Reflexões sobre os desafios da pós graduação

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  • 1. Bernardete Angelina GattiReflexão sobre os desafios da pós-graduação:novas perspectivas sociais, conhecimento epoderBernardete Angelina GattiFundação Carlos Chagas e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação Introdução esperadas nos anos vindouros. Análises estas que se- jam realizadas por diferentes fontes e com perspecti- O momento pelo qual passa o sistema de pós-gra- vas mais críticas, no sentido construtor que tem a ver-duação no Brasil, neste início dos anos 2000, é inte- dadeira crítica: aquela que é capaz de trazer novosressante e merecedor de atenções por parte de diferen- fundamentos e dinâmica para a estrutura e o funciona-tes segmentos sociais. Observadores mais aguçados mento desses cursos; aquela capaz de trazer visõestêm percebido que, diante dos desafios históricos a en- diversificadas que possam criar embates e busca defrentar, a pós-graduação não pode ser mais assunto consensos ampliados socialmente.apenas do círculo restrito das universidades, ou ape- Não é possível mais desconsiderar, nas discus-nas do olhar de “pares” – o que cria uma perspectiva sões sobre a pós-graduação, o fato de que o momentoendógena, em geral pouco renovadora. Os vários de- histórico hoje mostra diferenças visíveis em relaçãosafios que hoje se colocam à pós-graduação dizem res- ao momento histórico em que os primeiros programaspeito a questões sociais mais amplas, que transcen- foram implementados e tiveram seus primeiros desen-dem os muros do ensino superior. Não que as volvimentos nas décadas de 1970 e inícios dos de anosnecessidades qualitativas deste ensino e da pesquisa 1980. Naquele momento os cursos de pós-graduaçãonão sejam grandes e muito importantes. Mas, novas – mestrados e doutorados – foram criados, apoiados equestões vêm sendo trazidas no bojo da história social sustentados em seu desenvolvimento sob um certoque viemos construindo nos últimos quarenta anos. modelo e vocação não discutidos amplamente, mas Diante do quadro sociocultural com que nos de- gestados por setores da burocracia estatal em consen-frontamos hoje, e as perspectivas de humanidade que so com algumas lideranças acadêmicas, e, por istocomeçamos a descortinar, o sistema de pós-graduação mesmo, um modelo voltado ao desenvolvimentismo ecarece de análises quanto às suas finalidades e, por- à formação de quadros para a pesquisa e para as uni-tanto, quanto a qualidades relevantes a serem deles versidades, dentro de uma certa concepção sobre ciên-108 Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18
  • 2. Reflexão sobre os desafios da pós-graduaçãocia, sobre seu papel e os das tecnologias e sua produ- rior no país, que culmina com a ampla reforma univer-ção/reprodução. sitária implantada a partir de 1968. Seu escopo é a Mestrados e doutorados em nosso país origina- modernização do ensino superior nos quadros do pro-ram-se então, não do desenvolvimento da pesquisa jeto de desenvolvimento econômico adotado” (Durham,científica nas universidades ou outras instituições, mas 1996, p.11) Visando superar a estrutura tradicionalde uma política deliberada de organismos estatais, no vigente no ensino superior, as mudanças, levadas a efei-final da década de 1960 e inícios de 1970. No ensino to na estrutura e currículos nas instituições atuantessuperior, à época, pouca pesquisa se desenvolvia, vez nesse nível, e a introdução dos mestrados e doutora-que sua vocação era dirigida sobretudo à formação de dos buscavam a integração da pesquisa dentro dessasprofissionais liberais. As universidades nasceram da instituições. Esses esforços tiveram alguns desdobra-agregação de cursos e pouquíssimas tinham a pesqui- mentos positivos. Resultados importantes nos quadrossa como parte integrante do trabalho de seus docentes. institucionais e nos horizontes tanto da vida científicaA grande expansão havida no ensino superior, no iní- como nas áreas tecnológicas no país foram decorren-cio dos anos de 1970, trouxe também a improvisação tes dessa política. Mas, esses resultados, sem dúvida,de professores, sem formação especializada e em pes- ficaram vinculados a poucas instituições e regiões, sequisa, os quais vieram a atuar em instituições com ins- considerarmos a expansão demográfica do país, o vo-talações também improvisadas, que levavam ao ensi- lume do ensino superior e a demanda potencial de for-no superior a idéia tradicional de que para esse ensino mação de professores para atuar neste nível de ensino,bastam as salas de aula e professores com algum ba- e as necessidades de desenvolvimento de variadas áreascharelado. Estamos falando de apenas vinte ou trinta científicas. A concentração do “conhecimento” em re-anos atrás e os traços dessa situação ainda estão pre- lativamente poucos grupos foi notória. Sobre esta ques-sentes em grande parcela dos cursos de nível superior. tão, extremamente importante, voltaremos a falarA precariedade de recursos, para este ensino, naquele adiante.período, é mostrada em vários estudos, ressaltando- A integração da pesquisa como parte da vida uni-se, por exemplo, o estado miserável das bibliotecas, versitária, como processo induzido, via mestrados eem especial a não disponibilidade de periódicos cien- doutorados, acaba por criar uma vinculação excessivatíficos. Nestas condições, também a pesquisa vai ser entre a pesquisa e a pós-graduação na maioria das ins-induzida através da política de criação e apoio aos tituições, quando o desejável seria um espalhamentocursos de mestrado e doutorado, que passam a ser es- das atividades de investigação científica dentro de todatimulados e financiados em sua implementação em al- a vida acadêmica. O que se assistiu na maioria dasgumas universidades que apresentavam maior solidez instituições foi à concentração das atividades de pes-institucional. Verbas substanciais de diferentes origens quisa na pós-graduação, sendo aí o único espaço emforam dirigidas a esse nível de formação como parte que alguma pesquisa veio a ser realizada. Várias uni-do esforço ligado ao “milagre brasileiro” . Bolsas para versidades, especialmente públicas e algumas comu-mestrado e doutorado no exterior são concedidas num nitárias, caminharam lentamente para o desenvolvi-esforço dirigido à formação nesse nível, especialmen- mento de grupos científicos que se interligam com oste em áreas como as da economia, ciências básicas e cursos de mestrado e doutorado, mas que adquiriramtecnológicas. Estes estímulos à pós-graduação stricto vida própria e têm um espaço institucional específicosensu e à pesquisa dirigiram-se à formação de qua- conectando-se com diferentes atividades acadêmicas.dros e grupos de pesquisa de alto nível, sob a perspec- Porém, a grande maioria das instituições, especialmentetiva do “capital humano” . Esta ação “obedecia a uma as privadas, não integraram a pesquisa em seu cotidia-decisão explícita, por parte do governo militar recém- no, trabalhando praticamente só com professores-estabelecido, de disciplinar e orientar o ensino supe- horistas. Também não se empenharam quanto ao aper-Revista Brasileira de Educação 109
  • 3. Bernardete Angelina Gattifeiçoamento dos seus quadros, a não ser mais recente- os de mestrado, começam a tomar contornos que extra-mente, por pressão de normatizações legais. vasam o âmbito dos laboratórios de pesquisa e da car- Desde sua origem, mestrados e doutorados foram reira docente no ensino superior.destinados a uma elite. A seletividade para ingressar Assim, conforme analisa Guadilla (1997, p. 105-era altíssima; na ausência de parâmetros, pela inexis- 106), diferentemente de alterações em níveis de edu-tência desses cursos no país e o estímulo inicial aos cação superior realizadas em outros momentos destemestrados especialmente, as dissertações de mestrado século,exigidas eram quase sempre equivalentes a teses de [...] quando os atores responsáveis por elas foram agentesdoutorado, se comparadas internacionalmente. Na ver- endógenos – estudantes algumas vezes, pesquisadores e diri-dade, adotaram-se em várias áreas, para o mestrado, gentes das instituições outras vezes -, a agenda de transfor-padrões que em outros países encontravam-se nos dou- mações na década de 90 está sendo construída, como setorados. Além da seletividade inicial, a evasão tam- indicou antes, com novos agentes, alguns deles de fora dabém se mostrava alta. Hoje ainda, em círculos domi- universidade. Isso tem sido interpretado de diferentes manei-nantes da vida científica no país, há um discurso, ras. Uma delas se refere ao papel primordial do conhecimentorepetido, sobre a pós-graduação stricto sensu, que tra- nos novos sistemas produtivos, o que significa que hoje osduz a perspectiva de uma elite que identifica os agentes externos têm um interesse maior pelos sistemas demestrados como formadores de pesquisadores, como produção de conhecimento e de formação.(grifo nosso)se este nível de ensino pudesse prover toda esta forma-ção e somente esta formação. Concebem-se os cursos Além disso, simultaneamente, e considerando ade mestrado e doutorado para uma elite pensante, para emergência de mudanças substanciais que caracteri-a formação dos pesquisadores por excelência e, por zam, segundo a autora, na passagem de uma etapaisso, sua expansão é tratada como devendo ser conti- civilizatória a outra, um grande número de institui-da, e sua avaliação centralizada para melhor controle. ções de educação superior, com seus diversos níveis,Outras funções, inicialmente também propostas como encontra-se em condições de enclausuramento. Estaparte das atribuições de mestrados e doutorados, fo- condição gera reações de paralisia e de defesa “pois, aram minimizadas e deixadas de lado, por exemplo, a perplexidade diante das mudanças, às vezes, é muitode formar professores para o ensino superior, o que é grande. Na vida dos acadêmicos, sobretudo, a passa-muito diferente de formar pesquisadores. Este é um gem de uma etapa civilizatória a outra implica, emdos desafios que vêm sendo colocados à pós-gradua- muitos casos, a desvalorização repentina de um capi-ção e que se agudizará cada vez mais. Mesmo que os tal cultural que se esteve acumulando durante toda vidadois tipos de formação possam e até devam ser desen- profissional” (Idem, ibidem). Implica também, altera-volvidos simultaneamente, com a camisa de força dos ções de relações de poder, com uma dinamização dife-prazos de conclusão para esses cursos, não é difícil rente de estruturas já bem instituídas, com papéis as-pensar que é preciso fazer opções quanto à vocação segurados.dos programas de mestrado e doutorado, e repensar Os atores desta transformação serão as pessoas quesuas estruturas e currículos. Agregando-se, também, às possuem sensibilidade ao social e que por isso se preo-duas finalidades já mencionadas, o objetivo de formar cupam com a falta de eqüidade social e incorporam po-quadros para o trabalho em nível maior de sofisticação sitivamente os avanços da nova etapa civilizatória.em relação às graduações – demanda clara dos profissio-nais e de vários setores comunitários – e outras funções Papel social e estruturas da pós-graduaçãoque passam a ser esperadas desses cursos, associadas aaprofundamento e ampliação culturais, a questão da fi- Em atmosfera de intenso debate quanto ao papelnalidade dos cursos e de seus objetivos, especialmente e às finalidades da pós-graduação e da qualidade de110 Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18
  • 4. Reflexão sobre os desafios da pós-graduaçãosuas propostas acadêmicas, num tempo em que se de- mestrados, três perspectivas: a primeira, é a de que omanda desses cursos que respondam à grande varie- mestrado é uma iniciação à pesquisa; a segunda, é adade de desafios sociais, tecnológicos, políticos e eco- de que o mestrado cumpre a função de dar formaçãológicos, é de grande importância refletir sobre as acadêmica básica para docência, porém é o doutoradocondições atuais e o futuro desejável para os mesmos. que inicia o discente na pesquisa; a terceira, que vêO futuro da pós-graduação está ancorado em sua his- como finalidades do mestrado a formação de docentestória específica em nosso país e em como se apresenta para o ensino superior e a de assessores, afastada dano presente momento. Nesse sentido, várias questões preocupação de formar pesquisadores. Observa-se queprecisam ser respondidas: Qual o propósito e a nature- nas instituições onde predomina a primeira concep-za dos estudos na pós-graduação, em um momento de ção, os mestrados geralmente vêm sendo equivalentesaceleradas mudanças? Que valor têm para as pessoas a minidoutorados, e neles predomina o pensamento dee a sociedade? Respostas devem ser buscadas junto a que se perde qualidade ao colocar sua terminalidadediversificados grupos de interesse e com diferentes re- em dois anos, como vêm impondo os órgãos avaliado-ferenciais. res e de fomento. Embora tenhamos nessa modalidade um reduto Outros estudos identificam dois tipos de mestradoconservador que o enquadra em rígidos moldes, em que se diferenciariam pelos seus objetivos. Um delesnível das instituições não se tem claros os objetivos teria como objetivo estudos avançados em uma disci-aos quais seus cursos atendem, ficando os propósitos plina específica, sem preocupação com suas aplica-da pós-graduação interpretados isoladamente por este ções; outro visaria à aplicação e extensão de conheci-ou aquele professor, pesquisador ou aluno, mantendo- mentos a finalidades profissionais ou vocacionais. Istose, no entanto, apenas propósitos gerais como nos leva à questão dos mestrados profissionais. Con-intencionalidade institucional, no que se refere ao seu forme se encontra colocado em alguns documentos ofi-desenvolvimento. ciais, a necessidade desta modalidade de estudos pós- Questionam-se, neste momento, portanto, aspectos graduados voltados para áreas de trabalho corresponderelativos às finalidades, propostas, estruturas, currí- à própria evolução dos conhecimentos, seus impactosculos, formas de desempenho e tipos de qualidades no mundo do trabalho, às mudanças dos mercados, osocialmente relevantes esperadas dos cursos de que induz a procura de recursos humanos que facili-mestrado e doutorado. Estes pontos vêm sendo postos tem a transferência mais rápida dos conhecimentosem questão à luz de discussões sobre o papel social gerados na universidade para a sociedade. Em todo odessa modalidade educacional na atualidade, atuali- mundo procuram-se formas mais eficazes de estabele-dade que se mostra com características novas diante cer relações entre as universidades e setores governa-da própria história construída nesses anos todos, des- mentais, não-governamentais e sobretudo empresariais.de o início da implementação da pós-graduação brasi- São fatos sociais, não há como negá-los.leira. Não há consenso sobre essas questões, quando Mais uma vez aqui a polêmica se instala entrese dá voz a profissionais diversificados e não apenas nós sobre questão internacionalmente superada, já queaos direta ou indiretamente comprometidos com o sis- ainda se defende em círculos importantes nos setorestema vigente. Sistema este que, na verdade, não sofreu da pós-graduação a formação estrita para a vida cien-transformações desde sua origem, mas apenas ajustes tífica em termos de mestrados acadêmicos, propugnan-ou adaptações que não alteraram o eixo da exclusão do-se a não implantação dos mestrados profissionali-de vários setores interessados. zantes. Ante a sua existência, volta-se o combate para O debate sobre as questões acima apontadas está sua não expansão ou depreciação.aberto. Em pesquisa que realizou, Peixoto (1995) iden- Com pressões sociais evidentes, que correspon-tificou, quanto às concepções sobre as finalidades dos dem a necessidades de setores do trabalho, sobretudoRevista Brasileira de Educação 111
  • 5. Bernardete Angelina Gattide novos setores como os da comunicação, parece que portante hoje e necessita ser enfrentada dentro daque-será necessária a construção de um novo tipo de com- la consciência social ampliada que vimos colocandopreensão quanto ao papel dos mestrados e doutorados, como necessária às transformações neste nível educa-entendendo que conhecimento aprofundado pode con- cional. Mais um desafio: criar alternativas formativasviver com problemas de trabalho mais ou menos ime- diferenciadas em seus objetivos, mas com qualidadediatos, e que as diferenças entre modalidades consistente à luz de padrões de referência diversifica-formativas podem situar-se quanto à perspectiva dos e adequados a cada alternativa, e abrir brechastemática e não necessariamente em uma desqualifica- para que isto seja possível. Não se trata de rebaixarção no nível formativo. A rigidez existente em certos padrões de formação, mas de criar novos padrões tam-círculos acadêmicos não tem permitido discussão real- bém com boa qualidade.mente construtiva, em algumas áreas, para este tipo de Se esses programas devem se constituir em lugardemanda social: qual seu sentido, como e onde pode- de construção de aprendizagens, de exercício da in-ria desenvolver-se, qual seu papel. Essa modalidade vestigação científica, de maturação quanto a teorias ede pós-graduação vem sendo implementada ao largo tecnologias e de preparação para o exercício dado eixo hegemônico que define os rumos de mestrados docência em nível superior, novas relações educacio-e doutorados e dos padrões definidos para sua avalia- nais internas a eles devem ser construídas. Isto requerção. Esse tipo de curso vem encontrando abertura den- alterações em papéis consagrados, criação detro dos órgãos normativos oficiais, mas sempre com a ambiências de aprendizagem para além das aulas epresença de ressalvas, como legitimação ante a pers- atividades estruturadas, criação de opções para estu-pectiva acadêmica dominante, pela promessa de “ava- do independente e possibilidade de desenvolvimentoliação rigorosa” , “avaliação no mesmo nível dos de programas exploratórios ou experimentais. Temosmestrados acadêmicos” etc., encontradas nos documen- de enfrentar o conformismo ao modelo único, de fina-tos oficiais. Revelam-se claramente a desconfiança na lidade única, e buscar formas organizacionais que tor-qualidade e a diferença de nível implícitas. nem o espaço da pós-graduação espaço no qual de fato O desafio está na busca de um equilíbrio entre a se exercite a exploração intelectual de problemas e te-preparação de professores para o ensino superior, a de mas, em tempo adequado a variados tipos de alunos,pesquisadores e a de profissionais diversos que bus- permitindo a eles a gestão desse tempo em limites ra-cam seu aprofundamento teórico, cultural, científico zoáveis, propiciando o acesso a conhecimentos e àou tecnológico. Com flexibilização de tempos e de ampliação cultural, a grupos diferenciados e a profissio-possibilidades nas trajetórias dentro dos cursos, este nais que trabalham.equilíbrio talvez possa ser atingido. A convivência de Todos os aspectos trazidos até aqui e mais o pró-modalidades diferentes numa mesma instituição, que prio desenvolvimento das áreas de conhecimento de-se qualifica também pela pesquisa e produção cultural safiam-nos, também, quanto à necessidade de reverde outras naturezas, pode dar sustentação a um am- organizações que fragmentam setores de conhecimen-biente adequado à não banalização de certas modali- to, buscando arranjos cooperativos para o desenvolvi-dades curriculares nesse nível formativo, e propiciar mento de estudos entre áreas e mesmo interinstitucio-aos alunos convivência com formas diversificadas de nalmente. Criar condições de promover conhecimentosproduzir e utilizar conhecimentos. Mas, a exclusão de interconectados, facilitando acesso de professores equalquer modalidade em favor de uma só pode resul- estudantes a outras áreas disciplinares, fora de sua es-tar em empobrecimento de cursos e empobrecimento pecialidade específica; estabelecer intercomunicaçõesdos horizontes institucionais. entre áreas; facilitar caminhos para que se desenvol- As diversas modalidades ou estruturas formativas vam em métodos de análise interdisciplinares, promo-na pós-graduação constituem questão socialmente im- vendo seminários conjuntos, projetos de pesquisa112 Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18
  • 6. Reflexão sobre os desafios da pós-graduaçãointerdisciplinares, colóquios; criando campos interde- abstratamente. Não tem havido uma interlocução sufi-pendentes de estudo ou outros mecanismos que alar- cientemente ampliada dos acadêmicos com diversifi-guem as possibilidades de insights em conhecimen- cados setores que começam a exigir interfaces comtos que são, ao mesmo tempo, básicos em uma esse tipo de formação. Há um fato social ocorrendo:especialidade mas que necessitam de aportes de ou- cada vez mais os estudantes deste nível têm que arcartros campos. com os custos deste ensino e dividir seu tempo entre Ponto que vem sendo freqüentemente trazido à trabalho e estudo. Este é o horizonte que se descortinaconsideração para os anos vindouros é o do favoreci- no Brasil para os demandantes à pós-graduação. As-mento de trabalhos de forma cooperativa, integrativa sim, a questão de prazos rígidos para a conclusão dose menos individualista, propiciando espírito de grupo cursos – e que afetam sua avaliação e os fomentos quee trabalho em equipe. Espírito de colegiado, comuni- podem receber – toma outra feição, pelo menos dentrocações abertas. Isto também coloca questões à atual de um pensar mais democrático de possibilidades deforma de desenvolvimento dos trabalhos nos mestrados acesso ao saber. Os mestrandos e doutorandos não-e doutorados. bolsistas, que aos poucos se tornam a maioria dos alu- Se, na pós-graduação, se atuar com uma cons- nos desses cursos, obviamente têm outras condiçõesciência social ampliada, atentos às condições para quanto à dedicação de tempo aos estudos, mas nemaprendizagens significativas e aos tempos humanos, por isto são menos qualificados para aí estarem. Fe-em que estudo e trabalho são dimensões que não se char possibilidades a este tipo de pós-graduando é criarexcluem, os que nela atuam precisariam usar de suas mais um espaço de exclusão. É preciso considerar tam-competências para encontrar alternativas de transfor- bém que, trabalhando em geral em áreas afins aos seusmações, nos mestrados e doutorados, de tal forma que estudos, os pós-graduandos emprestam a estes umasua contribuição à qualificação consistente dos novos nova qualidade que advém da experiência no trabalhoe diversificados contingentes profissionais, cujas dife- e do seu trato cotidiano com variados e concretos tiposrentes demandas começam a se colocar, seja de fato de problemas. A questão do aluno-trabalhador e dosrelevante. prazos de formação trazem um desafio e tanto para o Essas são questões das quais não se poderá fugir modelo credencialista vigente e, diante das necessida-nos próximos anos. des e condições reais dos estudantes nesse nível, esse modelo, com sua rigidez, parece colocar-se na contra- Flexibilidade e duração de cursos mão da história social. Em artigo recentemente publi- cado, Velloso e Velho (1997), analisando a pós-gradua- A partir das considerações que estamos tecendo ção, discutem a questão do tempo imposto rigidamentesobre os desafios da pós-graduação, a questão do tem- para a realização destes cursos, ponderando que a “fi-po de conclusão dos cursos de mestrado e doutorado xação de prazos inadequados, segundo alguns auto-precisa ser considerada em parâmetros bem diferentes res, constitui não apenas fonte de frustração mas tam-dos que têm sido postos pelas agências governamen- bém de desperdício de tempo e dinheiro por parte dostais e alguns setores acadêmicos. Com um olhar social estudantes e das instituições (Wilson, apud Stricker,mais sensível, tendo questões de eqüidade como refe- 1994). Nos Estados Unidos da América, onde têm sidorência, é necessário considerar as condições reais de relativamente abundantes os estudos sobre os prazosquem hoje procura esse nível formativo, dos que po- de titulação, verificou-se que estes vêm aumentandotencialmente virão a procurá-los, e dos objetivos que desde os anos 60” (p.75).em relação a ele começam a ter pessoas de diferentes Estudos em diversos países apontam na mesmasegmentos sociais e setores do trabalho – objetivos que direção. Os autores citados lembram que, em paísessão socialmente construídos e não pré-determinados cientificamente fortes, o mestrado tem um caráter re-Revista Brasileira de Educação 113
  • 7. Bernardete Angelina Gattisidual e por essa razão os estudos sobre esta questão qualidade, por certos grupos que confundem boa qua-referem-se mais ao doutorado. Citando vários traba- lidade com grau de exclusão. A manutenção desta pos-lhos, mostram que o tempo gasto pelos estudantes ma- tura vem desfavorecendo variados contingentes sociaistriculados neste nível passou de cerca de pouco mais quanto às possibilidades de aprofundamento de suade cinco anos para aproximadamente sete anos. formação. Os setores envolvidos com mestrados e dou- Também dentro da questão de acessibilidade, per- torados precisam ampliar suas perspectivas sociais, semmanência e terminalidade nos cursos de mestrado e perder a ciência como referencial. Devem reconhecer,doutorado, é preciso lembrar que, diferentemente das no entanto, que, como processos educativos, com obje-propostas desenvolvidas em outros países, no Brasil tivos também diferenciados, mestrados e doutoradosas ofertas de atividades e disciplinas nesse nível man- são meios de fazer ascender a padrões culturais dife-têm o padrão semestral, sem ofertas diversificadas em rentes segmentos sociais, à altura das conquistas hu-épocas de verão ou inverno, períodos de férias escola- manas em conhecimentos. Passa também por este ní-res e outros, replicando disciplinas ou atividades já vel formativo a socialização dos conhecimentosoferecidas no “semestre padrão” . Não são oferecidas acumulados pelo esforço e contribuição de todos ostambém oportunidades de preenchimento de créditos cidadãos que, em última instância, fornecem o dinhei-em períodos alternativos, que podem ser estruturados ro necessário ao financiamento de cursos e pesquisas,no semestre mesmo, maximizando a utilização dos re- por meio de impostos. Portanto, o papel social dessecursos institucionais e flexibilizando as trajetórias dos segmento educativo é também do interesse público.alunos. A inflexibilidade curricular cerceia oportuni- Sob o ângulo que vimos desenvolvendo, o desa-dades, especialmente para os alunos-trabalhadores; fio está em não comprometer a formação desses novosmais um grande desafio a superar. contingentes que estão demandando este nível de cur- Tudo isto tem a ver com o papel social que se sos, todos com direito a uma boa formação, com a con-pode esperar destes cursos e sobre o qual será neces- trapartida de sua própria responsabilidade em relaçãosário discutir, envolvendo-se segmentos diversificados, a essa formação. As dificuldades ante mudanças for-internos, inclusive os próprios alunos, e externos aos çam a manutenção da visão dominante, mas estamosquadros do ensino superior. Propugnam-se como me- alijando pessoas e profissionais que teriam nesses cur-tas para a educação superior, no discurso, flexibilida- sos oportunidade de desenvolvimento pessoal, profis-de em estruturas e currículos, formação com flexibili- sional, social e científico de todo relevantes para osdade cognitiva, mas a rigidez estrutural dos cursos e desafios dos anos vindouros. Estamos, em nível dosdos prazos, a homogeneização dos diferentes segmen- mestrados e doutorados, de certa forma, criando di-tos do alunado, com diferenciadas condições para de- ques contra a ampliação social de potencialidades hu-dicação aos estudos, bolsistas e não-bolsistas etc. mos- manas. Democratizar acesso, flexibilizar currículos,tram um sistema de mão única e via estreita, no qual formatos e tempos, construir diferentes trajetórias pos-oportunidades são restringidas e flexibilidade, inexis- síveis nesses cursos, com formas de terminalidadetente. Este fato não permite aos estudantes experimen- diversificadas, não quer dizer “perda de qualidade” .tar essa qualidade concretamente e apreendê-la pelo A boa qualidade das aprendizagens não passa certa-exercício de escolhas. Este é um paradoxo educacio- mente por formatos fechados e padrões pré-estabele-nal claro. cidos, quando se trata de formação de pessoas e do Superar essas condições é desafio. Reconhecer desenvolvimento e ampliação de suas potencialidades.suas raízes pode ajudar nesse processo de transforma- Tem faltado criatividade e ousadia na busca de rotasção. Estas raízes estão vinculadas às origens de voca- diversificadas e alternativas para dar respostas às de-ção elitista de nosso ensino superior, transferidas à pós- mandas que são feitas nesse nível educacional, deman-graduação, que é tomada como último reduto da das que aumentarão em muito. O desafio será atender114 Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18
  • 8. Reflexão sobre os desafios da pós-graduaçãoa todo um novo contingente que começa a procurar agir, conhecimentos que estão na base de ações queesse nível educacional, com heterogêneas necessida- podem trazer melhores condições de acesso a bensdes, suplantando a idéia de que boa qualidade se faz sociais valorizados. Contemporaneamente e nos anoscriando reservas de domínio em áreas de conhecimento. vindouros, cada vez mais o acesso a e o domínio de conhecimentos relevantes socialmente associam-se a Conhecimento e poder domínio de linguagens, ciências, tecnologias, domínio de estruturas que regulam direitos e relações de dife- Voltemos agora à questão já levantada sobre con- rentes naturezas. Nessa perspectiva, não só a educa-centração de “conhecimento” em poucos círculos. Este ção básica e superior das pessoas entram em jogo, masaspecto é importante, pois está na base de concepções também a pós-graduação, na medida mesma da sofis-sobre o papel da pós-graduação e dos desafios que vi- ticação das sociedades, dos tipos de conhecimento emos colocando. suas formas de produção, e dos recursos necessários à O grande dilema a ser enfrentado por mestrados e sobrevivência humana.doutorados é o de abrir-se a novas perspectivas, mo- Embora a concepção, em geral, de conhecimentodalidades curriculares e tipos de discentes, ou manter- que têm os autores que tratam dessa questão seja umase como área reservada a poucos, com critérios de se- concepção ampliada, pois não diz respeito ao conheci-letividade definidos segundo um único padrão. Na base mento científico ou instrumental estrito, referindo-se adeste desafio está a questão de uma perspectiva relati- um conjunto mais amplo de meios de construção deva ao princípio de eqüidade, como valor social e ético, habilidades e competências sociais, que se revelam emque se apresenta como fundamental ao futuro das so- formas novas de agir e mediações que abrem perspec-ciedades humanas e até como condição de sustentação tivas diferenciadas de sucesso na vida cotidiana, nade um processo de sobrevivência civilizada. base destas possibilidades está o saber buscar e inter- Estudos e ensaios que discutem a relação entre pretar informações e tipos de conhecimento que, emconhecimento e poder têm sido produzidos com certa última instância, derivam, direta ou indiretamente, deintensidade nas duas últimas décadas. Assinalam que avanços científicos e culturais em vários setores. Ouma das transformações que vêm se produzindo nas domínio destes saberes constitui-se em poder, podersociedades avançadas aparece nos determinantes de que pode ser exercido de diferentes maneiras.desigualdades sociais. Entre estes surge o conhecimento De acordo com Stehr (2000), acomo princípio diferenciador de pessoas e grupos hu- [...] condição que possibilita obter bases de ação mais am-manos. Deter certos conhecimentos é poder obter van- plas e mais numerosas é o conhecimento, ou seja, um con-tagens e facilidades no movente mundo atual. Na ex- junto de competências sociais de acesso mais geral, cujopressão de Stehr (2000) a “emancipação de amplos impacto sobre as estruturas sociais de desigualdade acelerasegmentos da população de uma condição de as oportunidades dos atores de reformular as construçõesvulnerabilidade e subordinação econômica – que não sociais (p.108). [Então, no compasso em que] o conheci-se realiza na mesma extensão e em velocidade seme- mento vai tomando o lugar da propriedade e do trabalholhante em todos os países industrializados – propor- como mecanismo constitutivo da desigualdade, a relação dosciona as bases materiais para novas formas de desi- indivíduos e dos grupos com o conhecimento passa a tergualdade” (p.102). uma importância fundamental para os padrões de desigual- À medida que as sociedades industriais vão sen- dade social nas sociedades contemporâneas (p. 109).do impregnadas por uma sociedade do conhecimento epor ela substituída, considerar as novas formas de pro- Sob esta ótica, para quem tem no seu horizontedução de desigualdades é necessário. Uma delas é a idéias como eqüidade social, oportunidades distribuí-posse de conhecimentos necessários para formas de das, relações cooperativas, o sistema de pós-gradua-Revista Brasileira de Educação 115
  • 9. Bernardete Angelina Gattição de hoje deverá ser merecedor de profundas altera- jan.-abr. 1999, publicado em jan. 2001, p. 148-155); Implicações eções na direção de abertura de oportunidades, de acesso perspectivas da pesquisa educacional no Brasil contemporâneo,ao conhecimento que aí pode ser oferecido a diferen- Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas & Autores Asso-ciados segmentos sociais. Este nível formativo come- ciados, nº 113, jul. 2001, p.65-81). Pesquisa atual: “Aspectos psicossocioeducacionais em programas de formação continuada eça a ser requisitado a oferecer respostas, a curto pra- à distância de professores”. E-mail: gatti@fcc.org.brzo, a pressões que não tardarão a mostrar-se com força,entre elas a das condições de sobrevivência humana e Referências Bibliográficasda qualidade de vida e das relações sociais. Mas, nãosó. Na perspectiva de quem defende a construção deuma sociedade mais igualitária, a forma como hoje vem DURHAM, Eunice R., (1996). A pós-graduação no Brasil: pro-sendo desenvolvida a pós-graduação deve sofrer algu- blemas e perspectivas. NUPES/USP, Documento de Trabalhomas mudanças radicais. As concepções dominantes 8, 21p.hoje estão entrando em crise. Os contrastes entre co- GUADILLA, Carmen García, (1997). Universidade latino-ameri-nhecimento científico, conhecimento ético e eqüidade cana: da casela vazia ao cenário socialmente sustentável. Ca-social deverão ser merecedores de uma ampla e públi- dernos de Pesquisa, Fundação Carlos Chagas & Cortez Edito-ca discussão, se os que atuam neste nível de ensino ra, nº 101, p. 82-112, jul.desejarem ser partícipes das transformações que des- LOUREIRO, Maria Rita, DURAND, José Carlos. (1995). A pós-pontam no horizonte desses cursos. Esta participação graduação profissional em Administração comparada à pós-gra-será essencial à medida que se reconhecer que duação acadêmica. Cadernos de Pesquisa, Fundação Carlosmestrados e doutorados devem estar envolvidos com Chagas & Cortez Editora, nº 94, p.5-14, ago.uma ética da vida que implique a superação de proces- PEIXOTO, Maria do Carmo. (1995). Formação do pesquisador nasos que alimentam a excessiva desigualdade entre pes- pós-graduação: análise da estrutura organizacional em duassoas e grupos. Isto conduz à necessidade de áreas do conhecimento. Conselho de Reitores das Universida-rearticulação dos domínios do conhecimento com a des Brasileiras. Educação Brasileira, vol. 17, nº 34, p.125-144,responsabilidade social. Um novo tipo de consciência jan.-jun.humano-social-científica será requerido para encami-nhar estas transformações. STEHR, Nico. (2000). Da desigualdade de classe à desigualdade do conhecimento. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.15, BERNARDETE ANGELINA GATTI é docente do Programa nº 42, p.101-112.de Pós-Graduação em Psicologia da Educação da PUC/SP e coor- STRICKER, L.J. (1994). Institutional factors in time for the doctorate.denadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Funda- Research in Higter Education, v. 35, nº 5, p. 569-587.ção Carlos Chagas. Publicou recentemente: A new model for teacher VELLOSO, Jacques, VELHO, Lea. (1997). Política de bolsas, pro-training, Texts from Brazil nº 7: Education for human and social gressão e titulação nos mestrados e doutorados Cadernos dedevelopment in Brazil, (Ministry of Foreign Relations, 2000, p.39- Pesquisa, nº 101, Fundação Carlos Chagas & Autores Associa-43); Ensino superior e avaliação institucional, Revista Brasileirade Estudos Pedagógicos (Brasília: INEP/MEC, nº 194, vol. 80, dos, p. 50-81.116 Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18