Saeculum13

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Saeculum13

  1. 1. Departamento de HistóriaPrograma de Pós-Graduação em História Universidade Federal da Paraíba CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES Campus Universitário - Conjunto Humanístico - Bloco VCastelo Branco - João Pessoa - Paraíba - CEP 58.051-970 - BrasilFone/ Fax: +55 (83) 3216-7915 - E-Mail: <ppgh@cchla.ufpb.br> Sítio Eletrônico: <http://www.cchla.ufpb.br/saeculum/> [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 1
  2. 2. UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA Reitor: Rômulo Soares Polari Vice-Reitora: Maria Yara Campos Matos PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Pró-Reitor: Marcelo Sobral da SilvaCENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES Diretor: Lúcio Flávio Vasconcelos Vice-Diretora: Sandra Regina Moura DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Chefe: Jaldes Reis de Meneses Sub-Chefe: Eduardo Henrique de Lima Guimarães PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Coordenador: Elio Chaves Flores Vice-Coordenadora: Regina Célia Gonçalves COMISSÃO DE EDITORAÇÃO - SÆCULUM Carla Mary S. Oliveira Cláudia Engler Cury Elio Chaves Flores Monique Cittadino (presidente) Regina Célia Gonçalves Regina Maria Rodrigues Behar Ricardo Pinto de Medeiros Wellington Sampaio da Silva (secretário)2 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  3. 3. N° 13 - Jul./ Dez. 2005 ISSN 0104-8929 [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 3
  4. 4. Copyright © 2005 - DH/ PPGH/ UFPB ISSN 0104-8929 Capa, Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Carla Mary S. Oliveira Ilustração das Vinhetas: Albretch Dürer, “Moça Lendo” (detalhe), 1501; desenho a grafite e nanquim castanho sobre papel; 16,1 x 18,2 cm; Boymans-van Beuningen Museum, Rotterdam, Holanda. Impresso no Brasil - Printed in Brazil Efetuado o Depósito Legal na Biblioteca Nacional, conforme a Lei nº 10.994, de 14 de dezembro de 2004. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos autorais (Lei nº 9.610/1998) é crime estabelecido no artigo 184 do Código Penal. CONSELHO EDITORIAL Antônio Paulo Resende (UFPE) Maria de Lourdes Janotti (USP) Carlos Fico (UFRJ) Martha Ma Falcão de C. e M. Santana (UFPB)Durval Muniz de Albuquerque Jr. (UFRN) Mauro Guilherme P Koury (UFPB) . Ernesta Zamboni (UNICAMP) Pedro Paulo Funari (UNICAMP) Gisafran Mota Jucá (UFCE) Rosa Maria Godoy Silveira (UFPB) Joana Neves (UFPB) Sandra Jatahy Pesavento (UFRGS) João Antônio de Paula (CEDEPLAR) Sílvia Regina Ferraz Petersen (UFRGS) João José Reis (UFBA) Teresa Negrão (UnB) Jorge Ferreira (UFF) Leonardo Guimarães Neto (CEPLAN) Tereza Baumann (MN-UFRJ)Lúcia de Fátima Guerra Ferreira (UFPB) Valdemir Zamparoni (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca Central - Universidade Federal da Paraíba S127 Saeculum - Revista de História, ano 11, n. 13 (2005). - João Pessoa: Departamento de História/ Programa de Pós-Graduação em História/ UFPB, jul./dez. 2005. ISSN 0104-8929 Semestral 166 p. BC/UFPB CDU 93 (05)4 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  5. 5. ISSN 0104-8929 João Pessoa - PB, n. 13, jul./ dez. 2005 SumárioEditorial ............................................................................................................ 7ARTIGOSRomanos e Partos: atividades bélicas na República e no Principado ........... 11Ana Teresa Marques GonçalvesO escravo negro nos primeiros escritos coloniais (1551-1627) ................. 21Raimundo Agnelo Soares PessoaO “Catecismo Kiriri”: a lei de Deus e o interesse dos homens ...................... 39Roberto da Silva RibeiroModernidade, revolução e fundação da liberdade:as Revoluções Americana, Francesa e Alemã ................................................ 52Edneila Rodrigues Chaves“Vozes Públicas”: as ruas e os embates políticos em Pernambucona crise do Antigo Regime português (1820-1821) ..................................... 63Flávio José Gomes Cabral“Exposição aos credores”: a escrita como redenção ................................... 78Rafael Rodrigo Ruela SouzaArticulações e confrontos: a consolidação do discurso deesquerda no movimento estudantil pernambucano (1964-1967) ................. 90Simone RochaMídia, políticas públicas e gênero:divulgando o mapa do tráfico de mulheres brasileiras ................................. 105Vanessa Ribeiro Simon CavalcantiO livro didático e a pedagogia do cidadão: o papel doInstituto Histórico e Geográfico Brasileiro no ensino de História ............. 121José Ricardo Oriá FernandesA favor da História da Arte, um enunciado em suas implicaçõesfilosóficas: da Estética à Filosofia da Arte enquanto problemas efundamentos para uma disciplina histórica ..................................................... 132Marcio Pizarro NoronhaOs usos da temporalidade na escrita da História ......................................... 144José D’Assunção BarrosRESENHAConstruindo teorias sobre o Barroco ............................................................ 159Carla Mary S. Oliveira *** [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 5
  6. 6. Normas para publicação ................................................................................. 163Agradecimentos .............................................................................................. 1656 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  7. 7. EDITORIAL Com esse número que o leitor tem em mãos, o segundo do ano de 2005, Sæculuminicia uma nova década. São mais de dez anos de luta para manter viva umarevista de História que, antes despretensiosa, amadureceu para se tornar o“patrimônio mental” do Programa de Pós-Graduação em História da UniversidadeFederal da Paraíba. Na verdade, o ano que agora se finda foi de efemérides para acomunidade estadual: os 50 anos da UFPB (1955-2005) e os 25 anos doDepartamento de História (1980-2005) foram, para nós, historiadores da casa,evocados com o ingresso da primeira turma do Programa de Pós-Graduação cujaárea de concentração, História e Cultura Histórica, apenas começa uma duraçãonão menos longeva. Nos onze artigos publicados nesse número as pesquisam abrangem vários temas.Ana Teresa Marques Gonçalves analisa batalhas travadas entre romanos e partosao longo da República e do Principado. Raimundo Agnelo Soares Pessoa abordao tratamento dado ao escravo negro nos primeiros escritos coloniais. Roberto daSilva Ribeiro analisa o discurso religioso do século XVII a partir do CatecismoKiriri, do Padre Mamiani. Edneila Rodrigues Chaves discute as revoluções damodernidade numa aproximação com os conceitos de Hannah Arendt. Flávio JoséGomes Cabral demonstra o nexo das manifestações públicas em Pernambuco e osanos finais do Antigo Regime português. Rafael Rodrigo Ruela Souza trabalhacom autobiografia escrita pelo Visconde de Mauá, tendo como foco o texto e ocontexto da obra memorialística. Simone Rocha analisa a consolidação do discursoda esquerda estudantil pernambucana logo após o golpe dos militares. VanessaRibeiro Simon Cavalcanti discute o papel da imprensa nacional e internacional nadelicada questão do tráfico de mulheres brasileiras numa temporalidade ainda emcurso. José Ricardo Oriá Fernandes, num artigo com duplo objetivo, além de mostraro papel exercido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro na constituiçãoda disciplina História, também coloca a questão das pesquisas sobre o livro didáticono Brasil a partir dos aportes teóricos da História Cultural e da história daEducação. Marcio Pizarro Noronha trata da confrontação entre Estética e Filosofiada Arte, temas e termos formulados por Kant e Hegel que se tornaram importantespara os campos da História e Teoria da Arte. José D’Assunção Barros se posicionacriticamente em relação aos usos da temporalidade na escrita da História,especialmente a representação do tempo e a sucessão de eventos. Por último, CarlaMary S. Oliveira assina a resenha sobre Imagem e persuasão, clássico de GiulioCarlo Argan - autor que se insere entre os maiores historiadores da Arte Moderna- recentemente traduzido para o português. Como historiadores sentimo-nos capazes de enfrentar mais uma década emtorno dos ofícios de Clio e das esperanças da nova geração. O entusiasmo doprimeiro número ainda campeia os espíritos, pois “que a vida é sempre retomada,é tempo, é Sæculum”. *** [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 7
  8. 8. 8 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  9. 9. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 9
  10. 10. 10 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  11. 11. ROMANOS E PARTOS: ATIVIDADES BÉLICAS NA REPÚBLICA E NO PRINCIPADO Ana Teresa Marques Gonçalves1 O mundo romano sob a égide dos Príncipes vivenciou inúmeras guerras civis eexternas, nas quais os aspectos militares e estratégicos se mesclavam comcaracterísticas econômicas, políticas, sociais, religiosas e culturais. O ato deempreender uma batalha se iniciava muito antes do confronto em si. Eramnecessários, por vezes, meses de preparação, com a organização dos suprimentose de armas, a convocação dos soldados, a preparação das tropas, a definição dosgenerais (legados imperiais) e de suas táticas, a construção de armamentos (como,por exemplo, o onagro - onager - uma máquina militar similar à catapulta, ou oaríete - aries - uma tora de madeira suspensa numa espécie de torre para arrebentaras muralhas das cidades sob assédio, ou a balista - scorpio - um grande arco postosobre base de madeira para lançar flechas e dardos a grande distância) e algumasvezes, quando se fazia estrategicamente necessário, de barcos2. Mesmo quandoRoma buscava mais se defender de perdas sucessivas de territórios do que ampliaro limes, os empreendimentos bélicos suscitavam preparativos e expectativas. Na passagem do II para o III século d.C., período de governo de Septímio Severo(193 a 211 d.C.) e de seus filhos Geta (211 a 212 d.C.) e Caracala (211 a 217d.C.), o agon dos gregos, o espírito competitivo3, não desapareceu entre os romanos.Mesmo tendo enfrentado uma guerra civil que se estendeu de 193 a 197 d.C.,Septímio empreendeu lutas externas. Caracala, após se desvencilhar do irmão,também se lançou a operações de guerra. Nos dois governos, um mesmo inimigoantigo foi atacado: os Partos. No final do período republicano, quando os romanos buscavam o domínio sobreterras orientais, uma batalha perdida marcou o imaginário romano para sempre:a Batalha de Carrhae (Carras - Haran). Combatida e desastrosamente perdida em53 a.C. por Marco Crasso (membro do Primeiro Triunvirato, junto com CneuPompeu e Júlio César), a batalha colocou em lados opostos os romanos e os partos,sob as ordens do general parto Surenas e do rei Orodes Arsácidas. Esta batalhanos foi relatada por Plutarco, na Vida de Crasso, integrante de suas Vidas Paralelas. Segundo Plutarco, a expedição de Crasso contra os Partos foi uma grandetragédia4, marcada pelo principal defeito deste romano: sua cupidez, sua avidez1 Professora de História Antiga e Medieval da Universidade Federal de Goiás. Mestre em História Social e Doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo.2 ANTONELLI, L. Armi e armature dell’Impero Romano. Roma: Napoleone, 1990, p. 75-94.3 SOUZA, M. A. P de. A guerra na Grécia Antiga. São Paulo: Ática, 1988, p. 36. .4 PLUTARCO. Vida de Crasso. In: _____________. Vidas paralelas. Vol. 3. Tradução de Gilson César Cardoso. São Paulo: Paumape, 1991, p. 33. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 11
  12. 12. por riquezas5. Após controlar a insurreição dos gladiadores de Cápua, cujo líderfoi Espártaco (74 d.C.)6, Crasso recebeu do Senado o controle sobre a Síria epassou a sonhar com os caminhos traçados por Alexandre Magno, todos os tributos,riquezas e pilhagens que podiam ser conquistados se o território sob domínio dosromanos fosse expandido ate a Índia. Para se chegar até lá era necessário passarpelo território dos Partos, povo que nem sempre aceitava a interferência romanaem seus assuntos internos. Ainda segundo Plutarco: “A lei romana sobre as províncias não fazia menção à necessidade de uma guerra pártica, mas todos sabiam que Crasso andava obcecado por esta idéia. O próprio César, da Gália, escreveu-lhe uma carta aprovando o projeto e incitando Crasso à guerra. O tribuno da plebe Ateio tentou opor-se à sua partida, apoiado por muitos descontentes que não viam razão em hostilizar um povo inocente de qualquer falta contra Roma e a esta ligado por tratados.”7 Assim, as batalhas a serem travadas contra os partos aparecem como decisõesindividuais de Crasso, baseadas em sua busca de riqueza. A guerra parecia desdeo início fadada à desgraça, pois vários prodígios indicavam que a mesma nãocontava com o apoio das divindades. Antes mesmo da saída de Crasso da cidadede Roma, Ateio correu para os portões, acendeu um altar e procedeu a fumigaçõese libações para finalmente abrir-se em imprecações terríveis contra a guerra, feitaspara divindades romanas e estrangeiras: “Afirmam os romanos que essas imprecações antigas e misteriosas possuem tamanha eficácia que ninguém que delas seja objeto pode escapar-lhes, e que trazem desgraça também para aqueles que as proferem, razão pela qual raramente são empregadas, e nunca levianamente. Censura-se a Ateio ter nessa ocasião lançado sobre a própria cidade, em nome da qual se indignava contra Crasso, semelhantes imprecações e tamanho terror religioso.” 8 Além disso, o mar estava bravio e várias naus se perderam. Chegando aBrundísio, cruzou o rio Eufrates e passou a organizar a tomada de Zenodotia, naMesopotâmia, cidade por ele pilhada, cujos habitantes foram vendidos comoescravos, pois ao contrário de outras cidades, seus cidadãos se recusaram a serender voluntariamente aos romanos 9. Deste modo, Crasso aumentava seupatrimônio, o de seus soldados e a riqueza de Roma, além de politicamente semostrar um feliz general e travar alianças no Oriente, por onde passavamimportantes rotas comerciais. Ao invés de ocupar as estratégicas cidades deBabilônia e Selêucia, eternamente hostis aos partos, que como os romanos5 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 2.6 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 8.7 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 16.8 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 16.9 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 17.12 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  13. 13. buscavam aliados no Oriente, ele preferiu ocupar novas cidades na Síria, pormotivos mais econômicos que militares, segundo Plutarco10. Os partos tentaram lhe enviar embaixadores, propondo um acordo, mas Crassopreferiu continuar se preparando para a invasão da Pártia. Os sinais divinoscontrários à empreitada também continuaram. Ao visitar o templo de Afrodite emHierápolis, Públio Crasso, filho de Marco Crasso, escorregou diante da porta e seupai acabou caindo sobre ele11. Ao passar pela margem do rio Eufrates, na cidadesíria de Zeugma, trovões repetidos produziram um terrível barulho. Quando ofereciao sacrifício expiatório habitual, deixou cair as entranhas das vítimas que o adivinholhe estendia12. Mesmo assim, Crasso continuou a marcha, contando com sete legiõese um corpo auxiliar formado por cavaleiros que haviam lutado sob ordens de seufilho nas batalhas de César na Gália. Um chefe tribal árabe, de nome Abgar, convenceu Crasso a se afastar dasmargens do rio e a enveredar por uma ampla planície, na qual as tropas romanasforam atacadas pelos arqueiros e pelos cavaleiros partos. Os romanos ficaramatônitos ao terem que lutar em areais profundos, planuras sem vegetação e semágua. Os partos faziam grande algazarra, tocando tambores ocos cobertos de pelecom martelos de bronze, com os quais produziam sons surdos e assustadores,observando que a audição era, de todos os sentidos, aquele que mais intensamenteperturba a alma, provoca as emoções mais imediatas e põe o espírito fora de si13. Acostumados a lutar contra gauleses quase nus, as armas romanas nãoconseguiam perfurar as couraças partas, que protegiam homens e cavalos. Aocontrário, as flechas partas partiam todas as armaduras romanas (lorica squamata- couraça escamada que pesava doze quilos, posteriormente trocada pela loricasegmentata - couraça de lâminas que pesava só nove quilos) 14. O movimento doscavaleiros partos, em volta das tropas romanas dispostas num grande retângulo,levantava massas de areia que impediam os romanos de ver e gritar. Públio Crassofoi morto, sua cabeça foi cortada e exibida na ponta de uma lança. Crasso e seushomens entraram em pânico e resolveram fugir. Foram, então, atacados pelas costas,por um artifício chamado a partir deste momento de “flechas partas”. Os poucossoldados que sobraram resolveram fugir a noite do acampamento, deixando paratrás os feridos. Crasso partiu na escuridão, pois sendo acima de tudo arqueiros, ospartos precisavam da luz do sol para combater. Foi acolhido junto com ossobreviventes na cidade de Carras, de onde também fugiu à noite, tendo à frenteAndrômaco, que a pedido dos partos jogou os romanos na região dos pântanosprofundos. Crasso acabou se rendendo aos partos. Surenas declarou que a partir daquelemomento havia trégua e paz entre o rei Orodes, que havia aproveitado o confrontocom os romanos para atacar a Armênia, e os romanos, mas que seria necessário10 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 17.11 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 324.12 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 19.13 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 23.14 BRIZZI, G. O guerreiro, o soldado e o legionário. São Paulo: Madras, 2003, p. 130. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 13
  14. 14. avançar até o rio para pôr o acordo por escrito, “uma vez que vós, romanos, nãotendes boa memória no que diz respeito a tratados” 15. Quando Crasso montou ocavalo para acompanhar Surenas, um parto chamado Exatres o matou, cortando-lhe a cabeça e a mão direita, enviadas ao rei Orodes. Segundo Plutarco, foi umadas piores derrotas dos romanos, com vinte mil mortos e dez mil prisioneiros, nummomento em que estes se cobriam de vitórias. Desta forma, não deve ser de estranhar que empreender guerras aos partos serevestia de um sabor especial para os romanos. Além de ser uma terra rica, decidades antigas e pela qual passavam grandes rotas comerciais, a Pártia haviasido conquistada pelo macedônio Alexandre, em seu caminho para a Índia, omodelo preferencial dos Imperadores romanos do Alto Império, e havia uma boajustificativa para empreender este combate, pois sempre se poderia vingar a derrotasofrida no passado. A Pártia era símbolo de uma Ásia remota e nuncacompletamente dominada nem mesmo por Alexandre16. Acrescente-se que osromanos no Alto Império, com a diminuição das conquistas territoriais, buscaramfortalecer o limes com barreiras naturais como cadeias de montanhas e rios17.Portanto, dominar as regiões próximas aos rios Tigre e Eufrates se convertia numaempresa de defesa mais do que de ataque. Deste modo, não é de se estranhar que os Severos travassem batalhas contra ospartos. Septímio se dizia o continuador dos Antoninos, que também haviamenfrentado os partos. Severo mudou o nome de seu filho mais velho, Bassiano,para Marco Aurélio Antonino (196 d.C.) e proclamou-se filho de Marco Aurélio eirmão de Cômodo (197 d.C.), realizando uma adoção ao contrário18. Caracalarecebeu o título de imperator destinatus em troca do apoio que deu ao pai nasbatalhas travadas no Oriente (197 d.C.). No bojo destes acontecimentos, Septímiomandou gravar em algumas epígrafes o epíteto de divo Nervae atavo, vinculando-se por meio deste expediente não somente a Marco, mas a toda dinastia antonina.Para J. Rufus Fears, Septímio buscou apoiar suas pretensões dinásticas no nomemantoninorum, comparando a noção nomem com aquela de numem, como se autilização do nome dos Antoninos em si fosse capaz de garantir a continuidade dapaz e da prosperidade pelos deuses19. Todavia, não foi apenas no nome que osprimeiros Severos buscaram se aproximar da imagem dos Antoninos. Julien Guey,ao estudar o calendário de Feriale Duranum, percebeu que as legiões estacionadasem Doura-Europos, na Síria, festejavam o dies imperii de Caracala exatamentena mesma data do dies imperii de Trajano (28 de janeiro de 98 d.C. e 28 dejaneiro de 198 d.C.), como se Caracala continuasse as conquistas feitas por seu15 PLUTARCO. Vida de Crasso, p. 31.16 BRIZZI, O guerreiro..., p. 119.17 FERRILL, A. A queda do Império Romano: a explicação militar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989, p. 30.18 PALMER, R. E. A . Severan ruler-cult and the Moon in the city of Rome. Aufstieg Niedergang Romischen Welt. Berlin, v.2, n.16, parte 2, 1978, p. 1086.19 FEARS, J. R. Princeps a Diis Electus: the divine election of the emperor as a political concept at Rome. Rome: American Academy in Rome,1977, p. 278.14 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  15. 15. antepassado, que também lutou contra os partos20. A guerra de Trajano contra os partos, travada entre 114 e 117 d.C., pode serinterpretada como uma tentativa de criar uma fronteira mais forte pela presençade barreiras naturais (rios Tigre e Eufrates), como aponta Edward N. Luttwak21.Mas, além disso, revestia-se de outras cores. A região próxima à Pártia era repletade “estados-clientes” de Roma, isto é, regiões ou cidades que se mantinhamrelativamente autônomas se respeitassem os acordos feitos com os romanos, quetinham que apoiar seus soberanos. Qualquer troca de chefes sem o acordo deRoma era encarada como declaração de guerra aos romanos. Em 113 d.C., Chrosroe, rei dos partos desde 110 d.C., havia promovido umatroca de reis na Armênia, “estado-cliente” de Roma. Axidares, que contava com oapoio dos romanos, foi substituído no poder armênio por Parthamasiris, da famíliados Arsácidas, reinante na Pártia. Em 114 d.C., legiões romanas, tendo Trajano àfrente, invadiram a Armênia e a Mesopotâmia. Parthamasiris depositou seudiadema real aos pés de Trajano e pediu o aceite de Roma ao seu poder na Armênia.Todavia, Trajano percebeu que tal ato fortalecia por demais o poder dos partossobre o Oriente e as legiões romanas acabaram por invadir e ocupar Ctesifonte,capital parta, promovendo a fuga do monarca e se apossando do trono de ouro dorei dos partos. Atacaram também a região de Adiabene (Assíria) e criou-se aprovíncia da Mesopotâmia/ Assíria22, com a intenção de tributar as cidades daregião recém-conquistada e controlar as rotas comerciais que vinham da Índia.Antes de partir, Trajano coroou Parthamaspates rei dos partos e passou a considerara Pártia “estado-cliente” romano. Ao retornar desta empreitada, Trajano morreuna Cilícia. As novas terras conquistadas se rebelaram, e seu sucessor, Adriano,preferiu abandonar as novas províncias, não sem antes refazer seus tratados coma Armênia e a região de Osroene, que considerava mais ricas e interessantes paraos romanos. Dion Cássio afirma que as batalhas de Trajano contra os partos foram umaempresa motivada simplesmente pelo seu desejo de glória23. Contudo, parece-nosque Trajano queria, ao atacar os partos, garantir a predominância de Roma sobreos “estados-clientes” orientais, cuja ascendência disputava com os partos, protegera recém empreendida conquista da Dácia com uma fronteira natural fluvial e seaproximar dos grandes feitos alexandrinos, mesmo tendo mais de sessenta anosde idade. Joel Le Gall e Marcel Le Glay defendem que a opinião romana, feliz coma conquista da Dácia, teria feito pressão sobre o Imperador para aproveitar aempreitada e eliminar o perigo pártico, povo visto como detentor de costumesexóticos e mentes traiçoeiras24.20 GUEY, J. 28 Janvier 98 - 28 Janvier 198 ou Le Siècle des Antonins. Revue des Études Anciennes. Paris, v. 50, n. 1-2, 1948, p. 62.21 LUTTWAK, E. N. La grande strategia dell’Impero Romano. Roma: BUR, 1997, p. 146.22 EUTROPE. Abrègé de l’Histoire Romaine. Traduction et introduction par Maurice Rat. Paris: Garnier, 1990, VIII, 3.2. DIO CASSIUS. Dio’s Roman History. Vol. 9. Translation by Earnest Cary. London: William Heinemann, 1961, LXVIII, 18.3 e 19.2.23 DIO CASSIUS, Dio’s Roman History, LXVIII, 17.1.24 LE GALL, J.; LE GLAY, M. L’Empire Romain. Paris: PUF 1989, p. 432-433. , [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 15
  16. 16. Os partos atacaram “estados-clientes” romanos em 161-162 d.C., já no governocolegiado de Marco Aurélio e Lúcio Vero. O rei Vologeso III invadiu a Armênia e aSíria, procurando expandir os domínios territoriais partos. Foi o próprio LúcioVero quem foi à frente das legiões romanas enviadas para combater mais uma vezos partos. Novamente, Ctesifonte foi invadida, pilhada e destruída, mas a regiãopermaneceu fora do limes, pois os partos aceitaram assinar um acordo no qualdevolviam as regiões conquistadas previamente e entregavam aos romanos a cidadede Doura-Europos (166 d.C.). A cidade de Carras, de tão má lembrança para osromanos, foi reduzida à condição de colônia. Além disso, uma peste dizimou boaparte das legiões que estavam no Oriente e os Quados e Marcomanos atacaram aregião do Reno-Danúbio. A ameaça parta permaneceu, assim, esporádica. De acordo com Polieno, que escreveu sua obra Estratagemas após a vitória deVero e Marco sobre os partos: “A vitória contra persas e partos, sacratíssimos Imperadores Antonino e Vero, a obtiverdes com a ajuda dos deuses, de vossa virtude e do valor dos romanos, com os quais sempre, tanto antes como agora, podeis vencer as guerras e batalhas que se apresentam.” 25 Para se vencer um inimigo estrangeiro se deveria contar com a ajuda divina, avirtude e a autoridade humanas. E os Severos sabiam bem disso. Após o assassinatode Pertinax por membros dos Pretorianos, quatro homens receberam a aclamaçãoimperial: Dídio Juliano, Septímio Severo, Pescênio Nigro e Clódio Albino. Severosomente conquistou o poder único e soberano após a realização de várias guerrascivis. Entre as batalhas travadas contra as forças de apoio de Nigro e os combatescontra os defensores de Albino, Septímio atacou os partos. Tornava-se necessáriodemonstrar aos romanos que Severo era capaz de vencer não apenas inimigosinternos, mas também expandir o território romano. Só se ganhava fama e glóriacom ataques a povos estrangeiros, como indica Herodiano: “(...) Querendo ganhar fama que não se limitasse a uma vitória civil contra exércitos romanos - vitória que o envergonhava celebrar como um triunfo - e desejando levantar troféus por seus êxitos frente aos bárbaros, apresentou como pretexto a amizade de Barsemio, rei de Hatra, com Nigro e iniciou uma campanha contra o Oriente.” 26 O mesmo desejo de glória aparece descrito na obra de Dion Cássio: “Severo, com o desejo de conquistar a glória, empreendeu uma campanha contra os bárbaros - os osroenos, os adiabenos e os árabes.”2725 POLIENO. Estratagemas. Traducción y notas por José Vela Tejada y Francisco Martín Garcia. Madrid: Gredos, 1991, I.1.26 ERODIANO. Storia dell’Impero Romano dopo Marco Aurelio. Testo e versione di Filippo Càssola. Firenze: Sansoni, 1967, III, 9.1.27 CASSIO, Dio’s Roman History, LXXV, 1.1.16 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  17. 17. Quando começou o ataque a Nigro, Severo enviou cartas pedindo o apoio dosreis da Armênia, de Hatra e da Pártia. O rei armênio acusou neutralidade; o rei deHatra enviou um grupo de arqueiros para apoiar Severo; e o rei dos partos pediutempo para reunir um exército, tentando na realidade se esquivar da luta28. Severoconsiderou isso uma traição. Com a justificativa de perseguir os amigos de Nigro, que haviam fugido juntocom ele em direção ao território parto (194 d.C.), Severo, sem atacar diretamenteos partos, quis restabelecer a autoridade junto aos sírios, árabes e mesopotâmicos,que tinham aproveitado a desorganização imperial causada pelas guerras civispara se revoltarem. Como afirma Aristide Calderini, Severo quis empreender umaexpedição punitiva contra soberanos e cidades orientais que haviam apoiado, diretaou indiretamente, Nigro: partos, armênios, adiabenos, osroenos, árabes29. Apesar de chamar a expedição de Pártica, Septímio e suas legiões atacaram asregiões de Osroene e de Adiabene, limítrofes com a Pártia, seguindo os passos deTrajano, anexando-as. A invasão foi feita no período menos propício e, pelo fatodos rios estarem vazios, vários barcos tiveram que ser carregados nas costas pelossoldados, seguindo-se as margens dos rios. Mas, para Dion Cássio, Severo estavaprotegido pelas divindades, pois, assim que ele ingressou no seco território oriental,um grande temporal atingiu suas legiões, que puderam fazer um suprimento deágua30. Segundo Herodiano, com os soldados de Nigro, os partos e seus vizinhosaprenderam melhores técnicas de combate corpo a corpo, a se cobrirem comarmamento completo e a fazer armas com tecnologia romana, o que os tornavamuito mais perigosos em termos militares31. Severo teve que retornar a Roma rapidamente quando, em 196 d.C., ClódioAlbino se fez proclamar Imperador na Bretanha, descontente de ter sido afastadoda sucessão imperial pelo título de Imperator Destinatus concedido a Caracalaapós as batalhas no Oriente. Com a eliminação de Albino em 197 d.C. e a reorganização das fronteiras noOcidente, Septímio estava livre para consolidar a fronteira oriental, da qual tinhasaído apressadamente. O próprio Príncipe capitaneou a invasão da Pártia. O reiparta Vologeso IV fugiu ao ser informado da entrada das legiões severianas em seuterritório, permitindo que Severo e seus soldados pilhassem Ctesifonte mais umavez, em 197 d.C. Por isso e pelo fato de boas correntes marítimas terem conduzidoos barcos de Severo até Ctesifonte, Herodiano afirma que foi mais por sorte doque por estratégia que foi celebrada a vitória contra os partos32. No ano seguinte, Severo recebeu do Senado os títulos de Parthicus Maximus,Arabicus e Adiabenicus, e após as operações bélicas proclamou Caracala Augusto28 ERODIANO, Storia dell’Impero…, III, 1.1.29 CALDERINI, A. I Severi. Bologna: Licinio Cappelli, 1949, p. 59.30 DIO CASSIUS, Dio’s Roman History, LXXV, 2.1.31 ERODIANO, Storia dell’Impero…, III, 4.7-9.32 ERODIANO, Storia dell’Impero…, III, 9.12. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 17
  18. 18. e Geta César (Geta só viria a se tornar Augusto em 209 d.C.). Com esta vitória,Severo havia consolidado a fronteira oriental nos limites naturais impostos pelosrios Tigre e Eufrates, recriando a província da Mesopotâmia/Assíria, implantadaanteriormente por Trajano. Voltou, então, para a região mesopotâmica para tentarconquistar Hatra por duas vezes, sem sucesso. Destarte, como ressalta Dion Cássio, Severo não acreditou ser oportuna aconservação da conquista, visto que a expedição havia sido mais punitiva que deconquista e havia perdido um contingente muito grande de homens para ter quedeixar muitas tropas tomando conta dos territórios recém-conquistados33. Tantoque ele deixou apenas as legiões I e III Párticas na Mesopotâmia, e retornou juntocom a II legião Pártica para Roma. A partir de 214 d.C., Caracala, como seu pai e antecessor, empreendeu váriasviagens ao Oriente, buscando se assemelhar a Alexandre Magno. Como indicaHerodiano: “De repente, ele se converteu num novo Alexandre. Por todos os meiosrestaurou sua memória e ordenou que em todas as cidades se pusessem suas imagense estátuas”34. Todavia, esta decisão de Caracala não foi repentina. Ele haviamandado matar Geta e seu grupo de apoio, proclamado a Constitutio Antoniniana(212 d.C.) e precisava inspecionar as províncias e as legiões. Por isso, foi primeiroao Ocidente e depois ao Oriente. Caracala deixou Roma com sua mãe, Júlia Domna, e seu Prefeito do Pretório,Opélio Macrino, para empreender uma guerra contra armênios e partos35, sonhandoem repetir os feitos do macedônio Alexandre. Porém, quando chegou a Antioquia,o rei parto Vologeso V se apresentou a ele e lhe deu de presente a morte do rei daArmênia, Tirídate, que não andava respeitando as ordens romanas, e do filósofocínico Antíoco, que havia feito críticas públicas ao governo de Caracala. Comisso, o Imperador não tinha mais justificativas para atacar a Pártia. Em 216 d.C., o Príncipe deixou o Egito e retornou a Síria. Lá foi informado queVologeso V havia sido destronado por seu irmão Artabano, contrário à manutençãode acordos com os romanos. Caracala, então, propôs casamento a uma princesaparta, querendo imitar Alexandre, que havia desposado Roxane, uma estrangeira,e por considerar a Pártia o único Império que havia rivalizado com Roma em todaa sua história. Como o rei parto Artabano V se negou a ceder uma de suas filhas,Caracala viu neste ato uma justificativa para invadir seu território e pilhá-lo. ParaHerodiano, ele buscava a glória: “Não muito depois (do massacre dos alexandrinos no Egito) lhe acometeu o desejo de receber o título de Pártico e de comunicar aos romanos que havia vencido os bárbaros do Oriente. Ainda que reinasse uma completa paz, ele maquinou um plano. Escreveu ao rei dos partos (...). Na carta, lhe dizia que desejava casar-se com sua filha (...). Dizia-33 CASSIO, Dio’s Roman History, LXXV, 9.4 e 12.1.34 ERODIANO,Storia dell’Impero…, IV, 8.1. Caracala’s life. In: The Scriptores Historiae Augustae. Translation by David Magie. London: William35 Heinemann, 1953, 6.1.18 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  19. 19. lhe também que o império dos romanos e o dos partos eram os mais poderosos; que, se se unissem pelo matrimônio, estando apenas separados por um rio, constituiriam um único império invencível (...). Ainda que os romanos tenham uma infantaria invencível no combate corpo a corpo com lanças, os partos contavam com uma numerosa cavalaria de provada pontaria com o arco. (...) Por outro lado, as plantas aromáticas que crescem na terra dos partos ou os metais que fabricam os romanos ou seus apreciados produtos manufaturados já não seriam passados por contrabando pelos comerciantes em dificuldades e penúria, mas que ao serem um só território sob um só poder também se unificaria o consumo e se suprimiriam as travas comerciais.” 36 Desta forma, vemos como Herodiano identifica motivos políticos e econômicospara a invasão da Pártia. Caracala atacou Arbela, capital da região de Adiabene,permitindo que seus soldados pilhassem as tumbas dos antigos reis, fato quepossivelmente desagradou às divindades, segundo Dion Cássio, pondo em perigotodo a atividade bélica37. Para Dion Cássio, a expedição de Caracala contra os partos e seus vizinhos foitão sem atrativos, sendo apenas um empreendimento de pilhagem, que ele preferiucontar uma pequena anedota para rir da estupidez dos soldados de Caracala, emsua obra, ao invés de descrever as batalhas travadas: “Não encontramos nenhum interesse especial no relato dos incidentes que marcaram esta campanha, exceto por uma pequena anedota. Dois soldados haviam pilhado juntos uma garrafa feita de pele contendo vinho. Cada um quis ficar com a garrafa e para isso procuraram o Imperador. Ele ordenou que eles dividissem igualmente o vinho. Cada soldado sacou de sua espada e cortou a garrafa ao meio. Percebendo que haviam perdido todo o seu conteúdo, fizeram uma pequena reverência ao Imperador, que ria, pois haviam exercido sua pequena inteligência ao perderem ambos tanto a garrafa quanto o vinho.” 38 Quando saía de Edessa para Carras (Assíria), pretendendo pedir a proteção dadeusa Selene para a nova empreitada contra os partos, Caracala foi assassinadopor ordem de Macrino, que preferiu um acordo com os partos (pagou duzentosmilhões em moedas de prata e em presentes para que os partos desistissem deinvadir a Mesopotâmia). O acordo foi considerado desastroso pelos romanos. Os partos não invadiram mais territórios de “estados-clientes” dos romanos eacabaram sendo dominados pelos persas sassânidas em 224-226 d.C. Os partosnunca se expandiram além da Síria e da Capadócia, mas sempre incomodaramos romanos, pois permaneceram sendo até o III século d.C. a única potência comcerta importância no Oriente, capaz de incomodar os “estados-clientes” de Roma.36 ERODIANO, Storia dell’Impero…, IV, 10.4-5.37 DIO CASSIUS, Dio’s Roman History, LXXIX, 1.2.38 DIO CASSIUS, Dio’s Roman History, LXXIX, 1.4-5. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 19
  20. 20. Nas obras do IV século d.C., aparecem referências a estas expedições párticaspraticadas pelos primeiros Severos (Severo39 e Caracala40). Por exemplo, AurélioVictor indica que Severo demonstrou que era um general felix e sábio ao combateros partos e um bom administrador ao não tributar os adiabenos, percebendo quesuas terras eram por demais estéreis devido à secura do seu território41. Já naHistória Augusta, ressalta-se que após vencer os partos, Severo recebeu do Senadoo direito de realizar um triunfo, mas declinou, pois não poderia se manter de pédurante todo o ritual, devido aos males que sua gota lhe causava42. Até na passagemdo V para o VI século d.C., na obra de Zózimo, Nova Historia, por exemplo, aindase encontram referências aos feitos bélicos dos primeiros Severos contra os partos43,demonstrando a permanência de sua importância no imaginário, sua inserçãoindubitável na memória política e bélica dos romanos. Portanto, as incursões dos Severos nas terras partas buscaram garantir asoberania romana no Oriente, alem de enriquecer o aerarium com as pilhagens,agradar os soldados, demonstrar a coragem e a capacidade estratégica dos Príncipese fortalecer os laços de Roma com seus “estados-clientes”. Conseguiram tambéminscrever seus nomes entre aqueles que pretenderam fortificar as fronteiras e vingaros romanos de desastres bélicos do passado. RESUMO ABSTRACTO objetivo deste artigo é analisar algumas The objective of this article is to analyse somedas várias batalhas travadas entre romanos battles jointeds among romans and partianse partos ao longo da República e do peoples during the Roman Republic and thePrincipado, utilizando para tanto as obras de Roman Empire, using the Plutarchus, DioPlutarco, Dion Cássio, Herodiano, Polieno, Cassius, Herodianus, Polienus, Eutropius,Eutrópio, Aurélio Victor e Zózimo. Aurelius Victor and Zozimus’ Works.Palavras-Chave: História Romana; Keywords: Roman History; Military Activity;Atividade Militar; Império Romano. Roman Empire.39 EUTROPE. Abrègé de l’Histoire Romaine. Traduction et introduction par Maurice Rat. Paris: Garnier, 1990, XVIII, 1.4.40 EUTROPE, Abrègé de l’Histoire Romaine, XX, 1.1.41 SEXTUS AURELIUS VICTOR. Histoire des Césars. Traduit par Pierre Dufraigne. Paris: Les Belles Lettres, 1975, XX.42 Severo’s life. In: The Scriptores Historiae Augustae, XVI.43 ZOZIMO. Nueva Historia. Traducción y notas por José Maria Candau Moron. Madrid: Gredos, 1992, 8.1.20 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  21. 21. O ESCRAVO NEGRO NOS PRIMEIROS ESCRITOS COLONIAIS (1551-1627) Raimundo Agnelo Soares Pessoa1 Tentar achar regularidades discursivas para todo o período colonial brasileiropode ser tarefa vã. Contudo, é possível perceber facilmente que, em determinadosmomentos do referido período, certos padrões discursivos foram recorrentes. Masé preciso não apressar as inferências, pois, na prática, a questão não se mostra deforma tão direta e simples assim. As questões centrais acerca da escravidão negra na América Portuguesa sãorazoavelmente bem conhecidas. Todos já ouviram falar, por exemplo, dos castigosfísicos, das formações quilombolas, dos suicídios, dos filicídios etc.; em suma, doteor violento e paradoxal da escravidão negra. Os letrados do período colonial, emespecial os clérigos, a partir da segunda metade do século XVII, não mediramesforços em prol de “educar” os senhores de escravos para que dispensassem umtratamento mais “humanizado e cristão” aos de guiné. O que nem todos sabem éque no primeiro século de colonização efetiva do Brasil, de acordo com os escritosconhecidos, o discurso predominante foi diametralmente oposto ao dos séculosposteriores. Mesmo mentes tidas como mais arejadas, como é o caso do padreAntonio Vieira, disseram muito pouco acerca da escravidão negra. O objetivodeste texto é mostrar, mesmo que não exaustivamente, o tratamento “natural”dispensado ao homem africano na América Portuguesa nos primeiros tempos decolonização. Abordaremos aqui somente esse primeiro momento. Limitar-nos-emosassim, aos primeiros setenta ou oitenta anos da chamada ocupação efetiva daspossessões portuguesas na América (1551-1627). Ao longo desse período, o negroregularmente apareceu como elemento figurante na trama da escravidão na AméricaMeridional, trama, cujo papel principal, foi ocupado pelas verdadeiras grandezasdo Brasil: a terra e o índio. Assim, tomando como referência o discurso sobre a escravidão negra éfacilmente perceptível que, no século XVI e primeiras décadas do XVII, os escritoscoloniais pouco se referiram ao negro2. E sua complexidade era qualitativamentepobre. As discussões aí existentes não ultrapassavam a simples constatação deque o homem africano era apenas mais um tipo humano na América Portuguesa,em muitos casos um personagem secundário em relação às verdadeiras grandezasdo Brasil. Tal situação, no entanto, começou a mudar substancialmente ainda nas1 Doutorando em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Franca).2 A data do primeiro texto que trata da escravidão negra de forma mais aprofundada é o Sermão XIV, da série Rosa Mística, do Pe. Antônio Vieira, S.J. Foi pregado a uma Irmandade de pretos na Bahia, em 1633. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 21
  22. 22. primeiras décadas do século XVII, momento a partir do qual assistimos aoaparecimento dos primeiros textos inteiramente dedicados à escravidão negra. A referência à escravidão negra sempre foi recorrente nos textos coloniais, quersejam esses leigos ou religiosos. Entretanto, como é sabido, isso não diz tudo. Emqualquer estudo comparativo que tenha como objeto, por exemplo, o gentio, emcontraposição ao africano, nos primeiros escritos coloniais, será percebido deimediato que ao homem imigrado compulsoriamente deu-se pouquíssimaimportância, diferentemente do gentio que foi analisado em todos os aspectos desua existência - do moral ao material. O homem africano aparece nesse discursocom características bastante precisas, as quais podem ser enquadradas, de modogeral, em três categorias distintas: pelo aspecto exótico; pelo aspecto quantitativo,isto é, o quanto em mão-de-obra negra, ou simplesmente como parte dos cabedaisnecessários para os homens brancos que se aventuravam na empreitadacolonizadora da América.Os primeiros letrados e seus escritos Tomando como parâmetro de apreciação a ordem cronológica dos autores eprodução dos seus respectivos textos, o primeiro a ser relatado aqui é o PadreManuel da Nóbrega (1517-1570). Este inaciano, nascido em 1517, desembarcouno Brasil em 1549, com o grupo dos primeiros jesuítas que aqui aportaram emcompanhia do governador-geral Tomé de Sousa. Por estas terras viveu 21 anos,falecendo em 1570 no Rio de Janeiro. O resto de sua biografia e sua obra escritae missionária dispensa comentários e apresentações. Cabe somente especificarquais escritos do jesuíta serão utilizados neste texto. Lançaremos mão de cincoepístolas - comunicações oficiais das atividades dos jesuítas para com seussuperiores na Europa, especialmente na Itália e em Portugal -, datadas de 1551,1552, 1557 e 1559. O segundo inaciano de que nos ocuparemos é o Pe. Antônio Pires, S.J. (1519-1572). Esse jesuíta nasceu em torno de 1519, natural de Castelo Branco (Portugal),entrou, já padre, para a Companhia de Jesus em 1548, e pertenceu também aogrupo dos primeiros jesuítas que aqui chegaram em 1549. Ocupou alguns cargosimportantes na Companhia de Jesus, entre eles, Superior e Visitador dePernambuco. E por aqui viveu o resto de sua vida - Pires morreu na Bahia emmarço de 15723. Desse letrado, utilizar-se-á uma carta datada de 1552, enviadapara os seus irmãos de Companhia em Lisboa. Após a apresentação de dois jesuítas, façamos uma pequena pausa nos letradosinacianos e passemos àquele que já foi considerado como precursor da historiografiabrasileira: Pero de Magalhães Gândavo4. E aqui começam as agruras de quem semete a pesquisar os primeiros tempos da América Portuguesa, a saber: a falta defontes ou, como no caso de Gândavo, a incerteza ou a escassez de dados acerca3 LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1938-1950, Tomo IX, p. 58.4 RODRIGUES, José Honório. História da história do Brasil - 1ª parte: Historiografia colonial. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979, p. 267-268.22 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  23. 23. de uma determinada fonte. A seu respeito, pouco se sabe. Apenas que era português,natural de Braga e, ao que tudo indica, foi nomeado para o cargo de provedor dafazenda de Salvador, na Bahia de Todos os Santos, por um período de seis anos,por volta de 1576. Dessa estadia na América Portuguesa, Gândavo aproveitou ecolheu informações suficientes para escrever um livro, cuja redação final,provavelmente, ocorreu em Portugal quando de seu regresso do Brasil. Não menosmistérios cercam os seus escritos. Pois, como salienta José Honório Rodrigues, atérecentemente se pensava que Gândavo havia escrito duas obras distintas: o Tratadoda terra de Santa Cruz5 e História da Província de Santa Cruz. Entretanto, ainda deacordo com Rodrigues, e considerando “o melhor estudo”6, feito pelo filólogoEmmanuel Pereira Filho, a História da Província de Santa Cruz é, na verdade, aredação definitiva das duas versões refundidas e ampliadas do Tratado. Desvendado, em parte, os mistérios dos textos, ou melhor, do texto de Gândavo,se assim podemos dizer, apresentemos, em linhas gerais, o conteúdo do seu escrito.O texto começa relatando o descobrimento da terra de Santa Cruz, em seguidanomeia os primeiros donatários, disserta sobre a fauna e a flora local - se não deforma exaustiva, ao menos substancial -, descreve os hábitos e costumes dosmoradores, em especial do gentio, e termina exaltando as grandezas econômicas enaturais da terra7. Retornando às descrições acerca dos inacianos, é chegado o momento de apontara contribuição do Pe. Fernão Cardim, S.J. (1550-1625). Esse jesuíta nasceu em1550, entrou para Companhia de Jesus com 16 anos, em 1566, e chegou ao Brasilem 1583, por aqui viveu 42 anos - morreu em janeiro de 1625, na Bahia. Cardimocupou vários cargos importantes na Companhia de Jesus, dentre os quais sedestacam o de Reitor do Colégio Baiano, por duas vezes, e de Reitor do Colégio doRio de Janeiro, além de Provincial, cargo mais alto existente na Companhia naAmérica Portuguesa8. Para a história dos primeiros tempos da América Portuguesacontribuiu, o sacerdote, com três textos: Do clima e terra do Brasil; Do princípio eorigem dos índios; e Informação da missão do P. Cristóvão de Gouvêa às partes doBrasil, ano de 83 [1583] ou Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica.As três obras, apesar de pertencerem ao mesmo letrado e lembrarem muito aspartes de um único livro, foram originalmente produzidas isoladas, e somente em1925, reunidas em uma única edição, como o título de Tratados da terra e gente doBrasil. Tomando como referência o conteúdo dessa obra, se assim podemos descrevê-la, ela apresenta a seguinte estrutura: em Do clima e terra do Brasil, Cardim abordaos aspectos físicos do Brasil (clima, terra, fauna e flora), descrição, aliás,razoavelmente acurada; Do princípio e origem dos índios traz um relato etnográfico5 O tratado circulou em Portugal em duas versões: uma dedicada à Rainha D. Catarina e outra dedicada a um certo cardeal Infante D. Henrique.6 RODRIGUES, História da história..., p. 429.7 GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da terra do Brasil. In: Cadernos de História. São Paulo: Parma, 1979; RODRIGUES, 1979, p. 431.8 CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro: J. Leite e Cia., 1925; RODRIGUES, História da história..., p. 265. LEITE, História da Companhia..., Tomo VII, p. 4-7. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 23
  24. 24. dos costumes do gentio; Narrativa epistolar é, entre os três textos, o que mais nosinteressa, pois é nele que está contida a descrição de uma missão jesuítica a algumasdas províncias do Brasil (Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo,Rio de Janeiro, São Vicente, etc.). Aí aparecem informações interessantes a respeitodas capitanias, a começar pela descrição minuciosa do mundo dos engenhos deaçúcar em Pernambuco e na Bahia - relato que inclusive chega a quantificar algunsaspectos desse universo. Cardim descreve, ainda, aspectos dos costumes locais,assim, em “muito contribuiu para o estudo da história social das primeiras épocas”9. Depois dessas rápidas linhas sobre o Pe. Fernão Cardim, é a vez de tecermosalguns comentários a respeito do novo taumaturgo do Brasil, José de Anchieta,S.J. (1534-1597). Nascido em 1534, nas Canárias, com ascendência espanhola,entrou para a Companhia de Jesus aos 17 anos de idade. Em 1553, chegou aoBrasil e por aqui viveu o resto de sua vida, morrendo em junho de 1597; depois de44 anos habitando na terra dos papagaios. Anchieta ocupou os principais cargosda Companhia no Brasil, além disso, foi professor, poeta, dramaturgo, epistológrafoe enfermeiro. Assim como Manoel da Nóbrega, Anchieta também apresenta-se porsi só, é notória a sua biografia e obra missionária no Brasil. Dos escritos do famosojesuíta, interessa-nos aqui: a) Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões,em que o inaciano descreve a vida inicial e primitiva do Brasil, fixando váriosaspectos dos primeiros contatos entre portugueses e índios, além de trazer excelentesinformações sobre o trabalho missionário, e apresenta ainda um relato dos primeirosengenhos de açúcar e seu desenvolvimento no Brasil. b) Informações do Brasil e desuas capitanias10, documento precioso que: Descreve o estado das capitanias, com os governadores e capitães- mores, bispados e prelados, a primeira entrada dos franceses no Brasil, dá notícia dos frades que, antes e depois da Companhia de Jesus, vieram ao Brasil, e das ocupações e trabalhos dos jesuítas. Trata também minuciosamente das freguesias e engenhos de açúcar existentes nas capitanias de Pernambuco, Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo, S. Vicente, etc., dos colégios da Companhia e de seus reitores, das relíquias e indulgências, dos costumes dos brasis, dos impedimentos para sua conversão e, depois de convertidos, para seu aproveitamento nos costumes da vida cristã.11 Gabriel Soares de Sousa (?-1591) foi outro letrado leigo que deixou suasimpressões acerca do Brasil. E novamente, assim como no caso de Gândavo, aslacunas de informações básicas são inegáveis. A respeito da vida pregressa deSousa até sua instalação na América Portuguesa, não há um só dado que sejaconsistente. Assim sendo, diante desse quadro de silêncio biográfico, só nos resta9 RODRIGUES, História da história..., p. 267.10 Segundo José Honório Rodrigues a edição da Academia Brasileira de Letras atribuiu erroneamente a autoria a José de Anchieta, de acordo com ele, coube a Serafim Leite demonstrar “cabalmente que seu autor” é outro jesuíta, o padre Fernão Cardim. RODRIGUES, História da história..., p. 258- 261.11 RODRIGUES, História da história..., p. 261.24 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  25. 25. registrar o pouco que se sabe até o momento sobre esse letrado. Natural de Portugal,chegou ao Brasil ao redor de 1569. Por aqui, construiu uma pequena fortuna comosenhor de engenho e outros cabedais. Contudo, depois de dezessete anos de estadiano Brasil, Sousa, em decorrência de uma herança deixada por seu irmão, osertanista João Coelho de Sousa12, regressou à Europa dirigindo-se à Coroaespanhola13 em busca de concessões e privilégios para exploração das tais minas.Assim, certo de suas idéias e com as licenças em mãos, Sousa, em 1591, embarcoupara o Brasil com o intuito de realizar sua empreitada. Porém, na primeira e únicaexpedição exploradora que veio a organizar, malogrou completamente, malogro,aliás, que custou a sua própria vida. Mas o seu lugar como letrado no rol dosprimeiros escritos coloniais já estava garantido, pois, durante os dezessete anos desua primeira estadia no Brasil, esboçou - já que a redação final ocorreu na Europa- o Tratado descritivo do Brasil em 158714. O texto de Sousa está dividido em duas partes. Na primeira delas, o letradoaborda o descobrimento do Brasil, descreve a topografia de todo o litoral e a lutados desbravadores para povoar as capitanias. É conveniente ressaltar ainda que,entremeada nessa narrativa dos temas apontados aparece também uma descriçãodos costumes do gentio. Na segunda parte, dedica-se às grandezas da provínciada Bahia, nessa, o letrado descreve a província em todos os seus principaisaspectos: topografia, fauna, flora, gentio e economia. O Tratado termina dissertandosobre os metais e pedras preciosas do sertão e acerca das conveniências de suaexploração; encerramento, diga-se de passagem, bastante sugestivo, se tivermosem mente o motivo pelo qual o letrado voltou à Europa - os tais privilégios. Masdeixemos Sousa e seus privilégios, e passemos a um outro letrado leigo, AmbrósioFernandes Brandão. Esse letrado, do ponto de vista biográfico, também está cercado de mistérios,pois, a seu respeito, pouquíssimas coisas se sabe, somente que era português ecristão-novo, radicou-se em Pernambuco e que ali se tornou senhor de engenho. Osurpreendente em relação aos dados biográficos de Brandão é que, mesmo essasparcas informações poderão vir a desmoronar-se, pois esses pouquíssimos dadosestão cercados de interrogações15. Resumindo, há dúvida a respeito da própriaautoria dos Diálogos das grandezas, como também, se o Ambrósio FernandesBrandão, a quem se tem atribuído à autoria dos Diálogos, seja o mesmo AmbrósioBrandão, cristão-novo e senhor de engenho em Pernambuco. Entretanto, o estudode crítica de atribuição, ou a falta deste, como no caso de Gândavo, não édeterminante, pois o que nos interessa como os escritos mencionados é encontraruma regularidade discursiva e, nesse aspecto, a autoria em si - problema, inclusive,12 Um roteiro das minas, acompanhado de amostras de ouro, prata e pedrarias.13 Note que naquela época o reino de Portugal estava anexado ao de Espanha, em decorrência da morte do monarca português (União Ibérica: 1580-1640).14 SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Companhia Editora Nacional; Edusp, 1971; RODRIGUES, História da história..., p. 433-435.15 RODRIGUES, 1979, p. 371-76. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 25
  26. 26. estranho à época de Brandão -, pouco ou nenhuma contribuição pode nos dar16.Assim, se tais lacunas não invalidam a fonte e não comprometem o andamento dadiscussão, resta, então, mesmo que em linhas gerais, dizer de que trata os Diálogosdas Grandezas. Esse livro de 1618 é composto de seis diálogos entre Alvino e Brandônio, oprimeiro personagem, imigrado há pouco para a América Portuguesa, é ignorantee desafeiçoado de suas coisas; o segundo, Brandônio, é conhecedor e entusiastada colônia - Brandônio, provavelmente, dava voz ao compositor da obra17. O primeiro diálogo é uma espécie de introdução geral às riquezas da terra, àsua fertilidade e às suas potencialidades; em seguida, ainda nesse primeiro diálogo,há uma descrição de cada uma das capitanias da época. Na segunda seção, diálogodois, Ambrósio Brandão aborda as condições climáticas do Brasil e a adaptaçãodo homem autóctone a esse meio. O terceiro, descreve as riquezas econômicas daterra, nomeadamente o açúcar e as outras atividades ligadas à produção açucareira.No quarto e quinto diálogos, surge uma discussão acerca dos nomes dos elementosque compunham a fauna e a flora da América Portuguesa. O sexto e último diálogoocupa-se dos costumes e hábitos dos moradores, em especial dos gentios18. Até aqui havíamos discorrido somente sobre os “letrados europeus”, todavia, aterra também tem seu representante: Frei Vicente do Salvador, O.F.M. (1564-1636-9?), o último dos letrados desse grupo, e o único brasileiro entre os escritoresarrolados. Esse franciscano, nascido na Bahia em 1564, era filho de lavrador deengenhos de açúcar e formado em teologia pela Universidade de Coimbra. NoBrasil, ocupou alguns cargos burocráticos na sua Ordem e cumpriu às vezes demissionário de índios na Paraíba, em Olinda, na Bahia e no Rio de Janeiro. Entre1636 e 1639, não se sabe ao certo, deixou a causa evangélica terrena, atendendoao chamado do Superior. Frei Vicente do Salvador legou-nos, como observou José Honório Rodrigues,“um dos livros mais saborosos do Brasil seiscentista”19. A História do Brasil,finalizada em 1627, de estilo simples e sem artifícios, está dividida em cinco partes(livros). Primeiramente, no livro um, Frei Vicente descreve o descobrimento doBrasil, seu clima, sua fauna, sua flora e os costumes do gentio. No segundo livroaborda o regime das donatarias e seus donatários. E nos três livros restantes fazuma história centrada nos personagens centrais da burocracia governamental, emespecial nos governadores-gerais. Intercaladas a essa história oficiosa, aparece orelato dos costumes dos moradores do Brasil, que certamente é uma das maisinteressantes contribuições da História do Brasil.16 CHARTIER. Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Brasília: Editora da UnB, 1994.17 BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das grandezas do Brasil. Rio de Janeiro: Dois Mundos Editora, 1943. RODRIGUES, História da história..., p. 371-73.18 BRANDÃO, Diálogos...; RODRIGUES, História da história..., p. 371.19 RODRIGUES, História da história..., p. 490.26 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  27. 27. O elemento negro no discurso sobre a escravidão O homem africano, como mencionado, aparece regularmente nos escritos dosprimeiros tempos coloniais. Todavia, é sempre bom lembrar que este nunca é onúcleo do tema discutido. Mesmo assim, partindo-se das referências ao homemafricano nos textos referidos, é perfeitamente possível demarcar e mapear suapresença, tomando como ponto de partida a regularidade de sua aparição e ascircunstâncias das menções específicas. Para executar tal tarefa, isolaremos ascircunstâncias em que o negro aparece, no que denominamos de cortes temáticos,os quais, como quaisquer outros desse tipo, são arbitrários e somente se sustentamna idéia de que esses escritos, mesmo pertencendo a letrados distintos, são passíveisde ser agrupados numa série em virtude de certas regularidades enunciativas -mesma maneira de abordar o objeto, de definir os conceitos, de escolher os temas.20 Desse modo, guiado por tal sistemática, elegemos alguns eixos de menções. Oprimeiro deles de que nos ocuparemos é o denominado auxílio régio lusitano àcausa evangélica na América portuguesa. Em torno desse eixo, contabilizamosquatro referências ao africano nos escritos aqui em análise21. A primeira dessasaparições está numa carta do Pe. Manuel da Nóbrega dirigida a D. João III, Rei dePortugal, datada de 14 de setembro de 1551 (Olinda - PE). Nessa carta, Nóbregaaconselha o monarca português das conveniências de se investir na infra-estruturadas acomodações dos religiosos para um melhor desempenho da causa evangélica: E mande ao governador [Tomé de Sousa] que faça cassas para os meninos, porque as que tem sam feitas por nosas mãos e são de pouque dura, e mande dar alguns escravos de G[u]iné hà cassa pera fazerem mantimentos, porque a terra hé tam fértil, que facilmente se manteram e vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que fação roças de mantimentos e algodoais.22 Em outra carta, enviada da Bahia em julho de 1552, o Padre Manuel da Nóbregacomunicava ao Simão Rodrigues, Provincial de Portugal, as conveniências de El-Rei favorecer a Companhia de Jesus com certas ajudas: Se El-Rei favorecer este e lhe fizer igreja e cassas, e mandar os escravos que digo (e me dizem que mandão mais escravos a esta terra, de Guiné; se assi for podia logo vir provisão pera mais tres meses ou quatro alem dos que a case tem).2320 FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.21 De forma alguma essa contabilização das ocorrências tem o intuito de ser exaustiva. Ela é tão somente um indicativo de tendências, e tem como intuito mapear, nos escritos selecionados, as discussões em torno dos negros.22 NÓBREGA, Manuel da. Cartas. In: LEITE, Serafim (org.). Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil. Lisboa: Tip. Atlântida, 1956-58, Tomo I, p. 293.23 NÓBREGA, Cartas, p. 123. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 27
  28. 28. Um mês depois, em fins de agosto de 1552, em outra carta, Nóbregacomunicava novamente a Simão Rodrigues como se daria a utilização da mão-de-obra escrava, dos de Guiné, pelos padres da Companhia de Jesus, bem comoo seu tempo de duração: “depois que vierão os escravos d’El-Rei, de Guiné a estaterra, tomarão os Padres fiados por dous annos tres escravos, dando fiadores aisso”24. Cinco anos mais tarde, era ainda novamente Nóbrega quem, numa cartaenviada da Bahia, em setembro de 1557, ao então Provincial de Portugal, padreMiguel de Torres, recomendava, com a mesma desenvoltura com que pedia favoresa EL-Rei, o aviamento de certas regalias para melhor atuação da Companhia deJesus no Brasil. E lá estava entre as regalias, o negro de Guiné: [...] digo que se aceite tudo ata [até?] palhas; e digo que se S.A. nos quisese mandar dar huma boa dada de terras, onde aynda não for dado, com alguns escravos de Guiné, que fação mantimentos para esta Casa e criem criações, e asy pera andarem em hum barquo pescando e buscando o necessário, seria muyto acertado.25 Ainda nessa mesma carta, o padre Nóbrega, justificando o motivo da preferênciapelos de Guiné, proferiu que: “[os] escravos da terra não nos parece bem tê-los poralguns inconvenientes. Destes escravos de Guiné manda ele trazer muytos à terra”26.Dezenove anos mais tarde, em 1575, Pero de Magalhães Gândavo, discorrendosobre a província da Bahia, ressaltaria, em certa medida, esse mesmo aspecto dosinconvenientes dos escravos da terra: “e assi ha tambem muitos escravos de Guiné:estes são mais seguros que os índios da terra porque nunca fogem nem têm peraonde”27. O negro figurou também - e esse é o segundo lugar de menções que isolamos -nas descrições das ações missionárias na América Portuguesa. Principiamos osrelatos desse lugar pelo texto, Tratados da Terra e Gente do Brasil, de 1583, dopadre Fernão Cardim. O jesuíta, ao descrever as diligências do Visitador daCompanhia de Jesus à Bahia, dá-nos uma pista de como o negro era visto. Diz opadre que dentre outras atividades desempenhadas pelo Provincial, este “fez fazerum compendio das principais dúvidas que por ca ocorrem, principalmente noscasamentos e baptismos dos índios e escravos de Guiné”28. As considerações deCardim não pararam por aí, relatando o sucesso de suas próprias atividadesmissionárias e dos seus irmãos de ordem na Bahia, asseverou os seguintes dizeresacerca do escravo negro: “[n]os dias de pregação e festas de ordinário havia muitasconfissões e comunhões, e por todas chegariam a duzentas, afora as que fazia umpadre, língua de escravos de Guiné, e de índios da terra”29.24 NÓBREGA, Cartas, p. 403.25 NÓBREGA, Cartas, p. 267.26 NÓBREGA, Cartas, p. 267.27 GÂNDAVO, Diálogos..., p. 82.28 CARDIM, Tratados..., p. 300.29 CARDIM, Tratados..., p. 319.28 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  29. 29. No mesmo tom de sucesso e graça das ações missionárias da Bahia, o padreCardim relata também as atividades desenvolvidas pela a Companhia na Capitaniade Pernambuco, onde, de acordo com o jesuíta, “dia havia em que comungavamalgumas trintas pessoas, afora o grande fructo que um padre língua fazia com osíndios e escravos de Guiné”30. Além, é claro, do grande êxito das missões, em quese fez “grande fructo, baptizaram-se muitos índios e escravos de Guiné, e muitoscasaram em lei de graça”31, e do pólo disseminador da graça, que era o collegio,onde os padres ensinam “ler e escrever, pregam, confessam, e com os índios, enegros de Guiné se faz muito fructo”32. Ainda no rol de escritos e letrados jesuíticos, quem nos legou alguns relatosacerca do escravo africano na América Portuguesa foi o padre José de Anchieta.Esse inaciano, referindo-se às missões, asseverou que: “o método que se adotanestas [...] é, ensinar e explicar a doutrina cristã aos Índios e Africanos reunidos emum lugar”33. Todavia, para além da didática organizativa das missões, Anchietaainda escreveu que “contínuas excursões se fazem aos engenhos de assucar”34, e omotivo é porque nesses, prossegue o jesuíta, “encerram grande quantidade deAfricanos”35. Um outro lugar de menções - o terceiro - aliás, com várias citações ao negro éaquele que descreve os hábitos e costumes dos indígenas da América Portuguesa.Ao todo, catalogamos cinco referências acerca do homem africano. O primeirorelato examinado aqui está numa carta do padre Manuel da Nóbrega, enviada daBahia, em julho de 1559, ao Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa. Ofragmento em questão, versa sobre as famosas revoltas indígenas: Os de Tapariqua obedecerão, mas os do Paraaçu muytos deles não quiserão paz nem dar os escravos, antes tomarão de Pero Gonçalvez, de S. Thomé, com ferramenta que levava, e os negros de Guiné fugirão e esconderão-se pelos matos, e por isso escaparão. Depois sendo requeridos com paz e com restituirem o barquo e os escravos.36 Nessa mesma carta, em outra passagem, Nóbrega discorre a respeito de umacordo entre os reinóis e os índios pacificados, no qual estes ofereciam ajuda àcaptura de um grupo de índios bravos, acusados de assaltarem a roça de um certoAndré Gavião: “onde estavão oito negros de Guiné, doentes e tristes”37. Os índiospacificados se prontificaram a auxiliar na emboscada ao gentio bravo na roça de30 CARDIM, Tratados..., p. 330.31 CARDIM, Tratados..., p. 330.32 CARDIM, Tratados..., p. 335.33 ANCHIETA, José de. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 399.34 ANCHIETA, Cartas..., p. 402.35 ANCHIETA, Cartas..., p. 402.36 NÓBREGA, Cartas, p. 95.37 NÓBREGA, Cartas, p. 101. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 29
  30. 30. André Galvão, e dessa empreitada resultou algumas dezenas de mortos, incluindo-se aí “os oito negros de Guiné”38. Ao relatar um dos hábitos dos tupinambás da Bahia, Gabriel Soares de Sousadisse que esses ameríndios usam de muitos artifícios para se fazerem feios e bizarros.A passagem que faz alusão ao negro é esta: “para se fazerem mais feios se tingemtodos de jenipapo, que parecem negros de Guiné”39. Essa mesma constataçãotambém aparece na Historia do Brasil, de Frei Vicente do Salvador. Ao mencionaras festividades das mulheres índias, também na Bahia, disse o Frei: “nas festas setingem todas de jenipapo, de modo que, se não é no cabelo, parecem negras deGuiné”40. Uma vez mostrados, mesmo que em linhas gerais, os hábitos e costumes dosindígenas da América Portuguesa, passemos, então, ao quarto lugar de menções:a defesa interna e externa das possessões portuguesas na América. Começamospelos relatos sobre a Bahia de Todos os Santos. A primeira das passagens emquestão está no texto de Gabriel Soares, Tratado descritivo do Brasil em 1587, eparece ter como única função a quantificação dos contingentes humanos disponíveispara defesa do recôncavo baiano de possíveis ameaças externas: [...] porque pode ser socorrida por mar e por terra de muita gente portuguesa até a quantia de dois mil homens, de entre os quais podem sair dez mil escravos de peleja, a saber: quatro mil pretos da Guiné, e seis mil índios da terra, mui bons flecheiros, que juntos com a gente da cidade, se fará mui arrazoada exército.41 A preocupação portuguesa com a defesa de suas possessões na América, noentanto, como se deduz do título deste lugar de menções, não diziam respeitosomente às ameaças externas. As crescentes demandas sociais internas tambémexigiam dos reinóis alguma atenção. O próprio negro de Guiné começava a setornar uma das fontes de preocupação. É o que parece querer alertar Frei Vicentedo Salvador, pois, de acordo com o jesuíta, era muito conveniente que o governador,na época, Diogo Botelho, zelasse pela conversão do gentio, assistindo-osreligiosamente. Desse modo, não somente ajudava a causa evangélica ser umsucesso, como também a própria empreitada colonizadora da América lusitana.Daí então a utilidade de se manter o índio a par dos mistérios da fé e pacificados;índios que inclusive seriam muito úteis no combate contra os inimigos da Coroa,“principalmente contra os negros de Guiné, escravos dos portugueses, que cadadia se lhes rebelam e andam salteando pelos caminhos e se o não fazem pior é commedo dos ditos índios”42.38 NÓBREGA, Cartas, p. 101.39 SOUSA, Tratado..., p. 307.40 SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil (1500-1627). 6. ed. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Instituto Nacional do Livro, 1975, p. 82.41 SOUSA, Tratado..., p. 140-141.42 SALVADOR, História do Brasil, p. 285.30 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  31. 31. A propósito dessa ameaça negra (fugas e organizações quilombolas), é aindaFrei Vicente quem fornece mais um relato bastante significativo para o estudo daquestão a respeito do negro; questão, aliás, que somente tempos mais tarde, seconsolidaria nos escritos coloniais. A passagem narra os primeiros conflitos entrea burocracia administrativa metropolitana e as formações quilombolas quecomeçavam a surgir: [...] informado o governador que um mocambo ou magote de negros de Guiné fugidos que estavam nos palmares do rio Itapucuru, quatro léguas do rio Real para cá, mandou lhes que fossem de caminho dar neles, e os apanhassem às mãos, como fizeram, que não foi pequeno bem tirar dali aquela ladroeira e colheita que ia em grande crescimento.43 Os dois trechos seguintes, ainda na perspectiva da defesa da colônia, tambémretirados do texto de Frei Vicente do Salvador, relatam as agruras portuguesas nadefesa de suas possessões na América, dessa vez, contra as investidas holandesas.O primeiro descreve um ataque a um forte holandês na região do amazonas: [...] foi Deus servido de dar aos nossos vitória com morte de duzentos contrários, fora trinta que tomaram vivos em duas canoas, dos quais se soube haver seis ou sete quando eram amigos e compadres dos holandeses por dádivas que deles recebiam que vinham navios de Holanda, mas que em aquela ocasião nenhum estava no porto, [forte] nem havia na fortaleza mais de trinta soldados e alguns escravos de Guiné com quem lavravam tabaco.44 O segundo relato, aludindo aos holandeses na Bahia, discorre sobre as instruçõesque um bispo favorável a Portugal repassou aos soldados lusitanos como forma deirem minando o poderio holandês na capitania: [...] ordenou o bispo que andassem ao redor dela pelos matos algumas companhias porque, quando alguns holandeses saíssem fora como costumavam, ou os negros de Guiné que com eles se haviam metido, a buscar frutas e mantimentos pelos pomares e roças circunvizinhas, os prendessem.45 Ainda na perspectiva da defesa externa, é Gabriel Soares, ao descrever opotencial de contingente humano da vila de Olinda em Pernambuco, quem contribuicom outro fragmento onde aparece o negro: “esta gente pode trazer de suas fazendasquatro ou cinco mil escravos da Guiné e muitos do gentio da terra”46. Até aqui, temos mostrado o aparecimento do homem negro nos eixos demenções. No entanto, algumas aparições não são possíveis de se ordenar nessa43 SALVADOR, História do Brasil, p. 288.44 SALVADOR, História do Brasil, p. 356.45 SALVADOR, História do Brasil, p. 367.46 SOUSA, Tratado..., p. 58. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 31
  32. 32. sistematização. Assim, as passagens que se seguem mostram as menções ao negroem situações muito particulares e únicas. Mesmo assim, entendemos ser útil analisá-las. A primeira desse gênero está nos Diálogos das grandezas do Brasil,nomeadamente no relato de um ocorrido na capitania de Pernambuco. Trata-se,nos dizeres de Ambrósio Fernandes Brandão, de uma transação de compra e vendade peças de escravos de modo pouco lícito. [...] vi na capitania de Pernambuco a certo mercador fazer um negocio, posto que o modo delle não approvo, pelo ter por illicito, o qual foi comprar pera pagar de presente uma partida de peças de escravos de Guiné por quantidade de dinheiro e logo no mesmo instante, sem lhe entrarem os taes escravos em poder, os tornou a vender a um lavrador fiados por certo tempo que não chegava a um anno, com mais de 85 por cento de avanço.47 O fragmento seguinte, também extraído do texto de Brandão, mostra a convicçãoque tinham os moradores do Brasil, tanto os senhores de engenhos, quanto oslavradores de canas, da necessidade de se possuir escravos na sua empresaaçucareira. Diz o letrado: “assim uns como os outros, fazem suas lavouras egranjearias com escravos de Guiné, que pera esse effeito compram por subidopreço”48. O próprio Ambrósio Brandão, na condição de senhor de engenho, compartilhavada opinião de que possuir cativos negros era algo necessário e natural; daí discorrermuito naturalmente sobre a posse desses, ao falar das atividades desenvolvidaspelos portugueses na América: “os que não são mercadores, [...] se ocupam emgrangear suas fazendas e fazer suas lavouras, com a sua boiada e escravos de Guinée da terra”49. No âmbito dos afazeres domésticos a situação não era muito diferente.O letrado ao comentar a quem competia a tarefa de abastecer, com pescado, amesa do senhor, não teve dúvidas: “não é sinão escravo captivo do gentio da terraou de Guiné”50. Essa função, contudo, em alguns casos, poderia ser exercida pornegros forros, que para isso recebiam pequeno prêmio. Ainda dentro do âmbitodos afazeres domésticos, vemos o negro surgir em lugares bem particulares, como,por exemplo, nas descrições da vida social das esposas dos senhores de engenho.O trecho em questão descreve o modo como se dava o deslocamento dessas senhorasnas visitas às amigas. Diz Brandão: “[...] costumam de levar comsigo, pera seuacompanhamento, além dos homens que levam de pé ou de cavalo, duas ou trêsescravas do gentio da Guiné ou da terra”51. Em outro fragmento, extraído do texto de outro senhor de engenho, GabrielSoares, há uma discrição sobre uma armada que El-Rei mandou à Bahia em favor47 BRANDÃO, Diálogos..., p. 154.48 BRANDÃO, Diálogos..., p. 46.49 BRANDÃO, Diálogos..., p. 271-272.50 BRANDÃO, Diálogos..., p. 272.51 BRANDÃO, Diálogos..., p. 273.32 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  33. 33. de Tomé de Sousa. Os negros de Guiné figuram aí entre as ofertas doadas pelarainha D. Catarina: [...] algumas donzelas de nobre geração, das que mandou criar e recolher em Lisboa no mosteiro das órfãs, as quais encomendou muito ao governador por suas cartas, para que as casasse com pessoas principais daquele tempo; a quem mandava dar em dote de casamento os ofícios do governo da fazenda e justiça, com o que a cidade se foi enobrecendo, e com os escravos de Guiné, vacas e éguas que Sua Alteza mandou a esta nova cidade.52 Os quatro pequenos fragmentos seguintes são bem ilustrativos da meraconstatação da presença do homem africano na vida da colônia. Todos foramextraídos de Diálogos das grandezas do Brasil. No primeiro deles, o letrado discorresobre as propriedades terapêuticas e tóxicas de algumas plantas do Brasil: “hámuitas árvores e plantas que a dão finíssimas, de que os negros de Guiné seaproveitam com matarem de ordinario muitos dos seus semelhantes com ella”53. Otrecho seguinte foi retirado de uma descrição sobre a extração do pau-brasil nacapitania de Pernambuco: “estes homens occupados neste exercicio, levam comsigopera a feitura do páo muitos escravos de Guiné e da terra”54. Ao descrever a fauna brasileira, Ambrósio Brandão também dispensou algumaspalavras a simples constatação da presença do negro no Brasil. A discussão emquestão girava ao redor dos animais da América Portuguesa. Ao relatar as castasde cavalos, explica Brandão que, embora existam muitos desses por esses campos,há um, denominado neptunino, que “têm cruéis inimigos que perseguem com lhestirarem a vida; os quaes são os escravos de Guiné, que os matam sem reparo, peraos haverem de comer”55. Ainda nas descrições da fauna do Brasil feita por Brandão,é interessante notar que não só de caçador posava o negro de Guiné; como bemasseverou o letrado: “acham nesta terra umas onças ou tigres muito listados, dotamanho de um bezerro, grandes perseguidores do gado doméstico, do qualcostumam matar muito”56. Prossegue Brandão que em relação ao homem branconão ouviu “dizer nunca que matassem, mas os índios e negros da Guiné sim, quandose acham muito famintos”57. O último exemplo a ser apontado aqui, ainda dentro das descrições da faunabrasileira, foi retirado do texto, Tratado descritivo do Brasil em 1587, de GabrielSoares. A passagem em questão discorre sobre uns monstros do litoral baiano queatacavam os pescadores:52 SOUSA, Tratado..., p. 130.53 BRANDÃO, Diálogos..., p. 169.54 BRANDÃO, Diálogos..., p. 160.55 BRANDÃO, Diálogos..., p. 246.56 BRANDÃO, Diálogos..., p. 262.57 BRANDÃO, Diálogos..., p. 263. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 33
  34. 34. Os homens marinhos arrancam os pescadores de suas jangadas e metem nos debaixo da água, onde os afogam; os quais saem à terra com a maré vazia afogados e mordidos na boca, narizes e na sua natura [...] o que também aconteceu a alguns negros de Guiné; os quais fantasmas ou homens marinhos mataram por vêzes cinco índios meus.58 No quinto dos lugares de menções, denominado de as doenças do Brasil, onegro de Guiné foi citado três vezes. Na primeira delas, extraída do texto deAmbrósio Brandão, a discussão se desenrolava em torno das principais doençasque molestavam a América Portuguesa, bem como de suas origens: [...] estas doenças, principalmente as bexigas, são estrangeiras, que se lhes costumam communicar, vinda do reino de Congo e Arda pelos negros que de lá se trazem com fazerem grandissima matança, assim no gentio natural da terra como no de Guiné, e no ano de 616 e 617 ficarão muitos homens neste Estado do Brasil de ricos pobres pela grande mortalidade que tiveram de escravos. E graça é que este mal das bexigas não se comunica senão ao gentio natural da terra, e no de Guiné, e nas pessoas que são filhos de brancos, e do gentio a que chamam mamelucos, e ainda a todos aquelles nascidos na propria terra.59 No entanto, em virtude do bom temperamento da terra60, para utilizarmos aspalavras contidas no próprio Diálogos das grandezas, na maior parte das vezes ospostemas e chagas se curam com uma razoável rapidez. Brandão, com intuito dedar mais veracidade a suas informações, relata um caso ocorrido na sua própriafazenda: Um negro de Guiné, meu escravo, chamado Gonçalo, se lhe cerraram de todo as vias ordinarias que temos para fazer camara e urinas, e se lhe abriu pelo umbigo um buraco, por onde por muitos dias fez semelhante exercicio, o qual se lhe tornou tambem a cerrar de per si com se lhe abrir outro igual buraco na ilharga direita, pelo qual obrou também suas necessidades mais de seis mezes, ao cabo dos quaes, sem nenhuma cura, nem medicamento, tornou a sarar, abrindo-se-lhe de novo as vias ordinarias, pela quaes foi purgando, como de antes, com ter perfeita saúde e viver muitos dias.61 O último dos relatos, a respeito do clima e temperamento da América Portuguesa,relacionado com a saúde dos negros de Guiné, de que nos ocuparemos, foi escritopelo franciscano Frei Vicente do Salvador. A discussão inicial de Salvador, noentanto, não se referia diretamente às doenças que atacavam o homem africano,nem o gentio da terra, mas às possibilidades de o homem, enquanto espécie, habitar58 SOUSA, Tratado..., p. 277.59 BRANDÃO, Diálogos..., p. 119.60 BRANDÃO, Diálogos..., p. 120.61 BRANDÃO, Diálogos..., p. 121.34 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  35. 35. as chamadas áreas tórridas. A conclusão do franciscano sobre as doenças repete,quase com as mesmas palavras, a de Brandão: [...] a experiência tem já mostrado que a zona tórrida é habitável, e que em algumas partes dela vivem os homens com mais saúde que em toda a zona temperada, principalmente no Brasil, onde nunca há peste nem outras enfermidades comuas, senão bexigas de tempos em tempos, de que adoecem os negros e os naturais da terra.62 Um outro lugar de menções com mais referências ao negro, é o em torno daalimentação. Contabilizamos, no total, sete citações. Três delas, as que se seguem,estão no Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares. A primeira ésobre um tubérculo muito utilizado na ração dos moradores do Brasil, especialmentedos negros: Da ilha de Cabo Verde e da de São Tomé foram à Bahia inhames que se plantaram na terra logo, onde se deram de maneira que pasmam os negros de Guiné, que são os que usam mais dêle; e colhem inhames que não pode um negro fazer mais que tomar um às costas.63 Os dois trechos seguintes são sobre uma espécie de milho com ocorrência emtodo o Brasil, denominado pelos índios ubatim: “milho de Guiné, que em Portugalchamam zaburro”64. A propósito de sua utilidade disse o letrado: “plantam osportugueses êste milho para mantença dos cavalos e criação das galinhas e cabras,ovelhas e porcos; e aos negros de Guiné o dão por fruta, os quais o não querem pormantimento, sendo o melhor de sua terra”65. Acerca das espécies de bananas existentes na América Portuguesa, asseveraSousa: “há outra casta que os índios chamam pacobamirim, que quer dizer pacobapequena, que são do comprimento de um dedo, mas mais grossas; essas são tãodoces como tâmaras, em tudo mui excelentes”66. Sobre quem mais as tinham emboa conta como alimentação, disse o letrado: “os negros da Guiné são maisafeiçoados a estas bananas que às pacobas, e delas usam nas suas roças”67. Nem tudo na América Portuguesa, no entanto, em relação à alimentação, eram“tão doces como tâmaras, em tudo mui excelentes”. Disse Brandão que “osmantimentos, de que se sustentam os moradores do Brasil, brancos, Índios e escravosde Guiné, são diversos, uns sumamente bons, e outros não tanto”68. Na basealimentar dos moradores do Brasil, por ordem de importância, estava: a mandioca,o arroz e o milho. O último desses alimentos interessa-nos em particularmente,62 SALVADOR, História do Brasil, p. 61.63 SOUSA, Tratado..., p. 169.64 SOUSA, Tratado..., p. 182.65 SOUSA, Tratado..., p. 182.66 SOUSA, Tratado..., p. 189.67 SOUSA, Tratado..., p. 189.68 BRANDÃO, 1943, p. 187. [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 35
  36. 36. pois, ainda de acordo com Brandão, “é mantimento mui proveitoso pera sustentaçãodos escravos de Guiné e Índios, porque se come assado e cozido e também embolos, os quaes são muito gostosos”69. O Aquês, uma espécie de coco, era um outro mantimento comum na dietaalimentar dos habitantes do Brasil, com qual se “sustenta grande parte do gentioda terra e dos negros de Guiné”70. Haveria, ainda, que mencionar os caranguejos,outro alimento da terra, que se tornaram o verdadeiro “sustento dos pobres, quevivem nella e dos índios, naturaes e escravos de Guiné”71, como também a cana-de-açúcar, da qual se extrai um vinho “que pera o gentio da terra e escravos deGuiné é maravilhoso”72. Nas referências às potencialidades (grandezas) do Brasil, o sétimo e último dosnossos lugares de menções é, provavelmente, o mais fecundo para se detectar apresença do elemento africano. Iniciemos pelo relato do padre Antônio Pires emcarta, enviada de Pernambuco, aos irmãos de Ordem em Coimbra, datada dejunho de 1552: Há nesta Capitania grande escravaria asi de Guiné como da terra. Tem huma Confraria do Rosairo. Digo-lhe missa todos os domingos e festas. Andão tam bem ordenados que hé para louvar a Deus Nosso Senhor. Muytas avantagem fazem os da terra aos de Guiné. Fiz procissão com elles todos os domingos de Quaresma, e entre homens e molheres serião perto de mil almas, afora muytos que ficão nas fazendas, não entrando nella os brancos porque mais à tarde fazião os brancos a sua.73 O jesuíta Fernão Cardim, também aludindo à Capitania de Pernambuco,ponderou algo muito próximo às observações do seu irmão de Ordem, padreAntonio Pires, porém, não deixou de ressaltar que nem tudo era prosperidade: “agente da terra é honrada: há homens muito grossos de 40, 50 e 80 mil cruzados deseu: alguns devem muito pelas grandes perdas que têm com escravaria de Guiné,que lhe morrem muito, e pelas demasias e gastos grandes que têm em seutratamento”74. As grandezas de Pernambuco mereceram algumas palavras do próprio José deAnchieta. Com o mesmo matiz das narrações anteriores, o jesuíta informa-nos aquanta andava a empresa açucareira da capitania e a variada população láexistente, escravos da Guiné inclusive. Segundo ele, na [...] Capitania de Pernambuco há muitas fazendas e alguns 60 ou mais engenhos de açúcar a três, quatro cinco e oito léguas por terra, cada69 BRANDÃO, Diálogos..., p. 192.70 BRANDÃO, Diálogos..., p. 196.71 BRANDÃO, Diálogos..., p. 245.72 BRANDÃO, Diálogos..., p. 201.73 PIRES, Antônio. Carta aos irmãos da Ordem em Coimbra. In: LEITE, Serafim (org.). Cartas dos primeiros..., Tomo I, p. 325.74 PIRES, Carta..., p. 334.36 [13]; João Pessoa, jul./ dez. 2005.
  37. 37. um dos quais é uma boa povoação com muita gente branca, negros de Guiné e índios da terra.75 As mesmas considerações feitas a respeito da Capitania de Pernambuco podemser estendidas à província da Bahia de Todos os Santos. Aqui, todavia, as exposiçõesficam por conta do padre Fernão Cardim. Ao descrever os engenhos de açúcar dorecôncavo baiano, assinala Cardim, a presença do negro no mesmo tom daspassagens anteriores: “em cada um delles, de ordinario há seis, oito e mais fogosde brancos, e ao menos sessenta escravos, que se requerem para o serviço ordinario;mais os mais delles têm cento, e duzentos escravos de Guiné e da terra”76. No texto Informações do Brasil e de suas capitanias, o negro de Guiné aparece“naturalmente” arrolado entre outras informações sobre a Capitania da Bahia eas atividades dos missionários. Tudo colocado no seu estabelecido lugar. Na Bahia, além da cidade, há nove freguesias e alguns 40 engenhos a 4, 8 e 12 léguas por mar e por terra, cheios de portugueses, índios da terra e negros de Guiné, a que os padres acodem com seus ministérios, porque, ainda que têm cura, não sabem a língua da terra nem se matam muito por acudir aos de Guiné, nem são para poder pregar aos portugueses.77 De igual gênero é a descrição do padre Fernão Cardim sobre os contingenteshumanos da cidade de Salvador de 1583: “terá a cidade com seu termo passantede tres mil vizinhos portuguezes, oito mil indios cristãos, e tres ou quatro mil escravosde Guiné”78. Finalmente, vimos que o aparecimento do negro nos escritos produzidos entre1551 e 1627 sempre vem em meio a outras menções e nunca diretamente comotema central. Talvez a única exceção seja uma discussão promovida por AmbrósioFernandes Brandão em seu livro Diálogos das Grandezas do Brasil, de 1618. Taldiscussão versa sobre a cor da pele dos de Guiné, e alonga-se por onze páginas e,à primeira vista, contraria a hipótese norteadora deste texto, mostrando que,durante os primeiros cem anos de colonização da América Portuguesa, os letradosnão deram ao negro nenhum destaque especial, diferentemente do que iria ocorrera partir da terceira década do século XVII79. A contradição deixa de existir apósum exame mais atento da referida passagem. Brandão parece abordar o tema, ANCHIETA, José de. Informações do Brasil e de suas capitanias (1584). São Paulo: Obelisco,75 1964, p. 33.76 CARDIM, Tratados..., p. 320.77 ANCHIETA, Informações..., p. 33.78 CARDIM, Tratados..., p. 288.79 Essa discussão é aprofundada em minha dissertação de Mestrado em História, intitulada “Para uma idéia de escravo negro na América Portuguesa: limites de Cultura e Opulência do Brasil como síntese explicativa de sua época”, defendida na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Franca). [13]; João Pessoa, jul/dez. 2005. 37

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