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Carl Sagan - Contato

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Contato com extraterrestres não é sinônimo de homenzinhos verdes desembarcando de um disco voador. É muito mais: sinais captados num radiotelescópio podem conter mensagens capazes de nos fazer …

Contato com extraterrestres não é sinônimo de homenzinhos verdes desembarcando de um disco voador. É muito mais: sinais captados num radiotelescópio podem conter mensagens capazes de nos fazer repensar toda a nossa concepção da vida e do Universo. Esse é o ponto de partida de Carl Sagan, que, aliando as tensões da melhor literatura ao conhecimento científico mais avançado, compõe um romance que pode provocar em nós todas as reações - menos a indiferença.

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  • 1. CARL SAGAN CONTATORomanceTradução:DONALDSON M. GARSCHAGEN5" reimpressàoCOMPANHIA DAS LETRAS-Copyright © 1985 by Carl SaganTítulo original:ContactCapa:João Baptista da Costa AguiarFoto de capa:Agência KeystonePreparação:Carlos Alberto InadaRevisão:Sérgio deMoura SantosAna Paula CástellaniDados Internacionais de Catalogaçào na Puhlicaçào (c:ne)(Câmara Brasileira do Livro, s. Brasil)Sagan, Carl. 1934-1997.Contato : romance ; Carl Sagan ; traduçào DonaldsonM. Garschagen. -Stio Paulo : Companhia clas Letras. 1997.Título original: Contact.isw ft-71(i4-C99-G1. Romance norte-americano t. Título97-3767 cno-813.índice, para catalogo sistemático:1. Romances : Século 20 : Literatura norte-americana813.52 Século 20 : Romances . Literatura none-americanaa1351999Todos os direitos desta edição réservados àEDITORA SCHWARCZ LTDA.Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 7204532-002 - São Paulo - sPTelefone: (Oll) 866-0801Fax:(O11) 866-0814e-mail: coletras@mtecnetsp.com.brPara Alexandra,que chegará à maioridadepor ocasião do Milênio.Oxalá leguemos à tua geraçãoum mundo melhor do que este que recebemos.
  • 2. ÍNDICEParte 1A MENSAGEM1. Números transcendentais ................................................. 112. Luz coerente ..................................................................... 223. Ruído branco .. 464. Números primos ................................................................ 655. Algoritmo decriptográfico ................................................ 796. Palimpsesto ....................................................................... 937. O etanol em W-3 ............................................................... 1118. Acesso aleatório ................................................................ 12ü9. O numinoso .. . 144Parte 2A MÁQUINA10. Precessão dos equinôcios ................................................ 15711. O Consórcio Mundial da Mensagem ................................ 17412. O isômetro um-delta ......................................................... 19513. Babilônia ........................................................................... 20814. Oscilador harmônico.o ............................,........................... 22715. Tarugo de érbio .,......,....................................................... 24816. Os Sábios de Ozônio ........................................................ 27017. O sonho das formigas ....................................................... 28618. Superunificação ................................................................ 299Parte 3A GALÁXIA19. Singularidade nua ............................................................. 31520. Estação Central ................................................................. 33021. Causalidade ...................................................................... 35922. Gilamesh ......................................................................... 37823. Reprogramação ................................................................. 38524. A assinatura do artista ....................................................... 407Nota do autor .................................................................... 415Parte 1A MENSAGEMMeu coração vacila como uma folhinha.Osplanetas rodopiam em meussonhos.As estrelas assediam minha janela.Giro em meu sono.Minha cama é um planeta quente.Marvin Mercer, Escola Pública 153, quinto grau,Harlem, Nova York, (1981)1NÚMEROS TRANSCENDENTAISPequena mosca,Com minha mãoBruta, cortei
  • 3. Teu jogo vão.Não serei, mosca,Um igual teu?Ou nào és tuHomem, como eu?Pois amo a dança,Canções, bebida,Até que a mão cegaMe corta a vida.William Blake, Songs of experience, "The fly" [Amosca], estrofes 1-3 (1795)A julgar pelos padrões humanos, aquilo não poderia, demodo algum, ser artificial: tinha as dimensôes de um mun-do. No entanto, possuía forma tào estranha e complicada,tinha nitidamente, finalidade tão complexa, que só poderiaser a expressão de uma idéia. Deslizando em órbita polar emtorno da enorme estrela branco-azulada, assemelhava-se aum imenso e imperfeito poliedro no qual estivessem incrus-tadas milhões de cracas em,forma de prato. Cada um dospratos apontava para determinada parte do céu. Todas as11constelações estavam sendo acompanhadas. O mundopolié-drico vinha desempenhando sua função enigmática haviaeras e eras. Era pacientíssimo. Podia esperar eternamente.Quando a tiraram para fora, ela não chorou nem um pouco.Sua testa, pequena, estava franzida, e logo seus olhos se arrega-laram. Olhou para as luzes brilhantes, para as figuras vestidas debranco e de verde, para a mulher deitada na mesa, abaixo dela.Sons de certa forma familiares pareceram envolvê-la. Em seu ros-to havia uma expressão insólita para um recém-nascido - per-plexidade, talvez.Aos dois anos de idade, ela erguia as mãos sobre a cabeça epedia, muito doce: "Papai, subir". Os amigos do pai manifestavamsurpresa. O bebê era uma criatura educada. "Não se trata de edu-cação", explicava ele. "Ela chorava quando queria que a pegásse-mos. Por isso, um dia eu lhe disse: `Ellie, não precisa chorar. Digaapenas: Papai, subir". As crianças são sabidas. Não é, Prinça?"Assim, agora ela estava no alto, a uma altitude estonteante,encarapitada nos ombros do pai e se agarrando a seus cabelos jáum tanto ralos. A vida era melhor ali em cima, muito mais segurado que quando ela rastejava por uma floresta de pernas. Lá embai-xo ela podia ser pisada, podia perder-se. Agarrou-se ao pai commais força.Deixando os macacos, viraram uma esquina e deram com umimenso bicho de pernas compridas, pintalgado e de pescoço com-prido, com chifrinhos na cabeça. "O pescoço é tão comprido quea voz não consegue sair", disse o pai. Ela sentiu pena da infeliz
  • 4. criatura, condenada ao silêncio. Entretanto,, sentiu-se tambémfeliz pela existência do bicho, exultante com o fato de existiremtais prodígios."Vamos, Ellie", insistiu a mãe, com suavidade. Havia umacadência melodiosa na voz tão conhecida. "Leia aquilo." A tia nãohavia acreditado que Ellie, aos três anos, já soubesse ler. As his-torinhas, afirmava ela, tinham sido decoradas. Estavam agorapasseando pelo centro da cidade, num dia fresco de março, e12haviam parado diante de uma vitrine. Lá dentro, uma pedra, ver-melha como vinho borgonha, cintilava ao sol. "Jo-a-lhe-ri-a", leuEllie devagar, pronunciando bem as sílabas.Tomada de culpa, ela entrou no quarto de hóspedes. O ve-lho rádio Motorola estava na prateleira, onde ela se lembrava detê-lo visto. Era muito grande e pesado, e, apertando-o ao peito,quase o deixou cair. Na parte de trás estavam escritas as palavras"Perigo. Não remova a tampa". Mas ela sabia que, se o rádio nãoestivesse ligado à rede de energia, não haveria perigo. Pondo a lín-gua entre os lábios, ela retirou os parafusos e expôs as entranhasdo aparelho. Tal como suspeitava, não havia minúsculas orques-tras e locutores em miniatura a levarem suas pequeninas vidas naexpectativa do momento em que alguém ligasse o rádio. Em vezdisso, havia lá dentro belos tubos de vidro, um pouco parecidoscom lâmpadas. Alguns se assemelhavam às igrejas de Moscou,que ela vira num livro de figuras. Os dentes de suas bases ajus-tavam-se perfeitamente a receptáculos em que se encaixavam.Com a tampa traseira removida e o botão ligado, ela meteu oplugue numa tomada da parede próxima. Se não tocasse no apa-relho, se nem chegasse perto dele, como lhe poderia fazer mal?Passados alguns momentos, as lampadazinhas começaram abrilhar, mas não houve nenhum som. O rádio estava estragado etinha sido aposentado alguns anos antes, trocado por um modelomais moderno. Uma das lampadazinhas não estava acesa. Elatirou o plugue da tomada e arrancou a lâmpada teimosa de seureceptáculo. Havia dentro do vidro um quadrado metálico, ligadoa fios pequeníssimos. A eletricidade corre pelos fios, pensou elavagamente. Primeiro, entretanto, precisava entrar na lâmpada.Um dos dentes parecia torto, e com um pouco de esforço ela con-seguiu endireitá-lo. Recolocando a lampadazinha no lugar e tor-nando a ligar o aparelho à tomada, ela ficou feliz ao vê-la começara brilhar, e um mar de estática se agitou em torno dela. Olhandopara a porta fechada com um sobressalto, ela abaixou o volume.Virou o botão em que estava escrito "sintonia" e encontrou umavoz falando de modo muito agitado; até onde ela conseguia com-preender, falava de uma máquina russa que estava no céu, giran-13do interminavelmente em torno da Terra. Interminavelmente, pen-
  • 5. sou ela. Tornou a girar o botão, procurando outras estações. De-pois de algum tempo, temendo ser descoberta, desligou o apare-Iho, aparafusou a tampa traseira sem apertar muito e, com maiordificuldade ainda, levantou o rádio e o repôs na prateleira.Ao sair do quarto de hóspedes, um pouco sem fôlego, encon-trou a mãe e se sobressaltou novamente."Tudo bem, Ellie?""Tudo bem, mamãe."Simulava naturalidade, mas seu coração estava descompas-sado e suas mãos suavam. Instalou-se num de seus lugares pre-diletos no quintalzinho, com a cabeça apoiada nos joelhos, e sepôs a pensar no interior do rádio. Seriam todas aquelas lâmpadasrealmente necessárias? Que aconteceria se a gente retirasse aslâmpadas, uma a uma? Certa vez ouvira o pai chamá-las de válvu-las. Que acontecia dentro de uma válvula? Estariam realmentevazias de ar - o pai dissera "válvulas de vácuo"... Como é que amúsica das orquestras e a voz dos locutores entravam no rádio?Gostavam de dizer: "Está no ar". O rádio era carregado pelo ar?Que acontece dentro do aparelho de rádio quando a gente mudade estação? Que era "sintonia"? Por que é preciso ligar o aparelhoà rede elétrica? Seria possível desenhar uma espécie de mapamostrando como a eletricidade corre pelo rádio? Uma pessoapoderia desmontar o aparelho sem se machucar? Poderia montá-lo de novo?"Ellie, que você andou fazendo?", perguntou a mãe, passan-do em direção ao varal com roupas na mão."Nada, mamáe. Só estou pensando."Por ocasião de seu décimo verão, foi levada, nas férias, paravisitar dois primos que detestava, num grupo de cabanas junto aum lago na península setentrional de Michigan. O motivo peloqual pessoas que viviam à beira de um lago no Wisconsin eramcapazes de perder cinco horas viajando de carro até um lago noMichigan era para ela algo incompreensível. Sobretudo para verdois garotos. bobos, que mais pareciam nenéns. Só tinham dez eonze anos. Uns verdadeiros chatos. Como era possível que seu14pai, que tanto seinteressava por ela em outros assuntos, pudessedesejar que a filha brincasse dia após dia com idiotas? Ellie passouo verão a evitá-los.Numa noite sem luar, quente e abafada, saiu caminhandodepois do jantar, sozinha, na direção do atracadouro. Uma lanchatinha acabado de passar, e o bote do tio estava amarrado ao cais,balançando de leve nas águas iluminadas apenas pelas estrelas.Com exceçáo de cigarras distantes e de um grito quase subliminarque ecoava do outro lado do lago, tudo era silêncio. Ellie ergueuos olhos para o céu pontilhado de estrelas e sentiu o coração dis-parar.
  • 6. Sem olhar para baixo, e com apenas a mão estendida a orien-tá-la, encontrou uma área de relva macia e se deitou. Havia no céuuma fogueira de estrelas. Milhares delas, na maioria piscando,algumas brilhantes e firmes. Olhando com cuidado, era possíveldistinguir ligeiras nuances de cor. Aquela brilhante lá... não eraazulada?Ellie novamente tateou o chão sob si, sólido, firme... tran-qüilizante. Cautelosamente, sentou-se, olhando para a esquerda epara a direita, para cima e para baixo, cobrindo toda a vasta exten-são do lago. Podia avistar ambas as margens. O mundo só é planona aparência, pensou ela. Na verdade, é redondo. É uma imensabola... girando no meio do céu... uma vez por dia. Tentou imaginá-lo a rodar, com milhões de pessoas coladas a ele, falando em lín-guas diferentes, usando roupas engraçadas, todas presas à mesmabola.Estendeu a mão outra vez e tentou sentir a rotaçáo. Poderia,quem sabe, senti-la só um pouquinho. Do outro lado do lago, umaestrela brilhante piscava entre as copas mais altas das árvores. Sea pessoa apertasse os olhos, veria raios de luz saindo dela. Aper-tando um pouco mais, os raios mudavam, obedientemente, decomprimento e de forma. Estaria apenas imaginando coisas ou...A estrela estava agora, sem nenhuma dúvida, sobre as árvores.Somente alguns minutos antes, estava aparecendo e sumindoentre a galharia. Agora estava mais alta, disso não restava dúvida.Era isso que queriam dizer quando falavam que uma estrela esta-va subindo, disse ela consigo mesma. A Terra estava girando nadireçào oposta. Num dos extremos do céu, as estrelas estavam15subindo. Aquele lado era chamado de leste. No outro extremo docéu, atrás dela, além das cabanas, as estrelas se punham. Aquelelado chamava-se oeste. A cada dia, a Terra dava uma volta com-pleta ao redor de si própria, e as mesmas estrelas surgiam de novo,no mesmo lugar.Mas, se uma coisa grande como a Terra fazia uma rotação pordia, tinha de estar girando a uma velocidade espantosamente alta.Todas as pessoas que ela conhecia deviam estar rodopiando comuma rapidez inacreditável. Naquele momento ela teve a impressãode poder verdadeiramente sentir a Terra girando - não apenasimaginar aquilo em sua cabeça, mas realmente senti-lo na boca doestômago. Era como descer num elevador veloz. Virou a cabeçaainda mais para trás, de modo a que seu campo de visão não fos-se contaminado por nenhuma coisa terrena, até não enxergar nadasenão o céu negro e as estrelas coruscantes. De maneira agradá-vel, foi tomada pela sensação atordoante de que o melhor a fazerseria agarrar-se aos tufos de grama de ambos os lados de seu cor-po e segurar-se com força, do contrário cairia no céu, seu corpi-nho minúsculo se perderia na imensa esfera lá embaixo.
  • 7. Chegou mesmo a emitir um grito antes de conseguir abafá-locom o pulso. Foi assim que seus primos conseguiram encontrá-la.Descendo a encosta aos pulos, encontraram no rosto dela umainusitada mistura de vergonha e surpresa, que prontamenteassimilaram, ansiosos que estavam por achar algum pequenomalfeito que pudessem levar de volta e oferecer aos pais dela.O livro era melhor que o filme. Para começar, tinha muitomais coisas. E algumas das figuras eram bem diferentes das ima-gens do filme. Em ambos, porém, Pinóquio - um boneco de pau,de tamanho natural, que por artes mágicas ganhava vida - usavauma espécie de gibão, e parecia haver cavilhas em suas juntas. Nomomento em que Gepeto está dando os toques finais emPinóquio, ele vira as costas ao boneco e é imediatamente atiradoao chão por um chute bem colocado. Naquele instante chega oamigo do carpinteiro e lhe pergunta o que está fazendo prostradono chão. Gepeto responde, com dignidade: "Estou ensinando oalfabeto às formigas".16Ellie achava isso extremamente gozado, e tinha enorme prazerem contar o episódio aos amigos. No entanto, a cada vez que nar-rava o caso, pairava uma pergunta não formulada na fímbria de suaconsciência: seria realmente possível ensinar o alfabeto às formi-gas? E alguém desejaria fazer isso? Deitar-se junto a centenas deinsetos capazes de rastejar por toda a pele da pessoa, e até mesmopicá-la? De qualquer maneira, o que as formigas poderiam saber?Às vezes ela se levantava no meio da noite para ir ao banheiroe lá encontrava o pai, só com as calças do pijama, com o pescoçovirado para cima, e uma espécie de aristocrático desdém acom-panhando o creme de barbear em seu lábio superior. "Oi, Prinça",ele dizia. Era um diminutivo de Princesa, e ele adorava chamá-ladaquele jeito. Por que o pai fazia a barba de noite, quando nãohavia ninguém para ver se estava com a barba por fazer ou não?"Porque", explicava ele, sorrindo, "sua mãe vai saber." Anos depoisela descobriu que só havia entendido essa resposta jocosa pelametade. Seus pais na época estavam apaixonados um pelo outro.Depois da aula, fora de bicicleta até um parquinho à beira dolago. De uma bolsa presa à bicicleta tirou o Manual do amadorde rádio e Um ianque na corte do reiArtur. Depois de um instantede reflexão, decidiu-se pelo segundo. O herói de Mark Twainlevara uma pancada na cabeça, acordando na Inglaterra arturiana.Talvez fosse tudo um sonho ou um delírio. Mas talvez fosse ver-dadeiro. Seria possível retroceder no tempo? Com a cabeça enfia-da nos joelhos, Ellie procurou uma de suas passagens favoritas;aquela em que o herói é, pela primeira vez, capturado por umhomem de armadura, que o toma por um doido que fugiu do hos-pício do lugar. Ao chegarem ao topo da colina, vêem uma cidadediante deles:
  • 8. "Bridgeport? ", perguntei..."Camelot ", disse ele.Ela olhou para o lago azul, tentando visualizar uma cidadeque poderia passar tanto pela Bridgeport do século xIx como pelaCamelot do século vI, quando a mãe correu até ela.17"Procurei você por toda parte. Por que nunca está num lugarem que possa encontrá-la? Ah, Ellie", murmurou a mãe, "aconte-ceu uma coisa terrível."Na sétima série estavam estudando o "pi". Era uma letra gre-ga parecida com a arquitetura em Stonehenge, na Inglaterra: doispilares verticais ligados por uma barra em cima . Se alguémmedia a circunferência de um círculo e depois a dividia pelodiâmetro desse círculo, isso era pi. Em casa, Ellie pegou a tampade um vidro de maionese, passou um barbante em sua volta, esti-cou o barbante e, com uma régua, mediu a circunferência do cír-culo. Fez a mesma coisa com o diâmetro e, efetuando uma longaconta, dividiu um número pelo outro. Obteve 3,21. Aquilo pare-ceu bastante simples.No dia seguinte, o professor, sr. Weisbrod, ensinou que eraigual a aproximadamente 22/7, ou cerca de 3,1416. Na verdade,porém, se a pessoa desejasse exatidão, era um número decimalque continuava crescendo a vida toda, sem parar, nunca repetindoa seqüência de algarismos. A vida toda, pensou Ellie. Levantou amão. Estavam no começo do ano letivo e ela não havia feito ne-nhuma pergunta naquela aula."Como é que se pode saber que os decimais continuam a vidatoda, sem acabar?""É assim porque é", disse o professor, com certa rispidez."Mas por quê? Como é que o senhor sabe? Como se pode con-tar casas decimais a vida toda?""Srta. Arroway." O professor estava consultando a lista dechamada. "Essa pergunta é boba. Está nos fazendo perder tempo."Ninguém jamais dissera antes que uma pergunta de Ellie eraboba, e ela rompeu em lágrimas. Billy Horstman, que se sentavaa seu lado, teve um gesto de simpatia e lhe segurou a mão. Poucotempo antes seu pai havia sido processado por mexer nos hodr-metros dos carros usados que vendia, de modo que Billy era sen-sível a humilhaçoes públicas. Ellie saiu da sala aos prantos.Depois de terminadas as aulas, ela foi de bicicleta à bibliote-ca de uma universidade próxima, a fim de consultar livros dematemática. Pelo que pôde discernir do que leu, a pergunta que18fizera não era tão boba assim. Segundo a Bíblia, os antigos he-breus haviam considerado que pi era exatamente igual a três. Osgregos e romanos, que sabiam muitas coisas de matemática, nãotinham nenhuma idéia de que os algarismos de pi prosseguissem
  • 9. eternamente, sem repetição. Na verdade, isso só havia sidodescoberto há 250 anos. Como se poderia esperar que ela sou-besse se não podia fazer perguntas? Entretanto, o sr. Weisbrod ti-nha razão com relação aos primeiros algarismos. Pi não era 3,21.Talvez a tampa do vidro de maionese estivesse um pouco amas-sada e não constituísse um círculo perfeito. Ou talvez ela não hou-vesse realizado a mensuração com o cuidado necessário. Noentanto, mesmo que tivesse exercido todo o cuidado possível,nào poderiam esperar que ela fosse capaz de medir um númeroinfinito de decimais.Havia, porém, outra possibilidade. Podia-se calcularpi coma exatidão que se desejasse. Conhecendo uma coisa chamada cál-culo, podiam-se determinar fórmulas de pi que permitiriam cal-culá-lo com qualquer número de decimais que se desejasse, des-de que houvesse tempo para isso. O livro fornecia fórmulas de pidividido por quatro. Algumas dessas fórmulas eram absoluta-mente ininteligíveis para Ellie. Outras, no entanto, a deixaramdeslumbrada: /4, dizia o livro, era o mesmo que 1- 1/3 + 1/5-1/7..., com as frações continuando eternamente. Rapidamente, elaprocurou fazer o cálculo, somando e subtraindo as frações alter-nadamente. A soma saltava de um lado para outro, desde umpouco ais que /4 até um pouco menos que /4, mas depois dealgum tempo ela pôde perceber que essa série de números seguiauma trilha lenta em direção à resposta correta. Nunca se poderiachegar exatamente ao objetivo, mas se podia chegar tão próximoquanto se desejasse, desde que se tivesse uma paciência enorme.Pareceu a Ellie um milagre que todos os círculos do mundoestivessem ligados a essa série de frações. Como era possível queos círculos conhecessem frações? Ellie tomou a resoluçào deaprender cálculo.O livro dizia mais uma coisa: pi era chamado de número"transcendental". Não existia nenhuma equação, contendo núme-ros comuns, que fosse capaz de dar pi, a menos que essa equaçãofosse infinitamente longa . Ellie já havia aprendido por si mesma19um pouco de álgebra e sabia o que significava isso. E mais: pi nãoera o único número transcendental. Na realidade, existia umainfinidade de núimeros transcendentais. Mais ainda: existiaminfinitamente mais números transcendentais do que númerosordinários, mesmo que pi fosse o único deles de que ela já haviaouvido falar. Em mais de um sentido, pi estava ligado ao infinito.Ellie tinha captado um vislumbre de algo majestoso. Ocultaentre todos os números ordinários, havia uma infinidade denúmeros transcendentais de cuja presença uma pessoa jamais sus-peitaria se não sondasse a matemática a fundo. A todo momentoum deles, como pi, surgia inesperadamente na vida cotidiana.Entretanto, a maioria deles - um número infinito deles, ela frisou
  • 10. para si mesma - estava escondida, cuidando da própria vida, equase certamente passava despercebida ao irascível sr. Weisbrod.Ela compreendeu John Staughton logo que o viu. Constituíapara Ellie um mistério impenetrável que sua mãe chegasse a pen-sar em se casar com ele - não importa que só tivessem passadodois anos desde a morte do pai. Staughton era um homemrazoavelmente bem-apessoado, e era capaz de fingir, quando sedispunha a isso, que realmente se interessava pelas pessoas. Noentanto, era um déspota. Nos fins de semana, obrigava os alunosa trabalharem no jardim da casa nova para onde se haviam muda-do, e depois, quando iam embora, zombava deles. Disse a Ellieque ela estava apenas começando o segundo grau e não deveriaolhar duas vezes para nenhum daqueles rapazes. Staughton eraum homem muito cheio de si. Ellie tinha certeza de que, sendoprofessor, ele secretamente desprezava seu falecido pai, que foraapenas um lojista. Deixara claro que o interesse por rádio eeletrônica não ficava bem a uma moça, que com aquilo ela nãoconseguiria marido, que pretender aprender física era uma idéiatola e disparatada. "Pretensiosa", foi como se referiu a ela. Elliesimplesmente não tinha talento para aquilo. Eis um fato objetivoao qual era melhor habituar-se. Ele lhe dizia isso para seu própriobem. Mais tarde haveria de lhe agradecer por isso. Afinal de con-tas, ele era professor-adjunto de física. Sabia que tipo de pessoase saía bem nessa atividade. Esses sermões sempre a deixavam20furiosa, muito embora nunca - apesar de Staughton recusar-se aacreditarnisso-tivesse pretendido seguir uma carreira científica.Ele não era um homem delicado, como fora seu pai, nemfazia idéia do que fosse senso de humor. Quando alguém a supu-nha filha de Staughton, Ellie se sentia ofendida. Nem a mãe nemo padrasto jamais sugeriram que ela mudasse o nome paraStaughton; sabiam qual seria a reação.Vez por outra o homem demonstrava certo calor humano,como na época em que ela se achava convalescendo de uma ope-ração de amígdalas num quarto de hospital e ele lhe levara ummagnífico caleidoscópio."Quando é que vão fazer a operação?", perguntara ela, umtanto sonolenta."Já fizeram", respondera Staughton. "Você vai ficar bem."Para Ellie, era inquietante que blocos inteiros de tempo pudessemser roubados sem seu conhecimento, e jogou a culpa nele, mes-mo percebendo que aquela era uma atitude infantil.A possibilidade de que sua mãe realmente o amasse era-lheinconcebível. Devia ter se casado com ele por solidão, por fraque-za. Precisava de alguém que cuidasse dela. Ellie jurou que jamaisaceitaria uma situação de dependência. O pai de Ellie tinha mor-rido, sua mãe se distanciara e Ellie sentia-se exilada na casa de um
  • 11. tirano. Não havia mais ninguém que a chamasse de Prinça.Ela ansiava por escapar."Bridgeport?", perguntei."Camelot", disse ele.212LUZ COERENTEDesde que adquiri o uso da razão, minha incli-naçào para o saber tem sido tão forte e violentaque nem as censuras de outras pessoas [...] nemminhaspróprias reflexões[...] têm sido capazes dedeter esse impulso natural de que Deus me dotou.Somente Ele deve saber porquê; e Ele sabe tambémque Lhe tenho suplicado que tire a luz de naeuentendimento, deixando-me apenas o suficientepara seguir Sua lei, pois qualquer coisa além dis-so é excessiva numa mulher, segundo certas pes-soas. E outras dizem mesmo que é nocivo.Juana Ines de La Cruz, Resposta ao biapo dePuehla(1C91), que lhe criticara a atividade dou-ta como imprópria ao seu sexo.Desejo propor à consideração benevolente doleitor uma doutrina que, creio, poderá parecerparadoxal e subversiva. A doutrina em questào éa seguinte. é inconveniente acreditar em qual-querproposição se não existir nenhuma frasepara que a suponhamos verdadeira. Devo admi-tir, naturalmente, que, se tal opinião se dissemi-nasse, haveria de transformar completamentenossa vida social e nosso sistema político; comoambas as coisas são, atualmente, consideradasirrepreensíveis, isso deve pesar contra minhadoutrina.Bertrand Russel, Ensaios cépticos, I (1928)22A estrela branco-azulada era circundada, à altura de seuplano equatorial, por um vasto anel de destroços em órbita-rochas egelo, metais e substâncias orgânicas-, avermelha-dos na periferia e azulados mais próximo da estrela. Opoliedro que tinha as dimensões de um mundo precipitou-sepor uma brecha nos anéis e saiu do outro lado. No plano doanel, havia sido intermitentemente obscurecido por blocosgelados e montanhas. Agora, entretanto, seguindo sua tra-jetória na direção de um ponto acima do pólo oposto daestrela, a luz do Sol faiscava em seus milhões de apêndices emforma de prato. Olhando com todo o cuidado, era possívelperceber um deles realizando um ligeiro ajuste de mira. Mas
  • 12. não se veria a rajada de ondas de rádio que jorrava dalirumo àsprofundezas do espaço.Durante toda a existência da humanidade na Terra, o céuestrelado havia sido uma companhia e uma inspiração. As estre-las eram reconfortantes. Pareciam demonstrar que o firmamentofora criado para a alegria e a instrução dos seres humanos. Essapatética presunção tornou-se a sabedoria convencional em todoo planeta. Nenhuma cultura estava livre dela. Algumas pessoasencontravam no céu uma saída para a sensibilidade religiosa.Muitas se sentiam esmagadas e apequenadas pela glória e pelaescala do universo. Outras ainda eram estimuladas aos maisabsurdos desvarios da imaginação.No mesmo momento em que o homem descobriu a escala douniverso e verificou que suas mais loucas fantasias eram, na rea-lidade, insignificantes em comparação às verdadeiras dimensõesaté de nossa própria galáxia, a Via Láctea, ele como que tomoumedidas para que seus descendentes ficassem inteiramenteimpossibilitados de ver as estrelas. Durante 1 milhão de anos, osseres humanos haviam crescido com um conhecimento pessoalcotidiano da abóbada do firmamento. Nos últimos milhares deanos tinham começado a construir cidades e a emigrar para elas.Nas últimas décadas a maior parte da humanidade abandonara avida rural. À proporção que a tecnologia avançava e as cidades sepoluíam, as estrelas desapareciam das noites. Novas geraçõeschegavam à maturidade desconhecendo inteiramente o céu quehavia transfixado seus antepassados e estimulado a era moderna23da ciência e da tecnologia. Sem sequer perceberem, no momentoem que a astronomia entrou numa época áurea, a maioria das pes-soas se afastou do céu, num isolacionismo cósmico que só termi-nou com o alvorecer da exploração espacial.Ellie levantava o olhar para Vênus e imaginava que fosse ummundo mais ou menos parecido com a Terra - povoado deplantas, animais e civilizações, mas diferentes das espécies aquiexistentes. Nos arrabaldes da cidade, pouco depois do pôr-do-sol, ela examinava o céu e prestava atenção àquele firme pontode luz. Em comparação com as nuvens próximas, logo acimadela e ainda iluminadas pelo Sol, Vênus parecia um poucoamarelo. Ela tentava imaginar o que se passava ali. Ficava naspontas dos pés e fitava o planeta como se olhasse de cima parabaixo. Às vezes quase se convencia de que realmente podia vê-lo; um turbilhão de bruma amarela sumia de repente, e umaimensa cidade de cristal se revelava por um instante. Carros aé-reos corriam entre flechas cristalinas. Às vezes ela se imaginavadando uma olhada num daqueles veículos e obtendo um vis-lumbre de um deles. Ou imaginava um jovem, olhando para umbrilhante ponto de luz azul em seu céu, pondo-se nas pontas dos
  • 13. pés e especulando sobre os habitantes da Terra. Era uma idéiairresistível: um planeta cálido e tropical, transbordante de vidainteligente, e logo ali.Ellie admitia aprender coisas de cor, mas sabia que isso seria,no máximo, uma educação oca. Fazia o mínimo necessário paraser aprovada em seus cursos, e cuidava de outros interesses. Con-seguiu autorização para passar os períodos livres e algumas horasdepois das aulas no que chamavam de "oficina" - uma pequenafãbrica, suja e atulhada de coisas, criada quando a escola dedica-va mais atenção à "educação profissional" do que agora estava namoda. "Educação profissional" significava, mais que qualqueroutra coisa, trabalhar com as mãos. Havia ali tornos, furadeiras eoutras máquinas de que ela não podia aproximar-se, pois, qual-quer que fosse sua habilidade, ela era ainda "uma menina". Comrelutância, concederam-lhe permissão para levar avante seus pro-jetos pessoais na área da "oficina" dedicada à eletrônica. Ellie24construiu receptores de rádio mais ou menos a partir do nada, edepois passou para uma coisa mais interessante.Produziu uma máquina cifradora. Era rudimentar, mas fun-cionava. Era capaz de tomar qualquer mensagem escrita em inglêse transformá-la, através de uma simples cifra de substituição, emalgaravia. Construir uma máquina que fizesse o inverso - con-verter uma mensagem cifrada em linguagem clara quando não sedispunha da chave de substituição - era muito mais difícil. Podia-se aqui se fazer a máquina realizar todas as substituições possíveis (A sig-nilicando B, A significando C, A significando D...) ou se podia lem-brar que em toda língua algumas letras são mais utilizadas do queoutras. Podia-se ter uma idéia da freqüência das letras pelo tama-nho dos compartimentos para cada letra nas mesas de compo-sição manual da sala de tipografia ao lado. "Era o IN sHRDLLJ", diziam para os rapazes da tipografia, dando uma boa aproximação da ordemdas doze letras mais freqüentes em inglês. Ao se decifrar uma men- sagem longa, a letra mais comum provavelmente representava oE. Certas consoantes tendiam a aparecer juntas, descobriu Ellie; jáas vogais distribuíam-se de modo mais ou menos fortuito. Apalavra de três letras mais comum em inglês era o artigo definido,"the". Se no interior de uma palavra aparecia uma letra interpostaentre um T e um E, quase certamente era H. Não sendo, podia-seapostar num R ou numa vogal. Ellie deduziu outras regras e pas-sou longas horas contando a freqüência das letras em vários livrosde texto, antes de descobrir que essas tabelas de freqüência játeriam sido compiladas e publicadas. Sua máquina criptográficadestinava-se apenas a seu próprio prazer. Ellie não a usava paratransmitir mensagens secretas a amigos. Sentia-se insegura quan-to às pessoas com quem poderia falar sobre esses interesseseletrônicos e criptográficos; os meninos se tornavam irrequietos
  • 14. ou gabolas, e as garotas olhavam para ela de um jeito estranho.Soldados norte-americanos estavam combatendo num lugardistante chamado Vietnam. A cada mês, ao que parecia, maisjovens eram arrebanhados nas ruas ou nas fazendas e embarcadospara o Vietnam. Quanto mais coisas ela ficava sabendo a respeitodas origens desssa guerra, e quanto mais ela escutava os pronuncia-25mentos públicos dos governantes do país, mais irritada se torna-va. O presidente e o Congresso estavam mentindo e matando,pensava ela consigo mesma, e quase todo mundo aceitava issopassivamente. O fato de seu padrasto defender as posições ofi-ciais - ele falava de coisas como obrigações derivadas de trata-dos, teorias do dominó e simples agressão comunista - apenasfortalecia sua atitude. Ellie começou a assistir a reuniões e comí-cios na universidade próxima. As pessoas que ela conhecia ali pa-reciam muito mais inteligentes, amistosas e mais gentedo que seuscanhestros e insípidos companheiros de escola secundária. JohnStaughton primeiro a advertiu e depois a proibiu de se juntar aosuniversitários. Não haveriam de respeitá-la, disse. Iriam apro-veitar-se dela. Ellie estava simulando uma vivência que não tinhae jamais teria. Seu modo de se vestir era ridículo. Uniformes mi-litares de campanha não eram roupas apropriadas para uma moça,e constituíam uma caricatura, uma hipocrisia, para quem afirmavaopor-se à intervenção americana no Sudeste asiático.Apesar de suas débeis exortações a Ellie e Staughton para quenão "brigassem", sua mâe pouco participava dessas discussòes.Em particular, ela pedia a Ellie que obedecesse ao padrasto, quefosse "boazinha". A essa altura, Ellie suspeitava que Staughton secasara com sua màe por causa do seguro do pai. Que outro moti-vo haveria? Evidentemente ele não mostrava nenhum sinal deamá-la - nem estava disposto a ser "bonzinho". Certo dia, toma-da de alguma agitação, sua mâe pediu-lhe que fizesse uma coisaque agradaria a todos eles: freqüentar a escola bíblica dominical.Enquanto seu pai, cético com relação às religiões, era vivo, nun-ca se falara em escola bíblica. Como poderia sua mãe ter se casa-do com Staughton? A pergunta cresceu dentro dela pela milésimavez. A escola dominical, insistiu sua mãe, ajudaria a instilar nela asvirtudes convencionais; entretanto, o mais importante é que issomostraria a Staughton que Ellie estava disposta a transigir umpouco. Por amor à mãe, e também por pena dela, Ellie aquiesceu.Assim, todos os domingos, durante a maior parte de um anoletivo, Ellie freqüentou as reuniões de um grupo de debates numaigreja próxima. Era uma das denominações protestantes respei-tãveis, não maculadas por um evangelismo desordenado. Haviaalguns secundaristas, uns poucos adultos e muitas mulheres de26
  • 15. meia-idade; a instrutora era a esposa do pastor. Ellie nunca havialido a Bíblia a sério antes e se inclinara a aceitar a opinião do pai,talvez carregada de certa implicância, de que se tratava de "his-tórias bárbaras misturadas com contos de fadas". Por isso, duranteo fim de semana que precedeu a primeira aula, leu o que lhe pare-ceram ser as partes importantes do Velho Testamento, procuran-do manter uma atitude de boa vontade. Percebeu desde logo quehavia duas narrativas da Criação, diferentes e mutuamente con-traditórias, nos dois primeiros capítulos do Gênesis. Não entendiacomo era possível ter havido luz e dias antes de ser feito o Sol, elhe foi difícil imaginar exatamente com quem Caim se havia casa-do. Ao ler as histórias de Lot e de suas filhas, de Abraão e de Sarano Egito, do casamento de Diná, de Jacó e de Esaú, sentiu-se estu-pefata. Admitia que a covardia pudesse acontecer no mundo real-que os filhos pudessem ludibriar um pai idoso, que um homempudesse dar um pusilânime assentimento à sedução da esposapelo rei, ou até mesmo estimular a violação das filhas. No entan-to, nesse livro sagrado não havia uma única palavra de protestocontra tais absurdos. Na verdade, parecia que os crimes eramaprovados, até elogiados.Quando começaram as aulas, ela estava ansiosa para discutiressas inquietantes contradições, queria um esclarecimento doDesígnio de Deus ou ao menos uma explicação do motivo peloqual esses crimes não eram condenados pelo autor ou Autor dolivro. No entanto, decepcionou-se. A mulher do pastor contem-porizou. Por uma razão ou por outra, essas histórias nunca maisvieram à tona nos debates posteriores. Quando Ellie pergüntoucomo as criadas da filha do faraó puderam afirmar, olhando derelance, que a criancinha na cesta de vime era hebréia, a profes-sora corou violentamente e pediu a Ellie que não fizesse pergun-tas indecorosas. (Naquele momento, Ellie começou a entender arazão.Quando chegaram ao Novo Testamento, cresceu a inquie-tação de Ellie. Mateus e Lucas narravam a ascendência de Jesus atéo rei Davi. Entretanto, para Mateus havia 28 gerações entre Davi eJesus; para Lucas, 43. Quase não havia nomes comuns às duas lis-tas. Como era possível que tanto Mateus como Lucas fossem aPalavra de Deus? As genealogias contraditórias pareceram a Ellie27uma tentativa óbvia de cumprir a profecia de Isaías post facto. Nolaboratório de química, isso se chamava "cozinhar os dados". Ellieficou profundamente comovida com o Sermão da Montanha,extremamente desapontada com a exortação para dar a César oque é de César e furiosa depois que a instrutora por duas vezespassou por cima de suas perguntas a respeito do sentido de "Nãovim trazer a paz, mas a espada". Disse à mãe aflita que havia feitoo melhor que podia,. mas que nem cavalos xucros tornariam a
  • 16. arrastá-la a aulas bíblicas.Ellie estava deitada em sua cama. Era uma noite quente deverão. Elvis cantava "One night with you, thats what Im begginfor". Os garotos da escola secundária pareciam dolorosamenteimaturos, e era difícil - sobretudo por causa das determinaçõese proibições do padrasto - estabelecer um relacionamento firmecom os jovens universitários que ela conhecera em palestras ereuníões. Relutantemente, admitía que John Staughton tinharazão pelo menos numa coisa: quase sem exceção, os rapazesinclinavam-se para a exploração sexual. Ao mesmo tempo, pare-ciam muito mais vulneráveis, emocionalmente, do que ela haviaesperado. Talvez uma coisa provocasse a outra.Tinha a sensação de que não entraria para uma universi-dade, embora estivesse resolvida a sair de casa. Staughton nãopagaria para que estudasse em lugar algum, e as débeis inter-cessões de sua mãe eram inúteis. No entanto, Ellie obtivera resul-tados espetaculares nos exames de qualificação para o ensinosuperíor, e para surpresa sua os professores lhe comunicaram serpossível que universidades famosas lhe oferecessem bolsas. Elahavia respondido várias questões de múltipla escolha por pal-pite, e achava que acertara na sorte. Se uma pessoa sabe muitopouco, apenas o suficiente para escolher entre as duas respostasmais prováveis, e marca ao acaso dez questões seguidas, temmais ou menos uma possibilidade em mil de acertar todas as dez,dizia ela a si mesma. No caso de vinte questões seguidas, a pro-babilidade é de uma em 1 milhão. No entanto, mais ou menos 1milhão de jovens havíam prestado aqueles exames. .Alguém ti-nha de ter sorte.28Cambridge, Massachusetts, parecia longe o suficiente parafugir à influência de John Staughton, mas bastante perto para quenas férias ela pudesse visitar a mãe - que encarava a situaçãocomo um difícil meio-termo entre abandonar a filha e irritar o mari-do ainda mais. Ellie surpreendeu a si mesma ao escolher Harvard,de preferência o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).Chegou para o período de orientação. Era uma moça bonita,de cabelos escuros e estatura mediana, com um sorriso enviesa-do; e estava ansiosa por aprender tudo que pudesse. Começoudisposta a ampliar sua instrução, matriculando-se no maior nú-mero possível de cursos, além daqueles que constituíam seusinteresses básicos: matemática, física e engenharia. Entretanto,havia um problema com relação a seus interesses básicos. Era-lhedifícil discutir física, e mais ainda participar de debates sobre oassunto, com seus colegas de classe, predominantemente do sexomasculino. A princípio eles prestavam uma espécie de desatençãoseletiva às suas observações. Seguia-se uma ligeira pausa e con-tinuavam como se ela nada houvesse dito. Vez por outra regis-
  • 17. travam suas observações, até mesmo a elogiavam, mas mesmoassim continuavam em frente, inabaláveis. Ellie tinha razoávelconvicção de que seus comentários não eram de maneira algumatolos, e não desejava ser ignorada, menos ainda ser alternada-mente ignorada e tratada com superioridade. Sabia que em parte-mas apenas em parte - isso se devia à fraqueza de sua voz. Porisso passou a usar uma voz de física, uma voz profissional: clara,competnte e vários decibéis acima do tom normal da conversa.Com tal voz, era importante estar correta. Tinha de escolher osmomentos certos para intervir. Era difícil falar por muito tempocom essa voz, pois às vezes ela corria o risco de cair na gargalha-da. Por isso, aos poucos começou a fazer intervenções breves, àsvezes incisivas, em geral suficientes para atrair a atenção dos cole-gas; depois podia continuar a falar, durante algum tempo, numtom de voz mais normal. Toda vez que se encontrava num novogrupo tinha de conquistar novamente seu direito de simplesmentemeter a colher na conversa. Nenhum dos rapazes jamais percebeuque ela enfrentava esse problema.Vez por outra, num exercício de laboratório ou num semi-nário, o professor dizia: "Rapazes, vamos em frente", e, perceben-29do a insatisfação de Ellie, acrescentava: "Desculpe, srta. Arroway,mas é que eu penso na senhorita como um dos rapazes". O má-ximo elogio que eram capazes de fazer consistia em não a con-siderar ostensivamente feminina.Ellie tinha de lutar contra a tendência a formar uma perso-nalidade demasiado agressiva ou tornar-se uma completa misan-tropa. Em dado momento, percebeu a situação estranha. Mi-santropo é a pessoa que detesta todas as demais, e não apenas oshomens. E decerto havia uma palavra para designar uma pessoaque não gosta de mulheres: misógino. No entanto, os lexicógra-fos, todos homens, haviam deixado de criar uma palavra que de-signasse a aversão aos homens. Quase todos eles eram homens,pensou ela, e tinham sido incapazes de imaginar que houvessenecessidade dessa palavra.Mais do que muitas de suas colegas, Ellie sofrera enorme car-ga de repressão familiar. Suas novas liberdades - intelectuais,sociais e sexuais- eram inebriantes. Numa época em que muitosde seus contemporâneos, rapazes e moças, optavam por um ves-tuário que minimizava a distinção entre os sexos, ela aspirava auma elegância de traje e maquilagem que representava um ônuspara seu limitado orçamento. Havia maneiras mais efetivas dedeixar claras as posições políticas, pensava. Cultivava algumasamigas chegadas e criou várias inimigas, que a detestavam peloseu modo de se vestir, suas idéias políticas e religiosas ou o vigorcom que defendia suas opiniões. A competência e o prazer que
  • 18. demonstrava em relação à ciência eram vistos com reprovaçãopor muitas outras moças, no geral talentosas. Algumas, porém, aencaravam como aquilo que os matemáticos chamam de teoremade existência - uma demonstração de que uma mulher pode,com certeza, destacar-se no campo da ciência - ou até mesmocomo modelo de conduta.No auge da revolução sexual, ela realizava experiências comcrescente entusiasmo, mas verificava que intimidava seus pos-síveis amantes. As ligações que estabelecia tendiam a durar mesesou menos. A alternativa parecia ser disfarçar seus interesses ereprimir suas opiniões, coisa que ela havia resolutamente se recu-sado a fazer no segundo grau. A imagem da mãe, condenada a umencarceramento resignado e acomodatício, perseguia Ellie. E ela30começou a pensar em homens que não estivessem ligados à vidauniversitária e científica.Algumas mulheres, ao que parecia, eram inteiramente desti-tuídas de malícia e concediam seus afetos sem um único instantede reflexão consciente. Outras se dispunham a uma campanha deprecisão militar, prevendo situações de emergência e posições derecuo, com o único intuito de "fisgar" um homem desejável. Apalavra desejávelrevelava tudo, pensava Ellie. O pobre coitado naverdade não era desejado, apenas "desejável" - um plausívelobjeto de interesse na opinião de tais moças, que armavam todaessa deplorável charada. A maioria das mulheres, refletia, coloca-va-se num meio-termo, buscando conciliar suas paixões comaquilo que acreditavam ser sua conveniência a longo prazo.Talvez houvesse comunicações ocasionais entre o amor e o egoís-mo que escapassem à observação do consciente. No entanto, asimples idéia de uma captura calculada a fazia estremecer. Nesseassunto, concluiu, ela se colocava ao lado da espontaneidade. Foiquando conheceu Jesse.O rapaz com quem ela havia saído a levara a um bar perto dapraça Kenmore. Jesse estava lá cantando rhythm and hlues etocando guitarra. A maneira como ele cantava e se movimentavadeixava claro o que faltara a Ellie até então. Na noite seguinte elavoltou sozinha. Sentou-se à mesa mais próxima e ficaram de olhosgrudados um no outro durante as duas apresentações de Jesse.Dois meses depois estavam vivendo juntos.Só quando os compromissos profissionais de Jesse o levavama Hartford ou Bangor é que Ellie conseguia realizar algum traba-Iho. Passava os dias com os outros estudantes: rapazes que tra-ziam, pendurada nos cintos, a última geração de réguas de cálcu-lo; rapazes com lapiseiras de plástico no bolso da camisa; rapazesempertigados, de riso nervoso; rapazes sérios que dedicavamtodos os momentos em que não estavam dormindo à tarefa de setornarem cientistas. Inteiramente absorvidos que estavam em
  • 19. sondarem os recônditos da natureza, eram quase néscios no quedizia respeito aos relacionamentos humanos comuns, área naqual, apesar de todos os seus conhecimentos, pareciam desastra-30dos e rasos. Talvez a busca infatigável da ciência fosse tão exaus-tiva, tão competitiva, que não sobrava tempo para eles se tor-narem seres humanos por inteiro. Ou talvez suas deficiências so-ciais os tivessem conduzido a campos em que esse problema nãofosse notado. A não ser pela ciência, Ellie nào os considerava boacompanhia.De noite havia Jesse, saltando e gritando suas cançòes, umaespécie de força da natureza que dominara a vida de Ellie.Durante o ano que passaram juntos ela não se lembrava de umaúnica noite em que ele lhe houvesse proposto irem dormir. Elenada sabia de física ou matemática, mas se encontrava inteira-mente desperto dentro do universo, e durante algum tempo omesmo aconteceu com Elllie.Ela sonhava em conciliar os dois mundos. Tinha fantasias demúsicos e físicos atuando em harmonioso concerto social. Entre-tanto, as reuniôes que organizava eram sem graça e terminavamcedo.Certo dia Jesse lhe disse que queria um bebê. Ele se tornariaum homem sério, se aquietaria, arranjaria um emprego fixo.Talvez até pensasse em se casar."Um bebê?", perguntou Ellie. "Mas eu teria de deixar a esco-la. Ainda tenho anos pela frente, antes de terminar o meu curso.Se eu tivesse um filho, nunca poderia voltar à escola.""É", respondeu ele, "mas nós teríamos um filho. Você nãoteria a escola, mas teria outra coisa.""Jesse, eu preciso da escola", disse Ellie.Jesse deu de ombros, mas ela sentiu que a vida em comumque partilhavam começava a ruir. Ficaram juntos ainda algunsmeses, mas tudo na verdade fora resolvido naquele breve diálo-go. Despediram-se com um beijo e Jesse partiu para a Califórnia.Nunca mais ela ouviu sua voz.No fim da década de 60, a União Soviética conseguiu fazercom que veículos espaciais pousassem na superfície de Vênus.Foram esses os primeiros engenhos da espécie humana a pousar,em condições de funcionamento, em outro planeta. Mais de dezanos antes, radioastrônomos americanos, confinados à Terra,32haviam descoberto ser Vênus uma intensa fonte de radioemis-sões. A explicaçáo mais difundida para isso era que a atmosferade Vênus capturava o calor, através de um efeito estufa em escalaplanetária. Segundo essa concepção, a superfície do planeta erade um calor sufocante, demasiado quente para cidades de cristale venusianos imaginativos. Ansiosa por alguma outra explicação,
  • 20. Ellie procurava em vão imaginar meios pelos quais a radioemis-são pudesse provir de uma altitude elevada sobre uma clementesuperfície venusiana. Alguns astrônomos, em Harvard e no MIT,afirmavam que nenhuma das alternativas imaginadas poderiaexplicar as emissões. A Ellie, a idéia de um efeito estufa tão colos-sal parecia improvável e, por algum motivo, odiosa; Vênus seriaum planeta que se deixara degenerar. Quando, porém, as navesvenera puseram a funcionar um termômetro, este registrou umatemperatura suficientemente alta para fundir o estanho ou ochumbo. Ellie imaginou as cidades de cristal se liquefazendo(embora Vênus não fosse, afinal, tão quente), sua superfície trans-formada em lágrimas de silicato. Era uma romântica. Sabia dissohavia anos.Ao mesmo tempo, entretanto, tinha de admirar o poder daradioastronomia. Os astrônomos tinham ficado em casa, assesta-do seus radiotelescópios para Vênus e medido a temperatura dasuperfície do planeta quase com a mesma precisão das sondas;enera, treze anos depois. Desde que se entendia por gente, elase sentira fascinada pela eletricidade e pela eletrônica. Entretan-to, foi essa a primeira vez que ficou profundamente impressiona-da com a radioastronomia. O observador permanece com toda asegurança em seu próprio planeta e aponta seu telescópio, comseus acessórios eletrônicos; as informações sobre outros mundoschegam através das antenas. Ellie ficou maravilhada com a idéia.Começou a fazer visitas ao modesto radiotelescópio da uni-versidade, em Harvard, e por fim recebeu um convite para ajudarnas observações e nas análises de dados. Foi aceita como assis-tente remunerada, durante o verão, no Observatório Nacional deRadioastronomia de Green Bank, na Virgínia Ocidental, e, aochegar ali, contemplou com êxtase o primeiro radiotelescópio,construído por Grote Reber em seu quintal de Wheaton, Illinois,no ano de 1938; agora ele servia como um lembrete do que um33amador dedicado pode realizar. Reber fora capaz de detectar aradioemissão proveniente do centro da galáxia quando ninguémpor perto estava dando partida no automóvel e nenhuma máquinade diatermia estava funcionando. O núcleo da galáxia era muitomais poderoso, mas a máquina diatérmica se achava muito maispróxima.O clima de paciente investigação e as ocasionais recompen-sas, na forma de modestas descobertas, eram-lhe agradáveis.Estavam tentando medir em que grau o número de fontes de rádioextragalácticas distantes aumentava conforme sondavam cadavez mais profundamente o espaço. Ellie começou a pensar emmodos mais eficientes de detectar débeis sinais de rádio. No de-vido tempo, formou-se com louvor em Harvard e prosseguiu seusestudos, matriculando-se num curso de pós-graduação em
  • 21. radioastronomia no outro extremo do país, no Instituto de Tec-nologia da Califórnia.Durante um ano foi orientada por David Drumlin, homemtido em todo o mundo como brilhante e que gozava da fama denão tolerar incompetentes, mas que no fundo era um daqueleshomens que se podem encontrar no ápice de toda profissão:vivem em estado de contínua ansiedade, temerosos de quealguém, em algum lugar, se mostre mais capaz do que eles. Drum-lin ensinou a Ellie alguma coisa da essência da disciplina, emespecial seus fundamentos teóricos. Ainda que, inexplicavel-mente, fosse considerado atraente pelas mulheres, Ellie verificouque com freqüência ele se mostrava agressivo e tendia a levar tudopara o lado pessoal. Ela era demasiado romântica, dizia Drumlin.O universo segue rigorosamente suas próprias leis. O que umcientista deve fazer é pensar como o universo, e não dar asas ãspróprias predisposições românticas (e a anseios femininos juve-nis, disse ele certa vez) com relação ao cosmo. Tudo que não sejaproibido pelas leis do universo, garantiu ele - citando palavrasde um colega da instituição -, é compulsório. No entanto,prosseguiu, quase tudo é proibido. Ellie o fitava enquanto elefazia sua preleção, tentando entender aquela insólita combinaçãode traços de personalidade. Via um homem em excelente forma34física: cabelos prematuramente grisalhos, sorriso sardônico, ócu-los de leitura encavalados na ponta do nariz, gravata-borboleta,queixo quadrado e resquícios do anasalado sotaque de Montana.A idéia que ele fazia de diversão consistia em convidar seusalunos e alguns professores assistentes para jantar (ao contráriodo padrasto de Ellie, que gostava de se ver cercado por estu-dantes, mas achava impróprio convidá-los para jantar). Drumlindemonstrava um extremado sentido de territorialidade intelec-tual, conduzindo a conversa para temas em que era tido e havidocomo especialista, e então descartando de imediato qualqueropinião divergente. Depois do jantar, com freqüência ele subme-tia os convidados a uma exibição de slides, nos quais o dr. D.aparecia mergulhando em Cozumel, em Tobago ou nos recifes dacosta australiana. Era comum ele ser fotografado sorrindo para acâmara e acenando, mesmo debaixo da água. Vez por outra, sur-gia uma imagem submarina de sua colega cientista, a dra. HelgaBork. (A mulher de Drumlin sempre fazia objeção a esses slides,alegando, o que era razoável, que a maioria dos presentes já osvira em jantares anteriores. Na realidade, os presentes já tinhamvisto todos os slides. Drumlin respondia exaltando as virtudes daatlética dra. Bork, e a humilhação de sua mulher aumentava.)Muitos estudantes aceitavam intrepidamente a exibição, procu-rando alguma coisa que tivessem deixado de observar antes entreos corais e os espinhentos ouriços-do-mar. Outros se remexiam,
  • 22. embaraçados, ou prestavam atenção no creme de abacate.Para os estudantes, uma tarde animada consistia em seremconvidados, em grupos de dois ou três, para levá-lo de carro àbeira de um penhasco perto de Pacific Palisades. Preso à sua asa-delta, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, elesaltava do precipício em direção ao mar tranqüilo, cento e poucosmetros abaixo. A tarefa deles era descer de carro a estradalitorânea para ir buscá-lo. Drumlin lhes agradecia com um sorrisoexultante. Outros eram convidados a acompanhá-lo em seusvôos, mas poucos aceitavam. Drumlin levava vantagem na com-petição, e se deliciava com isso. Outros professores viam os estu-dantes como recursos para o futuro, como seus sucessores in-telectuais, encarregados de transmitir a tocha do saber à futurageração. Drumlin, porém, sentia Ellie, tinha uma concepção dife-35rente. Para ele, os estudantes eram como pistoleiros. Não haviameio de adivinhar qual deles poderia, a qualquer momento,desafiá-lo pelo título de "Atirador Mais Rápido do Oeste". Tinhamde ser mantidos em seus lugares. Drumlin nunca se atrevera a lhepassar uma cantada, porém mais cedo ou mais tarde, tinha cer-teza, tentaria.No segundo ano de Ellie na Cal Tech, Peter Valerian voltou àinstituição, depois de um ano no exterior. Era um homem delica-do e despretensioso. Ninguém, e muito menos ele próprio, o con-siderava especialmente brilhante. No entanto, tinha uma respeitá-vel folha de serviços na área da radioastronomia, pois, explicavaele quando lhe perguntavam, "dava duro". Havia em sua carreiracientífica apenas um lado ligeiramente desabonador: era fascina-do pela possibilidade de inteligência extraterrestre. A cada mem-bro do corpo docente, ao que parecia, era permitido um ponto fra-co: Drumlin voava de asa-delta, Valerian acreditava na vida emoutros planetas. Outros freqüentavam bares em que garotas fa-ziam topless, cultivavam plantas carnívoras ou se dedicavam a umacoisa chamada meditação transcendental. Valerian havia refletidoa respeito da inteligência extraterrestre -I T- durante mais tem-po e com mais afinco, e em muitos casos com mais cuidado, do quequalquer outra pessoa. À medida que Ellie o conhecia melhor,parecia-lhe que a I.T proporcionava a Valerian um fascínio, umafantasia, que contrastava muito com o marasmo de sua vida pes-soal. Para ele, essa reflexão sobre a inteligência extraterrestre nãoera trabalho, mas lazer. Sua imaginação voava alto.Ellie adorava escutá-lo. Era como penetrar no País das Ma-ravilhas ou na Cidade das Esmeraldas. Na verdade, era até me-lhor, pois ao fim de suas especulaçôes havia a idéia de que talvezaquilo fosse mesmo realidade, que poderia acontecer. Um dia,divagava Ellie, um dos grandes radiotelescópios poderia receberuma mensagem de verdade, e não apenas em fantasia. Num sen-
  • 23. tido, porém, era pior, pois Valerian, tal como Drumlin com re-lação a outros temas, frisava repetidamente que era preciso con-frontar a especulação com a sóbria realidade física. Era umaespécie de peneira que separava a rara especulação útil de tor-rentes de absurdos. Tanto os extraterrestres como sua tecnolo-gia tinham de obedecer rigorosamente às leis da natureza, fato36esse que prejudicava seriamente muitas perspectivas encanta-doras. Mas o que saía dessa peneira e sobrevivía à mais céticaanálise física e astronómica poderia até ser verdadeiro. Não sepodia ter certeza, é claro. Decerto haveria possibilidades que ti-nham passado despercebidas, que pessoas mais hábeis um diahaveríam de computar.Valerian gostava de salientar que estamos presos à nossaépoca, à nossa cultura e â nossa biologia, que somos, por defini-ção, muito límitados quando nos dispomos a imaginar criaturas ecivilizações fundamentalmente diferentes. E como elas haviamevoluído separadamente, em mundos muito diferentes, era forço-so que fossem muito diferentes de nós. Era possível que seresmuito mais avançados do que nós dispusessem de tecnologiasinimagináveis - na verdade, ísso era quase inevítãvel - e atémesmo novas leis físicas. Constituía irremediável estreiteza deespírito, dizia ele, enquanto caminhavam por uma série de arcosque lembravam um quadro de De Chirico, ímaginar que todas asleis importantes da física tivessem sido descobertas no momentoem que nossa geração começou a se debruçar sobre o problema.Haveria uma física do século xxI e uma física do século xxn, e atéuma física do Quarto Mílênio. Poderíamos, talvez, estar ridicula-mente impossibilitados de chegar a imaginar os meios de comu-nicação de uma civilização muito diferente.No entanto, ele sempre repisava, os extraterrestres deviamsaber como somos atrasados. Se fôssemos um pouco mais adian-tados, já saberiam de nossa existência. Estávamos apenas come-çando a caminhar com os dois pés, descobrimos o fogo na quar-ta-feira passada e só ontem topamos com a dinâmica newtoníana,as equaçòes de Maxwell, os radiotelescópios e pistas da superu-nificação das leis da física. Valerian tinha certeza de que eles nãodiFicultariam as coisas para nós. Procurariam facilitá-las, pois, sedesejassem comunicar-se com palermas, teriam de lhes fazer con-cessões. Era por isso, pensava, que teria uma possibilidade efeti-va se algum dia chegasse realmente uma mensagem. A falta debrílhantismo dele representava, com efeito, a sua força. Ele sabia- estava convicto disso - o que sabiam os palermas.Como tema de sua tese de doutorado, Ellie escolheu, com aanuência do corpo docente, o aperfeiçoamento dos sensíveis37receptores empregados nos radiotelescópios. Com isso, ela pode-
  • 24. ria lançar mão de seu talento para a eletrônica, fugiria da propen-são de Drumlin para a teorização e ficaria livre para prosseguir suasdiscussôes com Valerian - sem, no entanto, dar o passo, profis-sionalmente perigoso, de trabalhar com ele no campo da inteligên-cia extraterrestre. Esse assunto era demasiado especulativo parauma tese de doutorado. O padrasto de Ellie se habituara a criticara grande variedade de interesses dela, tachando-os de irrealistica-mente ambiciosos ou, vez por outra, descrevendo-os como irre-mediavelmente triviais. Quando tomou conhecimento, da boca deoutras pessoas, da tese que ela havia escolhido (a essa altura, Elliejá não falava mais com ele), disse que o tema era irrelevante.Ellie estava trabalhando no maserde rubi. O rubi compõe-sepredominantemente de alumina, substância de transparênciaquase perfeita. A coloração vermelha decorre de uma pequenaimpureza de cromo, distribuída pelo cristal de alumina. Quandoo rubi é submetido a um forte campo magnético, os átomos decromo aumentam sua energia ou, como gostam de dizer os físicos,são levados a um estado de excitação. Ellie adorava imaginartodos os pequenos átomos de cromo sendo conduzidos a umaatividade febril em cada amplificador, postos em frenesi paraservir a uma boa causa prática - amplificar um débil sinal derádio. Quanto mais forte era o campo magnético, mais excitadosficavam os átomos. Assim, o maserpodia ser ajustado de maneiraa se tornar particularmente sensível a determinada freqüência derádio. Ellie descobriu um meio de produzir rubis com impurezasprovocadas pela presença de lantanídeos, além de átomos de cro-mo, e com isso um maser podia ser sintonizado em uma faixa defreqüência mais estreita, tornando-se capaz de detectar um sinalmuito mais fraco que os masers anteriores. Seu detector tinha deficar imerso em hélio líquido. Ela instalou o novo instrumento emum dos radiotelescópios da Cal Tech, no vale Owens, e detectou,em freqüências inteiramente novas, aquilo que os astrônomoschamam de radiação de fundo - o remanescente do espectro derádio da imensa explosão que deu início a nosso universo, ochamado big-bang."Vamos expor as coisas pela ordem", dizia ela a si própria."Peguei um gás inerte que existe no ar, transformei-o em líquido,38introduzi algumas impurezas num rubi, liguei-o a um magneto edetectei as fornalhas da criação."E Ellie balançava a cabeça, atônita. Para uma pessoa queignorasse os princípios básicos da física, aquilo poderia pareceruma arrogante e pretensiosa necromancia. Como explicar a coisaaos melhores cientistas de mil anos atrás, que conheciam o ar, osrubis e os ímãs, mas não o hélio líquido, a emissão estimulada eas bombas de fluxos supercondutores? Na verdade, recordava-seEllie, eles não tinham a mínima idéia do que fosse o espectro de
  • 25. rádio. Nem mesmo imaginavam um espectro - salvo vagamente,quando contemplavam um arco-íris. Não sabiam que a luz era for-mada por ondas. Como podíamos esperar compreender a ciênciade uma civilização mil anos à nossa frente?Era necessário produzir rubis em grandes quantidades, poissomente alguns apresentavam as propriedades requeridas. Ne-nhum deles chegava a ter as características das gemas utilizadasem joalheria, e em geral eram pequeníssimos. No entanto, Elliepassou a usar alguns dos maiores. Combinavam bem com a tona-lidade morena de sua pele. Mesmo que a pedra fosse cuidadosa-mente lapidada, podia-se perceber alguma anomalia quando elaera engastada num anel ou num broche: a maneira estranha, porexemplo, como refletia a luz em certos ângulos, ou uma máculacor de pêssego em meio ao vermelho. Ela explicava aos amigosnão cientistas que gostava de rubis, mas não podia comprá-los.Nisso, assemelhava-se um pouco ao cientista que, tendo desco-berto o caminho bioquímico da fotossíntese das plantas verdes,usou pelo resto da vida agulhas de pinheiro ou um raminho de sal-sa na lapela. Os colegas, por respeito a seu desenvolvimentoprofissional, consideravam aquilo uma pequena idiossincrasia.Os grandes radiotelescópios do mundo são construídos emlocais remotos pelo mesmo motivo que levou Paul Gauguin a via-jar para o Taiti: para funcionarem bem, precisam estar distantes dacivilização. Com o aumento do tráfego de rádio, civil e militar, osradiotelescópios tiveram de se esconder - por exemplo, fugirampara um obscuro vale em Porto Rico ou se exilaram num vastodeserto do Novo México ou do Casaquistão. À medida que a inter-39ferência de transmissôes de rádio continuar a crescer, fará cadavez mais sentido montar os telescópios fora da Terra. Os cientistasque trabalham nesses observatórios isolados tendem a ser cabeçu-dos e obstinados. Os cônjuges os abandonam, os filhos saem decasa na primeira oportunidade, mas os astrônomos toleram tudo.Raramente se consideram pessoas sonhadoras. Os cientistas queformam os quadros permanentes dos observatórios remotos ten-dem a ser os práticos, os experimentalistas, os especialistas quesabem quase tudo a respeito de projetos de antenas e análise dedados, mas muito menos sobre quasares e pulsares. Em termosgerais, não ansiaram pelas estrelas na infância; estavam ocupadosdemais consertando o carburador do carro da família.Depois de obter seu doutorado, Ellie aceitou uma nomeaçãocomo auxiliar de pesquisa no Observatório de Arecibo, um enor-me prato de 307 metros de diâmetro, fixado ao solo de um valecarstenítico nos contrafortes da regiáo noroeste de Porto Rico. Tra-balhando no maior radiotelescópio do planeta, estava ansiosa porutilizar seu detector de maserpara examinar o maior núnero pos-sível de objetos astronômicos - planetas e estrelas próximos, o
  • 26. centro da galáxia, pulsares e quasares. Na qualidade de membroefetivo do quadro do observatório, caberia a ela uma cota signi-ficativa de tempo de observação. O acesso aos grandes radiote-lescópios é motivo de acirrada competição, pois hâ muito maisprojetos de pesquisa importantes do que disponibilidade de tem-po e instalaçôes. Por conseguinte, a reserva do telescópio aoquadro residente é uma vantagem que não tem preço. Para muitosdos astrônomos, essa é a única razão pela qual se conformam emviver nesses lugares ermos.Além disso, Ellie tinha esperanç a de estudar algumas estrelaspróximas, em busca de possíveis sinais de vida inteligente. Comseu sistema de deteção, seria possível escutar as emissôes derádio de um planeta como a Terra, mesmo que ele estivesse situa-do a alguns anos-luz de distância. E uma sociedade avançada quetivesse a intenção de se comunicar conosco certamente possuiriauma potência de transmissão muito superior à nossa. Se Arecibo,utilizado como telescópio-radar, era capaz de transmitir ummegawatt de potência para um local específico no espaço, umacivilização apenas um pouco mais avançada do que a nossa pode-40ria, pensava Ellie, transmitir uma centena de megawatts ou mais.Se estivessem realizando transmissões intencionais para a Terracom um telescópio das mesmas dimensões do de Arecibo, mascom um transmissor de cem megawatts, Arecibo deveria ser capazde detectá-las em praticamente qualquer lugar da Via Láctea.Quando refletia cuidadosamente sobre a questão da busca deinteligência extraterrestre, Ellie ficava surpresa com a distânciaexistente entre o que poderia ser feito e o que havia sido feito. Osrecursos até então dedicados a isso eram irrisórios, pensava. Noentanto, era-lhe difícil imaginar um problema científico de maiorimportância.Os habitantes do lugar chamavam o radiotelescópio de Areci-bo de "El Radar". De maneira geral, sua função era desconhecida,mas ele proporcionava mais de cem empregos, o que era impor-tantíssimo. As moças do lugar eram mantidas a distância dosastrônomos, alguns dos quais podiam ser vistos a qualquer horado dia ou da noite, cheios de energia nervosa, praticando corridana pista circular em torno do prato. Em conseqüência disso, asatençòes que se concentraram em Ellie quando ela ali chegou,embora não de todo mal recebidas, logo se tornaram um empeci-Iho à sua pesquisa.Era grande a beleza física do lugar. Ao crepúsculo, ela olha-va pelas janelas de controle e via nuvens tempestuosas pairandosobre o outro lado do vale, pouco além de uma das três imensastorres das quais pendiam os pavilhões de alimentação e seurecém-instalado sistema de maser. No alto de cada torre, uma luzvermelha servia de advertência a qualquer avião que por acaso se
  • 27. houvesse desviado para aquela rota. Às quatro da manhã ela saíaum pouco para respirar ar puro e se esforçava para entender umdenso coro de milhares de sapos terrestres, ali chamados coquis,uma onomatopéia de seu coaxar lamurioso.Alguns astrônomos moravam perto do observatório, mas oisolamento, a que se acresciam o desconhecimento do espanhole a inexperiência com qualquer outra cultura, tendia a fazer comque eles e suas esposas se recolhessem à solidão e ao marasmo.Outros tinham decidido morar na Base Ramey, da Força Aérea,onde havia a única escola da região em que o ensino era mi-nistrado em inglês. Entretanto, o percurso de uma hora e meia41também acentuava a sensação de isolamento. As reiteradas amea-ças por parte de separatistas porto-riquenhos, erroneamenteconvencidos de que o observatório desempenhava algumafunção militar importante, aumentavam ainda mais a impressãode histeria reprimida, de circunstâncias controladas apenas porum fio.Depois de muitos meses, Valerian fez uma visita ao obser-vatório. Ostensivamente, estava ali para proferir uma palestra,mas Ellie sabia que em parte seu objetivo consistia em verificarcomo ela vinha se saindo e proporcionar um simulacro de apoiopsicológico. Suas pesquisas tinham ido muito bem. Ela haviadescoberto o que parecia ser um novo complexo de nuvens mo-leculares interestelares e obtivera alguns dados excelentes sobreo pulsar no centro da nebulosa de Câncer. Tinha até mesmocompletado a mais rigorosa pesquisa já realizada em busca desinais provenientes de algumas dezenas de estrelas próximas,mas sem nenhum resultado positivo. Constatara uma ou duasregularidades suspeitas. Observara novamente as estrelas emquestão, mas nada encontrara de extraordinário. Quando seobserva um número suficiente de estrelas, cedo ou tarde a inter-ferência terrestre ou a concatenação de ruídos aleatórios produzuma configuração que por um momento faz o coração palpitar.O observador se acalma e realiza nova investigação; se a situa-ção não serepete, considera a espúria. Tal disciplina era essen-cial para que Ellie preservasse algum equilíbrio emocional comrelação ao que estava procurando. Estava resolvida a ser tãoobjetiva quanto possível, sem perder o senso de deslumbra-mento que a levara até ali.Com o pouco que tinha no refrigerador comunitário, ela ha-via preparado um lanche simples de piquenique, e Valerian sesentou a seu lado na beirada do prato do telescópio. A distância,viam-se trabalhadores consertando ou substituindo painéis, calça-dos com um tipo especial de sapatos de neve para não rasgaremas lâminas de alumínio e caírem no solo lá embaixo. Valerian esta-va feliz com os resultados que Ellie havia obtido. Trocaram ame-
  • 28. nidades, falaram sobre colegas e novidades científicas. A conver-sa encaminhou-se para a PIEr, sigla que começava a ser usada paradesignar a pesquisa de inteligência extraterrestre.42"Já pensou em trabalhar nisso em regime de tempo integral,Ellie?", perguntou Valerian."Não tenho pensado muito nisso. Mas, na realidade, não éviável, não é mesmo? Ao que eu saiba, não existe em todo o mun-do uma só instalação de grande porte dedicada à PIET em tempointegral.""Não, mas pode vir a existir. Há uma possibilidade de quedezenas de pratos adicionais venham a ser acrescentados à Gran-de Bateria, e com isso ela se tornaria um observatório especial paraa PrET. Teriam de realizar alguma coísa de radioastronomia con-vencional também, é claro. Seria um interferômetro excelente. Éapenas uma possibilidade, é claro, depende de haver um ínteressepolítico efetivo e, na melhor das hipóteses, só se concretizarádaqui a alguns anos. Mas vale a pena pensar no assunto.""Peter, acabei de examinar umas quarenta e poucas estrelaspróximas, mais ou menos do mesmo tipo espectral do Sol. Usei alinha de hidrogênio de 21 centímetros, que todo mundo diz ser afreqüência óbvia, uma vez que o hidrogênio é o elemento maiscomum no universo e assim por diante. E fiz isso com o instru-mental e os critérios mais precisos já utilizados. Não houve nemsombra de sinal. Talvez não haja ninguém lá. Talvez tudo isso sejaperda de tempo.""Como vida em Vênus? Essas palavras sào ditadas pelo desa-pantamentcz Vênus é um pontinho perdido no universo. É ape-nas um planeta. Entretanto, existem bilhões de estrelas na galá-xia. Você examinou somente um punhado delas. Não acha que éum pouco cedo para desístir? Você solucionou apenas um bi-lionésimo do problema. Provavelmente muito menos do que isso,se levar em conta as outras freqüências.""Eu sei, eu sei. Mas você não tem a sensação de que, se elesexistem em alguma parte, existem por toda parte? Se sujeitos real-mente avançados vivem a mil anos-luz de distância, por que nãodisporiam de um posto avançado em nosso quintal? Você sabemuito bem que poderia trabalhar na ITE eternamente sem jamaisse convencer de ter completado a pesquisa.""Você está começando a falar igual a Dave Drumlin. Se nãopudermos localizá-los durante a vida dele, Drumlin não está inte-ressado. Estamos apenas começando a hIET. trocê sabe quantas43possibilidades existem. Este é o momento de deixarmos todasas possibilidades em aberto. Este é o momento de sermos otimis-tas. Se vivêssemos em qualquer época anterior da história huma-na, poderíamos pensar a respeito disso durante toda a nossa vida
  • 29. sem podermos fazer absolutamente nada para encontrar a respos-ta. Entretanto, vivemos numa época diferente. Esta é a primeiravez em que alguém dispõe da possibilidade de procurar inteligên-cia extraterrestre. Você construiu o detector capaz de procurar ci-vilizações nos planetas de milhões de outras estrelas. Ninguémestá garantindo sucesso. Mas você é capaz de imaginar algumaquestão mais importante do que essa? Imagine que eles estejamlá, enviando sinais para nós, e que ninguém na Terra esteja escu-tando. Isso seria uma brincadeira de mau gosto, uma coisagrotesca. Você não teria vergonha de nossa civilização se, sendocapazes de prestar atençào, nós não nos dispuséssemos a isso?"Duzentas e cinqüenta e seis imagens do lado esquerdo domundo passaram pela esquerda. Duzentas e cinqüenta e seis ima-gens do lado direito do mundo passaram pela direita. Ela integroutodas as 512 imagens num mosaico da área que a cercava. Estavaimersa numa floresta de grandes lâminas ondulantes, algumasverdes, outras estioladas, quase todas maiores do que ela. Entre-tanto, não tinha dificuldade de escalá-las e descer do outro lado,às vezes balançando-se precariamente sobre uma lâmina inclina-da, caindo sobre a almofada macia formada por lâminas horizon-tais, embaixo, e depois seguindo adiante sem vacilar. Sabia queestava seguindo sua trilha em linha reta. Era uma trilha sedutora-mente nova. Se realmente levava ao que ela pensava, não lhe cus-taria nada escalar um obstáculo cem ou mil vezes mais alto. Nãoprecisava de ganchos ou cordas; a natureza a equipara para aqui-lo. O chão à sua frente exalava um odor que fora deixado ali haviapouco, decerto por outro batedor do seu clã. A trilha levaria a ali-mento; quase sempre isso acontecia. O alimento apareceria es-pontaneamente. Os batedores o localizavam e marcavam a trilha. Elae suas companheiras o traziam. Às vezes o alimento era umacriatura parecida com ela; às vezes era um grumo amorfo oucristalino. De vez em quando era tão grande que exigia o traba-44lho de muitas de seu clã a fim de transportã-lo para casa, carre-gando-o e o empurrando sobre as lâminas dobradas. Ela estalouas mandíbulas, na expectativa."O que mais me preocupa", prosseguiu Ellie, "é o contrário,a possibilidade de que eles não estejam tentando. Poderiamcomunicar-se conosco, tudo bem, mas não o fazem porque nãovêem nenhum sentido nisso. É como..." Ellie olhou para a beira-da da toalha que haviam estendido sobre a grama. "...como asformigas. Elas ocupam o mesmo espaço que nós. Têm muito oque fazer, coisas com que se ocuparem. Num determinado nível,têm plena percepção do ambiente em que se acham. Mas nós nãotentamos nos comunicar com elas. Por isso, não creio que elas te-nham a mais remota idéia de que existimos."
  • 30. Uma formiga grande, mais ativa que suas companheiras,havia subido para cima da toalha e seguia resolutamente ao lon-go da diagonal de um dos quadrados vermelhos e brancos. Supri-mindo uma leve pontada de asco, Ellie deu-lhe um piparote quea mandou de volta ã grama - onde era seu lugar.453RUÍDO BRANCODoces são as melodias que se ouvem; mas as nãoouvidas são ainda mais doces.John Keats, "Ode sobre uma urna grega" (1820)As mais cruéis mentiras são, muitas vezes, ditasem silêncio.Robert Louis Stevenson, Virginibuspuerisque(1881)Os pulsos vinham percorrendo, havia anos, o imensurávelabismo entre as estrelas. Vez por outra, interceptavam umanuvem irregulardegás epoeira, e um pouco da energia eraabsoruida ou dispersada. O restante prosseguia na direçãooriginal. À frente deles havia um débil fulgor amarelado,cujo brilho aumentava aos poucos entre as demais luzesinflexíveis. Ainda que para olhos humanos não passasse deum ponto, era o objeto mais brilhante no espaço negro. Ospulsos estavam encontrando um enxame de gigantescasbolas de neve.Uma mulher esbelta, em seus trinta e tantos anos, entrou noedifício administrativo do Programa Argus. Os olhos, grandes ebem separados, suavizavam a estrutura óssea angulosa de seu ros-to. Os cabelos escuros e compridos estavam presos na nuca poruma fivela de tartaruga. Vestida com blusa de linha e saia cáqui,seguiu por um corredor no primeiro andar e entrou por uma por-46ta na qual se lia "E. Arroway, diretora". No momento em queretirou o polegar da fechadura dactiloscópica, um observadoratento poderia ter reparado em sua mão direita um anel com umapedra vermelha, estranhamente leitosa, engastada de maneiraamadorística. Depois de acender uma lâmpada de mesa, elaprocurou numa gaveta, dela tirando finalmente um par de fonesde ouvido. Ao lado de sua mesa, mal iluminada, havia uma citaçãodas Parábolas de Franz Kafka:Possuem as Sereias arma ainda maisfatalqueseucanto: osilêncio...É concehível que alguém possa ter escapadoàs suas canções;mas de seu silêncio, decerto jamais.Apagando a lâmpada com um movimento da mão, ela caminhoupara a porta na semi-obscuridade.
  • 31. Na sala de controle, verificou rapidamente que tudo estavaem ordem. Pela janela, podia ver alguns dos 131 radiotelescópiosque se estendiam por dezenas de quilômetros no deserto doNovo México, como uma estranha espécie de flor mecânica volta-da para o céu. Passava pouco do meio-dia e ela ficara acordadaaté tarde na noite anterior. A radioastronomia pode ser realizadadurante o dia, pois o ar não dispersa as ondas de rádio prove-nientes do Sol, como faz com a luz visível. Para um radiotelescó-pió apontado para qualquer parte do firmamento, a não ser paramuito perto do Sol, o céu é negro como breu. Ele capta apenas asfontes de radio.Do outro lado da atmosfera terrestre, do outro lado do céu,há um universo fervilhante de radioemissão. Estudando as ondasde rádio, pode-se aprender sobre os planetas, as estrelas e asgaláxias, sobre a composição das grandes nuvens de moléculasorgânicas que vagueiam entre as estrelas, sobre a origem, aevolução e o destino do universo. Entretanto, todas essas emis-sões de rádio são naturais - são causadas por processos físicos,por elétrons que giram no campo magnético interestelar, pormoléculas que colidem umas com as outras ou ainda pelos ecosremotos da Grande Explosão, desviados para o vermelho -, des-de os raios gama da origem do universo até as dóceis e gélidasondas de rádio que preenchem todo o espaço em nossa época.47Durante as poucas décadas em que os seres humanos vinhampraticando a radioastronomia, nunca se recebera um sinal ver-dadeiro das profundezas do espaço, alguma coisa fabricada, arti-ficial, construída por uma mente diferente da nossa. Já houveraalarmes falsos. A variação regular, no tempo, da radioemissão dosiquasares e, principalmente, dos pulsares havia sido a princípioconsiderada - de maneira tímida, temerosa - uma espécie desinal emitido por outros seres, ou talvez um farol de radionave-gação para naves exóticas que singrassem os espaços entre asestrelas. No entanto, descobrira-se que eram outra coisa - tãoexôtica, quem sabe, como sinais de seres pensantes no céu estre-lado. Os quasares pareciam ser tremendas fontes de energia, talvezrelacionadas a colossais buracos negros nos centros de galáxias, emuitos deles remontavam a mais da metade do tempo de existên-cia do universo. Os pulsares são núcleos atômicos, em rápidarotação, do tamanho de uma cidade. E houvera ainda outrasmensagens, substanciosas e enigmáticas, que com efeito eraminteligentes, mas não muito extraterrestres. Os céus estavam ago-ra pontilhados de secretos sistemas militares de radar e satélites decomunicação que se achavam fora do alcance da grande maioriados radioastrônomos civis. Às vezes se comportavam como ver-dadeiros bandidos, náo atentando para os acordos internacionais
  • 32. de telecomunicações. Não existiam apelações nem punições. Devez em quando, todas as nações negavam responsabilidade. Masnunca houvera um sinal genuíno emitido por extraterrestres.E no entanto a origem da vida parecia agora ser de explicaçãotão fácil - e existiam tantos sistemas planetários, tantos mundose tantos bilhões de anos disponíveis para a evolução biológica -que era difícil acreditar que a vida e a inteligência não pululassemna galáxia. O Projeto Argus era a maior instalação, em todo o mun-do, devotada à pesquisa de inteligência extraterrestre através dorádio. As ondas de rádio viajavam à velocidade da luz, que pare-cia ser a velocidade máxima possível no universo. Eram fáceis deser geradas e detectadas. Até mesmo civilizações tecnológicasmuito atrasadas, como a da Terra, deviam tropeçar no rádio logono início da exploração do mundo físico. Mesmo com a rudimen-tar tecnologia de rádio disponível - fazia somente algumasdécadas que fora inventado o radiotelescópio -, era possível a48comunicação com uma civilização idêntica no centro da galáxia.Contudo, tantos eram os lugares no céu a serem examinados, etantas as freqüências em que uma civilização extraterrestre pode-ria estar transmitindo, que se fazia necessário um programapaciente e sistemático de observação. Fazia mais de quatro anosque o Projeto Argus funcionava a pleno vapor. Tinha havidodefeitos de instrumentação, brincadeiras, rebates falsos, espe-ranças. Mas nada de mensagens."Boa tarde, dra. Arroway."O engenheiro sorriu-lhe amistosamente, e ela respondeucom um aceno. Todos os 131 telescópios do Projeto Argus eramcontrolados por computadores. Por si só, o sistema varria lenta-mente o céu, verificando se não havia defeitos mecânicos oueletrônicos, comparando os dados fornecidos por diferentes ele-mentos da bateria de telescópios. A dra. Arroway dirigiu o olharpara o analista de um bilhão de canais, um banco de circuitosehtrônicos que cobria toda uma parede, e para a imagem visualdo espectrômetro.Na verdade, não sobrava para os astrônomos e técnicos muitoo que fazer enquanto o conjunto de telescópios varria vagarosa-mente o céu, ano após ano. Se detectava alguma coisa de interesse,automaticamente fazia soar um alarme, chamando os cientistas denoite em suas camas, se houvesse necessidade. Se isso acontecia,a dra. Arroway se apressava a determinar se a causa era alguma fa-lha de instrumentos ou uma engenhoca espacial americana ousoviética. Ao lado dos engenheiros, imaginava meios de melhorara sensibilidade do equipamento. Havia alguma configuração cons-tante, alguma regularidade na emissão? Ela desviava alguns dosradiotelescópios para o exame de objetos astronômicos exóticos,descobertos recentemente por outros observatórios. Ajudava os
  • 33. integrantes do quadro e os visitantes em projetos não relacionadoscom a IET. Viajava a Washington a fim de fazer com que o órgãoque lhe fornecia verbas, a Fundação Nacional de Ciências, se man-tivesse interessado. Dava algumas palestras públicas sobre o Pro-jeto Argus - no Rotary Club de Socorro ou na Universidade doNovo México, em Albuquerque -, e de vez em quando recebia49um jornalista diligente que chegava, muitas vezes sem ser anuncia-do, àqueles confins do Novo México.Ellie tinha de tomar cuidado para não ser tragada pelo tédio.Seus colegas de trabalho eram simpáticos, mas-mesmo excluin-do-se a impropriedade de uma estreita relação pessoal com umprofissional que nominalmente lhe estava subordinado-ela nãose sentia atraída a estabelecer verdadeiras ligações afetivas. Hou-vera alguns relacionamentos breves, ardentes porém passageiros,com homens do lugar, não ligados ao Argus. Também nessa áreade sua vida, uma espécie de cansaço, de lassidão, a invadira.Sentou-se diante de uma das mesas e colocou os fones deouvido. Era futilidade e presunção, sabia, imaginar que ela, ope-rando em um ou dois canais, fosse detectar uma configuração seo vasto sistema de computaçáo, que monitorava um bilhão decanais, não o fizera. No entanto, isso lhe proporcionava a modes-ta ilusão de ser útil. Recostou-se, com os olhos semicerrados euma expressão quase sonhadora envolvendo-lhe os contornos dorosto. Ela é realmente linda, o técnico permitiu-se pensar.Como de hábito, Ellie ouviu uma espécie de estática, um con-tínuo ruído aleatório ressonante. Certa vez, enquanto escutavauma parte do céu que incluía a estrela Ac + 79 3gg, em Cassiopéia,tivera a impressão de ouvir uma espécie de canto sedutor, quesumia e voltava, mas que não chegou a convencê-la de que hou-vesse realmente alguma coisa ali. Era rumo àquela estrela que anave voyagerl, então na vizinhança da órbita de Netuno, acabariapor seguir. A nave transportava um disco fonõgráfico de ouro, noqual estavam registradas saudações, fotografias e canções da Ter-ra. Estariam eles, porventura, enviando-nos seus cantos à veloci-dade da luz, enquanto nós lhes mandávamos os nossos com ummilésimo dessa velocidade? Em outros momentos, como agora,quando a estática patentemente carecia de regularidade, ela recor-dava o famoso axioma de Shannon sobre a teoria da informação:a mensagem codificada de maneira mais eficiente era indistin-guível do ruído se o receptor não dispusesse, de antemão, da chavepara a decodificação. Rapidamente, ela mexeu em alguns botõesna mesa à sua frente, cotejando entre si duas das freqüências debanda estreita. Nada. Prestou atenção aos dois planos de polariza-ção das ondas de rádio, e depois ao contraste entre a polarização50linear e a circular. Havia um bilhão de canais entre os quais esco-
  • 34. lher. Poder-se-ia passar a vida toda tentando competir com o com-putador, escutando com os ouvidos e o cérebro humanos, pateti-camente limitados, em busca de uma regularidade.Os seres humanos estão bem equipados, ela sabia, para dis-cernir regularidades sutis que realmente existem; mas tendemtambém a imaginá-las onde se acham inteiramente ausentes.Sobrevínha às vezes uma ou outra seqüência de pulsos, como sea estática ganhasse forma, que por um instante produziam um rit-mo sincopado ou uma breve melodia. Ellie comutou para um parde radiotelescópios orientados para uma conhecida fonte galácti-ca de rádío. Ouviu um glissando descendente nas radiofreqüên-cias, um "assovio" em razão da dispersão das ondas de rádio porelétrons no tênue gás interestelar entre a fonte de rádio e a Terra.Quanto mais pronunciado era o glissando, mais elétrons se inter-punham e mais distante estava a fonte da Terra. Ela havia feito issocom tamanha freqüência que, só por ouvir um desses silvos pelaprimeira vez, era capaz de fazer uma avaliação exata de sua dis-tância. Aquela, calculou, devia localizar-se a aproximadamentemil anos-luz - muito além do aglomerado de estrelas próximas,mas ainda perfeitamente dentro dos limites da grande galáxia daVia Láctea.Ellie retornou à modalidade de varredura celeste do ProjetoArgus. Nenhuma regularidade. Era como se um músico prestasseatenção ao ronco de uma tormenta distante. Os ocasionais reta-lhos de regularidade a atormentavam e se intrometiam em suamemória com tanta insistêncía que às vezes ela era forçada arecorrer às fitas gravadas de determinada observação a fim de con-ferir se havia alguma coisa que seu cérebro tivesse captado e quepassara despercebida aos computadores.Durante toda a sua vida, os sonhos tinham sido seus amigos.Em geral eram sonhos pormenorizados, bhem estruturados, vívi-dos. Ela via bem de perto o rosto do pai ou a parte traseira de umvelho receptor de rádio, e o sonho lhe oferecia pormenoresvisuais completos. Sempre fora capaz de recordar seus sonhos, atéas menores minúcias, a não ser sob pressão extrema, como antesde fazer a exposição oral de sua tese de doutorado ou quando elae Jesse estavam se separando. Agora, entretanto, enfrentava difi-51culdades para relembrar as imagens de seus sonhos. E, descon-certantemente, começou a sonhar com sons, como as pessoascegas de nascença. Nas primeiras horas da manhã seu incons-ciente gerava um tema ou cantilena que ela nunca havia escuta-do. Ellie acordava, dava uma ordem audível à luz em sua mesi-nha-de-cabeceira, pegava a caneta deixada ali de propósito,riscava um pentagrama e anotava a melodia no papel. De quandoem vez, após um estafante dia de trabalho, ela a reproduzia nogravador e se punha a imaginar se a teria ouvido em Ofiúco ou em
  • 35. Capricórnio. Pesarosamente, admitia para si mesma que estavasendo perseguida pelos elétrons e pelos buracos móveis quehabitam os sintonizadores e os amplificadores, bem como pelaspartículas carregadas e pelos campos magnéticos do frio e tênuegás entre as estrelas que cintilam a distância.Era uma nota única, reiterada, aguda e áspera em suas bor-das. Levou um momento para reconhecê-la. A seguir, teve certezade que fazia 35 anos que não a escutava. Era a polia metálica dovaral, que rangia a cada vez que sua mãe dava um puxão e pu-nha outro avental recém-lavado para secar ao sol. Quando meni-na, adorava ver aquele batalhão de prendedores de roupas emmarcha; e quando não havia ninguém por perto, enterrava o ros-to nos lençóis que tinham acabado de secar. O cheiro, a um sótempo doce e cáustico, a encantava. Estaria agora sentindo umaexalação daquele odor? Lembrou-se de si mesma rindo, afastan-do-se dos lençóis em passos vacilantes, enquanto a mãe, com ummovimento gracioso, a erguia - até o céu, parecia - e a car-regava dali na dobra do braço, como se ela própria fosse umatrouxinha de roupas a serem arrumadas com capricho na cômodado quarto dos pais."Dra. Arroway? Dra. Arroway?" O técnico olhava para suaspálpebras trêmulas e lhe observava a respiração leve. Ellie piscouduas vezes, retirou os fones e lhe dirigiu um sorriso de desculpa.Às vezes seus colegas tinham de falar muito alto para serem ouvi-dos, por causa do ruído amplificado das emissões cósmicas. Porsua vez, ela compensava o volume do ruído - detestava removeros fones de ouvido para conversas breves - gritando também.52Quando se achava suficientemente preocupada, uma casual tro-ca de amenidades pareceria a um observador inexperiente o frag-mento de uma discussão feroz e imotivada que houvesse surgidoinesperadamente no silêncio do vasto radiobservatório. Agora,entretanto, ela disse apenas: "Desculpe. Acho que cochilei"."O dr. Drumlin está ao telefone. Está no escritório de Jack edisse que tem um encontro marcado com a senhora.""Santo Deus, esqueci."Com o passar dos anos, o brilhantismo do dr. Drumlin per-manecera inabalável, mas nele se notavam várias idiossincrasiasnão demonstradas quando Ellie fora orientada por ele, durantealgum tempo, na Cal Tech. Por exemplo, ele adquirira agora o há-bito embaraçoso de verificar, quando não se julgava observado,se estava com a braguilha aberta. À medida que passava o tempo,ele se tornava cada vez mais convicto de que os extraterrestres nãoexistiam, ou ao menos que eram demasiado raros ou se achavamdistantes demais para serem detectados. Tinha vindo ao Argus afim de proferir a palestra científica semanal. Ellie, porém, desco-briu que sua visita tinha também outra finalidade. Drumlin es-
  • 36. crevera uma carta à Fundação Nacional de Ciências, na qual reco-mendava que o Argus interrompesse sua pesquisa de inteligênciaextraterrestre e se dedicasse em tempo integral a uma radioas-tronomia mais convencional. Tirou-a de um bolso interno e insis-tiu com Ellie para que a lesse."Mas só estamos trabalhando nisso há quatro anos e meio.Examinan,os menos de um terço do céu setentrional. Este é oprimeiro levantamento capaz de estudar todo o mínimo de ruídode rádio nos comprimentos de banda ideais. Por que haveríamosde parar agora?""Não, Ellie, isso é interminável. Daqui a doze anos você con-tinuará sem encontrar sinal algum. Você argumentará então queum outro observatório Argus tem de ser construído, a um custo decentenas de milhões de dólares, na Austrália ou na Argentina, afim de observar o céu meridional. E, quando isso fracassar, vocêhá de falar na construção de um parabolóide com um alimentadorem queda livre, em órbita terrestre, a fim de captar ondas mi-limétricas. Você sempre será capaz de imaginar algum tipo deobservação que não tenha sido realizado. Sempre inventará uma53explicação para o fato de os extraterrestres gostarem de transmi-tir em algum lugar onde não olhamos.""Ah, Dave, já discutimos isso centenas de vezes. Se fracas-sarmos, teremos aprendido alguma coisa sobre a raridade da vidainteligente... ou pelo menos da vida inteligente que pensa comonós e deseja comunicar-se com civilizações atrasadas como a nos-sa. E, se tivermos êxito, tiramos a sorte grande. Não se pode ima-ginar descoberta mais importante.""Há projetos de primeira linha para os quais não existe dis-ponibilidade de observatórios. Muita gente está estudando aevolução dos quasares, os pulsares binários, as cromosferas deestrelas próximas e até aquelas loucas proteínas interestelares.Esses projetos estão esperando na fila porque este observatórioaqui, que é o mais completo do mundo, está sendo utilizado quasesó para a IET.""Setenta e cinco por cento para a IET, Dave, e 25 por centopara a radioastronomia de rotina.""Não diga que é de rotina. Temospossibilidade de pesquisara época em que as galáxias sè formavam, ou talvez uma épocabem anterior. Podemos examinar os núcleos de nuvens molecu-lares gigantes e os buracos negros nos centros das galáxias. Esta-mos na iminência de uma revolução na astronomia, e você estáatrapalhando.""Dave, procure não levar as coisas para o lado pessoal. Senão existisse apoio público para a IET, o Argus nunca teria sidoconstruído. A idéia do Argus não foi minha. Você sabe que meescolheram como diretora quando os últimos quarenta pratos
  • 37. ainda estavam em construção. A FNc apóia inteiramente... "Não inteiramente, e não dará apoio algum se eu puder fa-zer alguma coisa. Isso é exibicionismo. É uma concessão a essesdoidos que vivem atrás de ovNIs, às revistas em quadrinhos e aadolescentes de miolo mole."A essa altura, Drumlin estava simplesmente gritando, e Elliese sentiu irresistivelmente tentada a silenciá-lo. Devido à naturezade seu trabalho e à sua posição no mundo científico, via-se cons-tantemente em situações nas quais era a única mulher presente,com exceção das que serviam café ou faziam transcrições este-nográficas. Apesar de todo o esforço de Ellie, ainda havia um ban-54do de cientistas do sexo masculino que só falavam entre si, insis-tíam em interrompê-la e não levavam em conta, quando possível,o que ela dizia. Ocasionalmente, surgiam aqueles que, comoDrumlin, demonstravam aberta antipatia. Mas ao menos ele a esta-va tratando como tratava muitos homens. Drumlín era imparcialem suas invectivas, distribuindo-as igualmente entre cientistas deambos os sexos. Dentre os colegas de Ellie do sexo masculino,eram raros os que não mostravam canhestras mudanças de per-sonalidade na presença dela. Devia passar mais tempo com eles,pensou. Pessoas como Kenneth der Heer, o biólogo molecular doInstituto Salk, que recentemente fora nomeado consultor de ciên-cias da presidêncía. E Peter Valerian, é claro.A impaciência de Drumlin com o Projeto Argus, sabia Ellie,era partilhada por muitos astrônomos. Passados os dois primeirosanos, uma espécie de melancolia tinha se infiltrado no obser-vatório. Havia debates acalorados, na cantina ou durante as lon-gas e arrastadas vigílias, sobre as intenções dos supostos extrater-restres. Não podíamos adívinhar até onde eram díferentes de nós.Já era bastante difícil adivinhar as intenções dos deputados emWashíngton. Quais seriam as intenções de seres fundamen-talmente diferentes, que viviam em mundos fisicamente diversos,a centenas ou milhares de anos-luz? Alguns acreditavam que osinal não seria sequer transmitido no espectro de rádio, mas simno espectro infravermelho ou no visível, ou ainda em alguma fre-qüência dos raios gama. Ou quem sabe os extraterrestres nãoestivessem enviando sínais frenéticos, mas com uma tecnologiaque só poderíamos entender daquí a mil anos?Astrônomos de outras instituições estavam realizando des-cobertas extraordinárias entre as estrelas e galáxias, detectando osobjetos que, por este ou aquele mecanismo, geravam intensasondas de rádio. Outros radioastrônomos publicavam teses cientí-ficas, compareciam a congressos, eram incentivados por uma sen-sação de fazerem progresso e terem objetivos definidos. Osastrônomos do Argus tendiam a não publicar coisa alguma e eram,em geral, esquecidos quando da distribuíção de convites para a
  • 38. apresentação de trabalhos na reunião anual da Sociedade As-tronômica Americana ou para os simpósios e sessões plenáriastrienais da União Astronômica Internacional. Por isso, com a55anuência da Fundação Nacional de Ciências, a direção do Argusreservara 25 por cento do tempo de observação para projetosdesvinculados da pesquisa de inteligência extraterrestre. Haviamfeito algumas descobertas importantes: sobre objetos extragalác-ticos que pareciam, paradoxalmente, mover-se mais depressa quea luz; sobre a temperatura superficial de Tritão, a grande lua deNetuno; e sobre a matéria escura dos limites externos de galãxiaspróximas, onde não se viam estrelas. O moral começou a melho-rar. O pessoal do Argus começou a sentir que estava dando umacontribuiçào efetiva ã vanguarda da astronomia. O prazo para aconclusão de uma pesquisa completa do céu havia sido amplia-do; agora, entretanto, suas carreiras profissionais contavam comcerta proteção. Talvez não lograssem êxito em captar sinais envia-dos por outros seres inteligentes, mas poderiam arrancar outrossegredos do tesouro da natureza.A pesquisa de inteligência extraterrestre - em toda parteabreviada como PIET, exceto por aqueles que, com mais otimismoainda, falavam de comunicação com inteligência extraterrestre(cIFr) - constituía-se, essencialmente, de uma rotina de obser-vação, o tedioso prato de resistência para o qual a maior parte doobservatório fora construída. Entretanto, durante um quarto dotempo se podia utilizar o mais poderoso conjunto de radiote-lescópios do planeta para outros projetos. Bastava ter paciênciapara chegar ao fim da parte enfadonha. Uma pequena parcela detempo também fora reservada para astrônomos de outras institui-ções. Embora o moral tivesse melhorado perceptivelmente, haviamuitos que concordavam com Drumlin; olhavam com inveja omilagre tecnológico representado pelos 131 radiotelescópios doArgus e imaginavam usá-los para seus próprios programas, semdúvida meritórios. Ora ela procurava argumentar com Dave, oradiscutia com ele, mas de nada adiantava. Ele não se achava comboa disposição para conversar.A palestra de Drumlin era, em parte, uma tentativa de de-monstrar que não existiam extraterrestres em parte alguma. Sehavíamos realizado tanto em apenas alguns milhares de anos dealta tecnologia, perguntou ele, o que uma espécie verdadeira-mente avançada poderia ser capaz de fazer? Teriam meios demover estrelas, dar nova configuração a galáxias. No entanto, em56toda a astronomia não existia nenhum indício de um fenômenoque não pudesse ser explicado por processos naturaís, para o qualfosse preciso recorrer à inteligência extraterrestre. Por que o Argusnão tinha detectado até então um sinal de rádio? Por acaso ima-
  • 39. ginavam um único transmissor de rádio em todo o céu? Percebiamquantos bilhões de estrelas já haviam examinado? A experiênciaera meritória, mas se esgotara. Não precisavam examinar o res-tante do céu. A resposta já fora dada. Nem no espaço mais pro-fundo, nem nas proximidades da Terra havia sinal algum deextraterrestres. Eles não existiam.No período dedicado às perguntas, um dos astrônomos doArgus se referiu à Hipótese do Zoológico, a idéia de que, comefeito, os extraterrestres existiam, mas preferiam náo tornar suapresença conhecida, a fim de ocultar aos seres humanos o fato dehaver outros seres inteligentes no cosmo - da mesma formacomo um especialista em comportamento de primatas poderiadesejar observar um bando de chimpanzés na selva, mas seminterferir em suas atividades. Em resposta, Drumlin fez uma per-gunta díferente: sería provável que, com 1 milhão de civilizaçõesna galáxia - o número que, segundo ele, era "a bandeira" doArgus-, não houvesse um único caçador furtivo? Como explicarque todas as civilizaçôes da galáxia obedecessem à ética da não-interferência? Seria provável que nenhuma delas se intrometessenos negócios da Terra?"Acontece que na Terra", replicou Ellie, "os caçadores fur-tivos e os guardas-florestais dispõem mais ou menos dos mesmosníveís de tecnología. Mas se o guarda-florestal goza de uma van-tagem indiscutível, como, por exemplo, radares e helicõpteros,nesse caso os caçadores furtivos náo têm o que fazer."A observação foi recebida com satisfação por alguns inte-grantes do quadro do Argus, mas Drumlin disse a.penas: "Você estãexagerando, Ellie, está exagerando".Quando desejava espairecer, Ellie tinha o costume de fazerlongos passeios, sozinha, em seu Thunderbird conversível mode-l0 1958, cuidadosamente conservado, que constituía sua únicaextravagância. Muitas vezes ela deixava a capota em casa e dis-57parava pelo deserto à noite, com as janelas abaixadas e os cabe-los escuros ao vento. Com o passar dos anos, ao que parecia, vieraa conhecer todas as cidadezinhas empobrecidas, todos os tabuei-ros e morros isolados, todos os patrulheiros rodoviários dosudoeste do Novo México. Depois de um período noturno deobservação, ela adorava passar correndo pela guarita do Argus(isso antes de ser construída a cerca de proteção contra ciclones),mudando as marchas rapidamente e seguindo para o norte. Emtorno de Santa Fé, viam-se às vezes os primeiros clarões da madru-gada sobre os montes Sangre de Cristo. (Por que razão umareligião, perguntava-se Ellie, tendia a chamar os lugares de san-gue, coração, corpo ou pâncreas de sua figura mais sagrada? E porque nunca o cérebro, entre outros órgãos importantes, mas nun-ca celebrados?)
  • 40. Dessa vez ela rumou para sudeste, na direção dos montesSacramento. Dave teria razão? Seria possível que a PIET e o Argusfossem uma espécie de delírio coletivo de alguns astrônomosinsuficientemente objetivos? Seria verdade que, não importaquantos anos transcorressem sem uma mensagem, o projetoprosseguiria, sempre inventando uma nova estratégia para a civi-lização transmissora, concebendo continuamente uma instru-mentação nova e dispendiosa? Qual seria o sinal convincente dofracasso? Quando estaria ela disposta a desistir e se voltar paraalguma coisa mais segura, com resultados mais garantidos? NoJapão, o Observatório Nobeyama havia acabado de anunciar adescoberta da adenosina, uma complexa molécula orgânica, umdos componentes do nNa, numa densa nuvem molecular. Era evi-dente que ela poderia prestar uma contribuição útil se procurasseno espaço moléculas relacionadas com a vida, mesmo que paraisso tivesse de renunciar à pesquisa de inteligência extraterrestre.Chegando ao alto da serra, Ellie olhou para o sul e vislum-brou no horizonte a constelação do Centauro. Naquelas estrelas,os antigos gregos tinham visto uma criatura quimérica, metadehomem, metade cavalo, que havia ensinado a sabedoria a Zeus.No entanto, Ellie jamais conseguira discernir nelas nenhum de-senho que remotamente lembrasse um centauro. Era de AlphaCentauri, a estrela mais brilhante da constelação, que ela gostava.Aquela era a estrela mais próxima da Terra, de que distava apenas58quatro e meio anos-luz. Na verdade, Alpha Centauri era um sis-tema triplo, formado por dois sóis que giravam, bem próximos,um ao redor do outro, além de um terceiro, mais afastado, quegirava em torno de ambos. Vistas da Terra, as três estrelas se jun-tavam, formando um único ponto de luz. Em noites particular-mente claras, como aquela, ela às vezes conseguia ver Alpha Cen-tauri pairando sobre algum ponto do México. Outras vezes,quando o ar estava carregado de poeira do deserto, após váriosdias consecutivos de tempestades de areia, ela subia às monta-nhas para obter um pouco de altitude e transparência atmosféri-ca, descia do carro e fitava o sistema estelar mais próximo. Em-bora fosse difícil detectá-los, era possível que existissem planetasali. Alguns poderiam estar girando ao redor de qualquer um dostrês sóis. Uma órbita mais interessante, com razoável estabilidadeemtermos de mecânica celeste, seria uma figura em forma de oito,contornando os dois sóis interiores. Como alguém se sentiria,imaginou Ellie, vivendo num mundo com três sóis no céu?Provavelmente faria mais calor do que no Novo México.A estrada asfaltada, com duas pistas, notou Ellie com umligeiro estremecimento, estava ladeada de coelhos. Já os vira ante-riormente, sobretudo quando seus passeios a tinham levado até ooeste do Texas. Apoiavam-se sobre as quatro patas, nos acosta-
  • 41. mentos; mas no momento em que um deles era momentanea-mente iluminado pelos novos faróis de quartzo do Thunderbird,levantava-se nas patas traseiras, transfixado, com as patas dian-teiras pendentes. Durante quilômetros ela foi, por assim dizer,homenageada por uma guarda de honra de coelhos silvestres emposição de sentido, enquanto corria pela noite. Levantavam oolhar, e eram mil focinhos rosados que se contraíam, 2 mil olhosvermelhos luzindo na escuridão, no momento em que aquelaaparição se precipitava sobre eles.Talvez seja uma espécie de experiência religiosa, pensouEllie. Aqueles coelhos pareciam jovens, na maioria. Talvez nuncativessem visto faróis de automóveis. Pensando bem, era uma coisaespantosa, dois feixes intensos de luz avançando a 130 quilôme-tros por hora. Apesar de haver milhares de coelhos ladeando a59estrada, parecia que nunca um deles se postava no meio dela, nun-ca se via um borrão saindo do caminho, nunca aparecia um corpomorto estendido sobre o asfalto. Afinal, por que se alinhavam aolongo do acostamento? Talvez a explicação estivesse na tempe-ratura do asfalto, pensou Ellie. Ou talvez só estivessem mordis-cando as ervas próximas e sentissem curiosidade pelas luzes bri-lhantes que se aproximavam. Mas seria razoável que jamais algumdeles desse uns poucos saltos para visitar seus primos do outrolado da estrada? Que pensavam que fosse a estrada? Uma presençaalienígena próxima a eles, de funçáo inimaginável, construída porcriaturas que a maioria deles nunca vira? Ellie duvidava de quealgum daqueles coelhos chegasse a se ocupar com tais conjecturas.O sibilar dos pneus na estrada era uma espécie de ruído bran-co, e Ellie percebeu que, involuntariamente, estava-também ali- em busca de uma regularidade audível. Adquirira o hábito deprestar muita atenção a várias fontes de ruído branco: o motor dageladeira de noite, ligando-se e desligando-se automaticamente;a água que caía do chuveiro; a lavadora, quando ela punha aroupa para lavar na pequena área ao lado da cozinha; o ronco domar durante uma breve excursão à ilha de Cozumel, perto dapenínsula do Yucatán, que ela abreviou devido ã impaciênciapara voltar ao trabalho. Ellie prestava atenção a essas fontes coti-dianas de ruídos aleatórios e procurava determinar se havia nelasmenos regularidades aparentes do que na estática interestelar.Estivera em Nova York em agosto para uma reunião da UHsI(abreviação francesa para a International Scientific Radio Union).As linhas de metrô eram perigosas, tinham-na avisado, mas o ruí-do branco era irresistível. No plac-ti-plac do trem subterrâneo, elajulgara ter percebido uma regularidade, e resolutamente deixarade lado meio dia de reuniões para viajar da rua 34 até ConeyIsland, voltando ao centro de Manhattan e, baldeando para outralinha, indo até o distante Queens. Mudou de trem numa estação
  • 42. em Jamaica, e depois voltou, um pouco afogueada e sem fôlego(afinal, pensou ela, era um dia quente de agosto), ao hotel em quese realizava a convenção. Às vezes, quando o trem fazia uma cur-va mais fechada, as lâmpadas do carro se apagavam e ela via umasucessão regular de luzes, de fulgor azulado, passando veloz-mente, como se ela se encontrasse num impossível veículo interes-telar hiper-relativístico, zunindo através de um aglomerado dejovens supergigantes azuis. Depois, quando o trem entrava numareta, as luzes interiores se acendiam de novo, e ela novamenteganhava consciência do cheiro acre, dos sacolejões de passagei-ros em pé a seu lado, das pequeninas câmaras de televisão (meti-das em gaiolas protetoras e posteriormente inutilizadas por jatosde tinta em spray), do mapa multicor estilizado que mostrava todoo sistema de transporte subterrâneo de Nova York, do guinchoestridente dos freios quando o veículo parava numa estação.Aquilo era um tanto excêntrico, sabia. Mas sempre tivera umaimaginação ativa. Tudo bem, talvez fosse um pouco compulsivacom relação a ruídos, mas isso não fazia mal algum. Ninguémparecia notar aquilo. De qualquer forma, tinha relação com seutrabalho. Nesse caso, talvez ela pudesse deduzir as despesas desua viagem a Cozumel do imposto de renda, por causa do baru-Iho das ondas. É, talvez estivesse ficando obsessiva mesmo.Percebeu, com um sobressalto, que havia chegado à estaçãodo Rockefeller Center. Enquanto saía rapidamente, caminhandosobre uma porção de jornais abandonados no chão, uma man-Chete dO NB2US-POSI lhe ChamOu a atenÇão: GUERRILHEIROS TOMAMxAMPnE JosuRG". Se gostamos deles, são defensores da liberdade,pensou Ellie. Se não gostamos, são terroristas. Se ocorre o casoimprovável de não termos idéia formada, temporariamente sãoapenas guerrilheiros. Num pedaço de jornal perto dali, havia umagrande fotografia de um homem rubicundo e confiante, com umamanChete: °COMO ACABARÁ O MUndo TRECHOS DO NOVO LIVRO DO REVBILLY JO RANKIN. ESTA SEMANA. EXCLUSIVO PARA O NEWS-POST." Lera aSmanchetes rapidamente e logo procurou esquecê-las. Cami-nhando depressa no meio da multidão, rumo ao hotel onde sedaria o encontro, Ellie esperava que não estivesse atrasada paraa exposição de Fujita sobre projetos de radiotelescópios homo-mórficos.Ao silvo dos pneus se superpunha o baque periódico dasjunções de pedaços da pavimentação, que tinha sido recapeadaem épocas diferentes por diferentes turmas de trabalhadores. E seuma mensagem interestelar estivesse sendo recebida pelo Proje-61to Argus, mas com muita lentidão - um fragmento de informaçãopor hora, digamos, ou por semana, ou por década? E se fossemmurmúrios muito antigos, muito pacientes, de alguma civilizaçãoque não tivesse meio de saber que nos cansamos de identificar
  • 43. sinais significativos depois de transcorridos segundos ou minutos?Suponha-se que vivessem dezenas de milhares de anos. E quefàaalaaasssem muüito deeevaaagaaar. O Argus nunca saberia.Poderiam existir essas criaturas longevas? Teria havido na históriado universo tempo suficiente para que criaturas que se repro-duzissem com grande lentidão alcançassem alto nível de inteli-gência? Porventura a decomposição estatística das ligações quími-cas, a deterioração dos organismos de acordo com a Segunda Leida Termodinâmica, não os obrigaria a se reproduzirem mais oumenos com a mesma freqüência dos seres humanos? E a terem umtempo de vida semelhante ao nosso? Ou talvez eles habitassemum mundo velho e frígido, no qual até as colisões molecularesocorressem de modo extremamente lento. Ellie imaginou umradiotransmissor, de desenho reconhecível e familiar, colocadonum penhasco de metano congelado, baçamente iluminado porum distante sol anão vermelho, enquanto lá embaixo as ondas deum oceano de amoníaco se chocavam incessantemente contra apraia - gerando, incidentalmente, um ruído branco indistinguí-vel daquele da arrebentação em Cozumel.O contrário também era possível: criaturas que falavam ra-pidamente, talvez pequenos maníacos, movendo-se aos saltos ede modo agitado, capazes de transmitir uma mensagem de rádiocompleta - o equivalente a centenas de páginas de texto numalíngua terrestre - em um nanossegundo. Evidentemente, se dis-puséssemos de um radiorreceptor de banda muito estreita, tería-mos de aceitar, forçosamente, a constante de tempo longo.Jamais seríamos capazes de detectar uma modulação rápida. Issorepresentava uma simples conseqüência do Teorema Integral deFourier, relacionado de perto com o Princípio da Incerteza deHeisenberg. Assim, por exemplo, com um comprimento de ban-da de um quilohertz, jamais poderíamos identificar um sinal commodulação superior a um milissegundo. Captaríamos uma espé-cie de borrão sonoro. Os comprimentos de banda do Argus ti-nham menos de um hertz, de modo que, para serem captados, os62transmissores tinham de modular muito lentamente, menos deum bit de informação por segundo. Modulações ainda maislentas - digamos, que demorassem mais do que horas - po-diam ser detectadas com facilidade, desde que se estivesse dis-posto a assestar o telescópio para a fonte durante esse tempo edesde que o observador fosse dotado de extrema paciência.Havia tantos pedaços de céu para serem examinados, tantas cen-tenas de bilhões de estrelas para serem pesquisadas. Não era pos-sível dedicar todo o tempo a algumas delas. Ellie temeu que, napressa de realizarem todo o levantamento do céu num períodomenor que o da vida de um ser humano, de pesquisarem a tota-lidade do firmamento em um bilhão de freqüências, eles hou-
  • 44. vessem abandonado tanto as criaturas que falavam velozmentecomo as de emissão lentíssima.Decerto, porém, pensou ela, eles saberiam melhor do quenós quais eram as freqüências moduladas aceitáveis. Já disporiamde experiência prévia em comunicação interestelar e com civi-lizações em via de desenvolvimento. No caso de existir uma largafaixa de velocidades de pulsação passíveis de serem adotadaspelas civilizações receptoras, a civilização transmissora certa-mente utilizaria toda essa faixa. Modulariam em microssegundos,modulariam em horas. Que lhes custaria isso? Teriam a seu dispor,quase todas essas civilizações, uma tecnologia excepcional e vas-tos recursos energéticos, pelos padrões da Terra. Se desejassemcomunicar-se conosco, facilitariam as coisas. Enviariam sinais emmuitas freçiiências diferentes. Empregariam muitas escalas tem-porais de modulação. Saberiam como somos atrasados e teriampena.Nesse caso, por que não havíamos recebido sinal algum?Seria possível que Dave tivesse razão? Não existiam civilizaçõesextraterrestres em parte alguma? Todos aqueles bilhões de mun-dos seriam ermos, estéreis? Só existiriam seres inteligentes nestecanto obscuro de um universo incompreensivelmente imenso?Por mais que tentasse, Ellie não conseguiu levar a sério essa pos-sibilidade. Ela coincidia à perfeição com os medos e pretensõeshumanos, com doutrinas não comprovadas sobre a vida além-túmulo, com pseudociências como a astrologia. Era a encarnaçãomoderna do solipcismo geocêntrico, a presunção que dominara63nossos antepassados, a idéia de que éramos nós o centro do uni-verso. Só por esse motivo, a argumentação de Drumlin era sus-peita. Fazíamos força demais para acreditar nela.Um momento, pensou Ellie. Nem sequer examinamos todo 0céu setentrional uma única vez com o sistema Argus. Dentro demais sete ou oito anos, se ainda não tivermos escutado coisa algu-ma, aí teremos razão para começar a nos preocupar. Este é oprimeiro momento na história humana em que é possível procu-rar os habitantes de outros mundos. Se fracassarmos, teremosdeterminado alguma coisa sobre a raridade e o valor da vida emnosso planeta - e só isso, se for verdade, compensa o esforço. E,se tivermos êxito, teremos modificado a história de nossa espécie,rompido os grilhões do provincianismo. Como o que está em jogoé tão importante, vale a pena correr alguns pequenos riscos profis-sionais, disse Etlie a si mesma. Afastou-se do acostamento, deuuma rápida meia-volta, mudou de marcha duas vezes e acelerouo carro de volta, em direção ao observatório. Os coelhos, ainda àbeira da estrada, mas agora tingidos de cor-de-rosa pelo dia quenascia, viraram os pescoços para acompanharem sua partida.64
  • 45. 4NÚMEPOS PRIMOSPorventura não existirão morávios na Lua, paraque nem um único míssionáriojá tenha visitadoesse nossopobreplanetapagão afím de civilizara civilização e cristianizara cristandade.Herman Melville, White jacket (1850)Só o silêncio égrande, tudo mais éfragilidade.Alfred de Vigny, A morte do lobo (1864)0 grande vácuo negro fora deixado para trás. Os pulsosaproximavam-se agora de uma estrela anã, ordinária eamarela, e já haviam começado a se espalharpelo séquito demúsclos daquele sistema obscuro. Haviam passado, vibran-do, porplanetas de hidrogênio gasoso, penetrado em luas degelo, clivado as nuvens orgânicas de um mundo gélido noqual se agitavam os elementos precursores da vida e varridoum planeta que já ultrapassara em um bilhão de anos o seuapogeu. Agora ospulsos batiam num mundo quente, azul ebranco, quegirava contra o fundo das estrelas.Existia vida nesse mundo, vida em extravagante quanti-dade e diversificação. Havia aranhas saltadoras nos toposgelados das montanhas mais elevadas e vermes que se ali- mentavam de enxofre em respiradouros quentes que jor-ravampara o altoporcristas no leito dos oceanos. Havia seresque só podiam viver num ambiente de ácido sulfúrico con-GScentrado, assim como seres que eram destruídos ao contatocom essa substância; organismos para os quais o oxigênioera veneno, e também organismos que só logravam sobrevi-ver com oxigênio, que na verdade o respiravam.Uma forma de vida em especial, dotada de um tantinho deinteligência, se disseminara havia pouco pelo planeta. Já seaventurava a viver nos leitos dos oceanos e em órbitas debaixa altitude. Ocupava, em enxames, todos os recantos erecessos de seu pequeno planeta. A fronteira que assinalavaa transição entre a noite e o dia movia-se em direção a oeste,e, acompanhando seu movimento, milhões desses seres fa-ziam suas abluções matinais. Trestiam sobretudos e dhotis;ingeriam bebidas feitas de café, chá e dente-de-leão; para selocomover, utilizavam bicicletas, automóveis e bois; e pen-savam em trabalhos escolares, nas perspectivas da semeadu-ra deprimavera e no destino do mundo.Os primeiros pulsos da cadeia de ondas de rádio insi-nuaram-sepela atmosfera e pelas nuvens, atingiram o solo eforam parcialmente refletidos para o espaço. Enquanto aTerra girava sob eles, pulsos sucessivos chegavam, engolfan-do não só umplaneta, mas todo o sistema. Cada um dos mun-
  • 46. dos interceptou umapartepequeníssima da energia. A maiorparte dela continuou em frente, sem esforço- enquanto aestrela amarela e os mundos que compunham sua comitivamergulhavam, numa direção inteiramente diferente, nastrevas caliginosas.Usando uma jaqueta de dacron com a palavra Marauderssobre uma bola de vôlei estilizada, o oficial de dia, que dava iní-cio ao turno da noite, aproximou-se do edifício de controle. Umgrupo de radioastrônomos saía para jantar."Há quanto tempo vocês estão à procura de homenzinhosverdes? Já faz mais de cinco anos, não é, Willie?"Brincaram com ele jovialmente, mas o oficial de dia captouuma ponta de implicância."Dá um tempo, Willie", disse o outro. "O programa de lumi-nosidade dos quasares vai de vento em popa. Mas vai durar eter-namente se só tivermos dois por cento do tempo de observação.""Claro, Jack, claro."66 "Willie, estamos investigando a origem do universo. Nossoprograma também tem um objetivo da maior importância. E nóssabemos que existe um universo lá; e vocês não sabem se existeum único homenzinho verde."e "Fale com a dra. Arroway. Tenho certeza de que ela terá pra-zer em ouvi-lo", respondeu Willie com certo azedume.O oficial de dia entrou na área de controle. Lançou uma rá-pida olhada para dezenas de terminais de vídeo que monitoravam o progresso da pesquisa. Tinham acabado de examinar a conste-lação de Hércules. Haviam perscrutado o âmago de um grandeenxame de galáxias muito além da Via Láctea, o Aglomerado deHércules, a uma distância de 100 milhões de anos-luz; tinham sevoltado para a M-13, um enxame de 300 mil estrelas, pouco maisou pouco menos, que, ligadas gravitacionalmente, moviam-se emórbita em torno da Via Láctea, a 26 mil anos-luz de distância; ha-viam examinado Ras Algethi, um sistema duplo, a Zeta e LambdaHerculis - algumas estrelas diferentes do Sol, outras seme-lhantes, mas todas próximas. A maioria das estrelas que podemser vistas a olho nu situa-se a menos de umas poucas centenas deanos-luz da Terra. Haviam monitorado, cuidadosamente, cente-nas de pequenos setores do céu compreendidos na constelaçãode Hércules, em um bilhão de freqüências distintas, sem nadaouvirem. Em anos anteriores tinham investigado as constelaçõesque ficavam imediatamente a oeste de Hércules: Serpens, CoronaBorealis, Brõtes, Canes Venatici... mas nada haviam captado.Alguns dos telescópios, o oficial de dia verificava, estavamdedicados a coletar alguns dados que faltavam sobre Hércules. Osrestantes achavam-se apontados, com toda a precisão, para umaárea adjacente do céu, a constelação logo a leste de Hércules.
  • 47. Alguns milhares de anos atrás, um povo do Mediterrâneo orientala julgara semelhante a um instrumento musical de cordas, sendoassociada ao herói grego Orfeu. Era a constelação da Lira.Os computadores faziam os telescópios acompanharem asestrelas da Lira por todo o horizonte, acumulavam os fótons derádio, conferiam a exatidão dos telescópios e processavam osdados de maneira acessível a seus operadores humanos. Até mes-mo um único oficial de dia constituía certa condescendência. Pas-sando por um vidro de caramelos duros, uma máquina automáti-67ca de café, uma frase em runas fantasiosas, extraída de um livrode Tolkien pelo Laboratório de Inteligência Artificial em Stanford,e por um adesivo de automóvel que dizia "os BURacos NEcRos sAoINvIsíveIs", Willie se aproximou do console de comando. Com umgesto de cabeça, cumprimentou o encarregado da tarde, que reu-nia seus apontamentos e se preparava para ir jantar. Como osdados do dia estavam convenientemente sumarizados no monitorprincipal, Willie não precisava perguntar sobre o progresso dashoras precedentes."Como você vê, pouca coisa. Houve uma irregularidade pun-tiforme... ou pelo menos era isso que parecia ser... em 49", disseele, apontando de modo vago na direção da janela. "O pessoal dosquasares desocupou os conjuntos 110 e 120 há mais ou menosuma hora. Parece que estão obtendo dados ótimos.""É, ouvi dizer. Eles não compreendem..."Willie se calou no instante em que uma luz de alarme acen-deu no console. Num terminal de vídeo, marcado "Intensidade xFreqüência", subia uma nítida linha vertical."Ei! Veja, é um sinal monocromático."Um outro terminal, "Intensidade x Tempo", mostrava umasérie de pulsos que se moviam da esquerda para a direita e saíamda tela."São números", disse Willie, frouxamente. "Alguém estátransmitindo números.""Deve ser uma interferência da Força Aérea. Vi um avião-radar, provavelmente da base de Kirkland, mais ou menos às qua-tro da tarde. Talvez estejam brincando conosco."Tinham sido firmados acordos solenes visando à salvaguardade ao menos algumas radiofreqüências para astronomia. No entan-to, exatamente porque tais freqüências representavam um canallivre, de vez em quando os militares as achavam irresistíveis. Sealgum dia ocorresse a guerra global, talvez os radioastrônomos fos-sem os primeiros a saber; nesse caso, suas janelas para o cosmoseriam inundadas por ordens dirigidas a satélites de orientação decombate e avaliação de danos, colocados em órbita geossincrôni-ca, e pela transmissão de ordens de lançamento codificadas a pos-tos estratégicos distantes. Mesmo na ausência de tráfego militar,
  • 48. como lidavam com um bilhão de freqüências ao mesmo tempo, os98astrônomos sempre esperavam alguma interferência. Relâmpagos,ignições de automóveis, satélites de transmissão direta... todasessas eram fontes de interferência. Entretanto, os computadores asidentificavam, conheciam suas características e sistematicamenteas deixavam de lado. No caso de sinais ambíguos, o computadoros escutava com mais cuidado e verificava se não coincidiam como inventário de dados para os quais estava programado. De vez emquando, uma aeronave de vigilância eletrônica - às vezes com umprato de radar parecido com um disco-voador preso em sua fuse-lagem - sobrevoava a região em missão de treinamento, e derepente o Argus detectava sinais inequívocos de vida inteligente.Sempre, entretanto, se verificava tratar-se de uma vida de naturezaestranha e melancólica, inteligente mas não muito, e só um poucoextraterrestre. Alguns meses antes, um F-29E, equipado com o quehavia de mais moderno em contramedidas eletrônicas, haviasobrevoado o observatório a 24 mil metros de altitude, fazendosoar os alarmes de todos os 131 telescópios. Aos olhos dos astrô-nomos, pouco afeitos às coisas militares, a característica da emis-são fora bastante complexa para parecer, plausivelmente, a pri-meira mensagem de uma civilização extraterrestre. Entretanto,constataram que o radiotelescópio situado mais a oeste havia rece-bido o sinal nada menos que um minuto antes do situado mais aleste, e logo ficou claro que sua fonte era um objeto que percorriao estreito invólucro de ar em torno da Terra, e não uma civilizaçãoinimaginavelmente diferente, situada nas profundezas do espaço.Com toda certeza, o sinal que recebiam agora era da mesma na-tureza.Os dedos de sua mão direita estavam metidos em cincoreceptáculos, uniformemente separados, numa caixinha coloca-da sobre a mesa. Desde a invenção daquilo, pensou Ellie, ela con-seguia ganhar meia hora por semana. Na verdade, entretanto, nãohavia muito o que fazer com essa meia hora extra."Estive contando tudo à sra. Yarborough. É a da cama ao ladoda minha, agora que a sra. Wertheimer faleceu. Não quero contarprosa, mas sempre acabo sendo muito elogiada pelo que você temfeito."99"Sei, mamãe."Ellie examinou o brilho das unhas e achou que precisavamde mais um minuto, talvez um minuto e meio."Eu estava me lembrando daquela vez na quarta série... lem-bra-se? Quando estava chovendo e você não quis ir à escola? Você queria que no dia seguinte eu escrevesse um bilhete dizendo que tinha faltado por doença. Mas eu me recusei a fazer isso. Eu disse:`Ellie, você é bonita, mas a coisa mais importante que pode fazer
  • 49. na vida é conseguir uma boa educação. Quanto a ser bonita, agente não pode fazer muita coisa contra ou a favor, mas você podese esforçar por ter uma boa educação. Vá à aula. Você nunca sabeo que poderá aprender hoje. Não foi?""Foi, sim, mamãe.""Quero dizer, não foi isso que eu lhe disse?""Foi. Eu me lembro, mamãe."O brilho de quatro dedos estava perfeito, mas o polegar ain-da tinha um aspecto um tanto fosco."Por isso, peguei suas galochas e sua capa... era amarela, evocê ficava linda com ela... e levei você até a escola. E não foi nessedia que você não soube responder uma pergunta na aula de ma-temática? Você ficou tão zangada que foi até à biblioteca da univer-sidade e leu sobre o assunto até saber mais a respeito dele do queo sr. Weisbrod. Ele ficou impressionado. Veio comentar comigo.""Ele comentou com a senhora? Nunca soube disso. Quandofoi que conversou com o sr. Weisbrod?""Numa reunião de pais e mestres. Ele me disse: `Aquela suafilha é uma danada. Ou qualquer coisa assim. `Ela ficou tão fu-riosa comigo que se tornou especialista na coisa. Especialista. Foiisso que ele disse. Tenho certeza de que lhe contei."Os pés de Ellie estavam apoiados numa gaveta da mesa,enquanto ela se reclinava na cadeira giratória; só seus dedos namáquina esmaltadora a equilibravam. Sentiu o bip tocar quaseantes de escutar o som, e sentou-se de súbito."Mãe, preciso ir.""Tenho certeza de que jã lhe contei essa história. É que vocênunca prestava atenção ao que eu dizia. O sr. Weisbrod era umhomem excelente. Você é que não prestava atenção ao lado bomdele."70"Mamãe, preciso ir mesmo. Captamos algum tipo de interfe-rência.""Interferência?""A senhora sabe, mamãe, alguma coisa que poderá ser umsinal. Já conversamos a respeito.""Nós duas sempre estamos achando que uma não escuta oque a outra diz. Tal mãe, tal filha.""Até logo, mamãe."a "Pode ir, mas prometa que depois vai telefonar para mim.""Está certo, mamãe. Prometo."Durante toda a conversa, a dependência e a solidão de suamâe haviam causado a Ellie um desejo de pôr fim à conversa, desair correndo. Ela se odiou por isso.Resolutamente, entrou na área de controle e se aproximou doconsole principal."Boa noite, Willie, Steve. Vamos ver os dados. Muito bem.
  • 50. Onde você pôs o gráfico de amplitude? Ótimo. Tem a posiçãointerferométrica? Certo. Vamos ver se há alguma estrela pertodesse campo. Ora essa, estamos apontados para Vega. É uma vi-zinha bem próxima."Seus dedos apertavam o teclado enquanto ela falava."Vejam, fica apenas a 26 anos-luz de distância. Já foi obser-vada antes, sempre com resultados negativos. Eu mesma inves-tigu: i essa área em meu primeiro levantamento em Arecibo. Qualé a intensidade absoluta? Santo Deus! São centenas de janskvs.Quase se pode captar isso com um radinho FM. Muito bem. Temosentão uma interferência muito perto de Vega no plano do céu. Afreqüência é em torno de 9,2 gigahertz, e não muito monocromáti-ca. A largura de banda é de algumas centenas de hertz. Tem pola-rização linear e está transmitindo uma série de pulsos restritos aduas amplitudes diferentes."Em resposta a seus comandos, o monitor mostrava agora adisposição de todos os radiotelescópios."Está sendo recebida por 116 telescópios diferentes. Evi-dentemente, não se trata de disfunção de um ou dois deles. Muitobem, devemos dispor então de muita linha-base temporal. O sinal71está acompanhando as estrelas? Ou poderia ser algum satélite ouavião de vigilância eletrônica?""Posso confirmar que há movimento sideral, dra. Arroway.""Otimo, isso é muito Convincente. A fonte não está na Terra,e provavelmente não se trata de um satélite artificial numa órbitado tipo Molniya, embora devamos checar isso. Quando puder,Willie, chame o NoxD e veja o que eles têm a dizer a respeito dapossibilidade de ser um satélite. Se pudermos excluir os satélites,só restarão duas possibilidades: ou se trata de fraude ou alguémfinalmente conseguiu enviar-nos uma mensagem. Steve, faça umaverificação manual. Cheque alguns radiotelescópios... a potênciado sinal deve ser suficiente... e veja se há alguma possibilidade deisso ser uma fraude. Sabe como é, alguém pode estar pregandouma peça para nos mostrar como este trabalho é inútil."Alertados por seus bips, ativados pelo computador do Argus,um punhado de outros cientistas e técnicos se havia reunido emtorno do console de comando. Seus rostos estavam quase sorri-dentes. Nenhum deles estava pensando seriamente em uma men-sagem emanada de outro mundo, mas havia no ar uma sensaçãode gazeta, uma quebra da tediosa rotina a que se tinham habitua-do, e, talvez, um ligeiro clima de expectativa."Se algum de vocês é capaz de imaginar outra explicaçãoalém de inteligência extraterrestre, eu gostaria de ouvir", disseEllie."Não há possibílidade de ser Vega, dra. Arroway. O sistema
  • 51. só tem algumas centenas de milhões de anos. Seus planetas aindase acham na fase de formação. Não houve tempo para surgir vidainteligente ali. Tem de ser alguma estrela mais atrás. Ou umagaláxia.""Nesse caso, a potência de transmissão teria de ser impos-sivelmente grande", respondeu um membro do grupo de pes-quisa de quasares, que voltara para ver o que estava acontecen-do. "Precisamos começar imediatamente um rigoroso estudo demovimento próprio para verificar se a fonte de rádio acompanhaVega.""Claro, você tem toda a razão, Jack", disse Ellie. "Mas há outrapossibilidade. Talvez eles não se tenham desenvolvido no sistemade Vega. Talvez estejam apenas de visita."72Também não creio. O sistema está cheio de destroços. É umsistema solar fracassado ou ainda nas primeiras etapas de evo-lução. Se permanecessem ali por muito tempo, a nave deles ficariaem pedacinhos.""Nesse caso, chegaram recentemente. Ou são capazes devaporizar meteoritos. Ou realizam manobras de evasão quando háum fragmento de destroço em rota de colisão. Ou não se encon-tram noplano do anel de destroços, mas em órbita polar, com o queminimizam os encontros com esses destroços. Há um milhão depossibilidades. Mas você está absolutamente certo. Não precisamosesquadrinhar se a fonte se localiza no sistema de Vega. Podemos ve-ricar isso. Quanto tempo será preciso para um estudo de movi-mento próprio? A propósito, Steve, este não é o seu turno. Aomenos diga a Consuelo que vai chegar tarde para o jantar."Willie, que estivera falando ao telefone num console próxi-mo, tinha no rosto um sorriso estranho. "Bem, falei com o majorMintree, do Nox.D. Ele jura de pés juntos que sua organizaçãonãoo dispõe de nada que seja capaz de emitir esse sinal, principal-mente em nove gigahertz. É claro, eu sei que eles dizem isso todasvezes que ligamos. De qualquer forma, ele acrescentou quenão detectaram nenhuma aeronave na ascensão ou declinaçãode Vega.""E quanto a satélites apagados?"Havia nessa época muitos satélites "apagados", com baixasseçôes cruzadas de radar, destinados a orbitar em torno da Terrasem serem detectados, até o momento em que fossem neces-sários. Serviriam como equipamentos de reserva para a detecçãode lançamentos ou para comunicações numa guerra nuclear, nocaso de os satélites militares de primeira linha destinados a essasfinalidades subitamente desaparecerem em ação. De vez emquando, um desses satélites apagados era detectado por um dosgtandes sistemas de radar astronômicos. Todos os países nega-vam que tais artefatos lhes pertencessem, e surgia a especulação
  • 52. de que uma nave extraterrestre tivesse sido detectada na órbita daTerra. À medida que se avizinhava o Milênio, voltava a vicejar oculto dos ovNIs."A interferometria elimina a possibilidade de um satélitenuma órbita do tipo Molniya, dra. Arroway."73"Está cada vez melhor. Vamos dar uma olhada mais atentanesses pulsos móveis. Supondo que se trate de aritmética binária,alguém já a converteu à base 10? Sabemos qual é a seqüência denúmeros? oK, podemos calcular de cabeça... 59, 61, 67... 71... Es-ses números não são primos?"Um zumbido de agitação perpassou pela sala de controle. Opróprio rosto de Ellie revelou por um instante a sombra de algu-ma coisa muito profunda, logo substituída pela sobriedade, pelomedo de se entusiasmar demais, pelo temor de parecer tola,pouco científica."Muito bem. Vamos fazer uma breve recapitulação. E na lin-guagem mais simples possível. Por favor, corrijam se eu esqueceralguma coisa. Temos um sinal extremamente forte, não muitomonocromático. Nas imediações do comprimento de banda dessesinal, as demais freqüências só transmitem ruído. O sinal tem pola-rização linear, como se estivesse sendo transmitido por um radiote-lescópio. Situa-se em torno de nove gigahertz, perto do mínimo doruído de fundo galáctico. É o tipo certo de freqüência para quemdesejasse ser ouvido a grande distância. Confirmamos que a fonteapresenta movimento sideral, de modo que ela se move como seestivesse entre as estrelas; não pode ser um transmissor terrestre.O Nox.m afirma que não detectou nenhum satélite, nosso ou deoutro país, que coincida com a posição dessa fonte. De qualquermaneira, a interferometria exclui uma fonte na órbita da Terra."Steve verificou os dados na modalidade manual, e nãoparece que alguém, dotado de um senso de humor deformado,tenha introduzido algum programa no computador. A região docéu que estamos examinando inclui Vega, que é uma estrela anãA-zero da seqüência principal. Não é exatamente como o Sol, masestá a apenas 26 anos-luz de distância e possui o cinturão dedestroços estelares característico. Não possui planetas conheci-dos, mas decerto poderia haver em torno de Vega planetas arespeito dos quais nada sabemos. Estamos iniciando um estudode movimento próprio para verificar se a fonte se situa muito atrásde nossa linha de mirada para Vega, e deveremos ter uma respos-ta em... hum... algumas semanas, se tivermos de contar com nos-sos próprios meios, algumas horas se realizarmos um pouco deinterferometria de longa base.74"Finalmente, o que está sendo transmitido parece ser umalonga seqüência de números primos, números inteiros que só são
  • 53. divisíveis por si próprios e por um. Não é verossímil que algumprocesso astrofísico gere números primos. Por tudo isso, eu diria... quero usar de cautela, naturalmente... mas eu diria que,segundo todos os critérios imagináveis, estamos diante do queprocurávamos."Entretanto, a idéia de que isso seja uma mensagem de cria-turas que se desenvolveram em algum planeta do sistema de Vegaenfrenta um problema: eles teriam de ter evoluído muito depres-sa. A estrela não tem mais que aproximadamente 400 milhões deanos. Trata-se de um local improvável para a existência da civi-lização mais próxima. Por isso, o estudo de movimento próprio édemáxima importância. Mesmo assim, eu gostaria de verificar umpouco mais a possibilidade de embuste.""Escute", disse um dos astrônomos que investigava os qua-sares, e que se mantivera calado até então. Fez um gesto com oqueixo na direção do horizonte, a oeste, onde um débil halo róseomostrava inequivocamente onde caíra o Sol. "Uega vai se pôrdaqui a algumas horas. Provavelmente já nasceu na Austrália. Nãopodemos contatar Sydney e pedir a eles que investiguem enquan-to ainda a estamos vendo?""Boa idéia. Ainda estão no meio da tarde lá. E, trabalhandojuntos, teremos linha de base suficiente. Dêem-me a transcriçãodo sumário. Vou passá-lo por telex à Austrália, de meu escritório."Procurando controlar-se, Ellie deixou o grupo reunido emtorno dos consoles e voltou à sua sala. Fechou a porta com todoo cuidado."Santo Deus!", murmurou."Ian Broderick, por favor. Isso! Aqui é Eleanor Arroway, doProjeto Argus. É uma espécie de emergência. Obrigada, euespero... Alô! Ian? Olhe, é possível que não seja nada, mas temosuma irregularidade aqui e queríamos que você verificasse paranós. É por volta de nove gigahertz, com um comprimento de ban-da de algumas centenas de hertz. Daqui a pouco vou passar osparâmetros por telex... Você já está com um alimentador em nove75gigahertz no prato? Bem, estamos com sorte... Sim, Vega está bem no meio do campo de visão. E estamos recebendo uma coisa que parece ser pulsos de números primos... É isso mesmo. Está certo, .espero."Ellie pensou nesse momento, mais uma vez, em como a comunidade astronômica mundial ainda estava atrasada. Ainda não havia uma rede de computadores on-line para a determi-nação de dados. A importância de uma rede dessas, só paracomunicações, seria..."Escute, Ian, enquanto o telescópio está se posicionando, :você poderia providenciar um gráfico de amplitude/tempo?Vamos chamar os pulsos de baixa amplitude de pontos, e os de
  • 54. alta amplitude, de traços. Estamos recebendo... Sim, é exatamenteessa a configuração que estivemos recebendo durante a últimameia hora... Talvez. Bem, é a coisa que mais parece autêntica emcinco anos, mas não paro de lembrar como os soviéticos se enga-naram feio com o incidente do satélite Big Bird, por volta de 1974.Bem, pelo que sei, foi um levantamento altimétrico por radar, feitopelos Estados Unidos para orientação de mísseis Cruise... É, um trabalho de cartografia. E os soviéticos captavam as emissões emantenas onidírecionais. Não tinham como dizer de que parte docéu provinham os sinais. Tudo que sabiam era que estavamrecebendo a mesma seqüência de pulsos, vindos do céu, mais oumenos à mesma hora toda manhã. As Forças Armadas lhes garan-tiram que não era uma transmissão militar, de modo que só podiaser extraterrestre... Não, já excluímos a possibilidade de ser uma transmissão de satélite. Ian, você teria condições de acompanharisso enquanto a fonte estiver no seu céu? Mais tarde eu Ihe falo arespeito da interferometria de longa base. Vou ver se é possível ;conseguir que outros radíobservatórios, distribuídos de maneira mais ou menos uniforme em longitude, acompanhem a fonte atéela reaparecer aqui... Sim, mas não sei se é fácil fazer uma ligaçãodireta para a China. Estou pensando em enviar um telegrama...Ótimo. Muito obrigada, Ian."Ellie deteve-se à porta da sala de controle - utilízavam essadesignação com consciente ironia, pois eram os computadores,em outra sala, que efetuavam praticamente todo o controle -,admirando o pequeno grupo de cientistas que conversavam ani-76madamente, examinando com atenção os dados que apareciamno terminal de vídeo e brincando entre si sobre a natureza dosinal. Não eram pessoas elegantes, pensou ela. Não eram o queconvencionalmente se consideram pessoas bonitas. Havia neles,porém, alguma coisa de inequivocamente atraente. Eram da_maior competência profissional e, sobretudo no processo dedescoberta, eram inteiramente absorvidos pelo trabalho. Nomomento em que ela se aproximou, silenciaram e a olharam,tomados de expectativa. Os numerais estavam sendo convertidos,automaticamente, da base 2 para a base 10... 881, 883, 887, 907...cada qual confirmado como um número primo."Willie, traga-me um mapa-múndi. E, por favor, ligue paraMarkAuerbach, em Cambridge. É provável que ele esteja em casa. Passe para ele essa mensagem, que deverá ser um telegrama da-qui para todos os observatórios, mas principalmente para todos os grandes radiobservatórios. E veja se ele confirma o número dotelefone do Radiobservatório de Beijing. Depois, quero falar comoconsultor de ciências da presidência.""A senhora vai passar por cima da Fundação Nacional deCiências?"
  • 55. "Depois de Auerbach, ligue para o consultor de ciências dapresidência."Ellie teve a impressão de ouvir, mentalmente, um grito de ale-gria em meio ao clamor das outras vozes.Por meio de bicicletas, carteiros a pé ou telefones, o breveparágrafo foi passado a centros astronômicos em todo o mundo.No caso de alguns grandes radiobservatórios - na China, Índia,União Soviética e Holanda, por exemplo -, a mensagem foi trans-mitida por teletipo. À medida que chegava, era examinada por umoficial de segurança ou algum astrônomo que estivesse próximo,arrancada e, com alguma curiosidade, levada a uma sala adja-cente. Dizia ela:FONTE DE RÁDIO INTERMITENTE EANÓMALA EM ASCENSÀO RETA IóH 34MIN,DECLINAÇÃO MAIS 38 GRAUS 41MINUTOS, DESCOFSERTA PELOtLEVANTAMENTO CELESTE SISTEMÁTICOARGUS, FREQÜÊNCIA 9,24176784GIGAI-IERTZ, COMPRIMENTO DE BANDAAPROXIMADAMENTE 43O HERTZ.AMPLITUDES BIMODAISAPROXIMADAMENTE 174 E 179 JANSKYS.AS AMPLITUDES CODIFICAM SEQÌÊNCIADE NÚMEROS PRIMOS. NECESSITAMOSURGENTEMENTE DE PLENA COBERTURALONGITUDINAL. FAVOR TELEFONAR ACOBRAR PARA MAIS INFORMAÇÒESRELATIVAS À COORDENAÇÀO DEOBSERVAÇOES.E. ARROWAY, DIRETORA, PROJETOARGUS, SOCORRO, NOVO MÉXICO, EUA.5ALGORÍTMO DECRIPTOGÁFICOAh, fala outra vez, anjo luzente...William Shakespeare, Romeu eJulietae Todos os aposentos destinados a cientistas visitantes acha-a vam-se agora ocupados, na verdade apinhados de selecionados luminares da comunidade da PIET. Quando as delegações oficiaiscomeçaram a chegar de Washington, não encontraram aco-modaçôes adequadas no Argus e tiveram de se hospedar emmotéis de Socorro, a localidade mais próxima. Kenneth der Heer,oconsultor de ciências da presidência, era a única exceção. Haviachegado um dia depois da descoberta, atendendo a um chamadourgente de Eleanor Arroway. Durante os dias que se seguiram,chegaram dirigentes da Fundação Nacional de Ciências, da Admi-
  • 56. nistração Nacional de Aeronáutica e Espaço, do Departamento deDefesa, da Comissão Consultiva de Ciências da presidência, doConselho Nacional de Segurança e da Agência de SegurançaNacional. Havia ainda alguns representantes do governo cujasinstituições permaneciam obscuras.Na noite anterior, alguns deles tinham se reunido junto ã basedo telescópio 101, sendo-lhes mostrada Vega pela primeira vez.Sua luz branco-azulada cintilava, linda como sempre."Eu já vi essa estrela antes, mas não sabia como se chamava",observou um deles. Vega parecia mais brilhante do que as outrasestrelas; afora isso, em nada se destacava. Era apenas uma das mi-lhares de estrelas visíveis a olho nu.79Os cientistas estavam realizando um contínuo seminário depesquisa sobre a natureza, a origem e o possível significado dospulsos de rádio. À Divisão de Relações Públicas do Argus-maiorque a da maioria dos observatórios, devido ao interesse genera-lizado pela busca de intelígência extraterrestre - foi atribuída atarefa de instruir os funcionários menos graduados. A chegada decada um deles impunha a necessidade de pormenorizadas expli-cações. Obrigada a sumariar os acontecimentos às autoridadessuperiores, supervisionar a pesquisa em curso e se submeter aocrivo de seus colegas, Ellie estava exausta. Desde a descobertanão conseguíra dormir uma noite inteira.A princípio, haviam tentado manter tudo aquilo em segredo.Afinal de contas, não tinham certeza absoluta de que se tratassede uma mensagem extraterrestre. Um anúncio prematuro ouequivocado seria um desastre em matéria de relações públicas.Pior do que isso - iria interferir na análise dos dados. Se a imprensase envolvesse, a ciência certamente seria prejudicada. Mas oscientistas haviam comentado com suas famílias, o telegrama daUnião Astronômica Internacional fora enviado a todos os qua-drantes do mundo, e sistemas astronômicos ainda rudimentaresda Europa, da América do Norte e do Japão estvam disseminan-do notícias acerca da descoberta.Embora existisse todo um sistema de planos preestabeleci-dos para a liberação de qualquer descoberta ao público, as cir-cunstâncias os haviam apanhado inteiramente desprevenidos.Redigiram a declaração mais neutra possível, e só a divulgaramquando não houve como evitá-lo. A notícia, naturalmente, causa-ra sensação.Tinham pedido paciência aos meios de comunicação, massabiam que teriam apenas um período mínimo de trégua antesque a imprensa caísse sobre eles com toda a força. Tentaram dis-suadir os repórteres de visitarem o local, explicando que nãohavia, na verdade, informação alguma nos sinais que estavamrecebendo, que eram apenas números primos tediosos e repeti-
  • 57. tivos. A imprensa estava impaciente com a ausência de notíciasclaras e objetivas, "Não podemos ficar a vida toda dando matériasfrias como `Que são números primos?", explicou um repórter aEllie pelo telefone.80Cinegrafistas da sv , em táxis aéreos e helicópteros ahgados,começaram a fazer vôos rasantes sobre o observatório, às vezesgerando fortes interferências de rádio, facilmente detectadaspelos telescópios. Alguns jornalistas seguiam as autoridades deWashington quando estas voltavam a seus motéis, de noite. Osmais audaciosos haviam tentado entrar no observatório sem sernotados-em buggiesde praia, de motocicleta e até a cavalo. Elliefora obrigada a averiguar quanto custava a instalação de cercas deproteção contra ciclones.Logo depois de chegar, Der Heer havia escutado as expli-cações que Ellie já praticamente padronizara: a surpreendenteintensidade do sinal, o fato de se situar quase no mesmo local daestrela Vega, a natureza dos pulsos."Posso ser consultor de ciências da presidente", dissera ele,"mas sou apenas um biólogo. Por isso, por favor, fale devagar.Entendo que, se a fonte se situa a 26 anos-luz, a mensagem foiemitida há 26 anos. Durante a década de 60, alguns sujeitosengraçados, de orelhas pontudas, acharam que gostaríamos desaber que eles adoram números primos. Mas os números primosnão são uma coisa difícil. Não é provável que eles estejam segabando. O mais plausível é que estejam querendo nos ensinararitmética. Talvez devamos nos sentir insultados.""Não, veja as coisas de outra maneira", respondeu Ellie, sor-rindo. "É como um farol. É um sinal, um anúncio. Destina-se aatrair nossa atenção. Recebemos emissões estranhas de quasares,pulsares e radiogaláxias, sabe Deus mais de quê. Mas os númerosprimos são coisas muito específicas, não têm nada de artificial. Porexemplo, nenhum número par é primo. É difícil imaginar um plas-ma radiante ou uma galáxia emitindo um conjunto regular desinais matemáticos como esses. Os números primos servem paraatrair nossa atenção.""Mas para quê?", perguntara Der Heer, genuinamente intri-gado."Não sei. Mas nesta atividade é preciso ter muita paciência.Talvez daqui a certo tempo os números primos cessem e sejamsubstituídos por outra coisa, muito significativa, a mensagem ver-dadeira. Só podemos nos manter na escuta."81Isso era o mais difícil de explicar à imprensa: que os sinaisnão possuíam, essencialmente, nenhum conteúdo, nenhum sig-nificado - eram apenas as primeiras centenas de números primosem ordem, uma volta ao início, e novamente a série das repre-
  • 58. sentações aritméticas binárias simples: 1, 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19,23, 29, 31... Nove não era número primo, explicava Ellie, pois eradivisível por 3 (além de por 9 e por 1, naturalmente). Dez não eraum número primo, pois podia ser dividido por 5 e por 2 (além depor 10 e 1). Onze era um número primo, pois só era divisível por1 e por si próprio. Mas por que transmitiriam números primos?Aquilo lhe lembrava um idiotsavant, uma daquelas pessoas que,embora apresentassem sérias deficiências no tocante ao desem-baraço social ou à capacidade verbal, eram capazes de realizarmentalmente prodigiosos feitos de aritmética - como dizer,depois de um instante de reflexão, em que dia da semana cairá odia 1° de junho do ano 11997. Não era para nada; faziam issoporque gostavam, porque eram capazes.Ellie sabia que apenas alguns dias haviam transcorrido desdea primeira captação dos sinais, mas se achava ao mesmo tempoeufórica e profundamente desapontada. Depois de tantos anos,tinham recebido finalmente um sinal - ao menos, uma espéciede sinal. Entretanto, seu conteúdo era banal, vazio, oco. Imaginarareceber a Encyclopaedia galactica.Só inventamos a radioastronomia há poucas décadas, lem-brava-se ela, e isso numa galáxia onde a estrela média tem bilhõesde anos. A possibilidade de recebermos um sinal de uma civiliza-ção com um grau de avanço exatamente igual ao nosso deve sermínima. Se fossem mais atrasados do que nós, mesmo que pouco,não disporiam de capacidade tecnológica para se comunicaremconosco. Por conseguinte, era provável que o sinal proviesse deuma civilização muito mais adiantada. Talvez fossem capazes decompor melódicas fugas especulares: o contraponto seria o temaescrito de trás para diante. Não, concluiu. Embora essa possibili-dade constituísse, sem dúvida, marca de genialidade, e decertoestivesse além da capacidade dela própria, era uma pequenaextrapolação do que os seres humanos eram capazes de fazer.Bach e Mozart haviam realizado ao menos ensaios respeitáveisnesse sentido.82Ellie decidiu tentar um salto maior, sondar a mente de umacriatura cuja inteligência fosse enormemente superior à dela, deDrumlin ou de Eda, o jovem físico nigeriano que acabara de ga-nhar o prêmio Nobel. Mas era inútil. Ela podia conjecturar sobrea possibilidade de se demonstrar o último teorema de Fermat oua Hipótese Goldbach em apenas algumas linhas de equações.Podia imaginar problemas que desafiam seriamente nossa capaci-dade, mas que para os extraterrestres fossem coisas de escolares.No entanto, não conseguiria penetrar-lhes a mente; não tinhameios de imaginar como seria o pensamento de uma criaturamuito mais inteligente do que um ser humano. Claro. Não haviamotivo para surpresa. Que ela esperava? Era como tentar visua-
  • 59. lizar uma nova cor primária ou um mundo onde se pudessemidentificar várias centenas de conhecidos só pelo cheiro... Podia-se falar sobre isso, mas não vivenciar a situação. Por definição, sópode ser extremamente difícil compreender o comportamento deum ser muito mais inteligente. Mas, ainda assim, por que somentenúmeros primos?Os radioastrônomos do Argus tinham feito progressos nosúltimos dias. Vega tinha um movimento conhecido - um com-ponente conhecido de sua velocidade de aproximação ou de afas-tamento da Terra, e um componente conhecido lateralmente, con-tra o fundo das estrelas mais distantes. Os telescópios do Argus,trabalhando em conjunto com radiobservatórios na Virgínia Oci-dental e na Austrália, haviam determinado que a fonte estava semovendo juntamente com Vega. O sinal não apenas provinha,segundo cuidadosas mensurações, do ponto celeste onde se si-tuava Vega, como também apresentava os movimentos peculiarese característicos da estrela. A menos que aquilo se tratasse de umembuste de proporções heróicas, a fonte dos números primosestava realmente no sistema de Vega. Não havia nenhum efeitoDoppler adicional, decorrente do movimento do transmissor,talvez ligado a um planeta, em torno de Vega. Os extraterrestrestinham compensado o movimento orbital. Talvez isso fosse umaespécie de cortesia interestelar."É a coisa mais sensacional que já ouvi. E não tem nada a ver83com o que a gente faz", disse um funcionário da Agência de Pro-jetos de Pesquisa Avançada do Ministério da Defesa, preparando-se para retornar a Washington.Logo depois da descoberta, Ellie designara alguns telescó-pios para examinarem Vega numa faixa de outras freqüências. Etambém eles haviam captado o mesmo sinal, a mesma sucessãomonótona de números primos, na raia de hidrogênio de 1420megahertz, na raia de hidroxila de 1667 megahertz e em muitasoutras freqüências. Em todo o espectro do rádio, Vega estavalançando ao espaço números primos, usando uma orquestraeletromagnética."Isso não faz sentido", disse Drumlin, levando a mão casual-mente à fivela do cinto. "Não podia ter passado despercebidoantes. Todo mundo olhou Vega. Durante anos. Arroway a inves-tigou, em Arecibo, há dez anos. E de repente, na terça-feira pas-sada, Vega começa a irradiar números primos? Por que agora? Queestá acontecendo agora de tão especial? Como é possível que te-nham começado a transmitir apenas alguns anos depois de Arguster iniciado a escuta?""Talvez o transmissor deles tenha estado no conserto durantealguns séculos", sugeriu Valerian, "e acabaram de colocá-lo emfuncionamento outra vez. Talvez o ciclo de trabalho deles consista
  • 60. em transmitir apenas em um a cada milhão de anos. Há tambémtodos aqueles planetas capazes de abrigar vida. Provavelmente,não somos o único garoto do bairro." Mas Drumlin, visivelmenteinsatisfeito, apenas balançou a cabeça.Ainda que, por natureza, nada tivesse de desconfiado, Vale-rian julgou perceber uma indireta na última pergunta de Drumlin.Poderia tudo aquilo ser uma tentativa desesperada, por parte doscientistas do Projeto Argus, de evitar uma interrupção do progra-ma? Não era possível. Valerian sacudiu a cabeça. No momento emque Der Heer passou por dois especialistas na questão da cET,notou que eles faziam silenciosos sinais de cabeça um para ooutro.Havia entre os cientistas e os burocratas uma espécie de cons-trangimento, um mal-estar, um choque de pressupostos funda-mentais. Um dos engenheiros eletrotécnicos dava àquilo o nomede desemparelhamento de impedância. Os cientistas eram dema-84siado especulativos e quantitativos, exageradamente descontraí-dos, dados a conversar com qualquer pessoa, para o gosto demuitos dos burocratas. Estes, para muitos dos cientistas, eramdespidos de imaginação, demasiado qualitativos e introvertidos.Ellie e Der Heer, principalmente este, esforçavam-se por construiruma ponte entre os dois grupos, mas a corrente sempre a destruía.Naquela noite havia pontas de cigarros e xícaras de café portoda parte. Cientistas vestidos descontraidamente, funcionáriosdo governo, usando ternos claros, e um ou outro oficial militar dealta patente enchiam a sala de controle, o salão de seminários, opequeno auditório, espalhando-se pelas portas, onde, iluminadaspor cigarros e pela luz das estrelas, algumas discussões pros-seguiam. Entretanto, as pessoas estavam exaustas. A tensão come-çava a mostrar seus efeitos."Dra. Arroway, apresento-lhe Michael Kitz, secretário-assis-tente da Defesa para o CI."! Ao apresentar Kitz e se colocar um passo atrás dele, Der Heerestaria tentando comunicar o quê...? Uma implausível mescla deemoçôes. Irritação, de braços dados com prudência? Ele pareciaestar pedindo calma. Por acaso a julgava uma pessoa de cabeçaquente? "CjI", cê-ao-cubo-i, significava "Comando, Controle,`aComunicações, e Informações", responsabilidades importantesnuma época em que os Estados Unidos e a União Soviética fa-ziam, corajsamente, grandes reduções paulatinas em seus arse-nais nucleares estratégicos. Eram atribuições que só podiam serentregues a um homem cauteloso.Kitz instalou-se em uma das duas cadeiras diante da mesa deEllie, chegou-se para a frente e leu a citação de Kafka. Não pare-ceu impressionado."Dra. Arroway, vamos logo ao assunto. Estamos preocupa-
  • 61. dos, não sabemos se a divulgação geral dessa informação atendeaos melhores interesses dos Estados Unidos. Não ficamos muitosatisfeitos com o fato de a senhora ter enviado aquele telegramapara o mundo inteiro.""O senhor quer dizer... à China? À Rússia? À Índia?" Apesarde seu esforço, a voz de Ellie revelava certa aspereza. "Os se-85nhores pretendiam manter os primeiros 261 números primosem segredo? Por acaso supõe, sr. Kitz, que os extraterrestresdesejem comunicar-se apenas com os americanos? Não achaque uma mensagem de outra civilização se dirige ao mundointeiro?""A senhora poderia nos ter consultado.""E arriscar-me a perder o sinal? Veja, segundo tudo que sa-bemos, alguma coisa de essencial poderia ter sido transmitidadepois que Vega caísse abaixo do horizonte aqui no Novo Méxi-co, mas enquanto ainda estivesse em pleno céu de Beijing. Essessinais não são exatamente uma chamada de pessoa a pessoa, des-tinada aos Estados Unidos da América. Não são nem mesmo umachamada de pessoa a pessoa destinada à Terra. É uma chamadade estação a estação, dirigida a qualquer planeta do sistema solar.Por acaso, tivemos a sorte de atender o telefone."Der Heer estava novamente tentando comunicar algumacoisa. Que estaria querendo dizer? Que apreciara essa analogia,mas que tivesse cuidado com Kitz?"Seja como for", continuou Ellie, "é tarde demais. Todo mun-do agora sabe que existe alguma espécie de vida inteligente nosistema de Vega.""Não creio que seja tarde demais, dra. Arroway. A senhoraparece pensar que alguma transmissão informativa ainda está porvir, uma mensagem. O dr. Der Heer me disse que a senhora acre-dita que esses números primos sejam um anúncio, alguma coisadestinada a fazer com que prestemos atenção. E se houver umamensagem, e se ela for sutil... alguma coisa que esses outros paí-ses não possam decifrar de imediato... desejo que ela seja manti-da em sigilo até podermos conversar a respeito.""Quase todos nós temos desejos, sr. Kitz", respondeu Elliemeio a contragosto, apesar do cenho franzido de Der Heer. Haviano comportamento de Kitz algo de irritante, quase provocador. E,provavelmente, também no dela. "Eu, por exemplo, tenho o dese-jo de compreender o significado desse sinal, o que está aconte-cendo em Vega e o que isso significa para a Terra. É possível quecientistas de outros países sejam a chave para se compreenderisso. Talvez precisemos dos dados de que eles dispõem. Talveztenhamos necessidade de seus talentos. Imagino que esse pro-87blema talvez seja grande demais para que um único país queira
  • 62. .resolvê-lo sozinho."Der Heer parecia agora quase alarmado. "Dra. Arroway, asugestão do secretário Kitz não deixa de ter algum fundamento. Ébem possível que venhamos a envolver outros países nisso. Tudoque ele pede é que converse conosco primeiro. E isso apenas sehouver uma nova mensagem."Seu tom de voz era apaziguador, mas não meloso. Ellie exa-minou-lhe novamente a fisionomia. Der Heer não era um homempátentemente bonito, mas tinha uma expressão amável e inteli-gente. Usava um terno azul e uma camisa muito elegante. Suaseriedade e seu ar de autoconfiança eram amenizados pelo calorde seu sorriso. Por que estaria pondo panos quentes na conversacom aquele chato? Parte de seu trabalho? Seria possível que Kitzestivesse sendo sensato?"De qualquer forma, é uma possibilidade remota." Kitz sus-pirou enquanto se levantava. "O secretário da Defesa apreciariasua colaboração." Estava procurando ser simpático. "Combinado?""Vou pensar", retrucou Ellie, apertando-lhe a mão sem ne-nhum vigor."Encontro-me com você daqui a alguns minutos, Mike", disseDer Heer jovialmente.Já com a mão na maçaneta da porta, Kitz se deteve, tirou umdocumento do bolso interno do paletó, voltou e o colocou deli-cadamente no canto da mesa. "Ah, ia me esquecendo. Aqui estáuma cópia da Decisão Hadden. A senhora provavelmente a co-nhece. Refere-se ao direito do governo de considerar sigilososmateriais vitais para a segurança dos Estados Unidos. Mesmo quenão tenham se originado em um órgão secreto.""Os senhores querem tornar sigilosos os números primos?",perguntou Ellie, simulando espanto."Vejo você lá fora, Ken."Ellie começou a falar no momento em que Kitz saiu de suasala. "Do que ele está com medo? Dos raios da Morte? De que aTerra seja invadida? Afinal, que significa tudo isso?""Ele está apenas sendo prudente, Ellie. Vejo que você achaque existe mais coisa por trás disso. Muito bem. Suponhamos que venha outra mensagem... você entende, uma mensagem com87algum conteúdo... e que haja nela alguma coisa que ofenda osmuçulmanos, digamos, ou os metodistas. Não deveríamos liberá-la com cuidado, para que os Estados Unidos não enfrentassemproblemas?""Ken, não me venha com histórias. Esse homem é secretário-assistente da Defesa. Se estivessem preocupados com os muçul-manos ou metodistas, teriam mandado um secretário-assistentede Estado ou... não sei... um daqueles fanáticos religiosos que
  • 63. fazem as orações nas refeições da presidente. Você é consultor deciências da presidente. Que foi que disse a ela?""Eu não lhe disse coisa alguma. Desde que cheguei aqui, sóconversei com ela uma vez, rapidamente, pelo telefone. E vou serfranco com você, ela não me deu nenhuma instrução a respeitode sigilo. Acho que Kitz está equivocado. Creio que está agindopor conta própria.""Quem é ele?""Ao que eu saiba, é advogado. Era um importante executivoda indústria de material eletrônico antes de trabalhar para o go-verno. Ele realmente conhece a C3I, mas isso não faz com que te-nha autoridade sobre mais nada.""Ken, eu confio em você. Acredito que não me tenha arma-do essa cilada, essa história de Decisão Hadden." Agitou o docu-mento diante dele, olhando-o nos olhos. "Sabe que Drumlin achaque há outra mensagem na polarização?""Não entendi.""Há algumas horas, Dave terminou um estudo estatísticoaproximado da polarização. Representou os parâmetros deStokes por esferas de Poincaré; muitas delas estão variando notempo."Der Heer olhou-a com ar perplexo. Por acaso os biólogos nãousam luz polarizada em seus microscópios?, pensou Ellie."Quando uma onda luminosa vem em sua direção... luz visí-vel, luz de rádio, qualquer espécie de luz... ela vibra em ângulosretos em relação à sua linha de mirada. Se essa vibração gira, dize-mos que a onda é elipticamente polarizada. Se gira no sentidohorário, a polarização é chamada dextrogira; se gira no sentidoanti-horário, é levogira. Sei que a terminologia não é das me-lhores. Seja como for, variando os dois tipos de polarização, seria88possível transmitir informações. Uma certa polarização para adireita, e isso seria zero; um pouco de polarização para a esquer-da, e teríamos um. Está entendendo? É perfeitamente possível.Dispomos de freqüência modulada e de amplitude modulada,mas nossa civilização, por convenção, normalmente não empre-ga a polarização modulada."Bem, ao que parece o sinal de Vega apresenta uma pola-rização modulada. Neste momento estamos trabalhando para ve-rificar isso. Entretanto, Dave constatou que não há um volumeigual dos dois tipos de polarização. Há menos polarização esquer-da do que direita. É bem possível que haja na polarização algumamensagem que ainda não tenhamos percebido. É por isso quedesconfio de seu amigo. Kitz não está simplesmente me dando umconselho gratuito. Ele sabe que podemos estar investigando algu-ma outra coisa.""Ellíe, vá com calma. Faz quatro dias que você quase não
  • 64. dorme. Você tem lidado com a ciência, o governo e a impren-sa. Já fez uma das mais importantes descobertas do século e, secompreendi bem o que disse, talvez esteja na iminência dealguma coisa ainda mais importante. Tem todo o direito deestar um tanto nervosa. E ameaçar militarizar o projeto foi umaatitude desastrada da parte de Kitz. Não me é nada difícil enten-der por que você desconfia dele. Mas o que ele diz faz algumsentido.""Conhece o homem?""Participei de algumas reuniôes junto com ele. Mas isso nãoquer dizer que o conheça. Ellie, se há uma possibilidade de rece-bermos uma mensagem de verdade, não seria boa idéia diminuirum pouco a quantidade de pessoas por aquí?""Claro. Ajude-me um pouco com os manda-chuvas de Wash-ington.""Está certo. E, se você deixar esse documento em cima de suamesa, alguém vai entrar aqui e tirar conclusões erradas. Por quenão o guarda em algum lugar?""Você vai me ajudar?""Se a situação ficar como está agora, ajudo. Não vamos podercontribuir com muita coisa se esse negócío for consíderado si-giloso."89Sorrindo, Ellie ajoelhou-se ao lado de seu pequeno cofre epremiu as teclas da combinação, 314159. Deu uma última olhadano documento, que tinha como título, em grandes letras pretas, osESTADOS UNIDOS VS. HADDEN CYBERNETICS, e O guardOu.Era um grupo de cerca de trinta pessoas - técnicos e cien-tistas ligados ao Projeto Argus, alguns altos funcionários do go-verno, entre os quais o vice-diretor da Agência de Informações doMinistério da Defesa, em trajes civis. Entre eles estavam Valerian,Drumlin, Kitz e Der Heer. Ellie era a única mulher. Haviam mon-tado um grande sistema de projeção de Tv, focalizado num telãode dois metros de lado, preso à parede. Simultaneamente, Elliefalava ao grupo e operava o programa de decriptografia, com osdedos no teclado."Durante vários anos nos preparamos para a decriptografiacomputadorizada de muitos tipos de possíveis mensagens. Aanálise do dr. Drumlin acabou de demonstrar que há informaçõesna polarização modulada. Toda aquela passagem frenética daesquerda para a direita significa alguma coisa. Não se trata de umruído aleatório. É como se uma pessoa estivesse atirando umamoeda para o alto. Evidentemente, ela esperaria o mesmo númerode caras e de coroas, mas, em vez disso, obtém duas vezes maiscaras do que coroas. Daí concluir-se que a moeda esteja fraudadaou, em nosso caso, que a polarização modulada não é fortuita. Elapossui conteúdo... Ah, vejam isso. O que o computador acabou
  • 65. de nos dizer é ainda mais interessante. A seqüência precisa decaras e coroas se repete. É uma seqüência longa, de modo que setrata de uma mensagem bastante complexa, e a civilização que atransmite deseja que a recebamos direito. Aqui, vêem? Essa é arepetição da mensagem. Estamos agora na primeira repetição.Cada fragmento de informação, cada ponto e cada traço... se dese-jarem considerá-los assim... é idêntico ao que estava no últimobloco de dados. Agora, analisamos o número total de fragmentos.Situa-se na casa das dezenas de bilhões. Muito bem, correto! É oproduto de três números primos."Embora tanto Drumlin como Valerian sorrissem, Ellie tinha aimpressão de que sentiam emoções muito diferentes.90"E daí? Que significam mais alguns números primos?", per-guntou um visitante de Washington."Significa... talvez... que estão nos enviando uma imagem.Entenda, essa mensagem compõe-se de grande número de frag-mentos de informações. Suponhamos que esse número seja o pro-duto de três números menores; é um número vezes um númerovezes um número. Portanto, a mensagem apresenta três dimen-sões. Meu palpite é que ou se trata de uma única mensagem tridi-mensional estática, como um holograma estacionário, ou é umaimagem bidimensional que muda com o tempo - um filme.Suponhamos que seja um filme. Se for um holograma, vamos levarmais tempo para poder exibi-lo. Temos um algoritmo decodifi-cador ideal para ele."No telão, os sinais produziam um desenho móvel e indistin-to, composto de brancos e pretos perfeitos."Willie, por favor, tente acionar o programa de interpolaçãode meios-tons. Alguma coisa que seja razoável. E procure girá-loaté mais ou menos noventa graus no sentido anti-horário.""Dra. Arroway, parece haver um canal auxiliar. Talvez seja oáudio que acompanha o filme.""Ligue-o."A única outra aplicação prática de números primos que Ellieconseguia recordar eram os métodos de criptografia, muito uti-lizados em contextos comerciais e de segurança nacional. Umaaplicação consistia em tornar uma mensagem inteligível ao públi-co geral; a outra, em impedir que uma mensagem fosse com-preendida por pessoas razoavelmente inteligentes.Ellie olhou os rostos diante dela. Kitz parecia inquieto. Talvezestivesse pensando em algum invasor do espaço ou, pior ainda,no projeto de uma arma demasiado secreta para que os astrô-nomos de Ellie tomassem conhecimento. Willie parecia muitoansioso, e a todo momento engolia em seco. Uma imagem é dife-rente de simples números. A possibilidade de uma mensagemvisual estava evidentemente despertando medos e fantasias nos
  • 66. corações de muitos dos presentes. Der Heer tinha no rosto umaexpressão de êxtase; no momento, parecia muito menos o fun-cionário público, o burocrata, o consultor presidencial, e muitomais o cientista.91À imagem, ainda ininteligível, se juntou um som grave edeslizante; de início subiu, e depois desceu pelo espectro deáudio, até se estabilizar mais ou menos uma oitava abaixo do dócentral. Aos poucos, o grupo identificou o som como sendo umamúsica, do tipo marcial, ainda em volume baixo. A imagem cor-reu, fixou-se e entrou em foco.Ellie viu-se fitando uma imagem granulada em preto e bran-co... de um enorme palanque, decorado com uma imensa águiaem art déco. Das garras de concreto da águia pendia..."Fraude! Isso não passa de fraude!" Ouviram-se gritos deespanto, incredulidade, risos, quase histeria."Está entendendo? Você foi ludibriada", dizia-lhe Drumlin,quase em tom de conversa. Sorria. "Foi uma peça muito bemarquitetada. Você fez com que todo mundo perdesse tempo aqui."As garras de concreto da águia, Ellie via agora com clareza,sustinham uma suástica. A câmara aproximou-se, em zoom, dorosto sorridente de Adolf Hitler, que acenava para a multidão. Seuuniforme, despido de condecorações militares, transmitia umaimpressão de modesta simplicidade. A voz abaritonada de umlocutor, falando em alemão, enchia a sala. Der Heer aproximou-se de Ellie."Entende alemão?", perguntou ela. "O que ele está dizendo?"O Führer", traduziu ele, lentamente, "está dando as boas-vindas da pátria alemã, por ocasião da abertura dos jogos olímpi-cos de 1936."92GPALIMPSESTOE, se os Guardiães não estão felizes, quem maispoderá estar.Aristóteles, Política, livro 2, capítulo 5Quando o avião atingiu a altitude de cruzeiro, com Albu-querque já quase duzentos quilômetros atrás deles, Ellie olhou derelance o pequeno retângulo de cartão branco, impresso em azul,que havia sido grampeado ao envelope com seu bilhete. Dizia otexto, numa linguagem que jamais fora alterada desde que ela fi-zera sua primeira viagem de avião: "Esta não é a nota de bagagemdescrita pelo artigo 4 da Convenção de Varsóvia". Por que razãoas empresas aéreas temiam tanto que os passageiros confundis-sem aquele cartãozinho com a nota da Convençáo de Varsóvia?Aliás, que era uma nota da Convenção de Varsóvia? Por que elajamais vira essa nota? Onde as armazenavam? Em algum esqueci-
  • 67. do acontecimento crítico na história da aviação, uma empresadesatenta devia ter se esquecido de imprimir aquela advertênciaem retângulos de cartolina, tendo sido levada à bancarrota pelosprocessos abertos por passageiros enfurecidos que tinham comocerto que aquilo fosse a nota de bagagem da Convenção deVarsóvia. Sem dúvida existiam sérias razões financeiras para essapreocupação mundial, jamais articulada de outra maneira, quan-to aos cartões que não são os descritos pela Convenção de Var-sóvia. Imagine-se, pensou Ellie, que todas aquelas linhas impres-sas fossem dedicadas a alguma coisa útil - a história da93exploração do planeta, digamos, ou a divulgação de fatos cientí-ficos, ou até mesmo o número médio de quilômetros por passa-geiro até um avião cair.Se tivesse aceitado a proposta de Der Heer e viajado numaaeronave militar, estaria fazendo outras associações casuais. Masaceitar a oferta representaria excessiva familiaridade, talvez umaabertura que acabaria levando a uma militarização do projeto.Preferiram viajar num vôo comercial. Os olhos de Valerian sefecharam no momento em que ele acabou de se instalar no assen-to ao lado dela. Não tiveram que se apressar muito, mesmo depoisde cuidar daqueles detalhes de última hora sobre a análise dosdados, que insinuavam que a segunda camada da cebola estavapara aparecer. Tinham conseguido lugares num vôo comercialque chegaria a Washington bem antes da reunião do dia seguinte;na verdade, havia tempo de sobra para uma boa noite de sono.Ellie dirigiu o olhar ao sistema de telefax, acomodado numamaleta de couro debaixo do assento à sua frente. Era muitas cen-tenas de quilobits mais veloz do que o velho modelo de Peter emostrava gráficos com muito mais clareza. Bem, no dia seguinteela teria de usar aquele equipamento para explicar à presidentedos Estados Unidos o que Adolf Hitler fazia em Vega. Estava umpouco nervosa, admitia. Nunca se encontrara antes com uma pes-soa de tal eminência e, pelos padrões de fins do século xx, a pre-sidente não era tão ruim. Ellie não tivera tempo de ir ao cabe-leireiro, muito menos de fazer uma limpeza de pele. Ora essa, nàoestava indo à Casa Branca para um concurso de beleza.Que pensaria seu padrasto? Ainda julgaria que ela não tinhavocação para a ciência? E sua mãe, agora confinada a uma cadeirade rodas numa instituição para idosos? Desde a descoberta, umasemana antes, só conseguira dar um breve telefonema à mãe, eprometeu a si mesma ligar no dia seguinte.Como já fizera cem vezes antes, olhou pela janelinha do aviãoe ficou a imaginar que impressão a Terra causaria a um observadorextraterrestre, daquela altitude de doze ou catorze quilômetros, eisso supondo que o extraterrestre tivesse olhos parecidos com osnossos. Havia no Meio-Oeste vastas áreas que exibiam complica-
  • 68. dos desenhos geométricos, como quadrados, retângulos e círcu-los; e ali no Sudoeste várias áreas em que o único sinal de vida94inteligente era uma ocasional linha reta que corria entre monta-nhas e através de desertos. Seriam os planetas das civilizaçõesmais adiantadas totalmente geometrizados, inteiramente recons-truídos por seus habitantes? Ou a marca de uma civilização real-mente avançada seria o fato de ela não deixar marca alguma? Se-riam eles capazes de dizer, exatamente, após um exame rápido,em que estágio estávamos de alguma grandiosa seqüência evolu-tiva cósmica do desenvolvimento de seres inteligentes?Que mais poderiam dizer? Pela tonalidade azul do céu, se-riam capazes de fazer uma estimativa aproximada do Número deLoschmidt, de quantas moléculas havia num centímetro cúbico dear ao nível do mar. Mais ou menos três vezes dez elevado à déci-ma nona potência. Poderiam facilmente determinar a altitude dasnuvens pelo comprimento de suas sombras no solo. Se soubes-sem que as nuvens se compunham de água condensada, pode-riam calcular aproximadamente a taxa de queda da temperaturada atmosfera, pois a temperatura teria de cair a cerca de quarentagraus centígrados negativos à altitude das nuvens mais altas queela podia avistar. A erosào dos acidentes geográficos, os desenhosdendríticos e os meandros fluviais, a presença de lagos e de des-gastadas "rolhas" vulcânicas, tudo isso dava o testemunho de umaantiga batalha entre os processos geomorfológicos e os erosivos.Na verdade, podia-se ver, num relance, que aquele era um plane-ta antigo, com uma civilização bastante recente.Na maioria, os planetas da galáxia deveriam ser vulneráveise pré-técnicos, talvez até destituídos de vida. Alguns abrigariamcivilizações muito mais velhas que a nossa. Os mundos em quecivilizações técnicas estivessem começando a surgir deviam serextremamente raros. Talvez fosse essa a única característica fun-damentalmente sui generis da Terra.Enquanto almoçavam, a paisagem aos poucos se tornouverdejante, ao se aproximarem do vale do Mississippi. As moder-nas viagens aéreas haviam praticamente eliminado a sensação demovimento, pensou Ellie. Olhou para Peter, que ainda dormia; eletinha se recusado, com alguma indignação, a comer o almoço debordo. Na primeira cadeira ao lado dele, do outro lado do corre-dor, um ser humano muito jovem, com talvez três meses de idade,estava confortavelmente aninhado nos braços do pai. Qual seria95a impressão de um lactente sobre viajar de avião? A pessoa chega a um lugar especial, entra numa grande sala com cadeiras e se sen-ta. A sala ronca e se sacode durante quatro horas. Depois, a pes-soa se levanta e sai. Magicamente, está em outro lugar. O meio detransporte parece obscuro, mas a idéia básica é de fácil apreen-
  • 69. são, nem exige um domínio precoce das equaçôes de Navier-Stokes.Era fim de tarde quando começaram a sobrevoar Washing-ton, à espera de permissão para aterrissar. Ellie conseguia divisar,entre o monumento de Washington e o Lincoln Memorial, umagrande massa humana. Tratava-se, segundo lera havia apenasuma hora no telefax do Times, de um grande comício de negrosamericanos que protestavam contra as disparidades econômicase as desigualdades na área da educação. A julgar pela justeza desuas queixas, pensou Ellie, tinham demonstrado enorme paciên-cia. Imaginou qual seria a reação da presidente ao comício e àtransmissão de Vega, dois assuntos sobre os quais seria necessáriofazer algum comentário público oficial no dia seguinte."O que você quer dizer, Ken, com `eles saem?""Quero dizer, sra. presidente, que nossos sinais de televisãodeixam este planeta e viajam pelo espaço.""Exatamente até onde vão?""Com todo o devido respeito, sra. presidente, as coisas nãose passam exatamente assim."`Bem, como é que se passam? ""Os sinais afastam-se da Terra em ondas esféricas, mais oumenos como ondulaçôes numa lagoa. Viajam à velocidade daluz... 300 mil quilômetros por segundo... e, no essencial, viajameternamente. Quanto melhores forem os receptores das outrascivilizações, mais distantes podem estar e ainda assim captar nos-sos sinais de tv. Mesmo nós poderíamos detectar uma forte trans-missão de tv originária de um planeta em órbita ao redor da estrelamais próxima."Por um instante, a presidente manteve-se ereta, olhandopelas janelas para o roseiral. Voltou-se para Der Heer. "Você querdizer... tudo?"97"Tudo.""Quer dizer, toda aquela porcaria da televisão? Os acidentesde carro? As lutas livres? Os canais de pornografia? Os noticiários?""Tudo, sra. presidente." Der Heer balançou a cabeça, unin-do-se à consternação que ela demonstrava."Der Heer, estarei entendendo direito? Quer dizer que todasas minhas entrevistas coletivas, meus debates, meu discurso de Ìposse, tudo isso está lá?""Essa é a boa notícia, presidente. A má notícia é que o mes-mo acontece com as aparições na televisão de seu predecessor. Ede Dick Nixon. E da liderança soviética. E também uma porção decoisas feias que o outro candidato disse a seu respeito.""Deus do céu! Muito bem, vamos adiante."A presidente havia se afastado das janelas e agora estava,aparentemente, preocupada em examinar um busto de mármore
  • 70. do Tom Paine, recém-trazido do depósito da Smithsonian Institu-tion, para onde fora mandado pelo ocupante anterior do cargo. ;"Vejamos as coisas assim", disse Der Heer. "Aqueles poucosminutos de televisão provenientes de Vega foram transmitidos ori-ginalmente em 1936, quando da instalação dos Jogos Olímpicosem Berlim. Embora só tenham sido mostrados na Alemanha, foi aprimeira transmissão de tv, na Terra, de potência moderada. Aocontrário da radiodifusão comum dos anos 30, aqueles sinais detv atravessaram a ionosfera e saíram para o espaço. Estamos ten-tando determinar exatamente o que foi transmitido naquelaépoca, mas isso levará algum tempo, provavelmente. Talvezaquelas boas-vindas de Hitler sejam o único fragmento da trans-missão que conseguiram captar em Vega. Assim, do ponto de vistadeles, Hitler é o primeiro sinal de vida inteligente na face da Ter-ra", continuou ele. "Não estou querendo ser irônico. Eles nãosabem o que significa a transmissão, de maneira que a gravam e aretransmitem para nós. É uma forma de dizer `Alô, escutamosvocês. Parece-me um gesto bastante amistoso.""Então, Der Heer, quer dizer que não houve transmissões detelevisào a não ser depois da Segunda Guerra Mundial?""Praticamente não. Houve uma transmissão local na Inglater-ra por ocasião da coroação de Jorge vI, algumas coisas assim. Astransmissões regulares começaram em fins dos anos 40. Todos es-97ses programas estão deixando a Terra à velocidade da luz. Imagineque a Terra esteja aqui." Der Heer fez um gesto no ar. "E que hajauma pequena onda esférica se afastando dela à velocidade da luz,começando em 1936. Ela não pára de se expandir e se afastar daTerra. Mais cedo ou mais tarde, chega à civilização mais próxima.Eles parecem estar surpreendentemente perto, a somente 26 anos-luz de distância, em algum planeta da estrela Vega. Eles a gravame a retransmitem para nós. Mas é preciso mais 26 anos para que aOlimpíada de Berlim volte à Terra. Isso significa que os veganosnão perderam décadas pensando no assunto. Deviam estar muitobem preparados, apenas à espera de nossos primeiros sinais detelevisão. Eles os detectam, gravam-nos e depois de algum temporetransmitem o que receberam. Mas a menos que já tivessem esta-do aqui... em alguma missão de reconhecimento, há uns cemanos... não poderiam saber que estávamos a pique de inventar atelevisão. Por isso, a dra. Arroway acredita que essa civilizaçãoesteja monitorando todos os sistemas planetários próximos, paraverificar se algum de seus vizinhos desenvolve alta tecnologia.""Ken, há muitas coisas aqui para serem consideradas. Temcerteza de que esses... como foi que você os chamou, veganos?...tem certeza de que eles não compreendem o que significavaaquele programa de televisão?""Sra. presidente, não resta dúvida de que são inteligentes.
  • 71. Aquele sinal de 1936 era muito fraco. Os detectores deles devemser de uma sensibilidade fantástica para o terem captado. Noentanto, não vejo como poderiam entender do que se tratava. Éprovável que o aspecto físico deles seja bastante diferente do nos-so. Eles têm de ter uma história diferente, costumes diferentes.Não há como poderem saber o que seja uma suástica ou quem foiAdolf Hitler.""Adolf Hitler! Ken, isso me deixa furiosa. Quarenta milhõesde pessoas morrem para derrotar aquele megalomaníaco, e ele setransforma no astro da primeira transmissão a uma outra civiliza-ção? Ele nos está representando. E a eles. É a concretização do so-nho mais delirante daquele louco."A presidente fez uma pausa e depois prosseguiu, mais calma."Sabe, sempre achei que Hitler nunca conseguia fazer direitoaquela saudação hitlerista. Ele nunca esticava o braço-direito, o98braço ficava sempre meio torto. Assim, uma coisa meio gay. Sealguma outra pessoa fizesse aqueles `Heil Hitler de maneira tãoincompetente, teria sido mandada para a frente russa.""Mas não há uma diferença? Ele estava apenas retribuindo assaudações de outras pessoas. Ele não estava saudando Hitler.""Ah, estava sim", retrucou a presidente, e, com um gesto,indicou a Der Heer a porta da Sala Rosada e entraram num corre-dor. De repente, ela se deteve e encarou seu consultor de ciências."E se os nazistas não tivessem televisão em 1936? Que teriaacontecido?""Bem, imagino que teríamos a coroação de Jorge vI ou umadas transmissões sobre a Feira Mundial de Nova York de 1939, sealguma delas fosse forte o suficiente para ser recebida em Vega.Ou alguns programas de fins dos anos 40, começo dos 50. A se-nhora sabe... Howdy Doody, Milton Berle, as reportagens sobre ocaso McCarthy - todos aqueles maravilhosos sinais de vidainteligente na Terra.""Aqueles malditos programas são nossos embaixadores noespaço... a Mensagem da Terra." A presidente fez uma ligeirapausa para saborear a frase. "Quando se nomeia um embaixador,procura-se escolher o melhor que existe, e durante quarenta anostemos mandado para o espaço quase que só porcarias. Gostariade ver os executivos das grandes redes resolverem esse abacaxi.E aquele louco do Hitler foi a primeira notícia que receberam daTerra... Que vão pensar de nós?"Quando Der Heer e a presidente entraram na sala do gabi-nete, as pessoas que estavam de pé, em pequenos grupos,calaram-se, e algumas das que estavam sentadas fizeram mençãode se levantar. Com um gesto geral, a presidente manifestou suapreferência pela informalidade e cumprimentou o secretário deEstado e um secretário-assistente da Defesa. Com um movimento
  • 72. lento de cabeça, olhou o grupo. Alguns retribuíram-Ihe o olhar.Outros, percebendo uma expressão de leve irritação no rosto dapresidente, evitaram-lhe os olhos."Ken, aquela sua astrônoma não está aqui? Arrowsmith?Arrowroot?"99"Arroway, sra. presidente. Ela e o dr. Valerian chegaram nanoite passada. Talvez tenham enfrentado problemas de trânsito.""A dra. Arroway telefonou do hotel, sra. presidente", disseum jovem muito bem vestido. "Disse que alguns dados novosestavam chegando por seu telefax, e que ela desejava trazê-lospara esta reunião. Devemos começar,sem a presença dela."Michael Kitz inclinou-se para a frente, com um quê deincredulidade na voz e na expressão. "Estão transmitindo dadosnovos por uma linha telefônica aberta, desprotegida, para umapartamento de hotel em Washington?"Der Heer respondeu tão baixo que Kitz teve de se inclinarainda mais a fim de ouvir. "Mike, creio que o telefax dela tem aomenos um sistema de criptografia comercial. Mas lembre-se deque essa questão não está sujeita a diretrizes de segurança. Tenhocerteza de que a dra. Arroway há de cooperar se essas diretrizesforem estabelecidas.""Muito bem, vamos começar", disse a presidente. "Esta é umareunião informal do Conselho de Segurança Nacional e daquiloque, por enquanto, estamos chamando de Grupo-Tarefa Especialde Emergência. Desejo encarecer a todos os senhores que nada doque for dito nesta sala... repito, absolutamente nada... deve ser dis-cutido com qualquer pessoa que não se encontre aqui, comexceção do secretário de Defesa e do vice-presidente, que seacham no exterior. O dr. Der Heer fez ontem, à maioria dos se-nhores, uma preleção sobre esse inacreditável programa detv queestamos recebendo da estrela Uega. A opinião do dr. Der Heer e deoutras pessoas..." Nesse ponto, a presidente olhou em torno damesa. "...é que apenas por acaso o primeiro programa de televisãoa chegar a Vega teve como astro principal Adolf Hitler. No entantoisso constitui motivo de... embaraço. Pedi ao diretor da cra quepreparasse uma avaliaçáo das implicações do assunto paraquestões de segurança nacional. Existe alguma ameaça direta porparte de quem quer que seja que esteja enviando isso? Enfrentare-mos problemas se houver uma nova mensagem e se algum outropaís a decifrar antes de nós? Mas, primeiro, Marvin, quero pergun-tar uma coisa: isso tem alguma coisa a ver com discos voadores?"O diretor da crA, homem de aspecto enérgico, que já passavada meia-idade e usava óculos com aro de aço, fez o seu sumário.100Os objetos voadores não identificados, chamados comumente de ovIs, tinham constituído preocupação intermitente para a cIA e a
  • 73. Força Aérea, principalmente nos anos 50 e 60, em parte porqueuma potência hostil poderia se aproveitar dos boatos acerca delespara espalhar confusáo ou sobrecarregar os canais de comuni-cação. Alguns dos incidentes mais fidedignos tinham sido, de acor-do com investigações, causados por invasões do espaço aéreoamericano ou por sobrevôos de bases norte-americanas no exte-rior por aeronaves de alto desempenho, da União Soviética ou deCuba. Tais sobrevôos são uma forma comum de testar o estado dealerta de um adversário em potencial, e os Estados Unidos haviamrealizado grande número de invasões, ou simulaçôes de invasão,do espaço aéreo soviético. O fato de um MiG cubano percorrer 370quilômetros na bacia do Mississippi antes de ser detectado era con-siderado má publicidade por parte do Noxm. O procedimentorotineiro da Força Aérea consistia em negar que qualquer de seusaviões tivesse estado na área onde se dissera ter sido avistado umovNt, e nada declarar a respeito de aeronaves estrangeiras queinvadissem o espaço aéreo americano. Ouvindo essas explicações,o chefe do estado-maior da Força Aérea pareceu constrangido,mas ficou calado.A grande maioria dos relatos a respeito de ovNts, continuou odiretor da cra, referia-se a objetos naturais confundidos com outracoisa pelos observadores. Aeronaves incomuns ou experimentais,faróis de automóveis cuja luz se refletia em nuvens baixas, balões,pássaros, insetos luminescentes e até planetas e estrelas, avistadosem condições atmosféricas inusitadas, tudo isso já havia sidodescrito como ovNts. Uma quantidade significativa de relatos nãopassava de fraudes ou delírios de ordem psiquiátrica. Mais de ummilhão de aparições de ovNIs tinham sido relatadas em todo o mun-do desde a criação do termo "disco voador", em fins dos anos 40, enenhuma delas parecia, segundo as melhores opiniões, estar rela-cionada com uma visita de extraterrestres. No entanto, a idéia gera-va poderosas emoções, e havia grupos e publicações, e até algunscientistas, que mantinham viva a suposta ligação entre os ovNis e avida em outros mundos. Doutrinas religiosas recentes contribuíamcom sua cota de redentores extraterrestres transportados em discos.A investigação oficial da Força Aérea, denominada, em uma de suas101últimas encarnações, Projeto Livro Azul, fora cancelada na décadade 60 por falta de progresso, muito embora tanto a cIa como a ForçaAérea houvessem mantido um grupo residual encarregado de estu-dar a questão. A comunidade científica estava de tal modo conven-cida de que tudo aquilo era balela que, quando o presidente JimmyCarter solicitara à Na,sA que realizasse um amplo estudo sobre osovNTs, o órgão rejeitou a solicitação presidencial, numa reação semprecedentes."Na verdade", aparteou um dos cientistas presentes, nãoafeito ao protocolo de reuniões desse tipo, "essa história de ovNIs
  • 74. só serviu para dificultar o trabalho sério da YIET.""Muito bem." A presidente suspirou. "Por acaso algum dospresentes acredita que os ovNIs e esse sinal de Vega tenham algu-ma coisa a ver entre si?" Der Heer examinou as unhas. Ninguémrespondeu."Seja como for, muitos adeptos de ovNis vão logo dizer: `Bemque avisamos. Marvin, por que não continua?""Em 1936, sra. presidente, um fraquíssimo sinal de televisãotransmite as cerimônias de abertura dos jogos olímpicos para umpunhado de televisores na área de Berlim. Trata-se de um golpede relações públicas. A transmissão mostra o progresso e a supe-rioridade da tecnologia alemã. Já houvera antes algumas trans-missões de tv, mas todas em níveis de potência baixíssimos. Naverdade, nós o fizemos antes dos alemães. Herbert Hoover, quena ocasião era secretário do Comércio, fez uma alocução pela tele-visão em... 27 de abril de 1927. De qualquer forma, o sinal alemãodeixa a Terra à velocidade da luz, e 26 anos depois chega a Vega.Eles guardam esse sinal durante alguns anos... sejam quem foremesses `eles... e depois nos devolvem a transmissão imensamenteamplificada. A capacidade de receberem esse sinal é importante,e a capacidade de o devolverem com tal nível de potência é ain-da mais importante. Evidentemente, existem aqui implicações desegurança. A comunidade de informações eletrônicas, por exem-plo, gostaria de saber de que modo sinais tãofracos podem serdetectados. Aquelas pessoas de Vega, sejam quem forem, decertosão mais adiantadas do que nós... talvez apenas algumas décadas,talvez muito mais do que isso."Não nos deram nenhuma outra informação a respeito de-102les... exceto que, em certas freqüências, o sinal transmitido nãomostra o efeito Doppler decorrente do movimento do seu plane-ta em torno da estrela. Simplificaram para nós essa medida deredução de dados. Eles são... prestativos. Até agora, nada de inte-resse militar ou de outra natureza foi recebido. Tudo quantocomunicaram é que entendem de radioastronomia, gostam denúmeros primos e são capazes de nos devolver nossas primeirastransmissões de tv. Não faria mal que qualquer outra nação to-masse conhecimento disso. E cumpre lembrar que todos essespaíses estão recebendo o mesmo clipe de Hitler, com três minu-tos, e isso repetidamente. Só que ainda não descobriram comointerpretá-lo. Os russos, os alemães ou quaisquer outros provavel-mente chegarão a essa polarização modulada, mais cedo ou maistarde. Minha impressão pessoal, sra. presidente - não sei se oDepartamento de Estado concorda -, é que agiríamos com acer-to se liberássemos o que sabemos ao mundo, antes de sermos acu-sados de encobrir alguma coisa. Se a situação permanecer estável-se não houver grande mudança em relação ao estado de coisas
  • 75. do momento -, poderíamos pensar em fazer uma declaraçãopública ou mesmo em liberar esse filmete de três minutos."A propósito, não nos foi possível encontrar nos arquivosalemães nenhum registro do que havia naquela transmissão ori-ginal. Não podemos ter absoluta certeza de que as pessoas deega não tenham feito alguma mudança no conteúdo antes de odevolver a nós. Certo, podemos reconhecer Hitler; e a parte doestádio olímpico que vemos corresponde com precisão à Berlimde 193. Mas se naquele momento Hitler estava coçando o bigodeem vez de estar sorrindò, como aparece na transmissão, isso nãotemos meios de saber."Ellie chegou, ligeiramente sem fôlego, seguida por Valerian.Tentaram se sentar junto à parede, sem chamar a atenção, mas DerHeer os notou e atraiu a atenção da presidente para eles."Dra. Arrow... way? Nossas boas-vindas. Primeiro, quero dar-lhe os parabéns por sua esplêndida descoberta. Esplêndida. Ah,Marvin."Não tenho mais nada a dizer, sra. presidente.""Ótimo. Dra. Arroway, soubemos que a senhora dispõe dedados novos. Importa-se de nos dizer do que se trata?"103"Sra. presidente, desculpe-me por chegar atrasada, mas acre-dito que acabamos de tirar a sorte grande. Nós... é que... Permita-me explicar da seguinte maneira: há milhares de anos, quando opergaminho era escasso, as pessoas escreviam sobre um perga-minho já usado, produzindo o que se chama de palimpsesto.Havia uma escrita debaixo de uma escrita, e esta também debaixode outra. Esse sinal de Vega é, naturalmente, fortíssimo. Como asenhora já sabe, há os números primos e, `debaixo deles, no quese chama polarização modulada, esse estranho negócio de Hitler.No entanto, debaixo da seqüência de números primos e debaixoda transmissão devolvida das Olimpíadas, acabamos de detectaruma mensagem incrivelmente rica... ao menos estamos convictosde que se trata de uma mensagem. Até onde posso dizer, elaesteve ali o tempo todo. Tudo o que fizemos agora foi detectá-la.É mais fraca do que o sinal de chamada, e me sinto embaraçadapor não a termos descoberto mais cedo.""Que diz ela?", perguntou a presidente. "Do que trata?""Não temos a menor idéia, sra. presidente. Alguns membrosdo Projeto Argus a descobriram esta manhâ, hora de Washington.Trabalhamos nisso a noite inteira.""Ior um telefone aberto?", perguntou Kitz."Com criptografia comercial ordinária." Ellie pareceu umpouco contrafeita. Abrindo a maleta do telefax, gerou rapida-mente uma impressão em diapositivo e, usando um epidiascópio,projetou a imagem numa tela. "Eis o que sabemos até agora.Recebe-se um bloco de informações, constituído por cerca de mil
  • 76. bits. Há uma pausa e então o mesmo bloco é repetido, bit por bit.Segue-se nova pausa e se passa para o bloco seguinte. E esseblo-co também é repetido. É provável que a repetição de cada blocovise diminuir os erros de transmissão. Decerto, julgam da maiorimportância que recebamos o que estão dizendo com toda aexatidão. Vamos chamar cada um desses blocos de informação deuma página. O Argus está recebendo algumas dezenas dessaspáginas por dia. Mas não sabemos do que se trata. Não são umsimples código imagístico, como a mensagem das Olimpíadas.Trata-se de coisa muito mais profunda e mais rica. Pela primeiravez, parece ser uma informação gerada poreles. A única pista quetemos até agora é que as páginas parecem ser numeradas. No104começo de cada página há um número, em aritmética binária. Porexemplo, este aqui. E a cada vez que surge outro par de páginas !idênticas, ele vem marcado com o número seguinte. No momen-to, estamos na página... 10413. É um livro grande. Em retrospec-to, parece que a mensagem começou há mais ou menos trêsmeses. Foi uma sorte que a tenhamos captado ainda cedo.""Eu estava certo, não?" Kitz debruçou-se sobre a mesa, nadireção de Der Heer. "Não se trata do tipo de mensagem que de-sejaremos dar aos japoneses, aos chineses ou aos russos, não é?""Será fácil decifrar essa mensagem?", perguntou a presidente,encobrindo o murmúrio de Kitz."É claro que faremos tudo que pudermos. E provavelmenterá útil contarmos também com a ajuda da Agência de Segurançanacional. Mas sem uma explicação de Vega, sem uma chave, meupalpite é que não faremos muito progresso. Evidentemente, issonão parece estar escrito em inglês, alemão ou qualquer outra lín-gua da Terra. Nossa esperança é que a Mensagem chegue ao fim,talvez na página 20000 ou 30000, e que depois recomece, demodo que possamos completar as partes que faltam. É possívelque, antes de a Mensagem inteira ser repetida, surja uma chave,uma espécie de cartilha, que nos possibilite compreendê-la.""Se me permite, sra. presidente...""Sra. presidente, este é o dr. Peter Valerian, do Instituto defecnologia da Califórnia, um dos pioneiros nesse campo.""Por favor, dr. Valerian.""Essa é uma mensagem intencional, dirigida a nós. Elessabem que estamos aqui. Fazem alguma idéia, devido à recepçãode nossa transmissão em 1936, do ponto em que se encontra nos-sa tecnologia, do nosso grau de inteligência. Não se dariam a todoesse trabalho se não desejassem que compreendêssemos a Men-sagem. Em algum lugar nessa transmissão está a chave que nosajudará a compreendê-la. É apenas uma questão de acumulartodos os dados e analisá-los cuidadosamente.""Bem, na sua opinião, qual é o assunto da Mensagem?"
  • 77. "Não tenho como dizer, sra. presidente. Tudo que posso fa-zer é repetir o que disse a dra. Arroway. É uma Mensagem emara-nhada e complexa. A civilização que a transmite está ansiosa paraque a recebamos. É possível que tudo isso não passe de um105pequeno volume da Encyclopaedia galactica. A estrela Vega temmassa cerca de três vezes maior que a do Sol, e é aproximada-mente cinqüenta vezes mais brilhante. Por queimar seu com-bustível nuclear assim tão depressa, terá uma vida muito maisbreve que a do Sol..."Isso. Quem sabe, alguma coisa de errado esteja para sucedera Vega", interrompeu o diretor da cIA. "Talvez o planeta em queeles vivem esteja ameaçado de destruiçáo. Talvez queiram queoutros conheçam sua civilização antes que eles sejam arrasados.""Ou então", sugeriu Kitz, "podem estar em busca de um novolugar para onde se transferirem, e a Terra lhes convém. Talvez nãoseja por acidente que nos enviaram uma fotografia de Hitler.""Um momento", disse Ellie. "As possibilidades são muitas,mas nem tudo é possível. A civilização transmissora não tem comosaber se recebemos a Mensagem, muito menos se estamos con-seguindo decodificá-la. Se considerarmos a Mensagem ofensiva,não temos de respondê-la. E, mesmo que a respondêssemos, 26anos se passariam antes que recebessem a resposta, e outros 26para que pudessem fazer nova transmissão. A velocidade da luz éalta, mas não infinitamente alta. Estamos muito bem protegidos deVega. E, se nessa nova Mensagem houver alguma coisa que nospreocupe, temos décadas para decidir o que fazer. Não há por queentrarmos em pânico já." Ellie formulou a última frase dirigindo aKitz um sorriso simpático."Entendo seu ponto de vista, dra. Arroway", replicou a pre-sidente. "Mas as coisas estão acontecendo depressa. Depressa atédemais. E são muitos os pontos duvidosos. Não fiz nenhumadeclaração pública a respeito disso tudo. Nem mesmo sobre osnúmeros primos, quanto mais sobre a droga do Hitler. Agoratemos de pensar sobre esse `livro, que, segundo a senhora, estãoenviando. E, como os senhores, cientistas, falam uns com osoutros sem papas na língua, a boataria corre à solta. Phyllis, ondeestá aquela pasta? Aqui, vejam essas manchetes."Exibidos sucessivamente, todos os recortes traziam a mesmamensagem, com pequenas variações de estilo jornalístico. "Cien-tistas afirmam: monstros do espaço enviam programa de rádio","Telegrama de astrônomos fala sobre inteligência extraterrestre","Vozes do céu?", "Os invasores estão chegando! Os invasores106estão chegando!". A presidente deixou os recortes caírem namesa."Pelo menos a história de Hitler ainda não se tornou de co-
  • 78. nhecimento público. Já imagino uma manchete: `FUA dizem queHitler está vivo e mora no espaço. E piores. Muito piores. Acho me-lhor encerrarmos esta reunião e voltarmos a nos reunir mais tarde.""Com licença, sra. presidente", interrompeu Der Heer, comevidente relutância. "Desculpe-me, mas há algumas impli-cações internacionais que, no meu entender, devem ser exami-nadas agora."A presidente aquiesceu, embora revelasse cansaço.Der Heer continuou. "Corrija-me se necessário, dra. Arroway.A cada dia Vega nasce no deserto do Novo México, e então a se-nhora recebe uma página dessa complexa transmissão... seja qualfor... que por acaso estejam transmitindo no momento. Depois,passadas oito horas ou qualquer coisa assim, a estrela se põe.Estou certo? Muito bem. No dia seguinte a estrela nasce nova-mente a leste, mas a senhora perdeu algumas páginas durante otempo em que não pôde acompanhá-la, depois que ela se pôs nanoite anterior. Certo? Nesse caso, é como se a senhora estivesserecebendo da página 30 à 50, depois da página 80 à 100, e assimpor diante. Por maior que seja a paciência que dedicarmos àobservação, hão de nos faltar enormes quantidades de infor-mação. Lacunas. Mesmo que a mensagem mais tarde venha a serrepetida, vamos ter lacunas.""Não tenho o que corrigir." Ellie ergueu-se e se aproximou deum enorme globo terrestre. Evidentemente, a Casa Branca seopunha à inclinação da Terra, pois o eixo daquele globo eradesafiadoramente vertical. De leve, Ellie fez com que ele rodasse."A Terra gira. Precisaremos de radiotelescópios distribuídos demaneira uniforme, por várias latitudes, se não quisermos lacunas.Qualquer nação que observe apenas de seu território há de rece-ber partes da mensagem e depois deixará de recebê-la... Talvezaté as partes perdidas sejam as mais interessantes. Esse é o mes-mo problema enfrentado por uma sonda interplanetária ameri-cana. Ela transmite seus dados para a Terra quando passa por umplaneta, mas os Estados Unidos poderiam estar do outro lado naocasião. Por isso a NasA tomou providências para que três estações107de rastreamento fossem distribuídas uniformemente em torno daTerra. Durante décadas, elas têm funcionado admiravelmente.Entretanto..." Sua voz silenciou, timidamente, e ela olhou para P.L. Garrison, o administrador da NAsA, homem magro, macilento esimpático. Garrison fingiu não perceber."Ahn... obrigado. Sim. O sistema chama-se Rede do EspaçoProfundo, e causa-nos grande orgulho. Temos estações no deser-to de Mojave, na Espanha e na Austrália. Naturalmente, nossas !verbas sáo insuficientes, mas, com um pouco de auxílio, estou cer-to de que poderíamos atender no que fosse necessário.""Espanha e Austrãlia?", perguntou a presidente.
  • 79. "Destinam-se a trabalhos puramente científicos", disse osecretário de Estado. "Estou certo de que não há problemas. Noentanto, se esse programa de pesquisas tivesse aspectos políticos,as coisas poderiam complicar-se."As relações entre os Estados Unidos e aqueles dois países ti-nham arrefecido ultimamente."Não há dúvida alguma de que isso tem aspectos políticos",respondeu a presidente, com alguma irritação."Mas não precisamos ficar presos à superfície da Terra",aparteou um general da Força Aérea. "Podemos neutralizar operíodo de rotação. Tudo de que precisamos é um grande radiote-lescópio em órbita em torno da Terra.""Muito bem." Mais uma vez, a presidente olhou em torno damesa. "Temos um radiotelescópio espacial? Quanto tempo serianecessário para colocar um em órbita? Quem pode responder? Dr.Garrison?""Ah, sinto muito, presidente. Submetemos uma proposta deum projeto ao Observatório Maxwell em cada um dos três últimosanos fiscais, mas as verbas pedidas foram sempre cortadas doorçamento. Temos um projeto detalhado, é claro, mas levariaanos... bem, pelo menos uns três... antes de podermos colocá-loem órbita. E creio ser meu dever lembrar a todos que até o outonopassado os russos tinham no espaço um telescópio de ondas mi-limétricas e submilimétricas. Não sei por que deixou de funcionar,mas eles estariam em melhores condições de enviar alguns astro-nautas para consertá-lo do que nós para construir e lançar umradiotelescópio a partir do zero."108"É essa a situação?", perguntou a presidente. "A Nasa tem umtelescópio comum em órbita, mas não um grande radioteles-cópio. E a comunidade de informações? A Agência de SegurançaNacional? Ninguém?""Então, apenas para concluir meu raciocínio", disse Der Heer,"trata-se de um sinal forte e que aparece em muitas freqüências.Depois que Vega se põe nos céus dos Estados Unidos, radiote-lescópios em meia dúzia de países detectam e gravam o sinal. Nãosão tão avançados quanto os do Projeto Argus, e provavelmenteseus operadores ainda não pensaram na polarização modulada.Se esperarmos até prepararmos um radiotelescópio espacial e olançarmos, a mensagem poderia já estar terminada, inteiramenteperdida. Não segue daí, dra. Arroway, que a única solução seja acooperação imediata com vários outros países?""Não creio que alguma nação possa realizar esse projeto so-zinha. Seriam necessários muitos países, espalhados em longi-tude, que dessem toda a volta à Terra. O projeto envolverá o tra-balho de todos os grandes equipamentos de radioastronomia emoperação... os grandes radiotelescópios instalados na Austrália, na
  • 80. China, na Índia, na União Soviética, no Oriente Médio e na Europaocidental. Seríamos irresponsáveis se nossa cobertura tivesselacunas porque uma parte fundamental da Mensagem chegouquando não havia nenhum telescópio apontado para Vega. Tere-mos de fazer alguma coisa com relação ao Pacífico oriental, entreo Havaí e a Austrália, e talvez também com relação ao Atlântico.""Bem", redargüiu o diretor da cIA, de má vontade, "os soviéti-cos dispõem de vários navios rastreadores de satélites, bons des-de a banda S até a banda X. Por exemplo, o Akademik Keldvsh.Ou o Marechal Nadelin. Se fizermos algum acordo com eles,talvez possam estacionar navios no Atlântico ou no Pacífico epreencher as lacunas."Ellie fez menção de dizer alguma coisa, mas a presidente jáestava com a palavra."Muito bem, Ken. Talvez você tenha razão. Mas repito queessa história está andando depressa demais. Tenho de cuidar deoutras questões no momento. Gostaria que o diretor da cIA e o pes-soal da Segurança Nacional estudassem, ainda esta noite, se dis-pomos de outras opções além da cooperação com outros países...109sobretudo países que não sejam nossos aliados. Gostaria que osecretário de Estado preparasse, em cooperação com os cientis-tas, uma lista de nações e pessoas a serem procuradas se tivermosde pedir cooperação, e uma avaliação das conseqüências disso.Alguma nação se aborrecerá conosco se não lhe pedirmos quecapte a mensagem? Podemos ser chantageados por alguém queprometa os dados e depois volte atrás? Devemos tentar conseguirmais de um país em cada longitude? Estudem as implicações detudo isso. E pelo amor de Deus..." Seus olhos se detiveram emcada um dos rostos em torno da longa mesa polida. "...não saiamdaqui falando sobre isso. Você também, Arroway. Já temos pro-blemas demais."1107O ETANOL EM W 3Não cabe dar crédito algum, seja qual for, àopinião [...] de que os demônios atuam comomensageiros entre os deuses e os bomens, a fimde levar aos deuses todas as nossaspetições e dosdeuses trazer-nos o adjutório. Pelo contrário,devemos considerã-los espíritos propensíssimosa infringir o mal, de todo avessos à retidão, cheiosde orgulho, lívidos de inveja, sutis na astúcia [...]Santo Agostinho, A cidade de Deus, viIt, 22Que apareceriam Heresias, sobre isso temos aprofecia de Cristo; mas que as antigas fossemaholidas, disso não temos previsão.
  • 81. Thomas Browne, XeligioMedici, I, 8 (1642)Ellie planejara receber Vaygay no aeroporto de Albuquerquee voltar com ele para o Projeto Argus no Thunderbird. Os demaismembros da delegação soviética viajariam nos carros do obser-vatório. Teria gostado de ir de automóvel até o aeroporto, no frioda madrugada, passando novamente, quem sabe, por uma guar-da de honra de coelhos. Além disso, antegozava uma longa esubstanciosa conversa em particular com Vaygay no caminho devolta. Entretanto, a nova turma de segurança da administração deServiços Gerais vetara a idéia. A cobertura dada ao assunto pelosmeios de comunicação e a declaração da presidente ao fim de suaentrevista coletiva, duas semanas antes, haviam trazido verda-111deiras multidões àquele local isolado no deserto. Existia um po-tencial de violência, disseram a Ellie. De agora em diante ela sódeveria viajar em veículos do governo e, mesmo assim, com dis-cretas escoltas armadas. O pequeno comboio dirigia-se a Albu-querque a uma velocidade tão baixa e contida que Ellie a todomomento se via apertando, sem querer, um acelerador imagináriono tapete de borracha à sua frente.Seria bom passar novamente algum tempo com Vaygay. Aúltima vez que o vira tinha sido em Moscou, três anos antes,durante um daqueles períodos em que ele fora proibido de viajarao Ocidente. Ao longo dos anos o governo soviético ora lhe dava,ora lhe negava autorização para viajar ao exterior, de acordo coma situação política do momento e em reação ao imprevisível com-portamento do próprio Vaygay. Às vezes lhe era negada permis-são depois de uma pequena provocação política, coisa da qual eleparecia incapaz de abster-se, ou então ela lhe era concedida quan-do não conseguiam encontrar outra pessoa da mesma eminênciapara dar peso a uma delegação científica. De todo o mundo lhechegavam convites para conferências, seminários, simpósios,palestras, grupos de estudo e comissões internacionais. Na quali-dade de detentor do Nobel de física e membro pleno da Acade-mia Soviética de Ciências, ele podia dar-se ao luxo de ser umpouco mais independente que a maioria de seus colegas. Com fre-qüência parecia equilibrar-se precariamente nos limites da paciên-cia e contenção do governo.Seu nome era Vasili Gregorovitch Lunacharski, mas era co-nhecido em toda a comunidade de físicos como Vaygay, a partirdas iniciais de seu prenome e seu patronímico. Suas relaçõesoscilantes e ambíguas com o regime soviético intrigavam Ellie eoutros cientistas ocidentais. Vaygay era parente distante de Ana-toli Vasilievitch Lunacharski, antigo contemporâneo bolchevistade Gorki, Lenin e Trotski; o velho Lunacharski servira mais tardecomo comissário do povo para a Educação e como embaixadorsoviético em Madri até sua morte, em 1933. A mãe de Vaygay era
  • 82. judia. Segundo se dizia, ele tinha trabalhado no programa soviéti-co de armas nucleares, embora fosse, na época, jovem demaispara ter desempenhado papel de relevo na primeira explosão ter-monuclear soviética.112Seu instituto contava com uma boa equipe e ótimas insta-lações; sua produtividade científica era simplesmente prodigiosa,o que indicava uma estranha distração do Comitê de Segurança doEstado. Apesar do fluxo e refluxo das permissões para se ausen-tar do país, Vaygay participava de importantes conferências inter-nacionais, entre as quais os simpósios Rochester sobre física dealta energia, as reuniões Texas de astrofísica relativística e osencontros científicos Pugwash, informais, mas vez por outrafecundos, sobre meios de reduzir a tensão internacional.Na década de 60, pelo que soubera Ellie, Vaygay visitara aUniversidade da Califórnia, em Berkeley, deliciando-se com agrande quantidade de palavras de ordem, irreverentes, escatoló-gicas e politicamente subversivas, impressas em buttons baratos.Era possível, lembrava-se Ellie com certa nostalgia, avaliar comum simples olhar as mais prementes preocupações sociais de umapessoa. Os buttons também eram comuns e ferozmente dispu-tados na União Soviética, mas em geral exaltavam a equipe de fu-tebol do Dínamo ou uma das bem-sucedidas naves espaciais dasérie Luna, as primeiras a pousarem na Lua. Os buttons de Berke-ley eram diferentes. Vaygay havia adquirido dúzias deles, masgostava de usar um em particular. Era do tamanho da palma de suamão e dizia "Reze por sexo". Chegara mesmo a usá-lo em reuniõescientíficas. Quando indagado sobre o motivo de seu interesse poraquele button, respondia: "Em seu país, ele só é subversivo numsentido. No meu, é subversivo em dois sentidos independentes".Se lhe pediam mais pormenores, comentava apenas que seufamoso parente bolchevista havia escrito um livro a respeito dolugar da religião numa sociedade socialista. Desde então, seudomínio do inglês tinha melhorado enormemente - muito maisque o de Ellie em relação ao russo -, mas sua propensão parausar buttons com palavras ofensivas, infelizmente, diminuíra.Certa feita, durante uma acalorada discussão sobre os méri-tos relativos dos dois sistemas políticos, Ellie gabara-se de quetivera liberdade de participar de uma passeata diante da CasaBranca em protesto contra o envolvimento dos Estados Unidos naguerra do Vietnam. Vaygay respondera que no mesmo períodotambém tivera toda a liberdade de desfilar diante do Kremlinprotestando contra o envolvimento americano na guerra do Viet-113nam. Vaygay nunca se sentira inclinado, por exemplo, a fotogra-far as chatas de lixo, carregadas de detritos malcheirosos e de gai-votas guinchantes, reunidas desordenadamente diante da Estátua
  • 83. da Liberdade. Fora isso que fizera outro cientista soviético quan-do, para espairecerem, Ellie o acompanhara num passeio de bar-ca a Staten Island, durante um intervalo de uma reunião em NovaYork. Tampouco Vaygay fotografara avidamente, como alguns deseus colegas, as favelas e os casebres com telhados de zinco deporto-riquenhos pobres durante uma excursão de ônibus, entreum luxuoso hotel à beira-mar e o Observatório de Arecibo. Ellieimaginava a quem mostrariam tais fotos. Visualizava uma vastabiblioteca da KGB dedicada às agruras, injustiças e contradiçõesda sociedade capitalista. Por acaso, quando desconsolados comalgumas das falhas da sociedade soviética, aquecia-lhes oscorações contemplar os desbotados instantâneos de seus imper-feitos primos americanos?Na União Soviética, muitos cientistas brilhantes, por desco-nhecidas transgressões, havia décadas não tinham permissão parasair da Europa oriental. Konstantinov, por exemplo, só em mea-dos dos anos 60 fora autorizado a viajar ao Ocidente. Certa vez,numa reunião internacional em Varsóvia - junto a uma mesarepleta de garrafas vazias de aguardente do Azerbaijão -, depoisde terminados os trabalhos, perguntaram a Konstantinov o moti-vo disso e ele respondeu: "Porque os desgraçados sabem que, seme deixam sair, nunca mais volto". Não obstante, haviam-no dei-xado sair durante o degelo nas relações científicas entre os doispaíses, em fins dos anos 60 e começos dos 70, e ele sempre voltara.Agora, entretanto, não o deixavam ausentar-se, e Konstantinovlimitava-se a enviar a seus colegas ocidentais cartões de Ano-Novo, nos quais se retratara sentado desconsoladamente, de per-nas cruzadas e cabisbaixo, numa esfera sob a qual se via a equa-çáo de Schwarzschild para o raio de um buraco negro. Ele seencontrava num profundo poço potencial, era o que dizia nametáfora da física. Nunca mais o deixariam sair.Questionado a respeito, Vaygay dizia que a posição soviéticaoficial era de que a revolução húngara de 1956 fora organizadapor criptofascistas e que a Primavera de Praga de 198 tinha sidoprovocada por um grupo anti-socialista que ocupava a liderança114do país. Entretanto, acrescentava, se o que lhe haviam dito fossefalso, se aquelas revoltas fossem legítimos levantes populares,nesse caso seu país errara em reprimi-las. Com relação ao Afe-ganistão, ele nem se dava ao trabalho de mencionar as justificati-vas oficiais. Certa vez, em sua sala do instituto, insistira em mostrara Ellie seu radiorreceptor pessoal de ondas curtas, com freqüên-cias claramente marcadas - "Londres", "Paris", "Washington" -em caracteres cirílicos. Tinha liberdade, disse, de escutar a pro-paganda de todos os países.Numa determinada época, muitos de seus colegas haviam serendido à retórica nacional sobre o perigo amarelo. "Imagine toda
  • 84. a fronteira entre a China e a União Soviética ocupada por solda-dos chineses, ombro a ombro, um exército invasor", sugerira umdeles, desafiando a imaginação de Ellie. Estavam reunidos, de pé,em torno do samovar na sala do diretor, no instituto. "Com a atualtaxa de natalidade chinesa, quando eles ultrapassariam a fron-teira?" E a resposta fora pronunciada, numa estranha mistura deprevisão pressaga e prazer aritmético: "Nunca". William RandolphHearst teria se sentido à vontade. Mas não Lunacharski. Estacionartamanho número de soldados chineses na fronteira reduzia auto-maticamente a taxa de natalidade, argumentou ele; por conseguinte,os cálculos estavam equivocados. Vaygay havia construído a frasecomo se o objeto de sua contestação fosse o uso errôneo de mo-delos matemáticos, mas poucos deixaram de entender o que elequeria dizer. Nem no auge das tensões sino-soviéticas, até ondeEllie sabia dizer, jamais Vaygay se deixara levar pela paranóia epelo racismo.Ellie adorava os samovares e era capaz de compreender o afe-to que os russos tinham por eles. Parecia-lhe que o Lunakhod, obem-sucedido veículo lunar teleguiado, parecido com uma ba-nheira sobre rodas raiadas, tinha alguma coisa da tecnologia dosamovar. Certa vez Vaygay a levara para ver um modelo do Lunak-hod num parque de exposições perto de Moscou, numa maravi-Ihosa manhã de junho. Havia ali, perto de um pavilhão que exi-bia os produtos e encantos da República Autônoma do Tadjik, umenorme edifício cheio até o teto de modelos em escala real deveículos espaciais civis da tJRss. O Sputnik. 1, o primeiro satélite arti-ficial; o Sputnik 2, o primeiro satélite a transportar um animal, a115cadela Laika, que morreu no espaço; o Luna 2, primeiro engenhoespacial a atingir outro corpo celeste; o Luna 3, primeiro artefatoespacial a fotografar o lado oculto da Lua; o henera 7, primeirasonda planetária a pousar com segurança em outro planeta; e ovostok 1, primeira nave espacial tripulada, que transportara Yuri A.Gagarin, herói da União Soviética, em órbita em torno da Terra. Dolado de fora, crianças usavam as aletas do foguete lançador da Tlos-tok como escorregador, com seus belos cabelos louros cacheadose os lenços encarnados de Komsomolsr brilhando ao sol, enquan-to, muito risonhos, deslizavam desde o alto até a terra. Zemlya-assim se dizia terra em russo. A grande ilha soviética no mar Árti-co chamava-se Novaya Zemlya, Terra Nova. Fora ali que, em 1961,haviam detonado um artefato termonuclear de 58 megatons, amaior explosão realizada em todos os tempos pela espéciehumana. No entanto, naquele dia de primavera, com vendedoresambulantes apregoando o sorvete de que os moscovitas tanto seorgulhavam, com famílias saindo a passeio e um velho desdenta-do sorrindo para Ellie e Lunacharski como se estes fossem aman-tes, a velha terra parecera muito bela.
  • 85. Nas raras visitas dela a Moscou ou Leningrado, Vaygay muitasvezes organizava as saídas noturnas. Um grupo de seis ou oitodeles ia ao Bolshoi ou ao balé de Kirov. De uma forma ou de outra,Lunacharski conseguia as entradas. Ellie agradecia aos anfitriõespela noitada, e eles - explicando que só na companhia de visi-tantes estrangeiros eles próprios podiam assistir a tais espetáculos- também lhe agradeciam. Vaygay apenas sorria. Nunca trazia aesposa, e Ellie nunca a vira. Segundo Vaygay, era uma médicadedicada aos pacientes. Ellie lhe perguntara qual era seu maiorpesar, já que seus pais não haviam emigrado para a América, comochegaram a desejar. "Só tenho uma tristeza", respondera ele, comsua voz grave. "Minha filha casou-se com um búlgaro."Certa vez ele organizou um jantar num restaurante cau-casiano em Moscou, contratando um tamada, ou brindadorprofissional, chamado Khaladze. O homem era mestre em suaarte, mas o russo de Ellie era tão pobre que ela se viu obrigada apedir que traduzissem a maioria dos brindes. Khaladze virou-separa ela e, como que prenunciando o que seria o restante da noite,observou: "Para nós, o homem que bebe sem brinde é um alcoóla-116ra". Um dos primeiros brindes, medíocres em comparação aosrestantes, terminara assim: "À paz em todos os planetas", e Vaygayhe explicara que a palavra mirsignificava "mundo", "paz" e umavomunidade autônoma de camponeses que remontava aos tem-pos de antanho. Haviam conjecturado se o mundo era mais pací-fico quando suas maiores unidades políticas não eram maioresque aldeias. "Toda aldeia é um planeta", dissera Lunacharski,erguendo o copo. "E todo planeta, uma aldeia", retrucara Ellie.Essas reuniões eram um tanto barulhentas. Bebiam-se enor-mes quantidades de conhaque e vodca, mas ninguém jamais pa-recia embriagar-se. Saíam do restaurante, fazendo muito barulho,à uma ou duas da manhã, e tentavam, freqüentemente em vão,conseguir um táxi. Várias vezes, Vaygay a acompanhou, a pé, porcinco ou seis quilômetros, de volta ao hotel. Era atencioso, umpouco inclinado a agir como protetor, condescendente em seus jul-gamentos políticos, impetuoso em seus pronunciamentos científi-cos. Embora os colegas o tivessem na conta de mulherengo, elejamais se permitira sequer dar um beijo de boa-noite em Ellie. Issosempre a deixara um tanto magoada, embora fosse patente o afe-to que ele lhe dedicava.Eram muitas as mulheres na comunidade científica soviética,muito mais, proporcionalmente, que nos Estados Unidos. Entre-tanto, tendiam a ocupar posições de subalternas a médias, e oscientistas soviéticos do sexo masculino, tal como seus colegasamericanos, admiravam o fato de existir uma mulher bonita, deóbvia competência científica, que manifestava com energia seuspontos de vista. Alguns a interrompiam ou fingiam não ouvir o
  • 86. que ela dizia. Quando isso acontecia, Lunacharski sempre se incli-nava para a frente e perguntava, com voz mais alta que de cos-tume: "O que a senhora disse, dra. Arroway? Não escutei direito".Os outros entáo se calavam e ela continuava a falar sobre detec-tores de arsenieto de gálio alterado ou sobre o teor de etanol nanuvem galáctica W-3. A quantidade de álcool a duzentos grausnessa nuvem interestelar era mais que suficiente para abastecer apopulação da Terra, se todo adulto fosse alcoólatra contumaz,desde o surgimento do sistema solar. O tamada gostara da obser-vação. Nos brindes subseqüentes, haviam feito especulaçõessobre a possibilidade de outras formas de vida se embriagarem117com etanol, se a embriaguez pública era um problema em toda agaláxia e se haveria, em algum mundo, um brindador tão exímiocomo Trofim Sergeievitch Khaladze.Ao chegarem ao aeroporto de Albuquerque, descobriramque, miraculosamente, o vôo comercial proveniente de NovaYork, que trazia a delegação soviética, chegara meia hora adian-tado. Ellie encontrou Vaygay numa loja de souvenirs do aeropor-to, regateando o preço de alguma bugiganga. Ele a deve ter vistopelo canto do olho. Sem virar o rosto, ergueu um dedo: "Um ins-tantinho, dra. Arroway. Dezenove e noventa e cinco?", continuou,dirigindo-se à desinteressada vendedora. "Vi um conjunto igual-zinho em Nova York, ontem, por dezessete e setenta e cinco."Aproximando-se um pouco, Ellie observou Vaygay espalhandoum baralho holográfico, com cenas de nus de ambos os sexos; asposes, agora consideradas apenas indecorosas, teriam escanda-lizado a geração precedente. A vendedora tentava juntar as cartas,enquanto Lunacharski fazia esforços vigorosos para cobrir o bal-cão com elas. Estava ganhando a disputa. "Desculpe, senhor, masnão sou eu quem faço os preços. Sou apenas empregada", quei-xou-se a moça."Eis um exemplo das deficiências de uma economia planeja-da", disse Vaygay a Ellie, estendendo uma nota de vinte dólares àvendedora. "Num verdadeiro sistema de livre empresa, é prová-vel que eu conseguisse comprar isto por quinze dólares. Talvezaté doze e noventa e cinco. Não olhe para mim desse jeito, Ellie.Esse baralho não é para mim. Com os curingas, temos aqui 54 car-tas. Cada uma delas será um bom presente para algum operáriodo meu instituto."Ellie sorriu e lhe tomou o braço. "Que bom ver você de novo,Vaygay, »"Um raro prazer, minha querida."Por acordo mútuo, mas tácito, na viagem para Socorro tro-caram sobretudo amenidades. Valerian e o motorista, um dos inte-grantes da nova equipe de segurança, iam na frente. Peter, que
  • 87. 118não era homem conversador, nem mesmo em circunstâncias co-muns, satisfez-se em se recostar e prestar atenção à conversa de-les, que só tangencialmente abordou a questão que os soviéticostinham vindo debater: o terceiro nível do palimpsesto, a Men-sagem complexa, intrincada e ainda não decifrada, que estavamrecebendo coletivamente. Com certa relutância, o governo ame-ricano concluíra que a participação soviética era essencial. Princi-palmente porque o sinal de Vega era tão intenso que até radiote-lescópios modestos eram capazes de detectá-lo. Anos antes, ossoviéticos tinham espalhado, prudentemente, vários telescópiosde pequeno porte por todo o continente eurasiano, que se esten-dia por 9 mil quilômetros da superfície da Terra, e recentementehaviam terminado a construção de um grande radiobservatórioperto de Samarcanda. Além disso, navios soviéticos de rastrea-mento de satélites patrulhavam tanto o Atlântico como o Pacífico.Alguns dos dados soviéticos eram redundantes, pois obser-vatórios do Japão, da China, da Índia e do Iraque também osestavam registrando. Com efeito, todos os radiotelescópios dospaíses em cujo céu Vega aparecia estavam voltados para essaestrela. Astrônomos da Grã-Bretanha, França, Holanda, Suécia,Alemanha e Tcheco-Eslováquia, do Canadá e da Venezuela, e tam-bém da Austrâlia, registravam fragmentos da Mensagem, acom-panhando Vega desde o momento em que a estrela se levantavano horizonte até aquele em que se punha. Em alguns obser-vatórios, o equipamento de detecção não era bastante sensívelpara sequer distinguir os pulsos isoladamente. De qualquer for-ma, gravavam o borrão de áudio. Todos esses países dispunhamde um pedaço do quebra-cabeça, pois, como Ellie lembrara a Kitz,a Terra gira. Todos os países tentavam decifrar os pulsos. Mas eradifícil. Ninguém sabia dizer sequer se a Mensagem estava escritaem símbolos ou imagens.Era perfeitamente concebível que não decifrassem a Men-sagem até ela retornar à página 1 - se é que isso iria acontecer -e começasse outra vez com a introdução, a chave para a decodi-ficação. Talvez fosse uma mensagem longuíssima, pensou Ellie,enquanto Vavgay tecia comparações entre as terras áridas daAmérica e da União Soviética. Talvez só voltasse ao início daí acem anos. Ou talvez não houvesse chave alguma. Talvez a Men-119sagem (em todo o mundo, ela começava a ser chamada assim,com maiúscula) fosse um teste de inteligência, de modo que mun-dos demasiado estúpidos para decifrá-la não pudessem utilizarmal o seu conteúdo. De repente ocorreu a Ellie como seria grandea vergonha que ela sentiria da espécie humana se por fim não fos-sem capazes de compreender a Mensagem. A partir do instanteem que americanos e soviéticos resolveram trabalhar juntos e foi
  • 88. solenemente firmado o Protocolo de Acordo, todas as outrasnações que possuíam um radiotelescópio tinham concordado emcooperar. Havia agora uma espécie de Consórcio Mundial daMensagem, e as pessoas realmente utilizavam essa expressão.Para o deciframento da Mensagem, precisavam dos dados e dostalentos uns dos outros.Os jornais quase não falavam de outra coisa. Os pouquíssi-mos fatos conhecidos - os números primos, a transmissão daOlimpíada e a existência de uma mensagem complexa - eramrevisados interminavelmente. Seria difícil encontrar alguém noplaneta que, de uma forma ou de outra, nâo tivesse tomado co-nhecimento da Mensagem de Vega.As seitas religiosas, tanto as reconhecidas como as marginais,bem como algumas recém-inventadas expressamente com essepropósito, dissecavam as implicações teológicas da Mensagem.Algumas supunham-na procedente de Deus; para outras, ela vi-nha do Demônio. Surpreendentemente, algumas nem sequer ti-nham certeza de uma coisa ou de outra. Havia um lamentávelressurgimento de interesse por Hitler e pelo regime nazista, e Vav-gay comentou com Ellie que contara um total de oito suásticas nosanúncios do suplemento literário do The New York Times daqueledomingo. Ellie respondeu que essa era mais ou menos a média,mas sabia que estava exagerando; em algumas semanas haviaapenas duas ou três. Um grupo que adotara o nome de "Spaca-rianos" brandia provas definitivas de que os discos voadores ti-nham sido inventados na Alemanha hitlerista. Uma nova raça,"desmestiçada", de nazistas tinha se desenvolvido em Vega e esta-va agora pronta para endireitar as coisas na Terra.Havia aqueles que achavam que escutar o sinal era umaabominação e instavam junto aos observatórios para que cessas-sem de registrá-lo. Havia os que o tinham na conta de Marca do120Advento e recomendavam a construção de radiotelescópios ain-da maiores, alguns deles em órbita. Alguns advertiam contra operigo de trabalhar com os dados soviéticos, sob a alegação deque poderiam ser falsificados, muito embora nas longitudes emque ocorria sobreposição de captação esses dados coincidissemcom os que eram fornecidos pelo Iraque, pela China, pela Índia epelo Japão. E havia aqueles que pressentiam uma modificação naatmosfera política mundial e argumentavam que a simples exis-tência da Mensagem, mesmo que ela jamais viesse a ser decifra-da, estava exercendo uma influência moderadora sobre os paí-ses, sempre em disputa uns com os outros. Como a civilizaçãotransmissora era, evidentemente, mais adiantada que a nossa, ecomo, obviamente - pelo menos até 26 anos antes -, ela nãodestruíra a si mesma, seguia-se, afirmavam alguns, que as civi-
  • 89. lizações tecnológicas não estavam destinadas a uma inevitávelautodestruição. Num mundo que fazia suas primeiras experiên-cias sérias com a liquidação dos arsenais nucleares, a Mensagemera vista por populações inteiras como razão de esperança. Mui-tos a consideravam a melhor notícia em muito tempo. Durantedecênios, os jovens tinham tentado não pensar demais no dia deamanhâ. Agora, surgia, afinal, a possibilidade de haver um futurobenigno.Aqueles que se predispunham a esses prognósticos ani-madores às vezes se viam desconfortavelmente próximos de umterreno que durante uma década fora ocupado pelo movimentoquiliasta. Alguns milenaristas propugnavam que a iminentechegada do Terceiro Milênio seria acompanhada pela volta deJesus, de Buda, de Krishna ou do Profeta, que fundaria na Terrauma benevolente teocracia, severa em seu julgamento dos mor-tais. Possivelmente esse seria o prenímcio da Ascensão dosEleitos. Mas havia outros milenaristas, e estes em muito maiornúmero, que sustentavam ser a destruição física do mundo oindispensável pré-requisito para o Advento, tal como fora infa-livelmente previsto em muitas obras proféticas da Antiguidade,mutuamente contraditórias sob outros aspectos. A esses milena-ristas da destruição incomodava o cheiro de apaziguamentomundial que corria pelo ar, bem como o declínio contínuo, anoapós ano, dos estoques de armas estratégicas em todo o mundo.121O meio mais simples que existia para o cumprimento do preceitobásico de sua fé estava sendo desmantelado dia a dia. Outras ca-tástrofes possíveis - superpopulação, poluição industrial, terre-motos, explosões vulcânicas, aquecimento do planeta através doefeito estufa, colisões de cometas com a Terra - eram demasiadolentas, improváveis ou insuficientemente apocalípticas para aque-la finalidade.Alguns líderes milenaristas haviam garantido em encontros-monstros de seus seguidores que os seguros de vida, exceto ospor morte acidental, eram sinal de desvio da fé; que comprar umasepultura ou tomar providências fúnebres, salvo em caso deextrema necessidade, representava flagrante impiedade. Todos oscrentes seriam levados corporeamente ao céu, e estariam diantedo trono de Deus, dentro de apenas alguns anos.Ellie sabia que o famoso parente de Lunacharski fora umapessoa raríssima, um revolucionário bolchevista com douto inte-resse pelas religiões do mundo. Mas a atenção que Vaygay dirigiaà crescente fermentação teológica em todo o mundo era evi-dentemente irônica. "A principal questão religiosa em meu país",disse ele, "será saber se os veganos fizeram uma denúncia ade-quada de Leon Trotski."À medida que se aproximavam das instalações do Projeto
  • 90. Argus, crescia à beira da estrada o número de carros estacionados,trailers, barracas e grupos de pessoas. De noite, a antes tranqüilaplanície de San Augustin era iluminada por fogueiras. Nem todasas pessoas acampadas ao longo da estrada eram abastadas. Ellienotou dois casais jovens. Os homens usavam camisetas de malhae surradas calças jeans; contavam um pouco de prosa sobre suasaventuras na escola secundária, e a conversa era animada. Umdeles empurrava um velho carrinho de bebê no qual estava sen-tado um garotinho dos seus dois anos. As mulheres seguiam atrásdos maridos, uma delas segurando pela mão uma criança quecomeçava a exercitar a arte humana de caminhar, enquanto aoutra andava um pouco curvada para a frente por causa do pesodo que seria, daí a um mês ou dois, mais uma vida nascida nesteobscuro planeta.122Havia místicos de comunidades apartadas oriundas das pro-f ximidades de Taos que usavam a psilocibina como sacramento, efreiras de um convento próximo a Albuquerque que usavam o etanol para o mesmo fim. Havia homens de pele coriácea e olhosenrugados que haviam passado a vida inteira ao ar livre, e es-tudantes de ar livresco e rostos macilentos da Universidade doArizona em Tucson. Índios Navajo vendiam gravatas de seda ependuricalhos brilhantes de prata a preços exorbitantes, uma pe-quena inversão das históricas relações comerciais entre brancos eameríndios. Recrutas da base aérea de Davis-Monthan, de licença,mascavam vigorosamente fumo e chicletes. Um homem de cabe-los brancos, num elegante terno de novecentos dólares e com umchapelão que combinava com a roupa, deveria ser, possivel-mente, um fazendeiro. Havia pessoas que viviam em barracas eem arranha-céus, casebres de barro, dormitórios, parques detrailers. Alguns vieram porque não tinham nada melhor a fazer,outros porque queriam dizer aos netos que tinham estado ali.Alguns chegavam à espera de um fracasso; outros, confiantes emtestemunharem um milagre. Sons de serena devoção, bulhentahilaridade, místico êxtase e moderada expectativa erguiam-se damultidão para o sol brilhante da tarde. Algumas cabeças viraram-se, desinteressadas, na direção do cortejo de automóveis, cada umdOS qualS traZendO a lnSCrlçãO: SERVIçO DE TRANSPORTES GERAIS DOGOVERNO DOS ELIA.Algumas pessoas almoçavam, usando como mesa a porta tra-seira de suas peruas; outras examinavam os produtos de vende-dores cujos empórios sobre rodas exibiam letreiros berrantes:LANCHES RÁPIDOS Ou SOLNENIRS ESPACIAIS. Havla lOngaS flla5 dlante decubículos, com capacidade máxima para uma pessoa, que o Pro-jeto Argus julgara melhor fornecer. Crianças corriam entre veícu-los, sacos de dormir, cobertores e mesas portáteis de camping,quase nunca admoestadas pelos adultos, exceto quando chega-
  • 91. vam perto demais da rodovia ou da cerca próxima ao telescópio61, onde um grupo de jovens adultos de rabicho e cabeça raspa-da, vestidos com mantos alaranjados, entoavam solenemente asagrada sílaba "Om". Havia cartazes com representações ima-ginárias de seres extraterrestres, algumas popularizadas por filmesou revistas em quadrinhos. Um deles dizia: "Os extraterrestres123estão entre nós". Um homem com brincos de ouro fazia a barba,usando o retrovisor de uma caminhonete, e uma mulher de cabe-los negros, usando um poncho, ergueu uma xícara de café emsaudação ao cortejo motorizado.Ao se aproximarem do portão principal, perto do telescópio101, Ellie avistou um rapaz que, sobre uma plataforma improvisa-da, falava a uma considerável multidão. Usava uma camiseta querepresentava a Terra sendo atingida por um raio celeste. Váriasoutras pessoas na multidão, observou ela, usavam esse mesmoenfeite enigmãtico. A pedido de Ellie, depois de transporem oportão, pararam à beira da estrada, abaixaram a janela do carro eficaram ouvindo. O rapaz que falava estava de costas, e eles po-diam ver os rostos dos ouvintes. Essas pessoas estão profunda-mente comovidas, pensou Ellie.O rapaz ia bem adiantado em sua alocução: "...e outros dizemque existe um pacto com o Diabo, que os cientistas venderam suasalmas. Há pedras preciosas em cada um desses telescópios". Fezum gesto na direção do telescópio 101. "Até os cientistas admitemisso. Algumas pessoas dizem que o Diabo entrou nessa trama.""Arruaceiros religiosos", murmurou Lunacharski sombria-mente, olhando ansioso a estrada que se abria diante deles."Não, não. Vamos ficar", disse Ellie. Em seus lábios brincavaum sorriso, quase de espanto."Há outras pessoas... pessoas religiosas, pessoas tementesa Deus... que acreditam que essa Mensagem vem de seres doespaço, entidades, criaturas hostis que querem nos fazer mal .,inimigos do Homem." O jovem quase gritou a última frase, edepois fez uma pausa, à espera do efeito. "Mas todos vocêsestão cansados da corrupção, da decadência desta sociedade .uma decadência provocada pela tecnologia irrefletida, des-vairada, ímpia. Não sei qual de vocês tem razão. Não posso lhes dizer o que a Mensagem significa, ou quem a enviou. Tenhominhas desconfianças. Em breve haveremos de saber. Mas uma coisa eu sei: os cientistas, os políticos e os governantes estãonos enganando. Não nos disseram tudo que sabem. Estão men-tindo para nós, como sempre fizeram. Durante muito tempo,Senhor, temos engolido as mentiras que despejam sobre nóssua corrupção."124
  • 92. Para o espanto de Ellie, elevou-se da multidão um coro dessentimento. O rapaz tocara numa ferida, num poço de ressenti-mento, de que só vagamente ela se dera conta."Esses cientistas não acreditam que nós sejamos filhos deDeus. Existem entre eles conhecidos comunistas. Vocês queremque pessoas dessa laia decidam o destino do mundo?"A multidão respondeu com um tonitruante "Não!"."Querem que uma súcia de ateus vá parlamentar com Deus?""Não!", gritou novamente a massa."Ou com o Diabo? O que eles estão fazendo é negociar nos-o futuro com monstros de um mundo desconhecido. Meusirmãos e minhas irmãs: o mal habita este lugar."Ellie imaginara que o orador não tivesse percebido a pre-sença deles. Nesse momento, porém, ele se virou um pouco eapontou diretamente para o cortejo."Eles não falam em nosso nome! Eles não nos representam!Não têm nenhum direito de parlamentar em nosso nome!"Algumas pessoas que estavam mais perto da cerca começa-ram a sacudi-la ritmicamente. Valerian e o motorista ficaram alar-mados. Os motores tinham sido deixados a funcionar em marchamta, e num instante eles se afastaram do portão em direção aoprédio administrativo do Projeto Argus, que ficava a alguns qui-lômetros dali. Enquanto saíam, Ellie ainda pôde ouvir o orador,claramente, sobre o ranger dos pneus e o clamor da multidão."O mal que habita este lugar será destruído. Isso eu juro."1258ACESSO ALEATÓRIOO teólogo pode comprazer-se na amena tarefade descrever a Religião tal como ela desceu docéu, revestida desua nativapureza. Ao historia-dorse impõe um dever mais melancólico. Cum-pre-lhe desvelar a inevitável mistura de erro ecorrupção que ela contraiu numa longa per-manência na Tera, entre uma fraca e degene-rada raça de seres.Edward Gibbon, Declínio e queda do Impérioromano, xvEllie deixou de lado o acesso aleatório e avançou seqüen-cialmente, passando de uma estação de tv a outra. Canais con-tíguos apresentavam programas de baixa categoria. Era evi-dente, num relance, que a televisão ainda não havia realizadotudo quanto se podia esperar dela. Havia um animado jogo debasquetebol entre os Wildcats de Johnson City e os Tigers; osrapazes e as moças estavam dando tudo que podiam. No canalseguinte se ouvia uma exortação em parse sobre as maneiraspróprias e impróprias de se observar o ramadã. Mais adiante, um
  • 93. dos canais fechados, este aparentemente dedicado a práticassexuais execráveis. Em seguida ela chegou a um dos canais com-putadorizados, dedicado a jogos fantasiosos, e que agora en-frentava tempos difíceis. Ligado a computadores pessoais, per-mitia a participação numa aventura; a daquele dia chamava-se,aparentemente, Gilgamesh galáctico, na esperança de que os126telespectadores o julgassem suficientemente atraente para enco-mendar a fita correspondente num dos muitos pontos de venda.Tomavam precauções eletrônicas para que ninguém pudessegravar o programa durante sua breve participação nele. A maio-ria desses jogos, pensou Ellie, constituía-se de tentativas deses-peradamente falhas de preparar os adolescentes para um futurodesconhecido.Sua atenção foí atraída para um ansíoso apresentador de umadas antigas redes. Com indisfarçável ar de preocupação, ele fala-va de um ataque que, sem motivo aparente, lanchas torpedeirasnorte-vietnamitas haviam desfechado contra dois destróieres davc Frota dos Estados Unidos, no golfo de Tonquim, e da solici-tação que o presidente norte-americano fizera ao Congresso paraque lhe fosse dada autorização de "tomar todas as medidascabíveis" em relação ao episódio. Aquele programa era um dospreferidos de Ellie. Intitulado Notícias de ontem, reapresentavanoticiários antigos. Na segunda parte, o programa dissecava empormenores a desinformação da primeira parte e criticava a faci-lidade com que os meios de comunicação aceitavam as decla-rações de qualquer governo, por mais infundadas e interesseirasque fossem. Era uma das muitas séries produzidas por uma orga-nização chamada REALI-tv. Outras eram Promessas, promessas,dedicada a análises, a posteriori, de compromissos firmados - enunca cumpridos - em campanhas eleitorais de todos os níveis,e Chutes e lorotas, programa semanal que desmascarava precon-ceitos, propagandas e mitos. A data que aparecia na tela era 5 deagosto de 1964, e Ellie foi tomada de uma onda de reminiscências- nostalgia não seria a palavra apropriada - de seus tempos desecundarista. Continuou em frente.Percorrendo os canais, passou por uma série de culináriaoriental, devotada naquela semana ao hibachi; um longo anúncioda primeira geração de robôs domésticos, de finalidades gerais,da Hadden Cybernetics; o programa de notícias e comentários emrusso, apresentado pela Embaixada Soviêtica; vários programasinfantis e de notícias; a estação de matemática mostrando osdeslumbrantes gráficos de computador do novo curso de geome-tría analítica da Universidade Cornell; o canal de ofertas de aparta-mentos e anúncios imobiliários; e uma série inacabãvel de filmes127da pior qualidade. Por fim chegou à rede religiosa, na qual a Men-
  • 94. sagem era continuamente discutida.A freqüência às igrejas crescia vertiginosamente em todo opaís. A Mensagem, acreditava Ellie, era uma espécie de espelho,e nela cada pessoa via suas crenças serem refutadas ou confir-madas. Era considerada uma confirmação geral de doutrinasapocalípticas e escatológicas, mutuamente excludentes. No Peru,na Argélia, no México, no Zimbabwe e entre os índios Hopi, suce-diam-se os debates a respeito de terem ou não suas civilizaçõesmatrizes provindo do espaço; as opiniões favoráveis à origemextraterrestre eram atacadas como colonialistas. Os católicosdebatiam o estado de graça extraterrestre. Protestantes discutiampossíveis missões anteriores de Jesus a planetas próximos e, na-turalmente, sua volta à Terra. Os muçulmanos receavam que aMensagem pudesse violar o mandamento contra as imagens. NoKuwait, surgiu um homem que afirmava ser o Imame Oculto dosxütas. Um fervor messiânico crescera entre os hasideanos. Emoutras congregações de judeus ortodoxos, assistia-se a um súbitorenascimento do interesse por Astruc, fanático que temia que osaber pudesse minar a fé; em 1305, ele induzira o rabino deBarcelona, o mais importante judeu letrado da época, a proibir oestudo das ciências e da filosofia por pessoas com menos de 25anos de idade, sob pena de excomunhão. Correntes semelhantesganhavam cada vez mais adeptos no Islã. Um filósofo da Tessa-lonica, chamado Nicolau Polidemos, atraía a atenção com umasérie de argumentos passionais em favor do que ele chamava de"reunificação" das religiões, dos governos e dos povos do mun-do. As críticas começavam pela contestação ao prefixo re.Grupos de entusiastas dos ovNts haviam organizado vigíliasdurante as 24 horas do dia junto à base aérea de Brooks, perto deSan Antonio, onde se dizia que estavam congelados os corpos,perfeitamente preservados, de quatro ocupantes de um discovoador acidentado em 1947; constava que os extraterrestres ti-nham um metro de altura e dentaduras pequenas e perfeitas. NaÍndia, havia relatos de aparições de Vishnu; no Japão, de AmidaBuda; curas milagrosas eram anunciadas às centenas em Lourdes;uma nova Bodhisattva se autoproclamou no Tibete. Na Austrália,importou-se da Nova Guiné um novo "culto de carregamento",128 que pregava a construção de grosseiras simulações de radiote-lescópios para atrair a generosidade dos extraterrestres. A UniãoMundial dos Livre-Pensadores declarou ser a Mensagem uma pro-va da inexistência de Deus. A Igreja mórmon afirmou ser ela umasegunda revelação por parte do anjo Moroni.Grupos diversos tinham a Mensagem na conta de compro-vação da existência de muitos deuses, de um único deus ou de
  • 95. nenhum. O milenarismo reinava por toda parte. Havia aqueles quepreviam o Milênio para 1999 - uma inversão cabalística de 1666,o ano que Sabbatai Zevi adotara para o seu milênio; outrosoptavam por 1996 ou 2003, anos tidos como os do segundomilésimo aniversário do nascimento ou morte de Jesus. O GrandeCiclo dos antigos maias se completaria no ano 2011, quando -segundo essa tradição cultural independente - o cosmo chegariaao fim. A combinação da previsão maia com o milenarismo cristãoestava produzindo uma espécie de frenesi apocalíptico no Méxicoe na América Central. Alguns dos milenaristas que acreditavam nasdatas anteriores haviam começado a distribuir sua riqueza entre ospobres, em parte porque em breve ela seria mesmo inútil, e emparte como dádiva a Deus, um suborno em favor do Advento.Fanatismo, medo, esperança, debates passionais, preces se-renas, nervosa reavaliação, desinteresse exemplar, estreita hipo-crisia e a ânsia por idéias novas e sensacionais haviam se tornadoepidemias, varrendo febrilmente a superfície do minúsculo pla-neta Terra. Dessa intensa fermentação, Ellie julgava ver surgir,vagarosamente, a idéia de que o mundo não passava de um fionum vasto tapete cósmico. Enquanto tudo isso acontecia, a Men-sagem propriamente dita resistia a todas as tentativas de decodifi-cação.Nos canais sensacionalistas, protegidos pela Primeira Emen-da, ela, Vaygay, Der Heer e, em menor medida, Peter Valerianestavam sendo acusados de um sem-número de transgressões,dentre as quais ateísmo, comunismo e recusa de divulgar o con-teúdo da Mensagem. Na opinião de Ellie, Vaygay não era umcomunista muito convicto, e Valerian tinha uma profunda, pláci-da, mas rica fé cristã. Se porventura tivessem a sorte de decifraralguma coisa da Mensagem, ela faria questão de entregá-la pes-soalmente àquele farisaico comentarista de tv. David Drumlin,129contudo, estava sendo descrito como um herói, o homem quehavia verdadeiramente decodificado os números primos e a trans-missão da Olimpíada; esse tipo de cientista é que era necessárioao mundo. Ellie suspirou e mais uma vez mudou de canal.Tinha chegado ao sETA, o Sistema de Emissoras Turner-Amer-ican, a única sobrevivente das grandes redes comerciais que ha-viam dominado a televisão norte-americana até a generalizaçãodas transmissões diretas por satélite e o advento do cabõ de 180canais. Nessa estação, Palmer Joss estava fazendo uma de suasraras aparições na tv. Como a maioria dos americanos, Ellie re-conheceu de imediato a voz ressonante, a figura atraente e um tan-to desmazelada, e a descoloração sob os olhos, que levava as pes-soas a crerem que ele jamais dormia, preocupado com elas."Que fez a ciência realmente por nós?", indagava ele, retori-camente. "Seremos realmente mais felizes? Não me refiro apenas
  • 96. ao fato de contarmos com receptores holográficos e uvas semsementes. Somos mais felizes fundamentalmente? Ou os cientis-tas nos subornam com brinquedos, bugigangas tecnológicas,enquanto solapam a nossa fé?"Ali estava um homem, pensou Ellie, que anelava por umaépoca mais simples, um homem que passara a vida tentando con-ciliar o inconciliável. Havia condenado os excessos mais gritantesda religião do consumo, e pensava que isso justificava ataques àevolução e à relatividade. Por que não atacar a existência doelétron? PalmerJoss nunca vira um deles, e a Bíblia nada fala sobreo eletromagnetismo. Por que acreditar nos elétrons? Ainda queEllie nunca o tivesse escutado pregar, tinha certeza de que maiscedo ou mais tarde ele se referiria à Mensagem. Não precisouesperar muito."Os cientistas guardam suas descobertas para si mesmos,dão-nos pedacinhos, fragmentos... o suficiente para nos manterquietos. Acham que somos ignorantes demais para entender oque eles fazem. Dão-nos conclusões sem provas, opiniões, comose fossem escrituras sagradas e não especulações, teorias, hipóte-ses... aquilo que as pessoas comuns chamariam de palpites.Jamais perguntam se uma nova teoria é tão boa para as pessoasquanto a convicção que ela procura substituir. Superestimam oque eles sabem e subestimam o que nós sabemos. Quando lhes130pedimos explicaçôes, respondem que são necessários anos parase compreender. Isso eu entendo, pois na religião também hácoisas cujo entendimento exige anos. Pode-se gastar a vida inteirasem que se chegue próximo à compreensão da natureza de DeusTodo-Poderoso. Mas não se vêem cientistas procurando líderesreligiosos para lhes perguntar sobre os anos de estudo, meditaçãoe oração deles. Nunca se dão ao trabalho de pensar em nós, a nãoser quando querem nos iludir e enganar."E agora dizem que receberam uma Mensagem da estrelaVega. Entretanto, uma estrela não pode enviar Mensagem alguma.Alguém a está enviando. Terá a Mensagem propósito divino ousatânico? Quando decodificarem a Mensagem, como terminaráela? "Atenciosamente, Deus... ou "Sem mais, o Diabo? E, quandoos cientistas se dispuserem a nos dizer o que contém a Mensagem,haverão de nos dizer toda a verdade? Ou reterão alguma coisa, porjulgarem que não estamos aptos a entender, ou porque algumacoisa não bate com aquilo em que eles acreditam? Não foram essaspessoas que nos ensinaram os meios de aniquilar a nós mesmos?"Ouçam o que lhes digo, amigos, a ciência é importantedemais para ser deixada aos cientistas. O processo de decodifi-cação da Mensagem devia contar com a participação de repre-sentantes dos principais credos. Devíamos examinar os dados. Deoutra forma... de outra forma, onde estaremos? Decerto, hão de
  • 97. nos dizer alguma coisa sobre a Mensagem. Talvez aquilo em querealmente acreditam. Talvez não. E teremos de aceitar tudo quenos disserem. Há algumas coisas que os cientistas sabem. Háoutras... dou-lhes minha palavra... sobre as quais nada conhecem.Talvez tenham recebido uma mensagem de outros seres do céu.Talvez não. Terão eles certeza de que a Mensagem não é um Be-zerro de Ouro? Não acredito que reconhecessem um, se o vissem.Foram essas pessoas que nos deram a bomba de hidrogênio. Per-doa-me, Senhor, por eu não ser mais grato a essas almas bondosas."Eu contemplei Deus face a face. Eu O cultuo, O amo. Con-fio nEle com toda a minha alma, com todo o meu ser. Não creioque alguém possa ter fé maior que a minha. Não vejo como oscientistas possam crer na ciência mais do que eu creio em Deus."Os cientistas sempre estão prontos a jogar no lixo as suas"verdades quando aparece uma nova idéia. Orgulham-se disso.131Não imaginam que o conhecimento possa ter limites. Supõem queestejamos presos à ignorância até o fim dos tempos, que em ne-nhuma parte da natureza exista certeza alguma. Newton suplan-tou Aristóteles. Einstein suplantou Newton. Amanhã alguém ha-verá de suplantar Einstein. Assim que conseguimos entender umateoria, surge outra em seu lugar. Eu não me importaria tanto comisso se nos advertissem de que as idéias antigas eram experi-mentais. A lei da gravitação de Newton, era assim que diziam.Aliás, ainda dizem. Entretanto, se era uma lei natural, como pode-ria estar errada? Como poderia ser suplantada? Só Deus pode der-rubar as leis da natureza, não os cientistas. Só que eles embara-lharam tudo. Se Albert Einstein estava certo, Isaac Newton era umamador, um trapalhão."Lembrem-se: nem sempre os cientistas estão certos. Queremlevar a nossa fé, as nossas crenças, e nada nos dão, em troca, quetenha valor espiritual. Não pretendo abandonar Deus porque oscientistas escrevem um livro e dizem que se trata de uma men-sagem originária de Vega. Não hei de cultuar a ciência. Não desa-fiarei o primeiro mandamento. Não me curvarei diante de um Be-zerro de Ouro."Quando ainda muito jovem, antes de se tornar conhecido eadmirado, Palmer Joss fora o factótum de um circo. Isso tinha sidomencionado em seu perfil biográfico, publicado na Timesweek;não era segredo. Para ajudar em sua busca de fortuna, ele haviafeito com que um mapa-múndi, em projeção cilíndrica, fosse ta-tuado em seu tronco. Exibia-se em feiras rurais e em parques dediversôes mambembes, desde o Oklahoma até o Mississippi,como um dos últimos remanescentes de uma era de maior ativi-dade em matéria de diversão rural itinerante. Na vastidão dooceano azul, viam-se os quatro deuses dos ventos, com as boche-chas soprando do oeste e do nordeste. Flexionando os músculos
  • 98. peitorais, Palmer Joss fazia Bóreas agitar-se, juntamente com oAtlântico. A seguir, para a estupefação da platéia, recitava um tre-cho do livro vI das Metamorfoses de Ovídio:Monarca da violência, rolandopelas nuvensProvoco grandes vagas, derrubo enormes árvores [...]132Possuído de demoníaca, fúria, penetroNo mais recôndito dasgrandes cavernasEcom esforço, subhindo de taisprofundezas,Espalho as sombras aterrorizadas do Hadeslanço terremotos nos mortais pela face da terraFogo e enxofre da velha Roma. Com um pouco de ajuda dasmãos, ele demonstrava a deriva continental, comprimindo a Áfricaocidental contra a América do Sul, de modo a que estas se jun-tassem, como peças de um quebra-cabeça, de modo quase per-feito, na longitude em que se situava o seu umbigo. Anunciavam-no como "Geos, o Homem-Mapa".Joss era ávido leitor e, não tendo recebido instrução formaldepois da escola primária, ninguém lhe havia dito que a ciência eos clássicos eram cardápio impróprio para gente comum. Auxilia-do por sua boa aparência, descontraída e amarfanhada, ele seinsinuava junto às bibliotecárias das cidades por onde passava ocirco, e perguntava quais os livros sérios que devia ler. Desejava,dizia, aprimorar sua educação. Obedientemente, lia sobre comofazer amigos e investir em negócios imobiliários, ou como inti-midar os conhecidos sem que eles o percebessem, mas sentia quetais livros eram, de certa forma, superficiais. Em contraste, na li-teratura antiga e na ciência moderna ele julgava detectar quali-dade. Em seus dias de folga, abancava-se na biblioteca local.Aprendeu sozinho um pouco de história e geografia. Eram disci-plinas relacionadas ao seu trabalho, disse a Elvira, a Moça-Ele-fante, que o interrogava detidamente sobre suas ausências. Elvirasuspeitava que ele fosse dado a namoricos compulsórios - umabibliotecária em cada porto, disse ela certa vez-, mas tinha deadmitir que sua arenga profissional estava melhorando. O con-teúdo era demasiado livresco, mas a exposição era clara comoágua. Surpreendentemente, a tenda de Joss comeou a fazer di-nheiro para o circo.De costas para a platéia, certo dia ele estava demonstrando acolisão entre a Índia e a Ásia, e o resultante soerguimento doHimalaia, quando, de um céu plúmbeo mas sem chuva, caiu umraio que o prostrou desfalecido. Tinha havido tempestades deareia no sudeste do Oklahoma, e o tempo estava esquisito emtodo o Sul. Joss teve a sensação, perfeitamente lúcida, de deixar133seu corpo - atirado lastimosamente sobre as tábuas cobertas deserragem e observado com cautela e quase espanto pela pequena
  • 99. platéia - e de subir, elevando-se como que através de um longoe escuro túnel, até se aproximar lentamente de uma luz brilhante.E, no fulgor, ele aos poucos discerniu um vulto de proporções he-róicas, realmente divinas.Quando voltou a si, uma parte dele ficou desapontada porestar vivo. Achava-se num catre, num quarto pobre. Debruçadosobre ele estava o reverendo Billy Jo Rankin, não o atual religiosoque tem esse nome, mas seu pai, um venerável eclesiástico do ter-ceiro quartel do século xx. Ao fundo, Joss acreditou ver uma dúziade figuras encapuzadas entoando o Kyrie eleison. Mas não podiater certeza."Vou viver ou morrer?", perguntou o rapaz."Meu jovem, vais viver e vais morrer", respondeu o reveren-do Rankin.Joss foi logo tomado de uma sensação pungente de desco-berta do mundo. De certa forma, entretanto, era-lhe difícil articu-lar isso, a sensação conflitava com a imagem beatífica que elehavia contemplado e com a alegria infinita que a visão lhe pro-porcionara. Joss podia sentir as duas coisas brigando dentro deseu peito. Em várias situações, às vezes no meio de uma frase, eletomava consciência de uma ou outra dessas sensações procuran-do se impor através da palavra ou da ação. Depois de algum tem-po, aprendeu a conviver com ambas.Ele realmente estivera morto, disseram-lhe mais tarde. Ummédico o declarara morto. No entanto, tinham rezado sobre ele,cantado hinos e até tentado ressuscitá-lo mediante massagens.Haviam-no devolvido à vida. Ele renascera literalmente. Uma vezque isso correspondia tão bem à sua própria percepção da expe-riência, aceitou o relato, e com satisfação. Embora quase nuncafalasse a respeito, persuadiu-se do que significara o episódio. Nãohavia sido prostrado à toa. Não fora trazido de volta ao mundosem um motivo.Sob a orientação de seu mentor, Joss começou a estudar asEscrituras a sério. A idéia da Ressurreição e a doutrina da Salvaçãocomoveram-no profundamente. Ajudava o reverendo Rankin noque podia, às vezes substituindo-o nas missões evangélicas mais134cansativas ou mais distantes, sobretudo depois que o filho do pas-tor, o jovem Billy Jo Rankin, viajou para Odessa, no Texas, aten-dendo ao chamado de Deus. Logo Joss encontrou um estilo depregação todo seu, menos exortativo que explanatório. Em lin-guagem simples e lançando mão de metáforas batidas, explicavao batismo e a vida no além, a ligação entre a Revelação cristã e osmitos da Grécia e da Roma clássicas, a idéia do desígnio de Deusem relação ao mundo, a coincidência da ciência e da religiãoquando ambas eram corretamente compreendidas. Não era umapregação convencional, e cheirava a um ecumenismo excessivo
  • 100. para muitos gostos. No entanto, revelava-se inexplicavelmentepopular."Você renasceu, Joss", disse-lhe Rankin pai. "Por isso, deve-ria mudar o nome. Só que Palmer Joss é um nome tão bom paraum pregador que seria bobagem você não conservá-lo."Tal como os médicos e advogados, os vendedores de religiãoraramente criticavam os produtos uns dos outros, observou Joss.Certa noite, entretanto, ele foi assistir ao culto da nova Igreja deCristo, Cruzado, a fím de ouvir o jovem Billy Jo Rankin, que voltaratriunfante de Odessa. Billy Jo expôs uma severa doutrina de Re-compensa, Retribuíção e Êxtase. O culto daquela noite era dedi-cado à cura de enfermos. O instrumento curativo, disse Rankin àcongregação, seria a mais sagrada das relíquias - mais sagradaque uma lasca da Vera Cruz, mais sagrada até que o fêmur de san-ta Teresa de Ávila que o generalíssimo Francisco Franco conser-vara em seu gabinete para intimidar os piedosos. O que Billy JoRankin brandiu diante da massa foi nada mais, nada menos que olíquido amniótico que havia circundado e protegído Nosso Se-nhor. O fluido fora cuidadosamente preservado num antigo reci-piente de louça que pertencera, segundo foi dito, a santa Ana. Amenor gota daquele líquido santo haveria de curar toda e qual-quer moléstia, prometeu Rankin, através de um ato especial daDivina Graça. Tinha consigo naquela noite a mais santa das águasbentas.Joss ficou atônito, não tanto com o fato de Rankin impingir ,uma fraude tão gritante, mas principalmente ao ver que todos osparoquianos se dispunham a aceitá-la credulamente. Em sua vidapregressa, tinha visto muitas tentativas de ludibriar o público. Masj35eram feitas a título de diversão. Agora era diferente. Isso era re-ligião. A religião era importante demais para que se esquecesse averdade, o que dizer para que se forjassem milagres. Passou entãoa denunciar do púlpito a impostura.À medida que crescia seu fervor, dedicava-se a vituperaroutras formas aberrantes de fundamentalismo cristão, entre asquais os pretensos herpetólogos que testavam sua fé afagandocobras, em obediência à afirmação bíblica de que os puros decoração não devem temer o veneno das serpentes. Num sermãoque viria a ser muito citado, parafraseou Voltaire. Nunca haviaimaginado, disse, que haveria de encontrar clérigos venais a pon-to de prestarem apoio aos blasfemos que ensinavam que oprimeiro sacerdote fora o primeiro patife que conheceu oprimeiro tolo. Tais religiões estavam prejudicando a religião,disse, com o dedo em riste.Joss argumentava que em toda religião havia uma linhadoutrinária que, se ultrapassada, insultava a inteligência de seuspraticantes. Era admissível que pessoas sensatas discordassem
  • 101. quanto ao lugar em que devia ser traçada essa linha, mas asreligiôes só iam além dela por sua própria conta e risco. As pes-soas não eram idiotas, dizia. Um dia antes de morrer, enquantopunha ordem em seus negócios, o velho Rankin mandou dizer aJoss que nunca mais queria pôr os olhos nele.Ao mesmo tempo, Joss começou a ensinar que tampouco aciência dispunha de todas as respostas. Apontava incoerências nateoria da evolução. As conclusões embaraçosas, os fatos que nãose ajustavam entre si - essas coisas os cientistas varriam paradebaixo do tapete, dizia. Na verdade eles não sabem se o mundotem mesmo 4,6 bilhões de anos, do mesmo modo que o arcebis-po Ussher não sabia que a idade do planeta era de 6 mil anos.Ninguém vira.a evolução acontecer, ninguém vinha marcando 0tempo desde a Criação. ("Cento e noventa e nove quatrilhões...duzentos quatrilhões", imaginou ele certa vez o paciente crono-metrista contando os segundos desde a origem da Terra.)E também a teoria da relatividade de Einstein não havia sidocomprovada. É absolutamente impossível uma velocidade supe-rior à da luz, declarara Einstein. Como podia ele saber? Quão per-to da velocidade da luz havia ele chegado? A relatividade era ape-136nas uma forma de compreender o mundo. Einstein não tinha com-petência para restringir o que a humanidade poderia fazer nofuturo remoto. E decerto Einstein não podia impor limites ao queDeus era capaz de fazer. Não poderia Deus viajar mais depressado que a luz se Ele assim o desejasse? Não poderia Deus fazer comque nós viajássemos mais depressa que a luz se Ele assim o dese-jasse? Havia excessos na ciência e também na religião. Um homemsensato não se deixaria embair por nada disso. Eram muitas asinterpretações das Escrituras, e também do mundo natural. Ambasas coisas tinham sido criadas por Deus, de forma que tinham dese coonestar reciprocamente. Sempre que parecesse haver dis-crepância, ou o cientista ou o teólogo não havia realizado direitoseu trabalho. Talvez ambos tivessem errado.Palmer Joss combinava essa crítica imparcial à ciência e àreligião com uma ardente exortação à retidão moral e com o res-peito pela inteligência de seu rebanho. Aos poucos, foi adqui-rindo reputação nacional. Nos debates a respeito do ensino do"criacionismo científico" nas escolas, sobre a ética do aborto e ocongelamento de embriões, e ainda quanto à engenharia genéti-ca, ele procurava, à sua maneira, seguir um meio-termo, reconci-liar caricaturas da ciência e da religião. Tanto uma como outra árease sentiam afrontadas com suas intervenções, e enquanto isso suapopularidade só fazia crescer. Joss tornou-se confidente de pre-sidentes. Trechos de seus sermões eram transcritos nas páginasdos principais jornais. Entretanto, ele resistia aos muitos convitese algumas lisonjas de pessoas que queriam que fundasse uma
  • 102. Igreja eletrônica. Continuava a viver com simplicidade, e rara-mente, salvo quando convidado à Casa Branca e a congressosecumênicos, abandonava o Sul rural. Afora um patriotismo con-vencional, fazia questão de não se imiscuir em política. Numdomínio em que abundavam os concorrentes, muitos de dúbiaprobidade, Palmer Joss se tornou, em erudição e autoridademoral, o mais destacado pregador fundamentalista cristão de suaépoca.Der Heer tinha perguntado se não podiam jantar calmamenteem algum lugar. Estava chegando de viagem para um encontro137com Vaygay e a delegação soviética, no qual avaliariam os maisrecents progressos na interpretação da Mensagem. No entanto,o centro-sul do Novo México estava abarrotado de jornalistas detodo o mundo, e não havia, num raio de centenas de quilômetros,um só restaurante onde pudessem conversar sem serem observa-dos e ouvidos. Por isso, a própria Ellie preparou um jantar em seumodesto. apartamento, perto das acomodações destinadas aoscientistas visitantes no Projeto Argus. Tinham muito o que con-versar. Parecia, às vezes, que a sorte de todo o projeto pendia porum fio, a depender do humor da presidente. Mas o ligeiro estre-mecimento de expectativa que ela sentiu pouco antes da chegadade Ken era causado, percebeu vagamente, por algo mais do queisso. Joss não representava exatamente assunto de trabalho, demodo que só vieram a falar sobre ele quando punham a louça sujana máquina de lavar pratos."O homem está morto de medo", disse Ellie. "A perspectivadele é estreita. Imagina que a Mensagem será uma exegese bíbli-ca inaceitável ou alguma coisa que abale a sua fé. Não faz nenhu-ma idéia da maneira como um novo paradigma científico se su-bordina ao anterior. Quer saber o que a ciência fez por eleultimamente. E é tido como a voz da razão.""Comparado com os milenaristas da destruição e com os queacham que a Terra é o centro do universo, Palmer Joss é a mo-deração em pessoa", respondeu Der Heer. "Talvez não tenhamosexplicado os métodos da ciência tão bem quanto devíamos. Te-nho me preocupado muito com isso. Aliás, Ellie, você tem certezade que não se trata de uma mensagem..."De Deus ou do Diabo? Ken, você não está falando sério!""Bem, e que tal seres adiantados comprometidos com o quechamamos de bem ou mal, seres que uma pessoa como Joss have-ria de considerar indistinguíveis de Deus ou do Diabo?""Ken, sejam quem forem essas criaturas de Vega, garanto quenão criaram o universo. E não têm nada a ver com o Deus do Ve-lho Testamento. Lembre-se de que Vega, o Sol e todas as outrasestrelas nas proximidades do sisteIna solar se encontram numaespécie de sertão de uma galáxia absolutamente prosaica. Por que
  • 103. razão Eu Sou o Que Sou estaria por lá? Decerto ele deve ter coisasmais importantes a fazer."1,38"Ellie, você está de mãos e pés atados. Sabe que Joss tem mui-ta influência. Já fez parte do círculo de três presidentes, dentre osquais, a atual. A presidente está propensa a fazer algumas con-cessões a Joss, muito embora eu não acredite que deseje incluí-loe a um bando de outros pregadores na Comissão de Decodifi-cação preliminar, junto com você, Valerian e Drumlin... já nãofalando de Vaygay e seus colegas. É difícil imaginar os russos tra-balhando na comissão ao lado de clérigos fundamentalistas. Asituação toda poderia resolver-se com base nisso. Já que é assim,por que não conversa com ele? A presidente diz que Joss sente ver-dadeiro fascínio pela ciência. E se nós o conquistássemos?""Nós vamos converterPalmerJoss?""Não estou pensando em fazer com que ele mude de reli-gião... só imagino fazermos com que ele compreenda o objetivodo Projeto Argus, que não temos de responder à Mensagem se nãogostarmos do que ela diz, como as distâncias interestelares nosprotegem de Vega.""Ken, ele nem sequer acredita que a velocidade da luz sejaum limite cósmico. Vai ser uma conversa de surdos. Além disso,desde menina não consigo conviver bem com as religiôes con-vencionais. Minha tendência é perder a cabeça diante de incoe-rências e hipocrisias. Não tenho certeza de que esse encontro comJoss seja o que você quer. Ou o que a presidente quer.""Ellie", disse Der Heer, "eu sei em quem eu apostaria meu di-nheiro. Não vejo como conversar com Joss haveria de piorar ascoisas."Ellie retribuiu-lhe o sorriso.Com os navios rastreadores agora em posição e algunstelescópios pequenos, mas adequados, instalados em lugarescomo Reykjavik e Jacarta, tornara-se redundante a cobertura dosinal emanado de Vega, cobrindo todas as longitudes. Estava mar-cada uma conferência, em Paris, de todos os integrantes do Con-sórcio Mundial da Mensagem. Era natural que os países que dis-punham das maiores parcelas dos dados realizassem reuniõescientíficas preparatórias. Achavam-se reunidos havia quase qua-tro dias, e aquela reunião final visava principalmente colocar ho-13mens como Der Heer, que atuavam como intermediários entre oscientistas e os políticos, a par dos acontecimentos. A delegaçãosoviética, embora nominalmente encabeçada por Lunacharski,incluía vários cientistas e técnicos da mesma eminência. Entre elesestavam Genrikh Arkhangelski, que recentemente fora nomeadochefe de um consórcio espacial internacional liderado pelossoviéticos, o Intercosmos, e Timofei Gotsridze, ministro da Indús-
  • 104. tria Meio-Pesada e membro do Comitê Central.Era óbvio que Vaygay se sentia submetido a pressões inco-muns, pois voltara a fumar um cigarro atrás do outro. Enquantofalava, segurava o cigarro entre o polegar e o indicador, com apalma da mão para cima."Concordo em que há uma sobreposição adequada no quediz respeito a longitudes, mas ainda assim estou preocupado coma redundância. Se houver uma falha no sistema de liquefação dehélio a bordo do Marechal Nedelin ou falta de energia em Reyk-javik, a continuidade da Mensagem ficará ameaçada. Supo-nhamos que a Mensagem leve dois anos para retornar ao princí-pio. Se nos faltar uma parte, teremos de esperar dois anos paracobrir a lacuna. E cabe lembrar que não sabemos se a mensagemserá repetida. Se não houver repetição, as lacunas nunca serãopreenchidas. Acho que temos de estar preparados até para possi-bilidades implausíveis.""Em que está pensando?", perguntou Der Heer. "Algo comogeradores de emergência para todos os observatórios do consór-cio?""Exatamente. E também amplificadores, espectrômetros,autocorrelacionadores e unidades de armazenamento em discos,e assim por diante, tudo independente, em todos os obser-vatórios. E ainda planos para transporte aéreo rápido de héliolíquido até observatórios distantes, se for necessário.""Ellie, você concorda?""Inteiramente.""Alguma coisa mais?""Acho que devemos continuar a observar Vega numa faixa defreqüências muito ampla", disse Vaygay. "Talvez amanhã venhauma mensagem diferente através de apenas uma das freqüências.Além disso, deveríamos monitorar outras regiões do céu. É pos-140sível que a chave para a Mensagem não venha de Vega, mas deoutro ponto...""Eu gostaria de dizer por que acho importante o ponto devista de Vaygay", aduziu Valerian. "Estamos numa situação singu-lar, pois recebemos uma mensagem mas não avançamos um cen-tímetro no sentido de decifrá-la. Não temos nenhuma experiênciaanterior nessa área. Temos de nos proteger de todos os lados. Nãovamos querer que, daqui a um ano ou dois, estejamos arrancan-do os cabelos por havermos deixado de tomar alguma precauçãosimples ou de fazer algum cálculo óbvio. A idéia de que a Men-sagem venha a se repetir é simples palpite. Não há nada nela, atéonde saibamos, que justifique essa convicção. Qualquer oportu-nidade perdida agora poderá estar perdida para sempre. Concor-do também em que é preciso ir avante com o aperfeiçoamento doinstrumental. Não temos como deixar de crer que o palimpsesto
  • 105. encerre uma quarta camada.""Além disso, temos a questão do pessoal", prosseguiu Vay-gay. "Suponhamos que essa mensagem não continue durante umano ou dois, mas durante décadas. Ou suponhamos que esta sejaapenas a primeira de uma longa série de mensagens, provenientesde todos os quadrantes do céu. Existem em todo o mundo, nomáximo, algumas centenas de radioastrônomos de grande com-petência. Trata-se de um número irrisório em relação à importân-cia da questáo. Os países industrializados devem começar atreinar muito mais radioastrônomos e engenheiros de rádio deprimeira linha."Ellie notou que Gotsridze, que pouco havia falado, faziaapontamentos pormenorizados. Mais uma vez ela admirou afluência dos soviéticos em inglês, muito maior que a dos ameri-canos em russo. Por volta do começo do século, os cientistas detodo o mundo falavam (ou ao menos liam) alemão. Antes disso, alíngua dominante fora o franc.ês e, antes ainda, o latim. Era pos-sível que daí a um século a língua universal da ciência houvessemudado... seria chinês? No momento era o inglês, e em todo 0planeta os cientistas lutavam para dominar suas ambigüidades eirregularidades.Acendendo um cigarro na ponta do outro, Vaygay prosse-guiu. "Há ainda uma outra coisa. Trata-se apenas de especulação.141É ainda menos plausível que a idéia de que a Mensagem há deretornar ao princípio... e que o professor Valerian descreveu, acer-tadamente, como mero palpite. Eu preferiria não tocar numa idéiatão desprovida de base a esta altura dos acontecimentos. Noentanto, se a especulação estiver correta, temos de começar a pen-sar em certas coisas imediatamente. Eu não teria ânimo de levan-tar essa possibilidade se o acadêmico Arkhangelski não tivessechegado, por aproximações, à mesma conclusão. Ele e eu temosdiscordado sobre a quantificação dos deslocamentos para o ver-melho dos quasares, a explicação das fontes luminosas superlu-minais, a massa de repouso do neutrino, a física dos quarks emestrelas de nêutrons... Temos discordado com relação a muitascoisas. Tenho de admitir que às vezes ele tinha razão, às vezes eu.Quase nunca concordamos na fase especulativa de um assunto.Entretanto, sobre isto estamos de acordo."Genrikh Dmittch, não seria melhor você explicar?"Arkhangelski tinha no rosto uma expressão indulgente,quase risonha. Durante anos ele e Lunacharski haviam mantidointensa rivalidade pessoal, travando acesas discussões científicase uma famosa controvérsia em torno do nível mais prudente deapoio à pesquisa soviética sobre a fusão nuclear."Supomos", disse ele, "que a Mensagem represente as instru-ções para a construção de uma máquina. Evidentemente, não
  • 106. temos nenhuma pista para a sua decodificação. Baseamo-nos nasreferências internas. Vou dar um exemplo. Aqui, na página 15441,há uma clara referência a uma página anterior, a 13097. Por sorte,temos também esta última. A página 15441 foi recebida aqui noNovo México, e a outra em nosso observatório perto de Tashkent.Na página 13097, há outra referência, essa a uma época em que nãoestàvamos cobrindo todas as longitudes. São muitas essas referên-cias a material anterior. De modo geral, e isto é que é importante,há instruções complexas numa página recente, mas instruçôesmais simples numa página anterior. Em determinado caso, existemoito menções a material prévio de uma única página.""Não creio que esse argumento seja concludente, meus ami-gos", disse Ellie. "Talvez seja um conjunto de exercícios matemáti-cos nos quais os posteriores sejam um desenvolvimento dos ante-riores. Talvez seja um longo romance... eles poderiam ter vidas142muito longas em comparação com as nossas... no qual os acon-tecimentos estejam relacionados com experiências da infância ouqualquer coisa dessa natureza que aconteça em Vega quando sãojovens. Talvez seja um manual religioso com grande número dereferências cruzadas.""Os 10 Bilhões de Mandamentos", brincou Der Heer."Pode ser", disse Lunacharski, olhando para os telescópiosatravés de uma nuvem de fumaa de cigarro. Pareciam fitaransiosamente o céu. "Mas quando você examinar essas referên-cias cruzadas, acho que vai concordar conosco: lembram muitoum manual de instruções para a construção de uma máquina. SóDeus sabe para que ela pode servir."1439O NUMINOSOO assombro é o fundamento do culto.Thomas Carlyle, Sartorresartus, (1833-1834)Sustento que o sentimento religioso cósmicoconstitui a mais nobre e forte motivação para apesquisa científica.Albert Einstein, Idéias e opini«es (1954)Ellie lembrava-se do momento exato em que, numa de suasmuitas viagens a Washington, descobriu que estava se apaixo-nando por Ken der Heer.Os acertos para o encontro com Palmer Joss pareciam estardurando uma eternidade. Joss relutava em visitar as instalações doArgus; o que lhe interessava, dizia ele agora, era a impiedade doscientistas, não sua interpretação da Mensagem. E para sondar ocaráter deles era preciso um terreno mais neutro. Ellie estava dis-posta a se encontrar com Joss em qualquer lugar, e um assistenteespecial da presidente entabulava as negociações. Ao encontro
  • 107. não compareceriam outros radioastrônomos; a presidente queriadue Ellie fosse sozinha.Além disso, Ellie estava à espera do dia, daí a algumas sema-nas, em que viajaria a Paris para a primeira reunião plenária doConsórcio Mundial da Mensagem. Ela e Vaygay estavam coorde-nando o programa global de coleta de dados. O recebimento dosinal já se tornara então rotineiro, e nos últimos meses não tinha144havido uma só lacuna na cobertura. Por isso, percebeu, com cer- ta surpresa, que dispunha de algum tempo vago. Prometeu a siprópria ter uma longa conversa com a mãe, dispondo-se a se man-ter cortês e gentil, qualquer que fosse a provocação. Houvera umacúmulo absurdo de papelada e correspondência eletrônica, nãosó congratulações e críticas de colegas, como também admoes-tações religiosas, especulações pseudocientíficas propostas comgrande segurança, e cartas de admiradores de todo o mundo.Fazia meses que ela não lia TheAstrophysicalJournal, muito em-bora tivesse contribuído com uma tese que era, com toda a segu-rança, o artigo mais extraordinário que já aparecera naquela dou-ta publicação. O sinal de Vega era tão forte que muitos amadores,cansados das rotineiras comunicações entre eles próprios, haviam ¡começado a construir pequenos radiotelescópios e analisadoresde sinal. Nos primeiros estágios da captação da Mensagem, ti-nham fornecido dados úteis, e Ellie ainda era assediada por ama-dores que supunham saber alguma coisa que os profissionais daNrET ignorassem. Sentia-se na obrigação de escrever cartas de estí-mulo. Além disso, o Projeto levava a cabo outros importantes pro-gramas de radioastronomia, como o levantamento dos quasares,e era preciso dar-Ihes atenção. Entretanto, em vez de fazer todasessas coisas, ela se viu passando quase todo o tempo na compa-nhia de Ken.Evidentemente, cabia-lhe fazer com que o consultor de ciên-cias da presidência se envolvesse profundamente no ProjetoArgus. Era importante que a presidente se mantivesse bem infor-mada. Ellie esperava que os líderes de outros países fossem pos-tos a par dos acontecimentos relativos à Mensagem tão bem quan-to a presidente dos Estados Unidos. Embora não fosse umacientista, a presidente gostava realmente do assunto e estava dis-posta a dar apoio ã ciência, não só devido a seus benefícios práti-cos como também, ao menos um pouco, pelo puro prazer dosaber. Poucos dirigentes do país, desde James Madison e JohnQuincy Adams, haviam demonstrado essa atitude.Ainda assim, era notável o tempo que Der Heer se dispunhaa passar no Argus. Na verdade, ele dedicava uma hora ou poucomais, diariamente, às comunicações em código, realizadas em altocomprimento de banda, com seu Departamento de Política de145
  • 108. Ciência e Tecnologia, em Washington. Contudo, no restante dotempo, até onde Ellie podia perceber, ele simplesmente... ficavapor ali. Metia o nariz nas entranhas do sistema de computadoresou examinava de perto os radiotelescópios. Às vezes tinha a com-panhia de um assistente chegado de Washington; no mais dasvezes, estava sozinho. Ellie o avistava pela porta, sempre aberta,da sala que lhe haviam dado, com os pés em cima da mesa, lendoalgum relatório ou falando ao telefone. Der Heer cumprimenta-va-a alegremente, com um aceno, e voltava ao trabalho. Às vezesela o encontrava conversando descontraidamente com Drumlinou Valerian, mas também com técnicos subalternos ou com asmoças da administração, que em mais de uma ocasião o haviamchamado, ao alcance dos ouvidos de Ellie, de "charmoso".Também a ela Der Heer fazia muitas perguntas. De início,eram puramente técnicas ou metodológicas, mas logo ele passoua sugerir uma ampla variedade de fatos futuros concebíveis e,mais tarde, descambou para a especulação desenfreada. Nessesdias, era quase como se as conversas sobre o projeto não passas-sem de pretexto para passarem algum tempo juntos.Numa bela tarde de outono, em Washington, a presidente seviu forçada a adiar uma reunião do Grupo-Tarefa Especial deEmergência por causa da crise Tyrone Free. Após um vôo noturnodo Novo México à capital, Ellie e Der Heer viram-se com algumashoras livres e resolveram visitar o monumento aos mortos do Viet-nam, projetado por Maya Ying Lin quando ainda estudante dearquitetura em Yale. Entre as sombrias e melancólicas recor-dações de uma guerra insensata, Der Heer mostrou uma alegriade todo imprópria, e Ellie mais uma vez se pôs a conjecturar se elenão teria falhas de personalidade. Dois agentes de segurança, àpaisana, seguiam-nos discretamente; usavam seus minúsculosfones de ouvido, cor de carne.Der Heer fizera com que uma linda lagarta azul subisse numpauzinho. O animal avançava resolutamente, ondulando o corpoiridescente com os movimentos de seus catorze pares de pernas.No fim da vareta, segurava-se com os cinco últimos segmentos ese agitava no ar, numa valente tentativa de encontrar novo apoio.Não conseguindo êxito, virava-se em torno de si mesmo e refaziao longo caminho. Entào, Der Heer segurava o pauzinho com a146outra mão, de modo que, quando a lagarta chegava ao ponto departida, mais uma vez não achava aonde ir. Como um mamíferocarnívoro enjaulado, a lagarta caminhou de um lado para outrovárias vezes; nas últimas passagens - Ellie teve a impressão -,com crescente impaciência. Ela começava a sentir pena da pobrecriatura."Que programa maravilhoso existe na cabecinha dessa coisa!",exclamou Der Heer. "Funciona sempre... um programa ideal de
  • 109. fuga. E ela sabe como não cair. Quero dizer, o pauzinho está, paratodos os efeitos práticos, solto no ar. A lagarta nunca passa por essaexperiência na natureza, pois o pauzinho está sempre ligado a algu-ma coisa. Você já imaginou, Ellie, como seria ter esse programa nasua cabeça? Quero dizer, seria óbvio para você o que deveria fazerquando chegasse ao fim de um pauzinho? Você teria a impressãode estar raciocinando? Você ficaria imaginando como é que sabiabalançar seus dez pés anteriores no ar, enquanto se segurasse firmecom os outros dezoito?"Ellie inclinou ligeiramente a cabeça e examinou Der Heer,não a lagarta. A ele não parecia difícil imaginá-la como um inseto.Tentou responder de modo neutro, lembrando-se de que para eleaquilo representava um interesse profissional."Que vai fazer com a lagarta agora?""Ora, vou colocá-la na grama. Que mais poderia fazer?""Algumas pessoas a matariam.""É difícil matar uma criatura depois que se tem um vislumbrede sua consciência." Der Heer continuou a carregar tanto o pau-zinho como a lagarta.Caminharam durante algum tempo em silêncio, passandopelos quase 55 mil nomes gravados no reluzente granito negro."Quando se prepara para a guerra, todo governo pinta seusadversários como monstros", disse Ellie. "Não querem que se vejao outro lado como humano. Se o inimigo é capaz de pensar e sen-tir, pode-se hesitar em matá-lo. E matar é de máxima importância.É melhor vê-los como monstros.""Veja só esta beleza", respondeu Der Heer depois de ummomento. "Olhe bem de perto."Ellie olhou. Reprimindo certo estremecimento de repugnân-cia, tentou ver a lagarta através dos olhos de Der Heer.147"Veja o que ela faz", continuou ele. "Se fosse grande comovocê ou eu, mataria todo mundo de medo. Seria um monstro deverdade, certo? Mas ela é pequena. Come folhas, trata de sua vidae acrescenta um pouco de beleza ao mundo."Ellie deu a mão a Der Heer, em nada interessada na lagarta,e caminharam sem dizer palavra pelas fileiras de nomes, gravadasem ordem cronológica de morte. Aquelas eram, naturalmente,apenas as baixas americanas. A não ser nos corações das famíliase dos amigos, não havia em parte alguma do planeta um monu-mento semelhante em memória dos 2 milhões de pessoas do Su-deste asiático que também haviam morrido no conflito. Nos Esta-dos Unidos, o comentário público mais comum acerca daquelaguerra dizia respeito à utilização política do poder militar, psico-logicamente semelhante, no entender de Ellie, ao "apunhalamen-to pelas costas" com que os militaristas alemães explicavam suaderrota na Primeira Guerra Mundial. A guerra do Vietnam era uma
  • 110. pústula na consciência nacional que até então nenhum presidentetivera a coragem de perfurar. (As políticas subseqüentes daRepública Socialista do Vietnam não haviam facilitado a tarefa.)Ellie lembrava-se dos epítetos ofensivos com que os soldadoamericanos mimoseavam seus adversários vietnamitas. Seria possível resolver a próxima fase da história humana sem antes pôr fina essa tendência a desumanizar o adversário?Nas conversas do dia-a-dia, Der Heer não parecia um cientista. Se alguém o encontrasse numa banca de esquina, comprando um jornal, jamais lhe adivinharia a profissão. Ele nem mesmohavia perdido seu sotaque das ruas de Nova York. A princípio,evidente incongruência entre sua linguagem e a qualidade de seutrabalho científico parecia engraçada a seus colegas. À medidaque seus estudos, assim como ele próprio, se tornavam mais conhecidos, seu sotaque passava a ser visto como simples idiossicrasia. No entanto, o modo como ele pronunciava palavras cortrifosfato de guanosina parecia dar a essa inofensiva moléculapropriedades explosivas.Só lentamente se haviam dado conta de que estavam apaixonados, o que devia ser evidente para muitas outras pessoas.148Algumas semanas antes, enquanto Lunacharski ainda se encon-trava no Argus, ele se entregava a uma de suas arengas ocasionaissobre a irracionalidade da linguagem. Agora, o que estava na ber-linda era o inglês."Ellie, por que as pessoas dizem "cometer o mesmo erro outravez? O que é que "outra vez acrescenta à frase?" E dera outrosexemplos de incoerência.Ellie assentira, meio desinteressada. Já o ouvira queixar-se aseus colegas soviéticos, mais de uma vez, das contradições do rus-so, e tinha certeza de que escutaria uma edição francesa de tudoaquilo na conferência de Paris. Não negava que as línguas tinhamseus barbarismos, mas tantas eram as suas fontes e elas haviamevoluído em reação a tantas pequenas pressões que o espantososeria que fossem perfeitamente coerentes. No entanto, Vaygaydivertia-se tanto com esses comentários que normalmente ela nãotinha ânimo para reclamar."E veja essa expressão inglesa, "head overheels in love", con-tinuou ele. "É uma expressão bem comum, não é? Mas está inteira-mente invertida. Ou melhor, de cabeça para baixo. Normalmente,a pessoa anda com a cabeça acima dos calcanhares. Quando seapaixona é que fica com os calcanhares acima da cabeça. Certo?Você deve entender desse negócio de amor. Mas quem inventouessa expressão não entendia nada do assunto. Imaginava que aspessoas andassem da maneira normal, em vez de flutuarem no arde cabeça para baixo, como nos quadros daquele pintor francês...como é mesmo o nome dele?"
  • 111. "Ele era russo", respondeu Ellie. Marc Chagall possibilitarauma estreita saída daquele cipoal um tanto desagradável. Maistarde ela ficou a imaginar se Vaygay pretendera brincar ou se real-mente se esquecera do nome de Chagall. Talvez tivesse perce-bido, inconscientemente, o crescente vínculo entre ela e DerHeer.Pelo menos parte da relutância de Der Heer tinha uma expli-cação clara. Ele, o consultor de ciências da presidência, estavaded.icando um tempo enorme a uma questão sem precedentes,delicada e explosiva. Envolver-se afetivamente com Ellie, uma daspessoas mais importantes em tudo aquilo, seria arriscado. A pre-sidente decerto desejaria que Der Heer mantivesse intata sua149capacidade de julgamento. Ele deveria ser capaz de recomendarcaminhos a que Ellie talvez se opusesse, recomendar a rejeição dealternativas por ela aprovadas. Ligar-se a Ellie prejudicaria, dealgum modo, a eficácia de Der Heer.Para Ellie, a situação era ainda mais complicada. Antes dehaver adquirido a respeitabilidade que lhe conferia o cargo dediretora de um grande radiobservatório, tivera vários amantes.Embora se sentisse apaixonada, e assim se declarasse, o casa-mento nunca a tentara seriamente. Lembrava-se vagamente daquadrinha (seria de William Butler Yeats?) com a qual tentava con-solar seus antigos amantes quando decidia que o caso haviaacabado:Dizes tu, meu amor, que amorsó valeQuando infïnito. Que hohagem essa!Neste teatro da vida que vivemos,Momentos há melhores do que a peça...Lembrava-se de como John Staughton havia sido gentil emrelação a ela enquanto cortejava sua mãe, e com que facilidadedeixara de lado essa pose ao se tornar seu padrasto. Uma perso-nalidade nova e monstruosa, até então mal percebida, podia sur-gir nos homens logo depois que se casavam. Ela não repetiria oerro da mãe. Além disso, havia o temor de se apaixonar sem reser-vas, de se entregar a alguém que pudesse depois lhe ser arranca-do. Ou que simplesmente a abandonasse. Mas, se a pessoa nun-ca se apaixona de verdade, jamais pode realmente sentir faltadisso. (Mas não se detinha por muito tempo nessa argumentação,pois percebia vagamente que não era real.) Além disso, se elajamais se apaixonasse realmente por uma pessoa, nunca poderiaverdadeiramente traí-la, como no fundo do coração achava que amãe traíra o pai. Ainda sentia tremenda falta dele.Com Ken, as coisas pareciam ser diferentes. Ou, por acaso,suas expectativas haviam diminuído no correr dos anos? Ao con-trário de muitos outros homens de quem ela se lembrava, quandodesafiado ou em situação de tensão Ken revelava um lado mais
  • 112. delicado, mais compassivo. A tendência para a conciliação e ahabilidade no trato da política da comunidade científica eramparte do seu trabalho; por baixo disso, entretanto, Ellie tinha aimpressão de ter vislumbrado alguma coisa de sólido. Ela o150No fim de semana que antecedeu o encontro marcado comJoss, estavam deitados na cama, enquanto o sol da tarde, queentrava pelas venezianas, projetava desenhos geométricos emseus vultos entrelaçados."Nas conversas cotidianas", dizia Ellie, "posso falar sobremeu pai sem sentir mais do que... uma ligeira pontada de tristeza.Mas se me permito realmente lembrar-me dele... de seu senso dehumor ou daquela... imparcialidade passional... então a fachadadesmorona e sinto vontade de chorar.""Entendo perfeitamente. A linguagem nos exime dos senti-mentos, ou quase isso", respondeu Der Heer, afagando-lhe oombro. "É possível que essa seja uma de suas funções... compreen-dermos o mundo sem sermos inteiramente esmagados por ele.""Se isso for verdade, então a invenção da linguagem foi maisque uma bênção. Sabe, Ken, eu daria qualquer coisa... digo qual-quer coisa mesmo... para poder passar alguns minutos com meupai."Ellie imaginou um céu com todas as mamães e papais flu-tuando ou batendo as asas na direção de uma nuvem próxima.Teria de ser um lugar bastante espaçoso para acomodar todas asdezenas de bilhões de pessoas que tinham vivido e morrido des-de o surgimento da espécie humana. Esse lugar devia ser muitocongestionado, pensou, a não ser que o céu da religião tivesseuma escala comparável à do céu astronômico. Se não fosse assim,não haveria lugar que desse."Deve haver algum número", disse Ellie, "que meça a popu-lação total de seres inteligentes na Via Láctea. Que número vocêacha que é esse? Se houver um milhão de civilizações, cada umacom um bilhão de indivíduos, teremos então, hum... um númerode seres inteligentes igual a dez elevado à décima quinta potên-cia. Mas se a maioria dessas civilizações for mais adiantada doque a nossa, talvez a idéia de indivíduos se torne imprópria.Talvez isso seja apenas mais um chauvinismo terráqueo.""Certíssimo. E nesse caso você pode calcular a produçãogaláctica de Gauloises, Twinkies, sedãs Volga e transmissores debolso Sony. Poderíamos então calcular o Produto Galáctico Bru-to. Uma vez efetuado esse cálculo, poderíamos avaliar o ProdutoCósmico..."152"Você está caçoando de mim", disse Ellie com um sorriso."Mas pense nesses números. Pense mesmo. Todos aqueles plane-tas, com todos aqueles seres, mais avançados do que nós. Não fica
  • 113. um pouco atordoado pensando nessas coisas?" Ellie adivinhava oque ele estava pensando, mas continuou. "Escute, veja isto. Estivelendo alguma coisa para o encontro com Joss."Estendeu a mão na direção da mesinha-de-cabeceira e pegouo volume 16 de uma velha edição da Encyclopaedia britannicamacropedia. Na lombada estava escrito "Rubens a Somália". Abriuuma página marcada com um pedaço de papel de computador.Mostrou um artigo intitulado "Sagrado e santo"."Os teólogos parecem ter reconhecido um aspecto especial,não racional... eu não diria irracional... da sensação do sagrado oudo santo. Chamam isso de "numinoso. O termo foi usado pelaprimeira vez por... vamos ver... uma pessoa chamada Rudolf Otto,num livro publicado em 1923, A idéia do sagrado. Ele acreditavaque os seres humanos estavam predispostos a detectar e veneraro numinoso. Chamou isso de misterium tremendum. Até o meulatim é suficiente para entender isso. Na presença do misteriumtremendum, as pessoas se sentem absolutamente insignificantes,mas, se entendi bem, não alienadas pessoalmente. Rudolf Ottoconsiderava o numinoso como uma coisa de "completa alteridadee a reação humana a ele como sendo de "absoluto pasmo. Se é aisso que as pessoas religiosas se referem quando usam palavrascomo sagrado ou santo, estou com elas. Já senti alguma coisaparecida só ao operar o radiotelescópio, à espera de um sinal,quanto mais ao recebê-lo de verdade. Acho que tudo na ciênciaprovoca essa sensação de pasmo. Agora, escute isso." Ellie leu otexto:No decurso dos últimos duzentos anos, vários filósofos e cientistassociais têm postulado o desaparecimento do sagrado e previsto ofim da religião. Um estudo da história das religiões mostra que asformas religiosas sofrem mutação e que nunca houve unanimidadecom relação à natureza e à manifestação da religião. O fato de ohomem [...]"É claro que os textos religiosos também são escritos pormachistas." Ellie voltou ao texto.153O fato de o homem se achar ou não numa nova situação para ela-borar estruturas de valores supremos radicalmente diferentes dosproporcionados pela consciência tradicional do sagrado constituiuma questão vital."E daí?""E daí que eu acho que as religiões burocráticas procuraminstitucionalizar nossa percepção do numinoso, em vez de pro-porcionar os meios para que se perceba diretamente o numi-noso... como olhar através de um telescópio de quinze centíme-tros. Se perceber o numinoso constitui a essência da religião,quem você diria que é mais religioso: as pessoas que seguem areligião burocratizada ou as pessoas que estudam a ciência?"
  • 114. "Vamos ver se entendi direito", respondeu Der Heer. Era umafrase de Ellie que ele havia adotado. "É uma tranqüila tarde desábado, e um casal está nu na cama, lendo a Encyclopaeclia bri-tannica e discutindo se a galáxia de Andrômeda é mais "numi-nosa que a Ressurreição. Eles sabem se divertir, não é mesmo?"154Parte 2A MÁQUINAO Mestre Todo-Poderoso, ao exibir os princípiosda ciência na estrutura do universo, convidou ohomem ao estudo e à emulação. É como se Elehouvesse dito aos habitantes deste globo a quechamamos nosso: "Fiz um mundo para que neleo homem viva, e tornei visível o firmamentoestrelado a fim de lhe ensi nar a ciência e as artes.Ele agora pode prover seu próprio conforto eaprender, com minha munificência, a serge-nerosopara com opróximo".Thomas Paire, A idade da razão (1794)PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOSAo acreditarmos que os deuses existem, porven-tura nos iludimos com sonhos e mentiras irreais,enquanto somente o acaso e a mudança, des-cuidados efortuitos, regem o mundo?Eurípedes, HécubaFoi estranha a maneira como as coisas acabaram acontecen-do. Ellie havia imaginado que Palmer Joss fosse ao Argus, assis-tisse à captação do sinal pelos radiotelescópios e observasse a salaimensa, cheia de fitas e discos magnéticos, nos quais estavamarmazenados os dados colhidos durante muitos meses. Faria algu-mas perguntas científicas e depois examinaria, em sua multiplici-dade de zeros e uns, algumas das resmas de folhas de computa-dor que registravam a Mensagem ainda incompreensível. Ellienão havia imaginado passar horas discutindo filosofia ou teologia.No entanto, Joss havia se recusado a ir até o Projeto. O que dese-java observar não eram fitas magnéticas, disse, e sim o cérebrohumano. Peter Valerian teria sido a pessoa ideal para aquela dis-cussão: modesto, capaz de se comunicar com clareza e salva-guardado por uma genuína fé cristã que o absorvia continua-mente. Todavia, aparentemente a presidente vetara a idéia; queriauma reunião com um mínimo de pessoas e pedira explicitamenteque fosse Ellie a interlocutora de Joss.O pregador insistira em que o encontro se realizasse ali, noInstituto e Museu de Pesquisa Científica da Bíblia, em Modesto,157Califórnia. Ellie lançou um olhar além de Der Heer, pela divisóriade vidro que separava a biblioteca da área de exposição do acer-
  • 115. vo. Logo depois do vidro havia uma impressão em gesso, tiradade um arenito do rio Vermelho, que mostrava pegadas de dinos-sauro misturadas com a de um caminhante calçado com sandálias,o que provava, segundo a legenda, que o Homem e o Dinossauroeram contemporâneos, pelo menos no Texas. Implicitamente,teriam existido também sapateiros no Mesozóico. A conclusão ainferir da legenda era que a evolução não passava de fraude. Oparecer de muitos paleontologistas, de que a fraude no caso era oarenito, não era sequer mencionada, como observara Ellie duashoras antes. As pegadas humanas faziam parte de uma enormeexposição intitulada "A má-fé de Darwin". À sua esquerda haviaum pêndulo de Foucault que demonstrava a assertiva científica,esta aparentemente incontestada, de que a Terra gira em torno desi mesma. À direita, Ellie via parte de uma magnífica unidade Mat-sushita de holografia, através da qual imagens tridimensionaisdas mais eminentes divindades podiam comunicar-se diretamentecom os fiéis.Naquele momento quem se comunicava ainda mais direta-mente com ela era o reverendo Billy Jo Rankin. Ellie não soubera,até o último instante, que Joss convidara Rankin, e ficou surpresacom a notícia. Os dois haviam travado contínuas disputas teoló-gicas; entre outras questões, se o Advento estava próximo, se oJuízo Final acompanharia necessariamente esse Advento, e qual opapel dos milagres no ministério religioso. Recentemente, porém,haviam se reconciliado com muita publicidade, visando, segundose disse, o bem comum da comunidade fundamentalista dos Esta-dos Unidos. Os sinais de aproximação entre Estados Unidos eUnião Soviética estavam gerando ramificações, em todo o mun-do, no arbitramento de litígios. Realizar o encontro ali talvez fos-se parte do preço que Palmer Joss tivera de pagar pela reconci-liação. Provavelmente, Rankin acreditava que a exposição haveriade proporcionar apoio fatual à sua posição, no caso de haver con-trovérsia com relação a questões científicas. Agora, duas horasdepois de iniciada a discussão, Rankin ainda alternava críticas esúplicas. O corte de seu terno era perfeito, as unhas tinham sidotratadas havia pouco e seu sorriso radioso contrastava com o158aspecto de Joss, mais amarfanhado, distraído e castigado pelotempo. Com um leve sorriso no rosto, Joss tinha os olhos semi-cerrados e a cabeça baixa, quase em atitude de oração. Não falaramuito. Até então, as observações de Rankin - com exceção dareferência ao Êxtase, achava Ellie-eram doutrinariamente indis-tinguíveis da alocução de Joss pela televisão."Vocês, cientistas, são demasiado tímidos", dizia Rankin."Gostam de esconder os próprios méritos. Pelos títulos, ninguémsabe jamais o que dizem os artigos. O primeiro trabalho de Einsteinsobre a teoria da relatividade tinha o nome de "A eletrodinâmica
  • 116. dos corpos em movimento. Nada de E = mc= logo de saída. Nadadisso! "A eletrodinâmica dos corpos em movimento. Imagino quese Deus aparecesse a um bando de cientistas, talvez numa daque-las enormes reuniões da associação, eles viessem a escrever algu-ma coisa a respeito e dar um título como "Sobre a combustãoespontânea dendritiforme no ar. Apresentariam uma porção deequações; falariam sobre "economia de hipótese; mas não diriamuma única palavra a respeito de Deus. Vocês, cientistas, sãodemasiado céticos." Pelo movimento lateral de cabeça feito porRankin, Ellie deduziu que Der Heer também estava incluído naavaliação. "Questionam tudo, ou tentam questionar. Estão semprequerendo verificar se uma coisa é o que chamam de "verdadeira.E "verdadeiro significa apenas dados empíricos, sensoriais, coisasque vocês possam ver e tocar. Não existe lugar, no mundo devocês, para a inspiração ou a revelação. Logo de saída, eliminamquase tudo de que trata a religião. Suspeito dos cientistas porqueos cientistas suspeitam de tudo."Apesar de tudo, Ellie achou que Rankin havia exposto muitobem seu ponto de vista. E ele era tido como o bronco entre osmodernos evangelistas da tv. Não, corrigiu-se ela; era ele que con-siderava broncos seus paroquianos. Talvez ele fosse atiladíssimo.Deveria responder? Tanto Der Heer como o pessoal do museuestavam gravando o debate, e, embora os dois lados houvessemcombinado que as gravações não seriam para uso público, elatemia deixar mal o Projeto ou a presidente se expusesse clara-mente suas opiniões. No entanto os comentários de Rankin vi-nham ganhando crescente virulência, e nem Der Heer nem Jossfaziam nenhuma intervenção.159"Imagino que o senhor queira ouvir uma resposta", ela acaboufalando. "Não existe uma posiçào científica "oficial a respeito denenhuma dessas questões, e não posso me arvorar a falar em nomede todos os cientistas ou até mesmo em nome do Projeto Argus. Masposso fazer alguns comentários, se o senhor desejar."Rankin assentiu com um vigoroso gesto de cabeça, sorrindoencorajadoramente. Apático, Joss ficou apenas esperando."Quero que compreendam que não estou atacando as con-vicçôes de ninguém. No que me diz respeito, os senhores têmdireito a acreditar nas doutrinas que desejarem, mesmo que sejamclaramente errôneas. E muitas das coisas que o senhor está dizen-do, reverendo Rankin, e que também o reverendo Joss disse...assisti a seu programa na televisão, há algumas semanas... nãopodem ser negadas frontalmente. Isso exigiria justificativas umtanto prolongadas. Entretanto, permitam-me explicar por quecreio que são improváveis."Até aqui, pensou Ellie, fui a contenção em pessoa."O senhor vê com maus olhos o ceticismo científico. Mas há
  • 117. um motivo para esse ceticismo ter surgido. O mundo é complica-do. É sutil. A primeira idéia que passa pela cabeça de uma pessoanão será necessariamente correta. Além disso, as pessoas sãocapazes de iludir a si mesmas. Até mesmo os cientistas. Todas asdoutrinas socialmente abomináveis já foram, numa ou em outraépoca, apoiadas por cientistas, cientistas conhecidos, cientistas degrande renome. E, naturalmente, por políticos. E por líderes reli-giosos respeitados. Por exemplo, a escravidão, ou a variedadenazista do fascismo. Os cientistas cometem erros, os teólogoscometem erros, todo mundo comete erros. Isso faz parte dohomem. Os senhores mesmos dizem: "Errar é humano."Assim, a maneira que se tem para evitar os erros, ou pelo me-nos reduzir as possibilidades de se cometerem erros, consiste emser cético. Põem-se as idéias à prova. Elas são verificadas através denormas rigorosas. Não acredito que existam verdades recebidas.Mas quando se permite o entrechoque de opiniões divergentes,quando qualquer cético pode realizar sua própria experiência a fimde comprovar a verdade ou a falsidade de alguma idéia, então a ver-dade tende a aparecer. Essa é, em síntese, toda a história da ciência.Não é um caminho perfeito, mas é o único que parece funcionar.160"Ora, quando olho para a religião, vejo grande número deopiniões contraditórias. Por exemplo, os cristãos acreditam que ouniverso tenha um número finito de anos, desde a sua criação. Deacordo com as peças expostas ali fora, fica claro que algunscristãos (e também judeus e muçulmanos) julgam que o universotem apenas 6 mil anos de idade. Os hindus, por outro lado... e háuma quantidade enorme de hindus no mundo... acham que o uni-verso é infinitamente antigo, tendo havido um número infinito decriações e destruições complementares. Ora, não é possível queas duas posições estejam corretas. Ou o mundo tem uma idadedeterminada ou é infinitamente velho. Seus amigos ali..." Ellie fezum gesto na direção da porta de vidro, além da qual vários empre-gados do museu perambulavam de um lado para outro. "...deve-riam debater com os hindus. Deus parece ter dito a eles uma coisadiferente do que disse ao senhor. Entretanto, os religiosos têmuma tendência a falarem sozinhos."Terei sido contundente demais?, pensou Ellie."As principais religiões da Terra se contradizem a torto e a direito. Não é possível que todos os senhores estejam certos. E seestiverem todos errados? A possibilidade existe, hão de admitir.Devem preocupar-se com a verdade, certo? Bem, a melhor ma- neira de se distinguir a verdade da falsidade consiste em manteruma atitude de ceticismo. Não sou mais cética em relação às con-vicções religiosas dos senhores do que em relação a toda idéiacientífica nova de que tomo conhecimento. Entretanto, em minhaprofissão, essas idéias chamam-se hipóteses, não inspiração ou
  • 118. revelação."Joss mexeu-se um pouco, mas foi Rankin quem respondeu."As revelações, as predições confirmadas de Deus, no Velhoe no Novo Testamento, são numerosíssimas. A vinda do Salvadorfoi prevista em Isaías, 53; em Zacarias, 14; e nas Crônicas I, 17. QueEle nasceria em Belém estava profetizado em Miquéias, 5. Que Elepertenceria à casa de Davi, já fora predito em Mateus, 1, e..."Em Lucas. Entretanto, isso deveria representar para o senhorum motivo de embaraço, não uma profecia cumprida. Mateus eLucas dão para Jesus genealogias completamente diferentes. Piorainda, traçam a genealogia de Davi a José, e náo de Davi a Maria.Ou o senhor não acredita em Deus Pai?"161Rankin continuou a falar, imperturbável. Talvez não a hou-vesse compreendido....o ministério e a Paixão de Jesus são previstos em Isaías, 52e 53, bem como no Salmo 22. Que Ele seria traído por trinta di-nheiros está explícito em Zacarias, 11. Se a senhora for honesta,não pode deixar de levar em consideração o cumprimento dessasprofecias. E a Bíblia fala à nossa própria época. Israel e os árabes,Gog e Magog, os Estados Unidos e a Rússia, a guerra nuclear...tudo isso está na Bíblia. Qualquer pessoa que tenha um mínimode bom senso pode ver. Não é preciso ser um presunçoso profes-sor universitário.""Seu problema", retorquiu Ellie, "é deficiência de imagi-nação. Essas profecias... quase todas elas... são vagas, ambíguas,imprecisas, passíveis de fraude. Admitem uma porção de inter-pretações possíveis. Até mesmo as profecias mais claras, de que osenhor procura se livrar... como a promessa de Jesus de que oReino de Deus viria durante a vida de algumas das pessoas que oescutavam. E não me diga que o Reino de Deus está dentro demim. Os que escutavam Jesus entendiam suas palavras literal-mente. O senhor só cita as passagens que lhe parecem cumpridas,e deixa de lado o resto. E é preciso não esquecer que havia ânsiade ver as profecias concretizadas. Mas imaginemos que sua espé-cie de Deus... onipotente, onisciente e compassivo... realmentequisesse deixar um registro para as gerações futuras, tornar suaexistência inequívoca para, digamos, os descendentes remotos deMoisés. É fácil, banal. Bastariam algumas frases enigmáticas e umaordem enérgica de que fossem passadas adiante sem alteração...Joss inclinou-se para a frente, de modo quase imperceptível:"Como, por exemplo...?""Como por exemplo: "O Sol é uma estrela. Ou: "Marte é umlugar oxidado com desertos e vulcões, como o Sinai. Ou: "Um cor-po em movimento tende a se manter em movimento. Ou...vejamos..." Ellie rabiscou rapidamente alguns números num bloco.""A Terra pesa um milhão de milhões de milhões de milhões de
  • 119. vezes mais que uma criança. Ou... sei que ambos os senhores pare-cem ter dificuldades com a relatividade especial, mas ela é confir-mada todos os dias, rotineiramente, nos aceleradores de partículase nos raios cósmicos... Que tal: "Não existem quadros de referência162privilegiados? Ou mesmo: "Não viajarás mais depressa do que aluz. Qualquer coisa que não fosse possível saberem há 3 mil anos.""Mais alguma coisa? ", perguntou Joss."Bem, o número dessas afirmações é infinito... ou ao menoshá uma para cada princípio da física. Vejamos... "Calor e luz seocultam no mais minúsculo seixo. Ou até: "A Terra comporta-secomo dois, mas o ímã comporta-se como três. Estou tentando di-zer que a força gravitacional segue uma lei do inverso do quadra-do, enquanto a força do dipolo magnético segue uma lei do inver-so do cubo. Ou, no campo da biologia..." Ellie fez um gesto nadireção de Der Heer, que parecia ter feito voto de silêncio. "...quetal: "Dois feixes entrelaçados constituem o segredo da vida?""Isso é interessante", disse Joss. "A senhora está se referindo,é claro, ao nNA. Mas conhece o báculo do médico, o símbolo damedicina? Os médicos do Exército o usam na lapela. Chama-secaduceu. É formado de duas serpentes entrelaçadas. É uma per-feita hélice dupla. Desde a Antiguidade, não tem sido o símboloda preservação da vida? Não é exatamente o tipo de ligação queestá sugerindo?""Bem, eu julgava tratar-se de uma espiral, não de uma hélice.Mas, se houver uma quantidade suficiente de símbolos, profecias,mitos e folclore, por fim alguns deles se ajustarão, por uma puracasualidade, a algumas peças do conhecimento científico atual.Mas não posso ter certeza. Talvez o senhor tenha razão. Talvez ocaduceu seja realmente uma mensagem de Deus. Naturalmente,não é um símbolo cristão, ou um símbolo de qualquer uma dasgrandes religiões atuais. Não imagino que o senhor quisesse argu-mentar que os deuses só falassem com os gregos antigos. O queestou dizendo é que, se Deus desejasse enviar-nos umamen-sagem, e se os textos antigos fossem a única maneira que ele ima-ginasse para fazer isso, poderia ter realizado um trabalho maisbem-feito. E de maneira alguma ele teria de se limitar aos textosescritos. Por que não existe um imenso crucifixo em órbita aoredor da Terra? Por que na superfície da Lua não estão gravadosos Dez Mandamentos? Por que Deus haveria de ser tão claro naBíblia e tão obscuro no mundo?"Algum tempo antes Joss dera mostras de desejar dizer algu-ma coisa, e surgira em seu rosto uma inesperada expressão de163genuíno prazer. Todavia, o fluxo de palavras de Ellie estava ga-nhando crescente rapidez e talvez ele julgasse descortês inter-rompê-la.
  • 120. "Além disso, por que o senhor acha que Deus nos abando-nou? Ele costumava bater papo com os patriarcas e os profetastoda segunda terça-feira de cada mês, conforme o senhor acre-dita. Ele é onipotente, dizem os senhores, e também onisciente.Por isso, não lhe seria difícil lembrar-nos de maneira direta, semambigüidade, seus desejos, pelo menos algumas vezes em cadageração. E entáo, amigos? Por que não o vemos com limpidezcristalina?""Nós O vemos." Rankin empregou enorme vigor nessa frase."Ele está em toda parte ao nosso redor. Nossas preces são atendi-das. Dezenas de milhôes de pessoas neste país renasceram e teste-munharam a glória indizível de Deus. A Bíblia nos fala hoje coma mesma clareza que falava no tempo de Moisés e de Jesus.""Ora, deixe disso. O senhor entendeu o que eu disse. Ondeestão as sarças ardentes, as colunas de fogo, a voz que proclama,do céu, tronitruante: "Eu sou o que sou? Por que haveria Deus dese manifestar desses modos sutis e inconcludentes se poderiatornar sua presença inteiramente inequívoca?""Mas uma voz do céu é justamente o que a senhora diz terencontrado." Joss fez esse comentário casualmente, enquantoEllie parava para respirar. Olhou-a firme nos olhos. Rankinaproveitou rapidamente a deixa. "Perfeito. Era isso mesmo que euia dizer. Abraão e Moisés não dispunham de rádios ou telescópiosNão poderiam escutar o Todo-Poderoso falando em,FM. Talvez:hoje em dia Deus nos fale por outros meios e nos permita ter umanova compreensão. Ou talvez não se trate de Deus..."Sim, talvez seja Satã. Já ouvi falar nisso. Parece maluquiceMas deixemos isso de lado por um momento, se concordarem. Ossenhores julgam que talvez a Mensagem seja a Voz de Deus, sejaDeus. Onde é, em sua religião, que Deus atende a uma oraçãorepetindo-a e devolvendo-a?""Bem, quanto a mim, eu não chamaria um jornal cinematográfico nazista de oraçáo", disse Joss. "Seu Projeto diz que isso visaatrair nossa atenção.""Nesse caso, por que o senhor acha que Deus preferiu con164versar com os cientistas? Por que não com pregadores como o se-nhor?""Deus conversa comigo constantemente." O indicador deRankin bateu audivelmente em seu esterno. "E também com o re-verendo Joss. Deus me adiantou que uma revelação é iminente.Quando for chegado o fim dos tempos, o Êxtase sobrevirá, o jul-gamento dos pecadores, a ascensão dos eleitos ao céu...""Por acaso ele lhe disse que faria o anúncio no espectro dorádio? Sua conversa com Deus está gravada em algum lugar, paraque possamos verificar o que realmente aconteceu? Ou temos deaceitar sua palavra? Por que Deus optaria por fazer o anúncio aos
  • 121. radioastrônomos e não a clérigos e religiosas? O senhor náo achaestranho que a primeira mensagem de Deus em 2 mil anos ou maisseja constituída de números primos?... E da figura de Adolf Hitlernas Olimpíadas de 1936? Seu Deus deve ter um incrível senso dehumor.""Meu Deus pode ter qualquer senso que queira."Der Heer mostrou-se nitidamente alarmado ante essa pri-meira manifestação de raiva. "Ah... talvez eu deva lembrar a todosnós o que esperamos alcançar com este encontro", começou.Aí vem Ken com seu espírito apaziguador, pensou Ellie. Comrelação a certos assuntos, ele é corajoso, principalmente quandonão é ele quem tem de agir. Ele fala com valentia... em particular.Mas quando se trata de política científica, e sobretudo quando eleestá representando a presidente, torna-se muito acomodador, dis-põe-se a transigir até com o Diabo. Ellie deu-se conta do que esta-va pensando. A linguagem teológica jâ se insinuava em seuraciocínio."Há mais uma coisa." Ellie interrompeu seus próprios pensa-mentos, assim como o de Der Heer. "Se esse sinal vem de Deus,por que se origina de apenas um ponto do céu... nas vizinhançasde uma estrela próxima, particularmente brilhante? Por que nãovem do céu todo ao mesmo tempo, como a radiação cósmica defundo? Vindo de apenas uma estrela, parece o sinal de outra civi-lização. Se viesse do céu inteiro, seria muito mais semelhante a umsinal de seu Deus.""Deus pode fazer um sinal do ânus da Ursa Menor, se Eleassim desejar." O rosto de Rankin tornou-se rubro. "Desculpe-me,165mas a senhora conseguiu me irritar. Deus pode fazer qualquercoisa. ""Tudo que o senhor não compreende, reverendo Rankin,atribui a Deus. Deus é o lugar para onde o senhor varre todosos mistérios do mundo, todos os desafios à nossa inteligência.O senhor simplesmente desliga o cérebro e diz que é coisa deDeus.""Minha senhora, não vim aqui para ser insultado...""Vim aqui? Pensei que o senhor morasse aqui.""Minha senhora..." Rankin estava para dizer alguma coisa,mas então desistiu. Respirou fundo e continuou. "Este é um paíscristão, e os cristãos possuem conhecimento verdadeiro comrelação a esse assunto, uma responsabilidade sagrada de assegu-rar que a sagrada palavra de Deus seja compreendida...""Sou cristã e o senhor não fala por mim. O senhor se deixouprender em alguma espécie de mania religiosa do século v. Des-de então, houve a Renascença, houve o Iluminismo. Onde o se-nhor esteve?"Tanto Joss como Der Heer estavam quase se pondo de pé.
  • 122. "Por favor", implorou Ken, olhando diretamente para Ellie. "Senão nos ativermos mais ao temário, não vejo como poderemosrealizar o que a presidente nos pediu.""Bem, o que se propôs foi "uma franca troca de pontos devista." >"Já é quase meio-dia", observou Joss. "Por que não fazemosuma interrupção para o almoço?"Do lado de fora da sala de reuniões, apoiada na cerca em vol-ta do pêndulo de Foucault, Ellie começou um breve diálogo comDer Heer, aos sussurros."O que eu queria era esmurrar aquele doutor Sabe-Tudo,aquele santarrão, aquele..."Mas por quê, Ellie, exatamente? A ignorância e o erro já nãosão bastante dolorosos?""Sim, se ele se calasse. Mas está corrompendo milhões depessoas.""Meu amor, ele pensa o mesmo de você."166Quando ela e Der Heer voltaram do almoço, Ellie notou ime-diatamente que Rankin parecia contido, ao passo que Joss, que foio primeiro a falar, parecia animado, além do que exigia a mera cor-dialidade."Dra. Arroway", disse ele, "entendo que a senhora está ansio-sa por nos mostrar suas descobertas e que não veio aqui para umacontenda teológica. Mas, por favor, tenha um pouco mais depaciência conosco. A senhora tem a língua ferina. Não me lembroqual foi a última vez em que o irmão Rankin se mostrou tão furiosopor motivos de fé. Deve fazer anos."Joss olhou de relance para o colega, que rabiscava num blo-co pautado, aparentemente à toa, com o colarinho aberto e a gra-vata afrouxada."Fiquei admirado com algumas coisas que a senhora disseesta manhã. A senhora declarou-se cristã. Posso fazer uma per-gunta? Em que sentido se diz cristã?""Entenda que isso não estava na linha das minhas qualifi-cações quando aceitei a direção do Projeto Argus", respondeuEllie com um sorriso. "Sou cristã no sentido de que acho JesusCristo uma figura histórica admirável. Creio que o Sermão da Mon-tanha é uma das maiores cartas de princípios éticos e um dos me-lhores discursos da história. Achoque "Ama teu inimigo poderiaser até uma solução para o problema da guerra nuclear. Gostariaque Jesus estivesse vivo atualmente. Isso seria benéfico para todasas pessoas deste planeta. Mas creio que Jesus era apenas umhomem. Um grande homem, um homem corajoso, um homemque percebia verdades desagradáveis. Mas não acredito que elefosse Deus, o filho de Deus ou o sobrinho-neto de Deus.""A senhora não quer acreditar em Deus. Joss pronunciou
  • 123. essas palavras com naturalidade. "A senhora julga que pode sercristã sem acreditar em Deus. Permita-me perguntar diretamente:a senhora acredita em Deus?""Essa pergunta tem uma estrutura toda peculiar. Se euresponder que não, estarei dizendo que estou convencida de queDeus não existe ou que não estou convencida de que ele exista?São duas coisas muito diferentes.""Vejamos se são tão diferentes, dra. Arroway. A senhora acei-ta o princípio da Navalha de Occam, não é mesmo? Se tem duas167explicações diferentes, mas igualmente eficazes, para a mesmaexperiência, escolhe a mais simples. Toda a história da ciênciacorrobora esse princípio, diz a senhora. Ora, se a senhora nutredúvidas sérias quanto à existência de Deus... dúvidas suficientespara impedi-la de abraçar a Fé... nesse caso deve ser capaz deimaginar um mundo sem Deus: um mundo que surge sem Deus,um mundo que leva sua vida diária sem Deus, um mundo em queas pessoas morrem sem Deus. Não há castigo. Não há recompen-sa. Todos os santos e profetas, todos os fiéis que já viveram... asenhora terá de acreditar que foram todos néscios. Foram vítimasde auto-ilusáo, a senhora diria, provavelmente. Esse seria ummundo em que existiríamos sem nenhum bom motivo... querodizer, sem propósito algum. Tudo se reduziria a complicadas co-lisões de átomos... não é isso? Inclusive dos átomos que se achamdentro dos seres humanos. Para mim, esse seria um mundoodiento e inumano. Não gostaria de viver nele. Entretanto, se asenhora puder imaginar um mundo assim, por que ficar em cimado muro? Por que se colocar num meio-termo? Se a senhora jáacredita em tudo isso, não seria muito mais simples dizer queDeus não existe? A senhora não está obedecendo ao princípio deOccam. Acho que está contemporizando. Como pode uma cien-tista rigorosamente conscienciosa ser agnóstica se é capaz deimaginar um mundo sem Deus? A senhora não seria atéia porobrigação?""Pensei que o senhor fosse argumentar que Deus é a hipótesemais simples", disse Ellie, "mas sua colocação foi muito mais inte-ressante. Se tudo isso fosse apenas uma questão de discussãocientífica, eu concordaria com o senhor, reverendo Joss. A ciênciacuida essencialmente do exame e da correção de hipóteses. Se asleis naturais explicam todos os fatos disponíveis sem intervençãosobrenatural, ou pelo menos se os explicam tão bem quanto ahipótese divina, então por ora eu me diria atéia. Mas, se depois sedescobrisse uma única prova que não se ajustasse ao quadro, eurecuaria do ateísmo. Somos plenamente capazes de detectar algu-ma quebra das leis da natureza. O motivo pelo qual não me digoatéia é que essa questão não é basicamente de caráter científico.É uma questão religiosa, e também uma questão política. A
  • 124. natureza experimental da hipótese científica não se estende a es-168ses campos. O senhor não fala de Deus como uma hipótese. Osenhor pensa ter a posse da verdade, de modo que eu me permi-to observar que talvez lhe tenham passado despercebidas uma ouduas coisas. Mas, se o senhor perguntar, estou disposta a lhe di-zer que não posso ter certeza de estar certa.""Sempre entendi que um agnóstico é um ateu sem a coragemde expressar suas convicções.""Da mesma forma, o senhor poderia dizer que um agnósticoé uma pessoa profundamente religiosa que possui um conheci-mento ao menos rudimentar da falibilidade humana. Quandodigo que sou agnóstica, quero apenas dizer que não disponho deprovas. Não existem provas concludentes da existência de Deus...pelo menos da sua espécie de deus... como também não existemprovas convincentes de súa inexistência. Como mais de metadeda população da Terra não é formada de judeus, cristãos ou mu-çulmanos, eu diria que não há argumentos conclusivos para aexistência do deus em que o senhor acredita. Se não fosse assim,todos os habitantes da Terra teriam sido convertidos. Repito: seseu Deus quisesse convencer-nos, poderia ter feito um trabalhomuito melhor."Veja como é clara a autenticidade da Mensagem. Ela estásendo captada em todo o mundo. Radiotelescópios a estãodetectando em países de diferentes antecedentes históricos, lín-guas, posições políticas e religiões. Todos recebem o mesmo tipode dados, do mesmo lugar do céu, e nas mesmas freqüências, coma mesma polarização modulada. Todos, muçulmanos, hindus ecristãos, estão recebendo a mesma Mensagem. Qualquer céticopode armar um radiotelescópio... nem precisa ser muito potente...e obter dados idênticos.""A senhora não está sugerindo que sua mensagem venha deDeus!", aparteou Rankin."De modo algum. Só estou dizendo que a civilização deVega... que dispõe de poderes infinitamente inferiores àquelesque o senhor atribui a seu Deus... pôde tornar as coisas bastanteclaras. Se seu Deus quisesse falar conosco através de meiosimplausíveis, como a transmissão oral ou textos de milhares deanos, poderia ter feito isso de modo a não deixar margem adebates sobre sua existência."169Ellie fez uma pausa, mas, como nem Joss nem Rankin disses-sem coisa alguma, tentou mais uma vez dirigir a conversa para osdados."Por que não adiamos por algum tempo uma conclusão arespeito disso, até avançarmos mais na decodificação da Men-sagem? Os senhores gostariam de ver uma parte dos dados?"
  • 125. Dessa vez assentiram, e de bom grado. Mas tudo que Elliepôde mostrar foram resmas de zeros e uns, nem edificantes, neminspiradores. Explicou com cuidado a presumida divisão da Men-sagem em páginas e a esperança de que houvesse uma chave. Poracordo tácito, nem ela nem Der Heer fizeram comentário algumsobre o ponto de vista dos soviéticos de que a Mensagem conte-ria os planos de uma máquina. Isso era, no máximo, um palpite,e ainda não fora discutido publicamente pelos soviéticos. Termi-nada a exposição, ela falou um pouco a respeito de Vega - suamassa, temperatura de superfície, cor, distância da Terra, idade eo cinturão de detritos ao seu redor, descoberto pelo SatéliteAstronômico Infravermelho em 1983."Mas, além de ser uma das estrelas mais brilhantes do céu,Vega tem alguma outra coisa de especial?", quis saber Joss. "Oualguma coisa que a ligue à Terra?""Bem, em termos de propriedades estelares, ou qualquercoisa assim, não me ocorre coisa alguma. No entanto, há umacuriosidade: Vega foi a estrela polar há cerca de 12 mil anos evoltará a ser mais ou menos daqui a 14 mil anos.""Eu pensava que a estrela polar fosse Polaris." Ainda rabis-cando, Rankin disse isso para si mesmo."E é, há alguns milhares de anos. Mas não foi sempre. A Ter-ra gira como um pião. Seu eixo descreve lentamente um círculo."Ellie demonstrou o movimento de rotação, usando seu lápis comoo eixo da Terra. "Dá-se a isso o nome de precessão dos equinó-cios.""Descoberto por Hiparco de Rodes", acrescentou Joss. "Sécu-lo II a. C." Era surpreendente que ele tivesse essa informação naponta da língua."Exatamente. Assim, hoje em dia", prosseguiu Ellie, "umaseta que parta do centro da Terra na direção do Pólo Norte apon-ta para a estrela que chamamos de Polaris, na constelação da Ursa170Menor. Acredito que foi a essa constelação que o senhor se referiupouco antes do almoço, reverendo Rankin. Na medida em que oeixo da Terra muda lentamente de direção, ele passa a apontar para uma outra direção no céu, e não para Polaris, e, no decorrerde 26 mil anos, o lugar do céu para onde a estrela polar apontadescreve um círculo completo. A estrela polar, ou estrela do norte,aponta hoje em dia para um ponto muito próximo de Polaris, bas-tante próximo para ser útil à navegação. Há 12 mil anos, por aci-dente, apontava para Vega. No entanto, não existe nenhuma li-gação em termos físicos. A maneira como as estrelas se distribuemna Via Láctea nada tem a ver com o fato de o eixo de rotação daTerra estar inclinado num ângulo de 23 graus e meio.""Doze mil anos, no passado, representam o ano 10000 a. C.,época em que a civilização estava começando. Não é mesmo? ",
  • 126. perguntou Joss."A não ser que o senhor acredite que o mundo foi criado noano 4004 a. C.""Nào, não acreditamos nisso. Não é mesmo, irmão Rankin?Não cremos que a idade da Terra seja conhecida com a precisãoque os cientistas afirmam. No que se refere a essa questão, somosaquilo que a senhora poderia chamar de agnósticos." Joss sorriude maneira cativante."Quer dizer que, se havia navegadores há 10 mil anos, noMediterrâneo ou no golfo Pérsico, por exemplo, eles teriam Vegacomo guia?""Há 10 mil anos, ainda estávamos na Idade do Gelo. Prova-velmente, um pouco cedo para navegação. Mas os caçadores queatravessaram o estreito de Bering, quando congelado, passandopara a América do Norte, viviam nessa época. Devem ter achadouma coincidência fantástica... providencial, se o senhor assimpreferir... que uma estrela tão brilhante se situasse exatamente nonorte. Aposto que muita gente deixou de morrer devido a essacoincidência.""Isso é deveras interessante!""Por favor, nào pense que usei a palavra providencial a nãoser como metáfora.""Eu jamais pensaria isso, minha querida."Joss já começava a dar sinais de que a tarde chegava ao fim,1 71e não se mostrara aborrecido com isso. Entretanto, ainda pareciahaver alguns pontos na agenda de Rankin."Espanta-me que a senhora não pense que o fato de Vega sera estrela polar fosse obra da Divina Providência. Minha fé é tama-nha que dispenso provas, mas, toda vez que surge um fato novo,ele simplesmente confirma a minha fé.""Nesse caso, então, creio que o senhor não prestou muitaatenção ao que eu disse esta manhã. Não aceito de maneira algu-ma a idéia de que estejamos travando alguma espécie de con-curso de fé e que o senhor seja o vencedor final. O senhor estádisposto a arriscar a vida por sua fé? Eu estou, pela minha. Veja,olhe por aquela janela. Vemos do outro lado um enorme pêndu-lo de Foucault. Deve pesar uns 250 quilogramas. Minha fé ensi-na que a amplitude de um pêndulo livre... a distância em que elese move, afastando-se da posição vertical... jamais pode aumen-tar. Só pode diminuir. Estou disposta a ir até lá, colocar o pesodiante de meu nariz, soltá-lo e deixar que ele vá até o outro ladoe depois volte em minha direção. Se minhas convicções foremfalsas, levarei no rosto um golpe de 250 quilos. Vamos lá. Quertestar a minha fé?""Francamente, não é preciso. Acredito no que a senhora diz",respondeu Joss. Rankin, porém, parecia interessado. Está imagi-
  • 127. nando, pensou Ellie, como ficaria o meu rosto depois."Mas o senhor estaria disposto", continuou Ellie, "a se colo-car um palmo mais perto do mesmo pêndulo e pedir a Deus que ,diminuísse a amplitude? E, se chegarmos à conclusão de que osenhor entendeu tudo errado, que o que está ensinando não é deforma alguma a vontade de Deus? Talvez seja obra do demônio.Talvez seja pura invenção humana. Como o senhor pode tercerteza total?""Fé, inspiração, revelação, reverência", respondeu Rankin."Não julgue todas as pessoas com base em sua experiência limi-tada. O simples fato de a senhora haver rejeitado o Senhor nãoimpede que outras pessoas proclamem a Sua glória.""Escute, todos nós temos sede de coisas prodigiosas. Esse éum atributo profundamente humano. Tanto a ciência como areligião vivem disso. O que estou querendo dizer é que não pre-cisamos inventar histórias, não temos de exagerar. No mundo real172existe uma dose suficiente de prodígios e reverência. A naturezainventa prodígios muito melhor do que nós.""Talvez sejamos todos caminhantes na estrada que leva á ver-dade", respondeu Joss.Diante desse comentário conciliador, Der Heer interveiohabilmente e, entre gentilezas forçadas, prepararam-se para sair.Ellie imaginava se haviam obtido qualquer coisa de útil. Valerianteria sido muito mais eficaz e muito menos provocador, pensou.Oxalá ela tivesse se controlado mais."Foi um encontro muito interessante, dra. Arroway, e eu lheagradeço." Joss parecia novamente polido, mas distante dali.Entretanto, apertou-lhe a máo calorosamente. A caminho do car-ro do governo que os esperava, passaram por uma exposiçáotridimensional, muito bem montada, intitulada: "A falácia do uni-verso em expansáo". Um cartaz dizia: "Nosso Deus está vivo e pas-sa bem. E o seu?""Desculpe-me se tornei seu trabalho ainda mais difícil", mur-murou Ellie para Der Heer."De modo algum, Ellie. Você esteve magriífica.""Esse Palmer Joss é um homem muito persuasivo. Náo creioque eu tenha feito muita coisa no sentido de convertê-lo. Mas eulhe digo que ele quase me converteu." Estava brincando, é claro.173O CONSÓRCIO MUNDIAL DA MENSAGEMO mundo está quase todo repartido, e o que res-ta vem sendo partilhado, conquistado e colo-nizado. Epensarmos nessas estrelas que são vis-tas sohre nossas cabeças durante a noite, essesimensos mundos que jamaispodemos alcançar.Se eu pudesse, anexaria os planetas; penso com
  • 128. freqüência nisso. Entristece-me vê-los tào níti-dos, mas tão distantes.Cecil Rhodes, Últimas vontades e testamento(1902)Da mesa deles, junto à janela, Ellie via o temporal caindo fortena rua. Um transeunte passou apressado, todo encharcado, coma gola levantada. O proprietário do restaurante havia baixado otoldo listrado sobre as tinas de lagostas, que, separadas por tama-nho e qualidade, constituíam uma espécie de publicidade para aespecialidade da casa. Ellie sentia-se aquecida e à vontade norestaurante, o Chez Dieux, famoso ponto de encontro de gente deteatro. Como a previsão fora de bom tempo, ela estava sem capaou sombrinha.Também desprotegido da chuva, Vaygay mudou de assunto."Minha amiga Meera", declarou, "é uma stripteaser... essa é apalavra certa, não? Quando trabalha aqui neste país, ela se apre-senta para grupos de profissionais, em encontros e convenções.Diz Meera que quando tira a roupa para operários... em con-venções de sindicatos, essas coisas... eles enlouquecem, gritam1 74propostas indecorosas, ou tentam subir ao palco. Mas que, quan-do faz exatamente o mesmo número para médicos ou advogados,estes ficam sentados, imóveis. Na verdade, diz ela, alguns lambemos beiços. Minha pergunta é a seguinte: os advogados são maissaudáveis que os operários de siderúrgicas?"Que Vaygay tinha um grande círculo de amizades femininas,sempre fora evidente. Seu modo de abordar as mulheres era tãodireto e inusitado (com exceção dela, o que por algum motivo tan-to a lisonjeava como ofendia) que elas sempre podiam recusarsem embaraço. Muitas aceitavam. No entanto, o que ele acabarade dizer sobre Meera era um tanto inesperado.Tinham passado a manhã numa comparação de última horadas interpretaçôes dos novos dados. A transmissão da Mensagemhavia chegado a um estágio importante. De Vega estavam sendotransmitidos diagramas, da mesma forma como são passadas asradiofotos de jornais. Cada imagem era uma retícula. O número deminúsculos pontos brancos e pretos que compunham a imagemera o produto de dois números primos. Mais uma vez, a transmis-são tinha como base números primos. Havia um grande conjuntode tais diagramas, em série, e nem todos inseridos no texto.Assemelhavam-se a um caderno de ilustrações em papel cuchêencartado no fim de um livro. Após a transmissão da longa seqüên-cia de diagramas, continuara a do texto ininteligível. Alguns dia-gramas deixavam óbvio que Vaygay e Arkhangelski tinham razão:a Mensagem era constituída, pelo menos em parte, pelas ins-truçôes, o esquema, para a construção de uma máquina de finali-dade desconhecida. Na sessão plenária do Consórcio Mundial da
  • 129. Mensagem, que se realizaria no dia seguinte no Elysée, ela e Vaygayapresentariam, pela primeira vez, algumas minúcias a represen-tantes dos outros países-membros. No entanto, sem estardalhaço,já corriam boatos sobre a hipótese da máquina.Durante o almoço, ela fizera um resumo de seu encontro comRankin e Joss. Vaygay se mostrara atento, mas não fizera pergun-tas. Foi como se ela estivesse confessando alguma ímplausívelpredileção pessoal, e talvez fosse isso que tivesse provocado, daparte dele, aquela inesperada associação de idéias."Você tem uma amiga chamada Meera que faz stripteaese? Ecom uma carreira internacional?"1 75"Desde que Wolfganf Pauli descobriu o Princípio de Exclusãoenquanto assistia ao espetáculo do Folies-Bergère, considero tero dever profissional, como físico, de visitar Paris tanto quanto pos-sível. Considero isso uma homenagem a Pauli. No entanto, jamaisconsigo persuadir as autoridades de meu país a aprovarem via-gens unicamente com esse objetivo. Em geral, tenho de fazeralgum trabalho rotineiro para justificar a viagem. Entretanto, nes-ses estabelecimentos... foi num deles que conheci Meera... sou umestudante da natureza, à espera do estalo." De repente, seu tommudou, de expansivo para fatual. "Diz Meera que os cientistasamericanos são sexualmente reprimidos e têm um terrível senti-mento de culpa.""É verdade. E o que Meera tem a dizer sobre os cientistas rus-SOS""Bem, nessa categoria a única pessoa que ela conhece soueu. De modo que, naturalmente, ela os tem em boa conta. Na ver-dade, eu preferiria passar com Meera o dia de amanhã.""Mas todos os seus amigos estarão na reunião do Consórcio",brincou ela."É... ainda bem que você vai estar lá também", respondeuVaygay, taciturno."Que o preocupa, Vaygay?"Ele fez uma longa pausa antes de responder, e começou afalar com uma hesitação que, embora ligeira, não lhe era própria."Talvez não seja o caso de falar em preocupação... mas de receios.E se a Mensagem contiver realmente os planos de uma máquina?Vamos construí-la? Quem? Todos juntos? O Consórcio? As NaçõesUnidas? Alguns países, independentemente e em competição unscom os outros? E se o custo de construção for imenso? Quem vaiarcar com as despesas? Por que alguém se disporia a isso? Ese amáquina não funcionar? A construção dessa máquina poderiaprejudicar algumas nações do ponto de vista econômico? Ou emoutros sentidos?"Sem interromper essa catadupa de perguntas, Lunacharskiencheu as taças com o restante do vinho. "Mesmo que a Men-
  • 130. sagem recomece do início, e mesmo que a decifremos completa-mente, poderemos confiar na tradução? Sabe o que disse Cer-vantes? Segundo ele, ler uma tradução é como examinar o avesso1 76de uma tapeçaria. Talvez não seja possível traduzir a Mensagemde maneira perfeita. Nesse caso, não poderíamos construir amáquina direito. Além disso, poderemos ter certeza de que dis-pomos de todos os dados? Talvez haja informações essenciais emalguma outra freqüência que ainda não localizamos."Sabe, Ellie, sou da opinião de que se deveria pensar bemantes de construir essa máquina. No entanto, amanhã poderá sur-gir alguma coisa que torne imperiosa a sua construção imediata...quero dizer, imediatamente depois de recebermos a chave edecodificarmos a Mensagem, supondo que o façamos. Que vaipropor a delegação americana?""Não sei", respondeu Ellie, lentamente. Mas se lembrou deque, logo após o recebimento dos diagramas, Der Heer haviacoméçado a perguntar se seria provável que a máquina estivesseao alcance da economia e tecnologia da Terra. Ela pouco puderadizer a respeito disso. Lembrou-se novamente de como Ken semostrara preocupado, até inquieto, nas últimas semanas. Suasresponsabilidades com relação à questão eram, naturalmente..."O dr. Der Heer e o sr. Kitz estão no mesmo hotel que você?""Não, estão hospedados na embaíxada."Devido à natureza da economia soviética e à opção pelocusteio de tecnologia militar em vez da aquisição de bens de con-sumo com as poucas divisas fortes de que dispunham, os russosnão tinham muito dinheiro para gastar quando visitavam o Oci-dente. Viam-se na contingência de se hospedarem em hotéis desegunda ou terceira categoria, ou mesmo em pensões, ao passoque seus colegas americanos levavam, em comparação, uma vidade luxo. Isso representava um contínuo motivo de embaraço paraos cientistas de ambos os países. Pagar a conta daquela refeição,bastante corriqueira, nada representaria para Ellie, mas seria umônus para Vaygay, apesar de sua posição relativamente elevada nahierarquia científica soviética. Mas o que estaria ele..."Vaygay, seja franco comigo. Que você quer dizer? Acha queKen e Mike Kitz estào avançando o sinal?""Avançando. Eis uma palavra interessante. Nem para a direi-ta, nem para a esquerda, mas sempre em frente. Receio que nospróximos dias assistamos a discussões prematuras sobre a cons-trução de uma coisa que não temos o direito de construir. Os1 77políticos pensam que sabem tudo. Na verdade, quase nada sabe-mos. Uma situação assim seria perigosa."Ellie percebeu, enfim, que Vaygay estava se recriminandopessoalmente por haver previsto a natureza da Mensagem. Se por
  • 131. acaso ela levasse a uma catástrofe, ele a consideraria culpa sua.Além disso, tinha motivos menos pessoais, é claro."Quer que eu converse com Ken?""Se julgar apropriado. Tem oportunidades freqüentes deestar com ele?" Lunacharski fez a pergunta com naturalidade."Vaygay, você não é ciumento, é? Acho que percebeu meussentimentos em relação a Ken antes mesmo que eu os percebesse.Quando estava no Argus. Nos dois últimos meses eu e Ken temosvivido, de certo modo, juntos. Faz alguma objeção?""Claro que não, Ellie. Não sou seu pai, nem um amante ciu-mento. Tudo que desejo é que sejam muito felizes. Acontece ape-nas que prevejo muitas possibilidades desagradáveis."Entretanto, ele nada mais disse.Voltaram às interpretações preliminares de alguns dos diagra-mas, que acabaram cobrindo a mesa. Discutiram também umpouco de política: o dehate nos Estados Unidos sobre os Princípiosde Mandela para resolver a crise na África do Sul e a crescente guer-ra verbal entre a União Soviética e a República Democrática da Ale-manha. Como de costume, Arroway e Lunacharski se deleitaramcriticando a política externa de seus respectivos países. Era muitomais interessante do que criticar a política externa do país do outro,o que teria sido igualmente fácil. Enquanto travavam a discussãoritual sobre a conveniência de racharem a despesa, ela notou queo temporal se reduzira a um leve chuvisco.A essa altura as notícias sobre a Mensagem proveniente deVega haviam alcançado todos os povoados e aldeias da Terra. Pes-soas que nada sabiam de radiotelescópios e que nunca tinhamtomado conhecimento de números primos escutaram uma his-tória esquisita a respeito de uma voz que estava chegando dasestrelas e sobre seres estranhos - não exatamente homens, mastambém não exatamente deuses - descobertos no céu estrelado.Náo se originavam da Terra. A estrela que lhes dava luz e calor1 78podia ser avistada facilmente, mesmo em noite de lua cheia. Emmeio à agitação de comentários sectários, havia também - nomundo inteiro, era visível - uma sensação de assombro, até dereverente admiração. Alguma coisa transformadora, quase mira-culosa, estava acontecendo. O ar estava cheio de possibilidades,da sensação de um recomeço."A humanidade passou para o ginásio", escrevera o editoria-lista de um jornal americano.Havia no universo outros seres inteligentes. Podíamos noscomunicar com eles. Eram provavelmente mais antigos que nós;possivelmente, mais sábios. Estavam a nos enviar bibliotecasinteiras de informações complexas. Verificava-se uma expectati-va generalizada de iminente revelação de ordem secular. Porisso, especialistas de todas as áreas começavam a se preocupar.
  • 132. Os matemáticos temiam ter deixado de fazer descobertas ele-mentares. Líderes religiosos receavam que os valores veganos,por mais exóticos que fossem, ganhassem facilmente adeptos,sobretudo entre os jovens sem instrução. Astrônomos afligiam-se com a possibilidade de terem interpretado erroneamentedados fundamentais sobre as estrelas próximas. Políticos e che-fes de Estado temiam que outros sistemas de governo, algunsradicalmente diferentes dos que existiam na Terra, pudessem seradotados por uma civilização superior. Tudo quanto os veganossabiam não fora influenciado por instituições peculiarmentehumanas, ou pela história ou biologia dos homens. E se grandeparte do que aceitamos como verdadeiro fosse um erro de inter-pretação, um caso especial ou um erro de lógica? Os especialis-tas começavam, inquietos, a reavaliar os fundamentos de suasdisciplinas.Além dessa estreita inquietação profissional, notava-se agrandiosa e elevada percepçáo de uma nova aventura para a espé-cie humana. Ela estaria para virar uma esquina, ingressar de chofrenuma nova era - um simbolismo poderosamente ampliado pelaaproximação do Terceiro Milênio. Ainda havia conflitos políticos,alguns sérios, como a persistente crise sul-africana. No entanto,ocorria, em muitas partes do mundo, um notável declínio daretórica jingoísta e do nacionalismo pueril. Crescia a sensação dehumanidade, bilhões de pequenos seres espalhados pelo mun-1 79do, aos quais se apresentava, coletivamente, uma oportunidadesem precedentes ou mesmo um grave perigo comum. A muitosparecia absurdo que nações litigantes continuassem suas rixasmortíferas quando confrontadas com uma civilização não humanade capacidade imensamente superior. Havia uma aragem deesperança no ar. Certas pessoas ainda não tinham se acostumadocom a novidade e a tomavam por outra coisa - derrotismo, tal-vez, ou covardia.Durante décadas, desde 1945, o estoque mundial de armasnucleares estratégicas crescera constantemente. Os líderes mu-davam, os sistemas de armamentos mudavam, a estratégia muda-va, mas o número de armas estratégicas só fazia crescer. Chegouo dia em que havia mais de 25 mil delas no planeta, dez para cadagrande cidade. A tecnologia avançava no sentido de tornar maisbreve o tempo de vôo, além de oferecer incentivos para umprimeiro ataque contra alvos essenciais e propiciar lançamentosrápidos. Somente um perigo tão monumental seria capaz de des-fazer tamanha estupidez, endossada por tantos dirigentes de tan-tas nações durante tanto tempo. Finalmente, porém, o mundo re-cobrou o juízo, pelo menos com relação a isso, e Estados Unidos,União Soviética, Grã-Bretanha, China e França firmaram um acor-do. O tratado não previa a erradicação completa das armas nu-
  • 133. cleares no mundo. Poucos esperavam que ele trouxesse em seubojo a Utopia. Entretanto, norte-americanos e russos tomaramprovidências a fim de reduzir seus arsenais estratégicos a milartefatos nucleares para cada um dos dois países. Os pormenoresforam planejados cuidadosamente para que nenhuma dessassuperpotências ficasse em situação de clara desvantagem emqualquer etapa do processo. A Grã-Bretanha, a França e a Chinaconcordaram em reduzir seus arsenais assim que as superpotên-cias houvessem reduzido os seus a menos de 3200 bombas. OsAcordos de Hiroxima foram assinados, para júbilo de todo o mun-do, ao lado da placa em memória das vítimas da primeira cidadea ser destruída por uma bomba nuclear: "Repousem em paz, poisisso nunca voltará a acontecer".A cada dia, os disparadores de fissão de um número igual deogivas americanas e soviéticas eram entregues a um órgão espe-cial, administrado por técnicos dos dois países. O plutônio era180retirado, registrado, selado e transportado por equipes bina-cionais para usinas de energia nuclear, onde era consumido econvertido em eletricidade. Esse processo, conhecido comoPlano Gayler, nome de um almirante americano, era consideradoo máximo a que se chegara no sentido de transformar espadas emarados. Como, mesmo assim, cada país ainda conservava uma de-vastadora capacidade de retaliação, mesmo as organizações mi-litares acabaram por aprová-lo. Tanto quanto quaisquer outraspessoas, os generais não querem que os filhos morram, e a guer-ra nuclear é a negação das virtudes militares convencionais; édifícil achar muita valentia no ato de apertar um botão. A ceri-mônia da primeira desmontagem - televisada ao vivo e retrans-mitida vãrias vezes - mostrou técnicos americanos e soviéticos,vestidos de branco, trazendo num carrinho dois daqueles objetosmetãlicos, de cor cinza-fosco, cada um do tamanho de um ban-quinho, cobertos com as bandeiras dos Estados Unidos e daUnião Soviética. O ato foi visto por uma enorme parcela da po-pulação mundial. Os noticiário noturnos da Tv informavam re-gularmente quantas armas estratégicas de ambos os lados tinhamsido desmontadas e quantas ainda faltavam. Em pouco mais deduas décadas, também essas notícias chegariam a Vega.Nos anos seguintes, a liquidação dos arsenais prosseguiu,quase sem problemas. A princípio, houve poucas modificaçõesnas doutrinas estratégicas, mas agora os cortes já eram sentidos,e os sistemas de armamentos mais desestabilizadores estavamsendo abolidos. Essa era uma coisa que os especialistas haviamtachado de impossível e declarado "contrária à natureza hu-mana". No entanto, como observara Samuel Johnson, uma sen-tença de morte concentra maravilhosamente o espírito. Nosemestre anterior, o desmantelamento das armas nucleares pelos
  • 134. Estados Unidos e União Soviética fizera progressos importantes,e em breve equipes de inspeção de cada uma das superpotências,com amplos poderes, seriam enviadas para o território da outra-apesar da desaprovação e da preocupação manifestada publi-camente pelos estados-maiores de ambos os países. Inesperada-mente, as Nações Unidas viram-se arbitrando litígios interna-cionais com eficácia, ficando resolvidas as guerras de fronteira nooeste do Irã e entre o Chile e a Argentina, pelo menos aparente-181mente. Houve até quem propusesse, com alguma base, um trata-do de não-agressão entre a oTAN e o Pacto de Varsóvia.Num grau sem precedentes nas últimas décadas, os delega-dos que chegavam para a primeira sessão plenária do ConsórcioMundial da Mensagem estavam predispostos à cordialidade.Toda nação que dispunha de ao menos um punhado defragmentos da Mensagem se fizera representar, enviando tantodelegados científicos como políticos; grande número de paísesmandara também representantes militares. Em alguns casos, asdelegações nacionais eram encabeçadas por ministros do Exte-rior ou até mesmo chefes de Estado. A delegação do Reino Unidoincluía o visconde Boxforth, lorde do Selo Privado - título ho-norífico que Ellie julgou hilariante. A delegação da uRss era che-fiada por B. Ya. Abukhimov, presidente da Academia Soviéticade Ciências; Gotsridze, ministro da Indústria Meio-Pesada, e Ark-hangelski nela desempenhavam funções de relevo. A presidentedos Estados Unidos fizera questão de que a delegação americanafosse liderada por Der Heer, embora incluísse também o subse-cretário de Estado, Elmo Honicutt; Michael Kitz, entre outros,representava o Departamento de Defesa.Um enorme mapa, em projeção isométrica, mostrava a dis-posição dos radiotelescópios no planeta, e incluía os navios ras-treadores soviéticos. Ellie olhou em torno da recém-preparadasala de conferências, perto do palácio de despachos e da residên-cia do presidente da França. Cumprindo ainda o segundo ano deseu septênio, ele estava envidando todos os esforços para o êxitodo encontro. Um sem-número de rostos, bandeiras e trajes nacio-nais refletia-se nas longas mesas de mogno e nas paredes espe-Ihadas. Ellie reconhecia poucos dos políticos e militares, mas emcada delegação parecia haver ao menos um rosto familiar, entrecientistas e engenheiros: Annunziata e Ian Broderick, da Austrália;Fedirka, da Tcheco-Eslováquia; Braude, Crebillon e Boileau, daFrança; Kumar Chandrapurana e Devi Sukhavati, da Índia; Hiro-naga e Matsui, do Japão... Muitos dos delegados eram especialis-tas em áreas tecnológicas, e não em radioastronomia. A idéia deque o temário da conferência pudesse incluir a construção de uma182grande máquina motivara alterações de última hora na com-
  • 135. posição das delegações.Ellie também reconheceu Malatesta, da Itália; Bedenbaugh,físico que enveredara para a política, Clegg e o idoso sir ArthurChatos, conversando atrás de uma bandeira inglesa, do tipo que seencontra comumente em mesas de restaurantes nos centros turís-ticos europeus; Jaime Ortiz, da Espanha; Prebula, da Suíça (isso eraenigmático, pois, ao que ela sabia, a Suíça não possuía um radiote-lescópio); Bao, que realizara um trabalho brilhante na montagemdo sistema chinês de radiotelescópios; Wintergaden, da Suécia. Asdelegações da Arábia Saudita, do Paquistão e do Iraque eram sur-preendentemente numerosas; e, naturalmente, os soviéticos, entreos quais se achavam Nadya Rojdestvenskaia e Genrikh Arkhan-gelski, gozavam um instante de genuína hilaridade.Ellie procurou ver Lunacharski, e finalmente o localizou coma delegação chinesa. Estava apertando a mão de Yu Renqiong,diretor do Radiobservatório de Beijing. Lembrou-se de que os doistinham sido amigos e companheiros durante o período de coo-peração sino-soviética. No entanto, as hostilidades entre os doispaíses haviam encerrado todos os contatos entre eles, e as res-trições impostas pelos chineses a viagens de cientistas impor-tantes ainda eram quase tão severas quanto as dos soviéticos. Elatalvez estivesse testemunhando, pensou, o primeiro encontro dosdois homens em mais ou menos um quarto de século."Quem é aquele velho china que Vaygay está cumprimen-tando?" Isso, para Kitz, era uma tentativa de cordialidade. Faziaalguns dias que ele vinha tentando aproximações desse tipo, masEllie não via grande futuro naquilo."É Yu, diretor do Observatório de Beijing.""Pensei que esses sujeitos se odiassem.""Michael", disse Ellie, "o mundo é, ao mesmo tempo, melhore pior do que você imagina.""É provável que você conheça melhor do que eu o "melhor",respondeu ele, "mas não pode querer me ensinar o "pior."Após as boas-vindas do presidente da França (que, sur-preendentemente, permaneceu para ouvir as exposições preli-183minares) e de uma exposição sobre o temário e o processo deencaminhamento dos debates, feita por Der Heer e Abukhimov,na qualidade de co-presidentes da conferência, Ellie e Vaygay fi-zeram um sumário dos dados. Expuseram, de um modo que já sehavia tornado rotina - nào demasiado técnico, devido à presençade políticos e militares -, o funcionamento dos radiotelescópios,a distribuição das estrelas próximas no espaço e a história da Men-sagem. A exposição conjunta terminou com uma exibição, nosterminais de vídeo diante de cada delegação, dos diagramas rece-bidos recentemente. Ellie teve o cuidado de mostrar como a pola-rização modulada era convertida numa seqüência de zeros e uns
  • 136. e como esses algarismos se combinavam para formar umaimagem. Frisou que, na maioria dos casos, não se tinha a maisvaga idéia do que significava a imagem.Os pontos reuniram-se nas telas dos computadores. Ellie viurostos iluminados pela luz branca, âmbar e verde emitida pelosterminais do salão, agora parcialmente obscurecido. Os diagra-mas mostravam retículas complicadas; formas grumosas, quaseindecentemente biológicas; um dodecaedro regular perfeito. Umalonga série de páginas compunha, quando montada, uma por-menorizada estrutura tridimensional que girava lentamente. Cadaum daqueles enigmáticos objetos trazia embaixo uma legendaininteligível.Vaygay sublinhou as incertezas com mais vigor do que Ellie.Não obstante, disse ele, em sua opinião era agora incontestávelque a Mensagem constituía o manual para a construção de umamáquina. Deixou de mencionar que essa idéia fora aventada ori-ginalmente por ele e Arkhangelski, e Ellie aproveitou a oportu-nidade para retificar o lapso.Ellie havia falado a respeito daquele assunto o suficiente, nosmeses anteriores, para saber que tanto os cientistas como o públi-co em geral muitas vezes ficavam fascinados com os pormenoresda Mensagem e atormentados com a possibilidade, ainda nãoconfirmada, de haver uma chave. Mas não estava preparada paraa reação daquela platéia, supostamente sóbria. Vaygay e ela ti-nham feito a exposição em conjunto. Ao acabarem, houve umaprolongada salva de palmas. As delegações da Europa oriental eda URss aplaudiram em uníssono, numa freqüência de mais ou184menos três batidas por pulsação cardíaca. Os americanos e muitosoutros aplaudiram sem sincronia, produzindo um mar de rúídobranco. Envolta numa espécie desconhecida de alegria, ela nãopôde deixar de pensar nas diferenças de caráter nacional - osamericanos individualistas, os russos empenhados numa ativi-dade coletiva. Além disso, lembrou-se de que, em multidões, osamericanos tentavam colocar um máximo de distância em relaçãoàs outras pessoas, ao passo que os soviéticos tendiam a se en-costar tanto quanto possível uns nos outros. Os dois estilos deaplauso, sendo que o americano predominava nitidamente emmatéria de volume, a encantaram. Apenas por um momento, elase permitiu pensar no padrasto. E no pai.Depois do almoço houve uma série de outras exposiçõessobre a coleta e interpretaçáo dos dados. David Drumlin realizouuma exposição extraordinariamente competente sobre a anãliseestatística, que havia empreendido pouco tempo antes, de todasas páginas anteriores da Mensagem referentes aos novos diagra-mas numerados. Argumentou que a Mensagem, em seu entender,continha não só os planos para a construção de uma máquina
  • 137. como também descrições dos projetos e dos meios de fabricaçáode componentes e subcomponentes. Em alguns casos, julgavaele, havia descrições de indústrias inteiras ainda desconhecidas naTerra. Ellie, boquiaberta, sacudiu o dedo na direção de Drumlin,perguntando silenciosamente a Valerian se ele tivera conheci-mento daquilo. Comprimindo os lábios, Valerian encolheu osombros e mostrou as palmas das máos. Ellie procurou ver algumaexpressão de emoção nos demais delegados, mas só pôde detec-tar sinais de fadiga. A complexidade do material técnico e a neces-sidade de,. mais cedo ou mais tarde, serem tomadas decisõespolíticas já produziam tensão. Depois da sessáo, ela cumprimen-tou Drumlin por sua interpretação, mas lhe perguntou por quenão lhe comunicara sua opiniáo. Antes de se afastar, Drumlinrespondeu: "Ah, não pensei que fosse importante o bastante paraincomodar você. Foi só uma coisinha que fiz enquanto você con-sultava fanáticos religiosos".Tivesse Drumlin sido seu orientador na pós-graduaçáo, elaainda estaria tentando o doutorado, pensou Ellie. Ele nunca aaceitara completamente. Nunca viriam a manter um relaciona-185mento acadêmico sereno. Suspirando, ela ficou a imaginar seKen tomara conhecimento do novo trabalho de Drumlin. Mas,como co-presidente da conferência, Der Heer estava sentadocom seu colega soviético sobre um estrado defronte aos delega-dos. Como acontecia havia semanas, era quase impossível o aces-so a ele. Drumlin não era obrigado a discutir com ela suasopiniões, claro; ambos tinham estado extremamente ocupados.Mas por quê, ao conversar com Drumlin, ela sempre se mostra-va transigente, só insistindo em seus pontos de vista em con-dições extremas? Evidentemente, uma parte dela ainda achavaque a obtenção de seu doutorado e a oportunidade de seguir suacarreira científica eram possibilidades futuras, que Drumlinmantinha em suas mãos.Na manhã do segundo dia, foi dada a palavra a um delegadosoviético que Ellie conhecia. "Stefan Alexeivitch Baruda", apare-ceu escrito em seu terminal de computador. "Diretor, Institutopara Estudos sobre a Paz, Academia Soviética de Ciências, Mos-cou; membro do Comitê Central, Partido Comunista da União So-viética.""Agora vai começar o jogo duro", Ellie ouviu Michael Kitz di-zer a Elmo Honicutt, do Departamento de Estado.Baruda era um janota, e usava um terno ocidental, muito bemcortado e no rigor da moda, talvez italiano. Seu inglês era fluentee quase sem sotaque. Nascera numa das repúblicas do Báltico, erajovem para chefiar uma organização importante - criada paraestudar as implicações a longo prazo da política estratégica dedesarmamento nuclear - e excelente exemplo da "jovem guar-
  • 138. da" da liderança soviética."Sejamos francos", dizia Baruda nesse momento. "Uma Men-sagem nos está sendo enviada do espaço. A maior parte dasinformações foi colhida pela União Soviética e pelos EstadosUnidos. Partes essenciais foram coletadas também por outrospaíses. Todos esses países acham-se representados nesta confe-rência. Qualquer nação... a União Soviética, por exemplo... pode-ria ter esperado que a Mensagem se repetisse várias vezes, comoachamos que vá acontecer, preenchendo assim as muitas lacunas.186Mas isso levaria anos, talvez decênios, e somos um pouco impa-cientes. Por isso, todos partilhamos os dados."Qualquer nação... a União Soviética, por exemplo... poderiacolocar na órbita da Terra grandes radiotelescópios munidos deradiômetros sensíveis que funcionassem nas freqüências da Men-sagem. Também os americanos poderiam ter feito isso. Talvezigualmente o Japão, a França ou a Agência Espacial Européia.Nesse caso, qualquer nação poderia, sozinha, coletar todos osdados, pois no espaço um radiotelescópio pode ficar assestadopara Vega constantemente. Entretanto, isso poderia ser visto comoum ato hostil. Não é segredo que os Estados Unidos ou a UniãoSoviética poderiam ser capazes de derrubar tais satélites. E tam-bém por esse motivo, talvez, todos nós repartimos os dados."É melhor cooperar. Nossos cientistas desejam trocar entre sinão só os dados que conseguiram, mas também suas especu-lações, seus palpites... seus sonhos. Todos os cientistas aqui pre-sentes são semelhantes nesse aspecto. Eu não sou um cientista.Minha especialidade é governo. Por isso, sei que as nações tam-bém são semelhantes. Toda nação é cautelosa. Toda nação édesconfiada. Nenhum de nós concederia vantagem a um adver-sário em potencial se pudesse evitá-lo. E assim surgiram dois pon-tos de vista... talvez mais, porém ao menos dois: um que aconse-lha o intercâmbio de todos os dados, outro que aconselha cadanação a procurar uma posição de vantagem em relação às demais."Pode ter certeza de que o outro lado está tentando obter algumavantagem, dizem. A mesma coisa ocorre na maioria dos países."Os cientistas ganharam esse debate. Assim, por exemplo, amaior parte dos dados... ainda que, quero frisar, nem todos... co-lhidos pelos Estados Unidos e pela União Soviética foi trocada. Amaior parte dos dados originários de todos os outros países foi tro-cada em escala mundial. Estamos satisfeitos por termos tomadoessa decisão."Ellie murmurou para Kitz: "Isso não está me parecendo "jogoduro"."Continue a ouvir", sussurrou ele."No entanto, existem outros tipos de perigos. Gostaríamos deexpor um deles à consideração do Consórcio."
  • 139. O tom de Baruda lembrou a Ellie o de Vaygay durante o187almoço na antevéspera. Que estaria atazanando o espírito dossoviéticos?"Ouvimos o acadêmico Lunacharski, a dra. Arroway e outroscientistas dizerem que, segundo acreditam, estamos recebendoinstruções para a construção de uma máquina complicada.Suponhamos que, como todos parecem esperar, a Mensagemchegue ao fim; que volte ao começo; e que recebamos a intro-dução ou... a "chave, não foi essa a palavra usada?... a chave quenos permitirá ler a Mensagem. Suponhamos ainda que continue-mos a cooperar, todos nós. Que troquemos todos os dados, todasas fantasias, todos os sonhos."Ora, os seres de Vega não nos estão remetendo essas ins-truçvões por diversão. Querem que construamos uma máquina.Talvez nos digam qual a sua função. Talvez não. Mas, mesmo queo façam, por que deveríamos acreditar neles? Por isso, faço minhaprópria fantasia, meu próprio sonho. Não são animadores. E seessa máquina for um cavalo de Tróia? Nós construímos a máquinacom grandes investimentos, nós a ligamos, e de repente umexército invasor surge de dentro dela. E se for uma Máquina doJuízo Final? Nós a constmímos, nós a ligamos, e a Terra vai pelosares. Talvez seja esse o método que usem para suprimir civiliza-ções que estejam em surgimento no cosmo. Não seria muito dis-pendioso. Eles pagam apenas o preço de um telegrama, e a civi-lização incipiente obedientemente se destrói."O que vou perguntar representa tão-somente uma sugestão,um assunto de conversa. Submeto-o à consideração dos senhores.Minha intenção é ser construtivo. Com relação a esse ponto, todospartilhamos o mesmo planeta, todos temos os mesmos interesses.Sem dúvida, hei de ser demasiado franco. Eis minha pergunta: nãoseria melhor queimar os dados e destruir os radiotelescópios?"Seguiu-se um tumulto. Muitas delegações pediram a palavraao mesmo tempo. Em lugar de concedê-la, os co-presidentespareceram dispostos sobretudo a lembrar aos delegados que assessões náo deveriam ser gravadas. Não deveriam dar entrevistasà imprensa. Haveria press releases diários, com textos aprovadospelos co-presidentes e pelos chefes das delegaçôes. Até mesmoos assuntos da discussão em curso não deveriam sair da sala daconferência.188Vários delegados pediram esclarecimentos à mesa. "Se Baru-da tem razão quanto a um cavalo de Tróia ou uma Máquina do Juí-zo Final", gritou um delegado holandês, "não nos compete infor-mar ao público?" Mas a palavra não lhe havia sido concedida, eseu microfone permaneceu desativado. Passaram a outras ques-tões, mais urgentes.
  • 140. Ellie digitara rapidamente o terminal de computador diantedela para obter uma posição no início da fila. Descobriu que seriaa segunda a falar, depois de Sukhavati e antes de um dos delega-dos chineses.Ellie conhecia Devi Sukhavati ligeiramente. Mulher de portemajestoso e quarentona, usava um penteado à ocidental, san-dálias de salto alto e um belíssimo sári de seda. Tendo se forma-do em física, tornara-se uma das principais especialistas indianasem biologia molecular e agora dividia o tempo entre o Kings Col- ?lege, em Cambridge, e o Instituto Tata de Bombaim. Integrava opequeno grupo de indianos da Real Sociedade de Londres, e dela se dizia estar bem posicionada politicamente. Haviam se encon-trado pela última vez alguns anos antes, num simpósio interna-cional em Tóquio, antes que o recebimento da Mensagem tivesseeliminado os indefectíveis pontos de interrogação nos títulos dealgumas das teses científicas de ambas. Ellie percebera umaafinidade mútua entre ela e Devi, apenas em parte devida ao fatode estarem entre as poucas mulheres que participavam de reu-niôes científicas sobre vida extraterrestre. ! I"Admito que o acadêmico Baruda levantou uma questão ;importante e delicada", começou Sukhavati, "e seria tolice descar-tar levianamente a possibilidade do cavalo de Tróia. Em vista damaior parte da história recente, trata-se de uma idéia natural, e atéme surpreende que não tenha sido levantada antes. No entanto,eu gostaria de sugerir certa cautela contra esses temores. Éextremamente improvável que os seres de um planeta da estrelaVega estejam exatamente no nosso nível de avanço psicológico.Mesmo em nosso planeta, as culturas não se desenvolvem no mes-mo passo. Algumas começam mais cedo, outras mais tarde.Reconheço que algumas culturas podem retardar-se, ao menos naárea tecnológica. Quando existiam civilizações adiantadas naÍndia, na China, no Iraque e no Egito, os nômades da Europa e da189Rússia se achavam no máximo na Idade do Ferro, e as culturasamericanas estavam na Idade da Pedra."Entretanto, as diferenças tecnológicas devem ser muito maispronunciadas nas atuais circunstâncias. Os extraterrestres estão,provavelmente, muito à nossa frente, decerto mais de alguns sécu-los... Talvez milênios ou mesmo milhões de anos. Ora, peço aospresentes que comparem isso com o ritmo do avanço tecnológi-co da humanidade no último século."Cresci numa aldeola do sul da Índia. No tempo da minhaavó, a máquina de costura a pedal era uma maravilha da tecnolo-gia. De que seriam capazes seres milhares de anos à nossa frente?Ou milhões? Um filósofo de meu país disse uma vez: "Os artefatosde uma civilização extraterrestre suficientemente avançada se-riam indistinguíveis da magia.
  • 141. "Não podemos impor-lhes ameaça alguma. Eles nada têm atemer de nós, e isso ainda será assim por muito tempo. Não hácomparação possível com os gregos e troianos, que estavam emigualdade de condições. Não se trata de um filme de ficção cien-tífica, em que seres de planetas diferentes lutam com armas seme-lhantes. Se nos desejassem destruir, decerto poderiam fazê-lo semnossa cooperação..."Mas a que custo?", interrompeu alguém no plenário. "Nãopercebe? O que Baruda diz é que nossas transmissões de televisãopara o espaço representam para eles um aviso de que chegou ahora de nos destruir, e que a Mensagem é o meio para isso. Asexpedições punitivas são dispendiosas. A Mensagem é barata."Ellie não foi capaz de determinar quem fizera essa inter-venção. Parecia ter sido alguém da delegação britânica. As obser-vações não tinham sido amplificadas pelo sistema de áudio, poistambém nesse caso a mesa não dera a palavra ao aparteador. Noentanto, a acústica do salão era boa, e todos puderam ouvi-lo per-feitamente. Der Heer, na mesa, procurou manter a ordem. Abu-khimov inclinou-se para a frente e sussurrou alguma coisa a umassessor."O senhor julga haver perigo em construirmos a máquina",respondeu Sukhavati. "No meu entender, perigo haveria se não aconstruíssemos. Eu teria vergonha do nosso planeta se virássemosas costas ao futuro. Seus antepassados...", e nesse ponto ela pôs190um dedo em riste na direção do interlocutor, "...não foram tãotímidos quando se lançaram ao mar na direção da Índia ou daAmérica."A conferência estava começando a revelar surpresas, pensouEllie, embora duvidasse de que Clive ou Raleigh fossem o mode-lo ideal para a decisão em questão. Talvez Sukhavati estivesseapenas implicando com os ingleses por causa de antigas atitudescolonialistas. Esperou que se acendesse a luz verde em seu con-sole, indicando que o microfone fora ativado."Senhor presidente." Ellie achou esquisito estar se dirigindodessa maneira formal a Der Heer, a quem pouco vira nos últimosdias. Haviam combinado passar juntos a tarde do dia seguinte,durante um intervalo da conferência, e ela se sentia um tanto an-siosa com relação ao que diriam um ao outro. Epa, nada de idéiasdeprimentes, pensou."Senhor presidente, acredito que possamos lançar algumaluz sobre essas duas questões: o cavalo de Tróia e a Mãquina doJuízo Final. Eu pretendia abordar isso amanhã, mas evidente-mente o assunto ganhou relevância neste momento." Ellie aper-tou algumas teclas no console, digitando os números de códigopara a projeção de certos slides. O grande salão espelhado mer-gulhou na penumbra.
  • 142. "O dr. Lunacharski e eu estamos convencidos de que estasimagens são projeções diferentes da mesma configuração tridi-mensional. Mostramos ontem toda a configuração, numa rotaçãosimulada por computador. Acreditamos, embora não tenhamoscerteza disso, que este seja o aspecto do interior da máquina. Nãoexiste ainda uma indicação clara de escala. Talvez ela tenha umquilômetro de largura, talvez seja submicroscópica. Entretanto,chamo a atenção para estes cinco objetos, dispostos a intervalosiguais em torno da periferia da cãmara interna principal, dentrodo dodecaedro. Aqui está um plano próximo de um deles. São asúmicas coisas na câmara que parecem identificáveis."Parece ser uma poltrona acolchoada, com desenho anatômi-co, projetada para seres humanos. É muito improvãvel que seresextraterrestres, que evoluíram num mundo inteiramente dife-rente, se assemelhassem a nós o suficiente para ter as mesmaspreferências no que diz respeito à mobília da sala de estar. Vejam1)1esta imagem. Parece uma coisa que havia no quarto de despejo deminha mãe quando eu era pequena."Com efeito, a peça quase parecia ser forrada com uma estam-paria de flores. Ellie teve uma leve sensação de culpa. Não haviatelefonado para a mãe antes de viajar para a Europa, e, na verdade,só lhe telefonara uma ou duas vezes desde o recebimento da Men-sagem. Ellie, como você pôde fazer isso?, censurou-se.Voltou a olhar para o gráfico de computador. A simetria quín-tupla do dodecaedro refletia-se nas cinco cadeiras interiores, cadaqual diante de uma superfície pentagonal. "Por tudo isso, em nos-sa opinião... minha e do dr. Lunacharski... essas cinco cadeiras sedestinam a nós. A pessoas. Isso significa que a câmara interior damáquina tem apenas alguns metros de largura e que o exteriordeve ter uns dez ou vinte metros. A tecnologia é, naturalmente,colossal, mas não julgamos estar falando em construir algumacoisa do tamanho de uma cidade grande. Ou complexa como umporta-aviões. Podemos perfeitamente ser capazes de construirisso, seja o que for, se todos trabalharmos juntos."O que estou tentando dizer é que ninguém coloca poltronasdentro de uma bomba. Não creio que isso seja uma Máquina doJuízo Final ou um cavalo de Tróia. Concordo com o que disse adra. Sukhavati, ou com o que ela talvez tenha apenas deixadoimplícito. A própria idéia de que isso seja um cavalo de Tróia cons-titui indicação de como ainda estamos atrasados."Mais uma vez houve tumulto. Dessa vez, entretanto, DerHeer não fez nenhum esforço para interrompê-lo; na verdade,chegou a ativar o microfone do aparteador. Era o mesmo delega-do que havia interrompido Devi Sukhavati alguns minutos antes,Philip Bedenbaugh, do Reino LJnido, um ministro do Partido Tra-balhista, integrante de um instável governo de coalizão.
  • 143. ...simplesmente não compreende a nossa preocupação. Sefosse literalmente um cavalo de madeira, não seríamos tentados acolocar o engenho dentro dos portões da cidade. Já lemos Home-ro. Mas, se alguém o enfeita com estofamentos, nossas suspeitasdesaparecem. Por quê? Porque estamos sendo lisonjeados. Ousubornados. Isso encerra, implicitamente, uma aventura histórica.Há a promessa de novas tecnologias. Há uma insinuação deaceitação por parte de... como dizer?... seres superiores. Mas o que192eu digo é que, a despeito das fantasias desvairadas dos radioas-trônomos, se houver ao menos uma possibilidade ínfima de amáquina ser um meio de destruição, ela não deve ser construída.Seria melhor, como propôs o delegado soviético, queimar as fitascom os dados e cominar a pena de morte para quem construirradiotelescópios."A reunião descambou para a balbúrdia. Dezenas de delega-dos solicitavam eletronicamente autorização para falar. O alaridotransformou-se num ronco surdo que lembrou a Ellie os muitosanos que ela passara à escuta de estática radioastronômica. Nãoparecia fácil chegar a um consenso, e os co-presidentes se acha-vam evidentemente impossibilitados de conter os delegados.Ao ser dada a palavra ao delegado chinês, os letreiros deidentificação não surgiram logo na tela de Ellie, e ela olhou aoredor em busca de ajuda. Não fazia nenhuma idéia de quem fos-se aquele homem. Nguyen "Bobby" Bui, assessor do Conselho deSegurança Nacional que estava prestando serviços a Der Heer,inclinou-se para a frente e disse: "Xi Qiaomu. Figura histórica.Nasceu enquanto a mãe participava da Longa Marcha. Aindamuito jovem, foi voluntário na Coréia. Funcionário púzblico, prin-cipalmente na área política. Caiu em desgraça durante a Re-volução Cultural. Agora é membro do Comitê Central. Muito in-fluente. Tem aparecido no noticiário ultimamente. Dirige tambémas escavações arqueológicas chinesas".Xi Qiaomu era um homem alto e espadaúdo, de seus sessen-ta anos. As rugas o faziam parecer mais idoso, mas seu porte lhedava um aspecto quase juvenil. Usava a túnica abotoada no cola-rinho, indumentária tão obrigatória para os líderes políticos chi-neses quanto o tërno com colete dos próceres políticos ameri-canos, excluindo, é claro, a presidente. Os letreiros apareceramentão na tela de Ellie, que se lembrou de ter lido um longo artigosobre Xi Qiaomu num noticiário da tv em videotexto."Se ficarmos assustados", dizia ele, "nada faremos. Isso osretardará um pouco. Mas, lembrem-se, eles sabem que estamosaqui. Nossa televisão chega ao planeta deles. Todos os dias tomamconhecimento da nossa existência. Por acaso, os senhores têmassistido aos programas de tv de seus países? Não hão de nosesquecer. Se nada fizermos e se eles estiverem preocupados
  • 144. 193conosco, virão até nós, com ou sem máquina. Não podemos nosesconder deles. Se tivéssemos nos mantido calados, não estaría-mos âs voltas com esse problema. Se tivéssemos apenas a tele-visão a cabo e não contássemos com um único grande radar mi-litar, talvez eles não soubessem da nossa existência. Agora,porém, é tarde demais. Não podemos voltar atrás. Nosso rumoestá determinado."Se os senhores estiverem assustados seriamente com a pos-sibilidade de essa máquina destruir a Terra, então náo a construamaqui. Montem-na em outro lugar. Nesse caso, se ela for realmenteuma Máquina do Juízo Final e explodir um mundo... não será onosso mundo. Mas isso será caríssimo. Com toda a certeza, carodemais. Ou, se não estivermos tão assustados, podemos construí-la num deserto isolado. Os senhores poderiam ter uma imensaexplosão no Takopi, na província de Xinjing, e ainda assimninguém morreria. E, se não estivermos nem um pouco assusta-dos, podemos construí-la em Washington. Ou em Moscou. Ou em3eirute. Ou nesta bela cidade."Na antiga China, Vega e duas estrelas próximas eram cha-madas Chih Neu. Significa "moça com a roca. Temos aí um sím-bolo auspicioso: uma máquina destinada a produzir roupas novaspara a população da Terra."Recebemos um convite. Um convite raríssimo. Talvez sejapara um banquete. A Terra nunca foi convidada antes para umbanquete. Seria descortês recusar."19412OISÔMERO UM-DELTAOlhar para as estrelas sempre me faz sonhar,com a mesma simplicidade com que sonao aocontemplar os ponztinhos negros que represen-tam vilas e cidades num mapa. Por quê, eu nzepergunto, os pontinhos brilhanztes do céu nããopoderiam ser tão acessíveis como os pontinhosnegros no mapa da França?Vincent van GoghEra uma esplêndida tarde de outono, tão inesperadamentequente que Devi Sukhavati tinha saído sem casaco. Ellie e Devicaminhavam pelos Champs-Elysées, apinhados de gente, emdireção à place de la Concorde. A diversidade étnica de Paris sóera igualada em Londres, Manhattan e pouquíssimas outrascidades do planeta. Não havia ali nada de estranho no fato deduas mulheres passearem juntas, uma de saia e suéter, a outrade sári.Diante de uma chamtaria havia uma longa e ordeira fila depessoas falando várias línguas, atraídas pela primeira semana de
  • 145. venda legal de cigarros de maconha importados dos EstadosUnidos. Pela lei francesa, não podiam ser vendidos a menores dedezoito anos. Muitos dos que estavam na fila eram de meia-idadeou mais velhos. Alguns talvez fossem argelinos ou marroquinosnaturalizados. Sobretudo na Califórnia e no Oregon, eram culti-vadas variedades extrapotentes de canabis, para exportação. Esta-va à venda naquela loja uma nova variedade, muito admirada, cul-195tivada sob luz ultravioleta, o que convertia alguns dos canabi-nóides inertes no isômero 0, e comercializada com o nome de"Sun-Kissed". O maço, que aparecia num cartaz de um metro emeio de altura, tinha dizeres em francês: "Isto será deduzido desua parte no Paraíso".As vitrines do bulevar eram um tumulto de cores. Ellie e Devicompraram castanhas de um ambulante e se deliciaram com ogosto e a consistência. Por algum motivo, toda vez que Ellie viaum letreiro anunciando o sNP, Banque Nationale de Paris, inter-pretava-o como se fosse uma palavra russa que significasse beer[cerveja], com a letra do meio invertida. A incongruência a diver-tia, e era com dificuldade que ela conseguia convencer a parte deseu cérebro encarregada de ler que aquele alfabeto era latino, enão cirílico. Pouco mais adiante, elas admiraram o Obelisco-umantigo monumento militar roubado com grandes despesas para setornar um moderno monumento militar. Resolveram ir em frente.Der Heer havia desmarcado o encontro... ou, pelo menos,dava no mesmo. Telefonara para ela naquela manhã, um tantocontrafeito, mas não muito. Um número muito grande de ques-tões políticas estava sendo levantado na sessão plenária. O se-cretário de Estado chegaria no dia seguinte, interrompendo umavisita a Cuba. Der Heer estava superatarefado e esperava queEllie compreendesse. Ela compreendia. Odiou-se por dormir comele. Para evitar passar a tarde a sós, havia telefonado para DeviSukhavati."Uma das palavras em sânscrito que significam "vitorioso éahhijit. Era esse o nome que davam a Uega na Índia antiga. Foi soba influência de Vega que as divindades hindus, os heróis de nossacultura, conquistaram os asuras, os deuses do mal. Ellie! Está pres-tando atenção?... É curioso, na Pérsia também havia asuras, mas láeles eram os deuses do bem. Por fim, surgiram religiões nas quaiso deus principal, o deus da luz, o deus Sol, chamava-se Ahura-Maz-da. Os zoroastrianos, por exemplo, e também os mitraístas. Ahura,Asura, é o mesmo nome. Ainda hoje existem zoroastrianos, e osmitraístas pregaram um susto nos primeiros cristãos. Mas, nessamesma história, essas divindades hindus... aliás, eram quase todasfemininas... chamavam-se Devis. Essa é a origem de meu próprionome. Na Índia, as Devis são deusas do bem. Na Pérsia, tornaram-196
  • 146. se deusas do mal. É provável que tudo isso seja um relato vaga-mente reminiscente da invasão ariana que expulsou os drávidas,meus antepassados, para o sul. Assim, dependendo de que lado daserra de Kirthar a pessoa viva, Vega apóia Deus ou o Diabo."Essa história, narrada jovialmente por Devi, decerto nascerado fato de a indiana ter tomado conhecimento das aventuras reli-giosas de Ellie na Califórnia, duas semanas antes. Ao ouvi-la,porém, Ellie lembrou-se de que nem sequer mencionara a Joss a ;possibilidade de que a Mensagem contivesse os planos de umamáquina de finalidade ignorada. Em breve ele tomaria conheci-mento disso pelos meios de comunicação. Na realidade, pensou ela, devia telefonar-lhe a fim de explicar o que estava acontecen-do. Entretanto, constava que Joss estava em retiro. Não fizera ne-nhuma declaração pública depois do encontro que haviam man-tido em Modesto. Kankin, em entrevista coletiva, anunciara que,embora pudesse haver alguns perigos, ele não se opunha a queos cientistas recebessem a Mensagem até o fim. Entretanto, adecodificação era outra coisa. Fazia-se necessário, disse, um acom-panhamento periódico por todos os segmentos da sociedade, prin-cipalmente por aqueles a quem cabia salvaguardar os valores mo-rais e espirituais.Aproximavam-se agora dos jardins das Tulherias, que exi-biam as cores garridas do outono. Homens frágeis e idosos-Ellieachou que fossem do Sudeste asiático - discutiam com vigorentre si. Os portões de ferro fundido estavam enfeitados combalões multicores, à venda. No centro de um laguinho havia umaAnfitrite de mármore. A seu redor, corriam iates-modelos, com atorcida de um grupo exuberante de crianças com aspirações náu-ticas. Um bagre saltou repentinamente, atirando água no barcoque ia à frente, e os meninos e meninas silenciaram de súbito, sur-presos com aquela aparição, de todo inesperada. O Sol já caía nopoente, e Ellie sentiu um calafrio momentâneo.Chegaram perto de LOrangerie, em cujo anexo havia umaexposição especial - segundo anunciava um cartaz, "Imagensmarcianas". Os veículos automáticos franco-americano-soviéticoshaviam produzido uma avalanche de fotografias espetaculares deMarte; algumas delas, como as imagens que a Vroyager obtiverados planetas exteriores do sistema solar, por volta de 1980, ultra-197passavam a mera finalidade científica e constituíam verdadeirasobras de arte. O cartaz tinha como fundo uma paisagem fotografa-da no imenso planalto Elysium. No primeiro plano se destacavauma pirâmide de três faces, regular e altamente erodida, com umacratera de impacto perto de sua base. Fora produzida por milhõesde anos de jatos de areia, soprada pelos violentos ventos mar-cianos, segundo os geólogos planetários. Um segundo veículoautomático, destinado a explorar Cydonia, do outro lado de
  • 147. Marte, tinha ficado preso numa duna movediça, e os contro-ladores em Pasadena até então não haviam conseguido atender aseus desolados pedidos de socorro.Ellie achava-se encantada com a aparência de Sukhavati: osimensos olhos negros, o porte ereto e outro sári igualmentedeslumbrante. Não sou bonita, pensou. Em geral, ela conseguiamanter uma conversa ao mesmo tempo em que, mentalmente,dedicava atenção a outras coisas. Naquele dia, porém, tinha difi-culdade em acompanhar uma única linha de raciocínio, quantomais duas. Enquanto debatiam os méritos das diversas opiniôes arespeito da conveniência de construir a Máquina, Ellie voltou àimagem, evocada por Devi, da invasão da Índia por arianos há3500 anos: uma guerra entre dois povos, cada um alegando terobtido a vitória, cada um exagerando nos relatos históricos. Porfim, a narrativa se converte numa guerra entre deuses. "Nosso"lado, naturalmente, é o bom; o outro, naturalmente, é mau. Ellieimaginou o Diabo do Ocidente, de rabo pontudo e cascos fendi-dos, a evoluir no decurso de milhares de anos, a partir de algumantecedente hindu que, ao que ela sabia, tinha cabeça de elefantee era pintado de azul."O cavalo de Tróia de Baruda... talvez não seja uma idéiainteiramente estapafúrdia", Ellie se viu dizendo. "Mas acho quenão temos mesmo muitas opções, como disse Xi. Eles poderãoestaraqui dentro de vinte e poucos anos, se desejarem."Chegaram a um arco monumental, em estilo romano, enci-mado por uma heróica, na verdade apoteótica, estátua de Na-poleão como condutor de biga. De uma perspectiva distante,extraterrestre, como era patética aquela posição! Descansaramnum banco próximo, e suas longas sombras se projetaram sobreum canteiro de flores com as cores da República francesa.198Ellie teve vontade de falar sobre seu próprio problema emo-cional, mas percebeu que isso poderia ser delicado, por encerrarproblemas políticos. Seria, no mínimo, indiscreto. Não conheciaSukhavati muito bem. Por isso, preferiu estimular a companheiraa falar da vida pessoal dela. Devi não se fez de rogada.Pertencia a uma família brâmane, mas sem muitos recursos ecom inclinações matriarcais, do Estado meridional de Tamil Nadu.As famílias matriarcais ainda eram comuns em todo o Sul da Índia.Havia se matriculado na Universidade Hindu de Benares. NaInglaterra, na faculdade de medicina, havia conhecido SurindarGhosh, um colega, por quem se apaixonara perdidamente. Noentanto, Surindar eram um harijan, um intocável, pertencente auma casta tão malvista que os brâmanes ortodoxos diziam que osimples ato de olhar para um deles causava polução. Os ancestraisde Surindar tinham sido obrigados a levar uma existência notur-na, como os morcegos e as corujas. A família ameaçou deserdar
  • 148. Devi se eles se casassem. O pai declarou que não teria na contade filha uma pessoa que levasse avante tal união. Se ela se casassecom Ghosh, ele a consideraria morta. E Devi se casou com ele."Estávamos apaixonados demais", disse ela. "Na verdade, nãohavia alternativa." Um ano depois ele morreu de uma septicemiacontraída enquanto realizava uma autópsia com supervisão ina-dequada.Entretanto, a morte de Surindar, ao invés de propiciar a re-conciliação dela com a família, teve justamente o efeito oposto, edepois de colar grau Devi resolveu permanecer na Inglaterra.Descobriu ter uma afinidade natural pela biologia molecular, econsiderou isso um prosseguimento de seus estudos de medicina.Logo verificou ter rara competência nessa trabalhosa disciplina. Oconhecimento da duplicação do ácido nucléico levou-a a pesqui-sar a origem da vida e, por extensão, a voltar a atenção para a pos-sibilidade da existência de vida em outros planetas."Pode-se dizer que minha carreira científica tem sido umaseqüência de livres associaçôes. Uma coisa levou a outra."Estivera trabalhando recentemente na caracterização damatéria orgânica marciana, medida em alguns sítios do planetapelos mesmos veículos automáticos cujos assombrosos produtosfotográficos elas tinham acabado de ver anunciados. Devi jamais199voltara a se casar, embora deixasse claro que alguns homens adesejavam como esposa. Ultimamente estivera saindo com umcientista de Bombaim, por ela descrito como um "wallah de com-putador".Caminhando mais um pouco, viram-se na cour Napoléon, opátio interno do Museu do Louvre. No seu centro estava a entradapiramidal, recém-completada e motivo de acesa controvérsia; emnichos elevados em torno do pátio, viam-se representaçõesescultóricas dos heróis da civilização francesa. Sob cada uma dasestátuas daqueles homens - não havia sinal de veneração a mu-lheres - lia-se o seu sobrenome. Em algumas inscrições, as letrasestavam erodidas pelo desgaste natural ou, em certos casos, talvezapagadas por algum visitante desagradado. Em uma ou duas está-tuas, era difícil adivinhar quem fora o sábio. Numa delas, alvo evi-dente do maior ressentimento do público, só sobravam as letras LTA.Embora o sol estivesse se pondo e o Louvre ficasse abertoaté mais tarde, não entraram, preferindo passear pela margemdo Sena, seguindo o rio pelo quai DOrsay. Os proprietáriosdas bancas de livros fechavam-nas e encerravam seu dia. Durantealgum tempo, Ellie e Devi caminharam de braços dados, à manei-ra européia.Um casal francês seguia à frente delas, segurando as mãos deuma menina de uns quatro anos que, de vez em quando saltavada calçada. Na momentânea suspensào em gravidade zero, ela
  • 149. experimentava, obviamente, algo próximo do êxtase. Os pais dis-cutiam o Consórcio Mundial da Mensagem, o que não represen-tava cõincidência alguma, já que os jornais quase não se referiama outra coisa. O homem era a favor da construção da Máquina; issopoderia criar novas tecnologias e aumentar o nível de emprego naFrança. A mulher se mostrava mais cautelosa, mas por motivosque tinha dificuldade de explicar. A menina, com as tranças voan-do ao vento, revelava total desinteresse quanto ao que devia serfeito com os desenhos que vinham das estrelas.Der Heer, Kitz e Honicutt haviam convocado uma reunião naembaixada americana, na manhã seguinte, a fim de se prepararempara a chegada do secretário de Estado, ainda no mesmo dia. A200reunião, sigilosa, deveria realizar-se no Salão Negro da embaixa-da, aposento eletromagneticamente apartado do mundo externo,o que impossibilitava até mesmo a utilização de avançados sis-temas eletrônicos de espionagem. Pelo menos, era o que se pro-palava. No entender de Ellie, talvez existissem instrumentos capa-zes de superar essas precauçôes.Depois de passar a tarde com Devi Sukhavati, ela havia rece-bido o recado no hotel e tentara telefonar para Der Heer, mas sóconseguira falar com Michael Kitz. Opunha-se a uma reunião si-gilosa com relação ao assunto, disse. Era questão de princípio.Evidentemente, a Mensagem destinava-se a todo o planeta. Kitzrespondeu que nenhum dado estava sendo negado ao resto domundo, ao menos por parte dos americanos; e que a reunião erasimplesmente consultiva - tinha o intuito de auxiliar os EstadosUnidos nas difíceis negociações que estavam por vir. Apelou parao patriotismo de Ellie, para seu interesse pessoal e, por fim, invo-cou novamente a Decisão Hadden. "Ao que eu saiba, aquele do-cumento ainda está no seu cofre, sem que tenha sido lido", disseKitz. "Leia-o."Ellie tentou, novamente sem êxito, falar com Der Heer. Aprincípio, o homem não saía do Projeto Argus. Passou a morar noapartamento dela. Ellie teve certeza, pela primeira vez em muitosanos, de que estava apaixonada. Mas, logo a seguir, nem mesmoconseguia falar com ele ao telefone. Resolveu comparecer àreunião, ao menos para ver Ken face a face..Kitz era entusiasticamente favorável à construção da Má-quina, Drumlin apoiava a idéia com cautela, Der Heer e Honicutt,ao menos exteriormente, assumiam uma atitude neutra, e PeterValerian se debatia na agonia da indecisão. Kitz e Drumlin atémesmo discutiam onde a coisa deveria ser montada. Os custos detransporte tornavam proibitiva a construção ou mesmo a mon-tagem no lado oculto da Lua, como sugerido por Xi. "Se empregarmos a frenagem aerodinâmica, é mais baratomandar uma carga de um quilograma a Fobos ou a Deimos do que
  • 150. ao lado oculto da Lua", comentou Bobby Bui."Onde fica esse negócio de Fobusidimos?", quis saber Kitz."As luas de Marte. Eu estava me referindo à frenagem aero-dinâmica na atmosfera marciana."201"E quanto tempo é preciso para chegar a Fobos ou Deimos?"Drumlin estava mexendo o café na xícara."Talvez um ano, mas assim que dispusermos de uma frota deveículos de transbordo interplanetário e o oleoduto estiver..."Quer comparar isso com três dias de viagem à Lua?", inter-pôs Drumlin. "Bui, não nos faça perder tempo.""Trata-se apenas de uma sugestão", protestou ele. "Apenasuma coisa para se considerar."Der Heer parecia impaciente, longe dali. Era evidente que seachava submetido a grande pressão. Ora evitava os olhos dela, oraparecia fazer-lhe um apelo mudo. Ellie viu aquilo como um sinalde esperança."Se vocês se preocupam com Máquinas do Juízo Final", diziaDrumlin, "têm de se preocupar com suprimentos de energia. Seela não tiver acesso a uma enorme quantidade de energia, nãopode ser uma Máquina do Juízo Final. Assim, desde que as ins-truções não peçam um reator nuclear de um gigawatt, não creioque nos devamos preocupar com Máquinas do Juízo Final.""Por que vocês estão com tamanha pressa de se comprome-ter com a construção?", perguntou Ellie a Kitz e Drumlin. Estavamsentados juntos, com um prato de croissants entre eles.Kitz olhou para Honicutt e depois para Der Heer antes deresponder. "Esta reunião é sigilosa", começou ele. "Todos nóssabemos que você não vai transmitir a seus amigos russos o quefor dito aqui. A situação é a seguinte: não sabemos qual é a fina-lidade da Máquina, mas a análise de Dave Drumlin mostra clara-mente que ela encerra novas tecnologias, provavelmente novasindústrias. A construção da Máquina fatalmente terá conseqüên-cias econômicas... quer dizer, pense no que iríamos aprender. Epoderia ter valor militar. Ao menos é isso que os russos estão pen-sando. Veja, os russos estão num impasse. Temos aqui toda umanova área tecnológica que eles terão de dividir com os EstadosUnidos. É possível que a Máquina traga instruçôes para algumaarma decisiva ou alguma vantagem econômica. Eles nào podemter certeza. Terão de arrebentar a economia deles tentando desco-brir. Notou como Baruda não parava de se referir a custos-benefí-cios? Se toda essa história da Máquina fosse para o beleléu... se osdados fossem queimados, os telescópios, destruídos... nesse caso202os russos poderiam manter paridade militar. É por isso que estãomostrando tanta cautela. E por isso, é claro, vamos mergulhar de
  • 151. cabeça na coisa." Kitz sorriu.Por temperamento, Kitz era impassível, pensou Ellie; masnão tinha nada de tolo. Quando se mostrava frio e impessoal, aspessoas tendiam a não gostar dele. Por isso, habituara-se a mostrarum ocasional verniz de urbanidade. Ellie o julgava da espessurade uma monocamada molecular."Agora, quero fazer a você uma pergunta", continuou ele."Lembra-se das observações de Baruda a respeito da sonegaçãode alguns dados? Estão faltando dados?""Só da fase muito inicial", respondeu Ellie. "Só das primeirassemanas, creio. Pouco depois disso, ocorreram algumas falhas nacobertura dos chineses. Ainda há uma pequena quantidade dedados que não foram trocados, por parte de todos os lados. Masnão vejo sinais de sonegação. Seja como for, vamos conseguirpreencher as lacunas depois que a Mensagem recomeçar.""Se recomeçar", rosnou Drumlin.Der Heer encaminhou uma discussão sobre planejamentocontingente: que fazer quando recebessem a chave; quais as indús-trias americanas, alemãs e japonesas que deveriam ser logo notifi-cadas a respeito de possíveis grandes projetos; como selecionar oscientistas e engenheiros a serem incumbidos da construção daMáquina, se fosse tomada a decisão de ir avante; e, rapidamente, anecessidade de fazer o Congresso e o povo americanos verem oprojeto com entusiasmo. Der Heer apressou-se a dizer que tudoaquilo não passava de planos de contingência, que não estavasendo tomada nenhuma decisão final e que, sem dúlvida, ostemores dos soviéticos sobre um cavalo de Tróia eram, pelo menosem parte, justificados.Kitz perguntou a respeito da "tripulação". "Estão falando emcolocar pessoas em cinco assentos acolchoados. Que pessoas?Como resolver? É provável que essa tripulação tenha de ser inter-nacional. Quantos americanos? Quantos russos? Mais alguém?Não sabemos o que há de acontecer a essas cinco pessoas quan-do se sentarem nessas cadeiras, mas sem dúvida vamos querer osmelhores homens para isso." Ellie não mordeu a isca, e Kitzprosseguiu. "Ora, vamos ter de responder perguntas importantes.203Quem paga o quê, quem constrói o quê, quem se encarrega daintegração geral dos sistemas. Creio que poderemos fazer umaboa barganha com relação a isso, em troca de uma significativarepresentação americana na tripulação.""Mas sempre haveremos de querer mandar as melhores pes-soas disponíveis", observou Der Heer, de modo um tanto óbvio."Claro", retorquiu Kitz. "Mas que significa "melhores? Pes-soas com experiência em informações militares? Com força eresistência física? Patriotas?... Isso não é palavrão, vocês sabem.Além disso..." Desviou o olhar de um croissant para fitar Ellie dire-
  • 152. tamente. "...existe a questão do sexo. Dos sexos, quero dizer.Enviaremos somente homens? Se forem homens e mulheres, teráde prevalecer um sexo sobre o outro. São cinco assentos, númeroímpar. Será que todos os membros da tripulação trabalharão bem,juntos? Se formos avante com esse projeto, vai haver uma porçãode negociações difíceis.""Isso não me parece correto", disse Ellie. "Não se trata de umposto de embaixador que se compra com uma contribuição paraa campanha eleitoral. É assunto sério. Além disso, vamos querermandar algum idiota musculoso, algum rapaz de vinte anos quenada sabe sobre a vida... que só seja capaz de correr cem metrosem tempo recorde e de obedecer ordens? Ou algum caboeleitoral? Não é possível que essa viagem se reduza a isso.""Não, você tem razão." Kitz sorriu. "Creio que conseguiremospessoas que atendam a todos os nossos critérios."Com enormes olheiras a lhe darem um aspecto quase doen-tio, Der Heer encerrou a reunião. Dirigiu a Ellie um leve sorrisoem particular, mas só com os lábios. As limusines da embaixadaesperavam para levá-los de volta ao Elysée Palace."Vou lhe explicar por que seria melhor mandar russos", disseVaygay. "Quando vocês, americanos, exploraram seu país... pio-neiros, caçadores, guias índios, tudo isso... não encontraramobstáculos, pelo menos por parte de quem dispusesse do mesmonível de tecnologia. Dispararam pelo continente, do Atlântico aoPacífico. Depois de algum tempo, vocês esperaram que tudo fos-se fácil. Nossa situação foi diferente. Fomos conquistados pelos204mongóis. A tecnologia rotineira deles era muito superior à nossa.Quando nos expandimos para o leste, tivemos cuidado. Nuncanos aventurávamos pelo deserto pensando que seria fácil. Esta-mos mais habituados à adversidade do que vocês. Além disso, osamericanos estão acostumados a estar na frente do ponto de vistatecnológico. Nós estamos acostumados ao atraso tecnológico.Ora, toda a população da Terra é um russo... Entenda, quero di-zer que toda a população se encontra em nossa posiç ão histórica.Essa missão precisa mais de soviéticos que de americanos."O simples fato de estar a sós com ela acarretava certos riscospara Vaygay - e também para ela, como Kitz se dera ao trabalhode lhe lembrar na embaixada. Às vezes, durante um encontro decaráter científico nos Estados Unidos ou na Europa, Vaygay tinhapermissão de passar uma tarde com ela. Em geral, era acompa-nhado por colegas ou por um representante da KGB, apresentadocomo intérprete, muito embora seu inglês fosse nitidamente infe-rior ao de Vaygay, ou como cientista da secretaria desta ou daque-la comissão da Academia, ainda que seu conhecimento de assun-tos científicos fosse com freqüência superficial. Vaygay balançavaa cabeça quando interrogado a respeito dessas pessoas. De modo
  • 153. geral, porém, considerava aqueles acompanhantes parte do jogo,o preço que ele tinha de pagar pela autorização de viajar ao Oci-dente, e mais de uma vez ela acreditou perceber um tom de so-lidariedade na voz de Vaygay ao falar com seu acompanhante.Viajarem a um país estrangeiro e simularem ser especialistas emassuntos que mal conheciam deviam tornar aquelas pessoasextremamente ansiosas. No fundo, talvez os homens da KGB detes-tassem sua tarefa tanto quanto Vaygay.Estavam sentados à mesma mesa, no Chez Dieux, junto àjanela. O ar estava frio, numa premonição do inverno, e um rapazque, como única concessão ao frio, usava um longo cachecol azulpassou rapidamente pelas tinas de ostras do lado de fora. Pelasobservações de Vaygay, inusitadamente cautelosas, Ellie deduziua confusão que grassava na delegação soviética. Os russos te-miam que, de um modo ou de outro, a Máquina pudesse redun-dar em vantagem tecnológica para os Estados Unidos na com-petição global que já durava cinco décadas. Na verdade, Vaygayficara chocado com a sugestão de Baruda de que os dados fossem205queimados e os radiotelescópios, destruídos. Nào tivera conheci-mento da proposta com antecedéncia. Os soviéticos haviamdesempenhado papel capital no recebimento da Mensagem, umavez que o tamanho de seu país permitia uma enorme cobertura nosentido longitudinal, acentuou Vaygay, e eram eles que dispu-nham dos únicos radiotelescópios eficazes montados em navios.Podiam esperar um papel de relevo em qualquer coisa que viessea acontecer. Ellie garantiu-lhe que, pelo menos no que diziarespeito a ela, eles teriam essa participação efetiva."Olha, Vaygay, eles sabem, por nossas transmissôes de tv,que a Terra gira e que temos muitas nações diferentes. Bastaria oprograma das Olimpíadas para lhes informar isso. Transmissôesposteriores, de outros países, deixariam a situação bem clara.Assim, se sào tão avançados como acreditamos, podiam ter orien-tado a transmissão de acordo com a rotação da Terra, de modo aque só um país recebesse a Mensagem. Mas não fizeram isso.Querem que a Mensagem seja captada por todos no planeta. Estàoà espera de que a Máquina seja construída pelo planeta inteiro.Esse projeto não pode ser americano ou russo. Não é o que nos-so... cliente quer."No entanto, ela não tinha certeza, disse-lhe, de que viesse adesempenhar algum papel na construção da Màquina ou na esco-lha da tripulação. Voltaria para os Estados Unidos no dia seguinte,sobretudo para se inteirar dos novos dados recebidos nas últimassemanas. As sessões plenárias do Consórcio pareciam inter-mináveis, e ainda não fora marcada uma data para o encerramen-to. O governo soviético pedira a Vaygay que ficasse pelo menosum pouco mais em Paris. O ministro do Exterior havia chegado e
  • 154. agora estava chefiando a delegaÇão soviética."Tenho medo de que tudo isso termine mal", disse ele. "Hámuitas coisas que podem dar errado. Problemas tecnológicos.Problemas humanos. E, mesmo se chegarmos bem ao fim de tu-do, se nào tivermos uma guerra por causa da Máquina, se a cons-truirmos corretamente e não formos pelos ares, ainda assim estoupreocupado.""Com quê? O que você quer dizer?""O melhor que poderá acontecer será bancarmos os bobos.""Nós quem?"206"Arroway, você não compreende?" Uma veia do pescoço deLunacharski latejou. "Surpreende-me que você não perceba. ATerra é um... gueto. Isso, um gueto. Todos os seres humanos estãopresos aqui. Ouvimos dizer, vagamente, que existem grandescidades lá fora, além do gueto, com amplas avenidas cheias dedroshkise mulheres lindas, perfumadas e vestidas com peles. Masas cidades são distantes demais, e nós, mesmo os mais ricos,somos demasiado pobres para viajar até lá. De qualquer forma,sabemos que não nos querem. Foi por isso que, para começar,deixaram-nos nesta aldeia, de uma pequenez patética."E agora chega um convite. Como disse Xi. Cortês, elegante.Mandaram-nos um cartão em alto-relevo e um droshki vazio.Devemos escolher cinco aldeões, e o droshki os levará a... quemsabe?... Varsóvia. Ou Moscou. Talvez até Paris. Naturalmente,alguns são tentados a ir. Sempre haverá pessoas que se sentirãolisonjeadas pelo convite, ou que julguem ser esse um meio deescapar a nossa pobre aldeia."E o que é que você acha que vai acontecer quando chegar-mos lá? Pensa que o grào-duque nos convidará para jantar? Que opresidente da Academia vai fazer perguntas interessadas sobre avida cotidiana em nossa imunda terra? Imagina que o metropoli-ta ortodoxo russo fará para nós uma bela palestra sobre religiãocomparada?"Não, Arroway. Nós vamos ficar embasbacados com a cidadegrande, e vão rir de nós. Vão exibir-nos aos curiosos. Quanto maisatrasados formos, melhor eles se sentirão, mais seguros de si hãode ficar."É um sistema de cotas. A intervalos de alguns séculos, cincode nós conseguem passar um fim de semana em Vega. O negócioé ter pena dos provincianos e fazer com que eles conheçam o seulugar."20713BABILÔNIACom os mais ignóbeis companheiros, eu seguia
  • 155. pelas ruas de Babilônia [...]Santo Agostinho, Confissões, II, 3O computador Crav 21 do Argus fora instruído para cotejar acoleta de dados diários provenientes de Vega com os primeirosregistros do nível 3 do palimpsesto. Com efeito, uma longa eincompreensível seqüência de zeros e uns vinha sendo compara-da automaticamente com outra, antérior. Isso fazia parte de umacolossal intercomparação estatística de vários segmentos do tex-to ainda não decodificado. Havia breves séries de zeros e uns -os analistas chamavam-nas, esperançosamente, de "palavras" -repetidas várias vezes. Muitas seqüências apareciam somenteuma vez em milhares de páginas de texto. Esse método estatísticode decriptografia era familiar a Ellie desde os tempos de colégio.Entretanto, as sub-rotinas fornecidas pelos especialistas da Agên-cia de Segurança Nacional eram brilhantes. Aliás, só haviam sidopostas à disposição do Projeto Argus por ordem presidencial e,mesmo assim, com instruções de se autodestruírem se exami-nadas com muita atenção.Quantos prodígios de inventividade humana, refletia Ellie,estavam sendo dirigidos para a leitura da correspondência alheia!A confrontação mundial entre Estados Unidos e União Soviética- agora, a rigor, abrandada - ainda dominava o mundo. Não setratava apenas dos recursos financeiros dedicados ao sistema mi-208litar de todos os países. Essas verbas aproximavam-se de 2 trilhõesde dólares por ano, e representavam, perse, um dispêndio ruinosoquando ainda havia tantas necessidades humanas urgentes poratender. Pior ainda, sabia Ellie, era o esforço intelectual devotadoà corrida armamentista.Quase metade dos cientistas do planeta, segundo estimati-vas, trabalhava para um ou outro dos quase duzentos sistemasmilitares em todo o mundo. E não constituíam a escória dos pro-gramas de doutoramento em física e matemática. Alguns dos cole-gas de Ellie se consolavam com essa idéia quando surgia o de-sagradável problema do que dizer a um candidato a doutoradoque estivesse sendo cortejado por um dos centros de pesquisas dearmamentos. "Se ele prestasse para alguma coisa, teriam aomenos lhe oferecido uma cadeira de professor assistente em Stan-ford", ela se lembrava de ter ouvido Drumlin dizer certa vez. Não,havia certo tipo de mente e de caráter que era atraído para as apli-cações militares da ciência e da matemática - pessoas quegostavam de grandes explosões, por exemplo; ou aquelas que,não tendo nenhum gosto pelo combate pessoal, aspiravam a umcomando militar para se vingar de uma injustiça sofrida na esco-la; ou inveterados solucionadores de enigmas, que ansiavam pordecifrar as mais complexas mensagens existentes. Às vezes, a
  • 156. motivação era de fundo político, remontando a litígios interna-cionais, políticas de imigração, horrores da guerra, brutalidadepolicial ou propaganda nacional desta ou daquela nação há váriosdecênios. Muitos desses cientistas tinham grande competência,sabia Ellie, quaisquer que fossem as ressalvas que ela fizesse àssuas motivações. Espantava-a imaginar o que aquele acúmulo detalento poderia conseguir se estivesse realmente dedicado aobem-estar da espécie e do planeta.Debruçou-se sobre os estudos que se haviam acumuladodurante sua ausência. Quase não estavam fazendo progresso nadecodificação da Mensagem, ainda que as análises estatísticas jáformassem uma pilha de um metro de altura. Era tudo muito de-salentador.Ellie desejava que houvesse no Argus alguém, de preferênciauma amiga íntima, com quem ela pudesse desabafar sua mágoa eraiva pela conduta de Ken. Mas não havia, e ela não estava dis-209posta a usar o telefone para isso. Conseguiu passar um fim de se-mana com uma amiga de faculdade, Becky Ellenbogen, emAustin, mas Becky, cujas opiniões sobre os homens tendiam a sesituar entre a repugnãncia e a violência, nesse caso mostrou sur-preendente brandura."Ele é o consultor de ciências da presidência, e esta descober-ta é, nada mais, nada menos, a mais espetacular da história domundo. Não se queixe tanto", disse Becky. "Ele vai aparecer."Entretanto, Becky era outra daquelas que achavam Ken"charmoso" (conhecera-o por ocasião da inauguração do Obser-vatório Nacional de Neutrinos), e parecia um pouco exagerada emsua propensão a se curvar ante o poder. Tivesse Der Heer tratadoEllie daquele modo indigno quando não passava de um professorde biologia molecular em uma universidade obscura, Becky teriatripudiado sobre ele.Depois de voltar de Paris, Der Heer realizara uma verdadeiracampanha de desculpas e dedicação. Estivera estafado, disse aela, esmagado por enormes responsabilidades, que incluíamquestões políticas difíceis, com as quais não estava familiarizado.Sua posição como líder da delegação americana e co-presidentedo plenário poderia ter se tornado menos segura se o relaciona-mento entre Ellie e ele se tornasse de conhecimento público. Kitztinha se mostrado insuportável. Ken passara muitas noitesseguidas quase sem dormir. Na opinião de Ellie, havia explicaçõesdemais. No entanto, permitiu que o relacionamento prosseguisse.Quando a coisa aconteceu, foi novamente Willie, dessa vezem seu plantão noturno, que primeiro a notou. Mais tarde, eleveio a atribuir a rapidez da descoberta menos ao computadorsupercondutor e aos programas da AsN do que aos novos chipsHadden de identificação de contexto. De qualquer forma, Vega
  • 157. estava perto do horizonte, mais ou menos uma hora antes daalvorada, quando tocou o alarme do computador, baixo, como senão fosse nada demais. Um tanto chateado, Willie deixou de ladoo livro que estava lendo, um novo compêndio sobre espectros-copia transformacional rãpida de Fourier, e leu as seguintespalavras na tela:210KPT. 7EXTO II. 41717-41i719: 1I1 MISMATCH 0/2271.COEFICIENTE DE CORRELAÇÀO 0,99+Enquanto ele olhava, 41619 tornou-se 41620 e, logo a seguir,41621. Os algarismos depois da barra diagonal corriam em man-cha contínua. Tanto o número de páginas como o coeficiente decorrelação, uma medida da improbabilidade de que a correlaçãofosse aleatória, cresciam enquanto ele olhava a tela. Deixou queavançassem mais duas páginas antes de pegar a linha direta parao apartamento de Ellie.Ela dormia profundamente e ficou momentaneamente deso-rientada. Mas logo acendeu a luz de cabeceira e, após um instante,deu instruções para que o pessoal da direção do Projeto Argus sereunisse. Disse a Willie que ela própria localizaria Der Heer, quese encontrava em algum lugar do observatório. A procura não foidemorada. Ellie o sacudiu."Ken, levante-se. Estão dizendo que começou a repetir.""O quê?""A Mensagem voltou ao início. Pelo menos foi o que Williedisse. Estou indo para lá. Por que você não espera dez minutos,para fingirmos que você estava no seu quarto?"Já estava quase na porta quando ele gritou: "Como podemosvoltar ao início? Ainda não temos a chave".Pelas telas corria uma seqüência emparelhada de zeros e uns,uma comparação em tempo real dos dados que estavam sendorecebidos e dos dados de uma página anterior, recebida no Argusum ano antes. O programa teria identificado quaisquer divergên-cias. Até então não houvera nenhuma. Era tranqüilizador saberque não tinham cometido erros de transcrição, que aparente-mente não houvera erros de transmissáo e que, se uma pequenanuvem densa de matéria interestelar entre Vega e a Terra fossecapaz de engolir alguma coisa, isso era ocorrência rara. O Argusencontrava-se agora em comunicação em tempo real com de-zenas de outros telescópios que integravam o Consórcio Mundialda Mensagem, e a notícia da repetição foi passada às estações deobservação a oeste, na Califórnia e no Havaí, para o navio Ma-rechal Nedelin, que se encontrava agora no Pacífico Sul, e paraSydney. Se a descoberta tivesse sido feita enquanto Vega estava211sobre um dos demais telescópios da rede, Argus teria sido infor-mado instantaneamente.
  • 158. A ausência da chave era uma terrível decepção, mas não foia única surpresa. Os números de página da Mensagem tinhamsaltado, intermitentemente, da casa dos 40000 para a dos 10000,onde a repetiçáo fora detectada. Evidentemente, o Argus haviadescoberto a transmissáo de Vega quase no momento em que elachegara à Terra. Era um sinal de extraordinária intensidade e teriasido captado até por pequenos telescópios onidirecionais. Mas foiuma coincidência surpreendente que a transmissão chegasse àTerra no exato momento em que o Argus observava Vega. Alémdisso, que poderia significar o início do texto numa página denúmero 10000 e tantos? Estariam faltando aquelas 10 mil páginas?Seria apenas por atraso tecnológico que na Terra, um planetaprovinciano, os livros começavam pela página 1? Seriam aquelesnúmeros seqüenciais uma outra coisa, e não números de páginas?Ou - e era isso que mais preocupava Ellie - haveria algumadiferença fundamental e inesperada entre as maneiras como osseres humanos e os extraterrestres pensavam? Nesse caso, o Con-sórcio enfrentaria imensas complicações para entender a Mensagem, com ou sem chave.A Mensagem repetiu-se exatamente; todas as lacunas foranpreenchidas; e ninguém conseguiu entender uma palavra. Parecia improvável que à civilização transmissora, em tudo maismeticulosa, houvesse simplesmente passado despercebidaa necessidade de uma chave. Pelo menos a transmissão das Olinpíadas e o desenho do interior da Máquina pareciam ter sido talhados especificamente para seres humanos. Não era de immaginar que tivessem tido tanto trabalho para preparar e transmitira Mensagem sem que tomassem medidas para que os homenspudessem lê-la. Portanto, alguma coisa devia ter passado despercebida aos seres humanos. Em breve, houve um consensogeral de que o palimpsesto devia conter uma quarta camadaMas onde?Os diagramas foram publicados numa coleção de luxo,oito volumes, logo republicados em todo o mundo. Em todos osrecantos do planeta, as pessoas tentavam descobrir o que sigrgnificavam as imagens. Atraíam especial atenção o dodecaedro e212formas quase biológicas. Muitas sugestôes interessantes, feitaspelo público, foram cuidadosamente submetidas ao crivo daequipe do Argus. Corriam também muitas interpretações absur-das, sobretudo nas revistas semanais. Surgiam novas indústrias -fato, sem dúvida, não previsto pelos que haviam transmitido aMensagem -, dedicadas a usar os diagramas para ludibriar opúblico. Anunciou-se a criação da Antiga e Mística Ordem doDodecaedro. A Máquina era um ovNl. A Máquina era a Roda deEzequiel. Um anjo revelou o significado da Mensagem e dos dia-gramas a um empresário brasileiro, que distribuiu sua interpre-
  • 159. tação - inicialmente, a sua própria custa - por todo o mundo.Havendo tantos diagramas enigmáticos a interpretar, era inevitá-vel que muitas religiões reconhecessem parte de sua iconografiana Mensagem chegada das estrelas. Uma importante seção trans-versal da Máquina assemelhava-se a um crisântemo, fato que des-pertou grande entusiasmo no Japão. Se tivesse aparecido a ima-gem de um rosto humano em algum dos diagramas, o fervormessiânico poderia ter atingido um ponto de explosão.Por tudo isso, um número surpreendentemente grande depessoas liquidava seus negócios, preparando-se para o Advento.A produtividade industrial caía no mundo inteiro. Eram muitos osque, tendo doado tudo o que possuíam aos pobres, viam-se obri-gados, com a protelação do fim do mundo, a buscar auxílio juntoàs instituições de caridade ou ao Estado. Uma vez que doaçõesdesse gênero representavam uma parcela substancial dos recur-sos de entidades assistenciais, alguns filantropos terminaramsendo sustentados pela próprias doações. Os governantes eramprocurados por delegações que urgiam a erradicação da esquis-tossomose ou da fome no mundo até o Advento; caso contrário,não se poderia prever o que nos aconteceria. Outros aconse-lhavam, mais sobriamente, que, se estava para sobrevir mais oumenos uma década de loucura generalizada, seria possível obter,de algum modo, vantagens monetárias ou nacionais.Havia quem dissesse que náo existia chave alguma, que todaa transmissão objetivava ensinar os homens a serem humildes, oulevá-los à loucura. Os jornais publicavam editoriais que diziamque não somos tão inteligentes como supomos, e se notava certoressentimento contra os cientistas que, depois de todo o apoio213dado pelos governos, os haviam decepcionado no momento cru-cial. Ou talvez os seres humanos fossem muito mais tolos do quesupunham os veganos. Talvez existisse algum fato inteiramenteóbvio a todas as civilizações emergentes já contactadas daquelamaneira, uma coisa que ninguém na história da galáxia tivessedeixado de entender. Alguns comentaristas defendiam com ardoressa idéia de humilhação cósmica. Ela provava o que vinhamdizendo sobre a raça humana. Depois de algum tempo, Elliechegou à conclusão de que precisava de ajuda.Atravessaram sub-repticiamente a porta de Enlil, acompa-nhados de um guarda enviado pelo proprietário. O segurança daAdministração de Serviços Gerais mostrava-se inquieto, a despei-to da proteçáo adicional, ou talvez por causa dela.Embora ainda restasse um pouco da claridade do dia, as ruassujas eram iluminadas por braseiros, lampiões a óleo ou um ououtro archote. Duas ânforas, cada qual capaz de conter um adul-to, ladeavam a entrada de uma loja que vendia azeite a varejo. Oletreiro era escrito em caracteres cuneiformes. Num edifício públi-
  • 160. co próximo, havia um magnífico baixo-relevo do reinado deAssurbanipal, representando uma caçada a leões. Ao se aproxi-marem do templo de Assur, houve um tumulto no meio da multi-dão, e a escolta de Ellie abriu espaço para protegê-la. Agora elavia, sem obstruções, o Zigurate no fim de uma larga avenida ilu-minada por archotes. Causava mais admiração ao vivo do que emfotografias. Ouviu-se um floreio marcial num desconhecidoinstrumento de metal. Passaram três homens e um cavalo, cujocondutor trazia na cabeça um barrete frígio. Como numa repre-sentação medieval de uma narrativa extraída do livro do Gênesis,o topo do Zigurate achava-se envolto em baixas nuvens tocadaspela luz do poente. Deixaram a via de Ishtar e penetraram no Zi-gurate por uma rua lateral. No elevador privado, o guarda queacompanhava Ellie apertou o botão do último andar: "Quarenta",dizia. Não havia algarismos. Apenas a palavra. E então, como quepara não dar margem a dúvidas, apareceu escrito num painel devidro: "Os Deuses".O sr. Hadden viria ter com ela num instante. Gostaria de214beber alguma coisa enquanto esperava? Pensando na reputaçãodo lugar, Ellie recusou. Diante dela se estendia Babílônía -deslumbrante, como diziam todos, em sua recriação de um tem-po e de um lugar há tanto desaparecidos. Durante o dia, che-gavam ônibus e mais ônibus trazendo pessoas - de museus, dealgumas escolas e das agéncias de turismo. Desembarcavam naporta de Ishtar, vestiam roupas apropriadas e viajavam no tempo.Politicamente, Hadden doava todos os lucros advindos de suaclientela diurna a entidades beneficentes de Nova York e LongIsland. Os tours diurnos eram extremamente populares, em partepor representarem, para aqueles que nem por sonho visitariamBabilônia à noite, uma oportunidade de examinar o lugar.Depois que escurecia, Babilônia era descrita como um "parquede diversões para adultos". A opulência, a escala e a inventiva dei-xavam longe qualquer lugar congênere, como, por exemplo, aReeperbahn de Hamburgo. Era, sem sombra de dúvida, a maioratração turística da área metropolitana de Nova York e a que maisreceita bruta auferia. Eram notórios os métodos de que Hadden sevalera para convencer os dirigentes de Babilônia, no estado deNova York, e a maneira como ele conseguira que fossem "facili-tadas" as leis municipais e estaduais referentes à prostítuição. Avíagem de trem do centro de Manhattan â porta de Ishtar levavaagora meia hora. Ellie havia insistido em tomar esse trem, a despeitoda argumentação do pessoal da segurança, e verifícara que quaseum terço dos visitantes era formado por mulheres. Ali não haviagrafitos, era pouco o perigo de assaltos, mas se ouvia um ruídobranco muito inferior ao dos comboios do metrô de Nova York.Muíto embora Hadden fosse membro da Academía Nacional
  • 161. de Engenharia, nunca, ao que Ellie sabia, comparecera a umareunião, e ela jamais o vira. Alguns anos antes, porém, seu rostose tornara conhecido de milhões de americanos em decorrênciada campanha que lhe fora movida pelo Conselho de Publicidade;sob uma fotografia sua, nada lisonjeira, lia-se um dístico: "O Anti-americano". Mesmo assim, ela quase se assustou quando, emmeio ao seu devaneio, junto à parede de vidro inclinada, foi inter-rompida por uma pessoa baixa e gorducha, que lhe acenava."Ah, desculpe-me. Nunca entendo que uma pessoa possa termedo de mim."215A voz de Hadden era surpreendentemente musical. Na ver-dade, ele parecia falar em quintas. Não julgara necessário apre-sentar-se, e mais uma vez inclinou a cabeça em direção à porta,que deixara entreaberta. Era difícil acreditar que algum crime pas-sional pudesse ameaçá-la naquelas circunstâncias, e sem umapalavra Ellie entrou na sala ao lado.Hadden conduziu-a a uma maquete, feita com esmero, deuma cidade antiga, de aspecto menos pretensioso que Babilônia."Pompéia", disse, como explicação. "Este estádio... aqui... éo ponto-chave. Com as atuais restrições ao boxe, não restam nosEstados LTnidos saudáveis esportes sanguinolentos. São de ex-trema importância. Sugam alguns dos venenos da corrente san-guínea nacional. Estava tudo projetado, as licenças concedidas, eagora isto."""Isto o quê?""Nada de jogos de gladiadores. Acabaram de me avisar de Sa-cramento. Há no Legislativo um projeto para proibir os jogos degladiadores na Califórnia. Violentos demais, dizem. Quando autori-zam a constmção de um novo espigão, sabem que vão perder doisou três operários. Os sindicatos sabem, os construtores sabem, eisso só para construir escritórios de companhias de petróleo ou deadvogados de Beverly Hills. Certo, perderíamos alguns. Mas esta-mos mais voltados para o tridente e a rede do que para a espadacurta. Esses deputados não têm noção das prioridades."Hadden dirigiu a Ellie um olhar morno e ofereceu uma bebi-da, que ela novamente recusou. "Com que então, você quer con-versar comigo sobre a Máquina, e eu quero conversar com vocêsobre a Máquina. Primeiro você. Quer saber onde está a chave?""Estamos pedindo ajuda a algumas pessoas, escolhidas adedo, que possam nos prestar algum auxílio. Pensamos que comsuas muitas invenções... e também porque sua microplaqueta deidentificação de contexto teve participação na descoberta darepetição... que o senhor poderia colocar-se no lugar dos veganose imaginar onde colocaria a chave. Sabemos que está muitoocupado, e peço desculpas por...""Ah, não, por favor! É verdade que estou ocupado. Estou ten-
  • 162. tando regularizar os meus negócios, pois vou dar uma grandeguinada em minha vida...216"Para o Milênio?" Ellie tentou imaginá-lo doando aos pobresa S. R. Hadden and Company, a firma corretora de Wall Street; e aGenetic Engineering, Inc.; a Hadden Cvbernetics; e Babilônia."Não é bem isso. Não. Foi divertido pensar no que vocêsquerem. Eu me senti bem por ser consultado. Examinei os dia-gramas." Fez um gesto para os oito volumes, espalhados numamesa. "Há coisas maravilhosas aí, mas não creio que a chave este-ja escondida nelas. Não nos diagramas. Não sei por que vocêsimaginam que a chave tenha de estar na Mensagem. Talvez a te-nham deixado em Plutão, em Marte ou na nuvem cometária Oort,e vamos descobri-la dentro de alguns séculos. Por ora, sabemosque existe essa Máquina maravilhosa, com desenhos do projeto e30 mil páginas de texto explicativo. Mas não sabemos se seríamoscapazes de construir a geringonça se pudéssemos ler o texto.Assim, esperaremos alguns séculos, melhorando nossa tecnolo-gia, sabendo que mais cedo ou mais tarde decerto teremoscondições de construí-la. O fato de não dispormos da chave nosliga às gerações futuras. Os seres humanos estão recebendo umproblema cuja solução leva gerações. Não acho que isso seja tãoruim. Pode ser ótimo. Talvez você esteja cometendo um erro aoprocurar uma chave. Talvez seja melhor não encontrá-la.""Não, eu quero localizar essa chave imediatamente. Nãosabemos se ela estará à nossa espera eternamente. Se desligaremo telefone porque ninguém atendeu, será muito pior do que senunca tivessem ligado.""Bem, talvez nisso você tenha razão. Seja como for, consi-derei todas as possibilidades que pude imaginar. Vou lhe falar dealgumas possibilidades banais, e depois de uma nada banal.Primeiro as triviais. A chave está na Mensagem, mas num regimede dados bem diferente. Suponhamos que houvesse outra men-sagem ali, a uma velocidade de um bit por hora... poderiam detec-tar isso?""De maneira alguma. Verificamos rotineiramente o desvio derecepção a longo prazo, por desencargo de consciência. Mas ve-rificar também um bit por hora consome... vejamos... 10, 20 miltops de bits antes de a Mensagem voltar ao início.""Nesse caso, isso só faz sentido se a chave for muitomais fácildo que a Mensagem. Você acha que não é. Agora, e no caso de re-21 7gimes muito mais rápidos? Como sabe que debaixo de cada bit desua Mensagem da Máquina não há um milhão de bits da men-sagem da chave?""Porque isso produziria larguras de banda monstruosas.
  • 163. Saberíamos num instante.""Muito bem. Então há, de vez em quando, um rápido despe-jo de dados. Pense nisso como se fosse um microfilme. Há umponto minúsculo de microfilme ali, inserido nas partes repetitivasda Mensagem. Estou imaginando um pequeno quadro que diz emsua linguagem ordinária: "Eu sou a chave. Então, logo depois vemum ponto. E nesse ponto há um milhão de bits, muito velozes.Você poderia ver se tivesse um quadro.""Sinceramente, nós o teríamos visto.""Muito bem, e que me diz de modulação de fase? Nós a usa-mos em telemetria de radar e em naves espaciais, e isso demaneira alguma confunde o espectro. Já utilizou um correla-cionador de fase?""Não. Essa é uma idéia útil. Vou examiná-la.""Bem, vamos agora à idéia não banal. Se a Máquina chegar aser construída, se nossa gente se sentar nela, alguém vai apertarum botão e esses cinco irão para algum lugar. Não importa aonde.Ora, isso suscita uma pergunta interessante: esses cinco vãovoltar? Talvez não. Gosto da idéia de que essa Máquina tenha sidoprojetada por ladrões de cadáveres veganos. Imagine, para osestudantes de medicina deles, ou antropólogos, alguma coisaassim. Precisam de alguns seres humanos. Vir à Terra dá muito tra-balho... é preciso autorização, licenças das autoridades de trânsi-to... um inferno, não vale a pena. Mas com um pouco de esforçopodem mandar à Terra uma Mensagem e então os terráqueos seviram para lhes enviar cinco corpos."É como colecionar selos. Eu costumava colecionar selosquando menino. Podia-se mandar uma carta a alguém num paísestrangeiro, e quase sempre respondiam. Não importava o quediziam. O que interessava era o selo. Então, eis aí o que eu estouimaginando: há em Vega alguns filatelistas. Enviam cartas quandotêm vontade, e os corpos lhes chegam de todos os lados. Gostariade ver a coleção?"Hadden sorriu e continuou. "Muito bem, mas que é que isso218tem a ver com a localização da chave? Nada. Só é relevante se euestiver errado. Se meu cenário for falso, se as cinco pessoasvoltarem à Terra, então isso tudo será de grande ajuda se tiver-mos inventado o vôo espacial. Não importa o quanto sejamadiantados, será trabalhoso fazer a Máquina pousar. Existempartes móveis demais. Só Deus sabe qual é o sistema de propul-são. Se você se esborracha alguns metros abaixo do solo, está li-quidada. E due são alguns metros em 26 anos-luz? É arriscadodemais. Quando a Máquina voltar, vai aparecer... ou algumacoisa assim... no espaço, perto da Terra, mas não sobre ela oudentro dela. Por isso, eles têm de ter certeza de que conhecemoso vôo espacial, para que os cinco possam ser resgatados no
  • 164. espaço. Estão com muíta pressa e não podem ficar sentadosesperando que o noticiário de 1957 chegue a Vega. Assim, o quefazem? Providenciam para que parte da Mensagem só possa serdetectada do espaço. Que parte é essa? A chave. Se você con-segue detectar a chave, é porque conhece o vôo espacial e podevoltar em segurança. Por isso, imagino que a chave esteja sendoenviada na freqüência das absorções de oxigênio no espectro demicroondas ou perto do ínfravermelho... alguma parte do espec-tro que você não pode detectar a não ser que se afaste bastanteda atmosfera da Terra..."Fizemos com que o telescópio Hubble examinasse Vegaatravés do ultravioleta, da radiação visível e da vizinhança doinfravermelho. Não houve sinal de nada. Os russos consertaram oinstrumento de ondas milimétricas deles. Praticamente, não têmexaminado outra coisa além de Vega, e nada encontraram. Mascontinuaremos a observar. Outras possibilidades?""Tem certeza de que não quer beber alguma coisa? Eu nãobebo, mas sei que muitas pessoas gostam." Mais uma vez Ellieagradeceu e recusou. "Não, não há outras possibilidades. Agora éminha vez?"Escute, quero lhe pedir uma coisa. Mas não sou bom parapedir. Nunca fui. Mínha imagem pública é a de uma pessoa rica,engraçada, inescrupulosa... uma pessoa que procura fraquezas nosistema para ganhar dinheiro fácil. E não me diga que não acre-dita em nada dísso. Todo mundo acredita em pelo menos umaparte. É provável que você já tenha ouvido parte do que vou di-219zer, mas me dê dez minutos e eu lhe digo como começou tudoisso. Quero que saiba uma coisa a meu respeito."Ellie recostou-se na poltrona, imaginando o que ele poderiaquerer dela, e afastou da mente as fantasias envolvendo o templode Ishtar, Hadden e talvez um ou dois condutores de bigas.Anos antes, ele inventara um módulo que, quando apareciaum comercial na televisão, automaticamente baixava o volume. Aprincípio não era um dispositivo de identificação de contexto.Simplesmente monitorava a amplitude da onda portadora. Osanunciantes da tv haviam passado a transmitir seus anúncios commais sonoridade e com menos interferência de áudio do que osprogramas que constituíam seus veículos nominais. A notícia domódulo de Hadden espalhou-se de boca a boca. As pessoasfalavam de uma sensação de alívio, de se livrarem de um grandepeso, até de uma sensação de alegria por se libertarem da bar-ragem publicitária durante o período de seis a oito horas diáriasque o americano médio passava diante do televisor. Antes que asagências de publicidade tivessem uma reação coordenada, oAdnix, nome comercial do módulo, se tornara extremamentepopular. Obrigou os anunciantes e as redes a novas escolhas
  • 165. estratégicas de ondas portadoras, sempre neutralizadas por umanova invenção de Hadden. Às vezes ele inventava circuitos paraderrotar estratégias que as agências e as redes ainda nem tinhamimaginado. Dizia que lhes estava poupando o trabalho de criarinvenções, com grandes despesas para seus acionistas, fatalmentedestinadas ao fracasso. À medida que aumentava o volume desuas vendas, ele baixava continuamente os preços. Era uma espé-cie de guerra eletrônica. E Hadden estava vencendo.Tentaram processá-lo - falaram de conspiração em detri-mento da economia. Dispunham de poder político suficiente parafazer com que o pedido de arquivamento sumário do processofosse indeferido, mas insuficiente para ganhar a causa. O julga-mento havia obrigado Hadden a estudar os códigos jurídicos.Pouco depois, através de uma conhecida agência de publicidade,da qual era agora um dos sócios principais, embora não apare-cesse como tal, solicitou autorização para anunciar seu próprioproduto na televisão comercial. Após algumas semanas de con-trovérsia, seus anúncios foram recusados. Hadden processou220todas as três redes e nesse julgamento conseguiu provar sua ale-gação de conspiração em detrimento do livre exercicio do comér-cio. Recebeu uma gigantesca indenização, que representou, naépoca, a maior em causas dessa natureza e que contribuiü, aindaque modestamente, para o fim das redes originais.Sempre havia pessoas que gostavam dos comerciais, natu-ralmente, e para elas o Adnix não tinha nenhuma serventia. Entre-tanto, constituíam uma minoria decrescente. Hadden fizera imen-sa fortuna através da erradicação da publicidade na tv. Tambémfizera muitos inimigos.Na época em que os chips de identificação de contexto foramlançados no mercado, ele já havia criado o Preachnix, submódu-lo capaz de ser acoplado ao Adnix. O dispositivo simplesmentemudava de canal se porventura surgisse um programa religioso.O usuário pré-selecionava palavras-chaves, como "advento" ou"pecado", evitando as pregações religiosas. O Preachnix ganhouinúmeros adeptos junto a uma minoria substancial de telespecta-dores que não suportava tais programas, Havia boatos, algunscom foros de seriedade, de que o próximo submódulo de Haddenvísaría evitar as apresentações de presidentes e primeiros-mi-nístros.À proporção que ele aperfeiçoava os chips de identificaçãode contexto, percebia que os dispositivos poderiam ter aplicaçõesmuito mais amplas - desde a educação, a ciência e a medicinaaté a coleta de informações militares e a espionagem industrial.Foi essa questão que terminou levando ao famoso processo movi-do pelo governo norte-americano contra a Hadden Cybernetics.Um dos chips de Hadden foi considerado inconveniente para uso
  • 166. por civis e, por recomendação da Agência de Segurança Nacional,o governo assumiu o controle das instalações e do pessoal queproduziam os tipos mais avançados de chips de identificação decontexto. O caso era que ler a correspondência russa era impor-tante demais. Só Deus saberia, disseram-lhe, o que iria acontecerse os russos pudessem ler a correspondência dos Estados Unidos.Hadden recusou-se a cooperar com a estatização e jurouatuar em áreas que não pudessem, de forma alguma, estar rela-cionadas com a segurança nacional. O governo estava naciona-lizando a indústria, alegou. Afirmavam abraçar o capitalismo, mas221na hora da verdade mostravam sua face socialista. Ele haviadescoberto que o público tinha uma necessidade insatisfeita, eempregou uma nova tecnologia, legal, para dar ao público o queeste desejava. Isso era o capitalismo clássico. Havia, porém,muitos capitalistas serenos que Ihe diziam que já fora longedemais com o Adnix, que ele criara uma ameaça real ao estilo devida americano. Numa acrimoniosa coluna assinada por um certoV. Petrov, o Pravda citou o caso como exemplo concreto das con-tradições do capitalismo. O The Wall Street Journal contra-atacou,talvez um pouco pela tangente, chamando o Pravda, que em rus-so significa "verdade", de exemplo concreto das contradições docomunismo.Hadden suspeitava que a estatização fosse apenas um pre-texto, que o motivo real do desagrado consistira no ataque à pu-blicidade e ao evangelismo televisivo. Tanto o Adnix como oPreachnix representavam a essência do capitalismo empresarial,argumentava reiteradamente. O objetivo do capitalismo consistiaem oferecer alternativas ao público."Bem, a ausência de publicidade é uma alternativa, foi o queeu disse a eles. Só existem imensas verbas publicitárias quando nãohá diferença alguma entre os produtos. Se os produtos fossem real-mente diferentes, as pessoas comprariam o que melhor lhes con-viesse. A publicidade ensina as pessoas a não acreditarem em simesmas. A publicidade ensina as pessoas a serem idiotas. Um paísforte precisa de gente inteligente. Por isso o Adnix é patriótico. OsFabricantes podem usar parte de suas verbas de publicidade paramelhorarem seus produtos. Os consumidores serão beneficiados.A circulação de revistas e jornais aumentará e os serviços de maladireta crescerão, e com isso a situação das agências de publicidadehá de melhorar. Não vejo onde está o problema."Muito mais do que os inúzmeros processos contra as redescomerciais originais, foi o Adnix o responsável direto por elasdesaparecerem. Durante algum tempo houve um pequeno exér-cito de executivos de publicidade desempregados, ex-dirigentesde televisões na miséria e adivinhos desocupados; todos juravamde pés juntos vingar-se de Hadden. Enquanto isso, crescia o nú-
  • 167. mero de adversários ainda mais temíveis. Não havia dúvida, pen-sou Ellie, de que Hadden era um homem interessante.222"Por tudo isso, acho que é hora de dar o fora. Tenho mais di-nheiro do que consigo gastar, minha mulher não me suporta earranjei inimigos por todo lado. Quero fazer uma coisa impor-tante, uma coisa meritória. Quero fazer uma coisa que leve as pes-soas, daqui a séculos, a agradecerem o fato de eu ter existido.""O senhor quer..."Quero construir a Máquina. Veja, estou perfeitamente capa-citado para isso. Disponho dos melhores especialistas em ciber-nética, cibernética prática, que existem no ramo... melhores que osda Carnegie-Mellon, melhores que os do Mnr, melhores que os deStanford, melhores que os de Santa Barbara. E pelo menos umacoisa esses planos deixam claro: esse trabalho não é para umartesão da velha guarda. E você vai precisar de alguma coisa comoengenharia genética. Não pode encontrar alguém mais dedicado aisso do que eu. E vou trabalhar pelo preço de custo.""Sinceramente, sr. Hadden, a decisão de quem construirá aMáquina, se chegarmos a esse ponto, não me compete. Trata-sede uma decisáo internacional. Envolve grande quantidade dedecisôes políticas. Ainda estáo debatendo em Paris se a coisa deveser feita ou não, se e quando decifrarmos a Mensagem.""Pensa que não sei disso? Também estou me mexendoatravés dos canais costumeiros de influência e corrupção. Queroapenas que você fale em meu favor, pelas razões corretas, do ladodos anjos. Compreende? E, por falar em anjos, você realmenteabalou Palmer Joss e Billy Jo Rankin. Faz muito tempo que não osvejo táo agitados, pelo menos desde aquela confusão a respeitodas águas de Maria. Rankin está dizendo que deturparam delibe-radamente o que ele disse sobre apoiar a Máquina. Essa não!"Hadden balançou a cabeça com fingida consternação. Pare-cia provável que existisse uma velha inimizade pessoal entreaqueles ativos proselitistas e o inventor do Preachnix, e por algummotivo Ellie passou a defendê-los."Eles são muito mais sabidos do que o senhor pensa. EPalmerJoss é... bem, ele passa alguma coisa de verdadeiro. Não éum impostor.""Tem certeza de que não se trata apenas de outra cara boni-ta? Desculpe-me, mas é importante que as pessoas entendam oque eles sentem a respeito disso. A questão é importante demais223para ser minimizada. Eu conheço esses palhaços. No fundo, nahora da verdade, são uns chacais. Muita gente acha a religiãoatraente... você entende: pessoalmente, sexualmente. Devia ver oque acontece no templo de Ishtar."Ellie reprimiu um ligeiro sobressalto de repugnância. "Acho
  • 168. que vou aceitar aquela bebida", disse.Olhando do alto da cobertura, ela avistava os escalona-mentos do Zigurate, enfeitados de flores, algumas artificiais,outras naturais, dependendo da estação. Era uma reconstruçãodos jardins suspensos da Babilônia, uma das Sete Maravilhas domundo antigo. Por milagre, os arquitetos tinham conseguidoque a estrutura não se assemelhasse a um hotel da cadeia Hvatt.Lá embaixo, ela divisou uma procissão, à luz de tochas, quevoltava do Zigurate em direção à porta de Enlil. Encabeçava-auma espécie de liteira sustentada por quatro homens corpulen-tos, desnudos até a cintura. Mas não podia saber o que ou quemela levava."É uma cerimônia em honra de Gilgamesh, um dos antigosheróis sumérios.""Já ouvi falar dele.""Ele mexia com a imortalidade."Disse isso com negligência, a título de explicação, e olhoupara o relógio de pulso."Era ao topo do Zigurate, você sabe, que os reis subiam a fimde receber instruções dos deuses. Principalmente de Anu, o deusdo céu. A propósito, investiguei o nome que eles davam a Vega.Era Tiranna, a Vida do Céu. É engraçado que usassem essa deno-minação.""E o senhor recebeu instruções?""Não, eles foram procurar você, não a mim. Mas vai haveroutra procissão de Gilgamesh às nove horas.""Acho que não vou poder esperar tanto. Quero lhe fazer umapergunta. Por que Babilônia? E Pompéia? O senhor é uma das pes-soas mais produtivas deste país. Criou várias indústrias impor-tantcs; derrotou a publicidade no próprio campo dela. Certo, le-vou a pior naquela história relativa ao chip de identificação decontexto. O senhor poderia ter feito uma porção de outras coisas.Por que... isso?"224A distância, o cortejo havia chegado ao templo de Assur."Está perguntando por que não uma coisa mais... útil?",inquiriu ele. "Estou apenas tentando satisfazer as necessidades dasociedade que o governo não vê ou que desdenha. Isso é o capi-talismo. É legal. Faz muita gente feliz. E acredito que seja umaválvula de segurança para algumas das maluquices que estasociedade não pára de gerar."Mas na época eu não pensei em tudo isso. É muito simples.Lembro exatamente o momento em que tive a idéia de Babilônia.Foi no Disney World, navegando pelo Mississippi, numa daque-las barcas de roda, com meu neto Jason. Ele tinha seus quatro, cin-co anos. Eu estava pensando no golpe inteligente que o pessoalde Disney tinha dado, ao acabar com os bilhetes para cada brin-
  • 169. quedo e adotar um passe de um dia, com o qual a pessoa podiautilizar todos os brinquedos. Com isso, tinham economizado ossalários... de alguns bilheteiros, por exemplo. O mais importante,entretanto, é que as pessoas tendiam a superestimar seu apetitepelos brinquedos. Pagavam um ágio para poder utilizar tudo, e nofim ficavam felizes com muito menos."Ora, ao lado de mim e de Jason havia um garoto de uns oitoanos, com uma expressão de devaneio. Estou tentando adivinhara ídade dele. Talvez tivesse dez anos. O pai lhe fazia perguntas, eele respondia com monossílabos. O menino estava sentado numacadeira, afagando o cano de uma espingarda de brinquedo. Acoronha estava entre as suas pernas. Tudo que ele queria era ficarem paz e alisar a espingarda. Atrás dele se viam as torres e as fle-chas do Reíno da Magia, e de repente tudo se encaixou. Entendeo que estou dizendo?"Hadden encheu um copo com um refrigerante dietético ebateu-o contra o dela."Perturbação aos seus inimigos!", disse Hadden, num brindeamável. "Vou pedír que a levem pela porta de Ishtar. A procissãovai armar muita confusão perto da porta de Enlil."Como que por magia, os dois acompanhantes apareceram, eficou evidente que Hadden dera a reunião por terminada. Dequalquer modo, Ellie não sentia vontade de permanecer ali."Não se esqueça da modulação de fase e de investigar as raiasdo oxigênio. Mas, mesmo que eu esteja enganado quando à loca-225lização da chave, não se esqueça: só eu tenho condições de cons-truir a Máquina."Holofotes faziam brilhar a porta de Ishtar. Estava coberta derepresentações, em cerâmica esmaltada, de um animal azul. Osarqueólogos lhe haviam dado o nome de dragão.22614OSCILADOR HARMÔNICOO ceticismo é a castidade do intelecto, e é ver-gonhoso entregá-lo cedo demais ou ao primeiroquie chega: existe nobreza em preservá-lo comserenidade e altivez durante uma prolongadajuventude, até que porfim, na madureza doinstinto e da discrição, possa ser trocado, comsegurança, pela fidelidade e pela placidez.George Santayana, Céticismoeféanimal, IxA presidente espirrou e tentou achar um lenço de papel nobolso do roupão felpudo. Não estava usando maquilagem, mas oslábios rachados mostravam vestígios de bálsamo umedecedormentolado."Meu médico me disse que devo ficar na cama para não pegar
  • 170. uma pneumonia virótica. Quando lhe peço um antibiótico, ele dizque não existem antibióticos para os vírus. Então, como ele sabeque tenho um vírus?"Der Heer ainda estava abrindo a boca para responder quan-do a presidente falou:"Nada disso, deixe para lá. Você vai começar a falar de DNA ereconhecimento de hospedeiros, e estou cansada demais para ouviressas histórias. Se não tiver medo do meu vírus, puxe uma cadeira.""Obrigado, sra. Presidente. Trata-se da chave. Tenho orelatório comigo. Há uma longa parte técnica, incluída comoapêndice. Julguei que a senhora poderia interessar-se também porela. Em resumo, estamos lendo e compreendendo a coisa quase22 7sem dificuldade. É um programa de aprendizado diabolicamentehábil. É evidente que não uso o termo diabólico em sentido lite-ral. Já devemos ter um vocabulário de 3 mil palavras a esta altura.""Não entendo como é possível. Compreendi a maneira queeles usaram para ensinar a vocês os nomes dos números deles. Éfazer um ponto e escrever debaixo as letras U M, e assim pordiante. Compreendi que vocês tinham a imagem de uma estrela eentão entreviam E S T R E L A debaixo dela. Mas não consigoentender como resolvem a questão dos verbos ou dos pretéritose do condicional.""Parte disso eles resolvem com cinema. O cinema é um meioperfeito para ensinar os verbos. E também usam muitos números.Até abstrações. Conseguem comunicar abstrações com números.É mais ou menos assim: primeiro contam os números para nós,depois introduzem algumas palavras novas... palavras que nãoentendemos. Veja, vou indicar as palavras deles com letras. Lemosalguma coisa parecida com isto... e as letras representam os sím-bolos que os veganos apresentam." Der Heer escreveu:1AlB2Z1A2B3Z1A7B8Z"Que a senhora acha que isto significa?""Meu boletim do colégio? Você quer dizer que há uma com-binação de pontos e traços representada por A e uma combinaçãodiferente de pontos e traços representada por B, e assim pordiante?""Exatamente. Sabe-se o que significam 1 e 2, mas não se sabeo que significam A e B. Que lhe diz uma seqüência como esta?""A significa "mais e B significa "igual a. É a isso que querchegar?""Ótimo. Mas não sabemos ainda o que significa Z, certo? Aseguir aparece alguma coisa assim:"1A2B4Y"Entendeu?"
  • 171. "Talvez. Mostre outro que termine em Y."2000A4000B0Y228"Certo, acho que entendi. Desde que eu náo interprete os trêsúltimos símbolos como uma palavra. Z significa "verdadeiro e Ysignifica "falso.""Exato. Perfeito. Muito bom para uma presidente com umainfecção virótica e uma crise na África do Sul. Assim, em poucaslinhas nos ensinaram quatro palavras: mais, igual, verdadeiro,falso. Quatro palavras muito úteis. Depois eles ensinam divisáo,dividem um por zero e nos dizem a palavra que indica infinito. Outalvez seja apenas a palavra que quer dizer "indetermínado. Oueles dizem: "A soma dos ângulos internos de um tríângulo perfazdois ânnulos retos. Depoís observam que a proposição é corretase o espaço for plano, mas falsa se o espaço for curvo. Com isso,aprende-se a dizer "se e...""Eu náo sabia que o espaço podia ser curvo. Ken, de que dia-bo você está falando? Como é que o espaço pode ser curvo? Não,deixe para lá. Isso não pode ter nada a ver com o assunto de queestamos tratando.""Na verdade..."Sol Hadden disse que foi ele quem teve a idéia da localiza-ção da chave. Não me olhe desse jeito, Der Heer. Eu falo comtodo tipo de gente.""Não pretendi... ah... Pelo que entendo, o sr. Hadden deualgumas sugestões, que também tinham sido feítas, todas elas,por outros cientistas. A dra. Arroway verificou todas e acertoucom uma delas. Chama-se modulaçáo de fase ou codificaçáofásica.""Eu sei, Agora, Ken, isso está correto? A chave está espalha-da por toda a Mensagem, certo? Uma porção de repetições. Ehavia uma chave logo depois que Arroway captou o sinal.""Logo depois de haver captado a terceira camada do palim-psesto, o projeto da Máquina.""E muitos países possuem tecnologia para ler a chave, certo?""Bem, precisam de um instrumento chamado correlacío-nador de fases. Sim, pelo menos os países que contam.""Nesse caso, os russos poderíam ter lido a chave há um ano,certo? Ou os chineses, ou os japoneses. Como você sabe que nesteexato momento já não construíram metade da Máquina?""Pensei nisso, mas Marvin Yang diz que é impossível. Fo-229tografias de satélites, reconhecimento eletrônico, pessoas bemrelacionadas... tudo confirma que não há sinal do grande projetode engenharia que seria necessário para construir a Máquina. Não,todos nós dormimos no ponto. Ficamos seduzidos pela idéia deque a chave teria de vir no começo da Mensagem e não espalha-
  • 172. da ao longv dela. Só quando a Mensagem voltou ao início e desco-brimos que a chave não estava ali é que começamos a pensar emoutras possibilidades. Todo esse trabalho foi realizado em estrei-ta cooperação com os russos e todos mais. Não cremos que nin-guém disponha de vantagem sobre nós, mas, por outro lado, todomundo tem a chave agora. Não acho que possamos seguir umrumo unilateral.""Eu não quero que sigamos um rumo unilateral. Só quero tercerteza de que ninguém está trabalhando unilateralmente. Muitobem, vamos voltar à chave. Vocês sabem distinguir verdadeiro defalso, dizer "sim e "então, e sabem que o espaço é curvo. Comováo construir uma Mãquina a partir disso?""Presidente, não creio que seu resfriado ou seja lá o que forlhe tenha prejudicado o espírito. Bem, a partir daí, eles começam.Por exemplo, traçam para nós uma tabela periódica dos elemen-tos, de modo que dão os nomes de todos os elementos químicos,a idéia de átomo, a idéia de núcleo, prótons, nêutrons, elétrons.Depois fazem uma revisão da mecânica quântica, só para teremcerteza de que estamos prestando atenção... na verdade, o mate-rial que forneceram já nos proporcionou algumas idéias novas.Depois o texto passa a se concentrar nos materiais necessários àconstrução. Por exemplo, precisamos, por algum motivo, de duastoneladas de érbio. Aí eles apresentam uma sensacional técnicapara extraí-lo de rochas comuns."Der Heer levantou a mão espalmada, pedindo paciência."Não me pergunte por que precisamos de duas toneladas deérbio. Ninguém tem a menor idéia.""Eu não ia perguntar isso. O que eu queria saber é como dis-seram "tonelada.""Contaram a quantidade em massas de Planck. Uma massa dePlanck é...""Esqueça, esqueça. É uma coisa que os físicos do mundointeiro sabem, não é? E nunca ouvi falar disso. Agora, vamos ao230fim. Já entendemos a chave o suficiente para começar a ler a Men-sagem? Somos capazes de construir a coisa ou não?""Parece que sim. Faz apenas algumas semanas que descobri-mos a chave, mas capítulos inteiros da Mensagem estão entrandonos eixos direitinho. Há desenhos meticulosos, explicações re-dundantes e, ao que eu percebo, uma tremenda redundância noprojeto da Máquina. Deveremos ter um modelo tridimensional daMáquina para a senhora ver antes daquela reunião para a escolhada tripulação, na quinta-feira, se a senhora quiser. Por enquanto,não faço idéia do funcionamento da Máquina ou de para que elaserve. E há alguns componentes químicos orgânicos engraçados,que não fazem nenhum sentido como parte de uma máquina. Masquase todo mundo acha que podemos construir a coisa."
  • 173. "Quem não acha?""Bem, Lunacharski e os outros russos. E Billy Jo Rankin, éclaro. Ainda há quem receie que a Máquina vá explodir o mundo,alterar o eixo da Terra ou alguma coisa assim. Mas o que mais temimpressionado os cientistas é a exatidão das instruçoes e as muitasmaneiras diferentes que usam para explicar a mesma coisa.""E o que diz Eleanor Arroway?""Que, se quiserem acabar conosco, poderão estar aqui den-tro de uns 25 anos, e que não há nada que possamos fazer nesseprazo para nos protegermos. São muito mais adiantados do quenós. Portanto ela diz: "Construam, e, se estiverem preocupadoscom ameaças ao meio ambiente, construam longe. O professorDrumlin diz que, por ele, podemos construí-la no centro dePasadena. Na verdade, diz que estará lá o tempo todo, de modoque, se a Máquina explodir, ele será o primeiro a ir pelos ares.""Drumlin é o sujeito que imaginou que isso poderia ser oplano de uma Máquina, certo?""Não foi bem assim, ele...""Vou ler todo o material em tempo para a reunião de quinta-feira. Trouxe mais alguma coisa para mim?""A senhora está pensando seriamente na proposta de Had-d.en, de construir a Máquina?""Bem, como você sabe, isso não compete somente a mim. Otratado que estamos acertando em Paris nos dá mais ou menos 25por cento da decisão. Os russos têm outro tanto, chineses e japo-231neses outro tanto, e o resto do mundo outro tanto, isso em termosgerais. Muitos países querem construir a Máquina, ou pelo menosparte dela. Estão pensando em prestígio, novas indústrias, novosconhecimentos. Desde que não passem à nossa frente, não tenhonada a opor. É possível que Hadden fique com uma parte. Qual éo problema? Não o considera tecnicamente competente?""Claro que é. Eu só..."Se não há mais nada, Ken, vejo você na quinta-feira, se ovírus deixar."No momento em que Der Heer fechava a porta e passava àante-sala adjacente, ouviu-se um explosivo espirro presidencial.O oficial de segurança, sentado tesamente num sofá, assustou-se.A maleta a seus pés estava atulhada de códigos de autorizaçãopara a guerra nuclear. Der Heer acalmou-o com um gesto muitodele: dedos abertos, palma para baixo. O rapaz sorriu."Isso é Vega? O motivo de toda essa confusão?", perguntou apresidente com certo desapontamento. O períodó durante o qualhavia sido permitido aos repórteres tirar fotografias estava termi-nado, e seus olhos já se tinham quase habituado à escuridãodepois de muitos flashes e das luzes da televisão. As fotografias dapresidente olhando através do telescópio do Observatório Naval,
  • 174. publicadas em todos os jornais no dia seguinte, eram de certomodo falsas. Ela não pudera ver coisa alguma até os fotógrafos seretirarem e a escuridão voltar."Por que ela dança?""É a turbulência da atmosfera, presidente", explicou DerHeer. "A passagem de bolhas de ar quente distorce a imagem.""É como olhar para Si do outro lado da mesa do café da manhãquando há uma torradeira entre nós. Lembro que, uma vez eu vi umlado inteiro do rosto dele se soltar", disse ela afetuosamente, ele-vando a voz para que o consorte presidencial, que estava perto dali,conversando com o comandante do observatório, pudesse ouvir."É, mas hoje em dia não há mais torradeiras na mesa", respon-deu ele, brincalhão.Antes de se aposentar, Seymour Lasker era um dos dirigentesdo Sindicato Internacional dos Trabalhadores da Indústria de Con-232fecções Femininas. Havia conhecido a mulher décadas antes, quan-do ela representava a Companhia Girl Coat de Nova York, e seapaixonaram no decurso de uma longa negociação trabalhista.Considerando o quanto suas posiçôes atuais tinham de novidadepara eles, era extraordinária a aparente firmeza do relacionamentoentre ambos."Sem a torradeira eu passo, mas acho que Si e eu devíamostomar o café da manhã juntos mais vezes." Curvou as sobrance-lhas na direção dele, e depois voltou à ocular do telescópio."Parece uma ameba azul... meio alongada,"Depois da difícil reunião para a escolha da tripulação, a pre-sidente estava em bom estado de espírito. Seu resfriado jà tinhaquase passado."E se não houvesse turbulência, Ken? Que é que eu veria?""Seria exatamente como a imagem produzida pelo telescópioespacial, fora da atmosfera da Terra. A senhora veria um pontoluminoso, firme e sem vacilação.""Só a estrela? Só Vega? Nada de planetas, anéis, estações mi-litares com armas de laser?""Não, sra. presidente. Tudo isso seria muito débil para ver-mos, mesmo com um telescópio possante.""Bem, espero que vocês, cientistas, saibam o que estão fazen-do, disse ela, quase num sussurro. "Estamos tendo muito traba-Iho com uma coisa que nunca vimos."Der Heer ficou um pouco espantado. "Mas já vimos 31 milpáginas de texto... imagens, palavras e uma chave enorme.""No meu livro, isso não é o mesmo que ver. É um pouco... ila-tivo demais. Não me diga que em todo o mundo os cientistasrecebem os mesmo dados. Isso eu sei. Nem me diga que os planosda Máquina são claros e inequívocos. Sei disso também. Seí detudo isso. Mas, mesmo assim, ainda estou nervosa."
  • 175. O grupo voltou, a passo lento, pela área do ObservatórioNaval, até a residência do vice-presidente. Nas semanas ante-riores, em Paris, haviam ocorrido negociações preliminares sobrea escolha da tripulação. Estado Unidos e União Soviética tinhamdefendido a idéia de que cada um deles deveria indicar dois tri-pulantes; com relação a essas questões, eram aliados firmes. Masfora difícil convencer disso as outras nações que íntegravam o233Consórcio Mundial da Mensagem. Naqueles dias era muito maisdifícil aos Estados Unidos ou à União Soviética - mesmo emassuntos nos quais concordavam - impor seus desejos aosdemais países do que no passado.O empreendimento era agora anunciado amplamente comouma atividade da espécie humana. O nome "Consórcio Mundialda Mensagem" estava prestes a ser mudado para "ConsórcioMundial da Máquina". Os países que dispunham de um fragmen-to da Mensagem tentavam utilizar esse fato para forçar a indicaçãode um de seus cidadãos como tripulante. Os chineses haviamargumentado, sem estardalhaço, que em meados do próximoséculo eles seriam 1 bilhão e meio no planeta, muitos dos quaisfilhos únicos, devido à experiência de controle da natalidadepatrocinada pelo Estado. Na vida adulta, previam, essas criançasseriam mais inteligentes e mais seguras, do ponto de vista emo-cional, do que as crianças de outros países, onde prevaleciam nor-mas menos rígidas sobre as dimensões das famílias. Uma vez quedentro de cinqüenta anos os chineses desempenhariam um papelmais destacado nos assuntos mundiais, mereciam ao menos umadas cinco cadeiras da Máquina. Esse argumento vinha sendodebatido em muitos países que nada tinham a ver com a Men-sagem ou com a Máquina.A Europa e o Japão haviam renunciado à representação natripulação em troca de maior participação na construç ão de com-ponentes da Máquina, que no entender deles seria de grandebenefício econômico. Por fim, ficou reservada uma cadeira paraos Estados Unidos, uma para a União Soviética, uma para a Chinae outra para a Índia, ficando a quinta pendente. Esse resultadorepresentou uma longa e difícil negociação multilateral, na qualforam levadas em conta a população, o poder econômico, indus-trial e militar, os atuais alinhamentos políticos e até um pouco dahistória da espécie humana.À quinta cadeira candidataram-se o Brasil e a Indonésia, combase no tamanho da população e no equilíbrio geográfico; a Sué-cia propôs que Ihe coubesse um papel moderador no caso de dis-putas políticas; o Egito, o Iraque, o Paquistão e a Arábia Sauditalevantaram questões de eqüidade religiosa. Outros países sugeri-ram que ao menos essa quinta poltrona fosse decidida segundo234
  • 176. critérios de mérito individual, e não de nacionalidade. Durantealgum tempo, a decisão ficou em suspenso, como um curingapara uso posterior.Nos quatro países já escolhidos, cientistas, líderes políticos eoutras pessoas entregaram-se ã tarefa de escolher seus candida-tos. Surgiu nos Estados Unidos uma espécie de debate nacional.Em pesquisas de opinião, muitas pessoas eram indicadas, comvários graus de entusiasmo: líderes religiosos, heróis do esporte,astronautas, detentores da medalha de honra do Congresso, cien-tistas, estrelas de cinema, uma ex-primeira-dama, apresentadoresde televisão, deputados, milionários com ambições políticas, diri-gentes de fundaçees, cantores de country e rock, reitores de uni-versidades, e até a atual miss América.Obedecendo a uma longa tradição, inaugurada desde que aresidência do vice-presidente fora transferida para os terrenosdo Observatório Naval, os criados domésticos eram suboficiaisfilipinos que serviam na Marinha dos Estados Unidos. Usandodólmãs azuis, nos quais estavam bordadas as palavras "Vice-presidente dos Estados Unidos", no momento serviam café. Amaioria dos participantes da reunião para a escolha da tripu-lação não havia sido convidada para esse encontro vespertinoinformal .Quisera o destino que Sevmour Lasker inaugurasse a linha-gem dos primeiros-consortes nos Estados Unidos. Ele carregavaessa cruz - as charges políticas, as brincadeiras de mau gosto, apiada segundo a qual ele tinha ido até onde nenhum homem jáfora - com tal elegância e boa vontade que por fim o país pôdeperdoar-lhe ter se casado com uma mulher com coragem sufi-ciente para imaginar que poderia liderar metade do mundo.Lasker fez a esposa do vice-presidente e seu filho adolescenterirem ãs gargalhadas, enquanto a presidente conduzia Der Heerao anexo da biblioteca."Muito bem", começou ela. "Hoje não temos de tomar ne-nhuma decisão oficial nem fazer um anúncio público de nossasdeliberações. Mas va.mos ver se podemos fazer um resumo detudo. Não sabemos para que essa maldita Máquina foi planejada,mas não é absurdo imaginar que ela vá até Vega. Ninguém tem amenor idéia de como seria seu funcionamento ou mesmo de235quanto tempo levaria essa viagem. Diga-me de novo: a que dis-tância fica Vega?""Vinte e seis anos-luz, presidente.""Assim, se essa máquina fosse uma espécie de nave espaciale viajasse à velocidade da luz... sei que não pode atingir essavelocidade, apenas aproximar-se dela, não me interrompa...levaria 26 anos para chegar lá, mas apenas da maneira como me-dimos o tempo aqui na Terra. Certo, Der Heer?"
  • 177. "Certíssimo. Talvez mais um ano para a Máquina alcançar avelocidade da luz e mais outro para desacelerar ao penetrar no sis-tema de Vega. Entretanto, do ponto de vista dos membros da tri-pulação, levaria muito menos. Talvez apenas uns dois anos,dependendo de a velocidade ser mais ou menos próxima à da luz.""Para um biólogo, Der Heer, você vem aprendendo um boca-do de astronomia.""Obrigado, sra. presidente. Tentei inteirar-me do assunto."A presidente olhou para ele por um momento e prosseguiu."Portanto, desde que a Máquina se aproxime bastante da veloci-dade da luz, talvez não importe muito a idade dos membros datripulação. Mas se a viagem levar dez, vinte anos... ou mais... evocê diz que isso é possível... nesse caso deveríamos mandar umapessoa jovem. Ora, os russos não estão aceitando esse argumen-to. Pelo que sabemos, estão entre Arkhangelski e Lunacharski, eambos são sessentões."Havia lido os nomes, com certa dificuldade, num cartão."Com toda a certeza, os chineses vão indicar Xi. Ele tambémestá na casa dos sessenta anos. Por isso, se tivesse certeza de queeles sabem o que estão fazendo, eu me sentiria tentada a dizer:"Com os diabos, vamos mandar um homem de sessenta anos."Drumlin, sabia Der Heer, tinha exatamente sessenta anos."Por outro lado...", contrapôs ele."Eu sei, eu sei. A médica indiana. Está com seus quarentaanos... De certa forma, isso é a coisa mais estúpida que já vi. Esta-mos escolhendo uma pessoa para mandar às Olimpíadas, e nemsabemos as provas que serão disputadas. Não sei por que estamosfalando em mandar cientistas. O Mahatma Gandhi, era ele quemdevíamos mandar. Ou, aliás, Jesus Cristo. Não me diga que nãoestão vivos, Der Heer. Eu sei."236"Quando não se sabe quais serão as provas, escolhe-se umdecatleta.""E aí se descobre que as disputas serão de xadrez, de oratóriaou de escultura, e seu atleta acaba em último lugar. Certo, vocêacha que deve ser uma pessoa que tenha refletido sobre a vidaextraterrestre e que se tenha envolvido profundamente com arecepção e o deciframento da Mensagem.""Pelo menos uma pessoa com essa descrição estará envolvi-da estreitamente com o modo de pensar dos veganos. Ou aomenos com a forma que eles esperam que pensemos.""E, se tivermos de escolher entre gente fora de série, você dizque isso reduz o campo a três pessoas."Mais uma vez a presidente consultou seus apontamentos."Arroway, Drumlin e... aquele que se julga um general romano.""Dr. Valerian, sra. presidente. Não sei se ele se julga um ge-neral romano. É só o nome."
  • 178. "Valerian não quis nem preencher um questionário da comis-são de seleção. Não quis nem mesmo levar em conta a propostaporque não quer deixar a esposa. Não foi isso? Não o critico. Nãoé bobo. Sabe levar um relacionamento. Espero que não sejaporque a mulher é doente ou alguma coisa assim. É isso?""Não. Pelo que sei, ela goza de excelente saúde.""Ótimo. Melhor para eles. Mande a ela uma nota pessoal emmeu nome... alguma coisa que lhe diga que em minha opinião eladeve ser uma grande mulher para que um astrônomo renuncie aouniverso por ela. Mas floreie a linguagem, Der Heer. Você sabe oque eu quero. E use alguma citação. Talvez um poema. Mas nãomuito piegas." A presidente sacudiu o indicador. "Esses Valerianpodem nos ensinar alguma coisa. Por que não os convidamospara um jantar oficial? O rei do Nepal estará aqui dentro de duassemanas. Creio que será adequado."Der Heer fazia apontamentos rapidamente. Teria de ligarpara o secretário da Casa Branca assim que aquela reunião termi-nasse, e tinha de dar também um telefonema ainda mais urgente.Fazia horas que não conseguia aproximar-se de um telefone."Com isso, só nos restam Arroway e Drumlin. Ela tem mais oumenos vinte anos a menos, mas Drumlin está em magnífica formafísica. Pratica pára-quedismo, mergulho, asa-delta... é um cientista237brilhante, prestou grande contribuição para a decodificação daMensagem e vai se divertir bastante discutindo com aquelesoutros velhinhos. Por acaso ele trabalhou com armas nucleares?Não quero enviar ninguém que tenha atuado nessa área."Agora, Arroway também é uma cientista brilhante", conti-nuou. "Tem dirigido todo esse Projeto Argus, conhece a Men-sagem de cor e salteado e tem espírito inquisitivo. Todos sabemque os interesses dela são bastante amplos. Além disso, passariauma imagem mais jovem do povo americano." A presidente fezuma pausa. "E você gosta dela, Ken. Não vejo nada demais nisso.Também gosto dela. Mas, às vezes, parece uma espalha-brasas.Examinou bem o questionário dela?""Creio que sei a que trecho a senhora se refere, sra. presi-dente. Mas a comissão de seleção já estava fazendo perguntashavia oito horas, e as vezes ela fica irritada com o que consideraperguntas bobas. Drumlin também é assim. Talvez ela tenhaaprendido isso com ele. Foi aluna de Drumlin por algum tempo,acho que a senhora sabe.""Sei, e ele também disse coisas bobas. Prepararam tudo paranós nessa fita. Primeiro o questionário de Arroway, depois o deDrumlin. Passe a fita, Ken."Na tela do monitor, Ellie apareceu sendo entrevistada emseu escritório no Projeto Argus. Der Heer viu até o papel amare-lado com a citação de Katka. Era possível que, ao fim e ao cabo,
  • 179. Ellie preferisse que as estrelas tivessem continuado em silêncio.Havia rugas em torno de sua boca e ela mostrava profundasolheiras. Viam-se também dois desconhecidos vincos verticais,pouco acima do nariz. No videoteipe, Ellie mostrava uma ex-pressão de terrível cansaço, e Der Heer sentiu uma pontada deremorso."Que penso sobre a "crise demográfica mundial?", dizia ela."Querem saber se sou contra ou a favor? Acham que essa possaser uma pergunta importante que me farão em Vega e querem tercerteza de que vou dar a resposta certa? Tudo bem. É por causa dasuperpopulação que sou a favor do homossexualismo e do celi-bato do clero. Padres solteiros são, aliás, uma idéia excelente, poisisso tende a suprimir qualquer propensão hereditária para ofanatismo."238Ellie esperou, impassível, na verdade imóvel, a próxima per-gunta. A presidente havia apertado a tecla de pausa."Na verdade, admito que algumas perguntas possam não tersido as ideais", continuou a presidente. "Mas não queríamos queuma pessoa em posição tão importante, dirigindo um projeto comimplicações internacionais verdadeiramente positivas, mostrassealgum tipo de tendência racista. Queremos que, com relação aisso, o mundo em desenvolvimento esteja do nosso lado. Tínha-mos bons motivos para fazer uma pergunta como essa. Não achaque a resposta dela revela certa... falta de tato? É um tanto arro-gante essa sua dra. Arroway. Vejamos agora Drumlin."Usando uma gravata-borboleta de bolinhas azuis, Drumlinparecia queimado de sol e em excelente forma."É, eu sei que todos nós temos emoções", dizia ele, "mas ébom que entendamos perfeitamente o que sào as emoçôes. Sãomotivações para o comportamento adaptativo, provenientes deuma época-em que éramos ignorantes demais para definir bem ascoisas. Mas sou capaz de imaginar que, se um bando de hienascorre em minha direção com os dentes à mostra, há perigo pelafrente. Não preciso de alguns centímetros cúbicos de adrenalinapara entender melhor a situação. Posso imaginar que talvez fosseimportante eu dar alguma contribuição genética para a próximageraçào. Na verdade, não preciso de testosterona em minha cor-rente sanguínea para entender isso. Vocês têm certeza de que umser extraterrestre, muito mais adiantado do que nós, também teráemoçôes? Sei que há pessoas que me consideram demasiado frio,demasiado reservado. Mas, se querem realmente compreender osextraterrestres, mandem-nos a mim. Sou mais parecido com elesdo que qualquer outra pessoa que possam encontrar.""Que escolha!", exclamou a presidente. "Uma é atéia, o outropensa que já está emVega. Por que temos de mandar cientistas?Por que não podemos mandar uma pessoa... normal? Essa per-
  • 180. gunta é apenas retórica", acrescentou rapidamente. "Sei por quetemos de mandar cientistas. O conteízdo da Mensagem é científi-co e ela está vazada em linguagem científica. A ciência é aquiloque, ao que sabemos, compartilhamos com os seres de Vega. Não,essas razões são boas, Ken. Não me esqueci delas.""Ela não é atéia. É agnóstica. Mantém o espírito aberto. Nãose deixa dominar por dogmas. É inteligente, corajosa, altamente238profissional. Domina diversas áreas de conhecimento. É exata-mente a pessoa de que precisamos nessa situação.""Ken, fico satisfeita por vê-lo tão dedicado a defender a inte-gridade desse projeto. Mas está havendo muito medo. Não penseque não sei o quanto o pessoal já teve de engolir. Mais de metadedas pessoas com quem converso acredita que não devíamos nosmeter a construir essa coisa. Se não houver como voltar atrás,querem que mandemos uma pessoa absolutamente digna de con-fiança. Arroway pode ser tudo quanto você diz que é, mas dignade toda confiança ela não é. Há muita gente me pressionando: oCongresso, os que preferem dar prioridade aos assuntos da Terra,os membros do meu próprio Comitê Nacional, as Igrejas. Achoque ela impressionou PalmerJoss naquele encontro na Califórnia,mas conseguiu deixar Billy Jo Rankin furioso. Ontem ele telefo-nou para mim e disse: "Sra. presidente, aquela Máquina vai voardireto para Deus ou para o Diabo. Seja lá qual deles for, é melhormandar um bom cristão. Tentou usar sua amizade com PalmerJoss para me convencer. Pelo amor de Deus! Não tenho muitasdúvidas de que estava mexendo os pauzinhos para que elepróprio fosse o escolhido. Ninguém será muito mais digerível poruma pessoa como Rankin do que Arroway. Admito que Drumlinseja um tanto chato", prosseguiu ela. "Mas é religioso, patriota,confiável. Suas credenciais científicas são impecáveis. E ele querir. É, tem de ser Drumlin. O máximo que posso oferecer a Arrowayé o segundo lugar na lista, para o caso de Drumlin desistir.""Posso dizer isso a ela?""Não podemos dizer isso a Arrowav antes de avisar Drumlinque ele foi escolhido, não é? Comunico a você assim que tivermosuma decisão final e houvermos informado Drumlin... Ora, ânimo,Ken! Afinal, você não quer que ela fique na Terra?Já passava das seis quando Ellie terminou sua reunião com aEquipe Tigre, que dava apoio aos negociadores americanos emParis. Der Heer prometera telefonar-lhe assim que terminasse areunião da comissão de seleção. Queria que ele, e não outra pes-soa, lhe comunicasse se havia sido escolhida ou não. Não de-monstrara o devido respeito aos examinadores, sabia disso, e po-240deria perder o lugar por esse motivo, entre uma dúzia de outros.Ainda assim, refletia, talvez houvesse uma possibilidade.
  • 181. Havia um recado para ela no hotel, não um formulário cor-de-rosa preenchido por um recepcionista, mas um envelopeentregue pessoalmente, e fechado. Dizia: "Venha encontrar-secomigo no Museu Nacional de Ciência e Tecnologia, às oito.Palmer Joss".Nenhuma saudação, nem explicações, nem fórmulas de des-pedida, pensou Ellie. Aquele Joss era realmente um homem de fé.O papel era do hotel, e o bilhete não dava endereço para respos-ta. Joss devia ter passado pelo hotel de tarde, tendo sido informa-do pelo próprio secretário de Estado, provavelmente, de que Ellieestava na cidade. O dia fora cansativo, e era irritante não podervoltar logo à tarefa de juntar os fragmentos da Mensagem. Aindaque uma parte dela relutasse em ir, Ellie tomou banho, trocou deroupa, comprou um saco de castanhas de caju e entrou num táxi,tudo isso em 45 minutos.Faltava cerca de uma hora para o museu fechar, e não haviamais quase ninguém ali. O vasto saguão estava atulhado de gigan-tescas máquinas escuras - o orgulho das indústrias têxteis, desapatos e de carvão do século xix. Várias peças, inclusive uminstrumento musical a vapor, tinham sido parte da Exposição de1876. Não se via Joss. Ellie reprimiu um ímpeto de dar meia-voltae retornar ao hotel.Se uma pessoa tivesse de se encontrar com Palmer Jossnaquele museu, pensou ela, e se a única coisa que já tivesse dis-cutido com ele fosse religião e a Mensagem, onde o procuraria? Asituação lembrava um pouco o problema da seleção de freqüên-cia na PET: ainda não foi recebida uma mensagem de uma civi-lização avançada e é preciso decidir em que freqüência esses seres(sobre os quais não se sabe praticamente nada, nem mesmo se defato existem) resolveram transmitir. A decisão tem de envolver,forçosamente, algum conhecimento que tanto os terráqueoscomo eles possuem. Eles e nós sabemos, decerto, qual é o átomomais abundante no universo, assim como a freqüência de rádioem que ele caracteristicamente absorve e emite. Fora esse oraciocínio que fizera com que a raia do hidrogênio atômico neu-tro, de 1420 megahertz, fosse incluída em todas as primeiras ativi-241dades da PIET. Qual seria o equivalente ali? O telefone de GrahamBell? O telégrafo? Marconi?... Claro."Por acaso este museu tem um pêndulo de Foucault?", per-guntou ela ao guarda.O barulho dos saltos de seu sapato ecoaram pelos corredoresde mármore enquanto ela se aproximava da rotunda. Joss estavadebruçado no corrimão, fitando um mosaico que representava ospontos cardeais. Havia pequenos marcadores verticais de horas,alguns eretos, outros evidentemente derrubados pelos visitantesdo dia. hor volta das sete da noite, alguém detivera o pêndulo,
  • 182. agora imobilizado. Estavam inteiramente a sós. Joss a ouviraaproximar-se durante um minuto pelo menos, e nada dissera."Por acaso o senhor chegou à conclusão de que a oraçãopode deter um pêndulo?", perguntou Ellie, sorridente."Isso seria abusar da fé", respondeu Joss."Nào vejo por quê. O senhor conseguiria converter muitagente. É muito fácil para Deus fazer isso e, se me lembro bem, osenhor conversa com Ele freqüentemente... Não é assim? Querrealmente testar minha fé na física dos osciladores harmônicos?Perfeitamente."Uma parte dela sentia-se assombrada com o fato de Joss estardisposto a submetê-la a essa prova, mas Ellie resolveu náo voltaratrás. Deixou que a bolsa escorregasse do seu ombro e tirou ossapatos. Gentilmente, ele transpôs o pequeno cercado de metal ea ajudou. Caminhara até o pêndulo, escorregando um pouco nopavimento de mosaicos. Tinha um acabamento negro, fosco, eEllie ficou a imaginar se seria de aço ou de chumbo."O senhor vai ter de me ajudar", disse ela. Podia abraçar opeso com facilidade, e juntos o puxaram até ele se afastar um bomângulo da vertical, ficando encostado ao rosto dela. Joss aobservava com atenção. Não lhe perguntou se estava mesmo deci-dida, não lhe disse que tomasse cuidado para não cair para afrente, não a preveniu que evitasse dar ao peso um componentehorizontal de velocidade ao soltá-lo. Atrás de Ellie havia bem ummetro ou um metro e meio de piso plano, antes de se curvar paracima e transformar-se numa parede circular. Se ela se mantivessecalma, pensou Ellie, aquilo seria uma brincadeira.Soltou o peso.242O período de um pêndulo simples, pensou Ellie, um tantoaturdida, é 2 c vezes raiz quadrada de L sobre g, onde L é o com-primento do fio e g é a aceleração da gravidade. Devido ao atritocom o ar, o pêndulo nunca pode avançar, em sua oscilação, alémda posição original. Tudo que tenho a fazer é não chegar para afrente, pensou Ellie.Ao chegar perto da cerca, do outro lado, o peso retardou-see se deteve. Invertendo a trajetória, estava, de repente, movendo-se muito mais depressa do que ela havia esperado. À medida quese projetava em sua direção, parecia crescer de maneira alar-mante. Estava enorme, e já quase sobre ela. Ellie arquejou."Eu recuei", disse ela, desapontada, enquanto o peso se afas-tava dela."Um quase nada.""Não. eu recuei.""A senhora acredita. Acredita na ciência. Resta apenas umapitadinha de dúvida.""Não, não se trata disso. Meu recuo foi o resultado de um mi-
  • 183. lhão de anos de pensamento lutando contra um bilhão de anos deinstinto. É por isso que a tarefa do senhor é muito mais fácil doque a minha.""No tocante a isso, nossas tarefas são as mesmas. Agora éminha vez", disse Joss. Tremulamente, agarrou o peso no pontomais alto de sua trajetória."Mas não estamos testando a sua fé na conservação da ener-gia."Joss sorriu e procurou firmar os pés."Que estão fazendo aí?", perguntou uma voz. "Vocês sào doi-dos?" um guarda do museu, que cumpria sua obrigação de veri-fícar se todos os visitantes já haviam saído, dera com aquela cenaimplausível - um homem, uma mulher, um poço e um pêndulo- num recesso deserto do cavernoso edifício."Ah, não é nada, guarda", disse Joss, jovialmente. "Estamosapenas experimentando nossa fé.""Não podem fazer isso na Smithsonian Institution", respon-deu o guarda. "Isto aquí é um museu."Rindo, Joss e Ellie detiveram o pêndulo, quase o imobili-zando, e subiram pelo piso inclinado de ladrilhos.243"Isso deve ser permitido pela Primeira Emenda à Constitui-ção", disse Ellie."Ou pelo Primeiro Mandamento", replicou Joss.Ellie calçou os sapatos, pôs a bolsa no ombro e, de cabeçaerguida, saiu da rotunda, acompanhada de Joss e do guarda. Semse identificarem e sem serem reconhecidos, conseguiram con-vencê-lo a não os prender. Mas foram conduzidos até a porta domuseu por uma verdadeira falange de guardas uniformizados,que talvez temesse que Ellie e Joss arranjassem outra maneiraperigosa de levar a efeito sua busca de um Deus esquivo.A rua estava deserta. Caminhavam em silêncio pelos grama-dos do Mall. A noite era clara, e Ellie divisou no horizonte o con-torno da constelação da Lira."Veja aquela estrela brilhante lá. É Vega", disse ela.Joss fitou o astro durante muito tempo. "Aquele trabalho dedecodificação foi uma façanha brilhante", disse por fim."Ah, nada disso. Foi banal. Era a mensagem mais simples queuma civilização adiantada poderia imaginar. Vergonha teria sidonão conseguirmos decifrá-la.""A senhora não aceita elogios com facilidade, já notei. Não,essa é uma daquelas descobertas que modificam o futuro. Pelomenos as nossas expectativas do futuro. É como o fogo, a escritaou a agricultura. Ou a Anunciação." Joss voltou a fitar Vega. "Se asenhora dispusesse de um lugar naquela Máquina, se pudesselevá-la de volta ao Remetente, que julga que iria ver?""A evolução é um processo estocástico. Há um número ex-
  • 184. cessivo de possibilidades para permitir previsões razoáveis sobrecomo será a vida em outro lugar. Se o senhor tivesse visto a Terraantes da origem da vida, teria previsto um gafanhoto ou umagirafa?""Conheço a resposta a essa pergunta. Creio que a senhoraimagina que simplesmente inventamos esse negócio, que o lemosnum livro ou que o recebemos numa tenda de oração. Mas não énada disso. Eu disponho de conhecimento seguro, positivo,derivado de experiência pessoal direta. Não posso usar palavrasmais claras. Eu vi Deus face a face."244Não parecia haver dúvida quanto à profundidade de sua fé."Fale-me disso."E Joss Falou."Está certo", disse Ellie por fim. "O senhor estava clinica-mente morto, depois ressuscitou, e lembra-se de ter subido emmeio à escuridão, na direção de uma luz brilhante. O senhor viuuma radiação com forma humana, que tomou por Deus. Mas nãohouve nada nessa experiência que lhe dissesse que a radiaçãohavia criado o universo ou estabelecido a lei moral. A experiênciaé uma experiência. Ela o tocou profundamente, disso não há dúvi-da. Mas há outras explicações possíveis.""Por exemplo?""Bem, como o nascimento. O parto consiste em percorrer umtúnel longo e escuro rumo a uma luz brilhante. Não esqueça comoela é brilhante... o bebê passou nove meses na escuridão. O nasci-mento é o primeiro encontro com a luz. Pense em como o senhorse sentiria atônito e espantado com seu primeiro contato com acor, a luz e a sombra, ou com o rosto humano... e é provável queo bebê esteja programado para reconhecer essas coisas. É possí-vel que, à beira da morte, o hodômetro volte a zero por um ins-tante. Entenda bem, não insisto nessa explicaçáo. É apenas umaentre muitas possibilidades. Estou sugerindo que talvez o senhortenha interpretado mal a experiência.""A senhora não viu o que eu vi." Mais uma vez Joss olhou paraa cintilante luz branco-azulada que emanava de Vega, depois sevoltou para Ellie. "A senhora nunca se sente... perdida no univer-so? Como sabe o que deve fazer, como deve proceder, se nãoexiste Deus? Simplesmente obedece à lei para náo ser presa?""O senhor não está preocupado em se sentir perdido, sr.Palmer. Está preocupado com o fato de não ocupar a posição cen-tral, não se a razão pela qual o universo foi criado. Há muita ordemem meu universo. A gravitação, o eletromagnetismo, a mecânicaquântica, a superunificação, tudo isso envolve leis. Quanto aocomportamento, não podemos descobrirqual seja nosso melhorinteresse... como espécie?""Essa é uma visão nobre e altruísta do mundo, com certeza,
  • 185. 245e eu seria a última pessoa a negar que existe bondade no coraçãohumano. Mas quanta crueldade não foi cometida quando nãoexistia o amor a Deus?""E a crueldade cometida quando esse amor existia? Savonaro-la e Torquemada amavam a Deus, ou pelo menos era o que di-ziam. A sua religião parte do princípio de que as pessoas são crian-ças e precisam de um bicho-papão para se comportarem bem. Osenhor quer que as pessoas acreditem em Deus para que obe-deÇam à lei. Esse é o único meio que lhe ocorre: uma rígida forçapolicial secular e a ameaça de castigo por um Deus onividente,que puna tudo quanto a polícia não viu. O senhor faz pouco dosseres humanos."Acha que, se não tive a sua experiência religiosa, não possoavaliar a grandeza do seu deus. Mas é exatamente o contrário. Aoouvi-lo, penso: como o deus dele é pequeno! Num planeta reles,alguns milhares de anos... isso decerto não vale a atenção de umadivindade secundária, quanto mais do Criador do universo.""A senhora está me confundindo com algum outro pregador.Aquele museu era território do irmão Rankin. Estou preparadopara um universo com bilhões de anos de idade. Tudo o que digoé que os cientistas não provaram isso.""E eu digo que o senhor não compreendeu as explicações.Qual será o benefício para as pessoas se a sabedoria conven-cional, as "verdades religiosas forem uma balela? Quando o se-nhor realmente acreditar que as pessoas podem ser adultas, há depreg ar um sermào diferente."Houve um breve silêncio, só quebrado pelos ecos de seuspalSSOS."Desculpe se fui um pouco contundente", disse ela. "Isso meacontece de vez em quando.""Dou-lhe minha palavra de honra, dra. Arroway, de que voupensar seriamente no que a senhora disse esta noite. A senhoralevantou algumas questôes para as quais eu devia ter respostas.Mas, dentro do mesmo espírito, permita-me fazer-lhe algumasperguntas. Certo?Ellie fez um gesto de cabeça e Joss continuou. "Pense emcomo é a consciência, no que ela é para a senhora neste exatomomento. Por acaso tem a sensaÇão de bilhões de minúsculos246átomos se acomodando em seus lugares? E, fora sua máquinabiológica, como é que uma criança pode aprender, na ciência, oque é o amor? Isso...O loip de Ellie tocou. Provavelmente era Ken, com a notíciaque ela estava esperando. Se fosse, a reunião dele tinha sidolonguíssima. Ainda assim, talvez isso fosse uma boa notícia. Ellieolhou de relance as letras e números que se formavam no cristal
  • 186. líquido: o telefone do escritório cie Ken. Não havia telefonespúblicos à vista, mas daaí a alguns minutos comseguiram parar umtáxi."Sinto muito ter de interromper a conversa assim de repente",Desculpou-se ela. "Gostei do nosso encontro, e vou pensar se-riamente em suas pergmtas... Quer fazer mais uma?""Quero. Qual é o preceito da ciência que impede um cientistade fazer o mal?"24715TARUGO DE ÉRBIOA terra, basta isso.Nào quero as constelações mais próximas,Sei que estào muito bem onde estào,Sei que bastam para os que pertencem a elas.Walt Whitman, Folhas de relva, "Canção da estra-da aberta" (185)Levou anos, representou um sonho tecnológico e umpesadelo diplomático, mas finalmente teve início a construção daMáquina. Propuseram-se vários neologismos, além de nomespara o projeto que evocavam mitos antigos. Desde o início,porém, todos haviam-na chamado simplesmente a Máquina, eessa ficou sendo a designação oficial. As complexas e delicadasnegociações internacionais eram descritas pelos editorialistas doOcidente como a "política da Máquina". Quando se chegou àprimeira estimativa fidedigna do custo total, até os titãs da indús-tria aeroespacial tremeram. Por fim, o custo foi definido em meiotrilhão de dólares anuais, durante alguns anos, aproximadamenteum terço do orçamento militar total - nuclear e convencional -do planeta. Houve temores de que a construção da Máquina arrui-nasse a economia mundial. "Vega provoca guerra econômica?",perguntou a revista The Economist, de Londres. As manchetesdiárias de The New York Times eram, sem dúvida alguma, maisextravagantes do que tinham sido as do jornal sensacionalista TheNationalEnquirer, jã extinto, dez anos antes.248Qualquer pessoa poderá verificar que nenhum paranormal,vidente ou adivinho, nenhuma pessoa que afirmasse ter capaci-dade de prever o futuro, nenhum astrólogo ou numerologista,como também nenhum redator de jornal que, todo ano, em finsde dezembro, produz uma matéria do tipo "Como será o ano quevem" havia predito a Máquina ou a Mensagem - e muito menosVega, números primos, Adolf Hitler, as Olimpíadas e tudo o mais.Eram muitas, porém, as reivindicações por parte de pessoas que,tendo previsto claramente os fatos, haviam levianamente deixadode escrever a previsão. As predições de fatos surpreendentes sem-
  • 187. pre se revelam mais precisas se não são registradas no papel. Essaé uma daquelas estranhas regularidades da vida cotidiana. Muitasreligiões enquadravam-se numa categoria ligeiramente diferente:um exame cuidadoso e imaginativo de suas escrituras sagradas,argumentava-se, revelaria uma meridiana profecia daquelesprodigiosos acontecimentos.Para outros, a Máquina representava uma benesse em poten-cial para a indústria aeroespacial de todo o mundo, que mostravapreocupante declínio desde a entrada em vigor dos Acordos deHiroxima. Havia pouquíssimos sistemas de armamentos estratégi-cos em desenvolvimento. Os hábitats espaciais representavam umnegócio florescente, mas de modo algum compensavam a perdade estações orbitais de laser e outros componentes da defesaestratégica, prevista por governos anteriores. Assim, mesmoalguns dos que se preocupavam com a segurança do planeta nocaso de a Máquina ser construída engoliam os escrúpulos quandoimaginavam suas implicações em termos de empregos, lucros eavanço profissional.Algumas pessoas bem situadas argumentavam que não haviamelhor perspectiva para as indústrias de alta tecnologia do queuma ameaça do espaço. Seria preciso haver defesas, radares dereconhecimento imensamente poderosos e, mais tarde, postosavançados em Plutão ou na nuvem cometária Oort. Nenhumcomentário sobre as disparidades militares entre os terrestres e osextraterrestres impressionava esses visionários. "Mesmo que nãopossamos nos defender deles", perguntavam, "vocês não queremque sejamos capazes de vê-los chegar?" Havia ali promessas delucros quase tangíveis. Estavam construindo a Máquina, é claro,249uma Máquina que valia trilhões de dólares; mas a Máquina seriaapenas o começo, se jogassem seus trunfos corretamente.Uma inverossímil aliança política se formara por trás dareeleição da presidente Lasker; o pleito se tornou, na realidade,um plebiscito nacional sobre se deveriam ou não construir aMáquina. Seu adversário advertia quanto a cavalos de Tróia eMáquinas do Juízo Final, assim como à perspectiva de desmora-lização da inventiva americana em face de seres que já haviam"inventado tudo". A presidente manifestou-se confiante em que atecnologia dos Estados Unidos se colocaria à altura do desafio edeu a entender, embora não o dissesse realmente, que a inventi-va americana acabaria por igualar tudo quanto existisse em Vega.Foi eleita por margem considerável, embora de modo algumesmagadora.As instruçôes representaram, em si, um fator decisivo. Tantona chave da linguagem e da tecnologia básica como na Mensagemsobre a montagem da Máquina, nada fora deixado sem expli-cação. Às vezes, procedimentos intermediários que pareciam de
  • 188. total obviedade eram tediosamente pormenorizados. Por exem-plo, nos fundamentos da aritmética, provava-se que, se duasvezes três é igual a seis, então três vezes dois também é igual a seis.A cada passo da construção havia rotinas de conferência: o érbioproduzido por tal processo deveria ter pureza de 9 por cento,sem mais que uma fração da impureza percentual das outras ter-ras-raras. Quando o componente 31 estiver terminado e colocadonuma solução molar 6 de ácido hidrofluorídrico, os elementosestruturais restantes deverão ter a aparência do diagrama da figu-ra que vinha em anexo. Quando o componente 408 estiver mon-tado, a aplicação de um campo magnético transversal de doismegagauss deve fazer o rotor realizar tantas rotações por segun-do antes de voltar a se imobilizar. Se qualquer um dos testes fa-lhasse, seria preciso voltar atrás e refazer tudo.Depois de algum tempo, a pessoa se acostumava aos testes eesperava ser aprovada neles. Era parecido com aprender umacoisa de cor. Muitos dos componentes de sustentação, fabricadosem instalações especiais construídas a partir da estaca zero,seguindo as instruções da chave, desafiavam a compreensãohumana. Era difícil imaginar que funcionassem. Mas funciona-250vam. Mesmo nesses casos, podia-se imaginar aplicações práticasda nova tecnologia. De vez em quando, surgiam informaçõespromissoras para a metalurgia ou para os semicondutores orgâni-cos. Em alguns casos, forneciam-se várias tecnologias alternativaspara a produção de um componente equivalente; era evidenteque os extraterrestres não sabiam com certeza qual método seriamais fácil para a tecnologia da Terra.Construídas as primeiras fábricas e produzidos os primeirosprotótipos, diminuiu o pessimismo quanto à capacidade humanade reconstruir uma tecnologia alienígena, obtida numa Mensagemgrafada em linguagem desconhecida. Havia a sensação inebriantede se chegar à escola despreparado para uma prova e descobrirque se podem dar as respostas com base na instruão geral e nobom senso. Como em todos os exames bem formulados, subme-ter-se a ele era uma experiência de aprendizado. Todos os pri-meiros testes produziram resultados auspiciosos: o érbio era depureza adequada; a superestrutura planejada surgiu depois de omaterial inorgânico ter sido dissolvido pelo ácido hidrofluorídri-co; o rotor girou como fora dito que devia girar. A Mensagemlisonjeava os cientistas e engenheiros, diziam os críticos; estavamse absorvendo na tecnologia e perdendo de vista os perigos.Para a construção de determinado componente, as instru-çôes especificavam um conjunto particularmente complicado dereações químicas, e o produto resultante foi introduzido numamistura de formaldeído e amoníaco aquoso do tamanho de umapiscina. A massa cresceu, diferenciou-se, especializou-se e, de
  • 189. repente, imobilizou-se - com um aspecto estranho e mais com-plexo do que aquele que os seres humanos saberiam produzir.Tinha uma rede, extraordinariamente ramificada, de finíssimostúbulos, através da qual talvez viesse a circular algum fluido. Eracoloidal, polposa, de um vermelho escuro. Não se reproduzia,mas era suficientemente biológica para assustar muita gente.Repetiram o processo, produzindo coisa aparentemente idêntica.A maneira como o produto final podia ser substancialmente maiscomplexo do que as instruções que permitiam fazê-lo era um mis-tério. A massa orgânica continuou em sua plataforma, sem nadafazer, até onde se percebia. Deveria ser colocada no interior dododecaedro, pouco acima e abaixo da área da tripulação.251Máquinas idênticas estavam em construção nos EstadosUnidos e na União Soviética. Ambos os países haviam escolhidopara isso locais remotos, menos para proteger os centros popula-cionais, no caso de ser mesmo uma Máquina do Juízo Final, doque para controlar o acesso por curiosos, manifestantes e jorna-listas. Nos Estados Unidos, a Máquina foi construída no Wyoming;na União Soviética, pouco além do Cáucaso, na República Socia-lista Soviética da Usbéquia. Novas fábricas foram erigidas pertodos locais de montagem. Nos casos em que certos componentespodiam ser produzidos pela indústria existente, a produção forabastante dispersada. Um subempreiteiro óptico de Iena, porexemplo, fabricava e testava componentes a serem utilizados nasMáquinas americana e soviética; esses componentes iam tambémpara o Japão, onde tudo era sistematicamente examinado, numatentativa de compreender como funcionava. Contudo, o progres-so em Hokkaido era lento.Temia-se que submeter um componente a um teste não auto-rizado pela Mensagem pudesse destruir alguma espécie de sim-biose sutil entre os vários componentes de uma Máquina em fun-cionamento. Uma das principais subestruturas da Máquina eraconstituída por três invólucros esféricos, concêntricos, dispostosCom eixos perpendiculares entre si e destínados a gírar a rápidavelocidade. Tais invólucros esféricos deveriam apresentar dese-nhos gravados, precisos e complexos. Por acaso um invólucro quetivesse sido posto a girar algumas vezes, num teste não autorizado,funcionaria impropriamente quando montado na Máquina? E, emcontraste, um invólucro não testado funcionaria à perfeição?A Hadden Industries era um dos principais empreiteiros daMáquina. Sol Hadden insistira em que não se realizassem testesnão autorizados e até mesmo em que não se juntassem compo-nentes destinados à montagem final na Máquina. As instruções,determinou ele, deveriam ser seguidas à risca, pois não havia naMensagem informações soltas. Instava seus empregados a se con-siderarem necromantes medievais, a seguirem meticulosamente
  • 190. as palavras de um encantamento mágico. Não se atrevam a pro-nunciar mal uma única sílaba, recomendava.Tudo isso acontecia, a depender da doutrina cronológica ouescatológica que se abraçava, dois anos antes do Milênio. Eram252tantas as pessoas que se estavam "aposentando", numa feliz ante-cipação do Dia do Juízo ou do Advento, ou mesmo de ambas ascoisas, que em algumas indústrias havia escassez de operáriosqualificados. A disposição de Hadden de reestruturar sua força detrabalho, a fim de otimizar a construção da Máquina e de propor-cionar incentivos aos subempreiteiros, era vista como um dosprincipais fatores do sucesso americano até então.No entanto, Hadden também se havia "aposentado" - umasurpresa em vista das notórias posições do inventor do Preachnix.Constava que ele teria dito: "Os milenaristas transformaram-meem ateu". As decisões fundamentais ainda cabiam a ele, diziamseus subordinados. Entretanto, as comunicações com Hadden sefaziam através da telecomunicação assíncrona: seus subordinadosdeixavam relatórios de progresso, solicitações de serviço e per-guntas numa caixa lacrada de um serviço de telecomunicaçõescientíficas. Suas respostas vinham em outra caixa lacrada. Era umsistema estranho, mas parecia estar funcionando. Depois de trans-postos os primeiros estágios, mais difíceis, e depois que a Má-quina começou realmente a ganhar forma, passou-se a ouvir falarcada vez menos de S. R. Hadden. Os executivos do ConsórcioMundial da Máquina manifestaram preocupação, mas depois delhe fazerem uma visita, em local não revelado (a visita foi descri-ta como "prolongada"), voltaram mais tranqüilos. Todos os de-mais lhe desconheciam o pai-adeiro.Os arsenais mundiais de armas estratégicas caíram abaixo de3200 artefatos nucleares, pela primeira vez desde meados dosanos 50. Progrediam as negociações multilaterais a respeito dasfases mais difíceis do desarmamento, que tinham como meta oestabelecimento de uma força mínima de dissuasão nuclear.Quanto menos armas houvesse de um lado, mais perigoso setornaria para o outro ocultar um pequeno número delas. E, com aredução do número de sistemas de ataque - agora muito maisfáceis de verificar -, com os novos métodos de monitoramentoautomático do cumprimento dos tratados e com os recém-firma-dos acordos de inspeção local, pareciam boas as perspectivas dereduções ainda maiores. O processo tinha adquirido uma espéciede impulso próprio nas mentes dos especialistas e do público. Talcomo acontece na espécie comum de corrida armamentista, as253duas potências rivalizam entre si, mas dessa vez buscando reduzirseus arsenais. Em termos militares práticos, não haviam renun-ciado a muita coisa; ainda conservavam a capacidade de destruir
  • 191. a civilização planetária. Contudo, no otimismo gerado em relaçãoao futuro, na esperança despertada na geraçáo que chegava àmaioridade, esse começo já realizara muito. Talvez como efeitodas iminentes comemorações do Milênio, tanto as seculares comoas canônicas, o número de hostilidades armadas entre as naçõesa cada ano diminuía mais. "A paz de Deus", assim o cardeal arce-bispo da cidade do México descrevera a situação.Tanto no Wyoming como no Usbequistão, novas indústriashaviam sido criadas, cidades inteiras brotavam do chão. Os paísesindustrializados, naturalmente, arcavam com uma parte despro-porcional das despesas, mas o custo per capita para toda a popu-lação da Terra era da ordem de cem dólares anuais. Para um quar-to da população terrestre, cem dólares por ano representavamparce.la substancial. da renda anual. O dinheiro despendido naMáquina não produzia nenhum bem ou serviço imediato. Noentanto, pelo estímulo que proporcionava a novas tecnologias,era considerado um preço baixo, mesmo que a Máquina jamaisviesse a funcionar.Havia muitos que opinavam que as coisas estavam andandodepressa demais, que era preciso compreender cada etapa antesde passar à seguinte. Se a construção da Máquina levasse ge-rações, argumentavam, e daí? Dividir os custos do desenvolvi-mento por decênios aliviaria o ônus econômico da construção daMáquina para a economia mundial. Segundo muitos critérios, oconselho era prudente, mas impraticável. Como seria possívelconstruir apenas um componente da Máquina? Em todo o mundo,cientistas e engenheiros, de vários campos especializados, faziamesforços para atuar indiscriminadamente nos aspectos da Má-quina que se referiam, pelo menos em parte, às suas áreas disci-plinares.Havia quem temesse que, se a Máquina não fosse construídadepressa, jamais seria completada. A presidente americana e opremiê soviético haviam comprometido seus países com a cons-trução da Máquina. Não se podia garantir que todos os possíveissucessores fizessem o mesmo. Ademais, devido a razões perfeita-254mente compreensíveis, os que controlavam o projeto desejavamvê-lo concluído enquanto ainda ocupavam cargos de respon-sabilidade. Alguns argumentavam que havia urgência intrínsecanuma Mensagem transmitida em tantas freqüências, com tama-nha intensidade e por tanto tempo. Não nos estavam pedindo queconstruíssemos a Máquina quando estivéssemos dispostos. Es-tavam pedindo que a montássemos agora. O ritmo acelerou-se.Todos os subsistemas iniciais baseavam-se em tecnologiaselementares descritas na primeira parte da chave. Os testes pres-critos tinham produzido bons resultados, com relativa facilidade.Ao se testarem os subsistemas posteriores, mais complexos, veri-
  • 192. ficaram-se fracassos ocasionais. Isso acontecia em ambos os paí-ses, mas com maior freqüência na União Soviética. Como ninguémsabia como funcionavam os componentes, em geral era impos-sível voltar atrás, a partir da falha, a fim de identificar o erro noprocesso de fabricação. Em alguns casos, os componentes eramproduzidos em paralelo, por dois fabricantes diferentes, que com-petiam em rapidez e precisão. Se havia dois componentes, ambosaprovados nos testes, cada nação tendia a escolher o produtonacional. Assim, as Máquinas que vinham sendo montadas nosdois países não eram absolutamente idênticas.Finalmente, no Wyoming, chegou o dia de começar a inte-gração dos sistemas, a montagem dos componentes separadosnuma máquina completa. Era de prever que fosse essa a partemais fácil do processo de construção. Era provável que a Máquinaestivesse concluída dentro de um ou dois anos. Algumas pessoasimaginavam que a Ativação da Máquina poria fim ao mundoinstantaneamente.No Wyoming, os coelhos eram muito mais sabidos. Oumenos. Era difícil avaliar. Mais de uma vez os faróis do Thunder-bird tinham iluminado um ou outro coelho perto da estrada. Masnão havia centenas deles organizados em fila - evidentemente,o cvstume ainda não se espalhara do Novo México ao Wyoming.A situação ali, verificou Ellie, era muito diferente da do Argus.Havia uma importante instalação científica cercada por milharesde hectares de lugares lindos, quase desabitados. Ela não estava255dirigindo o espetáculo nem integrava a tripulação. Mas estava ali,trabalhando num dos maiores empreendimentos já levados aefeito. Evidentemente, não importava o que acontecesse depoisque a Máquina fosse ativada, a descoberta feita no Argus seria con-siderada um momento crucial na história da humanidade.No exato momento em que se faz necessária alguma forçaunificadora adicional, esse raio cai do azul do céu. Do negroespaç.o exterior, corrigiu-se Ellie. De 26 anos-luz de distância, de230 trilhões de quilômetros. É difícil para uma pessoa considerar-se hasicamente um escocês, um esloveno ou um pequinês quan-do todos, indiscriminadamente, estão sendo saudados por umacivilização milênios à frente. O hiato entre a mais atrasada naçãoda Terra, do ponto de vista tecnológico, e os países industrializa-dos era decerto muito menor que o hiato entre os países industria-lizados e os seres de Vega. De repente, diferenças que no passa-do tinham parecido esmagadoras - raciais, religiosas, nacionais,émicas, lingüísticas, econômicas e culturais-começaram a pare-cer um pouco menos prementes."Somos todos humanos." Essa era uma frase que se ouviacom freqüência naqueles dias. Era extraordinária a raridade comque, em décadas anteriores, se expressavam sentimentos dessa
  • 193. natureza, sobretudo nos meios de comunicação. Compartilhamoso mesmo pequeno planeta, dizia-se, e - quase - a mesma civi-lização global. Era difícil imaginar os extraterrestres levando asério um pedido de favorecimento por parte de representantes deuma ou outra facção ideológica. A existência da Mensagem -mesmo deixando de lado sua enigmática função - estava unin-do o mundo. Isso era uma coisa que se via com facilidade.A primeira pergunta de sua mãe, ao saber que Ellie não tinhasido escolhida, foi: "Você chorou?". Sim, ela chorara. Nada maisnatural. Havia, é claro, uma parte dela que ansiava por estar a bor-do. Drumlin, porém, era uma excelente escolha, dissera à màe.Os soviéticos não tinham tomado uma decisão entre Luna-charski e Arkhangelski; ambos "treinariam" para a missão. Era difí-cil imaginar qual seria o treinamento apropriado, além de com-preenderem a Máquina da melhor maneira que eles, ou qualqueroutra pessoa, pudessem. Alguns americanos acusavam os soviéti-cos de estarem tentando simplesmente dispor de dois porta-vozes256principais da Máquina, mas Ellie achava que isso era mesquinh..Tanto Lunacharski como Arkhangelski eram extremament ca-pazes. Como os soviéticos fariam a escolha final? Lunaéharskiachava-se nos Estados Unidos, mas não ali no Wyoming. Estavaem Washington, com uma delegação soviética de alto pivel, reuni-da com o secretário de Estado e com Michael Kitz, recém-pro-movido a vice-secretário da Defesa. Arkhargelski estava noUsbequistão.A nova metrópole que crescia no ermo do Wyoming chama-va-se Máquina; a cidade soviética levava o nome equivalente emrusso, Makhina. Cada uma delas era um complexo de residências,serviços públicos, bairros residenciais e comerciais e - sobretu-do - fábricas. Algumas delas eram despretensiosas, ao menosexternamente. Em outras, porém, percebiam-se de relance osaspectos estranhos - cúpulas e minaretes, quilômetros de com-plicadas tubulações aparentes. Somente as fábricas consideradaspotencialmente perigosas - as que produziam os componentesorgânicos, por exemplo-ficavam ali no deserto do Wyoming. Astecnologias mais bem compreendidas distribuíam-se pelo mundointeiro. O núcleo do aglomerado de novas indústrias era a Insta-lação de Integração de Sistemas, construída nas proximidades doque tinha sido Wagonwheel, no Wyoming, para onde eram envia-dos os componentes acabados. Às vezes Ellie assistia à chegadade um componente e pensava que fora o primeiro ser humano avê-lo como desenho de projeto. Ao ser desencaixotada cada novaparte, ela se apressava a inspecioná-la. À medida que os compo-nentes eram montados uns sobre os outros, e os subsistemas,aprovados nos testes prescritos, ela sentia uma espécie de alegriaque adivinhava ser semelhante ao orgulho máterno.
  • 194. Ellie, Drumlin e Valerian chegaram para uma reunião ro-tineira, marcada com grande antecedência, sobre o monitora-mento do sinal de Vega, agora amplamente redundante. Aodesembarcarem, verificaram que todos falavam do incêndio deBabilônia. Acontecera nas primeiras horas da manhã, talvez nummomento em que só estivessem no lugar os clientes mais deprava-dos e incorrigíveis. Um grupo de ataque, armado com morteiros e257bombas incendiárias tínha irrompido simultaneamente pelas por-tas de Enlil e Ishtar. O Zigurate fora arrasado. Havia uma fotografiade pessoas sumaariamente vestidas que corriam para fora do tem-plo de Assur. Era extraordinãrio que ninguém houvesse morrido,embora fossem muitos os feridos.Pouco antes do ataque, o New York Sun, jornal controladopelo grupo Primeiro a Terra, que tinha como logotipo um globodespedaçado por um raio, recebera um telefonema anunciando aincursão. Tratava-se de uma punição inspirada por Deus, decla-rou o informante, levada a cabo em nome da decência e da mora-lidade americana, por parte de pessoas nauseadas e cansadas detanta imundície e corrupção. Havia declarações do presidente daBabylon, , deplorando o ataque e condenando uma alegadaconspiração criminosa, mas até então nem uma só palavra se ouvi-ra de S. R Hadden, onde quer que estivesse.Como se sabia que Ellie visitara Hadden em Babilônia, algunsquiseram ouvi-la. Até Drumlin se interessou por sua opinião comrelação ao assunto, ainda que, pelo evidente conhecimento quedemonstrava sobre o lugar, parecesse possível que ele próprio jáo tivesse visitado mais de uma vez. Não era difícil a Ellie imaginá-lo conduzindo um carro de guerra. Talvez, entretanto, ele sótivesse lido sobre Babilônia. As revistas semanais haviam publi-cado mapas do lugar.Por fim, voltaram aos assuntos profissionais. Fundamen-talmente, a Mensagem prosseguia nas mesmas freqüências, com-primentos de bandas, constantes temporais e modulação depolaridade e de fase; os números primos e a transmissão dos jogosolímpicos ainda se sobrepunham ao projeto da Máquina e àchave. A civilização de Vega parecia muito persistente; ou talvezsimplesmente tivessem esquecido de desligar o transmissor.Valerian tinha nos olhos uma expressão perdida."Peter, por que você tem de ficar olhando para o teto parapensar?"Diziam que Drumlin havia abrandado nos últimos anos, mas,a julgar por comentários como aquele, sua transformação nemsempre era visível. O fato de ter sido escolhido pela presidentedos Estados lnidos para representar a nação junto aos extrater-restres era, dizia, uma grande honra. A viagem, comentava com os258
  • 195. amigos, seria o coroamento de sua vida. Sua mulher, transplanta-da temporadriamente para o Wyoming, e ainda obstinadamentefiel, tinha de suportar as mesmas exibições de slides, agora paranovas platéias, formadas por cientistas e engenheiros que cons-truíam a Máquina. Como o local de construção ficava perto de seuestado natal, Montana, Drumlin o visitava de vez em quando. Decerta feita, Ellie o levara de carro a Missoula. Pela primeira vez,desde que se conheciam, ele se mostrara cordial com ela durantealgumas horas consecutivas."Psiu! Estou pensando", respondeu Valerian. "É uma técnicade supressào de ruído. Estou procurando minimizar as distraçôesem meu campo visual, e aí você traz uma distraçào no espectro deáudio. Poderia me perguntar se nào faz o mesmo efeito olhar parauma folha de papel em branco. O problema é que uma folha depapel é muito pequena. Vejo coisas com a visão periférica. Dequalquer forma, o que eu estava pensando era o seguinte: por queainda estamos recebendo a mensagem de Hitler, a transmissào daOlimpíada? Passaram-se anos. A esta altura, já devem ter recebidoo programa da coroação britânica. Por que ainda nào vimos ima-gens do orbe, do cetro e do arminho, com uma voz dizendo:...coroado agora como Jorge vI, pela Graça de Deus, rei daInglaterra e da Irlanda do Norte, e imperador da Índia?""Tem certeza de que Vega estava sobre a Inglaterra à épocada coroação do rei Jorge?", perguntou Ellie."Tenho. Verificamos isso poucas semanas depois da captaçãodo programa das Olimpíadas. E a intensidade era mais forte doque a da transmissãoo de Hitler. Tenho certeza de que Vega pode-ria ter recebido a coroação.""Está preocupado com a possibilidade de que nào queiramque saibamos tudo que sabem a nosso respeito?", perguntou ela."Estào com pressa", disse Valerian. Às vezes ele era dado apronunciamentos oraculares."É mais provável", sugeriu Ellie, "que queiram repisar queconhecem Hitler.""Nào é muito diferente do que eu estava dízendo", respon-deu Valerian."Muito bem. Não vamos perder muito tempo com fantasias",resmungou Drumlin. Sempre se impacientava com especulações259sobre as motivações dos extraterrenos. Tentar adivinhar era totalperda de tempo, dizia; em breve saberiam. Enquanto isso, re-comendava a todos que se concentrassem na Mensagem; eramdados concretos - redundantes, inequívocos, compostos combrilhantismo."Escutem, talvez um pouco de realidade seja bom para vocêsdois. Por que não vamos à área de montagem? Acho que estão tra-balhando na integraçáo de sistemas com os tarugos de érbio."
  • 196. A forma geométrica da Máquina era simples. Já os detalheseram de extrema complexidade. As cinco poltronas em que a tri-pulação se sentaria ficavam no centro do dodecaedro, onde eramais proeminente a sua protuberância. Não havia instalações paracomer, dormir ou realizar outras funções corporais, uma claraevidência de que a viagem a bordo da Máquina - se houvesseuma - seria curta. Alguns acreditavam que isso significava que aMáquina, quando ativada, se acoplaria rapidamente a um veículointerestelar na vizinhança da Terra. O único problema era que asmeticulosas buscas ópticas e por meio de radar não encontravamnenhum vestígio de tal nave. Não parecia provável que osextraterrestres tivessem desprezado as mais elementares necessi-dades fisiológicas dos seres humanos. Talvez a Máquina não sedestinasse a ir a parte alguma. Talvez ela exercesse algum efeitosobre os tripulantes. Não havia instrumentos na área da tripu-lação, nada que servisse para dirigi-la, nem mesmo um botão deignição. Somente os cinco assentos, voltados para dentro, demodo que cada pessoa pudesse ver as demais. E o limite máximodo peso da tripulação e seus pertences estava rigorosamentedeterminado. Na prática, a restrição favorecia pessoas de peque-na estatura.Em cima e embaixo da área dos tripulantes, na parte afunila-da do dodecaedro, ficavam os elementos orgânicos, com sua com-plicada e enigmática arquitetura. Por toda essa parte do dodecae-dro se distribuíam os tarugos de érbio, aparentemente ao acaso. Eo dodecaedro era cincundado pelos três invólucros esféricos con-cêntricos, cada qual representando, de certa forma, uma das trêsdimensões físicas. Os invólucros mantinham-se suspensos,aparentemente, por força magnética - pelo menos as instruçõesincluíam um potente gerador de campo magnético, e o espaço260entre os invólucros esféricos e o dodecaedro deveria representarum vácuo tonal.A Mensagem não dava nome a nenhum componente daMáquina. O érbio era identificado como um átomo com C8 pró-tons e 99 nêutrons. Também as várias partes da Máquina eram de-signadas numericamente - por exemplo, componente 31. Porisso, os invólucros esféricos concêntricos, rotativos, foram batiza-dos como Benzels por um técnico tcheco que conhecia algumacoisa da história da tecnologia. Em 1870, Gustav Benzel inventarao carrossel.O projeto e a função da Máquina eram insondáveis, suaconstrução exigira tecnologias em tudo novas, mas ela era feitade matéria, a estrutura podia ser diagramada - com efeito,desenhos dela, em corte, haviam sido estampados em jornais erevistas de todo o mundo - e sua forma final podia ser facil-
  • 197. mente visualizada. Reinava um contínuo espírito de otimismotecnológico.Brumlin, Valerian e Arroway passaram pela seqüência habi-tual de identificação, que compreendia credenciais, impressõesdigitais e impressões vocais, sendo admitidos à vasta área de mon-tagem. Pontes rolantes de três pavimentos estavam posicionandotarugos de érbio na matriz orgânica. Vários painéis pentagonais,destinados à parte externa do dodecaedro, pendiam de trilhos ele-vados. Enquanto os soviéticos haviam enfrentado certos proble-mas, os subsistemas americanos tinham sido finalmente aprova-dos em todos os testes, e aos poucos surgia a arquitetura geral daMáquina. Tudo está entrando nos lugares, pensou Ellie. Olhoupara o lugar onde seriam montados os benzels. Uma vez concluí-da, a aparência externa da Máquina seria semelhante a umadaquelas esferas armilares dos astrônomos renascentistas. Queteria pensado Johannes Kepler de tudo aquilo? O piso e os círculos de trilhos, em várias altitudes, no edifíciode montagem estavam cheios de técnicos, autoridades governa-mentais e representantes do Consórcio Mundial da Máquina.Enquanto observavam, Valerian comentou que a presidente devez em quando escrevia cartas para a mulher dele, a qual serecusava a lhe dizer sequer o tema da correspondência. Invocavao direito à privacidade.261O posicionamento dos tarugos já estava quase chegando aofim, e daí a pouco seria realizado, pela primeira vez, um impor-tante teste de integração de sistemas. Havia quem julgasse que odispositivo de monitoramento prescrito era um telescópio deondas gravitacionais. No exato momento em que o teste ia ter iní-cio, rodearam um pilar para poderem ver melhor.De repente, Drumlin estava no ar, voando. Tudo o mais tam-bém parecia voar. Ellie lembrou-se do furacão que transportaraDorothy à terra de Oz. Como num filme em câmara lenta, Drum-lin avançou na direçào dela, de braços abertos, e a derrubou comviolência ao chão. Depois de todos aqueles anos, pensou Ellie,seria aquela a idéia que Drumlin fazia de uma cantada? Tinhamuito o que aprender.Nunca se determinou quem fora o responsável. Entre as or-ganizações que publicamente reivindicavam a autoria estavam ogrupo Primeiro a Terra, a Fração do Exército Vermelho, o Jihadislâmico, a agora clandestina Fundação de Energia de Fusão, osseparatistas Sikh, o Sendero Luminoso, o Khmer Verde, a Renas-cença Afegã, a ala radical das Mães contra a Máquina, a IgrejaReunificada da Reunificação, a Ômega Sete, os Milenaristas do Juí-zo Final (embora Billy Jo Rankin desmentisse qualquer ligação coma organização e alegasse que as confissões eram anunciadas porímpios, numa tentativa inútil de desacreditar Deus), o Broeder-
  • 198. bond, El Catorce de Febrero, o Exército Secreto do Kuomintang, aLiga Sionista, o Partido de Deus e a recém-ressuscitada Frente Sim-bionesa de Libertação. A maioria dessas organizações carecia dosmeios para executar a sabotagem; a extensão da lista era mera-mente um indicador de como se generalizara a oposição à Máquina.A Ku Klux Klan, o Partido Nazista Americano, o Partido De-mocrata Nacional-Socialista e algumas agremiações congênerescontiveram-se e não alegaram responsabilidade. Uma influenteminoria de seus membros acreditava que a Mensagem fora envia-da por Hitler eIn pessoa. De acordo com uma versão, ele haviasido levado para fora da Terra, utilizando a tecnologia alemã defoguetes, em maio de 1945, e os nazistas tinham logrado um pro-gresso substancial desde então.262"Não sei aonde a Máquina ia", disse a presidente algunsmeses depois, "mas, se nesse lugar houver metade da maluquiceda Terra, é provável que a viagem não valesse a pena mesmo."De acordo com a reconstrução realizada pela comissão deinquérito, um dos tarugos de érbio fora rasgado por uma explo-são; os dois fragmentos haviam sido projetados para baixo, deuma altura de vinte metros, e também impelidos para os ladoscom considerável velocidade. Uma viga-parede interior foi atingi-da e o impacto a fez desabar. Onze pessoas tinham morrido, fican-do 48 feridas. Vários componentes importantes da Máquina foramdestruídos; e, como um sinistro não fazia parte dos protocolos detestes prescritos pela Mensagem, a explosão poderia ter arruina-do componentes que haviam ficado aparentemente incólumes. Senão se tinha nenhuma idéia do funcionamento da Máquina, eranecessário muito cuidado em sua construção.Apesar do sem-número de organizações que se diziam res-ponsáveis pela sabotagem, nos Estados Unidos as suspeitas seconcentraram imediatamente em dois dos poucos grupos que nãoa reivindicavam: os extraterrestres e os russos. A boataria sobreMáquinas do Juízo Final voltou a grassar. Os extraterrestres ha-viam projetado a Máquina para provocar uma explosão catastró-fica quando montada, mas, por felicidade, diziam alguns, tínha-mos sido negligentes em sua construÇão e apenas uma pequenacarga explodira -talvez a espoleta para a Máquina do Juízo Final.Recomendavam que a construção fosse interrompida enquantoainda havia tempo e que os componentes restantes fossem enter-rados em dispersas minas de sal.No entanto, a comissão de inquérito reuniu provas de que oDesastre da Máquina, como veio a ser chamado o incidente, tinhaorigem mais terrena. Os tarugos apresentavam uma cavidade elip-sóide central de finalidade ignorada, e sua parede interior erarevestida de uma complicada retícula de finíssimos fios degadolínio. Essa cavidade tinha sido enchida com explosivo plásti-
  • 199. co e um timer, itens ausentes da lista de materiais da Mensagem.O tarugo havia sido usinado, a cavidade, revestida, e o produtofinal, testado e lacrado numa fábrica da Hadden Cybernetics emTerre Haute, Indiana. A retícula de gadolínio era complicadademais para ser feita à mão; havia exigido servomecanismos263robóticos cuja manufatura, por sua vez, determinara a construçãode uma grande fábrica. O custo de construção da fábrica coubeinteiramente à Hadden Cybernetics, mas haveria outras apli-caçóes, mais lucrativas, para seus produtos.Os outros três tarugos de érbio do mesmo lote foram inspe-cionados, sem revelarem a presença de nenhum explosivo plásti-co. (Equipes soviéticas e japonesas realizaram diversas experiên-cias de inspeção remota, antes de se atreverem a abrir seustarugos.) Alguém havia introduzido, com todo o cuidado, umacarga explosiva e um timer na cavidade, perto do fim do proces-so de fabricaçáo em Terre Haute. Depois de deixar a fábrica, essetarugo e os de outras proveniências tinham sido transportados portrem especial e com guarda armada ao Wyoming. O tempo calcu-lado para a explosão e a natureza da sabotagem pareciam apon-tar para alguém que estivesse a par da construção da Máquina; eraobra de um integrante do projeto.No entanto, a investigação pouco progrediu. Dezenas edezenas de pessoas - técnicos, controladores de qualidade,inspetores que lacravam o componente para transporte - teriamtido a oportunidade de cometer essa sabotagem, se não os meiose a motivação. Os que não passaram no teste do detector de men-tiras tinham álibis perfeitos. Nenhum dos suspeitos soltou semquerer uma palavra incriminadora nos bares. Nenhum começou agastar mais do que seus recursos permitiam. Nenhum "abriu obico" sob interrogatório. A despeito dos esforços dos órgâos deinvestigação, descritos como vigorosos, o mistério permaneceuinsolúvel.Os que consideravam responsáveis os soviéticos declaravamque eles tinham feito aquilo para impedir que os Estados Unidosativassem a Máquina primeiro. Os russos dispunham de capaci-dade técnica para a sabotagem e, naturalmente, conhecimentominucioso dos programas de construção da Máquina em ambosos lados do Atlántico. Assim que ocorreu o desastre, AnatolyGoldmann, ex-aluno de Lunacharski que se achava trabalhandocomo oficial de ligação soviético no Wyoming, telefonou urgente-mente para Moscou e ordenou que desmontassem todos os seustarugos. A rigor, essa conversa - que fora, como de costume,gravada pela esN - não parecia mostrar nenhuma culpa dos rus-264sos, mas algumas pessoas alegavam que o telefonema havia sidouma cortina de fumaça para desviar as suspeitas, ou que Gold-
  • 200. mann não tivera conhecimento antecipado da sabotagem. O argu-mento foi logo encampado por norte-americanos inquietos com aredução das tensões entre as duas superpotências nucleares.Compreensivelmente, Moscou expressou profundo descontenta-mento com a insinuação.Na verdade, os soviéticos vinham enfrentando mais dificul-dades na construção da Máquina do que se imaginava no Oci-dente. Utilizando a Mensagem decodificada, o Ministério daIndústria Meio-Pesada fez consideráveis progressos na extraçãode minério, metalurgia, máquinas-ferramentas etc Os novos cam-pos da microeletrônica e da cibernética apresentaram maioresdificuldades, e a maioria desses componentes era produzida paraos soviéticos, por empreitada, na Europa e no Japão. Mais difícilainda para a indústria nacional soviética foi a parte de químicaorgânica, que dependia fortemente de técnicas desenvolvidas naárea da biologia molecular.A genética soviética sofrera um golpe quase fatal quando, nadécada de 30, Stalin decidira que a moderna genética mendelianaera inadequada do ponto de vista ideológico, promulgando, pordecreto, a ortodoxia científica da teoria amalucada de um agricul-tor politizado, Trofim Lysenko. Duas gerações de brilhantes estu-dantes soviéticos nada haviam aprendido de importante sobre osfundamentos da hereditariedade. Agora, sessenta anos depois, abiologia molecular e a engenharia genética estavam relativamenteatrasadas na IJRss; os cientistas soviéticos tinham contribuído compoucas descobertas importantes nessa área. Coisa semelhante quaseaconteceu nos Estados Unidos, onde, por motivos teológicos, ten-tara-se fazer com que os alunos das escolas públicas não estudassemo evolucionismo, o princípio básico da biologia moderna. O litígioera claro, pois uma interpretação fundamentalista da Bíblia era tidacomo contrária ao processo evolutivo. Felizmente para a biologiamolecular americana, os fundamentalistas não tinham, nos EstadosUnidos, tanta força quanto tivera Stalin na União Soviética.O inquérito realizado para a presidente concluiu que nãohavia provas de envolvimento soviético na sabotagem. Pelo con-trário, como os soviéticos dispunham de paridade com os ameri-265canos na tripulação, tinham grandes motivos para promover aconclusão da Máquina americana. "Se uma pessoa possui tec-nologia de terceiro nível", explicou o diretor da cIa, "e o adver-sário tem tecnologia de quarto nível, só há motivo de alegria quan-do, inesperadamente, cai do céu uma tecnologia de quinto nível.Isso, desde que tenha acesso igual a esta e disponha de recursosadequados." Poucas autoridades do governo americano acredi-tavam que os soviéticos fossem responsáveis pela explosão, e apresidente havia declarado isso, de público, mais de uma vez.Entretanto, os velhos hábitos tendem a persistir.
  • 201. "Nenhum grupo terrorista, por mais organizado que seja,haverá de desviar a humanidade dessa meta histórica", declarou apresidente. Na prática, entretanto, agora era muito mais difícilalcançar um consenso nacional. A sabotagem dera vida nova atodas as objeções, razoáveis ou não, levantadas anteriormente.Somente a perspectiva de os soviéticos completarem sua Máquinaé que mantinha o projeto americano em curso.A mulher de Drumlin pretendia que o enterro dele fosse umacerimônia familiar, mas nisso, como em muitas outras coisas, suashoas intenções malograram. Físicos, aficionados do vôo em asa-delta, esquiadores aquáticos, autoridades públicas, entusiastas dacaça submarina, radioastrônomos, pára-quedistas, a comunidadeda mFT - todo mundo queria assistir ao funeral. Durante algumtempo, pensaram em realizar o serviço fúnebre na catedral St.John the Divine, em Nova York, pois era o único templo do paísde tamanho adequado. No entanto, a mulher de Drumlin venceu,pelo menos nesse ponto, e a cerimônia teve lugar ao ar livre, emsua cidade natal, Missoula, no estado de Montana. As autoridadeshaviam concordado porque Missoula simplificava os problemasde segurança.Embora Valerian não estivesse muito ferido, seus médicosforam de opinião de que ele deveria abster-se de comparecer aofuneral; não obstante, ele pronunciou um dos discursos, em suacadeira de rodas. O que Drumlin tinha de melhor consistia emsaber que perguntas fazer, disse Valerian. Havia abordado o pro-blema da PIET com ceticismo, pois isso representava a essência da266ciência. Mas lugo que se patenteou estar se recebendo uma Men-sagem, ninguém contribuíra com mais esforço e talento. Repre-sentando a presidente, o vice-secretário da Defesa, Michael Kitz,ressaltou as qualidades pessoais de Drumlin: a cordialidade, a preo-cupação com os sentimentos alheios, a extraordinária capacidadeatlética. Não fosse aquele acontecimento trágico e funesto, Drumlinteria entrado para a história como o primeiro americano a visitaroutra estrela.Que não lhe pedissem um discurso, dissera Ellie a Der Heer.E nada de entrevistas à imprensa. Talvez algumas fotografias... elacompreendia a importância de algumas fotos. Não confiava empoder dizer as coisas certas. Durante anos havia servido comouma espécie de porta-voz da PIET, do Argus e, depois, da Men-sagem e da Máquina. No entanto, aquilo era diferente. Precisavade algum tempo para ruminar sobre a situaçào.Até onde ela podia dizer, Drumlin morrera para lhe salvar avida. Ele vira a explosão antes que os outros a ouvissem, perce-hera a massa d.e érbio, de centenas de quilogramas, projetando-secontra eles. Com seus reflexos rápidos, Drumlin saltara a fim deempurrá-la para trás do pilar.
  • 202. Ellie mencionara essa possibilidade a Der Heer, que respon-dera: "É provável que Drumlin tenha saltado para proteger a simesmo. Por acaso, você estava no caminho". A observação nãofora gentil. Ou então, prosseguiu Der Heer, ao observar que elanão gostara, Drumlin fora atirado ao ar pela concussão do piso,atingido pelo érbio.Entretanto, Ellie tinha plena certeza. Assistira a tudo. Apreocupação de Drumlin fora salvar-lhe a vida. E conseguira.Afora alguns arranhões, Ellie saíra ilesa do acidente. Valerian,que estivera inteiramente protegido pelo pilar, sofrera fraturanas duas pernas, esmagadas pelo desabamento de uma parede.Em mais de um sentido, ela tivera sorte. Nem sequer perdera aconsciência.A primeira coisa que sentiu, assim que percebeu o que haviaacontecido, não foi tristeza por ver seu velho professor, DavidDrumlin, dilacerado diante de seus olhos; nem foi espanto pelapossihilidade de Drumlin haver dado a vida para salvar a dela;nem angústia diante da ameaça a todo o projeto da Máquina. Não,267claramente, seu pensamento fora: Eu posso ir, terão de me man-dar, não há outra pessoa, agora eu vou.Logo se reprimira. Mas era tarde demais. Sentiu-se estupefa-ta com seu espírito interesseiro, pelo egoísmo desprezível querevelara a si própria naquele instante de crise. Não importava queDrumlin pudesse ter defeitos semelhantes. Ellie ficou atônita porencontrá-los, mesmo que momentaneamente, dentro de si... tãovigorosa, ativa, planejando decisões futuras, esquecida de tudo,menos de seus interesses. O que mais a horrorizava era a absolu-ta mesquinhez do seu ego. Não pedia desculpas, não dava trégua,ia em frente. Ellie sabia que seria impossível arrancar aquilo total-mente de sua mente. Teria de raciocinar com paciência, distrairseu ego, talvez até ameaçá-lo.Quando os investigadores chegaram ao local do sinistro, elapouco falou. "Acho que não posso prestar muita ajuda. Estáva-mos, os três, caminhando por ali, e de repente houve umaexplosáo e tudo saiu voando pelos ares. Sinto muito. Gostaria depoder ajudar mais."Deixou claro aos colegas que não queria conversar sobre oepisódio e se refugiou em seu apartamento, durante tanto tempoque mandaram um grupo saber dela. Procurava lembrar-se decada pormenor do caso. Tentava reconstruir a conversa entre elesantes de penetrarem na área de montagem, o que Drumlin e elahaviam conversado durante a viagem de carro a Missoula, comoera Drumlin quando ela o conhecera no começo do curso. Aospoucos, veio a descobrir que uma parte dela desejava a morte deDrumlin - mesmo antes de se tornarem concorrentes a um dosassentos americanos na Máquina. Ela o odiava por tê-la diminuí-
  • 203. do na frente de outros estudantes, por se opor ao projeto Argus,pelo que ele lhe havia dito após o filme de Hitler ser reconstituí-do. Ela o desejara morto. E agora ele estava morto. Através de umcerto raciocínio - imediatamente identificado como confuso eespúrio -, ela se acreditava responsável por essa morte.Por acaso, ele sequer estaria ali se não fosse ela? Claro, pen-sou Ellie. Outra pessoa teria descoberto a Mensagem, e Drumlinteria participado de tudo. Isso era uma coisa. Entretanto, porven-tura - talvez devido à sua própria negligência científica -, nãolevara Drumlin a se envolver cada vez mais no projeto da Má-268quina? Passo a passo, Ellie pesou as possibilidades. Quando muitoabomináveis, aí então é que se detinha nelas; havia alguma coisaoculta ali. Pensou nos homens que, por um motivo ou por outro,ela admirara. Drumlin. Valerian. Der Heer. Hadden... Joss. Jesse...Staughton?... Seu pai."Dra. Arroway?"Uma mulher rechonchuda e de meia-idade, de vestido estam-pado azul, despertou Ellie dessas reflexões. Seu rosto tinha umquê familiar. O crachá de identificação sobre seus seios exube-rantes dizia: "H. Bork, Gsteborg"."Dra. Arroway, sinto muito por sua... por nossa perda. Davidme falava muito sobre a senhora."Claro! A lendária Helga Bork, companheira de mergulho deDrumlin em tantas exibições tediosas de slides nos tempos de uni-versidade. Quem, pensou Ellie pela primeira vez, havia tiradoaquelas fotografias? Por acaso chamavam um fotógrafo paraacompanhá-los em suas excursões submarinas?"Ele me disse que eram muito íntimos."O que essa mulher está querendo dizer? Por acaso terá Drum-lin insinuado que... Os olhos de Ellie encheram-se de lágrimas."Desculpe, dra. Bork, mas não estou me sentindo bem."Baixando a cabeça, a mulher retirou-se.Muitas pessoas que ela queria ver compareceram ao funeral:Vaygay, Arkhangelski, Gotsridze, Baruda, Yu, Xi, Devi. E Abon-nema Eda, cada vez mais citado como o quinto membro da tripu-laÇão... se as nações tivessem juízo, pensou Ellie, e se chegassema terminar uma Máquina. Mas seus nervos estavam em frangalhose ela não suportava reuniões prolongadas. Para começar, não ti-nha confiança no que viesse a dizer. Em que medida suas palavrasvisariam beneficiar o projeto? E em que medida teriam a finalidadede satisfazer suas próprias necessidades pessoais? As pessoasmostraram solidariedade e compreensão. Afinal de contas, era elaa pessoa mais próxima a Drumlin quando o tarugo de érbio oesmigalhou.26916
  • 204. OS SÁBIOS DE OZÔNIOO Deus reconhecido pela ciência deve ser exclu-sivamente um Deus de leis universais, um Deusque trabalhe no atacado, e não no varejo. Nãopode amoldar seus processos segundoa con-veniência dos indivíduos.William James, As variedades da experiênciareligiosa ( 1 )02)A algumas centenas de quilômetros de altitude, a Terra erichemetade do céu, e a faixa de azul que se estende de Mindanao aBombaim, e que a vista discerne num único olhar, é de uma belezaestonteante. Minha terra, você pensa. Minha Terra. Esse é o meumundo. É a ele que eu pertenço. Todas as pessoas que conheço,todas as-pessoas de quem já ouvi falar, cresceram aí, sob aqueleazul implacável e lindo.Você corre de horizonte a horizonte, em direção a leste, dealvorecer a alvorecer, circundando o planeta em uma hora e meia.Depois de algum tempo, passa a conhecê-lo, estuda suas idios-sincrasias e anomalias. Pode-se ver tanta coisa a olho nu! Em brevea Flórida aparecerá outra vez. Por acaso, aquela tempestade tro-pical que você viu na última órbita, rodopiando e correndo peloCariloe, já alcançou Fort Laud.erdale? Estarão algumas das mon-tanhas do Hindu Kuch livre de neve este verão? Você admira osrecifes do mar de Coral. Contempla as geleiras da parte ocidentalda Antártida e imagina se seu desaparecimento realmente inun-daria todas as cidades litorâneas do planeta.2 70De dia, é difícil vislumbrar qualquer sinal dos habitantes. Ànoite, porém, tudo que você vê, com exceção da aurora polar, sedeve aos seres humanos. Aquela faixa de luz é a costa leste dosEstados Unidos, um clarão contínuo de Boston até Washington.Do outro lado do mundo, vê-se a queima de gás natural na Líbia.As luzes ofuscantes da frota camaroneira do Japão movem-se nadireção do mar da China Meridional. A cada órbita, a Terra contanovas histórias. Você avista uma erupção vulcânica em Kamtchatka,uma tempestade de areia proveniente do Saara aproximando-se doBrasil, uma excepcional queda de temperatura na Nova Zelândia.Você passa a pensar na Terra como um organismo, uma coisaviva. Passa a se preocupar com ela, a lhe querer bem. As fron-teiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou ostrópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. Oplaneta é real.Por conseguinte, o vôo espacial é subversivo. Quando tem asorte de se ver em órbita da Terra, a maior parte das pessoas, apósum pouco de reflexão, pensa a mesma coisa. As nações que ha-viam instituído o vôo espacial fizeram-no sobretudo por motivos
  • 205. nacionalistas; ironicamente, quase todos que estiveram no espaçotiveram uma visão sobressaltante de uma perspectiva transna-cional, da Terra como um só mundo.Não era difícil imaginar uma época em que a lealdade pre-dominante seria a esse mundo azul, ou mesmo ao aglomerado demundos reunidos em torno da estrela próxima, uma anã amarelaa que os seres humanos, no passado desatentos ao fato de quetoda estrela é um sol, haviam atribuído o artigo definido: o Sol. Sóagora, quando muitas pessoas penetravam no espaço por longosperíodos e passavam a dispor de algum tempo de reflexão, é quea força da perspectiva planetária começava a se fazer sentir. Porfim, um número substancial dos que descreviam órbitas baixas aoredor da Terra tornaram-se pessoas influentes na Terra.Desde o começo, antes que os seres humanos tomassem con-tato com o espaço, eles haviam enviado animais. Amebas, drosó-filas, ratos, càes e macacos tinham se tornado veteranos doespaço. Ao se tornarem possíveis vóos espaciais de maiorduração, verificara-se algo de inesperado. Esses vôos não tinhamnenhum efeito sobre microorganismos e pouco sobre as drosófi-271las. No entanto, aparentemente, a gravidade zero ampliava aexpectativa de vida dos mamíferos. Em dez ou vinte por cento. Sea pessoa vivia em zero g, seu corpo despendia menos energialutando contra a força da gravidade, suas células oxidavam-semais lentamente e ela vivia mais tempo. Alguns médicos susten-tavam que o efeito seria muito mais pronunciado sobre os sereshumanos do que sobre os ratos. Surgia no ar uma leve fragrânciade imortalidade.A taxa de novos cânceres era oitenta por cento inferior nocaso dos animais em órbita em comparação com um grupo decontrole na Terra. A incidência de leucemia e de carcinomas lin-fâticos era noventa por cento menor. Havia até indícios, talvez ain-da não significativos do ponto de vista estatístico, de que a taxa deregressão espontânea das neoplasias era muito maior em gravi-dade zero. Meio século antes, o químico alemão Otto Warburgsugerira que a oxidação fosse a causa de muitos cânceres. Derepente, o baixo consumo de oxigênio celular nas condições deimponderabilidade pareceu coisa muito atraente. Pessoas que emdécadas anteriores teriam feito uma peregrinação a um centro decuras agora clamavam por um bilhete para o espaço. No entanto,o preço era exorbitante. Quer como medicina preventiva, quercomo terapia, o vôo espacial era para uns poucos eleitos.De repente, quantias até então sem precedentes puderam serinvestidas em estações orbitais civis. Nos últimos anos do segun-do milênio, havia hotéis de repouso rudimentares a algumas cen-tenas de quilômetros de altitude. Afora as despesas, existia, éclaro, uma séria desvantagem: as progressivas lesões osteológicas
  • 206. e vasculares tornavam impossível o retorno ao campo gravita-cional da superfície da Terra. Para alguns velhos ricos, porém, issonão representava óbice de grande monta. Em troca de mais umdecênio de vida, ficavam felizes por poderem refugiar-se no céue, finalmente, morrer ali.Havia quem temesse que isso constituísse um investimentoimpensado da limitada riqueza do planeta; eram muitas as neces-sidades urgentes e as queixas justas, de pobres e desamparados,para que recursos exíguos fossem gastos com os ricos e pode-rosos. Era insensatez, diziam, permitir que uma elite emigrassepara o espaço, deixando as massas na Terra-um planeta reduzi-2 72do a feudo de senhores ausentes. Outros tinham aquilo na contade dádiva dos céus: os proprietários do planeta estavam se jun-tando em bandos e indo embora; não podiam causar-lhe tanto mallá em cima, argumentavam, como faziam aqui embaixo.Praticamente ninguém previra o principal resultado, a trans-ferência de uma intensa perspectiva planetária àqueles que po-diam realizar o máximo de bem à Terra. Passados alguns anos,restavam poucos nacionalistas em órbita terrestre. O confrontonuclear global coloca problemas concretos para os que se incli-nam à imortalidade.Havia industriais japoneses, armadores gregos, príncipesherdeiros sauditas, um ex-presidente dos Estados unidos, umex-secretário-geral do Partido Comunista da uRSS, um senhorfeudal chinés e um magnata da heroína aposentado. No Ocidente,excetuados alguns convites de natureza promocional, só existia umcritério para a residência em órbita: era preciso ter condições depagar. A clínica soviética era diferente: chamava-se estação espa-cial e constava que o ex-secretário-geral estivesse ali para "pesquisagerontológica". De modo geral, as multidões não demonstravamressentimento. Um dia, imaginavam, iriam também.Os que moravam na órbita da Terra tendiam a ser circuns-pectos, cautelosos, serenos. Suas famílias e seus servidores tinhamtraços pessoais semelhantes. Eram foco de atençào discreta porparte de outros ricos e poderosos que ainda se encontravam naTerra. Não faziam nenhum pronunciamento público, mas seuspontos de vista aos poucos influenciaram o pensamento delíderes em todo o mundo. O desmantelamento dos arsenaisnucleares pelas cinco grandes potências era uma coisa que os ve-neráveis em órbita apoiavam. Sem alarde, haviam endossado aconstrução da Máquina, devido a seu potencial para a unificaçãodo mundo. Vez por outra, organizações nacionalistas escreviam arespeito de uma vasta conspiração que estaria ocorrendo na órbi-ta da Terra, liderada por trôpegos anciãos dispostos a vender suaspátrias. Havia panfletos que passavam por ser transcriçõestaquigráficas d.e uma reunião a bordo do Matusalém a que tinham
  • 207. comparecido representantes das outras estações espaciais pri-vadas. Mostrava-se uma lista de "ações planejadas", redigidas demodo a instilar terror no coração do mais morno patriota. Os pan-273tletos eram falsos, anunciou a revista Tinaesueek, que os chamoude "Protocolos dos Sábios de Ozônio".Nos dias que precederam o lançamento, Ellie tentou passaralgum tempo - com freqüência, logo depois do alvorecer - emCocoa Beach. Haviam lhe emprestado um apartamento que davapara a praia e o Atlântico. Levava côdeas de pão para a praia e asatirava às gaivotas. Pegavam-nas no ar com eficiência, numamédia mais ou menos igual, calculou Ellie, ã de um bom jogadorde beisebol. Havia momentos em que vinte ou trinta gaivotaspairavam no ar, a apenas um metro ou dois sobre sua cabeça. Ba-tiam as asas vigorosamente para se manterem ali, com os bicosbem abertos, espantadas com o milagroso surgimento de comida.Roçavam-se umas nas outras, num movimento aparentementealeatório, mas o efeito geral era de imobilização. Ao voltar, Ellienotou uma pequena fronde de palmeira, de linhas perfeitas, naareia. Pegou-a e a levou para o apartamento, limpando cuida-dosamente a areia com os dedos.Hadden a convidara a visitá-lo em sua casa orbital, seu châ-teau no espaço. Batizara-a de MatusalEm. Pedira a Ellie que nãofalasse do convite a ninguém que não fosse do governo, devido àsua paixáo pela privacidade. Na verdade, ainda não era do co-nhecimento público que ele havia passado a residir em órhita, quese refugiara no céu. Todos os integrantes do governo a quem elapediu opiniões foram favoráveis. "Mudar de cenário vai lhe fazerbem", foi o conselho de Der Heer. A presidente colocou-se clara-mente a favor da viagem, pois de repente surgira um lugar no próxi-mo lançamento do avião espacial, o já velho sRs Intrepid. A viagemàs casas de repouso em geral era feita em veículos comerciais decarreira. Uma lançadeira não reutilizável muito maior estava pas-sando por testes finais de homologação. No entanto, a frota deaviôes espaciais ainda era o fulcro das atividades do governo dosEstados Unidos nesse campo, tanto para fins civis como para finsmilitares."É sempre o mesmo. Perdemos um bocado de pastilhasrefratárias na reentrada, e as colamos de novo antes do lança-mento seguinte", um dos astronautas-pilotos explicou a Ellie.2 74Além de boa higidez geral, nào havia requisitos especiaispara os vôos. Em geral, os lançamentos comerciais subiam cheiose voltavam vazios. Em contraste, os vôos das lançadeiras reuti-lizáveis subiam e desciam apinhados. Antes do retorno do Intre-pid, na semana anterior, ele se acoplara com a Matusalém a fim detrazer dois passageiros de volta à Terra. Ellie reconhecera seus
  • 208. nomes; um deles era projetista de sistemas de propulsào; o outro,um criobiólogo. Que teriam ido fazer na Matusalém?"A senhora vai ver", continuou o piloto. "Vai ser como cair deum tronco. Quase todo mundo gosta da sensação."Ellie gostou. Ao lado do piloto, de dois especialistas de mis-sào, de um oficial militar casmurro e de um empregado da Secre-taria do Imposto de Renda, a decolagem foi perfeita e ela sentiu aeuforia de sua primeira experiência com gravidade zero mais pro-longada do que a viagem no elevador de alta desaceleraçào doCentro Mundial de Comércio em Nova York. Uma e meia órbitadepois, acoplaram-se com a Matusalénz Daí a dois dias, o trans-porte comercial Narnia a levaria de volta.O Château - Hadden insistia em chamar a estação por essenome - girava lentamente, uma rotação a cada noventa minutos,de modo que o mesmo lado estava sempre voltado para a Terra.O estúdio de Hadden permitia um esplêndido panorama do pla-neta. Nào era um terminal de vídeo, mas uma janela transparentede verdade. Os fótons que ela via tinham sido refletidos pelospicos nevados dos Andes havia apenas uma fraçào de segundo.Exceto junto da periferia da janela, onde o trajeto oblíquo atravésda grossa chapa de polímero era maior, quase nào se notava dis-torçào.Ela conhecia muitas pessoas, até mesmo pessoas que se con-sideravam religiosas, às quais a sensação de reverência causavavergonhha. Mas só uma pessoa sem sangue nas veias, pensou ela,seria capaz de olhar por aquela janela sem sentir tal emoçào. De-viam mandar para ali jovens poetas e compositores, pintores,cineastas e pessoas profundamente religiosas que nào estivesseminteiramente escravizadas às burocracias sectárias. Essa experiên-cia podia ser facilmente transmitida ao habitante médio da Terra.Era pena que isso não tivesse sido tentado a sério. O sentimentoera... numinoso.2 75"A gente se acostuma", disse-lhe Hadden, "mas nunca secansa. De vez em quando, essa vista ainda é inspiradora."Abstêmio, ele tomava um refrigerante dietético. Ellie recusarauma bebida mais forte. O efeito do álcool em órbita devia sermuito maior, pensou."Evidentemente, sente-se falta de certas coisas... longas cami-nhadas, nadar no mar, velhos amigos que aparecem sem seremanunciados. De qualquer modo, nunca fui muito dado a essascoisas. E, como você vê, os amigos podem vir visitar-nos.""Mas a que custo!", respondeu ela."Vem sempre uma mulher visitar Yamagishi, um vizinho meuda ala ao lado. Sobe toda segunda terça-feira de cada mês, chovaou faça sol. Mais tarde vou apresentar você a ele. Que sujeito! Éum criminoso de guerra classe A... mas apenas indiciado, veja,
  • 209. nunca condenado.""Qual é a atração?", perguntou Ellie. "O senhor não acha queo mundo esteja para acabar. Que está fazendo aqui em cima?""Gosto da vista. E há algumas vantagens jurídicas."Ellie olhou para ele."Você compreende, uma pessoa em minha posição... novasinvenções, novas indústrias... está sempre à beira de violar algu-ma lei. Em geral, isso acontece porque as leis antigas não acom-panharam a nova tecnologia. Pode-se perder muito tempo comdemandas judiciais. Isso diminui a eficiência. Entretanto, tudoisto..." Hadden fez um gesto largo, indicando tanto o Châteaucomo a Terra. "...não pertence a nenhum país. O Chãteau per-tence a mim, a meu amigo Yamagishi e algumas outras pessoas,poucas. Nunca poderia haver nada de ilegal em eu receber ali-mentos e ver atendidas minhas necessidades materiais. Só porsegurança, estamos pesquisando sistemas ecológicos fechados.Não existe um tratado de extradição entre este Château e qual-quer um dos países lá debaixo. É mais... eficiente para mim ficaraqui em cima."Não quero que pense que fiz alguma coisa realmente ilegal.É que estamos fazendo tantas coisas novas que é melhor garantira segurança. Por exemplo, há pessoas que acreditam que eu te-2 76nha sabotado a Máquina, e isso quando gastei uma fortuna incal-culável, meu próprio dinheiro, tentando construií-la. E você sabeo que fizeram com Babilônia. Os investigadores do seguro achamque os mesmos responsáveis pelo incêndio de Babilônia podemter causado o estrago em Terre Haute. Parece que tenho inimigosem penca. Não entendo por quê. Acho que fiz um grande bem amuita gente. Seja como for, no final das contas é melhor eu estaraqui em cima."Mas é sobre a Máquina que eu quero conversar com você.Aquilo foi terrível... a catástrofe do tarugo de érbio no Wyoming.Fiquei realmente triste com o que aconteceu a Drumlin. Era umsujeito e tanto! E deve ter sido um choque para você. Tem certezade que não quer tomar nada?"Ellie só queria ver a Terra e escutar."Se eu não perdi o entusiasmo pela Máquina", prosseguiuHadden, "não vejo por que você perderia. É provável que estejapreocupada com a possibilidade de que nunca venha a existiruma Máquina americana, uma vez que há pessoas demais tor-cendo pelo fracasso. A presidente tem o mesmo medo. E as fábri-cas que construímos não são linhas de montagem. Estivemos pro-duzindo coisas por encomenda especial. Será caro substituir todasas peças quebradas. Entretanto, você está pensando principal-mente: talvez tudo isso não tenha sido uma boa idéia. Talvez te-nhamos sido tolos em correr tanto. Por isso, vamos repensar tudo
  • 210. com muito cuidado. Mesmo que você não esteja pensando assim,a presidente está. Mas, se não fizermos a Máquina depressa, tenhomedo de não a fazermos nunca. E há uma outra coisa: não creioque esse convite fique de pé eternamente.""É engraçado ouvir isso do senhor. É exatamente o que Vale-rian, Drumlin e eu estávamos conversando antes do acidente. Dasabotagem", corrigiu-se Ellie. "Continue, por favor.""Entenda, as pessoas religiosas... a maioria delas... pensamrealmente que esse planeta seja uma experiência. É a isso que seresumem suas crenças. Sempre há um ou outro deus se metendonas coisas, andando com mulheres de mercadores, dando tábuasem montanhas, ordenando aos pais que mutilem os filhos, ensi-nando às pessoas as palavras que podem dizer e as que nãopodem, fazendo as pessoas se sentirem culpadas por gozarem a277vida, e assim por diante. Por que os deuses não deixam as coisascomo estão? Todo esse intervencionismo cheira a incompetência.Se Deus náo queria que a mulher de Ló olhasse para trás, por quenão a fez obediente, de modo que fizesse o que lhe disse o mari-do? Ou, se Deus não tivesse feito Ló táo bobo, talvez a mulher delelhe prestasse mais atenção. Se Deus é onipotente e onisciente, porque náo fez logo o universo de maneira a ser como ele quer? Porque está sempre consertando e se queixando? Não, há uma coisaque a Bíblia deixa claro: o Deus bíblico é um industrial desleixa-do. Como não é bom de projeto, não é bom de execução. Se hou-vesse concorrência, ele estaria falido. É por isso que não acreditoque sejamos uma experiência. Poderia haver uma porção de pla-netas experimentais no universo, lugares onde deuses aprendizespõem à prova suas habilidades. É uma vergonha que Rankin e Jossnão tenham nascido num desses planetas. Mas neste planeta...Mais uma vez ele apontou para a janela. " ...não há nenhumamicrointervenção. Os deuses náo dão uma passadinha aqui paraconsertar as coisas quando metemos os pés pelas máos. Bastaolhar a história da humanidade para ficar claro que sempre vive-mos por nossa própria conta.""Até agora", disse Ellie. "Deus ex machina? É isso que estápensando? Acha que os deuses finalmente ficaram com pena denós e nos mandaram a Máquina?""É mais provável que seja Machina em deo, ou seja lá comofor, náo sei latim. Náo! Acho que não somos uma experiência.Creio que somos o meio de controle, o planeta em que ninguémestava interessado, o lugar onde ninguém intervinha. Um mundode calibração que se estraga. É isso que acontece quando eles nãointervêm. A Terra é uma aula prática para os deuses aprendizes."Se vocês errarem muito, fazem uma coisa como a Terra, dizem aeles. Mas, evidentemente, seria desperdício destruir um mundoperfeitamente íntegro. Por isso eles nos dáo uma olhadinha de vez
  • 211. em quando, só por segurança. É possível que de cada vez tragamos deuses que cometeram bobagens. Da última vez que olharam,estávamos brincando nas savanas, tentando correr mais do que osantílopes. "Muito bem, está tudo certo, disseram. "Esses sujeitos aínão vão nos dar nenhum problema. Daqui a 10 milhões de anos,a gente olha outra vez. Mas, por segurança, vamos acompanhá-278los com radiofreqüências. Então, um belo dia, soa um alarme.Uma mensagem da Terra. "O quê? Eles já têm televisão? Vamos vero que estão fazendo. Estádio olímpico. Bandeiras nacionais. Avede rapina. Adolf Hitler. Milhares de pessoas aplaudindo. " Chi!,dizem. Conhecem os sinais de perigo. Num abrir e fechar deolhos, eles nos dizem: "Ei, pessoal, chega disso. Vocês têm aí umótimo planeta. Tomem, construam esta Máquina. Eles estão preo-cupados conosco. Viram que estamos descendo morro abaixo.Acham que temos de ser consertados depressa. Aliás, o que eutambém penso. Nós temos de construir a Máquina."Ellie sabia o que Drumlín teria pensado de conversas comoaquela. Ainda que grande parte do que Hadden tinha acabado dedizer coincidisse com aquilo que ela mesma pensava, estavacansada dessas especulações sedutoras e confiantes sobre o queos veganos tinham em mente. Ela queria que o projeto continuas-se, desejava a Máquina concluída e ativada, que tivesse início onovo estágio na história da humanidade. Ainda suspeitava de suaspróprias motivações, ainda se mostrava cautelosa mesmo quandomencionavam seu nome como possível tripulante de uma Má-quina concluída. Por isso, as protelações na retomada da cons-trução traziam-lhe um benefício pessoal. Davam-lhe tempo pararefletir sobre seus problemas."Vamos jantar com Yamagishi. Você vai gostar dele. Mas esta-mos um pouco preocupados. Ele está mantendo a pressão parcialde oxigênio baixa demais ã noite.""Como assim?""Bem, quanto menor o teor de oxigênio no ar, mais se vive.Pelo menos, é o que os médicos dizem. Por isso, todos nós pas-samos a baixar a quantidade de oxigênio em nossos quartos. Dedia não se pode reduzi-lo muito abaixo de vinte por cento, senãofica-se tonto. Prejudica o funcionamento do cérebro. Mas de noite,quando se está dormindo, pode-se abaixar a pressão parcial dooxigênio. Mas é preciso cuidado. Não se pode baixá-lo demais. Ade Yamagishi tem estado em catorze por cento, pois ele quer vi-ver para sempre. Por causa disso, só fica lúcido lá pela hora doalmoço. ""Então, passei a vida inteira assim, a vinte por cento deoxigênio." Ellie riu.279"Agora ele está fazendo experiéncias com drogas nootrópi-
  • 212. cas para eliminar a tonteira. Você sabe, como o piracetam Real-mente, melhoram a memória. Não sei se tornam mesmo a pessoamais inteligente, mas dizem que sim. Por isso Yamagishi estátomando um bocado de nootrópicos, e não está respirandooxigênio suficiente à noite.""E é por isso que fica amalucado?""Amalucado? É difícil dizer. Não conheço muitos criminososde guerra classe A com 92 anos.""É por isso que toda experiência exige um grupo de con-trole", disse ela.Hadden sorriu.Mesmo na idade avançada, Yamagishi exibia o porte eretoque adquirira durante o longo tempo em que servira ao Exércitoimperial. Era um homem pequeno, inteiramente calvo, de bigo-dinho branco e uma expressão fixa e benigna no rosto.Estou aqui por causa dos quadris", explicou. "Conheço ocâncer e as expectativas de vida. Mas estou aqui por causa dosquadris. Em minha idade, os ossos se quebram com facilidade. Obarão Tsukuma morreu depois de cair de seu futon em cima deseu tatami. Foi uma quedinha de meio metro. Meio metro! E osossos dele se quebraram. Em zero g, os quadris não se quebram."A idéia parecia plausível.Apesar de algumas concessões gastronômicas, o jantar foi desurpreendente elegância. Haviam desenvolvido uma certa tec-nologia especializada para as refeições na imponderabilidade. Osutensílios de servir tinham tampas, as taças de vinho contavamcom coberturas e canudos. Alimentos como nozes ou flocos demilho eram proibidos.Yamagishi insistiu com Ellie para que provasse o caviar. Eraum dos poucos alimentos ocidentais, explicou, cujo preço deaquisição por quilo, na Terra, era superior ao custo de mandá-lopara o espaço. Era uma sorte que as ovas de caviar fossem coesas,conjecturou Ellie. Tentou imaginar milhares de ovas separadas emqueda livre, obstruindo os corredores daquele centro de geron-tologia orbital. De repente, lembrou-se de que sua mãe também280estava numa espécie de asilo, várias ordens de magnitude maismodesto do que aquele ali. Na verdade, orientando-se pelosGrandes Lagos, visíveis pela janela naquele momento, ela podiadeterminar com exatidão a localização da mãe. Ela podia perderdois dias batendo papo, em órbita, com bilionários desocupados,mas não achava quinze minutos para telefonar à mãe? Prometeua si mesma telefonar assim que voltasse a Cocoa F3each. Um comu-nicado proveniente do espaço, pensou, talvez representasse novi-dade excessiva para a clínica de repouso de Janesville, Wisconsin.Yamagishi interrompeu-lhe os pensamentos para lhe infor-mar que era o homem mais idoso a viver no espaço. Em todos os
  • 213. tempos. Até mesmo o antigo vice-premiê chinês era mais jovem.Tirou o paletó, enrolou a manga esquerda da camisa, flexionou obíceps e pediu-lhe que sentisse sua musculatura. Daí a poucodespejava detalhes vívidos sobre as meritórias campanhas bene-ficentes para as quais contribuíra com grandes somas.Ellie tentou conversar educadamente. "É muito plácido esossegado aqui. O senhor deve estar aproveitando muito bem suaaposentadoria."Havia dirigido essa observação a Yamagishi, mas foi Haddenquem respondeu."Nem sempre as coisas são tão calmas. De vez em quando háuma crise e temos de agir depressa.""Explosões solares, extremamente feias. Tornam os homensestéreis", disse Yamagishi."É verdade. Quando uma grande explosão solar é detectadapor telescópio, daí a mais ou menos três dias as partículas car-regadas atingem o Château. Por isso, os residentes permanentes,como Yamagishi-san e eu, nos refugiamos no abrigo contra tem-pestades. Muito espartano, muito confinado. Mas o escudo deradiação é eficiente. Há um pouco de radiação secundária, natu-ralmente. O caso é que todo pessoal não permanente e os visi-tantes têm de sair nesse período de três dias. Esse tipo deemergência causa transtornos à frota comercial. Às vezes temos deconvocar a NAsA ou os soviéticos para tirar pessoas. Você não fazidéia das pessoas que a gente tem de pôr para fora quando háexplosões solares... mafiosos, chefes de serviços de informações,homens e mulheres bonitas...281"Por que tenho sempre a sensação de que o sexo ocupa lugarimportante na lista de importações da Terra?", perguntou Ellie comcerta relutância."Ah, isso acontece mesmo. Há muitos motivos. A clientela, alocalização. Mas o motivo principal é zero g. Em gravidade zero,podem-se fazer aos oitenta anos coisas nunca consideradas pos-síveis aos vinte. Você devia passar férias aqui em cima... com seunamorado. Tome isso como um convite.""Noventa", disse Yamagishi."Que quer dizer?""Podem-se fazer aos noventa anos coisas com que não sesonharia aos vinte. É isso que Yamagishi-san está dizendo. É porisso que todo mundo quer vir para cá."Durante o café, Hadden voltou ao assunto da Máquina."Yamagishi-san e eu estamos associados a algumas outraspessoas. Ele é o presidente de honra das Indústrias Yamagishi.Como você sabe, são os principais empreiteiros dos testes doscomponentes da Máquina, em Hokkaido. Agora, imagine nossoproblema. Vou he dar um exemplo. Há três grandes invólucros
  • 214. esféricos, um dentro do outro. São feitos de uma liga de nióbio,gravados com desenhos esquisitos e se destinam, obviamente, agirar muito depressa em três direçôes ortogonais. Benzels, é onome que lhes dão. Você sabe tudo isso, é claro. Que aconteceráse você construir um modelo em escala dos três benzels e girá-losmuito rapidamente? Que acontece? Todos os físicos competentesacham que nada. Mas, evidentemente, ninguém fez a experiência.A experiência exata. Ou seja, ninguém sabe de verdade. Supo-nhamos que alguma coisa realmente aconteça quando a Máquinafor ativada. Vai depender da velocidade de rotação? Da com-posição dos benzels? Ou das configurações dos desenhos? Seráuma questão de escala? Por isso estivemos construindo essascoisas e fazendo-as funcionar... tanto modelos em escala comoprotótipos em escala natural. Queremos fazer girar nossa versãodos grandes benzels, os que serão ligados aos outros compo-nentes nas duas Máquinas. Imaginemos que nada aconteça. Nessecaso, desejamos adicionar novos componentes, um a um. Con-tinuaríamos a adicioná-los, num pequeno trabalho de integraçãode sistemas, e assim, talvez, chegasse um momento em que, ao282acrescentarmos um componente, nao o último, a Máquina fizessealguma coisa que nos deixasse espantados. Só estamos tentandodescohrir como a Máquina funciona. Percebe aonde quero chegar?""Está dizendo que estão montando secretamente, no Japão,uma cópia idêntica da Máquina?""Bem, não se trata, a rigor, de segredo. Estamos testando oscomponentes isolados. Ninguém disse que só podemos testar umde cada vez. Então, eis o que Yamagishi-san e eu propomos:mudamos o cronograma das experiências em Hokkaido. Faremosagora uma integração completa dos sistemas e, se nada funcíonar,faremos mais tarde o teste dos componentes isolados. De qual-quer forma, toda a verba para isso já está liberada. Achamos quese passarão meses... talvez anos.., para que o programa americanovolte aos eixos. E não acreditamos que os russos possam comple-tar a Máquina mesmo nesse prazo. A única possibilidade é oJapão. Não temos de anunciar isso imediatamente. Não temos detomar logo a decisão de ativar a Máquina. Estamos apenas tes-tando componentes,""O senhor pode tomar esse tipo de decisao por conta própria?""Ah, enquadra-se bem naquilo que chamam de nossas res-ponsabilidades delegadas. Avaliamos que dentro de mais ou me-nos seis meses poderemos chegar ao ponto em que estava a Má-quina de Wyomin. Teremos de cuidar muito mais da parte desegurança, é claro. Mas, se os componentes estiverem ok, creioque a Máquina estará ok; é meio difícil ocorrer uma sabotagemem Hokkaido. Depois, quando tudo estiver verificado e pronto,podemos perguntar ao Consórcio Mundial da Máquina se gostaria
  • 215. de fazê-la funcionar. Se a tripulação estiver disposta, aposto queo Consórcio vai concordar. Que acha, Yamagishi-san?"Yamagishi não ouvira a pergunta. Cantarolava "Queda livre",música que estava na parada de sucessos e que descrevia emdetalhes a história de uma pessoa que sucumbira à tentação emórbíta em torno da Terra. Não sabia a letra toda, explicou quandoa pergunta foi repetída.Sem se pemirbar, Hadden continuou. "Alguns componentesdevem ter sido amassados ou estragados. De qualquer forma, terãode passar pelos testes prescritos. Achei que isso não seria razãopara você fícar com medo. Em termos pessoais, quero dizer."283"Em termos pessoais? Que o faz pensar que eu irei? Ninguémme convidou, para começar. E há vários fatores novos.""É muito alta a probabilidade de que a comissão de seleção aconvide, e a presidente dará todo o apoio. Com entusiasmo. Ora,vamos", disse Hadden, sorrindo. "Quer passar a vida toda sendodeixada para trás?"Havia nuvens sobre a Escandinávia e o mar do Norte, e ocanal da Mancha estava coberto por uma névoa rendilhada, quasetransparente."A senhora vai, sim." Yamagishi estava de pé, muito teso.Dirigiu a Ellie uma mesura."Em nome dos 22 milhôes de empregados das empresas quecontrolo, fiquei encantado em conhecê-la."Ellie cochilava no cubículo de dormir que lhe haviam desti-nado. O cubículo era preso, frouxamente, a duas paredes, demodo que, se ela se mexesse durante o sono, em gravidade zero,não bateria em nenhum obstáculo. Acordou enquanto todos osdemais ainda pareciam dormir, e se apoiou numa série de pu-xadores até se encontrar diante da janela. Estavam passando sobreo hemisfério da Terra em que era noite. O planeta estava mergu-hado em trevas, e não se viam muitas luzes. Vinte minutos depois,ao alvorecer, ela decidiu que, se a convidassem, aceitaria.Hadden apareceu atrás dela, sobressaltando-a um pouco."É sensacional, admito. Faz anos que estou aqui, e ainda achosensacional. Mas não a incomoda saber que está dentro de umanave espacial? Veja, há uma experiência pela qual ninguém pas-sou ainda. Você está vestindo um traje espacial, e não há cabo deligação, nenhuma nave. Talvez o Sol esteja às suas costas e vocêse vê circundada de estrelas por todos os lados. Talvez a Terraesteja abaixo de você. Ou um outro planeta. Pessoalmente, ima-gino Saturno. E lá está você, flutuando no espaço, como seestivesse realmente integrada no cosmo. Hoje em dia os trajesespaciais dispõem de meios para manter a pessoa viva durantehoras. A nave espacial que a colocou em órbita pode ter desa-parecido há muito tempo. Talvez se encontre com você dentro de
  • 216. uma hora. Talvez não.284"E o melhor seria se a nave não voltasse. Suas últimas horas,cercada pelo espaço, por estrelas e astros. Se você tivesse umadoença incurável, ou mesmo se quisesse dar a si própria ummagnífico presente final, que poderia ser melhor do que ísso?""Está falando sério? Pretende comercializar esse... plano?""Bem, é cedo demais para isso. Talv·ez não seja esse o melhormeio de lançar a coisa. Digamos que eu esteja pensando em testesde viabilidade."Ellie resolveu que não comunícaria a Hadden sua decisão,nem ele perguntou. Mais tarde, enquanto o Narnia realizava amanobra de aproximação e acoplamento com a Matusadém, Had-den colocou-se ao lado dela."Estávamos comentando que Yamagishi é a pessoa mais ve-lha aqui. Bem, mas se estívermos falando de vida permanenteaqui... não me refiro a serventes, astronautas e bailarinas... eu soua pessoa mais jovem aqui em cima. É claro que tenho interessepessoal na resposta, sei disso, mas há uma verdadeira possibili-dade médica de que a gravidade zero me mantenha vivo duranteséculos. Vê? Estou empenhado numa experiência de imortali-dade."Ora, não estou dizendo isso para me gabar de nada. Estoufalando por uma razão prátíca. Se estamos imaginando meios deprolongar nossa vida, pense no que aquelas criaturas de Vegadevem ter feito. É provável que sejam imortais, ou quase. Eu souuma pessoa prática, e tenho pensado muito na imortalidade. Éprovável que tenha pensado mais nisso, e com maior seriedade,do que qualquer outra pessoa. E uma coisa eu digo sobre os imor-tais, com certeza: eles são muito cuidadosos. Não deixam nadaentregue à sorte. Investiram esforço demais em se tornarem imor-tais. Não sei qual é o aspecto deles, não sei o que eles querem,mas, se você algum dia chegar a vê-los, só tenho um conselhoprático a lhe dar. Uma coisa que você julgar inteiramente certa,eles hão de considerar um risco inaceitável. Se, por acaso, vocêtiver de fazer qualquer negociação lá em cima, não se esqueça doque estou lhe dizendo."28517O SONHO DAS FORMIGASA fala humana é como uma chaleira rachadaem que batemos ritmos grosseiros para os ursosdançarem, enquanto ansiamosporproduziruma música que derreta as estrelas.Gustave Flaubert, MadameBovary(1857)A teologiapopularl...] é uma vasta incongruên-
  • 217. cia, derivada da ígnorância. [...] Os deuses exis-tem porque a p°ópria natureza imprimiu umaconcepção deles nas mentes dos homens.Cícero, De natura deorum, I, 16Ellie estava arrumando o que mandaria para o Japão - apon-tamentos, fitas magnéticas e uma fronde de palmeira -, quandorecebeu um recado, comunicando que sua mâe sofrera um der-rame. Logo depois lhe foi trazida uma carta pelo serviço de men-sageiros. Era de John Staughton, e se abstinha de introduções ecortesias:Sua mãe e eu temos discutido muitas vezes as suas falhas e deficiên-cias. Sempre foi uma conversa difícil. Quando eu a defendia (e,embora você possa não acreditar, isso aconteceu muitas vezes), elame dizia que eu não passava de um joguete em suas mãos. Quan-do eu a criticava, ela me mandava cuidar da minha própria vida.Mas quero que saiba que sua relutãncia em visitá-la, durante osúltimos anos, desde que começou esse negócio de Vega, tem sidosempre motivo de tristeza para ela. Dizia às amigas naquele asilo286horroroso, para onde insistiu em ir, que em breve você a visitaria.Durante anos ela lhes disse isso. "Breve." Fazia planos para exibir afilha famosa, imaginava em que ordem lhe apresentaria as pessoas.Com toda a certeza nào lhe agrada ouvir isso, e eu próprio lheescrevo com sofrimento. Mas é para o seu próprio bem. Para ela, oseu comportamento trouxe mais dor do que qualquer outra coisa,até a morte de seu pai. Você hoje pode ser uma figuraça, com holo-gramas no mundo inteiro, mas como ser humano nào aprendeunada desde a escola secundária...Com os olhos marejados, ela começou a amassar a carta e oenvelope, mas descobriu em seu interior um pedaço de papelduro, um pedaço de holograma feito a partir de uma velhafotografia bidimensional através de uma técnica de extrapolaçãopor computador. Tinha-se uma sensação, ligeira mas satisfatória,de poder ver em torno dos cantos e ângulos. Era uma fotografiaque ela não conhecia. A mãe ainda jovem, muito bonita, sorria,com o braço sobre o omhro do pai de Ellie, que tinha a barba porfazer. Pareciam tomados de incontida felicidade. Invadida deangústia, culpa, raiva de Staugthon e um pouco de autocom-paixão, Ellíe encarou a realidade evidente de que nunca maisvoltaria a ver nenhuma das duas pessoas que estavam na fo-tografia.Sua mãe jazia imóvel na cama. Tinha uma expressão estra-nhamente neutra, que não refletia nem alegria nem tristeza. Sim-plesmente... esperava. Seu único movimento era uma piscadelaocasional. Ellie não tinha certeza de que a mãe ouvisse ou com-preendesse o que ela estava dízendo. Pensou em meios de secomunicar. A idéia surgiu em sua mente, sem que pudesse evitá-
  • 218. la: a mãe piscaría uma vez para responder sim, duas vezes paradizer não. Ou poderiam armar um encefalógrafo com um tubo deraios catódicos que a mãe pudesse ver, e ensinar-lhe a modularsuas ondas beta. Mas quem estava ali na cama era sua mâe, não aestrela Alfa da Lira, e o que se impunha ali não eram algoritmos dedecodificação, mas sentimento.Segurou a mão da anciã e conversou durante horas. Falou aesmo sobre a mâe e o pai, sobre a infância. Lembrou o tempo emque ainda aprendia a andar entre os lençóis recém-lavados, sendo287carregada na direção do céu. Falou sobre John Staughton. Des-culpou-se por muitas coisas. Chorou um pouco.Os cabelos de sua mãe estavam despenteados e, assim queencontrou uma escova, Ellie os arrumou. Examinou o rosto sul-cado e reconheceu nele sua própria fisionomia. Os olhos de suamãe, profundos e úmidos, achavam-se fixos numa distânciaincomensurável."Eu sei de onde eu vim", disse Ellie, haixinho.Quase imperceptivelmente, sua mãe balançou a cabeça deum lado para o outro, como se lamentasse todos aqueles anos emque ela e a filha tinham se mantido distantes. Ellie apertou a mãodela e teve a impressão de que a mãe fazia a mesma coisa.A vida de sua mãe não corria perigo, disseram-lhe. Se acon-tecesse alguma alteraçáo em seu estado, ligariam imediatamentepara o escritório de Ellie no Wyoming. Daí a alguns dias poderiamtransferi-la do hospital para a clínica de repouso, onde as insta-lações, garantiram-lhe, eram adequadas.Staughton parecia triste, demonstrando ter pela mãe delasentimentos que Ellie não adivinhava. Telefonaria com freqüên-cia, disse ao despedir-se.O austero saguão de mármore continha, de modo um tantoincongruente, uma estátua verdadeira - não uma holografia -representando uma mulher nua ã maneira de Praxíteles. Subiramnum elevador Otis-Hitachi, no qual a segunda língua era o inglês, ";e Ellie se viu conduzida a um salão imenso, onde muitas pessoasse curvavam sobre processadores de texto. Digitava-se umapalavra em hiragana, o alfabeto fonético japonês de carac-teres, e na tela aparecia o ideograma chinês correspondente, emkanji. Havia centenas de milhares desses ideogramas, armazena-dos nas memórias do computador, embora apenas 3 ou 4 mil bas-tassem, em geral, para a leitura de um jornal. Como muitos ideo-gramas, de sentido inteiramente diferentes, eram expressos pelamesma palavra, apareciam na tela todas as possíveis traduções emkanji, em ordem de probabilidade. O processador de texto pos-suía uma sub-rotina contextual pela qual os ideogramas possíveiseram também enfileirados de acordo com a estimativa que o com-288
  • 219. putador fazia do signifícado pretendido. Raramente errava. Numidioma que até recentemente nunca contara com uma máquinade escrever, o processador de texto estava operando uma revo-lução nas comunicações vista com algum desprazer pelos tradi-cionalistas.Na sala de conferência, sentaram-se em cadeiras baixas -evidente concessão aos gostos ocidentais -, em torno de umamesa baixa e laqueada, e o chá foi servido. De onde estava, Ellievia pela janela a cidade de Tóquio. Estava passando muíto tempodiante de janelas, pensou. O jornal era o Isahi Shimbun- Notí-cias do Sol Nascente-, e Ellie admirou que uma das repórterespolíticas fosse mulher, coisa rara nos meios de comunicação dosEstados Unidos e da União Soviética. O Japão estava empenhadonuma reavaliação nacional do papel das mulheres. Os tradicionaisprivilégios masculinos estavam cedendo lentamente, no queparecia ser uma surda guerra de rua em rua. Na véspera mesmo,o presidente de uma firma chamada Nanoeletrônica queixara-sea ela de que não existia em Tóquio uma única "menina" que ain-da soubesse dar o laço numa faixa, ou obi, Tal como aconteceracom as gravatas-borboleta de clipe metálico, um sucedâneo maissimples havia dominado o mercado. As mulheres japonesas ti-nham coisas melhores a fazer do que passar a metade de cada diadobrando e ligando faixas. A repórter vestia um austero vestido,cuja bainha chegava aos tornozelos.Por motivos de segurança, ninguém da imprensa tinha aces-so ao local, em Hokkaido, onde era testada a Máquina. Por isso,quando os membros da tripulação ou pessoas encarregadas doprojeto iam à ilha principal, Honshu, programavam rotineira-mente uma rodada de entrevistas com jornalistas japoneses e deoutros países. Como de hábito, as perguntas não variavam. Emtodo o mundo, os repórteres tinham quase a mesma atitude emrelação à Máquina, com pouquíssimas idiossincrasias nacíonais,Como ela via, depois das "decepções" nos Estados Unidos e naUnião Soviética, o fato de uma Máquina estar sendo construída noJapão? Sentia-se isolada na ilha de Hokkaido? Estava preocupadacom o fato de os componentes utilizados em Hokkaido passarempor testes não previstos na Mensagem?Antes de 1945, aquela parte da cidade fora propriedade da289Marinha imperial, e, com efeito, logo ao lado ela avistava o telha-do do Observatório Naval, cujas duas cúpulas prateadas aindaabrigavam telescópios usados para a verificação do tempo cro-nológico. Reluziam ao sol do meio-dia.Por que a Máquina incluía um dodecaedro e os três invólu-cros esféricos chamados benzels? Os jornalistas entendiam queela não soubesse. Mas o que ela achava? Ellie explicou que, numaquestão dessa natureza, seria tolice emitir uma opinião que não se
  • 220. fundamentasse em provas. Ao insistirem, ela alegou sereminúmeras as possibilidades. Se houvesse perigo real, deveriammandar robôs no lugar de pessoas, como recomendara um espe-cialista japonês em inteligência artificial? Por acaso ela levariaobjetos pessoais? Fotografias de família? Microcomputadores? Umcanivete do Exército suíço?Ellie notou dois vultos que surgiam de um alçapão no teto doobservatório próximo. Seus rostos estavam obscurecidos porviseiras. Vestiam a couraça acolchoada cinza-azulada do Japãomedieval. Brandindo cajados de madeira mais altos do que eles,curvaram-se um diante do outro, fizeram uma ligeira pausa edepois trocaram golpes durante meia hora. As respostas de Ellieaos repórteres se tornaram um tanto desatentas; ela estava hipno-tizada pelo espetáculo que se desenrolava diante dela. Ninguémmais parecia notá-lo. Os cajados deviam ser pesados, pois o com-bate cerimonial era lento, como se os guerreiros lutassem no fun-do do oceano.Ela já conhecia o dr. Lunacharski e a dra. Sukhavati muitoantes da captação da Mensagem? E o dr. Eda? O sr. Xi? Que pen-sava deles, do que haviam feito? Como era o relacionamento entreos cinco? Na verdade, ela se sentia honrada por fazer parte de umgrupo tão seleto.Que pensava ela sobre a qualidade dos componentes ja-poneses? Que poderia dizer sobre a reunião que os Cinco haviamtido com o imperador Akihito? As conversas deles com dirigentesxintoístas e budistas faziam parte de um esforço geral, por partedo projeto da Máquina, para ouvir líderes religiosos do mundointeiro antes que a Máquina fosse acionada, ou tinham sido ape-nas um gesto de cortesia para com o Japão? Porventura ela acre-ditava que a Máquina pudesse ser um cavalo de Tróia ou uma290Máquina do Juízo Final? Em todas as respostas, Ellie procurava sercortês, sucinta e não provocar controvérsias. O relações-públicasdo projeto, que a acompanhava, estava visivelmente satisfeito.Abruptamente, a entrevista terminou. Desejavam, a ela e aseus colegas, enorme sucesso, declarou o redator-chefe. Faziamvotos de que pudessem entrevistá-la novamente depois de seuregresso. Esperavam que ela visitasse o Japão muitas outras vezes.Seus anfitriões sorriram e fizeram mesuras. Os guerreirosencouraçados haviam descido pelo alçapào. Ellie viu os agentesde segurança, atentos, pela porta da sala de conferência agoraaberta. Enquanto saía, perguntou à repórter sobre as apariçôes doJapão medieval."Ah!", respondeu a moça. "São astrônomos da guardacosteira. Praticam o kendo na hora do almoço todos os dias. Pode-se acertar o relógio por eles."Xi nascera por ocasião da Longa Marcha e, ainda adolescente,
  • 221. combatera o Kuomintang durante a Revolução. Serviu como ofi-cial de informações na Coréia, terminando por chegar a umaposição de mando sobre a tecnologia estratégica chinesa. Porocasião da Revolução Cultural, no entanto, fora publicamentehumilhado e condenado a confinamento, embora mais tarde fos-se reabilitado com certa pompa.Um dos crimes de Xi, aos olhos da Guarda Vermelha, tinhasido admirar algumas das antigas virtudes confucianas, e sobre-tudo uma passagem do Grande ensinamento, que durante sécu-los todo chinês, mesmo de instrução rudimentar, soubera de cor.Fora nessa passagem, dissera Sun Yat-sen, que ele baseara seupróprio movimento nacionalista revolucionário no início doséculo xx:Quando quiseram disseminar a virtude ilustre por todo o Reino, osantigos primeiro ordenaram bem seus próprios Estados. Querendoordenar bem seus Estados, primeiro regularam suas famílias.Querendo regular suas famílias, primeiro cultivaram suas pessoas:Querendo cultivar suas pessoas, primeiro emendaram seus cora-ções. Querendo emendar seus corações, primeiro buscaram ser sin-ceros em seus pensamentos. Querendo ser sinceros em seus pen-samentos, primeiro aumentaram até onde foi possível os seus291conhecimentos. Esse aumento do conhecimento fundou-se nainvestigação das coisas.Por isso, acreditava Xi, a busca do saber era essencial ao bem-estar da China. Mas os guardas vermelhos pensavam diferente.Durante a Revolução Cultural, Xi fora posto a trabalhar numafazenda coletiva arruinada na província de Ningxia, perto daGrande Muralha, região de rica tradição muçulmana. Ali, certo diaem que arava um campo, descobriu um capacete de bronze, rica-mente ornamentado, da dinastia Han. Ao retornar à liderança, elevoltou a atenção das armas estratégicas para a arqueologia. A Re-volução Cultural tentara quebrar uma tradição cultural chinesa queostentava uma história contínua de cinco milênios. A reação de Xifoi construir pontes para o passado nacional. Cada vez mais dedi-cou atenção à escavação do subsolo da cidade funerária de Xian.Fora ali que se fizera a espetacular descoberta do exército desoldados de terracota do imperador que dera nome à própria Chi-na. Seu nome oficial era Qin Shi Huangdi, mas, devido a variaçõesde transliteração, terminara conhecido no ocidente como Chin.No século In a. C., Qin unificou o país, construiu a Grande Mura-lha e, misericordioso, decretou que, quando de sua morte, os inte-grantes de sua corte - soldados, servos e nobres -, que, pelatradição, teriam sido sepultados vivos juntamente com ele, fossemsubstituídos por modelos de terracota. O exército de argila com-punha-se de 7500 soldados, aproximadamente uma divisão. Cadaum deles tinha traços fisionômicos específicos. Percebia-se que ali
  • 222. estavam representadas pessoas de toda a China. O imperadorhavia consolidado em uma só nação muitas províncias isoladas eantagônicas. Um túmulo próximo continha o corpo, preservadoquase à perfeição, da marquesa de Tai, funcionária subalterna dacorte do imperador. A tecnologia chinesa de mumificação - dis-tinguia-se claramente a expressão severa no rosto da marquesa,talvez refinada por décadas de autoridade sobre os servos - eraimensamente superior à do antigo Egito.Qin havia simplificado a grafia, codificado as leis, construídoestradas, completado a Grande Muralha e unificado o país. Alémdisso, confiscara as armas. Embora fosse acusado de massacrarletrados que lhe criticavam os programas políticos, e de queimarlivros porque via certos conhecimentos como prejudiciais, Qin292insistia em que havia elimínado a corrupção endêmica e instituí-do a paz e a ordem. Xi lembrava-se da Revolução Cultural. Ima-ginava conciliar essas tendências conflitantes no coração de umaúnica pessoa. A arrogãncia de Qin havia alcançado proporçõesaterradoras: para punir uma montanha que o desagradara, ele amandara desnudar de vegetação e pintar de vermelho, a cor usa-da pelos criminosos condenados. Qin era grande, mas tamhémera louco. Seria possível unificar uma coleçào de naçoes diversi-ficadas e belicosas sem ser um pouco doido? Era preciso ser um poucosó para tentar, disse Xi a Ellie, rindo.Tomado de crescente fascínio, Xi tomara providências pararealizar em Xian escavações em grande escala. Aos poucos, con-venceu-se de que o próprio imperador Qín estava sepultado, per-feítamente preservado, num mausoléu próximo ao exército d.eterracota. Nas proximidades, segundo os textos antigos, tambémestava enterrado, sob grande quantidade de terra, um modelominucioso da China no ano 210 a. C., que representava em por-menores cada templo ë cada pagode do país. Os rios, ao que sedizia, eram feitos de mercúrio, e neles a barca do imperador-, emminiatura, navegava perpetuamente. Quando se descobriu que aterra em Xian estava contaminada por mercúrio, cresceu a agi-tação de Xi.Xí havia desenterrado um relato da época que descrevia umaenorme cúpula que o imperador mandara fazer para cobrïr essereino em miniatura, chamado, tal como o verdadeiro, Reino Celes-tial. Como o chinês escrito praticamente não sofrera modificaçõesem 2200 anos, ele pôde ler o relato diretamente, sem a ajuda deum especialista em lingüística. Xi ouvia diretamente, sem inter-cessão, um cronista da época de Qín. Adormecia, muitas noites,tentando visualizar a grande Via Lãctea que riscava a abóbadaceleste no mausoléu cupulado do magnífico imperador, bemcumo a noíte incendiada pelos cometas que haviam surgido,quando de seu falecimento, para lhe honrar a memória.
  • 223. A procura do mausoléu de Qin e de seu modelo do universotinha ocupado Xi durante a última década. Ainda não encontraracoisa alguma, mas sua busca empolgara a imaginação da China.Dele se dizia: "Há um bilhão de pessoas na China, mas somenteum Xi". Numa nação que aos poucos aliviava as restrições sobre293o individualismo, julgava-se que Xi estivesse exercendo umainfluência construtiva.Qin, evidentemente, ficara obcecado pela imortalidade. Ohomem que dera seu nome à mais populosa nação da Terra, ohomem que construíra o que era, na época, a maior estrutura doplaneta, receava, previsivelmente, que fosse esquecido. Por isso,providenciou a ereção de outras estruturas monumentais; apreservação ou reprodução para a posteridade dos corpos e dosrostos de seus cortesãos; a construção de sua própria tumba e domodelo do mundo, ainda não descobertos; e o envio de nu-merosas expedições ao mar Oriental, em busca do elixir da vida.Queixava-se amargamente das despesas ao despachar esses gru-pos. Uma dessas missões envolveu dezenas de juncos oceânicose uma guarnição de 3 mil rapazes e moças. Jamais regressaram, eseu paradeiro permaneceu ignorado. A poção da imortalidadenunca foi achada.Apenas cinqüenta anos depois, surgiram no Japão, derepente, o cultivo irrigado do arroz e a metalurgia do ferro-fatosque alteraram profundamente a economia japonesa e criaramuma classe de guerreiros aristocratas. Xi argumentava que o nomedo Japão em japonês refletia claramente a origem chinesa da cul-tura nipônica: a Terra do Sol Nascente. Onde seria preciso queuma pessoa estivesse, indagava Xi, para que julgasse que o Solnascia sobre o Japão? Assim, o próprio nome do jornal que Ellieacabara de visitar era, argumentava Xi, uma lembranÇa da vida eda época do imperador Qin. No entender de Ellie, comparadocom Qin, Alexandre, o Grande, parecia um colegial valentão. Pelomenos, quase isso.Se Qin estivera obcecado com a imortalidade, Xi estavaobcecado com Qin. Ellie falou-lhe sobre a visita que fizera a SolHadden em órbita da Terra, e concordaram em que, se o impe-rador Qin vivesse nos últimos anos do século xx, ele se mudariapara lâ. Ellie apresentou Xi a Hadden, através do videofone,deixando que conversassem a sós. O excelente inglês de Xi só fi-zera aperfeiçoar-se quando, recentemente, ele participara datransferência da colônia de Hong Kong para a República Popularda China. Ainda estavam conversando quando a Matusalém desa-pareceu do outro lado do mundo, e tiveram de prosseguir o diá-294logo através da rede de satélites de comunicação em órbita geos-sincrônica. Devem ter se tornado bons camaradas. Pouco depois,
  • 224. Hadden solicitou que a Ativação da Máquina fosse sincronizadade maneira a que ele estivesse sobre ela naquele momento. Que-ria Hokkaido no foco do seu telescópio, disse, quando chegassea hora."Afinal, os budistas acreditam ou não em Deus?", perguntouEllie enquanto se dirigiam ao local onde iriam jantar com o abade."Ao que parece", respondeu Vaygay, secamente, "eles julgamque o Deus deles é tão grande que nem precisa existir."Enquanto seguiam velozmente pela estrada, conversavamsobre Lltsumi, o abade do mais famoso mosteiro zen-budista doJapão. Alguns anos antes, nas cerimônias que haviam assinaladoo qüinquagésimo aniversário da destruição de Hiroxima, Utsumipronunciara um discurso que chamara a atenção de todo o pla-neta. Tinha boas ligações nos círculos políticos do Japão e serviacomo uma espécie de conselheiro espiritual do partido político nopoder, mas passava a maior parte do tempo em atividades monás-ticas e devocionais."O pai dele também foi abade de um mosteiro budista",comentou Devi Sukhavati.Ellie franziu o cenho."Não fique tão surpresa. Eles tinham permissão para se casar,como o clero da Igreja ortodoxa russa. Não é, Vaygay?""Nesse tempo eu não era nascido", respondeu ele, um tantodistraído.O restaurante situava-se num bambuzal e se chamavaUngestsu - Lua Nublada. Com efeito, havia uma lua obscurecidapor nuvens no céu vespertino. Seus anfitriões japoneses tinhamtomado medidas para que não houvesse outros comensais.Ellie eseus companheiros tiraram os sapatos e, deslizando os pés pelopiso, entraram numa pequena sala de jantar cuja janela dava paratouceiras de bambu.O abade tinha a cabeça raspada e vestia um manto negro eprateado. Saudou-os num inglês perfeito; seu chinês, Xi disse maistarde a Ellie, também era razoável. O ambiente era tranqüilizador,295a conversa, amena. Cada prato era uma pequena obra de arte,jbias comestíveis. Ellie entendeu por que se dizia que a rzouvellecuisine francesa se originava da tradição culinária japonesa. Se ocostume fosse comer de olhos vendados, ela teria ficado satisfei-ta. Se, por outro lado, os acepipes fossem exibidos apenas paraserem admirados, e nào para serem comidos, também se satis-faria. Tanto olhar como comê-los era provar um pouco das delí-cias do céu.Ellie estava sentada diante do abade e ao lado de Lunachars-ki. Outras pessoas perguntavam sobre a espécie - ou pelomenos sobre o reino - a que pertencia essa ou aquela iguaria.Entre o sushi e os coquinhos de ginkgo, a conversa passou para
  • 225. a missão."Mas porquenós nos comunicamos?", perguntou o abade."Para trocar informações", respondeu Lunacharski, que apa-rentemente dedicava toda a sua atenção aos recalcitrantes pau-zinhos."Mas por que queremos trocar informações?""Porque nos alimentamos de informações. Elas são neces-sárias à nossa sobrevivência. Sem informações, morremos."Lunacharski prestava atenção a um coquinho ginkgo quefugia a seus pauzinhos a cada vez que tentava levá-lo à boca.Baixou a cabeça para se encontrar com os pauzinhos no meio docaminho."Eu acredito", continuou o abade, "que nós nos comuni-camos por amor ou compaixão." Pegou com os dedos um de seuspróprios coquinhos e o colocou na boca."Nesse caso, o senhor pensa", perguntou Ellie, "que a Má-quina seja um instrumento de compaixão? Acredita que não hajarisco algum?""Posso comunicar-me com uma flor", continuou ele, como serespondesse. "Posso conversar com uma pedra. A senhora nãoteria nenhuma dificuldade em compreender os seres... será essa apalavra correta?... de um outro mundo.""Estou inteiramente disposto a acreditar que a pedra secomunique com o senhor", disse Lunacharski, mastigando ocoquinho de ginkgo. Seguira o exemplo do abade. "Mas não te-nho certeza de que o senhor se comunique com a pedra. Como296nos convenceria de que pode fazer isso? O mundo está cheio deenganos. Como sabe que não está iludindo a si próprio?""Ah, o ceticismo científico." O abade abriu-se num sorrisoque Ellie achou cativante; era inocente, quase pueril. "Para secomunicar com uma pedra, é preciso tornar-se muito menos...preocupado. Não se deve pensar tanto, falar tanto. Quando digoque me comunico com uma pedra, não estou falando de palavras.Os cristãos dizem: "No princípio era o Verbo. No entanto, estoufalando de uma comunicação muito anterior, muito mais funda-mental do que essa.""É só o Evangelho de são João que fala sobre o Verbo",comentou Ellie. Assim que pronunciou essas palavras, achou-sepedante. "Os evangelhos sinóticos, que são anteriores, nadadizem a respeito. Trata-se, na verdade, de um acréscimo originárioda filosofia grega. A que tipo de comunicação pré-verbal o senhorse refere?""Sua pergunta é composta de palavras. A senhora está mepedindo que use palavras para descrever o que nada tem a vercom palavras. Vejamos. Existe uma história japonesa que sechama "O sonho das formigas. Passa-se no Reino das Formigas. É
  • 226. uma história comprida, e não vou contá-la agora. Mas a sua moralé a seguinte: para compreender a linguagem das formigas, é pre-ciso tornar-se uma formiga.""A linguagem das formigas, na verdade, é uma linguagemquímica", disse Lunacharski, fitando o abade. "Elas depositam mar-cas moleculares específicas para indicar o caminho que seguirama fim de localizar seu alimento. Para compreender a linguagem dasformigas, eu preciso de um cromatógrafo de gases ou um espec-trômetro de massa. Não preciso transformar-me em formiga.""É provável que essa seja a única maneira que o senhor co-nhece de se tornar formiga", replicou o abade, sem olhar paraninguém em particular. "Diga-me uma coisa: por que as pessoasestudam os sinais deixados pelas formigas?""Bem, acho que um entomologista diria que é para entenderas formigas e sua sociedade", sugeriu Ellie. "Os cientistas sentemprazer em entender as coisas.""Isso é apenas outra maneira de dizer que sentem amor pelasformigas."29 7Ellie reprimiu um ligeiro estremecimento."Sim, mas os que liberam verbas para os entomologistasdizem outra coisa. Dizem que é para controlar o comportamentodas formigas, para fazer com que deixem uma casa que tenhaminfestado ou compreender a biologia do solo, com fins agrícolas.Essa compreensão poderia proporcionar uma alternativa aos pes-ticidas. Mas creio que o senhor poderia dizer que isso encerraalgum amor pelas formigas", conjecturou Ellie."Mas também é por interesse próprio", disse Lunacharski."Os pesticidas são um veneno para nós também.""Por que estão falando de pesticidas durante um jantar tãomaravilhoso?", disse Sukhavati, do outro lado da mesa."Haveremos de sonhar o sonho das formigas em outra opor-tunidade", disse o abade a Ellie, dirigindo-lhe novamente aquelesorriso perfeito e plácido.Voltando a calçar os sapatos, auxiliados por calçadeiras deum metro de comprimento, aproximaram-se da pequena frota deautomóveis, enquanto as criadas e a proprietária do restaurante securvavam cerimoniosamente. Ellie e Xi ficaram olhando o abadeentrar numa limusine, com alguns outros japoneses."Perguntei a ele se, já que pode comunicar-se com uma pe-dra, é capaz de se comunicar com os mortos", disse Xi."E o que ele respondeu?""Que com os mortos é fácil. Sua dificuldade é com os vivos."29818SUPERUNIFICAÇÃOUM rude mar.
  • 227. Espraiada sobre Sado,A ilia Láctea.Matsuo Bashô (1(44-1694)Talvez tivessem escolhido Hokkaido por sua reputação deindisciplina. O clima exigia técnicas de construção altamenteestranhas pelos padres japoneses, e essa ilha era também o hãbi-tat dos Aino, os aborígines peludos que ainda eram desprezadospor muitos nipônicos. O inverno ali era tão inclemente como noMinnesota ou no Wyoming. Hokkaido apresentava certos proble-mas de logística, mas era um local conveniente em caso de catás-trofe, por estar separada das outras ilhas do Japão. No entanto, demodo algum estava isolada, agora que fora concluído o túnel de51 quilômetros que a ligava a Honshu - era o mais longo túnelsubmarino do mundo.Hokkaido parecera um local seguro para a realização dostestes dos componentes da Máquina. No entanto, algumas pes-soas manifestaram preocupação a respeito da montagem daMáquina ali. Essa região, como bem comprovavam as montanhasque circundavam o canteiro, tinha sido palco de vulcanismorecente. Havia uma montanha que crescia nada menos que ummetro por dia. Até os soviéticos - a ilha de Sacalina ficava a ape-nas 43 quilômetros de distãncia, do outro lado do estreito de Soya,ou La Pérouse - haviam expressado temores com relação a essa299questão. Entretanto, perdido por um, perdido por dois. Até ondepodiam dizer, mesmo uma Máquina montada do lado oculto daLua poderia explodir a Terra quando acionada. A decisão de cons-truir a Máquina era o fato básico na avaliação dos perigos; ondeconstruí-la era uma consideração de todo secundária.No começo de julho, a Máquina estava novamente ganhandoforma. Nos Estados Unidos, ela ainda se achava envolvida em con-trovérsias políticas e sectárias; e evidentemente a Máquina soviéti-ca enfrentava sérios problemas técnicos. Em Hokkaido, porém, eminstalaçôes muito mais modestas que as do Wyoming, os tarugoshaviam sido montados e o dodecaedro, completado, embora semdivulgação pública. Os antigos pitagóricos, os primeiros a desco-brirem o dodecaedro, tinham declarado que sua própria existên-cia era um segredo, cominando penas severas para a revelação.Assim, talvez estivesse correto que aquele dodecaedro do tamanhode uma casa, quase do outro lado do mundo e 2600 anos depois,só fosse do conhecimento de umas poucas pessoas.O diretor do projeto japonês determinara alguns dias deférias para todos. A cidade mais próxima dali era Obihiro, muitosimpática e situada na confluência dos rios Yubetsu e Tokachi.Alguns foram esquiar em faixas de neve que ainda não haviamdegelado no monte Asahi; outros procuraram fontes termais,aquecendo-se com a desintegração de elementos radioativos emi-
  • 228. tidos pela explosão de uma supernova bilhões de anos antes.Alguns poucos membros do pessoal foram às corridas de Bamba,nas quais enormes cavalos de tiro arrastavam trenós com pesadoslastros por faixas paralelas a campos de cultivo. Entretanto, pen-sando numa comemoração séria, os Cinco voaram de helicópteroa Sapporo, a maior cidade da ilha de Hokkaido, a menos deduzentos quilômetros de distância.Propiciamente, chegaram em tempo para o festival Tanaba-ta. Os riscos para a segurança eram considerados pequenos, poisa Máquina em si, muito mais que aquelas cinco pessoas, é que re-presentava o êxito ou o fracasso do projeto. Náo haviam passadopor nenhum treinamento especial, além de um rigoroso estudo daMensagem, da Máquina e dos instrumentos miniaturizados quelevariam consigo. Num mundo racional, pensava Ellie, seria fácilsubstituí-los, apesar dos consideráveis problemas políticos surgi-300dos para selecionar cinco pessoas que fossem aceitas por todos osintegrantes do Consórcio Mundial da Máquina.Xi e Vaygay tinham "discussòes inacabadas", como disseram,e que só podiam ser terminadas numa mesa de saquê. Por isso,Ellie, Devi Sukhavati e Abonnema Eda viram-se guiados por seusanfitriões japoneses por uma das ruas laterais do passeio Odori,cercados por complicadas bandeirolas e lanternas, imagens defolhas, tartarugas e ogres, além de interessantes representaçõeshumorísticas de um rapaz e uma moça em trajes medievais. Entredois edifícios, estava estendida uma grande lona na qual fora pin-tado um pavão rampante.Ellie olhou para Eda, que vestia um manto de linho ondulantee bordado e trazia na cabeça um gorro rígido, e para Devi, queusava outro de seus maravilhosos sáris de seda. Sentia-se feliz. AMáquina japonesa passara por todos os testes prescritos, e foradefinida uma tripulação que não só representava - emboraimperfeitamente - a população do planeta, como se compunhade pessoas da maior qualidade, não marcadas pelos regimespolíticos de suas cinco nações. Cada uma delas era, em certo sen-tido, um rebelde.Por exemplo, Eda. Era um grande físico, o descobridor doque se chamava superunificação - uma teoria precisa e simples,que incluía como casos especiais questões que iam desde a gra-vitação até os quarks. Tratava-se de uma proeza comparãvel à deIsaac Newton ou Albert Einstein, e Eda estava sendo comparadoa ambos. Nascera na Nigéria, de família muçulmana, o que não eranada demais; entretanto, era adepto de uma facção islâmicapouco ortodoxa, chamada Ahmadiyah, que englobava os sufistas.Os sufitas, explicara ele depois da noite com o abade Utsumi,estavam para o Islã assim como o zen para o budismo. AAhmadiyah proclamava "uma jihad da pena, não da espada".
  • 229. A despeito de seus modos serenos, na verdade humildes, Edaera veemente adversário do conceito muçulmano mais conven-cional de jihad- guerra santa - e defendia uma vigorosa e livretroca de idéias. Nisso ele era motivo de embaraço para grandeparte do Islã conservador, e alguns países islâmicos se opuserama que ele integrasse a tripulação da Máquina. E não estavam so-zinhos. Um negro laureado com o prêmio Nobel - e que era, vez301por outra, descrito como a pessoa mais inteligente da Terra -parecia ser demais para alguns que haviam mascarado seuracismo com concessões às convenções sociais. Por ocasião davisita que Eda fizera a Tyrone Free, quatro anos antes, notara-se um acentuado aumento do orgulho entre os negros ameri-canos, surgindo um novo modelo para os jovens. Eda fazia virà tona o que havia de pior nos racistas e de melhor em todos osdemais."O tempo necessário para se praticar a física é um luxo", eledisse a Ellie. "Há muitas pessoas que seríam capazes do mesmo setivessem as mesmas oportunidades. No entanto, se você tem debater as ruas atrás de comida, não dispõe de tempo suficiente paraa física. Eu tenho a obrigação de melhorar as condições de vidados jovens cientistas em meu país."À medida que, gradualmente, se tornava um herói nacionalna Nigéria, ele se manifestava cada vez mais sobre a corrupçào,sobre o sentido injusto das prerrogativas, sobre a importância dahonestidade na ciência e em todos os demais setores, sobre a pos-sível grandeza de uma nação como a Nigéria. Seu país tinha a mes-ma população dos Estados Unidos nos anos 20, dizia. Era rico emrecursos naturais, e suas muitas culturas constituíam um fator po-sitivo. Se a Nigéria fosse capaz de superar seus problemas, argu-mentava, seria um farol para o resto do mundo. Embora se incli-nasse para o sossego e o isolamento em tudo o mais, com relaçãoa essas coisas Eda se mostrava eloqüente. Muitos nigerianosjovens - muçulmanos, cristãos e animistas -, mas não só eles,levavam a sério a visão de Eda.Dos muitos traços notáveis de Eda, talvez o que mais cha-masse a atenção fosse a sua modéstia. Raramente opinava. Asrespostas que dava à maioria das perguntas diretas eram lacôni-cas. Somente em suas obras - ou em suas conversas, depois quese passava a conhecé-lo bem - é que se tinha um vislumbre daprofundidade de suas idéias. Em meio a toda a especúlação sobrea Mensagem e a Máquina, ou sobre o que aconteceria depois desua ativação, Eda fizera um único comentário: em Moçambique,segundo se diz, os macacos não falam, pois sabem que, se pro-nunciarem uma única palavra, aparecerá algum homem que osporá a trabalhar.302
  • 230. Num grupo tão loquaz, era estranho que houvesse alguémtão taciturno quanto Eda. Como muitas outras pessoas, Ellieprestava atenção mesmo às palavras mais simples que ele dizia.Eda descrevia como "erros idiotas" sua versão anterior, só emparte bem-sucedida, da superunificação. Estava na casa dos trin-ta anos e era, como Ellie e Devi haviam comentado em particular,dono de um magnetismo devastador. Como Ellie sabia, era bemcasado, com uma única mulher; no momento, ela e os filhosachavam-se em Lagos.uma barraca feita de mudas de bambu plantadas para taisocasiões estava enfeitada, enguirlandada e, na verdade, recober-ta de milhares de fitas de papel colorido. Figuras de homens e mu-lheres aumentavam a estranha folhagem. O festival Tanabata ce-lebra o amor. A história central era mostrada em cartazes enormese também representada num palco ao ar livre: duas estrelasestavam apaixonadas uma pela outra, mas separadas pela ViaLáctea. Somente uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mêsdo calendário lunar, podiam os amantes encontrar-se - desdeque não chovesse. Ellie ergueu os olhos para o azul cristalinodaquele céu alpino e desejou felicidades aos enamorados. Omoço-estrela, rezava a lenda, era uma espécie de vaqueiro japo-nês, e representavam-no pela estrela anã A7, Altair. A donzela erauma tecelà, representada por Vega. A Ellie pareceu estranho queVega ocupasse posição tão central num festival japonês poucosmeses antes da Ativação da Máquina. Entretanto, estudando umnúmero suficiente de culturas, é provável que se encontremlendas interessantes sobre todas as estrelas brilhantes do céu. Alenda era de origem chinesa e fora mencionada por Xi quandoEllie o conhecera, anos antes, na primeira reunião do ConsórcioMundial da Mensagem, em Paris.Na maioria das grandes cidades, o festival Tanabata estavamorrendo. Os casamentos arranjados tinham deixado de ser anorma, e a angústia dos amantes apartados já não feria uma notatão dolorida quanto no passado. Em alguns lugares, porém -Sapporo, Sendai e outras cidades -, o festival se tornava maispopular a cada ano. Em Sapporo, tinha pungência especial, devi-do à desaprovação ainda generalizada aos casamentos entre ainose japoneses. Havia na i