Rachel tinha apenas dezoito anos de idade e uma certeza muito grande:
ela amava Jake Courtenay. Pouco lhe importava que ele fosse vinte e dois anos
mais velhos, que carregasse nas costas um casamento fracassado e que sua saúde
estivesse abalada por uma estafa. Ela o queria e aceitou casar-se com ele em duas
semanas. Orgulhosa da paixão e da atração física que sentia por seu marido.
Rachel ofereceu-lhe seu corpo, pediu a Jake que a amasse. Mas ele disse que não,
que eles tinham que esperar. O que significava aquilo? Então era verdade que
Jake havia casado com ela só para fazer ciúmes a primeira mulher?
CAPITULO I
Jake Courtenay se deteve nas compridas janelas da suíte do primeiro
andar do Hotel Tor Court, contemplando o porto. Durante o verão, o cais vivia
uma intensa atividade, com pequenos pesqueiros, lanchas e veleiros, todos
disputando espaço no porto lotado. Em novembro, porém, a maioria dos veleiros
estava coberta por lonas, e embora alguns iatistas persistentes enfrentassem os
ventos de outono, a maior parte dos proprietários já tinha se retirado.
O rosto de Jake se contraiu. O cais de Tor em novembro não era nem um
pouco divertido e, se a escolha fosse sua jamais teria ido para aquele hotel. Claro
que poderia ter ficado no Boscombe Court em Bournemouth, ou no Helford Court
em Falmouth, e até mesmo no Fistral Court em Newquay, mas todos pareciam
iguais nessa época do ano. Em Nova York se hospedava no Parkway Court; em
Paris no Boulevard Court; e, se tivesse de descansar a beira-mar, seria então no
Court Mediterranée em Cannes ou no Court Itália em Juan ies Pins.
Mas a escolha não havia sido sua. O conselho do especialista fora mais
que eloqüente. Na verdade, suas palavras haviam soado mais como um dogma
que como uma opinião: descanso completo por pelo menos seis meses; nada de
trabalho, viagens, negócios, reuniões sociais, álcool, etc.
Maxwell Francis era um amigo, claro, bem como um médico de sucesso
entre os ricos e famosos. Ele estava acostumado a lidar com poderosos homens de
negócios, homens de vida agitada que alimentavam suas úlceras com champanhe
e caviar.
O ponto crucial nisso tudo era que Jake jamais pensava em algum dia
precisar de Maxwell. Ele sempre sentira um certo desprezo pelas pessoas que se
entregavam por fadiga, por exaustão. Jake havia ignorado de propósito os avisos
que seu próprio corpo havia lhe dado.
A rede Court de hotéis estava crescendo a cada ano, e sua reputação pela
boa comida e perfeito serviço era a arma contra os rivais no ramo. O sonho de seu
pai fora realizado, e a reputação nacional de Charles Courtenay fora expandida em
âmbito internacional por seu filho.
Mas ser proprietário de hotéis nas cidades mais badaladas do mundo
exigia muitas viagens, muito desgaste físico em constantes encontros sociais,
além de muitas horas mal dormidas em aviões. Começou a perder peso, beber
muito e comer pouco, e a estafa inevitavelmente sobreveio. Mesmo assim ele
lutara contra ela. Sentado à mesa de negócios, ouvindo os executivos delineando
seus projetos para o ano seguinte, ele havia sentido uma terrível falta de
concentração, uma total incapacidade para coordenar suas idéias sobre o que
estava sendo discutido. Agora seu cérebro parecia vazio e tudo o que conseguia
ouvir eram as batidas do próprio coração. A mesa à sua frente parecia curvar-se e
mexer-se, como em alto-mar.
Maxwell fora bastante compreensivo, mas inflexível: se Jake continuasse
naquele ritmo de vida, acabaria se matando. Eram palavras pesadas,
principalmente para um homem que durante quarenta anos se orgulhara do seu
porte jovem. Jake a princípio não acreditou nele e resolveu ter um descanso
somente depois que o caso Pearman fosse resolvido, isto é, quando a cadeia
Pearman de hotéis tivesse sido adquirida pela organização Court.
Mas isso não fora possível. Pela primeira vez em sua vida, Jake sentiu-se
incapaz. Tornou-se vítima da estafa que por muito tempo desprezara.
Começou a pensar em que época seu ritmo de vida tinha se alterado pela
primeira vez. Quando o seu casamento com Denise terminou, talvez? Mesmo
naqueles dias havia trabalhado bastante; aliás, essa foi uma das razoes que
Denise alegou para pedir o divórcio: sua obsessão pelo trabalho. Mas Jake sabia
que era ela quem mais desfrutava do resultado daquele trabalho. Ela gostava da
vida agitada e quando Jake se ausentava, não tinha tido escrúpulos em procurar
outros homens para dividir seus carinhos e sua cama.
Jake havia sido compreensivo até então, mesmo porque ele também não
era tão fiel, e se Denise necessitava daquele tipo de estímulo ele não poderia
proibi-la. Até que um obscuro príncipe italiano entrou em cena e acenou-lhe com
seu título e sua fortuna. A idéia de se tornar princesa era tentadora, por isso
Denise não levou em conta o fato de seu príncipe ser quarenta anos mais velho,
e que dificilmente agüentaria seu ritmo de vida.
Da parte de Jake, foi um alívio estar livre novamente. Fora uma bênção
não terem tido filhos. Denise não os quisera e, apesar de Jake saber que seus pais
queriam muito um neto, ele próprio tinha percebido quanto essa criança sofreria.
Depois, Jake não mantivera nenhum relacionamento mais sério com
mulheres, e seu trabalho o absorvera dias e noites também.
E agora lá estava ele, hóspede em um de seus próprios hotéis, não
identificado por ninguém, exceto pelo gerente do hotel, Cari Yates. Isso também
fora ideia de Maxwell, e Jake teve de admitir que o médico sabia o que estava
fazendo. Ninguém procuraria por Jake Courtenay ali. Depois daquele período na
clínica ele precisava de tempo para se reintegrar à vida normal. Tinha superado já
a sensação de pânico provocada por seu internamento, mas sabia, em seu íntimo,
que a idéia de retornar a Londres e retomar o ritmo febril de antes era
insuportável.
Tirou as mãos dos bolsos da calça marrom que usava e observou-as. Os
ossos eram visíveis, mas já não tremiam como antes.
Com um suspiro impaciente colocou-as no bolso novamente, afastando-se
da janela.
Era fim de tarde, e o posto começava a se iluminar. Logo estaria escuro,
e outra longa noite se estenderia à sua frente. Seus olhos percorreram o quarto e
a estante onde se encontrava uma tevê colorida. Televisão pensou com desprezo.
Estava cansado de televisão. Nos últimos meses assistira a tudo, menos aos
noticiários. Esta era outra das exigências de Maxwell.
O rosto de Jake se contraiu, amargo. Meu Deus, ele parecia ser criança
mais uma vez, protegido de tudo que pudesse aborrecê-lo! E pensar que ele, Jake
Courtenay, chegara a isso! Estafa mental!
Uma batida na porta distraiu-o momentaneamente de seus pensamentos.
Um garçom entrou, empurrando um carrinho de chá. Sua refeição da tarde! Jake
puxou uma nota do bolso e entregou-a ao garçom, agradecendo. A idéia de ficar
ali sozinho tomando chá era uma tortura, pois estava há muito no quarto e sentia-
se aborrecido. Um bom sinal, talvez, mas qualquer coisa mais extenuante podia
deixá-lo fraco e tremulo. Era humilhante!
A porta se fechou atrás do garçom e Jake começou a se servir
automaticamente de um sanduíche. Continuava sem apetite, e comer não era
mais que uma aborrecida necessidade. Viver! Um sorriso irônico aflorou em seus
lábios finos. Era isso viver? Ou existir, apenas? E qual seria o fim de tudo isso? Ele
conseguiria controlar para sempre seu entusiasmo pelo trabalho, que o motivara a
vida toda? Sem ele, Jake se sentia um homem pela metade.
Levantou-se e foi novamente até a janela; tinha uma figura alta e
esbelta, que as calças justas amoldadas aos quadris e um suéter marrom e bege
acentuavam. Fios de cabelos loiros misturados a fios cinzentos ultrapassavam o
colarinho às suas costas. Os últimos meses haviam deixado marcas nele, e Jake
sabia que ninguém se enganaria sobre sua idade como antes. As linhas à volta de
sua boca e narizes estavam marcados e seus olhos pareciam muitos fundos.
Apesar disso, ele era um homem que sempre atrairia as mulheres, com seus olhos
negros irresistíveis.
Muitas pessoas se apressavam para as filas de ônibus nas calçadas, e as
luzes das lojas já estavam acesas em todo o porto. Carros se dirigiam para os
subúrbios da cidade de Paignton, mais além, uma massa de luzes piscando. Seu
próprio carro se encontrava na garagem do hotel, somente para ser usado em
raras ocasiões. Guiar, como tudo de que mais gostava, havia se tornado um
esforço demasiado.
O pátio em frente ao hotel não era grande. Um muro baixo de pedra
separava-o da calçada, e dentro havia palmeiras entre plantas e outros arbustos.
Olhando para a rua. Jake observou dois dos hóspedes retornando ao
hotel. Eram duas mulheres — uma mais ou menos de sua idade, a outra bem mais
jovem. Ele sabia os seus nomes, pois quando chegou Cari Yates tinha lhe dado à
lista de pessoas que estavam no hotel. Eram a Sra. Fauikner-Stewart e sua
acompanhante, srta. Lesley. Jake já as tinha visto algumas vezes, no saguão e no
restaurante, embora quase sempre fizesse suas refeições no quarto. Entretanto,
de vez em quando sentia falta de companhia e ia então ao restaurante, sabendo-
se observado por vários olhos curiosos.
Olhando mais atentamente as duas mulheres, viu-as entrar pelo portão e
uma inexplicáveí curiosidade em relação a elas tomou conta dele. A jovem não
devia ter mais de dezoito anos e parecia jovem demais para acompanhar uma
mulher da idade da Sra. Fauikner-Stewart. Começou a pensar na aparente
aceitação da garota daquele modo de vida que estava levando.
Não havia gente jovem no hotel e, pelo pouco que pudera observar da
Sra. Faulkner-Stewart, ela não lhe pareceu ser muito paciente; mas a garota
parecia feliz o bastante para lhe sorrir de maneira amigável na portaria do hotel
quando saía para levar o cachorro de sua patroa passear. Alta, magra, com longos
cabelos loiros ondulados nas pontas, a ela não deviam faltar admiradores, embora
parecesse perfeitamente feliz atendendo aos caprichos de uma mulher com idade
para ser sua mãe.
Jake percebeu que seu chá estava esfriando e voltou-se para o carrinho
com impaciência. Que diabos lhe importava se a moça se contentava em correr
atrás de uma senhora rabugenta em vez de ter um outro emprego melhor? Ele
não tinha nada a ver com isso. E, pensando melhor, a julgar pela quantidade de
jóias que a Sra. Faulkner-Stewart usava, e pelo preço de suas peles, ela
obviamente podia pagar bem, e provavelmente a garota lhe tirava todo o dinheiro
que podia.
Quando terminou o chá estava escuro lá fora e, num impulso, decidiu dar
um passeio; pelo menos este era um passatempo permitido. Antes de sair vestiu
seu casaco grosso e pesado. O frio era outra coisa da qual devia se resguardar,
embora se recusasse a usar o cachecol de lã que a mãe tricotara para ele.
O elevador levou-o ao térreo, onde Cari estava conversando com a
recepcionista. O gerente ergueu a mão, cumprimentando-o, mas Jake não queria
parar, e com um breve aceno de cabeça dirigiu-se às portas giratórias. Estava
para empurrá-las quando percebeu a garota, que ocupara seus pensamentos há
pouco, se aproximando. Ela estava sendo arrastada pelos entusiásticos pulos do
poodle negro de sua patroa.
Jake se deteve, e esse segundo de hesitação foi o bastante para criar
uma situação em que teria sido muito rude de sua parte sair sem cumprimentá-la.
Percebeu que ela ia usar a porta de serviço para sair com o cão e apressou-se em
abri-la para que ela passasse.
Adivinhando sua intenção, a moça apertou o passo, e seu ombro roçou os
botões do casaco de Jake quando lhe agradeceu. Usando uma jaqueta curta de
couro e calça azul, ela parecia pouco agasalhada para o frio, mas Jake criticou-se
por se preocupar com isso. Ela era jovem e saudável! Isso bastava.
Jake esperava que a moça seguisse, e ficou um pouco desconcertado ao
encontrá-la esperando por ele, repreendendo firmemente o animal para se manter
quieto. Ela o fitou e sorriu, e um sentimento ilógico de desconforto apoderou-se
dele.
— Está uma noite fria, não? —- comentou ela, encurtando o passo do cão
e caminhando ao lado de Jake, e ele foi obrigado a responder:
— Sim, muito fria — concordou, um pouco seco, e ela o olhou de lado.
— Quanto tempo você vai ficar no hotel? —- perguntou, e ele se
impacientou com sua curiosidade.
— Não muito tempo — respondeu rápido e parou, passando por trás dela
para atravessar a rua. — Vou por aqui — acrescentou. — Boa noite.
A garota também se deteve.
— Também vou — disse-lhe.
Será que ela sabia quanto ele queria se ver livre dela? Jake estava
irritado por se encontrar em tal situação, e mais ainda com ela, por querer segui-
lo assim. Será que nunca lhe falaram dos perigos que uma moça corre, sobretudo
ao se aproximar de homens que nem conhecia? Ela é jovem, mas não uma
criança, ele pensou, irritadamente consciente de seus seios firmes delineados sob
a blusa. A menos que ela fosse mais velha do que aparentasse.
Apertou os lábios; não queria demonstrar seus pensamentos. Além disso,
as garotas de hoje pareciam acreditar em valores diferentes.
A calçada que margeava a costa era espaçosa e ele podia manter-se a
uma boa distância dela, mas depois de soltar o cão ela parecia satisfeita em
caminhar a seu lado, acenando com algum esforço seus passos com os dele.
—- Você é o Sr. Allan, não? — perguntou num dado momento.
O nome diferente soou estranho aos ouvidos de Jake. Allan era seu
segundo nome — Jake Allan Courtenay — e tinha achado uma boa ideia usá-lo
para evitar um possível reconhecimento. Ainda assim fez uma pausa. Começou a
pensar em como ela sabia seu nome, e resolveu que chamaria a atenção de Cari
Yates na próxima vez que o visse.
Assentiu com a cabeça, pressionando as mãos mais fundo no bolso do
casaco, e ela respondeu à sua muda pergunta sem mesmo percebê-lo.
— Delia, quero dizer, a Sra. Faulkner-Stewart perguntou para a
recepcionista quem era o senhor — disse ela. — Delia sempre quer saber o nome
dos outros hóspedes. Espero que não se incomode.
Jake olhou para a garota e viu que sua expressão bem-humorada dava-
lhe a exata impressão de que ela sabia muito bem que ele se importava. Mas não
ia lhe dar o prazer de admitir o fato.
— Não é segredo — disse abruptamente, e ela levantou os ombros,
colocando as mãos nos bolsos da jaqueta.
O vento batia em seus cabelos, e a todo o momento ela tinha que afastá-
los de seus olhos e boca. Às vezes batiam no casaco de Jake e isso o irritava
profundamente. Por alguns minutos andaram em silêncio, e então ela falou
novamente:
— Meu nome é Rachel, Rachel Lesley. Eu trabalho para a Sra. Faulkner-
Stewart.
Jake deu um suspiro fundo, mas não fez comentários. Mas estava
totalmente despreparado para o ataque que sobreveio.
— Você não é muito educado, não é? — perguntou ela, com audácia. —
Por que você não me diz logo pra eu dar o fora, se é o que você quer?
As palavras o paralisaram, e ele se virou e fitou-a com raiva.
— Como disse?
— Você ouviu o que eu disse —- afirmou ela. Jake então notou que os
olhos dela eram raiados de âmbar, a mesma cor de seus cabelos. — Se você quer
ficar sozinho, por que não diz logo?
As mãos de Jake se fecharam dentro dos bolsos.
— Não vejo razão para verbalizar o que me parece óbvio! -— exclamou,
seco.
— Eu só estava tentando ser simpática!
— Pois eu acho que a Sra. Faulkner-Stewart, se este é o nome de sua
patroa, deveria prestar mais atenção na educação de quem ela emprega, em vez
de se meter na vida alheia! Então talvez você fizesse coisa melhor que ficar por aí
seguindo estranhos!
Rachel engoliu em seco.
— Eu não fico por aí seguindo estranhos! Eu... Senti pena de você, só
isso!
A reação de Jake foi violenta. Como aquela menina, aquela criança —
porque ela era pouco mais que isso — podia sentir pena dele! Ela não sabia com
quem estava falando! Ela não o conhecia! Mas era claro que ela não sabia. Até o
momento, ele era o Sr. Allan, provavelmente uma figura bem diferente da de
antes, quando era Jake Courtenay. Este pensamento foi-lhe estranhamente
reconfortante e, apesar da impaciência, sua raiva começou a desaparecer.
— Desculpe-me — disse finalmente, tentando mostrar-se amigável. — Eu.
... Bem, não ouve muito contato humano ultimamente. . . E parece que perdi o
hábito da civilidade.
Imediatamente o rosto de Rachel se transformou e um sorriso largo deu-
lhe uma beleza que ele não havia percebido antes.
— Tudo bem — disse ela, sem rancor. — Eu deduzi que você estava
doente. Você não parece o tipo de homem que escolhesse ficar no Tor Court
nesta época do ano.
Jake não sabia como responder à observação.
— Não? — perguntou, irônico. — Bem, acho que não.
O poodle desviou a atenção deles naquele momento, fazendo barulho
para um pequinês briguento que estava sendo arrastado pela dona. Rachel correu
para segurar o poodle pela coleira, sob olhar irritado da dona do outro cachorro.
Jake observava a cena quando se deu conta de que estava perdendo uma
magnífica oportunidade para ir embora. Curiosamente, estava menos ansioso para
ir-se agora, mas a lembrança do que a garota lhe dissera ainda persistia. Podia ser
ridículo, mas ele estava ressentido por ser alvo de pena de alguém.
Mesmo assim, não pôde evitar uma olhada e sentiu um momento de
alívio ao vê-la afastar-se em direção ao hotel. Era uma menina simpática, e
provavelmente ele a tinha julgado muito rudemente. Afinal, hoje em dia os jovens
pareciam ter bem poucas inibições, e ela apenas tentara ser simpática, como ela
mesma dissera.
Mas não estava interessado em tornar-se amigo de ninguém no hotel.
Não interessava o quanto gentil as pessoas fossem, elas sempre queriam
especular, e Jake queria evitar isso. Além disso, ele podia imaginar a reação da
Sra. Faulkner-Stewart se soubesse que sua acompanhante estava se tornando
amiga de um homem de sua idade.
Por mais inocente que fosse essa relação, sempre haveria alguém para
lhe dar uma interpretação errada. Ele já podia antever a manchete dos jornais:
\"Industrial de meia-idade busca descanso com garota de colégio!\" Deus, só de
pensar nisso sentia calafrios. O poodle havia lhe dado uma boa oportunidade de
escapar e, das próximas vezes, ele tomaria cuidado para que suas caminhadas
não coincidissem com os passeios do cachorro.
CAPITULO II
Rachel não o viu por vários dias, e todas as noites, quando saía para
levar Menestrel a passear, detinha-se por alguns minutos no térreo, na esperança
de encontrá-lo. Mesmo assim, não havia sinal do homem alto e bronzeado cuja
feição sombria a perseguia em sonhos. Ele nunca mais aparecera no restaurante
e, apesar das tentativas de Delia de conversar com o gerente do hotel, este se
mostrara bastante arredio em falar sobre o hóspede da suíte do primeiro andar.
Rachel mesma não compreendia o porquê de seu interesse por ele. Afinal,
ele havia demonstrado que não desejava companhia, e estava claro que a
considerava tola e inconsequente, apesar de ter-lhe pedido desculpas. Ela não
comentara sobre o encontro com Delia.
Ao entrar com o pequeno carro de Delia Faulkner-Stewart no
estacionamento ao lado do hotel, lembrou-se de que há seis meses jamais
consideraria a possibilidade de aceitar esse emprego, mas as circunstâncias às
vezes mudam nossas vontades! Seis meses atrás ela ainda sonhava em ir para
Oxford, pensava em graduar-se. Seu pai então ficou doente e morreu em apenas
três semanas, e sua mãe, desequilibrada com isso, faleceu num acidente ao
atravessar de carro um trilho, quando o trem estava passando. O veredicto do
delegado fora este, mas Rachel no íntimo sabia que sua mãe não queria mais
viver. Ela era filha única, e desde criança percebera que sua presença não era
necessária. Seus pais se completavam e ela às vezes se sentia um estorvo para os
dois.
A dupla tragédia a chocara muito, e ao saber que além de algum dinheiro
do seguro ela não tinha mais nada, tornou-se curiosamente indiferente.
Foi então que Delia Faulkner-Stewart lhe fez aquela proposta. Delia havia
sido amiga de sua mãe e, apesar de não se encontrarem a muitos anos, ela tinha
ido a Nottingham para os funerais de seu pai. Segundo Delia, foi uma bênção que
ela ainda estivesse na cidade quando sua mãe sofreu o acidente, pois assim
Rachel não ficou só. Rachel desconfiava que Delia tinha ido a Nottingham para
convidar sua mãe, e não ela, como acompanhante, mas Delia nunca deixou
transparecer nada. Na época, insistiu para que ela não fizesse seus exames finais,
e que se tornasse sua acompanhante, já que sua acompanhante anterior havia se
casado.
No estado em que se encontrava, Rachel aceitou de bom grado que
alguém se responsabilizasse por ela. Somente semanas mais tarde, já refeita do
choque, ao se ver sob os constantes mandos e desmandos de Delia, é que se deu
conta do que havia feito. Mesmo assim, ainda lhe sobrara algum dinheiro, o
suficiente para que pudesse pagar seus exames, o que já a confortava bastante.
O marido de Delia também falecera, e, embora a tivesse deixado em
situação bastante confortável, ela se ressentia por não ter um homem a seu lado.
E não era muito atenciosa com Rachel. Delia ficava muito pouco em sua casa de
Londres, preferindo viver em hotéis, sempre na esperança de encontrar algum
novo marido. Sua única exigência era que esse homem fosse inglês, pois
desprezava os europeus em geral e raras vezes ia para o exterior.
Mesmo assim, Rachel não se sentia infeliz; pelo contrário, por ser de
natureza alegre, fora um ou outro pequeno aborrecimento, vivia bastante bem.
Manobrou o carro na vaga reservada e, acalmando o poodle que vinha no
banco de trás, abriu a porta, segurando-o antes que ele manchasse de lama sua
calça cor-de-rosa. Havia um carro desconhecido estacionado ao lado, e ela
observou suas linhas elegantes antes de se dirigir para o hotel. Quando se
aproximava da entrada viu dois homens que saíam, conversando, e seu coração
bateu mais forte quando reconheceu que um deles era o Sr. Allan.
Notou a relutância dele em cumprimentá-la. Será que ele sabia quanto
aquele olhar a perturbava? Seu coração bateu mais rápido quando ele disse:
— Olá!
Rachel conteve sua ansiedade, procurando responder
despreocupadamente:
— Olá, Sr. Allan. Como vai?
— Bem, obrigado.
Ele olhou para o senhor que o acompanhava, como se o desafiasse a
contradizê-lo. Rachel observou o outro homem. Havia alguma semelhança entre
eles, poderiam ser pai e filho. Estava claro que não seriam apresentados, e antes
que pudesse pensar em dizer algo já haviam passado por ela.
Mordendo o lábio, entrou no hotel de mau humor, censurando-se por sua
criancice. O que esperava dele, afinal? Ele parecia tão velho quanto seu pai, e a
olhava como uma colegial, claro. Só porque ele lhe despertara alguma simpatia. . .
Mas não, não era só simpatia. Ele tinha o olhar mais sensual que ela já
vira e, apesar de sua aparência cansada, a deixava excitada. Rachel sabia que
Delia teria um ataque histérico se soubesse de suas fantasias. Mas são apenas
fantasias, pensou, (puxando Menestrel) para que ele entrasse no elevador.
A suíte de Delia era no segundo andar; ela havia reservado uma sala e
um quarto duplo com banheiro para ela e um quarto simples para Rachel, o que
significava que Rachel era obrigada a dividir o banheiro com mais dois outros
quartos do mesmo andar. Mesmo assim, ela não se importava. Tomava banho
invariavelmente à noite, quando os outros hóspedes estavam no bar tomando
aperitivos antes do jantar, e. ao contrário de Delia, não gostava de se juntar a
outros hóspedes conhecidos.
Assim que ela e Menestrel entraram na suíte, Delia perguntou do quarto,
com voz irritada:
—- Rachel, é você? — O rosto da garota apareceu à porta do quarto. —
Você demorou muito.
Delia tivera uma daquelas dores de cabeça insuportáveis, coisa não muito
rara, e que eram seu tormento. Ficara a tarde toda na cama, recostada no
travesseiro, muito pálida, e era uma figura triste no seu negligê cor-de-rosa.
Ela tinha quarenta e três anos, e passava a maior parte do seu tempo
procurando parecer mais jovem, no que obtinha invariavelmente o resultado
oposto. Já tingira tanto os cabelos finos, que eles mais pareciam palha seca, e sua
pele fina como papel, era cheias de pequenas veias, resultado de muita comida e
pouco exercício.
Consciente da juventude de Rachel Delia a tratava com um misto de
inveja e irritação, pois não gostava de se sentir em desvantagem. Rachel segurou
Menestrel com desespero pela coleira, pois ele avistara o tapete peludo e tentador
ao lado da cama.
— Não consegui encontrar aquela marca de creme em lugar nenhum —
explicou.
A ruga que momentaneamente ocupara as sobrancelhas de Delia sumiu
por completo.
— Está bem, querida.
Rachel continuava a lutar com o poodle.
— Já tomou chá?
— Não. Fiquei descansando desde que você saiu.
— Está se sentindo melhor agora?
— Um pouco. — Delia tentava esconder de Rachel a capa de um livro
sensacionalista, e Rachel se virou para que ela não visse seu riso.
— Vou dar água para Menestrel.
— Está bem, e peça um chá também, querida.
Rachel fechou a porta, apesar dos latidos do cão. Desde o desastre de
alguns dias antes, quando ele derrubara todos os cosméticos e vidros de Delia,
estava proibido de entrar em seu quarto.
Encheu a tigela de Menestrel com água e, enquanto ele bebia rui-
dosamente, pediu o chá. Depois foi até a janela e começou a divagar. Quando
veria o Sr. Allan de novo? Ele ficaria mais tempo no hotel? E sua mulher, onde
estaria? Claro, pois um homem como ele devia ser casado. Mas por que ela não o
acompanhava?
A chegada do chá e de Delia interrompeu seus pensamentos. Só mais
tarde, quando tomava banho, retomou-os. O que ele pensava sobre ela? Se for o
que ele pensava! Ou ela era para ele apenas uma adolescente atrevida? Talvez ele
a achasse provocativa e insinuante! Rachel alcançou a esponja e começou a se
ensaboar. Estava confusa, confusa como nunca estivera antes.
Todas as noites no hotel eram iguais. Delia descia para o bar antes do
jantar e ficava conversando com alguns hóspedes amigos, enquanto Rachel
arrumava a suíte, dava comida a Menestrel tomava banho. Mais tarde, elas se
encontravam no restaurante e jantavam. Depois de comer, alguns hóspedes se
juntavam para jogar bridge, e como Delia apreciava cartas era invariavelmente
convidada. Este era o momento em que Rachel poderia fazer o que quisesse, mas
normalmente ela levava Menestrel para passear, depois assistia televisão e ia
dormir.
Nesta noite, entretanto, Rachel se sentia agitada. Ficou se arrumando
mais tempo que o normal, e se atrasou para o jantar. Hesitara bastante sobre o
que vestir. Desistiu de pôr um vestido branco que planejara usar, em favor de
uma calça de veludo e uma túnica bordada, mas acabou por voltar à primeira
escolha, sentindo-se tola por imaginar que isso importaria alguma coisa. O vestido
era longo, de algodão branco, com um cordão bem abaixo do busto, que o
realçava. Não era, definitivamente, o tipo de vestido que uma mulher mais velha
usaria, e foi por isso que hesitara em colocá-lo. Mas ela não era velha, afinal, e
não havia razão para querer parecer, mais velha.
O elevador parecia mais lento que de costume, e Rachel mordia os lábios
nervosamente quando ele parou no primeiro andar. Deu um passo atrás quando
reconheceu o homem que ia entrar no elevador e sentiu-se enrubescer. Sua
expressão era neutra e, após um instante de hesitação, resolveu entrar, juntando-
se a ela na repentina atmosfera de intimidade do elevador.
Usando um terno azul-escuro com camisa combinando e o pesado casaco
da outra noite por cima, ele reduzia as proporções do elevador de maneira
alarmante, e ela se sentiu consciente da masculinidade que emanava dele. Seus
seios excitados subiam e desciam num ritmo acelerado, os bicos endurecendo
visivelmente por baixo do vestido.
Se o Sr. Allan percebeu a sua agitação não o demonstrou e seu boa-noite
foi o mais impessoal possível. Ela nunca estivera tão perto dele, e pôde ver um
movimento de contração em seu rosto. Talvez ele não seja tão indiferente a mim
quanto parece, pensou. O que teria provocado aquela tensão em sua boca?
Impaciente pelo modo como ela o observava, Jake a olhou firme e suas
pernas fraquejaram. Por sorte estava de saia comprida, pois o tremor de suas
pernas seria perfeitamente visível.
— Eu... Você vai descer para o jantar? — conseguiu perguntar e ele
sacudiu a cabeça.
— Já tentei — respondeu, seco.
— Estou atrasada — disse ela, quando a porta do elevador se abriu.
Jake se deteve para que ela o precedesse. Rachel sentia-se magoada;
mais uma vez ficara em desvantagem em relação a ele. Se ao menos tivesse
trazido Menestrel, teria uma boa desculpa para acompanhá-lo onde quer que
fosse. Ele a estava seguindo, parecendo ler seus pensamentos.
— Não tem cão para passear hoje?
— Não.
— Gosto do seu vestido.
Mais uma vez ela se sentiu enrubescer.
— Obrigada.
Como se estivesse se censurando pelo elogio que fizera, ele se virou
rapidamente e disse;
— Bom apetite.
Rachel observou-o atravessar o saguão e desaparecer pelas portas
giratórias, sentindo uma profunda frustração. Por que ele havia dito aquilo? Ele
realmente tinha gostado do seu vestido, ou sentira pena dela? Puxa vida! Ela
agora estava perturbada, e ainda tinha de encarar a irritação de Delia por seu
atraso.
Estava se dirigindo para o restaurante quando a voz de Cari Yates a fez
parar. O jovem gerente do Tor Court podia conquistar um bocado de corações com
seu charme, mas Rachel não gostava de seu tipo louro de olhos azuis.
— Srta. Lesley... -— Seus olhos revelavam um interesse exagerado.
— A Sra. Faulkner-Stewart pediu-me que lhe arrumasse entradas para o
concerto no conservatório. -— Ele lhe estendeu um envelope branco.
— Pode entregá-las?
— Obrigada.
Rachel pegou os bilhetes, intrigada. Por que ele não os enviara pelos
mensageiros, já que sabia que Delia estava jantando àquela hora?
— Está especialmente bonita esta noite, srta. Lesley. — Cari Yates falava
com a segurança de quem nunca foi repelido por mulher alguma. — Eu não sabia
que conhecia Jake Allan.
— Darei os bilhetes a Sra. Faulkner-Stewart. — Seu sorriso era forçado e
sentiu uma certa satisfação ao perceber o desapontamento dele na medida em
que se afastava.
Delia não a esperara; saboreava salmão defumado e recebeu o envelope
das mãos de Rachel com visível aborrecimento.
— Não lhe pago para ficar fazendo hora em portarias de hotéis, Rachel! —
falou alto e Rachel preferiu se calar.
Naquela noite, em sua cama, Rachel viu-se relembrando os momentos no
elevador. Então seu nome era Jake! Pelo menos podia agradecer Cari Yates por
aquela informação. Jake Allan? Sim, era um nome bonito, caía-lhe bem.
Durante os dias seguintes Rachel teve pouco tempo para si mesma; Delia
ficou de cama por um problema estomacal e seus enervantes chamados e
exigências a atormentaram o tempo todo. Não havia nem mesmo as sessões de
bridge à noite para quebrar a monotonia e, fora algumas vezes que conseguia
escapar sob o pretexto de levar Menestrel para passear, ela se mantivera ocupada
o tempo todo cuidando de Delia.
A verdade é que à vontade de ver Jake aumentava dia a dia, e Rachel
começou a pensar que talvez ele tivesse tido uma recaída e não tivesse ninguém
para cuidar dele. Mas não havia a quem perguntar sobre ele, a não ser Cari Yates,
e ela preferia não revelar seu interesse para o gerente.
Perto do fim da semana Delia já se restabelecera, e Rachel, que até então
tinha tomado as refeições no quarto, estava ansiosa para descer para o jantar. E
se ele fosse ao restaurante? Teria sentido a sua falta? Dificilmente, pois ele quase
não comia no restaurante. De caso pensado, escolheu o vestido branco para usar
naquela noite. Era bonito, e com os cabelos soltos sobre os ombros nus ela ficava
bastante atraente perto de outras garotas de sua idade. Quem sabe ele estaria lá?
Mas Jake não estava jantando no restaurante. A mesa que ocasio-
nalmente ocupava estava vazia, e a falta de talheres indicava que ele não viria.
Rachel apertou os lábios, desapontada, e Delia, excepcionalmente atenta após o
longo período de repouso, percebeu sua inquietação.
— O que aconteceu? — perguntou, olhando à volta, curiosa. — O coronel
está tentando atrair sua atenção novamente? Mas esse velho canastrão é
realmente impossível! Vou ter uma conversinha com o Sr. Yates sobre isso.
— Por favor, — Rachel interrompeu-a, balançando a cabeça ner-
vosamente. — O coronel nem está olhando para este lado! Eu... Estava pensando,
é só.
— Posso saber no quê? — Delia estava curiosa.
— Nada em especial. — Rachel tentou distraí-la, abrindo o cardápio. —
Veja! Hoje têm seu prato predileto, panquecas. Eles devem ter adivinhado que
você havia sarado hoje.
Terminada a refeição, o velho coronel sobre o qual Delia havia reclamado
aproximou-se. Após submeter Rachel a uma pequena inspeção com os olhos,
virou-se para Delia e exclamou galantemente:
— Que bom vê-la novamente, querida. O jogo não tem sido o mesmo
sem você. Espero que se junte a nós essa noite.
— Senti falta de nossa dupla também, coronel. —- A indignação de antes
se desmanchara por completo com as galanterias. — Eu sei que bridge não é
divertido com três jogadores apenas!
O olhar brilhante do coronel perscrutava Rachel novamente e, voltando
sua atenção para Delia, ele tentou prestar atenção ao que ela falava.
— Como? Ah, claro. Mas, para dizer a verdade, conseguimos persuadir
outro de nossos hóspedes a jogar conosco ontem. Você já deve tê-lo visto, o Sr.
Allan.
Rachel controlou o sobressalto que as palavras do coronel lhe causaram,
enquanto Delia, animada, respondia:
— Sr. Allan! — Seu interesse era evidente. — Claro, sei quem é. Mas...
— ela fez uma pequena pausa, obviamente procurando as melhores palavras para
se expressar — ele parece tão quieto, tão só. Um homem bastante resguardado.
— É. — O coronel estava perdendo o interesse pela conversa. — Então,
vamos jogar mais tarde?
— Claro. — Delia umedeceu os lábios. — O Sr... Allan também estará no
jogo?
O coronel balançou a cabeça e, vendo que Rachel sequer o olhava,
começou a se afastar.
— Acho que não. Ontem já foi difícil trazê-lo! Tive de insistir muito. Vejo-
a mais tarde, querida.
Depois que o coronel se afastou, Delia soltou um suspiro de excitação.
— Imagine só! Ele jogando cartas. É bom saber que ele não é tão
inatingível assim, não é? — Rachel não respondeu. — Não é? — repetiu.
Rachel forçou-se a erguer a cabeça, mas tudo o que podia pensar era que
na noite anterior, quando passara na portaria com Menestrel, ele estava a poucos
metros dela, jogando bridge! Era de enlouquecer!
— Você parece estar bem interessada — disse ela por fim, escondendo a
própria frustração.
— E por que não? Ele é o homem mais interessante do hotel, afinal de
contas!
— Você acha?
— Claro! Você não? Ah, não, claro, ele é muito velho. Cari Yates é mais
adequado a você. Aliás, estou surpresa por não corresponder, já que parece
ansioso para sair com você.
O rosto de Rachel ficou vermelho, tanto pela observação de Delia quanto
pelo que ela dissera sobre Jake. Felizmente, Delia só enxergava o que queria, e
agora sem dúvida devia estar fazendo planos para cercar Jake e convidá-lo para
seu círculo de amigos.
Depois de várias xícaras de chá, Delia retirou-se para jogar enquanto
Rachel se dirigia desconsoladamente para o elevador no saguão. Havia uma
televisão colorida na sala de estar, mas ela preferia ficar em seu quarto, mesmo
com um aparelho menor. Mais adiante havia o bar, onde fregueses costumeiros se
misturavam aos hóspedes, mas entrar naquele ambiente enfumaçado também não
lhe atraía.
Estava para se virar e entrar no elevador quando avistou Cari Yates à sua
frente. Ele lhe sorriu.
— Está só?
Rachel lhe dirigiu um olhar frio.
— Parece que sim, não?
— Então, você não é fanática por bridge?
— Não.
Rachel fez menção de andar, mas ele era insistente.
— Posso lhe oferecer um drinque?
— Não, obrigada.
— Por que não?
Ela hesitou, tentada a tirá-lo de seu caminho de uma vez por todas, mas
com o canto do olho avistou Jake Allan entrando no hotel e atravessando o saguão
na direção deles. Se fosse embora agora, perderia uma ótima oportunidade de lhe
falar, pois sem dúvida ele se aproximava para trocar algumas palavras com o
gerente.
— Eu... Bem, eu não bebo — respondeu, medindo mentalmente à
distância entre ela e Jake.
— Podemos tomar um suco de tomate — sugeriu Cari prontamente, mas
antes que ela pudesse responder uma sombra acercou-se deles. Cari virou-se,
impaciente, para ver quem ousava interrompê-los, mas assim que reconheceu
Jake suas feições mudaram.
Rachel ficou impressionada. Quem quer que fosse, Jake Allan certamente
tinha autoridade sobre ele.
— Boa noite. — Os olhos escuros se detiveram sobre Rachel.
— Boa noite. Cari.
Cari sorriu, procurando parecer simpático.
— Aproveitou o seu passeio, Sr. Allan?
Sr. Allan! Rachel ergueu as sobrancelhas. Por que não o tratava pelo
primeiro nome?
— Muito. O jantar já acabou?
— Oh, sim, há alguns minutos. O jogo já começou.
— Está bem. — O olhar de Jake voltou-se para Rachel novamente. —
Como vai, srta. Lesley? Não a tenho visto ultimamente.
— Eu... A Sra. Faulkner-Stewart esteve. . . Indisposta. Estive cuidando
dela.
— E cuidando bem, com certeza — disse ele com um brilho irônico nos
olhos. Dirigiu um olhar a Cari, como se estivesse se certificando da situação. —
Agora, com licença...
Rachel mal olhou para Cari e, tropeçando nas palavras, fez uma pergunta
que saiu de repente:
— Vai subir, Sr. Allan?
— Sim.
— Também vou. Bem, boa noite, Sr. Yates.
O gerente apertou os lábios, mas Rachel o ignorou. Seu coração batia
forte enquanto ela apressava o passo para se juntar a Jake em direção aos
elevadores.
— Você não devia ter feito isso.
— Feito... O quê? — O rosto de Rachel queimava. Jake olhou-a
acusadoramente.
— Yates terá uma impressão errada sobre nós.
— Não estou preocupada. — Rachel tremia.
— Talvez eu esteja.
— Mas por quê? Eu estava indo para meu quarto quando ele me parou.
Jake arrumou o cabelo atrás do colarinho e Rachel teve dificuldade para
desviar os olhos da pele bronzeada de sua nuca.
Entraram no elevador e Jake apertou o botão do primeiro andar, sem
olhar para ela. Quando as portas se abriram e ele deu um passo para sair, Rachel
se anteviu chorando em seu quarto a noite toda. Então, de repente, ele se deteve.
— O que você pretende fazer agora? Rachel engoliu em seco.
— O que eu... Bem, assistir televisão e dormir, acho.
— E se eu lhe oferecesse outra alternativa? — Seu olhar firme acabava
com os pobres nervos dela.
— Que alternativa?
Ele suspirou, impaciente consigo mesmo e com ela.
— Qual o seu nome? Rachel? Rachel sabe quantos anos eu tenho?
Ela ergueu os ombros, incerta.
— Trinta e oito trinta e nove...
— Quarenta anos. E você?
— Quase dezenove.
— Dezoito!
— Está bem, dezoito.
Jake olhou para cima, como se estivesse se censurando.
— Devo estar ficando louco!
Sem qualquer outra palavra saiu do elevador, cuja porta se fechou logo
em seguida. Sem conseguir se conter, Rachel apertou o botão de emergência e
saiu para o corredor, sentindo-se terrivelmente só quando as portas se fecharam
às suas costas.
Jake, que estava se dirigindo para sua suíte, olhou para trás com raiva ao
avistá-la ali parada. Virou-se lentamente, com as mãos no bolso.
— O que você pensa que está fazendo?
Rachel balançou a cabeça, sem conseguir se explicar.
— Eu... Eu posso usar as escadas de serviço.
— É melhor que você se vá. Se alguém a vir aqui, neste andar... —Jake
se interrompeu, ao ver que os lábios de Rachel tremiam.
— E daí? — Rachel perguntou em voz alta, já que se sentia humilhada.
Jake olhou para ela duramente.
— Está bem, está bem. Se você não se importa, por que me preocupar?
— Indicou a porta de seu quarto e acrescentou: — Venha!
— Poderíamos tomar alguma coisa.
— Pensei tê-la ouvido dizer que não bebia.
—- E não bebo. Não muito.
— Nem eu. Meu... Médico não me permite.
Essa frase foi dita com sarcasmo, e Rachel adivinhou que nem sempre
fora assim; antes ele devia beber bastante.
— Bem... Poderíamos tomar café — arriscou ela, mas ele balançou a
cabeça.
— Acho que não.
— E por que não?
— Não tenho pretensões de tomar café com você e depois enfrentar sua
temível guardiã.
— Ela não é minha guardiã — protestou Rachel. —- Ela apenas me
empregou como sua acompanhante, e eu sou maior. Posso fazer o que quiser.
— E o que você quer? — Ele contemplou seu rosto severamente. —
Rachel, por que eu? Por que não Cari, ou qualquer outro?
Rachel deu um passo involuntário para frente. — Você... Quer-me? Jake
torceu os lábios.
— Sim, eu quero você.
Virando-se, ele colocou a chave na porta e estava para abri-la quando
duas senhoras surgiram no corredor, e seus olhares se aguçaram ao
reconhecerem Rachel. Ao se entreolharem, elas demonstraram claramente o que
estavam pensando.
Rachel sentiu o rosto queimar, mas Jake as ignorou, abrindo a porta e
acendendo a luz. Ele se virou e esperou que ela o olhasse novamente. Sua voz
soou calma:
— Então? Por que não aproveita e vai com elas?
Rachel hesitou, mas depois entrou com determinação na suíte lu-
xuosamente mobiliada. Deu um suspiro de alívio quando a porta se fechou e se viu
longe dos olhares acusadores que sentira as suas costas.
CAPITULO III
O ambiente era reconfortante. Devia ser a melhor suíte do hotel. Os tons
verdes e ouro do tapete se repetiam nas cortinas e almofadas, combinando. Havia
várias pequenas mesas, uma televisão tão grande quanto à de baixo, e uma mesa
de jantar ao lado da janela, com uma vista magnífica do cais.
Na medida em que ela observava tudo, Jake tirou o casaco e deixou-o
sobre uma cadeira, junto à porta. Depois se dirigiu para a enorme lareira de
mármore, obsoleta agora que havia aquecimento central. Seu perfil bronzeado
contra o mármore tinha uma beleza e um mistério proibidos, e por um momento
ela se sentiu assustada.
— Já está se recriminando? — perguntou ele, irônico.
— Não.
— Quem eram aquelas mulheres?
— Conhecidas da Sra. Faulkner-Stewart — respondeu Rachel. — Que
vista maravilhosa você tem daqui.
— Você acha que elas lhe dirão que esteve aqui? Rachel suspirou,
resignada.
— Não sei.
— Você não está preocupada?
— Não!
Ele ergueu os ombros, e os olhos de Rachel se sentiram irresistivelmente
atraídos pela musculatura visível sob as roupas elegantes. Parecia despreocupado.
— Se você insiste. Fale-me da Sra. Faulkner-Stewart. Ela é alguma
parente sua?
— Já lhe disse. Ela me empregou como sua acompanhante.
Somente isso? — Ele parecia surpreso. — É uma ocupação incomum para
uma menina da sua idade e da sua geração.
— Ela era muito amiga de minha mãe. Quando meus pais morreram,
primeiro meu pai e minha mãe poucas semanas depois, Delia resolveu tomar
conta de mim.
— Mas com certeza não era isso o que você pretendia fazer da vida. Uma
menina como você.
— Para falar a verdade, eu estava planejando entrar na Universidade em
Oxford quando meus pais morreram. Delia achou que seria melhor eu dar um
tempo para mim mesma.
— E assim ela teria uma acompanhante à mão.
—- Não foi assim — protestou Rachel. — Eu poderia não ter passado nos
exames.
— E você ainda pretende fazê-los? No ano que vem, por exemplo?
— Talvez, se eu tiver dinheiro. . .
— Dinheiro! — Jake repetiu a palavra de Rachel com um grunhido. —
Claro. Tudo gira em torno de dinheiro, não é?
— Não diria isso — protestou, indignada.
— Não?
— Não.
— Então, ainda por cima é romântica!
— Quer que eu vá embora? — perguntou Rachel, de cabeça baixa.
— Isso não merece resposta! Ora, Rachel, você não está lidando com um
garoto inexperiente.
— Como?
— Falsa modéstia não combina com você! — disse ele friamente,
descansando um pé na pequena grade de ferro que rodeava a lareira. — Como eu
lhe disse antes, devo estar ficando louco!
— Bem. . . Não quero incomodá-lo. . .
Rachel virou-se repentinamente, pois não conseguia mais agüentar
aquele jogo de gato e rato; ela o havia iniciado, então era bom que ela mesma
acabasse com ele.
Mas, antes que Rachel desse outro passo, ele se interpôs entre ela e a
porta com surpreendente agilidade, seus dedos apertando o braço dela
dolorosamente. Tentou livrar-se dele, assustada com o brilho de seus olhos, mas
Jake a puxou contra si e ela sentiu a dureza e o tamanho do corpo dele contra o
seu. Os braços de Jake a envolveram, deslizando por suas costas, trazendo-a para
mais perto, e pela primeira vez Rachel percebeu que ele a desejava.
— Você não faz idéia de como me perturba! — exclamou Jake e curvou-se
para alcançar seu pescoço com a boca.
O pânico de Rachel começou a diminuir.
— Pensei. . . Que estivesse zangado comigo.
— E estou — respondeu ele. — Eu não deveria estar segurando você
assim e nem você deveria estar permitindo.
— Por que não? — Sua boca estava seca, e ela molhou os lábios com a
língua, enquanto as mãos dele deslizaram até seus seios e começaram a acariciá-
los.
Mas Rachel sabia por quê. Seus instintos a avisaram de que ela estava
brincando com fogo, mas não estava disposta a desistir.
— Jake. . . — Sua voz saiu como um soluço, usando seu nome pela
primeira vez sem perceber, e ele a apertou mais, beijando-a calorosamente.
Um milhão de estrelas pareceram explodir a sua frente. Parecia que
estava sendo beijada pela primeira vez. Suas experiências anteriores não eram
nada em comparação ao que sentia naquele momento. As coxas rígidas de Jake
demonstravam claramente para que ela estava sendo convidada.
Ele deixou seus lábios para afundar o rosto em seu pescoço, as mãos se
emaranhando pelos longos cabelos. Rachel notou que ele tremia e era uma
sensação deliciosa perceber que, podia lhe provocar tais perturbações. Enfiou as
mãos por baixo do suéter dele e acariciou-lhe as costas um tanto úmido. Sentia-se
excitada, deliciando-se ao contato com as pernas dele.
De repente, com um murmúrio abafado, Jake a soltou, virando-se
violentamente e arrumando os cabelos com os dedos. Ele foi até o outro lado da
sala, fitando-a com o olhar atormentado. Rachel ficou chocada com sua atitude,
perturbada com seu olhar e encarou-o ansiosa enquanto ele obviamente se
esforçava para voltar ao normal.
— O que foi? O que há de errado? — perguntou.
— Acho melhor você ir. — Ele parecia calmo.
— Jake.
Ele virou de costas, com as mãos nos bolsos.
— Deus, preciso beber algo! Por favor, Rachel, não torne as coisas mais
difíceis do que já estão. Saia.
— Mas por quê? O que eu fiz? — Sentia-se confusa. — Você ainda está
bravo comigo?
— Acho que você compreende, muito bem. Talvez eu devesse lhe pedir
desculpas, mas foi você quem pediu.
Rachel sacudiu a cabeça.
— Jake, não fale assim! Eu... Bem, sinto muito se fiz algo errado, mas eu
nunca. . .
-— Você nunca! É exatamente isso. Você nunca, mas eu já. E eu quis
agora, Deus, mas não posso!
— Por que não? Ou. . . É esse o seu problema? — Seu rosto ardia e ela
estava surpreendida com a própria audácia.
— É o que você pensa? — perguntou ele, autoritário.
— Eu não sei, sei?
—- Bem, acho que não. Mas eu não sou um cafajeste que se aproveita de
mocinhas, e muito menos de uma garota com idade para ser minha filha!
— Se você pensa assim...
— Você quer saber o que tive? Foi estafa! Fiquei arrasado. Não podia
trabalhar, não conseguia dormir, nem ao menos pensar! Eu estava um lixo. Mas
não impotente!
Rachel levou as mãos ao rosto.
— Você. . . Quer dizer que eu não sou muito boa nisso, não é? Jake olhou
para ela, e a intensidade de seu olhar a fez mais uma vez prender a respiração.
— Está bem. Você não é muito boa. É muito inexperiente.
A indelicadeza daquela afirmação pôs fim ao orgulho que lhe restava.
— Então por que. . . Por que fingiu que estava gostando? — perguntou
entre lágrimas. Tentando se recompor, dirigiu-se para a porta da suíte.
— Rachel! — Ela parou. Jake tentava se justificar: — Rachel, desculpe-
me, mas eu sou muito velho para você, acredite!
Ela se virou, procurando alguma mostra de sinceridade em sua ex-
pressão.
— Você não é velho!
— Acho quê ambos sabemos disso. E tem mais: se a Sra. Faulkner-
Stewart descobrir que você esteve aqui, eu corro o risco de ir para a lista negra do
hotel.
Rachel curvou a cabeça, inconsciente da sensualidade que emanava de
seus cabelos desalinhados sobre os ombros.
— Não acredito que você se importe com o que o hotel pense a seu
respeito — disse ela.
— Está bem, vamos dizer que eu me preocupo com você.
— Mesmo? — Seus olhos procuraram os dele.
— O bastante para não querer arruinar a sua vida — respondeu. — De
qualquer forma, obrigado pelo cumprimento.
— Qual cumprimento? Ele sorriu, zombeteiro.
— È bom para meu moral saber que uma linda garota não ficou
indiferente quando a beijei.
— Oh, Jake!— Ela deu um passo em sua direção, mas ele sacudiu a
cabeça.
— Vá dormir, Rachel. Você me agradecerá por isso um dia. Vá embora.
Rachel não teve outro remédio senão sair. Quando chegou ao seu quarto,
sentiu-se inquieta; andava sem parar de um lado para o outro. Que desastre fora
aquele encontro! O breve prazer que sentira nos braços dele havia se desvanecido
logo após. É, embora ela reconhecesse que devia se sentir grata por Jake ter
preservado sua virgindade, não se sentia bem. Estava ainda possuída pelo desejo
que ele despertara em seu corpo, e quando fechava os olhos não conseguia ver
nada mais a não ser Jake. Ela teria se entregado se ele assim o quisesse.
Rachel não estava consciente de quanto tempo esteve parada, sonhando,
até que Delia bateu à porta. Não sabendo do que se tratava, ligou rapidamente a
televisão e foi abrir, tentando parecer o mais sonolenta possível. Delia estava
furiosa.
— Você não levou Menestrel para passear!
— Menestrel?
— Sim, Menestrel. — Delia olhou-a, desconfiada. — O que aconteceu com
você? — Deu uma olhada para dentro do quarto. — Você adormeceu ou o quê?
São dez e meia, e Menestrel não foi passear. Em conseqüência, tive de chamar a
arrumadeira para limpar o presente que ele deixou na suíte.
— Sinto muito. — Rachel sacudiu a cabeça, desconsolada. — Não pensei
que fosse tão tarde. Eu devo ter dormido um pouco. Estava assistindo televisão.
Felizmente Delia estava por demais aborrecida para perceber sua
hesitação.
— Bem, acho que não é demais lembrá-la de que deve levar o cão para
seu exercício diário! Você não está sobrecarregada de trabalho, está?
— Não, desculpe, Delia. Não acontecerá de novo. — O que Rachel menos
queria no momento era discutir com Delia.
— É bom que não aconteça mesmo!
Sem ao menos dizer boa noite, ela se retirou, tremendo de indignação.
Rachel respirou, aliviada. Conhecia Delia o suficiente para saber que ela
não soubera de nada.
Não conseguia dormir bem, pois continuava excitada. De madrugada
soprou um vento quente e a temperatura do quarto se tornou insuportável, pois o
aquecimento estava ligado.
Às oito horas estava vestida e pegou o poodle para o passeio matinal.
A praia estava quase deserta. Rachel soltou o cão, que começou a correr
feito louco atrás de gaivotas e outros pássaros.
De volta ao hotel, encontrou-se com Delia, que ia tomar café. Olhou para
as patas de Menestrel com reprovação.
— Não o deixe solto por aqui. O serviço do hotel não parece muito
satisfeito quando tem que limpar sujeira de cães.
— Já lhe disse que sinto muito que aconteceu ontem, Delia. Eu. . . Não
sei como perdi a noção do tempo.
— Nem eu. Vai tomar café?
Rachel entendeu o olhar de desaprovação em relação a suas roupas e
balançou a cabeça.
— Vou limpar Menestrel e depois trocar de roupa. Satisfeita, Delia foi
para o restaurante.
Rachel desceu quinze minutos depois, e encontrou-a já comendo ovos
mexidos com bacon. Delia preferia iniciar sua primeira refeição só, pois a de
Rachel era bastante frugal perto da dela.
Rachel não podia deixar de pensar sobre o que estaria Jake fazendo
naquele momento. Desde que acordou tentava afastar esse pensamento. Mas,
agora que Delia estava calada, não conseguia evitá-lo. Relembrou o que ele tinha
falado, palavra por palavra, pensando na doença que ro trouxera para lá e na
atração que sentia por aquele homem que era, como ele mesmo tinha dito, muito
velho para ela.
Mordeu raivosamente uma torrada, irritada com a piscada que o coronel
lhe deu. Aborrecida por pensar que ele a estivera observando sem ela perceber,
comprimiu os lábios com força.
— Qual é o problema? — perguntou Delia. — Só porque tive que
repreendê-la por causa de Menestrel, não é razão para você ficar mal-humorada.
— Não estou mal-humorada. — Rachel segurou sua xícara de café e
quase a derramou quando avistou as duas senhoras da noite anterior
aproximando-se da mesa.
Delia olhou-a com impaciência evidente, mas logo sorriu ao avistar as
duas mulheres.
— Bom dia — disse ela, indicando o desconforto de Rachel com um gesto
condescendente. — Esses jovens de hoje! Estão sempre apressados quase que ela
derruba o café!
As duas olharam para Rachel sem simpatia, e ela desejou poder
desaparecer dali. Então uma delas resolveu falar:
— Teve um bom jogo ontem, Delia? Ouvi falar que você e o coronel
fizeram uma dupla incrível!
Delia não escondia seu prazer.
— Bem... Não exatamente — disse modestamente. — Mas nós nos
saímos bem.
— Sei. - Os olhos da mulher brilhavam, cúmplices. — Que pena que sua
acompanhante não jogue cartas. Poderíamos fazer uma outra mesa com o Sr.
Allan.
Rachel apertou as mãos, nervosa.
— Não sabia que ele jogava cartas até que o coronel me disse — disse
Delia, despreocupada. — Mas ele parece um tanto reservado, não?
As duas mulheres trocaram um olhar significativo e Rachel esperou pelo
pior. Mas, em vez disso, concordaram com Delia, desculparam-se e se retiraram.
Rachel suspirou, aliviada, mas as palavras de Delia que se seguiram
foram pouco reconfortantes.
— Estou pensando em dar um pequeno jantar amanhã à noite. Poderia
convidar o coronel, e um ou dois outros hóspedes. Vou convidar também o Sr.
Allan. Espero que ele aceite o convite!
O resto da manhã passou rápido, com Delia tentando convencer Cari
Yates a ceder-Ihe uma das salas de recepção do hotel. Estava excitada demais
para perceber a palidez de Rachel.
Durante à tarde, Rachel foi dar um longo passeio sozinha. Teria levado
Menestrel de bom grado, mas Delia resolveu sair com o cão e dera permissão para
ela fazer o que quisesse. Talvez Delia tinha visto Jake saindo para passear, pensou
Rachel. Talvez tenha esperança de encontrá-lo enquanto passeia com Menestrel.
Todos esses pensamentos faziam-na sofrer. Tremia de frio ao voltar para o hotel.
Entrou no saguão de cabeça baixa, com passos rápidos. De repente, uma
mão forte segurou-a pelo braço.
— Rachel! — Aquela voz grave era lhe familiar. Encarou Jake, armando-
se inconscientemente contra a atração que ele exercia sobre ela. — Você está
bem?
Rachel estava assustada por se sentir tão perturbada assim. Nunca em
sua vida um homem a fizera sofrer tanto; nunca ninguém lhe despertara tanto
desejo!
— Rachel! — A sua demora para responder causou em Jake certa
impaciência. Deu uma olhada rápida pelo saguão, pois sabia que ninguém passava
despercebidamente pela portaria do hotel, e perguntou: -— Onde você esteve?
— Passeando. Eu. . . Está frio, não? Minhas mãos estão geladas. . .
— Rachel! — ele insistiu, não querendo mais perder tempo ali dentro. —
Meu Deus, não podemos ficar aqui parados! Venha, vamos conversar lá fora.
Mas Rachel encontrou forças para desvencilhar-se de sua mão e
conseguiu se recompor.
— Desculpe-me, Sr. Allan, mas tenho de subir.
— Rachel! — O tom da voz dele quase a convenceu a parar, mas ela
estava determinada a não se humilhar mais, e muito menos ali, no saguão do
hotel.
À distância até o elevador pareceu-lhe interminável, mas logo estava a
salvo no pequeno cubículo. A última coisa que viu foi Jake parado onde ela o
deixara. Notou nele uma expressão curiosamente vulnerável, mas as lágrimas a
impediram de ver mais.
Felizmente Delia estava tomando chá. Menestrel veio ao seu encontro,
parecendo querer animá-la com seus pulos e ganidos.
Naquela noite, alegando que não se sentia bem, jantou em seu quarto e
mais tarde saiu com Menestrel.
Quando voltou de seu passeio, Cari Yates foi falar com Rachel perto do
elevador. A admiração que ele sentia por ela era de cena forma um bálsamo para
seu orgulho ferido.
— A Sra. Faulkner-Stewart já preparou tudo para amanhã à noite — disse
ele, curvando-se para afagar o animal. — Isso significa que você estará livre nesse
período, não?
— Espero que sim —respondeu ela, cautelosa.
Cari ergueu-se.
— Pensei em convidá-la para sair, ir a algum lugar.
— Bem, não costumo sair muito. . ,
— Talvez fosse bom você sair, para quebrar a monotonia...
— Preciso saber primeiro se a Sra. Faulkner-Stewart não vai precisar de
mim.
— Então, me avise depois. — Ele se aproveitava de sua indecisão.—
Poderíamos ir a um clube que conheço, jantar e dançar. Rachel ia recusar, mas
algo a fez dar um sorriso. Em seguida, retirou-se.
Na manhã seguinte, quando entrou na suíte para levar Menestrel para
seu passeio matinal, encontrou Delia já vestida; mas logo descobriu a razão de
seu alvoroço.
— Sobre o jantar de hoje à noite — começou ela e Rachel preparou-se
para ouvir um monólogo. — Seremos oito ao todo. O coronel, claro, e o Sr. e a
Sra. Strange. Depois, a srta. Hardy.
Rachel enfiou a mão nos bolsos, aflita ao ouvir o nome das duas senhoras
que a tinham visto com Jake.
— E finalmente eu e o Sr. Allan. Sim, ele aceitou o convite. Não é
fantástico? Espero fazer um torneio de bridge depois, já que somos oito.
Rachel se virou, fingindo brincar com Menestrel. Como é que ele podia
fazer aquilo? E por quê?
— Não vai me dizer nada? — Delia esperava por sua resposta. — Nem
parabéns?
— Parabéns?
Delia parecia irritada.
— Sim, parabéns! Você sabe quanto o Sr. Allan se mostrou incomunicável
esse tempo todo! Não é incrível que ele tenha aceitado o convite para o meu
jantar?
—- Ah, sim, claro. — Rachel lutava para se controlar. — Então. . . Não vai
precisar de mim esta noite?
— Não, não — disse Delia. — Você pode fazer o que quiser, querida. Só
vou precisar de você antes, para arrumar o cabelo. Depois, está tudo certo.
— Está bem. Agora, posso sair para levar Menestrel?
Ela sabia que Delia queria conversar mais, mas não podia fingir
entusiasmo. Sentia-se ferida por Jake lhe mostrar as diferenças existentes entre
eles, não só de idade, mas também sociais. Era como ele havia dito: seus mundos
eram diferentes, e sem dúvida Delia o satisfaria mais do que ela.
Ao descer, encontrou-se com Cari Yates e, num impulso, dirigiu-se a ele.
— O convite ainda está de pé, Sr. Yates?
— Cari — corrigiu-a. — Claro que está.
— Então, aceito. A que horas podemos sair?
— Sete? Sete e meia?
Rachel lembrou-se do cabelo de Delia, que sempre demorava um pouco.
— Sete e meia, está bem? Encontro-o aqui.
— Estarei esperando.
Rachel saiu, sentindo o frio da manhã em seu rosto e esperando que Cari
não pensasse que ela estava interessada nele. Nunca havia marcado encontros
assim antes, mas havia muitas coisas que ela nunca fizera antes de conhecer Jake
Allan.
CAPITULO IV
Delia arrumou-se com cuidado especial naquela noite. Seu vestido leve
de seda cor-de-rosa esvoaçava quando ela se movia e as jóias à volta do pescoço
e nas mãos demonstravam uma riqueza raramente vista no Tor Court. No entanto,
o modo ostensivo como Delia as exibia a tornava vulgar e exagerada. O cabelo
estava impecável, e os dedos de Rachel doíam quando terminou de enrolá-lo e
penteá-lo.
— Você está ficando cada vez melhor — cumprimentou-a Delia,
admirando-se no espelho.
Rachel guardou as escovas e pentes.
— Isso é tudo?
— O que você pretende fazer esta noite? — Delia parecia curiosa. —- Vai
jantar sozinha no restaurante ou vai comer em seu quarto?
— Nenhum dos dois. Vou jantar fora com o Sr... Com Cari Yates. —
Esperava que Delia a repreendesse, mas não o fez.
— Fico feliz por isso, querida. Não gosto de vê-la solitária. Rachel pensou
que Delia jamais se preocupara com suas noites, quando ficava completamente
só, assistindo televisão, mas parecia que o entusiasmo por Jake Allan lhe havia
subido à cabeça. Agora, o que ela mais queria era ir para seu quarto e tomar um
chuveiro rápido, recusando-se a admitir para si mesma que não estava com von-
tade de sair com Cari Yates.
Raramente usava calça comprida à noite, mas escolheu uma de veludo
preto, que combinava com uma blusa branca de mangas bufantes e um colete
também de veludo. Olhando-se no espelho, ficou satisfeita com o resultado.
Cari não escondeu seu entusiasmo quando a viu sair do elevador.
Isso a reconfortou um pouco, pois se sentia triste por não ter encontrado
Jake quando fora se despedir de Delia, que já tomava um aperitivo com alguns de
seus convidados para o jantar.
O clube onde Cari a levou era bastante simpático: um antigo porão
reformado, com música ao vivo, e muita gente jovem dançando. Rachel, que no
começo se mostrou tímida, logo depois estava dançando e se divertindo.
Jantaram frutos do mar e salada e Cari apresentou-a a diversos amigos.
Rachel dançou bastante e seu sucesso fez com que conseguisse afastar da mente
as imagens de Jake conversando com Delia, segurando sua mão, tocando seus
lábios. . .
— Não devo chegar muito tarde — disse ela. Já eram quase dez e meia, e
ela começou a se preocupar. — Delia combinou com um dos porteiros para deixar
Menestrel passear um pouco, mas preciso ver se ele não se meteu em confusão.
— Ele quem? O porteiro ou o cachorro?
— Menestrel, claro. — Rachel riu.
— Você não se cansa de ficar atrás desse cão e de sua dona?
— Ela tem sido muito boa comigo.
— Mesmo assim. São sete dias de trabalho por semana, e você não tem
muita folga, não é?
— Não me importo. — A voz dela era firme e Cari resolveu não insistir no
assunto.
Apesar das boas intenções de Rachel, acabaram voltando ao hotel às
onze e meia, pois alguns amigos de Cari chegaram à última hora, insistindo para
que tomassem mais outro drinque. Rachel se contentara com suco de frutas, pois
já bebera dois martinis.
Despediu-se de Cari no saguão, bastante aliviada quando o porteiro da
noite o interpelou com um recado, o que fez com que as despedidas não se
alongassem, como ela temia.
Todos os seus pensamentos negativos voltaram quando se viu sozinha no
elevador. Afinal, o que ela quisera provar, e para quem? Por que se importava
com um homem que a tratava como uma criancinha? Quando a porta se abriu e
ela se dirigiu para seu quarto, pensou em ver se Menestrel estava bem, mas
depois achou melhor não ir. Delia sem dúvida estaria na cama àquela hora, e não
queria perturbá-la. Se algo de errado tivesse acontecido, ela com certeza saberia
logo pela manhã.
Passou pela porta de Delia e entrou no seu próprio quarto, mas antes que
sua mão alcançasse o interruptor a luz se acendeu, e ela conteve um grito de
susto. Avistou Jake sentado em sua cama, aparentemente esperando por ela.
Aproveitando o momento de surpresa, ele se ergueu com rapidez e
fechou a porta às suas costas.
— Você saiu com Cari Yates — disse ele calmamente. – Onde foram?
Rachel se recompôs, apesar do nervosismo.
— E você? Gostou do jantar?
— Eu lhe fiz uma pergunta primeiro — retrucou ele com certa frieza. —
Por que você saiu com Cari Yates? A outra noite você não sabia o que fazer para
se livrar dele!
Rachel distanciou-se dele.
—- Não tenho que lhe dar satisfações — respondeu, arrogante. — E não
sei como você entrou no meu. . .
— Com uma chave!
— Mas gostaria que fosse embora.
— Gostaria mesmo? — Ele se aproximou dela. — Por quê? Porque você
quer tempo para se deitar e sonhar com seu namorado?
— O que você quer dizer com isso? — indagou Rachel, tentando
desesperadamente disfarçar a emoção que sentia. — Foi você. . . Foi você quem
ditou as regras!
— Regras? Que regras? — Seus punhos se fecharam. — Não brinque
comigo, Rachel!
— Não estou brincando — protestou. — Eu. . . Você preferiu ir ao jantar
de Delia. . .
— Ao jantar de Delia! Mas é lógico! E você sabe que eu aceitei o convite
somente para me encontrar com você!
— O quê? — Rachel olhou-o sem conseguir acreditar. — Mas eu não jogo
cartas.
— E como eu podia adivinhar que íamos jogar, se eu fui convidado para
jantar? Claro que eu esperava vê-la!
— Jake. . . — Suas pernas fraquejaram e ela se sentou na cama. —
Pensei que você tivesse feito de propósito.
— Feito o quê? — perguntou com olhar firme e ela se sentiu
amedrontada.
— Ir à festa de Delia, claro. Ela disse que você aceitara o convite, e
eu. . . Eu...
— Foi por isso que saiu com Cari Yates? — Jake segurou a maçaneta da
porta. —- Está bem, eu só queria saber.
— Mas por quê? — Rachel se levantou. — É por isso que veio aqui? Para
saber por que saí com Cari Yates?
— É. Você pode chamar isso do que quiser: orgulho, curiosidade ou
ciúme.
— Jake! — Ela não conseguia se conter mais, — Não se vá! Por favor. . .
— Eu tenho de ir. Não posso ficar aqui a noite toda.
— Você. . . Poderia. — Ela respirava com dificuldade. Jake sacudiu a
cabeça.
— Não, Rachel. Sabemos que não dá! Além disso, não posso me permitir
nenhum estímulo sexual.
— Oh, Jake! — Antes que ele pudesse abrir a porta, ela se atirou em seus
braços, encostando o rosto no peito másculo. Seu cheiro quente e masculino era-
lhe estranhamente familiar. A idéia de que Jake pudesse sair era dolorosa, e ela
não podia deixá-lo ir sem lhe confessar quanto se importava com ele.
— Rachel! —As mãos fortes de Jake tocaram-lhe os ombros e depois o
pescoço. — Rachel, você não sabe o que está fazendo — disse ele, enquanto ela o
abraçava mais forte e começava a sentir os efeitos que aquele contato lhe
causava.
— Não se vá — pediu-lhe, erguendo o rosto para ele.
Jake não foi capaz de resistir à tentação daqueles lábios entreabertos e
beijou-a sofregamente.
Desta vez ela estava pronta para o que pudesse acontecer. Achegou-se
mais a ele, sentindo a rigidez de suas coxas e um prazer até então desconhecido.
Toda a dor que sentira agora explodia em sensualidade.
Por fim Jake encostou o rosto no seu, e ela percebeu que ele transpirava
muito.
— Jake! Você está. . .
— Estou bem —- assegurou-lhe. — Estou exercitando o controle, só isso.
— Jake...
— Rachel, escute-me. Isto não pode continuar.
— Por quê? — Ela afastou o rosto para fitá-lo e disse: — Eu. . . Posso
esperar até que você melhore.
— Rachel! Você age em mim como anfetamina. Mas como anfetamina,
você poderia se tornar um hábito.
— Eu... Acho que não entendo.
— Rachel, do jeito que me sinto agora, eu poderia fazer qualquer coisa!
Você me dá forças e confiança. Você me faz sentir um homem novamente.
—- Então isto é bom, não é?
— Sim, é bom, no começo. Mas em longo prazo, é ruim!
— Mas por quê?
— Rachel, você tem dezoito anos! Está bem, admito, eu quero você,
quero fazer amor com você, dormir com você e acordar de manhã e tê-la ao meu
lado. Mas isso não é possível!
— Por quê?
Com um suspiro forte ele se virou, passando os dedos aflitos pelo cabelo.
— Rachel, você não sabe nada sobre meu passado, minha vida!
— Não me importa o seu passado — disse ela, sacudindo a cabeça. -— O
que importa é aqui e agora.
— Então é isso o que você acha? Realmente? Você é tão experiente assim
que uma noite comigo não significaria nada para você?
— Não! — O rosto de Rachel pegava fogo. — Não é isso, e você sabe que
não é.
— Então o que é?
— Eu... Eu amo você, Jake. Perturbado e nervoso, respondeu:
— Você não me ama, Rachel! Você pensa que ama. Se você visse
honestamente as coisas, admitiria que só tem pena de mim. Você se comporta
como uma mulher caridosa, confortando os aflitos!
— Não é verdade!
— Qual é a verdade, então? Você quer que eu aceite o que está me
oferecendo? Pois é assim que me parece!
— Oh, Jake! — Seus olhos se encheram de lágrimas. Foi então até a
janela, mal divisando o estacionamento do hotel. — Isso nunca me aconteceu
antes. Não agüento quando você fica bravo comigo.
— Bravo com você! Meu Deus! — Jake pegou-a selvagemente,
apertando-a e mergulhando o rosto em sua nuca. — Rachel, sou um homem de
quarenta anos, que já foi casado e agora é divorciado. Eu presidia uma cadeia
internacional de hotéis, da qual este hotel faz parte, e tinha uma vida bastante
agitada até que a estafa sobreveio. Quando eu estiver bom, vou voltar a levar o
mesmo tipo de vida de antes.
— Não me importo com o tipo de vida que você levou até agora, nem
com as mulheres que já teve. A não ser que... — sua voz quase lhe faltou — há
alguém mais?
— Não! Mas não sou um garoto, Rachel. Abraçá-la e beijá-la somente não
me satisfaz, entende? Aceito que haja algo entre nós, mas por quanto tempo você
acha que uma relação como a nossa poderia durar, sujeita a problemas de idade e
saúde?
Os lábios de Rachel se entreabriram. — Por que não tentamos para ver? -
— Não posso fazer isso!
— Por que não? Jake farei o que você quiser!
— Não! — Ele se desvencilhou dela, arrumando de novo os cabelos.
Ela não sabia o que dizer, mas estava certa de que o amava
desesperadamente. Afinal ele se virou, olhando-a sério.
— Está bem, pensei numa maneira de tentarmos. Quer saber? — Ele
enfiou as mãos nos bolsos diante de seu consentimento. — Poderíamos viver
juntos por algum tempo, quero dizer, poderíamos nos casar.
Ela ia correr em sua direção quando ele fez um gesto para detê-la.
— Espere! Seria um teste.
— Um teste?
— Sim, um teste. Veja, eu tenho de ir embora daqui a duas semanas
para passar o Natal com meus pais e, para você ir comigo, teríamos de nos casar.
Mas isto não quer dizer que estejamos prontos para consumar o casamento,
entende?
—- Mas, Jake. . .
—- Esta é a proposta. Aceita ou não?
— Jake, você quer dizer que. . . Que. . .
— Quero dizer que devemos nos conhecer um ao outro primeiro, Rachel.
E, se não der certo, podemos anulá-lo. Assim você não ficará muito envolvida.
— Eu sei o que sinto. . . — insistiu Rachel.
— Você pensa que sabe. Lembre-se de que já fui casado, e conheço os
buracos do caminho. Só não quero que você se machuque, é isso.
— Mas o que seus pais vão pensar?
— Eles não vão saber. Na verdade, eles vão adorar saber que encontrei
alguém. Eles nunca gostaram de Denise.
Um frio percorreu a espinha de Rachel. Esse é o nome de sua ex-mulher?
— Sim.
— Por que vocês se separaram?
— Foi um acordo mútuo. — Fez uma pausa. — Denise queria se casar de
novo, com um príncipe italiano, na verdade muito mais velho que ela. — Ele
torceu os lábios e Rachel adivinhou seu pensamento. — Como você. Só que eu não
sou príncipe!
— Jake! — Ela o puxou para si, cobrindo seus lábios de beijos. — Jake, eu
me casarei com você, seja qual for à base. Mas você realmente acredita que vai
conseguir me evitar?
A respiração dele acelerou quando ela desabotoou sua camisa e acariciou
seu peito. Rachel sentia um prazer imenso ao se encontrar numa situação tão
íntima assim com ele, e Jake não estava imune aos desejos que ela lhe
despertara.
— Rachel! — Ele se afastou, segurando seu rosto com as mãos. — Temos
que parar — insistiu gentilmente. — E agora devo ir. Amanhã teremos de
enfrentar a Sra. Faulkner-Stewart e não quero estar de consciência pesada,
concorda?
— Então é mesmo verdade? — murmurou ela sem querer, verbalizando o
pensamento.
— Claro! Ou você desistiu? — Uma sombra passou por seu rosto.
— Não! — Ela mordeu o lábio nervosamente. — Mas eu pensei que
Delia. ... Quero dizer, se ela ficar zangada, você não. . . Não vai mudar de idéia,
não é?
Jake passou os dedos em seus lábios entreabertos.
— Só se você quiser.
Sua voz era doce e reconfortante, e Rachel tremia ao pensar no
compromisso que estava assumindo. Ela o amava, por nenhum momento duvidara
disso; mas começou a pensar se isso era o bastante.
Antes de sair, Jake disse:
— Tomaremos cafés juntos amanhã.
— Bem. . . Sempre tomo café com Delia.
— Ótimo, junto-me a vocês amanhã, então.
— Quase não consigo acreditar! —- Rachel ergueu os ombros, como se
quisesse afastar maus pensamentos.
— E você quer acreditar?
— Você sabe que sim — respondeu, firme, e observou-o abrir a porta e
sair, erguendo-se para acompanhá-lo com os olhos até o elevador. Mas quando
chegou à porta, Rachel deu um passo atrás, apavorado, pois avistou Delia saindo
do elevador.
Rachel não esperou para ver o que acontecia. Fechou a porta e colou-se à
parede, com as mãos tapando a boca para não soltar qualquer gemido. Ele ainda
estava no elevador quando Delia entrou intempestivamente no quarto.
— Sua vagabunda! — exclamou e esbofeteou Rachel.
Rachel caiu, olhando para Delia como se nunca a tivesse visto a mão
sobre o rosto.
— Eu... Delia...
As palavras não saíam, e Delia bateu a porta do quarto, pouco se
importando com os demais hóspedes do mesmo andar que deviam estar
dormindo.
— Sua vaquinha! — continuou ela, furiosa. — Fingindo que estava saindo
com Cari Yates, quando na verdade planejara encontrar-se com Allan aqui em seu
quarto!
— Não é verdade. — Mas Delia estava por demais inflamada para ouvir
explicações de qualquer espécie.
— Você vai embora hoje! Pode arrumar a bagagem. Você é uma menina
egoísta e ingrata, e eu me recuso a mantê-la aqui por mais tempo!
— Você não compreende! — Rachel protestou, desesperada. — Eu. . .
Jake. . . Nós vamos nos casar!
— O quê!
Dizer que Delia ficou chocada seria pouco. Seu rosto mudou de cor e por
um momento Rachel pensou que ela fosse desmaiar. Empalideceu
assustadoramente, sentando-se sobre a cama. Rachel olhava-a, ansiosa,
erguendo-se sobre os joelhos e observando suas feições desfiguradas.
— Você está bem? Delia olhou-a, incrédula.
— Eu ouvi bem? Você vai se casar com... Allan?
— Sim.
— Mas como? Quando? Você nem o conhece!
—- Eu o conheço bem. — A voz de Rachel era firme. — Ele... Pediu-me
esta noite.
— Mas como? Como, se ele estava jogando cartas conosco há uma hora,
uma hora e meia!
Rachel procurava as melhores palavras para explicar a situação a Delia, o
rosto ainda ardendo de dor.
— Nós nos conhecemos há duas semanas. . . E desde o começo ficamos
atraídos um pelo outro.
— Mas isso é ridículo! — Delia começava a se recompor e a passividade
de Rachel a enfurecia ainda mais. — Ele deve ser pelo menos vinte e cinco anos
mais velho que você!
— Vinte e dois, para ser exata — corrigiu Rachel calmamente.
— Que seja! Vinte e dois anos! É mais do que o suficiente para ser seu
pai!
-— A idade não interessa. — Rachel levantou-se. — Nós nos amamos.
Mas quando disse essas palavras, começou a pensar se era realmente
verdade. Ela havia dito que amava Jake, mas ele só dissera que a queria! Mas ele
devia amá-la! Ninguém se casa se não está apaixonado!
Vendo a hesitação momentânea de Rachel, Delia também se ergueu.
— Amor! O que é o amor, senão uma satisfação dos sentidos?
Por quanto tempo você acha que ele vai ficar com você? Até se cansar de
seu corpo? Rachel ficou tensa.
— Não preciso de seus conselhos, Delia. Tenho idade bastante para tomar
minhas próprias decisões.
— Tem? Tem mesmo? Deus, você é uma boba, Rachel! Entregando-se a
um homem que já viveu mais que o dobro de você!
— Eu sei que ele já foi casado, se é isso o que você quer dizer — replicou
Rachel friamente.
— Ele está acabado, Rachel. Teve estafa! Sabe o que isso significa para
um homem da idade dele? Quem vai querer empregá-lo? — Sua voz soava
dramática.
— Empregá-lo? — Rachel quase riu de alívio. — Ele não precisa de
ninguém para empregá-lo, Delia. Ele emprega gente. Ele é o dono deste hotel!
Os olhos de Delia se estreitaram.
— Ele é o proprietário deste hotel? — perguntou, incrédula. — Mas. . .
Rachel, você sabe quem é o proprietário deste hotel?
— Já lhe disse, é Jake.
— Mas você não sabe quem é Jake, sabe? Mas é claro que não. O \"Allan\"
quase me confundiu. Rachel, o homem com quem você planeja se casar não é
Jake Allan, é Jake Courtenay!
— Bem... — Rachel não entendia o que ela queria lhe dizer, mas sentiu-
se magoada por Jake não ter dito isso. — E daí?
Delia abriu os braços.
— Minha querida, você não pode se casar com Jake Courtenay!
— Por que não?
— Por que não? Eu não deixaria que isso acontecesse!
—: Você não pode.
— Rachel, seja razoável! Esse homem é multimilionário! Ele vai consumir
você! Já se imaginou em seu círculo? O tipo de gente com quem você teria de
conviver?
O rosto de Rachel contraiu-se.
— Não me interessa o que você diz, Delia. Vou me casar com ele.
— Mas você é muito jovem, Rachel.
— Estou crescendo a cada minuto.
— Ele também! — exclamou Delia, impaciente. — Por Deus. Pense!
Pode parecer uma boa coisa agora, mas o que acontecerá quando você tiver
quarenta e ele sessenta?
—- Espero que ele ainda me ame — afirmou Rachel.
— Você é muito boba! O que você sabe dele, afinal? Alguns encontros
clandestinos não significam nada! Ou será que ele vai querer continuar enganando
você?
— Não é verdade! — gritou Rachel, não querendo estragar tudo o que
sentira de maravilhoso minutos antes. — Nós. . . Íamos falar com você amanhã,
durante o café.
— Mesmo? Será que ele disse que iria pedir a minha permissão?
— Não precisamos de sua permissão — insistiu Rachel, determinada. —
Por favor, Delia, você não tem nada para dizer a favor?
—- Não. Já lhe disse o que penso. Só Deus sabe por que ele a deseja,
mas parece que ele vai mesmo conversar comigo amanhã. Você é bastante
atraente, embora ele já deva ter encontrado várias garotas mais atraentes que
você. Você é jovem, e ele deve pensar que vai ser fácil livrar-se de você quando
se cansar.
— Por favor, vá embora.
Aquilo fora demais para Rachel. Uma coisa era falar sobre a diferença de
idade, outra era Delia se intrometer no relacionamento deles. Isso era por demais
íntimo para Delia interferir.
— Você se arrependerá disso.
Delia por fim resolveu se retirar, percebendo que tinha ido longe demais
com suas observações. O rosto pálido de Rachel era um reflexo de sua
insegurança.
Rachel ficou só, com seus pensamentos. Realmente Delia conseguira
anuviar-lhe a alegria com sua maldade.
CAPITULO V
O carro de Jake era belíssimo, mas depois das revelações de Delia,
Rachel não ficou surpresa. De qualquer forma, o fato só serviu para enfatizar
ainda mais as diferenças entre ela e Jake. O carro esporte trepidava um pouco,
apesar da experiência que ele demonstrava ter ao volante.
O dia não começara nada bem, e ela não podia fingir que se sentia
confortável. Não dormira bem, e pela manhã levara Menestrel para passear.
Voltando ao hotel, encontrou Delia já vestida, esperando-a para o café, e
desceram para o restaurante. Delia semeara a incerteza em seu coração e Rachel,
covarde, quase quis ficar no quarto. Mas por fim decidiu descer, pois não estava
disposta a desistir de nada.
O restaurante estava quase vazio, e não havia sinal de Jake. Por um
momento Rachel pensou se não sonhara na noite anterior, mas cinco minutos
depois ele apareceu, esguio e atraente em seu casaco de couro e malha de cor
contrastante. Era sua imaginação ou ele parecia mais jovem aquela manhã? Ou
Delia tinha envenenado seus pensamentos? De qualquer modo, achou
inacreditável que um homem tão charmoso e sofisticado visse algo de interessante
em uma figura insignificante como ela, e quando ele se deteve ao lado da mesa
Rachel se sentiu apavorada.
Delia, apesar de toda a raiva que demonstrara na noite anterior, deu-lhe
bom-dia e aceitou que ele se juntasse a elas como se isso acontecesse toda a
manhã.
— Rachel me disse que o senhor e ela. . . Têm planos, Sr. Allan. Ou devo
dizer Sr. Courtenay?
Os olhos de Jake brilharam. Rachel estava de cabeça curvada, mas podia
sentir a impaciência dele.
— Acho que seria demais querer que a senhora não tivesse me
identificado, Sra. Faulkner-Stewart. Sim, Rachel e eu temos planos. Pretendemos
nos casar, não é, Rachel?
— Eu. . . Sim, é — concordou, aflita, mordendo o lábio inferior.
— O senhor pode me dizer se esse. . . Casamento vai ser oficializado? E
quando será? Quero dizer, preciso de alguém para substituir Rachel, não é?
Rachel engoliu em seco. Na noite anterior Delia quisera mandá-la
embora, e agora se comportava como se sua presença fosse imprescindível! Jake,
entretanto, não se perturbou.
— Vou levar Rachei para conhecer meus pais hoje. Vamos nos casar em
mais ou menos duas semanas.
— Duas semanas! — Agora Delia parecia chocada. — O senhor não
pretende. . .
Na verdade, a própria Rachel se assustara com a notícia. Será que ele
realmente pretendia transformá-la em sua mulher em apenas duas semanas?
— Não vejo por que esperar, Sra. Faulkner-Stewart — continuou Jake,
implacável. — Já tomamos a decisão, e depois do Natal não terei tempo suficiente
para dar a Rachel à atenção que ela merece. Além disso, nós não queremos
esperar, não é? — disse ele e Rachel sentiu um arrepio ao ver seus dedos morenos
apertando os dela.
Rachel sacudiu a cabeça, mas sua expressão não era encorajadora,
parecendo uma mistura de embaraço e incerteza. Os lábios de Delia se
estreitaram.
— Bem, parece-me que os dois estão agindo precipitadamente. Quase
não se conhecem, e como me sinto responsável por Rachel, devo dizer. . .
— Rachel tem dezoito anos — lembrou-a Jake friamente e Rachel
resolveu dar-lhe força.
— Vou me casar com Ja... Com o sr. Courtenay — corrigiu-se, firme. —
Já lhe disse ontem à noite, Delia.
Depois disso, não havia muito a ser dito. Quando terminou o café, Jake
sugeriu a Rachel para colocar um casaco a fim de irem até a casa dos pais dele.
Quando ela desceu, Jake estava só no saguão e explicou-lhe que Delia
ainda estava no restaurante, provavelmente contando as novidades.
Ele não lhe dera mais nenhuma explicação sobre para onde estavam
indo, e Rachel se sentia como uma adolescente em seu primeiro encontro. Como
se estivesse percebendo o curso perturbado de seus pensamentos, ele desviou os
olhos da estrada e encarou-a.
— Meus pais moram em Somerset, num lugar chamado Hardy Lonsdale.
Acho que você não conhece.
— Não — respondeu Rachel. — Eles. . . Estão nos esperando?
— Sim. Telefonei para eles hoje cedo. Estão ansiosos para conhecê-la.
Rachel olhou para a calça verde que usava. Seria adequada? Talvez
devesse ter colocado algo mais formal, já que ia se encontrar com os pais dele. A
roupa de Jake não era exatamente formal, mas ele parecia tão bem em qualquer
roupa, enquanto ela. . .
—- Rachel! — O tom impaciente sobressaltou-a. — Qual é o problema?
— Nenhum. Por que haveria algum problema?
— Não sei, mas há!
Com uma violenta virada na direção ele saiu da estrada e parou o carro.
Inclinou-se então para ela e disse:
— Vamos, diga. Quero saber. É alguma coisa que Delia lhe disse? Ou foi o
fato de eu não haver dito meu verdadeiro nome?
— Bem, Delia acha que somos loucos, claro. Mas o mesmo acontecerá
com seus pais, e com todas as pessoas.
— É o que você acha?
— Você não concorda comigo?
Ele estudou as feições perturbadas de Rachel.
— Você mudou de idéia. Eu devia esperar por isso. Rachel fitou-o,
desamparada. Ele não podia pensar assim!
— Eu não mudei de idéia.
Ela umedeceu os lábios provocando-o inocentemente com esse gesto.
Jake segurou-a nos braços com um gemido e beijou-a. Suspirou e passou a mão
carinhosamente petas suas costas.
— Rachel, não faça isso comigo, eu não agüento! — pediu-lhe. Ela se
sentia fraca e insatisfeita quando ele a largou, olhando-a de soslaio como se
esperasse uma resposta.
— Delia. . . Delia me fez achar tudo uma loucura — confessou ela,
correndo seus dedos ansiosos pelas coxas rígidas dele.
Com um sorriso irônico, Jake as tirou e colocou-as sobre o colo dela.
— Claro, ela não agiria de outra maneira. Mas as palavras dela
significaram tanto assim para você?
— Não! — respondeu Rachel, sentando-se sobre as pernas cruzadas. —
Mas o que ela disse. O modo como colocou as coisas, eu me senti como um
brinquedo, como algo divertido para ser usado e depois jogado fora. Ela falou
também da idade, mas isso não me importa, e de você ser quem é. Você é mesmo
milionário? Por um momento o rosto de Jake se contraiu.
— Isso importa?
— É tudo tão novo para mim! Não consigo assimilar tudo assim rápido.
Quero dizer, como vou conviver com o seu meio? Nunca tive dinheiro. Seria tão
mais simples se você fosse simplesmente Jake Allan!
— Seria? Fico pensando em quantas garotas concordariam com você.
— Jake, você não acha que eu. . .
— Não, não acho. Se achasse, estaríamos aqui agora? Você não precisa
se preocupar com as pessoas que vai conhecer! De qualquer forma, isso ajuda
você compreender melhor o que eu quis explicar ontem. Não podemos dar o passo
maior que a perna. Precisamos de tempo para nos adaptar.
Rachel deu um sorriso provocante.
— E se eu não conseguir satisfazer você? — perguntou.
— Vamos dar o passo do tamanho certo, está bem? Você não é tão
inocente assim.
— Mas eu não quero esperar, Jake — afirmou ela e sentiu seu rosto
mudar de cor.
Ele não disse mais uma palavra e pôs o carro em movimento.
Hardy Lonsdale era uma vila agradável, longe dos turistas e, portanto,
praticamente a mesma de séculos atrás. Chalés “pintados de branco rodeavam a
vila, e mesmo naquela manhã fria de outono pareceu bastante agradável a
Rachel”.
Jake indicou um lugar para Rachel.
— Você quer tomar alguma coisa antes de irmos até lá?
— Pensei que você não pudesse beber.
— Eu disse você e não eu — corrigiu-a. — Não, Rachel, não preciso de
bebida. Eu sei o que estou fazendo.
Rachel desejou que ele parasse o carro e a tomasse nos braços
novamente, pois só assim se sentiria realmente segura. Não acreditava que um
homem como aquele a quisesse como mulher.
— É muito longe?
— Dois quilômetros, mais ou menos. Meu pai comprou um convento
antigo quando se aposentou e adaptou-o para morar nele.
— Um convento? De verdade?
— Tem uns duzentos anos. Ele funcionou como estábulo e até colégio
particular de filhos de famílias ricas!
Deixaram a vila para trás e logo desviaram da estrada por um pequeno
caminho que os levou aos portões de ferro da casa. Rachel estava nervosa e não
conseguia disfarçar.
— Você já viu meu pai — disse ele, procurando reconfortá-la. — No hotel.
Lembra-se?
— Então você me notou!
— Notei, Veja, chegamos!
As linhas do antigo convento eram severas e seu pórtico era imponente.
Ele estacionou o carro ao lado de um outro, que ela vira naquele dia no
estacionamento. Ficou feliz quando ele a ajudou a descer e examinou mais uma
vez sua calça verde, para ver se ao menos não estava muito amassado após uma
viagem de duas horas.
Pensou que seus pais viessem recebê-lo, mas ninguém apareceu. Jake
abriu então a pesada porta trabalhada que dava para um enorme vestíbulo. O
chão era forrado com tábuas e tapetes grossos e coloridos. Jake atravessou o
vestíbulo e subiu a escada que os levou ao andar de cima.
— As salas ficam lá em cima — explicou ele, e logo se deteve ao avistar
uma senhora.
— Bom dia — ela cumprimentou-os polidamente.
— Bom dia, Dora. — O sorriso de Jake era relutante. — Minha mãe está
na sala de estar?
— Não, não está — retrucou friamente. —- Ela e seu pai estão lá fora.
Eles não o esperavam tão cedo. A égua do Sr. Courtenay está dando à luz.
— Está bem. — Ele desceu novamente as escadas e Rachel o seguiu. —
Esta é minha velha babá, Dora Pendlebury. Ela e sua filha moram aqui; Dora cuida
da casa e Sheila, sua filha, trabalha como secretária de meu pai. Dora, esta é
Rachel Lesley, minha noiva.
Ao ser chamada assim Rachel sentiu um calafrio na espinha. Olhou para
Jake e notou que ele também se perturbara. Por um momento trocaram um olhar
de intimidade. Mas quando ela se virou para cumprimentar Dora, notou
imediatamente sua hostilidade. Um estremecimento percorreu-lhe o corpo, e
aceitou os parabéns acenando com a cabeça, embora percebesse instintivamente
que Dora não gostara dela. Pensava nisso enquanto Jake a conduzia até seus pais.
Seguiram por um pequeno caminho que os levava aos estábulos e que passava
por várias estufas onde se plantavam legumes e hortaliças. A frente do estábulo
era pavimentada, e Jake explicou que antes ele já fora à padaria do convento.
— Os fornos ainda estão lá. São do século XVIII, mas hoje são usados
para guardar a ração dos animais.
Rachel sabia que ele tentava reconfortá-la com suas palavras, mas estava
tensa quando entrou no estábulo cheirando a palha e desinfetante. Se Dora
parecera não gostar dela, o que dizer dos pais de Jake?
Sua mãe virou-se quando ouviu os passos, e sua exclamação foi de
alegria ao avistar o filho.
-— Jake, querido! — disse ela e aproximou-se de braços abertos. —
Chegou cedo! Dora lhe disse onde estávamos?
Enquanto Jake abraçava a mãe, Rachel ficou atrás, admirando em silêncio
a aparência dela. Mesmo naquele lugar simples, a Sra. Courtenay parecia bastante
elegante. Rachel adivinhou que ela devia estar beirando os sessentas, mas era
muita bem conservada.
— Você deve ser Rachel. — O pai de Jake havia se aproximado sem que
ela notasse.
— Desculpe-me — disse ela, envergonhada. — Sim, sou Rachel.
O Sr. Courtenay sorriu. Ele era bastante parecido com Jake, embora seus
cabelos já fossem prateados como os da mulher.
—- Já a vi antes, não é? Você não era a moça com quem nos
encontramos quando fui visitar Jake?
— Exato.— Rachel pegou a mão que ele lhe estendeu para cumprimentá-
la, mas ele a puxou e deu-lhe um breve beijo no rosto.
— Uma vez que vamos ser parentes... — o comentou, enquanto Jake e a
mãe se aproximavam. — Rachel e eu já nos encontramos.
— É verdade. — O olhar de Jake sobre Rachei era possessivo. — Mamãe,
esta é Rachel. Espero que vocês duas se tornem amigas.
Jake queria adverti-la? Rachel não teve tempo para especular sobre isso,
pois logo a Sra. Courtenay lhe deu um beijo, antes de examiná-la atentamente.
— Então você é Rachel! Muito prazer em conhecê-la!
Rachel procurava as palavras e o máximo que conseguiu dizer foi;
— Obrigada. — Olhou então para Jake, implorando ajuda.
— Rachel deve estar gelada. Não paramos nenhuma vez na estrada!
— Como? — perguntou a Sra. Courtenay. — Jake, você sabe que os
médicos disseram para você não se cansar.
— Deixe-o em paz, Sarah. Ele parece bastante bem.
— Ele está magro demais — disse a mãe. — Jake, você não se alimentou
bem no hotel?
—Bem. . . Que eu me lembre, não passei fome — respondeu Jake de bom
humor. — Como vai ela? — perguntou, indicando a égua.
Um dos homens que lá estavam virou-se para ele:
— Não está nada bem, Jake.
Jake aproximou-se do animal, deixando Rachei só com seus pais.
— Aquele é Sam Gordon — disse-lhe o Sr. Courtenay. — E o outro, que
está agachado, é o veterinário local, Frank Evans.
— Ela. . . Está com algum problema? —- perguntou Rachel.
— É muito velha para parir — explicou a mãe.
— Mas vai ficar boa — garantiu o pai de Jake. — Frank saberá como
tratá-la.
Para surpresa de Rachel, Jake tirou o casaco, agachou-se ao lado do
veterinário e, com dedos experientes, passou a mão no abdomem do animal. Eles
conversaram um pouco sobre as condições da égua e depois o veterinário assentiu
com a cabeça, tirando uma garrafa de óleo de sua mala.
— Jake! — A Sra. Courtenay correu até ele, evidentemente preocupada.
— Venha conosco! Vamos tomar café. — Vendo que ele a ignorava, ela insistiu: —
Não se envolva, Jake. Você não está bom.
— Se você disser que não estou bom de novo... — interrompeu-se para
pegar a garrafa que o veterinário lhe entregava e espalhou óleo pelos braços. —
Rachel, vá para casa com mamãe. Não vou demorar.
— Jake! — A mãe estava aflita. — O Sr. Evans pode fazer sozinho.
— Não, não pode, e você sabe que Sam não pode ajudá-lo por causa de
suas costas. Mostre a Rachel a sala de estar. Até agora ela só viu o vestíbulo e os
estábulos.
A Sra. Courtenay ia protestar novamente, mas seu marido segurou-a pelo
braço e conduziu-a, firmemente para fora.
— Deixe-o em paz — o Sr. Courtenay falou calmamente, mas uma certa
impaciência acentuava suas palavras. — Ele sabe lidar com a Lady melhor do que
ninguém.
— E se ele se resfriar! — exclamou, e Rachel também se sentiu
preocupada.
— Ele não é uma criança — afirmou o sr. Courtenay e ela teve de se
contentar com a resposta.
Dora abriu a porta para eles e Rachel adivinhou que ela os estivera
observando. A Sra. Courtenay pediu chá antes de subir as escadas. Um longo
corredor central ia até o final da casa, e as alas do convento formavam uma
espécie de cruzamento no topo da escada.
—- Não usamos todos os aposentos — explicou a mãe de Jake, abrindo
uma porta dupla que dava para uma magnífica sala de estar.
— Sim.
A resposta era inadequada, mas Rachel não conseguia pensar em nada
mais enquanto observava a sala: o teto alto formando arcos, as paredes com
tapeçarias e os tapetes macios de afundar os pés. Um grande piano ficava num
canto e suas proporções não conseguiam diminuir o tamanho da sala, pelo
contrário, pareciam aumentá-la ainda mais. Mesmo assim, era um lugar
aconchegante; dois grandes sofás ladeavam a lareira, e as prateleiras forradas de
livros davam-lhe um toque especial. Rachel estava maravilhada.
— Que sala bonita! É um lugar ideal para festas.
—- E exatamente o que pensamos — disse o Sr. Courtenay, acendendo o
cachimbo que tirara do bolso. — Pensamos em fazer a recepção do casamento
aqui. O que você acha? . Rachel sentiu-se constrangida,
— Bem, é muita gentileza de sua parte.
— Jake nos falou que os seus pais faleceram — comentou a Sra.
Courtenay, que parecia curiosa. — Você é muito jovem para estar só no mundo.
— Sim — disse ela e sentou-se em um dos sofás. — Meus pais morreram
jovens, e não tive irmãos. — Rachel olhava para seus futuros sogros
nervosamente,
— Você estava no Tor Court, não é? — perguntou a Sra. Courtenay,
apesar do olhar reprovador do marido.
— Exato. Estava trabalhando para uma amiga, uma amiga de minha
mãe. Eu. . . Ela estava nos visitando quando minha mãe morreu, e sugeriu que eu
devia me afastar por uns tempos.
— Afastar-se de onde?
— Sarah! — exclamou o Sr. Courtenay. — Pare de atormentar a moça,
está bem? Você a está entrevistando! Deixe que ela nos diga tudo de sua vida
quando chegar o momento adequado.
A Sra. Courtenay comprimiu os lábios.
— Você é muito jovem — disse ela, olhando ressentida para o marido. —
Conhece Jake faz tempo?
— Não muito — confessou, constrangida.
-— O bastante — acrescentou o Sr. Courtenay em sua defesa. Rachel
sorriu-lhe, agradecida.
Dora chegou então com a bandeja de chá, colocando-a em cima da
mesinha em frente à lareira.
— O almoço vai ser servido à uma hora, Sra. Courtenay? —perguntou.
A Sra. Courtenay encolheu os ombros, irritada.
— Isso vai depender de quanto tempo Lady levar para parir.
— Então espero Jake voltar.
Depois de Dora ter saído, a Sra. Courtenay sentou-se no sofá a frente de
Rachel e serviu o chá, enquanto o marido se postava de costas para a lareira, para
se aquecer.
Rachel aceitou uma xícara de chá e sentiu-se na obrigação de dar-lhes
mais informações.
— Nasci em Nottingham, e meu pai era contador.
— Seus pais morreram juntos?
— Não exatamente. Minha mãe morreu um pouco depois, num acidente
de carro.
— Que coisa horrível para uma garota tão jovem! — A Sra. Courtenay
parecia sinceramente sentida.
— Tenho dezoito anos, mas tenho a cabeça no lugar.
— Estou certa que sim.
Talvez pensasse que ela quisera Jake pelo seu dinheiro, quando na
verdade até a noite passada Rachel nem o conhecia direito.
— Eu amo Jake — disse ela, simplesmente, surpreendendo seus pais. —
Farei tudo o que puder para torná-lo feliz.
Seguiram-se alguns minutos de silêncio.
— Talvez você consiga — observou a Sra. Courtenay. — Você sabe, claro,
que seu primeiro casamento terminou com o divórcio.
— Sim. — A voz de Rachel era firme.
— E você sabe que ele esteve doente.
— Se não soubesse, já ficou sabendo através de você! — interveio o sr,
Courtenay. — Sarah, por que você insiste no assunto?
— Só estou falando porque acho que Rachel deveria saber de tudo,
Charles — respondeu-lhe severamente.
— Jake trabalhou demais — disse o Sr. Courtenay e sua esposa
imediatamente acrescentou:
— E você não diz nada quando ele decide ficar no estábulo, fazendo o
trabalho do veterinário assim que chega em casa!
— Claro. Nós dois sabemos que ele adora animais, não é? Mas para
agradar-me, e a você também, ele assumiu a direção da cadeia de hotéis e veja o
que aconteceu com sua saúde!
Rachel viu que estava na hora de interferir, pois a discussão deles poderia
se tornar mais séria.
— Eu não sabia que Jake gostava de animais. Como esperava, os dois se
voltaram para ela.
— Ele queria ser veterinário. — O Sr. Courtenay olhou para sua mulher,
amargo. — Mas ele era nosso filho único, e queríamos que continuasse o que eu
começara.
— E Jake tem um ótimo tino para negócios — emendou a Sra. Courtenay.
— Não sei se seria um veterinário tão bom.
- Nem ele, que nunca teve uma chance de saber. — O Sr. Courtenay
balançou a cabeça, resignado. — Mas esta é uma velha história, agora.
— Vocês já pensaram sobre onde vão morar depois de casar? —
perguntou a Sra. Courtenay.
Rachel estremeceu involuntariamente. O casamento era ainda uma coisa
distante em seus pensamentos, e, no entanto.
Felizmente, o Sr. Courtenay veio novamente em seu socorro:
— Já vai começar de novo! Metendo o nariz onde não é chamada!
— Charles! — A sra. Courtenay parecia aborrecida, mas não fez mais
perguntas.
Quando Jake entrou na sala, o pai estava mostrando para Rachel um
antigo tabuleiro de xadrez que adquirira em Hong Kong. Assim que ele percebeu a
presença do filho, levantou-se.
— E então?
— Uma potranca. Ambas estão vivas.
— Outra fêmea! — Rachel percebeu o desapontamento do Sr. Courtenay.
— Tanta onda para nascer uma potranca! Jake procurou os olhos de Rachel,
brincalhão.
— Está vendo? É isso que recebo em troca!
O Sr. Courtenay também brincou, um pouco embaraçado:
— Droga! Eu queria um potro. Mas de qualquer forma, obrigado, filho.
Rachel olhou para Jake. O casaco caro estava manchado, e suas mãos
cheiravam a desinfetante que ela sentira antes no estábulo.
— Eu sei. — Ele se sentou a seu lado, cansado. — Preciso de um banho,
não é? Mas agora aceitaria um café de bom grado.
A mãe o serviu, e Rachel começou a se sentir constrangida. Onde estaria
sua naturalidade para conversar, a facilidade de discutir sobre qualquer assunto,
como acontecia no hotel? Ela nunca fora uma pessoa tímida, mas de repente a
situação toda a envolvia de uma maneira sufocante. O dinheiro não era
importante, ela se repetia severamente, mas não conseguia ser convincente.
Como se percebesse sua ansiedade, Jake terminou de beber o café e
pegou-a pela mão.
— Você se importa de eu dar uma volta com Rachel, mãe?
— Ora, filho, pode ir — respondeu o Sr. Courtenay. A mãe, porém,
avisou:
— O almoço é à uma hora. Só vai ter meia hora para tomar banho e se
vestir.
— Está bem, mamãe. — O tom de Jake era resignado. — Rachel
esfregará minhas costas se eu estiver atrasado.
Ignorando o rosto vermelho de sua noiva, ele a arrastou para fora da
sala. Sua expressão pareceu endurecer um pouco quando se encontraram no
corredor.
— Por aqui — disse ele, indicando a ala oeste da casa.
A suíte onde entraram era dele, obviamente. Além da decoração,
austeramente masculinas várias fotografias na parede mostravam períodos
diferentes de sua vida; as prateleiras estavam cheias de taças e medalhas de
esportes de diferentes modalidades.
— Minha mãe insiste em manter essas coisas. — Sua voz não estava mais
divertida. Indicando as taças, acrescentou: — Você não verá esses horrores em
meu apartamento, posso assegurá-la.
— Seus pais se preocupam com você, e acho isso maravilhoso.
— Acha? — Jake tirou o casaco, desabotoando-o impacientemente. — Foi
por isso que você me olhou como um náufrago que vê uma tábua em alto-mar?
Rachel pôs as mãos nos bolsos da calça, movendo os ombros.
— Eu... Fiz isso? Sinto muito. Seu pai... Ele estava me mostrando seu. .
— Tabuleiro de xadrez, eu sei — interveio Jake, procurando os botões da
camisa, — Foi tão ruim assim?
— Ruim? — Ela fez uma pausa, contrariada. — Eu... Estava nervosa só
isso.
— E por que estava nervosa? — Ele tirou a camisa e ela começou a
pensar até onde ele iria a sua presença.
— Você não estaria? — perguntou ela na defensiva. Tentava desviar os
olhos da pele morena, sem sucesso, e vislumbrou uma correntinha de ouro de
onde pendia um pequeno crucifixo. — Você sabia como... Como seria difícil para
eu ficar a sós com eles, mas você quis assim.
— Pensei que esse seria o melhor modo — disse ele, desabotoando o
cinto da calça e depois colocando as mãos no bolso, como se as segurasse para
que elas não caíssem. — Rachel, não quero começar uma discussão com você.
Eles são meus pais e não quero que se sinta intimidada com eles!
— O que você quer dizer. . . — Rachel ergueu a cabeça, determinada, —
Você quer dizer que, se eu não fico à vontade com seus pais, como vou me sentir
perante os seus amigos, não é?
— Não! — exclamou, violento. — Não é nada disso. Eu só quero que você
relaxe, Rachel!
— E se eu não conseguir?
Ele sacudiu a cabeça, e de repente ela percebeu o suor em seu rosto.
— Jake! Você está bem?
— Acho que Lady exigiu mais de mim do que eu pensei. — Seu rosto
estava pálido, e ele sorriu, amargo. — Preste atenção, Rachel! Veja bem onde
você está se metendo.
— Oh, Jake!
Mas ele a empurrou, evitando deliberadamente os seus carinhos.
— Desculpe-me se fui grosseiro. Como você vê, qualquer pequeno
exercício me deixa exausto!
— Jake. . . — Ela sentiu os próprios dedos se enterrando nas palmas das
mãos, machucando-as. — Você pensa de verdade que o seu estado físico faz
alguma diferença no que eu sinto?
— Dê-me cinco minutos. — Ele se dirigiu para o banheiro. — Depois eu
lhe mostro o resto da casa.
CAPITULO VI
Sentada em uma cadeira de veludo, os velhos livros universitários de
Jake em seu colo, Rachel não conseguia imaginar como vivera antes de conhecê-
lo. Jake fazia parte de sua vida e viver sem ele não era viver.
Ele entrou no quarto, os cabelos molhados e revoltos, usando um roupão
de banho felpudo. Observou-o abrindo o armário e tirando de lá um casaco
marrom, uma camisa combinando e cueca limpa. Estava começando a ficar
preocupada quando de repente Jake abriu a porta do que deveria ser um pequeno
quarto de se vestir e saiu.
— Onde você encontrou essas velharias? — perguntou ele do outro
quarto.
— Nesse armário ao lado da cama. Sua mãe definitivamente não gosta de
jogar nada fora!
Ela ouviu seu riso e segurou-se para não correr para a porta. Já sabia por
experiência que ele não gostava disso. Jake saiu poucos segundos depois,
abotoando o casaco.
— Venha. Não temos muito tempo para essa excursão pela casa. Ele não
se deteve muito nos quartos, mas demorou mais ao lhe mostrar a imensa sala de
jantar, que acomodaria um bocado de convidados folgadamente. A mesa longa e
polida exibia candelabros de prata e as cadeiras de veludo tinham encosto alto e
confortável.
— Nós não vamos comer aqui — disse ele, notando a expressão
assustada de Rachel. — Normalmente comemos em uma sala menor, quando
estamos em família.
— Ainda bem! — Rachel suspirou, aliviada, e trocaram um olhar de mútuo
entendimento. Será que Jake estava consciente da maneira pela qual esse seu
olhar mexia com ela? Devia estar, pois, como ele mesmo dissera, não era um
garoto e sabia da atração sexual que exercia sobre as mulheres.
Depois da sala de jantar dirigiram-se para o pequeno estúdio do Sr.
Courtenay, onde livros se alinhavam ordenadamente pelas prateleiras, e
finalmente chegaram a uma saleta de estar, onde havia uma televisão colorida.
— Televisão! — exclamou Jake. — Assisti mais televisão nestes últimos
três meses que em toda minha vida!
Rachel olhou-o carinhosamente.
— Você pode me descrever depois como foi... A estafa? Eu gostaria de
saber.
— Para quê? Para reconhecer os sintomas caso eles reapareçam?
— Não! — O tom de Rachel era indignado, mas ela o viu sorrir e percebeu
que ele estava brincando. — Quero participar de tudo com você, para
compreende-lo melhor.
— Falaremos sobre isso depois — prometeu-lhe docemente, pois já
estava na hora do almoço.
Uma mulher jovem estava na sala de estar com os Courtenay, e Rachel
confirmou seu pressentimento quando ouviu Jake pronunciar o nome dela. Era
Sheila, a secretária de seu pai, filha de Dora Pendlebury.
Jake e Sheila apertaram as mãos, calorosamente. Ela perguntou sobre a
sua saúde, enquanto Rachel aceitava um copo de cherry oferecido pelo Sr.
Courtenay. Sheila era alta e esguia, e devia ter uns trinta e poucos anos.
Instintivamente Rachel concluiu que ela era a razão pela qual Dora não a tratara
bem. Talvez Dora esperasse que a incursão de Jake pelo segundo casamento
incluiria Sheila, e o modo como ela o olhava confirmava seu pensamento.
Jake apresentou-a a Sheila e, embora ela não demonstrasse, Rachel
sentiu-se desagradavelmente examinada. Mas Sheila tratou-a muito
educadamente, ao contrário de sua mãe.
Rachel esperava que Sheila almoçasse com eles, mas depois de tomar o
aperitivo ela se retirou. A Sra. Courtenay os conduziu então à pequena sala e
observou, ansiosa:
— Seu pai deu folga a Sheila hoje de propósito, e Dora me disse que ela
havia ido para Glastonbury. Obviamente resolveu voltar.
Havia um tom de censura evidente em sua voz, e seu marido a olhou
reprovadoramente. .
— Isso não importa, Sarah. — Ele segurou a cadeira de Rachel para que
ela se sentasse. — Parece bom, não é?
Rachel ia concordar que a comida parecia ótima, mas a Sra. Courtenay
interveio:
— Sinto muito, Jake. Mas talvez fosse melhor acabar logo com isso.
Rachel, embaraçada com as palavras óbvias da Sra. Courtenay baixou os
olhos para seu prato, enquanto Jake sorria.
—- O que minha mãe está tentando dizer, aliás, muito disfarçadamente, é
que Sheila Pendlebury e eu nos conhecemos desde crianças. E quando meu
casamento com Denise não deu certo houve um certo alvoroço entre as mulheres
da casa para encontrar alguém que me consolasse. — Seus olhos pousaram sobre
a cabeça baixa de Rachel. —- Infelizmente, Sheila não o conseguiu.
— Certo — disse o pai, com algum alívio. — Agora que já dissemos tudo,
que tal almoçar?
— É sempre bom fazermos jogo aberto, não é? — A Sra. Courtenay
tentava se defender, e Jake olhou carinhosamente para Rachel, o que a confortou
bastante.
Depois do almoço, voltaram à sala de estar. Sentada no sofá ao lado de
Jake e conversando com seus pais, Rachel estava bem mais à vontade. Na
verdade, ela se sentia feliz como há muito não sentira. Foi só quando o crepúsculo
invadiu a sala e Jake sugeriu que era hora de voltarem que um pouco de incerteza
voltou a atormentá-la. Jake deixaria o hotel no final da semana e tomaria as
providências para o casamento na pequena igreja de Hardy Lonsdale. Depois de
casados, passariam o Natal com seus pais, e voltariam para Londres no Ano-Novo.
Não se falou em lua-de-mel, mas Rachel sabia que o mais importante era casar-se
com Jake. Desde que estivessem juntos, isso não afetaria seu relacionamento.
Mesmo assim, ela não gostava de ter de ver Delia novamente, contar-lhe seus
planos. Havia momentos em que julgava estar sonhando, e somente as
insinuações maldosas de Delia eram reais.
Estava escuro quando chegaram ao hotel, e Jake perguntou-lhe se ela
não se incomodaria se ele fosse direto para seu quarto, pois se sentia cansado.
Aquele fora o dia mais extenuante desde que adoecera, e era melhor que
descansasse.
Rachel se despediu dele com um beijo tímido e foi para o seu andar. ESa
queria ir direto para seu quarto, mas tinha de avisar Delia que chegara. Delia se
vestia para o jantar, mas saiu de seu quarto tão logo a ouviu abrir a porta da
suíte.
— Então? Teve um dia agradável? — perguntou em tom de desafio.
— Muito, obrigada. Onde está Menestrel? •
— Como se você se incomodasse! — caçoou ela. — Para falar a verdade,
ele foi passear com Cari Yates.
— Com o Sr. Yates? — Rachel parecia surpresa. — Mas...
— Cari estava muito interessado em se informar sobre o seu casamento!
Mas, como ele conhece a verdadeira identidade do Sr. Allan, não ficou tão
surpreendido assim.
Rachel procurou parecer fria.
— Se você não precisa mais de mim esta noite, Delia, eu..
— Não disse isso. Quero saber o que está acontecendo. Quando você se
vai? Ou é segredo?
— Não! — Rachel ergueu a cabeça. — Vou me casar em duas semanas.
Se você quiser, posso trabalhar para você nesse período,
— Sinto-me honrada — respondeu Delia com ironia. — Será que o seu. . .
Noivo permitiria?
— Jake deixará o hotel no fim da semana, e ficará com seus pais até que
nos casemos.
— Ah, é mesmo? — Delia comprimiu os lábios com força. — Escute aqui,
Rachel, depois não venha correndo para mim quando as coisas começarem a dar
para trás! Eu fui boa para você, e é assim que você retribui!
Rachel gostaria de ter evitado tudo aquilo. Se ao menos Delia não fizesse
o papel de vítima!
— Aonde você vai? — perguntou Delia.
— Para o meu quarto. — Sua voz estava calma. —- Não há razão para
continuarmos a discutir. Nós duas sabemos que você não gosta de mim. Pois
ontem você quis me mandar embora sem mais nem menos.
— Falei por falar. —- Delia estava indignada. — A gente fala coisas que
não quer quando está brava ou chateada.
— Estou cansada, Delia. — Rachel podia sentir a tensão em suas
têmporas. -— Não se preocupe, não vou jantar, mas mais tarde levo Menestrel
para um passeio.
Delia assumiu um ar dramático.
— Imagino como sua mãe reagiria sabendo que você ia se casar com um
homem vinte anos mais velho,
— Acho que, se eu estivesse feliz, ela também estaria — respondeu
Rachel e bateu a porta com força.
Chegando em seu quarto, jogou-se na cama, sentindo-se profundamente
agitada. Se ao menos houvesse alguém com quem pudesse conversar. Uma
mulher que, ao contrário de Delia, lhe desse apoio e entendesse suas ansiedades e
sentimentos em relação a Jake.
De manhã, contudo, as coisas pareceram menos assustadoras. Ela estava
feliz por se casar com Jake e duas semanas passariam rápido. Depois, seria dele e
o amaria a cada minuto do dia... E da noite.
Jake não apareceu na hora do café, e ela escapou do restaurante assim
que pôde para não ouvir as asneiras de Delia. Quando chegou ao saguão, Cari
Yates veio a seu encontro, e sua expressão não era nada encorajadora.
— Devo dar-lhe os parabéns. —- Havia um tom amargo em sua voz. —
Sei que normalmente cumprimentamos o homem, mas desta vez foi você quem
provocou a sensação do momento!
Rachel, todavia, não estava a fim de ouvir críticas de ninguém, e muito
menos de Yates.
— Não tenho a menor obrigação de ficar aqui ouvindo suas críticas, Sr.
Yates — respondeu-lhe, com o rosto em fogo. — Tudo o que faço é problema meu,
e só porque saí com você uma vez, isso não quer dizer que você tenha qualquer
intimidade para falar comigo neste tom.
O rosto de Cari revelava seu embaraço.
— Rachel! Por Deus, abaixe a voz! Estou certo, talvez eu tenha
exagerado, mas pelo menos tente entender como me sinto. Eu pensei que você
gostasse de mim! Aquela noite que saímos, eu não sabia que você estava apenas
se divertindo!
— Cari, tivemos uma noite maravilhosa, mas eu e Jake... Cari ficou
encorajado por sua mudança de atitude.
— Só queria que soubesse que sentirei sua falta. — Ele segurou sua mão
entre as dele. — Quer dizer estávamos apenas começando a nos conhecer um ao
outro.
Ela ainda o olhava quando as portas do elevador se abriram e de lá
emergiu Jake Courtenay. Rachel ficou imediatamente consciente de sua mão
entrelaçada à de Cari e do que isso poderia significar para qualquer pessoa que-os
observasse.
Puxou a mão enquanto Jake se encaminhava em sua direção. O rosto
dele não demonstrava qualquer sinal de raiva ou de ciúme.
— Bom dia! — Cari também o notara, e seu cumprimento parecia
implorar compreensão.
— Bom dia — respondeu Jake, amável, e sorriu para Rachel. Ela o achou
bem mais disposto que na noite anterior. — Desculpe-me por não ter ido tomar
café com você. Dormi demais.
— Eu... Se não me engano, o senhor e a srta. Lesley vão se casar em
breve. Meus parabéns.
Jake mexia nos botões do casaco e não respondeu logo, criando uma
tensão insuportável para Rachel.
— Obrigado. Mas tenho certeza de que não costuma chamar minha noiva
de srta. Lesley.
— Bem, eu. . .— Relaxe. — Jake foi lacônico. — Você não precisa ser tão
formal assim. Cari. Além disso, você já saiu com ela, não é?
— Fomos a uma discoteca.
— Eu sei. — Jake assentiu, depois se virou para Rachel e disse: — Vá
buscar um casaco. Daremos um passeio.
— Mas... — Rachel olhou significativamente para o restaurante.
— Deixe a Sra. Faulkner-Stewart por minha conta.
Quando ela desceu do elevador, Jake estava lendo o jornal no saguão.
— Está pronta?
— Sim. — Rachel parecia ansiosa. — Como está se sentindo?
— Bastante bem.
Rachel deu um sorriso de alívio que logo se desvaneceu quando viu sua
expressão grave. Ela o acompanhou até a rua sentindo-se gelada por dentro.
— Você. . . Falou com Delia? — perguntou ela e procurou seu braço.
Ele, porém enfiara as mãos no bolso, como para evitar seu contato.
— Claro. Ela se tornou muito afável quando eu lhe disse que queria
comprar para você um anel de noivado.
—- Mas, Jake! — exclamou, surpresa. — Você não tem de fazer isso!
— Por que não? — Ele parou repentinamente, e ela continuou por mais
alguns passos, voltando-se depois para responder:
— O que eu quero dizer é que não preciso de um anel de noivado, pois
vou estar usando um de casamento em duas semanas!
— E eu pensei que o diamante fosse o melhor amigo da mulher! Você tem
alguma idéia da valorização dos diamantes? Um anel comprado hoje pode valer o
dobro em dois anos.
— E daí? Você está me dizendo isso por quê? Por que eu estaria curiosa
sobre a valorização do diamante?
— Pensei que você estivesse interessada. Denise vendeu todas as jóias
que ganhou de mim. Deve ter faturado uma fortuna!
-— Você quer dizer que está me comprando esse anel para que eu tenha
algum dinheiro quando nos separarmos, é isso?
— Se você pensa assim.
— E se é por isso que você o quer comprar, então esqueça! — Ela
procurava encobrir o tremor de sua voz falando alto. — Não me importo se você
me acredita ou não, mas não quero seu dinheiro, e você pode dar os seus
diamantes para alguém que os aprecie!
— Que palavras altruístas! O que é ser jovem e ter ideais! Rachel respirou
profundamente, para se controlar.
— Estamos discutindo, e não há razão para isso. Só porque quando você
desceu Cari segurava a minha mão...
— Não é por causa disso! — corrigiu-a severamente. — Estive pensando
durante a noite e cada vez estou mais convencido de que isso tudo é uma grande
loucura.
— O quê? — Os joelhos de Rachel bambearam.
— Você ouviu o que disse, Rachel. Tenho um casamento desastrado às
costas, e por que deveria pensar que o nosso seria diferente? Além disso, é mais
complicado ainda.
— Por que mais complicado?
— Nossas diferenças.
— Entendo. — Rachel nunca se sentira tão arrasada assim. — Então...
Quer acabar com tudo?
Jake recomeçou a andar e Rachel, tentando alcançar-lhe o passo,
lembrou-se do primeiro dia em que haviam conversado.
— Jake... Jake, por favor! Responda.
— Rachel, você sabe tão bem quanto eu que você projeta em mim a
figura de seu pai.
— Não!
— Alguém que ocupe o lugar de seus pais.
— Não! Não é verdade. — Ela estava desesperada, os olhos arregalados.
— Amava meus pais, claro, mas quando eles morreram eu nem senti o que sinto
agora.
— O que você quer dizer?
— Jake, se você me deixar agora, eu... — Ela se interrompeu, o rosto
coberto de lágrimas. — Eu amo você! O homem que você é, exatamente você!
— Mas você não viu o estado em que fiquei ontem? Rachel estou
acabado! Você não devia desperdiçar sua juventude com um homem como eu,
— Será que você não entende? Que tipo de juventude eu teria para
aproveitar se você sair da minha vida?
Jake cerrou os olhos por alguns instantes, depois a fitou
perscrutadoramente,
— Eu não valho isso, sabe.
— Só me diga que você me quer. — Seu coração batia loucamente.
— Eu quero você e você sabe disso. — Ele a puxou para si. — Está bem,
você decidiu. Mas depois não me diga que não a avisei!
— Pare com isso! Venha, vamos para a praia. Estou tremendo tanto que
vão pensar que estou com pneumonia.
— E depois compraremos o anel. — Ele ignorou sua retração. — Apenas
quero deixar minha presença em você, é tudo.
CAPITULO VII
Rachel bebericava champanhe, tentando parecer familiarizada com
aquele tipo de reunião social. Seu vestido branco de noiva era tão bonito quanto
muito caro. Ela se descartara do chapéu de abas largas e seus cabelos dourados
estavam bem penteados, com mechas caindo graciosamente pelos ombros.
Podia ver Jake bem do outro lado da sala, seu rosto bronzeado bastante
destacado dos demais. Ele usava um terno cinza-claro, próprio, para a manhã, e
se parecia bastante com a pessoa sofisticada que Delia lhe descrevera.
O ponto alto do dia fora a cerimônia de casamento na pequena igreja de
St. Agnes. Parecia que todos os moradores de Hardy Lons-dale tinham se dirigido
para lá, pois a igreja estava superlotada.
Jake não convidara muita gente para a recepção, mas mesmo assim
surgiram várias pessoas, todas elas parecendo conhecer Jake há muitos anos.
Mas não eram seus amigos, e os olhos de Rachel procuravam Delia ou
Cari, e um ou outro hóspede do hotel, seus únicos convidados na ruidosa
recepção. Nunca Delia lhe parecera tão familiar. Rachel dirijiu-se para o grupo
formado por ela, pela mãe de Jake, sua tia e duas de suas primas. Fora
apresentada a essas pessoas antes da cerimonia, mas não conseguia se lembrar
do nome de nenhuma agora. A Sra. Courtenay dirigiu-lhe um sorriso amigável.
A partir do momento em que o casamento foi marcado, ela fez todo o possível
para apagar a má impressão que causara em seu primeiro contato com Rachel
que, embora a considerasse com certa cautela, não podia deixar de admitir que a
mãe de Jake fora muito bondosa para com ela. Era por sua causa que usava
aquele vestido, adquirido pela Sra. Courtenay graças a seus contatos com as
butiques de Londres. Apesar de Rachel insistir que as roupas que possuía
bastavam, ela lhe adquirira também outras peças.
— Que vestido lindo! — exclamou a Sra. King. — Você é uma garota de
sorte, Rachel.
— Vocês vão ficar aqui depois do Natal? — perguntou Delia, curiosa. — E
a lua-de-mel?
— Jake ainda não pode cometer excessos — respondeu Rachel. A Sra.
Courtenay apressou-se então a informar que ela e o marido partiam naquela
mesma noite para Dorchester, a fim de passarem alguns dias na casa de sua irmã.
— Os noivos devem ficar a sós nos primeiros dias de casados, não é
mesmo?
— Pare de embaraçar a garota, Sarah — observou a irmã, recebendo em
troca um olhar de gratidão da nova sobrinha. — Rachel e Jake têm uma vida pela
frente.
Fingindo não notar o olhar desconcertado da irmã, a tia de Jake, Lídia,
virou-se para Rachel.
— Está feliz, filha? Isso é o mais importante!
— Sim, muito — respondeu Rachel, sorrindo. Continuou a andar pelo
salão quando se deparou com Cari Yates.
— Não pude lhe dizer antes, mas está linda — disse ele docemente,
inclinando-se para falar-lhe ao ouvido. — Courtenay é um sortudo!
— Você não pensava assim antes.
— Puro ciúme.
— Sentirei sua falta, Cari, de todos vocês — corrigiu depressa, com medo
de que ele entendesse errado. — Vocês são meu último laço com o passado. É
estranho! Não havia percebido isso até agora.
— Mas você não se lamenta por isso, não é? — Sua pergunta era mais do
que íntima, e ela não gostava do modo que ele a interpelava.
—- Claro que não. Era inevitável. Desde que vi Jake eu já sabia que isto
aconteceria de alguma forma.
— Amor à primeira vista.
— Não exatamente. Foi mais como um aviso, uma coisa que tinha de
acontecer e aconteceu.
— Espero que ele não a desaponte. Seu casamento com Denise foi um
desastre, você sabe.
— Sei disso. Mas eu o farei feliz.
Cari comprimiu os lábios, sentindo a barreira que ela erguia em relação a
ele. Um primo de Jake veio cumprimentar Rachel, e Cari se afastou.
Uma mão segurou-a pelo braço; era Jake.
— Quer mais champanhe?
Rachel olhou em volta, seu coração batendo ao pensar que eram marido
e mulher agora, e respondeu: —. Não, obrigada. Está tudo bem?
— Você é quem sabe. Vi-a conversando com Yates. O que ele lhe dizia?
— Está com ciúmes?
— Sim.
Sua resposta foi tão inesperada quanto absurda, pensou Rachel, olhando
confusa para ele.
— Ele estava apenas admirando meu vestido. Jake, não há razão para
você ter ciúmes dele!
Seus olhos dirigiram-se significativamente para o decote do vestido, que
deixava entrever a linha dos seios.
— Foi só isso que ele lhe disse? — insistiu ele, ignorando o protesto e
tomando entre as suas as mãos frias de Rachel — Pensei ter ouvido ele mencionar
o nome de Denise — murmurou-lhe ao ouvido, como Cari havia feito. — Espero
que não comece a mentir tão cedo.
Rachel afastou-se um pouco dele, pálida, mas antes que pudesse se
defender o Sr. Courtenay interveio alegremente.
— Dê-me uma chance, Jake! Não pode esperar até mais tarde para
monopolizar a atenção da garota?
O pai de Jake havia bebido um pouco demais, e seu rosto avermelhado
exibia algumas gotas de suor. A Sra. Courtenay olhou-o severamente.
— Você ainda não comeu nada, Charles. Venha, Dora preparou salmão
defumado do jeito que você gosta,
— Não estou com fome, Sarah!
Jake soltou Rachel para segurar o pai pelo braço.
— Vamos, papai, eu estou com vontade de comer algo.
— Veja você! — A Sra. Courtenay balançou a cabeça para a irmã,
aborrecida. — Ele deveria ter mais cuidado, com essa idade!
— Oh, Sarah! — exclamou Lídia. — Ele está apenas se divertindo um
pouco! Deixe-o em paz!
Rachel tentou rir, mas as palavras de Jake pesavam sobre sua cabeça.
Procurou o marido com os olhos para ver se ele retornava, mas foi Delia quem a
puxou de lado.
— Você está pálida, querida. O que há?
— Estou bem. — A última coisa que ela desejava agora era ouvir os
conselhos de Delia. — Está abafado aqui, não está?
— Você sabe mesmo onde está se metendo, não é, Rachel? — Delia
olhava-a atentamente. — Bem, acho que sim. Os jovens de hoje não esperam o
casamento para irem para a cama.
— Se você está querendo dizer que Jake e eu já fomos para a cama, está
redondamente enganada!
— Não? — Delia parecia realmente surpresa. — Nunca pensei que ele
fosse assim insensível!
—- Por favor, não estrague as coisas, Delia.
— Não estou estragando nada. Sabe, Rachel, sou a pessoa mais próxima
do que você poderia querer como mãe neste momento. — Delia parecia sincera. —
Talvez nós devêssemos. . . Conversar sobre algumas coisas.
— Não sou nenhuma ingênua. Delia.
— Estou certa que sim. — Delia deu uma olhada à sua volta, pois não
gostaria que alguém ouvisse a conversa. — Mas entre a teoria e a prática há uma
enorme diferença — acrescentou.
— Delia, por favor...
— Não, Rachel. Ouça-me pelo menos uma vez! Eu sei do que estou
falando. Fui casada, lembra-se? Sei do que se trata.
Rachel suspirou, procurando desesperadamente por Jake. Mas ele estava
conversando com o pai e ela não teve coragem de ir até lá, resignando-se a ouvir
Delia.
— Claro que se casar com um homem mais velho como Jake é um ponto
a seu favor. Jake tem experiência, ou aparenta ter. Mas, esteja avisado,
casamento não é o acontecimento romântico que você imagina ser.
— A sua experiência foi essa, Sra. Faulkner-Stewart? — perguntou Jake,
que havia retornado e estava atrás de Rachel ouvindo o que ela dizia.
Delia enrubesceu.
— Sr. Courtenay, não o vi chegar. — Ela limpou a garganta. — Eu...
Estava explicando para Rachel que as mulheres não sentem essas coisas tanto
quanto os homens.
— Que coisas? — Jake obviamente se divertia. Puxou então Rachel pela
cintura de maneira possessiva. Delia não poderia estar mais embaraçada.
— Sei que está me provocando, Sr. Courtenay. — Ela procurava fazer-se
coquete. — Como se sente ao casar-se pela segunda vez?
—- Infinitamente melhor — respondeu ele alegremente, acariciando o
pescoço de Rachel. -— Agora, se me der licença, quero apresentar minha mulher
para um amigo.
Longe dos olhos atentos de Delia, Rachel o fitou, implorando para que ele
a ouvisse.
— Jake! Sobre aquilo... Sobre Denise, eu...
— Agora não. Rachel. Há alguém que eu realmente gostaria de lhe
apresentar. Meu médico Maxwell Francis.
Maxwell Francis devia estar beirando os cinqüenta anos. Era alto e
grandalhão. Seus olhos azuis e vivos e o bigode e a barba grisalha davam-lhe um
ar mais de artista que de médico. Sua maneira inspirava segurança, e Rachel
pensou que seus pacientes deviam confiar plenamente nele.
— Nunca pensei que Jake voltaria de Devon com uma esposa, Sra.
Courtenay. — Seu tom era casual, embora Rachel se sentisse nervosa ao ver-se
chamada daquela maneira pela primeira vez. — Mas conhecendo-a compreendo
como conseguiu lhe virar a cabeça. ,
— Você não acha então que Rachel me traria um estímulo negativo, hein,
Max? — perguntou ironicamente, e o médico caiu na risada.
— Meu caro, tenho lhe dito há anos que você passa muito tempo em seu
escritório! Quem sabe agora você ficará mais inclinado a voltar para casa à noite.
Jake estudou Rachel despudoradamente.
— Você está certo, Max. — Sua voz ainda tinha um certo tom de
brincadeira, e Rachel enterrou os dedos na palma das mãos.
Tudo bem que Jake brincasse a seu respeito, mas ela tinha de se
comportar direitinho. Num impulso, pendurou-se em seu pescoço, apertando o
corpo contra o dele.
— Você virá para casa todas às noites, não é, querido? — perguntou-lhe,
brincando também.
A reação dele foi gentil, mas firme. Ele tirou os braços de seu pescoço e
Rachel, com o rosto ardendo, virou-se para o médico:
— O senhor é casado, doutor?
— E muito bem casado. Minha mulher está na maternidade, recuperando-
se do quarto parto. E a terceira filha.
— Então o senhor tem três filhas.
— E um filho, por sorte o mais velho. Ele não seria muito feliz se tivesse
nascido no meio de três irmãs!
— Por favor, recomende-me à sua mulher, e diga-lhe que ficarei muito
feliz em conhecê-la.
— E isto não demorará a acontecer — respondeu Maxwell Francis,
encantado. — Você e Jake terão de ir nos visitar quando forem a Londres. Se você
não se importar, é claro, de ter crianças barulhentas e um cachorro brincalhão a
sua volta o tempo todo.
Jake riu, assentindo com a cabeça, e Rachel foi franca:
— Adoro crianças.
— Isso é ótimo! -— exclamou Max. — Espero que da próxima vez que nos
encontremos já haja um pequeno Courtenay a caminho!
Rachel foi pega de surpresa com sua naturalidade, e Jake veio em seu
auxílio.
— Ainda não, Max. Quero minha mulher só para mim por algum tempo.
Um casal conhecido de Jake aproximou-se para conversar, tirando-a
daquela desagradável situação. Ela reconheceu John Masterson, sócio de alguns
negócios de Jake. Enquanto eles conversavam, a Sra. Masterson perguntou-lhe
quando voltariam a Londres.
— Somente depois do Ano-Novo — respondeu Maxwell por Rachel. —
Jake sabe o que penso sobre isso, e não gosto de vê-lo falando de compras e
vendas na festa de seu casamento.
— Está bem, Max. — Jake ouvira o que ele comentara, e acrescentou: —
Você está certo. Não seria leal com Rachel, não é?
Rachel olhou para ele com firmeza.
— Não, não seria — disse ela de tal modo que ambos entenderam que
não era só a Masterson que ela se referia.
A cabeça de Rachel doía no final da recepção. O Sr. e a Sra. Courtenay
preparavam-se para sair, e havia sido combinado que Dora Pendlebury passaria a
noite na casa de uma amiga na vila. Sheila havia ido para Londres passar alguns
dias e Rachel sentiu-se aliviada por não ter tido que enfrentar o olhar dela durante
a festa. Quando o Mercedes do Sr. Courtenay desapareceu na curva, Rachel
acompanhou Jake para dentro da casa. Fizera um dia belíssimo apesar de ser
dezembro. Já era noite. O vento soprava frio e o fogo crepitando na sala parecia
convidativo.
Jake cerrou as portas pesadas e foi até a lareira. Tirou então o paletó e
afrouxou o nó da gravata. Sua pele bronzeada era mais realçada ainda pela
brancura da camisa, e a correntinha dourada brilhava quando ete desabotoou os
dois primeiros botões. Rachel caminhou até ele, que passou a examiná-la com os
olhos semicerrados.
— Então a festa acabou! — exclamou ele, abrindo os braços.
— Foi tudo bem, não foi?
— Muito bem — concordou ele secamente. — Seu desempenho foi
perfeito! Todos acham que sou um homem de sorte.
— E você? — arriscou ela, mas Jake não respondeu. Subiu os degraus da
escada de dois em dois e, quando chegou ao topo, virou-se e disse:
— Vou tomar um chuveiro.
Rachel esperou-o por alguns minutos; como não voltasse, foi a seu
encontro, sem saber se acertaria o caminho até seu quarto. Num impulso, entrou
na sala de visitas, agora limpa pelos empregados da casa. Ainda pairava no ar um
cheiro agradável de charuto. Foi então até a saleta de jantar, onde Dora havia
posto a mesa para dois, A governanta deveria ter odiado fazer isso, pensou
Rachel. Mas se Jake quisesse casar com Sheila, ele o teria feito a muitos anos.
A mesa pareceu-lhe de muito bom gosto. Os guardanapos vermelhos
combinavam com as flores no centro da mesa; copos de cristal, talheres de prata
e velas perfumadas completavam o ambiente. Havia uma garrafa de champanhe
em um balde de gelo, e Rachel encostou os dedos não muito firmes no gargalo
gelado.
— Está com fome? — perguntou-lhe Jake.
Rachel levou as mãos instintivamente à garganta e, virando-se, percebeu
que Jake trocara de roupa, parecendo mais atraente do que de manhã,
— Estava só admirando a mesa — respondeu, meio assustada. — A Sra.
Pendlebury merece os parabéns.
— Dora! Seu nome é Dora. Ninguém a chama de Sra. Pendlebury!
— Acho que ela prefere que eu a chame assim. Nem a conheço direito.
—- Logo vai conhecer. — Sua voz mudou de tom. — Você quer comer ou
se trocar antes?
— Acho que me trocar. Eu... Bem, eu não sei onde... Nós vamos dormir.
— Eu lhe mostro.
Jake conduziu-a para a ala oeste novamente, e eles passaram pela porta
do banheiro que ele costumava usar, parando em frente a uma porta dupla no fim
do corredor. O aposento em que eles entraram estava mobiliado como uma sala
de visitas, um sofá grande, cadeiras, etc. O quarto era ao lado e Rachel apoiou-se
no batente quando viu. Era enorme e luxuoso; a cama ocupava sua maior parte, e
as cortinas beges combinavam com a roupa de cama e o carpete. Era o tipo de
quarto que ela só vira em filmes, e não conseguia se imaginar dormindo ali.
— Você gosta? — perguntou Jake. —- Eu... É lindo!
— O banheiro é ali — indicou-lhe com um gesto —, e você encontrará
todas suas coisas nesse armário. Vou deixá-la para que se vista — disse ele e
saiu.
O banheiro era tão luxuoso quanto o quarto, e Rachel abriram o guarda-
roupa para procurar algo bonito que combinasse com a noite. Notou que suas
roupas não ocupavam nem metade do espaço, mesmo contando as que a Sra.
Courtenay lhe dera. Entre elas havia uma túnica verde longa. Tirou-a do armário e
colocou-a com cuidado sobre a cama. Fez uma maquilagem leve e finalmente se
vestiu.
Tremendo um pouco, mirou-se no espelho; apesar de estar satisfeita, um
nervosismo crescente tomava conta de si. O que Delia dissera voltava à sua mente
a todo minuto. Mesmo assim, nunca se sentira com uma aparência tão sensual.
A casa tinha aquecimento central, mas o corredor estava gelado. Entrou
na sala de visitas e rapidamente fechou as portas, e quando se virou deu com o
olhar de Jake que saía da saleta de jantar. Seu coração bateu mais forte e ela
esperou por sua reação quase sem respirar. Mas ele pareceu nem notar sua
aparência.
— Você quer champanhe, ou comer antes?
— Tanto faz, Jake.
— Champanhe, então.
Acompanhou-o até a saleta. As velas haviam sido acesas, mas Rachel
pensava no porquê de sua frieza.Sentaram-se à mesa, e enquanto ele tirava a
rolha da garrafa ela apoiou os cotovelos sobre a mesa, descansando a cabeça nas
mãos.
— Você nem notou meu vestido — observou ela, armando-se de
coragem. — Gostou?
— Notei. — Ele tentava abrir a garrafa.
Ela ia perguntar de novo se ele gostara, mas a rolha estourou, e o líquido
espumoso começou a transbordar. Ele então a serviu.
— Beba um pouco.
O champanhe estava delicioso, e ela bebeu rapidamente. Lembrou-se,
porém de que devia tomar cuidado, pois não estava acostumada a bebidas
alcoólicas.
O jantar foi bem simples, mas delicioso. Apesar dos esforços de Rachel,
Jake quase não falou. Depois do café, ele pegou outra garrafa.
— Um licor não cairia mal, agora.
— Não para mim, obrigada. — Rachel o olhou, forçando um sorriso. —
Está querendo me embebedar?
Os olhos de Jake se estreitaram.
— Só quero que experimente este licor. Não quer? Aceite-o por mim!
Aquele fora à palavra mais carinhosa que ele lhe dirigira durante o jantar,
e ela concordou.
— Está bem. Mas só um pouco.
Rachel relaxou ao ver o copo minúsculo. Ela não se embebedaria por tão
pouco. O líquido, contudo, era forte e pareceu queimar sua garganta.
— Que licor é esse?
— Um especial, de raízes. Beba, fará bem a você.
A cabeça de Rachel parecia zunir. Bebera demais, apesar de todas as
precauções que tomara. Jake a fitava.
— Vamos para a sala? — propôs ele.
Ela levantou-se, deu alguns passos e percebeu que não estava passando
bem. Talvez fosse melhor voltar à mesa e comer mais para melhorar um pouco.
Mas só de pensar em comida sentia-se nauseada.
Jake estava a alguns passos dela, a taça entre os dedos, ainda quase
cheia Ele lhe dissera que não podia abusar da bebida e, vendo-o ali, parado,
olhando-a como se a estudasse, tudo levava a crer que estava sóbrio. A porta a
soa frente dançava, e ela tentava ordenar seus pensamentos desesperadamente.
Era o dia de seu casamento e ela o estragara daquela maneira! Ou fora Jake? Por
que ele a tratara com tanta indiferença?
— Quer ajuda? — A voz de Jake soava distante, e ela ficou chocada ao
perceber que ele estava a seu lado.
— Não — respondeu, veemente. — Posso andar sozinha.
— Tem certeza?
Ela percebeu um certo carinho em sua voz. Estaria ansioso para possuí-
la? Rachel piscou os olhos, olhando-o defensivamente.
— Aquele licor... Não gostei.
— Sinto muito.
Aquela resposta polida provocou-lhe raiva, mas ela não conseguiu pensar
em nada que pudesse apagar aquela aparente frieza de seu rosto. Sua cabeça
recusava-se a trabalhar! Ah, fechar os olhos, que gostoso, pensou ela. Pareceu-lhe
então que um braço vigoroso a impediu de cair, quando ela mergulhou na mais
total inconsciência.
CAPITULO VIII
Rachel acordou sozinha na manhã seguinte de seu casamento e estava
nua. Isso a deixou um pouco apreensiva, mas logo se certificou de que Jake não a
possuíra enquanto estivera inconsciente. Depois de tomar banho e se vestir,
desceu à procura do marido, mas encontrou apenas Dora. Ela lhe deu um bom-dia
gelado e lhe disse que Jake estava nos estábulos. Rachel tomou um café e,
quando Jake entrou, sentia-se miseravelmente só.
— Dormiu bem? —- Suas primeiras palavras não foram nada re-
confortantes!
Rachel levantou-se, determinada, e disse:
— Acho que me excedi na bebida ontem à noite. Sinto muito.
— Você estava cansada — corrigiu-a, indo sentar-se ao lado do fogo que
fora aceso por Dora.
Jake pareceu-lhe muito atraente e ela sentiu uma enorme vontade de
sentar-se a seu lado e passar os braços em volta de seu pescoço. Há dois dias ela
não teria hesitado, mas agora algo a impedia de agir assim.
— Jake, podemos conversar?
— E o que estamos fazendo?
Ela sentiu o mesmo tom de pouco caso da noite anterior, mas estava
decidida a não deixar que aquilo ocorresse novamente.
— Jake, desde ontem à tarde. . .
— Depois do casamento?
— É. — Ela fez uma pequena pausa. — Jake, aconteceu alguma coisa?
Há algo errado? Por que você está me tratando dessa maneira?
Seu desabafo pelo menos provocou um pouco mais de cor ao rosto pálido
de Jake. Mas seus olhos continuavam enigmáticos quando ele a fitou.
— Tentei lhe dizer como seria. — Ele articulava as palavras lentamente.
— Você sabia que não seria fácil, mas, acredite-me, é o único caminho.
— O único caminho? O único caminho para quê?
— Rachel, estou falando de você e de mim... De nós! Eu lhe disse,
precisamos de tempo para nos conhecer e...
— Nos conhecer? Somos estranhos, por acaso?
— Já lhe expliquei, casei-me com você para que se livrasse de Delia
Faulkner-Stewart. Ela jamais permitiria que você a deixasse para viver comigo
sem ter feito o tipo de escândalo que eu sempre quis evitar.
Rachel sentiu um frio invadir-lhe o estômago.
— O que. . . Você quer dizer?
— O que lhe tenho dito todo o tempo, Rachel. Estamos casados, mas é
uma mera formalidade.
— Formalidade! Jake, eu amo você!
— Isso é o que você diz.
— Mas é verdade! — Ela abriu os braços. — Deixe-me lhe mostrar
quanto.
— Não! — exclamou e afastou-se dela. — Rachel, por que você não se
convence de que temos de agir assim por algum tempo? Temos que esperar que o
nosso relacionamento cresça em todas as direções. Só assim você ficará sabendo
se o que sente por mim é amor ou compaixão.
— E se for compaixão? E se for? -— Ela passou os dedos pelos cabelos,
querendo agredi-lo como ele a fizera.
— Então o casamento poderá ser anulado facilmente.
— Mas como pode ser tão... Frio? — Seu tom foi de desprezo. — Pensei
que me amasse!
— Eu me importo com você, Rachel. Mas precisamos de algum tempo.
Algumas semanas. Se pretendermos passar o resto da vida junto, algumas
semanas não fará diferença.
— Então você realmente quis me deixar embriagada a noite passada. Foi
um plano deliberado. —- Ela sacudia a cabeça, transtornada.
Jake conteve um gemido.
— Temos tanta coisa a aprender um sobre o outro.. .
— Agora acredito nisso.
—. . . .E precisamos confiar...
— O que você quer dizer é que cada um deve viver sua vida nas próximas
semanas,
— Como amigos.
— Amigos? — Ela se virou para ele. — E quando seus pais voltarem? Eles
não vão estranhar nós não dormimos no mesmo quarto?
— Não necessariamente. Estive doente, e posso perfeitamente dizer que
não pego no sono facilmente, e que durmo sozinho para não perturbá-la.
— Você pensou em tudo, não? — perguntou Rachel com voz trêmula, pois
se sentia arrasada ao pensar que ele a dispensava com a maior tranqüilidade.
Passaram-se quatro semanas e, durante esse tempo, ela aprendeu pelo
menos uma coisa: a arte de esconder os sentimentos. Com a volta dos pais de
Jake, e com a presença constante de Sheila Pendlebury pelo antigo convento,
Rachel construiu uma barreira a seu redor, pois assim podia controlar melhor sua
emoção.
Conseguia parecer sempre alegre e relaxada para os Courtenay, embora
não conseguisse comer muito nas refeições. Quando Jake tentou lhe falar algo
sobre isso, ela o tratou secamente, e ele desistiu.
Jake passava a maior parte do dia nos estábulos, e, embora Rachel
gostasse de cavalos, tentava fingir-se indiferente. Um dia, entretanto, tendo
recusado o convite da Sra. Courtenay para ir à vila fazer compras resolveu ir ao
encontro de Jake. Colocou um casaco e saiu de casa, pois fazia muito frio. Ia
pedir-lhe para levá-la até Glastonbury para que lhe comprasse um presente de
Natal. Antes de entrar no estábulo, porém, ouviu a risada de Sheila. A tentação de
se virar e fugir foi grande, mas ela se forçou a entrar.
Sheila estava lá, alta e esguia, vestindo um atraente conjunto de tweed
cinza com um cachecol vermelho no pescoço. Estava inclinada sobre o animal que
Jake tentava colocar numa posição adequada para vacina-lo. Ele parecia estar
também alegre e à vontade. Ambos pareceram surpresos quando perceberam a
presença de Rachel.
— Desculpem-me! — disse ela com evidente sarcasmo na voz. — Estou
incomodando? Pensei que estivesse muito ocupado, Jake, mas isso obviamente
não é de minha conta. ,
— Rachel! —Jake se ergueu com o rosto lívido de raiva.
— Talvez eu devesse ter batido antes de entrar, ou mesmo telefonado!
Seria melhor você saber que eu estava chegando!
E com essas palavras, nascidas do desejo de lhe mostrar que ele não lhe
causava medo, retirou-se, ignorando seus apelos furiosos. Mas essa coragem não
duraria muito tempo. Antes que percebesse, estava correndo, e à medida que se
aproximava da casa dava-se conta do que fizera. O bom senso lhe voltou e ela
mordeu o lábio furiosamente. Entrou na casa e galgou as escadas
apressadamente, tentando ordenar as idéias. Jake ficaria furioso, enquanto Sheila.
. . As duas haviam se tratado cordialmente durante todo aquele tempo, mas
agora...
Ainda subia quando ouviu o barulho da porta se abrindo violentamente.
Voltando-se, avistou Jake. Ele colocara um casaco de couro sobre a roupa que
usava e suas feições estavam mais ameaçadoras do que nunca. Rachel alcançou a
porta de seu quarto segundo antes que ele também a alcançasse e, quando a
porta se fechou atrás deles, ela teve o bom senso de não se trancar no banheiro.
Jake fitou-a enfurecido por alguns minutos e disse:
— Não faça isso nunca mais! Nunca mais!
— E se eu quiser? Como é que você vai me impedir? Não entendo como,
como não se casou com ela! Pelo menos você não teria de perder tempo para
conhecê-la melhor! Aliás, vocês parecem se conhecer muito bem.
Jake olhou para ela por alguns momentos e de repente, transtornado,
puxou-a selvagemente contra seu corpo másculo e rijo. Seu lábio aprisionou os
dela num beijo caloroso, enquanto afagava com uma das mãos seus cabelos, sua
nuca, sua espinha, apertando o corpo frágil dela contra o seu com uma intimidade
até então desconhecida.
— Está bem — disse ele, beijando-a no pescoço. — Se você insiste em
me provocar...
Jake beijou-a de novo. Em seguida pegou-a no colo, depositou-a na cama
e deitou-se ao lado dela. O contato com seu corpo despertou em Rachel todos os
desejos adormecidos durante aquelas semanas.
Mas assim que os dedos de Jake desabotoaram sua blusa e acariciaram a
pele macia de seus seios, Dora bateu à porta para avisar que o chamavam ao
telefone. Por um momento Rachel pensou que ele fosse ignorar os chamados da
governanta, quando a língua dele percorreu os bicos duros de seus seios e seu
coração batia desesperadamente de medo e antecipação do prazer. De repente,
com um gemido, ele se pôs de pé, olhando-a com expressão indefinida.
— Jake... — murmurou ela, erguendo-se sobre os cotovelos, consciente
do efeito que a blusa ainda aberta provocaria nele. Mas ele se virou abruptamente
e disse, ríspido:
— Considere-se repreendida. Ou talvez seja eu quem deva me
repreender. Não sou tão suscetível a provocações desse tipo!
E ele se foi, deixando-a ali física e mentalmente perturbada. Estava
ressentido com Dora, apesar de a governanta não saber de nada. Ou sabia?
Rachel sentia-se tão desprezada que a idéia de que Sheila fora pedir sua
intervenção não lhe pareceu tão absurda assim.
O Natal não foi muito agradável, apesar dos esforços do Sr. e da Sra.
Courtenay. Rachel ganhou deles uma correntinha com uma cruz de prata.
Contaram-lhe que aquele fora o presente que a avó paterna de Jake lhe dera
quando o batizou. Pertencia à família há várias gerações. Seus próprios presentes
eram bem menos valiosos: um xale para a sogra e um cachimbo para o sogro,
mas ambos pareciam bastantes gratos com a lembrança.
Ela não esperava presente algum de Jake, mas ele parecia disposto a
continuar a farsa perante seus pais. Dele ela recebeu um colar e um par de
brincos de safiras e rubis. Rachel ficou sem saber o que dizer quando tirou as jóias
da caixa.
— São lindos! — exclamou. — Obrigada.
— Ora, de-lhe um beijo, garota! — O Sr. Courtenay não se contentava
com aquilo, tirando baforadas de seu novo cachimbo.
Rachel viu-se obrigada a levantar-se e aproximar-se do marido. Ela podia
antever o frio que sentiria com aquele beijo forçado, mas ele se inclinou e beijou-a
com sensualidade inesperada. Rachel olhou-o, intrigada. Jake, porém não disse
nada.
Dez dias depois seguiam de carro para Londres e se instalaram no
apartamento de Jake. Ela preferiria uma casa com jardim, mas logo se deu conta
de que Jake precisava morar no centro por causa de seus negócios.
O apartamento de Jake em Londres ficava perto de Hyde Park e era
possível avistar-se todo o centro de Londres pela janela. Rachel estava
maravilhada.
Após toda a imponência do antigo convento, o apartamento parecia
bastante aconchegante. Apesar de ser grande, era menos luxuoso e mais
moderno. A sala de jantar ficava acima do nível do resto do apartamento, e a
cozinha era toda de aço e madeira. Havia quatro suítes, e uma biblioteca onde
Jake costumava passar as horas de lazer. Um casal que morava no andar térreo se
ocupava da limpeza e conservação de todo o apartamento.
Os Madigan tratavam Rachel com muito respeito, sem nenhuma
hostilidade, como acontecera com Dora Pendlebury. Ela se sentia aliviada por isso,
embora o casal também não se mostrasse aberto a qualquer relacionamento além
do convencional. Imaginou que talvez fosse por isso que o apartamento não
atraíra tanto Jake no passado.
Mas sua vida mudara tanto naqueles dias que ela não se deteve muito
sobre isso. O que sabia de Jake, afinal?
Depois de uma semana, começou a compreender quanto o trabalho
exigia dele; Jake havia retomado o mesmo ritmo de antes e Rachel concluiu que
Maxwell Francis não ficaria satisfeito com isso. Mesmo que ele não quisesse
trabalhar naquele ritmo, parecia que era impossível evitá-lo, pois desde sua
chegada em Londres o telefone não parava de tocar. E, apesar de ser a Sra.
Madigan quem atendesse, Rachel começou a ter ódio do telefone.
As mudanças foram grandes em relação ao tempo que passaram com os
Courtenay. O ambiente era completamente outro, ela estava acostumada a ver
Jake muito pouco durante o dia, e sua principal dificuldade era descobrir como
preencher seu tempo livre. De nada adiantava para Rachel saber que tinha um
carro à disposição e uma mesada que daria para alimentar uma família de quatro
pessoas folgadamente. Ela queria fazer parte da vida do marido e não ser apenas
uma pessoa a mais. Mas como?
Jake costumava chegar perto das sete e meia, a tempo de tomar banho e
se trocar para o jantar. Depois da refeição, contudo, ele ia invariavelmente para
seu estúdio e ficava Já por algumas horas, só saindo quando ela já estava com
sono.
Rachel olhou para seu relógio. Quase sete horas, ele deveria chegar a
qualquer momento. Talvez até já estivesse em casa, tomando seu banho. Ela já
tomara o seu há algum tempo, e sobre a cama colocara um outro vestido que sua
sogra lhe havia dado. Era rosa-pálido e muito bonito.
Uma porta bateu e Rachel começou a se vestir, nervosa. Umedeceu os
lábios secos e começou a passar rímel nos olhos. Ela não levaria mais de um
minuto para se vestir, enquanto Jake demoraria meia hora para ficar pronto.
Sentiu o coração bater mais rápido, como sempre acontecia àquela hora. Mas
agora era uma mulher casada, e não uma colegial em seu primeiro encontro,
pensou, recriminando-se. Precisava aprender a controlar aquelas emoções tolas.
Subitamente bateram à porta, e ela borrou o rosto com o rímel.
— Essa agora! — murmurou baixinho. — Quem é?
— Eu, — A resposta lacônica fez com que o rímel lhe escapasse das
mãos. — Posso entrar?
Rachel vestiu rapidamente o robe de seda, que acentuava suas formas
esguias. Era a primeira vez que Jake entrava em seu quarto e seu coração se
acelerou ainda mais; o bom senso, porém, não a deixou perder o controle.
— Claro, entre!
Jake ainda usava o mesmo terno escuro de trabalho, e parecia cansado.
Olhou então para ela e percebeu que estava ansiosa. Ajeitou os cabelos com as
mãos, como sempre fazia, e disse:
— Fomos convidados para sair hoje. Que tal?
— Sair? Para ir onde?
— A uma festa — respondeu. — Jon e Petra Forrest, um casal de amigos
meus, nos convidaram. Jon é meu companheiro de negócios, na verdade, mas
conheço-o há anos. Pensei que estivesse na hora de você... Bem, de começar a
conhecer as pessoas.
Rachel sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
— Você quer ir? — ela perguntou subitamente.
— Você não?
— Vai ter muita gente lá?
— Vinte e cinco trinta pessoas.
Rachel engoliu em seco e Jake observou sua reação.
—- Isso tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde, Rachel. — Jake
começou a afrouxar o colarinho. — Esta é a primeira vez que você sentirá
realmente o que é ser mulher de Jake Courtenay.
-E o que você pensa realmente?
— O que você quer dizer?
— Quero dizer que ser mulher de alguém é muito mais que ir a festas
com o marido. Penso diferente de você.
Jake começou a desabotoar a camisa.
— Você irá?
— Se você quiser. — Rachel fez um gesto de resignação.
— Ótimo — disse ele e se dirigiu até a porta. — A festa é informal. Esteja
pronta dentro de uma hora.
Rachel, depois de muito pensar sobre o que vestir, resolveu usar calça
comprida e o colete que usara naquele dia em que saíra com Cari, no mesmo dia
em que Jake a pedira em casamento.
Mais tarde, quando Jake a viu, seus olhos brilharam por um instante.
— Tenho algo para você.
Ele saiu e depois voltou, carregando nos braços um casaco de pele.
Rachel observou o casaco sem entusiasmo, mas virou-se obediente para que Jake
o colocasse em suas costas.
— Obrigada.
— Algum problema? Não gosta do casaco?
— É muito bonito. Vamos? Ou você prefere que eu troque de roupa?
— Você está muito atraente, e tenho certeza de que sabe disso. Se não
gosta do casaco, pode trocá-lo.
— É que não gosto da idéia de pequenos animais sendo sacrificados para
se transformarem em casacos valiosos.
— Bem, mas você deve saber que as chinchilas não estão ameaçadas de
extinção.
Rachel pegou então sua bolsa e dirigiu-se para a porta, roçando sem
querer no corpo dele. A brisa fria da noite, contudo, dispersou aquele instante de
intimidade.
Era a primeira vez que saíam juntos, e Rachel sentia-se excitada. Estava
consciente de que Jake não era indiferente a ela e que não resistiria muito tempo
ao desejo de possuí-la.
Havia mais de doze carros estacionados à frente da casa dos Forrest, e
enquanto Jake procurava um lugar para estacionar, Rachel olhava ansiosa para as
janelas iluminadas. Todos eram estranhos para ela, e até mesmo Jake lhe pareceu
estranho. Se estivesse certa do seu amor, não teria receio de enfrentar ninguém,
mas não estava e, por outro lado, não duvidava de que iria encontrar mulheres
muito mais atraentes que ela na festa. Jake trancou o carro e, ao segurar seu
braço, percebeu que ela tremia.
— Não fique nervosa. Eles não vão comer você!
— Não? — Ela conseguira resumir todo seu temor em uma única palavra.
— Essas pessoas eram amigas de Denise, também?
— Elas conheciam Denise. Ela era muito. . . Sociável.
— E você? — Rachel quis saber.
— Não da maneira que está pensando — respondeu, subindo as escadas
que davam para a porta.
Rachel sentiu-se então reconfortada.
Uma empregada vestida de preto os recebeu e em segundos pareceu a
Rachel que estavam rodeados de pessoas. Os anfitriões se dirigiram a eles. E Jake
apresentou-os a Rachel, Jon Forrest era muito charmoso, mas Rachel percebeu um
certo gelo no modo como Petra a cumprimentou. Ela deve ter sido amiga de
Denise, pensou Rachel.
Apesar de Jake tentar ficar a seu lado o tempo todo ele era muito
solicitado, e Rachel por sua vez tinha de satisfazer a curiosidade de várias
mulheres que queriam saber como eles haviam se conhecido, o que ela fazia
antes, e outras tantas indiscrições.
Rachel, que não se alimentara muito durante o dia, aproveitou-se do
generoso bufe para comer canapés, sanduíches, e uma salada de frutas, pois se
lembrava bem do que uma bebida alcoólica podia provocar em um estômago
vazio.
A música alegre vinha de quatro caixas de som espalhadas pela sala, os
muitos convidados dançavam. Aquilo tudo parecia muito barulhento para ela, que,
depois de se desvencilhar de alguém com quem dançara, se dirigiu para o quarto
onde se guardavam os casacos e depois ao toalete. Estava para sair quando ouviu
as vozes de duas mulheres conversando animadamente.
— Ela é jovem demais, não é? Além do mais, com todas as mulheres que
Jake já conheceu, ele poderia ter escolhido uma um pouco mais sofisticada.
Aquelas palavras gelaram Rachel. A outra mulher então disse:
— Bem, todos sabem como Denise se comportava. Talvez ele tenha se
decidido a não cometer os mesmos erros de novo.
— Ah, mas você já soube? A princesa Denise é viúva! O velho Vittorio
parece não ter agüentado seu ritmo. De qualquer modo, ela está livre novamente,
e quanto você quer apostar como ela virá a Londres logo, logo?
— Você quer dizer. . . Para se encontrar com Jake?
— E quem mais? Você sabe que ela nunca se importou com mais
ninguém, mas, como Jake se recusava a satisfazer todos os seus caprichos,
Denise resolveu lhe dar uma lição. Parece que a lição não trouxe o resultado que
ela esperava...
— A estafa?
— Bem, depois que ela o deixou ele se enterrou no trabalho, e deu no
que deu!
A garganta de Rachel estava seca. Ela teria dado tudo para não estar ali,
ouvindo aquilo tudo!
— Então está viúva?
— Está — respondeu a outra em voz baixa. — Fico pensando se não foi
por causa disso que Jake resolveu se casar tão rapidamente. Ele sabe que Denise
vai procurá-lo, e que humilhação vai ser para ela encontra-lo casado.
— Claro. .
As vozes se distanciaram e Rachel ouviu a porta se abrindo e fechando.
Seu coração batia tão forte que ela pensou que fora descoberta. Ficou ali por mais
alguns minutos antes de se juntar aos convidados novamente, tentando esquecer-
se do que ouvira. Mas as palavras voltavam a martelar sua mente, e a dúvida
toldava toda a alegria anterior.
Talvez Jake tivesse se casado com ela somente para provocar ciúmes em
Denise. Talvez a razão do casamento não ter ainda se consumada fosse esta. Por
que não? Seria cômodo para ele anulá-lo em tais circunstancias. Talvez ele
quisesse Denise de volta, e o fato de levá-la à festa não passasse de uma
encenação.
Tudo lhe parecia muito irreal. Estava casada, mas Jake não era seu
marido de verdade.
CAPITULO IX
Rachel voltou para a festa com a cabeça quente, pensando em mil coisas
ao mesmo tempo. A primeira pessoa que encontrou foi seu marido. Jake segurou-
a pelo braço com raiva e puxou-a contra seu corpo. Em qualquer outro momento
ela teria gostado desse contato, mas agora nada sentiu.
— Onde você estava, Rachel? — Seu hálito cheirava a uísque. —-Estou
procurando por você há mais de meia hora!
Rachel jogou a cabeça para trás, fitando-o, desamparada. Seu cabelo
dourado contrastava com o colete escuro.
— Eu... Fui ao banheiro — respondeu automaticamente e começou a
voltar à realidade. — Vamos ficar aqui ainda por muito tempo?
— Não está se divertindo? — Seu braço afrouxou um pouco.
— Na verdade, não. E você?
—- Pensei que gostasse de festas. As de Jon e Petra são sempre alegres,
ou pelo menos todo mundo diz isso.
Rachel encolheu os ombros e ele soltou seu braço.
— Quer ir para casa?
— Você quer? — perguntou ela.
— Por que está me olhando assim? Fiz algo errado? — Seus olhos se
estreitaram. — Ou alguém esteve conversando com você? Algum amigo esteve
dizendo a você que sou um egoísta?
Suas palavras estavam tão perto da verdade que ela enrubesceu. Jake
estava zangado.
— Quem esteve conversando com você? Petra? Ou seu primo magrelo
que estava dançando com você?
— Por que alguém haveria de me dizer alguma coisa?
— Petra era muito amiga de Denise. Ela não resistiria a dizer alguma
frase maliciosa.
Rachel fitou-o emudecida por alguns segundos. Aquele homem
despertava-lhe sentimentos tão estranhos! Estavam ali parados, olhos nos olhos,
quando poderiam bem estar num quarto sozinhos. Se o que aquelas mulheres
haviam dito era verdade, se Denise ainda o quisesse, que chances ela teria se ele
nem permitia que dividissem a mesma cama? Rachel queria arrancar suas roupas,
sentir aquela pele áspera e bronzeada contra a sua. E por que não se dar esse
prazer, se estava disposta a agüentar as conseqüências?
— Rachel! — insistiu Jake, obrigando-a a se recompor.
— Petra, Petra não me falou nada. Eu... Bem, não estou acostumada a
festas.
— Nem eu, acredite-me ou não. — Sua voz soou irônica, mas ela notou
um certo carinho logo depois. — Vamos, então? .
Estava frio lá fora. Notou que Jake bebera mais do que devia, pois há
tempos não tomava álcool. Ele resmungava baixinho por não conseguir colocar a
chave na fechadura do carro, quando então Rachel decidiu dirigir. Determinada,
tirou a chave de sua mão e ele teve de se contentar em ir a seu lado.
— Você tem de me mostrar o caminho — disse ela, enquanto aproximava
mais o banco da direção e apertava o cinto de segurança.
— Está bem?
— Sinto muito — disse baixinho, enquanto ela se familiarizava com o
carro. — Isso nunca me aconteceu antes. Pensei que aguentasse. Antes, estava
acostumado a beber muito.
— Não tem problema. — Rachel tentava mostrar-se confiante. —Por onde
vamos?
O tráfego não estava intenso àquela hora, e eles chegaram ao prédio sem
maiores problemas. Ao entrarem em casa, Rachel sentou-se na sala para ler uma
revista, esperando que Jake se acomodasse a seu lado. Ouviu seus passos incertos
sobre o carpete,
— Vou para a cama — disse ele abruptamente, desabotoando o casaco.
— Se quiser alguma coisa, chame a Sra. Madigan.
Rachel olhou-o por cima da revista.
— Ela está deitada agora, não está? Nem sonharia em perturbá-la a essa
hora da noite. — Depois de uma pausa, perguntou: — Precisa de alguma coisa?
Jake disse que não com a cabeça e deu-lhe boa-noite. Rachel viu-se só
novamente e ansiosa por seus beijos. Jogou a revista em cima da mesinha de
vidro que estava à frente e suspirou. Colocou então as mãos no bolso e sentiu o
contato da chinchila macia sob seus dedos.É um casaco muito bonito e sensual,
admitiu, correndo os dedos pela lapela. Como se tivesse tomado uma decisão,
dirigiu-se para seu quarto.
Era todo branco: as paredes, o tapete e a coberta de cama. A cor fria da
virgindade pensou ela com certo desprezo. As cortinas quebravam essa monotonia
com pequenos motivos em azul e lilás, que se repetiam nas paredes do banheiro.
Ela sempre o achara muito charmoso, mas naquela noite tudo lhe parecia inútil.
Tirou as roupas, deixou-as jogadas pelo chão e deliberadamente só abriu
a água fria, entrando num impulso debaixo do jato gelado. As gotas agiam como
alfinetes revigorantes em sua pele, e quando desligou o chuveiro o calor de seu
corpo pareceu voltar maior ainda. Enxugou-se vigorosamente com a toalha. A pele
parecia mais macia e morna, provocando-lhe uma excitação irresistível.
Voltando ao quarto, colocou o casaco de peles num impulso e olhou-se no
espelho. Deu algumas voltas na frente dele, como vira os modelos fazerem em
desfiles.
Tremendo um pouco, virou-se para a porta. Será que teria coragem de ir
até o quarto dele? Tentava desesperadamente arrumar um pretexto para entrar
lá. Seria capaz de ir se oferecer a ele?
Deu alguns passos em direção à porta, mas parou bruscamente. Que
desculpa daria a ele? Poderia dizer que queria devolver o casaco, mas aquilo soava
falso demais. E se ela fingisse que o ouvira chamá-la? Não! Talvez fosse melhor
dizer-lhe que estava preocupada com o seu estado, e vinha saber se ele precisava
de alguma coisa. Mas tudo lhe parecia muito óbvio, e Jake nunca acreditaria em
nenhum desses motivos.
Mas esta poderia ser sua última chance, já que estava com coragem. Ele
não era indiferente a ela, afinal, e corresponderia aos seus desejos. Suas
pálpebras se fecharam quando Rachel começou a pensar em outras coisas. Estava
casada, mas não de todo. Não era experiente. E se de repente ficasse fria, como
ouvira que poderia acontecer? Que humilhante seria!
O que fazer? Indagou-se, desanimada. Ela não tinha muita certeza de
nada, e não conseguiria bancar a sedutora.
Estava tão imersa nos pensamentos que nem ouviu quando bateram à
porta, e só pela segunda vez se deu conta disso. Apressou-se em abrir e apertou o
casaco contra o corpo. Jake estava apoiado no batente, os olhos escuros fixos nos
dela. Era a segunda vez que ela o via em trajes íntimos, e isso a excitou ainda
mais. Jake estava usando só a calça do pijama, e o torso moreno subiam e
desciam com sua a respiração. Ele devia ter tomado um banho também, pois seus
cabelos ainda estavam úmidos.
Jake a observou, e ela percebeu que ele não ficara indiferente a suas
pernas nuas por baixo do casaco.
— Sinto perturbá-la, mas você tem uma aspirina? Estou com uma terrível
dor de cabeça, e não quero acordar a Sra. Madigan.
— Claro. —- Rachel notou que estivera prendendo a respiração desde que
ele abriu a porta e expirou de uma só vez. — Devo ter aspirina em minha bolsa.
Você quer entrar um pouco?
Jake hesitou, mas acabou entrando no quarto com evidente relutância.
Rachel pegou a bolsa, mas seus dedos nervosos não conseguiam encontrar o tubo
de remédio.
— Você estava acordada? — ele perguntou, notando a fronha
impecável.
— Estava. Tomei um banho. . . Como você.
— Não costumo ter dor de cabeça. Pelo menos não recentemente. — Jake
olhava à sua volta.
Rachel ergueu a cabeça, dando um sorriso reconfortador e pensando que
esse seria o melhor momento para que tudo acontecesse da maneira mais natural.
Mas assim que voltou seus olhos para Jake, mudou de idéia. Não, ela jamais.
— Aqui está! Eu sabia que tinha aspirinas. — Ela por fim encontrara o
remédio no fundo da bolsa e o exibia triunfantemente. — Pode levar o vidro todo.
— Obrigado. — Seus dedos roçaram levemente nos dela. — Vou pedir a
Sra. Madigan para comprar um bom estoque. Quem diz que não vou ter mais dor
de cabeça?
Rachel seguiu-o até a porta, com o coração aos pulos. Ela tinha de se
controlar para não ceder ao desejo de tocar aquelas costas morenas! Por fim Jake
abriu a porta.
— Boa noite de novo.
— Jake.. . Jake, não se vá!
Ela estendeu a mão para tocá-lo, mas ele lhe pareceu indiferente. Seu
olhar também não era nada encorajador. Para deixá-la ainda mais arrasada, tirou
a mão dela de seu corpo e disse:
—- Rachel. . . Rachel, seja sensata.
— Não quero ser sensata. Jake possua-me! — pediu, abraçando-o. Jake
olhou para ela, incerto.
— Rachel, amanhã você se lamentará por isso tanto quanto eu!
— Não! — Ela pressionou o corpo mais ainda contra o dele, sentindo a
rigidez de suas coxas e de seu sexo.
O perfume de seu corpo jovem invadiu Jake e o embriagou, levando-o a
envolvê-la nos braços. Ele a olhou com os olhos atormentados, denunciando sua
luta interior.
— O que você está usando por baixo do casaco? — perguntou, abrindo-
lhe o casaco e vislumbrando sua pele delicada.
Ele a fitou em silêncio por vários segundos, admirando o corpo claro e
macio. Então, com um gemido, Jake a abraçou fortemente, sua mão percorrendo-
lhe o corpo jovem e morno.
— É isso o que você quer? De verdade? — Ele mergulhou o rosto na curva
de seu pescoço, e ela deixou que o casaco caísse no chão para envolver Jake com
seus braços frágeis.
— De verdade, de verdade! — Rachel respirava forte.
Jake então a carregou até o quarto, fechando a porta com os pés.
Rachel estava exaltada com a proximidade do corpo dele. Quando Jake
segurou seus quadris, apertando-os fortemente contra os dele, ela sentiu uma
fome de amor até então desconhecida.
— Segure-me assim — pediu-lhe, enquanto os lábios dele brincavam com
os seus. — É tão bom...
— Há sensações melhores ainda. Quer experimentar?
Rachel estava deitada de olhos abertos, bem depois que a respiração de
Jake se tornara profunda e regular novamente. Virada de costas para ele tentava
encontrar uma razão para tudo aquilo. Quase não conseguia se lembrar de por
que agira daquela maneira, convidando-o a ir para a cama, quando agora aquilo
não lhe parecera tão bom assim.
Quisera ser possuída por ele, é verdade, e ela o amava, isso era certo.
Era certo também que Jake lhe despertara um grande desejo a princípio, mas
depois. . . Não conseguiu sentir mais prazer algum, pois esperava algo diferente.
Na verdade, ela lutou com ele a maior parte do tempo, e a dor que sentiu ainda
superavam qualquer outro sentimento que pudesse ter.
Mesmo assim, agora sou uma mulher casada, pensou amargamente.
Devia estar contente, mas não estava. De alguma maneira ela queria mais, o que
era ridículo, pois a idéia de tê-lo apertando-a contra si novamente provocava-lhe
aversão. Então, o que era? Olhando-o agora, as feições serenas, ela o queria
novamente. Mas se ele á tomasse nos braços de novo, ficaria aterrorizada.
Dormiu e acordou vária vez durante a noite, e logo cedo acordou sentindo
a respiração de Jake na nuca, o braço dele envolvendo sua cintura. Um sentimento
de letargia a invadiu ao pensar na intimidade que tinham agora, e, no entanto. . .
Seus movimentos um tanto aflito deviam ter perturbado Jake, pois ela logo ouviu
sua voz:
— Rachel? — ele murmurou.
— Sinto muito, eu acordei você.
Seus olhos se estreitaram na medida em que Jake foi despertando. Só
então se deu conta daquele corpo esguio e macio a seu lado.
— Claro, eu dormi aqui, como poderia esquecer? — Ele se virou, cruzando
os dedos sob a nuca e olhando para o teto. — Deus, eu me lembro! Eu machuquei
você. Eu sou quem devia estar pedindo desculpas!
— Não, por favor. — Ela estava ansiosa para reconfortá-lo. — Por favor,
não fique zangado.
— Zangado, eu? Deus! Acariciou-lhe os seios e depois o pescoço. — Não
estou zangado com você! Mas isso é o que acontece quando um homem não
consegue se conter! — Ele se recriminava.
Rachel parecia ter levado uma bofetada.
— Foi... Isso, então?
— Você acha que eu a teria machucado se não fosse por isso? Há
maneiras mais gentis. Deus devo ter me comportado como um animal!
Rachel molhou os lábios. — Não importa.
— Claro que importa! Nunca deveria ter acontecido. Mas mesmo assim,
olhando agora para você, eu podia... — Ele se interrompeu bruscamente. — Você
deve estar com uma bela opinião sobre mim!
— Está acabado. . .
— Está? — Sua mão se moveu para acariciá-la com crescente insistência.
— E o que você sabe sobre isso?
Rachel tremeu, procurando deter sua mão.
— Eu. . . Eu sei que sou inexperiente. Você já me disse isso uma
vez.
Os olhos dele sustentaram seu olhar.
— Você não quer mais que eu a toque é isso?
— Não, não! — Ela sacudiu a cabeça, desamparada. — Só que você não
precisa sentir pena de mim só porque possuiu algo que era seu direito possuir.
— Rachel, Rachel! E isso o que você pensa que eu fiz? Possuir o que me
era de direito! Mas não, eu queria você. Eu a quero agora! Mas não era assim que
eu planejava. . .
— Algumas. . . Vezes as coisas não acontecem como a gente planeja —
disse ela, incapaz de controlar a sensação que a invadia.
Jake procurou então os lábios sensuais de Rachel.
— Nem sempre, não é? — Ele respirava dentro da boca de Rachel, e seus
lábios se abriram como um botão beijado pelo calor do sol...
Quando Rachel abriu novamente os olhos, um sol já alto batia nas
cortinas, c por um breve instante ela ficou piscando, sem se espreguiçar. As
lembranças daquela madrugada provocaram-lhe então um largo sorriso virou-se
para o lado, mas Jake já tinha ido apesar de seu perfume revelar que não saíra há
muito tempo.
Ela suspirou profundamente, esticando os braços acima da cabeça. Seus
medos e frustrações daquela noite haviam-se desvanecido por completo na
medida em que relembrava o que acontecera cedinho, e a dor e o
desapontamento haviam dado lugar a experiências bem mais gratificantes.
Naquelas primeiras horas da manhã, Jake havia feito amor com ela
novamente. Mas desta vez ela estava tão ansiosa quanto ele e preparada para
tudo. Entregou-se a ele e deixou-se perder em seus carinhos e exigências.
Finalmente havia aprendido o que era amar!
O toque sensual do lençol sobre seus seios lembrou-a de que estava nua
e, num impulso, saltou da cama e dirigiu-se para o chuveiro. No caminho tropeçou
em algo e viu que era o tubinho de aspirinas. Sorriu, feliz. Ele não tomara nenhum
remédio, afinal de contas!
Ela se enxugava quando ouviu baterem à porta do quarto. Seus sentidos
se aguçaram.
— Entre! — Seu sorriso logo se desvaneceu quando viu a Sra. Madigan.
— Bom dia, Sra. Courtenay. Vou fazer compras agora. Precisa de alguma
coisa?
Rachel prendeu a toalha como um sarongue sob os braços.
— Não, obrigada. O Sr. Courtenay saiu para o trabalho como de costume?
— Ele estava atrasado — respondeu a empregada. — Gostou da festa,
Sra. Courternay?
— Festa? — Rachel pareceu confusa por uns instantes, mas logo se
recompôs. Claro, a Sra. Madigan pensava que eles haviam voltado tarde da festa.
— Bem, foi diferente. Acho que não estou muito acostumada a festas.
— Nem o Sr. Courtenay. — A Sra. Madigan esboçou um sorriso polido.
Não era comum ela falar tão abertamente, e para frustração de Rachel ela mudou
de assunto. — Deixei café pronto para a senhora. Se não precisa mais de mim, já
vou.
— Está bem. — Rachel hesitou. — Sra. Madigan.
— Pois não?
— Ele-.. Não deixou nenhum recado para mim?
— Não, senhora. Deveria deixar algum?
— Não, na verdade não. Obrigada, pode ir. Rachel pôs um jeans e uma
camisa e desceu até a cozinha para tomar seu café. Finalmente a Sra. Madigan se
revelava um pouco humana, pensou, já que há tanto tempo se mostrava
inacessível. Ela deveria ter conhecido Denise também, e devia haver alguma
relação entre isso e a atitude da Sra. Madigan.
De repente o telefone tocou e Rachel apressou-se em atender, sentindo
um frêmito de prazer ao reconhecer a voz de Jake.
— Rachel? É você?
— Sim, sim! Querido, estava pensando em você. . . Houve um momento
de silêncio, e sua voz ficou mais nítida.
— Quero que venha almoçar comigo. Você virá?
— Claro! — respondeu, ansiosa. — Onde? E quando?
— Dentro de uma hora, que tal? Meio-dia, no Pasticcio's, Ê um
restaurante italiano na Regente. Pegue um táxi.
— Está bem. — Ela estava sem fôlego. — Estarei lá.
— Ótimo.
Ao perceber que ele ia desligar, chamou-o infantilmente:
— Jake!
— Sim?
— Jake. . . Obrigada.
— Por quê? — Ele estava impaciente.
— Por convidar-me para almoçar, claro. — Ela não conseguiu verbalizar o
que realmente sentia.
Ele não disse mais nada e desligou o telefone.
CAPITULO X
Rachel ficou se arrumando para o almoço. Pela primeira vez se lamentava
por nunca ter comprado roupas com a generosa mesada que Jake lhe dava todos
os meses. Colocou a calça verde que já usara várias vezes, mas que ganhou um
novo encanto com o casaco de chinchila.
A Sra. Madigan retornou antes que ela saísse e não demonstrou a menor
surpresa quando soube que ela ia almoçar com o marido.
— Ambos estarão aqui para o jantar, senhora?
— Acho que sim — respondeu, imaginando-se num jantar íntimo com
Jake naquela noite. — Sim, viremos os dois. Mas faça coisas simples, está bem?
Assim podemos nos servir sem problemas.
— Está bem, senhora. — A governanta inclinou a cabeça polidamente e
Rachel adivinhou que ela não era tão insensível quanto pretendia parecer.
Era uma hora do dia muito difícil para pegar táxi. O frio de janeiro estava
cortante, e ela se recriminou por não ter saído mais cedo. Finalmente encontrou
um táxi, mas o trânsito estava tão arrastado que já era meio-dia e meia quando
chegou à rua Regente.
O Pasticcio's foi fácil de encontrar, e em sua pressa Rachel acabou
pagando mais do que devia ao táxi.
— Não valeu tudo isso, senhorita. — O motorista lhe devolveu o que ela
lhe dera a mais.
Rachel apressou-se em direção ao restaurante. E se Jake não estivesse
mais lá? O que ela faria? Iria para o seu escritório? Ela sabia que ele ocupava
vários andares de um edifício, mas Jake nunca a convidara para visitar o
escritório.
Um garçom vestido de preto abriu a porta, sorrindo-lhe amigávelmente.
— Bom dia, senhora —- cumprimentou-a polidamente.
— Eu... Estou procurando pelo Sr. Courtenay... — disse ela, quando de
repente divisou a figura alta de Jake. — Jake! — chamou-o.
Depois de apresentá-la a Antônio, o gerente do restaurante, Jake
conduziu-a a uma mesa reservada para os dois.
— Sinto muito estar atrasada — desculpou-se em voz baixa, enquanto o
garçom tirava seu casaco. Jake fez menção para que ela se sentasse e ele fez o
mesmo a seu lado, as coxas rijas de encontro às suas.
— Um drinque, senhor? — perguntou o garçom. Jake olhou-a por um
instante antes de decidir.
— Dois gins-tônicas, por favor.
— Não conseguia arrumar táxi. — Rachel recomeçou a se desculpar
depois que o garçom se afastou, mas os lábios de Jake silenciaram os seus,
relembrando-a da intimidade que haviam desfrutado naquela noite.
— Você está aqui agora.
Ele lhe segurou o queixo, parecendo ter consciência apenas dela naquele
momento, não se importando com ninguém mais no restaurante. A preocupação
de Rachel se desvaneceu ante aquele olhar carinhoso.
— Jake. . . — Ela tentou se recompor, mas não foi possível. — Jake, eu
amo você. . .
— Sei disso — respondeu, bem-humorado. — E eu acabei de demonstrar
como me sinto. Mas acho que essa conversa não vai fazer bem para nossa
digestão.
— Não estou com fome — disse ela, um pouco ansiosa.
— Não deixe Antônio ouvir isso. Você dormiu até tarde?
— Até depois das dez. E você?
— Até as oito.
— Gostaria que você não tivesse de ir trabalhar todos os dias — disse
Rachel.
— É, mas...
Jake ia começar a dizer algo quando o garçom surgiu com os drinques, e
ele agradeceu.
— Para falar a verdade, eu queria conversar com você justamente sobre
isso.
— Sobre o quê? — Rachel bebericava seu gim-tônica, mas com
dificuldade, pois não gostava realmente de álcool. Mas, como esposa de Jake,
tinha de se acostumar a beber um pouco. Depositou o copo sobre a mesa e deu-
lhe um sorriso reconfortante. — Vamos, fale. Sobre o que você quer conversar?
Jake observou-a gravemente.
— Tenho de viajar, Rachel. Amanhã.
— Amanhã? — repetiu. — Para onde?
— Califórnia. — Ele ergueu seu copo e bebeu metade do gim num gole
só. — San Francisco, para ser exato.
— Mas. . . É muito longe! Posso ir com você?
— Pensei nisso. Mas não vai ser bom. Preciso me concentrar muito para
resolver este caso, não vai ser nada fácil.
— Mas quanto tempo você vai ficar fora?
— Uma semana. Dez dias, no máximo. É aquele caso Pearman que me
persegue desde antes de minha doença.
— Mas não há ninguém para ir em seu lugar? — perguntou Rachel,
desesperada. — Claro que enquanto esteve doente alguém substituiu você.
— Claro. E voltei a pensar nisso. Assim que este caso se resolver,
delegarei boa parte de meus poderes a Petrie.
— Petrie?
— Sim, Gordon Petrie. Você ainda não o conheceu, não é? Ele e meu pai
me substituíram enquanto eu descansava.
— Seu pai também?
— Claro, foi ele o iniciador de toda a rede de hotéis. Mas este caso não foi
possível resolver, e ele passou a responsabilidade para mim novamente.
— Mas você sabe o que o Dr. Francis falou! — Rachel o fitava, ansiosa,
sentindo que já perdera a batalha.
— Max? Ele parece uma velhota. E você começa a parecer minha mãe!
Rachel se encolheu, magoada com sua insensibilidade. Jake súbitamente
apertou sua mão entre as dele.
— Tente enxergar pelo meu lado. Tenho de ir para San Francisco. Tenho
de resolver este caso sozinho. Este é exatamente o tipo de situação para o qual
tentei alertá-la. Eu só queria que. . .
Ele se interrompeu abruptamente e Rachel, sentindo o sangue gelar,
disse:
— Continue. Você queria que... A noite passada não tivesse acontecido,
não é?
— É, Rachel. Mas não por causa do que você está imaginando. — Ele fora
violento e ferira Rachel.
— Então, me diga por quê.
Jake passou as mãos pelo cabelo, impaciente.
— Pretendia esperar para que você tivesse uma visão exata do que seria
sua vida — disse ele. — Estas viagens... Este é o tipo de vida que levo, e eu
queria que você observasse e entendesse tudo isso antes de... — Jake respirou
fundo. — Do jeito que está, parece que empurrei você para o fundo sem saber se
você sabe nadar!
— Oh, Jake! — Rachel pôs a mão sobre seu joelho. — Eu sei nadar. Mas e
você?
— Tenho de saber, não é? — Suas mãos apertaram mais a dela. — E
depois de ontem à noite, a decisão da viagem foi tão mais difícil.
— Foi?
— Foi. — Ele ergueu sua mão, beijando-a suavemente. — É porque agora
eu sei o que estou deixando para trás.
— Então você não se lamenta pelo que...
— Como eu poderia me recriminar por algo tão completo? E eu sei que o
mesmo acontecerá esta noite.
— Jake... — Rachel nem conseguia respirar de alegria.
— Agora acho que deveríamos escolher os pratos, não? O que quer
comer? Eles servem uma massa especial aqui, e o patê é uma receita italiana
antiqüíssima.
Rachel sacudiu a cabeça.
— Você escolhe. Como lhe disse, não estou com fome. Jake deu-lhe um
olhar carinhoso.
— Não se preocupe com amanhã. Pense em hoje! Uma semana passa
rápido, e eu prometo pensar muito antes de aceitar qualquer outra viagem dessas.
— Está bem. — Rachel suspirou. — Sei que tenho de me acostumar, mas.
..
— Eu sei. Foi logo depois de... — Jake se interrompeu. — Acho que seria
interessante para você saber que eu não escolhi esse tipo de vida.
— Sei disso. Seu pai me disse. Você preferiria trabalhar com animais, não
é?
— É — assentiu Jake. —- Se eu achasse... — ele se interrompeu
novamente, mas Rachel quis que ele continuasse — se eu achasse que Petrie
poderia tomar conta de tudo, gostaria de comprar um Sugar no campo e criar
meus próprios animais. — Ele sorriu. — E só viria à cidade uma vez por semana.
— Mas isto seria maravilhoso!
Jake parecia surpreso. Você acha mesmo?
— Adoraria.
— Mas você não prefere viver em Londres? Quero dizer... — Ele sacudiu
a cabeça. — Conheço mulheres que preferem.
— Denise, você quer dizer — aventurou-se Rachel. — Não sou como ela,
Jake.
— Você não precisa me dizer isso.
— Além do mais, nós vamos ter filhos, e para as crianças o campo é tão
melhor que a cidade!
Jake virou-se para ela, decididamente provocativo, mas o garçom se
aproximou para anotar o pedido, e o momento de intimidade se desfez.
Rachel desejava ter uma oportunidade para lhe relatar o que ouvira na
casa dos Forrest, mas se conteve para não parecer ridiculamente preocupada. Se
Jake ao menos tivesse lhe dito que a amava! Mas a palavra amor não parecia
figurar em seu vocabulário.
Na manhã seguinte, Rachel acordou com um terrível pressentimento de
vazio. Mesmo com Jake ainda a seu lado, sabia que em poucas horas ele estaria
embarcando para longe. Havia também a possibilidade de um acidente!
Olhando para seu rosto sereno, Rachel imaginava o que poderia lhe
acontecer se o perdesse agora. A idéia era assustadora, e ela até preferiria perdê-
lo para uma outra mulher a pensar que ele viesse a morrer. Curvou-se para beijá-
lo de leve, o suficiente para que Jake acordasse e a envolvesse em seus braços
fortes.
Mas à tarde, sentada ao lado dele na sala de espera do aeroporto, Rachel
sentiu-se dilacerada por dentro. Mesmo assim tentava manter-se alegre. Os
minutos passavam cada vez mais rápidos e as pessoas à sua volta impediam-na
de dizer o que sentia realmente.
O aviso final foi dado pelo alto-falante e Jake ergueu-se; Rachel conteve-
se para não chorar. Outras mulheres se despediam de seus maridos sorrindo e ela
não podia fazer feio.
— Eu lhe telefonarei do hotel — prometeu Jake e ela sentiu em sua voz
um reflexo dos próprios sentimentos. Isso a reconfortou.
— Cuide-se bem — murmurou Rachel, apertando sua mão
ardentemente.
— Eu farei isso. Cuide-se você também. E ligue para mamãe se tiver
qualquer problema.
—- Ela sabe que você vai viajar?
— Falei com meu pai ontem.
— E o que ele respondeu?
— Disse-me que eu era um tolo por deixá-la sozinha.
— E você é!
— Você se comportará bem, não é?
— Claro. — A voz de Jake estava impregnada de amargura e ela tentou
confortá-lo: - Não fale assim!
— Eu só estava pensando no tolo que eu sou mesmo. — Sua boca
procurou a dela com avidez e depois ele se afastou para o controle de passaportes
sem olhar para trás.
De volta ao apartamento, tudo parecia pior. Cada objeto, cada cor fazia
Rachel pensar em Jake, e ela realmente sentiu a falta de uma mãe, de alguém
com quem pudesse compartilhar seus sentimentos. Chegou até a pensar em Delia
e nos outros hóspedes do hotel.
Poderia ir para a casa dos pais de Jake, claro, mas a idéia de encontrar-
se com Sheila Pendlebury não a agradava. Embora Sheila nunca a tivesse tratado
mal, a hostilidade era mútua.
Passou uma noite solitária, assistindo televisão, interrompida apenas por
um telefonema da mãe de Jake. A Sra. Courtenay queria se assegurar de que ela
não se encontrava deprimida com a viagem de Jake, e sugeriu o que Rachel mais
temia: que fosse passar o fim de semana com eles.
— Sabe, eu... Jake vai me telefonar todas as noites — disse ela, tentando
encontrar uma desculpa para não ir.
— Bem, ele pode ligar para cá também. Além disso, sei que Jake gostaria
de saber que passou uns dias conosco.
— Por quê?
Rachel não conseguia ver uma razão para isso, mas a Sra. Courtenay a
tinha na ponta da língua.
— Querida, odeio ter de lhe dizer isso, mas uma das causas principais do
desquite de Jake foi exatamente esta: o que acontecia enquanto ele estava fora.
As mãos de Rachel se crisparam no espelho. Ela ainda não se acostumara
a ouvir as indiscrições da Sra. Courtenay.
— Sra. Courtenay quero dizer, mamãe, eu... Não acho que a relação
entre Jake e Denise tenha algo a ver com a minha.
— Mas tem! — A mãe de Jake foi enfática. — Todos sabem como é essa
história de uma mulher sozinha na grande cidade; é uma grande tentação...
-— Pois para mim, não é — Rachel retrucou firmemente, mas sabia que
já fora derrotada.
— Sei que Charles e eu temos uma vida muito retirada, mas adoraríamos
vê-la, e, não importa o que você diga, sei também que Jake se sentiria aliviado
por você ficar conosco.
— Bem... — Rachel suspirou, e a Sra. Courtenay aproveitou-se de sua
indecisão.
— Você vem? Ótimo! Que tal quinta? Ou sexta-feira?
— Pensei em sábado de manhã.
Não seria tão ruim, seriam apenas quarenta e oito horas. Mas os planos
da Sra. Courtenay eram bem outros.
— Está bem, e talvez Charles e eu voltemos com você para ficar dois ou
três dias em Londres.
— Na verdade, estava pensando em depois ir para o Tor Court passar
alguns dias com Delia.
—- Com Delia? — A Sra. Courtenay desaprovou. — Mas eu pensei que. . .
Quero dizer, Jake nos disse que vocês nunca foram amigas, na verdade!
— Não somos. Mas ela era amiga de minha mãe, e acho que gostaria de
saber que estou bem e feliz.
Rachel não havia pensado naquilo até aquele momento, mas fora a
melhor forma de evitar que os sogros fossem para o apartamento até que Jake
retornasse.
—- Bem, você deve fazer o que quiser, claro — disse por fim a mãe de
Jake. — E talvez você prefira ficar conosco ao em vez de ir para o Tor Court.
Quando Jake retorna, querida?
— Daqui a uma semana, ou menos, se ele conseguir resolver tudo antes.
— Não conte com isso, filha. — Ela parecia conhecer bem o assunto. — É
muito melhor esperar pelo pior, assim você não terá decepções.
— Claro. -— Rachel queria desligar. — Bem, então...
— Bem, querida, tenho de preparar o jantar para Charles, pois é à noite
de folga de Dora. Ligue-me amanhã para me dizer a que horas chega no sábado.
— Pensei em lhe ligar na sexta para confirmar.
— Está bem, sexta-feira, então. Até logo, querida.
— Até logo.
Rachel desligou o telefone com raiva. Por que a mãe de Jake sempre fazia
os comentários mais inoportunos nos momentos menos favoráveis? Era de
propósito? Ou a Sra. Courtenay não possuía tato? De qualquer maneira, seria
melhor que ela guardasse suas indiscrições para si mesma!
Deitou-se às onze horas, imaginando onde Jake estaria ou o que estaria
fazendo naquele momento.
Nas primeiras horas da manhã o telefone tocou forte e ela deu um pulo
de susto, levando a mão ao pescoço. Por um terrível momento pensou que o avião
sofrera um acidente e caíra, e que estavam ligando para lhe dar a notícia. Mas
logo se lembrou de que, apesar de ser madrugada em Londres, ainda era noite em
Los Angeles, e Jake iria lhe ligar àquela hora.
— Alo!
— Rachel!
— Jake! — Ela sentou-se na cama, sentindo lágrimas ridículas escorrendo
pelo rosto. — Jake! Onde está?
— No hotel do aeroporto, em Los Angeles. — Sua voz estava tão clara
que ele parecia estar bem mais perto. — São sete e meia agora, e está na hora de
jantar.
— Jantar! Você deve estar exausto! Como foi o vôo?
— Cansativo — respondeu laconicamente. — Horas e horas sentado.
Consegui dormir um pouco, mas assim mesmo estou exausto.
— Oh, Jake! — Ela não conseguia pensar em nada para lhe dizer, e os
preciosos segundos se esgotavam. —- Estou tão feliz por ter ligado!
— Está? O que você tem feito?
— Nada. — Sentiu um soluço na garganta, mas não deixou escapar. —
Nada, a não ser assistir televisão. Sua mãe ligou, convidando-me para ir passar
com ela este fim de semana.
Houve um momento de silêncio antes que ele falasse:
— E você vai?
— Provavelmente. — Rachel suspirou.
— Você não tem de ir, sabe.
— Sei disso. Mas... Acho que eles gostariam de me ver.
— Estou certo disso. Eu acordei você?
— Não. — O soluço transformou-se num riso nervoso. — Não conseguia
dormir!
— Beba alguma coisa — aconselhou-a docemente, e os lábios de Rachel
tremeram de emoção.
— Jake...
— Sim.
— Venha logo!
— Não precisa me dizer isso. Neste exato momento tenho vontade de
pegar o primeiro avião para a Inglaterra!
— Quando, quando você irá para San Francisco?
— Voarei para lá amanhã de manhã. Tenho um encontro com o pessoal
do Pearman às duas horas. Tentarei ligar na hora do almoço para não tirar mais
você da cama.
— Não me importo — disse ela e ouviu sua risada.
— Está bem, agora preciso comer alguma coisa. Rachel não queria
desligar.
— Como está o tempo? — perguntou ela e ele informou pacientemente as
condições do dia. — Você me liga amanhã, então?
Ele concordou e desligou abruptamente, deixando-a sentada na cama,
fitando o aparelho. Tão longe e tão perto! Nunca um clichê lhe pareceu tão
verdadeiro como esse!
CAPITULO XI
Rachel dirigiu-se de carro para Hardy Lonsdale sábado de manhã. Fazia
três dias que Jake partira, e ele lhe telefonara todas as noites, reduzindo a
distância entre eles através do telefone. Ela ainda não conseguia controlar o frio
na barriga ao ouvir sua voz, e estava ressentida porque não estaria só naquela
noite. Jake prometera que telefonaria as duas noites para a casa de seus pais e
ela ainda não mencionara sua ida ao Tor Court. Era difícil admitir que estava
sentindo uma certa relutância em avisá-lo de que iria para Torquay na segunda-
feira. Cari Yates estaria lá, e ela não queria que Jake tirasse conclusões erradas.
Pensava em passar ao menos uma noite no hotel, pois não desejava que
os sogros a acompanhassem até Londres. Apertou o volante com força. A Sra.
Courtenay havia conseguido perturbá-la com suas palavras indiscretas!
Já era hora do almoço quando chegou à casa dos sogros, que pareciam
esperá-la há algum tempo.
—- Rachel, querida! — A Sra. Courtenay abraçou-a calorosamente, e o
Sr. Courtenay apertou suas mãos com veemência, puxando-a para lhe dar um
beijo no rosto.
— Fez uma boa viagem? — perguntou ele, pegando a mala de Rachel.
— Sim, não havia muito movimento nas estradas.
— E como vai? — perguntou-lhe a sogra, ansiosa para saber os
detalhes daqueles três últimos dias. — Está se sentindo muito só?
— Um pouco — concordou Rachel. — Mas ontem fui até a casa Maxwel
Francis, e conheci sua mulher, Jean, e consegui me divertir bastante.
Na verdade, ela aceitara o convite do médico por não saber como recusá-
lo, mas agora estava feliz por ter ido. Ele ligara para ela assim que soubera que
Jake estava fora e sugeriu que ela passasse um dia no campo junto com a família.
Fora buscá-la naquela mesma tarde, e ela havia adorado ficar brincando com as
crianças e com o cachorro da casa.
— È mesmo? Não sabia que você os conhecia. — A Sra. Courtenay
parecia surpresa.
— Bem, na verdade não conhecia Jean, e só tinha me encontrado com
Max uma vez, no meu casamento. Eles tem quatro filhos, três meninas e um
garoto. Paul, o mais velho, tem oito anos.
— Sei. — A Sra. Courtenay parecia desaprovar o que ouvia, e seu marido
interferiu.
— Sarah acha que você não deveria se divertir enquanto Jake está fora!
Ela acha que você devia ficar chorando ao lado do telefone, esperando o tempo
todo!
— Não é verdade! — protestou, ofendida. — Rachel sabe que eu só quero
vê-la feliz. E passar um dia com os Francis me parece muito. . . Adequado.
— Você quer dizer que ela não vai se perder, eu sei. — O Sr. Courtenay
se divertia com a esposa, e Rachel disfarçava o riso ao entrarem na sala de estar.
— Acho que Jake precisará de um bom descanso quando voltar. Ontem à
noite ele me pareceu muito cansado pelo telefone. — Rachel procurava mudar de
assunto, com dó da sogra.
A Sra. Courtenay assentiu, com a cabeça.
— Também senti o mesmo, querida.
—- Ele telefonou para cá também? — perguntou Rachel, erguendo as
sobrancelhas.
— Ontem à noite — respondeu o sr. Courtenay. — Depois de ter falado
com você.
— Ele queria só dar uma palavrinha conosco — acrescentou a sogra. —
Queria que tornássemos o seu fim de semana o mais agradável possível.
— Entendo — disse Rachel, sentindo-se enrubescer.
— Você está deixando a garota embaraçada, Sarah — disse o pai de Jake
e virou-se para Rachel. —- Na verdade, querida, ele estava preocupado com você
e disse-nos que talvez chegue na quarta-feira.
— Ele acha que talvez consiga chegar e eu espero que sim! — exclamou
Rachel e afundou-se em um dos sofás, suspirando.
Sheila juntou-se a eles para tomar um drinque antes do almoço. Ela
entrou na sala com a segurança de sempre, dirigindo um sorriso amigo a Rachel.
— Como vai?
— Bem, obrigada. — Rachel forçou um sorriso. — E você?
— Muito bem. Como vai Jake?
— Não está achando fácil essa viagem. Também, viajar logo após...
—- Após o casamento?
Ela se aproveitara da breve hesitação de Rachel que, indignada,
respondeu:
— Não! Falo de sua doença é claro.
— Não tenho dúvidas de que é um pouco de cada coisa — interveio a Sra.
Courtenay.
O marido olhou-a severamente por sua falta de tato.
— Sarah! Que mania de se intrometer onde não é chamada! Jake não é
um fracote; é seu trabalho que o deixa assim arrasado! E foi justamente sobre
isso que ele conversou comigo ontem. Ele pensa em colocar a maioria dos
negócios sob o comando de Petrie, e vir à cidade só de vez em quando.
— Mas ele poderia fazer isso? — perguntou-lhe a esposa e Rachel
percebeu que ela também esperava ansiosa a resposta do Sr. Courtenay.
— Acho que sim. Nós nos julgamos indispensáveis, quando na verdade
podemos ser substituídos quase sempre. Jake somente supervisionaria o trabalho
de vez em quando. Além disso, sei que ele quer comprar uma chácara e formar
uma família. Não é mesmo, Rachel? -— perguntou-lhe com todo afeto.
Rachel forçou-se a sorrir.
— Acho que sim.— Ela se sentia envergonhada, e nem mesmo o alvoroço
da Sra. Courtenay pela notícia conseguiu reconfortá-la, pois ela sentira certa
maldade por trás do sorriso de Sheila.
O almoço para quatro foi servido mais tarde. Rachel sentia-se mal perto
daquela moça. Ela era tratada como uma filha, e se comportava com tamanha
desenvoltura que parecia também ser dona da casa.
Mais tarde, o Sr. Courtenay levou Rachel até os estábulos para lhe
mostrar como a potranca estava bonita, e por uma hora Rachel pôde se sentir
bastante relaxada. Ela apreciava a sua companhia, e ele se parecia muito com
Jake. Quando Sam Gordon surgiu, procurando por ele, ela se retirou
discretamente, voltando para a casa.
A Sra. Courtenay não estava na sala de estar, e Rachel resolveu ir para
seu quarto arrumar suas roupas. Estava passando em frente ao quarto de Jake e,
num impulso, abriu a porta. Tomou um susto quando viu Sheila sentada na cama,
uma pilha de revistas no colo, e ela folheando-as normalmente.
Sheila dirigiu-lhe um olhar desafiador, mas Rachel sabia que tinha mais
direito de entrar naquele quarto do que aquela mulher.
-— O que está fazendo?
— Procurando uma coisa. — Sheila continuava a folhear as revistas. — E
você?
— Este é o quarto de meu marido. — Rachel conteve sua indignação,
procurando aparentar calma.
— Sei disso.
— Que revistas são essas? -— Rachel recusava-se a ficar intimidada.
Sheila ergueu uma das revistas, de modo que ela pudesse ver a capa. Era uma
revista de pecuária.
— Elas não são de Jake?
— O sr. Courtenay quer que eu encontre um artigo para ele reler.
— Sobre o quê?
— Para que você quer saber? Você não entende nada de cavalos,
entende?
Rachel mordeu o lábio, contendo a resposta que lhe viera à cabeça. —-
Tenho certeza de que Jake não se incomodaria se você as levasse para outro
lugar para procurar o artigo, e não aqui.
— E por quê? Gosto daqui. — O olhar de Sheila não vacilou, e Rachel não
sabia o que responder. — Qual é o problema, Rachel? Você não deve estar com
ciúmes por eu estar sentada aqui, já que não se importa com quem ele está
agora.
— Não estou com ciúmes! — protestou, mas mesmo aos seus ouvidos
não soou convincente. — E o que você quer dizer com isso? Por que eu deveria
fazer objeções?
— Por quê, não é mesmo? — Sheila encolheu os ombros e continuou a
folhear as revistas.
Rachel estava furiosa, mas tentou se acalmar. Aquela mulher a estava
provocando de propósito, encorajando-a a fazer perguntas, e ela não podia se
sujeitar àquela humilhação. Obviamente Sheila também estava com ciúmes, e
Rachel deveria saber disso.
Virou-se e estava pronta para sair quando Sheila falou:
— Se eu fosse você, perguntaria a Jake por quanto tempo Denise vai ficar
em San Francisco. Ou se ela volta com ele para a Inglaterra.
— Denise! — Rachel não foi capaz de conter a exclamação, e ficou furiosa
ao ver o sorriso de triunfo de Sheila. — Você perde seu tempo, Sheila. Você não
nos separará tentando me provocar ciúmes de Denise. Isso aconteceu há muito
tempo.
— Mesmo? — Sheila ergueu as sobrancelhas. — E quem lhe disse isso?
Mas Rachel não lhe deu o prazer de continuar a conversa.
— Tenho de arrumar minhas coisas.
— Você não acredita em mim, não é? Sobre Denise estar na Califórnia?
Rachel não estava certa de nada, mas não podia pensar que Sheila lhe
contaria uma mentira tão fácil de desmascarar. Mas, de qualquer forma, por que
Jake não lhe dissera nada? Ela precisava de tempo para pensar, mas Sheila não
lhe dava chance.
— Posso prová-lo. Denise está viúva e pensa em voltar para a Inglaterra
um dia desses. Esses são os rumores que correm por aí, pois ela é bastante
conhecida.
— Eu... Realmente não me importo com... — Rachel interrompeu-se ao
ouvir os passos de alguém, e o rumor da saia indicava que a mulher se
aproximava.
— Ah, então estão aí! — A Sra. Courtenay sorria. — Dora preparou chá.
Vamos? Vamos, Sheila?
Sheila olhou para o rosto pálido de Rachel.
— Não, obrigada. O Sr. Courtenay pediu-me que achasse um artigo que
ainda não encontrei, e prefiro continuar procurando.
— Está bem. — Ela segurou com intimidade o braço de Rachel? — Eu e
minha nora tomaremos chá, então. E ela vai me descrever sua vida matrimonial
com meu filho, não é, querida?
Rachel desejava, de todo o coração, jamais ter aberto a porta do quarto
de Jake. Naquele momento ela estaria arrumando a mala, feliz pela antecipação
do telefonema, sem saber ao menos que Sheila estivera no quarto de Jake. Agora
nem podia ir para seu quarto, sendo obrigada a acompanhar a Sra. Courtenay até
a sala de visitas. Teria de conversar, fingindo uma alegria que estava longe de
sentir, sabendo que mais cedo ou mais tarde teria de admitir que Jake estivera
mentindo para ela.
O chá lhe pareceu interminável. Estava completamente sem fome, não se
sentindo nem mesmo tentada pelos deliciosos biscoitos que Dora sabia fazer. A
Sra. Courtenay notou sua agitação, claro, mas tirou suas conclusões, não fazendo
quaisquer perguntas indiscretas, como Rachel temera.
Quando por fim se viu sozinha em seu quarto, Rachel jogou os sapatos
longes, sentindo o macio do tapete sob os pés. Talvez ela estivesse tirando
conclusões muitas precipitadas. Só porque Denise se encontrava em San Francisco
não queria dizer que tivesse se encontrado com Jake. Talvez ele nem soubesse
que ela estava lá. Como Londres, San Francisco era uma cidade enorme, e Jake
tinha seus negócios para cuidar. . . Ou não?
Desgostosa com os rumos de seus pensamentos entrou no banheiro e
abriu as torneiras. Tomaria um banho bem quente, para relaxar o corpo e a
mente.
Vestiu-se com cuidado para o jantar daquela noite; estava determinada
se mostrar jovem e despreocupada à vista de Sheila. Sentiu-se decepcionada, no
entanto, quando desceu e encontrou apenas seus sogros esperando-a para o
jantar. Quando perguntou casualmente se jantariam os três, o Sr. Courtenay lhe
disse que Frank Evans, o veterinário, havia sido convidado para jantar também.
— Tudo o que tenho ouvido falar esses dias gira em torno de cavalos e
mais cavalos, querido — reclamou a Sra. Courtenay, e o Sr. Courtenay dirigiu um
olhar significativo a Rachel antes de lhe perguntar o que gostaria de beber.
— É um vestido lindo — comentou, enquanto ela se aproximava dele.
— Sua mulher escolheu-o para mim. — Ela procurava comportar-se
naturalmente, mas algo em seu olhar deve tê-lo feito desconfiar.
— Algo errado? — perguntou-lhe baixinho e Rachel sentiu-se encorajada
por seu olhar.
— Eu... Bem, acho que sua secretária não gosta de mim — admitiu ela.
O Sr. Courtenay franziu as sobrancelhas.
— O que ela lhe disse? Só porque a tratamos como uma filha não quer
dizer que tenha o direito de atormentar você.
— Nada em especial. — Rachel pegou o copo que ele lhe oferecia e levou-
o aos lábios. — Parece gostoso.
-— Sarah contou-me que você quase não comeu durante o chá — disse
ele, — Disse-me que a encontrou conversando com Sheila, e que você estava
pálida como cera.
Rachel não sabia que sua sogra era tão sensível, e ficou apreensiva. Não
queria aborrecê-los!
— Ela estava exagerando. Sabe, esta sala é realmente muito bonita!
O Sr. Courtenay estreitou os olhos, e estava para dizer alguma coisa
quando a voz alegre da Sra. Courtenay interrompeu-o:
— O que é que estão aí conversando, tão absorvidos? Rachel, venha e
sente-se a meu lado. — Ela indicou o sofá. — A que horas Jake telefonará?
Frank Evans chegou alguns minutos depois, e a presença do velho
veterinário impediu o pai de Jake de lhe fazer mais perguntas sobre Sheila
Pendlebury. No entanto, Rachel sentia os olhos perscrutadores do sogro sobre si,
mas a conversa girava sobre temas gerais e só uma vez o nome de Jake foi
mencionado.
Quando o telefone tocou, às nove e meia, o Sr. Courtenay foi atendê-lo,
retornando minutos depois e avisando Rachel que era Jake e que ela poderia falar
com ele de sua biblioteca. Rachel agradeceu com um sorriso, embora estivesse um
tanto relutante em conversar com o marido daquela vez.
— Alô, Jake!
— Rachel! Então você chegou sem maiores problemas?
— Claro. — Ela fez uma pausa. — Como vai?
— Estou agüentando. — Ele parecia reservado, ou era sua imaginação? —
E você?
— Bem, obrigada.
— Meus pais estão cuidando de você?
— Sim, conforme instruções. — Ela tinha de soltar alguma alfinetada,
afinal, e, antes que ele respondesse qualquer coisa, acrescentou: — Como vão os
negócios?
— Mais ou menos. — Houve um momento de silêncio, e então ele
continuou: — Antes que eu me esqueça. . .
— Sim?
— Não poderei ligar amanhã. Ralph Pearman convidou-me para passar o
dia com ele em sua casa no campo. Sendo domingo, não pude recusar, e não será
bem-educado fazer uma chamada telefônica de lá, concorda?
As pernas de Rachel fraquejaram e ela se sentou na cadeira de couro
atrás da escrivaninha.
— Quem ê... Ralph Pearman?
— Você sabe! — Jake ficou surpreso. — É com ele que estou negociando
agora, já lhe disse a outra noite.
— Oh, claro. . . Aquele Ralph.
— Rachel. . . Rachel ? Está bem? Você esteve bebendo? Sua voz me
pareceu anestesiada, lenta!
— Não, não. Estou bem. — Rachel limpou a garganta. — Então você me
telefona na segunda? Mas não para cá, para o hotel.
— O Tor Court? — Sua voz esfriou perceptivelmente. — Minha mãe já
tinha me dito que talvez você fosse para lá. — Ele hesitou. -— Eu gostaria muito
que você fosse direto para Londres.
— E por quê? Não confia em mim?
— Confiar em você? — Jake parecia pego de surpresa. — Não sei o que
quer dizer. Por Deus do céu, o que minha mãe esteve lhe dizendo?
— Sua mãe? Sua mãe não tem nada a ver com isso.
— Não tem mesmo? — Ele não parecia convencido. — Então o que a faz
pensar que eu não confiaria em você pelo fato de ir para o hotel?
Rachel tremia.
— A confiança tem de ser mútua.
— Também acho.
— Posso confiar em você?
— O quê?! —Jake parecia realmente surpreso, e Rachel pensou se ele
seria capaz daquela encenação se estivesse saindo com Denise.
— A sua primeira mulher, Denise... Ela está em San Francisco, não é? —
perguntou finalmente e sentiu que ele ficou tenso.
— Quem lhe disse?
— É verdade, não é?
— É sim, é verdade. Rachel prendeu a respiração.
— Você se encontrou com ela?
— Como devo responder a essa pergunta? — perguntou Jake e suspirou.
— Sim, eu a vi. Almoçamos juntos dois dias atrás. E agora, está feliz por saber?
— Não! — Rachel tremia tanto que quase derrubou o telefone.
— Foi o que pensei. E foi por isso que não lhe contei.
—- Eu preferiria que você tivesse me contado.
— E para quê? — Ele parecia meio zangado. — Eu teria dito a você
quando voltasse para casa.
— Você devia ter me dito.
— Está bem, eu devia. E agora?
Rachel sacudiu a cabeça, magoada, e perguntou:
— O que ela queria? Por que almoçaram juntos?
— Ela é viúva agora, você sabia? — ele disse.
— Você sabia?
— Claro, Vittorio morreu há duas semanas. — Jake estava
impaciente.
Rachel digeriu a notícia com dificuldade. Então ele já sabia, logo depois
de terem se casado, e mesmo assim não anulara o casamento! Se ele ao menos
tivesse lhe dito aquilo!
— De qualquer modo, eles moraram muito tempo nos Estados Unidos
quando Vittorio estava vivo, e agora Denise quer vender a casa que possuíam. Ela
sabia que eu estava aqui e me telefonou pedindo que a aconselhasse nos
negócios. Só isso!
Rachel agora respirava mais livremente.
— Entendo.
— E agora quero saber quem inventou essa história toda. Mamãe? Papai?
— Não interessa.
Mas a porta se abriu e a Sra. Courtenay entrou, radiante.
— Estou interrompendo? Vocês já falaram um bocado, não é mesmo?
Posso falar com Jake por um minuto?
Rachel fitou a sogra, frustrada. O que poderia fazer, a não ser entregar-
lhe o fone? Oh, por que ela sempre chegava nas horas mais impróprias?
— Eu. . . Jake, sua mãe quer falar-lhe.
— Mas Rachel espere, eu. . .
A Sra. Courtenay pegou imediatamente o fone. Rachel pretendia ainda
conversar com ele depois, mas notando o olhar impaciente da sogra resolveu
voltar para a sala.
O Sr. Courtenay encontrou-a no corredor e, com certa exasperação,
perguntou-lhe:
— Sarah está no telefone de novo? — Quando Rachel fez que sim com a
cabeça, ele acrescentou: — Eu disse a ela que não os interrompesse, mas já viu
como são as mães!
Rachel deu-lhe um sorriso, atenta ao barulho do telefone indicando que a
ligação terminara.
Frank Evans estava enchendo o cachimbo quando eles entraram, e sorriu
amigavelmente para Rachel.
— Você deve sentir falta de Jake.
Rachel concordou, sem conseguir falar. Ela ainda estava ali, parada ao
lado da porta, torcendo as mãos nervosamente, quando a sogra entrou.
|— A ligação foi cortada — informou e Rachel sentiu suas últimas esperanças se
esvaindo com aquelas palavras. Então ela não poderia falar mais com Jake! A
Sra. Courtenay notou seu desapontamento.
— Tentei falar com a telefonista, mas foi impossível.
— Não sei por que você teve de interferir na conversa deles! Você já
havia conversado com ele ontem! Que mania!
— Tenho minhas razões, como mãe. Além disso, queria que ele soubesse
que estamos cuidando de Rachel.
— Isso é óbvio! — O Sr. Courtenay não conseguiu conter o riso.
— Por favor, — Rachel não aguentava mais. — Se Jake quiser falar
comigo novamente, ele telefonará.
O resto da noite foi uma ansiosa espera, que culminou com sua ida para
o quarto às onze horas. Dormiu chorando.
No domingo de manhã foi à missa com a sogra e, depois de um rápido
almoço foi de carro passear pelo campo. Rachel se sentiu revigorar um pouco.
Jake estaria de volta em apenas três dias, e logo aquela semana seria apenas uma
lembrança desagradável.
— Você vai para Torquay amanhã? — perguntou-lhe a sogra casualmente
ao pé do fogo, após o jantar naquela noite.
Rachel olhou-a, incerta. -— Não, acho que não.
— Você vai direto para Londres? — perguntou o Sr. Courtenay, erguendo
os olhos do jogo de xadrez.
— Você podia ter-nos dito isso antes — disse-lhe a sogra. — Você me
ouviu combinar com a mulher do prefeito para fazer aquela festa de caridade na
terça, não foi? — A Sra. Courtenay parecia ofendida.
— E o que isso tem a ver? — perguntou o marido, impaciente.
— Havia dito a Rachel que poderíamos passar alguns dias com ela em
Londres.
O Sr. Courtenay ficou exasperado.
— Você fez isso? Nós... Nós irmos a Londres com Rachel! Não seja
ridícula, Sarah! Não posso ir para Londres esta semana, e você sabe muito bem!
Harrison virá para conhecer a potranca, e Sam quer que eu vá com ele ao
mercado da vila. Além disso, você quer que Rachel pense que não confiamos nela?
Deus, você tanto fez que já a trouxe para cá! Já não é o bastante?
— Eu devia ter pensado que seus cavalos vêm sempre à frente de
qualquer pessoa, mesmo de sua nora! — A Sra. Courtenay mordeu o lábio, e
novamente Rachel intercedeu.
— Na verdade, eu... O que o Sr. Courtenay diz está certo. Eu realmente
gostaria de passar alguns dias sozinha antes de Jake chegar. Tenho muitas coisas
a fazer, inclusive compras.
Rachel animou-se ante esse pensamento. Sim, ela compraria novas
roupas para recebê-lo de volta.
— Bem... Se for assim que você pensa. — A Sra. Courtenay estava
ofendida de verdade.
— Jake voltará para casa na quarta. — Rachel procurava ser gentil —
Serão somente dois dias.
— Mesmo? — A Sra. Courtenay parecia incerta. — Ele não deu certeza.
Pelo menos não me disse que estaria em casa na quarta.
— Claro que não! Ele a encontraria na porta!
— Charles! — O rosto da Sra. Courtenay estava vermelho de indignação.
— Como pode dizer tal coisa? Você e Jake são iguais! Sempre me acusam de
coisas que eu jamais faria!
— Estou enganado, ou você está por demais ansiosa? E por que acusar?
Quem a acusou? Jake?
De repente Rachel adivinhou do que se tratava, e olhou significa-
tivamente para a sogra.
—- Jake me disse que você descobriu que Denise estava em San
Francisco, e acusou-me de ter lhe dito isso!
— Sheila! — O Sr. Courtenay estava perturbado. — Foi Sheila, não foi?
Rachel não poderia negar. Ele continuou:
— Claro, ela sempre teve ciúmes de Denise também! Como pude me
esquecer disso? Mas ela sempre se comportou tão educadamente com você que eu
pensei. . . — Ele suspirou. — Desculpe-me, Rachel, eu deveria ter adivinhado.
— Sobre o que você está falando, Charles? — A Sra. Courtenay estava
estarrecida.
— Sheila contou de Denise para Rachel. Você não se lembra de ter me
dito que ontem encontrou Rachel tão pálida conversando com Sheila?
— Ora, aquela atrevida! — A Sra. Courtenay estava sinceramente
comovida. — Como pôde fazer tal maldade?
— Bem, mas não era segredo. — O Sr. Courtenay procurava confortar
Rachel. — Um dia antes de partir Jake me contou que Denise estava lá. Ele queria
lhe contar, mas estava receoso de que ficasse magoada.
Rachel estava se sentindo bem melhor, mas como sempre a Sra.
Courtenay quis dar a palavra final.
— Sei como ele se sente, querida. Imagine, Denise era sua mulher, e de
repente pediu o divórcio! Sim, porque todos sabemos que foi ela quem pediu, e
não ele. E agora ela está viúva!
— Sarah! — O Sr. Courtenay, porém, não a intimidou com essa
exclamação.
— Ela era muito bonita. Os dois formavam um par muito bonito, todos
diziam. Se a estafa de Jake não tivesse acontecido muito depois, eu diria que foi
causada pelo divórcio.
Rachel deixou a casa dos sogros na segunda-feira às dez horas, e logo
depois da uma se encontrava em seu apartamento. Era um alívio passear pelos
quartos vazios e pensar que estava só para fazer apenas o que bêm entendesse.
A Sra. Madigan apressou-se em lhe servir um delicioso almoço, e depois
Rachel telefonou para os sogros para dizer que havia chegado bem. Nenhum dos
dois, porém, estava em casa quando ela ligou. Foi Dora quem atendeu.
— Não, não é preciso. Diga-lhe que está tudo bem — respondeu Rachel
quando Dora ofereceu-se para ir até os estábulos chamar o Sr. Courtenay. — Não
é importante. Diga-lhes apenas que estou em casa, e que lhes telefonarei mais
tarde.
Era quase noite quando o telefone tocou, e Rachel apressadamente
largou o livro que lia para atendê-lo. Pensou que fosse Jake, mas uma voz
estranha procurava por ela.
— E ela mesma quem está falando. Quem é? Cari é você? Um som vindo
da porta fez com que ela se virasse e, ao avistar a Sra. Madigan, Rachel fez lhe
sinal de que estava tudo bem, e ela se retirou.
— Rachel? — A voz de Cari parecia aflita, e ela logo respondeu:
— Pode falar, Cari, estou ouvindo bem. Você está em Londres?
— Não. É que tenho más notícias.
— Más notícias! — Imediatamente seu pensamento se dirigiu para Jake.
— É a Sra. Faulkner-Stewart. Ela teve um ataque cardíaco e faleceu no
sábado.
— O quê? — Rachel estava profundamente chocada. — Mas ela era tão
jovem ainda!
— Quarenta e cinco anos, para ser exato. — A voz de Cari era grave. Foi
um choque para nós também. Ela jogava cartas com os outros hóspedes, como
sempre, quando começou a se sentir mal. Tudo aconteceu em poucos minutos.
— Mas o que o médico diagnosticou?
— Trombose coronária. — Cari suspirou. — Ela não tinha uma vida muito
saudável, você sabe, e..bem, mas quem sabe como essas coisas acontecem?
Rachel sacudiu a cabeça, não conseguindo acreditar. '
-— E quando será o enterro?
— Amanhã. É por isso que estou lhe telefonando. Tentei ligar no sábado,
mas a governanta falou que você estava fora todo o fim de semana.
— Se ao menos você tivesse perguntado onde eu estava! — Rachel
começava a pensar se o seu desejo de ir para Torquay não fora uma premonição.
Agora era tarde, mas ela compareceria ao funeral de qualquer maneira. — Eu
estava na casa dos pais de Jake, em Hardy Lonsdale.
— Se eu adivinhasse! — Cari lamentou-se. — Acho que é muito longe
para você vir. . .
— Se eu sair agora, estarei aí antes das dez horas.
— Espere um pouco. . , Está gelado por aqui, e depois das geadas dos
últimos dias as estradas estão muito escorregadias.
— Guiarei com cuidado — Rachel respondeu apressadamente e, antes
que ele objetasse, continuou: — Obrigada por me telefonar, Cari. Eu irei ao
enterro.
A Sra. Madigan pareceu perturbada ao saber que ela iria sair àquela hora.
— Mas são cinco horas agora! A senhora não pode guiar todo esse tempo
até Torquay, pois chegou de viagem hoje.
— Tenho que ir — respondeu ela, sem dar maiores informações ã
governanta. Estaria de volta no dia seguinte à noite.
Encheu o tanque do carro e seguiu viagem. Só mais tarde começou a
sentir os primeiros sinais de cansaço. Seus olhos pesavam quando alcançou uma
pequena vila, mas quando notou que era Melford percebeu, para seu desespero,
que tomara uma estrada errada. Ou ela voltava para casa, ou se atrasaria uma
hora para pegar a estrada certa novamente. A segunda hipótese lhe pareceu
melhor, e estava para escolher qual caminho tomaria quando as rodas traseiras do
carro começaram a patinar. Ela entrara num buraco e nem se dera conta!
Isso foi à gota d'água. Desceu do carro meio chorando, sem saber como
retirá-lo dali. Sem o peso de seu corpo, no entanto, o carro deslizou ainda mais
para trás e caiu numa enorme poça cheia de lama. Aquilo era o fim!
Droga! E agora, o que vou fazer?Perguntava para si mesma. Pelo menos
estou próxima a uma vila, pensou, retirando do carro sua maleta e trancando-o.
Ninguém conseguiria retirar o carro dali àquela hora, mas talvez cobiçassem o
rádio.
Começou a andar no escuro, tendo de aguentar gracinhas de carros que
passavam, mas felizmente nenhum parou para atormentá-la. Depois de uns
quinze minutos deparou-se com uma pensão e restaurante, e resolveu entrar.
O proprietário do lugar escutou sua história com simpatia, e foi bastante
franco:
:
— Normalmente não alugamos quarto para uma noite apenas, mas claro
que a senhorita poderá contar com uma boa cama e comida.
— Obrigada. — Rachel estava embaraçada, pois havia muita gente
comendo, que a observava com curiosidade. — Talvez pela manhã alguém consiga
retirar o carro da lama, e se estiver quebrado eu posso alugar um carro ou pegar
um táxi até Torquay, não é?
— Falarei com Tommy Hastings — prometeu o homem, e chamou por sua
mulher para que ela mostrasse o quarto para Rachel.
— Posso usar algum telefone?
— Claro, senhora. E ali. Pode telefonar.
Como o telefone ficasse bem à vista dos hóspedes, ela balançou a
cabeça, resignada.
— Bem, não é importante, obrigada.
Foi bom dormir naquela noite numa cama, mesmo com um colchão
irregular e os lençóis com cheiro de naftalina. Ela estava exausta, pois guiara
quase quatrocentos quilômetros naquele dia. Preocupou-se com a idéia de Jake lhe
telefonar para o apartamento ou para o hotel, mas o sono foi mais forte.
Rachel dormiu até tarde, e já eram mais de nove horas quando desceu
para o pequeno restaurante. Havia uma garota de seus dezesseis anos limpando a
lareira, e Rachel dirigiu-se a ela.
— Será que posso usar o telefone? A menina a olhou e se levantou.
— Você deve ser a sra. Courtenay. — Seu rosto irradiava simpatia. —
Claro, pode usá-lo. Mamãe me disse que passaria esta noite aqui. Quer tomar
café?
— Sim, mas primeiro quero telefonar.
— Claro. — A garota indicou o restaurante. — Não há ninguém lá agora, e
meu pai foi até a vila procurar alguém para consertar o seu carro. Minha mãe está
lá fora dando ração às galinhas.
— Obrigada. Qual é o seu nome?
— Beth. Elizabeth Joplin. Rachel sorriu para ela.
— Bem, vou ligar agora.
Ela demorou um pouco para conseguir falar, mas finalmente a telefonista
do hotel atendeu.
— Ele não está no momento — respondeu a recepcionista.
— Oh, mas ele deve estar aí!
— Não, senhora — insistiu a recepcionista. -— Acho que ele foi a um
enterro e só vai voltar depois do almoço. Quem eu devo informar que esteve lhe
procurando?
Rachel encostou-se à parede. O enterro era naquela manhã! Então, de
qualquer jeito já perdera a viagem. . .
— Alô? — A telefonista começou a se impacientar. — Ainda está na linha?
— Sim — respondeu Rachel. — Eu estava indo para esse enterro também,
mas meu carro quebrou.
— Entendo. — A voz estava mais audível. — Acho que o enterro é às dez,
e a menos que você consiga chegar aqui em quinze minutos...
— Não, não. Obrigada.
Rachel desligou, consternada. Então havia guiado todo aqueie tempo para
nada! Sem dúvida Cari pensou que ela desistira de ir, pois não telefonou mais. E
agora? Delia estava morta, e não havia nada mais que ela pudesse fazer. Aquela
viagem fora um fiasco do começo ao fim!
— Algo errado? — perguntou-lhe Beth ao vê-la tão desamparada.
— Mais ou menos. Eu deveria comparecer a um enterro hoje de manhã,
mas não vai ser possível.
— Oh, que pena. — Beth parecia ter simpatizado com ela. — Mas a
pessoa que você mais queria ver no funeral não ficará triste por sua falta.
— Não. — Rachel forçou um sorriso. —- Você está certa. Quando o Sr.
Joplin voltou, encontrou Rachel e sua esposa tomando chá confortavelmente.
— Conseguimos retirar o seu carro. Ele terá de ser consertado e Tommy
já foi para Salisbury comprar algumas peças.
— Quanto tempo levará para consertá-lo?
-— Bem, levando-se em conta o tempo da viagem até Salisbury, mais o
serviço de quatro horas que ele disse que o seu carro levará, creio que só poderá
ir amanhã de manhã.
— Amanhã! — exclamou Rachel, desanimada. — Entendo.
— Não pode ser antes — assegurou-lhe o Sr. Joplin.
— Acha que posso ir até Salisbury e amanhã voltar para pegar o carro?
— Claro, mas você poderia ficar aqui, se quisesse. Sei que a cama não é
das melhores, mas teríamos o maior prazer em tê-la mais um dia conosco.
— O senhor é muito gentil, mas.. .
— Entendo. Prefere um hotel, não é?
— Na verdade, não queria criar mais incomodo para o senhor e sua
mulher.
— Não é incômodo algum — apressou-se em dizer a sra. Jopling. — Os
lençóis estão na cama, e já que ficou aqui uma noite. . .
Rachel não pôde recusar a oferta generosa. A família era muito simpática!
Ela já decidira que não iria mais para Torquay. O melhor era dormir lá e na
quarta-feira voltar para Londres. Jake estaria em casa à noite.
Este pensamento a fez tremer por antecipação. Ela telefonaria para a Sra.
Madigan e, assim, se Jake ligasse, ele não ficaria preocupado.
CAPITULO XII
Rachel tentou ligar para a sra. Madigan várias vezes durante o dia, mas
estava sempre ocupado. Concluiu impaciente que a Sra. Madigan devia ficar
pendurada no telefone quando ela saía. Já era quase noite quando finalmente
conseguiu ligar, e uma voz masculina atendeu. A voz era grave e um tanto lento,
e ela imaginou que o sr. Madigan também deveria tirar vantagens de sua ausência
para beber um pouco além do normal.
— Sr. Madigan?
— Rachel!
Seu nome foi dito com rudeza, e ela sentiu os nervos à flor da pele.
Consciente de que estava sendo observada por vários olhos indiscretos, abaixou a
voz.
— Jake! O que está fazendo em casa?
— E quem você esperava? — A rudeza de seu tom provocou-lhe um
estremecimento, e ela tiveram de se firmar sobre os pés. — Onde esteve? E por
que não deixou o endereço com ninguém?
— Mas eu. . . — Ela olhou à sua volta, desesperada. — Jake, não posso
falar agora.
— O que você quer dizer com isso? — Ela ouviu aquele tom pastoso de
antes. — Com quem você está? Yates?
— Não! — Rachel estava horrorizada; parecia que a voz dele podia ser
ouvida por todos. — Jake, por favor, ouça-me!
— Não! Ouça-me você! Ou você me diz onde está agora, ou pode
esquecer que eu lhe perguntei, entendeu?
Rachel suava frio. Não era esse o Jake que ela conhecia! O que o fazia
pensar assim? Por que ele não lhe dissera que chegaria antes? Por que ele estava
se comportando como se ela o tivesse traído? Com certeza, quando a Sra.
Madigan lhe dissera que ela saíra para Torquay, ele devia ter telefonado para o
hotel, e não encontrara Cari também! Mas isso era injusto! Como Jake poderia
inventar aquela história? Delia falecera! Aquilo não significava nada para ele? Não
gostava dela, mas deveria saber que Rachel sentia uma certa obrigação em
relação a ela.
— Realmente não compreendo essa sua atitude. Não fiz nada de errado.
Eu não sabia que você voltaria hoje!
— Ontem à noite, para ser exato.
— E, de qualquer forma, eu tinha de ir. Cari me pediu. . .
— Ele significa tanto assim para você?
Frustração e mágoa a invadiram, e lágrimas de raiva vieram-lhe aos
olhos. Ela esperava por sua volta com tanta ansiedade, e agora. . .
— Jake, não seja ridículo! — Ela ia continuar, mas os três minutos já
haviam terminado, e ela não tinha mais fichas para recolocar no aparelho. E
mesmo que tivesse, o melhor era desligar.
Saiu correndo do restaurante e foi para o seu quarto, antes que alguém
se aproximasse dela.
Na manhã seguinte seu carro estava pronto, lá pelas onze horas, e depois
de ter pagado aos Jopling mais do que eles pediram, ela partiu ansiosa para
Londres, louca para ver Jake e explicar-lhe tudo.
Não parou para almoçar, e eram pouco mais das duas quando chegou em
casa. A Sra. Madigan recebeu-a ansiosamente.
— Sra. Courtenay! Finalmente chegou! Estivemos preocupados com sua
ausência. — Havia um certo alívio em sua voz.
— Onde está meu marido?
— Eu não sei. —- A Sra. Madigan ergueu os braços, desamparada,
revelando-se completamente diferente de seu comportamento habitual. — Ele saiu
sem ao menos tomar café, e ainda não voltou.
Rachel sentiu as pernas bambas.
— Mas falei com ele ontem à noite pelo telefone. Ele não me falou nada.
Não está no trabalho?
— Não, senhora. De manhã alguém ligou para ele, e quando eu disse
para ligar para o seu escritório essa. . . Pessoa já havia ligado, mas ele não
estava. Tentei ligar eu mesma para ver se ele realmente não se encontrava lá, ou
apenas não desejara atender ao telefonema, mas ele não foi realmente ao
escritório hoje.
Rachel procurou uma cadeira e sentou-se. — Onde está ele então?
— Não posso imaginar. — A Sra. Madigan parecia extremamente
preocupada. — Ele... Bem, não parecia o mesmo a noite passada. Na verdade,
desde que ele chegou, e não a encontrou aqui, ficou um tanto estranho.
— Mas você lhe disse onde eu estava, não é?
— Sim. Disse-lhe que estava em Torquay, e ele ligou para lá. Mas falaram
que a senhora não estava.
— Eu não estava. Meu carro quebrou no caminho.
— Bem, e então o Sr. Courtenay procurou pelo Sr. Yates... É Yates, não?
Ele também não estava, e temo que... — Ela se interrompeu, — Sinto muito, não é
da minha conta.
—Claro que é! — exclamou Rachel, seu coração batendo mais forte ao
perceber que Jake não falara com Cari. — Continue. Você acha que ele pensou que
eu e Cari estivéssemos juntos?
— Bem. . . Sim. — A Sra. Madigan corou. — E temo que foi tudo culpa
minha.
— Por quê?
— Foi aquele telefonema que provocou a sua ida para Torquay, não foi?
Pois então, foi o que eu disse. Disse ao Sr. Courtenay que a senhora estivera
conversando com alguém chamado Cari, e que logo depois partira.
— Meu Deus! — Rachel pôs o rosto entre as mãos. Lentamente ela
começava a compreender tudo. — O que ele fez então?
— Ele... Telefonou para os pais, acho. Ele lhes perguntou se a senhora
lhes contara que iria para Torquay, e eles responderam que não, que a senhora
viria direto para Londres.
— Está certo, foi o que eu lhes disse. — Rachel passava os dedos pelos
cabelos nervosamente. — Antes de me casar com Jake, eu trabalhei com uma
senhora, amiga de minha mãe, a Sra. Faulkner-Stewart ela estava passando o
inverno no Tor Coart. Cari Yates é o gerente do hotel. Ele me telefonou para me
dar à notícia da morte dessa senhora, e o enterro seria ontem. Mas acabei não
indo porque o carro quebrou.
— Oh, Sra. Courtenay! Que horror! Se ao menos me tivesse falado do
enterro!
— Achei que não precisava. Eu ficaria fora por uma noite apenas e Jake
voltaria somente hoje.
— O sr. Courtenay chegou segunda à noite.
— Ele me disse.
A Sra. Madigan passou a mão pela testai
— Não creio que tenha dormido esses dias. Quando ele não a encontrou,
ficou bastante abalado.
— Oh, Deus! — Rachel levantou-se e começou a andar pela sala. — Ele
pensa...Pensa que ainda estou com Yates!
— Gostaria de tomar um café, senhora?
A Sra. Madigan obviamente procurava acalmá-la, e Rachel assentiu, mas
não quis comer nada. Sabia que somente conseguiria beber o café, e para
preencher aquela espera ansiosa resolveu ir para o quarto desfazer a mala. A
tentação de entrar no quarto de Jake foi muito forte e ela abriu a porta, A cama
estava intacta, mas as roupas pelo chão e a toalha ainda úmida indicavam sua
passagem por ali.
Automaticamente ela catou as roupas sujas do chão, evitando a vontade
de enfiar o rosto nelas e chorar. Entrou no banheiro para jogá-las no cesto de
roupa suja. Estava para sair do banheiro quando viu um tubo de remédios vazio,
jogado no chão. Ela o pegou e o levou ao nariz, e sentiu um odor estranho.
Franziu as sobrancelhas. Ela sabia de drogas que tinham aquele cheiro, e o aviso
no rótulo deixou-a apreensiva. Que droga seria aquela? E para quê?
De repente, lembrou-se da voz pastosa que ouvira ao telefone na noite
anterior. Ele poderia estar sob a influência de algum barbitúrico. Seus nervos
estavam em frangalhos. Deus, barbitúrico com álcool era uma mistura perigosa! E
se ele tivesse bebido?
Desceu correndo as escadas e entrou na cozinha, quase trombando com a
bandeja que a Sra. Madigan ia lhe levando.
— Sra. Madigan, Jake esteve bebendo? — perguntou, sem preâmbulos,
pegando-a desprevenida.
— Bebendo?
— Sim, álcool!
A Sra. Madigan recolocou a bandeja na pia e olhou-a, incerta.
— Pode ser. Não sei. — Ela sacudiu a cabeça. — Por quê?
— Isto... — Ela mostrou o vidro vazio para a governanta. — É uma droga
perigosa.
— Deus meu! A senhora não pensa que ele tenha cometido. . . Alguma
loucura, não ê?
Rachel gelou ante aquela idéia.
— Não, Sra. Madigan, a senhora deve estar equivocada!
— Bem, primeiro eu achei... Bem, não sei se deveria lhe contar...
—- Contar-me o quê? — Rachel não podia agüentar aquele formalismo
excessivo. — Conte-me tudo o que souber, já!
— Foi aquele telefonema, senhora. Era da princesa Denise!
— Denise? — Rachel sentiu-se arrasada. — Ela está em Londres?
— Veio para cá ontem. Quando o Sr. Courtenay não a encontrou em casa,
ouvi-o resmungar qualquer coisa sobre a princesa Denise, e vendo-o sair assim
tão cedo. Mas depois, quando ela telefonou, vi que ele não estava com ela.
— Entendo. — Rachel parecia tão infeliz que a Sra. Madigan resolveu
reconforta-la.
— Não deve se preocupar com ela, Sra. Courtenay. O Sr. Courtenay não
está nem um pouco interessado nela! Deus meu, quando eles eram casados, mal
se falavam!
Rachel procurava absorver suas palavras, e ela continuou:
— Nunca comentei nada, mas agora resolvi falar, porque simpatizo muito
com a senhora e com o Sr. Courtenay também, claro. Acho que a senhora devia
saber que aquele casamento não era como o da senhora. Eles viviam separados.
Tinham amigos diferentes. A senhora compreende o que quero dizer?
—- Começo a entender. Mas se ele não está com ela, onde estará, meu
Deus?
O barulho da porta da sala batendo a fez gelar.
— Provavelmente é Ben, senhora — disse a Sra. Madigan, mas Rachel já
passara por ela correndo em direção à sala.
Jake havia acabado de chegar, e parecia cansado e abatido.
— Oh, Jake! — Rachel esqueceu-se do ressentimento da noite anterior
e atirou-se em seus braços.
A Sra. Madigan, que vinha atrás dela, retirou-se discretamente. Jake
abraçou-a por alguns instantes, e depois a afastou. Ele a olhou sem sorrir por
alguns instantes e depois falou, com violência contida:
— Por que não me disse que Delia estava morta? Rachel apertou os
lábios com força.
— Você não me deu chance!
— Poderia ter dito algo a Sra. Madigan.
— Não. . . Não pensei que fosse preciso.
— Então esmurrei Yates até quase a morte por quê?
— Você não fez isso!
Ele sustentou o olhar horrorizado dela por algum tempo, depois sacudiu a
cabeça.
— Não. Mas bem que quis!
— Jake! — Ela sentiu as pernas fraquejarem. — Jake, onde esteve?
Encontrei este vidro vazio em seu quarto e fiquei tão preocupada!
— Ficou? — Ele encolheu os ombros. — Agora você sabe como eu me
senti. — Fez um gesto de impaciência. — O vidro continha estimulante.
Anfetamina, para me manter acordado, entendeu? Estava preocupado. Consegue
ter uma idéia de como me senti?
— Mas não foi culpa minha, Jake. Não sabia que você tinha voltado. Cari
telefonou e eu tentei ir para o enterro de Delia, é tudo. Pensei que não precisasse
dizer isso para a Sra. Madigan.
— Mas você não chegou ao hotel.
— Não. Errei o caminho e fui dar numa estrada estreita. Tentei manobrar
para voltar e encalhei numa poça,
— Foi o que eu ouvi.
— Ouviu?
— Sim. Foi um dos lugares em que estive esta manha, além de Torquay.
— Mas como soube onde eu estava?
— Perguntei à telefonista,
— Não pensei que isso fosse possível.
— E não é. Mas tenho alguma influência em certas áreas.
— Então. . . Você falou com o Sr. Jopling.
— Sim. E com a Sra. Jopling e a filha também. . Beth, não é? —-Rachel
assentiu, e ele continuou: — Eles me asseguraram que você esteve lá os dois dias.
Rachel procurava ordenar as idéias enquanto ele falava.
— Mas você me disse ontem à noite que se eu não lhe dissesse onde
estava. Ela corou. — Por que você foi me procurar?
Jake fitou-a longamente, e de repente dirigiu-se para a janela.
—- Muito bem, não posso negá-lo. Fui procurá-la porque... Bem, onde
quer que você esteja, com quem quer que fosse, eu queria lhe dizer que não podia
viver sem você.
Rachel aproximou-se dele.
— De verdade?
— Você sabe disso.
-—Mas, na noite passada. . .
— Na noite passada eu estava cansado e zangada, a Sra. Madigan me
dissera que você falara com um tal de Cari e que saíra logo depois claro que
pensei que houvesse algo entre vocês!
— Mas, Jake isso é uma loucura!
— Loucura? Ponha-se no meu lugar, então!
— Jake! Jake, eu amo você! — Ele se virou para ela. —- Nunca houve
nem haverá ninguém a não ser você.
Ele se aproximou mais dela, e Rachel pensou que Jake fosse tomá-la nos
braços, mas ele se limitou a olhar para ela.
— Há algo mais que você precisa saber.
— Eu sei. Denise está em Londres, não é? Ela telefonou de manhã para
cá. A Sra. Madigan me disse.
— Denise! O que tem Denise a ver agora?
— Mas eu pensei.
— Rachel, Rachel! Não me interessa por onde anda minha ex-mulher.
Está bem, encontrei-a em San Francisco, como lhe falei. Mas encontramo-nos
como estranhos; nada mais. Meu Deus, durante cinco anos de casados vive junto
por um ano apenas, não mais. Ela deve ter sido muito feliz com seu segundo
casamento, acredite-me! Se ela me telefonou, é por causa daquela casa que quer
vender! Rachel, o que quer que minha mãe tenha lhe dito, eu e Denise jamais
formamos um casal de verdade. Pertencíamos a mundos completamente
diferentes.
— Mas você casou-se com ela um dia.
— Eu era jovem e tolo. Talvez como você agora.
— Mas eu não sou tola, Jake, sei o que quero.
Incapaz de manter-se longe dele por mais tempo, ela o abraçou pela
cintura, encostando seu rosto no peito forte de Jake. Então, com um gemido ele
também a enlaçou, enquanto sua boca brincava com a dela. Finalmente ele a
beijou longamente, e quando o beijo terminou Rachel estava quase sem ar.
Depois Rachel desabotoou sua camisa lentamente, saboreando aqueles
momentos de prazer, sentindo que ele a queria tanto quanto ela. Jake segurou seu
rosto entre as mãos e sorriu.
— Ainda não lhe falei uma coisa. Delia deixou-lhe uma herança.
— O quê? Oh, Jake!
Jake estreitou os olhos por um momento, observando-a.
— Faz alguma diferença para você? Delia era bastante rica, você sabe.
Como se sente agora, financeiramente independente?
— Por que faria alguma diferença? — Rachel sacudiu os ombros. — Mas
eu preferia que não houvesse nada para mim.
— Por quê?
— Bem, porque eu ja tenho mais que o suficiente. Há outras pessoas que
ao receberem essa herança seriam bem mais felizes do que eu. — Rachel
acariciou-lhe o rosto. — Já tenho tudo o que preciso.
— Rachel! — Ele a apertou com força e ela sentiu um frêmito de alegria
por tê-lo tão próximo. — Estou tão feliz por você ter dito isso!
— Por quê? — Rachel se afastou para observá-lo e franziu a testa ao ver
que ele ria. — Ela me deixou só um tostão, ou alguma coisa assim?
— Minha querida, sua herança está no carro lá embaixo. São alguns
quilos de pêlos negros encaracolados e muita excitação!
— Menestrel!
— Sim. — Seu rosto assumiu uma expressão séria. — Temos de pensar
seriamente sobre ir para o campo, não é? Não quero este animal destruindo meu
apartamento.
— Então posso ficar com ele?
— Bem, vamos dizer que eu esteja inclinado a fazer tudo o que você
desejar — disse ele, sorrindo. — Rachel, essa viagem que fiz me ensinou muitas
coisas. Ela me provou que o que sinto por você não é paixão passageira, é muito
mais. Eu amo você. E, acredite-me, jamais disse isso para qualquer outra mulher
em minha vida. É por isso que nunca lhe falei antes, embora às vezes o desejasse.
Eu queria ter certeza, certeza absoluta. Eu amo você... — Jake se interrompeu
quando ela o beijou, e depois continuou, sério: —- Rachel, você tem certeza
quando diz que me ama? Eu não conseguiria viver se você se afastasse de mim
agora.
— Eu amo você, Jake, e estou certa disso.
— Só estou triste por não lhe ter falado sobre Denise, e você acabar
sabendo que ela estava em San Francisco através de minha mãe. Sabe, eu ia lhe
dizer, mas no último momento recuei.
— Seu pai me disse. — Rachel não quis mencionar Sheila naquele
momento, pedindo desculpas mentalmente a Sra. Courtenay. Haveria tempo
suficiente para falar sobre isso mais tarde. — Mas você ainda não me disse como
chegou dois dias antes do previsto.
— Simples. Transformei a visita de domingo num encontro de negócios,
pois queria vê-la e conversar com você após a nossa discussão pelo telefone no
sábado à noite.
Ela suspirou, compreensiva, e beijou-lhe provocativamente o pescoço,
cuja veia pulsava forte.
— Seu coração está batendo forte, sabia, querido?
— É mesmo? — Ele a ergueu, carregando-a nos braços vigorosos. — Que
tal darmos uma razão para ele bater assim? Ela não respondeu, deixando-se levar
para o quarto.
FIM
0 comments
Post a comment