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REPORTAGENS_Guache Marques

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Algumas reportagens sobre o artista baiano Guache Marques.

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  • 1. Guache Marques ENTREVISTAS Correio da Bahia - 2003 Portal Cyberartes - 2005 Canal Assembléia - 2011
  • 2. DEPOIMENTO PARA CATÁLOGO | SALVADOR 450 ANOSGuache MarquesNascido em Feira de Santana, Salvador foi a cidade que escolhi para morar,fascinado por sua beleza geográfica, seus encantos e seus aspectos culturais.Desde o tempo da Escola de Belas Artes até hoje, são 35 anos dedicados à arte eaos prazeres de uma capital que acolhe bem a todos aqueles que nela buscaminspiração. Aqui se respira africanidade e, assim como muitos outros artistas,reconheço o alcance universal dessa cultura. Por isso, na fase atual, o meutrabalho tem se voltado para a interpretação dos signos afro, ressaltando o seulado mágico-simbólico. A intenção é ir além da simples representação, procurandopassar nas pinturas atuais, de texturas e cores vibrantes, toda a aura de magia emistério que me servem de inspiração, numa leitura contemporânea.Copyright by Guache MarquesREPORTAGENS, ENTREVISTASagosto de 2011
  • 3. ENTREVISTASCorreio da Bahia - 2003Portal Cyberartes - 2005Canal Assembléia - 2011
  • 4. Entrevista para o Correio da Bahia Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA) “AFRICAE | 2003” EXPOSIÇÃO ITINERANTE Projeto ARTE/SOFITEL da Galeria Prova do Artista Salvador Bahia Hotel Sofitel Salvador Hotel Sofitel Rio de Janeiro Hotel Sofitel Costa do SauípeJustino - O que você vai mostrar nesta exposição?Guache Marques - Nesta mostra individual preparei 20 novas pinturas, em diversosformatos tendo como tema auto-sugerido a influência africana na arte e na cultura baiana.Denominei “AFRICAE” que significa o termo genitivo de África-mãe. São signos, emblemase ferramentas de orixás estilizados, trabalhados com cores vibrantes evocando os ritosafro e sua magia. Uma exposição que remete à ancestralidade e suas interlocuções comas diferentes épocas e movimentos, do tradicional ao contemporâneo. Revisito assim osagrado e o profano, os contatos entre Brasil e África.Desde 1994 que venho fazendo um trabalho voltado para esta temática com váriasexposições realizadas daí o convite da Galeria PROVA DO ARTISTA para realizá-la comoparte do Projeto Arte Sofitel desenvolvido pela mesma. Será realizada no dia 18 de marçode 2005, sexta-feira, no HOTEL SOFITEL / SALVADOR às 19 horas e ficará todo o mês demarço. A mesma exposição seguirá para o SOFITEL do Rio de Janeiro com mais algunstrabalhos com data prevista para abertura em 15 de junho de 2005 e, posteriormente, seráexposta em Costa do Sauípe também no Hotel Sofitel.
  • 5. Justino - Como surgiram essas influências africanas no seu trabalho?Guache Marques - Naturalmente. Através da observação das obras de mestres que sededicavam ao tema, no período que frequentei a Escola de Belas Artes da UFBa comoaluno; da experiência como professor das oficinas do MAM ao fazer litogravuras em que jáera clara essa abordagem, e também pelo fato de ser morador de uma cidade, em suamaioria de descendência negra, onde essa cultura é bastante difundida e valorizada.Sempre me identifiquei com a Bahia, desde o ingresso no curso da EBA e essa identidadesempre acompanhou a minha obra. Creio serem estas algumas das razões que foramsuficientes para buscar essa referência na minha pintura. Assim como assinalou em umtexto sobre meu trabalho o poeta e crítico de arte Claudius Portugal quando diz que:“Guache reinterpreta uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar emnossas vidas, quanto mais em nosso imaginário”. Penso mesmo que “vivendo numacidade como Salvador onde a presença da cultura e da etnia africana é encontrada emtoda esquina em suas danças, ritos, cores e magia, traduzida numa arte de símbolos esignos vigorosa como é a nossa, eu não poderia deixar de me tocar com a abrangênciadessa observação no meu imaginário”. Creio que todo artista baiano, consciente dessarealidade e sintonizado com o seu tempo, é tocado por esse cotidiano. É, a partir dessaligação, atento aos costumes e cultura de um povo e com olhos pra enxergar o mundo apartir da sua própria aldeia, que o artista se torna universal na sua busca.Olhando um pouco para trás, encontro em trabalhos de outras fases os elementos quevieram dar na interpretação contemporânea dessa simbologia. Já fiz em desenhos,xilogravuras e litogravuras, como aluno e depois como professor das Oficinas de Arte emSérie do MAMBa na década de 80, trabalhos com essa temática. Mesmo as figuras dosmeus primeiros desenhos a pastel e lápis na Escola de Belas Artes da Ufba apontavampara a necessidade de fazer uma releitura contemporânea dos signos e emblemas dessaafricanidade dispersos aqui e ali na minha obra. O que faço é observar o cotidiano ao meuredor e transpor para as pinturas atuais esse material “coletado”.Justino - Todos os trabalhos foram feitos especificamente para esta exposição?Guache Marques – Não. Por questões de adaptação ao espaço da mostra, vou tambémexpor trabalhos de grandes formatos que fizeram parte da sala especial no ConjuntoCultural da Caixa por ocasião do V Mercado Cultural em dezembro de 2003. Essestrabalhos, em seu conjunto, foram premiados pela UNESCO com o Prêmio de Fomentodas Artes, criado para premiar novos artistas na América Latina.
  • 6. Justino - Como é a experiência de tratar de um tema tão explorado e na maioria dasvezes, de forma equivocada?Guache Marques – Embora tenha me dedicado a esse trabalho já há algum tempo, meincomoda a idéia de ser estigmatizado apenas por essa poética afro, justamente por issoque você diz: de ser um tema bastante explorado, pois já passei por outras fases.Mas defendo aqueles que dela se aproximam assim como tenho feito. As pessoasdesconhecem que existe uma tradição e, como assinalou o saudoso poeta Ildásio Tavaresnum texto sobre meu trabalho: “...cumpre conhecer os seus signos”. Temos visto grandesartistas se apropriarem do tema e outros o banalizarem com leituras equivocadas. Atémesmo, folclóricas. Felizmente são poucos e estes se preocupam apenas em fazertrabalhos pra turista ver e comprar. Mas, convenhamos, em todo tema acontecem essasdiluições, sempre em nome de qualquer coisa, menos da arte. Até mesmo as instalaçõesmodernas se ressentem desse equívoco. Vemos nos salões e bienais por aí aforaarremedos de arte feitos em nome da contemporaneidade. Um prosaico alfinete fincado naparede e lá está a grande obra, escolhida entre centenas de outras a querer nos dizer quenão passamos de meros e passivos espectadores, estupefactos com os caminhos doespetáculo e da banalização que a arte tem tomado nos últimos tempos. Uma lástima eum retrocesso quando se diz que qualquer um pode ser artista. Janela escancarada praum bando que não sabe nada e atira a esmo, aproveitando a porra-louquice do momento.Todo mundo agora é videomaker, com resultados pífios. Felizmente, como toda regra temexceções, vemos nesses mesmos salões alguns artistas baianos sobressaírem-seprovando que o que importa mesmo é a “excelência” daquilo que se faz. Em outroperíodo, tive uma preocupação social com os desígnios do homem contemporâneo, suasvicissitudes, em desenhos e gravuras das décadas de 70 e 80, mas, esta fase passoumomentaneamente dando lugar à pintura.Penso com isso que nada é definitivo e, futuramente, posso me voltar para novosquestionamentos, outras poéticas.Justino - No seu trabalho a cor sempre foi muito predominante. Nestas últimas obras,parece que você está exercendo alguma restrição à grande profusão de cores. Isso éuma coisa consciente, proposital?Guache Marques – A cor para mim é vibração e no meu trabalho já é quase uma “marca”junto com a textura cavada no gesso que consigo com a utilização de diversos materiaiscomo goivas, esponjas, cabos do próprio pincel, tudo com o intuito de conseguir texturas.Na técnica em acrílica que realizo, com aplicação de massa acrílica, pigmentos e veladurassucessivas de tinta, busco uma proximidade com o tema da exposição, e isto me deixouinteiramente à vontade para usar cores fortes. Mas “maneirei” um pouco e usei uma quasemonocromia com predominância de amarelos e ocres. A intenção é limpar mais o trabalhono futuro, aproximar mais, dar um ‘close’. Como dizem os críticos: arte é síntese.
  • 7. Série Arquétipos e Arquetípicos. Um olhar sobre as idiosincrasias humanas, 1982Lápis grafite, nanquim, lápis de cor e tinta acrílica sobre papel fotográfico “N” Dimensões da foto original: 70 x 90 cm
  • 8. Justino - O que é mais importante passar para o público: uma simbologia ou a vibraçãode um colorido que remete às origens africanas?Guache Marques – As duas coisas adquirem, a meu ver, o mesmo peso. Como vocêmesmo diz: o colorido intenso remete à nossa matriz de origem africana, mas, o que,realmente, me atrai é traduzir através da forma, a estilização dessa simbologia como fez omestre Rubem Valentim, guardando-se aí a enorme distância que nos separa, é claro.Essa é, modestamente, a minha busca. Cor e forma se misturam e daí é que nasce o signo,cavado à exaustão nos relevos da pintura.O crítico de arte e artista plástico Caius Marcellus, é esclarecedor quando fala sobre estessignos na minha obra: “É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados –estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza que preservamprontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados,não mais atrelados ao contexto original do qual foram arrancados. Do símbolo emotivo sóvestígios subsistem: a abstração os esteriliza; dir-se-ia que tal símbolo é o objeto a serconsumido, e então a operação pictórica consiste em fazê-lo recuar”.Portanto, cor e forma caminham de mãos dadas nessa minha pintura. Uma não viveria sem aoutra nessa exposição e juntas, dão o toque de magia e mistério tão próprias das nossasmanifestações religiosas e populares.Justino - Na verdade as pessoas reduzem a África a alguns poucos símbolos de assimila-ção mais fácil ou a figuras humanas caracterizadas como orixás. Você esteve preocupadoem buscar um conhecimento mais profundo nesse continente tão cheio de contradições?Guache Marques – Tal é a importância dentro do contexto artístico brasileiro da arte africana,que se criou recentemente o Museu Afro-Brasileiro em São Paulo, com curadoria do artistaplástico baiano Emanoel Araújo, para mostrar e catalogar a infinidade de peças que formamum vasto acervo para futuras gerações e aqui, na Bahia, temos vários museus que seocupam em mostrar a nossa descendência cultural e religiosa. Temos a Casa do Benin, aCasa de Angola, o Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira – MUNCAB, Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, enfim.Dentro de toda a iconografia e simbologia da arte africana temos a representação de várioselementos. O artista tem apenas que se inspirar e a partir deste conteúdo elaborar a sua obraúnica. Se assim não fosse, seria difícil termos a maravilhosa síntese emblemática de umRubem Valentim ou a força criativa das esculturas monumentais dos Exus de Mário Cravoem Pituaçu, a magnífica abordagem ritualística do tema em Mestre Didi, a excelência técnicade um Juarez Paraiso, e ainda o Emanoel Araujo, só para citar apenas os maiores.Nessa mostra continuo fazendo os signos e ferramentas de orixás estilizadas de outrasmostras, onde se respira africanidade e baianidade, reconhecendo assim o alcance universaldessa cultura, e entendendo que todo artista que aspira desvendar a autêntica natureza dascoisas tem que buscar as suas raízes.
  • 9. Justino - A figura humana não passa mais pelo seu trabalho?Guache Marques – Nessa fase, até agora, não senti a necessidade de usar a figurahumana. Posso até pensar nessa possibilidade futuramente o que é perfeitamente viável.Mesmo porque sempre usei a figura humana em outras fases e numa delas cheguei aextrapolar para estereótipos e simulacros da figura, numa abstração figurativa, através dodesenho esboçado a partir da observação fortuita da fotografia da silhuetas de peixessecos, encontrados nas feiras livres. Tudo para passar aquilo que me predispunha a fazerna época que era dar uma visão distorcida do ser humano, revelando os seus arquétipos,num mundo competitivo e desigual com uma clara inspiração Baconiana.Justino - Você costuma dar nomes a cada obra ou prefere fazer uma referência aoconjunto?Guache Marques – Para esta exposição dei títulos a cada obra, porém acho melhor colo-car um título da série no conjunto de obras, dar um título à exposição, dar uma “cara” paraa produção daquele período. Creio que ajuda a quem vê a obra a fazer uma leitura. Masnão é uma necessidade. A obra de arte tem seus próprios mecanismos de se fazer valerpela estética, pela poética e pela forma do que está ali realizado para fruição do especta-dor. E é a partir do próprio conhecimento de quem vê que é estabelecida essa interação.Justino - Você, um dos artistas expoentes da geração 70, como vê esse pessoal nosdias atuais. Parece que a grande parte anda meio sumida?Guache Marques – Interessante a vida. “Cada um no seu cada qual” como diriam alguns.Os artistas são por natureza arredios e adoram viver isolados com a sua arte. Acho queacontece com todos e com os artistas da chamada geração 70, não seria diferente. Cadaum está no seu atelier fazendo sua arte. Tenho acompanhado a evolução de alguns quepermanecem intrépidos na sua busca por uma arte que enalteça a Bahia e a projete nocenário artístico brasileiro. E também me alegra o fato de que isto aconteça com as novasgerações em sua busca por entender um mundo cada vez mais complexo, sempre com apreocupação com o contemporâneo.
  • 10. Entrevista para o Portal Cyberartes Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA)Como é o seu processo criativo? Alguns artistas fazem esboços seguidos, cada vezmais elaborados, antes de partirem para o trabalho final. Outros simplesmente fazemtudo de uma só vez. Como acontece com você?Guache Marques – Atualmente faço croquis imediatos, alguns esboços em papel, ou utilizoprogramas de computador como o Photoshop e parto para fazer o trabalho já com umabase do que pretendo. A experiência adquirida nos possibilita agir dessa maneira. Daínasce o projeto do trabalho seja ele desenho, pintura ou até mesmo escultura e instalação.Agora, do ponto de vista do estilo, do conteúdo, essas coisas, creio que a obra de todoartista deve-se a uma volta às suas origens, e toda a influência que teve ao seu redor. Aíestá localizada a fonte de inspiração que norteará o trabalho daqueles que se dispuserema essa busca. Comigo aconteceu mais ou menos dessa forma. O meu trabalho desde otempo em que ingressei na Escola de Belas Artes para fazer o curso de Artes Plásticas naUniversidade Federal da Bahia, primou pela execução de um desenho que já me acom-panhava desde pequeno quando fazia histórias em quadrinhos e desenhava alguns super-heróis. Na escola aprimorei a minha técnica e aprendi como utilizar o desenho de formaprofissional. Fiz realismo fantástico nos diversos desenhos a bico de pena em nanquimilustrando livros de poesia e desenhos a pastel seco com tema social. Depois me interesseipela gravura chegando a ser professor das Oficinas de Arte em Série do Museu de ArteModerna da Bahia na década de 80 e atualmente me dedico à pintura acrílica sobre tela.Na época da escola, o realismo fantástico e o surrealismo me serviram como fonte deinspiração pra traduzir aquilo que eu via e já fazia parte do meu imaginário. Com o tempoessas preocupações com o estilo foram se pulverizando e dando lugar a uma observaçãomais comedida do universo artístico, tendo a escola, através de alguns dos seus professo-res, exercido, a princípio, uma grande influência que mais tarde viria a ser dissipada comoutras informações adquiridas.
  • 11. Você trabalha com sua arte todos os dias? Trabalha somente quando tem vontade,quando acontece inspiração ou sente a obrigação de produzir?Guache Marques – Todos os dias é claro, e sempre buscando a inspiração! Essa coisa desó trabalhar quando tem vontade (sic!) é para os políticos corruptos de Brasília! Encaro otrabalho artístico como outro qualquer e, aliás, só acredito no artista que pense e executecotidianamente o seu trabalho mantendo essa disciplina com a sua arte. O exercício diáriolhe dará experiência para desenvolver aquilo que pretende cada vez mais e melhor, atentoà própria evolução da arte e sua contemporaneidade.Toda a minha produção, a princípio, está à venda mesmo porque vivo do que faço, masacontece de ficar algumas vezes com um ou outro trabalho que mais me toca, o filho maisdileto. Porém, no site, no blog e nos catálogos que fiz para o portal www.calameo.org, asobras que mostro neles compreendem várias fases e já foram adquiridas, quase todas, porgalerias ou colecionadores. Só estão lá no site como registro da minha produção.Como foi o início? É artista desde criança? Como foi a decisão de que iria ser artista?Guache Marques – Optei por artes plásticas desde cedo vendo exposições em museus daminha cidade, Feira de Santana, no interior da Bahia. Desde o inicio desenhava cartazes,histórias em quadrinhos e os próprios colegas me pediam sempre para desenhar retratos eoutras coisas. Comecei também muito cedo a aprender a disciplina do desenho numescritório de engenharia e arquitetura a desenhar plantas de casa numa época em que nãohavia o AutoCAD (programa que hoje faz isso. A tal moleza de hoje em dia!). Era tudo namão e com esse aprendizado o traçado do meu desenho já apontava para algumasquestões que, mais tarde viriam a aparecer em minhas obras, ou seja, uma preocupaçãoem compor geometricamente o espaço da obra. Como sou canhoto, penei para me adap-tar a alguns instrumentos como ‘aranha’ para normografar plantas, réguas, pranchetaspois tudo era fabricado para destros.Quanto à decisão mesmo de ser artista foi de supetão. Estava até certa altura dos meusestudos em dúvida se seria arquiteto (por causa da grana que acreditava ser maior) e artesplásticas (por acreditar que só através dela o homem pode interagir com o mundo deforma sensível e apontar caminhos). Claro que deu artes plásticas e fiquei com os resquí-cios da minha atividade como desenhista arquitetônico, que foi aportar no designergráfico. Fico feliz que seja assim porque hoje me sinto mais preparado para entender osconceitos estéticos que norteiam qualquer obra de arte seja ela desenho, gravura, pintura,escultura ou mesmo instalações, pois estudei com afinco e essa “régua e compasso” temsido de grande utilidade. Porisso, verifico hoje um caos no ensino e isto abrange tambémas artes plásticas. A formação é primordial para que se entenda o que está por vir.Hoje, é artista atirando a esmo pra todo lado pra ver se cola sem saber o princípio denada. E os críticos tecendo elogios a essa aventura tresloucada, a esse espetáculo banal.
  • 12. Como você está encarando sua vida como artista hoje? Você é artista por inteiro ouisso ocupa só as horas vagas?Guache Marques – Exponho regularmente e tenho o respeito e a admiração da crítica e dosartistas pelo que tenho feito. A esta altura, com mais de 30 anos de atividades artísticas,tenho uma carreira na qual constam exposições na Europa (Paris e Londres), na China(Macau) e na América do Sul (Buenos Ayres). Recentemente fiz exposição individual emSalvador e no Rio de Janeiro pelo projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova do Artista no HotelSofitel. Conquistei no V Mercado Cultural (evento bienal organizado pelo Instituto ViaMagia / Salvador) o prêmio de Fomento às Artes concedido pela UNESCO para a AméricaLatina na categoria Artes Plásticas. Possuo trabalhos em coleções particulares na Europae Estados Unidos. Já fui professor de litogravura e xilogravura nas Oficinas de Arte emSérie do MAM / Bahia; conto com centenas de coletivas e várias individuais no meucurrículo, enfim, creio que estas realizações, embora poucas, me realizam pois o artistaprecisa deste reconhecimento pra poder “tocar” a sua obra sempre em busca de uma arteque aponte para novos caminhos. Também participei de júri em salões da FundaçãoCultural do Estado da Bahia e Prêmio Braskem de Artes em Salvador.Acontece que também sou designer gráfico da TVE/Irdeb em Salvador e divido o meutempo entre essa atividade e a artística propriamente dita. Como designer crio marcas,logotipos, cartazes, folders, enfim uma outra vertente do ato da criação artística. Aindabem que essas duas atividades interagem convertendo-se numa única preocupaçãoartística.
  • 13. Qual é a fixação? Muitos artistas têm fixação por longos períodos ou pela vida inteira,mesmo quando as fases vão se sucedendo. Às vezes é um tema, às vezes é uma cor,às vezes é um tipo de rabisco que está sempre presente. Existe isso?Guache Marques - Consigo distinguir a textura extremamente pessoal que utilizo, como umelemento presente em quase todas as pinturas. Pra dizer a verdade existe, na medida emque realizo já há bastante tempo, trabalhos numa técnica mista na qual utilizo massaacrílica, gesso acrílico e busco texturas através de procedimentos diversos. O trabalho serealiza a partir desta integração de vários materiais que fazem às vezes de ponta secaabrindo traços e formas na massa acrílica antes da secagem: goivas, pregos, cabos depincéis, etc, que juntos à pesquisa de outras maneiras de elaborar a obra, dão o toquefinal do trabalho contemporâneo que busco.Tenho atualmente um tema que desenvolvo já há algum tempo que é o tema afro. Váriosartistas brasileiros se debruçam ou debruçaram sobre este tema e cada um, à suamaneira, faz um trabalho onde as nossas referências afro-descendentes são lembradas.É um tema vasto. Alguns signos, emblemas, ferramentas de orixás estão presentes naminha obra atual. Estilizo e busco novas formas plásticas de representar esses signos emminha pintura.Devo também salientar que o meu trabalho passou por algumas fases que vieram darnesta pesquisa afro. Antes havia uma preocupação mais com o realismo fantástico dadécada de 70, posteriormente um enfoque social por conta dessa época vivida, um tempoonde as liberdades eram cerceadas e o artista encontrava apenas no seu trabalho umaforma de gritar.O que você gostaria que as pessoas que olham o seu trabalho soubessem sobre a suapessoa.Guache Marques - Não sei se o que faço passa ao observador a pessoa simples que sou.Penso que sou particularmente altruísta. Gosto de ajudar de alguma maneira as pessoasque de mim se aproximam. A rigor isto não está “dito” no trabalho. É da minha personali-dade e a linguagem artística se ocupa de outras verdades, outras estéticas.Este é um assunto realmente interessante: vida e obra deveriam interagir para um bomentendimento do que o artista pretende com a sua arte. Temos exemplos os mais variadosde uma correlação amistosa entre a obra e o artista nas artes plásticas brasileiras. Vemosem Iberê Camargo, por exemplo, um grande artista de temperamento irascível e umapintura abstrata agressiva de gestos e cores que corresponde a essa personalidade. Masesta é uma observação isolada. Não procuro associar a obra ao temperamento dos artis-tas. Prefiro ver apenas a obra e tento conseguir dela só a leitura pertinente às questõesintrínsecas da arte. Mas os exemplos dessa interação, obra e personalidade são vários nahistória da arte e o gênio Van Gogh encarna seu exemplo mais profundo.
  • 14. Como é a vida? Filhos? Família? Como é o cotidiano?Guache Marques - Levo uma vida relativamente simples. Trabalho cotidianamente naTVE/Bahia como designer gráfico e faço arte, articulando meu tempo entre essas duasatividades. Moro com a minha esposa e companheira há três anos. Ela é analista desistemas e eu artista e designer. Assim, tenho um pé na informática, o que faz das nossasconversas sempre um aprendizado a mais. As artes plásticas na verdade é o que ocupamais o meu pensamento no dia a dia e a busca é interminável por novas formas de agir epensar arte.Filhos, claro! Tenho uma menina maravilhosa de dois aninhos que me ajuda a ver o sentidoda vida e tudo mais com suas peripécias, perguntas e doce sabedoria.Quais endereços devemos divulgar? E-mail, página, telefone, etc.Guache Marques - Tenho um site que está sendo feito num escritório de desenvolvimentode sites e tão logo esteja pronto divulgo o endereço. Enquanto isso não acontece,mantenho na internet três endereços que dão uma boa visão daquilo que faço. São eles:www.guache.blogger.com.br (blog com fotos, trabalhos de várias fases - desenhos a pastelseco, bicos de pena, gravuras, foto-desenhos e pinturas, links para museus e galeriasimportantes, além de curiosidades sobre arte, e espaço para comentários dos internautas);www.flickr.net/photos/guachemarques (vários trabalhos postados cotidianamente, fotospessoais, álbuns e textos) e www.calameo.org (portal de Portugal que disponibiliza espaçopara o artista colocar catálogos com fotos, quadros e textos, monografias, ensaios, etc).No Calameo estão seis catálogos sobre a minha obra, currículo, exposições e textoscríticos.Alguma coisa curiosa para ser contada?Guache Marques - Nenhum fato ou procedimento curioso. Não considero mania e simdisciplina e profissionalismo o fato de gostar de ter o atelier sempre limpo, com as tintas eoutros materiais sempre arrumados por questão de espaço pra trabalhar. Só sei trabalharassim. Tenho de estar bem com a minha cabeça livre das preocupações para poder meconcentrar melhor no trabalho. O artista é, também, um visionário.
  • 15. Série Ilustração para livro de histórias afro Arte Digital (infogravura)
  • 16. Existiram fases nítidas na carreira?Guache Marques - Creio que sim, embora o estudo da obra do artista seja uma tarefa paraos críticos de arte. Mas, consigo “ver” até aqui, no meu trabalho, cinco momentos oufases que se interligam. Todo artista possui características que vão acompanhá-lo em todaa sua carreira, independente das fases. Antes e durante o tempo que cursei artes naEBA/UFBA, realizei desenhos a nanquim em bicos de pena num período em que estavaem voga o realismo fantástico e Darcílio Lima, um cearense que tinha um trabalhofantástico e morava na Europa, foi uma das minhas primeiras inspirações. Fiz tambémdesenhos a pastel seco e lápis de cor com ênfase num trabalho voltado para o social, seulado inusitado. Costumo dizer que o que vi durante o período da ditadura foi determinantepara mim e vários outros artistas, daí a conotação política no início. Uma coisa da qual nãopoderíamos nos desvencilhar assim tão fácil. Vivíamos um período de cerceamento dasliberdades e isto, nos afetava de alguma maneira. Na década de 80 fiz gravuras comoaluno e, mais tarde, como professor das Oficinas de Arte em Série do MAM/BA. Emmeados da década de 80, elaborei um trabalho diferente, que evocava um discurso sobrea natureza humana, fruto de uma pesquisa feita a partir da observação casual de fotogra-fias, onde estavam estampadas a silhueta de vários peixes ressecados, desses que sãovendidos nas feiras livres, chamados popularmente de “mirorós”, ou ainda “trespassadosde dor”. Um fato corriqueiro mas que deve ser mencionado aqui é que este trabalhooriginou-se a partir da observação de uma foto desses peixes ‘secos’, jogada fora, já semutilidade, pelo amigo e fotógrafo franco-brasileiro, Renato Assis. Ao vê-la, como que numestalo, ocorreu-me a idéia de trabalhar com lápis grafite, nanquim e tinta acrílica, dando-lhe novas conotações pois já possuia conhecimento do método que Salvador Dali denomi-nou de “paranóico crítico”, que consiste em ver imagens por associação, onde elas nãoaparentam estar, nascendo daí uma configuração que remetia a um discurso áspero sobrea condição humana. A utilização da distorção da figura animal para falar da insipidezhumana é recorrente em minha obra e, acredito, na de alguns surrealistas. Estas fotosremetiam para uma observação de arquétipos do homem que, uma vez trabalhadas comnanquim, lápis grafite e tinta acrílica na própria foto em papel “N”, alterando-a, davam umavisão distorcida do ser humano, revelando o seu lado esconso, animal, num mundo cadavez mais competitivo e desigual.A pintura que veio a fazer parte do meu trabalho no início da década de 90, com o inter-esse cada vez maior por novos materiais e novos procedimentos. As pinturas desseperíodo se revestem de um estudo da temática afro-brasileira onde magia e mistério meservem como fontes constantes de inspiração. Como disse, estas “fases” interligam-seatravés de detalhes que foram sendo aproveitados, de uma técnica para outra.Enfim, várias técnicas foram assimiladas ao longo da minha carreira e, ultimamente, tenhome interessado pela arte digital, fazendo uma releitura de instantes da minha obra.
  • 17. O que o torna diferente dos outros artistas? Como você descreve a sua arte?Guache Marques - Não me acho diferente. Tenho um estilo e uma forma de ser ede ver as coisas por um ângulo bem peculiar. A origem, a família, o estudo etoda a vivência de uma pessoa a tornam única em meio a todas as outras ecreio que minha história de vida está calcada nesses princípios. Mas o surreal-ismo e o realismo fantástico presentes nos primeiros trabalhos e também asfoto-desenhos, diferenciavam meu trabalho dos demais no período da EBA,justamente por isso. Observar e transmutar, de acordo com esse legado e suaconsequente realização.Já o meu trabalho atual descrevo como pintura abstrato-figurativa, se é quedevemos rotular hoje em dia com algum ismo a produção da arte que alguémfaz. Os trabalhos dessa fase em pintura são executados em tinta acrílica, gessoe massa acrílica de maneira muito pessoal, obtendo texturas na própria tela eestas texturas é que dão forma aos signos, tendo como tema a influênciaafricana na arte e na cultura brasileira. São signos, símbolos, emblemas e ferra-mentas de orixás estilizadas em pinturas de cores vibrantes evocando os ritosafro e sua magia. Trabalhos que remetem à ancestralidade e suas interlocuções.Busco referências nos signos da cultura afro-baiana e desenvolvo esta fase como objetivo de ir às suas raízes para daí trazer a inspiração de todo esse imag-inário, ressaltando, através da forma e da cor, o seu lado mágico-simbólico.Por fim, gostaria de ressaltar que “vivendo numa cidade como Salvador, onde apresença da cultura e da etnia africana é encontrada em cada esquina, em suasdanças, ritos, cores e magia, não poderia deixar de me tocar com a abrangênciadessa observação no meu imaginário de artista sintonizado com a minha épocae sua contemporaneidade”. Como diria o poeta e antropólogo Ildásio Tavares,“...existe uma Tradição, cumpre conhecer seus signos.”Quais os planos para o futuro, como artista?Guache Marques - A intenção de todo ser humano comprometido com aquiloque faz é superar adversidades e, no caso dos artistas, “tocar” sua obra visandosempre um mundo melhor e mais digno no qual os homens se entendam. A“arma” (no bom sentido, claro!) que tenho para tornar possível isto, é através domeu comprometimento como artista e da minha arte. Aliás, acredito que só naarte seja possível essa compreensão mútua entre os homens. Nela encontro aforça necessária para uma vida digna. Ao mesmo tempo em que estou atento aevolução recente das artes, as instalações, performances enfim, acompanho omeu tempo como artista antenado e penso que a arte deve evoluir sempre. Poisacredito que o artista é também, um repórter do seu tempo.
  • 18. Trecho de entrevista concedida ao crítico de arte Claudius Portugal para o portal Canal Assembléia Por Claudius Portugal www.canalassembleia.ba.gov.br“Pra falar do meu encontro com a arte, tenho que me reportar à infância na cidade deFeira de Santana, onde nasci em 54 e estudei até 73. Esta cidade tão pródiga em nomesquando se fala de artes plásticas e literatura. Lá temos o Grupo Hera, liderado durantemuitos anos pelo grande poeta Antonio Brasileiro, hoje membro da Academia de Letras daBahia e outros grandes e premiados poetas como o Roberval Pereyr e até mesmo o JuraciDórea que além de ser um dos maiores artistas locais, também escreve. Nas Artes Plásti-cas temos Raimundo Oliveira, Caetano Dias, Juraci Dórea, César Romero, Gil Mário.Vivi minha infância e adolescência lá, filho de torneiro mecânico e mãe dona de casa.Lembro, que meus primeiros contatos com o desenho se deram na escola, onde erarequisitado pelas professoras para ilustrar aulas de Biologia e Geografia com desenhos agiz de mapas, células, abelhas, personagens da história do Brasil, etc., no quadro negro e,também de desenhar com gravetos na areia após a chuva, lances de futebol, goleiros emgrandes dimensões. Não tenho registros dessa atividade, apenas na memória. Assimcomo das revistas em quadrinhos que fazia pra vender.Fui acometido de uma polio aos três meses no braço direito e essa circunstância me fezaprender a usar a mão esquerda o que passei a fazer com bastante praticidade. A rigor,não escreveria com a esquerda, mas, como existia o “dom” do desenho, ao longo dotempo houve a adaptação.Aos 15 anos aconteceu um fato que mudou o rumo da família. Perdi meu pai num acidentena fábrica de algodão onde ele trabalhava. Foram anos duros pra mim. Aos 16 na 2a. sériede ginásio, ao ver os meus cadernos de desenho e matemática feitos de forma primorosa,a minha professora de Matemática Irma Amorim, me encaminhou ao grande e saudosoarquiteto Amélio Amorim, um dos maiores que Feira já teve. Lá aprendi os rudimentos deuma atividade que a rigor, não viria a seguir. A de desenhar plantas de casa. A régua e ocompasso quem me deu foi este arquiteto, com quem trabalhei por quatro anos em seuescritório. Mas não seguiria a carreira de arquiteto. A arte já estava instaurada no meupensamento e após alguma indecisão entre ser arquiteto e artista plástico, fiquei com asegunda opção por motivos da paixão, da intuição, da percepção, enfim.Costumava visitar o Museu de Artes após as aulas e via com volúpia a coleção dos ingle-ses, doada à Feira por Assis Chateaubriand, numa passagem pela cidade. Coleção impor-tante que hoje integra o acervo do Museu Regional de Arte-MRA/CUCA.
  • 19. ESCOLA DE BELAS ARTESAo ingressar Na Escola de Belas Artes, encontrei-me com os mestres Juarez Paraiso,Riolan Coutinho e Jamison Pedra que foram, a princípio, minhas referências nos primeirostrabalhos a bico de pena e desenho a pastel seco, notadamente Juarez de quem poralgum tempo me vi influenciado pela sua incrível arte, seu desenho, sua gravura e pintura,vigorosos de quem, até hoje, sou admirador.As minhas criações desse período da escola se revestem das preocupações do que sefazia em outros centros e o desenho a nanquim se tornou a minha primeira manifestaçãoartística com ênfase no realismo fantástico em voga na época através de Darcílio Lima, umcearense que vivia na Europa.Desse tempo guardo na memória os bons momentos da escola, a companhia dos colegasZivé Giudice, Florival Oliveira, Vauluizo Bezerra, Murilo, Bel Borba, Araripe, dentre outros.Consegui o primeiro lugar no Salão Universitário Nordestino de Artes Visuais no TCA,concorrendo com esses grandes nomes que hoje aí estão. São desse período os desen-hos a pastel seco, que aconteceram pela necessidade de acrescentar cor aquilo que fazia.AS FASES E ESTILOPassei por algumas técnicas até chegar às pinturas e info-gravuras atuais.Bicos de pena ou desenhos a nanquimQuando entrei na escola carregava comigo a bagagem do desenho. E aprimorei osdesenhos a lápis evoluindo para o nanquim. Naquela época o desenho tinha mais valor eum artista costumava ser respeitado por essa técnica e seu desenvolvimento e não porperipécias do espetáculo como se vê hoje.Pastel seco e lápis Caran DacheUm necessidade de colocar cor nos trabalhos. Os trabalhos dessa fase mostram umenvolvimento social e as figuras desenhadas esmurram o ar como que num grito deliberdade. Meu grito interior, por assim dizer. Nasceram trabalhos que manifestavam aminha inquietação ao que acontecia no mundo e no cotidiano das pessoas. Essaobservação me parece ter origem nas opções políticas do meu pai e meu tio, queconversavam muito sobre esses assuntos, tendo o meu tio, inclusive, sendo morto peladitadura, o que na época, me chocou bastante.GravurasSão do período como aluno e logo após como Professor Orientador das Oficinas deExpressão Plástica do MAMBa. Aí fiz algumas litogravuras e xilos que enalteciam umabusca pelo afro. Mais tarde elementos dessa observação apareciam nas pinturas com ossignos.Foto-desenhosUma pesquisa insólita e solitária. Ao ver uma foto do fotógrafo e amigo Renato Assis, hojena França, morando em Paris, jogada fora por ele mesmo, num balde de lixo, perguntei-lhese a foto não mais lhe interessava e com resposta positiva, a levei pra casa, ainda
  • 20. machucada e desenhei a lápis. Aprofundei essa pesquisa com idas à Feira de São Joa-quim junto com o próprio fotógrafo Renato para comprar e ali mesmo fotografar os peixes“mirorós” ou “trespassados de dor” - nome interessante que costumavam dar a essespeixes - vendidos em “enfieiras” para serem usados salgados como tira-gosto. Vinaquelas fotos a possibilidade de fazer um discurso que despisse o homem das suasvicissitudes, que evocasse a sua contraditória condição humana, do homem como arqué-tipo de si mesmo. Com nanquim, lápis de cor e tinta acrílica alterava a aparência primordialdessas fotos de peixes. A crítica de arte Matilde Mattos chegou a escrever um artigofalando sobre a utilização por parte de alguns artistas da figura e da silhueta de animaispara daí elaborar um discurso sobre a realidade “distorcida” do homem moderno. Essetrabalho nasce e se desenvolve num período de grande admiração de pelas obras incríveise distorcidas do grande artista Francis Bacon.PinturasComo que num moto continuum, a busca por novas técnicas e formas de ver, sentir einterpretar o mundo ao redor, encontrei na pintura, digamos assim, um refúgio, um localonde aportar o resultado das minhas idas e vindas; minhas inquietações. O resultado éuma pintura cavada no gesso que utiliza de diversos materiais, veladuras de tinta acrílica,inclusive lixa, para realizar um trabalho focado, a princípio, no afro e na simbologiaindígena. Nossas riquezas culturais. Aqui, os vestígios de incisões feitas no gesso e namassa acrílica ainda mole, resistem e encetam texturas que são a matéria primordial dessaatividade. A partir daí, vemos um colocar e tirar de tintas e traços, enfim, até o resultadofinal.Arte DigitalA Arte Digital, Computacional, ou mesmo Info-gravuras, são um capricho meu de revisitaralguns trabalhos que fiz passando por diversas técnicas. É uma técnica relativamente novae a faço por puro deleite. Pretendo numa próxima exposição mostrar alguns resultados.
  • 21. NOTAS DE AUTORES DIVERSOSSobre a ArteA arte é um conceito mutante entre a razão e a intuição, inquietante na maioria das vezes,que espelha e reflete o mundo em seus desdobramentos e complexidades.Arte é construída de história. As múltiplas leituras que se possam fazer do universoartístico, aguçam nossos sentidos e iluminam nossa compreensão do mundo.A completude de um trabalho se dá quando alguém o vê. Daí nasce uma relação que temmuito a ver com o grau de conhecimento e informação de quem a observa. Senão odiscurso artístico cai no vazio da ignorância.A PoéticaCada artista possui a sua poética, e é a partir dela que se comunica com o mundo e seusamplos questionamentos. É a explicitação dos seus sentimentos perante o mundo contem-porâneo que interage primeiro consigo próprio e depois com os outros. Portanto o interiorde cada artista é que o torna ímpar perante a arte que se faz no mundo. Ou seja, a artereflete o significado da nossa existência, do espírito e da condição humanas.Texto de Ronaldo Brito“O raciocínio do artista atravessa o gesto criador inaugural para seguir o percursoproblemático do mundo. O resultado, este sim, vai constituir a obra de arte, o resíduo detodas as mediações: uma carga de conflitos, construções e desconstruções.A MídiaTodos viramos mídia. Tudo virou mídia. E mídia é um meio condutor. De conteúdo humano.O que é fantástico. Enquanto no século XV precisava-se de décadas para um pequenosalto na indústria gráfica, hoje as revoluções são por minuto. A velocidade está na alma donovo século, e precisamos nos adequar a ela. A única forma de ter esse caos criativo comoaliado é entrar no fluxo e inovar. Se você pensa que sabe tudo, está obsoleto”.Arte ConceitualAssim como em todas as outras áreas artísticas, as Artes Plásticas vivem constantementeem um impasse ético e estético. Assistimos diariamente a uma verdadeira guerra entre omau gosto e o que é estética e eticamente admissível para quem possui um certo bomsenso. Com o movimento de Arte Conceitual que se originou no final da década de 60,passamos a ter contato com uma nova estética, onde a beleza plástica cedia lugar à ideia.Essa nova estética já havia sido antecipada com brilhantismo - numa tentativa de rompercom os dogmas da pura representação - por artistas como Marcel Duchamp, Alberto Burri,Antonio Tápies, entre outros. Ganhou fôlego ao longo das ultimas três décadas e até hojesomos brindados com obras que, em nome do conceito, utiliza-se de materiais como lixo,insetos, carne crua, cadáveres de animais em decomposição e toda sorte de bizarrices, atéreproduções. Um verdadeiro festival do espetáculo da banalidade que virou as artesultimamente. E assim continua.
  • 22. guache marques | currículoGuache Marques é natural de Feira de Santana (janeiro de 1954).Desde o início na EBA (Escola de Belas Artes da UFBA) em 1974 com os desenhos a nanquim e pastel seco, até aspinturas e arte digital atuais passando, ainda, pelas gravuras e fotos-desenho nas oficinas do MAM nos anos 80, temdesenvolvido, um trabalho voltado para o entendimento do homem, seus desígnios, suas vicissitudes, suas crenças e mitos.Tem elaborado em suas pinturas um discurso que hoje apresenta acentuadas preocupações com a nossa identidademestiça e nossa cultura de tradições e contemporaneidade evocando as raízes de um cotidiano que ele mesmo vivenciaatravés da releitura de signos da cultura afro e indígena, onde magia e mistério lhe servem como fontes constantes deinspiração.Ultimamente dedicando-se à arte digital, além da pintura e do desenho, Guache tem diversificado ainda mais a sua atuaçãonas artes plásticas. Já transitou com desenvoltura por diversas técnicas como os desenhos a nanquim e pastel seco dosanos 70, com premiações no Gabinete Português de Leitura em Salvador (1º prêmio em desenho) em 1975 e em 1978 no ISalão Universitário de Artes Visuais no TCA (1º prêmio de aquisição em desenho); assim como na década de 80 com asfotos-desenho e gravuras nas Oficinas do MAM; e também as premiadas pinturas dos anos 90 com o prêmio de Fomento àsArtes concedido pela UNESCO em 2003 no Mercado Cultural com sala especial no Conjunto Cultural da Caixa. Recebeuainda, prêmios em instalações no Encontro de arte da FUNCISA (Fundação Cidade de Salvador) em 1976 e Bienal doRecôncavo da Fundação Danneman, em co-autoria, em 1991. A Arte Digital chega pra inserir sua obra numa nova mídia ecompletar o elenco de novas técnicas, demonstrando assim, as preocupações do artista com o seu tempo.Consta no seu currículo, individuais na Galeria GAFFES em Feira com desenhos em 1974, na Galeria ACBEU com pinturasem 1998 e 2002, no MAC em Feira de Santana em 2008 com pinturas e arte digital e no Projeto Arte/Sofitel da Galeria Provado Artista em 2004/Salvador, 2005/Rio de Janeiro e 2006/Costa do Sauípe com pinturas e arte digital, além de dezenas decoletivas em Salvador, Buenos Ayres, Coritiba, Rio de Janeiro, Macau (China) e Paris.Participou ainda de diversas exposições; no Museu de Arte da Bahia - Geração 70 / Salão de Artes Visuais e Tropicália noMAMBa/ coletiva em Buenos Aires durante a Semana de Intercâmbio Cultural Brasil-Argentina / coletiva pelo projeto ArtsPlastiques d"aujourd"hui em Paris-França / pelo projeto Arte Arte Salvador 450 anos no MAM, Macau/China, Porto/Portugal,Curitiba e Museu da Cidade em Salvador / coletiva Brazilians On The Move Exhibition em Londres na Galeria Tavid / expoBahian Artists Exposition - W. K. Kellogg Fundation no ICBA Salvador / expo coletiva e acervo Faraimará - Homenagem aos70 Anos de Mãe Stela - llé Axé Opô Afonjá / Projeto de Revitalização do Parque Histórico de Cabaceiras - Museu CastroAlves - Muritiba/BA / Arte Comestível em Salvador e Feira de Santana / expo coletiva 2334 no Casarão do Pelô / Circuitodas Artes.Realizou diversos painéis coletivos em Salvador, destacando-se o da Biblioteca Central da UFBA, Secretaria de Administra-ção no Centro Administrativo, Escola Polivalente do Cabula, Artistas em Defesa do Parque São Bartolomeu, ProjetoNatureza Viva - Dia Mundial do Meio Ambiente, além de doações para campanhas em prol da Irmandade da Boa Morte emCachoeira, pela preservação da Ararinha Azul, em defesa do Parque São Bartolomeu, em homenagem aos 70 anos de MãeStela do Ilê Axé Opô Afonjá.Possui quadros em acervo do MAMBa (Museu de Arte Moderna da Bahia), MAB (Museu de Arte da Bahia), Museu de CastroAlves em Muritiba, ACBEU (Associação Cultural Brasil Estados Unidos), Faculdade de Geologia - Pavilhão de Aulas daUFBA, Gabinete Português de Leitura, Museu Regional de Feira de Santana/MRA/CUCA, Museu de ArteContemporânea/MAC em Feira, Pinacoteca do CDL Clube dos Dirigentes Lojistas – Feira de Santana/BA. Utilizando astécnicas de bico de pena e pastel seco, fez ilustrações para a Revista Exu (publicação da Fundação Casa de Jorge Amado),Revista da Bahia, livro de contos “Dona Cici, A Contadora de Histórias, alem de diversos livros de poesia. Como DesignerGráfico, criou logomarcas, cartazes e folders para várias instituições.Fez parte da comissão julgadora do IV Salão Regional de Artes Plásticas em Valença pela Fundação Cultural do Estado daBahia em 2004 e do Prêmio Braskem de Cultura e Arte em 2007. Designer Gráfico do Irdeb/TVE Bahia.
  • 23. resumo | alguns textos críticos“ A impressão do conjunto é de que o artista, não obstante a serenidade da pessoa, habita fantástico mundo de uma civilização tribal em permanente festa.Pois a profusão de cores fortes é característica dominante em sua obra, no que revela um equilíbrio admirável.”Gláucia Lemos, 2011 | Crítica de Arte (pós graduação UFBa) | Escritora ( Academia de Letras da Bahia e União Brasileira de Escritores/SP)“ É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados – estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza quepreservam prontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados, não mais atrelados ao contexto original do qualforam arrancados. Do símbolo emotivo só vestígios subsistem: a abstração os esteriliza.”Caius Marcellus, 2010 | Artista Plástico, Musicista“ Uma trajetória histórica e um artista que sabe lidar com a matéria plástica.”Aldo Tripodi, 2005 | Crítico de Arte, Poeta, Ensaísta“ Nos trabalhos atuais de Guache Marques, a figura propriamente dita, desapareceu, deixando um grafismo, realizado de forma pessoal, no qualtransparece a simbologia do misticismo baiano. As cores estão cada vez mais vibrantes e diversificadas e o apuro técnico segue o seu ritmo cadavez mais atraente.”Justino Marinho, 2004 | Artista Plástico | Crítico de Arte"... nossa relação com sua arte deve atravessar a visceralidade de sua expressão... que chega hoje a um abstracionismo/figurativo com o referencialnos signos afro-brasileiros, sejam religiosos ou profanos, reinterpretando uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar em nossasvidas, quanto mais em nosso imaginário”.Claudius Portugal, 2002 | Poeta, Ensaísta e Crítico de Arte“ Nas composições que estrutura dentro do espaço de cada tela, não é a forma explícita dos signos que revelam o tema... Seus trabalhos desta sérierevelam o que é real para ele na nossa cultura: a força da fé e do rito que paira entre o sensual e o espiritual, o sincretismo religioso que nos leva aver em torno das formas monumentais e icônicas, uma auréola sacra que tanto envolve o peji quanto o santuário”.Matilde Matos, 2002 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A.“... a sua linguagem registra impressões, seu olhar sobre o real, o cotidiano. Trata-se de uma grande riqueza artística, razão pela qual a CâmaraMunicipal de Salvador registra votos de louvor ao pintor e reconhecimento ao seu talento que tanto honra os soteropolitanos.Javier Alfaya, 1998 | Presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer na Câmara Municipal de Salvador" Guache, por detrás de sua aparente linearidade e economia, aponta para um dos traços mais marcantes do pós-moderno, que é o compromissodialético com a raiz."Ildásio Tavares, 1998 | Poeta e Crítico de Arte“ Seus trabalhos perderam muito da suavidade cromática, em que jà era evidente a prioridade ao mundo interior do artista. Mas quem pode sersuave face a nossa controvertida realidade? São pinturas fortes e originais, sugerindo uma fusão fortuita do comportamento natural com aselvageria psicológica.”Matilde Matos, 1988 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A.” Sua obra foge ao discurso fácil do homem feliz. Antes, sem rodeios, mostra o seu lado mais esconso e vil - aquilo que nos constrange. Com umapurado domínio técnico, trabalhando com pastel e tinta acrílica, o artista vai nos dando conta da despersonalização a que o poder temsubmetido o homem.”Washington Queiroz, 1986 | Poeta e Antropólogo Social“ Guache Marques despe o homem de seus valores morais, tirando-o do pedestal da escala zoológica e discursa amplamente sobre o seu lado burlesco...mostrando toda sua crueza, em todos os jogos que a raça humana se propõe a jogar e sustenta a análise da competição desenfreada do homem,contra si próprio.”Kássia Maria, 1985 | Jornalista
  • 24. referências bibliográficasRevista Veracidade__________________________________________________________________Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (SEDHAM)Salvador/Ba - Ano 6 No. 10 - Dezembro de 2010 - págs 97 a 110Livro 50 Anos de Arte na Bahia - Matilde Matos__________________________________________Dezembro de 2010 - págs 196, 197, 242 e 243Revista Viver Bahia_________________________________________________________________Revista de Turismo da Bahia - Ano I, No. 6 - Fevereiro de 2008 - págs 32 e 33Arte/Arte Salvador 450 Anos_________________________________________________________Catálogo com texto - págs 104 e 105Catálogo com Obras do Acervo do ACBEU_____ ________________________________________Salvador/Bahia - 2003 - págs 96 e 97Pinacoteca da CDL_________________________________________________________________Centro de Dirigentes Logistas em Feira de Santana - págs 38, 39, 40 e 41Revista da ADEMI/BA_______________________ ________________________________________Associação de Emp. do Mercado Imobiliário da Bahia - Ano 4 No. 23 - 2005 - págs 66 e 67Correio da Bahia___________________________________________________________________Caderno Folha da Bahia - Entrevista de 08 de março de 2005Livro/Catálogo 100 Artistas Plásticos da Bahia__________________________________________Galeria Prova do Artista - Patrocinio COPENE - pág. 59Revista Dendê de Cultura e Arte______________ ________________________________________Nº 7 - págs. 20 e 21Jornal Soterópolis__________________________________________________________________Ano 1 No. 4 - pág. 4
  • 25. CONTATOS Fones: 55 71 9936 6264 | 55 71 3116 7431 EMAILS guachemarques@hotmail.com guachemarques@yahoo.com.br guachemarques@gmail.com ENDEREÇOS NA WEBhttp://www.canalassembleia.ba.gov.br/DetalhesVideo.aspx?ProgramacaoID=2006 entrevista de 42 minutos, concedida a Claudius Portugal para o Portal Canal Assembléia com o depoimento de vários artistas sobre artes e seus questionamentos. www.guache.blogger.com.br blogsite com textos, links para museus e galerias e obras de todas as fases do artista. http://www.cyberartes.com.br/artigo/?i=582&m=44 página do artista no CIBERARTES, site sobre artes plásticas http://www.expoart.com.br/guachemarques/ página do artista no EXPOART, site com ensaios, críticas, links e obras de diversos artistas. http://www.facebook.com/home.php#!/Guachemarques página do artista com textos, links variados, álbuns e curiosidades. http://www.flickr.com/photos/guachemarques/ página do artista no site do Yahoo com fotos e álbuns compartilhados. http://www.arteatual.net/art-guache.htmpágina do artista no site ARTE ATUAL. Obras, biografia e links para vários museus e galerias. http://pt.calameo.com/read/0003755181c2a08d3f74a página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de pintura. http://pt.calameo.com/read/0003755182b94555c9f53 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Arte Digital. http://pt.calameo.com/read/000375518f5ddf5e3ea36 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Foto-desenhos. http://pt.calameo.com/read/0003755180d27a83ce6ff página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Gravuras. http://pt.calameo.com/read/00037551898daec6d64bapágina do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Pastel Seco. http://pt.calameo.com/read/000375518767cf3106a39 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Nanquim.