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  • 1. EDITORIALC inema e psicanálise marcaram o século XX e forneceram argumen- tos para muitas das discussões que sustentam nosso século atual. Freud duvidou da capacidade plástica do cinema para representar oinconsciente, o que não impediu K. Abraham e H. Sachs de colaborar naprimeira tentativa de colocar o cinema na tela (Segredos de uma alma, G.Pabst, 1926). Lacan, desde cedo – como lembrava Luís Buñuel em suasmemórias – tinha o cinema como uma referência para os psicanalistas. Dolado dos cineastas podemos citar dois entre outros: Alfred Hitchcok e WoodyAllen que se utilizaram da psicanálise explicitamente, sem falar nos críticosque se valeram dos conceitos psicanalíticos como ferramenta de análise. Tudo isto para dizer que a discussão está longe de terminar e tem umvalor para nós. Em nosso entender, ainda produz atualidade; esta capacida-de de nos re-apresentar, nos devolver, em forma discursiva, os assuntoscoletivos e individuais, nos situar entre a massa e a intimidade. No sul do Brasil, agosto é o mês do Festival de Cinema de Gramado,agora brasileiro e latino-americano. Bom mote para que o Correio da APPOApudesse propor novamente o diálogo, a abordagem das interfaces entre cine-ma e psicanálise. Já havíamos feito isto anteriormente (n. 48, julho de 1997),e esta será uma oportunidade de avaliarmos as diferenças que o tempo pro-piciou. Uma delas, o fato de cineastas e estudiosos de cinema fazerem suasconsiderações sobre a complexidade destas relações, mostrando que estadiscussão não está somente do lado dos psicanalistas. Não se trata maisde fazer psicanálise aplicada (faz tempo), mas de discutir as influênciasrecíprocas e as conseqüências para cada um dos campos, tão diversosquanto fascinantes. Uma espécie de trabalho na transferência, onde cadaum se coloca um pouco em questão. Enfim, segue a história, o rio de três margens, numa conversa queestá longe de terminar como dissemos. Ainda bem; não estamos à procurade verdades universais. Outras cenas, vozes, escutas virão. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 1
  • 2. NOTÍCIAS NOTÍCIASCONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE O corpo masculino deixa assim de ser imaginado como a encarnação A MASCULINIDADE da potência por sua própria natureza. O falo circula com infinitas máscaras, DIAS: 22, 23 E 24 DE OUTUBRO DE 2004 até mesmo com cara de mulher. Se o pênis não é mais o representante do falo, se a relação tangencial com a morte não é mais prova da virilidade, se o A civilização, nas suas mais diversas variantes, tem se estruturado homem já não pode mais tirar a sua identidade de uma oposição imagináriaem torno de representações fálicas. Pais criadores e cultos totêmicos cons- entre forte e o fraco, onde reside atualmente a masculinidade?tituíram o pivô das crenças sobre as origens e garantia da continuidade hu-mana. Ao longo dos tempos foi encomendado aos homens e não às mulhe- Eixos de trabalhos:res a representação, vigilância, preservação e proliferação desse tesouro – As representações da masculinidade hoje;simbólico. As mulheres podiam ser importantes sacerdotisas, deusas até, – Desejo, amor e gozo sexual;mas a eles cabia encarnar e executar a lei e a ordem de toda e qualquer – As relações de trabalho, sexo e poder;cosmogonia. – Mudanças na estruturação familiar e na educação de meninos e meninas; Durante milênios, os homens foram lançados aos campos de batalha – História das diferenças sexual;para provar a glória dos impérios, a honra das etnias, a potência da estirpe. – A lei e a violência: a relação do masculino com a morte.Como conseqüência disso, percorreram léguas a esmo em busca deste santoGraal. Arriscando suas vidas, em nome de qualquer missão incerta, que PALESTRANTES CONFIRMADOSpassava a ser vital desde que lhe fosse designada. Navegaram por maresdesconhecidos, penetraram mundos ignorados, morreram por causas que Alfredo Jerusalinsky – APPOAnem sempre eram suas. Ana Laura Giongo – APPOA Nas mais diversas culturas, as mulheres eram compreendidas e cria- Ana Maria Costa – APPOAdas como carentes do atributo que permitia tal potência. Tal modo de conce- Ângela Lângaro Becker – APPOAber as coisas era uma lógica conseqüência da costura social, que privilegia- Benilton Bezerra Jr. – Rio de Janeirova o convívio entre os homens e o resguardo do tesouro fálico de cada civili- Contardo Calligaris – APPOA, São Paulozação como uma incumbência masculina. Desta forma, partindo do campo Edson Luiz André de Sousa – APPOAda anatomia, a diferença sexual tomou uma extensão imaginária: os ho- Gerard Pommier (a confirmar) – PARISmens seriam o sexo forte, as mulheres o sexo frágil, dito em outros termos, Ieda Prates da Silva – APPOAos homens são os detentores do falo e as mulheres castradas. Inajara Erthal Amaral – APPOA O divórcio entre a anatomia e a condição fálica (que se registra a partir Jaime Betts – APPOAdo século XX) separa pênis e falo, assumindo este último múltiplas formas Jean-Louis Chassing – PARISde representação. O poder deixou de depender de modos diretos de influên- Jurandir Freire Costa – Rio de Janeirocia, relacionados à força física e ao risco de vida. A inteligência e a diploma- Ligia Gomes Víctora – APPOAcia, assim como a valorização da invenção e da criação, abriram espaço Lucia Alves Mees – APPOApara que o falo pudesse se desamarrar dos corpos e seus atributos viris. Lúcia Serrano Pereira – APPOA2 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 3
  • 3. NOTÍCIAS NOTÍCIASMarcelo Masagão – São Paulo MENTO DEVIDAMENTE PREENCHIDO, para a inscrição ser efetivada.Marcio Pizarro Noronha – Goiânia – Horário da secretaria da APPOA das 13h30min às 21h30min. – Agência de viagens oficial: BMZ turismo – (51) 3321.1133.Maria Ângela Cardaci Brasil – APPOAMaria Cristina Poli – APPOAMaria Rita Kehl – APPOA, São PauloMiriam Schnaiderman – São Paulo RELENDO FREUD E CONVERSANDO SOBRE A APPOAOtávio Augusto Winck Nunes – APPOARobson de Freitas Pereira – APPOA Entre os dias 18 e 20 de junho, estivemos reunidos em Canela paraRosane Monteiro Ramalho – APPOA mais um “Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA”. Mais uma vez, oRossana Oliva – APPOA encontro foi atravessado por um clima acolhedor e informal, o qual tem seSandrine Malem – PARIS tornado uma marca constante do evento. Dessa vez, foi proposta uma novidade: ao invés de um texto de Freud,Data: 22, 23 e 24 de outubro de 2004. trabalhamos com um conjunto de três artigos – “Um tipo especial de escolhaLocal: Centro de Eventos Plaza São Rafael de objeto feita pelos homens” (1910), “Sobre a tendência universal à depreci-Endereço: Avenida Alberto Bins, 509 – Porto Alegre – RS – Brasil ação na esfera do amor” (1912) e “O tabu da virgindade” (1918) –, os quais foram reunidos por Freud sob o título “Contribuições à psicologia do amor”. INSCRIÇÕES: Mesmo que uma certa unidade possa ser delimitada entre eles, cada um aborda questões bastante específicas a respeito da vida amorosa de ho- Antecipadas Associados Universitários Profissionais mens e mulheres. Por este motivo, no encontro, optamos por dedicar um dia ou parceladas da APPOA de graduação de trabalho para cada um desses artigos. À vista R$ 100,00 À vista R$ 110,00 À vista R$ 160,00 As discussões no evento giraram em torno da atualidade das formula- ATÉ 02/09 ou 3 cheques ou 3 cheques ou 3 cheques ções propostas por Freud nesses três textos. Entre os pontos abordados, de R$ 40,00 de R$ 45,00 de R$ 60,00 discutimos a divisão entre objeto de amor e objeto de desejo, se haveria uma diferença com relação ao ciúme nos homens e nas mulheres, que tabus ATÉ 30/09 R$ 120,00 R$ 130,00 R$ 180,00 relativos ao corpo tem vigência na atualidade, qual o limite das modificações impostas pela cultura em relação à estrutura. Mesmo que algumas das idéi- Após ou R$ 150,00 R$ 160,00 R$ 210,00 as desses artigos necessitem ser revistas, a partir das modificações do no local contexto cultural contemporâneo, as “Contribuições à psicologia do amor” continuam mantendo toda sua validade. Reler este conjunto de textos e pen-– As vagas são limitadas– Inscrições para universitários, inscrições antecipadas e/ou parceladas: na sar sua atualidade foi uma tarefa fundamental para a seqüência do trabalhosecretaria da APPOA. que temos feito em torno do tema do masculino e da diferença sexual.– Inscrições mediante depósito bancário, para: Banco Itaú, agência 0604, conta- Os momentos reservados ao “Conversando sobre a APPOA” dedica-corrente: 32910-2. Neste caso, ENVIAR POR FAX O COMPROVANTE DE PAGA- ram-se a pensar as relações da APPOA com outras instituições. Este deba-4 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 5
  • 4. NOTÍCIAS SEÇÃO TEMÁTICAte, denso e consistente, pôde resgatar a história e o lugar de nossa Associ- SONHOS E LEMBRANÇASação no movimento psicanalítico, tanto na cidade quanto em nível internaci- NO CINEMA E NA PSICANÁLISEonal. É verdade que as interrogações ali trabalhadas já vem sendo ponto depauta em vários âmbitos da instituição. Porém, como de costume, o trabalho Liliane Seide Froemmingdo “Conversando sobre a APPOA” teve um importante efeito de produção e Oelaboração sobre as mesmas. cinema combina imagem e narrativa. Ao se movimentar de uma imagem para outra os fotogramas produzem uma narrativa. O efeito Gerson Smiech Pinho produzido pelo encadeamento de imagens se converte em lingua- gem, desde os tempos do cinema mudo. Mas foi longo o processo e os instrumentos forjados pelo cinema para contar histórias. NÚCLEO DAS TOXICOMANIAS Algumas disposições seqüenciais dos filmes tendem a repetir certos modelos adotados como consenso para representar algumas idéias. Filmes O Núcleo das Toxicomanias convida a todos os interessados para um antigos tendiam a usar o recurso da imagem trêmula ou fora de foco paraimportante debate que será realizado no dia 07/08/2004, sábado, com o dr. indicar uma passagem para a dimensão de irrealidade do sonho, da imagina-Luiz Matias Flach, advogado, magistrado aposentado, professor de Direito ção ou do delírio. Hoje este recurso é considerado tão pueril quanto um pôrPenal da Escola Superior da Magistratura, ex-presidente do Conselho Fede- do sol ou um galo cantando sobre uma cêrca para indicar a passagem daral de Entorpecentes e ex-Secretário Nacional de Entorpecentes. noite para o dia. O eixo do debate será a respeito da lei de drogas e a cidadania dos Como é que os sonhos representam os pensamentos oníricos e asusuários. relações entre estes? Um problema para os sonhos – formados predomi- Contamos com sua presença, lembrando que esta é uma atividade nantemente por imagens visuais – é dar forma a idéias abstratas. A elabora-aberta a todos os interessados. ção onírica consiste, em certa medida, na modelagem de pensamentos oníricos e na busca de encontrar imagens que representem as relações Coordenação do Núcleo estabelecidas entre os diversos pensamentos. Freud busca em Herbert Silberer (1882-1923) alguns procedimentos para observar a transformação de idéias em imagens e cita exemplos: um MUDANÇA DE ENDEREÇO escritor adormece enquanto se impõe como tarefa suavizar seu estilo, consi- derando-o um pouco áspero; o sonho que surge é de se ver envolvido emCentro Lydia Coriat informa seu novo endereço: Av. Independência, 944 – Porto uma tarefa que consiste em lapidar e lixar um pedaço de madeira. SilbererAlegre – RS. Fones: 3311.0091 e 3311.2243. fez várias pesquisas sobre o simbolismo nos sonhos e sobre os estados transitórios entre a vigília e o sonho. O sonho se afasta muito do texto que motivou sua elaboração, tanto nas formas de expressão de idéias como nos enlaces lógicos que se estabelecem entre elas. A censura atua determinando um trabalho de deformação.6 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 7
  • 5. SEÇÃO TEMÁTICA FROEMMING, L. S. Sonhos e lembranças... O uso da simultaneidade no sonho opera como em certas pinturas, ou literatura mas extrai lições destes diferentes campos da arte. É a sétimareunindo numa comunidade filósofos ou poetas que nunca se encontraram arte, marcada pelo significante “mais um”.efetivamente, nem conviveram no mesmo período histórico, mas que apre- A introdução do som no cinema colocou questões diferentes do quesentam afinidades de alguma ordem. O uso da antítese ou da contradição no as postas ao tempo do cinema mudo. Questões técnicas e artísticas novassonho é singular: para o sonhador não há contradição e duas idéias opostas se imbricam. Como articular som e imagem? Como sincronizá-los? Comopodem estar reunidas numa só. contar uma história com diálogos e imagens combinados? O cinema tende a “Sempre que um elemento psíquico se acha unido a outro por se fazer narrativo e um novo trabalhador entra em cena: o roteirista. O roteirista uma associação absurda ou superficial existe ao mesmo tem- é um escritor singular que opera uma transposição narrativa buscando com- po entre ambos uma conexão correta e mais profunda, que binar texto e imagem. sucumbiu à censura” (Freud, cap. VII, Interpretação dos So- Tarkovski (1998) relembra a cena inaugural do trem avançando sobre nhos. p. 669). os telespectadores realizada pelos irmãos Lumiére para afirmar que, no campo O dispositivo da continuidade narrativa no cinema mudo começa a ser da arte, fora encontrada uma forma ímpar de registrar uma impressão daconstruído visando fazer o espectador “esquecer” o caráter descontínuo das passagem do tempo. A retrospectiva sobre seu método de trabalho e o relatoimagens coladas umas às outras. Convenções começam a ser criadas li- da experiência da realização de vários filmes como “A Infância de Ivan”, “Ogando as cenas. Assim, dois planos consecutivos onde aparece um sujeito Espelho” e “Nostalgia” estão expostos em seu livro “Esculpir o Tempo”. Eleque olha e logo, no plano seguinte, um objeto, leva o espectador a deduzir propõe, em seu trabalho, substituir a causalidade narrativa pelas articula-que o alvo do olhar do sujeito do primeiro plano é o objeto representado no ções poéticas. Para filmar os sonhos de Ivan, Tarkovski utiliza as imagensplano subseqüente. em negativo, causando um efeito sobrenatural, produzindo um estranhamento. Algumas imagens inaugurais do cinema demonstram a constante Nem narrativa, nem discurso designam o “texto” fílmico. Diegese é opesquisa que se desenvolvia. A roda e o movimento da máquina de costura termo proposto, enquanto substituto de história e oposto à descrição. Aservem de modelo para fazer rodar a seqüência de fotogramas no primeiro diegesis e a mimesis são modalidades da lexis para Platão e Aristóteles. Acinematógrafo dos irmãos Lumière. Por injunções técnicas, como a ilumina- acepção é mais ampla do que a de história. Falar em universo diegéticoção, as tomadas tinham que ser externas. Assim, dada a amplitude dos “compreende tanto a série de ações, seu suposto contexto (seja ele geográ-planos destas tomadas foi possível perceber variações no ângulo e na pro- fico, histórico ou social), quanto o ambiente de sentimentos e de motivaçõesfundidade que a posição da câmera permitia apreender. Na primeira fase de nos quais elas surgem” (Aumont, 1995, p. 114).coleta de imagens pelos irmãos Lumiére o modelo fotográfico era dominante. E ao “texto” produzido por um paciente mediante a consigna da asso-A câmera era fixa e buscava captar os movimentos circundantes: folhas, ciação livre (nem tão livre assim pois guiado pelas amarras transferenciais,fumaça, pessoas caminhando, meios de transportes. Foi o olhar de um via- pela suposição da escuta do analista) que nome daremos? Discurso, narra-jante – dos tantos que partiram em busca de imagens com protótipos de tiva, diegese, fala?filmadoras – que percebeu a possibilidade de movimentar a própria câmera. Um analisante diz: “É difícil explicar, tenho muitas lembranças contadas. Com Eisenstein temos a reflexão sobre a montagem como elemento Não sei se são minhas. Me dão uma sensação muito vaga de me sentir culpa-singular da produção fílmica, situando o cinema como justaposição de se- do... Lembro tão pouco. Me sinto inventando, como se tivesse que encher umqüências de imagens em movimento. O cinema não é fotografia, nem teatro pouco esta história. Têm fotos desta época... Têm dores que não passam...”8 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 9
  • 6. SEÇÃO TEMÁTICA FROEMMING, L. S. Sonhos e lembranças... Contadas, lembradas, inventadas – como são construídas estas ce- é o caso do filme “Amnésia” (2000) exigindo do espectador um exercício “denas na memória? Nos sonhos, o infantil não surge como passado, mas sem- ver o filme de trás pra diante”. A construção do filme está baseada em cons-pre como uma marca do atual. Um sujeito diz sonhar com um rio semelhante tantes flashbacks, onde o sentido de uma cena é ressignificado pela cenaao de sua terra natal, porém bem maior. As associações seguintes levam-no que a antecede mas que aparece, na seqüência, só depois.a considerar que não é o rio que é grande, mas ele é que é pequeno no Há filmes que nos inspiram, nos fazem romper com a crono-lógica,sonho. instaurando a lógica do significante. São como exercícios para a escuta O momento em que o sujeito situa sua fala num determinado tempo, clínica.conectando o momento atual com outros momentos nos remete a uma iden- No Seminário 8, Lacan faz referência à tela do cinema como o reveladortificação que se opera por sucessivos deslocamentos. Há que atentar para o mais sensível de como se modela no imaginário popular um certo ideal datempo dos verbos, para o uso de advérbios e outros indicadores da lingua- figura do analista e aponta o filme “mais recente” de Hitchcock. A data emgem que aparecem no decurso de uma cadeia associativa. Que recursos o questão é do seminário proferido no dia 16 de novembro de 1960. “Vertigo” ésujeito utiliza para nos dizer de sua posição no tempo, no espaço? Alguns um filme de 1958 e “Psicose” de 1960, mas não parece se endereçar a elesconsideram que compartilhamos com eles tais referências e por isso dispen- a referência. Talvez o filme tenha passado recentemente. Algumas linhassam maiores explicações? Outros explicam com extremos detalhes supon- depois, Lacan nomeia o filme “De Repente, no Último Verão” que é de 1959do uma ignorância naquele que o escuta? e cujo diretor é Joseph Mankiewicz – uma adaptação da peça de Tenessee O flashback é um recurso muito difundido no cinema para costurar Williams. Neste momento do texto, a cena do beijo descrita também guardarelações causais e documentar lembranças. A cena que determina as ra- semelhanças com uma cena de “Quando fala o coração”.zões de certos atos de determinados personagens aparecem com atraso, Quanto ao que vem a ser amar e ao que vem ser o amor, não há quesó depois, redimensionando sentidos até então insuspeitados. se fazer confusão, nos alerta Lacan, a propósito da transferência. Desde 1945, quando Hitchcock filmou “Quando fala o coração” colo- Definir-se como cinéfilo tende a ser registrado na ordem do fetichismo.cando em pauta a conexão entre a formação de sintomas e o esquecimento Glauber Rocha se definia, baseado em Buñel, como um “Amador”, recusan-de cenas da infância numa explícita referência à Psicanálise muito se produ- do ser nomeado como um profissional do Cinema.ziu nesta intersecção. Seria mais próprio dizer que Cinema e Psicanáliseconstituem inter-sessões. Antes temos os antológicos filmes de Pabst (Se- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:gredos de uma alma, 1926) e de John Houston (Freud, Além d’Alma, 1962). Aumont, J. (1995). A Estética do Filme. São Paulo: Ed. Papirus. A questão que se coloca para a Psicanálise e para o Cinema quando Freud, S. (1899/1976). Lembranças Encobridoras. Rio: Ed. Imago.se trata de pensar a produção de cadeias associativas, de operar com a Freud, S. (1900/1976). A Interpretação dos Sonhos. Rio: Ed. Imago. Froemming, L. (2002). A Montagem no Cinema e a Associação Livre na Psicaná-lógica das representações, das considerações quanto a figurabilidade de lise Tese de Doutorado. Porto Alegre:UFRGS (não publicada)idéias expressas em sonhos ou lembranças tem alguma similitude? Lacan, J. (1992). A Transferência. Livro 8. O Seminário. Rio: Jorge Zahar. O Cinema tem construído formas mais elaboradas do que a ondula- Tarkovski, A. (1998). Esculpir o Tempo. São Paulo: Ed. Martins Fontes.ção da tela ou o movimento das folhinhas de um calendário para demarcar apassagem do tempo. Têm construído formas muito elaboradas de demons-trar o efeito provocado pelo esquecimento!de acontecimentos recentes como10 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 11
  • 7. SEÇÃO TEMÁTICA LUNARDELLI, F. No jogo dos olhares. NO JOGO DOS OLHARES renascentista predominou sobre todas as demais formas de representação do espaço, e a partir dela foi desenvolvido o sistema ótico da câmera fotográ- Fatimarlei Lunardelli1 fica e, depois, da cinematográfica. Autores, como Pierre Francastel, já haviam estabelecido relação en-E ntre as muitas possibilidades de aproximação entre a psicanálise e o tre a predominância da perspectiva renascentista e a ideologia humanista cinema, encontra-se uma das principais contribuições da psicanáli- burguesa como representação dominante do mundo. Baudry recupera esta se para a teoria do cinema: entender a condição do espectador em linha de pensamento para enfatizar a função preenchida pelo cinema comorelação ao filme. O momento de maior aproximação desses dois campos suporte e instrumento desta ideologia, fazendo o espectador acreditar, peloocorreu na primeira metade dos anos 70, sob o impacto da revisão de Freud fato dele ocupar um ilusório lugar central, que é um Deus sabe-tudo, vê tudo,feita por Jacques Lacan e sua forte inserção nos temas da cultura. No ambi- conhece tudo. Esta crença do espectador só é possível porque o instrumen-ente francês de ressaca do Maio de 68 e dos impasses do estruturalismo e to ótico/mecânico é oculto, sem nunca dar a conhecer a este sujeito/espec-da lingüística como instrumentos para as formulações da linguagem cinema- tador que ele só está vendo o que lhe é dado ver.tográfica, a psicanálise ofereceu a oportunidade de novas abordagens. Em Dessas discussões queremos reter o tema do olhar. O prazer associ-“O significante imaginário”, Christian Metz2 aproximou-se da psicanálise para ado ao olhar em muito elucida os artifícios de uma linguagem montada paraentender porque as pessoas escolhem retornar ao cinema, mantendo em sustentar a indústria do entretenimento. O voyeurismo é central na estruturaçãofuncionamento a indústria do entretenimento. da linguagem cinematográfica e seu significado está associado ao grau de Um outro autor, Jean-Louis Baudry 3, articulou conceitos da psicanáli- prazer experimentado pelos espectadores. No final do século XIX, enquantose à ideologia dominante no cinema narrativo, demonstrando como ela se Freud assombrava a ordem da época dizendo que possuímos internamenteapresenta no próprio dispositivo cinematográfico, válido ainda hoje. Chamou um inconsciente produtor de imagens reguladas por desejos não manifestosatenção para o fato do equipamento cinematográfico (a máquina de capta- (ou revelados apenas simbolicamente), as primeiras máquinas davam aces-ção e o projetor de imagens) serem concebidos a partir da perspectiva so a imagens fixadas em emulsões para uma prazerosa experiência visual,artificialis surgida no Renascimento. Nela, todo o espaço representado no com forte componente erótico.plano é organizado a partir de um ponto de fuga central, a partir do olhar do Arlindo Machado4 lembra muito bem que as primeiras imagens cine-pintor que constrói a cena (e do sujeito que irá vê-la). Oferecendo-se como matográficas não foram as do cinematógrafo dos irmãos Louis e Augustuma representação natural, científica e verdadeira do espaço, a perspectiva Lumière, dos operários saindo da fábrica da família ou do trem chegando na estação de Ciotat. Antes dos franceses, Thomas Edison concebeu o quinetoscópio, uma máquina para visualização individual de imagens, ou seja, para uma experiência de “espiar” através de visores. O voyeurismo, enquanto1 Jornalista. Professora. Doutora em cinema ECA/USP. prática de espiar algo da instância íntima e privada do outro, se confirma pelo2 METZ, Christian. O significante imaginário: psicanálise e cinema. Lisboa :Livros Horizon- erotismo destas primeiras imagens. Para o desejo de ver, eram oferecidaste, 1980. O livro reúne textos escritos entre 1973 e 1976 e o original francês foi publicado em1977. desde cenas ingênuas de garotas em trajes de dormir brincando de guerra3 BAUDRY, Jean-Louis. Cinema: efeitos ideológicos produzidos pelo aparelho de base inXAVIER, Ismail (org). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro : Edições Graal/Embrafilme, 1983. O artigo foi originalmente publicado na revista Cinéthique, n. 7/8 (1970). 4 MACHADO, A. Pré-cinemas & pós-cinemas . Campinas : Papirus, 1997.12 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 13
  • 8. SEÇÃO TEMÁTICA LUNARDELLI, F. No jogo dos olhares.de travesseiros, até de mulheres nuas saindo como pérolas de dentro de eram oferecidas ao espectador a visão aproximada das cenas. Invariavel-conchas. mente íntimas. Machado ressalta o tema do buraco de fechadura como uma Desde sua origem, o cinema foi concebido (e ainda hoje se sustenta) das chaves para a compreensão do próprio cinema como lugar da pulsãosobre o prazer do olhar. É uma máquina de espiar um mundo que se oferece escópica, preparando o espectador para uma nova experiência do olhar, quepara o olhar e cuja satisfação é intensificada pela experiência da sala escu- hoje chamamos de subjetiva. A partir de uma variedade de argumentos, des-ra, o sentimento suscitado pela proteção do escuro que convida à entrega e de mensageiros procurando destinatários de cartas, mulheres em busca deao abandono. Edgar Morin5, um dos primeiros autores a aproximar a psicolo- maridos infiéis, até funcionários de hotel procurando localizar clientes, fazia-segia do cinema na década de 50, já havia chamado atenção para a liberação desfilar uma infinidade de cenas da ordem do privado através do olhar de perso-do imaginário sob o efeito do intenso foco de luz concentrador da tela em nagens abelhudos e indiscretos. Naqueles filmes, do chamado primeiro cine-contraste com a escuridão da sala de cinema. ma, que vigorou até o estabelecimento da narratividade, o objetivo era produzir A narratividade torna-se hegemônica na linguagem cinematográfica a gag e o riso. Ao final da cena, o “espião” era punido de forma exemplar e divertida.por meio de um processo gradativo que se consolida no filme exemplar “O Os filmes de pulsão escópica conduziram gradativamente o especta-nascimento de uma nação” (Birth of a nation, EUA) de David W. Griffith, em dor cinematográfico para a assimilação do plano aproximado como recurso1914. Nele há um pleno domínio dos recursos de enquadramento do real, expressivo, naturalizando o corte do plano geral para o plano aproximado. Aoalternância de planos e montagem para envolvimento e emoção do especta- mesmo tempo, deslocou o ponto de vista do personagem interno ao filmedor em uma história com longas duas horas de duração. A esta altura, o para a internalização do ponto de vista do filme pelo espectador. Antes daparque industrial norte-americano já estava instalado, com uma ampla rede narratividade havia uma frontalidade na linguagem, que reconhecia a presen-de salas espalhadas por todo o país, e necessitava de um tipo de produto ça do espectador para o qual o filme estava sendo dirigido. Em alguns ca-capaz de manter e expandir a estrutura nascente. O espectador foi captura- sos, os atores dirigiam-se diretamente à câmera, interpelando o espectadordo pelo olhar. As técnicas vinham sendo depuradas pelo sistema desde os com gestos como piscadelas de olhos, convidando à cumplicidade. Àprimeiros filmetes, antes mesmo de 1895. linearização narrativa corresponde a substituição do público das feiras e dos A relevância do olhar na história do cinema é demonstrada, desde o cinturões marginais dos grandes centros urbanos por uma classe média eprincípio, por um tipo de filme cujo volume de produção nos primeiros anos uma pequena burguesia com melhores condições financeiras para sustentardo cinematógrafo levou a constituir-se em um gênero. Eram os filmes de a indústria nascente. Conseqüentemente, uma nova ordem moral se estabe-buraco de fechadura ou de voyeurismo. Através deles ocorreu a passagem lece, deslocando o jogo dos olhares.da linguagem do plano geral para o primeiro plano, oportunizando aos reali- O avanço da narratividade vai eliminando as intermediações óticas,zadores vencer o obstáculo de aproximar a câmara de um objeto, sem, com fazendo a câmera assumir pontos de vistas dos personagens envolvidos noisso, provocar um estranhamento para o espectador do final do século XIX. enredo, através do campo/contracampo. As decisões de seleção e articula- Sob a justificativa de fazer os personagem verem algo através de dis- ção dos planos visam atender as demandas do olhar do espectador, suapositivos óticos como lupas, lunetas ou através de buracos de fechadura, necessidade e prazer de ver para acompanhar o desenrolar dos aconteci- mentos na tela. Já não mais através da frontalidade, mas de uma certa angulação oblíqua, para que os personagens e objetos possam ser compre-5 MORIN, E. A alma do cinema. in XAVIER, Is. Op. cit. Publicação original Paris : Ed. De Minuit,1958. endidos como campos ou pontos de vista contrapostos.14 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 15
  • 9. SEÇÃO TEMÁTICA GERBASE, C. Um cineasta embaixo... Nos anos 70, Metz6 usou o conceito psicanalítico da denegação para UM CINEASTA EMBAIXO DO DIVÃdizer como o filme narrativo é exibicionista e, ao mesmo tempo, não é. Oespectador olha para o filme, mas o filme não olha para o espectador. O filme Carlos Gerbase1sabe que é olhado, mas finge que não sabe. É um objeto fechado, que apaga Ao suporte discursivo, fazendo predominar apenas e, tão somente, a “histó- s relações do cinema com o mundo da psicanálise e das psicoterapiasria”, o narrado sem narrador. Mas o discurso existe e quem enuncia é a em geral têm origens variadas, múltiplos objetivos e resultados, àsinstituição cinema. vezes, bastante discutíveis, mas há um fato inegável: filmes e divãs Retornando à transição dos filmes de buraco de fechadura para a têm papéis fundamentais em todas as representações possíveis dos temposnarratividade, vamos descobrir o momento de formação do discurso que se modernos. Fecundados no final do século 19, paridos nas primeiras décadastornaria dominante nos filmes de entretenimento da indústria cinematográfi- do século 20, em constante crescimento desde então e, eventualmente,ca. Nos filmes voyeuristas, o olhar “interno” do personagem, que o especta- chamados de senis, ou coisa pior, nos tempos iconoclastas que vivemos,dor assumia até com as mesmas motivações psicológicas, é substituído cinema e psicanálise não apenas refletiram e interpretaram o nosso mundo,pelo olhar externo e interpretante que rege a narrativa. É uma cisão brutal e como também o protagonizaram e o construíram.irreconciliável, salienta Arlindo Machado, apontando como esta regulação Sabemos (eu, via Foucalt; vocês, através de Lacan) que os discursosserá ordenada a partir da moral protestante e burguesa da sociedade norte- nos atravessam, nos conformam e nos definem enquanto seres. Somos oamericana representada em Griffith. Ele não inventa a linguagem, como su- que somos porque, entre outras atividades menos modernas, assistimosjeito de uma sociedade, manifesta-se nele a cultura e o pensamento de uma emocionadamente a alguns filmes e ouvimos (ou lemos) atentamente a al-época e uma classe social, cujo discurso é dominante. guns psicanalistas. O singelo objetivo deste texto é cruzar estas duas áreas Poderíamos considerar que, passados 109 anos da sessão inaugural discursivas a partir das minhas experiências como cineasta e de algumasdo cinematógrafo pelos irmãos Lumière, essas questões estariam supera- idéias – bem primárias, já que sou quase um leigo no assunto – sobre odas. Penso que não. A relação do espectador com o filme narrativo, com o mundo da psicanálise. A lista que se segue, assim, pretende ser apenas oqual estabelece um prazeroso jogo de voyeurismo/exibicionismo continua pontapé inicial para reflexões mais consistentes. Vamos a ela.sendo a base que sustenta a indústria cinematográfica. É em busca destafórmula narrativa que ainda se desenrolam muitos debates estéticos nas (1) OS PERSONAGENS DOS FILMEScinematografias não hegemônicas, que lutam por espaço no circuito exibidor. COMO PACIENTES DE PSICANALISTASPodemos celebrar a contemporaneidade das novas formas narrativas, mas Este cruzamento é dos mais divertidos, tanto para os psicanalistas,basta um olhar sobre a grade de exibição da cidade para verificar o predomí- que podem fazer todo tipo de exercício associativo entre os signos presen-nio do filme narrativo, de inspiração norte-americana, cuja indústria audiovisual tes num filme, como para os cineastas, que, em debates animados que seocupa, em média, 80% dos mercados mundiais. seguem à projeção de seus filmes, descobrem, que, em suas obras, o pai não é o pai, e sim a mãe; que a filha não é a filha, e sim o pai; e que o guarda-6 METZ, C. História/Discurso (Nota sobre dois voyeurismo) in ISMAIL, Xavier. Op. Cit., p.403. 1 Cineasta e Doutor em Comunicação Social pela PUCRS.16 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 17
  • 10. SEÇÃO TEMÁTICA GERBASE, C. Um cineasta embaixo...chuva não é o guarda-chuva, e sim a filha. Isso, é claro, se a análise for (3) A PSICANÁLISE COMO MODELOfreudiana. Se for lacaniana, o guarda-chuva é o falo do pai. Brincadeiras à DE ANÁLISE DE FILMES E INFLUÊNCIAparte, já participei de discussões muito interessantes, que tentavam explicar IMPORTANTE NAS TEORIAS CINEMATOGRÁFICASprosaicos detalhes da trama do filme à luz de intrincados modelos psicana- Maurice Merleau-Ponty escreveu que “para o cinema, como para alíticos, e eu estava quase acreditando neles, quando lembrava que a sombri- psicologia moderna, a vertigem, o prazer, a dor, o amor, o ódio traduzemnha vermelha estava na cena porque o diretor de arte achara bonito, e não comportamento” e “o filósofo e o cineasta têm em comum um certo modo deporque ela representava o desejo homossexual do personagem. Creio, sin- ser, uma determinada visão do mundo que é aquela de uma geração. Umaceramente, que colocar os personagens de filmes num divã é tão divertido ocasião ainda de constatar que o pensamento e a técnica se correspondemquanto inconseqüente (para não dizer inútil). Mas podem continuar me con- e que, segundo Goethe, o que está no interior também está no exterior.” Boavidando, que eu adoro ver os personagens que criei deitados num divã, tão parte das teorias cinematográficas dos anos 50 para cá são dominadas pelaindefesos quanto quando estavam no roteiro e na tela. semiologia e incluem a psicanálise em suas formulações estéticas e ideoló- gicas. A figura paradigmática de Freud é a mais evidente nos filmes (vide as (2) A PSICANÁLISE COMO FERRAMENTA muitas apropriações feitas por Hitchcock, algumas delas até didáticas), mas DO CINEASTA PARA CONSTRUIR E é Lacan, com sua rebeldia, que domina as teorias narrativas, tanto na litera- MELHOR DEFINIR SEUS PERSONAGENS tura como no cinema. Se o inconsciente é estruturado como uma lingua- Um cruzamento utilíssimo! Digamos que um roteirista esteja escre- gem, e o cinema é a linguagem por excelência do século XX, compreendervendo uma história sobre um motorista de táxi psicótico. Digamos que ele como funcionam os filmes pode ser útil para entender as pessoas, e vice-nunca tenha conversado com um psicótico. Como imaginar e tornar verossí- versa. Outra constatação importante é que filmes não são feitos para “curar”mil um personagem distante da experiência pessoal do criador? Há dois as pessoas, no sentido da psicanálise freudiana clássica, que pretende ex-grandes riscos: a idealização pura e simples, sem vínculo com a realidade, plicar e, de certa forma, iluminar os sofrimentos mentais usando um determi-e o uso abusivo de clichês narrativos, retirados, quase todos, dos romances nado discurso. Porém, se acreditarmos, como faz Lacan, que não há saídado século XIX. Aí entra a psicanálise, com mais de um século de observa- possível da linguagem, que nós não a “usamos”, mas a “somos”, a lingua-ções sobre o comportamento da humanidade, e vai dar ao roteirista uma gem do cinema, com sua sofisticada combinação de matrizes lingüísticas,espécie de “mapa” para as psicopatologias. Por contraste e por exclusão, a surge como uma nova e extraordinária oportunidade de expressão existenci-psicanálise também fala de um personagem bastante comum nos filmes al dos seres humanos. E, para compreender a estrutura dessa linguagem, écontemporâneos, o “normopata”, o cara que se adaptou perfeitamente a preciso, ao mesmo tempo, entender como funcionam as mentes do cineastatodas as restrições que lhe foram impostas e parece ser um sujeito muito e do espectador.saudável. Eu tenho que confessar que sempre utilizei bastante o conceitode esquizofrenia na hora de construir os traços fundamentais dos persona- (4) O CINEMA, COMO LINGUAGEMgens que crio. E, para mim, uma certa dose de esquizofrenia, principalmen- E FENÔMENO SOCIAL, “ANALISADO” PELA PSICANÁLISEte num personagem “saudável”, é fundamental para que haja verossimilhan- Lembram do sujeito que matou não sei quantos espectadores depoisça. Talvez isso prove que eu é que sou esquizofrênico. Por favor, não espa- de, segundo as primeiras reportagens, ver “O clube da luta” num cinema delhem. shopping em São Paulo? Lembram que depois descobriu-se que ele não18 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 19
  • 11. SEÇÃO TEMÁTICA GERBASE, C. Um cineasta embaixo...tinha visto o filme coisa nenhuma? A psicanálise tem o dever de impedir que roteiros como para dirigir atores. E cada filme que faço, é claro, não deixa deos jornalistas – esta raça tão útil quanto apressada, e na qual às vezes me ser uma pequena e secreta auto-análise, uma catarse estética, que aliviaincluo – façam acusações absurdas ao cinema e à TV. E mostrem o grau de tensões, provoca descobertas e, eventualmente, até diverte aos espectado-imbecilidade de certos programas pretensamente bem intencionados. A psi- res.canálise deve mostrar a todos que a mente humana é um mecanismo sofis-ticado, que as ações de um sujeito só podem ser explicadas até certo ponto(e que é preciso um grande esforço para chegar a esse ponto). Acho que apsicanálise deveria se meter muito mais do que se mete na questão dacensura e da classificação dos espetáculos por faixa etária. Tenho certezaque a psicanálise é ferramenta fundamental no embate que travamos todosos dias entre o indivíduo e a coletividade. Onde termina a liberdade de ex-pressão de um drama sobre uma mulher explorada pelos homens e começao exercício sádico de misoginia? Onde termina a comédia satírica a umhomossexual e começa o mais baixo preconceito? (5) A PSICANÁLISE COMO FORMA DISCURSIVA “RETRATADA” NOS FILMES Lembrei logo de “Um estranho no ninho” e “Vida em família” (“Takingoff”), ambos de Milos Forman. São dois filmes extraordinários, que discutemquestões relativas à saúde mental – dos indivíduos, da família e da socieda-de. Creio que, assim como a psicanálise pode ajudar o cinema, defendendo-o de acusações fundamentalistas, o cinema pode ajudar a psicanálise,sociabilizando alguns conceitos e fazendo críticas a procedimentos de saú-de mental equivocados (como em “Um estranho no ninho”). Claro que a quan-tidade de filmes ruins sobre psicanálise ou psicanalistas é muito grande,mas a psiquê humana será sempre importante para filmes que colocam oser humano em frente à câmara para carinhosamente (ou não) dissecá-lo edar-lhe sentido. É claro que existem muitos outros cruzamentos possíveis entre cine-ma e psicanálise. Só estes, contudo, já são suficientemente desafiadores.Como acadêmico, gostaria de, um dia, me dedicar um pouco a estas ques-tões. O cineasta, porém, fala mais alto, e, por enquanto, faço um uso bas-tante funcional (mesmo que inconsciente) da psicanálise, tanto para escever20 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 21
  • 12. SEÇÃO TEMÁTICA SELIGMAN, F. Quem é o marginal... QUEM É O MARGINAL? A TÊNUE FRONTEIRA ENTRE O do com que personagens e público sintam-se invadidos, usurpados de sua LÍCITO E O ILÍCITO NO FILME O INVASOR privacidade e segurança. Tudo isto é mostrado no filme com uma delicadeza irônica e sem apresentar nenhuma cena de violência explícita. Flávia Seligman1 Neste meio tempo Ivan, o sócio que mais sofre com a incômoda inva- são (também com um pouco de culpa e remorso, mas isto fica apenas naN uma das primeiras cenas de “O Invasor”2 (Beto Brant, 2001, São intenção) envolve-se com uma prostituta (Malu Mader) e parece ver nela a Paulo, Brasil), a personagem Gilberto / Giba (Alexandre Borges) rendição de sua vida infeliz. O lado podre da vida é escancarado em todos os está se despedindo de seu sócio Ivan (Marco Ricca) depois de acer- lados do filme. Quase todos são infelizes, mentirosos ou marginais, ou sim-tarem a sentença de morte do sócio majoritário da empresa na qual traba- plesmente tem uma vida vazia, sem grandes emoções, apenas vivem o dia alham, uma construtora paulistana, contratando um matador para realizar o dia.crime (o músico integrante da banda Titãs, Paulo Miklos no papel do assas- Adaptado da novela homônima de Marçal Aquino pelo próprio autor,sino Anísio). Ivan não parece bem certo do que fez, parece até estar arrepen- pelo diretor e pelo produtor do filme Renato Ciasca, “O Invasor” é o terceirodido, mas Giba leva a situação com uma naturalidade repugnante. Ao se longa-metragem de Brant e o terceiro no qual o tema assassino / assassina-despedir do amigo sentencia: “Qual é o problema, Ivan? Não pense que você to é abordado, margeando sem delicadeza a sociedade brasileira contempo-não está sujando as mãos só porque é outro cara que vai fazer o serviço. Dá rânea. É a primeira vez, no entanto, em que o cineasta mescla os setoresna mesma, meu velho. Bem vindo ao lado podre da vida.”3 legais da sociedade com a dita marginalidade, misturando situações e ações Em seguida Estevão, o sócio majoritário, é morto e o assassino con- e deixando para o espectador decidir afinal, quem é o marginal.tratado para o serviço decide conviver forçadamente com seus contratantes. No seu primeiro longa-metragem, “Os Matadores” (São Paulo, 1997),Anísio praticamente invade a empresa querendo trabalhar lá como seguran- Beto Brant enfoca como tema principal a ação do pistoleiro profissional. Oça, namora Marina (Mariana Ximenez), a filha de Estevão e transtorna um filme conta uma história de matadores no Brasil Central, na fronteira com oplano que parecia perfeito. Sua presença constante e inadequada vai fazen- Paraguai. Dois homens, um velho e um estreante (Wolney de Assis e Murilo Benício, respectivamente) estão num bar, um boteco sujo na beira de uma estrada, e esperam por um terceiro homem que virá encontrá-los e deverá ser assassinado por eles. Esta é a linha mestra e por ali vagueiam uma série1 Cineasta e Professora do Curso de Realização Audiovisual, Unisinos, RS de histórias e personagens interessantes. Dentro da narrativa apresentada,flavias@mercurio.unisinos.br2 Sinopse: Companheiros desde os tempos de faculdade de Engenharia, Estevão, Ivan e a atividade principal das personagens do filme é inquestionável. A vida éGilberto são sócios em uma construtora há mais de 15 anos. Tudo corre bem até o dia em assim, resta-nos apenas conhecer melhor seus macetes e detalhes. A per-que o desentendimento na condução dos negócios os coloca em conflito. De um lado,Estevão, o sócio majoritário, que ameaça desfazer a sociedade; de outro, Ivan e Gilberto, sonagem de Wolney de Assis, Alfredão, é um homem mais velho, calejado,que, acuados, resolvem eliminar o sócio, acreditando que poderão conduzir a construtora que tem uma linda família, uma casa e que almoça aos domingos, cercadoao seu estilo após a morte de Estevão. Para isso, contratam Anísio, um matador, que executao serviço. É o início de uma nova fase para Ivan e Gilberto e também de um pesadelo pela esposa e filhas, após o dever cumprido. O matador mais novo tem a vidainesperado. Anísio tem planos de ascensão social e pouco a pouco invade a vida dos dois toda para aprender e o exemplo dos matadores mais experientes para seguiramigos, confrontando-os com o processo de violência que desencadearam. (Disponível emhttp://www.brazilianfilmfestival.com/scripts/filmes/oinvasor.asp) e se inspirar. A atividade é considerada como estabilizada: é uma profissão3 AQUINO, 2002, p.151. exercida por pessoas que têm este dom, esta vocação. Fala-se no filme na22 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 23
  • 13. SEÇÃO TEMÁTICA SELIGMAN, F. Quem é o marginal...extrema habilidade de uma personagem específica, Múcio, vivido pelo ator CARA À CARA COM A REALIDADEChico Dias, que só se deu mal porque se envolveu com a mulher do patrão Os “trabalhadores” apresentados por Beto Brant em seus filmes fa-(Adriano Stuart), vivida pela atriz Maria Padilha. lam a linguagem da periferia, do dia a dia de um país real. Talvez isto seja o O segundo filme, “Ação entre amigos”, 1999, conta a história de qua- mais dolorido para o espectador na obra do cineasta, um Brasil cruel, mos-tro homens marcados por uma atuação política nos anos sessenta no Brasil. trado sem maquiagem. Brant fala da falta de fronteira ética entre as persona-Participantes da luta armada, os quatro foram presos e tiveram a vida modi- gens, a falta de diferença entre aqueles que seguem as regras, que “fazem oficada pela crueldade e truculência das força militares. Anos mais tarde um bem” e os que não fazem. Em “O Invasor”, a diferença entre os dois sócios,deles (Zécarlos Machado), certo de que encontrou o policial que fora seu que no início do filme planejam e contratam o assassinato de um terceiro, éalgoz, inclusive tendo assassinado sua namorada que estava grávida, arma que um deles se arrepende e o outro não. Dentro da safra dos filmes dauma emboscada levando os demais amigos para que possam vingar sua primeira década do século XXI5 é, portanto, um dos mais sinceros. O filme éjuventude. A atitude criminosa de pessoas ditas normais está então justificada. honesto com o país em que vive. “O Invasor” parece em alguns momentos“Aquilo era uma guerra”4, diz o velho torturador quando é cercado pelo grupo estar documentando determinadas situações. O filme trabalha de uma ma-que subjugou. neira tão naturalista que fica difícil diferenciar o que é ficção e o que não é. No primeiro e no terceiro filme as personagens “matadores” são consi- Numa das cenas em que força a sua entrada e aceitação na constru-deradas assim pela sua opção profissional. Ocupam, explicitamente, a mar- tora de Giba e Ivan, Anísio tenta que os dois financiem um CD de um rappergem da sociedade. São assassinos, bem definidos que usam deste ofício amigo seu, o músico Sabotage que aparece no filme fazendo o papel delepara viver. No segundo longa o diretor desenhou toda uma trajetória que leva mesmo6. Além desta participação, o músico foi responsável por uma parteas personagens a se tornarem assassinos, mas não profissionais. Na verda- da trilha e ajudou a compor a personagem de Anísio, escrevendo inclusivede nem assassinos. Os ex-militantes de “Ação entre amigos” penam tentan- alguns dos diálogos.do colocar o passado em ordem. São justiceiros e assim estão à margem da A cena do encontro dos dois sócios com o músico poderia ser abso-sociedade temporariamente e por uma boa causa. lutamente real. Ivan, muito irritado, quer dar um fim naquela situação: A razão deste ensaio é a observação da representação do lícito e do “Péra aí, Anísio, isso tá passando dos limites. Você tá pensando queilícito através da construção de personagens marginais e a tênue linha que isso aqui é um banco ?” (...) “Não”, diz Anísio ameaçador, “Eu tô pensandoas separa das personagens “não marginais”. Em “O invasor”, Anísio é o que o meu chegado aqui andou duas horas de ônibus e não vai voltar sem omatador contratado e, em nenhum momento do filme é questionada a sua dinheiro”7 .“profissão”. As outras personagens, os contratantes, o sócio que morreu e afilha dele são todos integrantes da classe “não marginal” da sociedade e,mesmo assim, têm um comportamento naturalmente ilícito. Lidam com situ-ações e ações ilegais como se estivessem lidando com suas profissões, 5 Entre várias estréias encontramos alguns títulos que também abordam de forma bastante incisiva a questão da violência como Bicho de sete cabeças de Laís Bodansky, São Paulo,suas famílias, seu cotidiano. 2000; Cidade de Deus de Fernando Meirelles, Rio de Janeiro, 2002 e Ônibus 174, José Padilha, Rio de Janeiro, 2002. 6 Sabotage morreu baleado em 24 de janeiro de 2003, quando saia de uma festa perto de sua4 BRANT, Beto. Ação entre amigos. Videocoleção ISTOÉ/ Novo Cinema Brasileiro. VHS/ casa, na região da Saúde, na Zona Sul da cidade de São Paulo.NTSC/ 80 minutos. Editora Três, São Paulo, 1998. 7 AQUINO, 2002,p.206.24 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 25
  • 14. SEÇÃO TEMÁTICA SELIGMAN, F. Quem é o marginal... Ao lado de “temas suaves, visões festivas do país e (re)visões históri- atuar na ilegalidade. Por sua vez, o desenho da personagem Anísio é atécas”8 em filmes feitos para assegurar um lugar no circuito de exibição, o previsível: frio, calculista, sem nenhuma emoção (tanto é que conta sem acinema brasileiro também entrou no século XXI perdendo a vergonha de ser menor preocupação que acabou matando a mulher do homem encomendadoexplícito e sem nenhuma necessidade de contar uma história com final feliz. porque ela o estava olhando, a princípio sem nenhum motivo mais forte,Convivendo com comédias de costumes e com a estética da teledramaturgia, apenas o olhar da mulher o ameaçara): “A mulher dele não estava no trato”,surgiram filmes que causam agonia e desconforto, inseridos no sangue ruim diz Ivan quando Anísio vem cobrar o restante do dinheiro combinado peloda sociedade nacional. A voz dos oprimidos que já foi tema de protesto e serviço; “Não se preocupe. Eu não vou cobrar a mais por isso” 10, diz Anísio.vanguarda nos anos do Cinema Novo agora vem à tona sem tanto compro- Como “trabalhador” e membro da parte “marginal” da sociedade, Aní-misso com a ideologia. “Estamos aqui”, nos diz o invasor Anísio todo o sio tem atitudes compatíveis com seu modo de encarar a vida e mais, com-tempo, “não adianta nos mandar embora porque vamos voltar sempre”. patíveis com o modo com que seus contratantes também agem. Tudo é uma Neste filme, a periferia não está se mobilizando por um mundo melhor. questão de oportunidade nos diz o filme. Não importa se estamos certos ouAnísio, por exemplo, quer apenas resolver a sua vida. Na Revista Sinopse, o errados, o importante é não perder a viagem.crítico de cinema Cléber Eduardo define bem a posição do filme quanto ao Anísio vai indo muito bem dentro da previsão de Giba e Ivan, até ocontraste social: momento em que resolve ocupar um lugar ao lado deles. Equipara-se à clas- “Saímos do terreno da visão marxista da luta de classes. Anísio não se dominante, tão marginal quanto, e resolve trabalhar também na constru-quer protagonizar uma inversão de pólos entre periferia e burguesia. Deseja tora. “Gostei daqui. Tô pensando em trampar aqui com vocês”11, diz ele.apenas se incorporar à classe dominante. Dispõe-se a defender os interes- Depois de conhecer o paraíso, o marginal não quer mais voltar para a favela.ses dela para compartilhar seus prazeres. ‘ Tô pensando em me envolver, dar O grande problema colocado aqui, porém, não tem resposta. A per-um trampo, cuidar da segurança para vocês irem à praia – diz a Giba e Ivan’ gunta fica no ar: quem é o marginal? De um lado personagens verossímeis,os patrões à contragosto que ele vê como sócios em potencial.” 9 ricas, bonitas morando em bairros nobres da cidade de São Paulo e convi- vendo normalmente com o crime, com a mentira e com a oportunidade de TUDO É UMA QUESTÃO DE OPORTUNIDADE levar vantagem sobre seus pares. Do outro lado a personagem marginal, a As personagens apresentadas no filme “O Invasor” são, em geral, muito favela, a criminalidade cotidiana, porém também com um lado banal, de uminfelizes. Mesmo aquelas que desfrutam de uma vida abastada com privilégi- cotidiano sem grandes emoções. Numa das cenas mais bonitas do filme aos das classes altas, são vazias e enfrentam uma grande falta de emoção câmera faz um passeio pela periferia acompanhando Anísio e Marina. Elespela vida. Ivan tem um casamento desmoronado e praticamente não fala vão até um bar, visitam uma cabeleireira. Tudo muito normal, sem nenhumacom a esposa nas poucas cenas em que ela aparece. Giba parece ser feliz maquiagem. Tranqüila é a vida longe dos bairros nobres da cidade e deslum-com sua família, mas, ao mesmo tempo, vive cercado por uma outra realida- brante para aqueles que a estão descobrindo. Marina parece, todo o tempo,de, como o convívio com prostitutas e bandidos. Seu sócio no prostíbulo é fascinada pela novidade que a periferia apresenta.um delegado de polícia que usa de seus contatos e conhecimentos para8 CLÉBER EDUARDO, Revista Sinopse, p.20. 10 AQUINO, 2002, p.1819 CLÉBER EDUARDO, Revista Sinopse, p.21. 11 IDEM, p.18926 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 27
  • 15. SEÇÃO TEMÁTICA SELIGMAN, F. Quem é o marginal... No lado nobre da sociedade, o fascínio pela marginalidade vai mais Gilberto (rindo): Eu sabia. Ta vendo como você é inocente, Ivan? Olonge. Giba, um dos mandantes do crime, além de engenheiro, também tem Estevão e os amigos dele vão lá toda terça, depois do futebol. Ele é clientesociedade numa boate, uma espécie de prostíbulo de luxo. Uma atividade preferencial da casa. Foi assim que ele descobriu. E da Alessandra, eleque ele encara com a maior naturalidade, e isto acontece durante todo o falou alguma coisa? A menina preferida dele. Procê ter uma idéia eu sei atéfilme: atividades ilícitas ou mesmo antiéticas são encaradas como naturais. o que ele gosta de fazer com ela... (...) Ponha uma coisa na cabeça, Ivan. O“Não acredito, você é sócio de um puteiro e eu nunca desconfiei de nada. É Estevão não é santo. Se a gente bobear, ele põe no nosso rabo. É só umade fuder”, diz Ivan quando descobre a sociedade do amigo. “Diversificação de questão de oportunidade, meu amigo.”13negócios. É a onda do momento”12, responde Giba. Uma vez desencadeado A questão da violência neste filme não é tratada como uma questãoo “lado podre da vida”, ele não volta atrás. Mais marginal talvez seja este bom isolada. A violência não aparece como uma conseqüência de uma socieda-pai de família, que conta histórias para a filha dormir, que cursou engenharia, de desigual, de uma crise social, política e econômica. A violência apareceque tira férias na praia e à noite toca um prostíbulo em parceria com um como uma questão de oportunidade, que pode surgir em qualquer classedelegado de polícia amigo de assassinos. social, dependendo da hora e da vez. Esta foi a oportunidade de Giba e Ivan. “O Invasor” é, portanto, um filme sem mocinhos. Todos têm alguma E de Anísio no momento em que ele descobre como é bom viver entre aculpa e se ainda não fizeram nada de errado é porque não tiveram oportuni- burguesia. Quando finalmente não agüenta mais, Giba interpela Anísio: “Es-dade. Um filme sem esperança, talvez. O realizador trabalha apenas com cuta aqui, Anísio, quanto você quer para sumir da minha vida ?” Porém Aní-um dos lados da moeda: o lado do mal. sio é categórico: “Nada. Tô gostando daqui.”14 Avaliando os retratos da classe média e da periferia nas personagens Um bom exemplo disto é a personagem Marina, que é uma garota dede Anísio, Giba e Ivan, consideramos que a grande violência que o filme nos classe média alta preocupada com festas, baladas e drogas. Sem nenhumaapresenta é o retrato cru de indivíduos da classe média, bem nascidos e reação ao assassinato dos pais, ela torna-se a ponte de Anísio para umainstruídos que, para conseguir uma ascensão profissional, contratam um vida nova. Por uma coincidência previsível acaba conhecendo e envolvendo-matador para acabar com o sócio “careta”. O pior de tudo é que quando se com o matador. Nem a juventude burguesa e bem nascida se salva dasentimos pena do sócio que sabemos, vai morrer, descobrimos que ele tam- artilharia do filme. A menina parece fazer pouco caso da morte dos pais ebém tem as suas artimanhas para conquistar seus objetivos. Numa cena como nova sócia da construtora quer apenas retirar um dinheiro por mês.inicial, antes do assassinato, Ivan se arrepende e tenta desistir do plano. Fascinada pelo novo e talvez até pelo proibido, namora um sujeito marginalProcura Giba e o sócio acaba por desvendar-lhe a outra face de Estevão: (embora não saiba que ele matou seus pais, sabe que ele veio da periferia e “Ivan: Conversei com o Estevão hoje de manhã. Ele sabe do teu negó- que provavelmente leva uma vida “diferente da sua”) e para se divertir, tomacio com aquele puteiro. ecstasy e dança nas “baladas”. Gilberto: Eu sei que ele sabe. Mas ele te contou como ele descobriuisso ? Ivan: Não, não contou. 13 AQUINO, 2002, p. 165.12 AQUINO, 2002, p. 151 14 AQUINO, 2002, p. 214.28 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 29
  • 16. SEÇÃO TEMÁTICA SELIGMAN, F. Quem é o marginal... NO FINAL, NINGUÉM É BOM... para a maturidade do cinema brasileiro. A heterogeneidade da safra de fil- O filme encerra com uma afirmativa: ninguém é bom. O sócio que mes nacionais dos últimos tempos permite que cada realizador trabalhe commorreu queria ganhar mais em cima de seus parceiros, os outros sócios honestidade, tenha espaço para expor sua visão e represente a sociedadepara aumentarem suas chances na empresa mandam matá-lo, o assassino em que vive da forma que melhor lhe couber.resolve que vai desfrutar da vida boa ao lado de seus contratantes e a filha A opção pela falta de perspectivas é uma opção ideológica dos seusórfã e rica herdeira namora um marginal. “O Invasor” é um filme sem esperan- criadores. Autores, atores, diretor, todos entram num acordo de mostrar umça, e talvez, uma história sem final. O realizador retrata com muita dureza a Brasil sem rumos. Do jeito que estamos não vamos a lugar nenhum, nos dizfalta de esperança que a sociedade brasileira vive hoje e que assusta a to- o filme. E mais, somos todos culpados e a linha que separa o certo e odos, sem exceção. Segundo Vanoye e Goliot-Lété: errado na sociedade brasileira está por se romper, é só aguardar. “Um filme é um produto cultural inscrito em um determinado contextosócio-histórico. Embora o cinema usufrua de relativa autonomia como arte REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:(com relação a outros produtos culturais como a televisão ou a imprensa), os AQUINO, Marçal. O Invasor. São Paulo: Geração Editorial, 2002.filmes não poderiam ser isolados dos outros setores de atividade da socieda- CLÉBER EDUARDO. A convivência forçada com O Invasor. Revista Sinopse,de que os produz (quer se trate da economia, quer da política, das ciências São Paulo, São Paulo: CINUSP / Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universi-e das técnicas, quer, é claro, das outras artes).”15 tária / Universidade de São Paulo. n. 8, ano IV, p. 20-24, abr. 2002. SELIGMAN, Flávia. Os matadores de tirar o fôlego. Revista Eletrônica Motim Cul- Uma opção difícil: um filme sem personagens bons. Uma opção esté- tural (Cidades Virtuais www.zaz.com.br), setembro de 1998.tica: uma fotografia trêmula e inquieta que procura por algo o tempo todo. Na VANOYE, Francis e GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise filmica.Campinas,cena em que Marina e Anísio tomam ecstasy, numa boate, a câmera parece SP: Papirus Editora, 1994.estar também drogada, girando para todos os lados sem uma base fixa.Assim é o filme todo, não há certezas, bases ou algum porto seguro nasociedade retratada. É o momento histórico na visão do diretor, sem espe-ranças. “O Invasor” é um filme que em alguns momentos nos causa repulsa.Como conviver com esta realidade tão dura e não ter condições de mudá-la ?Como conseguir entender uma história sem mocinhos e sem personagensbons ? Este é o filme, que não consegue fugir da sua época na história e nasociedade brasileira. Importante que visões como estas apareçam no meiode tantas outras num momento em que a cultura brasileira está tãodiversificada. Nunca tantas tendências e tantos estilos diferentes conviveramno mesmo período cinematográfico e isto configura um encaminhamento15 VANOYE e GOLIOT-LÉTÉ, 1994, p 54.30 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 31
  • 17. SEÇÃO TEMÁTICA GOLDENBERG, R. Adeus, Lênin... ADEUS, LÊNIN! OU, DA MISTIFICAÇÃO psiquismo da nossa civilização. Podemos dizer que quanto mais perto da estrutura esteja, menos livre será o escritor nas escolhas dos avatares das Ricardo Goldenberg personagens da trama ficcional. Qualquer escritor sabe disso, que ele é mais conduzido do que condutor de suas personagens. É nesta submissãoÉ difícil pensar num gênero de cinema mais puro do que a comédia e às coerções da estrutura, precisamente, que o psicanalista enxerga a gran- o musical, cinematograficamente falando. Digo “puro” no sentido em deza da obra. Motivo que me leva a centrar meu comentário na lógica que subtende a trama do enredo, em detrimento dos aspectos mais logrados de que a forma se liberta da tirania do realismo, do dever de fingir a comicidade e ternura, assim como da fotografia, a direção ou o desempenhorealidade, para ocupar-se apenas da coisa cinematográfica, liberando o es- dos atores, que deveriam constar de qualquer resenha crítica deste filmepectador, ao mesmo tempo, da exigência de Coleridge de suspender a des- encantador.crença para apreciar a ficção. São filmes irônicos por sua própria natureza, em Não é por livre arbítrio, portanto, mas empurrado pela lógica da trama,que a composição mesma declara publicamente a sua essência de artifício. que o roteirista decide fazer entrar em coma a personagem depois de um Deste ponto de vista, a decisão dos exibidores de classificar como infarto acontecido... Quando? No momento de testemunhar a cena do filhocomédia o “Adeus, Lênin!”, de Wolfgang Becker, é duplamente pertinente. lhe sendo tomado pela polícia durante uma manifestação contra o regimePrimeiro, por ser um filme que cumpre com uma das convenções do gênero: que ela serve como cão fiel. Coma que reproduz, um grau acima, a depres-explorar a comicidade inerente aos maus entendidos do amor, aqui, materno são catatônica em que ficara durante longos meses quando anos antes des-e filial. Segundo, por fazer da ilusão mesma o eixo da sua trama. cobrira que o marido nunca mais voltaria, tendo fugido para o lado ocidental Com efeito, temos a ação situada em Berlim do leste durante a que- do Muro da Vergonha.da do muro, e um filho empenhado em ocultar da sua mãe a realidade do fim E o filho empenha todas as horas do seu dia em conceber e realizar ado comunismo e a ocidentalização da Alemanha Oriental. Trata-se de um mistificação destinada a manter a convalescente ignorante do fato de que oconluio organizado entre amigos, família e vizinhos para mistificar esta se- mundo, seu mundo, desabou durante a sua “ausência”. Restaura, pois, onhora, cuja vida, nos é dito, fora dedicada e só faz sentido pela Causa quarto da acamada, como estava antes das mudanças e fecha a janela queSocialista. O núcleo de nonsense, origem das situações cômicas, é a pres- dá para a rua, abrindo outra, virtual, a televisão, que, mediante falsos jornaiscrição médica de evitar “absolutamente” a esta mulher cardíaca – sobrevi- de notícias, gravados em vídeo por um amigo, cria a ilusão, primeiro, de quevente de um infarto que a deixara em coma durante os oito meses em que o o status quo continua o mesmo e, depois, inventa um desfecho para o soci-comunismo era varrido de Alemanha – qualquer emoção violenta. E, claro, alismo, não como de fato foi, mas como deveria ter sido, conforme o idealque emoção mais violenta para uma militante de coração que o fim da cau- materno interpretado pelo filho. Reprodução irônica da real politik do stalinismosa pela qual milita? que, ao invés de adaptar a realidade e reescrever a história conforme os Um observação, antes de continuar. A psicanálise costuma se deter interesses do partido, está motivada pelo bem do outro. O bem do outroem obras de arte compostas de tal modo que a realidade do inconsciente se interpretado, claro, por aquele que apresenta a realidade para que coincidaapresenta de modo a obrigar o espectador a implicar-se naquilo que vê ou com uma fantasia.escuta, sem poder permanecer indiferente. É nesta implicação que reside,para o psicanalista, o interesse da obra. Assim, por exemplo, Freud credita É difícil não lembrar, neste ponto, o oscarizado filme de Begnini, “Aa durabilidade do impacto estético do Rei Édipo de Sófocles, ao fato de esta vida é bela”, cujo enredo e fonte de comicidade (e de polêmica) consistiatragédia pôr em cena a textura de uma fantasia universal constituinte d o também num engano. Desta vez, do filho pelo pai, que pretende salvá-lo do32 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 33
  • 18. SEÇÃO TEMÁTICA PEREIRA, R. DE F. Woody Allen e outras...horror da rotina de tortura e morte de um campo de extermínio nazista fazen- WOODY ALLEN E OUTRASdo com que ele acredite que tudo não passa de uma gincana com prêmios. CONTRIBUIÇÕES AOS PSICANALISTASO núcleo cômico sendo precisamente os esforços para que o ludibriado per-maneça inocente (cego?) apesar das sucessivas fraturas da montagem Robson de Freitas Pereiraficcional pelas quais irrompe a insuportável realidade. Insuportável, em tese, Hpara o mistificado (o filho, no caso de Begnini; a mãe, no de Becker), mas á algum tempo, depois de assistir “Dirigindo no escuro”, de Woodyque o filme não consegue evitar mostrar como uma “paixão de ignorar” me- Allen (“Driving mad”, no original), fiquei pensando que esta era maisnos do enganado que do “enganador”. uma de suas contribuições à psicanálise e, mais especificamente, O enredo de “Adeus” mostra isso quando nos surpreende com a con- aos psicanalistas. Explico melhor: na filmografia de Allen, pelas própriasfissão da mãe de que tinha mentido o tempo todo no concernente ao suposto características de seu humor e estilo (onde fazem parte o personagem ju-abandono do lar pelo pai deles atrás de uma saia. Não teria havido tal; o deu, classe média, intelectualizado e urbano / nova iorquino), a psicanálise émarido dela fora obrigado a fugir para o outro lado da cortina de ferro para não constantemente referida1. Freqüentemente de forma irônica ou satírica, ou-cair nas mãos da Stasi e ela, que devia seguí-lo, por medo de ser surpreen- tras vezes mordaz (em “Desconstruindo Harry”, por exemplo), a maior partedida e terminar os dias num campo de concentração, separada dos seus, do tempo em aparecimento pontual e secundário e, por vezes, sendo perso-opta por tocar a vida contando para si mesma e para os filhos a estória da nagem seu filme – lembremo-nos de “A outra” (Another woman).esposa abandonada. Desta vez, a especificidade estaria articulada ao desenrolar de um A aplicada militante passara a vida ocultando(se) a própia covardia: tratamento e sua descontinuidade, onde no decorrer do filme podemos ob-“Quando meu pai foi embora”, nos diz o filho, “a minha mãe casou definitiva- servar a demanda de análise, o desdobramento das sessões e seus efeitosmente com o Partido.” Não é um detalhe menor as cartas escondidas e surpreendentes para o analisante. Mesmo correndo o risco de incorrer numajamais abertas, que o homem abandonado do lado da “liberdade”, escrevera metáfora irônica (dirigindo no escuro); pois para os analistas a direção dapara a sua família, que desistira de juntar-se a ele sem uma única palavra. cura é um tema caro, acreditamos que vale a pena a discussão. Podemos indicar, então, os dois pontos em que o autor, quando perto Como para comprovar que as escolhas são sempre circunstanciais,do real da estrutura, revela-se arrastado pela ficção talvez à sua revelia. Um recentemente participei de uma “mesa redonda” num ciclo dedicado a obradeles é o infarto e conseqüente estado de coma da mãe, no momento em de David Lynch2. Ocasião de rever “A estrada perdida” (Lost Highway) pelícu-que vê o filho – pelo qual renunciara ao marido – ser levado dela pela polícia. la emblemática na filmografia do diretor que reafirma algumas marcas de seuOutro, o momento em que, ainda sem saber supostamente que está sendoludibriada, confessa a verdade sobre o abandono do pai. Revela-se nestemomento, senão para a personagem ao menos para o público, que a mistifi- 1 Estas observações, com o acréscimo de considerar Woody Allen como o maior humoristacação toda era um exemplo da lógica pela qual o emissor recebe do receptor do cinema, podem ser conferidas no “Dicionário de Cinema – os diretores”, de Jean Tulard,a sua própia mensagem de modo invertido. A mentira amorosa filial, com ed. LPM; “Dicionário de cineastas”, de Rubens Ewald Filho, ed. LPM e na biografia “Woody Allen”, escrita por Eric Lax, ed. Cia das Letras.efeito, reproduz em espelho a mentira amorosa materna, destinada menos a 2 O ciclo “Tarja Preta – a obra de David Lynch”, produzido e coordenado por estudantes deenganá-lo do que a ocultar a si própria sua opção de abandonar o homem Comunicação da UFRGS, apresentou, além dos longa-metragens,diversos filmes de Lynch, muitos deles praticamente inéditos no Brasil – curtas e filmes experimentais. A oportunidadepara ficar com o filho. da discussão deu outro rumo ao texto pensado inicialmente, daí a menção às contingências.34 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 35
  • 19. SEÇÃO TEMÁTICA PEREIRA, R. DE F. Woody Allen e outras...estilo e prenuncia outras (A cidade dos sonhos/Mulholand Drive). Com este articulou para que ele voltasse a dirigir um longa metragem de grande orça-“estímulo”, pude articular que a contribuição de Lynch para a psicanálise mento.seria diferente daquela propiciada pelos filmes de Allen. Para o diretor nasci- Nas vésperas de iniciar as filmagens, o inesperado: o diretor fica cego!do em 1946, a psicanálise não é referência enquanto terapia. Ele coloca em Estava lendo o roteiro do filme. Deitou-se para cochilar um pouco e, ao des-cena muito mais a dimensão do inconsciente com seus aspectos oníricos, pertar, não enxergava mais. Escuridão completa. Levado ao analista por seuseus elementos recalcados, seu gosto pelas cores, pelos detalhes que ad- agente, faz sua demanda: está cego e precisa recuperar a visão em poucosquirem importância fundamental, na transformação dos restos em objetos dias (estamos na quinta-feira e ele começa a trabalhar na segunda). Ao quedesejáveis e na inclusão e valorização dos excluídos. o psicanalista lhe responde com as restrições habituais: um tratamento não pode prometer resultados, é demorado, mas ele pode retornar na sessão DEIXANDO O SIGNIFICANTE DIRIGIR seguinte. “Dirigindo no escuro” pode não ser o melhor filme de Woody Allen. Wal vai retornar para suas sessões, enquanto inventa estratégias paraNem precisa. Alfred Hitchcock dizia que bons livros nunca deram ótimos que ninguém possa perceber sua mais completa “deficiência visual”. As tra-filmes. Ele preferia roteirizar obras medianas. Parafraseando o diretor inglês palhadas se sucedem. Escolhe um fotógrafo chinês que não entende suaque tinha a psicanálise em alta conta para sua cinematografia, talvez possa- língua e assim consegue um tradutor que seja seu cúmplice. Sua ex-espo-mos afirmar que películas muito empolgantes podem inibir nossas associa- sa, num primeiro momento supostamente só interessada na realização doções. Fica difícil elaborar alguma coisa que vá um pouco além do lugar co- filme, também se transforma em cúmplice da farsa.mum, tamanho o impacto causado no espectador. Há controvérsias, a dis- No decorrer de suas entrevistas com o “shrink” , o diretor vai relatandocussão é tão antiga quanto o advento do cinema falado x cinema mudo. as condições que desencadearam seu sintoma – cegueira – e como ele teveFaçamos então a ressalva de que isto não precisa ser uma regra; pois há início. Nestes relatos e na importância que lhe dá o analista a determinadospessoas corajosas que, depois de assistir a uma obra prima, sempre tem temas, vai-se operando uma mudança de posição do “analisante”. Suas as-sua contribuição a dar ao diretor. Neste caso particular, vamos nos ater a sociações da noite em que perdeu a visão são exemplares. Estava lendo oalguns aspectos da película em questão; pois a multiplicidade de significa- roteiro e começou a ficar cansado e com sono. Qual a história? Simples; umções ou o feixe de significantes que performa um filme exigiria um esforço caso policial, onde um matador mafioso tem que assassinar o próprio pai.muito maior do que os parâmetros deste texto. Não cumprindo a “missão”, coloca sua vida em jogo. A partir deste episódio, Wal Waxman é um diretor de cinema que, depois de algum sucesso, vê ele começa a falar das relações com o próprio filho. Estão rompidos, briga-sua carreira entrar em franca decadência. Atualmente, limita-se a dirigir comer- ram chegando as vias de fato. Afinal, seu filho é adito às drogas e formouciais – tipo vender geladeiras para os esquimós. No decorrer do filme, apresen- uma banda de rock, quando seu pai desejava que ele fosse músico clássicotam-se alguns aspectos que o levaram a decadência. Todos ligados a seu e cursasse uma universidade.comportamento cada vez mais obsessivo no set e outras bizarrices que Mesmo com suas queixas, sem saber muito bem porque vai procurarfizeram ruir seu reconhecimento junto aos grandes estúdios. A derrocada foi o filho e retoma um diálogo há muito interrompido. É obrigado a ouvir o quetamanha que até sua mulher o deixou para ir viver com um chefão de estúdio. nunca quis. Por exemplo: “não sei como você foi atirar-se nas drogas”. “Ora Subitamente, surge uma grande chance: ele é contratado para dirigir pai, você foi meu maior exemplo. Tomava medicamentos todo o dia! Semum blockbuster. Sem que ele saiba, sua ex-mulher – agora produtora – falar nas bebedeiras que presenciei”.36 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 37
  • 20. SEÇÃO TEMÁTICA PEREIRA, R. DE F. Woody Allen e outras... Sua vida amorosa e sexual também é questionada. Viu-se cúmplice pre determinada discursivamente. Se nos limitarmos ao que é visto estare-do fracasso de seu casamento anterior e na posição que ocupava junto a mos sempre sob a hegemonia do imaginário. O que é visto pode servir paracompanheira atual. Toda a atenção só para ele. Toda a sustentação somente confirmar aquilo que queremos ver. Lembremo-nos da disjunção entre a visãodo lado dela. Não acreditando que ela possa ser efetivamente uma boa atriz, e o olhar, tão bem trabalhada por Lacan e outros autores3, ou mesmo olhe consegue uma “ponta”b, mas atribui isto a sua cegueira. reconhecimento de que a psicanálise introduziu uma forma de escuta – a do O roteiro chega ao final, as filmagens também. O filme é um fracasso significante – que contribuiu para uma abertura da cultura ocidental4.de crítica e público nos EUA; pois WW não conseguiu recuperar a visão atempo de terminar pelo menos a montagem. Pelo menos conseguiu reconci- A HIGHWAY DO INCONSCIENTEliar-se com o filho e a ex-mulher. Um dia, sentado num banco de praça junto A abertura que citamos acima foi o rompimento com a leitura de índi-com ela, admitindo seu fracasso, e pensando no que fazer dali por diante ces e signos, quer dizer, uma escuta/leitura que se desprendeu das amarrasele, subitamente, recupera a vista perdida. Pode refazer planos conjugais e do sentido, da hermenêutica e da verdade universal religiosa. David Lynch,de trabalho – os franceses adoraram seu filme sem pé nem cabeça e ele cineasta nascido no pós-guerra, vindo de uma escola de artes plásticas, trazrecebeu convites para trabalhar na Europa! uma outra possibilidade de articulação nesta relação complexa do cinema Banal? Sim. Poderíamos acrescentar que todos os clichês psicanalí- com a psicanálise. Explora a multiplicidade de estilos, fazendo uma atuali-ticos estavam em jogo – Édipo, castração, problemas com a sexuação e zação da realidade do inconsciente de maneira diferente de Woody Allen.com a função paterna . Entretanto, apesar e mesmo em função dos clichês Bem entendido que diversidade não implica um juízo de valor.vale a idéia de que uma cura vai além das intenções imediatas do analisante. Sua contribuição para a psicanálise, se é que podemos utilizar estaEle pode esperar “o melhor” – lembrando as respostas de Jacques Lacan em expressão, está na atualização da dimensão onírica e de alguns aspectos“Television”. Mas os resultados esperados podem comparecer nos momen- que tentaremos sintetizar a seguir. Os sonhos são atemporais e colocam otos mais surpreendentes, só depois que o trabalho com alguns significantes sujeito nesta intersecção das dimensões reais, simbólicas e imaginárias.fundamentais para o sujeito tiverem passado pela dimensão transferencial. Hegemonia do imaginário, mas sempre tributário da linguagem e daDaí a importância de que o personagem e mesmo seus dramas existenciais discursividade que nos (des)organiza. Utilizando em sua filmografia elemen-fiquem próximos da caricatura ou do lugar comum. Isto só reforça esta di- tos caros a cultura ocidental e oriental – o duplo, as relações com o demoní-mensão fundamental de que a atenção tem que ser flutuante e o foco não aco, a morte e o sexo, o sangue e as cores, Lynch nos impulsiona a lidarpode estar sempre condicionado pelo esbatimento da queixa. A dimensão com aspectos recalcados. Aqueles que muitas vezes preferimos deixar lon-do sintoma articula-se com este sinthoma (sinthomem) fundamental que ge da realidade cotidiana.enlaça o sujeito com a linguagem que o determina. Cada um faz sua articu-lação particular dos significantes fundamentais – morte, sexo, pai, filho, en-tre eles. 3 Lacan trabalha a esquize do olho/olhar em seu seminário “Os quatro conceitos fundamen- tais da psicanálise” e a dimensão escópica como um dos objetos pulsionais, juntamente com Não poderíamos deixar de mencionar outros elementos em cena. A a voz e a escuta, em diversos momentos de seu ensino. Georges Didi-Huberman é outropiada final (cultura norte-americana x européia) pode ser lida também como autor que, desde a iconografia da histeria no século XIX, vem pesquisando sobre o queautoreferencial (Woody Allen tem mais reconhecimento na Europa que nos vemos e o que nos olha. Em seu último trabalho “Images malgré tout”, ed. Du Minuit , ele lança a questão: ver uma imagem nos ajuda a saber sobre nossa história?EUA) ou mesmo como uma metáfora do quanto uma interpretação está sem- 4 “Écoute”, Roland Barthes, Ob. Cs. Vol. III.38 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 39
  • 21. SEÇÃO TEMÁTICA PEREIRA, R. DE F. Woody Allen e outras... A “Estrada perdida” com sua estória de mistério, pacto diabólico, as- servem para resguardar o sono e decifrar enigmas. Com Lacan, o inconsci-sassinato e velocidade é exemplar neste movimento de re-introduzir o que se ente transforma-se num saber, através do qual o sujeito pode tentar se deci-tenta manter afastado/excluído, tanto da subjetividade, como das relações frar. Não como adivinhação de um texto já escrito – um destino – mas umsociais5. Em uma entrevista, o diretor afirmava: “os lugares mais belos po- conjunto de cifras, de letras que esperam por um sentido, de preferênciadem conter doenças e outras coisas sob sua superfície”, basta rasgar a mais de um. A verdade tem estrutura de ficção, a mesma da linguagem quecortina de veludo azul ou enfrentar o rechaço provocado por uma figura gro- é condição inconsciente.tesca. “O homem elefante” é exemplar ao nos apresentar a história do perso- Os dois cineastas citados nos ajudam a enfrentar a complexidade, anagem de circo que retirado do rol das atrações bizzarras, consegue se parcialidade e incluir o intervalo e a desarmonia como parte de nossa vida. Oapresentar como espelho de nossa própria humanidade. cego que só consegue recuperar a visão das cores e da vida num outro “Veludo Azul” (Blue Velvet) é outra história de voyeurismo, sexualida- momento, depois de suportar a descontinuidade de um tratamento. Comde misturada com dinheiro e morte. Com o detalhe da orelha achada num Lynch, a descontinuidade se formaliza (sexo não existiria sem ela, videgramado. “Porta para um outro mundo”, no dizer do diretor. Único orifício do Georges Bataille), articulando a teia de sangue, sexo e violência quecorpo que nunca se fecha, como nos lembra Lacan. costumeiramente está protegida pelo véu de nossa cordialidade cotidiana. Nestes filmes, somos levados a incluir os fragmentos de história e deobjetos, fazendo uma trajetória de inclusão e reconhecimento de que osrestos são fundamentais em nossa cultura e podem se transformar em obje-to de desejo (não é este um dos ensinamentos da psicanálise? Reconhecera travessia do objeto causa de desejo em resto da operação?). Impulsiona-dos a produzir significações das mais diversas a partir das lacunas, dosintervalos. Nestes intervalos, onde irrompe a angústia e um preenchimentoconduzido inicialmente pelos nosso fantasmas. A realidade é uma espéciede sonho que o sujeito conforma para suportar sua existência. Não há outrocaminho, até que reconhecemos que o essencial (se é que ele existe) estános restos, nos objetos perdidos. Os sonhos e sua interpretação fazem parte da história de nossa hu-manidade. A partir de Freud (precedido por dramaturgos e poetas comoCalderón de la Barca, “a vida é sonho”), aprendemos que eles são realiza-ções de desejos inconscientes e tributários da linguagem; ou seja, o sujeitoprecisa relatar, dizer o que sonhou para encontrar algum sentido. Sonhos5 Não vamos detalhar o roteiro do filme por questões de espaço. Deixamos ao leitor a tarefade preencher as lacunas. De resto uma das tarefas que todo o espectador dos filmes deDavid Lynch é convocado a fazer.40 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 41
  • 22. SEÇÃO DEBATES CALLIGARIS, C. Diários de motocicleta. DIÁRIOS DE MOTOCICLETA 1 sos devaneios de livres aventuras quanto nossas exigências de engajamento radical. Contardo Calligaris Falando em radical, há, no filme, um diálogo memorável entre Alberto e Ernesto, sentados nas pedras de Machu Picchu. Nessa altura, os doisE stréia amanhã “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, inspirado amigos já sentem os efeitos da viagem: a injustiça os assombra. Alberto tem nos diários que Ernesto Guevara escreveu em 1952, quando, com o a idéia de casar-se com uma descendente de inca: “Fundaríamos um partido amigo Alberto Granado, percorreu a América Latina da Argentina à indígena (...). Incentivamos todo o povo a votar, reativamos a revolução deVenezuela, de moto, a pé, de barco ou de carona. Tupac Amaru, a revolução indo-americana, o que você acha?”. Ernesto res- No filme (como provavelmente aconteceu na realidade), a experiência ponde: “Uma revolução sem tiros? Você está louco” (é, aliás, um dos váriosde Ernesto e Alberto é um momento mágico, em que convivem as duas gran- momentos em que Gael García Bernal, no papel de Ernesto, passa repenti-des aspirações das gerações que cresceram na segunda metade do século na e perfeitamente da ternura à dureza).20: o anseio de liberdade individual, que nos tornou todos um pouco mochileiros Brincando, poderíamos dizer que a proposta de Alberto foi tentada por(de verdade ou em sonho), e o anseio de viver numa sociedade justa. João Ramalho com a ajuda de Bartira: chama-se Brasil. Quanto à proposta Essas vertentes de nossas esperanças se divorciaram precocemen- de Ernesto, ela não parou de fracassar durante o século 20: do Camboja àte, e o mundo se dividiu em dois blocos: os mochileiros sem justiça e os própria Cuba, passando pela China, o que foi ganho na ponta do fuzil custoujusticeiros sem mochila. Somos os filhos problemáticos desse casal divorci- caríssimo em liberdade e em vidas.ado e, como tais, logicamente, gostaríamos de juntar os cacos. Mesmo assim, o caráter radical dos sentimentos de Alberto e Ernesto Talvez a vontade de reconciliar nossos dois anseios explique por que deixa um gosto amargo. É por decepção ou por covardia que nos tornamosa figura do Che se tornou uma marca registrada do espírito de revolta. incapazes de inventar e projetar utopias radicais? Na vida de Ernesto Guevara, a travessia narrada no filme não é só um É estranho assistir à viagem dos dois amigos numa época em queepisódio juvenil, mas uma espécie de matriz. Guevara, por mais que se tor- mal se consegue imaginar um mundo diferente e nos resta sonhar apenasnasse uma eminência da Revolução Cubana, nunca tirou o pé da estrada. com uma melhoria progressiva das condições econômicas de todos. É es-Pouco importa decidir se, do ponto de vista político e estratégico, as expedi- tranho escutar a conversa de Machu Picchu numa época em que nossações congolesa e boliviana fizeram sentido ou não. Para entender o mito do imagem do radicalismo extremo é o MST, um movimento inspirado por umaChe, vale uma outra consideração: as expedições foram, para ele, uma ma- ideologia católica do fim do século 19, cuja visão do futuro é um mundoneira (desvairada, se você quiser) de continuar a viagem, de não se transfor- arcaico de pequenos proprietários rurais em economia de subsistência, to-mar num burocrata do poder (num justiceiro sem mochila). Se o Che foi um dos rezando o ângelus do fim do dia. Legal e bem melhor que a fome, mas éídolo pop de ambos os lados da Cortina de Ferro, é porque, durante toda a isso que chamamos de radical?sua vida, como naquela viagem inicial, ele não parou de encarnar tanto nos- Claro, a frustração de não saber mais sonhar é acompanhada pela consciência do malogro que sempre parece espreitar nossos sonhos. É difí- cil olhar para Ernesto jogando pedras no caminhão de uma mineradora sem pensar em suas lutas futuras. Mas, para mim (e deve ser assim para mui-1 Publicado no jornal “Folha de São Paulo”, em 06/05/2004. tos), o caminho entre a raiva do jovem Ernesto e a morte do Che na Bolívia42 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 43
  • 23. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva...não é uma gloriosa ascensão em direção à santidade. A regra (trágica) é ANTES A CHUVA, DEPOIS O QUÊ?esta: a magnanimidade que pode nos levar a menosprezar nossa própria vidae a encarar o martírio é a mesma que pode nos induzir a menosprezar a vida Rosane Palacci Santosdos que obstaculizam nossos projetos. Medindo as palavras: quase sempre Eas melhores intenções alegam sua generosidade para justificar a pior ste escrito é sobre um filme que me mobilizou. “Antes da Chuva”intransigência. (Before the Rain, 1994) foi roteirizado e dirigido por um macedônio, Constato que falei do filme menos do que queria. Mas falei da viagem Milcho Manchevski, que depois deste filme não pode dirigir mais ne-na qual Alberto e Ernesto me levaram: montanhas-russas de contradições nhum: morreu logo após esta realização.não resolvidas, no mundo e dentro de mim. O filme que tem como subtítulo “Uma história em três partes” (A tale Na chegada, fico dividido dolorosamente entre a nostalgia de uma in three parts), inicia com uma imagem das montanhas da Macedônia (nacapacidade perdida de sonhar livremente e a consciência das restrições que antiga Iugoslávia) e uma voz que diz “Com um grito, os pássaros fugiramos próprios sonhos, quando se realizaram, impuseram à liberdade. Acompa- para o céu escuro, as pessoas se calaram, meu sangue dói pela espera.”nha a sensação de que essa divisão nos condena a uma intolerável preguiça. Em seguida, como que no prólogo do filme, se vê um monge colhendo toma- P.S.: 1) O filme, isso consegui dizer (ao menos, espero), é uma via- tes vermelhos; é Kiril. A seu lado está um monge mais velho que lhe diz “Vaigem ao coração das esperanças (as quais carregam a ameaça das trevas, chover, as moscas estão picando. Lá já está chovendo.” Kiril não comenta:como qualquer sol de verão carrega a ameaça da chuva). Mas ele não é só fez voto de silêncio. O monge mais velho diz então que tem medo de trovões.isso: é também uma maravilhosa história de amizade entre dois jovens. Quando estão indo na direção do templo, passam por crianças que brincam 2) Rodrigo de la Serna, no papel de Alberto, deveria ser um sério com tartarugas de verdade, como se estas fossem ninjas. O monge maiscandidato ao Oscar de melhor ator coadjuvante. velho diz: “O tempo nunca morre. O círculo não é redondo. Quase fiz votos de silêncio como você. Mas essa beleza celestial merece palavras.” “Palavras” (Words) é o nome do primeiro conto do filme. Vê-se então um serviço religioso dos macedônios ortodoxos. Enquanto isso, lá fora, as crianças estão fazendo um círculo de fogo em torno da tartaruga. Eles têm balas de verdade, que explodem quando jogadas sobre o fogo. O som inter- rompe a reza. São tempos de guerra. É noite, e os monges vão lado a lado para seus quartos. Kiril, em seu quarto reza, tira a roupa e quando vai se deitar encontra Zamira, que parece um menino. Ela assusta-se tanto quanto ele, que tenta acender uma luz. Ela o impede de fazê-lo. Ela tenta falar com ele. Entende que ele não fala albanês e encolhe-se num canto com uma coberta. Seu pé fica descoberto e Kiril olha. Notando o interesse, ela cobre o pé. Ele então sai do quarto, pensando em denunciá-la. Ao olhar para ela, vê seu pavor. Desiste. O monge mais velho abre a porta; vão juntos urinar. Quando volta para o quarto, Kiril coloca44 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 45
  • 24. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva...tomates vermelhos ao lado dela e se deita. Zamira devora os tomates; Kiril entende. “Ninguém a encontrará!” ele promete. Beija seu rosto e ela se en-escuta o som com prazer. Ela, então, diz a ele o seu nome. Diz que ele é trega em seu abraço. Estão assim enlaçados quando o avô dela chega e osbondoso. afasta. Zamira fica feliz por ver o avô; recebe dele um tapa no rosto. Kiril tenta Amanhece. Vê-se um enterro: são dois corpos e uma mãe inconsolável. reagir e apanha dos outros dois que estão junto com o avô. Este continua aGuerrilheiros – parecem guerrilheiros – estão presentes. Armas e bandeiras bater em Zamira e interroga-a, enquanto fala: “Sangue chama sangue. Vaipor todo lado, na imensidão do lugar, cheio de montanhas. Bastante afasta- começar uma guerra. ... Quem é aquele?” Zamira responde “Me salvou” eda do local do enterro, se vê uma mulher. Não é dali. É diferente das outras “Ele me ama”. Mostrando que o amor não dura contra a dor, o avô manda,mulheres; veste-se, parece, diferente. Olhos vermelhos de chorar. No enter- gesticulando, Kiril embora. Este começa a correr. Zamira o olha afastar-se.ro, derramam sobre os corpos um líquido, parece vinho, vermelho. “Oh, meu Detém-se por um tempo. Corre em sua direção, gritando para que ele espe-Deus!” diz a mulher diferente. Ao mesmo tempo, alguém fotografa não se vê re. Ele se vira, ela vem correndo... o irmão de Zamira atira com sua metralha-o quê; ao mesmo tempo, Kiril corre entre as montanhas, em direção ao dora. Kiril a vê cair perto; passa a mão em seu rosto; pede desculpas. Elamonastério. Os guerrilheiros que estavam no enterro dirigem-se também ao faz sinal que não quer palavras – sinal de silêncio, dedo sobre a boca. Ele semonastério. Um deles entra e interrompe os serviços religiosos. São três senta em sua mala, a seu lado, ela já morta. Sem palavras. Aí se vê muitahomens e estão armados. Mitre, o “líder”, conhecido pelo “chefe” dos mon- água: é o banho da editora da revista londrina. Ela chora enquanto se banha.ges, diz que procuram uma albanesa que matou seu irmão. Discutem sobre Cena do ralo, a água levando tudo, tudo escorre.revistar o local. Kiril mexe negativamente a cabeça, olhando fixamente para Estamos, então, entrando na segunda história: “Rostos” (Faces). AnneMitre, quando inquirido sobre a presença de alguém. Revistam. Por último, está na editora, vendo fotos de guerra, não se sente bem. Recebe uma liga-vão ao quarto de Kiril. Ele espera apreensivo. Nada encontram. Kiril volta ao ção telefônica: está grávida. Alexsander, fotógrafo famoso, chega por umaquarto. Ele vomita ao ver um dos guerrilheiros matar e fazer jorrar o sangue porta, ela sai por outra. Ao tentar atravessar uma rua, Anne parece perdida,de um gato no telhado. confusa. Carros, ônibus, motos, roupas coloridas, faces, pés. Encontra en- É noite. Os guerrilheiros montam acampamento na saída do tão sua mãe, que sempre lhe diz como fazer, que sempre lhe diz que quermonastério. Dentro dele, Kiril dorme e, sonhando, reza em voz alta. Acorda sua felicidade. Preocupa-se demais com a filha...até porque não tem ume vê Zamira a seu lado. Era uma ilusão. Fica triste, volta a dormir. Acorda emprego de verdade. Caminhando passam por uma igreja, onde um coro denovamente e desta vez ela é real; a convida para deitar-se a seu lado. Ela meninos ensaia. Anne pára para olhar. Ela está dizendo à mãe que veránão aceita, deita-se no chão, virada para ele, olhando para ele. Nick, seu marido, quando chega Alexsander. Chega por trás e lhe dá um Pela manhã são flagrados por dois monges. “Que vergonha!” diz um beijo no rosto. “Vem tempestade”, ele diz. A mãe diz para a filha que “Não hádeles. Kiril é expulso. “Boa sorte para os dois” diz o monge-chefe, depois de problema do qual não se possa se afastar.” Anne se despede e sai comter dado um tapa no rosto de Kiril. Então as primeiras palavras de Kiril: Alexsander de táxi, a rodar pela cidade. Ela quer saber por que ele não está“Obrigado, padre. Me perdoe.” Conseguem passar pelo guarda dormindo. na Bósnia, onde era suposto estar. Ele diz que se demitiu e quer transar comCaminham durante a noite, com uma imensa lua a iluminar seus passos. ela. Anne pede para que seja sério. “Vamos ter filhos na Macedônia.” diz ele. Amanhece novamente. Novamente são flagrados ao pararem para Ela argumenta que lá não é seguro, ao que ele replica: “Claro que é. Lá osdescansar. Kiril estava falando sobre um irmão a quem deviam encontrar, bizantinos capturaram 14 mil macedônios. Arrancaram seus olhos e ospara depois irem ver seu tio, em Londres, um fotógrafo famoso. Zamira não o mandaram para casa. 28 mil olhos.”46 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 47
  • 25. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva... Falam sobre as guerras. Anne diz “É importante tomar partido.” Ele entende, não quer ouvir. Ela quer o divórcio. Discutem. Ela já tomou suanão quer tomar partido algum; pra ele a paz é a exceção, não a regra. Muitas decisão, tomou seu partido. Ele se levanta, joga dinheiro na mesa. Anneguerras. Ela deve largar tudo e ir com ele para a Macedônia; mas ela quer ter pede para que volte, espere. Ele chora. Anne segura seu rosto nas mãos eum filho. Ele promete então que vai mudar. Anne olha para o rosto dele com diz que ainda o ama. Ele se abraça em seu corpo e soluça. Depois diz queatenção – se vê a cidade passando refletida no vidro da janela do carro: “Já só precisam de tempo. Mas o tempo não espera ... volta o sujeito barbudomudou, olhe para o seu rosto.” Alex – como ela o chama – diz que aprendeu, gritando e dando tiros em todas as direções. Vai embora depois de muitoque envelheceu. O tempo – duas semanas – é pouco pra isso, segundo estrago. Muito sangue, vidro, gritos, olhares esbugalhados. Uma mão mortaAnne. “Eu matei. Matei” diz Alex, chorando; Anne o abraça. Abraçam-se, se sobre o seio de Anne; um rosto morto, muito sangue, sobre o seu colo. Annetocam. Chegam a um cemitério. Ele diz que tem passagem para viajarem levanta-se, procura por Nick. Pessoas se arrastam – como tartarugas. Elajuntos... ela precisa ficar. Então “Seja feliz” diz Alex, e vai indo, não sem olha em volta, chama por ele. Encontra; seu rosto tem um tiro no olho. “Seuantes deixar com ela o bilhete e a fala: “Tome partido”. rosto, Nick, seu rosto.” O olho que era azul, está agora vermelho. Anne Anne volta a editora: vê Kiril em uma foto; vê o rosto de Zamira e seus passa a mão no rosto morto: “Seu rosto, seu rosto”. Voltamos para aolhos mortos. Recebe ligação que era pra Alexsander Kirkov. Ouve-se a voz Macedônia, para as montanhas.de Kiril. Não quer deixar mensagem. Alex, na rua, vê mensagem pixada em Começa a terceira parte: “Imagens” (Pictures). Panorâmica da cidadeuma parede: “O Tempo Nunca Morre. O círculo não é Redondo”. Pega um Skopie. O avião que chega é vermelho. Alexsander está de volta: olha ostáxi e vai para o aeroporto. Anne sai do escritório e olha pra cima: vê um lugares, os carros blindados, as marcas de refrigerantes nos outdoors, asavião e uma imensa lua. Vai jantar com Nick, o marido que a espera em um pessoas, as ruas, rápidas. Crianças, animais, tanques de guerra. Vermelhorestaurante. Tartarugas estão num aquário na sua entrada. Nick chega e a dos ônibus, vermelho de alguns carros, vermelho do chapéu e do cachecolbeija. No mesmo momento, chega um sujeito barbudo. Nick e Anne se olham da moça com quem o companheiro discute na rua. Tudo é olhado porconstrangidos. Ela vai bem, ele não, precisa de um drinque. Sentem os dois Alexsander; que está num ônibus; que deixa a cidade. A paisagem vai mu-muito pela separação. Mas um terceiro está vindo; “Estou grávida” diz Anne. dando, as vestimentas, as pessoas, seus olhares. Então a cidade está lon-Nick se levanta e a beija. Pede, efusivo, champagne. Ela quer ir embora; ele ge, é só campo, montanha. Rostos marcados. Envelhecidos. Um sujeitonão a escuta. Fala que ela tem que se cuidar agora; que agora vai ser dife- fardado senta a seu lado, puxa conversa. Vai a colheita. Alex vai a um batis-rente. Ao fundo, o sujeito barbudo mostra notas de dinheiro ao garçom, joga mo. De quem? Seu. Não, brincadeira, de um sobrinho. O outro perguntao dinheiro. Discutem. Joga mais dinheiro, moedas e notas, na direção do sobre tempo; Alex responde: “Há 16 anos. Fugi há 24 anos, só vim aqui umagarçom. O maître intervém; despede o garçom. Os dois brigam a socos. vez.” O fardado pega seu livro e descobre Alex e Anne em uma foto. Segun-Outros garçons tentam apartar, segurar o sujeito; dizem que a polícia está do Alex, ela “Morreu ... num táxi”. O outro quer saber qual o motivo da volta,chegando. O sujeito barbudo vai saindo: ele e o garçom se olham, se amea- explica que tudo está diferente, “Podem cortar a sua cabeça”. Alex não seçam com gestos. Poucos clientes se levantam, vão embora. assusta, isto porque esta ele já perdeu. O maître se desculpa. Nick diz que pelo menos o sujeito não era Desce do ônibus, chega ao seu vilarejo. É abordado então por umnorte-irlândês. O maître responde: “Não, senhor. Eu sou norte-irlândês.” Nick guerrilheiro, cabelo vermelho, jovem, de quem com facilidade toma a arma.desculpando-se diz “Que as guerras civis sejam mais civilizadas ao chega- “Vai se ver com meu tio Mitre” ameaça o rapaz. Alex caminha em direção asrem aqui.” Propõe à Anne irem para casa, mas ela quer conversar; ele não casas, passa por gente de olhar desconfiado. Reconhece o lugar. Sorri para48 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 49
  • 26. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva...ele. Caminha mais. Vê sua casa. Diz um palavrão, sorri. Vai até lá. Dorme ja sem olhá-lo. Para o pai ela olha. Nisso são espiados: Zamira e o irmãoencolhido à noite. Quando acorda, crianças o estão olhando, espiando, pela passam atrás de uma cortina. Hana deseja boas vindas a Alex e o olha porjanela. Anda de bicicleta, assoviando música inglesa. Cai; vê menininho, só um minuto; retira-se. Zekir chama o neto, que não entende a presença dede camisa, com a metralhadora que tirara do ruivo. Consegue retomar a Alex na casa e acaba por ameaçá-lo: “Cortarei a garganta dele.” O intruso vaiarma, no mesmo instante em que um homem aparece atrás dele. Era seu embora; Hana o olha mais uma vez pela janela.primo; parecem se estranhar e logo se abraçam. “Não o reconheci, também Carteiro chega a um escritório. O telefone toca: é alguém, Anne, ten-com essa barba. Também está mais velho.” diz o primo. Alguém os olha: é tando se entender com a telefonista e chamar Alexsander Kirkov. O telefoneMitre. O primo está a exaltar: “Alexsander, ganhador do prêmio Pulitzer. Faz é desligado. Não era para ninguém. Nisso, no curral de ovelhas, uma está100 anos”. Só faz 16, lembra Alex. Mitre vem na direção deles e exige a nascendo. Muito sangue. Escuta-se o sorriso de dois homens. Alex se diri-arma que tomou do seu sobrinho. Recebe-a de volta com a advertência de ge para lá. Ao chegar pergunta se é macho ou fêmea. “Tanto faz, desde queque deve deixá-la em lugar seguro. Almoçam todos juntos. Alex pergunta por seja macho” diz o doutor-veterinário. Nasce mais um animal. Mais sangue.Hana; Mitre diz para esquecê-la, é albanesa. Mas qual o problema, quer O veterinário pede conhaque para comemorar. O primo sai para buscar, olhasaber Alex; “o pai dela corta o teu pau”, explica Mitre. Outro conta que ela para o alto da montanha e vê Zamira dar a mão a uma criança. Alex e oficou viúva e tem uma filha linda, que vê perto do curral das ovelhas. “Esses Doutor ficam a falar de outras guerras, de outros tempos; “é tudo a mesmaalbaneses procriam como coelhos” diz um deles. “Acabam nos dominando” merda.” Primo está indo na direção de Zamira. Doutor vai lavar as mãos ediz Mitre. “Quanto tempo vai ficar conosco?” pergunta o primo. “Pra sempre” diz: “Não imagina as matanças que vi. Será que estas mãos jamais estarãoresponde Alex. Todos riem. É hora da foto de todos juntos; nela Alex apare- limpas?” O sangue junto com a água cai na bacia. Vê-se a ovelhinha pondo-ce matando a mosca que pousara em seu rosto. se de pé. Falam sobre lugares antes pacíficos e que estão agora em guerra. À noite, em sua casa, de ressaca, Alex recebe visita de Kate; recebe Lembram ferimentos de guerra. Sobre cansaço. “Não há razão para conflitomassagem, mas não quer mais que isso. Ainda sonha com Hana. Assim, aqui” diz Alex. “Acharão uma razão. A guerra é um vírus. ... Todos se olhamvai visitá-la no dia seguinte, no bairro dos islâmicos. Ouve-se o som das com rancor.” diz o médico. A mulher do primo os interrompe, está atrás domesquitas e suas rezas. Alguns homens se interpõem em seu caminho, marido.armados com metralhadoras. Alex os olha e diz que vai visitar Hana Halili, É noite, e Alex está novamente em casa. “Querida Anne. O tempoamiga da escola, que não vê há 16 anos. Trouxe presente para os filhos dela. está bom. Vai chover. Queria tê-la aqui. E seu marido? Espero que estejaCrianças assistem a conversa. Diz que veio de Londres; os outros riem. É feliz com ele. Esse lugar não mudou. Mas meus olhos mudaram, como umpreciso que mencione o nome do pai de Hana, Zekir. Este o recebe repetindo filtro novo na lente. Eu tinha lhe dito que matara. Fiquei amigo de um milicianoseu nome duas vezes. Zekir pergunta “Como vivem as pessoas no mundo?” e me queixei com ele de que não estava conseguindo fotos chocantes. Ele“Bem, se sabem viver, como aqui” responde Alex. Estão já dentro da casa, disse ‘Não tem problema’. Tirou um preso da fila e o fuzilou. ‘Fotografou?’são tempos ruins, avisa Zekir, “tem cheiro de sangue no ar.” Sentem-se Ele me perguntou. Eu fotografei. Eu tomei partido. Minha câmera matou umabafados, os dois, ao mesmo tempo. Zekir olha para fora e diz que devia homem. Nunca mostrei essas fotos pra ninguém. Agora são suas. Comchover. Mas vai chover, cedo ou tarde, sustenta Alex. Ele entrega os presen- amor, Alexsander.”tes que trouxe. Hana entra com chá para eles. Ele a olha, ela sempre de Amanhece. Alex acorda com os gritos de mulheres. Mulheres cho-olhos baixos. Ele se serve, sempre a olhando, enquanto ela segura a bande- ram, homens e crianças do lado de fora das casas com olhar triste. Alexsander50 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 51
  • 27. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva...corre até a casa do primo. Vê o primo ensangüentado no peito. Mãe e cai. Ela começa a fugir, mas depois se esconde atrás de uma pedra próxi-inconsolável. O sangue pinga pelo lençol, cai no chão. Uma criança espia ma, e espia. O primo corre na direção do corpo. Alex diz de novo “Atire,entre as pernas de alguém. Uma mosca anda sobre o corpo do morto. O primo, atire”. Depois olha para o céu: “Veja ... vai chover.” Olham para o céu.doutor chega, examina os olhos do morto, dá o veredicto. Alex assiste a Alex morre. Zamira olha mais uma vez; foge. Mitre chega até corpo de Alex:cena colocando a mão sobre os olhos e os descobrindo como se tirasse “Cego idiota”. Zamira correu muito, precisa parar: está perto do monastério.uma foto. A mãe sacode o corpo, não entende. Alex e médico saem da Os primeiros pingos de chuva estão caindo. Logo chove forte. O chão secocasa. Mitre, cabelo vermelho, e outros saem de uma cabana. Estão arma- recebe a chuva; o corpo de Alex sem vida recebe grossas gotas de chuva.dos. Cruzam-se. Alex quer saber aonde vão. “Que apodrecem na ponta de Zamira vira seu rosto marcado de sangue para receber a chuva. Volta a cor-um forcado” é a resposta. A explicação: crianças viram quem matou o rer. Chega onde ainda não está chovendo. Kiril colhe tomates vermelhos. Éprimo.Uma puta albanesa com um forcado. Primo diz para Alex ficar fora mordido por um inseto. Ouve do outro monge: “Vai chover, as moscas estãodisso, não é do lugar. Mitre pensa diferente: “Está na hora de cobrar 5 sécu- picando. Lá já está chovendo. ... Vamos, está na hora. E o tempo não espe-los de nosso sangue” . ra, porque o círculo não é redondo”. Zamira se aproxima do local, correndo De noite, chove lá fora. Dormindo Alex imagina ver Hana em seu quar- com um casaco vermelho na mão, casaco que lhe deu Alex, que veio parato; esfrega os olhos, olha de novo, não era verdade. Volta a dormir. Acorda, sempre. Morto, com 2 manchas vermelhas de sangue em sua camisa azul,desta vez ela está lá. “Vê o que está acontecendo com nosso povo? Você só recebe a chuva forte, em seu corpo, morto.observa” acusa Hana. Ele olha para ela; ela baixa os olhos. Ele pega em suamão. Hana encoraja-se e diz que sua filha foi capturada pelo primo dele. O OLHAR, O SANGUE E A ÁGUA: ALGUMAS ASSOCIAÇÕESPede por sua ajuda. “Como se ela fosse sua” implora, ou revela, Hana. Vai Assim como o filme, também o meu olhar sobre ele tem três tempos.embora. Ele procura, agitado, algo em suas coisas. Encontra: acende um A primeira vez que o assisti, me enredei em seu enredo (com a licença docigarro de maconha e fica a olhar pela janela a vila mais embaixo. Ouve plágio à Liliane Froemming). Entendo as histórias que se passam; ao final,trovoadas. Volta-se para dentro. Pega as fotos do assassinato na Bósnia. quando a luz se faz na sala de projeção, minha cabeça tem dentro de si um Amanhece. Em meio aos rituais de um casamento, Alex se dirige quebra-cabeça. Mas, ao mesmo tempo, ou mesmo assim, o filme me mobi-para o celeiro. Lá encontra Zamira presa. Seu primo acorda quando tenta liza, falo um pouco sobre ele, sobre as histórias de guerra, sobre os lugareslevá-la dali. “Que vergonha! Ela é uma criança” diz Alex. O primo se defende que parecem tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Fico nisso. Naacusando a criança de ter matado seu irmão. Alex tenta argumentar que a história. Na segunda vez, já o assisto procurando algo; procuro detalhes quepolícia e a lei devem se encarregar do caso; o primo argumenta que ele foi liguem as três histórias, que me dêem pistas do que está por vir, do que veioembora há muito tempo, que não sabe como são as coisas por lá. Alex se antes; mas ainda estou sem poder ver o que está aparecendo de simbólicodesvencilha do primo, dizendo que não poderia viver sua vida se o deixasse nesta história. Na minha terceira vez, por fim, identifico três elementos sem-fazer aquilo; lhe dá um tapa no rosto e sai. Caminham, Alex e Zamira; o pre presentes, como significantes que ressignificam toda a história: o olhar,primo atrás grita para que voltem. Ameaça atirar. Mitre, já acordado e fora do o sangue e a água. Eles “costuram” todo o filme.celeiro, o encoraja. “Vou atirar, covarde” diz o primo. “Atire primo, atire” res- Pensei, já quando escrevia este texto, nos três tempos de Lacanponde Alex. Então atira, erra, acerta. Zamira olha Alex, ainda de pé, mas (1998): instante de ver, tempo de compreender, momento de concluir, e tam-com sangue na camisa. Ele diz para ela fugir, caminha mais alguns passos bém nas três categorias universais de Pierce ( apud Santaella, 1983) –52 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 53
  • 28. SEÇÃO DEBATES SANTOS, R. P. Antes a chuva...primeiridade, secundidade e terceriedade. Assim, Alexsander precisa ver tanto, é menos pessimista, já que “uma fronteira não é o ponto onde algocom seus próprios olhos, não mais com a lente de sua câmera, para poder termina, mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a partircompreender seu tempo – que não morre, porque o círculo não é redondo – do qual algo começa a se fazer presente” (apud Bhabha, 1998, p.19).e então poder implicar-se em sua vida, ou ainda, tomar partido, poder morrer, E é aqui que eu paro, ou, talvez, de onde eu possa partir.finalizar. Parece-me que este filme com seu tempo circular (em espiral, talvez), OBRAS CONSULTADASmas não redondo, não harmônico, com seu tempo que também não é linear, ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE. Adolescência: Entre o Pas-cronológico, com seu tempo sem fronteiras bem delimitadas – as histórias sado e o Futuro. Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1997.podem ser vistas umas dentro das outras, intertextualidade baktiniana – mostra BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o Legado de Freudum pouco do discurso dos sujeitos: é preciso que alguns significantes apa- e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.reçam depois, a posteriore, para que se possa ressignificar todo o material LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.trazido anteriormente. Os significantes se inserem depois, e é aí que se vai RASSIAL, Jean-Jacques. A Passagem Adolescente: da Família ao Laço Social.ressignificar todo o anterior. Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1997. Estar trancado por fora é um dos primeiros sentidos da foraclusão SANTAELLA, Lúcia. O que é Semiótica. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1983.(Kaufmann, 1996) – mecanismo psíquico mais comumente encontrado napsicose. É isso o que se passa com Alexsander? Sente-se exilado indiferen-temente de onde se encontra. E, neste sentido, mais do que Kiril ou Zamira, Alexsander é um perso-nagem paradigmático para se entender a posição do adolescente. Mesmoque aparentemente seja ali retratado um personagem adulto, ele nos remetea questões centrais da adolescência. Está fechado em exterioridade.Alexsander quando, por assim dizer, tenta voltar para casa, quando pareceestar se sentindo pertencendo a algo, assovia em uma língua que não amaterna, cai com o que vê. Segundo Rassial (1997), o adolescente estámobilizado pela distância entre as duas dimensões do Édipo (Freud, 1987),a da interdição e a da transmissão. Na reedição do Édipo, é com esta distân-cia entre o que lhe foi proibido e o nome que desta operação pode receberque o adolescente se faz problema. O que também pode remeter ao “entre-lugares” proposto por Bhabha (1998), especialmente quando este autor o defi-ne como excedente da soma das partes da diferença. Ou ainda quando trata do“além”, do estar no além que significa habitar um espaço intermediário. E com isto retornamos a Alexsander e ao pedido que lhe é feito: tomarpartido. Quando ele o faz, já sabemos que é o fim. Martin Heidegger, entre-54 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 55
  • 29. RESENHA RESENHA O TERAPEUTA E O LOBO ou seja, a discussão com estes autores aponta para a tentativa de aprofundar o exame da estrutura narrativa no trabalho analítico e daí tecer ligações comGutfreind, Celso. “O Terapeuta e o Lobo – a utilização doconto na psicoterapia da criança”. São Paulo: Casa do a clínica fundada na ferramenta do conto. E este aprofundamento tem aPsicólogo, 2003. 224p. preocupação de manter o alcance do conto como um mediador aberto, isto é, um produtor de metáforas de infinitos sentidos, fazendo com que se possaA possibilidade de construir um comentá- pensar, por diferentes vias teóricas, as aplicações do conto em psicopatologia. rio sobre o texto de Celso é um convite a Nesse percurso, Celso fixa duas direções ou dois eixos para pensar compartilhar com vocês um pensar so- os efeitos clínicos: o eixo lúdico e o reflexivo. O primeiro remete a um espaçobre a clínica. de criação onde a criança poderá jogar, inventar, imaginar, criar, olhar de O desdobramento de seu trabalho, histó- outra forma a experiência; e o segundo aponta para uma função de continên-rias de histórias, nos convocam a acompanhá-lo cia do conto que favoreceria uma melhor organização psíquica, estimulandonas suas construções sobre o lugar e os efeitos e dando sentido ao pensamento.do conto e da própria narrativa no psiquismo das Por fim, percorrendo os casos, acompanhamos as histórias se mistu-crianças. Os lobos, fadas, caçadores, anões e rarem à construção de representações das crianças em seus processos deoutros personagens que povoaram a nossa infância pela palavra de nossos simbolização e observamos a função de suporte que o conto pode adquirir.avós e pais são pensados e investigados em sua função organizadora, em Não tenho dúvidas sobre a riqueza de elaborações que podemos empreen-uma transmissão que vai muito mais longe que as próprias histórias. Ou der sobre a infância compartilhando com Celso a posição de contador, leitor,seja, na direção do recontar as histórias singulares de cada criança. analista, narrador de histórias, pois como no dito popular “quem conta um Para além da produção no âmbito de um doutoramento na França, o conto, aumenta um ponto...”texto de Celso redimensiona o processo acadêmico em uma elaboraçãosobre a história do seu fazer clínico. O leitor passeia por articulações entre a Tatiana Guimarães Jacquespsicanálise e a educação, a constituição do sujeito através de uma questãoderivada da obra de Winnicot – “uma mãe suficientemente narrativa” – e aidéia-ferramenta do trabalho clínico através de ateliê terapêutico. Como a infância nos remete à abertura de muitas possibilidades, otrabalho com o conto é pensado como um espaço de prevenção mais do quede tratamento e a história da investigação começa por uma pergunta que édesdobrada da trajetória de médico comunitário e psiquiatra infantil: “um ate-liê – conto pode agir de maneira positiva sobre o estado emocional de crian-ças, mobilizando-lhes a vida imaginária como possibilidade de expressarvivências e capacidades criativas?” Um amplo diálogo é tecido com Freud, Winnicott, Bettelheim, Lafforguee Bonnafé como interlocutores privilegiados na articulação narrativa-análise,56 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004 57
  • 30. AGENDA Revista da APPOA e Correio da APPOA AGOSTO – 2004Dia Hora Local Atividade conecte-se com os temas e eventos05, 12, 19h30min Sede da APPOA Reunião da Comissão de Eventos mais atuais em Psicanálise19 e 26 Para receber a Revista e o Correio da APPOA, copie e preencha o09 e 23 20h30min Sede da APPOA Reunião do Serviço de Atendimento Clínico cupom abaixo e remeta-o para*:05 21h Sede da APPOA Reunião da Mesa Diretiva06 e 20 8h30min Sede da APPOA Reunião da Comissão de Aperiódicos ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE16 e 30 20h30min Sede da APPOA Reunião da Comissão do Correio da APPOA Rua Faria Santos, 258 - Bairro Petrópolis06 e 20 15h15min Sede da APPOA Reunião da Comissão da Revista da APPOA 90670-150 - Porto Alegre - RS19 21h Sede da APPOA Reunião da Mesa Diretiva aberto ao Mem- Se preferir, utilize telefone, fax ou e-mail bros da APPOA  (51) 3333 2140  (51) 3333.7922  appoa@appoa.com.br NOME: ___________________________________________________ ENDEREÇO _______________________________________________ CEP: _____________ CIDADE:______________________ UF: _______ TEL.: __________________________ FAX: _______________________ E-MAIL: ___________________________________________________ INSTITUIÇÃO: ______________________________________________ Sim, quero receber as publicações da APPOA, nas condições abaixo: ( ) Promoção Especial Assinatura anual da Revista e do Correio da APPOA R$ 90,00 ( ) Assinatura anual da Revista da APPOA R$ 35,00 ( ) Assinatura anual do Correio da APPOA R$ 65,00 Data: ______/_____/2004 PRÓXIMO NÚMERO * O pagamento pode ser feito via depósito bancário no Banrisul, Bco. 041, Ag. R.S.I. 032, C/C 06.039893.0-4. O comprovante deve ser enviado por fax, juntamente com o cupom, ou via correio, com cheque nominal à APPOA. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 127, ago. 2004
  • 31. Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of events in the last decade. London, Hogarth, 1992.)Criação da capa: Flávio Wild - Macchina ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE GESTÃO 2003/2004 Presidência: Maria Ângela C. Brasil 1 Vice-Presidência: Mario Corso a 2a Vice-Presidência: Ligia Gomes Víctora 1a Secretária: Marieta Rodrigues 2a Secretária: Marianne Stolzmann 1a Tesoureira: Grasiela Kraemer 2a Tesoureira: Luciane Loss Jardim MESA DIRETIVA Alfredo Néstor Jerusalinsky, Ana Maria Medeiros da Costa, Ângela Lângaro Becker, Carmen Backes, Clara von Hohendorff, Edson Luiz André de Sousa, Gladys Wechsler Carnos, Ieda Prates da Silva, Jaime Betts, Liliane Seide Froemming, Lucia Serrano Pereira, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Maria Beatriz Kallfelz, Maria Lúcia Müller Stein e Robson de Freitas Pereira EXPEDIENTE Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre Rua Faria Santos, 258 CEP 90670-150 Porto Alegre - RS Tel: (51) 3333 2140 - Fax: (51) 3333 7922 e-mail: appoa@appoa.com.br - home-page: www.appoa.com.br Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n0 3956 Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda. Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (51) 3318 6355 Comissão do Correio Coordenação: Marcia Helena de Menezes Ribeiro e Robson de Freitas Pereira Integrantes: Ana Laura Giongo, Fernanda Breda, Gerson Smiech Pinho, Henriete Karam, Liz Nunes Ramos, Maria Lúcia Müller Stein, Norton Cezar Dal Follo da Rosa Júnior, Rosane Palacci Santos e Rossana Oliva
  • 32. S U M Á R I OE D IT O RIA L 1N O T ÍC IA S 2 N ° 1 2 7 – A N O XI AGOST O – 2004SE Ç Ã O T E M Á T I C A 7SONHOS E LEMBRANÇAS NOCINEMA E NA PSICANÁLISELiliane Seide Froemming 7NO JOGO DOS OLHARES V VFatimarlei Lunardelli 12 PSICANÁLISE V CINEMA:UM CINEASTAEMBAIXO DO DIVÃ INTERFACESCarlos Gerbase 17QUEM É O MARGINAL? A TÊNUEFRONTEIRA ENTRE O LÍCITO E OILÍCITO NO FILME O IN V ASORFlávia Seligman 22ADEUS LÊNIN! OU,DA MISTIFICAÇÃORicardo Goldenberg 32WOODY ALLEN E OUTRASCONTRIBUIÇÕES AOSPSICANALISTASRobson de Freitas Pereira 35SE Ç Ã O D E B A T E S 42DIÁRIOS DE MOTOCICLETAContardo Calligaris 42ANTES A CHUVA, DEPOIS O QUÊ?Rosane Palacci Santos 45RESE N H A 56“O TERAPEUTA E O LOBO” 56AGEN D A 58