferecesse de forma educada e justificada. Elliot sempre tinha sido um amigo fiel e Pamela não professava lealdade alguma para a grosseira e vulgar mucosa. Se conseguisse arrumar um enlace matrimonial e lhe fincar o dente no dote, seria mais poderoso. Ninguém poderia beneficiar do dinheiro mais que ele, e Pamela não ia interferir. Tão envolta como estava na conversação, tinha perdido ao Christopher de vista e ficou nas pontas dos pés para espiar entre a multidão. Finalmente o encontrou. Seguia dançando com o mesmo par. Pamela não chegava a reconhecê-la mas, embora levava o rosto coberto, era óbvio que se tratava de uma garota de excelente berço. Movia-se com uma fluidez e uma graça deliciosas, igual a Christopher. Ambos eram refinados, elegantes, cativantes e enquanto se passeavam ao longo da fila, outros se detinham para admirá-los. Christopher estava concentrado nela, olhava-a como conhecendo sua identidade. Parecia extasiado, fascinado por sua velada beleza e seu estilo ligeiro e sedutor. Pamela se revolveu nervosa. Dava a ligeira impressão de estar… apaixonado! Como podia ter acontecido tão terrível acontecimento? E sem seu conhecimento? Vigiava-o em todas as horas! «Isto não pode ser!», pensou, e se desculpou ante o Elliot para encaminhar-se para a Regina. Embora Pamela evitasse a Regina sempre que podia, era hora de que as duas mantiveram uma conversação franca.
    • Pamela desejava Christopher e Regina queria conseguir Stanford. Se chegassem a um acordo satisfatório, ambas obteriam exatamente o que queriam. Com ar de raposa, Selena desceu apressadamente a escada da grande mansão, apertando os dedos dos pés dentro de seus lindos sapatos para não perdê-los. Pelo caminho tinha ouvido os convidados murmurar ao seu redor e tinha suportado seus olhares curiosos e alguma hostilidade. Todo mundo se perguntava sobre sua identidade, mas ninguém podia adivinhá-la. Nenhum nobre tinha suficiente imaginação para fazê-lo. A carruagem a esperava. Os lacaios que Christopher tinha contratado a tratavam como a uma princesa e assim era como se sentia ela. Ao vê-la aproximar-se, entraram em ação: prepararam o degrau e lhe abriram a porta. Ela se deteve um instante para admirar a imponente casa onde tinha assistido a seu primeiro baile. Era esplêndida, com as janelas iluminadas e a música da orquestra derramando-se para o jardim. Por entre as flores passeavam alguns casais e os diamantes das mulheres brilhavam à luz dos faróis. Antes de chegar a Inglaterra tinha imaginado que sua vida abundaria em festas como aquela, que confraternizaria com gente rica e interessante, que se forjaria a tipo de vida da que seus pais tinham desfrutado na Itália. Mas a sociedade londrina era mais limitada, os códigos morais eram mais rigorosos, e não resultava tão fácil ser aceita em certos círculos sendo forasteira. Infelizmente terei que considerar também seu desastre econômico, que lhe impedia de adquirir a roupa e os complementos imprescindíveis para entrar em sociedade. Nenhum de seus sonhos se materializou, algo que a tinha entristecido… até então. Depois de ter conhecido Kate e ao Christopher, Selena não podia lamentar-se. O destino tinha um modo peculiar de conseguir que as coisas saíssem como deviam. Seus problemas recentes não eram mais que pequenas pedras no caminho, breves atrasos no atalho que devia tomar. Suspirou com deleite. Tudo era fantástico. Ia amar ao Christopher por toda a vida por lhe haver dado um presente tão mágico. Tinha-lhe feito chegar um vestido, jóias, pentes de prender cabelos, luvas, um leque, um xale de encaixe e uma rede para cabelo recoberta de miçangas, componentes imprescindíveis para que a dama mais deliciosa pudesse desfrutar de uma festa na cidade. Edith tinha querido mostrar-se escandalizada pela generosidade do presente, mas nenhuma das duas tinha podido pensar em um motivo pelo qual Selena devesse decliná-lo. Nos últimos tempos, sua vida tinha sido lôbrega, suas expectativas não se materializaram, suas esperanças tinham desaparecido. Christopher era o único raio de luz em sua
    • existência e se Edith lhe tivesse aconselhado não assistir ao baile, Selena não teria obedecido. O que teria obtido com uma rejeição? Christopher lhes tinha levado comida, velas e chá, além de carvão. Sem informar a Selena, tinha entregue a Edith um saco com dinheiro. Assim, tinham podido pagar a seu pequeno quadro de serventes e tinham podido saldar velhas dívidas com os comerciantes. Era magnífico estar viva naquela noite magnífica! Um lacaio elevou seu pé e ela entrou com cuidado, para não danificar a saia de seu vestido novo. Os cavalos trotaram para a saída, mas antes de chegar à curva o condutor os deteve. Ouviu-se uma saudação cordial e risadas masculinas. A porta se abriu de par em par e ali estava Christopher, como tinha prometido. - Ah, a mulher mais formosa do baile! - brincou - E está sentada em minha carruagem! Que afortunado sou! - Entra, depressa, antes que alguém te veja! Enquanto a carruagem retomava o caminho, Selena o agarrou pela jaqueta e ele caiu sobre ela. Em uma confusão de braços e pernas, ele conseguiu estabilizar-se sobre o assento e sentar a Selena em seus joelhos. Logo se desfez da máscara. - Se divertiu? - perguntou. A luz da lua entrou pela janela e iluminou seu sorriso. Seu cabelo loiro brilhou como um halo e estava tão radiante que ela se sentiu como se estivesse viajando com um anjo. - Sim, sim, sim! - Beijou-o e em seguida riu do entusiasmo com o que lhe havia devolvido o beijo. - Foi fabuloso. - Bem, porque tenho previsto te proporcionar mais diversões como esta. A excitação emocionou o coração da Selena, mas a jovem não se atreveu a perguntar pelos detalhes. Referia-se a algo ocasional ou a um pouco mais permanente? Se Lorde Stanford não se animasse a tomar uma decisão a respeito de Melanie, Christopher teria que partir logo ao Doncaster a acompanhar a sua mãe. E então, o que? Selena não suportava imaginar a resposta. - Como conseguiu escapar? - perguntou trocando de tema, muito preocupada para entrar em acidentados territórios. - Menti a minha mãe, disse-lhe que não me encontrava bem. Voltará para casa com lady Pamela e me alegro de perder a viagem de volta. Durante suas poucas escapadas, tinha-a afligido com histórias relacionadas com a Regina, a dominante; Melanie, malcriada, e Pamela, a insidiosa. Estava rodeado de mulheres dementes, e Kate era a única que conservava a prudência, mas lhe tinham proibido assistir a qualquer ato social (uma ordem com a que ela parecia agradada, de modo que Chris não tinha tentado levar a contrária a sua mãe) e apenas a via. - Oxalá Kate pudesse ter assistido, teria se divertido tanto…
    • Antes de conhecer Kate, tinha pensado que levava uma vida feliz e divertida em Doncaster, quando em realidade era muito mais triste que a da Selena. - A trarei de visita amanhã. - Oh, é o homem mais encantador! - Só contigo. Era muito modesto, pois sua amabilidade se estendia a todo mundo. O serviço estava prendado dele. - Falastes que nós? - Vamos surpreendê-la. - Se alegrará? - Muito. Selena não estava tão segura como Chris da opinião de Kate. Ao lembrar pela primeira vez em seu vestíbulo, Kate se tinha mostrado envergonhada, não tinha querido lhe revelar que eram irmãs. Portanto, como ia ver sua relação secreta? Ele a olhava como se pudesse beber-lhe com os olhos. Sempre parecia estar a ponto de lhe fazer uma importante confissão e ela morria por saber do que se tratava. Como detestava ser mulher! Era tão torpe tentando mostrar-se tímida e coquete… Tinha herdado a natureza impetuosa de sua mãe e não suportava ter que esperar em silêncio até que ele encontrasse o momento de atuar. Se encontrasse uma maneira de trazer para colação seu futuro em comum, faria-o. Ele tinha enredado os dedos em seu cabelo e tinha a língua em sua boca. Beijou-a longamente e ela se desfez de prazer. Beijava tão bem que logo apagou de sua memória toda necessidade de falar. Sabia exatamente o que tinha que fazer, quando e como, o que fez pensar a Selena que devia ter tido muitas oportunidades para praticar. Provavelmente tinha beijado a infinidade de garotas. Ao fim e ao cabo, quem ia ser capaz de resistir. Selena confiava em que seus dias de práticas tivessem concluído. Quando tivesse vontades de beijar a alguém, seria a ela a quem recorreria. O abraço se tornou mais acalorado, mais apaixonado, enquanto a reclinava sobre seu braço. Levantou-a com a ligeireza de uma pluma. Chris afundou o rosto em sua bochecha, em sua nuca, em seu peito. O vestido tinha um corte muito baixo que lhe permitiu esfregar-se no decote. - É tão formosa, Selena… - murmurou - . Sempre será minha? Era uma declaração algo vaga, certamente. Sempre que estavam juntos roçava com as gemas dos dedos uma afirmação mais significativa. Atreveria-se algum dia a soltar o que na verdade queria dizer? - Sim, sempre. Introduziu uma mão sob o sutiã e, sem apenas esforço, um seio aflorou ao exterior. Acariciou a suave colina, massageando-a,
    • investigando sua forma e tamanho; logo se inclinou e a surpreendeu lhe sugando o mamilo. O pequeno broto se endureceu até converter-se em uma dolorosa turgidez. Cada manobra a obrigava a retorcer-se até que perdeu o equilíbrio sobre seu regaço. - Chris! O que está fazendo? Em realidade, não precisava perguntá-lo. em que pese a estar à corrente de muitas das cuidados amorosas, não sabia exatamente como se levavam a cabo nem que pudessem ter lugar em uma carruagem que trotava por uma rua na penumbra. - Isto é desejo, Selena. Quero te mostrar o que é o que vamos compartilhar. - apartou-se e a olhou aos olhos. Vais deixar-me? Não podia negar-lhe menos ainda observando-a como se ela fora a mulher mais extraordinária do mundo. Mas seus dedos não luziam nenhum anel e a aterrava que seu verdadeiro propósito fora lhe sugerir que se convertesse em seu amante, algo que ela rechaçaria totalmente. Por isso, não consentiria em chegar muito mais longe até estar segura de suas intenções. - me prometa que parará se lhe peço isso. - Claro que o farei. - Olhou-a com calidez - Jamais te desonraria. - Sei que não o faria. Ele retornou ao seu peito; lambeu-o e o sugou enquanto jogava com o outro. A sensação era entristecedora e a acendeu; inclusive as veias e todos os poros de seu corpo pareciam vibrar. Muito dentro de si, sua vagina se convulsionava e enfurecia cada vez que os lábios do Chris atiravam dela. Estava úmida, seu corpo fluía para ele e tinha a impressão de estar a ponto de estalar. Chris tentava lhe levantar a saia, mas não lhe importava. Delirava com tal agitação que não acreditava ser capaz de agüentar a tortura por muito mais tempo, e pensava que ele aliviaria o desassossego. Tinha que haver um ponto final, não era possível que uma pessoa suportasse tanta tortura. Aquilo não podia ser seguro; temeu que se a espiral se prolongava lhe pararia o coração. - O que me está se passando? - gemeu. - Se relaxe, querida. Quase terminou. Sua mão subiu pelas pernas para o vértice entre as coxas, onde se concentrava toda a agonia. - Vou tocar-te. Farei que se sinta melhor. Chegou ao seu destino e a acariciou. Ela abriu mais as pernas de maneira instintiva, como sabendo o que ele se propunha. Com o vestido decomposto e seus joelhos abertos, sem dúvida devia parecer uma rameira, mas não lhe importava absolutamente. Só queria que acabasse aquele sofrimento! Ele introduziu um dedo e começou a acariciá-la para dentro e para fora. Ela apanhou imediatamente o ritmo com os quadris e cada vez o arrastava mais dentro, o que a aliviava um pouco, mas não era suficiente.
    • - Não o suporto mais - gemeu. - Já quase acabei. Ele compreendeu o que acontecia tentou ir mais depressa, o que pareceu satisfazê-la. Estava além da razão, do controle. Com o polegar encontrou um ponto sensível que ela desconhecia e ao tocá-la foi como se a fulminasse um raio. - Ah… Ah… - Não podia falar, não podia imaginar o que ia passar, mas ele parecia saber. - Agora, Selena - ordenou ele, - deixe ir. Cega de êxtase, rompeu-se em mil pedaços e flutuou pelo universo. Sem querer o, gritou (muito!) e estava segura de que a tinha ouvido fora da carruagem. Gradualmente, as sensações minguaram e ficou relaxada como uma boneca de trapo, desabada como estava sobre o braço de Chris. Ele riu, satisfeito de ter observado a liberação de sua luxúria. - Minha pequena libertina, - sussurrou. - Que bem o vamos passar! - O que foi isso? - Paixão, Selena. - Crê que me ouviram os lacaios? - Com certeza que sim. Gemendo mortificada, afundou seu rosto na jaqueta dele. Christopher a tranqüilizou, com carícias e palavras, até que se detiveram em frente ao seu apartamento. Nenhum servente se apressou a abrir a porta, o que a certificou de que estavam à corrente do que tinha ocorrido dentro. Eram as carruagens um lugar habitual para comportamentos ilícitos? Era ela a única que não sabia? Nunca voltaria a olhar um carro em movimento com os mesmos olhos. Tentou sentar-se, mas seu corpo não obedecia, de modo que Christopher teve que ajudá-la a recompor o cabelo e a roupa, e lhe cobriu os ombros com o xale. As circunstâncias tinham feito que crescesse mais depressa que qualquer outra garota, mas realmente não tinha amadurecido até esse momento, não tinha apreciado o que significava ser mulher. Sentiu-se adulta, mais sábia, preparada para inaugurar uma nova etapa em sua vida. - É isto algo que os casais casados fazem? - perguntou. - Com bastante regularidade. De repente, o matrimônio tinha um novo atrativo. - Pode passar mais de uma vez? - Sim, pôs-se a rir. Uma e outra vez. - Quando podemos repetir? - Logo que encontremos o momento de estar sozinhos. - Promete-me isso? - Sim, minha perdida, prometo-lhe isso.
    • As brincadeiras terminaram e ambos sorriram, com todo um novo mundo de compreensão abrindo-se entre eles. O carinho era recíproco, genuíno e precioso, tanto que teria sido um crime evitá-lo ou tentar aniquilá-lo. Selena tinha a impressão de o conhecer de toda a vida, como se o destino o tivesse levado a propósito a aquele lugar. Um novo fluxo de otimismo se apoderou dela. Inclinou-se sobre ele e o abraçou. - Amo-te, sussurrou. Sua proclamação era descarada e presunçosa, mas se alegrava de não ter conseguido reprimi-la. - Eu também te amo, respondeu ele. Mas não acrescentou mais. Não se comprometeu nem mencionou o futuro. Beijou-a com doçura. Bateu na porta e um lacaio a abriu e colocou o degrau. - Virei amanhã a ver-te, - declarou Christopher. - Traga contigo a Kate. - Assim farei. Esperou um instante; não lhe ofereceu nada mais, mas o sorriso permaneceu no rosto de Selena. Voltou-se e desceu; o lacaio a ajudou cortesmente sem dar indicação alguma de ter sido testemunha de seu escandaloso comportamento. Ao final, Christopher murmurou: - Selena. - Sim? - Ela se voltou ansiosa. Ele a observou durante uma eternidade e logo disse: - Falaremos disso manhã, quando Kate estiver conosco. O que tinha querido dizer? Kate era sua irmã e tutora. Planejava pedir sua mão? Não podia suportar a espera. - De acordo - assentiu, e correu para o edifício.
    • Capítulo 13 Marcus acessou ao vestíbulo da mansão e piscou uns instantes para habituar-se à penumbra, que contrastava com a intensa luz do exterior. Prometeu-se que de adulto jamais viveria na mansão e até então o tinha conseguido. Só a visitava em raras ocasiões, quando o dever o chamava. Olhou para a grande escada e se perguntou por que nunca tinha conseguido se conectar com aquele lugar tão frio e ostentoso. Pertencia a sua família há trezentos anos e Pamela tinha investido uma fortuna em decorá-lo à última moda. O mero feito de ter passado a ser proprietário da casa deveria ter mudado seus sentimentos para com ela, mas tudo que percebia eram os lôbregos vestígios de uma infância triste e as acres lembranças de uma adolescência dominada pela confusão. As paredes gotejavam a amarga traição que tinha sofrido um ingênuo e iludido jovem, apaixonado pela mulher errada. De quando em quando pensava em seu pai e sentia curiosidade por saber se em algum momento tinha se arrependido da perfídia que tinha perpetuado com Pamela. Claramente, sua união tinha sido violenta, repleta de conflitos. Pamela havia valido a pena? Tinha justificado seu amor por ela à perda de contato com seu único filho? Arrependeu-se em algum momento do que tinha feito? Marcus não sabia. E de todos os modos, embora seu pai se arrependesse no leito de morte e lhe tivesse suplicado perdão, Marcus não estava seguro de que então lhe importasse. A boas horas! O mordomo o viu, precipitou-se para ele e o saudou com uma alegria que incomodou ao Marcus. O título que ostentava o enojava, sentia-se como um impostor que não merecia tantas mostras de respeito e admiração. Conhecia aquele homem desde menino; mais de uma vez o tinha arreganhado e inclusive lhe dado um par de açoites no traseiro se tivesse cometido alguma travessura. E, entretanto, em sua presença sempre tinha a sensação de estar traindo-o, por não envolvê-lo suficiente em sua condição de Conde, por não administrar seu legado com mais entusiasmo. Cada vez que andava pela mansão, não só o mordomo, mas também todos os serventes tentavam mostrar-se particularmente atentos - coisa que não faziam em presença de Pamela - e Marcus sempre tinha a impressão de que estavam a ponto de lhe implorar que se instalasse na casa e expulsasse sua inquilina. Estariam estar melhor se lhes impusesse os caprichos de Melanie Lewis? Alegrou ao mordomo lhe atribuindo a tarefa de conseguir grande quantidade de brandy antes de sua reunião mensal com Pamela. Discutiriam sobre negócios e petições especiais que ela ansiava ver concedidas.
    • Ele supunha que para ela ver-se obrigada a lhe pedir até o último centavo era bem desagradável. Marcus não estava seguro do motivo pelo qual seu pai não lhe tinha dado nada, mas podia imaginar o velho na tumba rindo-se daquele leve castigo. Marcus deu meia volta e se encaminhou à reunião. Para sua surpresa e deleite, Kate se aproximava do final do corredor. Usava seu habitual uniforme cinza de instrutora e o capuz do manto, também cinza, sobre a cabeça, ocultando seus formosos cabelos. Era evidente que se dirigia a algum lugar e Marcus experimentou uma pontada de ciúmes ao pensar que seu dia se desenvolvia sem ele, que tinha planos e compromissos que ele desconhecia. Passava com ela uma considerável parte da noite. Podia descrever seu sabor, como se esticava quando tinha um orgasmo, como suspirava quando tudo terminava. Mas não tinha idéia de aonde se dirigia e isso o importunava sobremaneira. Ia às compras? Sozinha? A idéia o desenquadrou. Devia ter a um lacaio que a ajudasse com os pacotes! Ou talvez ia a alguma entrevista de caráter social? A quem conhecia em Londres? Uma velha amiga? Uma tia anciã? Chateava-lhe pensar que podia existir alguém a quem ela adorasse, alguém que compartilhasse com ela certa intimidade a que ele não tinha acesso. Percebeu que não suportava mais as limitações de sua relação, que precisava saber mais dela, compartilhar seu mundo. Durante seus encontros, havia tantas coisas que desejava perguntar, sobre seus pais, sua história pessoal, sua posição em Doncaster… Mas, em geral, a paixão o dominava com tal força que sempre postergava as reflexões a respeito, à espera de um momento mais adequado para suas indagações. Mas quando chegaria esse momento? Em uma semana, Kate se iria. Estava preparado para sua partida? A resposta era óbvia: não. O que significava isso? Doía-lhe o coração. Era amor? Como podia ser? E de que outro modo podia explicar aquelas sensações tão dolorosas? Sua obsessão raiava ao absurdo: quando não estava com ela, enlouquecia de impaciência para voltar a desfrutar de sua presença. Parecia um lunático. Tinha que ser amor. Nenhuma outra emoção podia explicar aquilo. O que ia fazer? Não era tão ruim para lhe confessar seu amor. Kate saborearia suas palavras, lhes outorgando erroneamente um valor quando em realidade não o teriam. Kate merecia um marido leal, uma casa, filhos aos que adorar. Não podia carregá-la com sua miserável presença. Era uma pessoa vil de hábitos deploráveis, ofensivos e arraigados. Se casassem (uma condenação que jamais lhe infligiria), Kate logo começaria a lhe odiar, assim que descobrisse o cruel e insensível que era, o trapaceiro indigno de confiança que levava dentro.
    • Nenhuma mulher devia sofrer tal destino e muito menos sua amada Kate. Mas não podia evitar perguntar-se como se sentiria acompanhando-a, como reagiria ela se lhe aproximava, a pegasse pelo braço e a acompanhasse até a carruagem. Sorriu. Provavelmente o fulminaria com o olhar. Mas, ah, que delicioso sonho, os dois sós na carruagem, conversando animadamente, percorrendo a cidade. A levaria a loja de roupas de madame LaFarge, faria que tomassem medidas para novas roupas, desfrutariam de um chá naquele restaurante de Bond Street que tão de moda estava, e depois… Ela levantou o olhar e o viu, e ele desejou que tivesse existido algum artefato capaz de capturar sua expressão. Um sem-fim de sentimentos afloraram ao seu rosto: euforia, terror, medo, felicidade, tristeza. Estava emocionada por tê-lo encontrado, mas ficou petrificada ante a incerteza do que ele faria ou diria. Tinha tão pouca fé nele! - Olá, miss Duncan, - a saudou. - Como está nesta formosa tarde? - Lorde Stanford - respondeu ela com uma rápida reverência, sem separar o olhar do chão. - Sai? - não pôde resistir lhe perguntar. - Sim. - Ante seu cálido e incisivo olhar, ela se viu obrigada a acrescentar- : vou visitar uma conhecida. - Confio que não irá sozinha. - Lorde Doncaster se emprestou muito amavelmente a me acompanhar. - Bem, as ruas de Londres não são seguras para uma mulher. Nunca se sabe que tipo de infortúnios espreita nelas. Parecia tão inquieta, tão total… Ele detestava aquele servilismo. Aproximou-se dela, pegou-a pela mão e a obrigou a elevar-se da reverência. Com um rápido olhar se assegurou de que nenhum servente rondasse perto e se aproximou dela até que suas botas se deslizaram sob a prega de sua saia. - Pare por favor, - suplicou ela com um fio de voz. Sentiu-se ofendido ante sua reticência a que ninguém detectasse a familiaridade que existia entre ambos. Tão terríveis seriam as conseqüências de proclamar que Kate lhe pertencia? Deixaria de girar a Terra? Deteria-se o tempo? Seu desdém o feria. Sentia-se despeitado. Era a única vez (além do enganoso amor que havia sentido de menino por Pamela) em que uma mulher lhe importava, mas seus cuidados pareciam aterrá-la. Sua rejeição era justificada e lhe chegava na medida exata que merecia. A fim de contas, o que tinha feito a não ser persegui-la e seduzi-la até a ruína? Por que deveria o ter em boa consideração? - Acredito que nunca te tinha visto a luz do dia - disse ele, com o mesmo fio de voz.
    • Teve que fazer provisão de toda sua força de vontade para resistir à tentação de tocá-la. E era impossível, tal e como tinha deduzido ao princípio, estar perto dela e não acariciá-la. - Tenho que ir. - Ainda não. Pôs um dedo em seu queixo e elevou seu formoso rosto, obrigando-a a olhá-lo aos olhos. - Posso te acompanhar? Ela se surpreendeu ante tal proposta, sem dissimular o medo a que ele pudesse forçar sua presença na excursão. - Não, absolutamente. Não se atreva… Até tendo estado seguro de qual seria sua resposta, tinha optado por lhe fazer aquela exorbitante pergunta. Deveria ter evitado. Se ela o tivesse mimado, o que teria feito ele? Cada um de seus movimentos escondia o peso de seu desejo, como podia ter viajado inocentemente ao seu lado? Estava disposto a admitir publicamente seu caso? Ela perderia seu emprego, teria que ficar em Londres. Estava disposto a ocupar-se dela? Por quanto tempo? Em que condições? Passou a vida evitando responsabilidades e as perguntas que começavam a lhe assaltar eram tão alarmantes que nem sequer podia começar às responder. Encolheu os ombros e sorriu, tentando trocar de tema. - Detesto que use cinza. - Sim, já sei. - Kate tentou lhe esquivar, escapar. - Agora, se me desculpar… Ele bloqueou a retirada. - Não te desculpo. Tornou-se louco? Apenas os separavam uns centímetros, alguém podia aparecer de súbito no corredor e vê-los. Ouviram passos na escada. Separaram-se de um salto. Era Christopher, a quem Marcus apreciava sinceramente. Sentiu-se aliviado pela interrupção. - Olá, Marcus - saudou Christopher com sua habitual energia enquanto caminhava para eles. - Tinha esquecido que já conhecia minha prima. Esteve escondida desde que chegamos. Marcus se voltou para ela e franziu o cenho, mas Kate tinha de novo a vista cravada no chão. Aquela última e vital informação o ofendeu. Acreditava que era uma criada, mas não, era uma parente pobre, a supérflua convidada que sempre estaria com eles porque não tinha outro lugar aonde ir. Que existência tão deplorável, tão triste, para alguém a quem ele considerava um ser delicioso. - Sua prima? - Não estava seguro de estar lhe perguntando a ela ou ao Christopher. - Não sabia que eram parentes.
    • - Muito longínquos - informou Christopher -, mas sim, somos primos. Vamos visitar sua irmã. Kate empalideceu ante a alegre asserção do Christopher. Perplexa e confusa, perguntou: - Como sabe? Christopher afogou uma risada e lhe deu umas palmadas tenras no ombro. - Falaremos na carruagem. Marcus concentrava grosseiramente sua atenção nela, lhe pedindo uma explicação de por que nunca lhe tinha dito que tinha família em Londres. Mas por que deveria ter contado? Ele não tinha evidenciado ter interesse algum na vida de Kate além do que ocorria em seu dormitório. Mesmo assim, queria sacudi-la, insistir para obter uma explicação. Apesar das estranhas circunstâncias nas que se desenvolvia sua relação, ele tinha acreditado estar mais perto dela, mas ao que parecia Kate não sentia nenhuma necessidade de compartilhar com o Marcus certos detalhes. Se a interrogava, que razão lhe daria para justificar sua intimidade com ele?Rendeu-se só a sua pressão, para não declinar uma ordem do amo da casa? Tinha assumido que Kate lhe professava carinho, que possivelmente inclusive o amava, e se sentiu um tanto desorientado ao dar-se conta de que talvez a percepção que tinha do vínculo que os unia fora equivocada. - Tem uma irmã? Na cidade? - perguntou-lhe, quase suplicando uma resposta. Seu tom era confidencial, mais tênue que nunca. Chris respondeu: - Sim, e me perguntava se poderíamos abusar de sua amabilidade a nossa volta e te fazer uma consulta. - A respeito a que? - Kate é tutora de sua irmã, mas há um problema com certos gastos da herança que são excessivos e que não foram autorizados. Apreciaríamos sua orientação para saber como devemos indagar no assunto. Kate estava tão angustiada pelos comentários de Christopher que Marcus temeu que seus joelhos acabassem cedendo ao seu peso. Christopher não se dispôs do detalhe, mas Marcus estava tão sensível em relação aos sentimentos dela que podia captar qualquer pequena moléstia que a afligisse; morria por aproximar-se dela e sustentá-la em seus braços, mas não se atreveu. - Chris - disse ela ao fim, - está aborrecendo a Lorde Stanford com nossos problemas de família. Preferiria que não o fizesse. - Acalme-se - disse Marcus, - não me importa. - A mim sim, - respondeu ela zangada. Estava furiosa, sumida em um torvelinho que ele não podia compreender. Tinha sido tão néscio para acreditar que conhecia já o essencial de Kate. Como podia guardar tantos segredos?
    • Christopher se mofou de sua irritação. - Não lhe faça caso, - advertiu. - É tão sofrida… Se esquece de que tem amigos e se empenha em solucioná-lo tudo sozinha. - Ofereceu o braço a Kate. - Vamos? Selena se impacientará se chegarmos tarde. Kate tropeçou, mas recuperou de novo o equilíbrio sem mais e Marcus a escrutinou. O absoluto desconcerto da jovem ante as repetidas menções que Christopher fazia de sua irmã, tinha-a confundido em extremo, mas sua ansiedade ia além de uma mera reação habitual. Algo a assustava, mas o que era? Que notícias queria ela que permanecessem em segredo? Sabia realmente algo mais sobre as discrepâncias fiscais do que tinha admitido ao Christopher? Uma imagem se apoderou de Marcus: Kate em seu dormitório, devolvendo o anel que tinha roubado. Tinha constatado que o anel tinha desaparecido de novo. Era uma ladra? Tinha brincado com Pamela a respeito, mas sem considerar jamais que a acusação pudesse ser fundada. A idéia era tão estranha e absurda que a desprezou imediatamente. - Falaremos mais tarde - disse aos dois, embora em realidade era um aviso para que Kate soubesse que ia ter que dar algumas respostas. Observou-a, desafiante e incômodo, enquanto se afastavam. Saíram da casa. Ele ficou na soleira até que a carruagem represou o caminho, e logo se dirigiu com passo lento para o corredor para ir à tediosa reunião com Pamela. No vestíbulo que dava passo à biblioteca viu o mordomo, que voltava com a bandeja com o brandy. Seu semblante era cordial, mas não comentou nada e logo desapareceu, como se estivesse evitando encontrar-se na linha de fogo. Marcus entrou e saudou, não só a Pamela, como tinha previsto, mas também a Regina Lewis. Odiava-a e seu primeiro impulso foi voltar e sair correndo. Pamela ficou em pé e tentou afugentar o desconforto do momento com seu habitual falatório: - Stanford! Que delicadeza sua pontualidade. - Assinalou para a Regina. - E olhe quem nos acompanha. Lembra-se da Regina, é obvio. - É obvio. Brindou-lhes um olhar que podia ter derretido chumbo. Caminhou para o aparador e se serviu uma generosa quantidade de brandy. Reconfortado pelo álcool, sentou-se atrás da grande escrivaninha, para usá-la como barreira protetora contra as duas mulheres. Pamela o conhecia o bastante para saber que um encontro de tais características não seria do seu agrado, e o fato de que ela mesma o tivesse organizado só podia significar que aquele par de mulheres tinha ideado algum complô. Eram cúmplices em materializar seu matrimônio com Melanie e ele estava determinado a arruinar qualquer esperança que pudessem ter a respeito.
    • Olhou-as fixamente sem dizer nada e ambas se revolveram em seus assentos. Regina era uma tirana, famosa por sua habilidade para intimidar, mas tinha encontrado nele um competidor infatigável. Esperou e seguiu esperando, sorvendo o brandy como se não tivesse a menor preocupação na vida. Apanhada entre os dois, Pamela não sabia como atuar e finalmente rompeu o silêncio: - Regina solicitou falar contigo hoje. Está impaciente para discutir a questão de lady Melanie. - Marcus não falou, de modo que Pamela apressou: por que não começa, Regina? Regina trocou de posição na cadeira. - Viemos a Londres convidados por Pamela e ela me deu a entender que tinha certo interesse em Melanie. - Seriamente? Marcus esvaziou o copo de um gole e, com sua grosseria habitual, foi servir se outro, que saboreou enquanto Regina ideava alguma estratégia alternativa. - Desde nossa chegada não mostrou nem um ápice de curiosidade. Quais são seus planos para com ela? Pelo menos lhe tinha economizado uma ofensa adicional indo diretamente à questão, sem preâmbulos, o que certamente poderia acelerar o final de tão incômoda reunião. Mas qual devia ser sua resposta? Não tinha a menor idéia. Sentia a irrefreável tentação de anunciar sem mais rodeios que jamais lhe proporia matrimônio, nem em um milhão de anos, que desprezava Melanie, mas assim que houvesse dito todo aquilo era mais que provável que Regina recolhesse suas coisas e partissem todos, incluindo Kate, a quem não voltaria a ver. Convenceu-se de que isso era o que queria e tinha informado a Kate que sua relação terminaria em algum momento. Mas a realidade o golpeou e se sentiu fraco ante a idéia de que ela partisse. Suas noites tristes, longas, solitárias e silenciosas se imbuíram de paixão e risadas. Como poderia sobreviver sem ela? Mesmo assim, não era justo infundir falsas esperanças em Regina, dar asas a um entusiasmo falso. Jamais deveria ter permitido a Pamela que o convencesse a receber tal visita. Aquela idéia tinha sido uma insensatez desde o começo. - Não tenho muitos planos para com ela, respondeu. Ao ver que as duas mulheres se arrepiavam, acrescentou, com maior tato: Seria uma união terrível… como estou seguro de que sabem. Por favor, desfrutem de nossa hospitalidade uma semana mais, mas depois o melhor será que retornem a Doncaster. Levantou-se e bebeu. - Confio em que apresentará minhas desculpas a lady Melanie. Ausentou-se e Pamela vacilou uns segundos. Ao cabo decidiu sair atrás dele até o jardim. Teriam uma discussão e a perspectiva a deleitava,
    • mas detestava que se ventilassem seus assuntos privados em presença dos lacaios. - Marcus! - gritou Pamela ao lhe ver disposto a subir à carruagem. Ele se voltou com brutalidade, deixando patente a raiva e a antipatia que sentia. - Diga-o rápido, Pamela, não estou com humor para nenhuma de suas artimanhas. Ela sorriu, fingindo que tudo ia bem. - Não mantivemos nossa conversação mensal sobre minhas necessidades financeiras. - Todas elas ficam negadas. O dinheiro, ou a ausência do mesmo, sempre a fascinavam. Nesse instante abandonou toda tentativa de travar uma conversação civilizada. - Pediu-me um encontro, não pude me negar. - Por que não? Pamela se esforçou para dar com uma resposta que ele pudesse aceitar: - Merecia uma audiência. - Agora já a teve. - Não pode lhes enviar de volta a casa. - Claro que posso, já o fiz. - Nunca deu uma oportunidade a essa maldita moça. - Não a merecia. Não consigo imaginar por que selecionou a uma candidata tão inapropriada para mim. - O que é exatamente o que consideraria apropriado para seu exaltado ego? - Poderíamos começar por alguém que não seja uma menina e que tenha um pouco de personalidade. Pamela jogava fumaça; sua boca se deformou em uma careta muito pouco atraente. - Supõe que devo tirar outra candidata do chapéu, como um mago em uma feira? - O que faça ou deixe de fazer, deixou já de me importar. - O que acontece a nossa… - se deteve a tempo com sua herança? Seu aniversário se aproxima. - Importa-me pouco que ambos acabemos vivendo debaixo de uma ponte. Importa-me realmente pouco. - Bastardo! - espetou-lhe ela. - Cuidado, querida, não é necessário questionar meus antecedentes. Estou seguro de que meus pais estavam casados antes de eu nascer. Pamela desmascarou toda sua hostilidade e tremeu de raiva. - Não vou deixar que te saia com a tua assim, tão facilmente. - Não me ocorre como poderia me deter. - Arruinarei-te, denunciarei-te, arrebatarei-te até o último centavo e… e…
    • Sua imaginação foi incapaz de idear nenhuma outra ameaça e sua integridade se desmoronou como um castelo de areia. Não havia modo algum de obrigá-lo a fazer nada. - por que não busca um marido rico? Isso me permitiria arrancar suas ambiciosas mãos dos cofres de Stanford. - É uma besta cruel! - exclamou ela, raivosa. - Em efeito. - Odeio-te! Pamela deu meia volta e pôs-se a correr para a casa. Entrou e a portada fez retumbar os cristais. Marcus subiu à carruagem, hospedou-se em seu interior e se relaxou, enquanto os cavalos começavam a trotar. Capítulo 14 - Preferiria que não incomodasse Lorde Stanford com meus problemas. - Por quê? - perguntou Chris - . A verdade é que é um bom homem, uma vez franqueada a barreira que ele impõe. - Mesmo assim, envergonha-me. Por favor, me prometa que não vai lhe confiar nossos assuntos. - Necessitamos seu conselho, Kate. Há algo turvo relativo ao dinheiro de Selena. - Duvido que consiga que empreste atenção alguma à situação. Assume, como todo mundo em Londres, que somos um par de ignorantes. - Somos ignorantes. Por isso precisamente nos vai ajudar. Aqui somos como peixes fora da água. - Informei por escrito ao seu procurador, mister Thumberton, a respeito das discrepâncias, sua mãe enviou a carta na semana passada. Ainda espero sua resposta para acordar uma reunião. - Isso está muito bem, mas Stanford nos pode ajudar imediatamente. - Não quero sua ajuda! - insistiu ela, com mais amargura que o necessário. - Por que ele te desagrada tanto? - Não sei. Desagrada-me e ponto. E não quero que o importune. - Está bem - concordou ele ao tempo que a carruagem se detinha- , não o consultarei. O qual não era mais que uma mentira para temperar os ânimos. Tanto fazia se Kate gostava como se não, Chris tinha a intenção de falar com o Marcus assim que lhe apresentasse a oportunidade de fazê-lo. Apesar do que se dizia dele, Stanford era um tipo ardiloso e sagaz, e Chris estava convencido de que contribuiria com idéias excelentes para administrar o problema.
    • Enquanto isso, tinha previsto mudar a Selena a um subúrbio mais conveniente e ocupar-se pessoalmente das faturas até que o embrulho fiscal estivesse resolvido. Deu uma olhada por entre as cortinas e observou o desmantelado edifício onde Selena vivia. - Antes de entrar tenho que te perguntar algo. - Não vou responder - replicou Kate, - a menos que me conte como intimou com a Selena e como averiguou que é minha irmã. - Eu perguntei a ela. - Quando? - Depois de te levar ali pela primeira vez, retornei a sós. - Kate franziu o cenho e Chris pôs-se a rir. - Está satisfeita? - Mas por que o fez? - Porque era a moça mais formosa que jamais tinha visto. - A confissão lhe acendeu levemente as bochechas. - Não pude resistir. Kate grunhiu. - Sua mãe me matará. - Por que? - Selena é meu segredo mais sórdido e Regina me ajudou a arrumar seus assuntos só depois que lhe jurei que não revelaria sua existência a ninguém. Se soubesse que se conhecem, sofreria uma síncope e me culparia. - Quando tudo se haja dito e feito, temo que sofrerá algo mais que uma síncope. - O que quer dizer? - Posso expor minha pergunta agora? - Suponho que sim. Nervoso, alisou o lenço de seda e se ergueu no assento. Ao longo de toda sua vida, tinha sido sua mãe quem se ocupou das decisões importantes: tinha administrado seu dinheiro, tinha contratado e despedido seus empregados, tinha-o admoestado (também a Melanie) e o tinha educado com astúcia, para sair-se com a sua. Aos dezoito anos, quase dezenove, sua herança se converteu em uma pesada carga sobre seus ombros. Não gostava de como Regina se comportava nem como tratava a outros, e detestava a atmosfera de tensão e desconfiança que fomentava em Doncaster. Estava preparado para detonar uma transformação, para aplicar seus próprios critérios, mas aquela era a decisão mais importante. Era uma loucura, um escândalo, e não a tinha comentado com ninguém, não tinha procurado conselho algum. Era o melhor que podia fazer? Certamente, não havia forma mais segura de buscar problemas e se sentia apavorado, mas tinha que decidir seu próprio destino, lavrar sua independência. Uma imagem de Selena brotou entre seus pensamentos: viu-a dançar no baile de máscaras e sentiu o coração cheio de orgulho e alegria. Talvez
    • fosse jovem e inexperiente, mas nisto não se equivocava. Não havia uma escolha melhor, nem para ele nem para as pessoas de Doncaster. - É tutora da Selena. - Sim, claro. Limpou a garganta. Tinha ensaiado a cena várias vezes, mas não tinha reparado em quão difícil seria recitar aquelas palavras. - Verá… Preciso… Quero dizer… Desejo… - Pelo amor de Deus, Chris, diga já. - Você me aprecia? - É o melhor. - Serei um bom marido. Está de acordo? - Certamente. - Esperava que essa fosse sua opinião, miss Duncan. E, com um tom mais formal, acrescentou: - Concede você a mão de Selena em matrimônio? Kate ofegou. - Não. Sua mãe mataria os dois. - Não me importa o que opine minha mãe! - comentou arisco. - É tão repentino, tão inesperado… - É. - Não tiveste tempo de pensar atentamente. - Mas o tenho feito. - Como vou dar meu consentimento? - Peço-o como uma cortesia, Kate - explicou com amabilidade. Preferiria que estivesse do nosso lado, mas o faremos igualmente, diga o que disser. Não me faça envergonhá-la nos obrigando a ter que escapar para nos casar. Ela o observou como se lhe falasse em um idioma estrangeiro. - Conhece-a só há… Quanto? Cinco dias? - Igual a você. Pode me dizer seriamente que estou equivocado? Tinha que convencê-la! Com ela como aliada poderiam vencer a Regina. - Pensa no que significaria ter a Selena em Doncaster, como Condessa, me ajudando… Poderíamos fazer tantas mudanças… A paisagem que ele desenhava lhe resultava dolorosa. Apoiou-se nas almofadas e massageou as têmporas. - Agradeço-te que não queira falar de Regina, mas, Chris, não é possível que tenha tido em conta todas as conseqüências de contrariá-la. Jamais consentirá nesta união e fará o que for para te deter em seus propósitos. - Não se preocupe por Regina. Chris ia ganhando em confiança. -Quero ser feliz, Kate. Selena me faz feliz. Por favor, diga sim. Kate guardou silêncio durante um comprido intervalo, refletindo, sopesando… Finalmente, murmurou:
    • - Não conservo muitas lembranças de minha mãe, mas Selena a faz reviver em minha memória. - Seria perfeito tê-la em Doncaster. Acredito que a sua mãe teria gostado que Selena estivesse ali. Ela o olhou atentamente e calibrou sua resolução. - Está seguro? - A amo, Kate, mais que à vida mesma. Dê sua bênção. Com um suspiro de resignação, Kate se abrandou: - Como se pudesse te negar! Chris soltou um alarido de júbilo, abriu de par em par a porta da carruagem e saltou à rua, muito impaciente para esperar Kate, que o seguia com muita dificuldade. No apartamento o tinham estado esperando e, antes de bater na porta, uma criada abriu. Passou correndo por seu lado para a sala, enquanto Selena se precipitava ao seu encontro. - Chris, está aqui! Ele a beijou na bochecha, guardando algo de decoro em presença da empregada. - Disse-te que chegaria às duas. - Vieram uns homens, - disseram-me que vinham da sua parte. - Muda-se na sexta-feira. - Para onde? - Aluguei habitações para ti no Hotel Carlyle, só até que encontremos algo mais apropriado. Kate chegou por fim e Selena refulgiu deleitada. - Kate! Kate! Correu para ela e a abraçou, e embora Kate estivesse desconcertada por sua demonstração de afeto, seu carinho por Selena era muito forte para evitá-lo e lhe devolveu o abraço. - Olá, Selena. Alegra-me muito voltar a ver-te. - Também me alegra que tenha vindo, - respondeu Selena. - Que tarde tão gloriosa! Tenho os dois para mim! - Temos que falar, - disse Chris. Guiou-a da mão para a sala e Kate os seguiu a certa distância. Selena lhe dirigiu um olhar curioso, tentando averiguar se acaso conhecia os propósitos do Chris, mas Kate manteve um semblante cautamente inexpressivo. Muito nervoso para atrasar-se, escoltou a Selena até o sofá, ajoelhou- se frente a ela e tomou sua mão: - Minha querida Selena… Aflito pela emoção, não pôde concluir a frase. - O que ocorre, Christopher? - perguntou ela. - É a mulher mais extraordinária que conheci. - Que lindo… Grazie. - Só faz uma semana que te conheço, mas tenho a impressão de levar uma eternidade ao seu lado.
    • - Eu sinto o mesmo. - Faria-me…? Daria-me a honra de ser minha esposa? Umas lágrimas apareceram nos olhos da Selena. - Oh, Chris… Eu… Paralisado ante a possibilidade de uma rejeição, apressou-se a continuar. - Não digo que não vá ser difícil. Teremos que batalhar com minha mãe e minha irmã, e como Condessa terá muitas obrigações, mas sempre estarei a seu lado e sempre serei seu melhor amigo. - Sei. - E te prometo que serei um marido fiel e honrado, e que te amarei e te adorarei até meu último fôlego. Aceita-me? Ela olhou ao Kate. - Concorda? - Nada me faria mais feliz. Os olhos de Kate brilhavam também banhados em lágrimas. Selena se voltou para ele. - Então sim, te aceito, meu querido Christopher. - Não se lamentará. - Nunca. Selena lhe acariciou uma bochecha e Chris se sentiu reconfortado. Podia sentir o palpitar do coração de sua amada, que pulsava ao mesmo ritmo que o seu. Em perfeita comunhão, ambos selaram o pacto e os uniu como nenhum voto poderia havê-lo feito. Um raio de sol irrompeu pela janela e os envolveu em seu brilhante resplendor. Dava a impressão de que o céu lhes dava também sua bênção. Conscientes de que seu mundo nunca seria tão perfeito como nesse preciso instante, Chris murmurou uma oração, por Selena e por todos os filhos que teriam. A porta do dormitório de Christopher estava fechada, por isso Pamela teve que usar sua própria chave para entrar. «Que insensato! - pensou - . Como se pudesse me proibir o acesso em minha própria casa!» Ausentou-se durante horas e tinha chegado muito tarde. Pamela estava furiosa. O moço perdeu um convite especial para jantar e ela se viu obrigada a jantar com a Regina e Melanie; além disso, depois da derrota com o Stanford, não era já capaz de comportar-se com um mínimo de civilidade. Pamela queria que partissem, mas não podia expulsá-los até que tivesse convencido ao Chris de ficar em Londres. Apesar dos comentários de Marcus a respeito de Melanie, seria necessário tomar medidas drásticas. Pamela devia estabilizar seu futuro e não podia confiar nele. Durante quatorze anos tinha dependido de um Lorde Stanford ou de outro, e o que tinha recebido em troca? Não tinha propriedades nem
    • investimentos nem um centavo em seu nome. Isso era o que tinha conseguido! Nem tão sequer a roupa que luzia era dela. Tinha tramado a estratégia com a Regina, tinha dado sua palavra de lhe servir ao Stanford em bandeja, em troca de sua permissão para conquistar ao Christopher. A velha arpía tinha acessado entusiasmada, assumindo que se havia alguém em todo Londres capaz de convencer ao Stanford, sem dúvida era Pamela. Não obstante, depois do rechaço ao Melanie, Regina a tinha acusado de falsas negociações, de ter jogado sujo. Com a Regina tão zangada, seria impossível confiar em que manteria sua palavra respeito ao Chris. Regina não era de confiança. Pamela sabia que finalmente tinha topado com alguém inclusive mais desumana e implacável que ela. Tinha chegado o momento de assumir o controle de seu próprio destino. Desejava ao Chris, por sua fortuna e seu título, mas também por sua pessoa. Nenhum homem a tinha satisfeito como ele. Esgotava-lhe aquele vaivém, fantasiando umas vezes, abatida outras. Tinha-lhe ensinado tanto, tinha-lhe dado tanto de si mesmo… e ele tinha seguido atuando com frieza e indiferença, mantendo um muro sutil entre ambos. Seus encontros eram muito apaixonados e fogosos, mas quando terminavam, ele se abotoava as calças e partia, deixando-a com a sensação de que seu afeto por ela não transcendia. E não suportava tal idéia. Antes que Regina os levasse a todos ao Doncaster, devia assegurar sua situação. Christopher necessitava uma desculpa para ficar uns dias mais, e Pamela tinha a intenção de converter-se nessa desculpa. Podia conseguir que a amasse! Sabia que podia. Só era questão de tentar. Era um moço pouco sofisticado, não poderia lutar contra sua determinação de aço. Custasse o que custasse, conseguiria-o e ninguém ia interpor se em seu caminho. Um lacaio lhe tinha notificado que Chris tinha pedido um banho, e o aroma a sabão e água quente começava a emanar do dormitório. Entrou nas pontas dos pés e espiou. Ele se relaxava na banheira, com seu glorioso e reluzente cabelo loiro afastado da fronte e sua pele úmida. - Olá, Chris. - Tinha-me parecido te ouvir, - suspirou. - Pamela, se a porta está fechada com chave, a maioria da gente compreenderia que não desejo ser incomodado. - Deixaria-me fora ? - O que quer? - Não adivinha? Desfez-se do roupão e sua figura exuberante ficou vividamente desenhada sob o négligé. Ele escrutinou seu corpo; seu olhar tórrido a seguiu enquanto ela se aproximava da cômoda para deixar o vinho e as taças que tinha levado.
    • Embora se mostrasse frio e fingisse indiferença, embora sempre resmungasse ao vê-la aparecer, seu corpo não podia mentir. Pamela estava segura de que se introduzisse uma mão na água quente ia surpreender o duro como uma pedra. Estava de costas a ele, por isso Christopher não podia ver o que tramava ela desentupindo o frasco de beberagem de amor que o farmacêutico lhe tinha vendido. A beberagem era de um vermelho escuro e desprendia um aroma intenso. Serve uma quantidade similar em ambos os cálices, acrescentou um pouco de vinho para disfarçar a droga e se deu meia volta para o olhar de frente. Ele saiu da banheira e se atou uma toalha ao redor da cintura, protegendo suas partes íntimas; mesmo assim, ela pôde detectar a tentadora proeminência à altura da entreperna e sorriu. - Acompanha-me em uma última taça? Ele aceitou a taça, mas não bebeu dela. - Tem que deixar de me visitar, - a repreendeu. - Não posso permitir que minha mãe se inteire de nós. - E se ela se inteirasse? Seria tão terrível? - Se nos descobrissem, não suportaria o revôo que se armaria. - Não nos preocupemos disso agora. Ela tomou um gole e gostou do gosto almiscarado que contribuía a beberagem. Como apressada pelo tônico, bebeu-se sua taça de um gole. Ele nem sequer tinha elevado ainda a sua. Começou a temer que não beberia. Chris podia ser tão puritano! - Não seja desmancha-prazeres - insistiu, - te senti falta de todo o dia. Acariciou com um dedo a borda do cálice, lhe seduzindo com os olhos. Desde o começo, ele tinha sido incapaz de resistir a ela e aquela ocasião não ia ser diferente. Chris pensou em rechaçar o convite, embora finalmente decidisse provar o vinho. Estalou a língua e lambeu os dentes. - Tem um sabor estranho. - Terá que acostumar-se - disse ela, assinalando a taça ainda cheia. - Prova um pouco mais. Ele encolheu de ombros e obedeceu. - Não está tão mal, - disse. Ela sorriu satisfeita; congratulou-se por sua eficaz armadilha e celebrou as probabilidades de êxito. - Por nós, querido. Que todos nossos sonhos se façam realidade.
    • Capítulo 15 Sentada em seu quarto, Kate contemplava o céu noturno. Chovia e a água golpeava a terra produzindo um surdo tinido. As flores no jardim adoeciam. Um trovão retumbou na distância e uma brisa fria irrompeu no dormitório, esfriando sua pele febril. Em que pese a sentir-se muito feliz por Selena e Christopher, suas novidades a consternavam em tal medida que inclusive o coração lhe doía. A sorte de ambos punha de relevo as pobres decisões que tinha tomado na vida. A insatisfação que bulia sob sua presença serena começava a aflorar à superfície e a alagava de desdita. Não tinha nada nem a ninguém a quem considerar dela. Por que não tinha exigido mais? Por que não tinha escolhido um caminho distinto? Ao baixar o olhar para o caminho de volta ao Doncaster, tudo que viu foi desamparo e angústia. Era aquilo tudo que teria? Deveria viver sempre como pouco mais que a criada não remunerada de Regina? Na cômoda viu o reflexo do frasco que devia conter uma beberagem de amor. Entretanto, não continha mais que vinho tinto, se por acaso a Melanie, lhe ocorresse pedir-lhe Kate tinha bebido todo o conteúdo original. Tinha sido magia? Podia a poção ter causado tanto desespero? Perto do frasco estavam a nota e a rosa que Marcus lhe tinha feito chegar. Levava seu anel no dedo. «Vêem ver-me a meia-noite», dizia a mensagem, assinado com a inicial «S». Seu tempo com ele se condensava em minutos e horas; sua partida iminente espreitava como um buraco negro, mas nesta ocasião se sentiu incapaz de ir ao seu dormitório. Parecia que ele tinha chegado à conclusão de que não lhe visitaria por vontade própria, que deveria enrolá-la para desfrutar de sua companhia, embora até o momento seus métodos de persuasão não tinham funcionado. De uma maneira sutil que Kate não compreendia, os acontecimentos da tarde tinham trocado as coisas entre eles. Um véu se levantou e seus atos tinham ficado expostos com toda sua crueldade. Tinha estado vivendo em um transe, hipnotizada em uma loucura, sem pensar com claridade nem tomar as decisões oportunas. Por que tinha fornicado com ele? Sua conduta quebrantava todos e cada um de seus princípios, aquilo que mais valorizava em si mesma. Ao encontrar-se com ele à luz do dia no elegante vestíbulo, produziu- se uma mudança em sua relação. Era óbvio que não se pertenciam, que não tinham nada em comum e que ela deveria sair por sua conta no labirinto no qual se colocou. Tinha transgredido os limites de sua humilde existência e agora devia encontrar o caminho de volta, para que quando deixasse Londres e retornasse a casa pudesse reinstalar-se no campo com um mínimo de
    • satisfação. Se não conseguisse, sua aprazível rotina em Doncaster pouco a pouco acabaria transtornando-a. Muito antes que ele chegasse, ela ouviu seus passos. Não tinha fechado a porta, era inútil tentar lhe impedir o acesso se ele estivesse decidido entrar. Nunca lhe permitiria evitar os desejos que ele despertava; portanto, ela esperava sua aparição. Era algo que transcendia a sua vontade, não a soltaria até que estivesse de tudo satisfeito. Marcus era forte e teimoso, um egoísta, um rei onipotente, e a simples ideia de recusá-lo a deixava exausta. Negar seus desejos era como navegar para o olho de um furacão. Era impossível capear o temporal e sair ilesa. Marcus não se incomodou em chamar; simplesmente girou a maçaneta e entrou. Ela ficou de pé, temendo o enfrentamento, mas preparada para ele. - Como se chama sua irmã? - desafiou-a Marcus. Os pés firmes, as mãos nos quadris e o rosto pálido. Censurava-a, o qual era absurdo. Por que estava tão furioso? Ela tinha atendido com cada um dos seus pedidos, tinha sido jogada na ruína, tinha provado com entusiasmo todas as condutas malvadas e depravadas que ele tinha sugerido. Que mais queria? Quanto mais tinha que dar ela? Sentia-se saqueada, como se ele fosse o diabo que tinha roubado seus restos terrestres e que agora exigia também sua alma imortal. - A que vem este súbito interesse por mim e minha família? Descobriu que é humano? A calúnia lhe passou de comprimento. - Conte. - Por que importa? - Conte! - estalou ele, esgotada sua paciência. - Selena Bela. - Quantos anos tem? - Dezesseis. - Por que não me falaste que ela? - De que teria servido? - Talvez quisesse estar informado. - Além de meus torpes e insensatos pedidos para te agradar na cama, quando mostraste a menor curiosidade por mim? - Quem era sua mãe? - Uma mulher imprudente, impetuosa, uma perdida que envergonhou a todos quantos a amávamos. - E seu pai? - Um homem sem a menor importância. Não estava disposta a falar de seu pai, não ia divulgar que tinha sido o Conde de Doncaster, que ela mesma tinha sido dia tratada como uma Princesa e que, por culpa da temeridade de sua mãe e a debilidade de
    • seu pai, tinha sido abandonada ao mundo, sozinha, sem ninguém que a protegesse. Preferia morrer asfixiada a confessar algo assim! - Então… foi filha ilegítima… - Só você poderia extrair uma conclusão tão insultante. - O que quer dizer? - Minha mãe se casou muito jovem, com um homem a quem odiava, e desejava aventuras que meu pai não podia lhe proporcionar. Quando eu tinha oito anos, fugiu com seu amante e não voltei a vê-la. - Selena é também filha ilegítima? - Minha mãe não deu a luz a nenhum bastardo, assim já pode dar um descanso a sua repentina beatice. - Sua mãe se casou com seu amante? - Depois da morte de meu pai. Há algo mais? Algum outro detalhe de meus assuntos privados e pessoais que precise indagar? - Comuniquei a Regina que não vou propor matrimônio a Melanie. Eu lhe disse que pode recolher suas coisas e partir. - Alegro-me por ti. Estava segura de que mentia. Observou-o. Kate tinha falado com a Regina essa mesma tarde e não lhe tinha mencionado nada a respeito. De fato, Regina tinha assegurado que por fim ele estava entrando em razão. Essas tinham sido suas palavras exatas: que se tinham posto de acordo sobre uns assuntos e que ele estava entrando em razão. Regina não era propensa à fantasia nem a se enganar. Se havia dito que ele estava a ponto de casar com Melanie, assim era. Por que ele negava? Ou só tentava não ferir seus sentimentos? Tinha considerado por um momento como seriam suas vidas quando se convertesse no marido de Melanie? Assaltou-a uma imagem: todos eles comodamente instalados em Doncaster, desfrutando do jantar de domingo, com o Marcus presidindo a mesa… Sentiu náuseas. Se era capaz de feri-la com tal sanha, jamais o perdoaria. Jamais, nem em uma eternidade. - Por que está zangada comigo? - perguntou ele, o que levou Kate a pensar que era o maior néscio que jamais tinha conhecido. Acaso não via que sua mera presença era dolorosa como o fio de uma faca? - Por que está você zangado comigo? - replicou ela. Ele a abraçou até fundir-se com ela. Afundou os dedos em seu cabelo e puxou para ele, até que Kate se queixou de dor. - Não veio para mim como te pedi. - Estou segura de que sobreviverá. - Nunca me diga não. - Não vou seguir com isto! - protestou ela. - Por que não lhe pode colocar isso na cabeça? Estava triste e abatida, suas emoções a arranhavam como garras. Nunca antes tinha amado, por isso não tinha imaginado quão doloroso
    • podia resultar, quão exausta podia deixá-la. Doía-lhe olhá-lo e todo seu corpo padecia, como se a presença dele a açoitasse. - Só quero voltar para casa, que minha vida recupere a normalidade. - Não posso te deixar, ainda não. Atraiu-a ainda mais contra si, enredou as largas mechas ao redor de seus punhos e começou a beijá-la. Kate tinha previsto resistir, mas como era habitual, não foi capaz de fazê-lo. Com um gemido de abandono, cedeu, atando seus braços ao redor dele e o estreitou com força. Ele era um veneno em seu corpo, tinha sido poluída pelo desejo irreprimível do ter, mas aquele vício devia ser purgado. Ele a agarrou em braços, deu meia volta e a levou até a cama. Ela poderia ter resistido, mas do que teria servido? Era incapaz de escapar do seu magnetismo. Tinha ouvido falar de animais que se encaminhavam pacificamente para a morte, que se jogavam por precipícios ou se afogavam em rios caudalosos, sempre e quando o líder os guiasse para a destruição. Nesse instante compreendeu com exatidão o que essas pobres criaturas sentiam enquanto a catástrofe se aproximava. Não estava assustada nem inquieta, a não ser resolvida a lhe seguir aonde fosse que ele a levasse. Ele puxou os laços de seu négligé e, como não pôde desfazer-se deles com suficiente rapidez, agarrou-os com força pelo decote e o rasgou de um puxão, de pés a cabeça. Os restos escorregaram a ambos os lados e ela ficou nua e prostrada frente a ele. Nem sequer o destroço daquela apreciada peça, uma das poucas coisas que possuía que tinham pertencido a sua mãe, perturbou-a. Encontrava-se já em uma ladeira escorregadia, descendia e não tinha idéia alguma do que encontraria assim que chegasse ao fundo. - Não pode estar longe de mim, - insistiu ele. - Não deveríamos estar separados, não deveríamos estar sozinhos. - Mas isto me está matando, não poderei suportá-lo muito mais tempo. - Não vou permitir que me evite. Não resta muito tempo. - Não posso continuar. Pede-me muito, mais do que sou, mais do que tenho. Quando acabar comigo, não ficará nada em mim. - Sim, quero tudo! Dê-me tudo que é, não guarde nada! - Amo-te - soltou ela impulsivamente, envergonhando-se ainda mais - . Que sandice! Não é? Sua declaração o surpreendeu, mas não ofereceu uma réplica similar; ela tampouco a tinha esperado. Ele era o que era: um homem solitário e com influências que, por razões que ela ainda não compreendia, tinha concentrado seus poderosos cuidados nela. Ele paquerava com as mulheres com o único propósito de deitar-se com elas. Nunca tinha escondido suas intenções nem sugerido que sua conduta pudesse ter um objetivo mais elevado. Seu único fim era a
    • satisfação física, tão rápida e tão freqüentemente como pudesse consegui-la, e qualquer esperança que ela tivesse do contrário seria néscia. Aquele breve e intenso caso era tudo que ela obteria dele. A crueldade da situação a sobressaltou. As lágrimas apareceram em seus olhos e sulcaram suas bochechas. Por que ninguém a tinha amado alguma vez? Por que ele não podia amá-la? Marcus estava desconcertado ante tal mostra de sentimentalismo. Ela odiava que ele tivesse que presenciá-la, mas estava no limite. Acaso lhe tinha pedido Kate que irrompesse em seu quarto? Podia escolher entre suportar sua tristeza ou partir. - Minha formosa Kate - murmurou ele - não pode sentir isso. - Odeio-te. - Não, não me odeia. - Sim, odeio-te. Mas os dois sabiam que mentia. Como ia odiá-lo? Ele era o único raio de sol que iluminava sua letárgica existência. - Nunca me amaram antes, Kate. A confissão a desarmou, nem tanto porque ele a houvesse verbalizado, mas sim por tratar-se de um fato tão pessoal. Jamais tinha conhecido ninguém que guardasse seus pensamentos com semelhante meticulosidade. - Oxalá não tivesse sido a primeira. - Derrame seu amor sobre mim. Afogue-me nele, para que possa te recordar quando tiver ido. - Oh, Marcus… Talvez ele não a amasse, mas ela podia atuar como se assim fosse. Um pouco de fantasia faria que as circunstâncias resultassem menos lôbregas. Ele beijou suas lágrimas. - Mostre quanto significo para ti. Não podia rejeitar seu pedido porque ela também desejava que a recordasse. Era tão débil, tão lastimosa em sua necessidade de lhe agradar! Saboreou o abraço e seus dedos se dispuseram a tirá-lo da roupa até deixá-lo tão nu como ela. Kate se estendeu sobre ele e seus corpos se fundiram. Ele estava duro, impaciente, e ela deslizou para seu umbigo, para seu sexo. Seu falo a ansiava e crescia. Ela o acariciou e logo o sugou com a boca. Aquilo era o que ela necessitava, aquela loucura, aquela espiral incontrolável onde só havia prazer. Não lhe sobrava energia para pensar em Melanie ou Regina, em Selena ou Christopher, nem para lamentar a
    • situação com o Marcus e perguntar-se como ia sobreviver sem sua agridoce companhia. Marcus chegou rapidamente ao limite, preparado para saltar ao precipício. A girou para colocá-la debaixo dele. Brindou-lhe um sorriso e nele cintilou todo o carinho que lhe professava. - Sempre te amarei - disse ela. - Nunca se esqueça. - Nunca o esquecerei. - À margem do que aconteça, à margem de onde eu acabe. - Cale-se, não falemos do futuro. Fazia bem em evitar sua iminente separação. Para que lamentar-se? Nunca lhe suplicaria que ficasse e, de fazê-lo, ela não consentiria. Sua sorte estava selada, seus destinos os arrastavam para distintos caminhos. Ele entrou nela e ela se arqueou e enredou as pernas ao seu redor; precisava o ter tão dentro como fosse possível. Seus atos suportavam alguma finalidade, ambos o percebiam. Cada carícia, cada movimento entranhava um significado desconhecido até o momento. Estavam forjando lembranças, armazenando-os. Ela alcançou um orgasmo imperioso e se rompeu em pedaços, perdendo-se na selvagem explosão. Ele a encontrou e se lançaram juntos ao precipício, esticando-se e gritando como se o inferno estivesse engolindo-os. Para sua surpresa, ele não se afastou imediatamente, como tinha feito no passado. Seu falo palpitou dentro dela, seu sêmen saiu disparado para seu útero e o sentimento de que aquilo estava bom incrementou sua gratificação. Kate se elevou como nunca antes o tinha feito. Não sabia por que ele tinha sido tão imprudente, mas não se sentiu mal por isso. Não nesse momento, quando ele seguia sepultado nela, quando ainda tremia com a agonia da paixão. Pensou que pela manhã o pânico se apoderaria dela, que se arrependeria e amaldiçoaria o nome de seu amante, mas então se sentia eufórica. O delírio minguou e ele se deslizou fora dela. Caiu ao seu lado e se abraçou a suas costas. Cobriu-a com uma manta e se aconchegou contra seu corpo. Não disse nada, não mencionou o que acabava de fazer, de modo que ela tampouco fez nenhum comentário. No coração de Kate se sobrepunham diferentes emoções e o silêncio era tão denso, a sensação de desenlace tão intensa, que se perguntou se não se trataria de uma despedida que ele não se atrevia a confessar. Rodeou-a com um braço; acariciava-lhe os nódulos com o polegar quando tropeçou com o anel. Tinha-o posto ao irromper ele em seu dormitório, tinha-o levado todo o tempo sem que Marcus se dispusesse. Ele riu. - Não pode ficar com ele, minha pequena ladra. - Não o roubei… - Sei, sei… Não o roubou.
    • Ela suspirou. Qualquer intento de defesa era uma perda de tempo. Como ia explicar que aquela jóia seguia aparecendo, em que pese os seus desmedidos esforços para desfazer-se dela? Se pronunciasse uma só palavra sobre poções de amor ou forças misteriosas, ele a tomaria por uma lunática. Marcus agarrou o anel e o pôs. Mal fechou a mão em um punho, como suspeitando que ela voltaria a tirar-lhe ao menor distração. - Tenho outro anel para ti, - disse ele. - Não o quero. - Darei-lhe isso de todo o modo. Será um presente, algo pelo qual me possa recordar. Ela se acariciou o abdômen, especulando com a possibilidade de que já lhe tivesse dado outro tipo de presente e tentando decidir o que faria se a catástrofe se materializasse. E não lhe cabia dúvida de que assim seria. Desde que o conhecia, sua vida tinha consistido em um desastre atrás de outro, por isso se resignava a esperar o pior. - É um tirano. - Sim. - Nunca me escuta. - Por que deveria fazê-lo, se só diz sandices? - O que farei com uma elegante jóia? Como justificarei que esteja em minha posse? Devo dizer que o encontrei na rua? - Kate! - Tinha-o exasperado. Outros mortais que habitavam seu mundo jamais questionavam seus decretos ou negavam a obedecer suas ordens, e o ofendia que ela o fizesse sempre. - Quero que o tenha. E aí acabava a discussão. Não ia aceitar um não por resposta e ela ia ter que consentir. Deveria escondê-lo bem, mas seria uma lembrança. Todas as noites dormiria com ele sob o travesseiro. Se ocorresse o pior e chegasse um bebê, poderia vender o anel e conseguir o dinheiro que ia necessitar depois que Regina a acusasse de rameira e a expulsasse de Doncaster. Entrelaçaram os dedos com força. Ela se sentiu como se fossem as duas únicas pessoas em todo mundo, como se estivesse amarrada a ele e pudesse flutuar se se soltasse. - Vou ficar contigo esta noite, - anunciou ele. Não valia a pena discutir. - De acordo. - Vamos descansar um pouco e logo te amarei outra vez. - Eu adoraria. Ia ser o rendez-vous final? Enquanto ele descansava, inerte, ela fechou os olhos e se dedicou a saborear até o último detalhe. Concentrou-se na anatomia corpulenta e cálida dele e se negou a pensar no amanhã e no que este poderia lhe proporcionar.
    • Pamela avançava capengante pelo corredor, desesperada-se para encontrar seu dormitório, mas não estava muito segura de em que lugar da grande mansão estava. Sua cabeça palpitava fortemente como se albergasse a um ferreiro com um martelo, seu estômago se convulsionava; confiava em não vomitar sobre aquele muito valioso tapete. O que tinha ocorrido? Tinha estado no quarto de Christopher, tinha conseguido que bebesse o vinho envenenado, como ela tinha feito. Mal lhe tinha retirado a toalha da cintura e… Guardava uma imprecisa lembrança: ela de joelhos, ele em sua boca…, embora não conseguia discernir se tinha sido um sonho ou realidade. O que tinha ocorrido (ou não) depois disso era um mistério, mas sem dúvida algo delicioso. Sentia-se transformada por um novo e formidável afeto. Uma imagem de seu formoso Christopher titilou em sua mente: loiro e radiante, como um deus, com seu suave torso de moço, seu delicioso e magro físico. Morria de amor por ele. Uma fera crescia e se revolvia em seu interior. Consumia-a um desejo tão potente, tão inexorável, que não sabia como ia viver com aquele ardor dentro. «Chris… Chris… Chris…» Seu nome retumbava através de suas veias, de seus poros. Era insofrível a impaciência por voltar a estar com ele e lhe demonstrar quanto o amava. Despertou em um sofá, no vestíbulo principal, sem saber como tinha chegado até ali. Gelada e com uma dor no pescoço, cambaleou-se escada acima. Despontava a alvorada e estava ansiosa por chegar a salvo aos seus aposentos antes que algum dos serventes a visse. Mas onde estava? E por que não podia controlar seus movimentos? A maldita poção! Tinha que ter sido bastante mais potente do que lhe tinham advertido. Era como se sofresse uma ressaca quase mortal. Ao final do corredor uma porta parecia furtivamente aberta. Seu inquilino aparecia por ela e Pamela se deteve, aproximando-se às sombras, aterrorizada ante a possibilidade de que alguém pudesse vê-la em tão deplorável estado. Quem, além dela mesma, podia estar vagando a essas horas inoportunas? Para sua surpresa, era Marcus, que se escapulia tão preocupado em ser descoberto como ela mesma. Por que estava na casa? Por que estava em uma quarto de convidados? De quem era? Estava ocupada? A confusão não lhe permitia recordar. Estava claro que voltava de um de seus escarcéus, mas com quem? Começava a lhe interessar os empregados? Mas que fresca se atreveria a ceder? Usava só as calças. Ia descalço, sem meias três-quartos, com a camisa pendurada ao ombro. Ficou um instante na soleira, olhando o quarto com uma expressão mesclada de angústia e júbilo que Pamela mal suportava contemplar.
    • O idiota estava completamente apaixonado. Não podia haver outra explicação a esse semblante de melancolia e sorte em partes iguais. Como podia ter se apaixonado? Como um ato tão insólito, tão infame, podia ter tido lugar sem que ela se dispusesse? A modo de despedida, ele beijou as pontas dos seus dedos e soprou o gesto para o dormitório, para sua amante. Durante vários segundos agônicos, demorou sua retirada com ar pesaroso e os ombros afundados. Dele emanavam autênticas ondas de desespero e angústia. Logo se dirigiu à escada de serviço, disposto a cobrir o curto trajeto que o levaria ao quarto do senhor. Pamela esperou contendo a respiração, sem mover um músculo, até que ouviu o débil som de seus passos no andar superior. Logo se aproximou às escondidas ao dormitório em questão e espiou furtivamente em seu interior. Estendida na cama, com seu glorioso cabelo avermelhado derramado sobre os travesseiros, jazia a instrutora de Melanie Lewis. Estava nua, dormindo, e a colcha subia e baixava com cada respiração. Parecia jovem, atraente e inocente, mas as aparências enganavam, porque era mais que evidente que tinha sido vítima da corrupção de Stanford. O lugar estava desordenado, com mantas e objetos de roupa dispersadas pelo chão. Tinham fornicado com impetuoso abandono, com a exaltada conexão que só os amantes mais afortunados alcançam. «Isso é o que esteve fazendo?», murmurou Pamela, raivosa. Todo esse tempo tinha esperado que ele sentasse a cabeça, que tomasse uma decisão séria e sensata em relação a Melanie e os resgatasse assim da ruína, mas, longe disso, Marcus tinha concentrado seus esforços na criada. Era tal a indignação de Pamela que temeu estar a ponto de explodir. Sem que a moradora do aposento percebesse sua presença, Pamela se afastou nas pontas dos pés. Subiu a escada para o seguinte andar e procurou a porta de Regina. Golpeou com força e o ruído agravou as palpitações de sua cabeça, mas não retrocedeu no empenho até que o ferrolho chiou, indício que Regina tinha aberto. Apressou-se a entrar em grandes pernadas. Regina se levantara da cama com dificuldade. Usava a camisola retorcida e a touca enrugada. Seus pés tomaram terra no momento em que Pamela entrava. - O que significa isto? - grunhiu ao reconhecer à intrusa. - Estiveste-me pedindo que te dê o Stanford. Pois bem, vais ter que me dar o que quero se o quer como genro. - Pelo amor de Deus, estamos na metade da noite. O que balbucia? - Stanford esteve visitando incógnito a mansão, para fornicar com sua pequena e linda instrutora. Regina esteve a beira do desmaio. - O que está dizendo?
    • - Apaixonou-se por essa prostituta a quem você chama instrutora. Provavelmente estiveram atados desde que chegaram. - Está segura do que diz? - Vi-os, mentiu Pamela. Não estranhe que a insípida de sua filha não tenha podido chamar sua atenção. Está muito ocupado derrubando-se com suas criadas. Sentia tal fúria que poderia ter atacado a alguém. Para evitar, deu meia volta e se dispôs a partir. – Eu a quero fora de minha casa. Hoje! Entendeu-me? - Sim, gritou Regina. Te entendo. - Uma vez que tenha partido, se não conseguir que Melanie esteja comprometida nas seguintes vinte e quatro horas, farei-o eu por ti. - Posso arrumar isso sem sua lânguida ajuda. Pamela soprou e soltou uma gargalhada desdenhosa. Regina não era capaz de encontrar uma cadeira sem que alguém a assinalasse. - Enquanto isso, sugiro-te que te jogue algo em cima e arraste seu imenso traseiro até o jardim posterior, antes de que Marcus se escapula às cavalariças e desapareça ao trote. - Não me dê ordens, Pamela. Outros o tentaram e sempre se arrependeram. - Se cale. Estou farta de ti. Se não convence-lo a chegar a um acordo, não vais ter muitas mais oportunidades. Depois de que sua instrutora se for, não sabemos quando poderemos lhe convencer de que retorne. Regina deu a volta e voltou a subir à cama. - Vê atrás dele! - gritou Pamela. - Não vou pôr-me em ridículo correndo por aí na escuridão, histérica e pouco vestida, como algumas que conheço… - A mulher é a chave! - vociferou Pamela. Está absolutamente assanhado. Vejamos se é capaz de fazer algo bem, por uma vez. Utiliza-a para encurralá-lo. - Farei-o – r3espondeu Regina, mas a uma hora decente. Agora, me deixe em paz. Puxou as mantas até o queixo. Pamela saiu feita uma fúria e fechou a porta detrás de si com uma sonora portada.
    • Capítulo 16 Sentado atrás da escrivaninha, Marcus olhava o embrulho que Regina tinha levado. Continha objetos domésticos correntes e também relíquias da família de valor incalculável, entre elas candelabros de prata, um quadro emoldurado em ouro e, o mais chocante, um alfinete masculino com um diamante encravado… e que procedia da sua própria cômoda. Cauteloso, determinado a não acreditar uma palavra que brotasse de tão repugnante boca, perguntou: - Afirma que miss Duncan é uma ladra? - Considerando os objetos que tem ante você - disse Regina, assinalando o embrulho, - não acredito que seja necessário pôr em palavras a acusação. - Onde os encontrou? - Em seu dormitório, escondidos sob a cama. - Com que intenção? - Provavelmente para vendê-los, embora com freqüência acumule o que obtém. Produz-lhe uma estranha excitação fazer algo mau, estar em posse das coisas que não deveria ter. - E me diz isto porque…? Estava fria e serena, como uma serpente antes de equilibrar-se sobre a presa. Ele conteve o fôlego uns segundos para evitar a tentação de recorrer à violência. Do momento que lhe entregaram no clube a nota em que Regina solicitava uma reunião para falar sobre Kate, tinha sido presa do pânico. O que ocultava na manga aquela velha bruxa? Devia ter descoberto sua relação. Mas como? Por mediação de quem? E o que quereria pedir? Não o matrimônio. Era uma mulher muito ambiciosa e estava muito obcecada com o progresso de Melanie em sociedade. Kate se encontrava no ponto de olhe. Kate seria o meio pelo qual Regina conseguiria seus objetivos. Quaisquer que fossem as decisões que ele tomasse, sem dúvida seriam as equivocadas. A catástrofe se abatia sobre eles e ia devorar a sua amada Kate. Estava preparado para feri-la? Podia fazê-lo? Dirigiu-se ao armário onde guardava os licores, serve-se um uísque bem carregado e retornou a sua cadeira. Tomou um gole e o saboreou. Aquela breve interrupção o reconfortou. - Admite que miss Duncan não é honrada. Agora me devolve o que achou. Um assunto de tal insignificância podia ter discutido com a ama de chaves, de modo que não alcanço a ver por que era necessário me fazer vir aqui. - Sejamos francos? Ela gotejava amargura e sarcasmo, mas ele respondeu com cortesia: - É obvio, sejamos francos.
    • - Sei que mantém um caso com ela. Seu primeiro impulso foi negar todo vínculo, mas Regina parecia tão segura de si mesma que não lhe coube dúvida de que estava em posse de informação precisa. Do que serviria mentir, exceto para atrasar o inevitável? - Quem lhe falou disso? - Lady Pamela. - É obvio. A enfrentarei mais tarde. Ainda não entendo muito bem para que precisava reunir-se comigo. Se considerar oportuno fazer comentários sobre minha vida particular, seu descaramento supera o de todas as mulheres que conheci em minha vida. - É óbvio que alberga fortes sentimentos por ela. Sentiu-se ofendido. O que era o que Pamela lhe tinha contado? Por que pretendia saber tanto sobre sua relação com Kate? - Albergo fortes sentimentos? Por miss Duncan? - Com o tom de mofa que tinha empregado a repudiava de tal modo que era provável que estivesse ganhando um lugar no inferno, mas continuou - Se isso é o que supõe, não me conhece absolutamente. - Conheço-o o suficiente. - Agachou-se para recolher uma bolsa do chão, tirou de seu interior um livro de contas e o deixou no escritório. Permita ir diretamente ao grão: Kate é uma ladra. - Isso já disse. Encolheu os ombros, embora bulisse por dentro. Quantas vezes lhe tinha furtado o anel do selo? Tinha perdido a conta. - Tem graves problemas pessoais que se remontam ao abandono de sua mãe. Conhece a história? Ele se reafirmou com grosseria: - Não dedicamos muito tempo a falar. - Sua mãe fugiu com um amante. Como conseqüência do caso, seu pai se tirou a vida. Desconhecia essa parte da história, e o muro que tinha planejado manter intacto para proteger-se de qualquer ataque que Regina pudesse lançar, começou lentamente a desmoronar-se. - Ficou órfã? - Eu era sua única parente vivo e foi meu dever cristão me ocupar dela. Se Regina era cristã, ele se converteria em um pagão sem deus! - Não é sua empregada? - Não. - Educou-a você? - Como um membro a mais da família, com meus próprios filhos como companheiros, mas nunca se recuperou da perda de seus pais. Rouba. - Sim, sim, rouba, rouba. E o que?
    • Regina lhe aproximou um pouco mais o livro de contas, mas ele se negava a olhá-lo. - Tem uma irmã. Não era nenhuma novidade, mas escutou docilmente. - Tinha entendido que estava sozinha no mundo. - Sua irmã é ilegítima. Fingindo tédio, deu uma olhada ao seu relógio de bolso. - Deverá se apressar, Regina. Tenho uma entrevista às quatro para jogar dados e não quero chegar tarde. - Kate é sua tutora e quem aprova os gastos de sua herança. - E? - Esteve roubando, acrescentou Regina, apontando o livro. Olhe os números. O dinheiro que deveria ter durado décadas desapareceu quase por completo. - Pretende me fazer acreditar que encontrou papéis que demonstram tudo isto? - Não estou orgulhosa da forma em que dei com eles, mas são autênticos. Ainda não tinha visto os números, nem o faria, mas desistiu de qualquer pretensão de manter as distâncias usando o nome de Kate. - Sustenta que Kate embolsou toda a soma? - Não o sustento: é um fato. A estratégia é singela: a garota envia as faturas o Kate e Kate as manipula; assina outras falsas por uma quantidade muito mais elevada e embolsa a diferença. Ele escutou a discussão por puro formalismo. Não tinha mencionado Christopher na tarde anterior uma anormalidade na herança? «Oh, Kate! - lamentou para si. - O que é o que tem fez?» - Por que faria algo assim? - açulou-a. Não se pode dizer que esteja roubando uma fortuna. Quais poderiam ser seus motivos? - Digamos que… tem problemas mentais, e motivos que nem sequer poderíamos começar a compreender. - Muito bem, Regina, Kate é uma malfeitora, uma malversadora. Por que me conta tudo isto? - Com as somas envoltas, trata-se de um delito grave. Poderiam enforcá-la. Depois de uma dolorosa trégua, ele perguntou: - Ou? - Poderia encobri-lo para que ninguém chegue ou saiba de seu delito. - Como? - Eu reembolsaria os recursos dos cofres do Doncaster. Seria difícil, mas faria o sacrifício. - Em troca do que? - De que se case com a Melanie. Ele afogou uma gargalhada. - Assume que pode me coagir a isto?
    • - Estou segura disso, com sua querida Kate como isca. - Está convencida de que estou apaixonado. Arriscado jogo por sua parte. - Não é um jogo. Recolheu o livro, guardou-o na carteira e o balançou sobre seu regaço. - Há um homem em Doncaster que ama Kate, que sempre a amou. É mais velho que ela e estava casado com outra mulher. Agora é viúvo, com duas criaturas. Tem-lhe muito carinho e adora as meninas. Ele quereria lhe propor matrimônio assim que Kate chegue a casa. Aquela notícia consumiu o oxigênio da estadia. O pescoço da camisa constrangia ao Marcus e mal podia respirar. - Sabe isto Kate? - Ainda não. Ela guardou silêncio, deixando que a gravidade da informação sedimentasse na sala. - É um bom homem, com um emprego estável em nossas cavalariças. Tem uma casa decente na parte posterior do imóvel e um salário excelente. Será amável com ela. Fez uma pausa no martírio de seu discurso. - Poderia eliminar as irregularidades na herança e ela poderia retornar ao campo. Terá um marido que a adora e bebes que cuidar. O que outra opção resta? Que alternativa escolheria você para ela? As perguntas de Regina o ferroavam como a lâmina de uma afiada faca, mas não ia permitir que detectasse seu desconcerto. - Por que suspeita que tenho interesse algum no que lhe aconteça? - Vejamos. Regina o olhou com superioridade moral, deixando bem claro o sob conceito no que o tinha. - O que pode lhe oferecer? Está preparado para casar-se com ela? - Deus, não. Mal pôde reprimir um calafrio. Não havia pior castigo para Kate que obrigá-la a suportar a carga de tê-lo como marido. Ele era quem era e ela merecia algo muito melhor. - A converteria em sua amante? E quando se cansar dela, e está claro que o fará, o que ocorrerá? Desejava fervorosamente que aquela arpía se calasse. - Não sei, respondeu com voz cândida. - Preferiria arrojá-la aos cães do sistema judicial? Faria-se responsável por seu encarceramento, talvez sua execução? - Poderia pagar as diferenças da herança. - Sim, poderia fazê-lo, mas lhes pergunto isso de novo: depois o quê? «Depois o quê?» De acordo. Ficaria em Londres? Em qual condição? Não era uma rameira… de usar e atirar. Apurou o uísque, caminhou para o porta garrafas e se serviu outra taça, que também bebeu de um gole. Tremia-lhe o pulso. Regina era muito mais sagaz do que tinha conjeturado; enervava-o que o tivesse encurralado utilizando Kate.
    • Olhou através da janela e contemplou as rosas do jardim. Como tinha ocorrido tudo aquilo? Tinha tão poucas opções válidas… Seu grande afeto por Kate tinha ficado reduzido a um final terrível, impossível de digerir. - Cheque mate, Stanford. A escolha é sua. O que decide? Não era melhor enviar Kate ao Doncaster, aos braços de um homem que a amava? Devia levar uma vida normal, livre da sua malvada influência. Embora o matasse considerar que pudesse casar-se com outro, poderia sobreviver ao golpe. Não podia lhe fazer mais dano, já lhe tinha feito muito. - Mande alguém a procurá-la. Acabarei com isto. - Uma decisão muito sábia. Regina alcançou alguns documentos e os estendeu. - Firme isto antes. - O que é? - Os contratos matrimoniais. Ele se ergueu, surpreso por sua temeridade, e ela riu dele alegremente. - Toma-me por idiota? Terei seu consentimento por escrito ou não há trato. - Com todos o respeitos, senhora, não posso suportar a idéia de me casar com sua filha. - E? Que importância tem isso? Sempre alardeia de que todas as garotas são iguais. Melanie não é melhor nem pior que as demais. - Uma assombrosa descrição de suas fantásticas qualidades. - Sou uma realista. - Seriamente? - É obvio. Deveria considerar isto uma bênção. Com uma simples assinatura, seus bens estarão seguros e sua busca de prometida terá se concluído. Ele leu as cláusulas muito rapidamente e se sentiu de tudo alienado, quase indiferente ao curso que fossem seguir os acontecimentos. Sua única preocupação era que o bem-estar futuro de Kate estivesse garantido. Escreveu seu nome. - Isso deveria bastar. - Solicitarei uma licença especial e celebraremos a cerimônia aqui, em Londres, dentro de uma semana. - Quero que tudo transcorra de forma rápida e discreta. Não me importune com os detalhes. Também peço que mantenha a sua filha longe de mim. Devido às circunstâncias, não tenho o estômago para suportar nenhum de suas bobagens adolescentes. - Como desejar. Assentiu e saiu ao corredor a chamar um servente para que chamasse Kate.
    • - Comprou mais poção? - perguntou Melanie. - Sim. Kate lhe ofereceu o último frasco, que continha só vinho tinto, mas Melanie não precisava saber o que encerrava o frasco em seu interior. Kate não ia adquirir nenhuma gota mais daquela perigosa beberagem. À luz de sua própria experiência, negava-se a responsabilizar-se pela ingestão alheia do misterioso tônico. Não podia suportar mais aquela tortura, não podia permanecer impassível durante as conversas de Melanie sobre como seria tudo quando Marcus fosse seu marido. O tema era muito atroz para seguir discutindo o de uma maneira civilizada. Ninguém mais, além dela, dava-se conta do grande engano que era tudo aquilo? E se conseguiam lhe persuadir? Tinham considerado o tipo de união que se criaria? Que tipo de demente imporia a propósito uma desgraça tão grande sobre suas próprias costas? Alguém golpeou na porta e ela respondeu, sabedora de que Melanie nunca o faria. Melanie tinha tratado sempre Kate como sua criada pessoal. - Que deseja? - perguntou Kate à criada que esperava no corredor. - Lorde Stanford e lady Regina requerem sua presença imediata na biblioteca. Kate franziu o cenho. - Está segura de que não se referiram a lady Melanie? - Não, senhorita, foram muito explícitos ao dizer seu nome. - Meu nome? - Sim. Sentiu um tombo no coração. Marcus e Regina estavam juntos e solicitavam sua presença? O que quereriam? Não podia tratar-se de nada bom. Olhou Melanie. - O que fez agora? - perguntou Melanie. - Nada. - Seja seja… Kate sorriu à criada. - Agora vou. Fechou a porta e se apoiou contra ela. Necessitava de uns segundos para recuperar a calma. - Mais te vale ir agora, a provocou Melanie . - Não há nada que contar - murmurou Kate. Seus pensamentos se dispararam. Estava aterrorizada de não saber o que a esperava em tal encontro. Como podia ir às cegas? Se pudesse adivinhar que propósitos a aguardavam, estaria melhor preparada para defender-se, embora se o tema de discussão ia ser seu escandaloso comportamento, não havia muitas desculpas que pudesse oferecer. - Está causando problemas constantemente, a arreganhou Melanie. Já é hora de que receba o que merece. Quando me casar com o Stanford e
    • tiver minha própria casa, não lhe serão permitidas tantas liberdades. Mamãe deveria te haver refreado há anos. Não sei por que te permite perambular por aí. Kate olhou Melanie, perguntando-se o que tinha feito para granjear-se tal inimizade. Nessa ocasião tinha esgotado sua paciência e sua cautela. - Se cale, Melanie! Melanie ficou de pé de um salto. - Como te atreve a me falar tão rudemente! Vou contar a mamãe o que disse. Fará que lhe fustiguem! - Seguro que está desejando ter a ocasião. Kate saiu do dormitório, negando-se a que Melanie a distraísse com sua manha de criança. Seus gritos se ouviam do outro extremo do corredor. Um grande estrondo reverberou, provavelmente tinha atirado algo contra a parede, mas Kate seguiu caminhando. A escada era um funil intolerável, interminável. Ao pé a aguardava a tragédia, de modo que se demorou em cada degrau. Sentia-se como se encaminhando à forca. O mordomo esperava à porta da biblioteca. Ao vê-la aproximar-se chamou com ímpeto para anunciar sua presença. Olhou-a com tal desprezo e censura que não cabia dúvida de que tinha estado escutando às escondidas. O que teria ouvido? Ansiava que o chão se abrisse sob seus pés e a tragasse. Com os joelhos trêmulos mas a cabeça bem alta, deixou atrás ao mordomo e acessou à opulenta e masculina estadia. Marcus seguia atrás da escrivaninha; Regina estava sentada frente a ele. Nenhum dos dois se levantou e Marcus não a olhava. «Covarde!», recriminou-o mentalmente. Aproximou-se deles mas não a convidaram a sentar-se, deixando claro a distância que os separava em fila e posição. Não ia ser uma conversa amistosa. Estava ali para receber uma reprimenda e o castigo estava a ponto de chegar. Havia numerosos objetos dispersados sobre a escrivaninha e Kate os escrutinou. Foi o bastante prudente para manter-se inexpressiva enquanto tentava deduzir o que significavam. Regina pôs fim a sua especulação. - Encontrei estes objetos escondidos em seu quarto e os mostrei a Lorde Stanford. Era o último ataque que teria esperado. Seus olhos se exageraram de estupor e desespero, e lhe deram o aspecto de ser culpada inclusive antes que começasse a ser acusada. Forçou-se a manter a calma. - Está-me chamando de ladra? Regina se levantou em um gesto ameaçador que superava Kate em altura e largura.
    • - Somos os convidados de lady Pamela e envergonhou a nossa família. Exijo que peça perdão por seu furto e que jure a Lorde Stanford que não voltará a cair em desgraça, pelo menos enquanto estiver aqui. - É a primeira vez que vejo todos esses objetos - resmungou, tentando defender-se. Regina olhou ao Marcus e se encolheu de ombros. - Convence-se agora? Está louca. Marcus encontrou finalmente a coragem para olhá-la aos olhos e sua decepção era tão evidente que Kate se sentiu como se a estivesse apunhalando. - Kate - a admoestou amavelmente ele, - não piore as coisas. Admita o que tem feito para que possamos continuar. Uma raiva incontrolável se apoderou dela. Regina havia dito ao Marcus que era uma jovem instável, que era uma ladra, e ele tinha acreditado as mentiras da Regina sem nem tão sequer as questionar. Kate queria chorar, gritar, amaldiçoar. Acaso não a conhecia absolutamente? Estava tão disposto a pensar mal dela, a afastá-la de seu lado, a confraternizar-se com a Regina… Mas Kate não ia humilhar se lhe rogando que tivesse fé nela. Se nesse momento ele tivesse tirado uma pistola e lhe tivesse disparado a morte, lhe teria resultado mais suportável que essa… traição. - Não tenho nada a dizer - replicou ela, com a alma doente e uma dor inenarrável. Como se Kate fosse a responsabilidade maior em sua vida, Regina suspirou, simulando uma grande preocupação. - Enviarei-a ao Doncaster imediatamente e levarei ao fim os planos que discutimos. - Bem - assentiu ele, exacerbando ainda mais a ira de Kate. De modo que tinham discutido sobre ela… Tinham falado dela como quem se reparte um bezerro às portas do matadouro ou um escravo em cativeiro? - Eu adoraria conhecer os detalhes, - os repreendeu Kate. - Morro de curiosidade. - É o melhor para ti Kate, - insistiu ele. - Oh, seguro que o é, - protestou ela amargamente. - E espero que devolva o dinheiro que extorquiu. - O que?! - Para evitar um escândalo, Regina está de acordo em cobrir os recursos da herança de sua irmã, mas eu gostaria de te convencer de que os devolvesse você mesma. Regina alegava que tinha roubado parte da herança de Selena? Como podia Marcus sugerir que se comportou de um modo tão mesquinho? Ela não podia roubar a sua própria irmã! Sua mente era de tal pureza
    • que se em algum momento lhe tivesse ocorrido cometer um delito tão ruim, não teria tido a menor ideia de como levá-lo a cabo! Olhou-o com recriminação. Ele estava depravado, sereno, e o amor que tinha sentido por ele se transformou de súbito em um ódio tão candente que a arrasava por dentro. - Devolverei-os - declarou com sarcasmo, - mas ela tem tanto e eu tão pouco… por que deveria fazê-lo? Desconcertado por sua inesperada resposta, olhou-a, incapaz de imaginar como tinha podido passar por cima sua natureza bandida. Ela morria de vontade de esbofeteá-lo, para aniquilar de seu tapa presumida e calculada expressão, para golpeá-lo uma e outra vez até que caísse ao chão, sobre um atoleiro de sangue. Regina riu e com um gesto burlesco desaprovou o comentário de Kate. - Francamente, Kate - a arreganhou - esperava mais de ti. - Ah, sim? - Kate voltou para a carga. - De verdade? Tremia com tal grau de hostilidade que Regina retrocedeu até ficar longe de seu alcance. Regina fez um gesto ao Marcus. - Conte o resto. Kate esperou e seguiu esperando, mas ele não conseguia dizê-lo. Avermelhou, envergonhado do que ia confessar. - E bem? - perguntou Kate. Ele seguiu em silêncio. Regina intercedeu: - Seu caso com ele é de domínio público. - E? - desprezou-a Kate. - Dado que não é nem minha mãe nem minha tutora e sou maior de idade, não entendo que isto possa ser teu assunto. - Vive em minha casa - lhe espetou Regina com raiva, - come em minha mesa, e diz que não é assunto meu que te comporte como uma fulana? - Dirigiu um olhar reprovado ao Marcus. - Antes de conhecê-lo você, era inocente. Não tinha experiência para defender-se contra o abuso de um homem. - Sou consciente disso - assentiu ele, nervoso. - Tem em seu haver numerosas experiências seduzindo a mulheres, não é certo, Stanford? - Suponho. - Não seja modesto. Kate não é a primeira mulher a que corrompeu. Desfruta de uma boa reputação como libertino e trapaceiro. - Nunca fui um santo, - admitiu ele. - É de todos sabido que atrai às mulheres para qualquer tipo de depravação. É mais…, que virtualmente observa sua corrupção como um desafio. - Eu não iria tão longe.
    • - Um homem fingirá afeto, não é assim, Stanford? Para coagir a uma mulher a ser imoral. - Ocorre em todas as horas. - E não é você diferente de outros homens, certo? - Provavelmente não, - concordou ele. - Estou segura de que Kate assume que está apaixonado por ela. Não suspeitaria o mesmo se estivesse em seu lugar? - É provável. - Amou-a em algum momento? Ele baixou o olhar. - Não. - A ama agora? - Não - repetiu, com apenas um fio de voz. - É provável que ela assuma que tenha intenções honrosas respeito a ela. Pode inclusive chegar a imaginar que se casaria com ela. Faria? - Seria a pior de todas as loucuras. Regina fez uma prolongada pausa, permitindo que a rejeição dele tomasse forma, assegurando-se de que o impacto da confissão fosse suficientemente devastador. Ninguém antes tinha humilhado tanto a Kate. Queria morrer, queria dobrar-se em posição fetal e deixar de existir. - Ouviste, Kate? - perguntou Regina, ao fim. - Não te quer, nunca te quis. - Sim, Regina. Ouvi-lhe. Sempre tinha sabido que Marcus vivia isolado, que era um ser solitário, que se mantinha longe de outros de propósito, mas nunca considerou que fosse cruel. Por que sentia aquela repentina necessidade de participar de sua crucificação? Quando se tinha convertido na marionete de Regina? Por que tinha feito tal brutalidade? Acabava de afogar qualquer faísca de afeto que pudesse ter por ele. Tinha que moê-la até convertê-la em pó, até que não ficasse dela nada da pessoa que tinha sido uma vez? - Acredito que captamos sua atenção - grunhiu Regina ao Marcus, - de modo que lhe conte o resto ou o farei eu. Ele mantinha o olhar cravado no chão. - Vou casar-me com Melanie, Kate. Daqui a uma semana. Tudo está arrumado. Nenhum comentário tinha sido mais terrível e doloroso que aquele. E embora Kate lutasse por manter-se imparcial, não pôde conter a lágrima que escorregou por sua bochecha. - Os iguais se juntam com iguais, Kate - se gabou Regina. - Que néscio foi por sua parte ambicionar além de sua classe. Kate sentiu o presságio de uma morte; as palavras dele tinham aniquilado toda a amabilidade que tinha existido nela.
    • Olhou-o, suplicando que lhe devolvesse o olhar. Mas ele não o fez. Sentia-se mortificado? Lamentava tê-la ferido? Suspirou com repulsão. O mais provável era que ele detestasse aquele infame encontro, que estivesse desesperado para resolvê-lo. Mesmo assim ela se atrasou, desejando pateticamente que a olhasse uma última vez. - Isso é tudo? - inquiriu com humildade. - Sim - respondeu Regina, - isso é tudo. Vá aos meus aposentos e me espere ali. Chegarei em uns minutos. Intumescida e enojada, Kate caminhou com muita dificuldade para a porta. Estava a ponto de sair quando Marcus a chamou. - Kate! - implorou, o nome dolorosamente extirpado de seus lábios. Ela se deteve e arqueou uma sobrancelha enquanto o olhava com altivez. - O que? - Espero que seja feliz em sua nova situação, digo-lhe isso de verdade. Boa sorte, desejo-te o melhor. Não tinha idéia ao que se referia. Parecia sincero, mais terrivelmente triste e arrependido do que tinha feito, mas por quê? Tal e como Regina tinha particularizado tão sinceramente, ele tinha escolhido a alguém da sua classe. Vivia em uma esfera que no passado também tinha sido a dela, mas que já não era, e tinha escolhido alguém de sua mesma classe, alguém adequado e perfeito para ser a esposa de um Conde. Por que deveria estar surpreendida? Por que deveria sentir-se tão rota? Por que deveria sentir-se como se seu maltratado coração tivesse deixado de pulsar? - Vá ao inferno, Lorde Stanford. - Deu meia volta e partiu. Capítulo 17 Regina irrompeu em seu dormitório com uma fúria tão intensa que nem sequer a sensação de triunfo bastava para diluir os escuros motivos de sua ira. Kate era afortunada por encontrar-se na cidade, rodeada de tanta gente. Se estivesse no campo, a sós com ela, provavelmente Regina se haveria sentido tentada a cometer um assassinato. Kate estava sentada em uma cadeira, com seus exíguos pertences dispostas para a viagem: o baú aos pés e o casaco no colo. Estava pronta para partir. Pálida como uma estátua de mármore, parecia congelada, indiferente, desconectada da realidade e tão distante em pensamento que Regina se perguntou se não teria acabado de perder suas faculdades mentais. Melanie revoava a seu redor como um mosquito irritante. - O que é o que Kate fez, mãe? - perguntou - . Não quer me contar isso.
    • Regina evitou a pergunta e tirou um cajado do armário. Encaminhou- se para o Kate e se deteve frente a ela. - Se levante - ordenou. Kate ficou em pé, fazendo ornamento de uma beligerância e falta de arrependimento que enfureceram ainda mais a Regina. - Informe a Melanie de sua perfídia. Quero que o ouça de sua boca traiçoeira. - Tive um caso com Lorde Stanford. Enviam-me de volta a casa. - O que quer dizer? - inquiriu Melanie. Melanie era muito ingênua para captar as implicações daquela confissão, de modo que Regina explicou: - Esteve metendo-se em sua cama pelas noites, entretendo-o como o faria uma vulgar prostituta. Melanie ofegou. - Nega-o, Kate. Kate guardava um silêncio rebelde. Regina prosseguiu: - Todo este tempo preocupada, nos perguntando por que Lorde Stanford não te cortejava, e o motivo era que estava ocupado saciando sua luxúria com ela. Kate tem a moral de um gato guia de ruas, igual a sua mãe. Melanie se arrepiou. - Depois de toda a bondade com que a tratamos… - Acreditava que Stanford estava apaixonado por ela. Ela! Pode acreditar? - Não diga isso, mãe. Não posso suportar. - Queria-a mais que a ti, sentia mais atração por ela que por ti. Ela, a filha de uma vadia! - Que ousadia! - Melanie parecia fora de si. - Rameira! - gritou Regina. Elevou o cajado e o bateu contra o rosto do Kate. O golpe pegou Kate despreparada e indefesa. A vara se estrelou contra a maçã do seu rosto e a jogou no chão. Kate se virou entre gemidos de dor e agonia. Regina seguiu golpeando-a, uma e outra vez, em ombros, nádegas e pernas, procurando que cada golpe caísse com precisão. Kate não opôs a menor resistência à surra, suportou-a estoicamente como se fosse o castigo que merecia. Regina continuou até que notou o braço dolorido, até que o esforço a fez suar. Desgostosa, separou-se de Kate e jogou o cajado ao chão. Kate permaneceu no chão, muito aturdida para mover- se. - Não pode parar agora - protestou Melanie. - Tem que pagar pelo mal que fez. - Pagará para sempre, - disse com desprezo. - O que acontecerá a ela? - Está a ponto de desaparecer, de modo que não voltará para nos poluir. - Está segura?
    • - Confia em mim. Jamais voltará. Regina arrumou o cabelo e aparou sua roupa. - Não quero que seu irmão se inteire disto. Não devemos lhe dar ocasião de intervir. Não conte. - Não tinha a menor intenção de fazê-lo - disse Melanie, zangada. - Leve-a daqui. Sua presença me põe doente. Regina tomou o casaco e o chapéu enquanto informava a Melanie: - Cheguei a um acordo com o Stanford. - Sobre o que? - Decidiu te tomar por esposa. As bodas se celebrarão em uma semana aqui, em Londres. Melanie parecia alarmada e atônita. - Não fala sério. - Nunca falei mais a sério. - Quando vai me propor? - Propor? - Sim, quando vai pedir minha mão. Ai, as garotas e seu néscio romantismo… - É um homem ocupado. Não tem tempo para tais minúcias. - Mas é o que eu esperava! - protestou. - Já tinha escolhido o vestido para a ocasião! Morrerei se não me propor matrimônio! Depois de tantas horas árduas, Regina não estava com humor para as choramingações de Melanie. Ergueu-se tanto como lhe permitia o corpo e espetou: - Casará com ele e se contentará com isso. Desafiante, Melanie contra-atacou: - Se não me propuser o matrimônio, não o farei. Não poderá me obrigar. Nunca, nem em mil anos! Regina seguia sufocada pela surra que acabava de administrar e se sentiu tentada de usar a vara com Melanie. De onde tinha tirado essa menina a coragem para tornar-se tão rebelde? - Isso já veremos - a ameaçou Regina, mas não fez nada. No estado em que se encontrava, era difícil prever o que seria capaz de fazer. Deu meia volta, tomou Kate pelo braço e a arrastou para seus pés. Estava machucada, cheia de hematomas e com uma brecha lhe sangue na bochecha. Afogava-se em seu fôlego torturado. Bem! Talvez lhe tinha quebrado as costelas. - Vamos - notificou Regina. - Vais caminhar por si mesma ou vou ter que te arrastar, como o lixo que é? - Caminharei, - murmurou Kate. - Usaremos a escada traseira. Não olhará a ninguém, não falará com ninguém, entendeu? - Sim, entendi.
    • Regina pôs-se a andar. Exasperada pelos lentos e instáveis passos de Kate, arrastou-a com o único desejo de terminar logo com tão sórdida situação. - Quando voltará? - perguntou Melanie logo que alcançado o corredor. - Tarde - replicou Regina. - Tenho muitas tarefas importantes das que me ocupar antes que este desastre tenha terminado. Empurrou Kate escada abaixo, para as cavalariças. Felizmente, não encontraram com ninguém. A carruagem que tinha alugado estava preparada, ao igual ao chofer. Subiram e abandonaram a mansão sem incidentes. Enquanto viajavam para seu destino, Regina se sentiu aliviada por que Kate guardasse silêncio. Depois de tudo, do que poderiam falar? A carruagem se deteve de súbito, mas Kate não dava amostras de ter percebido, assim Regina ordenou: - Saia! - Onde estamos? - Ainda ficava suficiente presencia de ânimo para perguntar. - Deixo-te com sua irmã, que é muito mais do que merece. Deveria te ter abandonado nos baixos recursos, para que se arrumasse isso sozinha. Abriu a porta e jogou o baú de Kate à rua. - Jamais tente se pôr em contato conosco. Não nos escreva, não pergunte, jamais retorne ao Doncaster. Se te atrever a fazê-lo, lamentará. Kate se atrasou tanto que Regina se perguntou se teria que jogá-la da carruagem a empurrões. Finalmente, Kate se moveu e perguntou: - Por que me odiou sempre? O que é o que te fiz para que me odeie tanto? - Não te odeio, - esclareceu Regina - não me importa absolutamente. Não é nada para mim. Nunca foi. Agora, saia, antes que tenha que te golpear de novo. Kate saltou à rua, gemendo de dor com cada movimento. Regina golpeou no teto, indicando ao condutor que podiam partir. Em questão de segundos tinham desaparecido de sua vista. Regina voltou o olhar atrás e ainda espiou Kate prostrada na porta de sua irmã. - Vadia! - murmurou. Comprovou a hora e se alegrou de constatar que já estaria longe quando os homens do procurador chegassem. Selena saiu correndo, aterrada pelos gritos da criada. - Kate! - exclamou - . O que aconteceu? O que tem? Ajoelhou-se e pegou Kate com uma mão. Era óbvio que a haviam atacado mas quem? E por quê? Quem faria algo assim a uma mulher? Quem faria algo assim a um ser humano? Vários transeuntes se formaram redemoinhos junto à patética e derrotada figura de Kate. Com ajuda da criada, Selena a levou para dentro e a depositou no sofá do salão.
    • - Kate! - Selena estava desesperada para reanimar sua irmã - Quem é o responsável por isto? - Regina, - conseguiu responder Kate. «A mãe do Christopher?» Selena estremeceu repugnada. - Mas por quê? - Eu não roubei seu dinheiro, Selena, juro-lhe isso. - Claro que não, - a tranqüilizou Selena. - Quem faria uma acusação tão absurda? - Regina, e Marcus acreditou. - Marcus? Quer dizer Lorde Stanford? - Amava-o, - confessou em seu delírio - . Sabia? - Não, não sabia. - Regina me atacou porque eu o amava. - Oh, Kate… - Eu teria a enfrentado, mas me derrubou com o primeiro golpe e já não pude fazê-lo. Logo me golpeou sem pausa. - Tranqüila… Selena olhou à criada e fez um gesto para que fosse em busca de Edith. - Vai casar se com o Melanie. - Deve ter entendido mal. - É verdade. Foi muito claro a respeito. - Então é um idiota. - Sim, é. Tentou rir, embora a dor e a melancolia a mortificavam. Edith entrou justo quando Kate se apalpava as costelas. Parecia ter perdido o conhecimento. Selena aproveitou o intervalo para mandar Edith a pegar água quente e toalhas, e também ungüentos e compressas quentes com os quais tentaria de acalmar a inflamação dos machucados. Selena passou a seguinte hora sossegando-a e aliviando-a. O pânico de Kate diminuiu, mas o substituíram a angústia e a pena. Selena a obrigou a tomar láudano, depois do qual Kate pareceu relaxar, com o olhar vazio cravado na janela. De vez em quando uma lágrima aparecia em seus olhos e deslizava bochecha abaixo, enquanto Selena lhe acariciava o cabelo e lhe sussurrava palavras de consolo. - Acabou-se, - disse Selena. - Nunca mais terá que voltar ali. Nunca mais terá que vê-la. Garanto-lhe isso. Em silêncio, prometeu se vingar-se de tal infâmia. Embora não o conseguisse até cumprir os cem anos, ia assegurar se de que Regina pagasse pela agressão. Regina se acreditava onipotente, mas tinha cometido um engano fatídico maltratando Kate. Regina não tinha idéia de que Selena estava a ponto de converter-se na Condessa de Doncaster. Sua perfídia ia ser castigada, seu detestável comportamento ficaria exposto à luz como o que era: um crime horrível.
    • Uns golpes tênues soaram na porta. Selena estava tão absorta em Kate que apenas os percebeu e a chateou ver de repente Edith entrando na sala acompanhada de dois homens. Ambos eram embelezados como cavalheiros, mas irradiavam uma atitude tosca e severa que não augurava nada bom. Pareciam dois rufiões bem vestidos ou bandidos. - O que desejam? Selena ficou em pé e se situou de forma instintiva entre eles e Kate. Kate se incorporou um pouco, mas estava muito sedada para falar. - Estão aqui por sua irmã - explicou Edith. - Por quê? - Trazem uma ordem judicial, assinada por mister Thumberton, que a incrimina do roubo dos recursos da herança. Vêm prendê-la. - Grande estupidez! Kate não fez nada! Selena se aproximou dos dois valentões. - Fora de minha casa. Um deles se tocou educadamente o chapéu. - Lamento, senhorita, mas temos ordens de prisão. Selena esteve a ponto de equilibrar-se sobre ele, mas Edith evitou. - Não pode agredi-los, Selena. Representam à lei. Só conseguirá se colocar em problemas. - Mas… não podemos permitir que a levem! É um engano! - Não pode saber a repreendeu Edith amavelmente. - Claro que sei! Kate nunca me enganaria! Como se Selena fosse invisível, os dois homens passaram pelo seu lado a caminho do sofá e obrigaram Kate com rudeza a ficar de pé. A jovem estremeceu de dor. - Bruto, estúpido! - bramou Selena. - Não estão vendo que está ferida gravemente? - Não há alternativa - sustentou um dos velhacos, enquanto o outro tirava uma corda do bolso e atava as mãos de Kate. - É uma delinqüente perigosa. Sem mais comentários, a levaram. Kate estava muito aturdida para reagir. Selena os seguiu, frenética para lhes bloquear o passo, mas Edith a impediu de cometer uma imprudência. Os homens subiram Kate em um carro e a deixaram cair sobre um leito de duras pranchas. Kate gemeu, agonizante, e Selena gritou indignada. - Aonde a levam? - A Newgate. Onde mais? - O que é Newgate? - perguntou Selena a Edith. - É uma prisão - sussurrou Edith, e estalou a língua, desgostosa. - Um lugar atroz. O par de valentões subiu ao carro, tomou as rédeas e atiçou aos cavalos. Selena correu ao seu lado, incapaz de ver através do compartimento de madeira.
    • - Seja forte, Kate - gritou. - Não perca a esperança. Irei te buscar logo que possa. Marcus seguia atrás da escrivaninha, com o olhar perdido. Só rompia o silêncio o tictac do relógio. Tomou um gole de uísque e reviveu uma vez mais a espantosa cena com a Regina e Kate. Em só sete dias ia casar-se… com Melanie Lewis! Sentiu náuseas. Como tinha caído em tão retorcida artimanha? O que devia ter pensado Kate? O ar ainda reverberava com sua presença. Horas antes, naquela mesma biblioteca, tinha-lhe parecido tão miúda, tão jovem, tão formosa… Uma trágica silhueta asfixiada entre sua indiferença e a ira de Regina. Sua única intenção tinha sido agir em interesse de Kate, salva-la da desgraça e lhe assegurar uma nova vida em Doncaster. Por que se sentia então como se a tivesse traído? Sua conduta lhe tinha deixado um gosto amargo na boca. Os argumentos de Regina tinham sido tão contundentes que lhe tinha parecido lógico ceder a sua coação. Mesmo assim, apesar das provas que Regina tinha encontrado, não acreditava que Kate tivesse roubado a sua irmã e não compreendia por que se mostrou tão disposto a aceitar o pior. Estava infestado de dúvidas. Porque não tinha dado a Kate a possibilidade de defender-se? Por que não tinha interrogado Regina ou, quando menos, inspecionado seus documentos? Por que não tinha deliberado e analisado, como era habitual nele? Simplesmente tinha deixado Kate partir ao aceitar o que Regina insistia em expor como certo. Mas podia estar ele seguro de que era? Fechou os olhos e tentou imaginar onde estaria Kate nesse preciso instante. Embora ninguém lhe tivesse informado, sabia que a tinham levado. A sintonia entre ambos era tal que podia perceber sua ausência. Aquela condenada mansão parecia de repente lôbrega, desamparada e apática sem ela. Estaria já a caminho de Doncaster? Quando chegaria? O odiaria pelo resto da vida? Poderia chegar a perdoá-lo? - Sinto muito, Kate - murmurou no quarto vazio. - Eu sinto muito. Ouviu uns passos aproximando-se lentamente e se armou de coragem para dissipar qualquer vestígio de emoção do seu rosto. Pamela entrou capengando, embelezada com o négligé embora a noite começava a abater-se. Era óbvio que a tinham despertado, seguindo suas indicações. Usava a roupa enrugada e o cabelo solto e emaranhado. Luzia o semblante pálido e retorcido de quem sofre alguma doença estomacal. - Espero que seja importante, Stanford - espetou ao tempo que irrompia na estadia e se deixava cair em uma cadeira. Estava dormindo e teria sido melhor para os dois que não tivessem me despertado. Vai estalar-me a cabeça de um momento ao outro.
    • Escrutinou-a sem emoção alguma e se esforçou em recordar porque um dia acreditou ter estado apaixonado por ela. A única explicação devia ser a impetuosidade da juventude, porque nesse momento, ao olhá-la, não sentia nada, nem um olhar de camaradagem, nem um ápice de estima, nem um mínimo de simpatia. Tinha cavado sua própria fossa e estava a ponto de cair nela. - Não viu ao Christopher? - perguntou ela, olhando ao seu redor como se o moço pudesse estar escondido depois das cortinas. - Não. Por que? - Ontem à noite verti algo em nossas taças, um tônico para estimular a disposição de ânimo, mas hoje me sinto terrivelmente mal. Preocupa-me que ele também possa estar doente. - Estiveste fornicando com o Christopher? - Ele esteve fornicando comigo, não pôde resistir. Arqueou uma sobrancelha. Logo vai ouvir falar muito de Christopher e de mim. - Não tenho a menor idéia do que falas. - O menino está perdidamente apaixonado. - De ti? Christopher tinha mencionado que tinha um segredo, que tinha conhecido a alguém muito especial, mas tinha especificado que se tratava de uma moça. Pamela devia ter se enganado. - Pois sim. Discuti o assunto com sua mãe e se mostrou extremamente disposta. Pode esperar uma comunicação oficial muito em breve. - Uma comunicação do que? - Vou ser condessa de novo. Stanford esteve a ponto de engasgar-se com uma gargalhada. - Está louca. Realmente acha que Regina vai permitir que fique com seu único filho? - Por que não? - Talvez porque seja uma viúva de trinta anos, uma arpía dissoluta a quem Regina não suporta? - Não me encontro o bastante bem para ficar aqui e ouvir seus insultos. Levantou-se e se dispôs a partir irada. - Não te dei permissão para ir. - Como se disse necessitasse! Deu um par de passos firmes. - Detenha-se! Ela o mediu; algo em seu olhar lhe impediu de seguir avançando. Vacilou e logo retornou à cadeira. Sua exasperação, não obstante, era evidente. - O que quer? - Alegro-me que ache que vais dispor de alojamento no futuro. - Por quê?
    • - Porque seus dias nesta casa, sua vida de sanguessuga me chupando o sangue, terminaram. Ela ofegou. - O que? - Enquanto falamos, a ama de chaves está guardando seus pertences em um baú. Deverá ser capaz de se arrumar com isso por um tempo, mas terá que me dar sua nova direção para que saiba aonde enviar o resto das suas coisas. - Nego-me a ir ! Ele se encolheu de ombros. - Então terei que te expulsar eu mesmo. - Mas esta é minha casa! Foi durante quatorze anos! - Pois terá que procurar uma nova. Assegura que vais ser a nova condessa de Doncaster, já encontrará a outros sobre os quais impor sua vontade - sorriu com severidade, embora não acredito que deva ter isso como certo. - Não pode me despejar! - Posso sim e já fiz. - Mas… mas… - Irá assim que tenha se vestido. - Não! - gritou, ficando em pé de um salto. Não vou permitir que me faça isto. Não tem nenhum direito. Nenhum! Ele seguiu sentado, tomou um gole de uísque e a observou tremer de raiva. Surpreendeu-se de que aquela cena não despertasse nele emoção alguma. Era como se, com a ida de Kate, tivesse desaparecido nele até o último ápice de humanidade que ainda conservasse. - Não deveria haver falado a Regina de mim e miss Duncan. Tenho curiosidade por saber como soube. - Quem diabos é miss Duncan? Olhou-o, confusa, sem saber quem devia ser a mulher em questão… mas logo se recordou. Ah, refere-te ao bombonzinho com o que se deitava no piso de acima… - Ordenaste aos empregados que me espiassem? Confiava em que não o tivesse feito. Seria uma lástima ter que se despedir de alguém por sua culpa. - Não. Eu mesma te vi. Sua voz adquiriu um tom malicioso que logo se tornou cruel. É disso do que estamos falando? Descobri seu pecadinho e agora tem um manha de criança? Ele se separou do assento e tentou por todos os meios manter as rédeas de seu temperamento. - Como se atreve a referir a alguém sobre meus assuntos privados, especialmente a Regina Lewis? Ela viu que tinha posto o dedo na chaga e, idiota como era, decidiu utilizar a circunstância ao seu favor. - Realmente baixaste o nível. - Ah, sim?
    • Ele permanecia letalmente sereno. - Está apaixonado como um menino, riu. Que gracioso! Estou impaciente por compartilhar com outros a boa nova. Ao fim te caçou alguém: a criada de Regina! Riu alegremente, e sua natureza desumana e cruel o alcançou em uma baforada. Demorou apenas vários segundos em rodear a escrivaninha e lhe apertou o pescoço com força, quase a ponto de lhe cortar a respiração. - Se mencionar seu nome a uma só pessoa, mato você. Separou-a de um tapa e ela perdeu o equilíbrio. Caiu de joelhos ao chão, onde se atrasou um momento, massageando o pescoço e tentando de recuperar o fôlego. Logo elevou o olhar em busca dos olhos dele. Gotejava maldade por todos os poros do corpo, mas nesta ocasião foi bastante prudente para conter a língua. De algum modo, ele se sentiu aliviado de que Kate estivesse a caminho de Doncaster. Pamela podia ser um adversário traiçoeiro, mas jamais teria a coragem de procurar vingança contra ele. Desforraria-se com alguém mais débil, mais vulnerável. E Kate teria sido um alvo fácil. Lentamente, Pamela ficou em pé sem deixar de morder a língua para não proferir os insultos que a assaltavam. Não obstante, reconheceu que tinha ido muito longe em suas provocações. - Do que se supõe que vou viver? - Enviarei meu procurador para discutir uma quantia. - Quanto será? - Estou pensando em quinhentos. - Ao mês? - Ao ano. Era uma quantidade mísera. Assim que se acalmasse um pouco, refletiria e lhe garantiria um pouco mais, mas naquele instante o satisfazia vê-la sofrer. - Não pode falar sério! - O que é o que tem feito para merecer mais, além de abrir as pernas para mim e para meu pai? - Odeio-te! Bom, talvez não aumentasse a soma. - Isso já o há disse muitas vezes. Agora, vá. - Sempre te odiei. Pamela deu meia volta e saiu correndo. Christopher inspecionava a sala privada de sua mãe; esquadrinhava entre os documentos da escrivaninha e espiava sem acreditar dentro da carteira que sempre estava com ela. Estava perplexo. Onde podia estar e o que podia ter provocado que partisse daquele modo, deixando tudo atrás? Mas não lhe preocupava estar bisbilhotando; ao fim e ao cabo, ele era o Conde de Doncaster. Todos os papéis tinham a ver com seu povo e
    • suas propriedades, e sentia a imperiosa necessidade de descobrir que informações lhe ocultava sua mãe. Para sua surpresa, o primeiro documento com o que tropeçou era a carta que Kate tinha escrito ao procurador sobre as discrepâncias relacionadas com a herança de Selena. Por que não a tinha enviado Regina? Sobreveio-lhe um acesso de temor. Na casa flutuava uma atmosfera malévola que não gostava nada. Passou a tarde procurando Kate, mas seus aposentos estavam vazios, inclusive sua roupa tinha desaparecido, por isso começou a alarmar-se. Aonde Kate podia ter ido? Por que teria partido sem despedir-se? O mordomo lhe tinha informado da reunião a que a tinham convocado Regina e Stanford. O mordomo assegurava não saber o que se discutiu nela - uma mentira para sair do passo, estava claro, e depois do encontro Kate tinha desaparecido. Não podia imaginar o que podiam ter querido de Kate, Stanford e Regina, e lhe inquietava que a tivessem obrigado a partir. Mas por que fariam algo assim? Sua curiosidade se viu recompensada com acréscimo quando encontrou no fundo da carteira um livro de contas que detalhava os desembolsos realizados da herança de Selena. Em cada uma das páginas se distinguia a limpa caligrafia de Kate. Chris inspecionou as distintas colunas. As somas não concordavam com o grau de pobreza no qual vivia Selena. Sentia-se mais confuso que nunca. Aonde tinha ido todo aquele dinheiro? Encontrou uma bolsa na qual, para sua surpresa, continha o testamento do pai de Kate. Parecia estranho que Regina o levasse sempre consigo, de modo que o olhou. Pelo visto, um velho amigo do antigo Conde devia ter-se sido responsável por Kate, não Regina (como sua mãe freqüentemente assegurava), e à moça lhe tinha uma herança própria, além de bens para um dote matrimonial. Aturdido, deixou-se cair em uma cadeira. Regina tinha torturado Kate com histórias sobre a indecência de seus pais, que a tinham convertido em uma vagabunda, e sobre o que ela custava de dinheiro à família Lewis, do qual nem um só centavo podia destinar-se ao seu bem-estar. Havia tratado Kate com desprezo, incrementando seu pesar, lhe recordando em todas as horas que era uma carga da qual se tinha que ocupar quando nem sequer seus próprios pais se incomodaram em prover para ela. Por que ninguém sabia das argúcias da Regina? Onde estavam os tutores e conhecidos que deviam ter-se ocupado de Kate? Por que ninguém a tinha ajudado? Regina os tinha enganado a todos. Como e por quê? Ao mudar-se a Doncaster, Kate não era mais que uma menina. O que tinha provocado a
    • animosidade de Regina? Ou possivelmente, tendo em conta os hábitos econômicos de sua mãe, tinha sido simples cobiça? Agarrou a pasta e saiu disparado para a quarto de Melanie. Entrou sem chamar. A jovem perambulava de um lado ao outro, com um lenço apertado contra seus avermelhados olhos, na metade de um dramático soluço. Olhou-o. - Acaso te convidei a entrar? Qualquer irmão se teria interessado pela causa de sua aflição, mas não lhe importava absolutamente. - Onde está mamãe? - Como vou saber? - Viu Kate? Melanie grunhiu, desgostada: - Enviaram-na ao Doncaster, em desgraça! Ao Chris ferveu o sangue. - Por quê? - Manteve um tórrido caso com Lorde Stanford. Envergonhou a todos. - A mim não, - respondeu Chris. - Jamais me envergonharia, fizesse o que fizesse. - É um idiota. - A diferença de ti, sempre considerei Kate minha amiga. - Bem, Stanford vai ser meu marido, - anunciou ela. - Não é certo. Ele mesmo Stanford havia dito a ele: não tinha desejo algum de desposar-se com ela. - É, - replicou ela, com voz infantil. - Vou casar-me com ele na próxima semana… depois de que Kate tenha estado fornicando com ele como uma vulgar perdida. Oh, como pôde me fazer algo assim? Não vou ser capaz de olhá-lo sem vê-la! De verdade, estou farta! Doente! Desmoronou-se em uma cadeira com um novo fluxo de lágrimas. Ele se foi, deixando que se regozijasse a sós em sua miséria. A conversa tinha despertado nele grande ansiedade. Regina provavelmente tinha enviado Kate sozinha para casa, em um carro público. Estava Stanford à corrente do alcance da crueldade de Regina? Em tal caso, por que lhe permitia abusar de Kate desse modo, de uma forma tão repulsiva? Especialmente se tinha tido alguma relação com ela… Que cavalheiro podia ser tão áspero? Chris nunca teria pensado que fosse o tipo de homem que seduzira ao Kate para abandoná-la depois. Claro que, com as mulheres, quem podia prever o que um homem era capaz de fazer? Sua própria conduta para com Pamela era um exemplo claro de loucura masculina. Tinha flertado em excesso, tinha reincidido inclusive depois de conhecer Selena, depois de apaixonar-se por ela. Ele mesmo se abandonou com gosto aos prazeres carnais, de modo que não era alguém
    • para julgar com severidade ao Stanford, ao menos até que tivesse ocasião de lhe perguntar o que tinha ocorrido. Mas que o céu o amparasse se tinha tratado mal a Kate. Preso do pânico, Chris voou escada abaixo, impaciente para saber se Stanford seguia no imóvel. Chegou ao vestíbulo quando, para sua desdita, Pamela saía da biblioteca. Ia despenteada e se dirigia às cegas para ele, de modo que não havia maneira de evitar o encontro. Mas o que ia fazer? A mera idéia de falar com ela o enojava! O encontro da noite anterior o tinha deixado tão aturdido e ofuscado que se perguntava se não o teria drogado. Não recordava tudo que tinha acontecido, e o que recordava era repugnante e humilhante. Stanford lhe tinha advertido que Pamela tinha dúzias de amantes, que pinçava nos homens como um arado no campo, e o consternava ter chegado tão longe com ela. Sempre que o tinha procurado, lhe tinha faltado a vontade para resistir. Mas agora tinha alguns assuntos prementes que atender e não podia entreter-se. Ela o divisou e se aproximou muito rapidamente. Abraçou-o com toda a força de que era capaz. - Chris! Oh, Chris! Salve-me! Estava montando uma cena que o mortificava. - Lady Pamela, por favor… Tentou escapar de seus braços, mas ela não tinha a menor intenção de soltá-lo. - Carinho, carinho… - seguiu repetindo; parecia desequilibrada. - Onde estiveste? Procurei-te por toda parte. Estava desesperada por te encontrar. Beijou-lhe a bochecha, o pescoço, o peito… e a ele lhe revolveu o estômago. Ficava um pouco de dignidade? De sentido comum? Duas criadas se detiveram o final do corredor e presenciaram a vexatória cena. - Pare Pamela, - ordenou ele - Está-me envergonhando. - Posso ir ao Doncaster contigo? Você não me abandonará. Sei que não o fará. O destino nos uniu! Os simples mortais não poderão nos separar! Balbuciava incoerências que o assustavam. Não parecia estar em seu são julgamento. Livrou-se dela e a manteve afastada com um braço. - Pamela, me escute. - Serei uma condessa fabulosa! O povo de Doncaster me adorará! Já verá! Demonstrarei-lhe isso! - Não, Pamela. Está dizendo sandices. - É o que deve ser, Chris. Bebemos a poção. Não podemos trocar nosso destino. - Mas eu amo a outra pessoa. Estou prometido. Tal confissão atalhou seu humilhante escárnio. - O que há dito? - Estou comprometido.
    • - Não. - Sacudiu a cabeça com ímpeto. - Não pode ser, não pode ser! Desmoronou-se sobre os joelhos aferrando-se a sua jaqueta; espremia- a com ambas as mãos. - Está mentindo! Chiava lhe implorando que o negasse quando Stanford apareceu pela porta da biblioteca. Chris lhe lançou um olhar de súplica para que fosse em seu auxílio. - Pamela - ladrou - deixa o menino em paz. Ela fingiu não tê-lo ouvido. - Chris, - suplico -lhe isso, não me abandone. - Pam! - gritou Stanford. - Se comporte. Alcançou-a em poucos passos. Ela lutou por escapar, mas ele não a soltou. - Não me toque! Besta! Animal! Ele a colocou de frente a sim e lhe falou com voz suave, mas firme. - Esta já não é sua residência e, por conseguinte, não tenho nenhuma obrigação de presenciar uma cena de tão mau gosto em meu vestíbulo. Desiste de uma vez ou terei que te açoitar. - Não o farei! Advirto-lhe isso! Era desafiante e insolente ao extremo. - Estou-te dando uma oportunidade de que se vista antes de ir. Se preferir, posso te expulsar em camisola. - Fez uma pausa. A firmeza de sua resolução não deixava espaço para a dúvida. - Ali está a porta. Você decide. Seu soberbo peito ofegava, seu corpo tremeu com ira. Sopesou as opções e percebeu que Stanford falava a sério. - Jamais te perdoarei! Ele riu. - Não me importa. Afastou-se bruscamente, dirigiu ao Chris um último e desesperado olhar de socorro e voou escada acima.
    • Capítulo 18 - Por que está lady Pamela tão consternada? Christopher estava zangado e disposto ao enfrentamento. Marcus estudou seu rosto. O grande escritório da biblioteca os separava. - Notifiquei-lhe que deve partir de minha casa. Rescindi seus recursos e terá que buscar outra residência. - Por que? - insistiu Chris. - Porque ultrapassou os limites que lhe permitiam viver aqui. - Não é uma resposta. - Muito bem, a ver se te serve isto. Marcus detestava ter que ser tão direto, mas devia ser franco. Tentava me manipular. Basta esta explicação? - Não tenho nenhum interesse no que possa lhe proporcionar. - Mesmo assim, deve estar prevenido. - Dela? - Sim. Afirma que vai casar se contigo, que já falou com sua mãe e que tudo está decidido. - Perdeu tanto o julgamento para assumir que Regina concordaria? Marcus encolheu de ombros. - Com as mulheres e suas intrigas nunca se sabe. - Estou comprometido - confessou inesperadamente, mas não com Pamela. - Com quem, então? - Com a irmã de Kate. Marcus se sentiu arrebatado por um acesso de ressentimento, avivado pelo fato de que aquele jovem tivesse a coragem de lutar por sua felicidade, quando ele tinha sido tão covarde para não tomar o que tinha ao alcance de sua mão. Como tinha deixado que Kate partisse? Não havia oposto a menor resistência, mas depois de ter pensado atentamente nos detalhes, poderia ter chegado a uma melhor solução. - Informou a sua mãe? - Ainda não, mas logo o farei. - Será difícil. - Sem dúvida. - Ajudarei-te. Surpreendeu-se de haver-se devotado com tal naturalidade. Nunca se misturava nos problemas alheios, nunca se interessava em ajudar a ninguém, menos ainda se para isso devia desviar-se de seu caminho, mas, se as coisas fossem segundo o previsto, Chris logo seria seu cunhado e queria travar amizade com ele. - Não estou seguro de querer que me ajude, - respondeu Chris. - Por que não? - perguntou Marcus, atônito. - O que fizeram a Kate?
    • - A Kate? Esclareceu-se garganta e vacilou. Atrasou sua resposta, em busca da mais apropriada. - Se fingir não saber de quem falo, juro por Deus que rodearei a escrivaninha e te golpearei até que não seja mais que um montão de vísceras. Fantástico! Depois dos dois horríveis encontros com os que tinha tido que lutar, só lhe faltava isso: os dois lutando no tapete como um par de velhacos. Considerando a juventude de Chris, seu perfeito estado físico e sua óbvia indignação, Marcus não estava seguro de poder ganhar. - Conheço-a, - confessou com voz tênue. - O que lhe fizeram? - voltou a perguntar Chris. Marcus tomou o caminho dos covardes. - Nada. - Onde está? - Não tenho nem idéia. - Seu dormitório está vazio. - Seriamente? - exclamou com cautela. - Melanie assegura que você e Kate mantinham um caso. Regina tinha informado a Melanie? Ruborizou-se, consciente do espantoso começo que tal ato daria a sua união. - Bem… - Como chefe de família e único parente varão de Kate, exijo conhecer suas intenções para com ela. - Não tenho nenhuma. - Vá, não me surpreende, - repreendeu. - Adivinha o que mais me contou minha irmã. - O que? - De repente decidiu se casar com ela. Assim - estalou seus dedos, - sem mais. - Em efeito. - Como te coagiu minha mãe para que aceite? - Por que pensa que o tem feito? - Não sou um néscio, é de todo impossível que tenha aceitado por vontade própria. Chris arrojou uma carteira de pele sobre a escrivaninha. Ao cair fez um ruído surdo e Marcus a olhou fixamente, prevendo que o que houvesse dentro não podia ser nada bom. - O que é isto? - É a pasta de negócios de minha mãe. Esconde aqui seus papéis privados, tudo aquilo que não quer que ninguém veja. Abriu a lateral, extraiu um montão de documentos e os espalhou para que Marcus pudesse examiná-los.
    • - Finalmente tive a oportunidade de bisbilhotar neles e olhe o que encontrei. - Sustentou em alto uma carta. - É de Kate, remetida ao procurador, o mister Thumberton. - Conheço mister Thumberton. Era um prestigioso advogado que trabalhava para muitas das melhores famílias. - Recorda que te falei da irmã de Kate, minha prometida, e das irregularidades em sua herança? - Sim, íamos falar do tema, mas ainda não tivemos oportunidade. - Thumberton é o procurador. - Kate lhe escreveu? - Sim. Regina devia lhe haver enviado a carta. Por que segue em sua carteira? O pulso de Marcus se acelerou. - Não tenho nem idéia. - Alguém esteve cometendo um desfalque. Tenho a impressão de que culparam Kate. - Sua mãe disse que assim era! - E acreditou? - Não! Mas tinha um livro de contas como prova, estava aqui, a simples vista. Chris escolheu uma caderneta da pilha. - É esta a prova que mostrou? - Não, tinha outra forma e outro tamanho. Chris estudou as páginas. - Esta está escrita por Kate de punho e letra, e não há evidências de fraude. - Então, o que é o que sua mãe estava me mostrando? - Diga-me isso você. Marcus estava desconcertado. A única explicação era que Regina tivesse falseado uma cópia dos gastos, que fosse ela a responsável pelo delito, mas a idéia era tão desatinada que não podia aceitá-la. Era a viúva de um Conde, uma mulher rica, com as mãos nos bolos de distintas fortunas. Comparativamente, a quantidade furtada a herança era uma miséria. Que necessidade tinha de roubar? Que necessidade tinha de culpar Kate? - Crê que foi sua mãe? - Você não? - Por que ia fazer isso? - Porque é cruel. Porque está desequilibrada. Sempre odiou Kate e, manteve-a em uma posição tão vulnerável, era fácil levantar as suspeitas. - Concordo que odeia Kate, mas por quê? - Está à corrente da história de Kate? - De grande parte.
    • Mas era uma afirmação ligeira. O certo é que mal sabia nada de Kate. Enquanto outras mulheres se empenhavam em saturá-lo com a história de suas vidas, Kate se tinha mostrado particularmente reticente. - Então saberá que seu pai era o Conde de Doncaster. - Não! Nunca me disse isso! - Seu pai era Conde, o predecessor de meu pai. Quando Kate era uma menina, sua mãe fugiu com outro homem e seu pai se suicidou. Chegamos a Doncaster e Regina clamou que tinha sido nomeada tutora de Kate, mas agora que li estes documentos, soube que não foi assim. O que outras fraudes deve ter cometido? Marcus estava aturdido. Kate era filha de um Conde? Sua divertida, sensual e solitária Kate? Por que o tinha mantido em segredo? O ar pareceu abandonar seu corpo. Sentia-se cada vez mais débil, com os joelhos trêmulos, e se desabou na cadeira. Ele tinha pressentido, muito em seu interior, que Regina mentia! - Tem Kate um antigo pretendente esperando-a em Doncaster, alguém que quer casar-se com ela, um viúvo com duas meninas pequenas? - Quem ia inventar tais sandices? - Sua mãe. Chris se burlou. - Ninguém nunca amou Kate. «Exceto eu», pensou Marcus desolado. Aquela idéia terrível e maravilhosa o invadiu. Sentiu-se alagado de amor e se perguntou como ia conseguir trocar o curso dos acontecimentos, fazer o correto. - Regina me convenceu de que Kate tinha roubado o dinheiro, mas se ofereceu a reembolsá-lo se eu me casasse com Melanie. - De modo que cedeu para proteger Kate. - Sim. Chris riu, um pouco abatido. - Em seu lugar, eu não me entusiasmaria muito com o dote de Melanie. - Por que não? - Porque é de Kate. Regina também falsificou os documentos respectivos. - Apontou a pasta, indicando os papéis que havia dentro, caso Marcus quisesse inspecioná-los. - Todos estes anos, Kate podia ter se casado. Neste preciso momento poderia ser a dona de uma grande fazenda em lugar da criada maltratada de Regina. - Ainda não me explicou por que a detesta Regina. - Não sei, nunca o soube. Marcus se sentia confuso. Tentava digerir toda aquela informação e ficou em pé. Não sabia em que direção devia dar o seguinte passo, mas soube que tinha que fazer algo. Não podia prostrar-se de braços cruzados na biblioteca pelo resto da vida. - Temos que encontrar Kate.
    • Sobressaltou-o uma súbita sensação de perigo: era imperativo que a encontrassem. Embora a percepção era algo vaga, pois Kate provavelmente estaria a salvo, a caminho do campo, não podia livrar-se dela. - Sua mãe a enviaria a Doncaster, tal como prometeu? - Não apostaria nisso. Não poderia arriscar-se que ninguém perguntasse a Kate sobre os recursos desaparecidos. - Onde pode tê-la levado? - Não tenho a menor idéia. A Marcus lhe contraiu o coração. Tentava afugentar as sórdidas imagens que o assaltavam de Kate depois de passar pelas mãos da Regina… As possibilidades eram alarmantes e infinitas. Por onde podiam começar a procurar? Justo então, o mordomo chamou e apareceu pela porta. - Desculpe a interrupção, milorde. Uma jovem dama solicita ver Lorde Doncaster. Parece muito consternada, não pude ajudá-la. - Quem é? - Miss Selena Bela, senhor. Desculpa-se pelos incômodos que possa lhe ocasionar, mas insiste em que lhe urge vê-lo. Chris já corria para o vestíbulo e Marcus o seguiu. Deteve-se em seco sobre o piso de mármore assim que se encontrou cara a cara com a irmã de Kate. Era mais alta, mais morena e mais esbelta, mas não cabia dúvida alguma do parentesco. As duas eram autênticas belezas; entretanto, enquanto Kate era menos pretensiosa, mais humilde, aquela garota destilava uma realeza, uma nobreza que punha em questão sua idade. Assim que Selena os viu aproximar-se, agachou-se em uma graciosa reverência de respeito. - Ofereço-lhes minhas mais sinceras desculpas, milordes… - começou a dizer, mas Chris se apressou a ajudá-la a levantá-la. Negava-se a que se inclinasse ante eles. - Marcus, esta é a irmã de Kate, Selena. Christopher refulgiu como se ela fosse a lua. E minha prometida. - É um prazer conhecê-la, Selena. Ao seu lado, Marcus se sentia velho e cansado. Era um casal tão perfeito, tão jovem, tão atraente… Seu amor saltava à vista. - Lorde Stanford. - Estendeu-lhe uma mão com a imperiosidade de uma rainha. - Kate me falou maravilhas de você. Era impossível que Kate tivesse murmurado sequer uma palavra amável sobre ele. - Você mente muito mal, querida. Selena olhou ao Chris, tentando respeitar o protocolo de cortesia, mas o capuz de seu manto caiu para trás e se fez evidente que tinha estado chorando. Christopher se horrorizou. - O que ocorreu?
    • - É Kate, - disse. - Sua mãe a golpeou e logo a abandonou em minha porta. Marcus se sentiu desfalecer. - Está ferida? - Muito ferida gravemente. - Oh, Meu Deus! - murmurou Chris. - Temia que algo assim pudesse acontecer. - Onde está? - apressou-a Marcus, enquanto imaginava inúmeras maneiras em que Regina ia pagar por isso. - Uns homens a prenderam. Asseguravam ter uma ordem judicial que acusava Kate de ter roubado dinheiro da minha herança. Mas ela não fez isso, - decretou Selena com lealdade. - Nunca faria algo tão horrível! - A levaram a prisão? - Marcus estava transtornado. - Sim. - Selena rompeu a chorar de novo. Uma cascata de lágrimas alagou suas lindas bochechas. - A levaram aos empurrões. Não pude detê-los. - A que prisão, Selena? - inquiriu Marcus. - Diga. - A um lugar chamado Newgate. Conhece? Marcus estremeceu. Logo olhou ao Chris. - Pelo bem de sua mãe, espero que Kate esteja perfeitamente sã. Deu-se meia volta e correu em direção ao jardim. Chris e Selena o seguiram de perto. Pamela avaliou o atestado salão de Elliot e se perguntou como podia permitir-se convidar a semelhante concorrência. Depois de ter sido despejada por Stanford e sem ter muitas opções, Elliot lhe tinha parecido a mais lógica, ao menos até que pudesse solucionar as coisas com o Christopher e sua mãe. Elliot a tinha agasalhado sem opor reparos. Até então, ninguém sabia da perfídia de Stanford nem que por sua causa tinha procurado refúgio no Elliot. Passeou pelos transbordantes salões, sorrindo e conversando, atuando como anfitriã de Elliot, um papel que tinha assumido com regularidade no passado. Entretanto, naquele estado de nervos lhe resultava muito difícil mostrar-se cortês. Sentia-se doente, acalorada e algo temerária. Odiava ter nascido mulher, não ter poder algum, nem bens, nem autoridade sobre sua própria vida! O que teria dado de ser rica e autônoma, para esfregar-lhe ao Marcus na cara! Ele, o muito desgraçado! Mais à frente, ao fundo da sala, divisou a Regina e Melanie e ficou nas pontas dos pés com a intenção de divisar ao Christopher. Ao ver que não estava com elas se desmoralizou. Onde podia estar? Aproximou-se sigilosamente de Regina por detrás, com a determinação de não deixá-la escapulir-se. - Onde está Christopher? - desafiou-a. Regina se voltou e a esquadrinhou.
    • - Lady Pamela, soltou a fervuras, com voz muito estridente , é certo que teve um problema com o Stanford e que a expulsou de sua própria casa? Todos os pressente a menos de seis metros ouviram o malicioso comentário e muitos deles suspiraram com regozijo. Alguns se aproximaram do grupo, impacientes para divulgar a notícia. O rumor se pulverizaria como pintura derramada no chão. Pamela tremeu de fúria. - Temos que falar. Venha comigo. - Agora mesmo estou ocupada. Se me desculpar… Regina tentou afastar-se, mas Pamela lhe bloqueou o passo. - Se não me atender agora mesmo, vou difundir uma mentira tão mesquinha sobre a Melanie, tão atroz, que não será capaz de voltar a aparecer em público. - Não se atreverá. - Acha que não? Esteve vivendo comigo várias semanas. Diga o que disser, todos me acreditarão. - Sigo-te, aceitou finalmente Regina. Sua antipatia era patente, impossível de esconder. Pamela as conduziu para a biblioteca de Elliot e fechou a porta ao seu passo. - Onde está Christopher? - repetiu Pamela, desesperada por falar com ele, para lhe contar o que Stanford fizera. - Não tenho nem idéia, sustentou Regina. Passou fora toda a tarde. Deixei-lhe uma mensagem para que se reunisse aqui conosco. Isso é tudo? - Não, não é tudo. Devemos fazer planos. - Sobre o que? - Sobre meu compromisso com ele. - Seu compromisso com ele? - Sim. Quando o anunciaremos? Devia afiançar seus ganhos, estar segura de que Chris seria dele. Regina se pôs a rir. - Pensava que só estava atuando de um modo estranho, mas se ainda acha que vai se casar com meu filho é que está absolutamente louca. Está doente? Deveria chamar ao seu amigo, mister Featherstone, e fazer que avise a um doutor? Talvez te acalmariam os nervos com algum remédio. Pamela se aproximou mais de Regina. A ameaça brotava dela a torrentes. - Tínhamos um acordo. - Você e eu? Com respeito ao Christopher? Regina se negava a que a abandonassem, a que a debilitassem. - Disse que, se te entregasse o Stanford, eu poderia ter o Chris. Estava tudo previsto. Estávamos de acordo! - E como, exatamente, entregou o Stanford? - Falei-te de sua aventura com a garota, de seu caso.
    • - E? - Não pode recuar! Um trato é um trato. Quero o Chris e pretendo convertê-lo em meu marido. Regina riu frivolamente, burlando-se dela, ridicularizando-a. - Está louca, Pamela. Demente total! - Vou armar um escândalo público e te envergonharei. Não vou parar até que cumpra com sua palavra. - Se quer te pôr em ridículo, faça-o. Não há nenhuma pessoa em toda a Inglaterra que vá te prestar a mínima atenção. Agora, boa noite. Não me incomode mais. - encaminhou-se para a porta, onde se deteve para olhar Pamela por cima do ombro, com ar triunfante. - Por certo, Stanford consentiu em casar-se com a Melanie. Anunciaremos o compromisso amanhã pela manhã. As bodas se celebrarão dentro de uma semana, mas eu em seu lugar não esperaria um convite. Saiu com passo pesado e Pamela ficou irada no silêncio do cômodo. Quantas armadilhas devia ser capaz de enfrentar em um mesmo dia? - Traiu-me gorda, porca… Fervia por dentro. A sede de vingança a desequilibrava. De modo que Regina acreditava que Stanford estava a ponto de casar-se com sua preciosa filha… - Já veremos! - resmungou com um sorriso malicioso, e saiu a toda pressa em busca de Melanie. Elliot observou o salão, abarrotado de estridentes convidados. Entusiasmava-o poder convocar a semelhante multidão, mas a incerteza de não saber ainda como o ajudaria a recepção o inquietava. Noite detrás noite organizava luxuosas festas, mas as faturas começavam a acumular- se. Tinha que conseguir a dote de Melanie, com ou sem seu consentimento, e ninguém (em especial sua mãe) poderia intrometer-se em seu caminho para casar-se com ela. Seus problemas fiscais requeriam uma solução imediata, e se um pequeno furto podia lhe salvar, espreitaria por esse sujo caminho. Pamela se aproximou do outro extremo do salão de baile e ele chiou os dentes. Para seu infortúnio, havia-a achado na soleira de sua porta, chorando, insultando ao Stanford e suplicando asilo. Elliot tinha dormitórios mobiliados, mas rezava por que não ficasse muito tempo. A julgar por sua penúria, iriam rapidamente ao asilo de indigentes! Pamela estava em um estado frenético, com o rosto avermelhado, as emoções incandescentes e um brilho selvagem nos olhos que o inquietava sobremaneira. No transcurso de poucas horas, tinha escrito e enviado uma dúzia de cartas ao jovem Christopher Lewis lhe informando de seu paradeiro e lhe suplicando que fosse procurá-la. Não deixava de perguntar se o
    • moço tinha sido convidado ao festejo, se já tinha chegado… sem recordar que apenas fazia uns minutos que o tinha perguntado. Todos tinham percebido sua obsessão. As pessoas começavam a murmurar, a questionar (como já fazia ele) se não teria perdido a razão. Vá sorte a sua! Dava refúgio a uma mulher louca, vinda a menos! Enquanto ela se aproximava, ele tomou um gole de brandy, aparentando calma e fingindo alegria ante sua presença. Ela deslizou um braço sob o seu e sorriu. - Você ainda gostaria de se casar com a Melanie Lewis? Ele quase cuspiu sua bebida. - Sim. - Com o início da próxima canção, ela vai escapulir escada acima. Indiquei-lhe o caminho até seu dormitório. Quanto tempo necessitará para arrastá-la além do defensável? - Virá nos descobrir? - Com a Regina ao meu lado. Quero que seja testemunha da queda de Melanie. Considerando sua fila e o de Melanie, seria suficientemente dano para ambos que os descobrissem juntos e a sós, mas Regina Lewis salvaria a Melanie de tal inócuo incidente. Se quisesse que a ruína de Melanie recaísse sobre seus ombros, tinha que fazer algo temerário, algo de que a única escapatória fosse um casamento imediato. - Necessitarei de trinta minutos. Quero que esteja nua antes que entrem. E esperava também que tivesse deixado de ser virgem. - Um homem sábio. Pamela apanhou ao vôo um copo de vinho da bandeja de um garçom e o elevou em um brinde. - Por suas futuras núpcias, Elliot. Que você e sua jovem prometida sejam muito, muito felizes. Capítulo 19 Kate se abaixou em um rincão da lôbrega cela. Não sabia desde quando estava ali nem quanto tempo permaneceria encarcerada. Perguntou-se vagamente se a tinham detido nesse mesmo dia ou se teria transcorrido mais tempo. Era difícil de precisar. Tinha uma sensação onírica de tudo que lhe tinha ocorrido e não conseguia concentrar-se nos detalhes. Nada parecia real, nem tão sequer sua vida em Doncaster, nem as semanas em Londres… nem o romance com Lorde Stanford. «Marcus… Como pudeste me fazer isto?»
    • Aquele amado nome atravessou sua torturada mente em um sussurro, mas ela o evitou imediatamente para que não arraigasse e crescesse em seu interior. Não podia estancar-se no passado nem nos acontecimentos que a tinham levado a aquela situação. Só existia o agora e o lôbrego futuro. O que ia ser dela? Enforcariam-na? Deportariam-na? As possibilidades eram muito alheias a ela para imaginar todas. Sentia-se fora do seu corpo, como observando o sofrimento de outra mulher. Recordava entre brumas a casa do Stanford, perto da cidade, seu dormitório tranqüilo ao final do corredor. Repararia alguém em seu desaparecimento? Preocuparia-se alguém por sua ausência? Regina inventaria alguma história sobre sua partida. Talvez Christopher suspeitaria, Selena se preocuparia; podia ser que inclusive a buscassem. Mas logo a esqueceriam e seguiriam com suas vidas. Ninguém mais perderia o sonho por ela. Ninguém. Lamentava que essa fosse a única lembrança que ia deixar depois de vinte e cinco anos de vida. Seus olhos se alagaram em lágrimas amargas e se obrigou a tragar-lhe. Devia concentrar-se em sua situação e não podia esbanjar energias lamentando-se por sua sorte. O ocorrido pertencia já ao passado; tinha que pensar em um modo de seguir adiante a partir desse momento. O sujo, tétrico e úmido lugar no qual se encontrava espelhava seu novo mundo. Tinha necessidades imperiosas, mas não sabia como as satisfazer. Desde que a porta da cela se fechou com um golpe seco e ameaçador, ninguém lhe tinha levado comida nenhuma manta com a que abrigar-se. De vez em quando se ouviam gritos e lamentos distantes. Lembravam-se os guardas de que a tinham encerrado ali? Ficaria enterrada entre essas paredes, molhada, até morrer de fome? Para sua surpresa, a idéia não a inquietava. O que importava se morresse? Quem a lamentaria? Acaso não era preferível morrer ali, onde ninguém pudesse vê-la? Isso evitaria que quem a tivesse conhecido fossem testemunhas de seu terrível final. Pensou em incorporar-se, perambular pela cela, esquadrinhá-la, mas quando tentou fazê-lo, a intensa dor que sentiu nas costas e nas costelas a dissuadiu. Tinha a impressão de que todos os músculos e os ossos de seu corpo se contraíam em um sofrimento agônico. Apoiou uma mão contra o muro para recuperar o equilíbrio e, ao fazê-lo, sentiu o tato de um lodo viscoso que fez que a retirasse imediatamente. O que lhe ia reportar explorar aquele inóspito lugar? O que esperava encontrar? Uma chave? Um túnel secreto? Um mapa que detalhasse as vias de escapamento? Riu com abatimento. Sua voz brotou como oxidada e rota, o que a levou a pensar que talvez já estivesse morta, que aquilo fosse o inferno e que ficaria ali para toda a eternidade.
    • Se assim era, quais tinham sido seus pecados? Amar muito? Desejar com toda sua alma? Consagrar-se em excesso? Ou possivelmente ter cobiçado mais do que tinha tido? Tal e como Regina clamava, era provável que tivesse querido chegar muito longe e que aquele fosse o castigo que devia pagar por seus imprudentes desejos. Não, não havia motivo algum para explorar a cela, nada pelo que rezar; não havia estímulo para conservar a esperança. Desabou-se, fez-se um pequeno novelo e ficou assim, muito quieta. Melanie contemplou a ruidosa concorrência que dançava alegre. O comentário de lady Pamela palpitava em seus ouvidos. Visualizou a Lorde Stanford, com seu imperativo e desagradável sorriso e sua atitude desdenhosa e arrogante. Era cruel, não tinha coração; de casar-se finalmente com ele, passaria o resto de sua vida desamparada, detestada e evitada. Não suportava a perspectiva de ser tratada de uma maneira tão abominável. O muito desagradável nem sequer queria lhe propor o matrimônio! Desalmado! Desumano! Priva-la de um momento tão vitorioso! Era um bruto, um déspota, e não ia aceita-lo como marido. Nunca! Não importavam as conseqüências: desafiaria-o a ele e desafiaria a sua mãe. Saiu da sala de baile, precipitou-se para a escada. Já ao final do solitário corredor do andar superior, abriu a última porta e entrou nas pontas dos pés no quarto. Tal e como Pamela tinha prometido, estava vazia. Um abajur ardia sobre a cômoda e projetava sombras tenebrosas nas paredes. O ambiente estava rarefeito. Terrivelmente inquieta, Melanie se dirigiu à cama e a olhou fixamente. Inquietava-a o que os homens e as mulheres fizessem quando ficavam a sós. Tinha ouvido vis e repulsivos rumores, mas não tinha modo de averiguar se eram certos. Como se pudesse perguntar a Regina! A repugnância e o medo a fizeram estremecer. O que diria sua mãe, o que faria assim que soubesse o que sua filha tinha decidido? Tinha testemunhado o castigo que lhe tinha infligido a Kate. Era uma loucura lhe contrariar. Ela nunca se atreveu a fazê-lo. Aquela seria a primeira vez. Qual seria a reação da Regina? «Mas terei a um marido que me cuidará e protegerá», pensou Melanie um pouco desconsolada, perguntando-se se Elliot estaria à altura. Era educado e inofensivo, a única pessoa em Londres que se mostrou agradável com ela. Seria um bom competidor para a Regina? Ouviu o eco de uns passos no corredor e lhe acelerou o coração. Seria Elliot? Tão logo? Mas… ainda não estava preparada!
    • Posou na mesinha de noite a taça de vinho que tinha levado. Tirou da bolsa de mão o frasco com a poção de amor que Kate lhe tinha conseguido. Observou sua cor a contraluz. Não era tão escuro e vermelho como as dose anteriores. Desarrolhou-o e o cheirou. O aroma que desprendia tampouco era o mesmo, mas já não havia tempo para questionar-se se a beberagem sortiria o mesmo efeito. Ao tempo que Elliot entrava, verteu o conteúdo na taça e a misturou com um dedo. Embora pretendesse reservar a maior parte da bebida para ele, ela tomou vários goles, impaciente por perceber os efeitos. Não tinha dito ao Elliot a proposta de Stanford nem tinha comentado que os contratos já estavam assinados e a data estabelecida. Tampouco ia fazer agora. Se Elliot chegasse a suspeitar que Stanford tinha cedido às demandas incessantes da Regina, Melanie sabia que Elliot não lhe prestaria ajuda alguma. Ele se aproximou sem mediar palavra. Parecia muito mais alto e corpulento do que ela recordava. Olhava-a como zangado e ela se sentiu ameaçada. Nunca antes se havia sentido assim em sua presença. Um calafrio lhe percorreu as costas, mas o evitou. Era uma parva: ele estava ali porque ela tinha pedido. Isso era o que queria, o final que tinha planejado. Elliot era seu amigo e não lhe faria mal. Mesmo assim, mal podia controlar-se e seguia recuando. Elliot desprendia aroma de álcool; seu fôlego fétido se vertia sobre ela como uma nuvem venenosa. Melanie se perguntou quanto teria bebido, em que pese a que não aparentava estar bêbado. Ele parecia estar alerta, espectador; a assustava o modo em que a escrutinava. - Lady Pamela - disse ele ao fim - me comunicou que estava você desejosa de falar comigo. - Sim, preciso lhes perguntar… Quer dizer… Tenho que… Ruborizou-se. Não tinha idéia de como confessar-lhe do que fazer para que ele soubesse o que necessitava. Estava disposta a perder sua honra para que assim Stanford não pudesse tê-la, para que não quisesse tê-la, mas não sabia quais eram os passos específicos que a tal efeito devia dar. Elliot ia perpetrar com ela algum ato áspero e desagradável, mas não sabia no que consistiria. - Normalmente - a incitou ele - quando uma mulher vai ao dormitório de um homem, tem em mente algo mais, além de conversar. - Está certo, - foi capaz de responder enquanto tratava de ocultar seus temores. - Elliot, não posso me casar com o Stanford, e tenho tanto medo, porque minha mãe vai obrigar me a fazê-lo… - Sem dúvida. Esses foram seus planos desde o começo. - Mas se eu mesma me pusesse na situação, aventurou de ter que me desposar com outra pessoa, não teria que consentir; ela não poderia me forçar. - Muito certo - conveio ele, com um fulgor triunfal que Melanie não compreendeu.
    • - Gostaria de uma taça? - perguntou ela. Aproximou-se dele com passo vacilante e lhe estendeu o vinho. Confiava em que o ingerisse sem ter que insistir. Não sentia escrúpulo algum por lhe administrar a droga. Estava decidida a continuar, por muito desagradável ou repugnante que pudesse resultar. Se estava disposta a arriscar tanto, era justo que Elliot se apaixonasse por ela. Ele tomou a taça sem reparar, bebeu-a de um gole e a jogou contra o tapete. Agarrou-a pela cintura com força para impedir uma possível fuga e a conduziu para a cama. Nesse instante, o corpo de Melanie se rebelou. A moça tentou por todos os meios detê-lo, embora foi em vão. Ele estava decidido a chegar à cama e ela não ia impedi-lo. - Não seja tola, menina - a repreendeu ele, deixa de resistir. - Estou confusa… Estou preocupada… Tinha acreditado ter as idéias claras, mas nesse momento compreendeu quão equivocada estava. Tudo ocorria muito depressa. - Dê a volta - ordenou ele. - Por que? - Não discuta e faça-o. Deveria ter-se negado, mas de repente se sentiu muito jovem e desconcertada, e obedeceu. Deu a volta e ficou de costas a ele, que começou a lhe desabotoar o vestido e desfazer do sutiã. Ela sujeitou a roupa contra seu peito. Elliot lhe afastou as mãos e lhe arrancou o vestido do corpo. - O que está fazendo? - exclamou ela; uma pergunta absurda, pois suas intenções eram evidentes. - Estou-te despindo. - Tenho que me despir? - Sim. Ele continuou com a tarefa até deixá-la só com sua delicada roupa interior. Melanie sentiu frio, não só o que experimentava pela falta de casaco, mas também o frio que vinha dele e a fazia estremecer. Seus mamilos reagiram à baixa temperatura e se endureceram até reduzir-se a dois ásperos brotos sob o fino tecido. Ele os olhou com apetite. Ela se cobriu os peitos com um braço e a entreperna com a outra, mas suas tentativas de esconder-se eram inúteis. Ele podia ver tudo. - Se jogue na cama - instruiu Elliot, enquanto tirava o casaco e o laço. - Por quê? - Você o que acha? - Não tenho a menor idéia. Ela duvidou e ele reagiu com irritação. - Quer ser a prometida do Stanford ou não? - Não! - Então se cale e faça o que te digo. - Casará comigo quando tivermos terminado?
    • - Não teremos mais opção. Ele lhe deu um pequeno empurrão e ela cedeu; subiu à cama e se reclinou contra os travesseiros. Enquanto ele tirava a roupa, ela manteve o olhar cravado no teto e tremeu; sentia náuseas e uma urgente impaciência para que a poção de amor começasse a fazer efeito. Notaria imediatamente? Em que medida? Experimentaria uma mudança drástica em seu comportamento? Ou seria algo sutil, difícil de detectar? Não percebia o menor indício físico de que aquela beberagem estivesse funcionando e o pânico se apoderou dela. Se não conseguia implicar-se emocionalmente naquilo, não ia ser capaz de prosseguir! Ele se deixou cair sobre o colchão e ela se atreveu a lhe lançar um olhar fugaz. Tinha o torso nu e uns calções bem rodeados à cintura. Aquele homem parecia não alimentar-se nunca: estava esquálido, com as costelas proeminentes e a pele macilenta e cinzenta. Estendeu-se sobre ela. Esmagava-a e a ponto esteve de asfixiá-la, mas não pareceu perceber o desconforto de Melanie. Ela se revolveu, ansiosa para tirar-lhe de cima, mas seus esforços só conseguiram lhe irritar. - Esteja quieta! - Não posso respirar. - Não precisa respirar. - Por favor! - suplicou ela, sem saber exatamente o que era o que estava pedindo. Não queria que ele se detivesse, mas tampouco continuasse. Ele se pôs-se a rir. Levou as mãos ao seu encaixe e desfez os laços para lhe deixar os peitos ao descoberto. Quando ela tentou cobrir-se, reclamar certo recato, ele a agarrou pelas mãos e as imobilizou sobre a cabeça. - Deixe de resistir. - Eu não gosto que me olhe assim. - Tenho previsto fazer muito mais, além de olhar. Vamos cuidar destas pequenas jóias? Ele se inclinou e ela tomou ar, acreditando que ia beija-la, mas em lugar disso caiu sobre seu mamilo. Aterrorizada e repugnada, olhou enquanto ele a sugava como um bebê a sua mãe. Ele a beliscou e mordiscou, apertou-a e retorceu, até que aquele rude comportamento começou a lhe fazer mal. Então ele se afastou a um lado e acabou de lhe tirar o resto do encaixe. Ela estava nua e, depois de uma prolongada observação de sua figura, ele espetou: - Está um pouco rechonchuda, mas imagino que bastará. Nunca ninguém a tinha humilhado de tal maneira e desejou morrer ali mesmo! Seu olhar sujo se vertia sobre seu corpo. Melanie fechou os olhos e rezou para que, fosse o que fosse o que ele pensava lhe fazer, acabasse logo e não doesse. Ele a tocou entre as pernas. Ela tentou mantê-las pressionadas entre si, mas não conseguia evitar seu manuseio. Elliot tinha os dedos no
    • triângulo que formavam suas coxas e os introduziu a força dentro dela. Logo começou a movê-los até que Melanie sentiu arquear-se. - Uma gatinha estreita! - cantarolou. - Assim eu gosto. Ele lutou com seus calções e ela se esticou. Soube que sua conduta pressagiava algo mau. Aumentou sua resistência, mas não podia escapar. Ele estava sobre ela de tal maneira que a mantinha aberta, exposta, com suas partes íntimas à vista para divertir-se perversamente. Gemeu envergonhada. - Acredito que nunca deflorei uma virgem, - meditou ele. Suas palavras soavam cruéis, vulgares. - O que quer dizer? Ele não respondeu e persistiu em suas imundas torturas. Tinha tirado os dedos do seu interior, mas os tinha substituído com algo maior, mais largo. Elliot flexionou os joelhos e empurrou contra Melanie. - Pare! Agora! - ordenou ela. Vais partir-me em dois! - Nem pensar, - proferiu ele. - Está seca como uma velha. Quer se relaxar,? Relaxar-se? Falava a sério? Ele seguiu com seus movimentos até que a rasgou por dentro; fosse o que fosse o que lhe tinha impedido o passo, havia já desaparecido, o que lhe permitiu empalá-la por completo. Melanie se arqueou e uivou agoniada, mas ele lhe pôs a mão na boca para amortecer o grito. Então ele começou a empurrar com força e Melanie acreditou descer ao inferno. Estava apanhada sob seu peso, incapaz de respirar; o fôlego pútrido de lhe dava náuseas. E ele seguia e seguia. Tratava-a sem consideração alguma por seu bem-estar ou sua comodidade, como se fosse invisível. O suor caía de sua fronte e de repente ficou quieto, paralisado. Emitiu um grunhido de prazer primário e regozijo varonil, e ela sentiu estalar algo quente em seu interior. Elliot se deixou cair sobre ela em um gesto tão abrupto que por um momento Melanie temeu que tivesse sofrido um ataque ao coração e estivesse morto. Mas ele saiu dela e se virou de barriga para cima sobre a cama, respirando como se acabasse de correr uma longa carreira. - Devo ter bebido muito brandy - gemeu. - Por um momento pensei que não ia ser capaz de terminar. - Havemos… terminamos? - Sim. - Isso é tudo? Nisso consiste? Ele a olhou. - O que esperava? Doces e poesia má? - Mas… Mas… Eu acreditava… O que, exatamente? Que seria mais romântico, mais carinhoso, menos físico? Esse devia ser o segredo do leito conjugal. E se ele insistisse em fazê-lo de novo? E se fosse obrigatório fazer aquilo? E se tinha que
    • consumar o ritual cada vez que ele pedisse? Sentiu um tombo no estômago. Contemplou o torso branco e esquálido de Elliot, seus alvoroçados cabelos, suas unhas longas. O acontecimento tinha concluído, mas a atenção que lhe dedicava seguia sendo nula. Ela não tinha sido mais que um recipiente, uma vasilha para sua luxúria varonil. Alagou-a mais intensa sensação de decepção de sua vida. - Não me ama, não é? Ele enrugou o sobrecenho. - O que? - Não me ama. Nunca me amará. - É obvio que não te amo. Que ridícula! Seja uma boa garota. - Assinalou a cômoda com a cabeça. - Traga-me um trapo úmido. Desejosa de afastar-se dele, levantou-se. Seu corpo protestou. Estava em carne viva, seu centro palpitava e seus movimentos eram vacilantes enquanto tentava molhar uma toalha em uma vasilha de água. Engolindo as lágrimas de desilusão, escorreu-a e retornou ao Elliot. Ele se limpou e ela se atreveu a lhe olhar o sexo. Ficou atônita ao vê-lo sujo de sangue. Olhou-se o seu e também viu sangue ali. - Estou ferida! - gritou. - Tentaste me matar! - Se cale! - grunhiu ele. E se deite. Queria ter lhe insultado e depois sair correndo, mas seus joelhos não a sustentavam e acreditou que ia desmaiar. - Se deite! - ladrou ele de novo. O ímpeto de sua voz a fez cair sobre o colchão. Permaneceu imóvel e em silêncio uma eternidade, contemplando o teto, o chão, olhando todas as partes menos a ele. - Agora o que? - perguntou ao fim. - Agora… esperamos. - O que esperamos? - A sua mãe, - respondeu ele com voz pausada. - Te assegure de sorrir quando entrar. Quero que veja quão contente está. - Ela vai vir? Quando? - Muito em breve. Melanie tremeu de medo, incapaz de imaginar a cena. A seus pés havia um manto de lã e o alcançou, desesperada por esquentar-se e tampar-se. - Solte isso, ele disse. Ofereçamos uma boa visão do que fizemos.
    • Capítulo 20 - Onde ela está? - exigiu saber Marcus, no limite de sua paciência. - Já lhe disse, milorde, - se defendeu o zelador da prisão - não há nenhum registro com este nome. - Comprova-o outra vez. - Já fiz isso uma dúzia de vezes. Não está aqui. - Uma mulher de vinte e cinco anos não desaparece de qualquer jeito. - Certo, se a informação que lhe deram é correta e se for esta a instituição aonde foi enviada. Sorriu timidamente a Selena, esperando não tê-la insultado. Marcus dirigiu um olhar carrancudo a Selena. - Onde disseram que a levavam? - À prisão de Newgate - respondeu ela sem vacilar. - Muito bem. Onde ela está? - repetiu Marcus ao tempo que agarrava ao zelador pelo pescoço da jaqueta. - Ouça, Lorde Stanford, - se plantou o zelador, - não é necessário recorrer à violência. - A isto o chama de violência? - Marcus o elevou no ar. Os pés do homem ficaram inertes e sua jaqueta começou a rasgar-se. - Eu te ensinarei o que é violência! Golpeou ao zelador contra o gesso da parede. Ao ouvir o tremendo golpe, o empregado do escritório saiu a toda pressa da sala contígua. - Que diabos…? - exclamou o empregado de escritório ao ver seu superior pendurando no punho de Marcus. Christopher se interpôs para evitar qualquer interferência. - Parte! - bramou Marcus sem afrouxar a mão. O empregado de escritório saiu e foi direto pedir ajuda. Todos ouviram a comoção que se produziu no outro escritório, mas Marcus ignorou o barulho. Sentia-se fora de si, olhando aquele funcionário com olhos de alienado, e o ardor de suas emoções o assombrou. Ele, que nunca se preocupou por outros, estava o bastante irritado para cometer um assassinato, e sem dúvida o faria se algo mal tivesse ocorrido a Kate. - Tem cinco segundos para me explicar como uma dama ferida e assustada pode ter sido injustamente encarcerada nesta prisão sem que ninguém tenha notícia disso. - Verá… verá… - gaguejou o zelador. - Tem a menor ideia de quão poderoso sou? - perguntou Marcus. - Pode sequer imaginar o que sou capaz de te fazer a ti, a sua família? Estou seguro de que valoriza seu emprego. Se não me disser onde está, quanto tempo acha que vais poder mantê-lo? - Há tantos prisioneiros… - se lamentou o zelador. - Talvez esquecemos de tomar nota da sua identidade. Marcus sentiu um tombo no coração. Se a tinham jogado a uma cela de criminosos, como iriam encontrá-la entre milhares de pessoas? O
    • lugar estava lotado das mais desprezíveis almas de Londres. Podiam julgá-la, condená-la e enforcá-la antes que pudessem encontrá-la. Uma breve reunião com o Thumberton, o procurador, tinha confirmado que Regina tinha apresentado falsos documentos para conseguir que prendessem Kate. Durante muitos anos tinha conseguido esconder seus furtos, não só do dinheiro da Selena, mas também da herança de Kate. Se Regina era capaz de cometer tão desprezível crime, que mais poderia esperar? Tinha sido Kate, na verdade, levada a Newgate? Ou tinha concebido Regina um destino ainda mais sórdido? Regina tinha muito a perder, não podia permitir-se que Kate saísse à luz, não podia lhe dar nem a menor oportunidade de defender-se. Era completamente plausível que os raptores do Kate tivessem mencionado intencionalmente Newgate como um ardil, para que as perguntas de Selena obtivessem uma resposta válida: a lei estava envolta e deviam levar Kate e prendê-la. Mas a tinham levado ali? Tinham-na feito desaparecer pelo caminho? Era possível que em uns dias descobrissem seu corpo, flutuando no Tamisas? Estremeceu e apertou com maior força o pescoço do zelador até quase o impedir de respirar. O homem começava a adquirir um tom azulado enquanto tentava escapar dos dedos de Marcus. - Por favor - suplicou o zelador- não posso… não posso respirar… - Se não a encontrar nos próximos dez minutos, eu te matarei. Ouviram-se passos a suas costas. Vários guardas fornidos irromperam na sala e tentaram resgatar ao funcionário. Marcus o deixou cair e deu a volta para lhes fazer frente. O zelador retrocedeu no chão, tossindo e massageando o pescoço. Os guardas se espalharam pela sala, sem saber como deviam proceder. Não podiam atacar a um Lorde, mas tampouco permitir que um Lorde atacasse ao zelador. Quando o mais valente deles por fim avançou, Selena conteve a respiração. - É ele, - insistiu, assinalando-o. - É o homem que levou ao Kate de minha casa. - Está segura? - inquiriu Marcus enquanto Chris se posicionava para evitar que o homem fugisse. - Nunca antes tinha visto esta dama - sustentou o velhaco, gesticulando incômodo. - Não sabe o que diz. O zelador conseguiu ficar de pé. Tentando recuperar o controle da situação, gritou a outros que se fossem. - Discutamos isto em particular. - Encantado, - concordou Marcus. Mostrou-se tranqüilo e comedido até que o zelador teve fechada a porta. Ato seguido, Marcus golpeou o guarda com um movimento tão rápido e certeiro que o homem caiu como uma árvore destruída.
    • Tentou ficar em pé e Marcus lhe deu outro murro e um chute nas costelas. - O que fez a ela? O homem não respondeu. Tinha o rosto ensangüentado; provavelmente lhe tinha quebrado o nariz. Marcus o segurou pela camisa. - É sua última oportunidade. - Não sei quem… Marcus lhe bateu uma terceira vez e o golpe lhe quebrou o osso da maçã do rosto. Ficou semi- inconsciente, com a cara desfigurada. Marcus se inclinou e o agarrou pelo pescoço. - Está aqui? - Sim, - murmurou ele. Aquilo tinha superado sua capacidade para mentir. - Onde está, Jimmy? - inquiriu o zelador. - Ai… Ai… - As feridas lhe impediam de pronunciar a palavra. Marcus olhou ao zelador. - O que é o que tenta dizer? - Acredito que está nos informando que se encontra em uma cela de isolamento. Marcus se esticou; assaltou-lhe uma sucessão de pensamentos horrorosos. - Onde pode estar? - Bem, possivelmente lhe tenha considerado perigosa, para si mesmo e para outros. - Ou? - gritou Marcus, suspeitando o pior. - Suponho que alguém poderia haver…, poderia ter comprado um castigo mais grave. Marcus se inclinou e agarrou ao guarda pelo cabelo. Obrigou-o a jogar a cabeça atrás. - Quem te pagou? - Uma mulher, - conseguiu dizer o guarda. - Era obesa? - Sim. Embora nunca tinha acreditado nesse tipo de histórias, abundavam os rumores sobre tais atrocidades. Uma pessoa com dinheiro podia beneficiar-se de um confinamento mais amável. Assim, por que não atribuir o mais terrível dos destinos a uma pessoa pobre? Em geral, os delinqüentes inundavam o sistema judicial e depois desapareciam para sempre. Havia-se sumido com o registro ou se tratava de um fim pouco mais funesto? Quais tinham sido as intenções de Regina para Kate? Provavelmente, Kate ia ser assassinada pelo bruto que tinha a seus pés, quem logo a faria desaparecer.
    • Depois de tudo, quem ia perguntar por Kate? Quem teria sentido falta dela? Regina tinha passado a encontrar-se na pior das situações. Não tinha previsto que certas pessoas queriam Kate, que Selena, Christopher e ele iriam até o fim do mundo para encontrá-la. Em questão de segundos caminhavam já para o fundo do corredor. Marcus tentou evitar os aromas e gemidos da agonia humana. Andaram pelas seções principais da prisão, através de sufocantes pátios e de úmidos e fedorentos túneis. Logo desceram para as vísceras da terra por escadas escorregadias e escuras; a luz minguava atrás deles, os gritos de desespero se desvaneciam na distância. Detiveram-se frente à última porta. O zelador os tinha escoltado e girava a chave no ferrolho, embora lhe faltassem forças para abrir a porta. Um de seus sentinelas a empurrou até que cedeu. Marcus olhou dentro daquele sério abismo e se sentiu doente de ver o monstruoso lugar onde a tinham escondido. A teriam matado de fome? A teriam torturado? A teriam deixado adoecer e morrer? A raiva buliu nele com força renovada. O zelador entrou sustentando um abajur. Selena, determinada e valente, penetrou atrás dele. Marcus tentou entrar, mas o espaço era tão reduzido que Chris e ele se viram obrigados a esperar no corredor. - Kate? - chamou Selena com voz suave. - Kate, sou eu. Marcus ouviu os sussurros alentadores e carinhosos de Selena em sua tentativa de reanimar Kate, mas não obteve nenhuma resposta. Fechou os olhos com força e rezou para ouvir novamente sua voz. - Tudo foi um engano, - sussurrou Selena. - Vamos te tirar daqui. - Selena? Quando Marcus ouviu por fim a voz de Kate, sentiu um alívio tão imenso que lhe afrouxaram os joelhos e Chris teve que sustentá-lo para impedir que se desabasse. - Sim, minha cara. Sou eu, de verdade. - A voz da Selena oscilava e era óbvio que estava a ponto de romper a chorar. - Tudo vai acabar bem. Kate disse algo que Marcus não pôde decifrar e Selena explicou: - Fui ver o Christopher. Lorde Stanford e ele me ajudaram. - Estão aí fora. - Lorde Stanford te ajudou? - perguntou Kate com voz confusa. - Por que o terá feito? Aquela pergunta arrasou Marcus. Detestou-se por ser tão burro, por lhe haver ocasionado todo aquele inferno, e olhou o jovem Chris, cujo olhar de escrutínio lhe fez sentir-se arrasado e miserável. - Veio conosco porque estava muito preocupado, - particularizou Selena. - Todos estávamos muito preocupados. Pode caminhar? - Acredito que sim. Ouviram-se mais sussurros e movimentos, e pouco depois o zelador apareceu à porta, seguido de Selena, que ajudava Kate. Apesar da
    • escassez de luz, Marcus espiou o corte na bochecha de Kate e as manchas de sangue em sua roupa. Caminhava com movimentos rígidos e instáveis. Saltava à vista a crueldade da surra que Regina lhe havia dado. Ao vê-la, Christopher conteve a respiração e correu para ela. - Oh, Kate… Eu sinto tanto… eu sinto tanto… Marcus também se aproximou, sentindo-se mais impotente que nunca. Estava desesperado para abraçá-la, para confessar o quanto a amava, quanto a tinha amado sempre. A levaria nos braços até a carruagem, afastariam-se daquele funesto lugar e se asseguraria de que estivesse a salvo pelo resto da vida. Tinha que explicar-lhe tudo, tinha que fazê-la entender. Tentou falar, lhe confiar suas agitadas emoções, mas as palavras se entupiram em sua garganta e lhe dificultavam a respiração. Amava-a mais do que podia expressar. - Kate… - murmurou, incapaz de dizer nada mais. Estendeu-lhe uma mão, mas ela não a aceitou. Olhou-o como se não estivesse segura de quem era, como se a atemorizasse sua presença. Ele captou em seus olhos a dor e a traição, a decepção e a tortura. Todo o carinho que pudesse ter sentido por ele havia se quebrado em mil pedaços. Podia tê-la tido para si, mas a loucura o tinha impelido a tomar as decisões equivocadas. Quantas vezes em sua vida tinha destroçado o que mais queria, o que mais valorizava? Não tinha acreditado nela e sua falta de fé a tinha condenado a aquele fatídico final. Com uma certeza repugnante, compreendeu que não merecia seu afeto, que não estava à altura de sua amizade, nem sequer era digno de um olhar cortês. Ela se dirigiu ao Christopher e se desabou em seus braços. - Tire-me daqui, Chris. - Sim, Kate. Agora mesmo. Já vamos. - Leve-me para casa, por favor. Leve-me ao Doncaster. - Sim, Kate. Vamos ali diretamente. Suas últimas forças se esgotaram, mas Chris já a tinha bem segura quando desmaiou. Tomou-a nos braços e pôs-se a andar. Selena e o zelador os seguiram de perto. Marcus se atrasou. No fim foi atrás deles, observando a comovedora cena a distância. Tinha o coração quebrado, o ânimo soterrado. Soube que não pertencia ao mesmo mundo que eles e que não devia intrometer-se em seu drama familiar. Quando já não se requeria nem desejavam sua ajuda, ele deveria ficar à margem. Era uma pessoa diferente e nada do que tinha ocorrido nos últimos acontecimentos mudava isso. Enquanto arrastava os pés atrás deles, sentiu-se mais só que nunca. Capítulo 21
    • A ponto de perder os estribos, Regina perambulava nervosa de um lado ao outro do salão de Elliot Featherstone. Christopher ainda não tinha chegado e Melanie tinha desaparecido. Embora sua intenção não tinha sido criar mal seus filhos, tinha-o feito. Nenhum dos dois parecia ter em conta quão afortunados eram, mas estavam a ponto de receber uma lição, de recordar quem mandava, quem dava as ordens. Gostassem ou não, deviam tudo a ela. De súbito, as pessoas começaram a formar grupinhos no vestíbulo com grande revôo e curiosidade. Stanford e Christopher irromperam juntos na casa, seguidos por uma exótica morena. Não foram arrumados para a ocasião, a não ser com roupa informal e com aspecto de não terem descansado em todo o dia. Para Regina, a imagem era imponente: seu filho e seu futuro genro. Um loiro e o outro moreno. Altos, confiantes, decididos, em um instante dominaram a sala. Stanford lhe dedicou um olhar afiado, e quando os teve mais perto observou que ambos estavam furiosos. Stanford, particularmente, ardia de ira e Regina recuou de maneira instintiva, temendo que pudesse agredi-la. No vestíbulo de Featherstone! Na presença da alta sociedade de Londres! Só a mão tranqüilizadora de Christopher no braço do Stanford evitou que este se voasse sobre ela. - Madame, - espetou Stanford com voz lacônica, - terei umas palavras com você em particular. Ela não estava disposta a receber ordens. - Melanie e eu estávamos a ponto de ir. Seja o que seja, terá que esperar até amanhã. - Mãe - a cortou Christopher- , tenho seus documentos. Os entregamos a mister Thumberton. As notícias eram graves e desencorajadoras, mas Regina foi prudente e velou toda reação. Tinha estado tão centrada em Kate que tinha esquecido por completo sua carteira. Era a primeira vez em anos que não a deixava em um lugar seguro. O que ia fazer? Aquela carteira continha um sem-fim de provas que podiam incriminá-la e vacilou entre várias desculpas possíveis, embora na realidade tramava a contra-ofensiva. Não ia cruzar os braços e permitir que aqueles dois a dirigissem conforme quisessem. Eram uns idiotas se acreditavam que podiam fazê-lo. - O jogo terminou, Regina - bramou Stanford. - Prefere que discutamos aqui, com todas estas testemunhas? Vários convidados se regozijaram ante aquela possibilidade, mas ela se voltou e ordenou a um lacaio: - Nos acompanhe à biblioteca.
    • Ela assinalou o caminho, negando-se a acreditar que dominavam a situação. Uma vez dentro, situou-se atrás da escrivaninha, utilizando o imponente móvel para reafirmar sua autoridade e movendo-se com ar ameaçador para enfrentar o Stanford. - Você não tem maneiras? – bramou. Não vais acossar-me nem vais arruinar minha noite, entendido? - Quanto lhes pagou? - cuspiu ele. - Não sei que demônios falas. A que se refere? - Quanto lhes pagou para que fizessem desaparecer a Kate? «Encontraram-na! Tão cedo!» A acharem expunha novos problemas, mas encontraria o modo de sair do atoleiro. Só necessitava de uns minutos para considerar as alternativas, mas assim que olhou ao Stanford nos olhos se assustou. Nunca antes tinha visto tal expressão de fúria. Talvez tinha sentimentos genuínos pela pequena vadia, de modo que devia ser um pouco mais prudente. Uma emoção avivada podia convertê-lo em um adversário muito mais difícil. - Não tenho nem idéia do que me está falando, - clamou. Christopher irrompeu na sala segurando a mão de uma morena esbelta. Regina enrugou o semblante. - Quem é você para estar aqui conosco? Esta é uma discussão familiar. Vá! A moça teve o descaramento de avançar para ela. - Que quem sou eu? - disse, destacando o peito. - Que quem sou eu? Sou Selena Bela, filha de Caroline Duncan, a antiga Condessa do Doncaster, irmã de Kate Duncan, filha do último Conde. Vou assegurar- me de que lhe prendam por esta atrocidade. Juro por minha vida! - Tem a ousadia de se apresentar ante seus superiores? - arreganhou Regina. - Como se atreve! - Basta! - rugiu Christopher. Situou-se entre as duas, protegendo Selena da ira de Regina. - Mãe, por uma vez vais controlar sua cáustica língua ou me obrigará a te amordaçar. - Se cale, Christopher! Falará comigo com respeito ou não te dirigirá a mim absolutamente. - Selena é minha prometida. Regina se pôs a rir, olhando com desdém a Selena. - Não seja ridículo. Nunca darei meu consentimento. - A decisão não depende de ti, - sentenciou Christopher. Regina evitou sua intervenção e se mofou de Bela, lhe indicando com um gesto que devia retirar-se. - Permissão negada. Agora, por que não retorna ao bordel no qual reside? Não volte a manchar o saguão de nossa casa. - Donna bruttal - gritou Bela, e se dispôs a dar um murro em Regina. Christopher a deteve.
    • Durante o desagradável intercâmbio, Stanford se tinha mantido em silêncio. Nesse momento se aproximou de Regina, colocou-se atrás dela e a olhou do alto. Stanford pretendia lhe infundir ameaça e temor, mas ela não ia intimidar se tão facilmente. Quem ele se acreditava, fanfarreando e tentando assustá-la? Não tinha nem idéia de com quem estava tratando. - Sente-se ordenou com um olhar amedrontador. - Prefiro ficar de pé. - Sente-se! - Gritou com tanta veemência que a fúria de sua voz a derrubou na cadeira. Jamais tinha enfrentado a ninguém tão irado. O teria julgado mal? Claramente era um bêbado, um folgazão, um dândi que vivia seus dias sem preocupações nem paixões. Seu interesse por Kate era algo que Regina não tinha previsto. Tampouco tinha imaginado que alguém encontrasse Kate. A quem ia importar lhe o bastante para procurá-la? - Não me levante a voz! - advertiu-lhe, embora com menos afetação. Ele estava frenético, disposto a arremeter contra ela, e o menor engano por sua parte poderia acabar em destroços incalculáveis. - Terá sorte se tudo que levanto é a voz. - inclinou-se sobre ela Vai concordar com as condições e não tem alternativa. - O… que condições? Não vais exigir me nada. Não tolerarei. Arrepiou-se, humilhada. Há doze anos, ninguém a tinha castigado e estava já bastante crescida para defender-se por si mesma. Entretanto, e apesar de sua obesidade, não estava a sua altura como adversária. - Quais são suas condições? - mofou-se dele, vermelha de ira. - Meu matrimônio com o Melanie se cancela. - Não! Fazendo ouvidos surdos a sua réplica, prosseguiu: - A fim de evitar um escândalo para seus filhos, serei designado seu tutor. - Não, - repetiu Regina. Mas ele continuou. - Chris e Selena se casarão, e não oporá objeção alguma a respeito. Tampouco assistirá ao enlace. - Como vais evitar? - Os assuntos financeiros de Doncaster ficarão sob minha tutela até que Chris seja maior de idade. - O proíbo! Não podia perder Doncaster! Apesar do que outros acreditassem, nunca tinha pretendido outorgar as rédeas do poder ao seu filho. Não renunciaria aos benefícios que o patrimônio familiar lhe reportava. Stanford esboçou um arteiro e maquinador sorriso que a deixou gelada. - mister Thumberton já está preparando os documentos. - Não os assinarei!
    • - Sua assinatura não é necessária. -Voltou a sorrir, satisfeito. - Os investigadores estão seguindo as pistas de todo o dinheiro que roubou. Caso não consigam encontrar, reembolsará você por vontade própria. - Vá ao inferno, Stanford! - cuspiu ela cruamente. - Não tem nenhuma prova de que tenha cometido um roubo. Christopher replicou: - Se renda, mãe. Foi muito meticulosa arquivando seus delitos. Temos todas as provas que necessitamos. Stanford acrescentou: - Deverá te retirar a Cornualhes, o quanto antes possível e sem demora. Voltará para o povoado de onde lhe permitiram escapar tantos anos atrás. Empregaremos recursos do patrimônio para comprar uma casa modesta e terá uma exígua renda, mas isso será tudo. Cornualhes! O mero nome a estremeceu. Recordou a miséria, as pessoas feias, oprimidas, as fadigas que teve que escapar para sobreviver. Tinha fugido daquele lugar lúgubre e inóspito e jamais retornaria a ele. Não podiam obrigá-la! - Não voltarei para o Cornualhes, sob nenhuma circunstância. Ele seguiu com seu plano. - Irá com a alvorada. Se resistir, a força da lei cairá sobre ti. Estava estupefata. Jamais tinha considerado a possibilidade de que acabassem descobrindo-a e tinha estado segura de que, se isso ocorresse, seria capaz de sair graciosa do apuro. Não tinha contado com o Stanford, com sua doentia vontade e sua malícia, com sua determinação de afundá-la. Quem podia ter previsto sua relação com Kate? - O que pode me fazer? Sou a Duquesa do Doncaster e, se acha que vais se sair bem subestima-me e vais sair perdendo. - Se se negar, será ajuizada por seus delitos: malversação, agressão, fraude, seqüestro e tentativa de assassinato. Escolha entre eles, Regina. Por qual preferiria ser encarcerada? - Meu filho é seu igual e nunca permitirá que me maltrate. Olhou ao Christopher e se surpreendeu ao vê-lo isento de toda emoção. Ele e Bela estavam agarrados da mão, unidos na condenação que se abatia sobre ela. A abandonaria? Ficaria do lado do Stanford contra sua própria mãe? Como poderia fazer algo assim? Oh, traição! Armadilha! Não tinha nenhum pingo de lealdade! Enfrentaria também a ele! Enfrentaria todos eles! - Qual é sua resposta? - exigiu Stanford. Estava desejosa de escapulir da armadilha e necessitava de um pouco mais de tempo. - Jamais consentirei! - Então, deverei assistir pessoalmente a sua execução. - Minha… minha execução!
    • Levou a mão ao pescoço em um gesto instintivo e o apalpou, como se pudesse sentir já o nó constrangendo-a. - E estou disposto a desfrutá-la. Trarei refrescos e convidados e me sentarei na primeira fila. Inclusive pedirei ao verdugo que me permita puxar a corda em pessoa. Estava abandonada, apanhada no labirinto de sua própria criação. Mordeu o lábio inferior com nervosismo. - Vou necessitar uns dias para considerar. - Não. Esta oferta expirará em um minuto. Marcus consultou o relógio do quarto. A atmosfera era opressiva, Regina mal podia respirar. Começou a suar, com o coração desbocado e ansiosa por encontrar um argumento que a favorecesse, mas tanta ameaça tinha acabado por desorientá-la. O prazo concluiu muito depressa e ele perguntou: - Qual é sua resposta? - Maldito! - Interpreto-a como um sim. Afastou-se para deixar que Regina ficasse em pé. - Matarei-te por isso, - jurou ela. - Nunca terá ocasião de fazê-lo. Regina olhou ao Christopher com a esperança de receber dele uma redenção, uma palavra amável, alguma amostra de compaixão, mas não detectou em seu semblante nem um ápice de lástima. - Não deveria ter ferido Kate, - espetou Christopher. - Nunca te perdoarei. Como se atrevia a censurá-la! Como se atrevia a tratá-la com semelhante condescendência! A raiva se desatou nela até fazê-la tremer. - Expulso-te! Deixaste de ser meu filho! Não estava segura de que tipo de reação esperava dele, mas Christopher se limitou a encolher os ombros e dizer: - Que assim seja, Regina. Stanford assinalou a porta. - Vá diretamente a minha casa e comece a fazer a bagagem. Quero que te tenha partido antes que eu retorne. Regina saiu para o corredor cheia de uma ira incontrolável. Pamela rondava pelo corredor, ansiosa por saber como estariam desenvolvendo-as negociações na biblioteca. Marcus tinha rugido e Regina se queixou, mas não tinha conseguido decifrar suas palavras. Desejava que se apressassem: Regina tinha um encontro no dormitório de Elliot! Regina apareceu de súbito. Tinha um ar homicida e Pamela mal pôde sufocar a risada. À vista do que estava a ponto de desatar-se, aquele estado de ânimo era simplesmente perfeito. Regina a viu e ladrou: - Vou. Viu a Melanie?
    • - Ah, sim - respondeu Pamela com ar despreocupado. - A vi subir às escondidas ao andar superior em companhia de Elliot Featherstone. - O que? Regina se deteve para recuperar o fôlego e os convidados mais próximos a ela se regozijaram ante aquela deliciosa insinuação. - Mostrarei-te aonde foram - sugeriu Pamela, mais que desejosa de levar a Regina ao seu destino. Regina pôs-se a andar, mas nesse momento Christopher saiu da biblioteca e Pamela se distraiu ao vê-lo. Uma esbelta beleza caminhava a seu lado, mas Pamela a evitou e correu para ele para abraçá-lo. - Christopher, querido, estive te buscando por toda parte. - Pamela, por favor. Está se pondo em ridículo. A tirou de cima e a manteve a distancia com um braço, enquanto ela lutava em vão para aproximar-se do seu corpo. - Mas, Chris, temos que falar. - Aqui não, disse ele, e menos agora. A moça se aproximou com a intenção de situar-se entre ambos. Pamela a olhou. - E você quem é? - Sou miss Selena Bela. E você quem é? - Sou uma amiga do Chris. - Já não, sentenciou com desprezo miss Bela. Vamos, Christopher. - Se largue, menina impertinente – respondeu Pamela, e se aproximou dela com a intenção de empurrá-la. Mas Chris interveio. - Pamela, Selena é minha prometida. Vamos nos casar. Ao tempo que lhe anunciava a nova, tomou a Bela da cintura e a atraiu para si. Pamela se rompeu por dentro. Odiava-a, odiava sua pose confiante, sua dignidade, sua graça, sua juventude! Não podia ter ouvido corretamente e se burlou dele. - Está brincando. - Não, não brinco, e vais tratá-la com a cortesia que merece. Falava a sério! A inquietação lhe acelerou o coração. Não era possível! Chris era dela. Estava apaixonada, obcecada, deslumbrada além dos limites de seus sentidos. Necessitava-o, necessitava seu amparo e sua posição, e tinha que conseguir estar a sós com ele para solucionar tudo. Olhou para a escada e viu que Regina já quase tinha alcançado o patamar. Pamela estava desejosa de contemplar a arpía assim que testemunhasse a perdição de Melanie. Não podia perder isso. - Mas, Chris, trata-se de sua irmã – insistiu Pamela, agarrando-se a sua jaqueta, - deve ajudá-la. Quem sabe o que sua mãe é capaz de fazer! Ele estava perdendo a paciência. - Que estupidez está dizendo? Marcus surgiu de um nada e se interpôs entre eles. - Pelo amor de Deus, Pamela, o que te está passando? Ficou louca?
    • - Marcus… Ele a atalhou. - Seja o que seja, Pamela, não me interessa. - Mas tem que ver isto. - insistiu ela. - Tem que ver como sua preciosa Melanie te traiu. Seu orgulho nunca se recuperará. Pamela se foi, sem lhes dar oportunidade de réplica, sem querer danificar a intriga do momento. Segura de que ambos a seguiriam, precipitou-se atrás da Regina, passou junto a ela e a precedeu até o final do corredor. - Estão aqui - assegurou Pamela, rezando para que Elliot se saísse com a sua. Se não o encontrasse nu na cama com a Melanie, estrangularia-o. O que devem estar fazendo aí dentro? Regina franziu o cenho e se dispôs a esmurrar a porta, mas Pamela lhe adiantou e girou a maçaneta. - Melhor entrarmos, não crê? A porta se abriu de par em par e ali estavam os dois, esparramados sobre o colchão. Formavam um casal estranho. Elliot era muito mais velho; seu corpo, adoentado e estragado por muitos anos de dissipação, enquanto que Melanie era linda e roliça, arredondada com suas primeiras formas de mulher. Tiritava de medo e de frio; seus jovens mamilos luziam contraídos em bicudas gemas. Era repugnante e depravado, muito escandaloso para encontrar as palavras. Nada podia piorar aquilo, embora só estivessem fingindo. Regina gritou e explorou: - O que significa esta insolência? Elliot riu e, com uma falsa modéstia, fez um débil intento para cobrir suas partes íntimas. - Regina, minha querida amiga, o que poderia te dizer? Pôde-nos a paixão. - Está louco? - uivou Regina. Está comprometida com Stanford! - O que? Elliot tragou saliva e empalideceu; seu sexo diminuiu. Afastou-se de Melanie como se ela tivesse sífilis. Inspecionou o chão, obviamente tentando encontrar o modo de meter-se dentro de sua roupa com a menor humilhação possível. Melanie tremia de terror, mas mesmo assim conseguiu dizer: - Elliot e eu estamos apaixonados. - Amor? Ora! - chiou Regina, e correu para a porta para fechá-la antes que ninguém mais entrasse, mas Christopher e Marcus já estavam ali. - Que me condenem! - riu Marcus. Christopher murmurou: - Senhor! A adorável vadia de Christopher entrou atrás dele, e ele a empurrou para o corredor para lhe evitar o sórdido espetáculo.
    • Elliot saltou da cama, com o peito flácido e trêmulo e o falo reduzido a um fio de bordar. - Não sabia, Marcus, juro-o por Deus. - Pelo amor de Deus, Elliot! - replicou Marcus. Se cubra! - Não me mate, suplicou Elliot. - Como se tivesse energia para fazê-lo! Só vista-se, por favor. - Já o faço, já o faço. Andou pela estadia até encontrar suas calças e a pôs. Regina correu pelo quarto e gritou a sua filha: - Idiota, patética! Não se dá conta do que ele é, pelo que persegue? É consciente da enormidade de sua loucura? - É o que queria, batalhou Melanie. O que eu queria. Foi minha escolha. - OH… OH… - Regina se lamentava e se retorcia as mãos. Como pudeste me fazer isto? Como pudeste? - Vá, Regina. - Pamela sorriu com malícia e estalou a língua em um gesto de falsa compaixão. Suponho que finalmente haverá bodas, embora Marcus não será o afortunado. E você, que tinha tantos planos fantásticos para convertê-lo em seu genro… Regina ficou paralisada como uma estátua. Um estranho tremor se apoderou dela. Parecia inclusive emanar de seu corpo, como se sua ira tivesse quebrado a ferver e estivesse a ponto de fazer saltar a tampa. - Você! - acusou-a- . Tudo isto é tua culpa. - Está-me culpando disto? - protestou Pamela. Não sou eu quem está na cama com o Elliot. Parece-me que sua metida menina se arruinou sozinha. - Você… Você… Você… aproximou-se de Pamela até ficar a apenas uns centímetros dela mas, ao que parecia, os acontecimentos a tinham levado além dos limites do pensamento, da palavra. Pamela se gabou. - Traia-me agora, se puder. Regina tinha um ar selvagem, seu pescoço palpitava com fúria e a ira se desenhava em seus lábios. Nesse instante percebeu que lhe tinham estendido uma armadilha, que a tinham vendido, que não havia nada em suas mãos que pudesse fazer. Pamela gargalhou com malícia. - Talvez a próxima vez que queira cravar uma faca nas costas de seu cúmplice - a aconselhou, pense duas vezes antes de fazê-lo. Viu o braço de Regina elevar-se e flexionar-se, viu seu punho fechar- se, mas não captou a ameaça. A tentativa da Regina foi tão inusitada, tão impossível de prever, que Pamela não teve oportunidade de reagir ou afastar-se. Depois de tudo, as mulheres de sua classe não lutavam com os outros como prostitutas de botequim. Sua última lembrança consciente foi a surpresa ante a velocidade com que lhe chegou o murro e a ferocidade de que Regina era capaz.
    • Ela quebrou um osso, sangrou, o quarto se obscureceu por completo e caiu no chão como um peso morto.
    • Capítulo 22 Ouviu-se uma tênue batida na porta. A Selena lhe acelerou o coração. - Está preparada para mim? - chamou-a Christopher. Selena apartou os travesseiros e se estirou um pouco para olhar-se no espelho. Escovou a escura juba e as mechas caíam livres. O négligé perfilava sua silhueta. Baixou levemente o corpete para exibir um decote um pouco mais generoso. Parecia-se com sua mãe, e também a Kate, embora fossem diferentes. Era uma mulher com personalidade própria. Uma mulher desesperadamente apaixonada. Uma noiva ruborizada. - Sim, Chris, estou preparada. Ele entrou. Embelezado unicamente com seu roupão, usava o cinturão folgado ao redor da cintura. Enquanto o via aproximar-se, Selena se sentiu entusiasmada de felicidade ante a perspectiva de que Chris se convertesse em seu marido. Que afortunada era! Que ditosa! De todas as mulheres do mundo, tinha-a escolhido a ela. Prometeu-se que sempre o faria feliz, que sempre o faria sentir-se orgulhoso dela. Seria uma esposa digna, sua amada confidente, sua amiga leal, uma Condessa admirável. Chris se deteve, preso de um súbito acesso de acanhamento e insegurança. Incapaz de encontrar as palavras apropriadas, provou com um sorriso. Estava tão nervoso e assustado como ela. Em que pese terem estado a sós em muitas ocasiões, ter intimidade e haver-se abraçado como se o manhã não existisse, contiveram-se, tinham freado seus impulsos antes de dar o passo final em sua relação. E embora a Christopher o envergonhava um pouco reconhecer tinha sido sempre ele quem tinha insistido em que esperassem até a noite de bodas. Durante seus freqüentes encontros, ela lhe tinha implorado repetidamente que chegassem mais longe, mas ele não tinha querido desonrá-la. Selena aplaudiu brandamente o colchão; Christopher se aproximou devagar, sentou-se na beira da cama e apoiou as mãos em ambos os lados da sua prometida. Com supremo cuidado, acariciou-lhe o cabelo, um braço, uma coxa, e pousou em seus lábios um beijo tenro. - É tão formosa… - murmurou. - Você também. Ela introduziu uma mão sob o roupão. A pele do Chris tinha um tato morno e sedoso. Selena estava impaciente por senti-la contra a sua. - Teremos filhos maravilhosos. - Sim…, maravilhosos. - Espero que tenhamos uma dúzia.
    • Selena rezava, além disso, para que seus filhos varões se parecessem com ele. - Em tal caso, será melhor que comecemos… - Está assustada? - Não! - clamou ela, corajosa. Logo franziu o sobrecenho. - Bom, sim. - E ato seguido gemeu- : Oh, não sei! Ele riu. - Será fantástico. - Sei… Detestava ser virgem! Estava ansiosa por terminar de uma vez por todas com sua castidade. - Iremos devagar. - Nem pensar! Se não me deflorar nos próximos cinco minutos, não estou segura do que sou capaz de fazer. Ele riu de novo. Depois a olhou com solenidade. Em seus olhos refulgiram a devoção e o afeto que sentia por ela. - Lamenta algo? - Só que Kate não nos acompanhasse na cerimônia. Em vistas dos últimos acontecimentos, tinham temido que pudesse acontecer algo que os separasse. Para não tentar ao destino, obtiveram uma licença especial e se casaram no vestíbulo de Lorde Stanford, com a única presença do Marcus, do vigário e da sua mulher como testemunhas. Não tinham tido tempo de encomendar um vestido, organizar um jantar nem publicar um anúncio nos periódicos, por isso tampouco tinham podido trazer para Kate de Doncaster; claro que, nas condições em que se encontrava, tampouco ela teria podido vir. Levaria bastante tempo para recuperar-se, tanto física como mentalmente, dos infortúnios vividos em Londres. Edith Fitzsimmons tinha acompanhado Kate em sua viagem de volta ao campo e tinha previsto permanecer com ela no imóvel até que Selena chegasse e pudesse cuidar dela em pessoa. Edith e Selena mantinham um contato regular sobre os progressos na recuperação de Kate, e Selena suspeitava que o último a recompor-se seria seu coração. - Levará Doncaster contigo. - Conto com isso. Uma vez que seus assuntos pessoais estivessem solucionados, tinham prevista outra cerimônia, uma grande celebração que estivesse à altura do Conde de Doncaster, embora a família de Chris não teria a participação permitida. Lorde Stanford tinha encerrado Regina e tinha a intenção de mantê-la confinada e longe de tudo até que sua casa na Cornualhes estivesse preparada. Melanie e mister Featherstone casaram-se logo, embora Featherstone se queixasse de ter caído em uma armadilha, e reclamava a oportunidade de negar-se, sabendo já de que seu dote não era tão abundante como lhe
    • tinham feito acreditar. Mas ninguém no círculo social prestava atenção aos seus lamentos e, segundo os rumores, era o bobo da cidade. A sogra e a cunhada de Selena estavam loucas, mas Chris as tinha banido de Doncaster, de modo que Selena nunca ia ter que tratar com elas. Selena sorriu ao recordar o momento em que Chris fez oficial o decreto, que provocou em ambas as mulheres grandes súplicas e reações teatrais. Que grande Conde ia ser! - Por que sorri, querida? - Porque sou tão, tão feliz… - Eu também. Olhou-a durante uma eternidade. Pensou por um momento no que estava a ponto de dizer e se ruborizou. - Tenho que te fazer uma confissão. - Do que se trata? - Bom, você é virgem… Mas eu não. Ela arqueou uma sobrancelha. - Depois de todas as confabulações às que acabamos de sobreviver, pouco podia esperar que fosse. Quantas amantes teve? É um libertino contumaz? Deveria me preocupar com sua fidelidade? - Não. Só houve outra. - Quem? Não estava segura de querer receber aquela informação e o rosto de lady Pamela cruzou por seus pensamentos. Depois de ter sido testemunha de seu estranho comportamento naquela terrível noite em casa de mister Featherstone, Selena estava segura de que a outra tinha sido ela. Esperava que lady Pamela tivesse sido uma excelente tutora. Ele se ruborizou ainda mais. - Não lhe posso dizer isso, mas deveria saber que eu… eu… - Está bem, Chris, já não importa. Isso pertence ao passado. - Oxalá tivesse esperado até te encontrar. - Se cale… - Ela lhe pôs um dedo sobre os lábios. - Estou muito contente de que saiba o que vai passar, porque eu não tenho a menor idéia de como fazer nada. - Sim, eu sei, minha bela esposa. Deixa que lhe mostre isso. Sossegou sua inquietação com uma carícia de amor; logo se aproximou dela e a cobriu com seu corpo. Seus escarcéus prévios tinham tido lugar em sofás e carruagens, por isso Selena não tinha podido conhecer a gloriosa sensação que ia experimentar assim que tivesse o corpo dele apertado contra o seu. Ele lhe acariciou os peitos e começou a beijá-la, e ali abaixo se desatou uma faísca de desejo. Quando finalmente lhe retirou o sutiã e afundou o rosto entre seus seios, ela já se contorcia antecipadamente e lhe suplicava que se apressasse.
    • Ele lambeu e mordeu um mamilo; sugou-o até que Selena acreditou que morreria de estimulação e o abraçou com mais força, apressando-o a que lhe desse mais. Chris lhe desenhou com uma mão o contorno da coxa, do quadril, e ela se fundia, extasiada. Sumidos no fragor, ele a abraçava e lhe sussurrava palavras de amor, e enquanto observava o desejo crescer nela, sentiu-se animado por essa habilidade inata que parecia possuir para inflamá-la. - É tão sensual… - manifestou. - De verdade? - Sim, sou muito afortunado. Tirou-lhe o négligé. Contemplou sua nudez. - Você gosta? - perguntou ela. - Oh, Selena, tudo em ti eu gosto de… Devemos continuar? - Mais te vale! Chris se afrouxou o roupão e ela o arrancou de um puxão para poder apreciar por fim seu corpo nu. Quando ele se dispunha a deitar-se de novo, ela o deteve. - Morro por ver-te. - Todo teu. Ele se fez a um lado para que ela pudesse explorá-lo. Selena desenhou silhuetas sobre seu peito. Era magro e suave, elegante como um felino. Seu falo despontava entre as pernas, comprido e duro, preparado para ela. A Selena voltou a lhe invadir sua insegurança virginal. - Está seguro de que vai caber? - perguntou. - Prometo-lhe isso. - Não sei o que devo fazer com ele. - Ensinarei-a. Ela aproximou a mão para lhe abraçar o sexo. Mediu o peso e a textura, a largura e a longitude. Ele gemeu, como dolorido. - Machuquei-te? - Não. Está muito, muito bem. Muito bem. Ele lhe afastou a mão e a beijou. - Quando estou excitado, é uma agonia suportar suas carícias. - Mas quero te dar tanto prazer como me dá você. - Dará, minha amada, mas agora vamos consumar nossos votos e depois já não estarei tão impaciente. Depois poderá brincar até o amanhecer. - Excelente idéia. Ele lhe entreabriu as pernas, tomou seu verga e a centrou. A vagina da Selena estava úmida e ele esfregou a cabeça nua de seu membro contra o sexo dela, molhando-a, aproximando-a… - Vai doer, - advertiu. - Já me disse isso. - Se pudesse evitá-lo, não te faria mal.
    • - Não se preocupe, não tenho medo. Ele assentiu, orgulhoso de sua determinação, de sua aceitação humilde do inevitável. Também a surpreendia a tranqüilidade que sentia, embora o coração pulsava a tal velocidade que temeu estar a ponto de explorar. - Amo-te, Selena. - Amo-te, Christopher. Sempre te amarei. - Rodeie-me com seus braços. Ela o abraçou; ele começou a flexionar-se e se introduziu nela muito lentamente. Selena se tinha proposto a comportar-se com a maior maturidade e sofisticação possíveis durante o ato, e tinha tentado relaxar para ficar mais fácil. Mas o processo resultava muito estranho, seu corpo não estava treinado. E sem querer, esticou-se. - Já quase acabamos, - sussurrou ele antes de empurrar e rasgar seu hímen. Ela sentiu a dor, o derrame de sangue, e gritou. Ele amorteceu o som com um quente beijo, compartilhando com Selena a dor e ficando de repente muito quieto, até que a pontada diminuiu. Então começou a mover-se; avançava e se retirava uma e outra vez, e ela logo se adequou ao seu ritmo. Docemente, com suavidade, Chris se balançou dentro dela até alcançar o orgasmo, e enquanto ele se esticava, enquanto se rasgava no final, ela sentiu seu transbordamento, o sêmen morno derramando-se em seu útero. Ele se estremeceu e se desabou, e ela pensou que aquele era o momento mais precioso, mais divino de toda sua vida. As lágrimas se amontoaram em seus olhos. Quando a paixão tinha se acalmado um pouco, Chris se apoiou em um cotovelo e lhe sorriu, mas franziu o cenho ao vê-la aflita. - O que ocorre? - perguntou, lhe secando as lágrimas com um polegar. - Foi tão formoso… - Sim, muito formoso. - Não sabia quão especial podia ser. - É difícil descrever até que o vive. Saiu dela e se aconchegou ao seu lado. - Não te tenho fiz muito dano? - Foi maravilhoso. Selena lhe acariciou o rosto, os lábios, memorizando cada detalhe, para que nunca pudesse esquecer o instante em que se converteu em mulher. - O que fazemos agora? - perguntou. - Primeiro tomaremos um banho. - E acrescentou, com um pícaro movimento de sobrancelhas: - Juntos. - Ah, eu gosto da idéia. - Logo o faremos outra vez.
    • - Outra vez? - Bom, disse que estava ansiosa por aprender o que era o que eu gostava. - Sim - concordou ela, rindo. Saltou da cama e disse: -chamarei para que nos preparem esse banho. Elliot entrava e saía de entre as pernas de Melanie com obstinação, desejando poder chegar ao final, mas não conseguia a suficiente estimulação. Seu verga minguava, cada vez mais flácida, até que perdeu a mínima rigidez necessária e não pôde voltar a introduzi-la em Melanie. Quem teria imaginado que fornicar com uma garota tão bonita poderia ser tão desagradável? Mal-humorado, deteve-se e se deixou cair sobre as costas. - Terminaste? - resmungou ela. - Sim. - Graças a Deus. Melanie fugiu, saltou ao chão e se cobriu com uma túnica enquanto ele olhava ao teto, especulando quanto tempo mais poderia resistir antes de estrangulá-la e acabar com o suplício dos dois. Junto à cômoda, Melanie se enfeitava com as jóias que Elliot pensava vender para saldar uma dívida de jogo. Não o tinha contado ainda e provavelmente não o faria, simplesmente as faria desaparecer. - Quanto tempo pensa seguir aí deitado? - grunhiu ela. - Não estou seguro. - Vá agora. - Farei, quando estiver preparado. - São duas da tarde, - protestou. - Não deveria ter que sofrer seus cuidados na metade do dia. - Sofrerá cada vez que eu quiser. - É um animal. Não posso suportar este tortura. Já é bastante repugnante ter que te agüentar todas as noites, quando entra aos tropeções, bêbado e fedorento. Ele suspirou. Como um plano tão maravilhoso tinha degenerado em tal fiasco? Tudo que tinha querido era um pouco de dinheiro rápido, um meio de estabilizar suas finanças. Era isso pedir muito? E, entretanto, tinha ficado preso a uma menina impertinente e mimada. A idéia de desposá-la sem sua fortuna como incentivo lhe tinha parecido tão repulsiva que tinha considerado a possibilidade de fugir, de ir para a América ou a França e, se tivesse tido algum outro centavo, o teria feito. Apesar de sua crítica situação econômica, tinha contemplado a fuga, mas com o Stanford como tutor temporário de Melanie tinha temido que Marcus o perseguisse até o fim do mundo se desaparecesse. Melanie choramingava outra vez e deu-lhe uma enxaqueca. - Do que se queixa agora?
    • - Recorda o vestido do qual te falei? Quando vou poder comprá-lo? E também necessito de um chapéu que combine. Tal e como lhe tinha explicado centenas de vezes, já não estavam em Doncaster e sua avara mãe não controlava o dinheiro. Ele não possuía suficientes recursos para lhe consentir os caprichos aos que Regina a tinha acostumado, mas Melanie não parecia entender que, ao aliar-se com ele, sua vida tinha experimentado uma mudança drástica. - Já te informei com antecedência que não possuo fortuna para tais desejos. - E o que se supõe que devo fazer? Mover-me por Londres com aspecto de pobre? Elliot pôs os olhos em branco. Ao instalar-se em sua casa, os serventes tinham subido dezenas de baús escada acima. Ele tinha visitado seu dormitório: não cabia nem uma miçanga mais. - O dinheiro não cresce nas árvores. Não pode estalar os dedos e fazer que apareça. - Não me importa onde o encontre. Mas busca-o! - Por que não vais ver se seu irmão não está decidido a nos dar algo? - Já sabe que não fará. Elliot ainda não estava seguro do que tinha acontecido com os recursos do dote, mas se sua sorte piorasse ainda mais, sairia ao jardim e se daria um tiro. - Comprova-o, de todos os modos - a repreendeu. - Talvez se o envenenasse acabe fazendo, embora só seja para livrar-se de ti. - Por que tenho que fazê-lo eu? Ele a olhou. - Tenho que te recordar que acreditava estar me casando com uma esposa rica? - É culpa minha que houvesse uma confusão com os títulos? Que houvesse problemas com o patrimônio? Como eu saberia? Crê que minha mãe me contava algo? - Não mencione Regina. Desde antes das bodas, Stanford a tinha mantido a distância, um favor pelo qual Elliot ia estar lhe eternamente agradecido. - Farei algo mais que mencioná-la: vou pedir que venha viver conosco. Poderia retificar nosso dilema econômico rapidamente, que é mais do que pode fazer você. - Acha isso? - Sim, isso acredito. - Se cale, Melanie. - Não me calarei. Arrastou-me a este caos e vais tirar me dele. Insisto! Já tinha tido suficiente. De sua falta de decoro, de sua atitude, de sua condescendência. Desceu da cama e ela deu meia volta: negava-se a olhá- lo quando estava nu. Como já tinha deixado patente com antecedência de
    • maneira bastante explícita, o corpo do homem lhe era repulsivo e grotesco. Ele se aproximou por detrás e lhe apertou um ombro, forçando-a a olhá-lo. - Se ajoelhe. - Nem pensar. - Agora! A antipatia de Melanie era bem evidente, mas ele estava decidido e ela desceu, sem deixar de resmungar, até que estava diretamente situada frente ao seu falo. A coisa começou a crescer e Melanie afastou a vista, incapaz de disfarçar a evidência de que vê-lo a punha doente. - Em algum ponto de nossos votos, ouvi o término «obedecer» - esclareceu ele. - Nos levaríamos muito melhor se fizesse o que te peço. - Ajoelhei-me, como me pediu. O que é o que quer de mim? Melanie era rebelde, uma adversária desumana, e se não tomasse cuidado, provavelmente o estrangularia enquanto dormia, quando menos esperasse. - Deve aprender a fazer algo com essa boca, além de protestar. Elliot sorriu, mais excitado do que tinha estado há muito tempo. Regina olhou através da janela da modesta e lúgubre casa que Christopher tinha comprado para ela. A costa da Cornualhes, erma e sinistra, prolongava-se até o infinito, com o vento golpeando contra a praia rochosa, umas poucas árvores necessitadas dobrando-se ante o temporal. Voltou-se de costas para a terrível vista, às nuvens que se amontoavam descarregando uma chuva gelada que nunca parava. O barracão em que tinha vivido anos atrás, recém casada, encontrava-se justo ao final da rua. Como odiava aquele lugar! Não podia evitar obcecar-se com o fato de que ao longo de toda uma vida tivesse percorrido tão pouca distância. Nunca acabou de acreditar que Doncaster fosse dela, sempre suspeitou que sua sorte podia trocar em qualquer momento. Em previsão deste preciso dia, tinha acumulado o dinheiro roubado, mas não tinha servido de nada. Stanford tinha recuperado tudo. Oh, cair desse modo! E por culpa de Stanford, de entre todos os habitantes do mundo. Com seu desleal e traidor filho como cúmplice. Que infâmia! Que humilhação! Como a mortificava! Como despertava sua fúria! Ouviram-se uns golpezinhos na porta da sala e, sem esperar permissão, Edith Fitzsimmons entrou com ares de ser a proprietária do lugar. Stanford a tinha enviado para ficar com Regina, levar a casa, atuar como guardiã e sentinela, para vigiá-la e lhe informar de todo movimento. «Quando irá?», tinha-lhe perguntado Regina em uma ocasião. «Quando Lorde Stanford me diga que posso fazê-lo», tinha sido a resposta da autoritária mulher.
    • Fitzsimmons lhe mostrou uma carta. - Lorde Stanford escreveu. Segue tentando de encontrar os candelabros de prata que roubou de Doncaster. Está disposta a lhe dizer onde estão? - Por mim, Stanford pode cair pela escada e romper a cabeça. Fitzsimmons esboçou seu típico sorriso de arpía. - Será um prazer lhe fazer chegar sua resposta em meu próximo relatório. Desfrutava com o encarceramento da Regina, gostava de alardear de sua amizade com Selena Bela e executar os castigos que Stanford opinava. Nunca desperdiçava ocasião alguma para manifestar seus desejos de que Regina tivesse sofrido um destino muito mais duro. Fitzsimmons se dispôs a partir e Regina esteve tentada a deixá-la ir sem mais discussão, mas era incapaz de não dizer a última palavra. Fitzsimmons resultava sem dúvida muito insolente, muito amiga de Stanford. Regina não podia conter as ânsias de mostrar seu poder, de abandonar a aquela mulher em um beco sem saída. Devia haver um modo de manipulá-la, de encontrar seu ponto fraco, mas ainda não o tinha detectado. - Tenho outra queixa, acrescentou Regina. Detestava que tivessem sido outros quem contratasse os empregados e que ninguém à serviço dependesse dela para ganhar o pão. Faltavam-lhe ao respeito, eram lerdos e néscios. - Faz uma hora que pedi um prato de pastéis e ainda não me serviram. Edith riu maliciosamente. - Usamos todo o açúcar que tínhamos. Não podemos nos permitir mais até o princípio do mês, quando Stanford enviar o cheque. Não fica doce algum na casa e tampouco vai preparar nenhum. - Exijo que me dê. - Pode exigir tudo que quiser, mas não lhe oferecerão. Subsistimos com uma mensalidade muito exígua. Terá que viver sem esses caprichos. «Viver sem…» O comentário ressoou na estadia. Regina tremeu. Aquele era seu pior pesadelo fazendo-se realidade. Não suportava ser pobre, não tolerava ter que regular e economizar. Passou a vida tentando evitar tal catástrofe. Seu estômago rugiu de apetite, mas Edith partiu e fechou a porta com um ruído seco e firme, deixando a Regina a só para maquinar sua vingança. Pamela espreitava atrás de um arbusto no jardim do Stanford, observando como a carruagem do Doncaster aparecia depois da curva. «Chris… Por fim te encontro!»
    • Fazia já um tempo que vivia em um estado de ânimo decadente. Onde tinha estado? Por que se tinha mantido longe dela? "Acaso não sabia quanto o amava? Não percebia que sua separação estava matando-a?” Os dois tinham bebido a poção mágica. Por força tinha que ter sortido algum efeito nele! Não podia abandoná-la! Levava já semanas tentando por todos os meios de passar despercebida, evitando que alguém a reconhecesse, por isso se apressou a ajustar o capuz. Os hematomas dos olhos tinham melhorado já de forma significativa, mas a nova curvatura de seu nariz, conseqüência do golpe de Regina, jamais desapareceria. Era visível e, ao vê-la, outros riam e a assinalavam, mortificando-a, lhe recordando a humilhante agressão. Como tinha piorado sua situação desde aquela maldita tarde! Elliot, que vivia já seus dias felizes de recém casado, tinha-a expulsado de casa, o que a tinha obrigado a procurar refúgio em algum outro lugar. Infelizmente, a alta sociedade podia ser brutal e logo constatou os poucos amigos que na verdade tinha. Finalmente tinha tido que hospedar-se no Hotel Carlyle, mas sua miserável pensão não podia cobrir, nem de longe, os montantes que foram se acumulando. O diretor não cessava de interrogá-la em relação com embaraçosos detalhes das faturas e queria saber quando ia poder pagá-las. Stanford se tinha oferecido a comprar uma casa pequena, mas, como estava situada muito longe dos subúrbios luxuosos nos que ela aspirava residir, negou-se a aceitar. Apenas em pensar em suas maneiras autoritárias se sentia doente. Como se atrevia a obrigá-la a viver como uma vagabunda! A porta da carruagem se abriu e ela saiu correndo de seu esconderijo. - Chris… Chris… Sou eu, Pamela. Olhou-o. O amor que sentia refulgia nela. Mas não foi Chris quem emergiu, a não ser a moreninha, a que o tinha acompanhado em casa do Elliot. Em sua mão esquerda luzia um diamante do tamanho da Irlanda. O que podia significar? «Não pode haver… É impossível que…» Pamela não conseguia ordenar seus pensamentos. A garota desceu da carruagem e Pamela ficou pasmada ante sua beleza, sua moderação e o estilo de seus movimentos para alguém tão jovem. - Lady Pamela - a saudou, com um claro sotaque italiano, - que alegria vê-la. Tinha tantas esperanças de que tivéssemos uma oportunidade de falar… - Você foi…? - Sim. - Como se de uma velha amiga se tratasse, estreitou-lhe a mão com força. - Chris me contou tudo o que fez por nós. Estou-lhe muito agradecida.
    • Pamela franziu o cenho, desconfiada. - O que é o que fiz? A moça olhou a um lado, em direção aos lacaios de ouvidos curiosos; inclinou-se e sussurrou: - Tola, não pode tê-lo esquecido. Ensinou-o a fazer o amor com uma mulher, para que assim eu não tivesse tanto medo de perder minha virgindade. Pamela empalideceu. - É isso o que disse? - Não seja tão modesta, - pediu Selena com afetação. - Graças a sua generosa ajuda, nossa noite de bodas foi gloriosa, absolutamente gloriosa. Obrigado. - Mas eu… Eu… Imperial como uma princesa, a muito desavergonhada se separou de seu lado com elegância, subiu grácil a escada da que tinha sido seu lar e foi recebida por seu antigo mordomo. A porta se fechou ao seu passo, protegendo-a, e o único indício que ficava de que tivesse estado ali, frente a ela, era o caro perfume que ainda flutuava no ar. Como uma mendiga, uma pedinte, Pamela ficou no caminho de entrada, olhando a mansão, as limpas janelas que brilhavam ao sol. Tinha a entrada vetada. Tinha vetado todo contato com sua vida anterior e não havia nada, absolutamente nada, que pudesse fazer para voltar a estabelecer-se. Tinha-o perdido tudo: a posição, o prestígio, a fortuna, ao Christopher. Com um lamento de desespero, deu meia volta e correu a tropeções rua abaixo.
    • Capítulo 23 Kate passeava pela grama, a grama empapava a bainha de sua saia. Longe, na distância, o sol começava a descer, um globo púrpura em um céu lavanda. Era uma tarde tranqüila, sem indícios de que o outono tivesse chegado, com o festival da colheita de uvas a ponto de começar. O xale lhe pendurava dos ombros e entre seus dedos oscilava um chapéu de palha. Frente a ela podia ver a Casa Dower que Chris tinha aberto para ela, onde vivia em uma auto imposta reclusão de solteirona. Depois dela, entre as árvores, podiam-se divisar as chaminés do feudo de Doncaster. Para satisfação de todo o mundo nos arredores, Chris e Selena residiam ali como marido e mulher. Como se tivesse nascido para isso, Selena se tinha ajustado à perfeição ao seu papel de Condessa. O povo e o serviço a adoravam, e a aristocracia local batalhava por granjear-se sua amizade. Selena havia tornado a contratar a muitos dos empregados que tinham trabalhado para sua mãe e também a aqueles a quem Regina tinha despedido. E estava redecorando a mansão, liberando-a paulatinamente da influência de Regina. Kate estava muito orgulhosa dela. Desde que Regina se foi, a vida no imóvel tinha melhorado de maneira drástica. Todos seus habitantes se sentiam mais felizes e seguros. O ambiente era bom, leve. Christopher tinha efetuado mudanças impressionantes nas granjas e nos estábulos, e os empregados comentavam que, apesar da educação que tinha recebido, converteu-se em um cavalheiro. Ninguém perguntava pela Regina nem por Melanie, ninguém se interessava por onde estavam nem o que tinha acontecido durante sua estadia em Londres. Nenhuma alma se atrevia a manchar o ar com seus nomes. Absurdo como era, Melanie tinha escrito a Kate um sem-fim de cartas ilegíveis nas quais expressava sua desventura e a aversão que sentia por seu marido. Por algum motivo acreditava que estaria interessada em conhecer sua situação. Kate tinha lido por curiosidade a primeira missiva que recebeu, mas vendo o rancor e a malícia que gotejava a jogou no fogo e se negou a ler as demais. - Pobre Melanie - murmurou, sem a menor compaixão. No que tinha estado pensando? Como podia ter acreditado que Elliot Featherstone ia ser a resposta a suas preces? Que impulso demente a tinha empurrado a cometer uma ação tão insensata? Kate sacudiu a cabeça e foi pelo caminho de volta a casa. Para ajudá- la a orientar-se, uma criada tinha pendurado um abajur na porta traseira. Os serventes estavam acostumados a esses reflexivos passeios noturnos.
    • Freqüentemente parecia ansiosa e inquieta, e as caminhadas lhe esclareciam a mente e apaziguavam sua angústia. Dentro a esperaria um jantar delicioso. Sentaria-se no salão e desfrutaria da comida na elegante baixela de porcelana enquanto o relógio marcaria o inexorável passado do tempo do manto da chaminé. Selena tinha suplicado a Kate que se instalasse na mansão com eles, mas Kate tinha declinado a oferta: as experiências que tinha vivido naquele lugar tinham sido muito amargas. Embora, para falar a verdade, as más lembranças não eram o único motivo. Selena e Christopher estavam tão apaixonados que a Kate doía vê- los juntos. Antes de viajar a Londres não percebia que desejava o mesmo tipo de vida que sua irmã desfrutava já com o Christopher, mas na sua volta foi impossível seguir evitando o imenso vazio que levava em seu interior. Sempre tinha desejado ter amor, mas nunca o tinha encontrado. A Casa Dower era mais elegante do que ela necessitava, com cômodos enormes e um mobiliário excessivamente luxuoso, mas era uma opção singela e conveniente enquanto se debatia por decidir o que ia fazer com sua vida. Chris assegurava que seu pai lhe tinha legado um patrimônio excelente como dote. Nas ocasiões em que se sentia especialmente taciturna, considerava a opção de mudar-se a uma das casas que o formavam. Ela desejava muito ser a senhora de uma casa de sua propriedade, ter um lugar ao qual pudesse pertencer. Mas não conseguia decidir-se. Entretanto, essa oportunidade de poder voltar a começar a tentava. A grama freava o percurso da cancela. Kate teve que empurrá-la com força para acessar ao jardim. Suas costelas se ressentiram do esforço; as apalpou. O médico lhe tinha informado que provavelmente ficariam doloridas pelo resto da vida, especialmente em um dia de chuva. Kate suspirou, amargurada por ter que viver com a lembrança do espantoso incidente. As lembranças tentavam filtrar-se entre seus pensamentos (o terror que tinha sentido no cárcere, as agoniadas semanas que tinha demorado para recuperar-se), mas ela os desprezava. Não podia refletir sobre aquele acontecimento atroz, não o compreendia, ou lhe encontrava significado. Ou, em qualquer caso, ainda não. Talvez no futuro o conseguisse. Talvez nunca. Com o passar do atalho, o bosque cintilava com tons vermelhos e dourados. Enquanto admirava as formosas vistas, um movimento captou sua atenção. Um homem se aproximava para ela da mansão. Aguçou a vista, perguntando-se quem poderia ser. Nunca recebia visitas, assim que talvez se tratasse só de algum hóspede que tivesse saído para dar um passeio, como ela. Por um instante recordou Marcus Pelham, mas estava convencida de que só se tratava de um efeito ótico. Mesmo assim, essa mera
    • consideração desatou nela uma faísca de emoção. Kate se surpreendeu com a capacidade de Marcus para seguir inquietando-a. Como podia ter ainda aquele efeito nela? Mal pensava nele, já que não se permitia ceder à nostalgia nem sonhar com o que poderia ter sido, porque suas lembranças eram muito desconcertantes. A traição tinha dado um triste contorno a cada um dos esplêndidos encontros que tinham compartilhado. Kate seguiu avançando para a casa, mas o homem não se deteve até que por fim saiu das sombras. Kate ficou sem respiração e foi incapaz de dar um passo a mais. O seu o coração acelerou e as costelas se queixaram com cada pulsação, para lhe recordar dolorosa e vividamente todas aquelas coisas que agora queria esquecer. Ele seguiu aproximando-se até ficar em frente a ela. Kate sentiu um brilho de alegria ao reconhecê-lo. Entretanto, evitou-o sem lhe dar a menor importância. - Olá, Kate. - Lorde Stanford. Kate assentiu em um gesto de reconhecimento, mas não fez nenhuma reverência nem deu nenhuma mostra de deferência. Talvez por ter esperado uma saudação mais quente, o sorriso de Marcus titubeou, de seu rosto desapareceram logo todas as emoções. A Kate ele não surpreendeu, afinal sempre tinha sido um professor em esconder os sentimentos. - Como está? - perguntou ele. - Bem, - mentiu ela. Ele observou seu vestido, estragado e funcional. Dispunha de dinheiro, Chris se tinha ocupado disso, e podia ter encomendado roupa nova à costureira do povoado, mas tal dispêndio lhe tinha parecia frívolo. Além das freqüentes visitas de Selena, não via ninguém mais. - Sempre odiei este vestido, - disse ele. - Sim, eu sei. - Te cai muito mal o cinza. - Como me disse em muitas ocasiões. - Emagreceste. - Você também. Tinha perdido muito peso, como se tivesse estado doente ou como se os meses anteriores tivessem sido difíceis, mas ela não queria pensar sobre se haveria ou não sofrido alguma tragédia pessoal. No passado tinha sido suscetível aos seus encantos e duvidava de ser capaz de resistir a eles. Não estava disposta a investir na situação e voltar a sentir-se vulnerável e necessitada de sua atenção. Aquela mulher imprudente já não existia. Enterraram-na em um escuro e pequeno nicho da prisão de Newgate, e tinha sido substituída pela nova Kate, mais sábia e prudente.
    • Ele a olhava como a ponto de efetuar um comentário profundo, como ansioso para tirar-se de cima um grande peso. Mas ela não imaginava do que podia tratar-se. Não tinham discutido já tudo que era relevante? O que podia ter ficado pendente? Uma brisa agitou as folhas das árvores e brincou com o cabelo de Kate. Como se acreditando ainda em posição de fazê-lo, ele aproximou uma mão para lhe afastar uma mecha do rosto, mas ela se esquivou tentando evitar qualquer roçar. Não sabia predizer o que ocorreria se voltasse a sentir seu tato e não estava disposta a arriscar-se. «Nunca mais», prometeu-se, tentando por sua vez proteger-se a toda custo. - Queria algo? - perguntou ela, controlando suas emoções a força. Não ia permitir que detectasse que sua presença tinha removido um sedimento de desejo involuntário e ressentimento. Ele podia procurar por toda a eternidade um pingo do amor que lhe tinha professado, mas jamais o encontraria. O silêncio se fez mais denso e incômodo e, finalmente, ele encolheu de ombros. - Suponho que não. - Agradeço-te que tenha vindo ver como me encontro, mas agora deve ir. Não é bem-vindo aqui. Deu meia volta e se foi, com os olhos transbordados em lágrimas e rezando por que ele não as tivesse visto. Como podia ser tão incorrigivelmente sentimental? O olhar ardente dele a atravessou enquanto se afastava, e embora até a última fibra de seu corpo a ameaçava deter-se, falar com ele, e lhe perguntar como se encontrava, obrigou-se a seguir andando. - Kate… - sussurrou ele. «Não o escute! - arreganhou-se. Segue andando!» Ele hesitou, incapaz de expressar o que queria dizer. O suspense estava destroçando-a e não podia suportá-lo. Deteve-se, mas não se voltou para o olhar. - O que? - Senti sua falta. - E daí? - Por favor… Eu… Sua voz gotejava agonia, remorso e dor. Ela não queria conhecer o que é que ele estava a ponto de lhe dizer. - Não o diga, - suplicou. - Seja o que for, deixe assim. - Dê a volta, Kate, me olhe. - Não. - Tem que me escutar. - Não tenho que fazer nada. Os dias de dependência de cada uma de suas palavras se acabaram.
    • Parecia tão áspera, tão ressentida… Entretanto, não tinha sido absolutamente sua intenção. Simplesmente não podia entender por que se apresentou ali e a aterrorizava conhecer o motivo. Quando estava junto dele, não podia permitir-se baixar a guarda nem um só segundo. - Sua irmã me diz que tem o coração partido, que vive sozinha e infeliz, que te encerraste e se afastou de todos aqueles que te amam. A Kate lhe acendeu o temperamento. Como se tinha atrevido Selena a falar dela com o Stanford? Kate já não era assunto dele e não tinha direito a receber informação alguma a respeito da sua pessoa. - Minha irmã se equivoca. - É? - Só quero que me deixem em paz, algo que você parece não compreender. - Acredito que Selena está certa. Isolou-se porque sofre, mas não te convém te afastar de tudo. Como se atrevia a aconselhá-la sobre seu comportamento? Ele, o rei da indiferença? Como se atrevia a fazer comentários? Sua desfaçatez a enfurecia. Voltou-se com brutalidade e as lágrimas que se acumularam em seus olhos começaram a cair. Levou as mãos ao rosto, tentando detê-las, mas eram muitas. - Quer saber o que me ocorreu naquela cela de Newgate? - Sim. - Pus-me a pensar que era tão insignificante que poderia desaparecer sem mais. Ao fim quem ia me buscar? Assim acreditei que ficaria ali para sempre. Engoliu uma corrente de angústia porque precisava poder falar com voz firme e clara, precisava lhe dizer de uma vez por todas o muito que a tinha ferido. - Ninguém nunca se preocupou por mim, ninguém nunca tinha me amado. Só nesse momento me dei conta da minha terrível realidade. - Riu amargamente. - Suponho que de certa maneira, devo te agradecer, porque agora compreendo quão sozinha sempre estive e o quão sozinha sempre estarei. - Isso não é verdade. - Sim, é - respondeu ela assinalando à Casa Dower. - Que há demais em viver sozinha? Fui a Londres e podia ter morrido ali, mas me recuperei para voltar para casa. A chegada de Selena facilitou muito as coisas, mas pelo que vejo nada trocou aqui, nem mudará nunca. Ele se aproximou de novo dela com passo capengante. Aproximou- se até que o calor de seu corpo se fundiu com o que se desprendia de Kate. Pousou-lhe as mãos nos ombros. - Amo-te, Kate.
    • - Não, não, não é certo - disse Kate desprezando aquela esplêndida e perigosa declaração. - Nunca amou a ninguém. Ele observou seus traços; aproximou uma mão da sua bochecha e lhe acariciou a pequena cicatriz que Regina havia impresso com seu cajado. Enrugou o sobrecenho, como se não conhecesse a origem daquela ferida. Acaso não tinha idéia do que tinha passado, do terrível que tinha sido? Com tudo o que tinha tido que suportar, sobressaltou-a ver que ele desconhecia a história, que não tivesse conhecimento das torturas que tinha sofrido. E chorou ainda mais. Ele a aconchegou contra si; suas lágrimas lhe molharam a camisa. Podia ter resistido, arrancar-se de seus braços, mas não o fez. Sentia-se como se o ar tivesse abandonado seus pulmões, como se fosse desabar-se sem o sustento dele. Ele tentou beijá-la nos lábios, mas ela se desviou e o beijo caiu na bochecha. - Você também me amava - declarou Marcus com veemência, - estou seguro de que me amava. Como posso fazer que volte a me amar? - Não há nada que possa fazer. Deixando-a sem palavras, ele caiu de joelhos e a abraçou com força pela cintura, afundando a frente em seu ventre. - Sinto-o, disse, sinto-o tanto… Era a última coisa que tinha esperado que ele dissesse. - Sente? O que é o que sente? Ele a olhou, e a sintonia que os unia seguia tão viva que ela foi capaz de ler seus pensamentos. Percebeu nele melancolia, dor, um coração quebrado, e se inquietou. Era esse o motivo pelo qual tinha perdido tanto peso, pelo que parecia tão fatigado, consumido e infeliz? Tinha sofrido e lamentado sua separação? Não, não era possível. Começou a tremer, ansiosa para apagar a faísca de esperança que se acendeu em seu peito. - Peço-te perdão por minha conduta, por permitir que te tratasse assim. Não tinha pronunciado o nome de Regina e Kate lhe agradeceu o detalhe. - Por que se pôs do lado dela, contra mim? - Não foi assim. Disse-me que tinha um amigo aqui, em Doncaster, que queria casar-se contigo, que seria bom contigo e te cuidaria. - E você acreditou? - Assumi que qualquer seria melhor para você que eu. - Estou segura disso. Não suportava lhe ter prostrado desse modo ante ela, lhe suplicando compreensão e compaixão, quando já não restava nada dentro dela. Estava muito ferida, muito ressentida. Olhou ao purpúreo horizonte. - Se levante, Marcus. Vá para sua casa. Afastou-se e se pôs a andar. Ele gritou atrás dela:
    • - Não irei até que me diga que me perdoou. Não suporto ter destroçado o carinho que sentia por mim. Kate ouviu como Marcus ficava em pé e, com tom desolado, acrescentava: - É a única pessoa, em toda minha vida, que se preocupou por mim. - Nunca permitiu a ninguém preocupar-se contigo! O grande e duro Marcus Pelham! Tão forte, tão independente…. Não quer a ninguém. Não necessita de ninguém. - Necessito de ti. Ela se deu a volta: - Acusou-me de ladra! - Admito. - Ficou ali sentado, em silêncio, enquanto ela elaborava suas mentiras. Não me defendeu. Deixou-a confabular seu complô contra mim, em sua presença, e cada palavra que saía de sua boca era uma mentira. - Equivoquei-me. Percebi no momento em que saiu pela porta. - Então, por que não me ajudou? - Disse que roubava coisas. - Encolheu os ombros, em busca de uma compaixão que ela não dava. - Recordei as ocasiões em que tinha tido meu anel em seu poder e pensei que talvez fosse certo. Prometeu-me reembolsar o dinheiro de Selena, todos os recursos que tinham desaparecido, se me casasse com o Melanie. - E concordou? - Jurou-me que te enviaria ao Doncaster, que estaria a salvo. - O via consternado, confuso, como um menino que não encontra o caminho de volta a casa. - Acreditei que era melhor para ti estar longe de mim, que tivesse a alguém que pudesse te fazer feliz. Mas estava equivocado, Kate. Necessita de mim, eu posso te fazer feliz. Kate apertou o punho e sentiu o anel em seu dedo. Pouco depois de ter-se mudado à Casa Dower, tinha aparecido em uma gaveta da cômoda e não estava segura de como tinha chegado até ali. Sentia-se intimidada, triste, em seu momento mais baixo. A aparição do anel a tinha apavorado e tinha decidido jogá-lo no lago; tinha chegado inclusive a aproximar-se da beira…, mas no final não tinha podido desfazer-se dele. Tinha-o usado sempre. Era sua única lembrança dele, a única prova que lhe confirmava que tinha mantido uma relação com ele. Como o prêmio de um guerreiro, elevou-o no ar, desafiando-o, lhe reprovando. - Olhe o que eu tenho, Marcus. - Moveu seus dedos. - É seu anel. Não posso explicar por que o tenho. Você pode? Suspeita de mim? Acha que o roubei? Não voltei para sua casa de Londres, mas a maldita jóia se materializou aqui, na minha. O que vais fazer? Vais chamar à lei para que venham me prender? Ele estirou o braço até deixar a mão à vista sob o punho da jaqueta. Nela tinha atado um laço verde. - Isto é teu. Reconhece?
    • - Tinha um igual, perdi-o em Londres. - Não o perdeu. Apareceu no meu quarto depois de beber a maldita poção de amor. Ela ficou branca. - Sabia isso? Aproximou-se dela. - Depois de que saísse de Newgate, depois que voltou para cá sem falar comigo nem me dizer adeus, depois de que deixou claro que não queria saber nada de mim, atirei-o fora uma dúzia de vezes. Mas seguia aparecendo em minha cômoda. Deteve-se frente a ela, a ponta das botas já quase sob o vestido. - Fui ver o farmacêutico. - Não! - Sim. Sustenta que o motivo pelo qual não me posso desfazer do laço é porque estamos destinados a estar juntos. - Esse homem está louco. E você também. - Estou? Extraiu um frasco do bolso interior da jaqueta e o balançou sobre a palma. - Comprei mais. - Não é autêntico. - Você acha? Tirou a cortiça e o penetrante aroma do vermelho líquido impregnou o ar. - Eu acredito que sim. Beberá por mim, Kate? - Está louco? - Tentarei o que for, contanto que possa fazer que me ame outra vez. Como a serpente do Éden que tentou a Eva, Marcus agitou o frasco frente a ela oferecendo-lhe tentando-a. - Minha casa está vazia sem você, sinto-me muito sozinho. - De quem é a culpa? - Minha, só minha. Reconheço. Não posso culpar a ninguém. Destrocei todas as relações que realmente me importaram, mas estou cansado de estar tão sozinho. Você me ensinou que podia ser diferente. Kate começou a sentir um martelo na cabeça e, para aliviar a dor, massageou-se as têmporas. Confundia-a, desconcertava-a com suas confissões sinceras e cruas. - O que quer de mim? - Suplico-te que me dê outra oportunidade. - Pegou suas mãos e as apertou com força. - Estava acostumado a insistir que merecia a pena me amar, que merecia a pena estar comigo. Posso ser o homem que queria que fosse. Deixe-me tentar. Deixe-me te demonstrar que posso ser uma pessoa melhor. Por favor. Ela o esquadrinhou, apanhada no azul dos seus olhos. A franca profundidade de sua confissão a tinha deixado estupefata. Uma emoção
    • tão intensa era algo estranho nele; os comentários febris, algo alheio ao seu caráter… Não podia imaginar por que se humilhava daquele modo. «A menos que realmente me ame…» Aquela emocionante probabilidade a desarmou. Podia estar falando a sério? Parecia formal e sincero. E se falasse a sério…? Kate nunca tinha considerado a possibilidade de que ele fosse consciente de seus próprios sentimentos. Não tinha imaginado que voltaria a vê-lo, que teriam a oportunidade de falar, por isso nunca se torturou imaginando sobre como se desenvolveria a conversação. Mas ali estava ele, tentando chegar ao seu coração, fazendo declarações que ela jamais tinha sonhado ouvir de seus lábios. Suplicava- lhe que o perdoasse, que o absolvesse, implorava-lhe empatia. Era orgulhoso e vaidoso, mas se tinha rebaixado a rogar seu afeto e ela não podia passar por cima de um gesto tão assombroso. O que queria ela? Amava-o? Podia voltar a ser a pessoa que tinha estado tão fatalmente apaixonada por ele? Rondava ainda essa mulher em seu interior? Podia voltar a arriscar tanto? Podia suportar a agonizante, fabulosa espiral de luxúria e paixão a que ele com tanta facilidade a induzia? As perguntas lhe aceleravam o coração. Nas semanas de reflexão e recuperação, tinha-o condenado pelo acontecido, mas no fundo de sua alma sempre tinha sabido que a culpa não tinha sido dele. Regina os tinha manipulado a todos, tinha-os coagido e chantageado. Quem tinha sido imune ao seu poder? Inclusive tinha burlado os advogados com suas maquinações. Pelas conversas com Selena, Kate sabia que Marcus lutava, oculto, para retificar o dano que Regina fazia. Tinha-a castigado do modo que mais a ia atormentar. Tinha recuperado o dinheiro de Selena. Tinha solucionado os problemas com o testamento do pai dela para que deixasse de ser uma faxineira pobre e pudesse viver como uma dama de pleno direito. Tinha atuado com discrição, pois não era o tipo de pessoa que precisasse dar a conhecer suas boas ações, a não ser um homem que não pedia nem esperava cumprimentos nem felicitações por seus esforços. Embora morresse por lhe odiar, não podia. Tinha conseguido convencer-se de que seu amor por ele tinha sido uma aberração, uma loucura que tinha brotado como resultado das estranhas circunstâncias nas quais se encontraram, mas ao contemplar seu adorável rosto, tão familiar, tão querido, deu-se conta de que esteve se enganando. Ele significava tudo para ela e ela ansiava retornar aos dias felizes nos quais se havia sentido consumida por ele, obcecada, viciada, devota. Tinha sido o único momento em que se havia sentido verdadeiramente viva, totalmente satisfeita. Tinha deixado em algum momento de amá-lo?
    • - Não necessito de nenhuma poção, disse. - Ato seguido lhe arrebatou o frasco e o jogou no chão. - Te amo. Nunca deixei que te amar. Desesperada por estar em seus braços, Kate deu o primeiro passo. Em seus respectivos isolamentos, ambos foram seres desventurados. Juntos talvez poderiam construir algo duradouro, algo bom. Ele a arrastou para si e a abraçou com tal força que lhe cortou a respiração. - Sou um desastre sem você, Kate. Se case comigo. Venha para Londres. Seja minha esposa. Seja minha amiga. É meu sol, minha lua, minha vida. Sem você não sou nada. Tremia. Seus sentimentos eram igualmente viscerais. Kate se aconchegou contra ele, amoldou-se para que o ritmo de seus pulsos se acoplasse. - Tenho tanto medo de dizer sim… Convença-me de que é o correto. - Oh, Kate, - murmurou ele, - é obvio, é o correto. Tem idéia de quão desgraçado eu fui? Ele se inclinou e a beijou. Seus lábios se pousaram com suavidade sobre os dela, mas logo o abraço se intensificou e se converteu em profundo e assustador. Ela se agarrou à jaqueta dele, dando rédea solta a toda a ferocidade que durante muito tempo tinha estado guardando. As lembranças tinham sido muito dolorosas, de modo que se tinha obrigado a esquecer seu sabor, seu tato, mas nesse momento voltava a ser um animal faminto ao que finalmente lhe dão de comer, um nômade perdido, um vagabundo que por fim encontra um oásis. Seus lábios se separaram e ele a observou, agitado. Kate percebeu que ele temia ter calculado mal, que o aterrava que um único beijo não bastasse e fracassasse assim sua missão de recuperá-la. Não podia ver a sorte que a entusiasmava. Depois de tudo que tinha ocorrido, parecia um milagre que pudessem se conectar de novo, com tanta euforia e júbilo. Como podia ter alguma dúvida? Ela sorriu. - Terei que visitar Doncaster ocasionalmente, para ver minha irmã. - É obvio. Selena me cortaria a cabeça se não o fizesse. - E terá que comprar uma cama nova, que nunca tenha sido usada. Ante o pedido, ele soltou uma gargalhada. - Já o fiz. - Espero de ti que seja um verdadeiro marido, que esteja em casa e não por aí, tendo aventuras, enquanto eu me preocupo com você sem saber onde está. - Não quero estar em nenhum lugar salvo ao seu lado. - Terá que me dar muitos, muitos filhos, e ficar perto para me ajudar a educá-los. - Estou impaciente para fazê-lo. - Não pode haver outras mulheres. Só eu a partir de agora. - Só você, Kate, só você, para sempre.
    • - Então, sim, casarei-me contigo. Ele assentiu com solenidade. - Está segura? - Sim, estou segura. - Sou tão feliz… - Também eu. - Não sou muito bom partido. - Eu acredito que sim. - Mas juro que sempre te amarei. Até o dia de minha morte e também depois. Sempre te farei feliz. - Sei que o fará. O sol desapareceu no horizonte e eles se atrasaram no jardim, escutando a música do bosque enquanto a noite desembarcava ao seu redor. No céu anil piscaram as primeiras estrelas. Havia tantas coisas a dizer, tantos assuntos que solucionar…, mas podiam adiá-los. Era maravilhoso voltarem a estar juntos. Não havia palavras que pudessem fazer desse momento um pouco mais especial. - Vais convidar me a entrar? - perguntou ele por fim. - Estou farta de jantar sozinha, de modo que sim, convido-te a entrar. Sem avisá-la, tomou nos braços e pôs-se a andar. Ela riu brincalhona e mordeu seu ombro, fingindo querer liberar-se. - Pode-se saber o que faz? - Reclamo-te. - Como o que? - Como meu prêmio. - Solte-me. - Não. Quero que seus empregados tenham algo a fofocar. Esse era o Marcus que ela recordava. Podia ser imperioso, autoritário, impossivelmente arrogante, mas era dela, e a amava além do que podia imaginar. Que afortunada era! - Vim para ficar - anunciou ele alto, para que toda a casa o ouvisse. Ela sorriu feliz, comovida porque sabia que ele falava a sério. Título original: Further than Passion Autora: Cheryl Holt Tradução para o Espanhol: Branca Martínez e Nuria Salinas ISBN: 978-84-7871-984-6