A POÇÃO DO AMOR
                                        Cheryl Holt




      Inglaterra. Uma paixão de verdade...
      K...
Capítulo I


      Londres, Inglaterra, 1813

      — Uma poção do amor? — Kate Duncan caçoou da prima. — Você só
pode est...
Kate ergueu o frasco contra a luz. O líquido apresentava uma coloração
vermelha-escura. Apostaria seu último centavo que a...
— Você vai!

        — Stamford é um homem esperto, astuto e inteligente, Melanie. E se ele
me pegar em flagrante? Como eu...
sentou no degrau, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto entre as
mãos. Estava cansada da viagem para Londres e f...
Regina nunca permitiu que Kate se esquecesse de que era um fardo, o
qual seus pais egoístas não se deram o trabalho de car...
O líquido não era vinho, apesar da cor. Era um néctar mais doce e
aromático. Lembrava flores e menta. Deliciada, sorveu-o ...
Conseguia distinguir o cheiro da cera no assoalho, das partículas de pó
sobre os móveis. Sabia que estava na mansão de lad...
Apesar de estar escuro, Kate tentou reconhecer a mulher. Embora não
tivesse certeza, notou uma semelhança com lady Pamela....
ela estava partilhando dos segredos de um leito marital. Jamais poderia ima-
ginar que o ato do amor fosse tão lindo, tão ...
Eles pareciam ter sido feitos especialmente um para o outro. Seus
corpos se encaixavam e se completavam com perfeição.

  ...
Kate abriu os olhos e levou uma das mãos à boca para calar um grito.
Estava em seu próprio quarto, em sua própria cama. Os...
Parcialmente escondido pelas cortinas, Marcus espiou por trás da
balaustrada para o salão de baile, no andar de baixo. Cem...
Balançou a cabeça com um suspiro. Conhecia Pamela desde criança. Na
adolescência, acreditara-se apaixonado por ela, até de...
tanta paz. Depois de levá-lo ao ápice do prazer, ela o inundara de uma
serenidade absoluta.

      Não descansaria enquant...
Marcus se arrependeria de suas palavras se acreditasse na sinceridade
do Pamela. No entanto, tudo para ela era um jogo ond...
— Pois pode me esquecer, queridinho. Nunca mais dormirei com você.
Aliás, assim que o apresentar a Melanie Lewis, espero n...
À referência da mulher, Marcus percebeu de imediato que era fria e
calculista.

      Quanto a Melanie, ela ainda devia te...
— Lady Melanie — Marcus se curvou para a ruiva em uma mesura —,
permita meu atrevimento em enaltecer sua beleza, que é mai...
De esguelha, percebeu o momento em que Kate se retirou para a
varanda.

      Assim     que   surgiu   uma    chance,   el...
Ao contato de seus corpos, faíscas pareceram surgir. Tinham uma
afinidade física de que poucos amantes desfrutavam.

     ...
— Que suíte? Você nem mora aqui. Esta é a casa de lady Pamela.

     — Está equivocada. Esta mansão me pertence. Ocupo a s...
Capítulo II



     Kate andava de um lado para outro do quarto, os olhos voltados para
os ponteiros do relógio, que camin...
Kate não conhecia a meia-irmã, mas, com a assistência de Regina,
nomeara um procurador para cuidar dos interesses da menin...
Embora ela já o tivesse visto completamente nu, na noite anterior,
naquele momento ele lhe pareceu ainda mais sensual, os ...
Em uma só passada, Marcus encostou o corpo ao dela. Estavam tão
próximos, que Kate pôde sentir seu cheiro de almíscar e ta...
— Solte-me! — Kate exclamou por entre os dentes. Marcus riu. Em vez
de soltá-la, arqueou o corpo, proporcionando-lhe uma s...
Kate se recusava a murmurar palavras indecentes como nua e despida.
Queria acusá-lo de perversão e subjugação, mas não tin...
um homem atraente e charmoso para que ela atirasse por terra sua
integridade e seus princípios?

      — Não! — Empurrou-o...
— Você foi feita para o prazer, Kate Duncan. Sinto que está tão atraída
por mim quanto eu por você.

     — Engano seu.

 ...
Ela não parava de comer. A qualquer hora, a qualquer momento em que a
via, estava mastigando alguma coisa.

     — Sobre a...
Kate. Como as duas moças nunca haviam se conhecido, tampouco se
correspondiam, Kate jamais soubera que a irmã caçula vivia...
— Quais são seus planos para com lorde Stamford? — Regina
perguntou à filha, que acabara de se reunir a ela. — Você, por c...
lorde Stamford tivesse se enganado e cumprimentado a ela em vez de
Melanie.

     Como resultado, Regina a proibiu termina...
— Minha mãe não gosta que eu beba. Em especial durante o dia.

     — Bem, Regina não está aqui agora, está? — Piscou para...
— Eu estava cogitando o mesmo.

         Pamela não perdeu tempo. Tirou o copo praticamente intacto da mão
dele e o deposi...
Com os dedos mergulhados em seus cabelos e a língua em sua boca,
Pamela ficou eufórica com a descoberta de que as mulheres...
Pois queria ser a primeira. Queria tomar aquela experiência
inesquecível para ele.

     Não demorou para que Christopher ...
Os homens costumavam implorar por seus favores. Ela o chamara para
sua cama e ele a tratava como se nada tivesse acontecid...
Mas não queria manchar seu nome por uma causa tão insignificante.

      Não que o elixir fosse uma fraude, conforme o acu...
— Cale-se! Estou cansada de ouvir seus conselhos. Minha mãe escolheu
lorde Stamford para ser meu marido, e eu não tenho dú...
Ela engoliu em seco e colocou o dinheiro que Melanie lhe dera sobre o
balcão.

     — Eu juro.

     Satisfeito, o homem d...
— Se o anel voltar para suas mãos, eu já disse: o antídoto não surtirá
efeito.

      As palavras a aterrorizaram. O elixi...
— Sim. Um antídoto.

     — Por quê? Ao beber a poção ela talvez tenha se apaixonado por
alguém?

     — Ela acredita que ...
Tirou um cartão do bolso e o colocou sobre o balcão.

         — Se ela retornar, me avise — murmurou, tenso.

         Pa...
conta de que ela estava ansiosa por conhecer o amor? Que Melanie Lewis
dispunha de um generoso dote para oferecer ao homem...
As bebidas e os refrescos estavam sendo servidos no salão anexo.
Satisfeito, o jovem cavalheiro fez nova reverência e a co...
Melanie   precisou   mudar     de   posição     na   cadeira,   sentindo-se
subitamente incomodada.

      — Há algo que d...
vermelhos estavam soltos, exceto por uma mecha no alto, que Kate prendera
com uma fita também verde.

      Havia um bule ...
— Isso lhe causaria problemas, não é?

        — Sim. Já bastam os que me causou.

        — Pois pretendo causar outros m...
— Por que não para de me atormentar? — perguntou, perturbada,
antes de virar o rosto.

      — Você é adorável... Não cons...
— O que é isto? — Indicou o frasco que parecia conter vinho.

      — Um analgésico para mulheres.

      — Está com cólic...
— Você não devia! — Kate lastimou, a voz tão baixa agora que mal
podia ser distinguida.

     Marcus a fitou e notou que s...
sentindo solitária... Ansiava por amar e ser amada. Por encontrar alguém que
a compreendesse.

          Estava atraída po...
— Não sei.

      Marcus rolou com ela, de modo a deixá-la sob o corpo, então parou,
concluindo que já vivera aquele momen...
— Pode me tocar... — murmurou, enlevado. — Gosto quando me toca.

     Tímida, ela mergulhou os dedos em seus cabelos. Não...
— Você é tão perfeita, Kate... E é toda minha.

     — Não compreendo o que quer de mim — ela protestou, sem forças.

    ...
— Sim! Não sei... É quase insuportável!

     Com o polegar, Marcus descreveu círculos sobre o centro de seu prazer
e Kate...
— Está em meu sangue — ela declarou em meio a um soluço.

      Marcus interpretou a sentença como um arroubo de paixão, e...
Os primeiros clarões da aurora se infiltravam pela janela quando
Marcus despertou contra a claridade do quarto. Um passari...
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Cheryl holt   a poção do amor
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Cheryl holt a poção do amor

1,295

Published on

Published in: Technology, Sports
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
1,295
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
15
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Transcript of "Cheryl holt a poção do amor"

  1. 1. A POÇÃO DO AMOR Cheryl Holt Inglaterra. Uma paixão de verdade... Kate Duncan concorda em ajudar sua prima a conquistar um namorado, mas reprova a idéia da jovem de usar uma poção preparada por um boticário para fazer com que o notório Marcus Pelham se apaixone por ela. Para provar que o elixir não funciona, a própria Kate toma uma dose... e vive a experiência mais sensual de sua vida ao se deparar com Marcus numa situação comprometedora! Escondida nas sombras, ela sente cada fibra de seu corpo vibrar, mas será efeito do elixir, ou daquele homem irresistivelmente atraente?... Como conde de Stamford, Marcus pode escolher as mulheres que leva para a cama. Nenhuma delas, porém, o deixou tão excitado quanto a tímida Kate observando-o de um canto escuro de seu quarto. Apenas para se divertir, Marcus bebe a poção "mágica" e finge perder o controle cada vez que Kate está por perto... Até perceber que não está mais fingindo e que está se apaixonando de verdade...
  2. 2. Capítulo I Londres, Inglaterra, 1813 — Uma poção do amor? — Kate Duncan caçoou da prima. — Você só pode estar brincando! — Eu estou falando sério. — Para que, afinal, você compraria uma poção do amor? — O que você acha? — Melanie Lewis estreitou os olhos em desafio. — Eu pretendo fazer com que lorde Stamford se apaixone por mim. Kate apertou os lábios para não rir da tola pretensão. — Onde você conseguiu essa poção milagrosa? — Em uma botica. O vendedor garantiu a eficácia. Ele me recomendou, aliás, extrema cautela na dosagem, porque as conseqüências podem ser imprevisíveis. — A que tipo de conseqüências ele estaria se referindo? Melanie encolheu os ombros. — Talvez duas pessoas completamente incompatíveis possam ter seus caminhos cruzados. Você há de convir que o resultado seria desastroso. Kate suspirou de impaciência. — Acredita realmente nisso? — Sim. Por que é tão difícil para você acreditar? — Porque não existe nada com o poder de obrigar alguém a se apaixonar por outro alguém! — Lógico que existe! Pela exorbitância que paguei pela poção, ela tem de ser autêntica. 2
  3. 3. Kate ergueu o frasco contra a luz. O líquido apresentava uma coloração vermelha-escura. Apostaria seu último centavo que a tal poção era feita, na verdade, de vinho tinto. — O que você quer que eu faça com isto? — Acabou concordando, após falharem todas as suas tentativas de persuasão. — Você deverá se aproximar no momento exato que eu for encontrá-lo, e derramar a poção na bebida ou na sopa que lorde Stamford estiver tomando. Sem que ele perceba, não é preciso dizer. — Sim, é claro. — Amanhã à noite seremos oficialmente apresentados. Precisa estar preparada. Eu o quero louco por mim desde o primeiro instante. Kate revirou os olhos. Como dama de companhia de Melanie, ela aprendera a relevar as criancices e teimosias da prima. Que Marcus Pelham, o conde de Stamford, era um libertino, ninguém precisaria dizer. O fato era notório. Como Melanie podia sonhar que um homem frio e dissoluto, de trinta anos, fosse se interessar por uma donzela de dezesseis? Apesar de sua inexperiência no amor, a prima certamente conhecia as regras e as imposições de um casamento aristocrático. Regina, a mãe de Melanie, não se furtara a explicar, em tediosos detalhes, os limites de uma união nesses termos. Melanie precisava ter em mente que no caso de lorde Stamford a escolher como sua noiva, os motivos seriam os convencionais: dinheiro, prestígio e alianças familiares. — O tempo urge! — Melanie exclamou. — Você precisa se informar sobre a hora certa que o jantar será servido amanhã. Aquilo era demais. Kate segurou a prima pelos braços. — Esse plano não pode dar certo. Eu não vou fazer o que você está querendo. 3
  4. 4. — Você vai! — Stamford é um homem esperto, astuto e inteligente, Melanie. E se ele me pegar em flagrante? Como eu explicaria a posse do frasco? — Francamente, Kate, você não tem imaginação? — protestou a moça. — Invente uma história. Assim, caso algo saia errado, você terá uma desculpa qualquer para dar. Kate suspirou. — Se você continuar insistindo, falarei com sua mãe! À menção de Regina Lewis, condessa de Doncaster, a jovem se zangou. — Atreva-se a contar, e eu farei com que se arrependa pelo resto de sua vida! — Fale baixo, antes que acorde a casa inteira — Kate reclamou, irritada. — É muito tarde e teremos um dia atribulado amanhã. — Leve a poção com você. — Eu já disse que não! Melanie apanhou o frasco e fez menção de atirá-lo em Kate. — Se não fizer o que estou mandando, eu juro que... — Pelos Céus! Dê-me isso de uma vez! — Kate pegou o vidro das mãos da outra, recusando-se a olhar para seu sorriso de triunfo antes de deixar o aposento. Com os dentes cerrados, marchou pelo corredor mergulhado na penumbra. Lady Pamela, a glamourosa madrasta de Stamford, nunca permitia que as velas fossem totalmente consumidas, mesmo durante a noite. A luminosidade que se derramava por baixo de sua porta era suficiente para guiar Kate em seu caminho. No meio da escada, contudo, antes de alcançar o segundo andar da mansão onde se localizavam os aposentos que lhe foram indicados, ela se 4
  5. 5. sentou no degrau, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto entre as mãos. Estava cansada da viagem para Londres e farta dos caprichos de Melanie e de Regina. Acima de tudo, sentia-se solitária. Não tinha pressa de voltar para o silêncio de seu quarto isolado no fim do corredor, limpo e confortável, embora quase espartano em sua simplicidade. Não que ela tivesse motivos para se queixar. Não fora obrigada a dividir seu pequeno espaço com a criadagem, no sótão. Desde que ficara órfã, aos oito anos, sofrera muitas humilhações. Dessa, ao menos, ela fora poupada. O marido de Regina, apesar de sua obscuridade e modesta posição social, herdara o título do pai de Kate, o antigo conde de Doncaster, por ocasião da morte deste último. Após tantos anos, ela, Kate, mal conseguia se lembrar do período de opulência e privilégios em que nascera. Sua mãe teria sido realmente a mulher mais linda da Inglaterra? Ela mesma teria sido tratada como uma princesa quando criança? Ou essas lembranças não eram mais do que um sonho recorrente?... Sua mãe se casara muito jovem e havia se decepcionado com a nova vida. Fugira para a Itália com um amante, sem se importar em abandonar a filha pequena. O conde, por sua vez, coberto de vergonha e tristeza, tinha cometido suicídio. E também deixara a filha à mercê da caridade alheia; sem título, sem dote, sem bens, sem nomear nem mesmo um tutor para orientá-la e educá-la. A indômita Regina, cujo nome era o seguinte na linha de sucessão, instalou-se rapidamente em Doncaster e assumiu o controle da propriedade. O título, na verdade, caberia ao seu marido. Entretanto, este se encontrava doente e, convenientemente para ela, acabou morrendo. Como o filho deles, Christopher, ainda era menor, Regina acabou por investir-se de toda a autoridade. 5
  6. 6. Regina nunca permitiu que Kate se esquecesse de que era um fardo, o qual seus pais egoístas não se deram o trabalho de carregar, mas entregaram ao destino para que este se encarregasse dela. Por crueldade ou pérfida diversão, vivia sugerindo que nada de bom poderia advir de alguém que tinha nas veias o sangue fraco dos Doncaster. Tantas foram as acusações nesse sentido, que Kate preferia não mencionar a ninguém sua ascendência, e raramente revelava seu sobrenome. Vencida pelo cansaço, ela percorreu o corredor com passos lentos, mas determinados. Deteve-se ao captar seu reflexo em um espelho no hall de distribuição. Parecia mais jovem do que seus vinte e cinco anos. Os cabelos acobreados eram sedosos e brilhantes, mas não a marca de um temperamento voluntarioso, como Regina proclamava. Segundo a mulher, as bruxas apresentavam aquela cor de cabelos, e justamente essa característica causara a ruína de sua progenitora. Por esse motivo, Regina a obrigava a ocultá-los pelo uso permanente de toucas ou de chapéus. Seus olhos verdes eram expressivos, apesar da penumbra, e os traços do rosto, bonitos e atraentes. Embora fosse magra, Kate apresentava curvas bem definidas e femininas. Definitivamente, não era a criatura patética que Regina e Melanie insistiam em apontar. — Poção do amor... Só me faltava isso. Suspirou. Aprendera, desde muito cedo, que o excesso de zelo e paixão resultava em problemas e tragédias. Não faria o que a prima ordenara. Despejaria o conteúdo do vidro em um vaso ou em algum canteiro do jardim. Talvez devesse aproveitar que não havia ninguém por perto para jogá-lo fora imediatamente nas folhagens que adornavam o saguão. Ao retirar a rolha, contudo, um súbito e estranho impulso fez com que levasse o frasco aos lábios. 6
  7. 7. O líquido não era vinho, apesar da cor. Era um néctar mais doce e aromático. Lembrava flores e menta. Deliciada, sorveu-o até a última gota, desejando que tivesse mais. Um troar em seus ouvidos fez com que cambaleasse. Ondas pareciam estar quebrando nas pedras em meio a uma tempestade e um forte calor lhe subiu pelo corpo. Encalorada, ela desatou o nó do penhoar e afastou as lapelas, mas não adiantou. Seu sangue parecia estar fervendo. Desabotoou a camisola, então, e agitou o corpete de modo que o ar pudesse penetrar por baixo do tecido e refrescar sua pele. A noite estava agradável, embora já estivessem quase no verão. A temperatura, contudo, não justificava aquele louco anseio de se despir e correr nua para seu quarto. Também não justificava aquela incontrolável vontade de rir, como se ela tivesse se excedido na bebida. O calor continuou se espalhando por seu corpo e rosto. Não apenas a roupa a incomodava, mas principalmente a touca. Puxou-a com arrebatamento, e seus cabelos se soltaram como uma cascata. Sentia o peito crescer com uma sensação de euforia, prazer e liberdade. Kate mirou-se no espelho com estranho fascínio. Nunca se sentira tão bonita e atraente. Os cabelos, espalhados pelos ombros e pelas costas, chegavam á cintura e, à tênue luminosidade, brilhavam como uma aura. Os olhos que a fitavam eram da cor das esmeraldas e sugeriam um profundo mistério. Suas faces estavam coradas, como se ela tivesse feito algo errado ou pretendesse fazer. Quando deu por si, Kate olhou ao redor e se surpreendeu por não estar mais diante do espelho, mas ante um longo corredor, com uma infinidade de portas de ambos os lados. Suas vistas estavam embaçadas, porém seus outros sentidos continuavam perfeitos embora, talvez, um pouco mais aguçados. 7
  8. 8. Conseguia distinguir o cheiro da cera no assoalho, das partículas de pó sobre os móveis. Sabia que estava na mansão de lady Pamela, mas não reconhecia a ala onde se encontrava. As portas pareciam iguais. Atrás de qual delas estaria sua dona? Entorpecida, Kate quis se deitar. Seus braços e pernas pesavam como chumbo. Queria pedir ajuda, mas não havia ninguém. Obrigou-se a caminhar, porém seus pés pareciam deslizar sob águas, até que, finalmente, conseguiu se apoiar em uma maçaneta. Girou-a e espiou pela fresta da porta. Estava em uma ampla e luxuosa suíte, mas não era seu quarto. Cortinas marrons, tapetes bege-escuro e móveis em mogno sugeriam um ambiente essencialmente masculino. O fato de ninguém estar ocupando o cômodo permitiu que Kate o explorasse à vontade. Curiosa, ela entrou e fechou a porta. Com os pés afundando deliciosamente nos espessos tapetes, atravessou a sala em direção a outra porta, no fundo. Para seu deleite, o quarto anexo era ainda mais espaçoso e, embora estivessem em junho, as chamas crepitavam em uma extravagante lareira de mármore. O leito sobre um pedestal ocupava o centro do quarto. Era imenso, com a cabeceira entalhada e quatro colunas sustentando um dossel ricamente bordado. O tipo de cama onde reis e príncipes deveriam dormir... E um homem e uma mulher estavam se abraçando, pecaminosamente nus, sobre as colchas. Kate cogitou voltar atrás e sair antes que eles dessem por sua presença, mas continuou onde estava, hipnotizada. O homem estava deitado de costas e a mulher, ajoelhada na altura dos quadris dele. Ela era loira e seus cabelos tombavam sobre os ombros. Os seios voluptuosos se moviam conforme as ondulações de seus quadris. Ela o montava como em um cavalo, com graça e fluidez. 8
  9. 9. Apesar de estar escuro, Kate tentou reconhecer a mulher. Embora não tivesse certeza, notou uma semelhança com lady Pamela. Ou não. Um instante depois, ao estreitar os olhos, viu seu próprio rosto no lugar onde a mulher deveria estar. Seria ela quem estava deitada naquela cama magnífica?... Sua mente estava tão confusa! Ou algo acontecera e ela ficara invisível? Tinha a impressão de estar flutuando no ar como um fantasma. Leve como uma pluma, Kate recuou para as sombras e se concentrou no homem. Com seus cabelos pretos e olhos de uma cor indefinida, era o homem mais bonito que ela já vira: esguio, forte, musculoso. Devia se exercitar todos os dias para se apresentar naquela forma física. Talvez praticasse esgrima ou pugilismo. Ela não fazia ideia de quem era e, no entanto, ele lhe parecia familiar. Como alguém querido com quem não se encontrava havia longos anos, e a quem ansiava por abraçar. Viu quando ele se apoderou dos seios da mulher e os massageou, arrancando dela suspiros e gemidos, e sentiu um arrepio percorrê-la dos pés à cabeça. Precisou cruzar os braços. Era como se o homem estivesse acariciando os seios dela!, pensou, chocada. Seu ventre se contorceu de repente, e uma sensação de calor atingiu a área secreta entre suas pernas. Sentiu-se vibrar com uma nova e desconhecida energia: seu corpo parecia estar desabrochando e irradiando vigor em uma explosão libidinosa que a despertou para as necessidades mais primitivas. O casal executava uma dança sensual e elegante, como artistas a desempenhar seu papel. Seus corpos se alongavam e se contorciam, ondulavam e enrijeciam, enquanto seus membros os acompanhavam em movimentos coordenados. Apesar de sua inocência, algo no íntimo de Kate dizia que eles estavam fazendo amor. Por algum mistério incompreensível, 9
  10. 10. ela estava partilhando dos segredos de um leito marital. Jamais poderia ima- ginar que o ato do amor fosse tão lindo, tão excitante. Poderia permanecer envolta pela penumbra, nos recônditos daquele quarto, infinitamente. Você poderia estar nos braços dele. Poderia amar esse homem e ser correspondida. Não foi o que sempre sonhou? Amar e ser amada?... A voz soou firme, persuasiva, concreta, e Kate sentiu-se como parte daquele ritual. As sensações que a inundavam a faziam acreditar que poderia ser ela a mulher sobre a cama. Não entendia como podia ser. Por mais que soubesse estar errada, que não devia estar ali, não conseguia se mover. Em certo momento, o homem a surpreendeu e sorriu. Seus olhos não eram castanhos nem cinzentos como pensara, mas de um azul-escuro. E a fitaram com tanta intensidade, que foi como se a tocassem. Venha para mim, o estranho parecia dizer. Deixe-me ser esse homem com quem sonha. As carícias prosseguiram. Kate o viu deslizar as mãos pelos seios e pelo ventre da mulher, até se deter no centro de sua feminilidade. De repente, ela não conseguiu respirar. Era como se o calor daquela mão estivesse penetrando em seu corpo, despertando pontos sensíveis que ela não supunha possuir. Era inexplicável, mas de alguma forma, eles estavam unidos desde o âmago de suas almas. Uma pressão se formou dentro do corpo de Kate e começou a crescer. Era tão potente, que ela fechou os olhos e se deixou arrastar por ela até explodir de prazer. Quando abriu os olhos, o homem estava à sua frente, sem que soubesse explicar como. Era alto, viril e envolvente. Com seu físico magnífico, fez com que ela recuasse até que suas costas encontrassem a solidez de uma parede. 10
  11. 11. Eles pareciam ter sido feitos especialmente um para o outro. Seus corpos se encaixavam e se completavam com perfeição. — Eu te amo — ela sussurrou. — Sempre foi assim — ele respondeu, e ergueu a mão para exibir um anel de safira, da exata cor de seus olhos, rodeado de diamantes. — Esta jóia agora é sua — disse. — Guarde-a para que se lembre deste momento. Por alguma razão, ela teve um lampejo de consciência nesse instante. — Não posso!... Era uma pessoa insignificante demais para receber um presente de tanto valor e importância. Como explicaria sua posse? Recusou-o, mas o homem o colocou em seu dedo. — Faça isto por mim. Por mais que Kate quisesse negar, foi impossível. Ele parecia sincero. E seu rosto estava cada vez mais próximo. Fechou os olhos à espera de um beijo. Sentiu, no entanto, o roçar do tecido conforme ele afastava a camisola para se apoderar de seus seios com as mãos em concha, e de seus mamilos com lábios exigentes. Sua reação se estendeu a uma parte localizada no mais profundo de seu ser. Ansiosa por prolongar o momento mais compartilhado de toda a sua existência, Kate o trouxe ainda mais para junto do peito, como se quisesse se fundir nele. As carícias se tornaram mais intensas. Um gemido se fez ouvir, e seus mamilos doeram com a volúpia dos beijos do estranho. Ela quis se afastar, incapaz de continuar suportando aquela doce tortura. Ao empurrá-lo, contudo, sentiu as mãos tocarem o vazio. 11
  12. 12. Kate abriu os olhos e levou uma das mãos à boca para calar um grito. Estava em seu próprio quarto, em sua própria cama. Os lençóis amarfanhados e os travesseiros caídos no chão davam ampla evidência de seus sentidos alterados. Algo havia acontecido. Um sonho ou um pesadelo? Ao tentar se levantar, caiu para trás e precisou fechar os olhos novamente. Sua cabeça doía e seu coração batia tão forte, que ela era capaz de sentir o sangue forçando sua passagem pelas veias. Tinha o corpo coberto de suor. E, entre as pernas, uma estranha umidade. Olhou para baixo e estremeceu ao descobrir que o corpete estava solto e que seus seios estavam expostos. Cobriu-os com dedos trêmulos. Ao olhar ao redor, sentiu um calafrio. O luar derramava formas escuras e fantasmagóricas sobre a penteadeira, e um frasco se destacava nas sombras, com um reflexo brilhante. Uma pontada na cabeça a fez se recostar outra vez no travesseiro. Tocou a testa com o dorso da mão, sentindo-se febril, e algo arranhou sua pele: um anel com uma pedra enorme e várias outras ao redor. O que estaria fazendo em seu dedo? Exausta, fechou os olhos. Precisava desesperadamente dormir. Talvez, quando acordasse, o pesadelo já tivesse passado. — Quem é a adorável ruiva, hóspede da família Lewis? — Ruiva? — Sim — Marcus afirmou. — Ela é pequena e esguia. Muito bonita. — Não sei de quem você está falando — respondeu Pamela. — Que eu me lembre, a jovem donzela é loira. 12
  13. 13. Parcialmente escondido pelas cortinas, Marcus espiou por trás da balaustrada para o salão de baile, no andar de baixo. Cem pessoas deviam estar reunidas para um jantar íntimo, pelos padrões de sua madrasta. O tipo de evento que ele abominava. Aos primeiros acordes da orquestra, os pares se deslocaram para a pista e começaram a dançar. Marcus continuou atento aos convidados, à procura da desconhecida. — Tem certeza de que a comitiva dos Lewis não inclui ninguém que corresponda a essa descrição? — Absoluta. Lady Regina se apresentou apenas com a filha, Melanie, e com o filho Christopher. — O futuro conde? — Sim — Pamela respondeu com um sorriso. — Um rapaz encantador. Marcus estreitou os olhos. Aos trinta anos, a mesma idade que ele, Pamela era uma linda mulher. Naquela noite, seus cabelos loiros estavam presos no alto da cabeça em um coque sofisticado, contrastando com o vestido azul-escuro. Ela sempre se vestia com esmero, e dinheiro era sua grande paixão. Marcus sorriu sem vontade. Pelos comentários sobre o herdeiro do condado de Doncaster, já adivinhara sua intenção. — Quantos anos ele tem? Dezoito? — Por aí. — Não acha que é criança demais para você? — Eu não disse que estava interessada nele! — Nem era preciso. 13
  14. 14. Balançou a cabeça com um suspiro. Conhecia Pamela desde criança. Na adolescência, acreditara-se apaixonado por ela, até descobrir que era atrás de seu pai, viúvo, que Pamela estava. Tinha sido um grande choque para um jovem cheio de ilusões, mas que acabara lhe ensinando como o mundo funcionava. Desde o episódio, nunca mais havia confiado em ninguém o se fechara para as emoções. — Eu apenas o acho bonito e agradável — Pamela prosseguiu, indiferente. — E rico. — Claro. Marcus resolveu encerrar a conversa. Pamela comeria o pobre rapaz vivo, se pudesse. Na primeira oportunidade, ele daria um jeito de alertá-lo. Por mais que detestasse a ideia de fornecer à madrasta uma indicação de seu franco interesse pela jovem misteriosa que tinha visto, resolveu insistir: — Tem certeza de que não há nenhuma ruiva com os Lewis? A desconhecida não lhe saía da cabeça, desde que irrompera em seu quarto na noite anterior. Estranho, mas ela parecia estar drogada. Ou talvez fosse sonâmbula e estivesse caminhando durante o sono. Não conseguia entender como ela penetrara em seus domínios. Nas raras vezes em que pernoitava na mansão, ele costumava trancar a porta da suíte. O encontro fora dos mais estranhos. Ele olhava para Pamela, mas era o rosto da ruiva que via em seus braços. Mais tarde, em sonho, fizera amor com a visitante das sombras. Agora, mesmo depois de acordado, as cenas eróticas continuaram a assombrá-lo. E tudo lhe parecera tão real... A fantasia deixara um sabor inesquecível em sua boca, e por todo o seu corpo. Nenhuma outra mulher lhe proporcionara tanta satisfação... Nem 14
  15. 15. tanta paz. Depois de levá-lo ao ápice do prazer, ela o inundara de uma serenidade absoluta. Não descansaria enquanto não tornasse a vê-la. Precisava se certificar de que ela era real e não apenas fruto de uma fantasia bizarra. Não falaria com ninguém a respeito. Pamela não a vira no quarto, ocupada demais em mostrar a ele o quanto era bonita e experiente na arte da sedução. Soprou o ar, aborrecido. Não resistira às suas insistentes investidas. Era homem e isso bastava para ela, que era a maior colecionadora de amantes de que ele tinha notícia. — Por que esse súbito interesse por ruivas? Mestre em fingir indiferença, Marcus impediu que a madrasta tentasse decifrar suas intenções. — Você viu meu anel de sinete? — Por quê? — Ele não estava na mesinha de cabeceira quando me levantei esta manhã. — Suspeita que a tal ruiva o tenha roubado? — Para ser franco, suspeitei de você. Indignada, Pamela soltou uma exclamação. — Como ousa?! Não sei por que o deixo entrar nesta casa! — Porque ela é minha? — ele retrucou, impassível. Por direito, estaria vivendo na mansão, mas passara a detestá-la desde que seu pai se casara com Pamela. — Você é cruel — a madrasta lamentou com lágrimas nos olhos. 15
  16. 16. Marcus se arrependeria de suas palavras se acreditasse na sinceridade do Pamela. No entanto, tudo para ela era um jogo onde o objetivo consistia em tirar vantagens a qualquer custo. — Recebe-me em sua cama e depois me repudia! — acusou, com ares de ofendida. — Não me culpe. É você que sempre se atira sobre mim. — Livre-se de mim agora, então — ela rebateu, amarga. — De qualquer modo, faltam apenas quatro meses para você perder todos os bens que seu pai lhe deixou com a condição de que se casasse até completar seu trigésimo primeiro aniversário. Marcus comprimiu os lábios. Os termos do testamento eram irrevogáveis. Pamela teria de desocupar a casa e ele, abrir mão das propriedades e do título em favor de um primo distante chamado Albert. Mas não se importava. Guardara algumas economias e possuía o suficiente para embarcar em um navio para as Índias ou para a Jamaica. Não tinha medo de trabalhar, de recomeçar do zero. A vida de depravações que seu pai sempre levara não lhe servia. Não era algo de que tivesse orgulho. Como dependente dele, Marcus, pois seu falecido marido não lhe garantira uma pensão, sua jovem madrasta se tomara incansável na caça a uma esposa que conviesse ao enteado. Agora ele não podia sequer olhar para uma donzela e Pamela já via na moça uma noiva em potencial. Quanto maior o empenho de Pamela para que ele se casasse, contudo, maior era sua aversão pela idéia. Era difícil acreditar que um dia ele tivesse sofrido por ela tê-lo trocado pelo pai. — Não me livrarei de você tão cedo — respondeu à sugestão, por fim. — Você me diverte. 16
  17. 17. — Pois pode me esquecer, queridinho. Nunca mais dormirei com você. Aliás, assim que o apresentar a Melanie Lewis, espero não tornar a colocar os olhos em sua adorável pessoa! — E se eu decidir não descer? — Noivas não crescem em árvores e você não é muito bem quisto em nossa sociedade. Melanie é sua última esperança. Ela, a mãe e o irmão são os únicos que ignoram sua fama. Marcus torceu o nariz. A questão era que os Lewis eram sua única pista para encontrar a ruiva que entrara em seu quarto na noite anterior. Precisava fazer um pequeno sacrifício. — Está bem. Eu me submeterei a mais essa tortura. Ao alcançar o último degrau, Pamela se virou para trás. — A propósito, acabo de me lembrar: há mesmo uma ruiva com os Lewis. Parece que é dama de companhia de Melanie. Não sei ao certo. Suspeita que tenha sido ela quem roubou seu anel? — Não. Você continua sendo minha maior suspeita. Pamela corou de raiva, mas um minuto depois estava com a mão apoiada na curva do braço dele, sorrindo para os convidados. Em público, sempre se empenhava para que passassem uma imagem de perfeita harmonia. Marcus não teve dificuldade em localizar a jovem candidata a se tornar a nova condessa de Stamford. Ela e sua família olhavam para os pares que dançavam uma valsa, mesmerizadas. Suas roupas estavam fora de moda. Qualquer um que os visse adivinharia sua procedência modesta. — Não acha que devia ter providenciado uma modista para a menina antes de atirá-la às víboras da alta sociedade londrina? — Não sou a mãe dela. 17
  18. 18. À referência da mulher, Marcus percebeu de imediato que era fria e calculista. Quanto a Melanie, ela ainda devia ter esperado mais um ou dois anos para debutar. Era uma criança. Bonita, porém roliça, parecia saída de um conto infantil com seus cachinhos dourados, grandes olhos azuis e bochechas cor-de-rosa. O único elemento da família que pareceu simpático a Marcus foi o jovem Christopher. Alto e loiro, tinha olhos azuis como os da irmã, porém sagazes e amistosos, coisa que devia ter puxado dos antepassados do lado paterno. Marcus segurou o ar ao notar, atrás do grupo, a ruiva que invadira seu quarto e depois povoara seu estranho sonho. Como uma subalterna, tinha seus fabulosos cabelos ocultos por uma touca infame e o corpo esguio coberto por um vestido cinzento e largo, abotoado até o queixo e os punhos. Apesar da horrível indumentária, brilhava como uma estrela, o que fez o coração dele bater mais rápido. Ela se lembraria do que tinha acontecido? Estava ansioso por descobrir. Mal se aproximaram do grupo, Pamela se desdobrou em sorrisos e desculpas: — Oh, eu não os estava localizando com toda essa movimentação pelo salão. Peço licença para lhes apresentar o filho de meu falecido marido, Marcus Pelham, lorde Stamford. A ruiva ergueu os olhos. Uma expressão de choque se revelou na súbita palidez de sua pele e nos olhos dilatados. Ele deu um passo em sua direção e, como se temesse sua aproximação, a moça se afastou. Regina, que se levantara para as apresentações, não pôde disfarçar sua perplexidade ao vê-lo cruzar sua frente sem se deter. 18
  19. 19. — Lady Melanie — Marcus se curvou para a ruiva em uma mesura —, permita meu atrevimento em enaltecer sua beleza, que é maior do que me levaram a crer. Obrigado por ter vindo a minha casa. Sinto-me honrado com sua presença. Era a primeira vez que Marcus se comportava com galantaria em um encontro engendrado por Pamela. A ruiva se encolheu. Lady Regina se mostrou francamente indignada com a situação, e Christopher não conteve um pequeno riso. Os convidados, ao redor, interromperam suas conversas. A verdadeira Melanie começou a se abanar como se o ar lhe faltasse. — Marcus, sempre tão distraído! — Pamela tentou consertar o equívoco de maneira leve e cordial. — Esta moça é a dama de companhia de Melanie. Queira desculpar meu enteado, senhorita. Como é seu nome? — Kate. Kate Duncan. — Alguma relação com os Doncaster Duncan? — Marcus inquiriu. — Não, milorde. Ele estreitou o olhar. A moça pareceu horrorizada à menção do antigo conde. Por quê? Guardaria algum segredo? — Perdoe-me, srta. Duncan. Eu juraria que estava diante de uma lady. Mais uma vez a ruiva o surpreendeu com a sinceridade de seu olhar Desta vez, foi como se quisesse fulminá-lo. — Esta é lady Melanie! — Pamela puxou o enteado discretamente pelo cotovelo. Marcus se manteve entre o grupo pelo tempo necessário para amenizar o desconforto. Concordou em participar de um jantar na noite seguinte, e combinou uma cavalgada com Christopher. 19
  20. 20. De esguelha, percebeu o momento em que Kate se retirou para a varanda. Assim que surgiu uma chance, ele se desculpou. Precisava cumprimentar os demais convidados. Uma mentira conveniente. O que ele realmente queria era ir ao encontro da srta. Duncan. Familiarizado com os arredores, logo a entreviu sob uma árvore, perto da cerca dos fundos. A moça observava a porta de serviço da mansão, provavelmente na expectativa de entrar sem ser notada. Marcus permaneceu oculto pelas sombras. No instante em que Kate apoiou a mão na maçaneta, ele a cobriu com a sua. — Olá, srta. Duncan. Ela recuou, assustada. — Você! — Isso é maneira de tratar um conde? — Eu o trataria com o devido respeito se o senhor se comportasse como um cavalheiro! Tem alguma noção do estrago que causou? — Não. Por que não me conta? — Seu... seu convencido insuportável! Sabia perfeitamente que eu não era lady Melanie. Não precisaria tê-las constrangido nem a mim. Comportou- se como uma criança mal-educada. — Não sou criança, como bem deve estar lembrada. Conheceu-me como um homem em sua aventura de ontem à noite. Enquanto falava, Marcus deu passos suficientes para obrigar Kate a se afastar até suas costas baterem na balaustrada. Ela tentou escapar, porém ele se inclinou como se fosse beijá-la. 20
  21. 21. Ao contato de seus corpos, faíscas pareceram surgir. Tinham uma afinidade física de que poucos amantes desfrutavam. Kate sentiria o mesmo?, Marcus se perguntou, perturbado. Ou ainda era inocente em assuntos de sexo? Calculava que ela tivesse uns vinte e cinco anos. E seria possível que nenhum homem ainda a tivesse tocado? — Por que estava me espionando? — C-Como? — Eu a vi em meu quarto na noite passada. As pernas de Kate ameaçaram ceder sob seu peso, mas ela não demonstrou como se sentia. — Não faço ideia do que está falando. Cheguei ontem, de Londres, e não o vi até alguns minutos atrás. Nem sequer sei onde fica seu quarto. Kate Duncan era uma péssima mentirosa. Era evidente que se recordava do episódio. Sem soltá-la, e pressionando ainda mais seu corpo contra o dela, Marcus deslizou o indicador pelos lábios de rubi. Encontrou-os quentes e convidativos e quis beijá-los. Kate era diferente das outras moças, sempre prontas a se atirarem aos seus pés. Seria ótimo mudar esse padrão e se relacionar com alguém cuja companhia lhe desse real prazer — Quero que seja minha amante. Ela tentou responder, porém sua voz demorou alguns instantes para sair. — Eu mudei de idéia... Você não é um convencido, mas um maluco! Desvencilhou-se finalmente. Antes de deixá-la ir, contudo, Marcus a segurou pelo pulso. — Encontre-me em minha suíte à meia-noite. 21
  22. 22. — Que suíte? Você nem mora aqui. Esta é a casa de lady Pamela. — Está equivocada. Esta mansão me pertence. Ocupo a suíte master, na ala sul, no fim do corredor do quarto andar, sempre que venho visitá-la. Use a escada de serviço. — Definitivamente não! Sou uma mulher de respeito e dama de companhia de Melanie Davis. Como se atreve a me pedir isso? — Não estou pedindo. — Está me obrigando? Marcus jamais forçara uma mulher a ceder a seus desejos. Embora sua reputação não fosse impoluta nos círculos de Londres, costumava seguir alguns padrões de moral. No caso de Kate Duncan, contudo, resolvera esquecê-los. — Se não for ao meu encontro, eu a acusarei de roubar meu anel. Kate não soube o que responder e sua hesitação confirmou as suspeitas de Marcus. — Q-Que anel? — Não posso afirmar quando, como, ou por que você o pegou. Sua aparência não é de uma ladra. Sua atitude me intriga. — Você é um bruto! — Não nego. Lágrimas de medo ou raiva marejaram os olhos verdes. — Não faça isso comigo. Por favor! — Eu preciso fazer isso. Após um gemido, misto de frustração e desespero, Kate abriu a porta e entrou correndo na mansão. 22
  23. 23. Capítulo II Kate andava de um lado para outro do quarto, os olhos voltados para os ponteiros do relógio, que caminhavam desapiedadamente para a meia- noite. Como fora se meter em uma enrascada daquele tamanho? O conde a vira no quarto, mas fingira não ter dado por sua presença, só para poder tê-la em suas mãos. Sentiu um soluço escapar da garganta e se sentou na beirada da cama. Então não fora um pesadelo. Faltavam apenas dez minutos. Se ignorasse a ordem, o conde a acusaria de roubo. E o que seria dela? Ninguém mais a acolheria. Nem mesmo Christopher, que tanto a estimava, teria condições de ajudá-la. De posse de um anel tão valioso, ela provavelmente seria presa, talvez enviada para uma colônia penal. E se acatasse a ordem, certamente perderia sua castidade. Chamara-o de louco. Mas ela também devia ter perdido o juízo para ingerir o conteúdo daquele frasco... E pensar que desdenhara da tal poção do amor. No entanto, era a única explicação que lhe ocorria para seu comportamento inusitado. Ou talvez tivesse sido a influência de sua mãe, que arruinara a própria vida ao abandonar o marido e a filha para fugir com seu amante italiano, e gerar uma criança ilegítima. Selena Bella, agora com dezesseis anos, a mesma idade de Melanie, morava em Londres havia dois anos, sustentada por um fundo deixado sob a guarda de Kate, de acordo com a vontade estabelecida pela mãe delas em testamento. 23
  24. 24. Kate não conhecia a meia-irmã, mas, com a assistência de Regina, nomeara um procurador para cuidar dos interesses da menina. Somente a distância pudera coordenar o aluguel de uma casa e a contratação de criados. Suspirou longamente. Nunca havia reclamado de sua condição e preferia calar a se expor a falatórios. Mas estava farta de sua existência subserviente. Talvez devesse se agarrar a essa inesperada oportunidade de se mostrar espontânea e irresponsável pela primeira vez na vida. Faltavam apenas dois minutos agora. Ao consultar o relógio, Kate viu o frasco vazio sobre a mesinha: o culpado por seu comportamento hedonista. Com raiva, atirou-o pela janela. Depois apanhou o anel sob o travesseiro, envolveu-o em um lenço, e o levou até a lareira, onde o escondeu em uma reentrância, na pedra. Lorde Stamford podia acusá-la de estar de posse do anel, mas, para provar o fato, teria de encontrá-lo. Vestida com uma capa adornada por um capuz, Kate olhou para os dois lados do corredor antes de sair do quarto e subir as escadas. Surpreendeu-se com o fato de a suíte master ficar diretamente acima de seus aposentos. Esperava surpreender o conde também. Não toleraria seus avanços nem suas provocações. Antes disso, ela o convenceria de que era uma mulher honesta e virtuosa. Talvez a visita se revelasse útil, inclusive, no sentido de lhe fornecer direções de como devolver o anel sem que ninguém a visse. A porta se encontrava aberta, o que só podia significar uma coisa; o miserável tinha certeza de que ela obedeceria a seu comando. Kate entrou em silêncio e o viu imediatamente. Estava recostado ao sofá, sem a casaca e sem a gravata. Os botões do colarinho encontravam-se abertos e as mangas da camisa, enroladas até os cotovelos. 24
  25. 25. Embora ela já o tivesse visto completamente nu, na noite anterior, naquele momento ele lhe pareceu ainda mais sensual, os pelos escapando quase com ousadia da camisa imaculadamente branca. — Feche a porta. O tom grave e autoritário a fez conter a respiração. Mesmo assim ela deu meia-volta e fez o que o conde mandava. Encaminhou-se, em seguida, para o sofá, e aguardou que ele falasse. Até que a espera se tornou opressiva demais. — Estou aqui, milorde. O que quer de mim? — Sempre que estivermos a sós, Kate — ele disse, sem afastar os olhos dos dela —, deverá me chamar de Marcus. Não haveria uma segunda vez, ela pensou consigo. — Não o farei, lorde Stamford. E não permito que me chame de Kate. Para o senhor, sou a srta. Duncan. Ele se levantou com a graça e a agilidade de um tigre e caminhou em sua direção. Parou diante dela, desamarrou a capa que lhe cobria os ombros e deixou que esta escorregasse até o chão. — Não possui outra roupa que não seja cinza? — Tenho um vestido preto para usar aos domingos. — O cinza não favorece seu tom de pele. O verde lhe cairia bem, já que combina com seus olhos... Comprarei alguns vestidos. E, sempre que vier aos meus aposentos, faça-me o favor de usá-los. — Não voltarei aqui após esta noite. — Sim, você voltará. Eu sempre consigo o que quero. — Não comigo. 25
  26. 26. Em uma só passada, Marcus encostou o corpo ao dela. Estavam tão próximos, que Kate pôde sentir seu cheiro de almíscar e tabaco, e se enxergar nos olhos dele. Jamais ficara tão perto de um homem. De súbito, seus dedos pareceram soltar faíscas, tal a vontade que teve de tocá-lo por cima e por baixo da camisa. Manteve-se ereta e fingidamente impassível, contudo, enquanto ele retirava os grampos que prendiam seus cabelos em um coque na altura da nuca. Ocorreu-lhe que sua preocupação de que as criadas os encontrassem espalhados pelo chão, quando fossem limpar a suíte na manhã seguinte, seria inútil. Marcus era um homem mundano. Um boêmio. Deviam estar acostumadas àquele tipo de coisa. Kate soltou o ar lentamente. Não conseguia entender por que ele a escolhera para ter uma aventura. Ela não era uma mulher sofisticada, ao contrário: estava apenas no segundo dia de sua primeira viagem a Londres. — Sempre que vier me visitar, deverá soltar os cabelos. — Ela o ouviu dizer friamente. Soltou uma risada seca. Ele era surdo? — Não voltarei aqui, Vossa Excelência. Não ouviu o que eu disse? — Não. Ele a puxou tão inesperadamente para o sofá, que ela caiu sobre seu peito. Tentou escapar, mas era muito mais fraca e foi dominada. Segurou o ar, em pânico. Suas pernas, suas coxas, suas virilhas, tudo neles parecia se encaixar como se tivessem sido moldados em formas! Desesperou-se ainda mais ao perceber os mamilos se projetando em protesto contra a pressão do abraço, e seus quadris, como se tivessem acabado de descobrir que aquele tipo de contato lhes dava prazer, curvando-se levemente de encontro aos dele. 26
  27. 27. — Solte-me! — Kate exclamou por entre os dentes. Marcus riu. Em vez de soltá-la, arqueou o corpo, proporcionando-lhe uma sensação que ela jamais experimentara até aquele instante. — Por que entrou em meu quarto na noite passada? — Não sei do que está falando — replicou Kate. Negaria o fato até a eternidade. — Por que pegou meu anel? — Eu não peguei nada! O conde estreitou os olhos. — Não minta para mim, Kate. Sei quando está mentindo. Ela engoliu em seco. Era difícil se concentrar com o homem acariciando lascivamente a curva de seus quadris. — O que pretende fazer? — prosseguiu ele. — Guardá-lo de lembrança ou devolvê-lo quando eu estiver fora? Kate quase se traiu. Seria assim tão transparente? — Não estou com seu anel. Marcus rolou no sofá largo, de modo a inverter as posições, e ela teve ganas de esmurrá-lo. Seu plano de esclarecer rapidamente a situação, e sair dali com sua reputação e sua virgindade intactas, aparentemente não daria certo. Como o convenceria de seus altos padrões de moral, se seu corpo se manifestava favoravelmente a cada botão que ele abria no corpete do vestido? — Lorde Stamford... Marcus — corrigiu-se, assustada. Ele sorriu com malícia. Não duvidara nem por um segundo que a linda donzela acabaria cedendo a seus rogos. Os primeiros de muitos. — Sim, Kate. — Não espere que eu concorde com isso. Não espere que eu fique... 27
  28. 28. Kate se recusava a murmurar palavras indecentes como nua e despida. Queria acusá-lo de perversão e subjugação, mas não tinha a terminologia adequada para descrever assuntos carnais. — Divertiu-se muito me observando na cama com sua anfitriã? O violento rubor que se apossou das faces de Kate confirmou o que Marcus já sabia: ela se lembrava de cada erótico detalhe da relação. — Você faz alegações abomináveis! Eu... Marcus a beijou. O gesto foi súbito, e tão inesperado, que Kate ficou paralisada. Pensou em empurrá-lo e se debater até se soltar, mas era tão bom estar nos braços de um homem que a desejava, que não encontrou forças para assumir a responsabilidade pela interrupção daquela doce experiência. Seus olhos se fecharam ao toque dos lábios quentes e macios. Em seus vinte e cinco anos de existência nunca fora beijada antes. Surpreendeu-se que Marcus umedecesse seus lábios com a ponta da língua e os entreabrisse para colocá-la dentro de sua boca. O contato lhe causou uma sensação estranha no estômago. Como se este contivesse borboletas, e elas começassem a bater delicadamente as asas. E o beijo tinha um leve gosto de conhaque. Talvez isso respondesse pelo torpor que se apoderou dela. Agora entendia por que as jovens donzelas precisavam de damas de companhia, e eram aconselhadas à exaustão a se precaverem contra os perigos do pecado. Naquele momento, ela teria feito qualquer coisa que o conde lhe pedisse, incapaz de raciocinar. Tanto que só percebeu que seu corpete estava sendo afastado, quando ele já havia soltado todos os botões. Sinos de alerta badalaram ao pensamento de que seus seios ficariam completamente expostos. Empenhara-se por viver uma vida digna. Não queria se tornar uma mulher como fora sua mãe. Bastava surgir à sua frente 28
  29. 29. um homem atraente e charmoso para que ela atirasse por terra sua integridade e seus princípios? — Não! — Empurrou-o com firmeza e, em um movimento rápido, conseguiu se levantar. Marcus se apoiou nos cotovelos de cenho franzido, fitando-a como se não a reconhecesse. Kate sentiu o coração gelar Ele devia fazer isso com todas as criadas. Ela era apenas mais uma em sua longa coleção de conquistas. — O que foi? — exigiu, zangado. — Não posso deixá-lo fazer isso. — Não há nada de mal em um beijo. — Está esperando de mim muito mais do que um beijo. Julga-me diferente do que sou. — É uma mulher de temperamento ardente, Kate, não pode negar isso. Constrangida, ela lhe deu as costas, incapaz de falar sob escrutínio. — Sou uma mulher do campo, sem sofisticação. Peço que me perdoe se o fiz acreditar o contrário. No momento seguinte, Marcus a abraçava por trás e a beijava na nuca. Kate sentiu um arrepio tão forte que quase desfaleceu. Jamais poderia imaginar que a nuca fosse um lugar tão sensível. — Não precisa ficar assim — ele falou com voz rouca. — N-Não estou aborrecida. Queria apenas... — Continue. — Apenas ser quem você esperava que eu fosse. Ele riu, mas de uma forma delicada, sem ofendê-la. 29
  30. 30. — Você foi feita para o prazer, Kate Duncan. Sinto que está tão atraída por mim quanto eu por você. — Engano seu. Ele a segurou pelos ombros e a fez encará-lo. A certeza de que não poderia negar nada ao conde, se ele realmente insistisse, fez o coração de Kate quase parar de bater. — Seremos amantes pela duração de sua visita, então. Prometo que não se arrependerá. — Não, Marcus! Não me peça isso. Em breve partirei para nunca mais voltar, então, por favor, não insista. Não voltarei atrás em minha palavra. — Nosso encontro se dará diariamente, à meia-noite — ele determinou, como se não a tivesse ouvido. Kate apanhou a capa no chão, jogou-a sobre os ombros, e cobriu a cabeça com o capuz. Marcus não fez nenhum movimento para impedi-la. Não precisaria. Chegado o momento da partida, Kate não conseguiu se mover E se aquela fosse a última oportunidade de se falarem a sós? — Amanhã, à meia-noite, Kate. Estarei esperando. — Irá esperar em vão. — Não creio. A arrogância do conde era irritante. Após uma exclamação de protesto, Kate abriu a porta e finalmente se afastou pelo corredor. — Qual é sua opinião, minha mãe? — Sobre? — Regina indagou, distraída com a caixa de bombons em seu colo. Christopher suspirou. Não era de admirar que sua mãe fosse tão obesa. 30
  31. 31. Ela não parava de comer. A qualquer hora, a qualquer momento em que a via, estava mastigando alguma coisa. — Sobre a compra de novas sementes para os colonos e de lousas e giz para a esposa do vigário. — Desperdício de dinheiro. Christopher não insistiu. Ele cogitava com frequência se o destino não o fizera nascer na casa errada. Seus planos de progresso eram vistos com desprezo por sua mãe e por sua irmã. Se não fosse pela amizade de Kate, e pelas conversas inteligentes que mantinham ao longo dos anos, ele não teria suportado. Agora, aos dezoito anos, queria assumir seu lugar de direito no comando da propriedade. Restava descobrir como. — Vou sair para cavalgar com Stamford. — Tenha cuidado com aquele homem. Mais uma vez, Christopher preferiu não retrucar. Sua mãe ainda o tratava como a uma criança. — Aproveite para falar bem de mim ao conde! — Pode deixar, Mel — Christopher mentiu com um suspiro. Sua irmã era uma bonita moça, embora fútil e caprichosa. Ele não faria o papel de casamenteiro para uni-la ao seu pior inimigo, se tivesse algum. Assim que o filho se retirou da sala, Regina foi verificar a correspondência que o mordomo da família lhes remetera de Doncaster. Não se deu o trabalho de esconder a carta com o nome de Selena Bella. Melanie nunca se interessara por aprender a ler. E se Kate entrasse em seu quarto sem bater, o que nunca acontecia, poderia colocar o envelope debaixo dos outros em segundos. Regina suspirou, satisfeita. Nem mesmo conseguia se lembrar do dia em que resolvera começar a desviar os fundos que caberiam à meia-irmã de 31
  32. 32. Kate. Como as duas moças nunca haviam se conhecido, tampouco se correspondiam, Kate jamais soubera que a irmã caçula vivia em estado de penúria. Dessa forma, ela, Regina, pudera continuar alterando as faturas de despesas sem qualquer problema. Sorriu consigo. Antes de tirar a própria vida, o pai de Kate tomara providências para que a filha ficasse amparada, mas pelo fato de a menina ainda ser muito pequena, jamais imaginara ter sido usurpada em seu dote. Havia muito engendrava aquele esquema sem que nunca tivessem desconfiado. Por isso se considerava a mais esperta das criaturas. E a mais afortunada. Suspirou. Quando era casada, acordava todos os dias na frente do fogão com dois pirralhos agarrados às pernas, enquanto seu marido gastava os míseros vinténs que possuíam com remédios inúteis. De repente, ele herdara um título de conde... e morrera providencialmente em seguida. Ela e os filhos, então, tinham se mudado para uma mansão e passado a viver como nobres. Melanie e Christopher não se lembravam do passado. Para eles a vida era uma perpétua celebração. Regina, porém, jamais poderia esquecer o que havia sofrido, e faria qualquer coisa que fosse necessária para garantir a vida de conforto que passara a conhecer. Se o destino resolvesse lhe dar um golpe, ainda teria os dotes de Kate e Selena para gastar. Não sentia pena das duas. Ambas descendiam de uma pecadora. Que pagassem pelos pecados da mãe! Restava conseguir que o futuro de Melanie também ficasse acertado. Afinal, em uma emergência, os dotes de Kate e Selena talvez não fossem suficientes para as duas. Se a palavra de lady Pamela valesse, contudo, Melanie logo receberia uma valiosa aliança de casamento. 32
  33. 33. — Quais são seus planos para com lorde Stamford? — Regina perguntou à filha, que acabara de se reunir a ela. — Você, por certo, não o impressionou ontem à noite. — Culpa de Kate. O comportamento dela é que foi inadequado. Regina franziu o cenho. Kate herdara as piores características de sua mãe: o orgulho, a obstinação e, especialmente, a beleza. Os homens torciam o pescoço quando ela passava. Essa tinha sido uma das razões por que a obrigara a cobrir os cabelos. Não queria homens rodeando sua casa. Tinha uma reputação e dois filhos por quem zelar. — Eu a repreenderei por isso. Mas ainda não me respondeu. Lorde Stamford jantará conosco esta noite. Como pretende impressioná-lo? — Não farei nada nesse sentido. Eu o detesto. Não o quero para marido. — A decisão é minha, não sua! Você se casará com quem lhe for mais conveniente — Regina declarou, corada de indignação. — Não, mamãe. Eu só me casarei por amor e o conde é um bruto. Ele tem um coração de pedra. Batidas na porta indicaram a chegada de Kate. Melanie aproveitou o ensejo para cobrar da mãe uma reprimenda, e reforçar seus protestos contra o casamento arranjado. Mas, antes não tivesse tentado se indispor contra as ordens. Regina respondeu à afronta com uma bofetada brusca e certeira. Ao testemunhar a cena, Kate cerrou os dentes, mas reprimiu a revolta e entrou nos aposentos de Regina em silêncio, enquanto Melanie passava correndo por ela e ia se trancar no próprio quarto. Não demorou para que a prima a repreendesse pela cena, na festa. Abismada, ela ainda tentou se defender, dizendo que não era sua culpa que 33
  34. 34. lorde Stamford tivesse se enganado e cumprimentado a ela em vez de Melanie. Como resultado, Regina a proibiu terminantemente de se apresentar em público pelo resto da visita ao condado de Stamford. Sentada à penteadeira, Pamela se mirava no espelho. Apesar de já ter completado trinta anos, ainda era bonita. Sem nunca ter engravidado, seu corpo continuava firme e curvilíneo. Os seios eram fartos, continuavam altos, e os mamilos, rosados e proeminentes. Pela fresta da porta, podia ver Christopher na sala de sua suíte. O rapaz não se furtara a aceitar seu convite. Embora só tivesse dezoito anos, provavelmente já havia sido iniciado nos prazeres do sexo. Não que ela fosse reclamar caso ele ainda fosse inexperiente. Ao contrário. Adoraria que Christopher a escolhesse como sua primeira professora. Com a respiração ofegante, Pamela deu a última escovadela nos cabelos e borrifou algumas gotas de perfume atrás das orelhas, no decote, e nos pulsos. Levantou-se em seguida e sorriu para si mesma no espelho. — Olá, Christopher... — saudou, e não pôde evitar o brilho de satisfação que se apoderou de seus olhos ao surpreender o rapaz olhando através da transparência da camisola e do penhoar. — Posso chamá-lo de Chris? — Certamente que sim, milady. — Por favor, me chame de Pamela. "Milady" soa formal demais. Com seus grandes olhos azuis e cabelos loiros ondulados, Christopher era um rapaz atraente, além de rico. Conquistando-o, ela mataria dois coelhos com uma só cajadada. Precisava cuidar urgentemente de seu futuro, já que Marcus vinha deixando a fortuna dos Stamford escapar pelos dedos. — Aceita um conhaque? 34
  35. 35. — Minha mãe não gosta que eu beba. Em especial durante o dia. — Bem, Regina não está aqui agora, está? — Piscou para ele e se encaminhou para o armário onde guardava as bebidas. Podia sentir os olhos de Christopher pousados em sua figura. Apesar da pouca idade, ele não era nenhum ingênuo. Bastara um minuto para ela perceber que o jovem conde lera nas entrelinhas a razão de seu convite. Suas mãos se tocaram quando ela lhe entregou o copo e Pamela sentiu faíscas percorrendo o corpo. Estranho. Ela era uma mulher que valorizava o prazer, que gostava de ter sempre uma companhia masculina para colorir seus dias e suas noites... Mas nunca se envolvera com um rapaz tão novo antes. Mais estranho ainda que estivesse se sentindo como se não fosse se interessar por mais ninguém, caso Christopher não a quisesse como ela o estava querendo. — Tem namorada, Chris? — perguntou, sentando-se ao lado dele no sofá, e cruzando as pernas em franca provocação. — Não há muitas candidatas em tomo de Doncaster que sejam adequadas às minhas necessidades. — Não, acredito que não. Pretende aproveitar sua estada em Londres para encontrar uma noiva? — Ainda sou jovem demais para me casar. Minha mãe disse que não há pressa. Ao menos nesse aspecto, Pamela concordava inteiramente com a provinciana Regina. — Parece que seu tempo, então, poderá ser ocupado com outras atividades. 35
  36. 36. — Eu estava cogitando o mesmo. Pamela não perdeu tempo. Tirou o copo praticamente intacto da mão dele e o depositou sobre a mesinha de centro. Em seguida, olhou em seus olhos e se sentou mais perto. Christopher sustentou o olhar de indisfarçável cobiça. Quando sentiu um seio lhe pressionar o braço, sorriu com cumplicidade. Uma onda de calor percorreu o corpo de Pamela. Christopher era mais experiente do que ela suspeitara. — Já foi beijado? — perguntou, os olhos pousados nos lábios bem- feitos. — Muitas vezes. — Mas não disse que não tinha namorada?! — Posso lhe confiar um segredo? — Sim. — Costumo escapar durante a noite, sem que ninguém veja, para me divertir na taverna da aldeia. — Sua mãe teria um colapso, se descobrisse! — Eu sei. Foi por isso que lhe pedi segredo. — Por que não me mostra o que aprendeu com as raparigas? Estou ansiosa por descobrir. — Aposto que sim. Seria de ironia o brilho que ela viu naqueles olhos? Pamela se recusou a responder sua própria pergunta e esperou que Christopher se inclinasse para beijá-la. Como ele se mantivesse imóvel, tomou a iniciativa. O comportamento dele mudou a partir daquele instante. Ele assumiu o comando da relação, envolvendo-a nos braços e puxando-a de encontro ao peito. 36
  37. 37. Com os dedos mergulhados em seus cabelos e a língua em sua boca, Pamela ficou eufórica com a descoberta de que as mulheres com quem ele estivera tinham sido excelentes instrutoras. Ao menos por aqueles preciosos momentos, optou por relevar a importância da condição social e financeira do rapaz. Um mero detalhe em comparação ao êxtase que ele prometia. — Toque-me aqui! — implorou quando seus mamilos começaram a doer de tão intumescidos. Christopher, que segurava os seios inteiros nas palmas das mãos, passou as pontas dos dedos onde ela pedia. — Assim? Pamela precisou fechar os olhos de tanta excitação. — Oh, sim!... Não pare! Perplexa, ela pensou que nenhum homem jamais lhe proporcionara tanta satisfação. Nem antes nem após seu casamento com o pai de Marcus. Quando o ato sexual terminava, deixava-a sempre com a sensação de que algo ficara faltando. Seria Christopher o homem que a faria uma mulher plenamente feliz? Ansiosa para que ele também vibrasse de paixão, começou a desabotoar-lhe as calças, percebendo o membro já rijo. Com sua iniciativa, o tecido escuro se distendeu ainda mais. — O que está fazendo? — Quero acariciá-lo, só isso... Com movimentos ritmados, Pamela se pôs a massageá-lo, fascinada com a exuberância do rapaz. Tinha quase certeza de que nenhuma outra mulher o manipulara tão abertamente. 37
  38. 38. Pois queria ser a primeira. Queria tomar aquela experiência inesquecível para ele. Não demorou para que Christopher explodisse de prazer. Satisfeita com a própria habilidade, e ansiosa por aplacar o próprio desejo, Pamela o acariciou no peito languidamente. — Podemos passar agora para a minha cama, o que acha? — Sorriu, sedutora. Christopher consultou o relógio na parede. — Não posso. Tenho de encontrar minha mãe em poucos minutos. A indignação tomou conta dela, porém Pamela se obrigou a estudar as palavras antes de pronunciá-las: — Você é um homem adulto, Christopher. Um conde. Ela pode esperar. — Quando minha mãe está feliz, todos se beneficiam com isso. Sua raiva ameaçou eclodir. Como ele se atrevia a ser tão ingrato, depois do que ela lhe proporcionara? Por outro lado, talvez devesse dar um desconto ao rapaz. Em sua juventude, Christopher ainda não devia ter aprendido a compensar suas parceiras nos jogos carnais. — A que horas vai estar livre? — Não sei. Mas tenho outros compromissos marcados para esta noite. — Eu esperava que você voltasse para continuarmos o que começamos... — A sugestão, em voz rouca, não poderia ser mais eficaz. No entanto, não surtiu efeito. — Impossível. Pamela mordeu o lábio para não gritar. Rapaz tolo! Não percebia o que estava perdendo? 38
  39. 39. Os homens costumavam implorar por seus favores. Ela o chamara para sua cama e ele a tratava como se nada tivesse acontecido? Seus amantes imploravam por novas oportunidades! A falta de entusiasmo de Christopher era tão chocante que a deixou perplexa. E ainda mais determinada a tê-lo a seus pés. Como se nada de anormal tivesse acontecido, Christopher se levantou, ajeitou a roupa e se inclinou para depositar um leve beijo em seus lábios. — Foi incrível. Obrigado. Depois de dizer as palavras, simplesmente se foi. Pamela apanhou o copo na mesinha e entornou o resto do conhaque de um só gole. Fazia sol naquela tarde, mas o interior da carruagem encontrava-se na penumbra. Kate se sentiu aliviada. Podia adivinhar o rubor em suas faces ao protesto da prima por ela ter deixado o frasco "cair e quebrar", e obrigá-la a voltar à botica para a compra de uma segunda dose. Maldita poção! Já não causara encrencas que bastassem? — Não o derrubei intencionalmente, Melanie. Ele escorregou de minha mão — tornou a mentir. — Está ficando mais desastrada a cada dia. Se continuar assim, minha mãe não terá alternativa a não ser dispensá-la de seus serviços. O que será de você, então? Onde irá morar? Kate gostaria de retrucar, mas resistiu ao impulso. Regina sempre a ameaçava de demissão e talvez fosse melhor que acontecesse de uma vez. Ela sobreviveria de alguma forma. Nunca tivera medo de trabalhar e ainda haveria uma chance de encontrar a paz que almejava. 39
  40. 40. Mas não queria manchar seu nome por uma causa tão insignificante. Não que o elixir fosse uma fraude, conforme o acusara. Pudera comprovar por si própria seu misterioso efeito. Contra sua vontade, a poção a colocara no leito de lorde Stamford, e agora não conseguia se concentrar em mais nada, a não ser na figura do homem. A infusão devia conter ervas de efeito alucinógeno, concluiu. Tivera o poder, aparentemente, de alterar sua personalidade. Tomara o efeito passasse logo. Detestaria permanecer obcecada por lorde Stamford pelo resto de seus dias. Na realidade, provavelmente enlouqueceria. — Não podemos esquecer esse assunto? — rogou à prima. — Não. Não lhe pedi para ir à lua, pedi? Não acho que seja tão difícil derramar algumas gotas de um pequeno frasco em uma taça de vinho. — Talvez não seja. Mas já lhe ocorreu que o conde poderá olhar para qualquer mulher ao seu redor, até mesmo para uma criada, e se apaixonar por ela antes de ver você? — Francamente, Kate. — Melanie riu, debochada. — Nenhum tônico mágico teria o poder absurdo de fazer lorde Stamford se apaixonar por uma serviçal. A carruagem parou e Melanie espiou pela janela. — Chegamos. Ficarei esperando na carruagem. Reze para que o boticário tenha outro frasco em estoque, ou eu a deixarei aqui até que consiga outro! Antes de descer, Kate ainda tentou demover a prima da ideia, sugerindo que ela desse uma chance aos jovens de sua idade. Afinal, Melanie viera a Londres para debutar. Ao freqüentar os salões de baile, conheceria muitos rapazes e alguns bons partidos. 40
  41. 41. — Cale-se! Estou cansada de ouvir seus conselhos. Minha mãe escolheu lorde Stamford para ser meu marido, e eu não tenho dúvida de que ela fará com que sua vontade seja cumprida. Mesmo que eu quisesse me casar com outro homem, ela não me ouviria. Não houve tempo para mais discussões. Melanie abriu a porta e praticamente a empurrou para fora do coche. Tanto que o cocheiro precisou segurá-la para que não caísse. Kate agradeceu e entrou na farmácia com um suspiro. Pensou que o destino moldava as vidas por caminhos estranhos. Ela havia nascido rica e seus bens lhe haviam sido tirados. Melanie nascera pobre e ficara rica da noite para o dia. E as duas estavam infelizes. O proprietário a recebeu de trás de um balcão. O lugar era exótico, com vasos de plantas tropicais e prateleiras repletas de jarros e vidros peculiares. O homem trajava uma túnica esvoaçante que o fazia parecer uma figura das lendas antigas sobre dragões e cavaleiros em armaduras. — Em que posso ajudá-la? — Alguns dias atrás, uma conhecida minha adquiriu aqui uma poção do amor, e resolveu comprar mais um frasco. — Mais um? — o farmacêutico repetiu, surpreso. — Os ingredientes são muito fortes. Eu não recomendaria que ela fizesse uso de outra dose. — Na verdade, ela o deu a mim e eu o deixei cair — Kate mentiu. Precisava conseguir que o boticário lhe vendesse outro vidro. Melanie não admitiria que ela voltasse para a carruagem sem ele. — A senhorita precisará fazer um juramento de que aquela jovem ou o cavalheiro de sua predileção não ingeriram aquele líquido. Seus corações não suportariam uma segunda dose. Isso poderia me causar complicações com a polícia e não quero ser acusado de assassino. 41
  42. 42. Ela engoliu em seco e colocou o dinheiro que Melanie lhe dera sobre o balcão. — Eu juro. Satisfeito, o homem desapareceu no fundo da loja e voltou com um novo frasco. Kate o pegou e estava saindo, quando foi vencida pela curiosidade. — E se alguém tivesse tomado aquela poção por engano? O boticário estreitou os olhos. — A senhorita o tomou. Estou certo? Ela sentiu o sangue subir às faces. A essa altura, seria inútil tentar sustentar a mentira. — Eu não tinha intenção, mas... — Diga-me. Está em seu poder algum objeto que não lhe pertence, mas sim ao cavalheiro que encontrou em seguida à ingestão do elixir? Kate sentiu o chão abrir sob seus pés. — Um anel. — Meu Deus! A exclamação a deixou em pânico. Sem explicações, o homem se virou e apanhou uma colher de um pó que despejou em um envelope. — Divida este medicamento em quatro porções e misture-o em chá quente. Tome três xícaras hoje e uma amanhã, pela manhã. Em seguida devolva o anel. Se ele retornar a sua custódia, nada mais poderá ser feito. Ninguém terá o poder de alterar as forças do destino. — Não seja tão enigmático — Kate se queixou, mais e mais assustada. — O que está querendo me dizer? 42
  43. 43. — Se o anel voltar para suas mãos, eu já disse: o antídoto não surtirá efeito. As palavras a aterrorizaram. O elixir comprometera seu bom senso e sua capacidade lógica. Desde que o tomara, parecia ter se tomado outra mulher. De que outra forma poderia explicar sua repentina fixação por lorde Stamford? Marcus descia a avenida quando viu Kate saindo de um es- tabelecimento, com ar assustado, e embarcar em uma carruagem. Pamela devia tê-la emprestado. O veículo fazia parte dos bens da propriedade, e sua madrasta o usava para seus passeios e compras. Ao passar pela frente da loja, estranhou o letreiro. O que Kate teria ido fazer em uma botica? Estaria doente? Por que a deixara como se estivesse sendo perseguida por demônios? Aquela ruiva o fascinava sem que ele entendesse a razão. Devia ser seu jeito. Ela era autêntica, vibrante, além de muito, muito sensual. Intrigado, entrou no estabelecimento. Poderia fingir que era um freguês qualquer, mas resolveu ir direto ao assunto. Era um homem de negócios e o outro também. Depositou uma moeda de ouro sobre o balcão. — O que a moça que acabou de sair veio comprar? Diante do generoso agrado, o boticário respondeu sem titubear: — Uma poção do amor. A amiga dela, uma jovem loira que esteve aqui alguns dias atrás, está querendo se casar com um sujeito que aparentemente não se interessaria por seus encantos sem um pequeno encorajamento... A moça que o senhor viu saindo daqui fez o que não devia ter feito. Tomou a beberagem e precisou de outra para devolver à loira — explicou, rindo. — E para si própria, ela comprou alguma coisa? 43
  44. 44. — Sim. Um antídoto. — Por quê? Ao beber a poção ela talvez tenha se apaixonado por alguém? — Ela acredita que sim. — E o senhor? — Marcus franziu o cenho, desconcertado com a informação. — Pode garantir que essa infusão é genuína? O farmacêutico encolheu os ombros. — Quem pode saber o que se passa no coração de uma mulher? Trata- se de uma receita antiga, e o fato de a moça estar de posse de um objeto do homem em questão, sem que consiga explicar como ele veio parar em suas mãos, pode ser uma indicação de que a fórmula é realmente mágica. — De que objeto o senhor está falando? — De um anel. Marcus precisou tossir. — Está brincando... — Não. Ela ficou chocada com minha revelação. Por isso eu lhe forneci um antídoto: para que ela tente reverter o encantamento sem compromisso. — Como assim? — Quando o destino resolve intervir, não há como mudar seus caminhos. Uma forte rajada de vento atingiu Marcus nesse momento. Foi uma sensação muito estranha, que ele jamais experimentara até aquele dia. Intrigado, olhou ao redor. Ainda estava dentro da farmácia, lembrou, sentindo um calafrio percorrer a espinha, pois todas as portas e janelas se encontravam fechadas. 44
  45. 45. Tirou um cartão do bolso e o colocou sobre o balcão. — Se ela retornar, me avise — murmurou, tenso. Para sua estranheza, o homem não se moveu. Parecia em transe. Não notou quando ele foi embora, tampouco retribuiu seu gesto de despedida. O jantar daquela noite em casa de Pamela estava mais divertido do que o anterior. Com trinta convidados apenas, o ambiente se tomara bem mais informal. Melanie adorava dançar. Não se lembrava de outra ocasião em que dançara tanto, a ponto de precisar se abanar para recuperar o fôlego. Em outras circunstâncias, ela estaria dando um passeio pelo jardim para se refrescar. Mas Kate fora proibida de comparecer às festas e reuniões e, sem uma acompanhante, ela, Melanie, era obrigada a permanecer no salão do começo ao fim dos eventos. Kate não poderia tê-la desagradado mais. A estouvada tinha de deixar sua poção do amor cair? E Lorde Stamford precisava tê-la confundido com Kate? Agora, quem a ajudaria a colocar a nova poção no vinho dele? Distraída com as conjeturas, não notou a aproximação de Elliot Featherstone. Baronete falido, era um pouco mais velho e não tão bonito quanto os rapazes que rodavam na pista de dança. Excessivamente magro, tinha os cabelos loiros começando a rarear e a pele marcada por antigas espinhas. Mas estava bem vestido. Suas roupas eram das mais caras e finas. Melanie sorriu. Adoraria que ele lhe fizesse a corte. Aliás, adoraria se todos os rapazes presentes se desmanchassem em atenções a ela, em seu debut. Seus olhos, contudo, continuaram em busca de lorde Stamford, o homem com quem deveria se casar. Onde Marcus teria se metido, que ainda não a convidara para uma contradança? Quando lorde Stamford se daria 45
  46. 46. conta de que ela estava ansiosa por conhecer o amor? Que Melanie Lewis dispunha de um generoso dote para oferecer ao homem que a escolhesse para partilhar o resto de sua vida? De onde provinha sua riqueza, ela preferia não saber. Cada vez que rumores a esse respeito lhe chegavam aos ouvidos, afastava-se rapidamente e tratava de esquecê-los. O modo como o baronete a olhava agora era de franca admiração e sua vaidade feminina se viu aguçada. Nunca fora cobiçada por um homem. Era algo lisonjeiro, sem dúvida. Para mostrar a Featherstone que não era mais criança, endireitou as costas e empinou os seios. — Lady Melanie... — O rapaz se curvou em uma leve mesura e não perdeu tempo para se aproximar ao reconhecer seu sinal. — Sou Elliot Featherstone. Seja bem-vinda a Londres. A senhorita dança com a graça de um anjo. — Obrigada. — Melanie corou de prazer. — Eu a convidaria para uma contradança, mas sou um péssimo dançarino. — Não tem importância. Eu parei para descansar um pouco. Faz tanto calor aqui! — Estava pensando o mesmo. Acha que sua mãe permitiria que eu a acompanhasse em um passeio pelo jardim? Melanie olhou para Regina e fez um movimento negativo com a cabeça. — Pena. O modo como ele tomou a fitá-la a levou a tomar uma atitude que deveria provar que estava em idade de decidir seus próprios atos: — Talvez possamos beber uma taça de ponche juntos. 46
  47. 47. As bebidas e os refrescos estavam sendo servidos no salão anexo. Satisfeito, o jovem cavalheiro fez nova reverência e a conduziu até uma cadeira. Assim que um criado lhes serviu o ponche, Featherstone tirou um frasco do bolso interno da casaca e misturou um pouco do líquido escuro à própria bebida. — Uísque escocês. Quer experimentar? Para reforçar sua nova imagem, Melanie aquiesceu e o rapaz fez a mistura com um sorriso. O gosto forte do uísque, entretanto, trouxe lágrimas aos olhos de Melanie, que se obrigou a sorver o ponche adulterado sem tecer nenhum comentário. O álcool logo a aqueceu e incentivou a falar: — Não devia fazer essas coisas na presença de uma dama... — disse, rindo. — Posso lhe fazer uma confidência, lady Melanie? — Elliot Featherstone olhou para os lados para se certificar de que ninguém o escutava. — Claro que sim. Era a primeira vez que ela conversava a sós com um homem e isso a deixava radiante. — Percebi que lorde Stamford a está negligenciando. — Nem me diga! Ele se comportou de maneira abominável — desabafou. — Tanta desconsideração por uma jovem adorável... — Elliot sorriu, sedutor. — Está ciente do que transpira por esta casa, não está? 47
  48. 48. Melanie precisou mudar de posição na cadeira, sentindo-se subitamente incomodada. — Há algo que deva me contar? — Não posso lhe responder aqui. Stamford é meu amigo e me encontro sob seu teto. Mas a verdade é que não suporto a ideia de que ele a magoe. Nesse momento, Regina surpreendeu a filha em conversa com o baronete e a chamou com voz firme. Nervoso, Featherstone se levantou de um salto, desculpando-se. Melanie teve ímpetos de gritar de frustração. — Diga de uma vez! Preciso saber! — À meia-noite, atrás das cavalariças — sussurrou Elliot, batendo em retirada enquanto a mãe dela se aproximava. Marcus caminhou pelos corredores, rumo aos aposentos de Kate, com uma garrafa de vinho e duas taças. Depois de descobrir que ela não estaria presente ao jantar daquela noite, e de nenhuma outra enquanto durasse a hospedagem dos Lewis na mansão, ele se retirara do baile sem que o notassem. A porta do quarto se encontrava fechada, mas a claridade que escapava por baixo lhe deu a certeza de que encontraria quem procurava. Colocou a mão direita sobre a maçaneta e seu coração bateu mais rápido ao girá-la com facilidade. Kate estava sentada em uma poltrona, de costas para ele, olhando para o pátio. Usava uma camisola de seda verde, decotada e sem mangas. A excelente qualidade do tecido o impressionou. Teria a peça sido rejeitada por Melanie e fornecida à sua dama de companhia? Sentiu o sangue circular como fogo em suas veias ao reparar na fenda lateral que deixava entrever uma das pernas até a coxa. Os fabulosos cabelos 48
  49. 49. vermelhos estavam soltos, exceto por uma mecha no alto, que Kate prendera com uma fita também verde. Havia um bule de chá sobre a cômoda, um frasco com um líquido escuro, que ele presumiu ser a tal poção do amor, e um envelope ao lado. Na certa o antídoto de que o farmacêutico lhe falara. Marcus se congratulou por ela sequer ter notado sua presença. Sorriu ao vê-la tomar um gole de chá e recolocar a xícara no pires. Kate parecia tão pragmática. Quem poderia imaginar que fosse tão crédula a ponto de cair na conversa de um farsante? — Boa noite. Ao ouvir a voz masculina, ela derramou o chá sobre a camisola e se levantou de um salto, afastando o tecido do peito para não se queimar. — O que faz aqui? — Passa da meia-noite. Não me procurou em meu quarto, como pedi. — Você não pediu, você ordenou... E eu disse que não obedeceria. — Por isso eu vim. Marcus atravessou o quarto e depositou o vinho e as taças sobre a cômoda. — Saia ou eu me queixarei com lady Pamela. Uma ameaça vã. Ninguém poderia saber que ela recebera um homem em seus aposentos. Corria o risco de ser banida da casa dos Lewis. Marcus sorriu e, em uma clara provocação, se acomodou na beirada da cama. — Eu sou o senhor deste castelo. Pamela vive aqui por meu favor. Posso transferi-la para outro quarto, se este não a satisfaz. — Não, obrigada. A última coisa de que necessito é você se interessando por meu conforto. 49
  50. 50. — Isso lhe causaria problemas, não é? — Sim. Já bastam os que me causou. — Pois pretendo causar outros mais. Aquele quarto era simples demais, concluiu Marcus. Falaria com a governanta, sem demora, e mandaria que colocassem Kate em outro aposento. Um que fizesse jus à sua beleza. Ou não. Ela estava certa. Sua interferência poderia causar um escândalo. Além disso, aquele cômodo ficava convenientemente perto do dele. Como seu olhar fulminante não atingiu o efeito desejado, Kate resolveu vestir o penhoar por cima da camisola. Marcus a alcançou antes que ela pudesse fazê-lo, contudo. Na tentativa de impedi-la de se esconder dele, apoderou-se da indumentária. O tecido era finíssimo, ele notou, intrigado, e deslizou por sua pele. — Onde conseguiu essas peças? — Não as roubei se é o que está pensando. — Isso não me passou pela mente. — Eram de minha mãe — ela respondeu, contrariada. Kate provinha de uma família de recursos, então. O que teria acontecido para ela ser obrigada a trabalhar para viver? — Sua mãe deve ter sido uma mulher linda. — Foi mesmo. Marcus não devolveu o penhoar. Kate poderia ter lutado para recuperá-lo, mas se manteve impassível. Tampouco reagiu quando ele depositou um beijo em seus lábios. Ao menos no primeiro momento. 50
  51. 51. — Por que não para de me atormentar? — perguntou, perturbada, antes de virar o rosto. — Você é adorável... Não consigo resistir a seus encantos. Ele estava sendo sincero. Qualquer mulher de Londres se disporia prazerosamente a entretê-lo, mas nenhuma outra o seduzia no momento. Sentia-se estranhamente bem ao lado de Kate. Estabelecera-se uma conexão especial entre eles, que merecia ser explorada, de modo a lhes proporcionar a máxima satisfação. O temor que ela manifestava, entretanto, o levava a suspeitar de que ela ainda era virgem. Quem sabe se ele mudasse sua abordagem, ela passasse a se sentir bem em sua companhia? — Isto é chá? — Marcus retirou a tampa do bule. — Sim. — O cheiro é peculiar. O que adicionou à infusão? — Uma espécie de remédio. — Não se sente bem? — Não. — Desde quando? — Desde que conheci você. Ele apanhou o envelope ao lado do bule, determinado a examiná-lo. Kate tentou tirá-lo de sua mão e o envelope caiu no chão, espalhando o conteúdo pelo tapete. — Ah, veja o que você fez! — Ajoelhou-se e procurou inutilmente recolher o pó que se infiltrara pelas tramas. Ela se mostrou tão arrasada que, por um instante, Marcus se arrependeu do que fizera deliberadamente. 51
  52. 52. — O que é isto? — Indicou o frasco que parecia conter vinho. — Um analgésico para mulheres. — Está com cólicas? — Marcus ergueu uma sobrancelha. — Parece bem a meu ver. — Não toque nisso! — A voz trêmula adquiriu um tom de desespero. Kate tentou recuperar o frasco, porém Marcus o colocou fora de seu alcance. Na luta pela posse do elixir, seus corpos se encontraram. Ele quase esqueceu o que fazia ao baixar os olhos e vislumbrar as curvas femininas sob o decote. Sentiu seu membro inchar e enrijecer no mesmo instante. Kate podia ser inocente, mas pareceu compreender o significado daquela situação. — Sinta o que faz comigo. — Solte-me! — Tinha de ser, Kate — Marcus murmurou, persuasivo. — É obra do destino — elaborou, repetindo as palavras do boticário. A palidez dela foi um sinal de que o sujeito também a prevenira. Sem se deter para refletir sobre seu súbito impulso, ele abriu o frasco e tomou o líquido vermelho-escuro de um só gole. Não era vinho, como pensara. O sabor era mais adocicado e exalava um cheiro de terra. — Marcus, não! — ela gritou. — Adoro quando você me chama de Marcus. Mal ele pronunciou as palavras, seus braços se tornaram pesados como chumbo. 52
  53. 53. — Você não devia! — Kate lastimou, a voz tão baixa agora que mal podia ser distinguida. Marcus a fitou e notou que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Deu um passo em direção ao armário, pensando em apanhar uma bebida, completamente esquecido de que aquele não era seu quarto. Talvez uma taça de vinho fizesse com que ele se sentisse melhor. Ao tentar dar o segundo passo, contudo, suas pernas se recusaram a se mover. Seus sentidos, todavia, pareciam estranhamente aguçados. As cores pareciam mais vivas, os odores mais acentuados. Conseguia até mesmo ouvir o tique-taque do relógio de pêndulo no andar inferior Talvez o elixir contivesse substâncias narcóticas, realmente. Talvez ele devesse relatar a Kate sobre os efeitos da droga em seu corpo... Mas, ao avistá-la junto da janela, com um halo dourado iluminando-a por inteiro e os cabelos brilhando como chamas, perdeu a voz. Nunca antes seu coração fora inundado de uma alegria tão intensa e profunda. A camada de gelo que o recobrira ao longo dos anos parecia ter se derretido. Cada gota da poção que se misturava a seu sangue proporcionava uma espécie de alívio e um prazer indescritíveis. Uma voz estranha proclamou que Kate era a mulher por quem ele esperara por toda a vida, sem saber. Imagens se sobrepunham. Ela e ele juntos. Desde eras passadas, desde existências anteriores. Entorpecido, balançou a cabeça no esforço de desanuviar a mente. Receava falar ou fazer algo que não deveria. Mas necessitava tocá-la, tanto quanto do ar que respirava. Deu mais um passo, com extrema cautela, até chegar perto dela. Conhecia-a como a si mesmo. Podia ler seus pensamentos com total clareza. Kate estava se 53
  54. 54. sentindo solitária... Ansiava por amar e ser amada. Por encontrar alguém que a compreendesse. Estava atraída por ele, mas temia ser magoada. Seu nobre coração se partiria irremediavelmente se a ferisse. Marcus a segurou pela cintura e a virou para si. — Eu não a farei sofrer. — Pois não consigo imaginá-lo fazendo outra coisa — ela respondeu com um fio de voz. — Eu... Marcus se calou abruptamente. Estava por dizer que a amava. Não podia ser. Ele nunca amara ninguém. Não queria amar ninguém. Estava sob o efeito da poção, era isso. Não era de admirar que Kate houvesse procurado um antídoto para se livrar dos poderes sobrenaturais daquele elixir. Segurando a mão delicada, ainda se sentindo em meio a um transe, ele a conduziu ao leito. Incapaz de resistir, ela o acompanhou em silêncio. Marcus se deitou e a puxou para si devagar Kate engoliu em seco. Haviam ultrapassado o ponto em que ela poderia dissuadi-lo. Lentamente, ele desatou o laço que lhe prendia os cabelos e estes caíram como uma cascata escarlate sobre seu peito. O tecido da camisola era tão fino, que era como se ela já estivesse nua. Vislumbrou os mamilos rosados. Eram dois frutos, prontos a ser saboreados. Ao senti-los contra a própria pele, seu membro pulsou com renovada urgência. — Gosta de me atormentar — ela arriscou. — Sim. — Por quê? 54
  55. 55. — Não sei. Marcus rolou com ela, de modo a deixá-la sob o corpo, então parou, concluindo que já vivera aquele momento. Muitas vezes. Não podia explicar como, mas adivinhara como seria cada instante. Sabia tudo o que aconteceria dali para a frente: como se daria o encontro, como ele chegaria ao fim... Ou as imagens eram fruto de uma alucinação e nada tinham a ver com a realidade. Aquela poção diabólica o deixara tão atordoado, que já não podia distinguir o que era fantasia do que era real. — Já se deitou com alguém antes? Ela negou com um gesto de cabeça. — Tem ideia de como eu a desejo? — Não — Kate mentiu, ofegante. Mas as imagens dos jogos que ela presenciara naquela noite lhe davam uma nítida ideia do que um homem e uma mulher podiam fazer na intimidade. Marcus não insistiu nas perguntas. Também ele estava inseguro, como se aquela fosse sua primeira vez. Kate era única, e ele estava tão excitado, que temia não conseguir se controlar. Tinha medo de exigir muito dela e assustá- la com sua paixão incandescente. Precisava provar o quanto ela era especial. Mas como? Jamais se importara com suas amantes. Nunca estivera preocupado em agradá-las. Com Kate, contudo, sentia-se inseguro como um adolescente. Moveu-se sobre ela e sentiu que ela se retesava sob o peso de seu corpo. Então mordiscou os lábios carnudos delicadamente, como se pedindo licença. Devagar, introduziu a língua entre eles. Kate a recebeu com um gemido e ele se regozijou ao ser aceito. Pouco a pouco, o corpo dela relaxou sob o seu, e as mãos delicadas ensaiaram alguns movimentos, enquanto as dele estavam por toda parte. 55
  56. 56. — Pode me tocar... — murmurou, enlevado. — Gosto quando me toca. Tímida, ela mergulhou os dedos em seus cabelos. Não demorou e o explorava com a naturalidade e a curiosidade de uma virgem, ao mesmo tempo em que o acariciava com a astúcia de uma cortesã. A incongruência o enlouqueceu. Kate suspirou, deliciada. Não podia imaginar que sua inexperiência enfeitiçaria Marcus. Aventurou-se pelos ombros fortes, pelas costas largas, mas não se atreveu a ir mais longe. Foram carícias quase inocentes, mas que o inflamaram a ponto de ele esquecer a prudência e querer cometer um desatino. Seria capaz de deflorar Kate? De roubar deliberadamente a castidade de uma mulher sem que ela estivesse preparada? E quanto a ele? Estava preparado?... Excitado, deslizou as finas alças da camisola pelos ombros de marfim e desnudou os seios alvos, comprazendo-se em brincar eroticamente com os mamilos, os quais mais pareciam botões em flor. — Oh, Marcus... — Kate suspirou com um misto de paixão e medo. — Nós não deveríamos... Não podemos... — Podemos fazer qualquer coisa que tenhamos vontade, Kate. — Mas é errado! — Não, não é. — Está sob o efeito da poção que tomou. Ele sorriu, triunfante. — Disse que era um remédio para mulheres. Flagrada em sua mentira, ela não respondeu. Também devia estar ainda sob o efeito do alucinógeno, pois tinha a impressão de já ter vivido outras experiências como aquela ao lado de Marcus. 56
  57. 57. — Você é tão perfeita, Kate... E é toda minha. — Não compreendo o que quer de mim — ela protestou, sem forças. — Compreende, sim. Desejava-o dolorosamente. Seu corpo ondulava para receber suas carícias. Seu peito arfava com as investidas da língua quente em seus mamilos. Marcus os lambia, umedecendo-os até levá-la à loucura, enquanto ele próprio parecia estranhamente confortado, quase pacificado pelo gesto. — Marcus... — ela deixou escapar a certa altura, completamente arrebatada. — Gosto tanto quando faz isso... Ele não teve certeza de tê-la ouvido. Já haviam tido aquela experiência? Era possível? Ou apenas mais um efeito da droga? Kate o puxou mais para si, incitando-o a devastá-la com seus beijos. Ele continuou a saborear o seio tenro, mordendo-o até sentir o mamilo intumescido, depois passou para o outro, e lhe deu a mesma atenção. Mais para baixo, pressionava os quadris contra os dela, provando o quão desesperadamente a desejava. Kate adotou seu ritmo, investindo contra ele quase com fúria. E tão absorvida pelas sensações se encontrava, que não percebeu quando Marcus levantou sua camisola e a tocou entre as pernas. — Não! Tentou fechá-las, porém ele a prendeu com o próprio corpo. — Shhh... Não lhe farei nenhum mal. Deixe-me fazer isso por você... Por nós dois — murmurou e, após afagá-la eroticamente, deslizou dois dedos por seu mais secreto recanto. Ela estava úmida, pronta para o que viria. — Não... — ela gemeu e arqueou o corpo, tentando empurrá-lo, mas só fez delirar ainda mais com o toque. — É tão... — Impróprio?... Ou delicioso? 57
  58. 58. — Sim! Não sei... É quase insuportável! Com o polegar, Marcus descreveu círculos sobre o centro de seu prazer e Kate soltou uma exclamação, o corpo pedindo para ser satisfeito embora a mente se recusasse. — O que está acontecendo comigo?! — perguntou-se, chocada. — Está sentindo prazer. — Mas não quero isso de você. Pare, por favor... — Impossível — ele sussurrou, sem atendê-la. — Seu corpo está implorando para que eu continue. — Não posso... Não vou fazer isso... — Então o faça por mim, Kate. Por mim. A carícia ousada e contínua se prolongou por mais algum tempo, enquanto ele sugava um seio túrgido, até que ela se retesou, entregando-se ao êxtase com uma ferocidade que Marcus não conhecera com mulher alguma. Ele a observou, deslumbrado e excitado por lhe proporcionar um orgasmo tão intenso e glorioso. O corpo de Kate sacudiu por mais algum tempo, e ele continuou a se mover sobre ela, a beijá-la suave e carinhosamente, satisfeito por ser o homem a quem ela confiara a si própria de corpo e alma. Kate finalmente abriu os olhos, retomando aos poucos da enlouquecedora vibração a que fora lançada. Marcus esperou que ela correspondesse ao seu sorriso, que tornasse a baixar os olhos por timidez... ou ainda que o censurasse por seu atrevimento. Qual não foi sua surpresa, contudo, quando Kate desatou a chorar. — Kate! — Estou perdida, não estou? — Em absoluto! — ele garantiu, chocado. 58
  59. 59. — Está em meu sangue — ela declarou em meio a um soluço. Marcus interpretou a sentença como um arroubo de paixão, e não como uma constatação do medo que a assolava quanto à própria origem, e seus lábios se curvaram em um sorriso. O pranto, ainda hesitante, se transformou em um choro sacudido por fortes soluços. Marcus a fitou, abismado. A experiência devastara Kate. Abraçou-a, sem saber o que fazer. Aninhou-a junto ao peito, embalou-a tal qual a uma criança. Não queria que ela sofresse. Estranho, pensou, atordoado. Ele nunca se importara em fazer os outros sofrerem. Depois de conhecer Kate, contudo, parecia outra pessoa. Vários minutos se passaram até que, aos poucos, ela foi serenando e adormeceu. Ele se viu, então, tomado por um enorme alívio. Sentou-se devagar, pensando que aquilo também era uma novidade. Depois de saciar seus desejos, não costumava permanecer no leito de uma mulher. Uma sensação de ternura vibrou em seu peito ao ver a figura frágil e feminina entregue à sua confiança. Com uma emoção que não soube explicar nem a si mesmo, ajeitou-a melhor na cama e a cobriu com os lençóis. Antes de se levantar, ainda a beijou levemente nos lábios. Recompôs-se antes de sair. — Boa noite, meu anjo. Alguns minutos depois, ainda ensaiava uma segunda despedida. Incrível, mas algo parecia prendê-lo a Kate. Ele não conseguia se afastar. Assim, deitou-se ao lado dela e fechou os olhos para melhor se recordar dos momentos preciosos que tinham acabado de viver. 59
  60. 60. Os primeiros clarões da aurora se infiltravam pela janela quando Marcus despertou contra a claridade do quarto. Um passarinho cantava lá fora e ele sorriu, sentindo-se estranhamente realizado. Estendeu o braço para trazer Kate para junto do peito, mas abriu os olhos, surpreso, ao encontrar um vazio ao seu lado. Ela não estava lá. Aquele, aliás, não era o quarto dela, nem sua cama. Ele se encontrava em seus próprios aposentos. Em seu próprio leito. Atônito, sentou-se. Precisou se recostar novamente no travesseiro, pois sua cabeça latejava. A impressão que tinha, era de que vivia a pior das ressacas. Mas não bebera nada na noite anterior, a não ser aquela poção. A que horas teria deixado o quarto de Kate? Como chegara ao dele? Ou o encontro acontecera apenas em sonho? Sentia-se tonto, desorientado. Tivera Kate nos braços genuinamente, ou a incrível experiência fora apenas uma fantasia erótica? De repente, viu a fita verde que prendia os cabelos dela amarrada em seu pulso. Estremeceu ao recordar as palavras do boticário. Aquele, certamente, era um sinal da autenticidade da poção. Um instante depois, se levantou, decidido. Não haveria mágica no mundo capaz de fazê-lo se apaixonar novamente. A ferida que levava no peito graças à sua última experiência com o amor sangrara tanto que quase o levara à morte. Ele não entregaria seu coração a ninguém mais. A fita em seu braço significava que ele se deitara com Kate. Nada além disso. Ou, no máximo, que ela era ardente demais para que esperasse até a meia-noite para tornar a vê-la. 60

×