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  • 1. Conexão Comunicação e Cultura v.Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
  • 2. FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE CONEXÃO DE CAXIAS DO SUL COMUNICAÇÃO E CULTURA Presidente: Conselho Editorial Nestor Perini Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt (PUC/RS) Vice-Presidente: Prof. Dr. Bernard Miège Roberto Boniatti (Universidade Stendhal Grenoble 3) Prof. Dr. César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS/SE) UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL Profa. Dr. Cida Golin (UFRGS) Reitor: Profa. Dra. Cicilia Maria Krohling Peruzzo Prof. Isidoro Zorzi (UMESP/SP) Vice-Reitor: Profa. Dra. Doris Fagundes Haussen Prof. José Carlos Avino (PUC/RS) Profa. Dra. Heloísa Pedroso de Moraes Feltes Pró-Reitor de Planejamento e (UCS/RS) Desenvolvimento Institucional: Profa. Dra. Kenia Maria Menegotto Prof. João Ignacio Pires Lucas Pozenato (UCS/RS) Pró-Reitora de Graduação: Profa. Dra. Lucia Santaella Profa. Nilva Lúcia Rech Stedile (PUC/SP)Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Profa. Dra. Margarida Maria Krohling Prof. José Clemente Pozenato Kunsch (USP/SP) Pró-Reitor de Extensão: Prof. Dr. Muniz Sodré Prof. Alexandre Viecelli (UFRJ) Prof. Dr. Pierre Fayard Pró-Reitor Administrativo: (Poitiers – França) Prof. Gilberto Henrique Chissini Profa. Dra. Solange Medina Ketzer (PUC/RS) Chefe de Gabinete da Reitoria: Prof. Dr. Rudimar BaldisseraProfa. Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro (UFRGS) Coordenador da Educs: Profa. Dra. Vania Beatriz Merlotti Herédia Renato Henrichs (UCS/RS) Parecerista ad hoc CONSELHO EDITORIAL DA EDUCS Profa. Dra. Susana Gastal Prof. Dr. José Clemente Pozenatto Editora Prof. Dr. Jayme Paviani Profa. Ms. Marlene Branca Sólio (UCS/RS) Prof. Dr. José Luiz Piazza Prof. Dr. Luis Carlos BombassaroProf. Dr. Flávio Gianetti Loureiro Chaves Prof. Dr. José Mauro MadiProf. Dr. Paulo Fernando Pinto Barcellos Prof. Dr. Gilberto Henrique Chissini
  • 3. Conexão Comunicação e Cultura v.Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
  • 4. © dos autoreswww.ucs.br/cchc/deco/conexaoRevisão: Ivone Justina Polidoro FrancoEditoração eletrônica: Formato Artes Gráficas Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Universidade de Caxias do Sul UCS - BICE - Processamento Técnico C747 Conexão – comunicação e cultura / Universidade de Caxias do Sul. Vol. 1, n. 1 (jan. 2002). – Caxias do Sul, RS: Educs, 2007. Vol. 6, n. 11 (Jan./Jun. 2007) Semestral ISSN 1677-0943 1. Comunicação Social. 2. Jornalismo. 3. Publicidade – Pro- paganda. 4. Relações Públicas. I. Universidade de Caxias do Sul. CDU: 659 Índice para o catálogo sistemático: 1. Comunicação Social 659 2. Jornalismo 070 3. Publicidade – Propaganda 659.1 4. Relações Públicas 659.4 Catalogação na fonte elaborada pela Bibliotecária Rose Elga Beber - CRB 10/1369. EDUCS – Editora da Universidade de Caxias do Sul Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130 – CEP 95070-560 – Caxias do Sul – RS – Brasil Ou: Caixa Postal 1352 – CEP 95001-970 – Caxias do Sul – RS – Brasil Telefone / Telefax: (54) 3218 2100 – Ramais: 2197 e 2281 – DDR: (54) 3218 2197 Home page: www.ucs.br – E-mail: educs@ucs.br
  • 5. SUMÁRIO% APRESENTAÇÃOMÍDIA, CULTURA E IMAGINÁRIO HISTÓRIA, IMAGINÁRIO E MENTALIDADES: DELINEAMENTOS POSSÍVEIS José D’Assunção Barros" A LEITURA DO TEMPO NO ESPAÇO: UMA REFLEXÃO SOBRE A CULTURA E A MEMÓRIA NA MÍDIA Magda Rodrigues da Cunha## DO FORT-DA DA ARTE AO CORPO-OBRA. [É POSSÍVEL UMA ESTÉTICA DA CLÍNICA? HAVERÁ UM CORPO-OBRA?] Marcio Pizarro Noronha& CORPOS AUTORIZADOS: COMUNICAÇÃO PODER E TURISMO Euler David de Siqueira e Denise da Costa Oliveira de Siqueira COMUNICAÇÃO E TURISMO: POSSIBILIDADES DE CONHECIMENTO Mary Sandra Guerra Ashton TECNOTOTEMISMO: IDENTIDADES MÚLTIPLAS E NOVA SUBJETIVIDADE Lauren Ferreira Colvara! EL PÚBLICO EN LOS NOTICIEROS TELEVISIVOS Mabel Grillo
  • 6. A RTIGOS" A EMERGÊNCIA DE GÊNEROS NO CINEMA BRASILEIRO: DO PRIMEIRO CINEMA ÀS CHANCHADAS E PORNOCHANCHADAS Bernadette Lyra$ VIGÍLIA E INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA: FERRAMENTAS METODOLÓGICAS PARA A DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE RELAÇÕES PÚBLICAS Ana Cristina Fachinelli, Jane Rech, Olivar Maximino Mattia e Vanessa Roveda! COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL E PRESSUPOSTOS DA COMUNICAÇÃO INTEGRADA: A EXPERIÊNCIA EM UMA UNIVERSIDADE NA IMPLEMENTAÇÃO/ REESTRUTURAÇÃO DO JORNAL INSTITUCIONAL Cassiana Maris Lima Cruz  IDÉIAS SOBRE TECNOLOGIA, INTERAÇÕES COMUNICATIVAS E ECONOMIA MIDIÁTICA Álvaro Benevenuto Júnior
  • 7. APRESENTAÇÃOFalar em cultura e imaginário, hoje, é “dar a cara pra bater”. Em meio a umcaleidoscópio de teorias, visões, mundos, o que deve prevalecer? Qual é ouonde está a verdade? Ela existe?Ao convidar a comunidade acadêmica a discutir o tema, pelo viés da comunica-ção, a idéia era justamente esta: provocar autores a nos mostrarem algumasdas “imagens de seus caleidoscópios”. Dar espaço a pesquisadores, para que,mesmo arriscando-se, nos mostrassem algumas das opções, no leque de possi-bilidades com que nos confrontamos, para “olhar este nosso mundo”.Para conversar um pouco com nossos leitores, retardando seu encontro com osarticulistas aos quais somos imensamente gratos por terem atendido a nossaconvocação, vamos a três ponderações: a primeira delas é trazer, para a noçãode imaginário, as lentes de Lacan. A segunda é pedir a Morin seus óculos, eentão poder olhar para a noção de cultura, e a terceira, com a qual os leitores játiveram um encontro, é apelar para o bom humor de Dali, que, com o desdo-bramento de um mesmo quadro (“Rapariga à janela”, de 1925, e “Jovem virgemauto-sodomizada”, de 1954), nos mostra que a verdade está onde e como acolocamos.Como o tempo contemporâneo (para não cair na armadilha dos muitos conceitosque se encarniçam na disputa de levá-lo à pia batismal) se caracteriza pela multi-plicidade de facetas, pela complexidade (Morin) e por apontar sempre novas einúmeras possibilidades, parece coerente que a um movimento de imersão notecnológico se contraponha, entre outros, um olhar na direção da subjetividade,do inconsciente. Eles aparecem como pratos de uma mesma balança, a provocaro equilíbrio pela disputa/tensão. Das três categorias lacanianas, o imaginário é
  • 8. aquele que nasce da constituição da imagem do corpo. Como o real é sempre daordem do impossível, o imaginário se constituirá a partir do engodo, da identi-ficação, da imagem. Nada mais coerente, portanto, do que admitir o quanto asociedade contemporânea se fundamenta nesse registro, valora-o e olha/de-senha o mundo de mãos dadas com ele. Morin alerta: “Toda sociedade com-porta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diversos,aptos, portanto, a pontos de vista cognitivamente muito variados.”1 E está jus-tamente nesse confronto a possibilidade de trincar o determinismo cultural eestimular dúvidas, incertezas, novas buscas/descobertas.Assim, encerrar-se numa visão míope de determinismo tecnológico ou, pelo con-trário, lançar maldição eterna à tecnologia são posturas que, com certeza, nosimpedem de olhar na direção do horizonte, dando-nos conta de que somos pro-dutos e produtores de novas socialidades, de novas formas de relação, de novosusos para “velhos objetos”, mas também de velhos usos para “novos objetos”.É importante aceitarmos a premissa de que o imaginário é o oxigênio de todasas culturas. Marlene Branca Sólio Editora1 MORIN, E. O método 4. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 33.
  • 9. MÍDIA, CULTURA E IMAGINÁRIO
  • 10. História, imaginárioe mentalidades: Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007delineamentos possíveis1 José D’Assunção Barros2 RESUMOEste artigo – voltado para as discussões estabelecidas desde a segunda metade do século XXentre as possíveis interações entre História, cultura e imaginário – busca desenvolver um paralelocomparativo entre história das mentalidades, Psicoistória e história do imaginário, esclarecendoalguns aspectos relacionados a essas modalidades da História e discutindo a historiografiapertinente a cada um desses campos. O artigo remete à obra recentemente publicada pelo autordeste texto, cujo principal objetivo é o de elaborar uma visão panorâmica das diversas modalidadesda História nos dias de hoje.Palavras-chave: História do imaginário. História das mentalidades.Imaginário político. Imagem. ABSTRACTThis article – directed to the discussions that have been established since the second half of thetwenty century around the possible interactions between History and imaginary – attempts toelaborate a comparative parallel between history of mentalities, psicohistory and history of imagi-nary, clarifying some aspects related to these fields of History and discussing the historiographerproduction concerning to which one of these modalities. The article refers to a recently publicizedwork of the author of this text, witch principal subject was to elaborate a panoramic view of thevarious fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays.Key words History of imaginary. History of mentalities. Political imaginary. Image. words:1 O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado recentemente pelo autor, e que se referea um estudo das várias modalidades da História (BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades eabordagens. Petrópolis: Vozes, 2004).2 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor na Universidade Severino Sombras(USS) em Vassouras, nos Programas de Mestrado e em cursos de Graduação em História, onde leciona disciplinasligadas à Teoria e Metodologia da História e da História Cultural. Publicou recentemente os livros O campo da História(Petrópolis: Vozes, 2004) e O projeto de pesquisa em História (Petrópolis: Vozes, 2005).
  • 11. mundo contemporâneo tem se mostrado, desde primórdios do século  XX, cada vez mais, um espaço a ser percebido e vivenciado por meio de O imagens e amparado por suportes que vão dos mais modernos meios deBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. comunicação aos recursos computacionais. Em meio ao desenvolvimento de áreas do conhecimento que vão das ciências da comunicação aos saberes “psi”, neste novo mundo de possibilidades imagísticas, os discursos visuais e os circuitos da imaginação passaram a desempenhar um papel tão significativo como os discursos verbais no que se refere à produção de um conhecimento sobre a vida humana. Na verdade, o visual e o verbal são discursos que cada vez mais, enfaticamente, se entrelaçam. Mais do que isso, o imaginário – comportando aqui não apenas as imagens visuais, mas também as imagens mentais e oníricas, o universo simbólico e os modos de representação – atualiza um fator que não pode ser mais ignorado por nenhum campo do saber inserido no âmbito das Ciências Sociais, das Ciências Humanas e das Ciências da Comunicação. A História – enquanto área de saber que estuda especificamente “o homem no tempo”, a partir de todas as dimensões de sua vida social – não constitui certamente exceção. É assim que, dentro de uma fascinante profusão de campos intradisciplinares que têm revelado um sensível enriquecimento dos estudos históricos no que se refere ao interesse por novos objetos e por novas abordagens, a historiografia da segunda metade do século XX assistiu precisamente à emergência de cam- pos do saber historiográfico que passaram a valorizar o universo mental dos seres humanos em sociedade, os seus modos de sentir, o imaginário por eles elaborados coletivamente. A modalidades já tradicionais como a História Política, a História Econômica ou a História Social, os novos historiadores propuseram acrescentar a história das mentalidades, a psicoistória, a história do imaginário. Teremos aqui campos que com alguma freqüência se interpenetram no que concerne aos seus objetos, às suas fontes privilegiadas, às suas abordagens e aportes teóricos, às suas conexões com outros saberes e aos seus padrões de interdisciplinaridade. Contudo, cada um desses campos conserva singularidades e aspectos que nos permitem separá-los entre si como espaços intradisciplinares bem diferenciados. O objetivo deste artigo será o de clarificar as diferenças e similitudes entre esses campos historiográficos que têm atentado mais enfaticamente para o estudo dos padrões mentais, dos modos de sentir e dos imaginários coletivos nos vários períodos históricos, o que implica que abordemos mais particularmente a história das mentalidades, a psicoistória e a história do imaginário.
  • 12. História das mentalidades !Será bastante oportuno iniciar esta discussão crítica com um exame Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007dos aspectos que têm permitido identificar essa modalidade historiográficaque se mostrou polêmica desde os seus primórdios: a história das mentalidades.Essa nova modalidade da História, que tem precursores já na primeira metadedo século XX, mas que, rigorosamente, começa a se delinear como um novoespaço de ação para os historiadores na segunda metade do século, propunha-se a enfocar a dimensão da sociedade relacionada ao mundo mental eaos modos de sentir, ficando, a partir daí, sob a rubrica de uma designaçãoque tem dado margem a grandes debates que não poderão ser todos por-menorizados aqui.3Terá certamente contribuído para esta polêmica o fato de que os historiadoresdas mentalidades foram os primeiros a se interessar por determinados temasnão convencionais, desbravando certos domínios da História que os historiadoresainda não haviam pensado em investigar. Assim, Robert Mandrou propôs-se aestudar a longa persistência de certos modos de sentir que motivaram a práticada feitiçaria e sua repressão, no livro Magistrados e feiticeiros na França doséculo XVII (MANDROU, 1979); Jean Delumeau impôs a si a tarefa de examinarum complexo de medos de longa duração que haviam estruturado o modo desentir do homem europeu durante muito tempo, e cuja lenta superação permitiua passagem para o mundo moderno (DELUMEAU, 1989); Philippe Ariès (1981) eMichel Vovelle (1982) empenharam-se dedicadamente a analisar historicamenteos sentimentos do homem diante da morte.De certo modo, por força dos novos e imprevisíveis objetos que traziam à tonacom bastante audácia – e em virtude de sua tendência dedicar anos de umexaustivo trabalho intelectual a temas que deles fizeram verdadeiros especialistasem objetos historiográficos até então considerados insólitos – os historiadoresdas mentalidades vieram a constituir uma espécie de vanguarda da tendência daNova História da segunda metade do século XX em se tornar uma espécie de“história em migalhas”, para utilizar aqui a famosa expressão que deu um títuloao impactante livro de François Dosse sobre a passagem dos Annales para a3 Alguns artigos panorâmicos podem ser esclarecedores a respeito deste campo histórico: (1) Le Goff(1988, p. 68-83); (2) Ariès (1990, p. 154-176); (3) Darton (1990, p. 225-255).
  • 13. Nova História (DOSSE, 1994).4 Foram eles que primeiro exploraram certos temas " que – a princípio recebidos pelos demais historiadores como estranhos ou exóticos – logo encontrariam um curioso lugar editorial entre uma multidão de outrosBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. campos temáticos que posteriormente marcariam, através de uma miríade de novas especialidades relativas aos “domínios” históricos, a tendência à fragmentação que parecia deixar definitivamente para trás as antigas ambições de realizar uma “história total”. Devido à sua exploração ousada de certos temas até então incomuns, a história das mentalidades produziu, no seu nascedouro, uma forte estranheza que logo despertaria acirradas polêmicas. Mas é muito importante ter em vista que a história das mentalidades não pode ser definida essencialmente com base nesses novos domínios historiográficos que ela passou a privilegiar em um primeiro momento. Mesmo porque, posteriormente, esses mesmos domínios também foram retomados por outros campos da História que pouco ou nada têm a ver com a história das mentalidades. Rigorosamente, qualquer tema pode ser trabalhado a partir dos vários enfoques que classificaremos aqui como relacionados às “dimensões” sociais (a política, a economia, a cultura, as mentalidades, o imaginário, e assim por diante).5 Assim, uma história da morte pode ser trabalhada pela história demográfica, pela história política, pela econômica, e não apenas pela história das mentalidades. Em contrapartida, temas já tradicionais como o do “nacionalismo” ou o da “religião” podem ser igualmente examinados da perspectiva de uma história das mentalidades. Não são, portanto, domínios privilegiados pelos historiadores das mentalidades que definem o tipo de história que fazem, mas 4 Na verdade, a expressão “história em migalhas” chegou a ser referida de maneira afirmativa (não depreciativa) por Pierre Nora – organizador de uma coletânea de artigos da Nova História francesa. Pierre Nora enunciou a expressão em uma entrevista concedida a um jornal francês em 1974, e com ela anunciava a consolidação de uma moda que passava a privilegiar as curiosidades, os temas exóticos ou pelo menos o estudo de objetos muito particularizados em contraste com os antigos projetos de produzir uma grande história total. 5 Em O campo da história: especialidades e abordagens, propõe-se um esclarecimento dos critérios a partir dos quais são pensados e repensados os vários campos e modalidades da História. Ao lado das abordagens, que se referem aos métodos e modos de fazer, e dos domínios, que se referem a campos temáticos privilegiados pelos historiadores, as dimensões correspondem àquilo que o historiador traz para primeiro plano no seu exame de uma determinada sociedade: a política, a cultura, a economia, a demografia, e assim por diante. Apenas para exemplificar com um exemplo de cada uma dessas modalidades, a história oral seria uma abordagem, a história das mulheres seria um domínio, e a história cultural seria uma modalidade historiográfica relacionada a uma dimensão. (BARROS, 2004).
  • 14. sim a dimensão da vida social para a qual os seus olhares se dirigem: o universo #mental, os modos de sentir, o âmbito mais espontâneo das representaçõescoletivas e, para alguns, o inconsciente coletivo. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007A verdadeira polêmica que envolve a história das mentalidades é teórica emetodológica. Apenas para registrar alguns problemas pertinentes a esse campohistoriográfico que se consolida a partir da década de 60, mencionaremos aquias questões fundamentais que devem ser refletidas pelo historiador que ambicionatrilhar esses caminhos de investigação. Existirá efetivamente uma mentalidadecoletiva? Será possível identificar uma base comum presente nos “modos depensar e de sentir” dos homens de determinada sociedade – algo que una “Césare o último soldado de suas legiões, São Luís e o camponês que cultivava assuas terras, Cristóvão Colombo e o marinheiro de suas caravelas?” Essasimagens, extremamente oportunas, foram celebrizadas por Lucien Febvre.Abraçando a perspectiva teórica de que existem de fato mentalidades coletivas, ohistoriador deve ampliar a sua concepção documental. Conforme assinala FrançoisFuret (1991, p. 93), se o historiador das mentalidades pretende alcançar níveismédios de comportamento, não pode se satisfazer mais apenas com a literaturatradicional do testemunho histórico, que é inevitavelmente subjetiva, não re-presentativa, ambígua. Assim, como veremos adiante, ocorreu um casamento felizentre a história das mentalidades (um campo histórico que se refere a uma “di-mensão”) e a História Serial (um campo histórico que se refere a uma “abordagem”).A revalidação dos estudos de natureza qualitativa, ao lado da abordagem serial,não esteve, contudo, alheia a outros historiadores das mentalidades – como nocaso de Vovelle, historiador marxista das mentalidades que defende, em importanteartigo de 1982, o uso das duas abordagens como igualmente válidos para captara dimensão mental de uma sociedade. (VOVELLE, 1987, p. 31).Para resumir três ordens de tratamento metodológico que os historiadores dasmentalidades têm empregado na sua ânsia de captar os modos coletivos de pensare de sentir, poderemos registrar precisamente: (1) a abordagem serial; (2) a eleiçãode um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas(uma aldeia, uma prática cultural, uma vida), ou, finalmente; (3) uma abordagemextensiva de fontes de naturezas diversas. Nesse último caso, enquadra-se a obraO homem diante da morte, de Philippe Ariès. Nessa ambiciosa obra, lança-se mãodos mais diversos tipos de fonte – desde os escritos de todos os tipos (obrasliterárias, textos hagiográficos, poemas, canções, crônicas oficiais, testemunhosanônimos) até as fontes iconográficas e os objetos da cultura material. Vovelle
  • 15. denomina a essa utilização de um universo de fontes tão heterogêneos, percorrido $ mais ou menos livremente, de técnica “impressionista”. (1987, p. 51).Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Ele mesmo já utiliza a segunda ordem de procedimentos a que atrás nos re- feríamos: de modo geral, prefere a abordagem serial. Em sua tese de 1978 sobre a Piedade barroca e descristianização (VOVELLE, 1978), examinou com precisão e método milhares de testamentos provençais – sempre de forma maciça e procurando enxergar serialmente padrões e deslocamentos de padrões que denunciassem as variações das atitudes diante da morte na longa duração por ele escolhida. Quando examina fontes iconográficas, afasta-se da abordagem qualitativa livre para avaliar topicamente a recorrência e a ruptura de certos modos de repre- sentar, às vezes medindo espaços no interior da representação iconográfica e quantificando elementos figurativos. Se vai às fontes da cultura material, à arqui- tetura funerária, por exemplo, faz medições das distâncias que separam túmulos e altares. Sua abordagem é, portanto, sistemática, cuidadosamente preocupada com a homogeneidade das fontes e com o seu lugar preciso dentro da série. A derradeira ordem de tratamentos metodológicos corresponde à já mencionada eleição de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas ou de padrões de sensibilidade. Pode ser um microcosmo localizado ou uma vida, desde que o autor os considere significativos para a percepção de uma mentalidade coletiva mais ampla. Febvre, precursor distante dos estudos de mentalidade, havia tentado precisamen- te essa via. Já em 1942, em sua famosa obra sobre Rabelais, o historiador francês se propunha – a partir da investigação de um único indivíduo – identificar as coordenadas de toda uma era. (FEBVRE, 1962). A abordagem é criticada por Carlo Ginzburg – historiador mais habitualmente classificado na interconexão de uma história cultural (dimensão) com uma Microistória (abordagem).6 Ao contrário de Febvre, Ginzburg opta por instrumentalizar o conceito de “mentalidade de classe” em sua obra O queijo e os vermes. (1989, p. 34). Nesse último caso – em que toma como documentação principal os “registros inquisitoriais” do processo de um moleiro italiano perseguido pela Inquisição no século XVI – Ginzburg mantém- 6 A microistória corresponde a uma modalidade da História que procura empregar uma nova escala de observação no exame das sociedades históricas. Elegendo como campo de observação um determinado locus bem circunscrito – uma vida anônima, uma prática social localizada, uma comunidade – a microistória almeja conhecer através da gota-d’água algo do oceano inteiro. Para utilizar uma metáfora comum entre os microistoriadores, abandona-se aqui o “telescópio” em favor do “microscópio”, o olhar panorâmico e distanciado em favor do olhar detalhista e aproximador.
  • 16. se atento à questão da “intertextualidade”, isto é, ao diálogo que o discurso do %moleiro Menocchio estabelece implicitamente com outros textos e discursos. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Dessa forma, embora ambos os historiadores partam de um estudo de casoindividual, a abordagem tornou-se distinta. Ressalte-se, no tratamento historio-gráfico levado adiante por Ginzburg, a já mencionada preocupação em identificaros vários registros dialógicos presentes em uma mesma fonte – preocupaçãoque se coaduna muito intimamente com um dos setores da chamada novahistória cultural. Assim, para além do discurso externo do próprio Menocchio,visível na superfície de suas fontes, o historiador italiano toma por objeto amultiplicidade de discursos que o constituem; e, além disso, evita a pretensãode reconstituir uma “mentalidade de época”. Sua metodologia funda-se emuma análise dialógica e intensiva das fontes. Seu enfoque, como se disse, émais propriamente cultural.Uma nova história cultural, aliás, vem fortalecendo cada vez mais uma alternativapara o tratamento de certos temas que até então foram campos privilegiadospelos historiadores das mentalidades. Ainda assim, é preciso reconhecer que ahistória das mentalidades, sobretudo através dos historiadores franceses daNovelle Histoire, proporcionou uma significativa abertura aos novos modos defazer a História, inclusive deixando sua margem de influências na historiografiabrasileira da década de 80. É verdade que, para o caso da maioria dos nossoshistoriadores, ela raramente foi uma influência única e linear, aparecendo habi-tualmente combinada a outras influências e entrelaçada com outras subespe-cialidades da História.Apenas como um exemplo entre outros possíveis, a historiadora Laura de Melo eSouza – autora de obras que vão de Os desclassificados do ouro (1993) atéInferno atlântico (1982) – reconhece em seu trabalho uma influência importanteadvinda de historiadores das mentalidades como Geremek e Mandrou,7 masacrescenta que suas influências ou inserções mais importantes referem-se àetnoistória e à história da cultura, neste último caso a partir das obras de Ginzburg.(MORAES; REGO, 2001, p. 377). Já João José Reis – autor do já clássico A morteé uma festa (1991) – reconhece a importância para o amadurecimento de seutrabalho da leitura dos historiadores franceses das mentalidades que estudaram7 O historiador polonês Bronislaw Geremek é autor de Os marginais parisienses nos sécs. XIV e XV; de Apiedade e a forca e de outras obras importantes.
  • 17. as atitudes diante da morte (ARIÉS, VOVELLE), mas situa sua principal coordenada & em uma história social da cultura inspirada no historiador marxista Edward Thompson. (MORAES; REGO, 2001, p. 329-330).Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Psicoistória Será oportuno discutir, em seguida, um campo ou subespecialidade da História que por vezes se torna muito próximo da história das mentalidades: a psicoistória. Esse campo mostra-se definido ou atravessado por preocupações oriundas da Psicologia e por conceitos de diversos tipos, desenvolvidos no interior desse campo do saber. O historiador das mentalidades Jean Delumeau, por exemplo, lança mão, em alguns momentos, de conceitos elaborados por Wilhelm Reich e Erich Fromm. Reich e Fromm desenvolveram noções que ainda poderão ser utilizadas futuramente pelos historiadores. O primeiro envidou esforços no sentido de estabelecer a conceituação de um “caráter social”, que se constituiria a partir de uma interação entre a ideologia e o inconsciente, aqui representado por certos padrões e alternativas de comportamento que seriam interiorizadas pelos indivíduos que vivem em sociedade.8 Além disso, Reich chama a atenção para o papel da família na formação do tipo caráter individual que sustentaria a ordem política e econômica da sociedade. (REICH, 1969).9 Conseqüentemente, sugere que deveríamos examinar a estrutura da família e suas práticas de criação dos filhos em uma época histórica para compreender como as realidades econômicas são traduzidas em política, ética e religião. Dito de outra forma, seria possível analisar as principais forças sociais presentes em determinada sociedade em função da situação familiar típica e da estrutura do caráter, o que toca pelos dois lados no projeto de alguns dos historiadores das mentalidades que estudaram a família e a criança, como Áries (1981). 8 A idéia de que a ideologia torna-se psicologicamente internalizada ou fixada na estrutura de caráter do indivíduo aparece em Psicologia de massas do Fascismo. (REICH, 1933). 9 É verdade que, em Reich, esse projeto permanece muito incipiente, já que, ao invés de empenhar-se em uma análise sistemática das diferentes estruturas históricas da família e de criação dos filhos, ele, grosso modo, reduz sua análise a dois tipos históricos básicos: o “patriarcado autoritário” e o “matriarcado tolerante”, fixando-se em 4000 a. C. a transição de um modelo a outro. Em todo caso, desconta-se o fato de que Reich não era historiador e nem tinha a erudição histórica de um Fromm.
  • 18. Aprimorando o conceito de “caráter social”, Erich Fromm também se expressa em termos de um “filtro condicionado socialmente”.10 O “filtro social” seriaconstituído por uma série de elementos, como a linguagem, a lógica e os tabus Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007sociais, mas também por toda uma série de hábitos enraizados, de atitudesautomatizadas e de impulsos que dão origem a práticas culturais diversas. Éinteressante comparar o conceito de caráter social em Fromm com a noção de“mentalidade de época” que seria desenvolvida depois, no fim da década de60, por alguns historiadores franceses ligados à Novelle Histoire. Para Fromm,o caráter social corresponderia a “um núcleo da estrutura do caráter que éinerente à maioria dos membros da mesma cultura, diferentemente do caráterindividual que varia entre as pessoas da mesma cultura”. (FROMM, 1959,p. 78). Ou seja, existiria em qualquer sociedade uma estrutura única de caráterque seria específica e comum à maioria dos grupos e classes que fizessemparte desta sociedade.Por outro lado, em outra oportunidade, Fromm reconhece a noção de que diferentesclasses dentro da sociedade tenham um determinado caráter social sob cujabase diferentes idéias podem se desenvolver e adquirir força. (FROMM, 1964,p. 279). Para além disso, é importante ressaltar a adaptação de todas essasnoções aos princípios fundamentais do materialismo histórico, dos quais esseteórico, ligado à Escola de Frankfurt, parte primordialmente. Para Fromm, “ocaráter social é elo entre a estrutura econômico-social e as idéias e ideais queganharam difusão na sociedade”, e sua influência exerce-se nas duas direções:da base econômica às idéias e das idéias à base econômica – o que se sintonizacom a flexibilização do determinismo histórico que foi encaminhada por diversosautores marxistas importantes do século XX. (FROMM, 1963, p. 93).Reich e Fromm, para não falar em Freud, são apenas dois dos muitos autoresque têm exercido alguma influência nos historiadores, ainda poucos, os quaistêm buscado constituir um campo novo a partir da interconexão entre Históriae Psicologia. Seria essa exploração mais sistemática de diversificadas noçõese conceitos desenvolvidos no âmbito da Psicanálise o que poderia distinguirmais propriamente a psicoistória (ou a psicologia histórica) da história dasmentalidades, já que o terreno em que ambas se movimentam seria, a princípio,o mesmo.10 O conceito de “filtro socialmente condicionado” é introduzido por Fromm para se referir à formação deum “inconsciente social” mais amplo. (FROMM, 1963, p. 125).
  • 19. Vale lembrar, para citar um exemplo, que tem influenciado mais incisivamente os  historiadores da atualidade, que o sociólogo-historiador (e médico) Norbert Elias também percorreu caminhos similares ao examinar a interiorização de certosBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. modos de agir e de sentir que passam a condicionar os indivíduos em sociedade. Embora sem indicar Freud como interlocutor, o sociólogo alemão vale-se por diversas vezes de noções oriundas do campo da Psicanálise – como as das “pulsões” – para embasar, já em 1939, seu mais célebre trabalho: O processo civilizador (1990). Trata-se de uma cuidadosa análise social que objetiva mostrar como a interiorização de certos hábitos é o contraponto psicossocial de um processo civilizador que foi se produzindo desde o período medieval, e que se instala gradualmente no Ocidente a partir de poderes centralizados em torno dos modernos estados nacionais. Em diversos aspectos, O processo civilizador tem ligações muito definidas com A sociedade de corte (1986),11 obra anterior em que Elias já havia estabelecido claramente os parâmetros do tipo de sociologia histórica que pretendia propor. A idéia é examinar, explica ele na introdução dessa última obra, não os indivíduos do passado histórico tomados como únicos em si mesmos e como possuidores de uma expressiva liberdade para agir no mundo histórico (tendência que Elias sugeria ser a dos historiadores alemães de seu tempo), mas a rede de interdependências e condicionamentos que inscreveriam todos esses seres humanos em sociedade. Isso explica, aliás, a atualidade da obra de Elias: no decurso do século XX foi se afirmando cada vez mais uma historiografia que se opunha precisamente ao historicismo criticado pelo sociólogo alemão, tanto no que se refere ao surgimento da vertente francesa, inaugurada pela chamada Escola dos Annales, como por meio dos novos desenvolvimentos historiográficos inscritos no materialismo dialético. Assim a sociologia histórica proposta por Elias – diretamente preocupada com as determinações que impõem um limite aos destinos pessoais – foi sendo identificada cada vez mais com uma História que avançou na mesma direção nas suas inúmeras modalidades. É interessante constatar, aliás, que mesmo no período pós-Annales e pós-No- velle Histoire, marcado por novos desenvolvimentos como a microistória, uma obra como A sociedade de corte continua a mostrar-se sintonizada com alguns dos mais recentes caminhos historiográficos. O que se faz nesta obra, senão 11 Embora a sua primeira publicação somente tenha ocorrido em 1969, essa obra é anterior a O processo civilizador, já contando com uma edição praticamente definitiva em 1933.
  • 20. tomar um universo microrrecortado – a corte dos reis de França entre Francisco I e Luís XIV com todo o seu sistema ritualizado pela etiqueta – para, a partir daí,examinar a rede de relacionamentos e imposições de comportamento que passam Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007a constranger os indivíduos, produzindo, de um lado, estratégias daqueles quesão obrigados a se movimentar nesse sistema, e, de outro, automatismos aserem decifrados pelos sociólogos e historiadores? O que se faz nesta obra,ainda, senão uma tentativa de apreender a sociedade do Antigo Regime a partirdessa formação social mais específica que é a “corte principesca”, oferecendoàqueles que puderem decifrá-la as chaves para compreender padrões decomportamento que se difundem para a sociedade mais ampla?Para utilizar um comentário pertinente de Roger Chartier, que tomaria mais tardea obra de Elias como um dos modelos de sua história cultural, é possível dizerque o que o sociólogo alemão está propondo é precisamente “estabelecer asleis de funcionamento das formas sociais a partir de um exame minucioso deuma de suas atualizações históricas”. (CHARTIER, 1990, p. 91-119). Trata-se,então, de dar uma tríplice utilidade a este estudo de caso: por um lado utilizando-o para compreender certos aspectos do Antigo Regime; por outro, aproveitando-o para investigar, a partir das comparações com que Elias enriquece o livro, seuma formação social como a “corte” produziria efeitos similares em outrassociedades; por fim – e é este o aspecto que nos interessa mais especificamentenesta seção em que estamos abordando a psicohistória – Elias propõe-se aexaminar a função da corte em um processo de civilização que transformaradicalmente a economia psíquica dos homens entre os séculos XII e XIII.O objetivo central de O processo civilizador também se enquadra perfeitamentenesse campo intradisciplinar que poderia ser definido como uma psicoistória, ounesses interstícios situados entre a História e a Psicologia (e que Elias pretendiainscrever no interior do campo sociológico). Trata-se de investigar, nessa obra de1939, a variação das normas de agressividade no tempo e de examinar comoessas normas se refinam (ou civilizam-se) de modo a transferir um controle queantes era exercido de fora para um espaço intra-individual e intersubjetivo onde oindivíduo entroniza as regras e interdições sociais até que passa a agirautomaticamente, de maneira autocoativa. Dito de outro modo, o que Elias estáestudando nesse livro é a formação de um psiquismo específico no homemocidental, que está precisamente ligado a motivações socioistóricas.Na verdade, o enquadramento de O processo civilizador em um campo que poderiaser definido como uma psicoistória é autorizado pelo próprio Elias, já que no
  • 21. segundo volume dessa obra ele reclama precisamente a constituição de uma ciência humana que ainda não existia, e que poderia ser chamada “psicologia histórica”, vindo essa a ocupar o vazio produzido pelo abismo que separa umaBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. História não-psicologizada de uma Psicologia que recusa a si mesma pensar historicamente seus objetos. (ELIAS, 1990): Exatamente porque o psicólogo pensa não-historicamente, porque aborda as es- truturas psicológicas dos homens de nossos dias como se fossem algo sem evolução ou mudança, os resultados de suas investigações de pouco servem ao historiador. E porque, preocupado com o que chama de fatos, evita problemas psicológicos, o historiador pouco tem a dizer ao psicólogo (p. 234). É esse diálogo de surdos, onde psicólogos e historiadores habitam constelações teóricas separadas por anos-luz de incompreensão mútua, o que Elias propõe-se a superar. A Psicologia Social Histórica, tal como a define o sociólogo alemão em outro passo de O processo civilizador, deveria produzir estudos simultaneamente psicogenéticos e sociogenéticos. E é isso o que Elias realiza efetivamente com suas obras. Elias foi, na verdade, um crítico contumaz da Psicanálise enquanto campo de sa- ber até então redutor e habitualmente tendente à não-historicização. Criticou-lhe – além da a-historicidade – a utilização dos conceitos de Ego, Id e Superego para identificar compartimentos separados da mente humana, propondo, ao contrário, uma atenção especial às relações entre esses três conjuntos de funções psico- lógicas. Seu objetivo era investigar as relações entre os sentimentos controlados pelos indivíduos humanos e aquelas agências controladoras da psique, mas cha- mando a atenção para o fato de que a estrutura média ou habitual dessas agências controladoras (ego, superego) vai se transformando no decurso de um processo civilizador como aquele que foi sendo produzido socialmente no Ocidente, na medida em que se sofisticava e se transmudava a rede de interdependências humanas. Introduzir simultaneamente uma abordagem social e uma profunda consciência histórica no âmbito da Psicologia foi a sua pedra de toque. Da mesma forma, Elias foi crítico arguto da historiografia alemã de sua época, seja a associada àquele tipo de história das idéias que almejava investigar o pensamento humano desencarnado de sua sociedade, seja a historiografia que, a título de examinar a sociedade nas suas relações concretas, acabava por abstrair essa sociedade de um universo mental que constitui parte funda- mental de sua própria vida. Romper o isolamento injustificável entre esses dois tipos de História, e reinstaurar o diálogo de uma História simultaneamente
  • 22. mental e concreta com a disciplina Psicologia – esse foi um dos seus projetos !mais pessoais, vindo a se constituir em uma contribuição decisiva para essecampo que rigorosamente nem começou ainda a se formar, mas que desde já Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007poderemos chamar psicoistória.Os maiores riscos que rondam a psicoistória envolvem, de um modo ou de outro,os chamados “perigos do Anacronismo”. O que é Anacronismo? Em primeirolugar, é preciso considerar que o historiador, ao examinar uma determinadasociedade localizada no passado, está sempre operando com categorias de seupróprio tempo (mesmo que ele não queira). Daí aquela célebre frase de BenedettoCroce, que dizia que “toda história é contemporânea”. Isso quer dizer que mesmoa História Antiga e a História Medieval são histórias contemporâneas, porquefeitas pelos historiadores de nosso tempo (e voltadas para leitores de nossotempo). Há uma tensão muito delicada que envolve essa inarredável característicado trabalho historiográfico: por um lado, o historiador deve conservar a consciênciade que trabalhará com as categorias de seu tempo (as únicas que lhe serãopossíveis), mas de outro deverá evitar que essas categorias deturpem as suaspossibilidades de compreender os homens do passado, que tinham as suaspróprias categorias de pensamento e de sensibilidade. Por exemplo, os métodosque um historiador emprega serão sempre métodos seus, desenvolvidos na suaprópria época: ele poderá empregar os recursos da análise semiótica, somentedesenvolvidos recentemente, para examinar fontes da história antiga ou me-dieval; e poderá elaborar novos conceitos, somente tornados possíveis no seutempo, para iluminar uma época anterior à sua.Não há o menor problema nesses usos. Aliás, é precisamente o uso de novastécnicas, conceitos e modos de ver uma realidade passada o que assegura quea História de uma determinada época deverá ser sempre recontada. A questãodo anacronismo é muitas vezes mal-interpretada. Não tenho por que meconstranger de utilizar a expressão “ataque cardíaco” para uma morte dessetipo, ocorrida na Antiguidade greco-romana ou na Idade Média somente porqueos homens de então se referiam a esses males como “mal súbito”.O que não posso é dizer que um determinado grupo de mulheres daquela época,dadas suas atitudes de resistência ao controle masculino em um tempo em queessas resistências não eram esperadas, fossem “feministas”. O erro, nessecaso, está em que estou lhes atribuindo uma categoria de pensamento quesomente surgiu nas mulheres do século XX – à luz de uma equivalente conquistade direitos políticos e de obtenção de espaço social e profissional – e transferindo
  • 23. isso para uma época em que o discurso feminista simplesmente não existia. O " discurso feminista é datado e, na verdade, inseparável das condições de seu surgimento e perpetuação. Se quero tentar compreender as mulheres daBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Antiguidade e da Idade Média que resistiram à sociedade misógina de sua época, devo tentar perceber como elas viam o mundo, através de que categorias de pensamentos, a partir de que práticas e representações. Devo examinar, além disso, a excepcionalidade ou não do comportamento deste ou daquele grupo, que sentido os componentes desse grupo atribuíam aos seus próprios discursos. Devo refletir longamente sobre as suas palavras (que certamente não incluirão a expressão “porco chauvinista”). Metaforicamente falando, deverei sintonizar, nesse caso, essa singular estação que é a mulher antiga ou a mulher medieval, sempre com a consciência de que deverei apreender um idioma estrangeiro, diferente do meu. Muitas vezes, alguns historiadores de nosso tempo, que aprendem desde cedo na academia que o maior pecado para um historiador é o do anacronismo, quase parecem se sentir tentados a mandar confeccionar um manto medieval para depois se encerrarem nos seus gabinetes de estudo com uma roupa apropriada para iniciar uma investigação sobre a ordem medieval dos templários. Não é isso o que os libertará dos riscos do anacronismo, e nem um eventual horror a utilizar categorias teóricas contemporâneas na hora de analisar uma fonte histórica. Se assim fosse, a própria discussão sobre a possibilidade de diálogo entre a História e a Psicologia, ou entre a História e a Semiótica para citar um outro campo de possibilidades, seria inviável, já que não existiam esses campos de saber naquelas épocas mais remotas (e já que, rigorosamente, a própria História não existia da maneira como hoje concebemos esse campo do conhecimento). O que o historiador não deve fazer, com vistas a evitar os riscos do anacronismo, é inadvertidamente projetar categorias de pensamento que são somente suas e dos homens de sua época nas mentes das pessoas de uma determinada sociedade ou de um determinado período. Para compreender os pensamentos de um chinês da época dos mandarins, terei de me avizinhar dos códigos que (tanto quanto me for possível perceber) regeriam o universo mental dos chineses. Esse exercício de compreender o “outro chinês” é que tem que ser feito. Mas não é a análise que tem de ser chinesa. Compreendido isso, poderemos retornar agora aos problemas do diálogo entre História e Psicologia. Febvre, em um texto visionário, deixou registrado um alerta que poderemos reproduzir literalmente aqui, já que diz tudo:
  • 24. Muito já dissemos para mostrar que, se evitarmos projetar o presente, o nosso presente, no passado; se rejeitarmos o anacronismo psicológico, o pior de todos, o # mais insidioso e o mais grave; se pretendermos esclarecer todas as atitudes das sociedades e, inicialmente, suas atitudes mentais, pelo exame de suas condições Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 gerais de existência – é evidente que não poderemos considerar como válidas, para esse passado, as descrições e constatações de nossos psicólogos, operando sobre dados que nossa época lhes fornece. É também evidente que uma psicologia histórica verdadeira só será possível pelo acordo, negociado claramente, do psicólogo com o historiador. Este orientado por aquele. Mas aquele claramente tributário do primeiro, e obrigado a procurá-lo, para criar suas condições de trabalho. Trabalho em colaboração. Trabalho em equipe, para falar mais claramente. (1953, p. 207-215).A psicoistória, enfim, mostra-se um campo promissor, que requer naturalmenteos seus cuidados. Uma última tentação a evitar nos trabalhos que poderiam serenquadrados pela psicoistória é a de pretender psicanalisar os homens dopassado, como se pudessem “deitar-se no divã de um hipotético historiadorpsicanalista”.12 Naturalmente, sabe-se que o processo psicanalítico, pelo menosno sentido freudiano, necessita ser construído a partir de um discurso interativocom o “outro” – o que seria impossível no caso dos atores sociais do passadoque nos chegam por meio das fontes.Para citar um último conjunto de historiadores que têm investido na conformaçãode uma ainda incipiente psicoistória, poderemos registrar que também entre oshistoriadores ligados à herança dos Annales começaram a surgir, no fim do séculoXX, algumas contribuições importantes. Desses, talvez o mais entusiasmadocom as possibilidades de diálogo com a Psicanálise seja Alain Besançon, que jáem 1974 escreveu um texto sobre o inconsciente para a obra coletiva da NovaHistória coordenada por Pierre Nora e Jacques Le Goff. (1988, p. 234). Fora docircuito francês, o grande marco nas tentativas de repensar as relações entreHistória e Psicanálise está registrado na obra Freud para historiadores (1985),de Peter Gay (1989). E a sua própria série de obras sobre os padrões de afetividadee sexualidade na época vitoriana dá uma idéia dos caminhos possíveis a partirdesse diálogo. (GAY, 1988).12 Essa imagem foi utilizada ironicamente por Le Roy Ladurie, que também dialoga eventualmente com ateoria psicanalítica (LADURIE, 1974, p. 284).
  • 25. História do imaginário $ Os novos objetos que audaciosamente os historiadores das últimas décadas doBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. século XX passariam a explorar, tal como se disse, não se tornaram de modo algum monopólios da historiografia das mentalidades. Ainda explorando os caminhos da cultura e também o universo mental das sociedades, poderemos delimitar agora as bases de um campo que pode ser definido como uma história do imaginário – investimento historiográfico que começa por abrir mais uma alternativa à investigação daqueles objetos historiográficos que até então haviam sido seara, praticamente exclusiva, da história das mentalidades. A história do imaginário estuda essencialmente as imagens produzidas por uma sociedade, mas não apenas as imagens visuais, como também as imagens verbais e, em última instância, as imagens mentais. O imaginário será aqui visto como uma realidade tão presente quanto aquilo que poderíamos chamar “vida concreta”. Essa perspectiva sustenta-se na idéia de que o imaginário é também reestruturante em relação à sociedade que o produz. Assim, basta lembrar como um exemplo entre outros que, na Idade Média, muitos se engajaram nas Cruzadas menos por razões econômicas ou políticas (embora estas sejam sempre evidentes) do que em virtude de um imaginário cristão e cavaleiresco. O imaginário mostra-se, dessa forma, uma dimensão tão significativa das sociedades humanas quanto aquilo que corriqueiramente é encarado como a realidade efetiva. A elaboração de um conceito (ou de uma noção) de imaginário para as Ciências Humanas deve muito a Cornelius Castoriadis, cuja obra de referência é A instituição imaginária da sociedade (1982), e a historiadores como Le Goff e Duby.13 Não devem ser desprezadas as contribuições antropológicas, como as de Gilbert Durand em As estruturas antropológicas do imaginário (DURAND, 1989), embora o historiador deva estar atento a um tratamento por vezes a-histórico que transparece nesse livro. Todavia, como registro de um repertório milenar de imagens, devidamente interconectadas, essa obra é imprescindível. A noção de imaginário é polêmica. Por um lado, ela conserva interfaces com a noção de “representação” e, em algumas situações, os campos originados por esses dois conceitos se invadem reciprocamente. Le Goff destacava que “o 13 Um marco para o delineamento de uma história do imaginário é o prefácio de Le Goff para a sua coletânea de textos relativos a essa especialidade historiográfica (1980).
  • 26. imaginário pertence ao campo da representação, mas ocupa nele a parte da tradução %não reprodutora, não simplesmente transposta em imagem do espírito, mas criadora,poética no sentido etimológico da palavra”. (LE GOFF, 1980, p. 12). Para o historiador Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007francês, como aliás para Castoriadis em sua obra pioneira sobre A invençãoimaginária da sociedade, o imaginário não pode ser examinado como algo estático.De certo modo, marca-se aqui uma distância em relação à noção de “mentalidade”,que evoca uma idéia maior de imobilidade ou de permanência em uma duraçãomais longa. Mas a isso voltaremos oportunamente.Por ora, consideraremos o imaginário como um sistema ou universo complexo einterativo que abrange a produção e circulação de imagens visuais, mentais everbais, incorporando sistemas simbólicos diversificados e atuando na construçãode representações diversas. De acordo com essa definição, existe uma interfacepossível do imaginário não apenas com o campo das “representações”, mastambém com o âmbito dos “símbolos”. Nesse sentido, deveremos lembrar queé possível se falar em “simbólico” apenas quando um objeto, uma imagem ouuma representação são remetidos a uma dada realidade, idéia ou a um sistemade valores que se quer tornar presente (a espada como símbolo da justiça). Umaimagem, portanto, pode se ver revestida de significado simbólico, conformeveremos adiante com o exame de algumas imagens apropriadas politicamente.A noção de imaginário, de qualquer modo, é complexa e aberta a sentidosdiferenciados, o que não impede que tenha gerado uma dimensão historiográficaimportante. Para encontrar uma obra precursora no campo da historiografia, devemosir ao clássico de Johannes Huizinga, escrito em princípios do século XX e traduzidopara o português com o título O declínio da Idade Média (1978). Nessa obra, ohistoriador holandês circula livremente entre as imagens visuais e verbaisperceptíveis através da produção cultural das sociedades franco-flamengas de finsda Idade Média, antecipando, em décadas, um campo histórico que somentepassaria a receber uma atenção mais sistemática dos historiadores a partir dadécada de 70. Suas fontes são constituídas tanto de textos literários como deobras iconográficas. Adicionalmente, Huizinga também toca na questão dedeterminados modos de sentir que seriam comuns a todos os homens medievais,o que o coloca também como um precursor da história das mentalidades.Tal como se disse, os primeiros domínios históricos a serem percorridos pelamoderna história do imaginário coincidiram de certa forma com aqueles quecomeçaram a ser desbravados pelos historiadores das mentalidades na décadade 60. Ginzburg, por exemplo, ocupou-se de recuperar um imaginário das práticas
  • 27. de feitiçaria em Os andarilhos do bem (1991). Todavia, embora existam alguns & objetos em comum, a história do imaginário guarda alguma distância em relação à história das mentalidades.Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Essa última está muito associada à idéia de que existe em qualquer sociedade algo como uma “mentalidade coletiva”, que para alguns seria uma espécie de estrutura mental que somente se transforma lenta, às vezes dando origem a permanências que se incorporam aos hábitos mentais de todos os que participam da formação social (apesar de transformações que podem estar se operando rapidamente nos planos econômico e político). A história do imaginário não se ocupa propriamente dessas longas durações nos modos de pensar e de sentir, mas da articulação das imagens visuais, verbais e mentais com a própria vida que flui em uma determinada sociedade. Foi o que Le Goff pretendeu fazer em sua obra O nascimento do purgatório (1990), em que busca investigar a mútua interação entre o imaginário religioso medieval e a sociedade que o produziu. Por outro lado, nota-se que, em geral, os historiadores das mentalidades estão sempre no encalço de algo que, grosso modo, é bem mais abstrato do que as imagens bem definidas investigadas pelos historiadores do imaginário. A história das mentalidades busca captar modos coletivos de sentir (a história de um sentimento como o “medo”), padrões de comportamento e atitudes recorrentes (os complexos mentais e emocionais que estão por trás das crenças e práticas da feitiçaria, as atitudes do homem diante da morte). Já a história do Imaginário volta-se para objetos mais definidos: um determinado padrão de representações, um repertório de símbolos e imagens com a sua correspondente interação na vida social e política, o papel político ou social de certas cerimônias ou rituais, a recorrência de determinadas temáticas na literatura, a incorporação de hierarquias e interditos sociais nos modos de vestir, a teatralização do poder. Uma pequena comparação de casos poderá contribuir para clarificar a questão. Na História do medo no Ocidente, de Delumeau, procura-se captar um complexo de medos que faziam parte da constituição da mentalidade coletiva do homem ocidental, considerando-se um período de longa duração que tem seus primórdios na Idade Média e que o autor examina até o século XVIII. Habituados a um mundo rural fechado em redes senhoriais e controles privados, que somente conheceria uma reintensificação do comércio a partir do século XII
  • 28. e que, mesmo nesse processo de reurbanização, será um mundo de cidades muradas e de castelos fortificados ou acostumados desde a mais tenra infânciaa partilhar a vida diária entre as permanências pagãs e um sobrenatural religioso Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007cristão; assaltados outras vezes pela peste e pelas invasões de povos que lhespareciam bárbaros, os homens medievais desenvolveram uma série de medosque eram partilhados pela totalidade social. Apesar das transformações políticase sociais a partir do século XIII, os homens da Baixa Idade Média e do princípiodo período moderno haviam herdado permanências seculares, que só poderiamser alteradas em ritmos muito lentos ou então sob estímulo de alguns dosacontecimentos traumáticos do princípio dos tempos modernos.Para resumir o complexo de medos ocidentais rastreados por Delumeau, pode-remos mencionar o medo do mar, o medo do desconhecido, o medo da noite, omedo das florestas não-desbravadas que constituíram verdadeiras fronteirasinternas ainda nos tempos feudais, o medo dos leprosos e da Peste Negra, esobretudo o medo do “outro” – que podia se voltar contra os judeus, contra osmuçulmanos, contra as bruxas ou contra os simples forasteiros. Medo, por fim,do Diabo – a quem os vários “outros” eram constantemente assimilados.Esses medos só a custo foram sendo vencidos quando o homem ocidental co-meçou e continuou a desbravar as suas florestas internas, quando se lançou àsgrandes viagens oceânicas, ou à aventura do intercâmbio com povos os maisdiversos, ou mesmo quando começou a decifrar racionalmente uma naturezaque até então lhe parecera enigmática e mesmo assustadora. Os desbravadoresque se lançavam a outras terras como Marco Polo, como os alquimistas quequeriam decifrar o mundo natural e sobrenatural, como os novos comerciantesde longo curso, como os cruzados ou como os missionários, eram pessoas queenfrentavam e lutavam contra esses vários medos coletivos.A caminhada para a modernidade aparece, assim, como uma trajetória de supe-ração desses medos seculares, talvez em direção a novos medos a serem inven-tados de acordo com as circunstâncias histórico-sociais. Essas longas perma-nências no âmbito dos modos de sentir – produtoras de medos coletivos que emalgumas ocasiões eram manipulados pelos donos do poder – são tratadas porDelumeau como mentalidades.Em que objetos está interessado o historiador nesse caso? Busca compreenderos medos coletivos que aparecem aqui como “modos de sentir” a serem parti-lhados por todos e que, além de ocuparem uma longa duração, estendem-se por
  • 29. todos os espaços – não a uma pequena aldeia, ou sequer à França, mas ao ! Ocidente cristão. Mais ainda, esses modos de sentir atravessam as classes, passam a se insinuar na análise do historiador como elementos constituintes daBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. estrutura mental dos homens de toda uma época. Um historiador do imaginário estaria menos interessado nesses modos coletivos de sentir do que nas imagens socialmente produzidas, mesmo que em alguns casos essas imagens sejam produzidas por padrões coletivos de sentimento e de sensibilidade. Quando um autor como Claude Kappler escreve a sua obra sobre Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média (KAPPLER , 1994) – portanto abordando um recorte análogo e objetos muito próximos dos de Jean Delumeau – está muito particularmente interessado nas imagens e nos seus usos, no inventário de fenômenos prodigiosos que assaltam a imaginação dos homens medievais, na tipologia de monstros que se espalha pelos seus bestiários e que têm algo a dizer sobre o contexto social em que foram produzidas, nas visões cosmográficas a partir das quais eram estabelecidas representações da Terra e do Universo, trazendo o Paraíso para um ponto qualquer no Oriente ou no topo do mundo. É verdade que Kappler trabalha também com a perspectiva de uma longa permanência medieval, e por isso dialoga, em um de seus capítulos, com a história das mentalidades. Mas isso é circunstancial ao seu objeto – já que, conforme veremos, as imagens, as cosmovisões e os símbolos podem ser produzidos também por circunstâncias políticas, por necessidades sociais e até locais, por artimanhas da poesia e da literatura, por arquitetura política pensada ou intuída, ou podem mesmo ser ocasionadas por grandes eventos que caem como raios na vida das sociedades. Durante o período Nazista, na Alemanha do século XX, por exemplo, um rico imaginário foi construído em poucas décadas em torno da suástica, da imagem do super-homem de raça pura, da simbologia do Reich e do papel do Führer no centro ou no topo desse imaginário político, um imaginário que aflora repentinamente, mesmo que recolhendo materiais seculares como as idéias pan-germanistas e as hostilizações anti-semitas. Mas deixemos por ora os demônios do século XX e voltemos aos de Kappler – ao seu imaginário de monstros, demônios e encantamentos da Idade Média. Que esse historiador está embriagado de imagens nas suas motivações historiográficas fica bem claro nas primeiras frases de seu trabalho. Ele nos conta que a idéia de seu livro germinou da contemplação das pinturas de Jerônimo Bosch – pintor
  • 30. renascentista que muitas vezes contrasta com seus contemporâneos pela profusão, !em seus quadros, de um imaginário iconográfico riquíssimo onde abundam osmonstros, os seres fantásticos, os prodígios, as referências a um sobrenatural Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007mágico. Enquanto Delumeau está fascinado pela persistência de um modo desentir, Kappler está fascinado pelos modos de imaginar, de representar, de viverentre imagens visuais e verbais construídas pelos homens medievais.Alguns talvez considerem a obra de Kappler sobre os monstros medievais umtanto descritiva, como se o seu objetivo principal fosse apenas o de inventariarum vasto universo de imagens que hoje causam estranhamento ou curiosidade.Descrever a imagem pela imagem é uma das tentações da história do imaginário.Mas convenhamos: uma história descritiva pode ser elaborada em qualquer umadas dimensões que estamos estudando: um historiador econômico pode se limitara descrever os ciclos e as flutuações de preços em um determinado período, eum historiador demográfico pode reduzir o seu trabalho à apresentação de curvasdemográficas e de dados sobre uma população de determinado local e época. Ahistória descritiva (como a história factual, que é a sua contrapartida entre oshistoriadores que se comprazem em narrar uma seqüência de eventos), pode sersempre confrontada com uma história-problema. Problematizações interessantespodem ser elaboradas em todas as dimensões e domínios historiográficos, comos mais diversificados métodos e abordagens.O historiador do imaginário começa a fazer uma história problematizada quandorelaciona as imagens, os símbolos, os mitos, as visões de mundo a questõessociais e políticas de maior interesse – quando trabalha os elementos do ima-ginário não como um fim em si mesmos, mas como elementos para a compreensãoda vida social, econômica, política, cultural e religiosa. O imaginário deve fornecermateriais para o estabelecimento de inter-conexões diversas. Estão aí as obrasde Le Goff mergulhando nas estruturas sociais através das imagens do Purgatório,ou de Duby compreendendo a visão tripartida da sociedade através do imagináriodo feudalismo.Esse contraste entre a busca de modos de sentir mais abstratos (medo, pavorda morte, afetos) e a intenção de decifrar a profusão de imagens visuais, verbaise mentais pode esclarecer algumas das fronteiras e dos pontos de contato entrea história das mentalidades e a história do imaginário. Com base no que até aquidiscutimos (pois a questão não se resume a isso, postulamos que a famosaobra em que Marc Bloch estuda Os reis taumaturgos (1993) é muito mais umaprecursora da história do imaginário do que de uma história das mentalidades.
  • 31. O que Bloch está examinando, nesse caso, é a persistência de um determinado ! imaginário régio, de uma determinada crença popular em um aspecto muito específico e delineado que seria a capacidade dos reis franceses e ingleses deBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. duas dinastias medievais de curarem com um simples toque as “escrófulas” (sintomas visíveis de doenças pouco conhecidas na época). Bloch decifra precisamente a imagem do “rei taumaturgo” e a sua apropriação política, investigando rituais e simbologias que com ela estariam relacionados. Não é, portanto, um modo genérico de sentir o que ele busca rastrear, mas a história de uma crença muito bem delineada e atrelada aos universos político e social de sua época, com base em um imaginário que tem uma história e que foi se entranhando na maneira medieval de conceber uma realeza que dialoga com a sacralidade. De modo geral, a diferença entre história das mentalidades e história do imaginário acaba por produzir uma tendência a abordagens distintas. Não raro, chega-se às mentalidades de maneira indireta, freqüentemente através de indícios, de detalhes que são reveladores de atitudes coletivas e de modos de sentir comuns a toda uma sociedade. Já o imaginário pode ser, muitas vezes, apreendido por uma análise mais direta do discurso, seja um discurso verbal, seja visual, empregando, para tal, desde análises topológicas até recursos semióticos (e também métodos iconográficos e iconológicos para o caso das imagens visuais). A independência de uma história do imaginário em relação a uma história das mentalidades propriamente dita não impede que alguns historiadores tenham atuado na articulação entre essas duas dimensões, como foi o caso do historiador das mentalidades Vovelle, que, em um mesmo trabalho historiográfico buscou, perceber tanto os padrões de sensibilidade do homem diante da morte como as formas simbólicas que os acompanham. Vale a pena registrar essa interconexão entre mentalidades e imaginário percorrida com sucesso pelo historiador francês. O ponto de partida é uma hipótese que se sustenta no conceito de mentalidade como estrutura de longa duração: teria ocorrido no Ocidente europeu do século XVIII (entre 1730 e 1770) uma mudança radical na sensibilidade coletiva diante da morte e, na verdade, na sensibilidade religiosa em sentido mais amplo, uma vez que a partir desse período assiste-se ao que o historiador francês chama uma “des- cristianização”. (VOVELLE, 1981). Partindo de uma história das mentalidades, calcada em uma hipótese que encara a sensibilidade religiosa e mortuária do homem ocidental como uma estrutura de
  • 32. longa duração que se desgasta mais aceleradamente a partir do século XVIII, !!Vovelle chega a uma história do imaginário tanto pelo seu enfoque nas imagens,nos símbolos e nas representações como pelo tipo de fontes iconográficas que Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007postula serem indispensáveis para a percepção de certos aspectos dasrepresentações coletivas. (VOVELLE, 1981, p. 46). Dessa forma, abordando tantoa iconografia dos cemitérios (imagens visuais) como as comunicações fúnebres(imagens produzidas no âmbito da escrita), Vovelle revela o caminho percorrido: Todo um trabalho de decifração se impõe a partir de indícios frágeis. Escrutinando os ex-votos, o pesquisador medirá pacientemente a superfície, respectivamente do es- paço celeste de aparição e da cena terrestre; analisará, também, o gestual e o jogo dos olhares pelo qual se estabelece a ligação entre os dois universos. Analisando as representações do purgatório em sua evolução, sublinhará as mutações caracte- rísticas de um panteão de intercessores que, paulatinamente, vai se despovoando do século XVII ao século XVIII. (1981, p. 42).Vovelle revela-se um verdadeiro mestre em suas investigações sobre a religio-sidade e a morte – um mestre capaz de perceber o imaginário seja nos objetosde cultura material, seja nas fontes iconográficas, seja em documentação escritacomo os testamentos. Examina altares e retábulos, mede o tamanho de velas!Avalia as imagens verbais registradas nos epitáfios, seja para perceber asfórmulas estereotipadas que indicam permanências, seja para surpreenderaquele detalhe revelador, aquela lenta emergência de novas imagens verbais adenunciar simultaneamente a presença de um novo imaginário e de uma novasensibilidade diante da morte.É preciso maestria para elaborar historiograficamente essas conversões dainformação visual em imagem mental, da informação escrita em imagem vi-sual, ou para fazer a passagem do discurso contido nas fontes de culturamaterial para o discurso verbal, e vice-versa. É a mesma maestria que nosrevela Ladurie, historiador que circula com a mesma desenvoltura entre umahistória da cultura material, uma história das mentalidades e uma história doimaginário, conhecendo os segredos da conversão de um desses campos nooutro. Para justificar esses elogios, será bastante reproduzir um pequeno trechode suas fontes – documentos inquisitoriais que registram os depoimentos deréus acusados de pertencerem à heresia cátara – e os subseqüentes comen-tários do historiador, hábil em perceber, em um pequeno extrato textual, todoum universo que abrange desde traços da cultura material de uma pequenacomunidade até os traços de sua “utensilhagem mental”, para utilizar umaexpressão de Febvre que Ladurie encampa conceitualmente:
  • 33. [texto da fonte “Um dia [conta Guillemette Clergue, cujo marido é violento] eu texto fonte]: !" precisava de pedir emprestados alguns pentes para pentear o canhâmo e fui, para esse efeito, à casa de meu pai. E, quando aí cheguei, encontrei o meu irmão que tirava o esterco de casa. E perguntei ao meu irmão:Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. — Onde é que está a senhora minha mãe? — E que lhe quereis? replicou ele. — Quero alguns pentes, disse eu. — A nossa mãe não está aqui, concluiu o meu irmão. Foi à água. Só voltará daqui a um bom bocado. Não acreditei no meu irmão e tentei entrar em casa. Então, o meu irmão pôs o braço defronte da porta e impediu-me de entrar.” [comentário do historiador “Texto notável! A porta é estreita; foi barrada por um comentário historiador]: simples braço de homem: a porta cheira a esterco; Alazais Rives, a mãe, é aguadeira da domus do seu homem, como todas as outras. Isto não impede que esta mamã muito vulgar tenha o direito ao título de Senhora (“minha senhora”!) por parte de sua filha Guillemette Clergue. Esta família é, por outro lado, um ninho de escorpiões; os laços são no entanto ritualizados. O irmão trata por vós a irmã, o que não o impede de ser brutal para com ela.” (LADURIE, 1983, p. 252). A partir de um registro verbal, aparentemente tão despretensioso, Ladurie traz à tona a materialidade das habitações, os seus cheiros, a labuta diária das mulheres oprimidas pelos maridos, a contradição entre a simplicidade dessas vidas e a formalidade respeitosa com que se tratam. Enfim, recupera-se, em um instantâneo notável, o material e o mental que se entrelaçam em torno das relações sociais rigidamente hierarquizadas e ritualizadas. As imagens irrompem através da verbalidade e chegam a exalar cheiros e concretudes materiais prontamente percebidas pelo historiador. Voltemos, contudo, aos esforços de explicitar os limites existentes entre o enfoque da história das mentalidades e o enfoque da história do imaginário. Ressalvados os significativos e eloqüentes exemplos de Vovelle e Ladurie, o encontro entre história do imaginário e história das mentalidades não é, em todo caso, obrigatório, sendo pertinente considerá-los como dois campos específicos. Se um circuito do imaginário social pode se formar lentamente, a partir de longas permanências e de uma dimensão mais diretamente derivada dos modos automáticos de pensar e de sentir – ou a partir das mentalidades, como diriam os historiadores que enfocam essa dimensão social – pode se dar também que um circuito imaginário seja produzido por necessidades ou por motivações políticas. Nesse caso, veremos que combinações da história do imaginário com outros campos são perfeitamente possíveis (por exemplo, entre uma história do imaginário e uma história política). Da mesma forma que existe um “imaginário religioso”, cada sociedade desenvolve
  • 34. também o seu “imaginário político”, como aquele que Ernst Kantorowicz estudou em !#Os dois corpos do rei (1998). A idéia presente na Inglaterra e na França do AntigoRegime de que o “rei não morre jamais”, ou de que a própria sociedade constitui um Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007“segundo corpo do rei”, pode estar, segundo o historiador polonês, interconectadacom um imaginário cristão e ao mesmo tempo com determinadas motivações políticas,percebendo-se aqui uma rede de múltiplas interações a ser decifradas pelo historiador.Em muitos casos, um circuito de elementos do imaginário social pode ser produzidoou apropriado por circunstâncias políticas ou, tal como já mencionamos, mesmopor uma arquitetura do poder. Também não são raros os casos em que o imaginárioencontra um leito em determinadas condições sociais, ou que se adapte a certasmotivações políticas. Na Espanha medieval do século XIII, os sábios e juristas dorei Afonso X elaboraram a imagem de que “o rei é a cabeça, o coração e a almado reino”. Esse imaginário tem muito a ver com a maneira medieval de concebera sociedade como um organismo (que teria no rei a sua cabeça), mas tem a vertambém com uma determinada maneira de governar. Por que não somente acabeça, órgão que comanda de cima ou o coração, órgão que rege a vida dedentro ou a alma, que está em toda a parte? O que está por trás dessa hábilestratégia de unir essas três imagens em uma única metáfora?14 Um estudoinserido na história do imaginário elabora perguntas dessa ordem.Cada sociedade, ou cada sistema político, pode produzir do governante umimaginário que lhe seja mais apropriado. À estruturação do poder absolutista francêsno século XVII, por exemplo, adaptou-se com muita eficácia a imagem do Rei-Soldifundida por Luís XIV. Outrossim, a história nos oferece inúmeros imagináriosrégios: o rei taumaturgo, o rei-sábio, o rei santo, apenas para citar alguns.Os horizontes abertos por uma busca da compreensão do imaginário políticosão, na verdade, inúmeros. Os modos como o poder é representado – por exemplo,em termos de “centro” e de “periferia” – ou como a estratificação social, mate-rializa-se em imagens como a de um espectro de alturas em que as classessociais mais favorecidas são chamadas “classes altas”... Eis aqui algumasimagens sociais e políticas que podem passar a fazer parte da vida de umasociedade. Duby, por exemplo, buscou recuperar precisamente o imaginário queestá por trás dos padrões de organização da sociedade feudal em As três ordensou o imaginário do feudalismo (1971).14 Essa questão é discutida em Barros (1999).
  • 35. Mas a história do imaginário também pode seguir por outros caminhos. Existe o !$ estudo mais direto das imagens visuais, perceptíveis, por exemplo, nas iconografias ou das imagens verbais empregadas na literatura – não propriamente para perceberBarros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. um fundo mental que as sustenta, como no caso dos já mencionados exemplos de Vovelle, mas para estudar essas imagens visuais e literárias em si mesmas. Nesse ponto, a história do imaginário partilha seus objetos com uma “história das imagens” propriamente dita ou com uma “história das representações”, que são, na verdade, “domínios da história” (ou seja, campos temáticos à disposição do historiador). São domínios que, naturalmente, também podem ser partilhados por uma história cul- tural. Vale ressaltar que, nesse caso, o estudo das imagens abre-se a metodologias próprias, que vão desde os métodos da iconografia temática iniciada cedo por autores como Emile Mâle, até o célebre “método iconológico” de Erwin Panófsky (1991), passando pelas abordagens semiológicas da imagem. O importante no estudo de imagens, como fontes históricas, é buscar metodologias próprias com a atenção de que existe uma diferença clara entre o discurso visual e o discurso escrito. Deve-se evitar, naturalmente, aquela tentação ou até mesmo inocência de se utilizar a fonte iconográfica como mera ilustração que confirma o que o historiador já percebeu através do discurso escrito de outra fonte trabalhada para- lelamente. A imagem visual (é o que queremos ressaltar), tem por si mesma algo a ser dito. É preciso fazê-la falar com as perguntas certas ou, para utilizar uma metáfora de Vovelle, arrancar da imagem certas “confissões involuntárias”. (1981, p. 70). **** Diante do que aqui foi colocado, será possível delimitar melhor os espaços historiográficos que correspondem a esses campos aparentemente tão próximos da historiografia. Apesar de se constituírem a partir de dimensões que guardam entre si alguma proximidade – o imaginário e o universo mental dos homens inseridos em sua vida coletiva – o que a história das mentalidades traz para primeiro plano são modos de pensar e de sentir que, em princípio, corresponderiam a processos de longa duração, e que podem se expressar ou não em imagens mentais, verbais ou visuais. A história do imaginário, por seu turno, traz a primeiro plano certos padrões de representação, certas potências da imaginação que se concretizam em imagens visuais, verbais ou mentais, mas que não neces- sariamente se formam em processos de longa duração (embora isso possa acon- tecer). O imaginário, conforme se salientou, pode ser objeto de uma arquitetura política, ser interferido por ela – pode ser gerado rapidamente sob determinadas circunstâncias; pode ainda ser produzido a partir da representação artística e
  • 36. gerar suas próprias conexões. O imaginário nem sempre surgirá como uma !%dimensão coletiva (embora isso possa ocorrer), o que já se dá necessariamentecom aquilo que foi chamado mentalidades pelos historiadores que acreditam na Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007possibilidade de identificar um significativo substrato mental comum entre oshomens de uma mesma época ou pelo menos de um mesmo setor da sociedade.Mas teremos aqui, de qualquer modo, campos conceituais que ainda estão porse definir – e que ainda geram cada um deles as mais diversificadas polêmicasentre os historiadores.Para concluir esse grande paralelo entre as modalidades da História que atentammais particularmente para os universos mental e imaginário, e também para ocampo das sensibilidades humanas, e que têm explorado através de abordagenshistóricas os labirintos da psicologia e da imaginação humana, será oportuno lembrarque a psicoistória, a história das mentalidades e a história do imaginário deixaramcertamente a sua marca em uma historiografia contemporânea que buscou, apartir do século XX, inserir-se em uma perspectiva interdisciplinar. Contudo, asreflexões e preocupações encaminhadas por essas modalidades históricas, bemcomo seus investimentos metodológicos e seus aportes teóricos, estão aindalonge de se esgotar à altura desse novo milênio que a pouco se iniciou. O universomental dos homens, considerados em sua vida social, bem como sua produção deimagens de todos os tipos e de diversificados padrões de sensibilidade, constitui,certamente, ainda, um enigma que possivelmente nunca será decifrado, mas que,em todo caso, sempre atrairá o interesse dos historiadores.ReferênciasARIÈS, Philippe. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Alves, 1981. 2 v.ARIÈS, Philippe. História social criança e da família. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1981.[Orig.: 1964].ARIÈS, Philippe. A história das mentalidades. In: LE GOFF Jacques (Org.). A história nova.São Paulo: M. Fontes, 1990. p. 154-176.BARROS, José D’Assunção. As três imagens do rei: o imaginário régio nos livros delinhagens e nas cantigas trovadorescas (Portugal e Castela, século XIII). 1999. Tese(Doutorado) – UFF, Niterói, 1999.BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis:Vozes, 2004.BARROS, José D’Assunção. O projeto de pesquisa em história. Petrópolis: Vozes, 2004.
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  • 39. "A leitura do tempo no espaço:uma reflexão sobre a cultura Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007e a memória na mídia Mágda Rodrigues da Cunha1 RESUMOInvestigar as relações que se estabelecem em uma sociedade midiatizada é pesquisar cada vez asdiferentes camadas e marcas deixadas pela história das mídias. História essa que permanece ouse modifica, de acordo com as tramas da cultura. O que este artigo propõe é a possibilidade de lerhoje, por intermédio da reinvenção e reacomodação das mídias, as marcas que vêm sendo deixadassob influência da cultura que, por sua vez, também se reinventa a cada nova mudança, em diálogocom os diferentes horizontes históricos. As características que atualmente se evidenciam, de umasociedade individualista, também marcam as formas de comunicar, por intermédio de conteúdospersonalizados. A solidão, que muitos atribuem aos navegadores na internet, é a mesma que,numa trama muito complexa, possibilita a existência de uma sociedade em escala global. Cultura,memória, tempo e espaço são as categorias que este texto elege como base de reflexão, parapensar os motivos de uma comunicação individualizada e em rede simultaneamente.Palavras-chave Cultura. Memória. Tempo. Espaço. Comunicação.Palavras-chave: ABSTRACTTo investigate the relations in a society influenced by the media is to search each time the differentlayers and marks left for the history, that remains or modifies in accordance with the culture. Thisarticle considers the possibility to read today, for intermediary of the reinvention of the medias, themarks that are being left under influence of the culture that, in turn, is reinvented in each newchange, in dialogue with different historical horizons. The characteristics of an individualist society,also marks the forms to communicate, for intermediary of personalized contents. The solitude, thatmany attribute to the navigators in the Internet, is the same that, in a very complex tram makespossible the existence of a society in global scale. Culture, memory, time and space are the catego-ries that this text chooses as reflection base, to think reasons of an individualized communicationand in net simultaneously.Key words Culture. Memory. Time. Space. Communication. words:1 Jornalista. Professora na Famecos – Faculdade de Comunicação Social da PUCRS no curso de Jornalismo eno Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Mestre em Comunicação Social. Doutora em Letras.
  • 40. acumulação, a adição das distintas temporalidades configura a modernidade do " A lugar. Este ideal de acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de ler o tempo no espaço: o tempo passado que não apaga de todo o tempo presente,Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... e o tempo futuro que já se perfila. A afirmação de Marc Augé (2006, p. 101), no texto intitulado Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã, será o eixo da reflexão proposta neste texto. Entende-se que o atual momento histórico, assim como um palimpsesto,2 é a evidência de uma história midiática que começou há muito tempo, influenciada pelas adaptações da cultura, gerando uma outra relação com o tempo e o espaço e com a própria memória, influenciando diretamente a complexa identidade dos sujeitos. O fio condutor desta reflexão é o pensamento de Augé em diálogo com outros autores. Inserem-se, nesse contexto, alguns fatos históricos da mídia, como evidência da construção que chega hoje a uma sociedade marcada pela individua- lização e que produz, por intermédio dessa mesma mídia, conteúdos perso- nalizados. Trabalha-se com a hipótese de que, ao percorrer alguns momentos significativos da história da consolidação das mídias, pode-se localizar evidências sobre a exacerbada individualização em que chega hoje a sociedade. Não se pode, no entanto, afastar a hipótese de que as mídias vêm se constituindo em resposta às exigências dos diferentes horizontes históricos, deixando suas marcas na cultura e na memória. Augé (2006, p. 100) constata a existência de dois paradoxos, quando são abordados temas como globalização, uniformização e até homogeneização. Essa planetalização, segundo ele, convive com reivindicações de singularidade, de identidade local com formas e escalas muito diferentes umas das outras. “[...] no conjunto, cada um pode constatar felizmente que o mundo não está definitivamente sob o signo da uniformidade e, ao mesmo tempo, inquietar-se diante das desordens e das violências geradas pela loucura identitária.” De acordo com a observação antropológica, ressalta Augé (2006), que está sempre contextualizada, hoje em dia, inclusive nos grupos mais isolados, o contexto sempre é planetário. 2 Palimpsesto tem origem no grego e denomina o pergaminho raspado e reutilizado, mas que mantém as marcas da escritura anterior. Trata-se de prática muito antiga, mas freqüente no século VII pelas dificuldades do comércio de papiro egípcio e depois pela escassez de pergaminho.
  • 41. Esse contexto planetário é muito bem descrito por Lévy (2001) ainda no início do "!século XXI. Os planetários dirigem os mesmos carros, pegam os mesmos aviões,desembarcam nos mesmos hotéis, têm as mesmas casas, os mesmos telefones, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007televisores, computadores ou cartões de crédito. Nos informamos na câmara de eco das mídias globalizadas. Nós navegamos na Internet. Nós temos o nosso site. Nós participamos da silenciosa explosão do hipercórtex infinita- mente reticulado da World Wide Web. Nós escutamos música de todos os cantos do mun- do [...]. Nós afluímos, turistas misturados, em museus cujas coleções cruzam as culturas. [...] Nada do que é humano nos é estrangeiro. (p. 15).O autor afirma que a população atual começa a construir a sociedade civil mundial.E quem são essas pessoas? Lévy (2001) afirma que são artistas, escritores,cineastas, músicos, professores, funcionários internacionais, jogadores de futebol,alpinistas, navegadores solitários, comerciantes, comissários de bordo,consultores, investidores de capitais, militantes em associações internacionais.Cotidianamente, seja qual for a finalidade, devem olhar, comunicar e talvez agiralém das fronteiras. Somos a primeira geração de pessoas que existe numa escala global. Homens ou mulheres, políticos, drogados, modelos, executivos, prostituídos, terroristas, vítimas de catástrofes transmitidas pela TV, cozinheiros, consumidores, telespectadores, internautas, imigrantes, turistas: somos a primeira geração global. (p. 16-17).O autor completa que nunca uma geração viajou tanto, seja por trabalho ouprazer. O turismo se torna a maior indústria mundial. A imigração ocorre em largaescala sejam pobres atraídos pelo trabalho ou ricos em busca de melhorescondições fiscais. A população planetária é móvel, não nômade, pois os nômadesnão tinham nem terras nem cidades. Móveis, passando de uma cidade a outra,de um bairro a outro da megalópole mundial. As pessoas vivem nas cidades oumetrópoles que se relacionam umas com as outras ou no campo, em casas quesão como navios em pleno mar, conectados com todas as redes.Os planetários reúnem budistas americanos, programadores indianos, ecologistasárabes, pianistas japoneses, médicos sem fronteiras. Graças à internet, dão aconhecer, em escala planetária, o que têm a oferecer. Nossa geração está inventando o mundo, o primeiro mundo verdadeiramentemundial. [...] Não somos infiéis, somos móveis. Nossa identidade é cada vez maisproblemática. [...] Tudo deve cada vez mais ser inventado. (LÉVY, 2001, p. 17).
  • 42. Esse contexto, defende Augé (2006), está presente na consciência de todos, "" interfere desigualmente, mas em todos os lugares, de maneira sensível nas configurações locais, modificando as condições de observação. Há, segundoCunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... ele, três movimentos complementares: o passar da modernidade, o que chama “sobremodernidade”, o passar dos lugares, chamados por ele de “não-lugares”, e o passar do real ao virtual. Sem ser distintos uns dos outros, privilegiam pontos de vista diferentes, de acordo com o pensamento. O primeiro dá ênfase ao tempo, o segundo, ao espaço, e o terceiro, à imagem. Augé (2006, p. 101) cita Jean Starobinski para quem essa acumulação, a adição das distintas temporalidades, configura a modernidade do lugar, conforme a citação que abre este artigo, aqui repetida. “Este ideal de acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de ler o tempo no espaço: o tempo passado que não apaga do todo o tempo presente, e o tempo futuro que já se perfila.” As eras culturais Para dialogar com esse ideal, traz-se aqui o pensamento de Santaella (2003) que utiliza uma divisão das eras culturais em seis tipos de formação: cultura oral, cultura escrita, cultura impressa, cultura de massas, cultura das mídias e cultura digital. Salienta que tais divisões são pautadas na crença de que os meios, desde o aparelho fonador até as redes digitais atuais, mesmo sendo meros canais de transmissão de informação, são capazes não só de moldar o pensamento, “mas também de propiciar o surgimento de novos ambientes sociais”. (p. 13). É possível evidenciar a cultura em situação de diálogo com os diferentes períodos históricos de surgimento e desenvolvimento das mídias. A autora destaca outro aspecto importante no que diz respeito a essa divisão de eras culturais. Não são períodos culturais lineares, com o desaparecimento de uma era para surgimento de outra. Há sempre um processo cumulativo de complexificação, “uma nova formação comunicativa e cultural vai se integrando na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações”. (SANTAELLA, 2003, p. 13). Afinal, de acordo com esse pensamento, a cultura comporta-se sempre como um organismo vivo, inteligente, com poderes de adaptação impre- visíveis e surpreendentes.
  • 43. Com o “agigantamento” dos meios de comunicação de massa, no século XX, "#foram crescendo as dificuldades para se estabelecer distinções claras entre opopular, o erudito e o massivo. Até o fim do século XIX, não era tão complicado Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007quanto hoje determinar as formas, os códigos e os gêneros da cultura. A partirda Revolução Industrial, esse cenário se complicou com o aparecimento de meiostécnicos de produção cultural. Entretanto, entende a autora, não obstante o poderde que se revestem, contra todos os prognósticos, os meios de massa nãolevaram as formas mais tradicionais de cultura, a cultura superior, erudita, e asculturas populares ao desaparecimento. Provocaram recomposições nos papéis,cenários sociais e até mesmo no modo de produção dessas formas de cultura,assim como “borraram” suas fronteiras, mas não apagaram sua existência.Entende-se, no presente artigo, que nessa recomposição de papéis e diluição defronteiras, confirma-se a idéia de um palimpsesto, onde se enxergam as marcasmais antigas “borradas” na base das novas. Falar em permanência ou desapa-recimento de mídias é desconsiderar, muitas vezes, o que realmente se mantém:a demanda social por comunicar. O que se evidencia ao investigar a História éuma reinvenção permanente dos meios usados para comunicar. Confirmando aidéia de um palimpsesto, a sociedade se comunica hoje em formatos desenvolvi-dos por ela mesma, numa construção baseada em perguntas e respostas queresultaram no aperfeiçoamento dos meios.A explicação, entende Santaella (2003), está no fato de que a cultura humanaexiste num continuum, ela é cumulativa, não no sentido linear, mas de interaçãoincessante de tradição e mudança, persistência e transformação. O entendimentode que uma novidade não termina com a outra, mas gera transformações, confirmao objetivo deste texto, de investigar os meios e as camadas culturais nas quaisestão inseridos, considerando a possibilidade de ler cada um deles por intermédiodas marcas históricas. Os meios e suas adaptações ou reinvenções influenciame são influenciados pela cultura e transformam-se a partir dos suportes tecno-lógicos moldados pela própria cultura, mantendo as diversas linguagens em suabase de existência. A tecnologia que dá suporte à produção cinematográfica,exemplifica Santaella (2003), pode mudar, mas não muda a linguagem que foiinventada pelo cinema.Considerando esse tempo lido no espaço, Augé (2006) traz o pensamento deBenjamin que vê, na arquitetura das passagens parisienses, um prefiguração dacidade do século XX. Por acúmulo, essa imagem do espaço corresponde a umaprogressão, a uma imagem do tempo como progresso. O autor cita ainda o pen-
  • 44. samento de Max Weber que, para evocar a modernidade, fala sobre o desencanto "$ do mundo, apresentando três características: a primeira é o desaparecimento dos mitos de origem, dos mitos de fundação, de todos os sistemas de crençaCunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... que procuram o sentido do presente da sociedade em seu passado. Há também o desaparecimento de todas as representações e crenças que, vinculadas a essa presença do passado, submetiam a existência e, inclusive, a definição do indivíduo de seu meio. O homem do Século das Luzes é o indivíduo dono de si mesmo, de quem a razão corta os laços supersticiosos com os deuses, com a Terra, com sua família, que afronta o porvir e se nega a interpretar o presente baseado em magia ou bruxaria. Sobremodernidade Augé (2006) propõe a utilização do conceito de sobremodernidade, para pensar a coexistência das correntes de uniformização e dos particularismos. O autor afirma que se trata de uma lógica do excesso, mensurada a partir de três excessos, segundo sua proposta: o excesso de informação, o excesso de imagens e o excesso de individualismo. O excesso de informação dá a idéia de que a História se acelera. Cada dia tem-se a informação do que acontece nos quatro cantos do mundo. Naturalmente esta informação sempre é parcial e talvez tendenciosa: mas junto com a evidência de que um acontecimento longínquo pode nos trazer conseqüências, reforça- nos cada dia o sentimento de estarmos dentro da história, ou, mais exatamente, de tê-la por perto, para voltarmos a ser alcançados por ela durante o noticiário das oito ou duran- te as notícias da manhã. (AUGÉ, 2006, p. 104). Essa superabundância, segundo Auge (2006, p. 104), é proporcional à capa- cidade de esquecimento, uma vez que um acontecimento, que chama a atenção durante alguns dias, desaparece repentinamente das telas, logo, das memórias. Isso até o dia em que ressurge repentinamente. “Um certo número de aconteci- mentos tem, assim, uma existência eclíptica, esquecidos, familiares e surpreen- dentes ao mesmo tempo.” Augé (2006) cita aqui exemplos como a Guerra do Golfo, a crise irlandesa, os atentados no País Basco ou as matanças na Argélia e reflete que o aparecimento do ciberespaço marca a prioridade do tempo sobre o espaço, desenhando a idade do imediatismo e do instantâneo, onde a comunicação se produz na velocidade da luz, resultando em um domínio do tempo que reduz o espaço.
  • 45. Tempo, espaço e memória "%Mitchell (2006) investiga o fato de a sociedade estar entrando em uma era na qual a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007vida se desenrola cada vez mais no ponto de intersecção do mundo físico e real como da virtualidade e das interconexões eletrônicas. Reflete sobre a importância doslugares e das relações que interferem na memória. Suas obras mais recentes abordamtemas referentes à reconfiguração dos lugares de moradia e das relações sociais.Lugares e memórias, conforme Casalegno, em texto de apresentação de entrevistacom Mitchell, sempre representaram dois paradigmas fundamentais na configuraçãodas comunidades, na evolução das culturas e das relações entre as pessoas.O autor fala de uma memória baseada em algo transmitido pelo contato face aface e que se torna uma memória de grupo e que realmente mantém a comunidadee a cultura juntas. É nesse ponto que a arquitetura começa a se transformar norepositório da memória, e fisicamente, todos os prédios importantes, prédiosreligiosos estão inscritos. Mitchell (2006) afirma que, no século XX, o rádio e atelevisão entram nesse contexto e atualmente a rede começa a se tornar crucial.Nenhum dos meios desaparece, mas novos entram. Se você olha para isto em termos tecnológicos, isso tem sido dependente do desenvolvi- mento das comunicações remotas, tem dependido das telecomunicações e das tecnolo- gias de gravação. O que teve início nos anos 60 e, novamente, isto não é tão revolucio- nário, o que as mensagens eletrônicas realmente são: a combinação de tecnologias de telecomunicação e tecnologias de gravação do controle de computador sofisticado. Então essas tecnologias não estavam realmente juntas até os anos 60 quando houve uma mu- dança explosiva. (p. 58).A preservação da memória e as estratégias para essa conservação também sãodestacadas por Mitchell que apresenta o exemplo das gravações e as mudançastecnológicas em conseqüência disso. Segundo ele, originalmente, a memóriahumana era a única mídia, e essa é a tradição oral, transmissão direta de umamemória humana para outra. O desenvolvimento da escrita e as tecnologias deimpressão e gravação cumpriram esse papel, agora desempenhado em largaescala pela gravação digital eletrônica. A diferença fundamental em gravar mídiaeletrônica, na opinião do autor, é que não há necessidade de transferir fisicamenteos artefatos da memória. Está junto com as telecomunicações “nessa espantosa”maneira que induz esse tipo de condição de memória portátil.Virilio (2006) também reflete sobre o assunto, trazendo a memória “vivida”, memóriado que ocorre no momento, como um elemento novo oferecido pelas tecnologias
  • 46. de comunicação. Isso, segundo ele, traz um paradoxo, pois a televisão ou a internet "& e outras tecnologias promovem a idéia de uma memória do instante presente. “É como se houvesse um efeito de lupa não sobre um objeto, mas sobre um instanteCunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... no tempo: um efeito de dilatação.” (p. 93). Nessa perspectiva, o autor entende que as tecnologias funcionam para a memória como um telescópio. Virilio acredita que a internet e as tecnologias de informação permitirão ver o que se passa no mais curto espaço de tempo, o que se passa na comunicação. Nesse ponto de sua reflexão, o autor define que essa é uma memória que diz respeito à comunidade, pois não há memória por si. Memória, conforme o seu pensamento, é uma linguagem, um utensílio de comunicação. Não há memória que não seja coletiva. Solidão, individualização e personalização Augé (2006) afirma que o terceiro termo que define a sobremodernidade consiste na individualização passiva, diferente do individualismo conquistador do ideal moderno. Trata-se de uma individualização de consumidores, cujo aparecimento está relacionado com o desenvolvimento dos meios de comunicação. Conforme o pensamento do autor, a relação com os meios de comunicação pode gerar uma forma de passividade, na medida em que expõe cotidianamente os indivíduos ao espetáculo de uma atualidade efêmera, uma forma de solidão na medida em que os convida à “navegação solitária” e na qual toda telecomunicação abstrai a relação com o outro, substituindo com o som ou a imagem o corpo a corpo. Augé (2006) entende isso como uma forma de ilusão, na medida em que deixa a critério de cada um a elaboração de pontos de vista, opiniões em geral bastante induzidas, mas percebidas como pessoais. O autor salienta que não descreve uma fatalidade, mas um conjunto de riscos, de tendências. Reflete, também, sobre a individualização dos destinos ou dos itinerários e sobre a ilusão da livre-escolha individual, o que, segundo ele, se desenvolve a partir do momento em que se debilitam as cosmologias, as ideologias e as obrigações intelectuais com as quais estão vinculadas. Augé (2006, p. 107) cita que “o mercado ideológico se equipara a um self-service, no qual cada indivíduo pode prover-se com peças soltas para ensamblar sua própria cosmologia e ter a sensação de pensar por si próprio”. Passividade, solidão e individualização se encontram em várias dimensões, inclusive religiosas, segundo Augé (2006). O pensamento de Lipovetsky (2004) que, de sua parte, adota o conceito de “hipermodernidade”, torna-se pertinente nesta reflexão. O autor descreve a
  • 47. hipermodernidade baseada numa sociedade hiperindividualista, onde se investe "emocionalmente naquilo que é mais próximo, nos vínculos fundados sobre asemelhança e a origem em comum. De acordo com esse pensamento, na atual Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007sociedade nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfaçãoimediata das necessidades, enaltecendo o “florescimento” pessoal. Na comunica-ção, essas características apontam para uma tendência à produção individualizadaou personalizada de informação, seja no âmbito da publicidade, seja no do jornalismoou mesmo dentro da lógica em que todos produzem para todos.Alguns conceitos, porém, devem ser relacionados para reflexão em torno dessemomento individualista e a conseqüente produção de conteúdos: o conceito e aorigem da personalização ou individualização, a história das mídias e sua presençaneste contexto, tornando-se evidências do processo, na medida em que os hábitosde leitura dessa audiência ou a cultura construída interfere diretamente.Nesse ponto, faz-se importante buscar aspectos da História que evidenciam aconstrução do processo, especialmente no relacionamento das audiências comas mídias. Todavia, torna-se relevante na mesma medida refletir sobre o tipo deisolamento que hoje muitos autores propõe como resultado das relações com osmeios de comunicação social.O que registra a História?Cinco séculos depois do nascimento da imprensa, o rádio tenta fazer com a voz,essa forma tão primitiva de comunicação, o que antes só podia ser feito com aimpressão: armazená-la, repeti-la e transmiti-la a grandes distâncias. Os trêsinventos que transformam o uso da voz humana, o telefone, o rádio e o gravador,são, em um primeiro momento, concebidos como melhorias no sistema telegráfico.A informação de Pool (1992) aponta para o âmbito social do rádio, pois, se ofonógrafo, o telefone e o rádio são, em princípio, concebidos como um aperfeiçoa-mento da telegrafia, o telefone e o rádio são meios irmãos. O que surge como emissão de rádio é um meio de massas irreversível, que dá a alguns poucos produtores das capitais um modo de dirigir-se a toda a nação. É um instrumento que se escuta sozinho ou com a família. É o companheiro das horas solitárias, as drogas dos que não tinham amigos. (POOL, 1992, p. 84).A radiodifusão substitui o bar da esquina, a reunião na igreja, a banda local ou oconcerto. No início do século XX, os sociólogos descrevem uma civilização ur-
  • 48. bana em expansão. As grandes cidades, as fábricas, a mobilidade geográfica, a # burocracia e os meios de comunicação criam, segundo eles, uma sociedade marcada pela ausência de personalidade e produtos pouco diferenciados, e oCunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... rádio se inclui nessa descrição. O telefone é diferente, sendo um invento contra a fácil generalização. Tanto o telefone quanto o rádio têm profundos, ainda que diferentes, efeitos sobre a ecologia da atividade humana. Os processos de mudança urbana, por exemplo, que começam no início do século, florescem nos anos 20, com o início da radio- emissão. A coincidência das transmissões e da rápida urbanização é uma questão fortuita, mas significa que o rádio se converte em um meio de entretenimento para a primeira geração de habitantes classificados como imigrantes lançados ao anonimato de novas cidades. Não conhecem seus vizinhos imediatos e nem pertencem a qualquer grupo organizado com sua própria tradição cultural. Para essas pessoas, o rádio deve proporcionar muito do que seus pais e avós lhes haviam dado nas festas ou férias no interior, em reuniões religiosas semanais. O rádio, segundo Pool (1992), é um excelente substituto da vivência comunitária. As radionovelas ou shows de variedades, ainda que ruins, são melhores do que as apresentações no teatro do bairro realizado por grupos itinerantes. As cadeias de rádio oferecem a possibilidade nacional de poder escolher. Melhor ou pior, o rádio é diferente, por estar em casa. É ideal para a granja isolada ou para o igualmente isolado ambiente urbano, onde os vizinhos são estranhos. É uma atividade indi- vidual ou familiar e não compartilhada com a comunidade ou a igreja. Por volta de 1930, revela Roberts (2001), a maioria das pessoas que possuem receptores sem fio (e são milhões) deixa de acreditar que é preciso manter as janelas abertas para permitir que as ondas de transmissão as alcançassem. A sociedade convive com a tecnologia, e ela não causa mais estranhamento. O rádio não contradiz, mas é assimilado, dentro de um contexto interessado em conviver com o conforto. Transmissões de rádio em larga escala já acontecem em todos os principais países. Observando esse período da História, verifica-se que a possibilidade de registro torna-se eletrônica, confirmando o pensamento de Mitchell que salienta a idéia de acumulação de possibilidades para chegar ao formato atual. Registra-se, também, uma mudança nos hábitos de consumo dos meios que começam a se desenhar como individuais. Traz-se aqui o rádio por ser o primeiro meio eletrônico de massa. Todavia, o rádio só vai transformar em eletrônica uma tendência já
  • 49. existente com a leitura e ele mesmo, com a consolidação da televisão, vai se #tornar ainda mais individual. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Nos anos 60, o rádio da família é destronado pela televisão. A transmissão deimagens por ondas é conhecida desde os anos 30, mas a curta distância e emcaráter experimental. O transistor na televisão também permite a redução do peso,do volume e do preço. O ingresso do rádio e da televisão no universo domésticoconstitui mutação social de primeira importância, segundo Prost (1992). O espe-táculo familiar da tevê é complementado pela escuta individual do rádio. Juntos,esses dois momentos de comunicação podem ocupar grande parte do tempo davida privada. A informação passa a ser dominada pelo rádio e pela tevê. A imprensajá não impera e ocupa as lacunas dos meios audiovisuais, com informações maisaprofundadas, especializadas ou locais. As ondas prevalecem sobre a imprensa,porque são mais rápidas e podem chegar a todos os lugares e pessoas.O consumo individualizado também é descrito por Chartier (1998, p. 13) quandoaborda a história do livro e dos próprios jornais. Se o texto era lido por alguémalfabetizado, para muitos analfabetos, em uma fase inicial da propagação da escrita,ele passou, depois de um certo período para um consumo individualizado nasbibliotecas, em voz baixa ou somente pelo correr dos olhos. Nos séculos XVII e XVIII,um jornal não tem uma estrutura diferente daquela do livro. Quando adquire umgrande formato e uma distribuição ampla, ocorre uma atitude mais livre, ele écarregado, dobrado, rasgado, lido por muitos, mas individualmente. O leitor da tela,descreve Chartier, de certa forma, assemelha-se ao leitor da Antiguidade. O textoque ele lê corre diante de seus olhos. “Ele é simultaneamente esses dois leitores.”A solidão referida por Augé e por tantos outros autores merece reflexão. Trata-sede uma navegação solitária, mas em rede. Nunca tantas comunidades seconstituíram por intermédio da possibilidade proporcionada pela tecnologia digi-tal. Em tudo isso há uma conjunção de fatores, como citado por Castells (2003).Três processos se uniram, inaugurando uma nova estrutura social predominante-mente baseada em redes: as exigências da economia por flexibilidade adminis-trativa e por globalização do capital, da produção e do comércio; as demandasda sociedade, em que os valores da liberdade individual e da comunicação abertatornaram-se supremos; e os avanços extraordinários na computação e nastelecomunicações possibilitados pela revolução microeletrônica.Na comunicação social, o conceito de individualização ou personalização deconteúdos, ainda não descrito claramente, começa a ser desenhado em um
  • 50. horizonte que viveu durante muitos anos baseado na segmentação de informações, # relacionada aos meios convencionais, com finalidades especialmente comerciais. As tecnologias digitais oferecem a possibilidade de personalizar, chegando ao extre-Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... mo da individualização. Os meios, acostumados a falar para as grandes massas, a informar as grandes audiências, a exemplo do que foi descrito sobre o rádio e a televisão, encaram um paradoxo: a demanda por uma informação individual. Personalização em comunicação entende-se como a possibilidade de o público interagir sobre a forma e o conteúdo do jornal, para consumir unicamente o que quer e como quer, dentro dos limites da própria tecnologia. Incluem-se aí as notícias, o recebimento de um jornal a la carte, o recebimento de newsletters ou mensagens com fins publicitários. Mas outras questões começam a ter destaque em relação ao comportamento dos meios habituados a uma produção massiva, especialmente quanto à impressão em larga escala ou mesmo a radiodifusão. A energização das redes provocada pela internet leva a recepção, até então tratada apenas como tal, a se apropriar de possibilidades tecnológicas narrativas, gerando iniciativas hoje evidenciadas especialmente pelos blogs e comunidades virtuais. Isso resulta em uma personalização de conteúdos e coincide ou responde a uma tendência de individualização exacerbada, que não começou agora, mas vem sendo lapidada no coração da história do desenvolvimento das mídias. Registrar, preservar a memória, comunicar, ocupar o espaço da cidadania global, ler o tempo no espaço, todos esses são fatores que coexistem no atual contexto. Pode-se afirmar que tanto para as tecnologias de comunicação, como para a identidade dos sujeitos, nunca um horizonte histórico reuniu, em continuum, tantas marcas de tantos períodos. A memória do passado é também vivida e observada. O território em que vive a humanidade atualmente é como descreve Augé (2006): Um universo de reconhecimento, onde cada um conhece o seu lugar e o dos outros, um conjunto de pontos de referências espaciais, sociais e históricos: todos os que se reco- nhecem neles têm algo em comum, compartilham algo, independente da desigualdade de suas respectivas situações. (p. 108). A reflexão aqui realizada não pode, considerando o contexto e a própria reinvenção permanente da cultura, propor conclusões. Não é novo dizer que cada vez mais surgem perguntas e não respostas. Os questionamentos de Lucien Sfez (2006) soam adequados para um fechamento baseado em perguntas e dúvidas a respeito das tendências.
  • 51. Que imaginação deveríamos evocar para conseguir pensar o mundo no qual não #!seríamos mais uma variedade de sujeitos pensantes individuados, tampouco umúnico sujeito fusionado, agindo e pensando por concerto (como no caso da Biosfera Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007II), mas uma parte de um número ilimitado de cópias sobre as quais teríamosdificuldade de reconhecer o original? Será que, nesse caso, ainda seríamos su-jeitos? Ou seria preciso encontrar palavras e outras definições para uma identidadeque apenas dificilmente poderia ser identificada enquanto uma única e mesma?Para essas unidades errantes, será que se poderia falar ainda de um sujeitosocial? Ou, então, as mediações tecnológicas conseguiriam criar um novo sujeitoplanetário, fazendo da reprodução tecnológica a própria essência de sua iden-tidade? (p. 80).Investigar as relações com os meios é sim estudar um palimpsesto, é ler otempo no espaço. A reinvenção é permanente numa sociedade que busca construirformatos apropriados. Nessa trajetória, muitos deles soam como individualistasou têm uso individualizado. Mas aqui prefere-se entender como personalizado,considerando cada parte da audiência ou cada leitor como único, integrado emum processo de produção de um para um, mas também de todos para todos. Apercepção de um tempo que se acelera e insere muitos em um mesmo circuitopode também ser a soma dos vários tempos individuais, do tempo de cada um,em uma lógica que privilegia o formato de rede.ReferênciasAUGÉ, Marc. Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial doamanhã. In: MORAES, Denis. Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.CASALEGNO, Federico. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias.In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era dasredes. Porto Alegre: Sulina, 2006.CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e asociedade. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 2003.CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Ed. da Unesp,1998.LÉVY, Pierre. Conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo:Ed. 34, 2001.LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.MITCHELL, William. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias.
  • 52. In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das #" redes. Porto Alegre: Sulina, 2006. POOL, Ithiel de Sola. Discursos e sonidos de largo alcance. In: WILLIAMS, RaymondCunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... (Org.). Historia de la comunicación: de la imprenta a nuestros dias. Barcelona: Bosch, 1992. PROST, Antoine; VINCENT, Gérard. História da vida privada: da Primeira Guerra a nossos dias. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo : da Pré-História à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. SFEZ, Lucien. As biotecnologias e a construção social de um corpo perfeito. In: ESCOSTEGUY, Ana Carolina D. (Org.). Comunicação, cultura e mediações tecnológicas. Porto Alegre: Edipucrs, 2006. VIRILIO, Paul. Diálogo com Paul Virilio: o paradoxo da memória do presente na era cibernética. In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das redes. Porto Alegre: Sulina, 2006.
  • 53. ##Do FORT-DA da arte ao corpo-obra.[É possível uma estética da clínica? Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Haverá um corpo-obra?] Marcio Pizarro Noronha1 RESUMOO artigo traça o parentesco entre arte e clínica com uma questão central acerca da estéticada clínica (psicanálise, estética psicanalítica). O artigo apresenta um ponto de vista teóricoacerca do FORT-DA (Freud) e seus desenvolvimentos na história e teoria da arte e avança nadiscussão conceptual acerca dos termos corpo, arte, clínica. A idéia do FORT-DA retorna àsquestões do corpo-arte (arte do corpo), do aparecer/desaparecer, do jogo. Em seguida, propõeuma interpretação da pintura de Francis Bacon.Palavra-chave: Estética. Arte. Corpo. FORT-DA. Francis Bacon. ABSTRACTThis article traces a relationship between art and clinic with a central question about Theclinic’ aesthetics (psychoanalysis, psychoanalytical aesthetics). The article presents a theoreticpoint of view about Freud´s FORT-DA and its developments in art, History and theory andadvances in the conceptual quarrel regarding the terms body, art, clinical. The idea of FORT-DA retakes the questions of the body-art, appear/disappear, game. Afterwards proposes ainterpretation about Bacon’s painting.Key words Aesthetics. Art. Body. Fort-da. Francis Bacon. words:1 Dr. em Antropologia pela USP. Dr. em História pela PUCRS. Prof. e Pesquisador nos PPG em Música (EMAC)e História FCHF/UFG. Coordenador do Grupo Pesquisa Diretório CNPq – Interartes: PROCESSOS E SISTEMASINTERARTÍSTICOS E ESTUDOS DE PERFORMANCE. Pesquisador na Funape/UFG. Professor convidado para oano de 2008 da Universidade Nacional de SALTA na Argentina. Professor das disciplinas de Análise daCriação Contemporânea (Mestre em Música), História e Teoria Interartes: do romantismo ao pós-modernismo(Mestre e Doutor em História) e no Seminário de Pesquisa: Arte e Psicanálise. Coordenador do GT Intertexto,Interartes e Hibridismo (Abralic, 2007). Coordenador do GT Estudos Interartísticos e Interculturais Musicais:história plural e comparada das artes (Anppom, 2007). Coordenador do S.T. CLIO E AS MUSAS (III ENCONTROINTERNACIONAL DE HISTÓRIA ANPUH-GOIÁS). Membro de diversas associações científicas e grupos de traba-lho e pesquisa no campo das ciências humanas, artes e terapêuticas de viés psicanalítico. E-mail:marcpiza@terra.com.br
  • 54. I Introduzindo questões #$ É possível uma estética da clínica? Haverá um corpo-obra? Duas questões deNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... vasta extensão e que servirão como guias na construção deste texto, que se volta especialmente para um tipo especial de clínica que, em sua própria denominação, inclui a tarefa da arte, em seu ofício – da arteterapia, da gestalt- terapia, da musicoterapia. Pensar seu lugar, o que seja essa clínica que tem fundamentos em uma estética e em relações com objetos, ferramentas e instrumentos capazes de passar de estados subjetivos particulares a estados subjetivos compartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente ditas. Nesses termos, operamos com uma forma de relação clínica que pretende integrar subjetividade e estética – viver a subjetivação em sua potência de estetização parece ser um conteúdo latente dessas clínicas que se deslocam em direções múltiplas. O foco encontra-se, num ponto de vista especial, do objeto-problema CORPO e os modos como esse é tratado, nas vias psicanalítica e artística, afetando a construção do objeto do estudo clínico e das práticas terapêuticas que incluem formas, manifestações e relações estéticas. A psicanálise aqui será observada sob a égide de um olhar oblíquo – de atravessamento – sendo atingida a partir do corpo e do corpo-obra. O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular importância da experiência clínica e suas afinidades com a experiência e as formas do pensamento-fazer artístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica não só desenvolve uma particular epistemologia dos objetos psíquicos como também se deixa atravessar por formas transicionais ou por movimentos do informe que fazem nascer a obra de arte do sujeito na clínica e seu corpo glorioso. Como amálgama de flutuações e materializações, a clínica deve arregimentar esse princípio de funcionamento radical, no qual a inclusão da arte não deve estar restrita às formas do discurso comentado de obras e filmes por conta dos pacientes. Obrar a subjetividade como enfrentamento dos grandes lugares da clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978). As duas perguntas do título “É possível uma estética da clínica? e Haverá um corpo-obra?” levam em conta, por um lado, a existência de um grupo de clínicas que se fazem valer da presença de relações e de objetos artísticos na instauração- construção do campo clínico e de suas demandas específicas e, por outro, a questão do corpo na arte e do corpo-obra-de-arte. Esse não será representado somente pela presença do artista (o corpo do artista vivo, presente/ausente, metaforizado), mas estará centrado na existência de um jogo relacional entre
  • 55. obra e corpo, entre feitura (obrar) e matéria (corpo), modo particular de fazer #%acontecer uma cena e aparecer um objeto, meio e modo de fazer trânsitos entreo mundo dos objetos (e das relações de objeto), de presentificar os restos (e as Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007relações de abjeção) e de resistir à morte, nas formas fantasmáticas, da aura.Desse modo, nossas perguntas podem ser investigadas por dois vastos tópicos:o primeiro diz respeito ao tema da arte e clínica (e vice-versa). O segundo trata docorpo e do corpo-obra. Entre eles, um encontro marcado na proposta de umateoria do corpo-obra no campo clínico e o modo como esse processo de construçãopode ser também um modo de dar forma e de sustentar a relação terapêutica,entendendo que o sujeito se estrutura esteticamente – estética do desejo eético-estética, relações entre arte e clínica.II Clínica e arte, arte e clínicaII. 1. As relações entre arte e clínica podem ser traçadas de modos muito diferen-tes. Por conta de uma historiografia do problema, podemos elencar o quanto aPsicologia e a Psicanálise dedicaram-se ao problema da arte, das relações entrearte e campo psíquico, dos contatos e confrontos entre uma psicologia dagestalt, uma psicanálise da arte – desde suas origens, em Freud, bastante limitadapelo próprio autor, ao entendimento de fundo lacaniano da obra-de-arte enquantolugar do analista, diante da qual somos todos analisandos. (Lacan/Magno).2Não apenas Freud e sua dobra lacaniana fazem da arte alvo e centro de suaspreocupações e atuações teóricas e clínicas. Essas relações podem estar dirigidasa um modelo de estudos voltado para a clínica psicanalítica e para os trânsitosentre a biografia do artista e a terapêutica. Ampliam-se para o domínio do sonhoe do sonho acordado, traçando o campo de vizinhança entre a arte e a teoria dafantasia (fantasma).Gombrich, um dos mais importantes historiadores e teóricos da arte, traça as relaçõesentre arte e chiste, demonstrando, através do chiste, que a arte é um jogo quedepende da própria estrutura da linguagem no qual se joga, ou seja, tal como numchiste é preciso um entendimento prévio da estrutura e do contexto da “piada” para2 Refiro-me aqui aos seguintes textos: LACAN, Jacques. O seminário: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro:J. Zahar Editor, 1991; MAGNO, M.D. Psicanálise & Política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986.
  • 56. que se possa rir ou para que se possa apreender o sentido no vasto campo lacunar #& instalado pelo chiste. Assim, nos termos desta teoria da arte, que vincula a História à Psicanálise, há um inconsciente da obra que deve ser investigado.3Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... Embora possa parecer uma comparação extravagante, a arte tem muito em comum com os chistes. Nos anos em que as abordagens psicanalíticas tendiam a focalizar redutoramente os detalhes biográficos, Gombrich sugeriu, certa vez, que o melhor lugar na obra de Freud a partir do qual dever-se-ia começar a pensar sobre arte era o seu livro sobre o chiste. Para Freud, um chiste apoiava-se na complicada mistura de uma mensagem ou “tendência” (hostil, sexual, etc.) e as estruturas formais da linguagem, os mecanismos lingüísticos que dariam ao chiste sua forma. Um trocadilho ou chiste de duplo sentido apóia-se, por exem- plo, no que uma linguagem tem a oferecer em termos de semelhanças entre palavras. Esses recursos da linguagem podem ser explorados ou destacados pela pessoa que conta o chiste, mas não são inventados como tal. De modo análogo, uma obra de arte poderia ter uma “mensagem” ou “conteúdo” talvez ligado à biografia do artista, mas, crucialmente, isso seria moldado, configurado e estruturado pela sintaxe formal da linguagem contempo- rânea da arte. Em lugar de ver a forma artística como sendo meramente o vínculo do pensamento inconsciente do artista, Gombrich argumentou que a teoria freudiana dos chis- tes mostrou como, em suas palavras, “é freqüentemente o invólucro que determina o con- teúdo... O código gera a mensagem. (LEADER, 2005, p. 70-71). Psicanalistas como Jones (teoria do simbolismo), Segal e Winnicott (enfatizando o teórico dos objetos transicionais e os estudos do jogo), dentre outros, também produziram importantes contribuições ao campo da reflexão artística e nas relações entre arte e psiquismo. Michel de M’Uzan (1978) designa que o personagem interior e suas metamorfoses assemelham-se à plasticidade do lugar do analista. Desse modo, podemos reunir algumas dessas posições da Psicanálise e da arte nos seguintes conjuntos: • a arte como dimensão do inconsciente do artista; • a arte como dimensão do inconsciente moldado, configurado e estruturado pela sintaxe formal da linguagem; e • a arte (e a obra) como lugar do analista. Contemporaneamente, essa problemática expande-se para os domínios das relações entre arte, estética e poética para e no campo das clínicas e suas teorizações – as metarreflexões nascidas na/da clínica – na contemporaneidade. 3 Refiro-me especialmente ao ensaio: GOMBRICH, E. H. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic theories of Sigmund Freud. In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited, 1996. p. 189-210.
  • 57. Essas inflexões acabam por confluir num conjunto vocabular que nos permite #pensar na estética e na ética do desejo (Lacan), na ético-estética (Deleuze eGuattari) e na poética na clínica contemporânea (Safra). Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Hoje, temos uma tarefa ainda mais ampla, a de reconhecer possíveis matrizesna Psicanálise para uma clínica que tem também em seus fundamentos umaestética e um conjunto de relações com objetos, ferramentas e instrumentoscapazes de passar de estados subjetivos particulares a estados subjetivoscompartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente ditas. Vivera subjetivação em sua potência de estetização parece ser um conteúdo latentedessas clínicas contemporâneas que se deslocam em direções múltiplas.Para pensar tal empreendimento, vou privilegiar os textos de Freud (1987), Lacan,Regnault (2001), Magno, França (1997) e M’Uzan (1978). No âmbito da reflexãoartística, concentrando essa interface numa escolha contemporânea da teoria da arteem torno do enunciado do FORT-DA (Freud),4 vou atravessar do campo clínico para ocampo da teoria da arte e reconhecer a matéria na qual se tece o FORT-DA da arte.II. 2. François Regnault (2001), num conjunto de quatro conferências proferidasem Madrid, entre os anos de 1992 e 1993, nos lembra que o método da Psica-nálise é justamente o de estabelecer um intenso vai e vem dos textos metapsi-cológicos, do arsenal conceitual, das reflexões passíveis de serem denominadasteóricas e da presença marcante da experiência, advinda do campo clínico-analítico(a clínica psicanalítica). Portanto, não haveria uma fala em psicanálise que pudesseser exclusivamente de ordem teórica, deixando de ser o que ela é, em seuexercício, se assim o fosse.Nesses termos, a Psicanálise tem afinidades com as lógicas particulares dasciências que privilegiam os estudos de caso, o trabalho de campo, a etnografia,a descrição. Segundo o autor, nada do que é feito, de dentro do campo daPsicanálise, para seu ordenamento epistemológico – um saber acerca do saberpsicanalítico – pode prescindir da clínica – nos termos lacanianos d’A Coisa. Noestatuto dessa disciplina, portanto, não haveria uma metalinguagem – teórica –capaz de ser aplicável ao caso, pois não há um discurso sobre, mas um discursodentro da prática e que está integralmente comprometido com ela. A partir de edentro de cada caso, descrições e conceitos se extendem promovendo afirmações4 FORT-DA, termo utilizado por Sigmund Freud, num jogo de palavras que designam uma brincadeira infantilde “aparecer/desaparecer”. O termo será detalhadamente explicado no decorrer do próprio artigo.
  • 58. conflitivas e contornáveis entre os casos e as teorizações. Não um texto exclusi- $ vamente de teoria, mas teorizações que se expandem a partir dos efeitos dos casos. “A psicanálise, por sua dialética do caso clínico, é então o campo noNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... qual o singular e o universal coincidem sem passar pelo particular. Isso não é comum em filosofia, exceto talvez em certos momentos hegelianos.” (REGNAULT, 2001, p. 10). Eis a questão da clínica enunciada. E dela o seu tipo de saber, um saber que faz a travessia do singular ao universal. Nessas inter-relações, fazemos coincidir a problemática de Hegel a Lacan: no modo como a arte é, também, uma produção do singular que faz passagem ao universal. Assim, os próprios trânsitos entre a arte e a clínica encontram-se aqui enunciados, nos modos como estamos a nos orientar em torno das questões da arte e do estilo, do estilo e da interpretação (e do estilo na interpretação), numa antifilosofia (arte da desenvoltura em relação às doutrinas).5 No dizer de Maria Inês França, a Psicanálise constitui-se em prática teórica, o que nos faz lembrar essa pretensa definição contemporânea para as artes, elas próprias enquanto práticas teóricas. Carregadas no seu limite por uma experiência, a do analista na clínica e a do artista em qualquer forma de ateliê, estão em vizinhança quando falamos ou pensamos nas estruturas da sublimação, tomadas de Hegel, apontadas por Freud (arte, ciência e religião) e, posteriormente, rea- presentadas por Lacan. Enfatizaremos a sublimação na arte, enquanto exemplar da estética do desejo, por ela se referir especificamente ao ato criativo. Tanto na religião quanto na ciência, embora estruturas de sublimação e, portanto, referidas ao mistério da origem, podemos perceber um afasta- mento do ato criativo. Na religião, este afastamento se refere à burocratização e à ritualização, perdendo com isto a religião sua referência à origem e à criação. Na ciência, do mesmo modo, as referências ao positivismo lógico e à prova experimental demonstrativa reduzem os pressu- postos criativos a meras correspondências. Ambas religião e ciência, podem manter suas estruturas apesar da ausência de questionamentos e de referência ao ato criativo. Na arte é diferente. A angústia suscitada na produção artística é similar na produção psicanalítica, pois o efeito produzido não garante a produção de um novo efeito. Ou seja, a obra criada é um efeito transitório, instantâneo. O que quer dizer que o efeito é causado pelos tropeços no real, em uma origem perfeitamente desconhecida. (FRANÇA, 1997, p. 136). 5 Nesses termos, as leituras de Fabio Herrmann fazem grande metáfora ao termo de Freud-Lacan-Regnault: a antifilosofia. Por esse termo, entende-se a capacidade de o analista trafegar e navegar entre os conceitos, “uma arte de desenvoltura em relação às doutrinas, amealhando, picotando aqui e ali algum achado filosófico, e deixando o resto”. (REGNAULT, 2001, p. 11). O que se apreende aqui é a plasticidade, o senso pragmático, a catarse (a condução dos afetos como estado de arte).
  • 59. A orientação geral para o tema da sublimação e para as três grandes formações $que tratam desta questão – arte, ciência, religião (Freud) – podem ser aindacontaminadas pelo tratamento que foi dado por Lacan ao tema, incluindo aí, no Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007cerne do problema, as relações entre arte, ciência e filosofia (Lacan).Nos termos de Regnault (2001), não se trata apenas de reconhecer a monu-mentalidade das grandes formações; é preciso traçar um ziguezague entre elas, umaaposta “barroca” (Lacan) para fazer avançar a Psicanálise e a sua clínica.6Já vimos como a arte e a Psicanálise tratam da mesma questão: a do singular. Eisso pode nos fazer passar numa zona intermediária entre a inexistência de umaestética da Psicanálise, do modo como existe uma ética da Psicanálise, e aexistência de uma estética em Psicanálise, ou uma estética à moda psicanalítica,freudiana, lacaniana, dentre outras (REGNAULT; FRANÇA). Neste sentido, a estética em psicanálise se aproxima da arte, pois, desde seu fundamento, o saber psicanalítico, provocado pela produção histérica, se colocou nos limites do não-sentido, interrogando a verdade parcial do desejo. Não é permitida nem ao psicanalista, nem ao artista, qualquer forma de burocratização, pois ela cortaria a possibilidade de presentificação de um radical desconhecido e, portanto, aboliria a referência ao ato criativo. Em alguns de seus trabalhos Freud associa a interpretação psicanalítica ao ato criativo, textos onde pode- mos apreciar a irrupção do imaginário no simbólico, presentificando o real e causando efeitos de busca e movimentação de sentido. (FRANÇA, 1997, p. 136-137).Nas leituras de França, uma estética precede uma ética, enquanto uma inquietanteestranheza presentificada na função do Belo. Nos termos da autora, partindo daleitura de Das Unheimliche,7 o Belo é uma operação de formação de um duplo,mostrando o enigma do semelhante e do familiar como sendo uma terrível ameaçapara além do jogo de espelhos. Portanto, o Belo é o sinal gêmeo do Horror – omais Belo que o próprio Belo.86 A aposta barroca é central na leitura do Seminário 20, mais, ainda, de Jacques Lacan.7 FREUD, Sigmund. O estranho. In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: ediçãostandard brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. Primeira reimpressão: 1988. p. 233-273. v. XVII.8 Nos termos de França, esta articulação entre o Belo e o Horrível é o ponto da irrupção do imaginário nosimbólico, fazendo presente o Real e desvelando, na Beleza, a imagem da morte e a relação do ser com afinitude. Eis o tema central de Antígona, na leitura de Lacan, no seminário sobre a Ética na Psicanálise. Paraele, a Beleza de Antígona, ressaltada durante todo o texto, é justamente o modo do qual podemos falardessa relação resplandecente com a morte. Ficamos cegos diante de tanta beleza e estamos, ao mesmotempo, diante de uma surpresa e de uma angústia, pois o excesso de beleza só revela a condicionante dadecrepitude e da morte mais e mais ressaltadas. Assim, o prazer da beleza – prazer de imagem, de objeto –se faz acompanhar de uma forma de angústia e de indeterminação da imagem, como se o excesso fosse jáa distorção que emblematizará, na ausência do objeto, a presença e a marca da morte.
  • 60. Por essa terminologia, na ausência de uma estética da Psicanálise, haveria uma $ estética psicanalítica, que põe o Belo, na estética do desejo, num lugar asseme- lhado ao do Sublime, para as estéticas clássicas.Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... O Sublime kantiano pode estar mais próximo do Belo freudiano, pois da beleza, nos termos das teorias renascentistas e clássicas, fala-se de uma forma de harmonização e regularização de opostos. A verdade seria resultante do velamento do horror, causando sistematização da experiência e configuração da realidade num mundo ordenado. Para Freud, tal como para a estética do Sublime, o problema da verdade incita a pensar no deslocamento que o Belo faz do Horror, para se fazer o lugar de um engodo, de um equívoco.9 O Belo, assim, afirma exemplarmente uma erótica e uma estética do desejo, que apre- sentam o valor de subversão do pensamento freudiano, ao mesmo tempo em que amplia o discurso analítico sobre o desejo, pois indica a estética como antecessora lógica à ética do desejo, na medida em que a imagem desejável contém a transgressão do desejo e seus impasses com a lei que, por sua vez, se funda no desejo. Nossa questão nos conduz a pensar a estética e seu fundamento erótico como o que movimenta e liberta o desejo da lei normativa. Portanto, é a estética do desejo que interroga e suspende o poder coerciti- vo da lei do desejo e seus arranjos sociais e culturais. Inferimos, assim, que toda pers- pectiva ética para a psicanálise se coloca associada a uma erótica e como uma face da estética do desejo. (FRANÇA, 1997, p. 139). Nesse cruzamento, a função da sublimação exercida pela arte é condizente com a função de sublimação exercida pela clínica. Em ambas, faz-se referência à Coisa. E que Coisa é essa? A Coisa é o objeto que jamais será reencontrado. [...] Ela caracteriza o sujeito, seu objeto e seu desejo. Esse objeto nunca foi perdido, embora se trate de reencontrá-lo. Esse objeto tampouco foi dito. Ele desliza entre as palavras e as coisas, na ilusão que acredita que as palavras correspondem às coisas, ilusão sem cessar desmentida pelo mal-entendido e, no entanto, sem cessar renascente. A Coisa se situará, então, “entre o real e o significan- te”. (REGNAULT, 2001, p. 17). Se Ela desliza entre os significantes, a melhor forma de representá-la é o Vazio. Assim, em cada momento, podemos colocar algo no seu lugar. Quando estamos próximos do Real, a Coisa é o Vazio, e o Vazio a representa. Quando estamos ao lado da arte, temos aí, algo posto em cena, no seu lugar, como sendo a sua representação. 9 Talvez, se possa pensar na concepção de barroco para Lacan e da fórmula da arte enquanto lugar do engodo – trompe l’oeil. Veja-se O Seminário mais ainda.
  • 61. Portanto, na Psicanálise, a arte é um modo de representação do Vazio.10 $! Mas então, aplicada à arte, a questão se apresenta: onde reconheceremos esse vazio em Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 torno do qual a arte se organiza? Vazio o vaso, pode ser, mas vazio o templo? Vazia a estátua? Vazias As meninas? Vazia uma sinfonia de Beethoven? Vazio o Dom Quixote e vazio o Ulisses, de Joyce? (REGNAULT, 2001, p. 19).Ao fim, não há também uma Psicanálise aplicada ao estudo da arte. O que há éestado de arte na Psicanálise. O que há é um estilo na clínica. A arte precede aclínica.E o que pode fazer a clínica (psicanalítica) na arte e com a arte?O que pode fazer a arte, portanto, na clínica e para a clínica?No que diz respeito à primeira questão, Freud sempre manteve reservas empsicanalizar o artista através da arte e restringiu ao máximo sua abordagem aoato e ao processo de criação.No que diz respeito à segunda, Lacan conduziu a arte para fazer avançar apsicanálise. Assim, o quadro Os embaixadores, com a anamorfose do crânio, ensina o que são o falo e o olhar mais que a fantasia de Holbein. A Antígona, de Sófocles, revela o que é o entre- duas-mortes; Hamlet, a construção em torno de nosso desejo, o que acontece com o falo; a trilogia de Claudel, o que ocorre com o desejo no mundo moderno. Diria até que Os embaixadores e As meninas ensinam o que é um quadro; Sófocles e Claudel, o que são o trágico antigo e o trágico moderno. Ora, a teoria dos conceitos fundamentais da psica- nálise, notadamente a pulsão, não pode prescindir de saber o que é um quadro; a ética da psicanálise não pode ignorar o trágico, etc. A arte então, não se contenta com adornar, ilustrar; ela realmente organiza. (REGNAULT, 2001, p. 22).Nesses termos, ao estudar arte, estamos compreendendo as relações que seestabelecem entre o visível, o legível e o audível, todos eles suportados imagi-10 Nos estudos das interfaces, encontram-se pontos de aproximação entre esta concepção do Furo e doinconsciente como sendo um Real furado – no qual tudo é travessia – com as filosofias orientais. Maria LuizaRamos aponta para estas relações entre a psicanálise lacaniana e as abordagens do sentido nas filosofiasdo extremo oriente, afirmando uma relação intertextual entre Lacan e os místicos (Zen-budismo, Bhagavadgitae o misticismo cristão). Ela estabelece as redes de leitura entre os Upanixades e o Estágio do Espelho eentre o método da análise e a didática do zen-budismo. Veja-se RAMOS, M. L. Interfaces: literatura, mito,inconsciente, cognição. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2000. 296 p. (Coleção Humanitas)
  • 62. nariamente no corpo. As artes não se definem aqui segundo gêneros ou segundo $" as classificações e sistemas artísticos. Na Psicanálise, com ênfase aqui para Lacan, as artes estão marcadas pelo VAZIO (o modelo do vaso) e pela ANAMOR-Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... FOSE (o modelo do crânio). No vazio, estamos no templo e na arquitetura primitiva, no vaso d’A Oleira Ciumenta de Claude Lévi-Strauss. É em torno do vazio e da A Ciumenta, sua organização que se obra. Na anamorfose, um jogo barroco quer reinstaurar o sentido da arte, nos termos de uma arte contemporânea das ciências. Nos termos de França (1997), a arte, enquanto desconstrução do ideal da estética clássica, promove com a criação um laço entre os sujeitos desejantes. Nesses termos, o Belo faz um laço social. Com a atividade sublimatória, o vazio do qual se falava torna-se um modo de articulação do modo como apresentamos nossas paixões no registro pulsional. No amor, no ódio e na ignorância – as paixões humanas – o aprendizado permanente de lidar com o não-sentido é o que permite ao sujeito a invenção de um lugar criativo e de potencialização do desejo. III O FORT-DA e a arte III. 1. Lendo em Freud Se as questões que trazem o tema das relações entre arte e clínica psicanalítica, do ponto de vista da Psicanálise, concentram-se na abordagem da angústia do ato criador e da autocriação do sujeito, numa invenção da vida em face da de- crepitude e do desaparecimento, a arte e suas reflexões teóricas têm se debruçado nos textos da Psicanálise como modo de enfrentar os objetos artísticos dos séculos XX e XXI. Grande parte da bibliografia atual que estuda as relações entre arte e Psicanálise tem na famosa descrição freudiana do FORT-DA um dos seus motes de iniciação. Essa questão, inicialmente restrita ao campo dos estudos freudianos, após as derivações Freud-Lacan, ganha importância no cenário de uma teoria da arte propriamente dita. Assim, quero me deter em alguns desses momentos exemplares e identificar as possíveis correlações entre o FORT-DA, uma teoria da visão e uma teoria da encenação. Inicialmente, retomemos o texto de Freud.
  • 63. Em Além do princípio de prazer Freud descreve a situação do seu próprio neto, prazer, $#com dezoito meses de vida. Seu contexto de leitura diz respeito a uma passagemque faz alusão às brincadeiras infantis. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 As diferentes teorias sobre a brincadeira das crianças foram ainda recentemente resumi- das e discutidas do ponto de vista psicanalítico por Pfeifer (1919), a cujo artigo remeto meus leitores. Essas teorias esforçam-se por descobrir os motivos que levam as crianças a brincar, mas deixam de trazer para o primeiro plano o motivo econômico, a consideração da produção de prazer envolvida. Sem querer incluir todo o campo abrangido por esses fenômenos, pude, através de uma oportunidade fortuita que se me apresentou, lançar cer- ta luz sobre a primeira brincadeira efetuada por um menininho de ano e meio de idade e inventada por ele próprio. Foi mais do que uma simples observação passageira, porque vivi sob o mesmo teto que a criança e seus pais durante algumas semanas, e foi algum tempo antes que descobri o significado da enigmática atividade que ele constantemente repetia. (FREUD, 1988, p. 25).Vemos aqui como o autor revela sua preocupação inicial com uma relação teóricaentre a economia libidinal e seu bom funcionamento através da brincadeira,recebendo o brinquedo e o brincar a função de produção de prazer.Em seguida, continuando o pensamento de Freud: A criança de modo algum era precoce em seu desenvolvimento intelectual. À idade de ano e meio podia dizer apenas algumas palavras compreensíveis e utilizava uma série de sons que expressavam um significado inteligível para aqueles que a rodeavam. Achava- se, contudo, em bons termos com os pais e sua única empregada, e tributos eram-lhe prestados por ser um “bom menino”. Não incomodava os pais à noite, obedecia cons- cientemente às ordens de não tocar em certas coisas, ou de não entrar em determinados cômodos e, acima de tudo, nunca chorava quando sua mãe o deixava por algumas horas. Ao mesmo tempo, era bastante ligado à mãe, que tinha não apenas de alimentá-lo, como também cuidava dele sem qualquer ajuda externa. Esse bom menininho, contudo, tinha o hábito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e ati- rá-los longe para um canto, sob a cama, de maneira que procurar seus brinquedos e apanhá-los, quase sempre dava bom trabalho. Enquanto procedia assim, emitia um longo e arrastado “o-o-o-ó”, acompanhado por expressão de interesse e satisfação. Sua mãe e o autor do presente relato concordaram em achar que isso não constituía uma simples interjeição, mas representava a palavra alem㠓fort”. Acabei por compreender que se tratava de um jogo e que o único uso que o menino fazia de seus brinquedos, era brincar de “ir embora” com eles. Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que ele fazia, era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo que o menino proferia
  • 64. seu expressivo “o-o-o-ó”. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio $$ do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre “da” (“ali”). Essa, então, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno. Via de regra, assistia-se apenas a seuNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... primeiro ato, que era incansavelmente repetido como um jogo em si mesmo, embora não haja dúvida de que o prazer maior se ligava ao segundo ato. (FREUD, 1988, p. 25-27). Nesse ponto, Freud estabelece a relação entre o jogo e a questão da linguagem. No seu entendimento, o FORT-DA designava uma situação de “ir embora” e de “estar ali (retornar)”, como num vai-e-vem. O prazer do menino era medido pelo procedimento repetitivo – característica do jogo – entre desaparecer e reaparecer. O jogo era, então, visto como iniciativa cultural e de simbolização dos modos da ausência e da presença da figura materna que, além dos cuidados físicos (alimentação, o grande seio) implicava também um estado entre o cuidado e o olhar que se depositava da mãe em direção ao filho e do filho na procura da mãe. O menino reencenava a situação vivida, representando-a na forma do jogo do carretel. A interpretação do jogo tornou-se então óbvia. Ele se relacionava à grande realização cultural da criança, à renúncia instintual (isto é, a renúncia à satisfação instintual) que efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim dizer, encenando ele próprio o desaparecimento e a volta dos objetos que se encon- travam a seu alcance. É naturalmente indiferente, do ponto de vista de ajuizar a natureza efetiva do jogo, saber se a própria criança o inventara ou o tirara de alguma sugestão externa. Nosso interesse se dirige para outro ponto. A criança não pode ter sentido a partida da mãe como algo agradável ou mesmo indiferente. Como, então, a repetição dessa experiência aflitiva, enquanto jogo, harmonizava-se com o princípio de prazer? Tal- vez se possa responder que a partida dela tinha de ser encenada como preliminar ne- cessária a seu alegre retorno, e que neste último residia o verdadeiro propósito do jogo. Mas contra isso deve-se levar em conta o fato observado de o primeiro ato, o da partida, ser encenado como um jogo em si mesmo, e com muito mais freqüência do que o episó- dio na íntegra, com seu final agradável. Nenhuma decisão certa pode ser alcançada pela análise de um caso isolado como esse. De um ponto de vista não preconcebido, fica-se com a impressão de que a criança transformou sua experiência em jogo devido a outro motivo. No início, achava-se numa situação passiva, era dominada pela experiência; repe- tindo-a, porém, por mais desagradável que fosse, como jogo, assumia papel ativo. Esses esforços podem ser atribuídos a um instinto de dominação que atuava independente- mente de a lembrança em si mesma ser agradável ou não. (FREUD, 1988, p. 27-28). Note-se aqui a complexidade da observação e da análise do caso isolado. Freud chama a atenção para o fato de que o jogo, na maioria das vezes, não tinha como garantia o retorno do objeto. Portanto, na grande maioria das situações em que o carretel sumia, ele não retornava. A criança, então, estava se impondo,
  • 65. enquanto agente ativo, um padrão de desaparecimento do seu objeto de prazer. $%Substituía o lugar de objeto dado a si por estar sofrendo com a saída ativa damãe – era a mãe que ia e vinha – por um jogo, no qual, ela própria, designava a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007mãe enquanto objeto destinado a ser retirado da cena ou retornar a ela, conformeo movimento promovido pela criança.A criança ritualizava a saída de cena da mãe através do objeto e, através do me-canismo constituído, restituía a si o objeto e o prazer advindo de uma certeza simbólicada volta da própria mãe. Assim como o carretel, a mãe também retornaria sempre.Mas não apenas isso. A criança tomava a si o poder – simbólico – de mandar a mãee o objeto embora e de trazê-los de volta quando lhe fosse aprazível.11 Mas uma outra interpretação pode ainda ser tentada. Jogar longe o objeto, de maneira a que fosse “embora”, poderia satisfazer um impulso da criança, suprimido na vida real, de vingar-se da mãe por afastar-se dela. Nesse caso, possuiria significado desafiador: “Pois bem, então: vá embora! Não preciso de você. Sou eu que estou mandando você embora.” Um ano mais tarde, o mesmo menino que eu observara em seu primeiro jogo, costumava agarrar um brinquedo, se estava zangado com este, e jogá-lo ao chão, exclamando: “Vá para a frente!” Escutara nessa época que o pai ausente se encontrava na “frente (de batalha),” e o menino estava longe de lamentar sua ausência, pelo contrário, deixava bastante claro que não tinha desejo de ser perturbado em sua posse exclusiva da mãe. Conhecemos outras crianças que gostavam de expressar impulsos hostis semelhantes lançando longe de si objetos, em vez de pessoas. Assim, ficaremos em dúvida quanto a saber se o impulso para elaborar na mente alguma experiência de dominação, de modo a tornar-se senhor dela, pode encontrar expressão como um evento primário e independen- temente do princípio de prazer. Isso porque, no caso que acabamos de estudar, a criança, afinal de contas, só foi capaz de repetir sua experiência desagradável na brincadeira por- que a repetição trazia consigo uma produção de prazer de outro tipo, uma produção mais direta. Não seremos auxiliados em nossa hesitação entre esses dois pontos de vista por outras considerações sobre brincadeiras infantis. É claro que em suas brincadeiras as crianças repetem tudo que lhes causou uma grande impressão na vida real, e assim pro- cedendo, ab-reagem a intensidade da impressão, tornando-se, por assim dizer, senhoras da situação. Por outro lado, porém, é obvio que todas as suas brincadeiras são influenciadas por um desejo que as domina o tempo todo: o desejo de crescer e poder fazer o que as pessoas crescidas fazem. Pode-se também observar que a natureza desagradável de uma experiência nem sempre a torna inapropriada para a brincadeira. Se o médico examina a11 Penso que aqui devemos levar em conta o quantum de tempo no qual o jogo se estabelece, como meiode realização de diferentes tempos do afastamento do objeto materno e o desenvolvimento dos níveis deresistência infantil. Assim, não há um único modo de se jogar esse jogo, no qual o que importa não são aduração e as distâncias temporais entre o desaparecimento e o retorno do objeto, mas uma dimensãosubjetiva e flutuante. É por isso que não designa descontinuidade de raciocínio e de lógica simbólica do jogodo FORT-DA, a descontinuidade de apreensão temporal.
  • 66. garganta de uma criança ou faz nela alguma pequena intervenção, podemos estar inteira- $& mente certos de que essas assustadoras experiências serão tema da próxima brincadeira; contudo, não devemos, quanto a isso, desprezar o fato de existir uma produção de prazerNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... provinda de outra fonte. Quando a criança passa da passividade da experiência para a atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros de brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto. (FREUD, 1988, p. 27-28). Como dissemos, o jogo inicialmente observado por Freud, do ponto de vista de uma economia, é também aventado como da ordem de uma política. Em ambas, estamos diante de uma representação. Representação simbólica de objeto, na economia, e, representação relacional de poder, na política. Freud deixa em aberto, apesar de preponderar em si o raciocínio da economia, o jogo entre essas duas forças, correlacionando-as e colocando-as, cautelosamente, lado a lado.12 Qual o motivo que nos fez tomar esse pequeno caso acima descrito por Freud como sendo paradigmático para pensar as artes, enfatizando aqui suas origens num jogo (simbólico e relacional) e designando uma função visual e uma função de encenação. Ao que parece, o próprio Freud sugere essa relação entre o menino e os artistas, terminando o caso com a representação teatral trágica, onde o espectador é levado a buscar prazer em experiências penosas encenadas, designando que “um sistema de estética com uma abordagem econômica a seu tema geral” (FREUD, 1988, p. 29) deve prevalecer.13 Nessa articulação entre economia (libidinal, simbólica), política (forças, relações) e estética, estamos diante das páginas de uma estética psicanalítica que se 12 Em sua análise, Didi-Huberman (1998) lembra que o exemplo do jogo infantil encontra-se no contexto de uma análise sobre a guerra e uma metáfora do sujeito em busca da sobrevivência, no aprendizado de por novamente em cena o “pior”, ou seja, brincar e fazer troça com os elementos mais desprezíveis, tomando como objeto de jogo e de cena aqueles elementos em geral desconsiderados ou vistos como inferiores e repulsivos, fazendo do jogo um meio de preservação psíquica da própria existência. 13 Didi-Huberman afirma: “Que o carretel só é ‘vivo e dançante ao figurar a ausência, e só ‘joga’ ao eternizar o desejo, como um mar demasiado vivo devora o corpo do afogado, como uma sepultura eterniza a morte para os vivos. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente – metapsicologicamente – para além do princípio de prazer: Freud, como se lembram, terminava sua passagem com uma alusão ao ‘jogo do luto’ (Trauerspiel, a tragédia) e apelava a ‘uma estética guiada pelo ponto de vista econômico’. Ora, não importa a idéia que Freud fizesse então da atividade artística em geral, devemos igualmente sublinhar a crítica da imitação que acompanhava toda sua reflexão: ‘Explicar um jogo por um instinto de imitação é formular uma hipótese inútil’. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente para além do princípio de imitação. É talvez no momento mesmo em que se torna capaz de desaparecer ritmicamente, enquanto objeto visível, que o carretel se torna
  • 67. volta para dois lugares, privilegiadamente: uma teoria da encenação e daí $decorrente uma noção de representação e uma teoria do campo visual, do olhare do jogo entre olhares, nas relações sujeito e objeto. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007III. 2. Arte, teoria da encenação e a noção de representaçãoA representação é um elemento central no processo de criação. Fórmula expressapor Freud no JOGO DO FORT-DA. Representar, em Freud, designa o ato de pôr emcena. Fórmula, por otra parte, muy próxima a la idea expresada por Freud en los dos principios del funcionamiento mental, y maravillosamente ilustrada en la observación de su nieto, que intenta consolarse de la partida de su madre jugando con una bobina, y pone en escena esta misma desaparición y esse mismo regreso con objetos al alcance de su mano. (M´UZAN, 1978, p. 17).O que está posto em cena é o modo mesmo como se situa no mundo um serdesejante, constituindo a realidade do ser diante da ausência do seu objeto dedesejo. A criança, ao jogar, elabora o trauma da perda e encontra para ela umasaída positivada – criadora (no jogo).Nos níveis mais elevados da criação, denominamos isso de inspiração criadora,como forma de compreender uma experiência mítica do real, gerando não apenasuma imagem visual. O símbolo, certamente, o ‘substituirá’, o assassinará – segundo a idéia de que ‘osímbolo se manifesta primeiro como assassinato da coisa’ –, mas ele subsistirá num canto, esse carretel:num canto da alma ou num canto da casa. Subsistirá como resto assassinado do desejo da criança.” (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 83). A imagem deve ser vista aqui como emblema ou como alegoria que designa umaposição intermediária entre o objeto real – em desaparecimento – e a abstração da ordem simbólica – quetambém faz desaparecer a imagem. A ordem imaginária ficaria, assim, numa espécie de zona de suspensão.Não se está falando da imagem enquanto cópia do real – por imitação. Para Didi-Huberman, em sua recuperaçãopara a Teoria da Arte da leitura de Freud, a imagem surge justamente condicionada pelo desaparecimento doobjeto real. A imagem surge no lugar da ausência dos objetos, visando a eternizar o desejo de um certoobjeto perdido e apenas reencontrado num outro plano, numa passagem do real ao imaginário. Nessaeconomia freudiana, não existem duas coisas no mesmo lugar. Perde-se o objeto, ganha-se a imagem.Posteriormente, uma nova passagem indica que o imaginário deverá ser subsumido no simbólico, por efeitosde ordem. O símbolo virá para dizer algo a respeito de todo e qualquer objeto perdido, ele virá para dar ordemao acontecimento do plano real. Para tanto, ele deverá enfrentar a coisa e a imagem, mas nessa economiapsíquica, as coisas se deslocam, e objetos perdidos e imagens apagadas acabam por permanecer comotraços ou restos. Nada é controlável pelo modelo. Nem mesmo a boneca – imagem e semelhança do huma-no – pode ser contida numa figuração corporal. Sempre se procura outro algo – Baudelaire diz que queremosver a alma e por isso destruímos nossos brinquedos. Por isso, busca-se sempre outra imagem capaz deconvocar o jogo dos objetos perdidos.
  • 68. uma descrição ou um comentário do mundo desse ser de desejo, mas também % provocando três estados definidos como:Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... 1) una modificación de la alteridad natural del mundo exterior; 2) la alteración de la intimidad silenciosa del yo psicosomático; 3) el sentimiento de un esfumado de los límites que separan a esos dos ordenes, con una connotación de extrañamiento. A esta transformación en la relación de las parcelas objetales y narcisistas responde el sentimiento experimentado por el sujeto de un cambio de su posición con respecto al mundo, es decir, de su propia identidad. El estado de captación aquí implicado suscita la consciencia de entrar en relación con algo esencial y sin embargo inefable. [...] Yo admitia que, em algunos casos, este esta- do vivido en la angustia, puede incluirse entre los fenómenos de la despersonaliza- ción; que otras veces, acompañado de un estado de euforia, se siente como una expe- riencia exultante de dilatación poderosa con la que puede relacionarse el momento inicial de la inspiración artística o mística o incluso las experiencias relacionales des- critas por Grunberger. Sea como fuere, en los dos casos, el instante de captación me parece que surge de una experiencia traumática. (M’UZAN, 1978, p. 18-19). O que M’Uzan identifica na criação é uma supressão, uma ultrapassagem ou uma valorização da zona intersticial entre o mundo exterior e a realidade do eu psicossomático, a realidade e o sujeito, enfim, o surgimento de uma relação provocadora de um estranhamento diante dos limites e das fronteiras agora olhados enquanto tal, a partir de uma localização intermediária entre exterior- interior, uma espécie de espaço indefinido. Aparentemente, durante o processo de constituição narcísica, após o momento do narcisismo primário, que se põe o problema de pôr algo em cena, algo no lugar de, como representando algo para alguém. É nesse momento que saímos em busca dos objetos exteriores e temos de suportar as tensões (pulsionais). Jogado nesse espaço indefinível, debatendo-se nos encontros com o real, o sujeito é submetido a novos aspectos e a novas exigências da pulsão que, em seus movimentos constantes, permite promover o surgimento da representação criadora. Cada momento da criação desvela, assim, sua condição traumática. III. 3. Teoria do olhar Por outro lado, tomando a situação do objeto – o carretel do FORT-DA –, estamos diante de um aparecer-desaparecer, de um desvelar-velar, de um jogo de esconde- esconde, onde algo não se deixa alcançar pelo olhar. E isso coloca em questão uma teoria do olhar e do jogo entre olhares.
  • 69. Diferentes autores, teóricos da arte ou psicanalistas interessados nos termos %da visão e do olhar, da função escópica, estão atraídos pelas condicionantesenunciadas no FORT-DA. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Vejamos alguns exemplos. Em Didi-Huberman, trata-se do “desaparecimento deseu carretel com um invariável o-o-o-ó prolongado, depois saudando seu reapa-recimento, escreve Freud, ‘um alegre Da!’ (‘Ah! Aí está!’). Faço alusão a issoapenas para sublinhar de novo o quadro geral em que nosso problema se coloca:quando o que vemos é suportado por uma obra de perda, e quando disto algumacoisa resta. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 79-80).Estamos diante de um objeto – o carretel – apresentado em sua singularidadevisual, de objeto concreto e visível. Seja uma moeda, uma pedra ou um carretel,os objetos permitem o desenvolvimento de um estranhamento e da marca dapresença da alteridade que arrasta consigo o poder da fantasia e da identificaçãona ordem do imaginário.Num texto de divulgação, o psicanalista e teórico da arte, Darian Leader, afirma que os jogos de esconde-esconde convertem o ato de olhar em algo que não está sempre aí. Ele pode ser modulado e organizado, ligado pelo jogo a uma estrutura. E, assim, a dimensão potencialmente traumática é transformada numa fonte de prazer. Lacan ti- nha a idéia de que uma teoria psicanalítica da visão deveria adotar como seu ponto de partida esse fato de que, antes de olhar, somos olhados, e de que o nosso olhar se insere no que chamamos uma dinâmica de olhares. Note-se como isso é diferente do pressuposto muito comum segundo o qual, para investigar respostas visuais e esté- ticas, cumpre estudar o que acontece quando um observador olha para um objeto. Em vez de postular dois termos – o observador e o objeto –, temos pelo menos três: o espectador, o objeto e o terceiro componente, que é quem está observando o obser- vador. (2005, p. 12).Leader e Didi-Huberman estão a nos colocar diante do problema de um jogoentre olhares, no qual estamos cindidos – “viscondes partidos ao meio”, comodiria o escritor italiano Italo Calvino. Para esses autores, o ato de ver é umaabertura, uma fenda que se imprime num jogo de aparecer e desaparecer, noqual somos aquele que vê o objeto sumir e retornar (sujeito) e somos aquele queé visto, não pelo objeto, mas por aquilo (aquele ou aquela) a que o objeto designa,um terceiro termo, abrindo a relação sujeito-objeto para uma compreensão deque “somos vistos pelo que nos olha”. Vemos através de e com um objeto quedeve designar uma perda e, numa partida como essa, resta um.
  • 70. O jogo do que está posto em cena – tal como vimos no tópico acima – é sustentado % num objeto mínimo e numa imagem visual que se configura aos olhos do sujeito como um resto do movimento completo de desaparecer e de reaparecer. O que seNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... entende disso é que, em face do jogo repetitivo – movimento de intervalos varian- tes –, fixa-se o menor denominador comum ao olhar da criança. Fixa-se uma imagem no desaparecimento da coisa. E quando a coisa retorna, ela volta como o resto da imaginária14 que se estabilizou, escavada que foi na interioridade do sujeito.15 Partindo de Lacan, Huberman e Leader, esses afirmam que o objeto visual é mais algo que remete àquilo que não vemos do que àquilo que vemos. O carretel somente é objeto visual no instante em que desaparece e se constitui visualmente em nossa mente. Seu desaparecimento físico instala a imagem dentro de nós. Mas o que não podemos ver? O nosso próprio ato de ver não nos é dado a ver, o modo como somos vistos por outros. Ou seja, não podemos ver como somos olhados. O que vemos não é o que nos olha. Então, somos constituídos psiquicamente por uma exterioridade que nos olha e que nos liga, relacionalmente, e nos afeta, através do olhar do outro. Desde o começo de nossa própria presença objetal no mundo, somos olhados. Leader afirma de modo direto: “O que vemos e para onde olhamos dependerá, em parte, do que outrem vê e para onde olha. No exato momento de vir ao mundo, antes num sentido de se poder ‘ver’ qualquer coisa, somos o objeto do olhar de outrem. (LEADER, 2005, p. 11). 14 Aqui, os termos imaginário, imaginação e imaginária podem indicar algumas confusões. Há uma íntima associação entre eles, e o seu envolvimento revela muito das migrações e das interfaces entre a teoria psicanalítica e a teoria da arte. No sentido dado aqui ao termo, a tópica do imaginário acaba exatamente por se configurar numa ordem imaginária e nas formações figurais do tipo das imaginárias, que seria uma outra maneira de dar tratamento ao tema dos arquétipos, mantendo a filiação à leitura proposta, tanto no que tange aos aspectos da psicanálise quanto aos aspectos da teoria da arte. Trata-se ainda de pensar nas provocações pensantes do tipo alegórico e das formas figurais que acabam por tecer relações do tipo da fantasia e da fantasmática. As imaginárias se constituem como sendo estes conjuntos de figuras (emblemáticas) que são capazes de reunir e reapresentar o fantasma. Trata-se ainda de pensar o modo como estas figuras da Imaginária Religiosa – geralmente lembradas pelos conjuntos de santos e pelos ex- votos – são modos de fixação de emblemas do si mesmo. No caso específico da arte dos ex-votos há uma associação direta entre promessa, resto do real e a feitura de uma imagem que deve servir de resistência, de emblema, de sinal protetor, pois deve existir enquanto promessa e retorno, enquanto conquista (de um pedido agora alcançado) e enquanto perda (de um pedaço de si que deve ser um emblema de si). Então, estamos diante de conjuntos organizados e, ao mesmo tempo, vestigiais, como numa espécie de cova de escavação arqueológica, onde nos deparamos com conjuntos fragmentários (fragmentos apresentados em camadas, designando temporalidades distintas). Em outros textos, tenho procurado associações entre pensamento teológico, teoria da arte e estudos da psicanálise. 15 Didi-Huberman fala mesmo de uma arqueologia do símbolo.
  • 71. Portanto, ao colocar em cena (representar), estamos diante também de um jogo %!que nos ensina a nossa condição de sermos objeto do olhar de um outro. Eenquanto olhamos para as coisas perdidas imaginariamente constituídas em Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007nossa mente, fazemos imagem de nós mesmos e fazemos a imagem através docorpo-imagem – como na fase do espelho. De acordo com Lacan, carregamos o Outro em nós mesmos e o outro, o semelhante, é a forma de nosso próprio corpo. Esse outro do qual dependemos da maneira mais funda- mental é, também, o Outro da discordância primária. Ao assumir sua imagem, o sujeito é marcado por um olhar, que desenha uma forma ideal e que se torna um sonho de do- mínio. Esta imortalidade sonhada e ligada a uma forma, o eu ideal, tenta sustentar uma unidade que não há. (FRANÇA, 1997, p. 133).Em geral, pensamos que o corpo é um real ao qual acedemos e do qual e no qualnos constituímos. Na Psicanálise, somos constituídos enquanto corpo e enquantoforma através do olhar e da imagem, do olhar do outro (do que nos olha) e daimagem espelhada (quando nos olhamos no espelho e, inicialmente, nosimaginamos um outro dentro do espelho). Traçamos a idealização nessa imagemque irá nos acompanhar e resistimos ao corpo real, acessível através da alucina-ção – da dor, do sofrimento, do êxtase físico. Assim, somos um outro, um outro noespelho e um outro aos olhos dos outros. E, nessa fixação emblemática, buscamosuma eternização na imagem. Buscamos o emblema que sempre revigorará o objetoperdido que somos e que apenas encontramos na esquina da imaginária.Por outro lado, a figurabilidade abre a superfície da imagem que nos olha paraalém do que é visível (aparente). A imagem não é apenas o traçado de um pontode vista ideal. A vidência não é somente uma prova, uma evidência. Diante dasuperfície imaginária, o objeto visual tangencia e se realiza como um deslocamentode sentidos. A vista pode se abrir em múltiplas vistas. O pano pode aceder amuitas dimensões e organizações plásticas.O que vemos não será medido pelo real do corpo, mas pela condicionante dojogo do ir e do vir, estabelecendo um lugar e uma temporalidade. Nesse ponto,estamos acedendo ao momento da projeção e ao movimento do lançamento –projetar e lançar o objeto longe para lhe dar um conteúdo, fazê-lo imagem efundar o sujeito neste afastamento da coisa, integrando a imagem visual comocondição constitutiva do sujeito.Não vemos o que se encontra no real, apenas podemos ver aquilo que é preenchidono seu desaparecimento. Isso configura a definição de objeto aurático. O que se
  • 72. vê é da conta da aura das coisas e não do real. Não se vê o objeto real, mas o %" objeto aurático, aquele que delata o seu desaparecimento, como o carretel, e que, ao reaparecer, demonstra-se enquanto objeto perdido, apenas encenado,Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... no jogo, e, visualmente representado, na imagem. Como o carretel, o quadro de Mona Lisa desaparecido do Museu do Louvre, constitui um olhar. O olhar recai na ausência do objeto – do carretel, do quadro – e dela passa a constituir a aura em torno do desaparecimento. Passando pelo roubo da Mona Lisa ou pelas leituras do minimalismo norte- americano, Leader e Didi-Huberman terminam por reforçar a idéia de que a arte é um desejo de ser visto ou de que algo seja visto – seja colocado em cena, no setting, pois ser visto é entrar na dinâmica do entrelaçamento de olhares, apreender que nossa constituição subjetiva, inconsciente, é co-dependente do olhar de outrem e, mais ainda, da incorporação do modo como somos olhados. “Essa é a condição para a qual Piaget reservou um lugar de honra em seu mapa do desenvolvimento: só podemos tornar-nos seres plenamente sociais quando temos capa- cidade para ver o mundo através dos olhos de outrem.” (LEADER, 2005, p. 131). Somente há constituição subjetiva do ato de ver quando esse aparece cindido em dois, pelo que vemos e pelo que nos olha (como somos vistos), na assinatura das coisas. Devemos aprender a ver de “olhos bem fechados” – parafraseando Kubrick – para que possamos ser remetidos mais uma vez ao vazio constitutivo daquilo que ultrapassa a percepção carnalizada do mundo; para, ao ultrapassar o que vemos, adentrar no campo fantasmático de ver o invisível como modalidade do visível vendo, assim, com nossos olhos, todos os olhos dos quais fomos olhados. O visível indica mais do que o plano óptico – impressionista –, uma potência visual, um trabalho do sintoma no qual o que vemos é suportado por (e remetido a) uma obra de perda. Um trabalho do sintoma que atinge o visível em geral e nosso próprio corpo vidente em particular. [...] Dar forma ao trabalho visual que deveria ser o nosso quando pousamos os olhos sobre o mar, sobre alguém que morre ou sobre uma obra de arte. Abramos os olhos para experimentar o que não vemos, o que não mais veremos – ou melhor, para experimentar que o que não vemos com toda evidência (a evidência visível) não obstante nos olha como uma obra (uma obra visual) de perda. [...] Quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 34).
  • 73. Uma teoria da visão seria então uma teoria dos vestígios. No passado, intimamente %#ligada à aura religiosa e reapresentada, no mundo moderno, através da obra dearte.16 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007A diferença entre qualquer imagem e o vestígio é designada como a diferençaentre uma ordem do visual visível (da percepção) e a de uma visão daquilo quenão se vê, visão de traços daquilo que foi desaparecido, arruinado. Assim, acisão entre o visual e o visível, na Psicanálise, nos ensina que, ao ver, nãoapenas estamos diante de objetos, corpos e matérias, estamos diante de umatentativa de recuperação, num corpo objetal qualquer, daquilo que ao ser dadopor perdido nunca teria existido antes, um objeto inexistente e procurado emobjetos substitutos, formalizado num objeto qualquer, vazado a ponto de sercapaz de nos mostrar um vazio – a obra de arte.Para finalizar este tópico, reconhece-se que a arte é dada então como objeto dogozo, objeto inútil, finalidade sem fim (kantiano). Não há simplesmente prazer,pois não há uso que a sustente (jogo da finalidade sem fim, objeto inútil). Nogozo, estamos diante do vazio. O gozo remete a uma filosofia do amor, tal comoanunciou Santo Agostinho. Somente podemos gozar do amor por ser esse semfinalidade, sem utilidade. Somente podemos gozar da arte como gozamos dosignificante de Deus.III O corpo-obra Corpo-obra Trabalho do corpo Corpo obra de arte Corpo-d’obra Um copo de corpo quebra (Marcio Pizarro Noronha)16 Em outro texto, tratando especificamente do conceito de composição, tomo a questão posta por Didi-Huberman, retraçando as relações entre Hegel, Freud, Benjamin e Lacan. Vejam-se os textos: ENSAIO DECOMPOSIÇÃO: Entre o conceito e a sensação em literatura e arte modernas. Veja-se o site do II EncontroInternacional de História (Anpuh-Goiás. Disponível em: www.anpuhgo.br. Numa versão mais recente com otítulo COMPOSIÇÃO: TRAJETO CONCEITUAL E A RETOMADA DA PERSPECTIVA DA SENSAÇÃO-EXPERIÊNCIA NOESTUDO DAS RELAÇÕES INTERARTÍSTICAS. (Encontro Regional Abralic 2007, SP, USP. Disponível em:www.abralic.org.br). Além desses, o texto integra um livro editado pela EdUFU, em outubro de 2007.
  • 74. Se a arte associa-se ao gozo, como lugar do vazio, o que será este corpo – corpo, %$ objeto, matéria – que se põe aqui como sendo seu significante? O que podemos pensar neste lugar? Para falar desse corpo e de um corpo-obra, vou eleger umNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... artista em sua singularidade, ao qual tenho dedicado grande parte da minha atenção e leitura. O método diz respeito ao modo de fazer da clínica – do singular ao universal. A passagem diz respeito ao inconsciente da obra enquanto incons- ciente da cultura e ao modo como a obra é, ela própria, o lugar vazio do analista, plasticamente preenchido, na linguagem, por todos nós, seus analisandos, artista e público. O artista escolhido é Francis Bacon. Tomamos de início, uma entrevista de Bacon a Michel Archimbaud, em 1991, quando o pintor afirma que já não faz a pintura pelos outros, mas faz a pintura para si mesmo. Ele revela uma atenção particular a esse modo de compreender a pintura como um ofício e uma fabricação. Ao pintar, ele fabrica a obra e desenvolve uma atitude de fabricação de si – uma reflexão sobre o si mesmo (Foucault). Ao fabricar a obra como lugar existente, ele vai preenchendo a tela – como poderia ser também a folha de papel, o espaço sonoro, etc. – com seus depósitos e seus resíduos, para deixar na imagem o seu próprio rastro, o seu vestígio. Esta reflexão é um tipo de pesquisa artística e artefatual que se dá no âmbito e no cerne do visível, para constituir um objeto visual que se possa oferecer como evidência (formal) e vidência (residual) do modo como um aparecer implica também um desaparecer. O alvo, ou o objeto eleito, é o corpo humano e o seu rosto.17 O rosto é a condição do retrato, modo de constituição de um regime de signos que visa a presentificar uma identificação de um sujeito – seja do retrato pintado de um cortesão, seja de um nobre, seja de um político, seja numa fotografia identificatória policial, numa 3x4, numa foto de passaporte. 17 Para esta pesquisa, o pintor procura pranchas coloridas à mão que tratam do corpo enquanto objeto da ciência médica (um exemplo é o tema das doenças bucais, pranchas com bocas abertas mostrando diversos exames e patologias da boca) e reúne a ela fotogramas e outras imagens retiradas do mundo contemporâneo (por exemplo, imagens do filme O Encouraçado Potemkim, na cena da escadaria). O artista desenvolve uma pesquisa sobre o corpo a partir da boca aberta, um tecido cutâneo interno, cruzando-a com as imagens dos gritos, outras bocas abertas, que aparecem na arte, no cinema e em outras imagens circulantes na cultura. De Deleuze a Cuir, observa-se que é o corpo que escapa através da boca que grita, bem como é o corpo que grita quando a boca encontra-se fechada.
  • 75. Bacon toma o retrato como sendo uma impossibilidade de mostrar o sujeito e o %%identifica como objeto visual que está no lugar de, um substitutivo para umaperda. O retrato é um traço de uma imagem perdida de si mesmo. Desse modo, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007na imagem do retratado, o que se faz passar é o vestígio do rosto perdido ouarruinado pela diferença existente de um instante a outro. Já não somos o quefoi retratado.O retrato então passa à condição de carne, e o rosto, tomado em suas relaçõescom os exercícios encontrados nas pranchas de anatomia e de fisiologia, umobjeto visual capaz de mostrar essa perda ou esse deslocamento contínuo etemporal do próprio objeto, em suas mudanças fisionômicas e em suas alteraçõesda máscara da face.O artista, segundo o historiador da arte Raphaël Cuir, está interessado no corpocomo objeto a ser investigado – retratado, oferecido como objeto visual – pelapintura (arte) e, ao fazer isso, abre-se para um jogo corpo-pintura que nada maisé do que um jogo entre um visível sensorial-perceptual (corpo) e a produção deum objeto visual capaz não apenas de ser uma observação (raciocínio do desenho)ou um comentário de uma observação (raciocínio do ready-made), mas um objetocarnal-pictórico, um corpo-obra.Num auto-retrato de 1976, Cuir descreve o modo como Bacon pinta o própriorosto tomando como base as pranchas de anatomia e patologia. Contrariamenteao uso da imagem, pela via da apropriação de imagens científicas de observação(lógica do desenho de observação) ou de imagens prontas, desenvolvidas pormeio dos aparatos técnicos (lógica do ready-made). Bacon propõe a construçãode um sistema representacional carnal-pictórico, uma carne da pintura, que sejauma tradução do Horror,18 em cuja centralidade estão a figura humana e asconstantes transformações a que somos submetidos no processo vital. (CUIR,2000). No sistema visual do Horror assistimos ao Belo da destruição e, portanto,podemos ver e sermos vistos através de uma face da dissolução do si mesmo;podemos enxergar uma face da morte integralmente vivida.Segundo Guin, cabe à representação artística figurativa baconiana excitar asterminações nervosas e impedir que se faça uma associação entre o figurativo eo narrativo ou o meramente ilustrativo – um problema da pintura.18 O Horror aqui deve ser remetido ao mais Belo que o Belo e à noção de inquietante estranheza de Freud,tal como foi enunciado no início deste texto.
  • 76. Como faz isso? Tratando a pintura como um acidente. Acidentes são aconteci- %& mentos felizes ou infelizes que preenchem nossa existência trazendo consigo a ruptura da continuidade existencial. A pintura é um acidente do desenho, e oNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... óleo é o acidente da pintura. A pintura é um acidente cujo evento principal é a invenção da tecnologia do óleo19 e para a qual se enunciarão e encadearão outras séries acidentais – no modo como o artista encontra, acidentalmente, entre as imagens médicas e a arte pictórica, um ponto de contato para a ima- ginação da beleza e do Horror – como vimos acima, o mais belo que o belo. Acidentes são pontos de descontinuidade e de contato, como no livro de J. G. Ballard adaptado para o cinema (Crash) e no filme homônimo (Crash, ganhador do Oscar de 2006).20 A cada instante do movimento da fabricação da obra, há um desvio provocado por algum acidente, por algum acontecimento, no ato de pintar. Assim, a superfície fica tomada de fatos. Uma memória cumulativa de cada trecho nos permite pensar no raciocínio do palimpsesto e num acontecimento que se dá entre trechos da pintura e entre as diferentes imagens que ali estão acumuladas. Em geral, essas transformações são representadas na imagem plana pelo acúmulo de ângulos diferentes, numa soma de todas as imagens em uma única imagem, causando ao espectador uma sensação de deformidade – o Horror. Ces transformations que Francis Bacon souhaitait piéger dans la toile, ce sont les acci- dents, ces hasards, ces malheurs qui construisent la vie d’un corp, non pas selon une chronologique comme dans les autoportraits successifs de Rembrandt, mais dans l’ur- 19 Pierre Guin (2000) lembra que o óleo é um meio fluido e, por isso mesmo, capaz de produzir outras formas além das que foram propostas pelo artista. Desse modo, a subjetivação encontra-se com a maquinaria de produção. Não é apenas da ordem imaginária que se está falando. Quando se apresenta a imagem de um retrato ou de um corpo humano em pose/no congelamento de um movimento ou mesmo no movimento, estamos diante de diferentes vistas – perscrutação do olhar que voyeuriza o objeto exterior – e estamos diante de um ato de pintar que impõe ao sujeito uma maleabilidade, a plasticidade do meio, no contato entre o meio e a superfície deslizante e operante da tela. Nos termos do psiquismo, estamos diante de um real, uma volta do real em torno de um nó, que faz ver a outrem ou a outra Coisa. O que aparece não é apenas o retrato ou o auto-retrato – a imagem de si – mas o deslocamento dessa imagem que deve suportar sua condição existencial metamorfoseante em direção à decrepitude – uma face da morte. Nesses termos, podemos mesmo pensar numa certa anamorfose do retrato no quadro, nos termos de que fala Lacan. 20 Crash é um livro de ficção científica de J. G. Ballard. Foi adaptado para o cinema com o título Crash (traduzido como Crash – Estranhos Prazeres), com direção de Cronenberg (1996). Crash (traduzido como Crash – No Limite), 2005, ganhador do Oscar de 2006, direção de Paul Haggis.
  • 77. gence de l’instant, selon une Logique de la Sensation. Ces accidents, Bacon leur accorde % une très grande importance dans le processus de réalisation de ses oeuvres: “toute pein- ture est accident”. (CUIR, 2000, p. 113). Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007O que se pode apreender dessa arte e aprender com ela? O que ela nos podeensinar a respeito do corpo? O corpo pintado – o rosto, o retrato – não é apenasa resultante de uma estética gestual e de uma estética que privilegia o meiofílmico (estética do cinema). O corpo desordenado em gestos é também o corpoem deslocamento enquanto imagem no cinema. O corpo é apresentado por Ba-con como o espaço intermediário, entre um fotograma e outro de um filme. Ocorpo é um palimpsesto pessoal, tomado por trechos e por traços.Nesse deslocamento, o que se anuncia no entreimagens fixadas por Bacon é ummomento destinado à contemplação da destruição do corpo físico, como se ohumano tivesse, também, ele já passado, entre as imagens, sumindo em algumamancha ou zona colorida, massa de distorção.Dessa maneira, quando o corpo é a obra, na esfera clínica, podemos sustentaralgumas possibilidades de relação e de interpretação: o corpo-obra permiteinvestigar e transitar por entre o mundo dos objetos (e das relações de objeto),presentificar os restos (e as relações de abjeção) e simbolizar a morte – a obrade arte enquanto fantasma permite, por meio da forma aurática, resistir à morte.A manipulação dos meios e dos materiais não visa apenas à produção de umarepresentação de objeto exterior ao que está sendo produzido. Assim, um retratoou uma canção não deve ser tomado tão simplesmente como representação dosconteúdos socialmente reconhecidos do retrato e da canção. Um objeto podeser, também, a representação de uma relação e, nesses termos, pode ser umíndice de apresentação da relação terapêutica e do setting instalado.O trânsito para a dimensão do corpo-obra permite a instalação de um lugar-signficante na clínica e um modo de apreensão da estética enquanto modo deestruturação subjetiva.O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular importância da experiênciaclínica e suas afinidades com a experiência e as formas do pensamento-fazerartístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica não só desenvolve uma par-ticular epistemologia dos objetos psíquicos, como também se deixa atravessarpor formas transicionais ou por movimentos do informe que fazem nascer a obra
  • 78. de arte do sujeito na clínica e seu corpo glorioso. Como amálgama de flutuações & e materializações, a clínica deve arregimentar esse princípio de funcionamento radical, no qual a inclusão da arte não deve estar restrita às formas do discursoNoronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... comentado de obras e filmes por conta dos pacientes. Obrar a subjetividade é tarefa preponderante e diz respeito ao enfrentamento dos grandes lugares da clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978). Referências CUIR, Raphaël. Tentative d’évasion du corps. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 109-118. (Collection Iconotexte). DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998. FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise: estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997. FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. GOMBRICH, E. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic theories of Sigmund Freud. In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited, 1996. p. 189-210. GUIN, Pierre. L’innocence de Francis Bacon. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 9-34. (Collection Iconotexte) LACAN, Jacques. O seminário, a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991. p. 400. L. 7. LEADER, Darian. O roubo da Mona Lisa: o que a arte nos impede de ver. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. MOSCOVICI, Marie. A sombra do objeto: sobre a inatualidade da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1994. MAGNO, M. D. Psicanálise & política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986. p. 498. M’UZAN, Michel de. Del arte a la muerte: itinerario psicoanalítico. Barcelona: Icaria, 1978. RAMOS, Maria Luiza. Interfaces: literatura, mito, inconsciente, cognição. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2000. p. 296. (Coleção Humanitas) REGNAULT, François. Em torno do vazio: a arte à luz da psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001.
  • 79. &Corpos autorizados:comunicação, poder e turismo Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Euler David de Siqueira1 Denise da Costa Oliveira de Siqueira2 RESUMOO corpo é lugar de intervenção da sociedade e da cultura sobre o indivíduo, espaço de controleamplamente reproduzido pela mídia. Meios de comunicação, os cartões-postais do Rio de Janeirodurante anos mostraram mulheres de biquíni nas praias da cidade. Em 2005, foi aprovado umprojeto de lei que regulamenta a veiculação, exposição e comercialização de postais com imagensfemininas, com intuito de inibir o turismo sexual no estado. O ato de proibir e controlar taisimagens levou a esta discussão sobre as múltiplas e complexas relações entre comunicação,turismo e estado. Neste trabalho, temos como objetivo refletir sobre como o Estado busca exercero controle sobre a mídia cartão-postal. Para tal, recorremos à abordagem de Foucault acerca doscorpos dóceis e a de antropólogos sobre o corpo no universo da cultura. Esse referencialfundamentou a análise do ato do estado em sua relação com a mídia e o corpo.Palavras-chave: Comunicação. Corpo. Representações sociais. Poder. Turismo. ABSTRACTThe body is a space of intervention of society and culture over the individual, space of controlreproducted by media. As a kind of media, the post cards of Rio de Janeiro during years showedwomen in bikini in the city beaches. In 2005, it was approved by the State a law project thatregulates the exhibition and commercialization of post cards with women images with the objectiveof inhibiting the sexual tourism in the state. The act of forbidding and controlling those imagesserved as a starting point for this argumentation about the multiple and complex relations amongcommunication, tourism and state. In this paper we have as objective to reflect about how theState searches to control the post card media. For this, we appeal to Foucault’s notion of docilebodies and the one of anthropologists about body in the universe of culture. These principlesbased the analysis of the state act in its relation with the media and the body.Key words: Communication. Body. Social representations. Power. Tourism.1 Professor Adjunto III e Pesquisador no Programa de Mestrado em Ciências Sociais e no curso de Graduaçãoem Turismo do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre eDoutor em Sociologia pela IFCS/UFRJ. Graduado em Ciências Sociais pela IFCH/UERJ.2 Professora Adjunta na PPGC/UERJ no curso de Especialização em Jornalismo Cultural e em curso degraduação. Doutora em Comunicação pela ECA/USP. Graduada em Comunicação pela IFCS/UERJ. Autora deCorpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena (Autores Associados, 2006) e de A ciênciana televisão: mito, ritual e espetáculo (Annablume, 1999).
  • 80. Introdução & “Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente.”Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo (FOUCAULT, 1989, p. 139) “Quando são feitas e impostas as regras?” (BECKER, 1977a, p. 86) Complexos, contraditórios, híbridos, exóticos: assim são os lugares turísticos. Muitos desses lugares, pelo menos como representações sociais imagéticas, são encontrados somente em bancas de jornais, anúncios publicitários, boîtes e agências de turismo. Como informação ou representação, fragmentos de lugares turísticos são destacados, recortados do cotidiano a fim de encantar turistas. Assim sendo, antes mesmo que o turista chegue a seu destino, muito provavel- mente já teve contato com imagens dele. Longe de o turismo se reduzir à viagem ou ao deslocamento de uma sociedade para outra, começa a se manifestar no local em que o turista vive e constrói seu imaginário. Contudo, não é só o turista que entra em contato com as imagens de lugares turísticos. Ao andar pelas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo, turistas e moradores da cidade deparavam-se com cartões-postais mostrando cenas de jovens de biquíni nas praias ao lado de outros com imagens de favelas, da Passarela do Samba, da Praça da Apoteose, do Palácio do Catete, do Monumento aos Pracinhas, do Cristo Redentor, do Maracanã, do Morro do Corcovado, do Pão-de-Açúcar e da Baía de Guanabara. Destacados de revistas e jornais de todos os tipos, os postais ganham a atenção dos passantes, expostos em mostradores que podem ser manipulados, na entrada das bancas de jornais. Como cidade litorânea, no Rio de Janeiro não é difícil observar-se mulheres em trajes de banho nas praias quase todos os dias do ano. Isso faz parte, até certo ponto, do cotidiano da cidade, mas não significa que, ao longo das estações do ano e dos dias da semana, os sentidos e significados de ir à praia sejam os mesmos. O corpo feminino bronzeado nas praias ganha expressão máxima no verão e nos fins de semana quando em oposição aos outros dias da semana e às estações do ano. Retratado em cartões-postais, o corpo feminino se torna uma espécie de re- presentação da cidade e é facilmente associado ao turismo sexual, à promiscui- dade da mulher carioca ou brasileira, assim como a uma possível ausência de
  • 81. regras e normas que atestem sua civilidade. Tal corpo seria visto, então, como &!livre, liberto das amarras ético-morais da civilização, corpo “natural”, em estadoselvagem, autêntico, original, sem regras inscritas nele próprio. De acordo com Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007esse ponto de vista, seria nos trópicos, lugar exótico e caliente, que o turistaestrangeiro encontraria a mulher em seu estado quase natural. A proximidadecom a praia, com a paisagem natural, talvez reforce essa imagem.Para aqueles que saem de sociedades nas quais o meio ambiente natural foiquase ou totalmente destruído, visitar locais como o Brasil pode significar encontrocom aquilo de que se está distante: a natureza em toda sua potencialidade, sejasob a forma do contato com florestas, rios, cachoeiras, praias ainda selvagensou sob a forma da mulher carioca ou brasileira, representada como quente esensual. Na realidade, sabe-se que não há nada de “natural” em comportamentos,gestos e formas de ser da mulher carioca ou brasileira.Marcel Mauss, em seu artigo “As técnicas corporais” (1974), mostrou que ocorpo é tanto fruto da cultura, da Psicologia, como da natureza. Em outras palavras,o corpo deveria ser visto em sua totalidade concreta como fato social total. Damesma forma, Gilberto Freyre (1986) assinalou, em Modos de homem e modasde mulher, que não é a natureza, mas a sociedade que intervém construindo umcorpo com formas próprias. Turista-antropólogo, o francês Stéphane Malysseconstatou sobre as imagens do Rio de Janeiro que estavam antes de mais nada ligadas ao corpo: a cidade do Rio de Janeiro era apresentada pelas fotos dos catálogos e pelos vídeos turísticos como uma grande cidade praiana povoada de corpos bonitos praticamente nus. [...] As imagens que uma sociedade escolhe para se apresentar, para se representar aos olhares estrangeiros, geralmente exibem uma realidade antropológica descrita como “autêntica” e uma visão generalizada do local e de seus habitantes, uma espécie de “consenso visual”, em suma, que não deve ser negli- genciado pela antropologia, pois constitui um convite a passar para o outro lado do espelho, o ponto de partida de uma antropologia visual do corpo. Primeiros cartões-postais do Brasil, primeiras visões do inferno: o corpo, o sexo, o calor tropical. (MALYSSE, 2002, p. 81).Tal representação do Rio de Janeiro como cidade do corpo foi, em parte, construídatendo o estado como avalista que divulgou a idéia do Rio Cidade Maravilhosa,instituiu os concursos de Escolas de Samba, organizou e divulgou os desfiles deCarnaval e, na década de 80, patrocinou a construção da Passarela do Sambaou Sambódromo. Carnaval e praia foram amplamente empregados para construiruma certa imagem da cidade – inclusive na propaganda do estado. Nesse tipo deimagem – ou nessa estratégia de comunicação – o corpo feminino pouco vestido
  • 82. à praia ganhou destaque na construção das simbologias sobre o turismo no Rio &" de Janeiro. Ainda hoje, o corpo feminino nas praias – principalmente aquelas com um maior apelo turístico, como Ipanema e Copacabana, na Zona Sul daSiqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo cidade – torna-se o objeto de capas de jornais e revistas quando o tema é a chegada do verão. Na contramão da representação Rio-praia-Carnaval-mulheres nuas, em 2005, a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou por unanimidade o Projeto de Lei 2813/05, que “proíbe a veiculação, exposição e venda de postais turísticos que usem fotos de mulheres, em trajes sumários, que não mantenham relação ou não estejam inseridas na imagem original dos cartões-postais”.3 O projeto da deputada estadual Alice Tamborindeguy abre espaço para uma reflexão sobre as relações entre corpo, estado, turismo e mídia. Pelo documento, apenas postais representando mulheres na “cena original” da praia podem ser veiculados, expostos e vendidos. Fotos produzidas, com modelos em imagens construídas profissionalmente agora são caracterizadas como infração. Tal projeto de lei levou a algumas reflexões que procuramos expor e que valem um adendo explicativo: são essas reflexões que nos interessam discutir neste artigo. Não nos propomos a estudar a questão do turismo sexual – sua análise implicaria outro formato e outra abordagem. Atemo-nos às questões de comunicação, de construção de sentidos e significados por meio das imagens do corpo feminino e à tentativa de reconstrução e regulação de tais imagens pelo estado. Não é porque o turismo sexual reconhecidamente explicite problemas sociais de variadas ordens que não se deva estudar ou analisar a forma retórica como o estado lida com ele. Mesmo porque, no caso analisado, a construção da imagem relacionada ao apelo sexual foi construída, em parte, como estratégia de comunicação do próprio estado. Assim, não se busca aqui desqualificar a lei, mas análisá-la de um determinado ponto de vista, o que permite apontar suas contradições. Dessa forma, de acordo com o projeto de lei em questão, imagens de mulheres produzidas intencionalmente para figurar em cartões-postais são proibidas enquanto fotos de mulheres tão nuas quanto as primeiras podem ser exibidas, veiculadas e comercializadas porque constariam da “cena original”. Do ponto de vista de quem percebe a imagem, no entanto, não há diferença, pois também 3 Ementa do Projeto de Lei 2.813/05. Disponível em: http://alerjn1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
  • 83. cabe ao observador atribuir sentidos e significados às imagens. Assim, qualquer &#pessoa que visse imagens de mulheres de biquínis nos jornais da cidade e empostais dificilmente saberia identificar a diferença de intenção. Ao mesmo tempo, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007o argumento da deputada nos leva à seguinte questão: Quem na praia não está“representando”? Ser ou estar banhista nas praias é também representar opapel de banhista.A ação do estado leva a pensar sobre como imagens quase idênticas podemassumir sentidos diversos. A classificação das imagens será, então, um ato deinterpretação. Como distinguir corpos que fariam parte “original da paisagem” ecorpos que foram ali colocados, ou seja, que foram profissionalmente produzidos?Ou ainda, como distinguir natureza e cultura nos corpos? O estado se propôsessa difícil tarefa e, assim, parece acreditar que pode decidir sobre os sentidose significados dessas imagens. O interessante é que ao mesmo tempo em queproíbe determinadas imagens em postais, autoriza outras que passam a gozarde uma legitimidade pelo fato de o estado interpretar que elas fazem parte docontexto original. Então, mais do que simplesmente ver um estado que proíbe,destacamos um que autoriza e legitima certos corpos em determinadas paisagens.Tomando a situação como exemplo, este artigo busca fazer uma reflexão sobrealgumas das múltiplas relações entre estado, turismo e cultura, expressas porintermédio dos sentidos e significados dos cartões-postais agora proibidos porlei. Para tal, utilizamos como referencial a abordagem de Foucault (1989) acercados corpos dóceis; a de antropólogos, como Mauss, sobre o corpo no universoda cultura e a de Howard Becker, sobre as regras e sua imposição, uma vez quea proibição dos postais apelativos no Estado do Rio de Janeiro oferece apossibilidade de se pensar o que faz com que uma infração seja, em algummomento, tornada pública mobilizando os recursos necessários para que asregras sejam impostas. Esse referencial fundamentou a reflexão e análise do atodo estado levando à (des)construção de uma relação entre estado, mídia e corpo.A partir de uma amostra aleatória de matérias veiculadas pela mídia logo após aaprovação do projeto de lei, buscamos pensar o turismo como sendo decisi-vamente atravessado pelas questões políticas e ideológicas.Mais do que tomar os cartões-postais como expressões de natureza utilitarista,instrumental e individual, os pensamos como signos, repletos de significados,de informações, tanto para quem os produz quanto para quem os vê, portanto,meios de comunicação, suportes de mensagens. Ao escrever sobre o corpofeminino à praia, quase nu, agora proibido de ser representado nos postais,
  • 84. propomos pensar como esse espaço é entrecortado por interesses, visões de &$ mundo, ethos e se configura, acima de tudo, como um espaço relacional, cujo significado aparece na relação mais do que nas partes.Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo Estado, lei, corpo e cultura Política e cultura possuem uma longa história em comum. No pensar de Clifford Geertz, uma das “coisas que quase todo mundo conhece, mas não sabe muito bem demonstrar é que a política de um país reflete o modelo de sua cultura”. (1978, p. 206). Noções como sociedade civil, soberania, estado, corpo político, cidadão, indivíduo, liberdade, direito natural, vontade geral e moral foram funda- mentais à emergência da noção de cultura. (HELL, 1989). Tal noção foi construída paralelamente à conformação do campo político, principalmente entre os séculos XVII e XIX. A política é uma obra da cultura, afirma Victor Hell, que escreve também: “Um dos princípios da cultura é o de constituir o lugar de interferências entre múltiplas atividades políticas e econômicas, entre outras; falar de cultura é incluir de certa forma a política e a economia em seus propósitos”. (1989, p. 12). É à cultura que nos referimos ao estudar a forma como o estado, através da iniciativa de um empresário moral (BECKER, 1977b), proíbe postais com imagens apelativas de mulheres. Mas também tratamos de poder, de quem o exerce, com que meios e em nome de quem. Nesse sentido, tomamos as definições propostas por Geertz: A cultura, aqui, não são cultos e costumes, mas as estruturas de significado através das quais os homens dão forma à sua experiência, e a política não são golpes e constituições, mas sim uma das principais arenas na qual tais estruturas se desenrolam publicamente. (1978, p. 207). A justificativa apresentada pela deputada estadual para aprovar o projeto de lei 2.813/05 referente aos postais – disponível na página da Assembléia Legislativa na Internet4 – começa reforçando estereótipos naturalizados tais como a exaltação das qualidades tropicais do País, o reconhecimento da beleza das praias, montanhas e mulheres e termina com as possibilidades econômicas: “Toda essa fama atrai turistas, que deixam nos cofres das cidades milhares de dólares, 4 Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
  • 85. contribuindo para o nosso crescimento”5 . Parece ser um apelo à razão econômica, &%mais do que tudo, a explicação que realmente pesa na construção da justificativa,sendo o restante da argumentação complemento. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007A autora do projeto segue reconhecendo o valor do turismo como indústria e“propulsor do desenvolvimento” do Estado do Rio de Janeiro. Tal desenvolvimentoseria prejudicado por uma insistente campanha de exposição da imagem feminina de forma apelativa, to- talmente dissociada de qualquer campanha planejada, que só tem servido à degradação da imagem de nosso Estado e do nosso País, contribuindo sobremaneira para que faça- mos parte da lista de países que incentivam o turismo sexual.6Assim, segue a justificativa: “Ao colocar nos cartões-postais dos pontos turísticosrecortes de figuras femininas em trajes sumaríssimos, geralmente de costas,estas pessoas prestam um desserviço ao nosso País”.7 Por desserviço pode-seentender é que assim como o turismo é indústria e traz capital, o turismo sexualprejudica a imagem, logo afasta outros capitais: tanto em termos de dinheirodireto quanto em termos de construção de imagem, o que afasta verbasindiretamente.Como instância do estado, a Assembléia Legislativa e seus membros podemexercer poder, coibir, proibir, mandar. Assim, referindo-se ao chamado “turismosexual”, o documento explicita: “Este Projeto de Lei visa a reprimir este tipo deiniciativa”.8 E segue: “Precisamos proteger nossas meninas. E o primeiro passopara isso é proibir que se veicule e se exponha imagens de mulheres e meninasneste tipo de cartão-postal”9 [sic]. A justificativa se encerra qualificando o textocomo “Projeto de Lei em favor das mulheres brasileiras”.10A iniciativa tem implícito um discurso de cunho moral e de aspecto cultural. Nãoutiliza como argumento, por exemplo, que é nítido que a imagem das mulheresna praia, sem mostrar seus rostos, apenas ressaltando suas nádegas, nãorepresenta a maior parte da população urbana carioca e menos ainda a população5 Projeto de lei 2.813/2005. Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.6 Projeto de Lei 2.813/2005.7 Idem.8 Idem.9 Idem.10 Idem.
  • 86. feminina brasileira. Representa um grupo social, não toda a sociedade. Mas, && quando veiculados tanto pela mídia de massa quanto pelos cartões-postais que circulam no mundo, aqueles corpos são mostrados como sendo o corpo da mulherSiqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo brasileira, sem pluralidade, sem outras possibilidade de diferença. Tal imagem foi amplamente utilizada pela indústria turística em sua publicidade assim como pelo estado em sua propaganda de Brasil. O corpo e suas imagens são um lugar também de memória. Segundo Clastres, a forma como a sociedade se inscreve nos corpos nos mostra como se dá o pertencimento do indivíduo ao grupo social assim como também permite “avaliar a resistência pessoal”. (1990, p. 129). As marcas inscritas no corpo são história, memória de experiências e, sendo visíveis, tornam-se identificáveis, comunicativas, reconhecíveis, informativas. Afinal, não se pode esquecer nem se tornar indiferente àquilo que não se pode apagar. Se o corpo é marcado, cortado, pintado, queimado, torturado, é porque se quer que ele comunique. Conforme Clastres, uma cicatriz, um sulco, uma marca, são indeléveis. Inscritos na profundidade da pele, atestarão para sempre que, se por um lado a dor pode não ser mais do que uma recor- dação desagradável, ela foi sentida num contexto de medo e de terror. A marca é um obstáculo ao esquecimento, o próprio corpo traz impressos em si os sulcos da lembrança. (1990, p. 128). Olhares menos atentos poderiam classificar tais práticas como primitivas, sel- vagens, irracionais e desprovidas de sentido. Aqui, como em todo comportamento humano, há sentidos e significados em jogo. Toda ação e comportamento sociais somente ganham sentido quando compreendidos a partir da totalidade de uma lógica simbólica. (SAHLINS, 1981). Da mesma forma, “nenhuma prática se realiza sobre o corpo, sem que tenha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico. Não há razões para se supor que as pessoas a elas se submetam a contragosto ou sem conformidade intelectual”. (RODRIGUES, 1983, p. 64). Os penitentes, os que se oferecem em sacrifício pelos outros, os soldados, os bombeiros, aqueles que imaginamos sofrerem castigos cruéis e dolorosos, de um modo geral, aceitam a situação e se conformam com a forma como a sociedade atua sobre seus corpos. Em outra mão, pessoas que se submetem a tratamentos físicos com vistas a modificar sua aparência também aceitam os “sacrifícios” impostos com vistas a alcançar o que é socialmente mais bem-aceito. Nesse sentido, o corpo escarificado, deformado, mutilado, amputado revela um valor coletivo hierárquico. Assim, os homens
  • 87. não perdem a possibilidade de lançar mão desses recursos, para se aproximarem do & ideal de estética corporal que a sociedade define, destacando, dissimulando ou atenuan- do particularidades de sua aparência: submetem-se a dietas especiais, praticam exer- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cícios físicos, pintam-se ou deitam-se em mesas de operações cirúrgicas – porque crêem que, procedendo assim, estarão incrementando a vitalidade de sua constituição orgânica e social. (RODRIGUES, 1983, p. 64).Dos corpos marcados pela tortura nas sociedades indígenas guaranis passamospara o corpo marcado e transposto para os postais das praias cariocas. O corpomoralmente aceito e valorizado na praia, dentro dos padrões de forma e cor,revela a natureza coercitiva do fato social, o poder da coletividade que encontraali, em um espaço dito “democrático”, toda sua expressão de violência. A presençaou ausência do corpo feminino bronzeado de biquíni nas praias cariocas implicaestar diante de relações sociais de poder. Como parte do fenômeno social total(MAUSS, 1974), o poder pode assumir várias formas e modelar diferentementeos lugares, inclusive os turísticos. (GIDDENS, 1991).Mais do que tomar os lugares turísticos como produzidos pelas ações sociais desujeitos orientados por seus próprios interesses individuais – o que nos levaria aadmitir que a ordem social se constrói por meio das ações individuais - osconcebemos como sendo possíveis por meio de um eficaz poder simbólico. É opoder político que autoriza, sanciona e legitima a presença de corpos, seja demulheres ou de homens, nus ou vestidos, de frente ou de costas, nas praias ouna cidade, de dia ou de noite.Surgem, então, questões acerca da forma como o estado, por meio do poderlegislativo do Rio de Janeiro e do projeto que proibiu o cartão-postal demulheres seminuas nas praias – projeto proposto por uma mulher e votadounanimemente – ao mesmo tempo em que interdita o corpo de biquíni nospostais, autoriza e sanciona o corpo, especificamente as nádegas, em outrosespaços. Na Praça da Apoteose, parte integrante da Passarela do Samba,encontra-se uma obra de arquitetura monumental que representa nádegasestilizadas. Se tal parte do corpo feminino está proibida nos postais, comopensar que no ponto central da Passarela do Samba, lugar turístico há maisde vinte anos, visto em todo o mundo, as nádegas reinem absolutas, atraindoa atenção de turistas e foliões que brincam seu Carnaval? Por que essas nãoinduziriam ao turismo sexual? Talvez porque trata-se de nádegas localizadasfora da praia, que não são de carne e osso e que aparecem em um espaçoritual próprio à sua exibição: o espaço burocratizado, racionalizado,profissionalizado e midiatizado do Carnaval carioca?
  • 88. Uma possível resposta a esse dilema talvez esteja na forma como Carnaval,  estado e Igreja, juntos, aparecem para romper dualidades exploradas por DaMatta em A casa e a rua (1987). Em vez de operar com dois pólos dicotômicosSiqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo tradicionais como até então se fizera no pensamento social brasileiro, talvez seja necessário pensá-lo como uma tríade. Estudando o Carnaval, a ordem e a religiosidade como ritual, DaMatta, encontrou um triângulo ritual, uma figura com três lados, cada qual exprimindo uma faceta muito im- portante da realidade social do Brasil [...]. Teríamos então os ritos da ordem, da desordem e os cerimoniais “neutros” das religiões, onde se indicava um lugar fora do comum ou no outro mundo. Estava diante de espaços sociais e ideológicos onde se podia rir e “brincar”, ser sério e “legal”, e de ser ainda neutro e renunciar a favor dos pobres, oprimidos e marginais, dos santos, de Deus e da Igreja. (1987, p. 107). Assim, o corpo seminu mostrado na Passarela do Samba não representaria um problema posto que figura no lugar e no momento permitidos pelo ritual de inversão que caracteriza o Carnaval. No Carnaval, durante o momento em que as convenções aplicadas e em vigor durante todo o ano são momentaneamente suspensas, não vemos problema em corpos nus ou seminus se movimentando pela Avenida e sendo exibidos mundialmente via TV. Afinal, o tempo e o espaço são apropriados e reinventados por sujeitos e grupos segundo lógicas simbólicas bastante distintas. Quanto ao cartão-postal, está à venda o ano todo em bancas de jornal, o que pressuporia um rompimento com a própria ordem das coisas. É interessante notar que estamos nos referindo ao corpo que aparece em um espaço urbano e que “a cidade é já a realidade da concentração da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres, das necessidades”. (MARX; ENGELS, 1984, p. 64). Também é importante pensar o cartão-postal como utilizando código que talvez seja lido de forma distinta por “locais” e por pessoas de origem cultural distinta daquela dos cariocas ou brasileiros, como os turistas estrangeiros. De corpos autorizados a corpos dóceis Em Vigiar e punir, história da violência nas prisões, Foucault escreve que o corpo, além de estudado do ponto de vista da biologia, da saúde, da doença, também se inscreve em um universo político. Assim, “o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais”. (1989, p. 28).
  • 89. A relação política do corpo pode começar com vistas a uma utilização econômica, como força de produção investida de relações de poder e dominação. Dessaforma, “o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007corpo submisso”. (1989, p. 29). Em uma época em que a sexualidade é ampla-mente discutida e explorada pela mídia, pela publicidade e gera um setor eco-nômico com diversas ramificações, o corpo muitas vezes aparece como do-minado pelas relações de poder econômico e político. Não são somente insti-tuições como hospitais, prisões, escolas e quartéis que agora disciplinam oscorpos. A praia, os postais e suas representações aparecem na cena contem-porânea como les nouveaux lieux onde o corpo, assim como o sujeito e suasubjetividade, são submetidos ao poder disciplinador. Afinal, como explica Hall,em sua leitura sobre Foucault, o objetivo do poder disciplinar consiste em manter “as vidas, as atividades, o trabalho, as infelicidades e os prazeres do indivíduo”, assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento especializado dos profissionais e no co- nhecimento fornecimento pelas “disciplinas” das Ciências Sociais”. (1999, p. 42).O discurso sobre sexualidade, longe de operar apenas como pólo de repressãosexual, de moral, informa sobre a esfera do legítimo e do autorizado, dasestratégias que se montam como discursos com o objetivo de fazer aparecer umobjeto de conhecimento. Por meio da investida do sexo como elemento simbólico,pode-se operar a sua regulamentação e controle. Como recursos estratégicos,os discursos sobre o controle populacional, as doenças venéreas, a procriação,os costumes e a moral do sexo tratam de manter o indivíduo e seu corpo dentrode fronteiras legitimadas pela ciência e pelo Estado. Ao se elaborar um discursocientífico sobre a sexualidade, o que se quer é evitar que a apropriação da naturezavia cultura esteja sujeita a desvios e disfunções.O corpo feminino presente nos cartões-postais não é somente um objeto e lugarde intervenção e de demarcação da sociedade por parte dos aparatos discursivossobre a sexualidade. Parafraseando Foucault (1989), seria o corpo “objeto ealvo de poder”. A investida da regulamentação política por parte do estado sobreos postais em que aparecem mulheres seminuas nas praias cariocas torna claraa forma de controle sobre o corpo e o sexo quando se afirma que, o que está emrisco é a saúde e a moral das mulheres e meninas cariocas e brasileiras. É deum corpo que, quer apareça muito, quer pouco vestido, poderia escapar, masnão escapa ao controle dos dispositivos de que se está a tratar. Tal controle
  • 90. também se estende ao campo do lazer, do qual grandes contingentes popu- lacionais usufruem desigualmente. Assim, o próprio turismo é, de fato, um novo espaço de intervenção da disciplina burocrata estatal.Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo O pensamento de Foucault representou um dos marcos no descentramento do sujeito em relação aos grandes sistemas filosóficos que o viam como uma unidade integrada, racional, consciente, coerente e acabada. (HALL, 1999). A partir de então, a própria construção da identidade do sujeito e de seu corpo torna-se muito mais problemática. Refletindo sobre a relação poder e corpo, Foucault constrói o conceito de corpo dócil, sujeito a uma tecnologia política do corpo: um saber e um controle que levam a uma sujeição que não é obtida pela violência ou ideologia, que pode ser tecnicamente pensada. Segundo o autor, a tecnologia política do corpo seria uma espécie de “microfísica do poder posta em jogo pelos aparelhos e instituições, mas cujo campo de validade se coloca de algum modo entre esses grandes funcionamentos e os próprios corpos com sua materialidade e suas forças”. (1989, p. 28). Praia e corpo feminino, muitas vezes confundidos como objetos naturais ou mais próximos da natureza, são investidos de uma gramática também política: estão sujeitos a códigos precisos de comportamentos legítimos e autorizados. A praia e o corpo – a primeira, lugar público, ideologicamente visto como democrático ou de todos, e o segundo, que se acredita poder mostrar-se e expressar-se livremente na praia – pela forma como aparece, atestam como o poder se faz presente. Aparecer de biquíni, na praia, de dia, longe de ser uma quebra das regras de um poder que se quer contrapor, é justamente reconhecê-lo como autorizado e legítimo. Ao proibir determinadas imagens, o estado, via Poder Legislativo, trata de um corpo dócil, “que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado”. (FOUCAULT, 1989, p. 125). Contemporaneamente, ir às praias urbanas é ato investido de regulação e vigilância da parte de uma gama bastante ampla de especialistas que versam sobre onde, quando, como e por que o corpo deve aparecer no espaço da praia ou em repre- sentação nos postais. Na praia encontramos policiais, assegurando que os in- divíduos terão sua segurança garantida; com eles, encontramos a guarda muni- cipal, fiscalizando o cumprimento preciso dos códigos de posturas municipais; não menos presentes estão os bombeiros salva-vidas, guardando a segurança de banhistas no mar. Além desses, médicos, sobretudo dermatologistas e infec- tologistas, nutricionistas, biólogos e sanitaristas, atestam o melhor horário para
  • 91. se permanecer na praia, o que deve ou não ser ingerido, quais as ameaças !infectocontagiosas que rondam os banhistas e o que fazer para se prevenir. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Dessa forma, analisar o investimento político do corpo e a microfísica do podersupõe um “corpo político como conjunto dos elementos materiais e das técnicasque servem de armas, de reforço, de vias de comunicação e de pontos de apoiopara as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e ossubmetem fazendo deles objetos de saber”. (FOUCAULT, 1989, p. 31). Enfim, éde corpos dóceis que se está a tratar, afinal, o poder que regula e disciplina éacompanhado de um saber que o instrui.Regras, valores e sua imposiçãoHoward Becker, em As regras e sua imposição, leva a cabo uma discussão à qualrecorremos para pensar a forma como a criação da regra e sua imposição se deramno caso de cartões-postais. Becker (1977) parte de uma pergunta bastante geral eque interessa a este trabalho: “Quando são feitas e impostas as regras?” (1977,p. 86). Quando regras são feitas a fim de punir infratores, pergunta-se: Quem asimpõe? Geertz adianta a resposta da seguinte maneira: “As idéias – religiosa, moral,prática, estética – como Max Weber, entre outros, nunca se cansou de insistir, devemser apresentadas por grupos sociais poderosos para poderem ter efeitos sociaispoderosos: alguém deve reverenciá-las, celebrá-las, impô-las.” (1978, p. 209).Toda imposição se origina de uma iniciativa. A iniciativa é, para Becker, a variável-chave no estudo da imposição de regras. Contudo, a dimensão pública e as forçaspresentes nas organizações também são muito importantes na imposição das regras.Analisando o caso dos postais, em linhas gerais, a autora da lei, deputada AliceTamborindeguy, tomou a iniciativa, tornando-a pública ao mesmo tempo em queutilizou a estrutura organizacional da Assembléia Legislativa a fim de impor as regrasque proíbem que o cartão-postal veicule jovens seminuas nas praias. Conforme Becker, a iniciativa, gerada pelo interesse pessoal, fortalecida com a publicidade e condicionada pelo caráter da organização, é assim, a variável-chave na imposição da regra. A iniciativa opera de forma mais imediata numa situação na qual há concordância básica em relação às regras que serão impostas. (1977, p. 92).Em matéria publicada pela Folha Online (“Lei proíbe cartões-postais com mu-lheres seminuas no Rio”, 18/11/05), observa-se a concordância entre os
  • 92. argumentos da deputada Alice Tamborindeguy e os do secretário estadual de " Turismo da época, Sérgio Ricardo de Almeida. Ambos defendiam o valor das imagens turísticas da cidade e do Estado do Rio de Janeiro que seriam man-Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo chadas pelo que consideram ser um forte apelo para o turismo sexual na cidade e no estado. Conforme Becker, é a partir dos valores que regras concretas e específicas são deduzidas. Os valores seriam como premissas a fundamentar as regras. No caso dos postais, há um conjunto de valores tais como a proteção da mulher brasileira e de sua imagem, proteção da imagem da cidade do Rio de Janeiro como a Cidade Maravilhosa e a do Brasil que não poderiam ser relacionadas ao turismo sexual. Becker enfatiza, no entanto, que não é a existência da regra que garante a sua imposição. Há uma seqüência que, guardando-se as devidas proporções, segue um padrão comum à criação de regras e à sua imposição. Segundo o sociólogo, vai-se do geral para o específico. Em outras palavras, em primeiro lugar, parte-se de um valor geral; em segundo lugar, deduzem-se regras particulares que, em terceiro lugar, serão aplicadas a atos e pessoas específicos (1977). Contudo, sem o papel do empresário moral, ou seja, aquele a quem interessa pessoalmente a aplicação de uma regra, nada aconteceria. Analisando o caso da criação de uma regra e sua imposição para uma lei federal sobre o uso da maconha nos EUA, Becker buscou mostrar que “onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, deveríamos estar atentos para a possível presença de um indivíduo ou grupo que toma a iniciativa”. (1977, p. 107). Finalmente, segundo o autor, onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, deveríamos encontrar pessoas tentando atrair o apoio de grupos coordenados e usando os meios de comunicação disponíveis para desenvolver um clima favorável de opinião. Onde não se desenvolve tal apoio, podemos esperar o fracasso da iniciativa. E onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, esperamos que os processos de imposição sejam moldados pela complexidade da organização, repousan- do sobre uma base de acordos compartilhados em grupos mais simples e resultando de manobras e barganhas políticas numa estrutura complexa. (1977, p. 107). Chamamos a atenção para o fato de que a imposição “ocorre quando alguém trila o apito, tornando a imposição necessária, ao ver alguma vantagem em fazê-lo”. (BECKER, 1977, p. 87). Contudo, como escreveu Galbraith (1986), a
  • 93. todo acúmulo de poder surgem outras fontes em oposição. É a dialética do #poder. Assim, a imposição de uma regra pode gerar posições contrárias a ela.Tal oposição pode gerar ações ou desinteresse, indiferença. A indiferença talvez Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007seja a causa de grande parte das regras que são apresentadas, mas nãoobedecidas. No Brasil, é a situação das leis que “não pegam”. A matéria“Turismo sexual”, do jornalista Pedro Torre, tem como tema a discussão sobreo Projeto de Lei 2.813/05 e adota uma posição pouco crédula ao começar daseguinte forma: “Sobre esse assunto já manifestei minha opinião por vá-rias vezes, sempre com a idéia que dificilmente ‘pegará’, se transformandoem outra lei que não servirá para nada” (03/12/2005). Disponível em: http://sierramar.com.br/noticias/visualizar.asp?Cod=10 ). Tal matéria reflete boaparte do posicionamento da imprensa em relação ao assunto. E mesmo lidandocom um tipo de discurso que buscaria uma atitude objetiva, a imprensa expressarepresentações, visões de mundo.Considerações finaisO corpo, como manifestação cultural, é também lugar de dimensão política. Aida à praia informa sobre o conjunto de possibilidades acerca de como oespaço social é traçado ou desenhado e sobre qual corpo e como tal corposerá mostrado nesse lugar. Longe de ser um campo desprovido de interessese conflitos, a praia é também espaço onde inúmeros atores e grupos disputamo poder. Seja o poder de autorizar quem irá comercializar toda sorte dealimentos e bebidas, de produtos para o corpo (protetor solar, bonés, viseirase óculos de sol) ou quais imagens da praia serão representativas da culturabrasileira em um determinado tipo de mídia, a saber, os cartões-postais.Assim, há, nos códigos culturais, instituições sociais que legitimam e autorizama aparição de corpos que estão de acordo com determinados padrões moraisde beleza e estética.Nesse sentido, ao investir sob forma de lei contra as imagens de mulheres debiquíni nos postais, o estado expõe determinadas contradições. Ele pode levar apensar que proibir essas imagens implica combater dura e eficazmente o problemada prostituição e do turismo sexual, uma vez que não tem podido dar conta daprostituição nas areias da praia ou nas boîtes da orla da Zona Sul, assim como,em instância maior, da exploração de menores e do tráfico de mulheres. Asimagens tornam-se, então, alvo da investida daquilo que Becker chamou“empresário moral” e de trilar o apito (1977b).
  • 94. Aqui se explicita uma forte questão de comunicação, importante para discutir a $ temática: expor mulheres seminuas em um postal é, também e fundamentalmente, uma estratégia de comunicação que visa a construir um imaginário. Em determi-Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo nado momento, esse imaginário corroborou as teses que o estado quis construir. Na atualidade, parece não mais contribuir para o que o estado considera adequado. Aqui, os postais se apresentaram como a ponta desse processo de desconstrução da imagem construída. Isso porque imagens não são selecionadas, editadas e veiculadas sem intenções ou interesses de diversas ordens. Ao exibir ou proibir, existem inúmeras intenções e interesses em jogo. O projeto de lei apresentado à Assembléia do Estado do Rio de Janeiro aponta algumas questões implícitas: reconhece o País como espaço de belezas “naturais” – praia, montanha e mulheres; reconhece o valor econômico do turismo; aponta para a vinculação da imagem construída da mulher na praia carioca com o turismo sexual, mas também aponta para a questão da regra e de sua imposição, com a possibilidade de desobediência a uma lei cujo empresário moral precisou trilar o apito a fim de conseguir chamar a atenção para uma situação específica. O estado reconhece o País onde a natureza é bela e exuberante, inclusive enfatizando a beleza da mulher brasileira. Contudo, justamente por associar a beleza da mulher a uma natureza selvagem indômita, o estado admite que é preciso protegê- la. Ao fazer isso, faz reconhecer que está também presente nesse espaço “natu- ral” que é a praia, mas que sabemos, antes de tudo, que é político. Ao mesmo tempo, o que presenciamos nas praias, mais do que a expressão livre e autônoma de sujeitos dotados de liberdade, implica observar uma série de dispositivos prescritivos de condutas, códigos e comportamentos cujo corpo se coloca como alvo central da circunscrição legal ou moral. Mais de um ano depois da promulgação da lei, ainda era possível observar, em algumas bancas de jornais da Zona Sul carioca, a presença de postais do tipo agora proibido. Em inúmeras outras bancas que antes exibiam os postais, não se observava mais esse tipo de mídia. Observamos uma lei que chama a atenção sobre como, onde e por que o corpo de mulheres jovens é veiculado pela mídia. Ao proibir os postais com mulheres que não estejam fora da cena original, o estado abre, por outro lado, a possibilidade de que outras imagens, desde que inseridas na paisagem original, exibam corpos de mulheres seminuas. Nesse sentido, nos meses que antecedem o verão carioca e principalmente o Carnaval, inúmeros jornais exibem imagens em que corpos de mulheres seminuas aparecem no contexto de uma cena “autêntica e original”, mostrando a todos que são nádegas autorizadas pelo estado.
  • 95. Referências %BECKER, Howard. As regras e sua imposição. In: ______. Uma teoria da ação coletiva. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Rio de Janeiro: J. Zahar, 1977a. p. 86-107.______. Os empresários morais. In: ______. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro:J. Zahar, 1977b. p. 108-121.CLASTRES. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: F. Alves, 1990.DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio deJaneiro: Guanabara, 1987.FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 7. ed. Petrópolis:Vozes, 1989.FREYRE, Gilberto. Modos de homem e modas de mulher. Rio de Janeiro: Record, 1986.GALBRAITH, John Kenneth. Anatomia do poder. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1986.GEERTZ, Clifford. A política do significado. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro:J. Zahar, 1978. p. 206-222.GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.GOLDENBERG, Mirian; RAMOS, Marcelo Silva. A civilização das formas: o corpo comovalor. In: GOLDENBERG, Mirian (Org.). Nu & vestido: dez antropólogos revelam a culturado corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 19-40.HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.HELL, Victor. A idéia de cultura. São Paulo: M. Fontes, 1989.MALYSSE, Stéphane. Em busca dos (H)alteres-ego: olhares franceses nos bastidores dacorpolatria carioca. In: GOLDENBERG, Mirian (Org.). Nu & vestido: dez antropólogos revelama cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 79-137.MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Moraes, 1984.MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: _____. Sociologia e antropologia. São Paulo:Edusp, 1974. p. 209-234. v. 2.RODRIGUES, José Carlos. Tabu do corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.SAHLINS, Marshall. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1981.SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Corpo, comunicação e cultura: a dançacontemporânea em cena. Campinas: Autores Associados, 2006.SIQUEIRA, Euler David de; SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Corpo, mito e imaginárionos postais das praias cariocas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA CO-MUNICAÇÃO, 28., 2005. Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: UERJ, 2005.
  • 96. & Matérias FANTÁSTICO. Beleza ou vulgaridade. 06/11/2005. Disponível em: http://fantasti-Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo co.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0, AA1067312-4005-0-0-06112005,00.html. Acesso em: nov. 2006. FOLHA ONLINE. Lei proíbe cartões-postais com mulheres seminuas no Rio. 18/11/2005. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u115411.shtml. Acesso em: nov. 2006. GRANDELLE, Renato. Mulheres fora dos cartões-postais. Jornal do Brasil, 02/06/2006, p. A13. MORENNO, Pablo. A lei de Alice. 04/11/2005. Disponível em: http://www.verdestrigos. com.br/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=800 . Acesso em: nov. 2006. TORRE, Pedro. Turismo sexual. 03/12/2005. Disponível em: http://www.sierramar. com.br/ noticias/visualizar.asp?Cod=10 . Acesso em: nov. 2006.
  • 97. Comunicação e turismo:possibilidades de conhecimento1 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Mary Sandra Guerra Ashton2 RESUMOEste artigo propõe uma abordagem teórica acerca da noção de comunicação, conforme Maffesolie sua inter-relação com a noção de Turismo desenvolvida por De La Torre, com o objetivo decompreender os novos valores comportamentais observados na atividade turística, sustentadospelo compartilhar. Para tanto, o trabalho busca a reflexão e o diálogo como uma possibilidade deconhecimento por meio da relativização e do estilo proposto por Maffesoli para a SociologiaCompreensiva.Palavras-chave Comunicação. Turismo. Compartilhar. Valores comportamentais.Palavras-chave: ABSTRACTThe purpose of this article is the theoretical approach about the notion of communication accordingto Maffesoli and its interrelation with the concept of Tourism developed by De La Torre with theobjective of understanding the new behavioral values observed in the touristic activity, sustained bysharing. In order to do this, this work seeks the reflection and the dialog as a possibility of knowl-edge through relativization and the style proposed by Maffesoli for the Comprehensive Sociology.Key words: Communication. Tourism. Sharing. Behavioral values.1 Este trabalho faz parte da revisão bibliográfica para a Tese de Doutorado pela PUCRS.2 Doutora e Mestre em Comunicação Social. Pós-Graduada e Bacharel em Turismo pela PUCRS. Autora deensaios publicados na área e organizadora de dois livros. Professora e Pesquisadora na Feevale, no Grupode Desenvolvimento Regional. E-mail: marysga@feevale.br
  • 98.  Introdução O turismo como temática de pesquisa vem conquistando um significativo espaçoAshton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento no campo da investigação científica. Muitas das abordagens favorecem uma visão mais voltada para a economia; no entanto, o que se propõe neste artigo é observar o turismo como um fenômeno social que move milhões de pessoas motivadas, principalmente, pela busca de novas experiências diferentes daquelas vividas no cotidiano. Essa intensa e crescente mobilidade social, descrita pelo fenômeno turístico, assume características diversas, variando conforme o período histórico no qual se acha inserida, bem como insinua comportamentos distintos daqueles observados até há poucas décadas. Nesse contexto, a contribuição de Maffesoli, ao desenvolver a noção de comunicação, sublinhando o compartilhar, torna-se relevante para explicar os novos valores comportamentais observados na sociedade pós-moderna, bem como a sua relação com o turismo. Por sua vez, o turismo, sustentado por De La Torre, revela a importância das interações sociais. Elas acontecem durante a atividade turística e podem encontrar sentido no compartilhar proposto por Maffesoli. Desse modo, a comunicação e o turismo, apesar de suas características próprias e singulares, podem se mostrar complementares, conforme os princípios da Sociologia Compreensiva. O COMPARTILHAR: o que não é medido, mas vivido A comunicação é lida por Maffesoli como uma interação e, como tal, é recarregada, constantemente pelos sujeitos, de acordo com a necessidade de estar junto. Conforme o autor, apenas o que se vive junto pode ser compartilhado, assim “comunicar é servir-se daquilo que se tem em comum”. (MAFFESOLI, 1995, p. 82). A comunicação favorece a percepção do coletivo, delineando, dessa maneira, uma nova ordem social, valorizando a interação, banalizando o eu, cedendo lugar ao plural e, desse modo, conhecer uma tal emoção em comum. A noção de comunicação celebra o compartilhar. “A sociedade é formada por um conjunto de relações interativas, feito de afetos, emoções, sensações que cons- tituem, strito sensu o corpo social.” (MAFFESOLI, 1996, p. 73). A comunicação,
  • 99. enquanto interação, acontece quando se pode comungar um afeto. Assim, a correspondência do sentimento, do sensível, não trata do número de vezes oudo número de pessoas, mas sim, da essência, da paixão. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Dessa forma, a comunicação é realimentada pela necessidade de socializaçãoinerente à natureza humana e pode ser demonstrada de várias maneiras. Assim,“as refeições, as festas, as procissões são, sabidamente, um modo de dizer oprazer de estar junto” (MAFFESOLI, 1996, p. 85), são formas de pôr em comumos afetos e celebrar essa comunalização.Portanto, a ordem do singular cede lugar à efervescência da massa, na medidaem que metamorfoseia o individual para explodir no outro, vislumbra-se a oposiçãoao hedonismo. Maffesoli3 apresenta questões inquietantes referentes à novaconstituição da socialidade. Para o autor A metamorfose não é o fim, mas a separação, a desagregação para que outra associação possa se formar. Sublinha a crise do individual, mas o reforço do coletivo e outra maneira de estar junto se forma. Assim, a pós-modernidade pode ser lida como a heterogenização, a pluralização do mundo, gerando identificações múltiplas. (2005, p. 32).Não se trata de fazer distinção entre o bem e o mal, mas de vivê-lo na pulsaçãodo hoje, numa ondulação que aceita e celebra ora Dionísio, ora Apolo.“Vive-se uma forma de estar-junto, que não está voltada para o longínquo oupara uma sociedade perfeita, mas que se dedica a organizar o presente.”(MAFFESOLI, 1995, p. 17). A sociedade assume uma postura, essencialmente,presenteísta e, com ela, o peso ou a leveza da velocidade do aqui e agora.Ao compartilhar sentimentos, emoções, afetos pressupõe-se comungar com outraspessoas e, por meio dessa ação, de fazer parte, estar vivendo o mesmo sentimentocom os outros, dá-se início e continuidade ao processo de integração e evoluçãosocial, sugerido por Maffesoli como entrar em correspondência com os outros, oque se vive junto e não é medido, mas apenas vivido.Dessa forma, a comunicação se dá a partir do experimentar junto, exalta ocorresponder, o viver em comum uma experiência prazerosa ou infeliz, pouco3 Anotações de palestra proferida por Maffesoli: “O retorno das emoções sociais” – UFRGS, 17/10/2005, em Metamorfoses da cultura contemporânea.
  • 100. importa, só é relevante o sentido coletivo da ação. Para Maffesoli (1996, p. 83)  “há no ar uma afetividade que tende a explodir e contaminar todos os setores da vida social”. A afetividade ultrapassa o conceitual, já que é, essencialmente,Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento sensível. Fala-se aqui do que não é quantificável, a paixão, a emoção. Maffesoli faz referência à comunicação tátil, que tem por objetivo, simplesmente, o contato, o participar junto. Tende a uma uniformização na maneira de vestir, de falar, dos esportes ou apenas freqüentar locais cotidianos, como numa espécie de eco, com grau zero de conteúdo, acentuando, unicamente, a importância do coletivo. Nesse caso, forma-se um novo sujeito, rompendo-se com o princípio de individuação, tirando-se de circulação o egocêntrico, “seja por uma Comunicação verbal, seja por uma Comunicação não-verbal, está em interação com o outro”. (MAFFESOLI, 1995, p. 80). Adicionalmente, a questão estética complementa essa noção de que a comunhão é o fundamento para a geração de movimentos de atrações e de repulsões. Quer sejam elas (as atrações) espontâneas, como as formas teatrais urbanas, quer escondi- das pelos calendários musicais ou esportivos, quer programadas, como os períodos festivos ou de férias [...] não faz a menor diferença. Em cada um desses casos, além das simples causalidades racionais, observa-se um desejo de estar junto. (MAFFESOLI, 1996, p. 73-74). O compartilhar redefiniu a necessidade de comunicação na sociedade. As com- ponentes sociais, que determinam tais desejos, são universais. Elas se verificam em qualquer parte: compartilhar experiências (positivas ou negativas), conquistas, conhecimentos, cultura ou integrar-se a elas livremente entre os infinitos agentes sociais, que neles transitam. Sem isso, se (des)configuram alguns aspectos do cenário típico dos contextos pós-modernos da sociedade contemporânea. Maffesoli (2001, p. 113) considera que “a Comunicação, ao mesmo tempo, verbal e não-verbal, constitui uma vasta rede, que liga os indivíduos entre si”. Nesse sentido, deve-se acrescentar que não apenas a verbalização tem estatuto de laço social, mas as situações silenciosas devem ser incluídas como ativos da comunicação, atendo-se a uma perspectiva orgânica de grupo, seja na linguagem corporal, seja nos ruídos das músicas. Assim, a profusão de imagens pode provocar a cultura dos sentimentos por meio dos elementos que fazem parte dos atrativos turísticos. Podem ser elementos das cidades, as linhas arquitetônicas, as ruas, o entorno natural, dotado de elementos, como os cheiros, as texturas, os sons.
  • 101. A comunicação pode se dar, ainda, através das cores, uma vez que “constituem !estímulos para a sensibilidade humana, influindo no indivíduo, para gostar ounão de algo, para negar ou afirmar, para se abster ou agir”. (FARINA, 2000, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007p. 112). A reação das pessoas em relação à cor é particular e subjetiva, estandoligada a vários fatores que fazem parte da vida de cada um. “As cores são umarealidade sensorial [...], atuam sobre a emotividade humana, produzem umasensação de movimento, uma dinâmica envolvente.” (FARINA, 2000, p. 101).Assim, assumem um papel relevante na condução das imagens, associadas àexperiência, vivida pelo agente do processo comunicacional. Elas são elementoscomplementares à forma, dão consistência à mensagem compartilhada e facilitama continuidade da correspondência por se constituírem em elemento comum aosque interagem em seu processo, tanto no plano físico quanto no imaginário.(CHEVALIER; GHEERBRANT, 1997).É no conceito do compartilhar que se encontra a função expressa na origemetimológica da comunicação: tornar comum a todos – fazer algo comum,conhecimento compartilhado. Está na origem dos sistemas sociais a organizaçãourbana, através da qual se otimiza o processo comunicacional.Para o qual “comunicar-se é servir-se daquilo que se tem em comum”. O contextoé essencialmente pluricausalista, polissêmico, plural, ele favorece a percepçãodas coisas em massa e permite, portanto, compreender as massas e tambémos diversos movimentos que as animam. (MAFFESOLI, 1995, p. 82).O compartilhar das experiências, enquanto vividas, constitui-se em elementoque merece atenção em relação ao Turismo. Na medida em que as pessoassentem-se motivadas a “estar-junto”, forma-se a cadeia motora dos deslocamentoshumanos (buscar algo em outro lugar e no outro). O comungar do vivido, noinstante em que é vivido, é que desperta a curiosidade e o desejo de experimentarjunto e, ao mesmo tempo, que/com os outros, resultando em atratividade turística.A comunhão constitui-se no elemento principal da atratividade turística, umavez que as pessoas, simplesmente, vivem, surge a necessidade da interação.O Turismo permite essa comunhão, na medida em que os sujeitos compartilhamas suas vivências, estão juntos, comungando em torno de um mesmo objeto,fazendo parte, experimentando uma tal emoção em comum. Desse modo,possibilita-se a formação da cadeia motora de atração de públicos aos locaisturísticos.
  • 102. " TURISMO: (re)definindo novos padrões de convívio socialAshton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento O Turismo é um fenômeno social que dá conta de inúmeras atividades e que mantém relevantes interações com o meio. Por conta disso, sua prática se apresenta como um brinde ao estar junto, ao mesmo tempo em que pode explicar as transformações observadas nos novos valores comportamentais descritos na atualidade e observados na atividade turística. Assim, a noção de Turismo é complexa e abrangente. O Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporal de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, se trasladam de seu lugar de residência habitual a outro, no qual não exerçam nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas relações de importância social, econômica e cultural (DE LA TORRE, 1997, p. 16). Apreende-se que essa manifestação do comportamento humano são movi- mentações, ou seja, indivíduos que se trasladam de um local para outro e que promovem intensas relações sociais. Essa tensão, provocada pelo movimento de indivíduos, pode ter reflexo em todos os níveis formadores da sociedade, sejam eles econômicos e sociais, sejam culturais e ambientais. As transformações provocadas pelo fenômeno turístico se estendem por inúmeras áreas das atividades que mantêm relações diretas ou indiretas com o Turismo, razão pela qual torna-se relevante compreender os vetores que lhe são característicos, bem como as interações que acontecem nos seus campos de abrangência. Para De La Torre (1997, p. 101) “posto que o Turismo é um fenômeno eminentemente social, por derivar de deslocamentos humanos, teve, desde o seu início, uma estreita interdependência nas relações de interação com outros fenômenos sociais”. Portanto, o Turismo pode ser identificado a partir das repercussões sociais que se estabelecem através da diversidade de ações, entre elas, as advindas do aumento de mobilidade social. Conforme De La Torre (1997, p. 101), o Turismo, “na atualidade, transforma os moldes tradicionais de conduta tanto dos homens como das coletividades”. A mobilidade social, até então motivada por causas políticas e econômicas, passa a encontrar razões de outra ordem, como a espiritual, a emotiva e a intelectual.
  • 103. Cria-se, assim, uma nova demanda por lazer na atualidade, reforçada pelas #oportunidades que se abrem com os avanços tecnológicos mais recentes. Esseincremento vigoroso dos deslocamentos, por razões não econômicas, associadas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007ao Turismo, leva a novos padrões e formatos nas regras estabelecidas para oconvívio social.Nesse cenário de intensa mobilidade, entram em cena os atrativos turísticos,que figuram como elementos responsáveis pela motivação do deslocamento daspessoas, da sua residência para outra localidade, em busca de coisas, para vere fazer. Portanto, são os responsáveis por atrair visitantes para determinadoslocais, com o objetivo de transformar a experiência de visitação a um lugar emuma experiência singular, prazerosa e de significado diferenciado. (FERRI;RUSCHMANN, 2000).Desde épocas mais remotas, a curiosidade em conhecer outros locais movemilhares de pessoas. Esse movimento vem crescendo de forma acelerada – oTurismo movimentou 842 milhões de turistas no mundo durante o ano de 2006,um crescimento de 4,5% em relação aos 808 milhões de 2005 (OMT – O GLOBO,20/01/07)4 – gerando a criação de uma indústria de atrativos, que vem agindocomo motor dos deslocamentos.Essa busca incessante por ver e fazer, enfim, por interatividade, formata osatrativos na atualidade. A oferta se direciona a atender ao olhar dos viajantes.Assim, tanto os atrativos turísticos naturais como os atrativos culturais, bemcomo o estudo das demandas, tornam-se relevantes para análises referentes aoTurismo e à sua relação com a comunicação. Nesse sentido, deve-se dar atençãoàs formas de representação simbólica, que cada atrativo turístico terá noinconsciente das pessoas, ao procederem à escolha de seus destinos.A comunicação, por sua vez, pode contribuir para (re)definir os novos valorescomportamentais observados na atividade turística. Os traços presenteístas quepermeiam as noções de Turismo e de comunicação são reforçados na medidaem que o estar junto exige uma ação presente: aqui e agora.4 OMT – Organização Mundial do Turismo. Em entrevista, o secretário-geral da OMT Francesco Frangiallidisse que é “uma fase histórica de crescimento contínuo ao longo dos três últimos anos, já que o númerode turistas aumentou em 150 milhões, e estão ocorrendo crescimentos muito importantes em váriasregiões”. Dados disponíveis em O Globo, 20/01/07.
  • 104. O compartilhar das experiências observado no Turismo é formador da socialidade e, $ portanto, motor dos deslocamentos humanos em busca do outro (lugar). A ação é voltada para o presente, para o instante em que é vivido, exaltando unicamente oAshton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento que é vivido em comum, compartilhado. O comungar da experiência se transforma no fator da atratividade turística, bem como estabelece uma relação de simbiose entre as noções de Turismo e de comunicação. Portanto, mostram-se complementares, redefinindo novos padrões comportamentais para o convívio social. Comunicação: o mundo das idéias Para além da epistemologia da comunicação, Maffesoli apresenta novas formas de compreender aquilo que é do senso comum. Mesmo os elementos (trans)for- madores da socialidade, considerados muitas vezes banais, são objeto de estudo da Sociologia Compreensiva proposta por Maffesoli. Abrangente na sua totalidade, a Sociologia Compreensiva, também chamada Sociologia do Lado de Dentro, ocupa-se em explicar os pormenores da vida de todos os dias por meio de cinco pressupostos enunciados por Maffesoli (1985). Possui, como uma de suas características, a universalidade e a subjetividade nas questões do cotidiano, do mundo das idéias; elementos essenciais na des- crição conceitual, que envolvem a reflexão deste estudo. O objeto da Sociologia Compreensiva é o estudo abrangente dos processos de evolução das sociedades, contemplando o cotidiano e a subjetividade, através da análise integrada dos momentos e dos movimentos sociais. “O essencial se encontra na invariabilidade do homem em sociedade, no retorno do idêntico, nas grandes constantes da condição humana.” (MAFFESOLI, 1985, p. 10). Considerações finais Esse artigo se ocupou em compreender e explicar os novos valores comporta- mentais, descritos no Turismo e sustentados pelo compartilhar, como um dos determinantes do movimento social observado na atualidade. Por meio desse exercício, houve a possibilidade de dar uma nova compreensão ao fenômeno social, representado pelo Turismo, a partir da análise de um de seus elementos mais contemporâneos, como é o caso da comunicação.
  • 105. A comunicação caracterizou-se, em sentido verbal e não verbal, na medida em %que se verificou o compartilhar dos sentimentos, das paixões, dando início aoprocesso de interação, com base na comunhão de afetos, para o bem ou para o Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007mal, valorizando o mundo dos signos. Através da realimentação constante dacomunicação, por intermédio dos símbolos, é delineada uma nova maneira decomunhão, na qual o destaque ao coletivo entra em sinergia com o que é vividoenfatizando o presente.No Turismo se verificou a presença desses valores constitutivos da sociedade,como ingredientes importantes para ligar pessoas e como fundamento naturalda socialidade. A prevalência das práticas comuns e tradicionais promoveidentificação desses elementos no âmbito sociológico, naquilo que orienta aordenação dos fenômenos sociais, como é o caso do Turismo, que conduz àprodução de sentido.Por outro lado, o estudo mostrou que o Turismo desempenha um papel relevantena sociedade, uma vez que realimenta o processo de comunicação, enquantocontribui para reforçar a sua identidade. O Turismo e a comunicação seapresentam, dessa maneira, complementares.Assim, a leitura do Turismo e sua relação com a comunicação pode ser umacontribuição para o estudo dos comportamentos sociais, inscritos nas idéias deMaffesoli e da Sociologia Compreensiva na busca pela investigação, a partir docotidiano, para traçar o perfil das representações da sociedade.Desse modo, foi possível promover o diálogo entre a noção de Turismo e decomunicação, respeitando as características do método, as particularidades dosteóricos, Maffesoli e De La Torre, e estabelecer os níveis de convergência entreambos. Logo, descartou a perspectiva positivista, já que teve como objetivo aobservação e o acompanhamento do processo que relaciona a vida à represen-tação como uma possibilidade de conhecimento.ReferênciasCHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: J. Olympio,1997.DE LA TORRE, Óscar. El Turismo: fenómeno social. México: Fondo de Cultura Económica,1997.
  • 106. FARINA, Modesto. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: E. Blücher, & 2000. FERRI, Cássia; RUSCHMANN, Dóris. Turismo: visão e ação. Revista Científica do MestradoAshton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento em Turismo e Hotelaria, Itajaí: Univali, ano 2, n. 4, p. 9-17, fev. 2000. MAFFESOLI, Michel. O conhecimento comum. São Paulo: Brasiliense, 1985. _____ . A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995. _____ . No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996. _____ . Sobre o nomadismo, vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001. _____ . O retorno das emoções sociais. Anotações da Palestra proferida por Maffe- soli – Salão de Atos da UFRGS – “Metamorfoses da cultura contemporânea”, 17/10/ 2005.
  • 107. Tecnototemismo:identidades múltiplas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007e nova subjetividade Lauren Ferreira Colvara1 RESUMOA formação da subjetividade, com um recorte específico para a reconstrução da identidadeatravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste artigo. Ao procurar a “evitação dedesprazer” ou produção de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões para que assim haja umsentimento de pertencimento, de conexão a um sentido de identidade individual e grupal. A articulaçãoentre essa identidade, a cultura e os meios de comunicação é uma relação construída e eliciadapela procura de uma zona de conforto e/ou fuga do sofrimento. Teoriza-se, assim, sobre a formaçãode novos tabus e totens sob a regência das tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar:tecnototemismo. O tecnototemismo seria o rompimento com o passado e suas leis, seria oestabelecimento de uma cultura do prazer e da satisfação, de um hedonismo crônico para a obtençãoda transcendência do ser. Esse processo é promovido pelas tecnologias de comunicação. As regrase o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades são produzidas por essa, mesmoque operada pelo homem. Há a crença de que com o saber são possíveis transformações,desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo à sua volta. Produz-se a angústiada perda do poder que é deslocada para o ritual do rompimento de barreiras, da transcendência doser, da imaterialidade, da virtualização. Caberia pensar no parcelamento da subjetividade emidentidades múltiplas e fugazes, uma completa abstração do social e um reforço no uso de aparatostecnológicos que esse indivíduo experimenta ao trocar de identidade, novas peles, novas texturasde fantasia e, principalmente, na realização de suas fantasias num contexto virtual, e não, objetivo,o faz mergulhar em si próprio.Palavras-chave Comunicação. Identidade. Subjetividade.Palavras-chave: ABSTRACTThe formation of the subjectivity with a specific clipping for (re) the construction of the identitycrossed for the communication technologies will be the focus of this article. When looking for the“avoidance of displeasure” or production of pleasure the individual produces contexts and connec-1 Psicóloga pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp). Mestre em Comunicação Midiática pelaFaculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Unesp/Bauru). Pesquisadora no Grupo Mídia e Sociedade(CNPq). E-mail: laucolvara@yahoo.com.br
  • 108. tions so that thus it has a belonging feeling, of connection to a direction of individual and group  identity. Therefore, the joint between this identity, the culture and the medias are a constructed relation provoked for the search of a zone of comfort or escape of the suffering. It articulates, thus, on the formation of new taboos and totens under the regency of the communication technologies,Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade which have to call: tecnotemism. The tecnototemism would be the disruption with the past and its laws, would be the establishment of a culture of the pleasure and the satisfaction, of a chronic hedonism for the attainment of the to exceed a of the being. This process is promoted by the communication technologies. Therefore, if the culture if characterizes for definitive limits, and the phenomenon after-humanist considers the disruption of the norms as revolutionary action, has an inversion of values, where the machine dominates the man in a tecnototenic relation. The rules and the world start to be definitive for the machine. The truths are produced by these, exactly that operated for the man. The belief that with knowing is possible transformations, development, growth and, over all the control of the world its return. They produce the anguish of the loss of the power that is dislocated for the ritual of the disruption of barriers, of the to exceed of the being, of the immateriality, of the virtualization. It would be fit to think about the parcelamento of the subjectivity in multiple identities and fugitive, a complete abstraction of the social one, and a reinforcement of the use of technological apparatuses where this individual tries when changing of identity, new skins, new textures of fancies, and mainly to carry through its fancies in a virtual context and not objective, it makes it to dive in proper itself. Key words Communication. Identity. Subjectivity. words: a teoria psicanalítica, supõe-se que o indivíduo, para sua formação, tenda a explorar o mundo a sua volta, tentando resolver as interrogações que N nele habitam elaborando respostas com a menor tensão desagradável possível. Ao procurar esta “evitação de desprazer” (FREUD, 1920, p. 17), ou produção de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões socioistóricas para que assim haja um sentimento de pertencimento, de contingência ligada a um sentido de identidade individual e grupal. Portanto, a articulação entre essa identidade, a cultura e os meios de comunicação é socialmente construída, no sentido da procura de uma zona de conforto ou de fuga do sofrimento, no entanto, o sentido é variável conforme a situação e é atribuído pelo indivíduo em sua existência. A formação da subjetividade, com um recorte específico para a formação da identidade atravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste artigo. Teoriza-se sobre a formação de novos tabus e totens sob a regência das tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar: tecnototemismo. Dessa forma, problematiza-se a questão da formação de uma nova subjetividade
  • 109. atravessada por essas tecnologias, que, nos campos da filosofia e da comuni- cação, são identificadas como um movimento “pós-humanista”.2 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007As indagações propostas aqui partem de um paradoxo aparente, em que essestabus têm origem nas tecnologias que são instrumentos para a realização doprazer, da projeção, conseqüentemente, de uma não-regra. No entanto, percebe-se um movimento de estabelecimento de tabus pós-modernos, em que se formauma “religião da máquina”, isto é, um tecnototemismo.O sujeito depende não da emissão das informações, mas da forma como elassão elaboradas na constituição de subjetividade. É nesse ponto da produção desentido e de identidade que se insere a problemática dos meios de comunicação,pois essas tecnologias de comunicação se tornam instrumentos de articulaçãoda subjetividade, em que identidade e cultura passam por modificações,institucionalizações, onde os discursos são construídos.A revolução tecnológica não alterou apenas os hábitos cotidianos, mas criouuma nova cultura: a tecnocultura. Possibilitou ao homem a ilusão e o poder dasuperação do seu ser. Estabeleceram-se relações totêmicas, tais quais as detribos australianas descritas por Freud (1913) em Totem e tabu, em que a ordemtotêmica estabelecida vigorava na organização da família. O tabu criado dentroda dinâmica das relações totêmicas vem com a carga da negação, do proibido,das regras a serem obedecidas. O significado de “tabu”, como vemos, diverge em dois sentidos contrários. Para nós signi- fica, por um lado, “sagrado”, “consagrado”, e, por outro, “misterioso”, “perigoso”, “impuro”. O inverso de tabu em polinésio é noa, que significa comum ou “geralmente acessível”. As- sim, o tabu traz em si um sentido de algo inabordável, sendo principalmente expresso em proibições e restrições. Nossa acepção de “temor sagrado” muitas vezes pode coincidir em significado com “tabu”. As restrições do tabu são distintas das proibições religiosas ou mo- rais. Não se baseiam em nenhuma ordem divina, mas pode-se dizer que se impõem por conta própria. Diferem das proibições morais por não se enquadrarem em nenhum sistema2 O pós-humanismo atesta a transcendência das fronteiras que se iniciam da espécie, do gênero e até mesmode seu reino, já que, de certo modo, podem resultar da combinação do concreto e do imaginado. Tudo issorepousa na idéia da superação dos limites impostos pelo estado natural. Como enuncia a já célebre frasecunhada por Donna Haraway em seu Manifesto Ciborgue, aqui lidamos com “o prazer da confusão de fronteiras”(2000). Para Haraway, Ciborgue é criatura tanto do nosso imaginário como da nossa realidade cotidiana, quesimboliza o rompimento, já em curso, das fronteiras tradicionalmente estabelecidas na cultura ocidental, comoas de gênero (homem/mulher) ou de natureza (orgânico/inorgânico).
  • 110. que declare de maneira bem geral que certas abstinências devem ser observadas e apre-  sente motivos para essa necessidade. As proibições dos tabus não têm fundamento e são de origem desconhecida. Embora sejam ininteligíveis para nós, para aqueles que por elasColvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade são dominados são aceitas como coisa natural. (FREUD, 1913, p. 38). Entende-se que há o estabelecimento de um totem, criação de um “[...] lugar seguro de refúgio em que a alma podia ser depositada, fugindo assim aos perigos que a ameaçavam”. (FREUD, 1913, p. 143). E esse lugar seguro seria a tecnologia, por isso o tecnototemismo. O gozo e a fantasia têm prioridade em relação à moral e à ética nesse novo espaço, pois o indivíduo consegue escapar da realidade objetiva se projetando nessa virtualidade de desejos. Ao totem são atribuídas características de salvação das frustrações do cotidiano e de materialidade dos desejos, que, na atualidade, são atribuídos às tecnologias de comunicação, a exemplo da TV com a materialidade das imagens, e da internet com a possibilidade de transcendência corporal por meio da imersão na virtualidade. Quais são os graus de valores que devem ser atribuídos à tecnologia na formação subjetiva da criança? Quais seriam as relações desse tecnototemismo nessa subjetividade? E como isso se refletirá na idade adulta? Como fica esse indivíduo em conflito com uma realidade virtual em que não há castração ou frustração e um cotidiano cheio de obstáculos para a realização de seus desejos? A virtualidade ganha um peso maior do que aquele que provém do mundo objetivo; há um fracionamento desse ser pós-moderno, um esvaziamento de seus desejos, pois consegue realizá-los nesse supermercado de desejos. O tecnototemismo é o rompimento com o passado e suas leis, é o estabelecimento de uma cultura do prazer e da satisfação de um hedonismo crônico. É a consolidação de uma cultura narcísica regida pela tecnologia: o grande oráculo, já que os meios de comunicação são capazes de responder às angústias do ser e dela (comunicação). A finitude do ser e a dor relacionadas à repressão dos desejos são solucionadas com o apertar de um botão. Se houver angústia é só mudar de canal, mudar de chat, inventar uma nova identidade na internet. As desgraças e os infortúnios expostos por esses meios de comunicação acontecem com os outros, e o sentimento de compensação é recorrente com a referência da desgraça alheia. É dada à máquina essa capacidade de governabilidade da identidade, das emoções, da abricolage de desejos.
  • 111. A idéia de sociedade é quase apagada, e o universo social emerge como um !agregado fragmentário de indivíduos num vazio sem restrições históricas emateriais. O projeto individualista teorizado por Velho (1994) é a manifestação Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007de um projeto de sociedade moderno que toma forma. Na sociedade tradicional,temos a história e a memória do grupo em primeiro plano, os mitos e asnarrativas reforçam o sentimento de pertencimento dos indivíduos àquelaunidade. Em contraste, na sociedade moderna, a ideologia individualista épredominante, assim como há exposição a múltiplas experiências, contradiçõese segmentações. O indivíduo se torna avesso à idéia de uma organização so-cial, que implicaria uma limitação da realização dos desejos, das possibilidadesmáximas de cada um.Entende-se que o “projeto” é a nova subjetividade imbricada diretamente com aidéia de indivíduo, que é o reforço ideológico do individualista. O indivíduo torna-se o protagonista da sociedade moderna, em que a centralidade está nainstauração do significado, força constitutiva de modelos, paradigmas e con-figurações culturais – elemento básico de negociação da realidade. Nessa ne-gociação simbólica, o que importa não é a informação em si, mas a sua elaboração,o significado atribuído. O projeto é dinâmico e é permanentemente reelaborado, reorganizando a memória do ator, dando novos sentidos e significados, provocando com isso repercussões na sua identidade. Assim a biografia, valorizada ao extremo em um mundo individualista, está sujeita a periódicas revisões e reinterpretações. (VELHO, 1994, p. 104).Estamos diante da manifestação de uma cultura tomada pelo excesso para supriro vazio do ser na pós-modernidade, numa realidade em que os ideais estãodifusos, e o individualismo parece ser a única causa possível para a proteção deum ego fragilizado. Se a cultura se caracteriza por determinados limiares, e ofenômeno pós-humanista propõe o rompimento das normas como açãorevolucionária, tem-se uma inversão de valores, em que a máquina domina ohomem, uma relação tecnototêmica.As regras e o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades sãoproduzidas por ela, mesmo que operada pelo homem. O desejo pela verdade,pela informação para dominar, o poder e o saber são coisas há muito ansiadaspelo homem, com a crença de que com o saber são possíveis transformações,desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo a sua volta.Então, a angústia da perda do poder é deslocada para o ritual do rompimento debarreiras, da transcendência do ser, da imaterialidade, da virtualização.
  • 112. É a filosofia do pós-humanismo como uma reelaboração contemporânea de um " tema que já aparecia, ao menos embrionariamente, em filmes futuristas. Todo o discurso pós-humanista pode ser articulado em duas alternativas básicas: aColvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade extensão das capacidades do corpo ou a simples e pura ultrapassagem das limitações corporais (nas fantasias de digitalização da consciência). O que se percebe é a exaltação do individualismo e das medidas anti-sociais, em que a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros” faz todo sentido. Não há necessidade desse outro, da possível frustração, é o triunfo da vontade, do desejo individual. O desejo de rompimento dos limites e a transposição das fronteiras impostas pela realidade é o que se tem chamado pós-humanismo, que tem como um dos traços identificadores básicos o desejo de rompimento dos limites, de atravessamento das fronteiras. O limite já não é mais o corpo; o pensamento ganha materialidade conjuntamente com a fantasia. O prazer da ruptura, provindo de um desdobramento virtual do ser, do poder, é incentivado a todo instante pela sedução das tecnologias de comunicação, pela mídia e por suas correntes de pensamento: cibercultura, que teoriza não mais o homem e a máquina, mas um Ciborgue – a conjunção do homem com a máquina, inventando uma tecnocultura apoiada nesse pós-humanismo. Freud, no início de Além do princípio do prazer (1920), assinala com certa ironia teorias como as citadas acima que conseguiriam falar sobre o prazer e o desprazer de forma “sistemática”: Prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse nos informar sobre o significado dos sentimentos de prazer e desprazer que atuam tão imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese menos rígida será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quan- tidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma “vinculada”, e relacioná-los de tal modo que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitação, e o prazer a uma diminuição. O que isso implica não é uma simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modi- ficações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência de qualquer razão proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade de aumento ou diminuição na quantidade de excitação num determinado período de tempo. (FREUD, 1920, p. 17-18).
  • 113. Segundo Freud (1920), essa possível dominância do princípio do prazer na vida #mental viria da expressão do aparelho numa tentativa de constância. Portanto,essa proposta de uma consciência livre de amarras do corpo, principalmente do Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007espaço e do contexto, em que os indivíduos se constroem, se reconstróicontinuamente alterando a noção de identidade e subjetividade, não seria umagrande falácia? Ou um desencontro de discurso na emergência dessa novasubjetividade tecnototemizada? Projetar características extraordinárias e receberfantasias prontas. O ser humano não é mais instigado a criar os seus desejos,eles já estão prontos e pulam para dentro da sua sala pela TV. Mas são convidadosa participar de uma gama infinita de sonhos que se materializam aos seus olhos.Vivenciam esses desejos pasteurizados ao se projetarem em um espaço infinitoem que se tem todas as possibilidades em um clicar ou digitar de caracteres.A questão é compreender como esse indivíduo era/é tecido pelas tramas dessecontexto tecnológico, em que é ao mesmo tempo ativo e criativo nesse processo.Trata-se de entender como essa subjetividade se forma, como há de configuraressa identidade, atravessada pelos meios de comunicação. Assim, ao se observara relação do sujeito com os meios de comunicação, tem-se a oportunidade delidar com uma esfera “existencialista” e tensionar os campos empírico e teóricocom a investigação da identificação de operações de práticas discursivas ecotidianas específicas.A identidade tecnototêmicaHall (2000) indica que para pensar no sujeito moderno e na sua identidade, épreciso pensar no que aconteceu à concepção de sujeito, que sofreu uma sériede rupturas, das quais ele indica cinco pensadores e suas teorias que contribuíramdiretamente para avanços na teoria social e nas ciências humanas. São eles: 1º)Karl Marx e seu anti-humanismo teórico; 2º) Sigmund Freud e a descoberta doinconsciente; 3º) Ferdinand Saussure e a afirmação que a língua é um sistemasocial; 4º) Michel Foucault e a genealogia do sujeito moderno; e por último, 5º) ofeminismo tanto como crítica teórica quanto como movimento social.Desses cinco indicativos, a opção foi se centrar no aprofundamento do diálogoentre Foucault e Freud, pois cada um traz à cena perspectivas para se pensar naquestão do poder, uma vez que, ao lidar com a criança e seu desenvolvimentopsicossocial, utiliza-se Freud. E a justificativa para Foucault é seu pensamento seroriginário da psicanálise e seus questionamentos sobre o poder e a interpretação.
  • 114. Caberia pensar se esse parcelamento da subjetividade em identidades múltiplas $ e fugazes, em uma cultura apoiada em um tecnototemismo, não levaria o sujeito a um niilismo pós-moderno em sua idade adulta: uma completa abstração doColvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade social, pois, se durante o seu desenvolvimento foi exercida uma ação contraditória, de afastamento do convívio objetivo do social e um reforço do uso de aparatos, esse indivíduo experimenta, ao trocar de identidade, novas peles e, principalmente, realizar suas fantasias num contexto virtual e não objetivo. Essas novas texturas de fantasia, que o fazem mergulhar em si próprio numa atitude beirando a psicose por alguns instantes, provavelmente, se refletirão quando chegar à idade adulta. Uma das implicações desse recorte é o lugar da formação da identidade. Segundo Canclini (1999), existe o movimento de “dissolução das monoidentidades”, pois a metrópole cria padrões de uniformidade, remodela hábitos locais e os subordina a estilos “modernos”, é a homogeneização do consumo e da sociabilidade, propiciada pelo formato comum com que esses serviços se organizam no trabalhar, vestir e distrair. O pensamento de Hall (2000) sobre as identidades acrescenta ao debate, pois, dentro de uma teoria social, o autor postula que há o surgimento de novas identidades que fragmentam o indivíduo moderno. Essa seria uma crise de identidades por tendências demasiadamente recentes e ambíguas, na qual esse fenômeno social não oferece afirmações conclusivas ou julgamentos seguros. O que converge com as inferências feitas por Canclini (1999), vai além, pois Hall (2003) faz a indicação de três identidades: sujeito do iluminismo; sujeito sociológico; e sujeito pós-moderno. Aqui, interessa o sujeito pós-moderno, que é o sujeito que assume identidades diferentes em momentos diferentes, identidades que não são configuradas ao redor de um “eu” coerente. A identidade unificada é uma fantasia, e as significações e representações culturais se multiplicam. Assim, confronta-se multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. Portanto, a identidade cultural moderna para Hall (2003) é formada por meio do pertencimento a uma cultura “nacional” e que tem sido amplamente des- locada pelo processo de mudança que é a globalização; dessa forma, as de- finições de identidade ficam contestadas no cotidiano. E Canclini (1999) endossa a questão quando define a globalização como a passagem das identidades modernas ao “incômodo” de pós-modernas e incita o questionamento ao indagar como os indivíduos representam para si mesmos os atos com os quais se reconhecem como se reconhecem como sujeitos, isto é, suas estruturas e suas experiências subjetivas.
  • 115. Ambos os autores fazem referência a Foucault e a seus conceitos de genealogia %do sujeito moderno, poder disciplinar, tecnologias do eu, entre outros. Essesauxiliariam a compreender e a contextualizar o sujeito moderno. Foucault descreve Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007o poder disciplinar como tendência das modernas formas de controle social (1987)para articular, em obra posterior (2006), o poder disciplinar como força monolíticaplenamente instalada, o que leva à correlação entre os campos do saber, os tiposde normatividade e as formas de subjetividade; isso é o que o leva a analisar osujeito, as relações estabelecidas com o “eu” (indivíduo) e como esse se reconhececomo sujeito, chave da problemática da identidade colocada por Hall e Canclini. Um deslocamento teórico pareceu-me necessário para analisar o que freqüentemente era designado como progresso dos conhecimentos: ele me levara a interrogar-me sobre as formas práticas discursivas que articulavam o saber. E foi preciso também um deslo- camento teórico para analisar o que freqüentemente se descreve como manifestações do “poder”: ele me levara a interrogar-me sobretudo sobre as relações múltiplas, as estratégias abertas e as técnicas racionais que articulam o exercício dos poderes. Parecia agora que seria preciso empreender um terceiro deslocamento a fim de analisar o que é designado como “o sujeito”; convinha pesquisar quais são as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito. [...] Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas “artes de existência”, essas “técnicas de si”, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua importância e de sua autonomia. (FOUCAULT, 2006, p. 11-15).As tecnologias do “eu” e as estéticas da existência são as estilizações deliberadasda vida cotidiana; são as tecnologias envolvidas que aparecem mais sob a formade práticas de auto-produção, de modos específicos de conduta, constituindo oreconhecimento do indivíduo enquanto sujeito inserido em uma sociedade. Seriamessas as técnicas que envolvem uma aplicação do poder e do saber que“individualiza” ainda mais o sujeito, pois, quanto mais coletiva e organizada for anatureza da instituição em que o sujeito está inserido, maiores serão o isolamento,a vigilância e a individuação do sujeito. (FOUCAULT, 1987). A questão que fica é se nós também precisamos, por assim dizer, diminuir o fosso entre os dois domínios, isto é, se precisamos de uma teoria que descreva quais são os meca- nismos pelos quais os indivíduos considerados como sujeitos se identificam (ou não se identificam) com as “posições” para as quais são convocados; que descreva de que forma eles moldam, estilizam, produzem e “exercem” essas posições; que explique por que eles não o fazem completamente, de uma só vez e por todo o tempo, e por que alguns nunca o
  • 116. & fazem, ou estão em um processo constante, agonístico, de luta com as regras normativas ou regulativas com as quais se confrontam e pelas quais regulam a si mesmos – fazendo- lhes resistências, negociando-as ou acomodando-as. [...] O que ele [Foucault] produz éColvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade uma fenomenologia discursiva (voltando, assim, talvez, a fontes e influências iniciais, cuja influência sobre seu trabalho ele próprio, de alguma forma subestimou) e uma ge- nealogia das tecnologias do eu. (HALL, 2000, p. 126-127). Hall (2000) e Canclini (1999) teorizam sobre a desterritorialização do nacional e como ela afeta a formação da identidade social, que é formada e transformada no interior das representações. Entendendo o social como um sistema de representações culturais, isto é, simbolicamente no indivíduo, isso explicaria o seu poder de gerar o sentimento de identidade e lealdade. A formação de uma cultura nacional contribui para criar padrões de alfabetização ver- nacular como o meio dominante de comunicação criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais, nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional. Dessa e de outras formas, a cultura nacional se transformou em característica-chave de industrialização e um dispositivo da modernidade. (HALL, 2000, p. 49-50). A prática discursiva postulada por Foucault (2005) seria a construção dos sentidos que influenciariam e organizariam tanto as ações quanto as concepções do indivíduo em relação a ser sujeito. É a reconceptualização de sujeito; pensá-lo em sua nova posição numa tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e práticas discursivas é a questão da identificação como campo semântico, a busca da compreensão por meio dos repertórios discursivo e psicanalítico sem se restringir a nenhum deles. (HALL, 2000, p. 105). Tudo isso são indicações de um novo significado porque o termo identificação torna-se estratégico e posicional, segundo Hall (2000): O conceito de identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista, mas um conceito estratégico e posicional. Isto é, de forma diretamente contrária àquilo que parece ser sua carreira semântica oficial, esta concepção de identidade não assi- nala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história. Esta concepção não tem como referenciais aquele segmento do eu que permanece, sempre e já, tampouco se refere, se pensamos agora na questão da identidade cultural, àquele “eu coletivo” ou verdadeiro que se esconde dentro de muitos outros eus – mais superficiais ou mais artificiais impostos – que um povo, com uma história e uma ancestralidade partilhadas, mantém em comum. Ou se- ja, um eu coletivo capaz de estabilizar, fixar ou garantir o pertencimento cultural ou uma “unidade” imutável que se sobrepõe a todas as outras diferenças – supostamente superficiais. Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas
  • 117.  não são nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, prá- ticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicas. As identidades estão sujeitas a uma historização radical, estando constantemente em processo de mudança e trans- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 formação. (HALL, 2000, p. 108).Entender como as identidades se reconstroem, problema proposto por Canclini(1999) e Hall (2000) para investigação, é olhar para como se apropriam deelementos de várias sociedades combinando-os e transformando-os em processode hibridização intercultural. Que tipo de TV poderia narrar a heterogeneidade e acoexistência de vários códigos em um mesmo grupo e até mesmo em umindivíduo? Levar em conta os diversos repertórios e mediações na reelaboraçãoda identidade? Levar em conta os diversos modos que recompõem os desiguaiscircuitos de produção, comunicação e apropriação da cultura?Janelas que se abrem para uma nova reflexãoQuestiona-se a construção da identidade dentro de uma estrutura de poder eexclusão, isto é, o ponto de encontro entre discurso e prática. Nessa pesquisa,esse processo é visto como a recepção e a mediação, a descrição dessespontos e a junção deles com o sujeito e suas estruturas de significação. Portanto,a observação desse conjunto de práticas e rituais simbólicos indicaria como aprática discursiva incide sobre certos valores e normas de comportamento.Todo esse processo é observável pelo que acontece na ritualidade de ver TVcom as crianças.Ao tomar a Fase Fálica, como ponto de partida, que se dá na faixa etária dos 4aos 6 anos,3 encontramos características muito significativas. A criança tende aestar autocentrada, isto é, em um movimento egocêntrico, vê as coisas sob suaprópria perspectiva e não imagina que haja outro ponto de vista. Mesmo quandoesse se apresenta, a criança lhe dá um significado próprio que combine com orepertório que ela possui, não é por teimosia ou porque não tenha compreendido,mas a sua visão, a sua interpretação, impera.3 Ao se tratar do universo televisivo,as empresas que medem a audiência, como o Ibope,a Datafolha e aMultiFocus, bem como as emissoras de televisão, consideram que a idade de 4 anos marca o início da “vida dotelespectador”. Por isso a delimitação inicia nessa fase, sem perder de vista a importância das fases anterioresa serem estudadas com mais aprofundamento no andamento da pesquisa.
  • 118. Durante a fase denominada por Freud como Fase Fálica, a criança começa a   fazer importantes distinções no mundo a sua volta. Começa a perceber o mundo além do núcleo familiar, inicia o estabelecimento do tabu, isto é, as regras sociais.Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade A aventura pelo mundo externo (social) se inicia. Nesse período, tem-se um indivíduo que, bem ou mal, enfrentou várias experiências das fases anteriores em um nível individual, e que agora necessita colocá-las à prova: modelar suas fantasias e estruturar seu Ego, seu Eu-social para viver na coletividade. É a organização da afetividade para que o corpo atinja uma relação consigo mesmo e uma relação com o outro e com o mundo. A criança, nessa fase, primeiramente faz, e durante sua ação, elabora o acontecimento; elabora as regras e os valores. Os mecanismos de identificação e projeção estão em pleno funcionamento, exatamente os dois mecanismos mais explorados e utilizados pela TV na captura da atenção do público. É comum a criança atribuir vida a todos os seres, inclusive a objetos inanimados (animismo), como também o artificialismo, isto é,atribuir origem artesanal humana a todas as coisas. Seu raciocínio ainda é primitivo. Se a criança vê duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, supõe que uma coisa é causa da outra. Por isso, a identificação, em conjunto com a formação do Superego, organiza os valores dessa criança, isto é, seus tabus, edificando assim seus totens. A assimilação do mundo que se dá por meio da identificação é a aquisição ou rejeição do que é visto, sentido e percebido no mundo externo. E com o Superego em formação, essa criança coloca à prova os valores introjetados em relação às normas externas. Aquilo que ela sente como justo e valorizado será conquistado pela sua consciência moral, isto é, irá ser incorporado ao tabu, às suas normas sociais. Todo esse processo descrito é organizado em nível de fantasia e mensagens transmitidas, tornando difícil separar o peso dos fatores da realidade e os da fanta- sia. Esse é o guia por toda a teoria freudiana de como se constituem os afetos dos indivíduos e como esses entram em relação com a externalidade (social). Será que suas percepções do mundo externo são corretas? Haverá interferência nesse processo por parte das tecnologias de comunicação? E como isso se processa? É impossível prever o número de fatores que possam interferir no processo, como também o que a criança carrega das fases anteriores de seu desenvolvimento.
  • 119. O problema não está na fantasia, mas na volta à realidade, na opressão do  cotidiano assolado por questões materiais. O totem tecnológico ganha força exa-tamente nesse ponto porque promove esse descolamento, essa experiência Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007intensa, seja vivendo a vida do outro fictício, como na novela, um alguém qualquercomo ele, no caso do Big Brother, seja o seu próprio alterego, em sessões debate-papo pela internet.A convergência entre essas diferentes esferas (a subjetiva e a objetiva) aponta àpresença não apenas de um imaginário totemizado pelos meios de comunicação,mas de uma necessidade maior, talvez por conta da globalização, de uma trans-cendência corporal.Nessa consciência projetiva, destacam-se as fantasias de expansão, de realizaçãodos desejos e de construção de uma vida em sua virtualidade. A consciência jánão será mais limitada pelos entraves do espaço, mas poderá se projetar li-vremente pelo infinito de uma fantasia provocada pela virtualidade. Daí que ototem dessa tecnologia se impõe, refugia esse indivíduo em uma ação narcísicade realização desmedida de novas identidades em busca de prazer. As fantasiasse tornam reais com uma realização virtual em que a consciência pode expe-rimentar sem aparentes riscos ou entraves.A identidade passa a ser fruto de um processo de construção intencional e,desse modo, os indivíduos teriam total liberdade de criação, de reelaboraçãode sua experiência existencial. Os indivíduos, assim, não mais ficam enclau-surados a uma única identidade;eles passam a ser criadores de si mesmos,com suas próprias regras, com tabus que provêm desse tecnototemismo, pro-duzindo uma tecnocultura hedonista em que prazeres e satisfações podem seralcançados a todo momento.À medida que esse desejo se manifesta e,conseqüentemente, se realiza pelamobilidade da criação e pelos tabus que se colocam para que hajam definiçõespara que assim o gozo se prolongue, diretrizes para que as identidades fugazesnão se esvaziem rapidamente e assim criem o desprazer. Por isso a inversão devalores. A tecnologia começa a dominar quem deveria ser dominado por ummecanismo projetivo de “divinização” em que a tecnologia é responsável pelatranscendência desse indivíduo, pela sua capacidade de catarse e de fantasia.Atenta-se para a problemática que isso traz ao desenvolvimento infantil que seforma nesse contexto.
  • 120. Referências  CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1999.Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 12. ed. São Paulo: Loyola, 2005. ______. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. ______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6. ed. São Paulo: M. Fontes, 1992. FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na “Grandiva” de Jensen: romances familiares (1921). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 243-250. v. 9. ______. O ego e o ID (1923). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. v. 19. ______. Além do princípio do prazer: psicologia de grupo e análise do ego (1921). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 91-184. v. 18. ______. O futuro de uma ilusão: mal-estar na civilização (1930). In: ______. Edição stan- dard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 81- 178. v. 21. ______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise – XXXI A dissecção da personalidade psíquica. In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 75-102. v. 22. HALL, Stuart. Estudos culturais: dois paradigmas. In: SOVIK, Liv (Org.). Da diápora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. da UFMG; Representação da Unesco no Brasil, 2003a. p. 131- 159. ______. A identidade cultual na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 2003b. ______. Quem precisa de identidade: In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133. POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
  • 121.  !El público en los 1noticieros televisivos Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Mabel Grillo1IntroducciónEn el primer capítulo de su obra ¿Por qué estudiar los medios? Roger Silverstonenos invita de manera convincente a hacerlo menos por lo inusual o lo catastróficoque ellos nos acercan y más por lo que replican cotidianamente de aquello quepasa “por sentido común”, pues, nos dirá, “los medios dependen de él”(2004:21).Si seguimos esta recomendación y pensamos en cuáles son las cuestionesimportantes que básicamente están encastradas en el sentido común rápidamentesurgen el lugar y el momento en el que estamos y compartimos con quienes nosrodean. Es que una de las asunciones del sentido común más comprometedoraspara nuestras prácticas cotidianas es aquella que nos habilita para lasclasificaciones espaciotemporales de la situación en la que nos encontramos.Es más, en algunas situaciones se puede deducir nuestra lucidez de la capacidadque tengamos para identificarlas.Por lo general nuestras experiencias cotidianas transcurren en el ámbitodoméstico, en el laboral, en sitios de esparcimiento, etcétera, pero casi siempreen un espacio local que administrativamente lo contiene, ese espacio que paranosotros es el lugar. Pero cuando durante nuestra vida diaria interactuamos conlos medios definimos sucesivamente marcos espaciotemporales diversos quenos posicionan en una plataforma con anclaje móvil. Como integrantes de suspúblicos los acompañamos imaginariamente en los traslados que sus contenidosnos ofrecen. Y, en la espesura de la experiencia cotidiana, pocas veces estamosalertas para reconocer los poderes que actúan como fulcro de esos movimientos.Cuando los medios producen y reproducen las clasificaciones espacio temporalesque organizan nuestras identidades, las instituciones dominantes de la vida so-cial no están detrás ni delante de ellos, muchos menos a su costado, están allí.1 Agradezco a Belén Acosta su colaboración en la visualización y registro del material noticioso televisivo.
  • 122. Como están, hay que decirlo, en medio de todas las instancias con poder  " clasificatorio, es decir con poder.Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos Así, la imprenta, que surgió casi al mismo tiempo que los estados nacionales, acompañó con su capacidad multiplicadora los ejercicios cotidianos de las nacientes sociedades nacionales y, fundamentalmente, de sus estados, para dotar de sentido a las fronteras nacionales. Por entonces, una nueva y poderosa clasificación espacial reorganizaba los límites y, al mismo tiempo, conmovía las identificaciones de las comunidades tribales: eran las naciones.2 Hoy, después de doscientos años, tanto las comúnmente denominadas TICS como los medios electrónicos de comunicación, fundamentalmente la televisión, son interpretados como vehículos del debilitamiento de todas las fronteras tradicionales, entre ellas, las nacionales. En otros artículos he tratado de mostrar que los medios locales, ubicados en “el interior”, o las transmisiones locales de cadenas nacionales o transnacionales, juegan un poderoso papel de reproducción de las identificaciones con lo local, con el propio lugar.3 Al mismo tiempo, las grandes cadenas mediáticas, siguiendo el curso transnacional de la economía, ensanchan el alcance de sus producciones, amplían sus públicos y mercados y movilizan imágenes y fuentes lejanas de interpelación identitaria generando también segmentos de públicos y lealtades transnacionales. En este trabajo trataré de mostrar que la nación todavía constituye un espacio de interacción mediática diferenciado, que aparece reeditado diariamente en los noticieros televisivos nacionales y sostendré una hipótesis: la participación del público en esos espacios es un operador de particularización de tendencias mundiales del discurso informativo televisivo. 2 En Latinoamérica los estados llevaron adelante un papel activo – en lo militar, pero también en lo económico y lo ideológico – de diferente manera y con diferentes grados de “éxito” según los países, por aglutinar e igualar hacia adentro al mismo tiempo que combatían con las fuerzas colonizadoras europeas. Ver, por ejemplo, Alimonda, H. (1982) “Paz y Administración- Orden y Progreso. Notas para un estudio comparativo de los estados oligárquicos argentino y brasileño”. Revista Mexicana de Sociología. UNAM. Nro.4; Ozlak, O. (1986) “Formación histórica del estado en América Latina: elementos teórico-metodológicos para su estudio”. CEDES. Bs. As. y “La formación del estado argentino (1997). Planeta. Buenos Aires; Trindade, H. (1986) La construcción del estado nacional en Argentina y Brasil (1810-1900). En Revista Mexicana de Sociología. UNAM. Nro.11. Por otra parte, Anderson., B. (1993) da cuenta de la importancia de la imprenta y de los nacientes medios en la construcción del sentido de lo nacional. 3 Grillo, M (2004) “Lo local y lo nacional como espacios de identificación espacial en la interacción mediática”. En Antonelli, M (ed) Cartografías de la Argentina de los ’90. Cultura mediática, política y sociedad. Ferreyra Editor. Córdoba.
  • 123.  #La nación como espacio de interacción mediáticaJohn Thompson (1999) denomina espacio de interacción mediática al ámbito Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007que se genera a partir de la relación que se produce entre la producción de losmedios de comunicación y los públicos hacia los cuales llega su alcance. Pero,ocurre que en las interacciones mediáticas no siempre se generan espacios, ennumerosas oportunidades se reproducen rutinariamente aquellos cuyos sentidoshan sido construidos en procesos sociohistóricos específicos. Uno de ellos es elespacio nacional.Autores como Billig (1995), Waisbord (2007) y Schlesinger (1993, 2007), entreotros, han analizado y destacado la necesidad de estudiar los vínculos entre losmedios y las naciones.4 Especialmente por su papel en la vida cotidiana al ofrecery reeditar experiencias colectivas con producciones entretejidas en deixisnacionales.Schlesinger (2007) discute la idea que posiciona a los medios cumpliendo unpapel reproductor del espacio de lo nacional. La considera una visión unilateralen la medida que concibe a la nación “desde adentro” e ignora las redes derelaciones en las que se encuentran hoy los estados nacionales. En el mismosentido, para Massey (2005) ver el espacio constituido desde adentro esconcebirlo como ruptura, discontinuidad o fragmentación; es como si las “culturaslocales” brotaran de la tierra, dice. No se ven como producto de la interacción y,desde esta perspectiva, las naciones eran de una manera propia hasta que laglobalización derribó “fronteras naturales”.No obstante, visto el problema desde la teoría de la identidad, en el marco de lacual nos interesa ubicar el papel de los medios, la mirada “desde adentro”,indica los procesos de autogeneración y “la mirada de los otros, que incluye laspropias miradas desde y hacia los otros” constituyen los de heterogenación.Ambos procesos son complementarios al momento de producirse las identi-ficaciones de los grupos sociales (Boutinet, 1978).En síntesis, desde la teoría de la identidad, el espacio no es solamente unasuperficie objetiva en la cual se mueven líneas imaginarias hacia adentro y hacia4 En el artículo citado de Silvio Waisbord -“Los medios y la reinvención de la nación”- el autor presentauna selección actualizada de trabajos que vinculan el papel de los medios en lo que el autor llama “lacoordinación cultural” del espacio nacional.
  • 124. afuera, sino fundamentalmente un proceso de construcción temporal e histórica  $ que en la experiencia de los grupos sociales adquiere sentidos. Puesto en estos términos, el problema se inscribe en los debates acerca del papel de los medios,Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos especialmente la televisión, en procesos de identificación con espacios históri- camente constituidos como lugares, esto es como espacios de identificación (Giddens, A. 1993; Morley, D. 2005). Consideramos que las discusiones sobre el poder de los medios para anclar los públicos a sus lugares, fortaleciendo procesos de identificación y diferenciación crecientes, o desanclarlos, promoviendo su desterritorialización, están agotadas si se plantean en esos términos gen- erales. Partimos del supuesto que afirma la posibilidad de ocurrencia de ambos procesos, tanto de manera diferenciada como complementaria según diferentes momentos, lugares e instancias de la vida social. Debemos aportar muchos más resultados empíricos para poder comprender mejor la multiplicidad y combinación de estas posibilidades. Pero, más allá de estos debates, lo cierto es que en el complejo contexto socio-histórico -que intenté exponer sin grandes omisiones pero de manera sintética porque ha sido suficientemente retomado en la literatura corriente- lo nacional permanece como un espacio de producción de sentidos. Todavía re- presenta el ámbito de la racionalidad organizadora que trascendiendo la se- guridad del vecindario permite la expansión imaginativa de la vida social sin resultar insondable y, por eso, amenazante. Es una frontera amplia pero de pertenencia contenedora que aún constituye una estación plausible para la plataforma mediática. En la televisión, por ejemplo, refracta cotidianamente en los noticieros nacionales. Los noticieros televisivos de alcance nacional nos recuerdan una y otra vez, diariamente, cuál es el afuera y el adentro del espacio que alberga el nosotros social institucionalizado de lo que nos ocurre día tras día. Nos interpelan desde esa instancia asediada por la cotidianeidad de lo local, próximo, denso e inex- cusable, y los variados, dispersos y desordenados flujos noticiosos de lo global. Desde el punto de vista comunicativo, este doble asedio del que hablamos es explicitado por Schlesinger de la siguiente manera: “es importante plantearse preguntas sobre el impacto de los cambios transnacionales y globales en lo que siguen siendo en gran medida sistemas de comunicación ligados al Estado- nación”. Para el autor la pregunta debe girar sobre las implicancias de estos sistemas comunicativos definidos principalmente en ese marco “para la posibilidad de una esfera pública supranacional como para nuevas formas de comunicación surgidas de la auto-organización de la sociedad civil” (2007:79).
  • 125. Desde esta perspectiva la exploración del papel de los espacios de producción y  %consumo eminentemente nacional, como son los noticieros televisivos, pareceinteresante en la medida que, tal como han sostenido autores como Habermas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007(1994) y Garnham (1998), los derechos ciudadanos continúan estando vinculadosa estados nacionales específicos.Winocur contrapone esta perspectiva sobre el espacio de lo nacional y el espaciopúblico, como ámbito apropiado para la participación ciudadana con la propuestade Keane. En sus términos, para este autor “se ha vuelto obsoleto el ideal deuna esfera pública unificada (…) en lugar de ello, figurativamente hablando, lavida pública ha sufrido una refeudalización” (…) en el sentido de “la conformaciónde un complejo mosaico de esferas públicas de diversos tamaños que se traslapane interconectan y que nos obligan a reconsiderar radicalmente nuestros conceptossobre la vida pública y sus términos asociados tales como opinión pública,bienestar público y la diferenciación público-privado” (1997:56).Nuevamente, debemos replantear la cuestión desde la perspectiva de los actoressociales involucrados, es decir de aquellos que ocupan e interactúan con losmedios generando espacios en el marco de condiciones históricas compartidas.Desde esta esfera hablar de niveles micro o macro, no aporta a la comprensiónde la significación que las interacciones adquieren y los procesos de identificaciónespacial que interpelan. En otras palabras, la identificación del espacio nacionalcon un espacio público denominado mesoesfera no permite comprender mejor elpapel de lo nacional y las prácticas ciudadanas en su marco, aunque pueda darcuenta de fragmentaciones asentadas en prácticas, intereses y estilos situacio-nales específicos.No obstante, consideramos que en un punto Winocur acierta en su discusión delas ideas de Garnham (1986). Este autor define el espacio público desde unaperspectiva normativa como “un espacio para definir una política racional yuniversalista” que sólo sería posible con unos medios independientes del mercado.Para Winocur (ibid) en cambio “El problema en estas nuevas condiciones noreside en cuestionar el papel y la legitimidad de los medios en la generación denuevos espacios públicos sino en preguntarse hasta que punto las transforma-ciones que introdujeron en la vida pública la empobrecen o si, por el contrario,ofrecen nuevos desafíos para pensar la relación entre lo público y lo privado ytambién las posibilidades de intervención de los ciudadanos en la definición ydiscusión de los temas de interés colectivo en la agenda mediática”. Y, desdenuestra perspectiva, sobre el empobrecimiento de la vida pública es poco lo que
  • 126. puede decirse en la medida que excepto en situaciones excepcionales de revuelta  & y conflicto generalizado, la historia de las sociedades modernas no da cuenta de una participación permanente, cotidiana y directa de la población – constituidaGrillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos en ciudadanía- en los espacios públicos. Los puntos de contacto entre algunas prácticas sociales y determinados procesos comunicativos mediáticos suelen ser analizados poniendo el acento en el papel que cumplen los medios en movilizar algunas cuestiones no sustanciales, mera- mente expresivas o espectaculares de esas prácticas. Estas perspectivas ubican los procesos de interacción mediática como productores deformantes de prácticas que natural o esencialmente son de otra manera. En nuestros trabajos tratamos de evitar tanto esta visión de lo social – espontaneísta, en la medida que le otorga una existencia natural sin mediaciones históricas particulares – como la que evoca momentos históricos en los cuales se manifestaba en estado de activa pureza. Por ello, en lugar de preguntarnos cómo los medios “empobrecen” la vida social, nos cuestionamos directamente por los modos y la intensidad de su intervención en procesos sociales específicos. Esto es: los medios constituyen hoy lo social junto a otras instituciones y lo que intentamos averiguar en nuestras investigaciones es la participación del proceso comunicativo que promueven en manifestaciones específicas de la vida social. El público en la pantalla en debate Los medios de comunicación han sido considerados desde ampliaciones del espacio público, en la medida que favorecen la participación, el reconocimiento y la visibilidad (Macé, 1997) hasta instrumentos a favor de su eliminación, en tanto reemplazan el debate racional propio de la esfera pública por un “espectáculo fascinante o ilusión fantasmal” (… ) “por las imágenes y los simulacros de realidad” (Jay, M.; 2003). Es indudable que una cuestión clave para abonar una u otra posición es comprender la significación que asume la participación de los integrantes del público en los espacios generados por los medios. Si bien es verdad que los medios se constituyen en la actualidad en espacios privilegiados para la visibilidad pública de actores sociales diversos también lo es que esas intervenciones contribuyen a la “polifonía de la controversia” animadora del mercado que medios y públicos constituyen (Billing; 1997). Winocur (2002) pone el acento en las capacidades y los intereses de los interactuantes. Dice que los participantes en
  • 127. los espacios de los medios han adquirido experiencia en esa práctica y ello les  ha permitido desarrollar habilidades histriónicas para desempeñarse con soltura“al aire”. Todos han aprendido cuáles son las reglas de cada medio: lo que se Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007puede o no decir, la manera para expresarlo y qué estrategias discursivas debenusarse para impactar al auditorio en cada caso. Agrega que el público no esperaque se le solucionen sus problemas y al medio tampoco le interesa averiguar quédesenlace tuvieron las historias, salvo que ameriten convertirse en una novela porentregas. Lo que importa a ambos es publicitar y ser observados. Para los primerossignifica volverse “visibles” en la escena pública, para los segundos, historias quevenden. En definitiva, para Winocur, se da una transacción de intereses. Ya hemosdicho que podríamos coincidir con Winocur, tanto en adjudicar a los participantesla intención de buscar visibilidad en el espacio mediático como en el desarrollo dela capacidad histriónica que han logrado, pero lo que no surge de nuestrasobservaciones es que quienes participen en los medios no esperen solucionar susproblemas o al menos, sumar adherentes, lograr efectos directos en las institucionesdel Estado u obtener reconocimiento público de sus necesidades. Los integrantesdel público que estudiamos consideran que estar en los medios siempre es unaalternativa válida para ser oídos y solucionar problemas; incluso, dan cuenta deexperiencias exitosas en ese sentido (Grillo et alt., 2003).En esta instancia de nuestras indagaciones sobre el problema consideramosque el público en pantalla integra una estrategia de tratamiento de la noticia porparte de la televisión en la medida que consigue movilizar procesos de identi-ficación en el público, favorece el contacto y anima la pantalla. Pero, más allá deestos intereses que persiguen las producciones televisivas, lo cierto es que, almismo tiempo, amplia el espacio de participación del público y colabora en dotarde visibilidad y reconocimiento a sus necesidades y carencias.Entiendo que los ciudadanos dan a conocer sus intereses y opiniones en unámbito que ya está mediado por el noticiero y la participación en los espaciospúblicos que promueven los noticieros son insumos producidos por el mismoespacio5 . Digamos entonces que los espacios mediáticos no son espacios-escenarios como las plazas, los teatros o las salas de debate barriales o de las5 Marletti (2001) destaca el papel de las rutinas profesionales, como puede ser concebida la actividadque despliegan los periodistas al hacer intervenir al público en los espacios mediáticos, en laautorreferencialidad de los medios. Entiende la autorreferencialidad en el sentido que le da Luhmanncomo la capacidad de un sistema de seleccionar del ambiente aquello que mantiene en la complejidad lapropia identidad.
  • 128. casas de gobierno. Estos escenarios mediáticos “vienen a casa” para que ! participemos y lo hacen en un doble sentido: por un lado, efectivamente salen a nuestro encuentro en el lugar que estemos y, por otro, cada participación de unGrillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos ciudadano en la televisión abre la posibilidad de nuevas intervenciones a otras personas y permite la identificación de integrantes del público6 . El noticiero televisivo es un escenario demandante y disponible; en este sentido, acuerdo con Winocur que se da una transacción de intereses entre el medio y quienes intervienen en sus espacios. El noticiero televisivo nacional y el discurso de la información Para Verón (2005) el discurso de la información es el que tiene por objeto la actualidad y para avanzar en su comprensión debemos reconocer su articulación con la red tecnológica de los medios y las prácticas del periodismo y por otro con su único destinatario genérico que es el ciudadano habitante de un país – puede ser de una región – que es construido como un predestinatario, esto es como alguien con quien se comparten y confirman creencias comunes. 7 El periodismo cuenta la actualidad, pero esa actualidad integra diegéticamente sentidos producidos desde una multiplicidad de relatos que recortan el mismo espacio nacional. Charaudeau agrega una cuestión fundamental para la comprensión del modo y la posibilidad de circulación de este discurso a partir de la relación que se establece entre medios y públicos. Para este autor : “la instancia mediática televisiva se encuentra en una posición de bisagra doblemente orientada: referencial, cuando está orientada al mundo exterior que muestra, refiere y comenta, y de contacto cuando contempla al telespectador al que intenta interesar y conmover, al que reclama e interpela. (…) La dirección, lugar por excelencia de la articulación entre 6 Lazarsfeld y Merton afirmaban, en un artículo escrito en 1948, que podría darse un fenómeno que denominaron “disfunción narcotizante” en el sentido de que la recepción de estos mensajes transformen las energías disponibles para “una participación activa en un saber pasivo”. No obstante, los propios autores sostenían entonces que no se conoce mucho cómo puede operar este fenómeno y que estudiarlo “es una de las tareas que aún se presentan al estudioso de las comunicaciones masivas.” (1978:35) No hemos avanzado demasiado. 7 Verón afirma así el sentido de pertenencia común que sostienen los recortes espaciales compartidos en los discursos informativos. Agrega que el público del discurso de la información difícilmente sea paradestinatario – objeto de persuasión – o antidestinatario – con el que se polemiza-.
  • 129. el mundo exterior, el estudio y el telespectador es la que garantiza la puesta en !escena.” (2003: 233) Desde nuestro interés analítico, esto quiere decir que losnoticieros deben ser creíbles y, al mismo tiempo, mantener su público. Por esto, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007deben seguir los cánones de construcción de la verosimilitud sin perder de vistaque necesitan lograr y mantener una audiencia. Tanto el contacto como laverosimilitud son dimensiones centrales para mantener las interaccionespromovidas por los noticieros televisivos; sus estrategias desde la puesta enescena deben ser exitosas al momento de articular la producción discursiva consu reconocimiento por parte del público.8Como sostiene con claridad Eliseo Verón (2005), para comprender la complejidaddel vínculo de los medios con sus públicos hay que entender que los medios sonactores de un mercado económico y están sometidos a dos lógicas que hastahoy han sido relativamente divergentes. Una, es la función primaria del contratoque es crear y conservar sus receptores y la otra, es de dotar de valor a esecolectivo para vendérselo a los anunciantes. Pero, en tanto la relación con losanunciantes es sólo un problema de marketing, vende o no vende, su anclaje enun grupo de receptores depende de variables demográficas, económicas, políticasy culturales variadas y muchas veces sutiles. Ahora bien, desde la producción delos noticieros televisivos nacionales estas dos lógicas aparecen imbricadas enel momento en que reproducen estilos discursivos idiosincráticos y diferenciadoresparticulares, propios de sus lugares de producción y atentos a esas variablesexpuestas por Verón, así como están sometidos a procesos crecientes deracionalización de la producción televisiva informativa que muestra tendenciascomunes en numerosos países del mundo (2005:194).Con respecto a esas tendencias, en un artículo aparecido en diciembre de 2005en Le Monde Diplomatique, Marc Endeweld da cuenta de algunas de estastransformaciones comunes en noticieros televisivos franceses muchas de lascuales responden a tendencias mundiales. Una de ellas es la creciente ficciona-lización en la construcción de las noticias promovida especialmente por lasagencias de noticias internacionales9 , otras son: el aumento del espacio a ser-vicios para la vida cotidiana – tiempo, salud, tránsito, seguridad –, el aumento de8 Para Verón el desafío principal de la investigación en la comunicación mediática es en la actualidadtratar de comprender lo que llama sistema productivo, es decir la articulación entre producción yreconocimiento (2005:222).9 Describe el tratamiento dado a la información del huracán Katrina, ocurrido en Estados Unidos en esemismo año.
  • 130. la importancia de los periodistas estrellas como marca o imagen de los espacios ! noticiosos y de las propias emisoras, el aumento de los relatos en off acompañados por imágenes editadas muchas veces de archivo, la generación deGrillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos la información desde el noticiero según su conveniencia operativa antes que la búsqueda de la información relevante y el aumento de la importancia del ritmo, a tal punto que el tiempo medio de los reportajes es de un minuto cuando hace diez años era de un minuto y medio10 . Pero una de las tendencias más comunes en los noticieros televisivos del mundo es la reducción del tiempo dedicado a las noticias internacionales y el crecimiento de la importancia del factor noticioso de la proximidad. Para Waisbord (2007) “La debilidad de la cobertura internacional de noticias ofrece probablemente una explicación parcial de las razones por las cuales los medios fracasan en cubrir las expectativas cosmopolitas. (…) Típicamente los medios de comunicación recurren a narrativas e historias culturales que resuenan en las audiencias domésticas, antes que a un mejor entendimiento de los desar- rollos y los contextos. Sin embargo no parece ser una cuestión principalmente de limitaciones de los marcos noticiosos y de las prácticas periodísticas: a la inversa que las naciones, el cosmopolitismo carece de medios de comunicación aliados deseosos de convertirse en vehículos de las culturas trans-post-nacionales. (…) Como advierte Schlesinger “no deberíamos esperar demasiado del potencial de los medios audiovisuales para configurar identidades en un contexto transnacional” pues están mejor equipados para, y deseosos de, sostener iden- tidades nacionales (En Waisbord, 2007:48). Algunos de los factores que tendencialmente se introducen en la producción de noticias televisivas en el mundo constituyen, desde nuestra perspectivas, condiciones homólogas y contiguas a la intervención del público en la pantalla, de manera tal que este factor puede considerarse una estrategia desde la cual analizar particularidades nacionales de los noticieros. De mejor manera, podemos decir que consideramos al tratamiento dado al público en la pantalla como un operador particular productivo de tendencias universalizantes de la producción de la información televisiva. Estas tendencias afines son: aumento de la impor- tancia de cuestiones atinentes a la vida cotidiana, como la prestación de servicios –salud, tránsito y, con gran fuerza, seguridad-, el aumento del valor de la proximidad 10 Mi propia experiencia indica que hace alrededor de treinta años atrás, cuando me desempeñaba como redactora de un noticiero televisivo, esta duración media de los reportajes era de 2 minutos y medio; tres minutos era el tiempo máximo.
  • 131. y la creciente importancia del ritmo en la continuidad expositiva, complementadas !!por las necesidades de aprovechamiento por parte del público del espacio queposibilitan los medios para publicitar sus demandas. Especialmente cuando “…se Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007produjo una adaptación de las instituciones de las democracias industriales alos medios y los medios se han transformado en los mediadores insoslayablesde la gestión de lo social” (Verón, E. 2005: 224).El público en la pantalla de los noticierostelevisivos de Argentina, Brasil y ChileEn trabajos anteriores hemos tratado de dar cuenta de dimensiones significativasde la intervención del público en programas televisivos a partir del ámbito deproducción de esos espacios. Así, mostramos el modo en el que noticieros localesconstruyen sus audiencias en términos de vecindario a diferencia de los noticierosnacionales (Grillo, 2004; Rusconi, 2004); analizamos la significación de estasintervenciones en entrevistas realizadas a los integrantes del público (Grillo, 2005;Tonello, 2003), exploramos la potencialidad de espacios mediáticos comoescenario de transacciones de diversa índole (Milani, 2004) y nos detuvimosespecialmente en aquellas vinculadas a la condición ciudadana del quienesintervenían identificando su construcción como demandante y consumidor deservicios públicos (Grillo 2005; 2006).Posteriormente comenzamos a estudiar el tratamiento de las noticias con partici-pación del público en noticieros nacionales de Argentina Brasil y Chile. Hasta elmomento han surgido con claridad dos cuestiones que seguimos analizando:una es el lugar diferencial que ocupa el público participante en la construcción dela noticia y otra es el estilo de tratamiento. Mientras en los noticieros de Chile yde Brasil la actuación del público en la pantalla aparece como consecuencia delhecho que se considera noticia, en el argentino el público interviene constituidoen el hecho noticioso, es la causa de la información y eje alrededor del cual seconstruye el hecho que despertó su actuación (Giussano, 2006). En términosgenerales encontramos que mientras en el noticiero de Brasil el público compartesu intervención con reporteros, informantes del poder público, expertos y otrasfuentes variadas de información en vivo, todo alrededor de temas (o “historias”)de integración, y en el chileno los escenarios oscilan claramente entre aquellosespecíficos y variados que ocupan los participantes con otros propios del poderpúblico –ministerios, oficinas, sedes oficiales- o político, en el noticiero argentinosu presencia, como testigo, informante o actor principal es casi excluyente (Grillo,
  • 132. 2006). Por otra parte, el noticiero brasileño organiza una puesta en escena !" compleja en la que se hace evidente la presencia de un organizador ausente pero necesario. Como contrapartida, la puesta en escena informativa del noticieroGrillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos argentino Telenoche se construye siguiendo una modalidad fluida – como espontánea-; la pantalla aparece ocupada – en el sentido de tomada y por momentos invadida- por “los hechos noticiosos”. Entre estos hechos están, obviamente, las manifestaciones, los cortes de calles y las escenarios barriales con voces que reclaman por salarios, subsidios, seguridad o servicios, noticias todas en las cuales la participación del público en la pantalla es una constante. El espacio informativo televisivo se convierte así en una réplica mediatizada del espacio público de calles, plazas, rutas y vecindarios. Estos antecedentes nos han llevado a postular la hipótesis de que el público en pantalla – en tanto variante mediática del pueblo en la plaza y las calles- se construye en el noticiero argentino como una estrategia eficaz de articulación entre la realidad a la que remite, la construcción que hace de ella y la relación que establece con su público. Dicho de otro modo, el público en pantalla en el noticiero argentino es un articulador productivo de los tres espacios que en palabras de Charaudeau son el espacio externo público, el espacio interno de interpretación y el de la relación de esta instancia con el público. (2003:233) Desde esta mirada y a partir de los antecedentes citados tratamos de abonar más profusamente nuestras sospechas acerca del papel de la intervención del público en la pantalla en el noticiero argentino explorando aspectos más detallados del tratamiento dado a ese recurso noticioso. Para ello, presentaremos algunos resultados de un análisis descriptivo de los noticieros de mayor circulación emitidos durante una semana de los noticieros de mayor circulación de Argentina que es Telenoche de Canal 13, de Brasil, el Jornal Nacional de la Rede O‘Globo y de Chile, 24 Horas Central de la Televisión Nacional de Chile11 . Los datos que tenemos muestran los porcentajes de noticias con participación del público en cada noticiero, el tiempo promedio de esas notas, la cantidad de tiempo efectivo del público en la pantalla, el tipo de público que participa, según sea ciudadano común o especialista, el papel del reportero que entrevista y la dramatización de la actuación por parte del público interviniente. 11 Luego de visualizar e interpretar los lineamientos generales que presentan los noticieros de los tres países sobre material grabado de veinte emisiones por noticiero de cada país, correspondientes al mes de junio de 2006, resolví efectuar este análisis de contenido pormenorizado del material de una semana, a partir de categorías emergentes de ese visionado previo.
  • 133. !# Telenoche Jornal Nacional 24 Hs Argentina Brasil Tele. Nac. Chile Porcentaje de noticias c/público * Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 50,87% 33,33 % 57,35 % Porcentaje de tiempo ocupado por 70% 38% 45% público en pantalla sobre tiempo medio de las notas. Presencia del ciudadano común 69 % 59 % 52,5% sobre el especialista. Promedio en segundos por nota de 52” 27º 20º complicidad del reportero sobre tiempo de participación del reportero (complice-distante-negocia-ausente) Tiempo promedio por nota en el que 20 % 7% 4% el público dramatiza su intervención* No se incluyeron las intervenciones de candidatos políticos, funcionarios, legisladores o gobernantes. Sí, las de profesionales o especialistas en temas específicos vinculados al material noticioso.Si bien el noticiero argentino muestra un porcentaje menor en el total de notas conpúblico en la pantalla que el de Chile, no obstante, presenta un porcentajenotablemente mayor de tiempo efectivo ocupado por el público. Si sumamos aesta observación, los mayores porcentajes tanto de la presencia del ciudadanocomún frente al especialista, como de los tiempos en los cuales las personas queintervienen lo hacen dramatizando sus actuaciones y los reporteros mantienen unarelación de complicidad con los entrevistados vemos que todo organiza unaconfiguración que permite seguir trabajando la idea que venimos sosteniendo acercadel papel que cumple la intervención del público en la pantalla del noticiero argentino.Creemos que es en las formas, en las modalidades de construcción, en losestilos de enunciación o de tratamiento donde debemos seguir analizando lasdiferencias. Ellas exponen, como lo sostiene White, la moral que trasunta losdeseos (1992:33-35).1212 En un estudio anterior que efectué comparando material relevado en 1993 del mismo noticiero brasileñoy de canal 9 de Argentina, que en ese momento eran los de mayor audiencia, observaba ya un estilodiferente en la relación que proponían los reporteros con los entrevistados en los noticieros de ambospaíses. Entendía entonces, que el estilo de los reporteros argentinos reproducían una moral común quemás allá del contenido, sigue estrategias manipulatorias para la igualación. A partir de la clasificaciónefectuada por Todorov (1987) de las modalidades de tratamiento del otro; resumía esa modalidad seguidaen el noticiero argentino como aquella que concibe al otro como creyente. (Grillo, 1995)
  • 134. Verón (2005) plantea también la necesidad de realizar las comparaciones a partir !$ de las modalidades, pues en ellas se sostiene el contacto. Afirma que los mecanismos de competencia en el mercado de los medios tienen comoGrillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos consecuencia que el contrato con el público sea fundamentalmente enunciativo, es decir que no sea del plano del contenido sino “en el de las modalidades del decir”, pues productos muy parecidos entre sí sólo pueden diferenciarse en las estrategias ocupadas del contacto. Entonces, la pregunta central que demanda nuestra interpretación en adelante será identificar las reinversiones tecnológicas, sociales e históricas que producen operatividad en la intervención del público en pantalla para fundar y mantener el contacto cuando se informa por televisión en las sociedades estudiadas. Referencias Anderson, B. (1993) Comunidades imaginadas. Fdo. de Cultura Económica. México. Billing, M. (1998) “De los códigos a las emisiones. Estudios culturales, discursos y psicología”. En Ferguson, M. y P. Golding (comp.) Economía Política y Estudios Culturales. Bosch. Barcelona. Pp.331-360. Boutinet, J.P. (1978) “Identité, identification et projet”. En Ethno-psycologie Nº 1 Enero- Marzo. Le Havre. Charaudeau, P. (2003) El discurso de la información. Gedisa, Barcelona. Garnham, N. (1986) “The Mass Media, Cultural Identity, and the Public Sphere in the Modern World” en Public Culture. Vol 5. The University of Chicago. Garnham, N. (1998) Economía política y la práctica de los estudios culturales. En Ferguson, M. y P. Holding (edits.) Economía política y estudios culturales. Bosch. Barcelona (121- 144) Giddens, A (1993) Consecuencias de la modernidad. Alianza. Madrid. Giussano, F. (2006) La construcción de la ciudadanía en noticieros de Argentina y Chile. Informe de beca: Ayudantía de Investigación . SECYT, UNRC. Glaser, B. y A. Strauss (1967) The discovery of Grounded theory. Aldine Publishing Com- pany. New York. Traducción Pablo Romero. Grillo, M. (1995) “El noticiero televisivo. El espacio de lo nacional en una programación transnacionalizada”. En Temas y Problemas de Comunicación. Año 3, V.5. Grillo, M. (2000) “Medios, conocidos y allegados. Circuitos de reconocimiento local”. En Comunicación y Sociedad. Imprenta de la Universidad de Guadalajara. México. Enero- julio 2000. Nro. 37. Pp: 111-128.
  • 135. Grillo, M. (2000) “Identidades locales y estilos interactivos . Los medios y las relaciones !%interpersonales”. En Krohling Kunsch M. (Org.) Comunicación. Identidade y fronteras.UNICAP (Edit. de la Universidad Federal de Pernambuco) - ALAIC. Parte IV Cap. V Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Grillo, M. (2002) “Los medios locales. Entre el vecindario, la nación y el mundo”. CRONIA.Revista de Investigación de la Facultad de Ciencias Humanas. Vol. 4. Nro.2.Grillo, M (2004) “Lo local y lo nacional como espacios de identificación espacial en lainteracción mediática”. En Antonelli, M (ed) Cartografías de la Argentina de los ’90.Cultura mediática, política y sociedad. Ferreyra Editor. Córdoba.Grillo, M (2005) “Ciudadanía y medios de comunicación: los límites de una esperanza”.Aceptado para su publicación en noviembre del 2005. Estudios. Publicación del Centrode Estudios Avanzados. UNC. Cba. ISSN 1168-7515 . .Grillo, M. (2006) “La participación del público en el noticiero televisivo o la política en elmercado”. En Grillo, M.; Rizzo, A. y S.Berti (Comp.) Con lo medios de por medio. Imprentade UNRCHabermas, J. (1994) Teoría y crítica de la opinión pública. Gustavo Gilli, Barcelona.Hall, S. (2003) Quién necesita “identidad”? En Hall, S. du Gay, P. Cuestiones de identidadcultural. Ammorrortu. Bs.As.- MadridJay, M. (2003) Campos de fuerza. Entre la historia intelectual y la crítica cultural. Piados.Buenos Aires.Lazarsfeld, P. y R. Merton (1978) Comunicación gusto popular y acción social organizada.En Lazarsfeld, P., R. Merton y E. Morin La comunicación de masas. Centro Editor deAmérica Latina. Bs. As.Macé, E. (1997) La televisión del pobre. La participación del público. En Dayan, Daniel.En Busca del público. Gedisa. Barcelona.Massey, D. (2005) La filosofía y la política de la identidad. En Arfuch (comp..) “Pensareste tiempo”. Paidós. Bs. As.Milani, M. (2004) “Inclusión y exclusión en el espacio público televisivo”. Informe becaAgencia Córdoba CienciaMarletti, C. (2001) Entrevista realizada por Jordi Berrio “La democracia d’opinión el’autoreferencialità dei media”. En Anàlisi, Universidad Autónoma de Barcelona. Nro. 26.(189-206).Morley, D. (2005) Pertenencias. Lugar, espacio e identidad en un mundo mediatizado.En Arfuch, L. Pensar este tiempo. Espacios, afectos, pertenencias. Paidos. Buenos Aires.Rusconi, C. (2004) “Ciudadanos, vecinos y consumidores. La construcción del espaciopúblico en el noticiero televisivo local” En Antonelli, M (ed) Cartografías de la Argentinade los ’90. Cultura mediática, política y sociedad. Ferreyra Editor. Córdoba.Silverstone, R. (2004) Por qué estudiar los medios?. Amorrortu. Buenos Aires.Schlesinger, P. (2007) Los medios y la reinvención de la nación. En Fronteras globales.Cultura, política y medios de comunicación. Luchessi, L. y Rodríguez M. G. (Coord.) LaCrujía Ediciones, Bs. As. (65-91)
  • 136. Thompson, J. (1999). Los media y la modernidad. Una teoría de los medios de !& comunicación.,Paidós, Barcelona. Todorov, T. (1987) La conquista de América. La cuestión del otro. Siglo XXI Editores.Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos México. Tonello, A. (2003) “Visibilidad y reconocimiento. La participación del público en los medios locales. Informe beca Secyt-UNRC. Verón, E. (2005) Fragmentos de un tejido. Gedisa.Barcelona. Waisbord, S. (2007) Los medios y la reinvención de la nación. En Fronteras globales. Cultura, política y medios de comunicación. Luchessi, L. y Rodríguez M. G. (Coord.) La Crujía Ediciones, Bs. As. (29-63) White, Hayden (1992) El contenido de la forma. Paidós. Buenos Aires. Winocur, R. (2002) Ciudadanos mediáticos. Gedisa. Barcelona.
  • 137. CONEXÕES – ARTIGOS
  • 138. "A emergência de gênerosno cinema brasileiro: do Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007primeiro cinema àschanchadas e pornochanchadas Bernadette Lyra1 RESUMOA noção de gênero é uma das mais importantes da doxa da história e da teoria do cinema. Oobjetivo deste artigo é examinar a emergência de gêneros no cinema produzido no Brasil, desdeos primeiros filmes até a chanchada e a pornochanchada. Em primeiro lugar, enfatizando umaperspectiva institucional. Em segundo, considerando a noção genérica como um pacto entre ossistemas de produção e difusão de filmes e os espectadores. E, finalmente, analisando tanto asmarcas reveladoras dos elementos que regulam a formação do próprio discurso cinematográficono País, quanto as formas que atravessam a identidade daquilo que, institucionalmente, se constituiem cinema brasileiro.Palavras-chave: Instituição cinematográfica. Gêneros. Filmes brasileiros. ABSTRACTThe notion of genre that’s the essentials from history and from theory cinema. The aim of thispaper is examine the emergence of the genres into the Brazilian cinema, from the first films tochanchada and the pornochanchada. At first, enhancing an institucional perspective. Secondly,considering the generic notion like a pact among the filmmaker, the mode of diffusion and theviewers. In addition, analysing both the marks revealing from the elements what regule the train-ing of the discours cinematographic and the forms what cross the institucional identity of theBrazilian cinema.Key words: Cinematographic institution. Genres. Brazilians films.1 Doutora em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP),Pós-Doutorado pela Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Atualmente, é coordenadora do Programade Mestrado em Comunicação e Professora Titular na Universidade Anhembi Morumbi. Parecerista daFapesp, CNPq e Capes. Líder do Grupo de Pesquisa Forma, Imagem na Comunicação Contemporânea(UAM/CNPq). Publicou livros e artigos teóricos sobre o cinema. É escritora de ficção com romances econtos publicados no País e no Exterior. E-mail: blyra@uol.com.br
  • 139. Razões das escolhas " A noção de gênero, talvez, esteja desgastada pelo tempo e pelo uso. Mas, nemLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas por isso, deixa de ser uma das mais importantes na teoria e na história do cinema. Retomá-la para investigar a emergência genérica no cinema brasileiro pode tornar-se um desafio intrigante. De modo mais comum, os estudos de gênero costumam ser delineados em contraposição aos estudos de autor. Essa oposição se dá, principalmente, em torno daquela necessidade de agrupamento, nascida na tradição semiológica: “A obra de um cineasta não é a única unidade textual sistemática maior do que um filme. Há também o que se chama ‘gênero cinematográfico’: burlesco, filme noir, comédia musical etc.” (METZ, 1971, p. 93). O princípio de classificação estruturalista, que contrapõe as especificidades de grandes conjuntos, permite que esses conjuntos se desdobrem em diversos esquemas. Nesse sentido, Thomas Schatz propõe a seguinte equação: “A crítica de gênero tenta estabelecer um conjunto de formas cinemáticas, enquanto a crítica de autor celebra certos cineastas que trabalham, efetivamente, no quadro dessas formas gerais.” (1980, p. 8). De modo geral, ao privilegiar essa idéia de conjuntos classificatórios, muitas análises que se dedicam às questões do gênero cinematográfico resultam textuais e têm por motivo certas repetições e reiterações dos temas, tramas e narrativas para nomear os gêneros. Para além dessa idéia, alguns pesquisadores estão preocupados com uma espécie de ontologia dos gêneros: Um gênero não é meramente uma coleção de imagens mortas à espera de um decorador para animá-las. Trata-se de uma tradição com vida própria...Os gêneros precedem os grandes diretores. O western se desenvolvia a contento, por si próprio, antes de John Ford, ou mesmo James Cruz se debruçarem sobre ele. Precisamos nos dedicar muito mais aos primórdios dessas formas variadas se quisermos compreender o seu estranho poder e o processo exato pelo qual se tornaram suficientemente densas para atrair ta- lentos. (BUSCOMBE, 2005, p. 318). Há que mencionar, ainda, que certas vertentes advogam o retorno dos estudos dos gêneros fílmicos ao âmbito da historicidade. Tom Gunning, por exemplo, recorre ao Formalismo Russo em seus estudos sobre o cinema primitivo, exemplificando os gêneros delineados pelos filmes dos primeiros tempos pela “articulação entre os planos, em termos de tempo e espaço”. (GUNNING, 1984, p. 105). Mas,
  • 140. considerando o rol dos muitos estudiosos que se ocupam do assunto, fica patente "!que poucos assumem a importância da história da própria instituição: Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Constatar, na trama atemporal dos filmes, a ocorrência sistemática de certas repartições coerentes, não é a mesma coisa que interrogar a imagem e a história da instituição cinematográfica como algo que, num dado período e sob determinadas condições e exigências, se pensou como um cinema de gêneros, facilitando e fomentando o surgi- mento e a implantação dessas mesmas repar sãobiêMT6êêMT“GRIMmbmO,M1Mmv2tm9aMMtM9aMvMtr7aMmbMtaMmbMt,aMmvbHêMêiêMT6b m4ie
  • 141. Desse modo, o cinema, em seus primórdios, foi tido como um meio de replicação "" da realidade objetiva, ou seja, como um meio de reprodução técnica das imagens em movimento da realidade. A “recriação do mundo real” funda ontologicamenteLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas o cinema. O mito condutor da invenção do cinema é a consumação do mito que domina confu- samente todas as técnicas de reprodução mecânica da realidade que surgiram no século XIX, da fotografia ao fonógrafo. É o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpre- tação do artista, nem a irreversibilidade do tempo. (BAZIN, 1991, p. 30). Porém, desde muito cedo, empresários e produtores do entretenimento descobriram que o cinema poderia substituir o teatro e o circo no imaginário do público. Essa descoberta, talvez, tenha se dado na noite de 28 de dezembro de 1895, quando Georges Méliès, um empresário e prestidigitador do pequeno teatro Robert Houdin, em Paris, compareceu ao salão do Grand Café, convidado para a primeira sessão do Cinematógrafo dos Irmãos Lumière. Emmanuelle Toulet reproduz o que Méliès sentiu: Estávamos, os outros convidados e eu, diante de uma pequena tela, parecida com as que nos serviam para as projeções Molteni e, após um instante, uma fotografia imóvel repre- sentando a Place Bellecour, em Lyon, apareceu em projeção. Um tanto surpreso, eu mal tive tempo de dizer a meu vizinho: “Foi para nos mostrar projeções que nos fizeram vir aqui? Eu faço há mais de dez anos”. Mal acabei de falar, um cavalo puxando um cami- nhão se põe em marcha em nossa direção, seguido de outros veículos, depois de pedes- tres, enfim, toda a animação da rua. Ficamos todos boquiabertos com aquele espetáculo, estupefatos, tomados por uma surpresa inenarrável. (1988, p. 14). De imediato, Méliès compreendeu a função espetacular do cinema, vislumbrando o mundo imaginário que se abria na tela. 3 3 Louis Lumière, com a ajuda do irmão Auguste, inventou o aparelho que permitia a reprodução técnica das imagens em movimento, mas, ao mesmo tempo, inventou o cinema. Assim, o cinema é uma invenção científica, nascida da vontade de domínio do homem sobre a realidade, seguindo o mito do realismo integral e o sonho de uma recriação do mundo à sua própria imagem. A reprodução automática da realidade, preocupação científica que animou a invenção do cinema no fim do século XIX, difere da arte do espetáculo que ganhou amplitude com o cinema de Méliès.
  • 142. Em função desse imaginário fantasioso, Méliès dedicou-se à criação e à realização "#dos procedimentos que, até hoje, fazem parte do arsenal da realização: trucagens,sobre impressões, movimentos mais lentos e muitos outros jogos cinema- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007tográficos.A forma de espetáculo concebida por Méliès, muito cedo, encontrou empresáriosque iriam cercá-la de meios.4No início, eram apenas complementos de espetáculos de vaudeville, assistidoscada vez mais por uma multidão em que predominava uma platéia composta deoperários e trabalhadores de escassa renda. Porém, logo, a classe média seinteressou pelo cinema. Os filmes, então, ocuparam salões que ficavam lotadoscom todo tipo de gente disposta a se divertir ou se maravilhar com as imagensem movimento projetadas na tela.Assim, o cinema, rapidamente, revelou sua função de festa e prodígio.À medida que o mercado de produção e distribuição que se iniciava exigia umaintensificação programática a fim de atrair o público e mantê-lo interessado, asformas materializadas daquela “recriação do real” logo se diversificavam epassavam a incluir, além das famosas “vistas” de Lumière, fatos de repercussãosocial, paisagens de lugares distantes, óperas, dramas e comédias tirados depeças teatrais, espetáculos mágicos e circenses.Esses motivos, ao mesmo tempo que se multiplicavam, foram sendo repetida-mente utilizados pelas produtoras e distribuidoras que os organizavam emcatálogos para os programas de exibição.Dessa maneira, a indústria de filmes ia se construindo entre a diversidade e aprevisibilidade, baseada em dois pólos: inovar para sobreviver e repetir paragarantir um padrão.4 É claro que, ao lado dessa função de espetáculo de divertimento, o cinema muito cedo revelou, paraalguns realizadores, as possibilidades de exercer uma função política e ideológica em que se proclamavaa ideologia politizada do meio e até se teorizava sobre ela, como é o caso do americano David Wark Griffith(Nascimento de uma nação, 1915, e Intolerância, 1916) e do soviético Seguei Eisenstein, em seus filmese escritos. Além disso, também muito cedo, começavam as preocupações com a transformação ideológicado cinema em uma “arte”. Nos primórdios do século XX, na França, os irmãos Laffitte chegam a fundar asociedade Le Film d´Art, esperando dar ao cinema um toque de “nobreza artística”, inexistente até então.
  • 143. Constituiu-se, assim, a experiência cinematográfica. Do ponto de vista institucional, "$ a existência de uma noção de gênero se deve a esse tipo de experiência, que engloba a repetição e a inovação.Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas Embora no âmbito da estética a idéia do “novo” seja motivo de desacordo entre aqueles que a atribuem aos valores pregados pelo romantismo e aqueles que a vêem como um modo politizado de tornar um produto cultural acessível, nivelando “alta cultura” e “cultura de massa”, um filme de gênero sempre depende dessa “combinação de novidade e familiaridade. As convenções do gênero são conhecidas e reconhecidas pelo público e tal reconhecimento já é, por si só, um prazer estético”. (BUSCOMBE, 2005, p. 315). Os gêneros no cinema brasileiro: os primeiros momentos O cinema no Brasil começa sob o signo da perspectiva industrial e da importação de modelos. Em torno desses dois eixos gira toda a produção, realização e difusão de filmes no País, nas primeiras décadas do século XX. Quanto ao primeiro, é fato que a primeira geração de produtores e distribuidores de filmes a atuar nas cidades brasileiras estava mais interessada na rentabilidade comercial do cinema, não se podendo falar em idéias organizadas com uma determinada finalidade que não aquela de investir e lucrar com o novo meio de entretenimento. Quanto ao segundo, é relevante considerar a chegada de imigrantes que aqui aportavam em busca de trabalho e o seu direcionamento para a indústria de entretenimento. Muitos desses imigrantes tinham facilidades de ida e vinda e contatos deixados em seus lugares de origem e podiam estar em dia com a disseminação do cinema pelo mundo. Foram eles que se encarregaram de formar um público de espectadores no Brasil, trazendo do estrangeiro as projeções luminosas sobre uma tela branca.5 5 Exemplar é o caso de Pascoal Segreto, um italiano que, aos 28 anos de idade, era empresário do Pantheon Ceroplástico, um museu de cera que se apresentava em vários logradouros do Rio de Janeiro, por volta de 1896. Acostumado a investir no mundo dos espetáculos, Segreto introduziu o primeiro cinematógrafo permanente no Brasil: o Salão de Novidades. Antes dele, o público havia já visto o Kinetographo, trazido pelo empresário português Aurélio da Paz Reis, que estreou em 15 de janeiro de 1897; o Cinematographo Edison, apresentado pelo prestidigitador espanhol Enrique Moya; o Animatographo, do professor italiano Vittorio di Maio e o Cinematographo Lumière, apresentado pelo francês Henry Picolet.
  • 144. Além disso, a precária situação econômica de grande parte da população do País "%impedia o investimento de empresários, técnicos e profissionais na área. Nossasindústria e tecnologia, quase inexistentes, também se mostravam incapazes de Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007fabricar máquinas de cinema.Todos esses fatores contribuíram para atrair a atenção dos centros produtores edifusores do cinema no mundo, que demonstraram um especial interesse pelomercado brasileiro. Primeiro vieram os filmes experimentais de Edison, Lumière e outros. Logo em seguida, as pesquisas mais elaboradas de Méliès, Zecca, Edwin Porter, etc. Depois as epopéias italianas de Ambrosio, Pastrone e Guazzoni. Imediatamente após, os dramas escan- dinavos de Asta Nielsen e Valdemar Psilander. Em 1915, num concurso de popularidade efetuado no Brasil, os quatro primeiros postos foram ocupados pela italiana Francesca Bertini, pelos dinamarqueses Nielsen e Psilander e pelo norte-americano Maurice Costel- lo. Daí por diante, porém, garantidos pelos bancos, que pouco a pouco haviam tomado o controle dos estúdios, os filmes norte-americanos começaram a entrar com maior força no nosso mercado, eliminando gradativamente, através de uma produção e uma publici- dade maciças, os demais concorrentes. (VIANY, 1987, p. 37).Quanto à realização de filmes em nosso país, ela parece ter se iniciado tambémdentro do princípio ontológico de reprodução do real que guiava as primeirasproduções de Lumière, bem como a de tantos realizadores europeus e americanos.Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto faz o registro da baía de Guanabara, debordo do navio Brésil que o trazia da França. O jornal A Gazeta de Notícias, doRio, no dia 20 de junho de 1898, noticia o fato aos leitores: Chegou ontem de Paris o sr. Afonso Segreto, irmão do proprietário do salão Paris, no Rio, sr. Gaetano Segreto. O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho foto- gráfico para preparo de vistas destinadas ao cinematográfo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade que é a exibição de vistas movimentadas no Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e os navios de guerra.A partir dessa primeira “vista”, se inicia uma diminuta produção em que os filmeseram pequenos, feitos com tecnologia precária, destinados à exibição nas salasde divertimento que apareciam, principalmente, no Rio de Janeiro.Logo, as vistas e as paisagens que se multiplicavam começaram a dividir oespaço com filmes que recheavam o universo de interesse dos habitantes do Rioe de outras cidades. Registros de casos policiais famosos, melodramas, filmes
  • 145. religiosos, dramas históricos e patrióticos e filmagens de bailes e corsos "& carnavalescos, ao mesmo tempo que forneciam ao público uma diversidade de escolha dentro de um panorama comum a todos, consolidavam-se na sucessãoLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas dessas mesmas escolhas. Sempre atento às tendências dos filmes estrangeiros que faziam sucesso na época, o próprio Segreto produziu filmes ligeiros, como Beijos de amor e Um colegial numa pensão, os quais reproduziam cenas cômicas da vida cotidiana. O ano de 1908 marcou o início de uma fase áurea do cinema brasileiro, com uma produção intensa. A demanda do público se tornava cada vez maior com a ascendência de uma classe burguesa urbana e uma intensa população de migrantes. Os espectadores já então se tinham habituado ao novo entretenimento, exigindo a ampliação do número de salas exibidoras e a variação dos filmes. Nessa época, romancistas, dramaturgos e caricaturistas começaram a se interessar em escrever para o cinema. Grande parte da instalação dessa fase se deveu à participação de proprietários das salas de exibição, os quais resolveram investir na produção cinematográfica.6 A pesquisadora Anita Simis registra 963 produções nesse período, no País. “Grande parte desses filmes eram de curta metragem, sendo vários deles documentários e tomadas de vistas e um quarto de ficção produções, 763 eram filmes curtos, como documentários e tomadas de vistas (768) e um quarto de ficção (240)”. (SIMIS, 1996, p.72). Construíam-se estúdios e neles eram realizadas películas que iriam competir com as fitas estrangeiras exibidas. Mas, em geral, os realizadores continuavam seguindo os modelos genéricos vindos “de fora” e que obtinham sucesso. Proliferavam os documentários; as vistas; os filmes falantes e os cantantes, sincronizados com o som de fonógrafos; os filmes sacros; os chamados “filmes livres”, proibidos para mulheres e crianças; as comédias e os policiais. Estes últimos se destacavam entre os modelos narrativos. 6 Quanto às salas de exibição, nos primeiros tempos do nosso cinema, eram inexistentes. Depois, pouco a pouco, foram surgindo salas esparsas, funcionando em circos, teatros, pavilhões eventuais e mesmo em locais de consumação de bebidas e comidas, como os cafés-concerto e, quase sempre restritas aos centros mais adiantados, como Rio e São Paulo.
  • 146. As comédias, sobretudo aquelas que repassavam repetidamente um “estar” cínico "da realidade brasileira, caíam no gosto do público. Tornavam-se o gênero maispopular de cinema. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 As comédias... envolviam sempre algum tipo de malvadeza. As vítimas eram muitas: aman- tes, policiais, cozinheiros, vagabundos, tintureiros chineses, proprietário de mercearias. Ha- via bagunça de todo tipo: guerras de travesseiro entre internas, guerras de farinha de trigo e de tortas entre adultos, brigas entre policiais e civis. Estas comédias eram freqüen- temente cínicas em relação à autoridade e à moralidade vigente. Esperava-se a infidelida- de. A corrupção era motivo de piada. Proliferavam estereótipos raciais e profissionais. (COS- TA, 1995, p. 21).A introdução do fator “brasileiro” se constitui em dado mais que importante nagênese genérica dos filmes, ao lado da vontade industrial e da importação demodelos.A primeira comédia de enredo foi Nhô Anastácio chegou de viagem (1908), deJulio Ferrez, filme de menos de quinze minutos, produzido por Arnaldo Gomes deSouza e Marc Ferrez.Nhô Anastácio chegou de viagem mantinha, com humor e alguma ironia, um fionarrativo que ainda não havia sido explorado e pode-se afirmar que trazia umcaipirismo bem brasileiro.O primeiro policial foi Os estranguladores (1908). O filme era a adaptação deuma peça teatral contando uma rebuscada história de dois assassinatos em 40minutos – tempo demasiado para os filmes da época – que alcançou grandesucesso – mais de 800 exibições – tendo sido produzido pela Photo-CinematografiaBrasileira, sociedade do cinegrafista português Antonio Leal com o ex-comercianteJosé Labanca.Nessa vertente policial, também em 1908, foi produzido O crime da mala, pelaempresa Francisco Serrador, no qual se reconstituía o assassinato de Elias Farah,por Miguel Traad, que esquartejou a vítima e tomou um navio com intenção dejogar os pedaços do cadáver no mar, mas acabou sendo preso. O filme apresentauma mistura de fato ocorrido com ficção, com registros autênticos dos locais docrime e do julgamento do assassino. A união de imagens encenadas com imagensdocumentais resulta em uma fórmula que começa a dar o tom em algumasproduções brasileiras, tais como Noivado de sangue, Um drama na Tijuca e Amala sinistra, sendo este último uma versão do mesmo crime da mala.
  • 147. Esses dois tipos de filme repetiam ou criticavam o cotidiano dos habitantes das # cidades, em especial do Rio de Janeiro, em ritmo de crescimento, aumento da pobreza e implantação de valores sociais, incitando o voyeurismo do público queLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas ia ver, no cinema, os fatos urbanos domésticos, pitorescos ou violentos. Paz e amor (1910), de Alberto Botelho, é uma comédia que já mesclava fragmentos de outros gêneros.7 O título se referia a uma frase do Presidente Nilo Peçanha que, ao assumir o cargo, teria dito aos repórteres: “Farei um governo de paz e amor.” No filme, que era dividido em quatro partes, cinco quadros e duas apoteoses, eram criticados os acontecimentos da campanha civilista, os políticos nacionais e os costumes da cidade. Nesse período, os filmes que aqui chegavam ou aqueles que aqui eram produzidos tinham duas possibilidades de distribuição: ou eram exibidos nas salas de projeção das grandes cidades ou ficavam destinados à exibição ambulante. “Pelo país afora seguiam cinegrafistas itinerantes registrando coisas e projecionistas exibindo-as, bem como ao material importado de séries de filminhos de diversas proveniências.” (FINGUERUT, 1986, p. 3). Em 1915, veio morar em São Paulo o italiano Vittorio Capellaro, responsável pela produção dos primeiros épicos e de adaptações literárias no País. E, em 1919, Gilberto Rossi e José Medina produziram, também em São Paulo, Exemplo regenerador, filme considerado de bom padrão técnico e artístico. Assim, o grosso da produção fílmica que, de 1912 a 1922, situava-se no Rio de Janeiro, alastrou-se para outros estados. A atividade produtiva causou o surgimento de revistas especializadas em cinema, bastante lidas na época, em especial Para Todos, Selecta e Cinearte Esta última abriu um caminho para que se pensasse nas possibilidades do uso do cinema com fins de educar a juventude brasileira, através de gêneros “educativos”. Mas, desde 1911, com a chegada da primeira leva de capitalistas norte- americanos interessados em investir em cinema no Brasil, os filmes estrangeiros começaram a tirar espaço das produções feitas no Brasil, fato que foi se intensificando, causando progressiva regressão na produção local de tal forma 7 Pode-se dizer que Paz e Amor é um filme verdadeiramente precursor da identidade genérica das chanchadas.
  • 148. que, ao fim da década de 10, a produção cinematográfica brasileira entrava em #crise e passava a sobreviver com a ajuda da filmagem de jornais e documentáriosque, então, se transformavam em um gênero básico para o mercado exibidor. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Por alguns anos, o cinema brasileiro sobreviveu quase exclusivamente doscinejornais e dos filmes de cavação, um tipo de filme encomendado ou vendidoàs figuras proeminentes ou ricas que neles apareciam.A anulação da farta fase produtiva pode ser creditada a alguns fatores que afetaramo mercado cinematográfico no País. Um desses fatores, a dificuldade em importarmaterial, por ocasião da Guerra de 1914, prejudicou em muito a produção fílmica.Além disso, os Estados Unidos se aproveitaram do envolvimento da Europa noconflito para intensificar uma política agressiva de exportação de produtoscinematográficos para países como o Brasil.Não deixa de ser interessante que, por essa ocasião, o técnico americanoWilliam S. Jansen juntou-se a comerciantes brasileiros para fundar uma empresacinematográfica, a Brasil Film, depois denominada Sociedade Anônima Omega Film.A Omega Film pretendia produzir filmes baseados em autores literários, comédiase dramas históricos dentro de um modelo que apresentasse a novidade do aspectobrasileiro a ser exportado para os Estados Unidos.Em junho de 1919, a produtora mostrou seu filme Urutau em sessão paraconvidados e jornalistas. O filme tratava de uma pretensa lenda indígena, apoiando-se em uma mistura narrativa repleta de exotismo, cercada de pretensas matas,cachoeiras, plumagens e modo “selvagem” de vida. Foi veementemente louvadopela crítica como sendo um dos grandes esforços já feitos, no Brasil, para implantara arte e a indústria do cinema, dentro de propostas para educar, divertir eengrandecer o povo brasileiro.Apesar do entusiasmo com que foi recebido pelos comentaristas, o filme nuncaestreou comercialmente. E, com a volta de Jansen à América do Norte, a OmegaFilm foi extinta, tendo o filme desaparecido juntamente com o produtor.A chegada da tecnologia do som a Hollywood modificou o cinema em todo o mundo.Em 6 de outubro de 1927, estreava, nos Estados Unidos, o primeiro filme falado ecantado: O cantor de jazz (The jazz singer), produzido e realizado pela Warner Bros.
  • 149. A Warner Bros ocupava um lugar relativamente à parte entre as grandes produtoras # pelo modo como aplicava seus recursos econômicos e, desde muito, havia começado a investir na adaptação de um dispositivo de sincronização sonoraLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas para seus filmes. Em julho de 1928, a companhia lançava The lights of New York, o primeiro filme falado de gangster. Entre nós, o fim da era do cinema mudo intensificou o trabalho de importação de filmes americanos. Porém, estimulado pelo sucesso de Barro humano (1929), Adhemar Gonzaga conseguia já recursos para fundar um grande estúdio, a Cinédia, pioneira em filmes musicais, na esteira dos filmes musicais hollywoodianos que a tecnologia sonora havia deslanchado. Instalada no bairro carioca de São Cristóvão, a Cinédia era dotada de parâmetros técnicos, bem-equipada e tinha nítida inspiração nos estúdios de Hollywood, desenvolvendo uma produção regular, com palcos simultâneos, equipamentos de qualidade e pessoal contratado em regime permanente. A exemplo dos americanos, os filmes cantados e dançados brasileiros da década de 30 operavam sob a forma de backstage musical da época.8 No backstage a estrutura narrativa se alicerça em uma história que apenas serve de pretexto para que danças e canções sejam encenadas. Foi essa forma fílmica que permitiu, rapidamente, uma vinculação dos musicais, no Brasil, com o rádio e com a indústria fonográfica, atuando, especialmente dentro de um modelo carnavalesco. Na Cinédia foram produzidos A voz do carnaval, em 1933, e Alô, Alô, Brasil, 1935, dirigido pelo norte-americano Wallace Downey, representante dos discos Columbia em São Paulo. Em sua realização, esse filme contava com uma imensa constelação de estrelas do rádio e do mercado fonográfico. Em 1936, a Cinédia lançava um filme carnavalesco que alcançou enorme sucesso, Alô, Alô, Carnaval. E em 1939, era produzido Banana da terra, filme em que Carmen Miranda se despedia do cinema no País. A alternativa do filme musical de carnaval obedeceu, em parte, a uma vocação da socie- dade carioca: o cômico a ele acrescentado trouxera mais vigor e mais público, principal- 8 Em oposição ao backstage musical, o integrated dance musical busca integrar os números de dança ao processo diegético do filme, expressando situações da narrativa e integrando-se a elas.
  • 150. #! mente quando estas histórias e estas narrativas mostravam o Rio de Janeiro com sua própria cara. O cômico era linguagem descritiva da esterilização dos destinos individuais e também representava a possibilidade das vivências e das sociabilidades cotidianas de Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 forma incomum, no seio de uma comunidade imaginada. (FERREIRA, 2003, p. 79).Das chanchadas às pornochanchadasDe repente, em determinado momento (talvez por volta da década de 40), portodo o País, ouvia-se a palavra chanchada.“Não se sabe ao certo quem primeiro a empregou entre nós, mas tudo indicaque, antes de se estabelecer por aqui, ela tenha feito baldeação na Argentina.”(AUGUSTO, 1989, p. 17).O nome chanchada serve a um cinema em que tudo se faz sobre a necessidadede negociar com o público e não de educá-lo ou de instruí-lo. E, sobretudo, sobrea necessidade de adaptar os gêneros fílmicos a uma “brasilidade” que nadatinha de cópia dos modelos estrangeiros.9Os espectadores das chanchadas ansiavam por filmes populares e alegres, semse importar que fossem ou não profissionalmente bem-acabados ou quecontivessem refinadas mensagens. Pode-se dizer que o espírito da chanchada locou-se no Brasil, desde a chegadado espetáculo cinematográfico, quando se consolidou a tradição de uma produçãodestinada a entreter certo tipo de público, anteriormente voltado para o circo e oteatro. Desse modo, a popularização dos filmes se fez sentir desde os primeirosmomentos, apesar dos protestos daqueles que pretendiam uma cultura mais“artística” para o País.109 Alguns críticos mais radicais afirmam que as chanchadas eram cópias de modelo hollywoodiano.Naturalmente que, para alguns, cópias inferiores. No entanto, a fórmula de Carnaval no Fogo (1949),apontada como cópia dos filmes da dupla Jerry Lewis e Dean Martin, foi pensada antes da primeiracomédia de Lewis e Martin, Amiga da onça (My friend Irma), produzida em 1949 e lançada no Brasil algumtempo depois que Alinor Azevedo e Watson Macedo já tinham terminado Carnaval no Fogo.10 Os intelectuais sempre temeram o entretenimento, pois sabiam bem que este ameaçava a fragilidadecultural. O entretenimento vinha ocupar um lugar dos sentidos que a razão e a mente tentavam cooptar. Oentretenimento vinha substituir o sublime pelo divertido. Desmerecer o entretenimento era, portanto, umaquestão de poder.
  • 151. Não é coincidência que o desprezo de um certo tipo de intelectualidade pe- #" las chanchadas seja o mesmo que as elites culturais, por longo tempo, mantiveram a respeito do entretenimento das massas. Afinal, um dos dogmas da cultura eruditaLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas era que a arte exigia esforço para ser apreciada, sobretudo esforço intelectual, mas que o entretenimento não fazia exigência alguma ao intelecto. Ela (a arte) redimensionava a visão do sensual para o intelectual, do temporal para o eterno, do corpóreo para o espiritual, coisas que, todas juntas, faziam da arte uma questão não só de estética como também de moralidade, já que seu efeito era encorajar o aprimoramento. (GABLER, 1999, p. 23). As chanchadas se constituíram sobre uma coletânea de gêneros já reconhecidos sem maiores dificuldades pelos espectadores brasileiros, mesclando melodrama, drama romântico, aventura, policial e, sobretudo, musicais e comédia. Em suas relações com o cinema no Brasil, as chanchadas constituem uma topografia que se afirma não como um lugar de proveniência e fim de algo, mas uma terra de convergência para todas as orgias do imaginário cinematográfico, repletas de deusas, personalidades do mundo social e político, indígenas, faraós, gangsters, bailarinas, figuras bíblicas, personagens teatrais, enfim, uma desmesurada gag cultural embalada por músicas carnavalescas e por adaptações populares de peças eruditas. Pode-se dizer que a terra das chanchadas está fundamentada sobre o território do cinema brasileiro, mais precisamente sobre as idéias que nele pairam, e se configura, ela mesma, em arquipélago enunciativo, feito de associações, aproveitamentos, cópias, montagens, cruzamentos e permutas de outros gêneros, incessantemente em combinação. Na rede cruzada de fragmentos que vão organizando as histórias, o nome chanchada se confunde com outros, como aquele que viria a designar o lugar produtor de chanchadas por excelência: a Atlântida, que, no entanto, “não foi o único celeiro da chanchada, apenas o mais antigo e produtivo (62 filmes de ficção e dois documentários em 20 anos de atividade) por conseguinte, o mais célebre”. (AUGUSTO, 1989, p. 30). A Atlântida foi oficialmente fundada em 18 de setembro de 1941, por Moacyr Fenelon, Edgard Brasil, José Carlos Burle, Arnaldo de Farias e Alinor Azevedo.11 11 A marca da produtora, a não ser pelo chafariz jorrando água em abundância, em nada lembrava a utópica cidade-estado de Atlântida, sonhada por Platão e devorada pelo oceano, cujos habitantes eram sábios e portadores de grandes riquezas.
  • 152. Com o nome de Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A., pretendia ser ##uma fonte de produção de filmes brasileiros que, ao lado do apuro técnico, exi-bissem um conceito de identidade cultural do Brasil. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 5 deagosto de 1969, Alinor de Azevedo conta de que maneira participou da fundaçãoda companhia: Uma vez eu estava na Cinelândia, muito desgostoso, e encontrei o Moacir Fenelon. Ele me pediu uma ajuda para fundar uma empresa. Foi aí que comecei a escrever o prospecto da Atlântida. Falei de filme colorido, de coisas mirabolantes e até de coisas que a empresa nunca fez. Ficou conhecido como o Manifesto da Atlântida. (1969, p. 59). O Manifesto da Atlântida – que era “propagandista, para inspirar a confiançanos compradores de ações da Companhia”, segundo Alinor – é, possivelmente,a primeira demonstração, no meio cinematográfico brasileiro, de consciência danecessidade de adequar a produção e a proposta de industrialização à realidadeconcreta do mercado.A Atlântida tentou, desesperadamente, colocar isso em prática. Tomando AlinorAzevedo como exemplo, pode-se ter uma idéia de quanto seus idealizadorespretendiam fazer um cinema engajado, de acordo com seus ideais de cultura epolítica no Brasil, mas tiveram que se render a filmes de entretenimento popularpara continuar industrialmente atuando.12Era de Alinor o roteiro de Tumulto, o primeiro longa-metragem da Atlântida, quenunca foi filmado. Na produtora, ele fez ainda Asas do Brasil (1947), Luz dosmeus olhos (1947), Terra violenta (1948), todos filmes baseados em nossouniverso sociocultural.Então, veio uma fase intensa de chanchadas produzidas na Atlântida. Apoiadoem uma idéia de Anselmo Duarte, em 1946, Alinor Azevedo fez o roteiro deCarnaval no Fogo, filme que conseguiu sintetizar o modelo ideal do gênerochanchadesco no Brasil.1312 Alinor Azevedo era o cérebro da Atlântida. Foi um dos mais importantes roteiristas do País.13 Na Atlântida, Alinor Azevedo ainda trabalhou em roteiros originais, diálogos e adaptações parachanchadas e outros tipos de filme: Caçula do barulho (1949), Também somos irmãos (1949), Aviso aosnavegantes (1950), A sombra da outra (1949), Não é nada disso (1950), Maior que o ódio (1951).
  • 153. O imenso sucesso de bilheteria de outra chanchada, Este mundo é um pandeiro #$ (1946), escrita por Hélio Soveral, tinha atraído Luiz Severiano Ribeiro o maior exibidor do País e dono da distribuidora União Cinematográfica Brasileira, queLyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas passou a investir na produtora. Severiano Ribeiro estava motivado, sobretudo, pela Lei 20.493 (sancionada no início de 1946), que obrigava todos os cinemas a exibir pelo menos três longas- metragens brasileiros por ano, ou seja, um filme a cada quatro meses. A estratégia da participação do exibidor na produção tinha a sua lógica. A seção Cine- gráfica de O Cruzeiro acusava, atrás da anônima assinatura de operador, que Severiano durante a guerra havia comprado cotas da Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB) e da Distribuidora Nacional (DN), que eram duas das três firmas especializadas na distribui- ção de filmes brasileiros no eixo Rio-São Paulo. Severiano trazia o cabedal dos territórios de exibição do Rio-Leste-Nordeste-Norte do país, agora acrescido de um laboratório cine- matográfico que pretendia ser o melhor do Brasil. O passo seguinte da estratégia do exi- bidor foi aproveitar-se da exibição corrente do meio cinematográfico, propondo co-produ- ções a quantos projetos houvesse. (CATANI, 1983, p. 50-52). A verticalização empreendida pelo empresário foi fundamental para a longevidade e a continuidade das atividades da produtora que passou a contar com uma equipe de realizadores como Watson Macedo, José Carlos Burle e Carlos Manga. Instalou-se, também, um sistema de estrelas e astros, alguns exclusivos da Atlântida, como o casal romântico dos filmes, Eliana e Anselmo Duarte e cômicos como Oscarito e Grande Otelo. Na década de 50, a Atlântida se transformou em uma verdadeira fábrica de chanchadas, obtendo imenso sucesso comercial. Sucediam-se as chanchadas de sucesso como Nem Sansão nem Dalila (1954) e O homem do Sputnik (1959).14 Esse encontro entre produção e comércio exibidor lembra a harmoniosa e nunca repetida conjuntura econômica que reinou no cinema brasileiro entre 1908 e 1911. Em 1947, porém, o resultado mais evidente da almejada confluência de interesses industriais e comerciais foi a solidificação da chanchada e sua proliferação durante mais de quinze anos. (GOMES, 1980, p. 73). 14 A par das chanchadas, a Atlântida não deixou de produzir filmes “sérios” como já havia produzido Vidas solidárias (1945), de Moacyr Fenelon e Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle. A Atlântida produziu Luz dos meus olhos (1947), onde José Carlos Burle lançou a atriz Cacilda Becker; Terra violenta (1948), e o policial Amei um bicheiro (1952), de Jorge Ileli e Paulo Wanderley.
  • 154. Também a partir de 1950, a experiência cinematográfica dos espectadores #%brasileiros passou a contar com uma indústria cinematográfica disposta a explorarfatos tais como a volta de Getúlio Vargas ao poder, eleito pelo voto direto, as Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007novidades da industrialização, o êxodo rural e o crescimento das cidades brasileiras.Nessa década, desenvolve-se o modelo institucionalizado de um ethos cultural brasi-leiro que a política desenvolvimentista do governo fazia questão de acentuar. Carna-val, samba, bons malandros e os olhos verdes da mulata povoam os gêneros fílmicosproduzidos no País, até a irrupção do Cinema Experimental e do Cinema Novo.15No fim dos anos 60, aparece a pornochanchada, uma forma de cinema que, semal- adivinhada anteriormente aqui e ali, irrompe, finalmente, em decorrência dacrise institucional do cinema no Brasil.Para muitos, a crise que se apresenta como decorrência de fatos políticos quedesencadeiam violenta censura aos meios de comunicação, propiciou o surgimentoda pornochanchada.Mas o pesquisador Gelson Santana apresenta uma versão mais bem fundada noaparato institucional do cinema brasileiro, quando remete à própria precariedadeque rege esse meio:“Na pornochanchada, o processo de fazer uma imagem sem espessura é levado àsúltimas conseqüências... E ele (esse processo) foi resultado de uma falta de ca-pacidade artística e tecnológica da indústria cinematográfica nacional.” (SANTANA,2005, p. 329).Esse deslocamento de uma explicação de raiz sociológica (a crise política) paraum dado tecnologicamente ancorado na produção e realização de filmes se tornafundamental, dentro da visão institucional do cinema: O precário é a instância primordial, ele é o resultado de uma espécie de subnutrição tecnológica. E é exatamente esta espécie de subnutrição que inventa ou conforma o gênero no cinema brasileiro. Se o gênero no cinema brasileiro pode ser visto como a configuração do precário em formas paradoxais imantadas nos filmes, isso se deve ao fato de que gênero no cinema brasileiro se faz a partir de pontos de convergência de determinadas práticas, tanto materiais, determinadas pela precariedade, quanto expressivas. (SANTANA, 2005, p. 326).15 O fim da Atlântida, em 1962, se deve a uma série de filmes mal-sucedidos e ao advento do CinemaNovo e da televisão no País.
  • 155. As pornochanchadas, quer as produzidas no Rio, quer as feitas na Boca do Lixo #& paulista, eram o tipo de filme com uma produção barata e disposta a produzir um filme com o lucro imediato de outro filme.16Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas Na década de 80, com a invasão dos filmes eróticos estrangeiros, a pornochan- chada assumiu um caráter mais explícito: Êxitos como Bacanal de Colegiais, A Menina e o Cavalo e Sexo em Festa serviram para provar ao comércio cinematográfico que o Brasil podia fazer frente a desenfreada importação de pornôs estrangeiros. E em relação ao público, existia a vantagem: a língua portuguesa. O palavreado chulo em meio das fartas transas tornavam nossos filmes mais atraentes. A indús- tria da Boca sentiu-se, aparentemente, mais segura, podia se manter e manter os empregos que gerava. Era o começo de um caminho sem volta. (STERNHEIM, 2005, p. 39). Essas formas que materializavam, escancaradamente, o aspecto pornô emergiram das instâncias externas que, ao longo da história do cinema brasileiro, foram estruturando os atos de produção e difusão, em conjugação com os aspectos técnicos e tecnológicos e com as alternativas estéticas e narrativas dos filmes. Concluindo As formas de produção de chanchadas e de pornochanchadas foram concebidas no triplo cruzamento que moveu a produção de filmes no País, desde seus princípios: modelos importados, que faziam sucesso entre nós, e eram, já, devidamente conhecidos e reconhecidos pela formação cinematográfica do público; modelos voltados para aproveitamento daquilo que a instituição cinematográfica considerava “a nossa cultura”; modelos adaptados à rentabilidade econômica de produção e difusão e às injunções técnicas e tecnológicas existentes no País. Dessa integração de modelos foi feito o cinema brasileiro de gêneros. Os gêneros foram emergindo como possibilidades de organização e estruturação cinematográficas dentro de nossas possibilidades e precariedades, e foram se organizando com o fim de garantir as expectativas do público.Gênero no Brasil é a experiência que resulta desse enlace institucional que une a indústria do ci- nema com o modo de combinar as imagens e os sons. 16 O cinema da Boca do Lixo respondia por mais de 50% da produção brasileira da década de 70.
  • 156. REFERÊNCIAS #AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a Sérgio Augusto.São Paulo: Cinemateca Brasileira/Cia. das Letras, 1989. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007AZEVEDO, Alinor . Depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro: MIS,1969.BAZIN, André. O Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1991.BUSCOMBE, Edward. A idéia de gênero no cinema americano. In: RAMOS, Fernão Pessoa(Org.). Teoria contemporânea do cinema. São Paulo: Senac, 2005. p. 303-318. v. 2.CATANI, Afrânio Mendes; SOUZA, José Inácio de Melo. A chanchada no cinema brasileiro.São Paulo: Brasiliense, 1983. (Col. Tudo é História, n. 76).GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. 2. ed. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1980. (Col. Cinema, n. 8).COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema. São Paulo: Scritta, 1995.FERREIRA, Suzana Cristina de Souza. Cinema carioca: anos 30 e 40. São Paulo:Annablume, 2003.FINGUERUT, Silva. Cinema brasileiro: 90 anos. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho,1986.GABLER, Neal. Vida, o filme. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.GRILO, João Mário. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio-d’Água, 1997.GUNNING, Tom. Le style non-continu du cinéma des premiers temps. Les Cahiers de laCinémathèque, Paris, n. 24, p. 24-34, 1979.METZ, Christian. Langage et cinema. Paris: Larrouse, 1971.SANTANA, Gelson. A pornochanchada como gênero. In: CATANI, Afrânio Mendes; GARCIA,Wilton; FABRIS, Mariarosa. Estudos de Cinema SOCINE – Ano VI. São Paulo: Nojosa,2005. p. 325-331.SCHATZ, Thomas. Hollywood genres: formulas, filmmaking and the studio system.Filadelfia: Temple University Press, 1980.SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. São Paulo: Annablume, 1996.STERNHEIM, Alfredo. Cinema da Boca: dicionário de diretores. São Paulo: Cultura;Fundação Padre Anchieta; Imprensa Oficial, 2005.TOULET, Emmanuelle. O cinema: invenção do século. São Paulo: Objetiva, 1998.VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Alhambra; Embrafilme,1987.
  • 157. $Vigília e inteligência estratégica:ferramentas metodológicas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007para a definição de estratégiasde relações públicas Ana Cristina Fachinelli1, Jane Rech2, Olivar Maximino Mattia3 e Vanessa Roveda4 RESUMOO presente artigo pretende, a partir de uma análise das características da sociedade contem-porânea, refletir sobre as novas necessidades das organizações quanto à área de comunicação.Dessa forma, parte-se da investigação de quais são os atributos que o profissional de comunicaçãodeve desenvolver para formular e implantar estratégias eficazes, bem como quais metodologias eprocessos podem auxiliá-lo nessa tarefa. Sendo assim, este trabalho apresenta um estudo sobrea importância da informação para a criação de estratégias e sobre a contribuição que metodologiasde processamento da informação, como a vigília e a inteligência estratégicas, podem gerar paraa atividade de relações públicas.Palavras-chave Novas tecnologias de informação e comunicação. Informação. Vigília estratégica.Palavras-chave:Inteligência estratégica. Relações públicas. ABSTRACTThis paper intends, from the analysis of the characteristics of a contemporary society, to reflectabout the new organizational necessities in the field of communication. It refers to the necessaryattributes of the communication professional in order to shape and to establish efficient strate-gies as well as processes and methodologies like Strategic Intelligence.Key words: New technologies of information and communication. Information. Strategic Vigil.Strategic Intelligence. Public Relations.1 Doutora em Ciências da Informação e da Comunicação pela Université de Poitiers – França. Professora/Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail:acfachin@ucs.br.2 Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).Professora/Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail: jrech2@ucs.br.3 Mestre em Tecnologia da Educação pelo Instituto de Pesquisas Espaciais, Inpe/CNPq de São Paulo.Diretor/Professor/Pesquisador no Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da Universidade deCaxias do Sul (UCS). E-mail: ommattia@ucs.br.4 Bacharel em Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
  • 158. grande desenvolvimento das novas tecnologias de informação provocou $ profundas modificações no comportamento da sociedade contemporânea, O criou novas formas de ação e interação e assim transformou a organizaçãoFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... espacial e temporal da vida social. Thompson5 analisa os principais impactos que os meios de comunicação trouxeram à sociedade contemporânea, destacando cinco pontos principais de repercussões: 1. reorganização do espaço e do tempo: antes dos meios de comunicação, o conceito de simultaneidade pressupunha que, para assistir a um determinado acontecimento, era necessário estar presente no ambiente-evento. Se isso não fosse possível, o conhecimento era adquirido através de relatos de outras pessoas sobre o fato. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a interação se dissocia do ambiente, permitindo que indivíduos interajam com situações ou pessoas mesmo estando em espaços diferentes; 2. transformação da visibilidade: no momento em que as interações se tornam independentes do compartilhamento do mesmo ambiente físico, os eventos envolvendo, tanto os fatos como as pessoas adquirem maior visibilidade. Isso porque há um aumento significativo do número de pessoas que passam a ter conhecimento de uma determinada situação. Políticos e líderes sociais tiveram que se adaptar a essa nova visibilidade; 3. a globalização da comunicação: a crescente interconexão entre os diferentes pontos do mundo possibilita que atividades aconteçam numa arena que é global. Possibilita também que atividades sejam organizadas, planejadas ou coordenadas numa escala mundial envolvendo algum grau de reciprocidade e interdependências globais; 4. a alteração da experiência do indivíduo num mundo mediado: o desenvolvimento da mídia aumentou a capacidade dos indivíduos de experimentarem, através da interação mediada, experiências que dificilmente aconteceriam na interação face a face. Ou, seja, o conhecimento local do indivíduo é complementado por co- nhecimentos não locais. A compreensão do mundo é, em grande parte, modelada pela mediação de formas simbólicas; 5 THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
  • 159. 5. reinvenção da publicidade: para pensadores de dois séculos atrás, a liberdade $!de expressão de pensamentos e opiniões só seria garantida na medida em quea imprensa fosse independente do Estado. No entanto, com essa independência Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007novas ameaças surgiram, como os fortes interesses comerciais das organizaçõesda mídia, que voltaram a colocar em questão a imparcialidade dos veículos decomunicação.Todas essas repercussões alteraram significativamente os costumes e a culturada sociedade contemporânea que gradativamente vem se habituando a vivernum mundo interconectado. Isso fica ainda mais evidente quando se analisa oimpacto da internet e o conceito de conectividade ao qual ela remete. A internet,de certa forma, confirma a teoria de Marshall McLuhan6 , sobre a mensagem nãoestar somente embasada em seu conteúdo, mas principalmente, no meio quese utiliza para sua transmissão. Ou seja, a modificação do meio de transmissãojá é um processo transformador de nossa relação com o ambiente.Castells7 avança um pouco mais nessa lógica afirmando que as novas tecnologiasde informação e comunicação estão acarretando uma revolução tecnológica paraa sociedade. De acordo com ele, os registros históricos mostram que umarevolução é caracterizada pela sua penetrabilidade, ou seja, está permeada emtodos os domínios da atividade humana. No caso da sociedade moderna, asnovas tecnologias têm possibilitado uma troca muito superior de informações econhecimentos, elementos que interferem em todos os aspectos da vida doindivíduo.Castells8 cita, ainda, as principais características do paradigma da tecnologia dainformação, a fim de descrever essa revolução e diferenciá-la das anteriores. Aprimeira dessas características é que a matéria-prima dessa tecnologia é ainformação, ou seja, são tecnologias que agem sobre a informação, e nãoinformações que agem sobre a tecnologia. A segunda diz respeito ao fato deque, como a tecnologia trabalha sobre a informação, e a informação integratodos os aspectos da vida do indivíduo, todo o seu contexto acaba sendo atingidoconstantemente por ela. A terceira diz respeito à tecnologia da informação6 McLUHAN apud NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. p. 14.7 CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra,2001.8 Ibidem, p. 108.
  • 160. possibilitando a formação de redes que incentivam o processo criativo. A quarta $" característica trata da flexibilidade da rede, que admite sua reconfiguração, permitindo que a tecnologia acompanhe a velocidade das mudanças. E, finalmente,Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... a quinta indica a convergência de diferentes tecnologias dentro de uma só, as hipermídias. Dessa forma, a sociedade da informação possui características muito próprias, ou seja, nela o conhecimento e as informações circulam livremente, permitindo seu compartilhamento e, em conseqüência, o aprimoramento constante das técnicas humanas. Eis a origem da rapidez das mudanças na contemporaneidade: novas tecnologias que possibilitam e incentivam a existência de um ambiente em intenso aperfeiçoamento. As organizações, segundo Castells, por estarem inseridas em um contexto so- cial, tendem a copiar os modelos de relação presentes no ambiente externo. Por esse motivo, há alguns anos, quando a velocidade das mudanças era mais lenta, o principal objetivo das empresas não era antecipar oportunidades de mudanças, mas sim, preservar o status nas relações já estabelecidas. Inclusive, a mudança apresentava-se como um risco. O objetivo era crescer quantitativamente no mercado e preservar o espaço até então conquistado. No entanto, hoje, as organizações encontram-se diante de uma nova realidade. As mudanças não são mais um risco ou uma opção, e sim uma certeza. O contexto está em constante reconfiguração, e as organizações necessitam acompanhar esse ritmo para sobreviver. Dessa forma, as empresas começam a perceber que a vantagem competitiva está na captação de informações que dêem indicações de oportunidades e ameaças. Ou seja, a estratégia de competir globalmente resulta na capacidade da empresa de captar as necessidades do mercado e desenvolver com rapidez um produto ou serviço que responda a essa demanda. Lévy9 afirma que quanto mais competitivo for o mercado, mais as organizações precisam se dedicar, sem cessar, à pesquisa e ao aprendizado para compreender, conceber, produzir, comunicar e vender. O mercado recompensará as empresas que souberem cultivar talentos, semear idéias e investir na sua inteligência competitiva. Dessa forma, as empresas mais competitivas serão as que mais souberem cooperar, tanto internamente quanto com seus clientes. 9 LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
  • 161. Todas essas alterações nas características do ambiente exigem uma mudança $#na estrutura e na cultura das organizações. De acordo com Dan Tapscot,10 asempresas, para executarem seu trabalho com sucesso na sociedade da informa- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007ção, necessitarão adotar uma nova estrutura de trabalho. Isso significa propor oabandono de uma hierarquia fechada para a adoção de uma hierarquia abertaem rede. O quadro¹ detalha como o autor descreve em tópicos as característicasprincipais dos dois tipos de estrutura: Organização Hierarquia fechada Hierarquia aberta em rede Estrutura Hierarquia pirâmide Em rede Orientação Voltada ao interior/fechada Voltada ao exterior/ aberta Recurso-chave Bens e equipamentos Recursos humanos, informação Posição Estática, estável Dinâmica, mutante Pessoal Gestores Especialistas Modo de funcionamento Recompensa e punição Comprometimento Tipo de direção Ordens vindas de cima Responsabilidade pessoal Fundamento das ações Controle Capacidade de agir Motivação individual Satisfação dos superiores Objetivos a alcançar em equipe Formação Tarefas específicas Competências estendidas Base de retribuição Posição hierárquica Resultados obtidos, nível de competência Relações Concorrenciais (territórios) Cooperativas (desafios compartilhados) Atitude do pessoal Distanciamento Identificação Exigências principais Gestão sadia LiderançaQuadro 1: Organização fundamentada na informaçãoFonte: Adaptado de Tapscot (1997).Como se pôde constatar, as sociedades organizadas em rede possuem umaestrutura que permite e incentiva o compartilhamento de conhecimentos e osurgimento de novas idéias, uma estrutura que incentiva o processo criativo. Já10 TAPSCOT, Don. Economia digital: promessa e perigo na era da inteligência em rede. São Paulo: MakronBooks, 1997.
  • 162. a organização de hierarquia piramidal parte do princípio de que os indivíduos $$ pensantes da organização resumem-se a uma pequena cúpula, que define as estratégias e políticas. Esse tipo de organização possui uma posição mercadoló-Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... gica estável, foca seu desenvolvimento nos seus bens e equipamentos, e possui uma visão mais voltada para seu interior. Cada colaborador tem tarefas específicas e se sente responsável somente por elas, porém sendo sempre controlado por seu superior. A recompensa pelo bom trabalho costuma ser a promoção para uma nova posição hierárquica, na qual se exerce maior poder sobre os outros. Numa organização aberta em rede, o líder tem como objetivo incentivar e auxiliar os colaboradores no desenvolvimento de suas atividades e competências, e não controlá-los, como na organização de hierarquia fechada. Na organização aberta em rede, tem-se um olhar atento voltado ao exterior para, assim, captar informações que permitam o ajuste com o ambiente; o incentivo é orientado para o desenvolvimento das competências de seus colaboradores, para que se tornem especialistas na área em que atuam; o comprometimento do funcionário é com a causa da empresa e com a da sua equipe de trabalho. Enfim, na empresa em rede, cada um possui uma visão clara de suas responsabilidades, buscando competência suficiente para desenvolvê-las e sendo recompensado pelos seus resultados. Para isso, o trabalho em equipe e o desenvolvimento das habilidades humanas constituem-se em elementos fundamentais. Assim, parece evidente que, no contexto da sociedade contemporânea, a estrutura de organização aberta em rede tem maior condição de garantir a adaptação das organizações, com vistas à sobrevivência. Até porque, esse modelo é capaz de comportar o desenvolvimento da inteligência organizacional, cujo conceito será estudado ao longo do capítulo, o que já não ocorre no modelo de hierarquia fechada. Ou seja, as empresas necessitam revisar seus conceitos e escolher ca- minhos que permitam a utilização de toda essa informação que se encontra es- palhada pelos meios, para obterem bons resultados. Afinal, como relata Castells,11 a importância da revolução tecnológica não está na grande quantidade de informações centralizadas, e sim no uso que se fará dessas informações e desses conhecimentos para desenvolver a inovação e o aperfeiçoamento constantes. Nessa lógica, a informação e o conhecimento (quando estáticos) não possuem o valor em si mesmos. O valor desses elementos se encontra nos conteúdos 11 CASTELLS, op. cit., p. 69.
  • 163. dinamizados pelos fluxos que os orientam e no processo de troca e de interação $%de mensagens. A comunicação é o elemento condutor de todo esse processo, eserá através dela que as organizações tornarão possível uma atitude mais Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007consciente e competitiva diante de seus públicos de interesse nesse contexto.Portanto, o profissional de comunicação, para atuar com competência nasociedade contemporânea, deve possuir uma visão sistemática e estratégica deseu ambiente interno e externo. Nesse contexto, o profissional de relações públicas “moderno” tem de ser um “revolu- cionário”, saindo da passividade para a administração ativa do processo comunicacional, posicionando-se como um estrategista e não apenas como um mero reprodutor de recados da organização procurando aplicar os princípios da comunicação simétrica de duas mãos.12Dessa forma, como defende também Bueno,13 a comunicação passa a integrar oatual processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua prática esua filosofia ao chamado capital intelectual das organizações.A função de relações públicas, dessa forma, apóia-se em metodologias, empesquisas, no desenvolvimento de novas teorias para novas situações e apóia-se, sobretudo, na necessidade de dotar a comunicação de um novo perfil, depassar de uma função tácita para uma função estratégica.A estratégiaFayard14 se refere à estratégia como a arte de saber usar as forças do ambientepara gerar uma determinada situação. De acordo com ele, estratégia consisteem combinar, no tempo e no espaço, meios heterogêneos a serviço de um fim.Para tal combinação, é necessário um conhecimento profundo de si mesmo, dooutro e do ambiente, para, dessa forma, identificar o momento de agir, o melhorlocal de ação, o inimigo, os meios e a forma de como usá-los para atingir umobjetivo.12 KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Obtendo resultados com relações públicas. São Paulo: PioneiraThomson Learning, 1997. p. 146.13 BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial: teoria e pesquisa. Barueri: Manole, 2003.14 FAYARD, Pierre. O jogo da interação: informação e comunicação em estratégia. Caxias do Sul: Educs,2000. p. 59.
  • 164. Ainda segundo Fayard, 15 a informação é um dos elementos essenciais da $& estratégia e é possível verificar a existência de oito elementos principais, todos interligados, que são fundamentais para a formulação de uma estratégia eficaz.Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... O primeiro deles é a informação, que aponta para a necessidade de estar atento às informações, com o olhar focado naquelas que realmente interessam, para assim compreender e identificar onde, quando e de que forma agir. Fayard alerta que o valor estratégico de uma informação cresce em proporção inversa à sua previsibilidade e à sua distribuição em longa escala. A informação mais valiosa não é aquela à que todos têm acesso, pois dessa todos têm consciência, mas sim aquela que proporciona um diferencial nas ações. Ele ressalta também que o mais importante na questão das informações não é seu acúmulo, mas sim o seu cruzamento e enriquecimento de acordo com os interesses do gestor, para a produção de um novo conhecimento. O domínio da informação proporciona o segundo elemento que é a liberdade de ação. Quanto mais informação o estrategista possuir, maior será a sua liberdade de ação, pois somente através do conhecimento do contexto é possível identificar os momentos e os locais em que existe liberdade para a ação. No momento em que se tem conhecimento de si e do outro, sabe-se o momento exato, tanto de se lançar quanto de recuar. Através da liberdade de ação é possível administrar o terceiro elemento: a economia dos meios. A partir do momento em que se tem pleno conhecimento das habilidades e das armas do adversário, é necessário organizar os recursos disponíveis de forma que se possa tirar o máximo proveito dos meios. Para exemplificar o princípio da economia dos meios, Fayard propõe que se pense na seguinte situação: um indivíduo participará de uma corrida de cavalos com três animais: um forte, um médio e um fraco. Ele possui pleno conhecimento de seu oponente e sabe que os cavalos do concorrente também são um forte, um médio e um fraco. Esse indivíduo sabe que os cavalos são o seu meio de ganhar a corrida e ele terá que usar os três, assim como seu oponente também terá que usar os três. Como esse indivíduo pode organizar seus cavalos para ganhar a corrida? De acordo com o princípio da economia dos meios, ele sacrificará seu cavalo fraco para correr com o forte do seu oponente e perderá uma corrida. Mas colocará seu cavalo médio correr com o fraco do seu oponente, e seu cavalo forte correr com o médio dele. Serão duas vitórias e uma derrota. Ou seja, esse 15 FAYARD, op. cit.
  • 165. princípio sugere organizar os meios de forma que se possa tirar um proveito $maior de sua utilização. No entanto, para isso, é preciso ter um conhecimentodos meios que temos para utilizar, e dos meios que o oponente tem. Sem essas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007informações torna-se impossível fazer essa combinação.O quarto elemento diz respeito à formação de um sistema comunicante. É acomunicação que permite a coesão e a organização de duas ou mais partes doorganismo. Para que as partes ajam de forma organizada e coerente com o todo,elas precisam ter as informações e orientações necessárias para cumpriremsuas tarefas. E é através dos canais de comunicação que circulam as orientaçõese as informações, e é através deles que os líderes controlam, monitoram e dispõemsuas equipes e seus meios.A organização de um sistema comunicante possibilita o quinto elemento, o domínioda interação das vontades. Ele consiste em saber estabelecer uma comunicaçãocom o outro, a fim de fazê-lo realizar as ações desejadas. “Não é o sedutor queconquista, mas o seduzido que sucumbe às suas próprias tendências, às suasexpectativas, às suas esperanças e aos seus sonhos.”16 É induzir o oponente acrer em informações que o levem a realizar ações favoráveis às nossas estratégias.O sexto elemento é a geoestratégia. Consiste em conhecer o seu ambiente,saber posicionar-se e mover-se nele. É ter um conhecimento do terreno quepossibilite identificar os espaços que o outro ocupa e os que se encontramlivres, assim como, também, entender o espaço que estamos ocupando. Ageoestratégia, metaforicamente, pode ser exemplificada através do jogo de go,onde o objetivo é ocupar os espaços vazios e restringir a movimentação doadversário. “Aquele que vê longe e combina conhecimento, mobilidade e conexõeslongínquas, dispõe de uma potência desmedida em relação ao seu tamanho.”17A cronoestratégia constitui o sétimo item. Ela cobre a pesquisa e o domínio dotempo e dos ritmos de si mesmo e dos outros. Permite jogar com o tempo eidentificar a hora de agir e de recuar. O autor exemplifica o uso da cronoestratégiaatravés das artes marciais dos samurais. Os samurais usam o interstício dotempo como o momento ideal para atacar o oponente. O interstício se refere aoexato momento em que há uma parada para o início de outro movimento. Por16 Ibidem, p. 53.17 Ibidem, p. 45.
  • 166. exemplo, quando se joga uma bola para cima, existe um pequeno intervalo de % tempo que a bola fica parada antes de cair novamente. Assim também acontece com nossos movimentos, quando se acaba um movimento e inicia-se outro, háFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... um pequeno intervalo de tempo. De acordo com os samurais, esse intervalo de tempo é o melhor momento para atacar o oponente, pois ele não estará preparado para se defender. Para localizar esse momento exato, é necessário conhecer o ritmo de movimentação do inimigo. O oitavo e último elemento é a decisão. A arte da estratégia consiste em pensar nas interações com os outros atores, sejam elas conflituais ou cooperativas, a fim de prever conceitualmente a resolução mais adequada. Porém, de nada adianta todo o conhecimento do contexto, se não se tomar nenhuma postura, posição a partir disso. A estratégia é constituída de ações com base no conhecimento adquirido. Os elementos que constituem a estratégia, na visão de Fayard, são interligados e dependentes. De um bom conhecimento da situação e da análise das informações, resultam a liberdade de ação, a cronoestratégia e a geoestratégia. Estas, aliadas a uma boa comunicação, permitem que se aja no ambiente, no momento e na forma mais adequados. Na visão de Fayard, a informação desempenha uma função muito importante: O conhecimento de si e do outro assegura o êxito de todo o empreendimento porque, a partir deste conhecimento, sabe-se quando, onde e como se engajar ou não se engajar. A conquista da liberdade de ação será tão mais possível na medida do nível de informação que permite a previsibilidade do comportamento do adversário.18 A informação, nesse sentido, serve como um guia para a ação. Ela permite um mapeamento da situação que possibilita pensar a melhor estratégia. Sobre a estratégia no contexto organizacional, Mintzberg e cols.19 identificam e organizam os conceitos segundo diferentes escolas de pensamento. Na análise de tais escolas, percebe-se que também no universo da estratégia orientada para as organizações a informação é elemento fundamental. 18 Ibidem, p. 27. 19 MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safari de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000.
  • 167. % Escola Descrição InformaçãoDesign Defende que estratégias eficazes derivam de um – informações simples e objetivas sobre processo de pensamento humano rigidamente o ambiente e as atividades da em- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 controlado. A responsabilidade pelo controle e a presa para análise do líder. percepção da estratégia devem ser do executivo prin- cipal. Esse deve adequar as competências internas da organização às ameaças e oportunidades do ambiente, para formular uma estratégia de pers- pectiva para a empresa.Planejamento Prega que as estratégias devem seguir um pro- – informações e dados para a fase de cedimento formal decomposto em várias etapas, são auditoria interna e externa. elas: fixação de objetivos, traçar as principais metas da organização; auditoria externa, avaliar as condições externas; auditoria interna, estudo das forças e fra- quezas da organização; operacionalização da estratégia, formulação de planos operacionais e programas de ação.Posicionamento A estratégia é uma escolha de posicionamento da – informações das características do empresa no mercado. ambiente.Empreendedora Focaliza a formação de estratégia num líder, levando – informações e conhecimentos adqui- em consideração processos como intuição, julga- ridos na experiência e no dia-a-dia do mento e experiência. negócio.Cognitiva Analisa a formação da estratégia através da esfera – a importância e o foco das informa- da cognição da mente do estrategista. ções e sua interpretação vão depen- der da estrutura cognitiva do analista.Aprendizado Sugere que a estratégia seja como um processo – a informação deve ser dividida e constante de aprendizado. compartilhada com todos.Poder Caracteriza a formação de estratégia como um – informações sobre os interesses das processo aberto de influência, enfatizando o uso do pessoas envolvidas. poder e da política para negociar estratégias favoráveis a determinados interesses.Cultural Sugere que a formação de estratégia é um processo – informações de importância para as enraizado na força social da cultura. Preocupa-se em empresas vão depender da sua grande parte com a influência da cultura na manutenção cultura organizacional. da estabilidade estratégica e, em alguns casos, resistindo ativamente às mudanças estratégicas.Ambiental Trata do conjunto de forças fora da organização que – informações ambientais possibilitam os teóricos gostam de chamar ambiente. Essa escola a adaptação da organização. ajuda a colocar em equilíbrio a visão global da formação da estratégia, posicionando o ambiente como uma das três forças centrais no processo, ao lado da liderança e da organização.Configuração Essa escola descreve a organização e o contexto como – informações sobre todas as áreas que uma configuração e a estratégia como o processo de influenciam as atividades da empresa. transformação da configuração.Quadro 2: Resumo das características das escolas de estratégiaFonte: Elaborado pelos autores.
  • 168. Em um ponto todas as escolas concordam: toda a estratégia, para ser bem- % sucedida, é baseada em um conhecimento profundo da situação em análise. Isso decorre do fato de que a estratégia deve levar em consideração não somenteFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... as condições externas e internas de uma organização, mas também os jogos de interesse, a cognição humana, a cultura empresarial, o processo de aprendizagem e a liderança. No entanto, para a construção desse conhecimento, são necessárias muita reflexão e a busca de informações que a subsidiem. Por esse motivo, considera-se a informação como um elemento-chave na formulação de estratégias. Em matéria de estratégia, as novas mídias aumentaram significativamente as dimensões dos terrenos de manobra, atalhando os caminhos e mobilizando um espaço planetário. Isso reforça não apenas a importância da informação, como também a da iniciativa e da ação. Como esclarece Fayard,20 a questão da relação entre informação, comunicação e estratégia é tão velha quanto a humanidade, no entanto, os recursos técnicos disponíveis para lhe fazer frente conhecem hoje uma amplitude inigualável. As atuais tecnologias digitais desempenham o papel de buscar um padrão comum para os dados, onde os mesmos são gerenciados com maior facilidade. Assim, a rede permite que se ganhe tempo e precisão. Na era da digitalização, as temporalidades diferem pelo fato da facilidade e da grande rapidez das transmissões e, sobretudo, das capacidades em inteligência: captura de informações, tratamento e tomada de decisão em tempo real e em função da apreciação das variações nas circunstâncias.21 De acordo com Fayard, para fazer a diferença, hoje, é necessário primeiro inteligência para criar ligações entre as informações coletadas, ou seja, ter um conhecimento combinatório. Em seguida, é preciso aptidão para acelerar uma idéia ou um projeto, porque o tempo se sobrepõe ao espaço e ao ritmo. Uma boa idéia precisa de rapidez. No presente, a compreensão do processo que vai da identificação de dados à decisão da execução, aparece como uma nova forma de segurança. De que serve angustiar-se quanto à proteção de seus dados se, no momento em que a concorrência os alcança, a etapa de sua exploração completa já se iniciou? A energia economizada na proteção é, 20 Ibidem, p. 22. 21 Ibidem, p. 127.
  • 169. %! então, investida na ação. A informação e a comunicação, pelo conhecimento e organiza- ção que proporcionam, dispõem hoje de instrumentos que revolucionam a maneira de definir e de conduzir a estratégia.22 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Na sociedade contemporânea, a informação e a comunicação são elementos-chave para boas estratégias. A informação permite que a empresa tenha subsídiospara uma decisão rápida e consistente. A comunicação permite que essa decisãoseja colocada em ação. E a iniciativa possibilita que a empresa atue com agilidade.Tecnologias da informaçãoConforme Porter e Montgomery,23 as empresas, ao utilizarem a informação paradesenvolver uma vantagem competitiva, reconhecem a necessidade da gestãodas novas tecnologias de informação. Assim, o valor gerado pela empresa émensurado pela totalidade de pacotes de benefícios, de serviços e de informaçõesproduzida pelos serviços ou produtos.Dessa forma, as novas tecnologias alteram o que o autor denomina “escopocompetitivo”, que nada mais é do que a amplitude que as atividades da empresaalcançam na sociedade: A tecnologia da informação está permeando todos os pontos da cadeia de valores, transformando a maneira como as atividades de valor são desempenhadas e a natureza dos elos entre elas. Também está afetando o escopo competitivo e reformulando a ma- neira como os produtos satisfazem as necessidades dos compradores. Esses efeitos bá- sicos explicam por que a tecnologia da informação adquiriu significado estratégico e é diferente das muitas outras tecnologias utilizadas.24Nessa linha de pensamento, Porter explica, ainda, que as atividades de valor deum produto ou serviço apresentam um componente físico e um componente deinformação. O componente físico inclui todas as tarefas necessárias para odesempenho da atividade. O componente de informações abrange os passospara a captação, manipulação e distribuição dos dados necessários aodesempenho da atividade.22 Ibidem, p. 137.23 PORTER, Michael E.; MONTGOMERY, Cynthia A. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. 7. ed.Rio de Janeiro: Campus, 2002.24 Ibidem, p. 88.
  • 170. Ao longo da maior parte da história da indústria, o progresso tecnológico afetou %" principalmente o componente físico das empresas. Hoje, constata-se a alteração do ritmo da mudança tecnológica. A tecnologia da informação está progredindoFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... com maior velocidade do que as tecnologias de processamento físico. Além de influenciar o desempenho das atividades individuais, a tecnologia da informação, através dos novos fluxos, amplia em muito a capacidade da empresa de explorar os elos entre as atividades, nos âmbitos interno e externo, pois ela possibilita uma comunicação e uma troca de informações mais constantes e com um alcance muito maior. Finalmente, a tecnologia da informação exerce um impacto poderoso sobre o escopo competitivo. Os sistemas de informação permitem que as empresas coordenem as atividades de valor entre localidades geográficas com grande dispersão. Além disso, a tecnologia da informação está criando muitos inter-relacionamentos novos entre as empresas, ao expandir o escopo setorial em que deve competir para conquistar a vantagem competitiva. Constata-se uma tendência inquestionável no sentido da expansão do conteúdo de informação dos produtos. Esse componente, combinado às mudanças na cadeia de valores das empresas, destaca o papel cada vez mais estratégico da tecnologia de informação.25 A tecnologia da informação também tem uma grande importância para a imple- mentação da estratégia. Os sistemas de relatório são capazes de acompanhar o progresso das ações para atingir os objetivos já definidos. Através dos sistemas de informação, as empresas quantificam as atividades com maior exatidão para a im- plementação das estratégias, podendo verificar os ajustes necessários. Todavia, a grande quantidade de informações disponíveis nos ambientes das organizações somente terá um caráter estratégico a partir do momento em que soubermos usá-las eficazmente. É preciso estar vigilantes aos acontecimentos, e o alimento básico da vigília é a informação. Diante dessa preocupação, torna-se evidente a atenção que deve ser dada aos estudos sobre metodologias, processos e ferramentas que possam auxiliar na coleta e no tratamento dessa grande quantidade de informações. 25 Ibidem, p. 92.
  • 171. Para tanto, inicialmente, é necessário desmitificar a definição do termo informação, %#pois se nota que existe uma dificuldade teórica em esclarecer esse conceito.Informação deve ser diferenciada do dado e do conhecimento. Embora muitas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007vezes os três conceitos sejam complementares e partem de um mesmo processo,essa diferenciação pode ser útil para uma análise mais profunda. Dados, comodefine Davenport,26 são “observações sobre o estado do mundo”. Por exemplo:“30% da população brasileira é de classe média”. Ou seja, dados são estáticos,não têm vínculo contextual direto e normalmente podem ser quantificados. Sãofacilmente capturados e processados por tecnologias.Já a informação é contextualizada e exige toda uma análise no seu processamento.Conforme definição de Drucker,27 a informação é um dado dotado de relevância epropósito. Ou seja, a informação depende dos interesses de quem a analisa. Apesarde suas diferenças, dado, informação e conhecimento são elementos de um sóprocesso. Informação é a atribuição de sentido para um dado, e o conhecimento éa informação contextualizada. Essa construção ocorre quando o indivíduo dá auma informação uma interpretação e um significado e consegue considerar assuas implicações em seu contexto. Para detalhar melhor as características dessestrês elementos, observemos o quadro,³ proposto por Davenport:28 Dado Informação Conhecimento Simples observações Dados dotados de Informação valiosa da mente sobre o estado do mundo relevância e propósito humana, inclui reflexão, síntese e contexto. – Facilmente estruturado – Requer unidade de – De difícil estruturação – Facilmente obtido por análise – De difícil captura em máquinas – Exige consenso em máquinas – Freqüentemente quantificado relação ao significado – Freqüentemente tácito – Facilmente transferível – Exige necessariamente a – De difícil transferência mediação humanaQuadro 3: Dado, informação e conhecimento2826 DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso naera da informação. São Paulo: Futura, 1998.27 DRUCKER apud DAVENPORT, op. cit., p. 19.28 Ibidem, p. 18.
  • 172. Como se pôde notar no quadro, o envolvimento humano, nesse processo, aumenta %$ à medida que se passa de dados a informações e a conhecimentos. Por esse motivo, Davenport traz uma abordagem ecológica da informação, na qual propõeFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... uma administração informacional centrada no ser humano. Por meio da abordagem ecológica, Davenport explica que devemos perder a ilusão do controle sobre a informação. Nunca conseguiremos satisfazer a necessidade de saber de tudo, isso é impossível. Por esse motivo, é necessário, a partir dos interesses dos indivíduos, estabelecer prioridades que definirão focos de observação. Como afirma Drucker, é necessário se perguntar: De que informação necessito? Sob que forma e quando? A quem devo e que tipo de informação? A abordagem ecológica do processo informacional recomenda, em geral, que inicialmente é preciso integrar os diversos tipos de informação. As informações podem ser não-estruturadas, como o conhecimento; estruturada em papel, registros e documentos; ou estruturada em computador, como as tecnologias da informação. Um bom gerenciamento da informação deve levar em consideração esses três tipos. Após, é necessário reconhecer e acompanhar as mudanças nos ambientes informacionais e ter ferramentas e metodologias flexíveis. É também preciso estar atento aos comportamentos pessoal e informacional dos indivíduos envolvidos no processo. Levando em consideração esse aspecto da informação, surge a necessidade do uso de uma metodologia que auxilie no tratamento das informações, com o objetivo de embasar o processo de tomada de decisões, uma metodologia que contribua para transformar uma grande quantidade de dados em conhecimento estratégico. Inteligência estratégica A inteligência estratégica é uma metodologia que teve grande influência das práticas e dos conhecimentos das inteligências militar e governamental. É um processo sistemático e formal que tem o objetivo de reter, a partir de um emaranhado de informações, aquelas que são críticas ao processo decisório. Segundo Tyson,29 ela pode ser definida como um processo ético de coleta, 29 TYSON apud BELLO, Bruno Carneiro de et al. Inteligência: colaborando para competir. In: SIMPEP, 11., 2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1.
  • 173. tratamento, análise e disseminação da informação sobre os ambientes de inter- %%esse da empresa, visando subsidiar o processo decisório e alcançar as metasestratégicas da organização, de forma sistêmica e rotineira. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007Os principais objetivos da inteligência estratégia são reduzir a incerteza na tomadade decisão, evitar surpresas de mudanças ambientais e obter vantagem com-petitiva pela redução do tempo de reação e melhorar o posicionamento estratégicoda organização.Principais etapasEm termos operacionais, o processo de inteligência estratégica passa por váriasetapas. A primeira é fundamentada num trabalho de sensibilização, que consistena sua apresentação para a direção e equipes da empresa, abordando principal-mente quais suas vantagens, qual apoio será necessário e quais as dificuldadesque o processo pode encontrar. Em outras palavras, é a obtenção da compreensão,do apoio e da colaboração da direção e das equipes da organização.A segunda etapa é a identificação das reais necessidades de informação, parasaber o que coletar e com que propósito. Essa etapa pode ser aplicada atravésde uma entrevista com os principais gestores da organização visando a identificaros focos e as prioridades necessárias de informação, para assim gerar a inteligên-cia adequada. De acordo com Herring,30 normalmente as necessidades deinteligência de uma empresa podem ser enquadradas em três categorias: as quesão úteis para embasar a decisão e a ação estratégica; as antecipativas, quealertam para as mudanças do ambiente; e as que descrevem a situação dospúblicos com os quais a empresa tem um envolvimento. As três devem serlevadas em consideração.A terceira etapa é a da escolha das fontes de consulta e das ferramentasadequadas para o processamento da informação. É fundamental identificar asfontes de informação externas e internas e qual ferramenta pode auxiliar na suabusca ou no seu armazenamento. Somente então, dentro do foco já determinado,inicia-se a busca das informações de interesse.30 HERRING apud MILLER, Stephen H.; PRESCOTT, John E. Inteligência competitiva na prática: técnicas epráticas bem-sucedidas para conquistar mercados. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
  • 174. Após, realiza-se o processamento e a análise das informações. Essa etapa %& consiste em interpretar, analisar e filtrar os dados coletados. Esse processamento começa com a validação das informações coletadas. É preciso avaliar a confia-Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... bilidade da fonte e da informação e, após, é necessário arquivar e catalogar os dados recolhidos. Para essa tarefa é exigido um conhecimento quanto à natureza do assunto ao qual a informação se refere. Em seguida, faz-se a interpretação das informações com o objetivo de obter um significado dos dados brutos para guiar a decisão. A interpretação demanda todo um processo cognitivo, e os indi- víduos que dela participarem devem ter um bom entendimento do ambiente organizacional. O próximo passo é a comunicação, ou seja, a disseminação da informação aos indivíduos que necessitam dela para realizar seu trabalho. É o processo por meio do qual o produto do esforço de uma organização em adquirir, processar e interpretar uma informação é disseminado por toda a sua estrutura. Sem uma boa comunicação, todo o processo de busca e análise das informações perde seu significado. A informação só tem valor se for comunicada para as pessoas certas no momento certo. Um processo de inteligência estratégica não deve se desviar de seus objetivos principais. Ele tem a finalidade de fornecer informação crítica para os tomadores de decisão. Para tanto, é muito importante que se faça um esforço para identificar os problemas centrais da organização, de modo que o processo de inteligência possa contribuir para a criação do conhecimento entre os indivíduos. Através da análise de diversos casos sobre inteligência estratégica, Miller e Prescott31 definiram alguns pontos sobre os quais deve-se ter atenção redobrada na implementação de processos de inteligência. Um dos pontos que mais têm causado frustração nesses processos é a definição do foco das necessidades de informação da empresa. Um erro nessa definição coloca a perder todo o processo, pois a informação só possui importância a partir dos interesses do indivíduo ou da organização. Portanto, sem uma definição precisa dos focos de observação, o processo de inteligência poderá produzir somente informações inutilizáveis. Outro cuidado que deve ser tomado é no momento de comunicar as informações, pois os indivíduos precisam confiar na credibilidade das mesmas. Para tanto, a 31 MILLER, op. cit.
  • 175. apresentação de números, entrevistas ou fotos pode oferecer uma compreensão %mais rica. Uma boa tática é uma comunicação redundante, pois os indivíduostêm diferentes preferências quanto ao modo como gostam de receber as infor- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007mações. Vale também lembrar que falhas de âmbito ético comprometerão toda acredibilidade e confiança.A inteligência estratégica não funciona como um efeito mágico. Ela é um processoevolutivo, construído passo a passo, que envolve a cultura organizacional e suaestrutura social. Por esse motivo, paralelamente, a organização deve desenvolverplanos de conscientização do conceito, do funcionamento e da importância dainteligência estratégica, além de criar incentivos para o envolvimento de todosneste processo.O diagnóstico de nossa pesquisa mostra que o contrário do que diz o folclorepopular, os mecanismos comportamentais e políticos não são as principaisbarreiras ao fluxo de informações. As principais são os sistemas organizacionaise os diferentes modelos mentais.32Portanto, a organização deve criar uma estrutura que incentive a interação entreos indivíduos.E, finalmente, a inteligência estratégica é um processo, e, como tal, deve serperiodicamente avaliada e ajustada conforme as necessidades empresariais.A estrutura de aplicação da inteligência competitiva pode ser complementadaatravés da vigília estratégica.Vigília estratégicaA metodologia de vigília estratégica funciona como um radar de navio, que tempor objetivo alertar sobre os obstáculos que podem surgir no caminho. É umprocesso informacional através do qual a organização realiza uma escuta an-tecipativa dos sinais fracos do seu ambiente, com o objetivo de criar oportunidadese reduzir a incerteza. As informações decorrentes da vigília estratégica não são32 Ibidem, p. 33.
  • 176. informações que vêm à empresa de forma espontânea, são informações que & necessitam ser procuradas.Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... As informações que constituem os processos de vigília estratégica costumam ser antecipativas, qualitativas, incertas e fragmentadas. São antecipativas porque alertam sobre mudanças que estão começando e que podem constituir uma oportunidade ou uma ameaça. Têm o objetivo de alertar com tempo suficiente para uma ação. São qualitativas, pois dão indícios de um futuro próximo; não são conclusões de uma análise do passado ou de verificações contábeis. São incertas, pois constituem indícios, pistas, sinais, hipóteses do que pode vir a acontecer. E, finalmente, são fragmentadas. As informações da vigília costumam se apresentar sob a forma de trechos pacientemente coletados, reunidos, interpretados e validados. Isoladamente, cada informação é desconexa, entretanto, quando relacionada a outras adquire um significado. A vigília é um sistema de monitoramento para determinar o que acontecerá e verificar, ao longo do tempo, se as hipóteses levantadas continuam válidas. Ela trabalha com a análise de sinais fracos, que são indicadores de tendências. A vigília é muito importante na construção de estratégias. Segundo Fachinelli33 , uma célula de vigília segue passos semelhantes aos que conduzem um processo de inteligência estratégica, iniciando pela fase de apropriação do projeto por parte dos gestores da organização. A segunda fase é o mapeamento dos potenciais. Realizar uma espécie de auditoria interna, analisando o sistema informacional atual da empresa e suas necessi- dades. Avaliar como a organização tem usado a informação e como seus membros lidam com ela. A definição do foco de observação constitui a terceira fase, o que implica a identificação dos fatores críticos de sucesso. Ou seja, identificar as variáveis cujo gerenciamento pode afetar a posição competitiva de uma empresa dentro de um ramo de atividade. São os fatores que devem ser prioritários na observação pela sua importância. A vigília deve ter seus focos de observação bem deter- minados para não cair num estado de cegueira estratégica. 33 FACHINELLI, Ana C. Elementos metodológicos de vigília e de inteligência econômica para o processamento de informações organizacionais. Conexão, Caxias do Sul: Educs, v. 2, n. 1, dez./2003.
  • 177. Após, segue-se com a etapa da formação da rede de especialistas, que auxiliarão &na análise da informação. Cada foco de observação consiste num tema deinteresse da empresa, e a cada foco estará ligado um especialista no assunto Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007em questão. Esse especialista terá como função validar e evidenciar asinformações estratégicas.Em seguida, definem-se as fontes e os instrumentos de coleta. A vigília tem,basicamente, como fontes de informações: notícias publicadas na imprensa,banco de dados, internet, publicações de agências governamentais e o diálogocom outros indivíduos. De acordo com as fontes de pesquisa, serão definidos osinstrumentos de consulta.A próxima fase é a de validação das informações. Uma vez recolhidas, asinformações passam pelos especialistas para verificação de sua validade epertinência. E, finalmente, após tratadas, as informações devem ser comunicadasaos diversos membros envolvidos no processo.Um dos problemas que podem surgir na implementação da célula de vigília é adificuldade de criar significado através das informações coletadas. Após a coletade sinais fracos, o resultado será um conjunto de informações dispersas semgrande significado e em desordem. Para se produzir um significado a partir disso,são necessárias muita análise, criatidade e capacidade para identificar vínculos.Lesca e Freitas34 sugerem o uso do conceito de PUZZLE para organizar a infor-mação de forma a fazer emergir um significado. Inicialmente, coletam-se os sinaisfracos da área do foco de atenção. Listam-se todas as informações coletadas,resumindo-as em poucas e essenciais palavras. Em seguida, produz-se umadisposição espacial para essas informações, na qual algumas se aproximammais de umas do que de outras. A representação espacial deve ser constituídaem forma de rede. No centro, é colocada a informação principal, que é o foco deobservação. Em torno desse centro, são distribuídas as informações-satélites.Veja-se o exemplo a seguir, apresentado por Lesca e Freitas, na figura 1.34 LESCA, Humberto; FREITAS, Henrique M. R. Como dar senso útil às informações dispersas parafacilitar as decisões e ações dos dirigentes: o problema crucial da inteligência competitiva através daconstrução de “PUZZLE”. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1996. (Série Documentos para Estudos, n. 6).
  • 178. Informações coletadas relativas à companhia IBM & 1. IBM@ acentua a separação entre os softwares e os serviços. 2. IBM@ coloca a escuta do cliente em prioridade.Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... 3. IBM@ coloca as preocupações dos clientes em prioridade. 4. O fornecimento de serviços será objeto de um contrato entre IBM@ e seu cliente. 5. IBM@ se orienta para os serviços. 6. IBM@ inflete (reorienta) sua estratégia. 7. IBM@ se dividirá em muitas sociedades. 8. IBM@ decepciona seus clientes. 9. IBM@ nomeia um diretor-geral de serviços. 10. Centralização: IBM@ planeja controlar todas as suas filiais. 11. IBM@ e DE@ se juntam para a gestão das redes. 12. IBM@ majoritária na (empresa). Pyrénées Informática Exemplos de links entre sinais anunciadores reagrupados em torno de um tema35 IBM se dividirá em diversas IBM se interessa IBM reflete sua estratégia pelo mercado empresas japonês IBM se reposiciona Desorientação?? IBM se orienta para os serviços Resultado? Contradição IBM “de bem” IBM e DEC Golpe surpresa?! com o lucro se aliam para a IBM, novo produto de gestão das redes IBM compra a CGI reconhecimento vocal IBM majoritária na Pyrénées Informática 35 Idem.
  • 179. O resultado é a formação de uma rede que é ligada por vínculos. Os vínculos &!podem ser de diversas origens: vínculo de confirmação – quando uma informaçãoafirma o conteúdo de outra; – vínculo de contradição – quando uma informação é Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007antagônica a outra; – vínculo da causa e efeito – quando uma informação revelaser conseqüência de outra; – vínculo de analogia – quando uma informação ésemelhante a outra; e – vínculo de proximidade – quando as informações sereferem ao mesmo assunto, mas são independentes. O objetivo desses vínculosé produzir um sentido. Percebe-se que, embora a inteligência e a vigília estratégicatenham processos semelhantes, elas possuem abrangência e enfoques um poucodiferenciados. A vigília é focada para as informações antecipatórias e, além daobservação contínua dos focos, também pode ser usada somente para um assuntoem questão. Já a inteligência possui uma natureza mais abrangente e congregatodas as estratégias da empresa. Mas, como afirmam Fachinelli, Mattia e Rech,36essas duas metodologias “são sob certo aspecto complementares, pois a riquezametodológica da vigília é essencial a toda a criação de inteligência assim comoas intenções estratégias e a interação enriquecem em retorno aos procedimentosde vigília”. Ou seja, ambos os processos se complementam.Relações públicasDevido à importância que a informação tem para a atividade de relações públicas,o profissional responsável por essa área pode e deve utilizar metodologias depesquisa e processamento da informação para elaborar suas ações. Devido àcirculação de alta quantidade de informações, proporcionada pelas novastecnologias, metodologias como inteligência e vigília estratégicas podem ser muitoúteis para dotar a atividade desse profissional de um caráter estratégico.Neste artigo, a definição de Relações Públicas é de que esse profissional exerceuma função política e, portanto, estratégica, na qual ele é o responsável pelaadministração dos interesses da organização com os interesses de seus públicos.Para tanto, o Relações Públicas precisa se basear num profundo conhecimento,36 FACHINELLI, Ana C.; MATTIA, Olivar, M.; RECH, Jane. A dinâmica da informação na comunicaçãoorganizacional: a perspectiva do hipertexto e da autopoiese. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIASDA COMUNICAÇÃO, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Intercom, 2005. CD-ROM. Disponívelem: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17608/1/R1647-1.pdf . Acesso em: 30abr. 2006.
  • 180. tanto da empresa quanto de seus públicos, para orientar a execução das ações &" que necessitam ser empreendidas com vistas à satisfação dos públicos e objetivos da organização. De acordo com Simões,37 os principais objetivos do profissionalFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... de Relações Públicas é otimizar o processo decisório organizacional nas políticas e atividades de relações públicas e estabelecer a integração dos grupos que interferem nos objetivos da organização. Dessa forma, esse profissional lida com questões organizacionais bastante amplas e complexas e, para lidar com tais questões, necessita de ferramentas e metodologias que lhe forneçam embasamento informacional. O Relações Públicas tradicionalmente sempre teve como uma de suas atividades principais o levantamento de informações para a construção do seu diagnóstico. A informação é essencial para a formulação de uma descrição sobre a situação da empresa e as principais características de seus públicos de interesse. A partir dessa descrição, o profissional elabora as ações mais eficazes para atingir os objetivos pretendidos. Dessa forma, afirma-se que, para construir suas estratégias, o Relações Públicas sempre buscou, anteriormente, munir-se de informações. A informação e os interesses da organização possibilitam a construção de ações e estratégias coerentes com o ambiente. As relações públicas vêem à busca de informação como fonte para os seus programas e estratégias. Tradicionalmente, os profissionais dessa área para satisfazer essa necessidade de informação, usam a pesquisa como ferramenta. Segundo Lesly,38 a pesquisa em relações públicas tem três funções principais: 1. confirmar suposições e palpites a respeito do estado da opinião pública sobre um assunto, produto ou empresa; 2. clarificar questões nas quais há pouca quantidade de informações ou quando se encontram dados contraditórios; 3. reorientar nossos pensamentos ou conceitos a respeito de um problema de relações públicas. 37 SIMÕES, Roberto Porto. Relações públicas e micropolítica. São Paulo: Summus, 2001. 38 LESLY apud FOCHI, Marcos A. B.; PIROLO, Maria A. M. A pesquisa de opinião: o “ver e o “fazer” do Relações Públicas. In: INTERCOM-Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação, 2001. Disponível em: www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/ relacoespublicas/funcoesetecnicas/0157.pdf. Acesso em: 30 abr. 2006.
  • 181. No contexto organizacional, Fortes39 defende a idéia de que as pesquisas em &#relações públicas permitem:– conhecer em que extensão os públicos estão informados a respeito da res- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ponsabilidade e dos limites das atividades de uma organização;– saber como pensam e reagem antes de decisões tomadas pelas organizações;– prever qual será a atitude dos públicos em relação a ações que estão sendo planejadas pela organização;– julgar o que pensam e esperam da organização;– apreciar quais são as necessidades dos públicos e que medidas devem ser adotadas, a fim de satisfazer essas necessidades;– admitir e delimitar áreas de ignorância dos públicos sobre problemas socio- econômicos; indagar se estão dispostos a pagar mais por melhores serviços e por melhores produtos de uma organização.A pesquisa tem sido usada tradicionalmente como uma ferramenta que propor-ciona ao Relações Públicas e às instituições um conhecimento do contexto daorganização, possibilitando a identificação das ameaças e oportunidades doambiente, bem como fornece uma base para a tomada de decisões. Sendo assim,Lesly define a importância da informação para o Relações Públicas: Em relações públicas, pesquisa não é um produto primário, que pode ser comprado ou vendido na medida em que nossas necessidades o ditem. É especialmente um ponto de vista, uma maneira de se olhar para os problemas, uma pré-disposição para se organizar experiências presentes e passadas. Neste sentido, pesquisas não são algo separado das atividades correntes de um programa de Relações Públicas – são o seu coração.40A pesquisa tem sido uma ferramenta que muito tem contribuído e auxiliado notrabalho de relações públicas. No entanto, no contexto atual, na era da globali-zação, houve uma mudança de perspectiva diante do uso de informação. Háalguns anos, o principal desafio das organizações era a busca de informação,que era um tanto escassa. Por esse motivo, a pesquisa se tornou uma metodologiamuito popular, pois coleta uma boa quantidade de informações que não estavamdisponíveis anteriormente. Já, hoje, há um novo desafio, que não é mais a es-cassez de informações, e sim, o seu excesso. As novas tecnologias têm dispo-nibilizado uma circulação de informações muito grande, assim como têm facilitadoo acesso às mesmas. Nesse contexto, surge a dificuldade de filtrar as informações39 FORTES apud FOCHI, op. cit.40 LESLY apud FOCHI, op. cit.
  • 182. que realmente são relevantes à atividade da empresa. Dessa forma, profissionais &$ que se utilizam do conhecimento do seu ambiente para elaborar suas ações necessitam de metodologias para identificar e processar as informaçõesFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... relevantes. Sendo assim, pode-se observar que metodologias como a inteligência e a vigília estratégicas podem auxiliar muito dentro desse contexto. Na contem- poraneidade, a inteligência e a vigília estratégicas são, antes de mais nada, processos de triagem da informação. Hoje, com as novas tecnologias, o Relações Públicas tem à sua disposição no- vas abordagens para a busca e a análise da informação. O acesso à informação está muito mais amplo, e torna-se imprescindível considerar o uso de novas metodologias de processamento. O profissional de Relações Públicas tem, atualmente, a oportunidade de ampliar seus instrumentos de busca da informação, para, assim, aumentar a eficácia das suas ações e estratégias. Não se pretende, aqui, questionar a importância e a eficácia de instrumentos tradicionais de pesquisa. Ao contrário, a pretensão consiste em sinalizar que esses instrumentos podem ser ampliados e enriquecidos com a soma de novas metodologias e processos, como, por exemplo, a vigília e a inteligência estratégicas. Apesar da facilidade de acesso à informação, estudos41 apontam que 70% das empresas que encerraram suas atividades, faliram por não possuir conhecimento do ambiente no qual estavam inseridas. Isso evidencia a dificuldade que as empresas ainda possuem de organizar, processar e usar eficazmente as infor- mações. Evidencia, também, a necessidade que as organizações têm de novas metodologias para gerenciar a informação. A inteligência e a pesquisa funcionam de formas um pouco diferenciadas, porém complementares. A pesquisa responde a uma necessidade de informação num determinado tempo e sobre uma determinada situação ou fato, baseada numa amostra; já a vigília consiste numa observação constante e contínua dos diversos focos de interesse da empresa, baseada num conjunto de fontes analisadas por especialistas. 41 Dado apresentado em 2000 por SANTOS, Raimundo Nonato Macedo. Métodos e ferramentas para gestão de inteligência e do conhecimento . Disponível em: www.eci.ufmg.br/pcionline/include/ getdoc.php?id=527&article=281&mode=pdf – Acesso em: 16 abr. 2006.
  • 183. O uso das novas metodologias pode auxiliar o profissional de Relações Públicas &%a identificar e processar as informações úteis ao seu planejamento. Além disso,no momento em que o Relações Públicas consegue construir uma análise realista Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007do contexto da empresa como base para o seu trabalho, ele passa a desenvolveruma atividade de nível estratégico. Ou seja, ele passa a dar um sentido estratégicoà informação: Nos dias atuais, a comunicação empresarial se prepara para ascender a um novo pata- mar, tornando-se um elemento importante do processo de inteligência empresarial. Ela se estrutura para usufruir das potencialidades das novas tecnologias, respaldar-se em banco de dados inteligentes, explorar a emergência das novas mídias e, sobretudo, maxi- mizar a interface entre as empresas, ou entidades, e a sociedade. Nesse novo cenário, passa a integrar o novo processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua prática e sua filosofia ao chamado “capital intelectual” das organizações.42Nesse contexto, a informação é um elemento-chave na construção de estratégiasde sucesso. O Relações Públicas que desejar exercer uma atividade de nívelestratégico deve ter uma preocupação constante com a busca e o processamentoda informação. Deve encontrar metodologias que o auxiliem a tratar essainformação de forma adequada, as quais lhe forneçam uma orientação das açõesmais apropriadas para o momento e das estratégias que a empresa deve adotar. Os executivos, baseados na experiência de sua própria empresa, admitem que a comu- nicação, nos dias de hoje, já é vista como estratégica pelos empresários e que ela se reveste de fundamental importância para o desenvolvimento dos negócios. Reconhecem que a área de Comunicação Empresarial participa ativamente do processo de decisão relativo às suas ações e estratégias, ou seja, que tem autonomia para gerir suas próprias atividades.43O Relações Públicas que desenvolve um papel estratégico deve possuir umavisão macro que lhe permita identificar e mapear os principais públicos e focosde interesse da organização. Portanto, é necessário que se desenvolva ummonitoramento dos pontos que podem afetar a estrutura e os serviços de umaorganização. Essa lógica foi confirmada também através do projeto Infocom, apartir do qual novas premissas para o comunicador organizacional apontam paraum profissional que saiba lidar com a mudança e que acompanhe o contextopara continuar a estabelecer uma conexão eficiente com seus públicos.42 BUENO, op. cit., p. 8.43 Ibidem, p. 241.
  • 184. De fato, pode-se considerar que o objetivo de uma estratégia, principalmente nos && tempos atuais e no contexto organizacional, não é a guerra ou o uso da força. O objetivo é que a estratégia possibilite que a empresa atue em harmonia com seuFachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... ambiente, para atingir seus objetivos. Dentro desse pensamento, o profissional de Relações Públicas exerce uma atividade de grande valor estratégico, pois ele visa à cooperação mútua entre o sistema organização-públicos, visando à conse- cução da missão organizacional. Ou seja, ele é o profissional que busca a harmo- nia na relação da empresa com seus públicos. Para agir harmonicamente com um público, é necessário ter conhecimento para compreender as necessidades e os desejos desse público e inteligência para criar formas de respostas. Tendo este quadro organizacional como perspectiva, o profissional de comunicação convive hoje com uma exigência de aproximação com tecnologias, que estão em constante atualização, mostrando a necessidade não somente de um controle técnico- instrumental mas o domínio de novas relações que se desenvolvem a partir da emergência e utilização das mesmas, em seu contexto de trabalho. Esta necessidade de estar mais qualificado, de estar apto para enfrentar as transformações e de saber coordenar o novo quadro que se instala nas áreas de comunicação das empresas tem gerado a necessidade de novas competências.44 Em decorrência dessa função de sintonia e harmonização dos interesses da empresa com seus públicos é tão importante que o Relações Públicas se utilize de metodologias de coleta e processamento da informação. Por esse motivo, também a inteligência e a vigília estratégicas são processos que podem fornecer um apoio fundamental à atividade de relações públicas. Essas metodologias permitem monitorar informações ambientais para responder satisfatoriamente aos desafios e às oportunidades que se apresentam à organização. Elas oportunizam uma busca sistemática de informações de interesse para a construção de uma reação proativa diante das mudanças contextuais. Também possibilitam ao Relações Públicas a construção de estratégias coerentes com a realidade e com os objetivos organizacionais e a prática de uma postura estratégica. Da mesma forma que as metodologias de busca e processamento da informação podem auxiliar a atividade de relações públicas, elas também abrem espaço para um novo campo de atuação profissional. 44 SANDI, André Quiroga. Novas competências do Relações Públicas frente às tecnologias de informação. In: XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002, Fortaleza. Anais... Fortaleza, 2005. Disponível em: www.eca.usp.br/alaic/material%20bolivia%202002/congbolivia2002/traba- lhos%20completo%20. Acesso em: 16 abr. 2006.
  • 185. A gestão das informações deve estar a cargo do setor de comunicação, em &especial do profissional de Relações Públicas, que trabalha a comunicaçãoorganizacional integrada e deve ser visto como um estrategista, um gerente Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007informacional.45Essa parece ser uma tendência das organizações que vêm sentindo as con-seqüências do acelerado desenvolvimento das novas tecnologias de informaçãoe comunicação. As organizações da contemporaneidade têm consciência lúcida de que não estão sozi- nhas, mas inseridas num contexto. E é desse contexto que depende fundamentalmente o sucesso ou o fracasso dessas organizações e de seus sistemas de comunicação. Foi-se o tempo em que as empresas olhavam para o universo a partir de uma perspectiva de si mesmas, preocupando-se somente consigo e não levando em conta o meio circundante. Hoje as organizações, bem como a dinâmica de sua comunicação, dependem dos seus vínculos com o mundo exterior. Sua coerência e construção dependem da interação com os elementos no contexto em que atuam. E nesse contexto, o comunicador deve observar o meio ambiente buscando estabelecer as conexões com elementos importantes para o enriquecimento e para a validação de suas informações. O exterior valida a comunicação organizacional.46Considerações finaisAs organizações contemporâneas se encontram diante de novos desafios. Aglobalização e a rapidez das mudanças exigem das organizações atitudes ágeise conscientes. O contexto mudou, e as empresas precisam desenvolvermetodologias e processos que permitam sua constante adaptação.A sobrevivência das organizações empresariais está intimamente ligada à suacapacidade de inovação também na sua gestão. Para tanto, é necessáriohabilidade para gerenciar os recursos informacionais e agilidade de ação. Asorganizações precisam identificar os focos de ameaça e oportunidade no ambientee traçar estratégias de reação a essa situação. Nesse contexto, a informaçãopassa a ter um valor estratégico. Afinal, ela forma a base de conhecimento sobreo qual a empresa se apoiará para pensar suas ações e estratégias.45 Idem.46 FACHINELLI; MATTIA; RECH, op. cit.
  • 186. No entanto, o grande desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação  produziram uma verdadeira avalanche de dados. O fluxo informacional das redes e dos veículos cresceram exponencialmente. Isso traz um novo desafio às organizações,Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... pois a situação da falta de informação foi substituída pelo excesso da mesma. Assim, as empresas necessitam adotar metodologias e processos que possibilitem a busca focalizada nos dados de interesse e o tratamento da informação disponível. A atividade do Relações Públicas também atravessa o mesmo dilema, pois, para criar ações que busquem a sinergia entre os objetivos da empresa e a expectativa de seus públicos de interesse, esse profissional necessita ter uma boa base informacional que lhe permita identificar esses interesses, também em constante modificação. Dessa forma, partindo do pressuposto de que a informação é fundamental para a formulação de uma estratégia de sucesso, surge a necessidade do uso de metodologias que facilitem o seu processamento. Através do estudo da aplicação e das vantagens da inteligência e da vigília estratégicas conclui-se que essas metodologias podem contribuir muito para a busca e a análise da informação, pois a inteligência e a vigília são processos que possibilitam um monitoramento constante das informações de valor estratégico para a organização. Sendo assim, essas metodologias contribuem não só para as estratégias do Relações Públicas, mas também para as estratégias macro da organização. No momento em que as relações públicas forem a atividade responsável por administrar esse processo, passam a atingir um novo patamar de importância para a direção da empresa, por exercer uma função essencial e de cunho estratégico. Com a sociedade contemporânea, surge então uma nova perspectiva de atuação para o Relações Públicas. Esse profissional pode atuar na implementação e no desenvolvimento de metodologias e processos que permitam gerenciar estrate- gicamente a informação para a produção de conhecimento aplicável tanto dentro de sua função como em outras atividades da empresa. O profissional de comunicação contemporâneo deve estar atento às demandas da atual sociedade e produzir mecanismos para responder a elas. Por esse motivo, apontamos para a tendência do uso estratégico da informação como um novo campo de atuação para as relações públicas.
  • 187. ReferênciasARGYRIS, Chris; BARTOLOMÉ, Fernando; ROGERS, Carl R. Comunicação eficaz na Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007empresa: como melhorar o fluxo de informação para tomar decisões corretas. Rio deJaneiro: Campus, 1999.BECKER, João Luiz et al. Informação e decisão: sistemas de apoio e seu impacto. PortoAlegre: Ortiz, 1997.BELLO, Bruno Carneiro de et al. Inteligência: colaborando para competir. In: SIMPEP,11., 2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1.BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial: teoria e pesquisa. Barueri: Manole,2003.CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 5. ed. SãoPaulo: Paz e Terra, 2001.DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta parao sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998.DRUCKER, Peter. As novas realidades: no governo e na política, na economia e nas empresas,na sociedade e na visão de mundo. 4. ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.EDWARDS, Elwyn. Introdução à teoria da informação. São Paulo: Cultrix, 1971.FACHINELLI, Ana C. Elementos metodológicos de vigília e de inteligência econômicapara o processamento de informações organizacionais. Conexão, Caxias do Sul: Educs,n. 1, v. 2. dez./2003.FACHINELLI, Ana C.; MATTIA, Olivar M.; RECH, Jane. A dinâmica da informação nacomunicação organizacional: a perspectiva do hipertexto e da autopoiese. In: CONGRESSOBRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais... SãoPaulo: Intercom, 2005. CD-ROM. Disponível em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17608/1/R1647-1.pdf. Acesso em: 30 abr. 2006.FAYARD, Pierre. O jogo da interação: informação e comunicação em estratégia. Caxiasdo Sul: Educs, 2000.FOCHI, Marcos A. B.; PIROLO, Maria A. M. A pesquisa de opinião: o “ver e o “fazer” doRelações Públicas. In: INTERCOM-Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares daComunicação e XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação, 2001. Disponível em:www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/relacoespublicas/funcoesetecnicas/0157.pdf.Acesso em: 30 abr. 2006.HÉCTOR, Torres Silva. Quiralidad en la teoría de la información aplicada al lenguage genético.Disponível em: www.autopoiesis.cl/demostracion.htm. Acesso em: 23 mar. 2006.KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Obtendo resultados com relações públicas. SãoPaulo: Pioneira Thomson Learning, 1997.______. Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação orga-nizacional . 3. ed. São Paulo: Summus, 1997.
  • 188. LESCA, Humberto; FREITAS, Henrique M. R. de. Como dar senso útil às informações  dispersas para facilitar as decisões e ações dos dirigentes: o problema crucial da inteligência competitiva através da construção de “PUZZLE”. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1996. (Série Documentos para Estudos, n. 6).Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001. ______. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1999. _____. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997. MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2002. MILLER, Stephen H.; PRESCOTT, John E. Inteligência competitiva na prática: técnicas e práticas bem-sucedidas para conquistar mercados. Rio de Janeiro: Campus, 2002. MINTZBERG, Henry; QUINN, James Brian. O processo da estratégia. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2001. MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safari de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000. NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. PORTER, Michael E.; MONTGOMERY, Cynthia A. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. 7. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2002. SANDI, André Quiroga. Novas competências do Relações Públicas frente às tecnologias de informação. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002, Fortaleza. Anais... Fortaleza, 2002. Disponível em: www.eca.usp.br/alaic/mate- rial%20bolivia%202002/congbolivia2002/trabalhos%20completo%20. Acesso em: 16 abr. 2006. SANTOS, Raimundo Nonato Macedo. Métodos e ferramentas para gestão de inteligên- cia e do conhecimento. Disponível em: www.eci.ufmg.br/pcionline/include/ getdoc.php?id=527&article=281&mode=pdf – Acesso em: 16 abr. 2006. SIMÕES, Roberto Porto. Relações públicas e micropolítica. São Paulo: Summus, 2001. SOARES JÚNIOR, Enio; BRUNO, Flávio da Silveira; BELLO, Bruno Carneiro Di. Inteligência: colaborando para competir. In: SIMPEP, 11., 2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1. TAPSCOT, Don. Economia digital: promessa e perigo na era da inteligência em rede. São Paulo: Makron Books, 1997. TARAPANOFF, Kira. Inteligência organizacional e competitiva. Brasília: Ed. da UnB, 2001. THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 5. ed. Pe- trópolis: Vozes, 2002. TZU, Sun. A arte da guerra. Porto Alegre: L&PM, 2000.
  • 189. !Comunicação organizacional epressupostos da comunicação Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007integrada: a experiência em umauniversidade na implementação/reestruturação do jornal institucional Cassiana Maris Lima Cruz1 RESUMOA gestão da comunicação organizacional precisa considerar a cultura da organização, para que entãoelabore o planejamento estratégico comunicacional. A comunicação, nessa perspectiva, tem importânciafundamental uma vez que se torna o meio condutor pelo qual a organização constrói/desconstrói eperpetua sua imagem. Nesse sentido, este estudo tem por objetivo resgatar as teorias referentes àcomunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem como relata aexperiência de uma universidade no Rio Grande do Sul quando implementou/reestruturou o jornalinstitucional. O relato demonstra, claramente, que a instituição não possui políticas de comunicaçãodefinidas. Para fins de construção do arcabouço teórico que norteou este estudo, foram consideradosos conceitos produzidos por Kunsch (2003); Bueno (2003), dentre outros pesquisadores do tema.Palavras-chave: Comunicação organizacional. Comunicação integrada. Comunicação em omunicaçãouniversidades. ABSTRACTOrganizational communication management needs to consider the culture of the organization, in orderto, after that, elaborate the communicational strategic planning. Communication under this perspectivehas fundamental importance, once it becomes the conductive way through which the organization builds/unbuilds and perpetuates its image. Following this, the study aims to rescue the theories referring toorganizational communication and the presuppositions of integrated communication, as well as it re-ports the experience of an university in Rio Grande do Sul state, when they implemented/rearranged theinstitutional journal. The report clearly shows that the institution does not have defined communicationpolicies. In order to build the theoretical structure that lead the study, the concepts produced by Kunsch(2003) and Bueno (2003) were considered, among other researchers on the subject.Key words: Organizational communication. Integrated communication. Communication in universities.1 Professora/Pesquisadora na Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis daUniversidade de Passo Fundo (UPF). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina(UFSC). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social/PPGCOM pela Pontifícia Uni-versidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
  • 190. " Introdução A comunicação organizacional é tema recorrente em agendas de pesquisa dasCruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... escolas de Comunicação Social, uma vez que as organizações necessitam ter novas posturas de gestão em função de modificações que ocorreram no ambiente, considerando sobremaneira as três últimas décadas, quanto a fatores de natureza econômica, geopolítica e sociocultural. (BUENO, 2003, p. 19). Sob esse contexto, os novos paradigmas aplicados aos estudos organizacionais e estratégicos apontam que as organizações precisam estabelecer relações e modelos de gestão contemporâneos que contemplem efetivamente a visão sis- têmica (GOLDHABER, 1991; BALDISSERA, 2000) e relacional dos processos admi- nistrativos e da dinâmica institucional. Todo esse complexo debate está presente já há algum tempo nas Instituições de Ensino Superior (IESs), que enfrentam verdadeiras transformações seja no âmbito de suas concepções filosóficas, no da tecnologia da informação, no dos comportamentos e das aspirações dos educandos, seja no da sociedade em geral. Há, também, de se considerar as modificações no pro- cesso de avaliação das IEs, hoje institucionalizadas por meio do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes), que, em suas diversas dimensões de análise, tem como idéias centrais, dentre outras, a integração e a participação. Contemplando esse (re)olhar para as organizações, no contexto da pós- modernidade, é que se considera fundamental abordar a questão da comunica- ção organizacional. Considerada como elemento estratégico, cerne da orga- nização, a comunicação assume a função de “reforçar e preservar a identidade organizacional”. (BALDISSERA, 2000, p. 13). É por meio da interação entre os fluxos de informações que as redes de relações estão sistematicamente em processo de construção/desconstrução, numa constante organização/reorga- nização e (re)produção. Portanto, constitui-se objeto deste estudo o resgate de teorias referentes à comunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem como se relata a experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul, na implementação/reestruturação do jornal – instrumento de comunicação insti- tucional (KUNSCH, 2003), focado em atingir os públicos: alunos, funcionários e professores.
  • 191. #Comunicação organizacionalFalar sobre comunicação organizacional sem antes abordar a importância da Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007cultura organizacional para a construção da comunicação no âmbito da organizaçãoé interpretá-la de forma fragmentada, desconsiderando uma visão sistêmica.A cultura organizacional constitui-se no elemento norteador das organizações, poisorienta os comportamentos dos indivíduos que passam, então, a conviver em umaunidade de sociedade empresarial específica, repleta de construções/desconstruçõesdas relações sociais. Como diz Bueno (2003, p. 4), a comunicação “é o espelho dacultura empresarial e reflete, necessariamente, os valores das organizações”.Baldissera (2000) define cultura organizacional como um conjunto de crenças e valoresespecíficos de uma determinada organização, traduzido por hábitos, mitos, ritos, ta-bus, mentalidade da organização, estilo de direção, comportamentos, criações,rompimentos e recodificações. Para o autor a cultura organizacional representa osaspectos identitários que tornam uma organização única, diferenciando-a das demais.As organizações necessitam, então, perpetuar esses conjuntos de pressupostosque representam sua imagem e identidade, utilizando-se, dentre outras estratégiasde gestão e da comunicação organizacional. Sendo assim, falar de comunicaçãoé referendar as práticas comunicacionais enquanto acontecimento de cultura.(BALDISSERA, 2000).Mediante o exposto, pode-se dizer que a comunicação é um processo deconstrução de sentidos. Para tanto, os emissores/receptores participam de umcomplexo jogo de relações interativas, onde realizam intercâmbio de mensagens,de onde emerge um fluxo de informações entre as pessoas que ocupam distintasposições e representam distintas funções. (GOLDHABER, 1991).Partindo desse contexto, os profissionais que se propõem a planejar e a coordenara comunicação de uma organização, primeiramente, necessitam realizar umesforço para diagnosticar a cultura organizacional (BALDISSERA, 2000), estandoela implícita ou explícita nas redes formais e/ou informais.A comunicação organizacional, assumindo os aspectos descritos, passa a ser “es-tratégica para as organizações o que significa que se vincula estritamente aonegócio” (BUENO, 2003, p. 7), passando, também, a ser desenvolvida por profissio-nais que conheçam e entendam a organização na perspectiva sistêmica.
  • 192. $ Aspectos a serem considerados pela comunicação organizacionalCruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... A comunicação organizacional, por apresentar esse caráter de inter-relação acima mencionado, possibilita o conhecimento de informações que permitem a definição ou o ajuste de estratégias organizacionais. Nesse contexto, são postos em cir- culação, na cadeia comunicacional, efeitos de sentidos orientados para a obtenção de resultados estratégicos globais, tendo como principal objetivo agregar valor positivo à imagem da organização. (BALDISSERA, 2000). Para tanto, é preciso disseminar políticas, crenças e valores da organização, criando, mantendo e desenvolvendo formas de comunicação que contribuam para a melhor operacionalidade dos sistemas e das atividades. (TORQUATO, 2002). Segundo o autor, a empresa necessita desenvolver harmoniosamente o espírito de equipe, projetar com centros irradiadores de opinião e poder o pensamento ideológico da organização, acompanhar e influenciar o meio ambiente. Mediante essas considerações, como os gestores podem considerar a comunica- ção nas organizações e de que forma poderão proceder ao planejamento da mesma? Torquato (2002) fala de quatro dimensões de comunicação na organização: a primeira dimensão é a da comunicação cultural que abrange os climas internos, onde o gestor deve medir a temperatura do clima organizacional, aferida a partir da cultura interna, arcabouço dos costumes, das idéias e dos valores da comunidade. A segunda dimensão destacada pelo autor diz respeito à comunicação administrativa que são todos os elementos de comunicação ligados ao fluxo de informação interna que estabelecem as relações entre setores, chefias e colaboradores. A terceira dimensão é a comunicação social que envolve atos de comunicação indiretos, unilaterais e públicos. A quarta dimensão é chamada sistema de informações, tendo por objetivo agregar e gerenciar as informações armazenadas em bancos de dados. Nessa sistemática de organização da comunicação para as empresas, Torquato (2002, p. 34) atenta para o fato de que as quatro dimensões devem funcionar como “uma orquestra”, pois uma dimensão influi na outra, ou seja, as quatro formas de comunicação se afetam significativamente.
  • 193. A comunicação organizacional, nessa perspectiva é, portanto, a possibilidade %sistêmica, integrada, que reúne as quatro grandes modalidades, cada qualexercendo um conjunto de funções. Torquato (2002) ressalta que para que a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007eficácia da comunicação aconteça, é necessária uma clara definição de objetivoséticos, capacidade de codificação/expressão, domínio psicológico e capacidadede compreender o meio ambiente.Para que a comunicação tenha condições de fluir, é preciso considerar como osfluxos ocorrem, pois exercem grande influência sobre a eficácia do processo. É emnível de fluxos, ou seja, nos caminhos que a informação percorre que acontecemos desvios e os degraus que atravessam a comunicação. (TORQUATO, 2002). Asinformações necessitam ser transmitidas considerando os fluxos descendentes,ascendentes, por direções laterais internas e por direções laterais externas.No fluxo descendente, ou seja, de cima para baixo, o objetivo é que ocorra adifusão dos dados globais, tais como as políticas da organização, dentre outrasinformações, tendo como característica a formalidade. (BALDISSERA, 2000).O fluxo ascendente permite que os dados recolhidos nas bases cheguem atéas instâncias superiores e departamentos interessados. (BALDISSERA, 2000).As comunicações nesse fluxo são mais lentas do que as comunicações entreessas e os níveis superiores. (TORQUATO, 2002). São de caráter muito maisinformal.Os dados provenientes dos distintos setores são comparados, de maneira asistematizar e uniformizar idéias e informações (BALDISSERA, 2000) no fluxopor direções laterais internas. No fluxo diagonal/por direções laterais externas,o objetivo é que as informações sejam difundidas no meio. (BALDISSERA, 2000).Sendo assim, para que a comunicação possa efetivamente produzir os efeitosdesejados, existe a necessidade de realizar pesquisas, entrevistas, auditorias,reuniões e conversas informais com os diversos públicos da organização.(BALDISSERA, 2000; KUNSCH, 2003). O objetivo dessa busca por informaçõesdeve-se ao fato de que a organização precisa avaliar o grau de satisfação quantoà quantidade e à qualidade das informações recebidas pelos públicos, quanto àcapacidade de estabelecer relações entre os assuntos de interesse para aorganização e quanto ao nível de elaboração crítica com referência aos temasidentificados como de importância para o desenvolvimento organizacional.A falta de informações sistematizadas para a comunicação e, efetivamente, afalta de um planejamento estratégico de comunicação organizacional fazem com
  • 194. que os problemas de comunicação se avolumem, podendo causar distorções de & relacionamento de ordem pessoal e profissional e, em muitos casos, prejudicar a imagem e a lucratividade da empresa.Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... Baldissera (2000) aponta como possíveis conseqüências para os problemas de comunicação nas organizações: inexistência de um diagnóstico atualizado que descreva a situação da comunicação organizacional e o perfil do público de interes- se; circulação de informações desencontradas; uso de meios e linguagens não acessíveis; uso de codificações frouxas, ocasionando leituras incorretas; a ine- xistência de um fio condutor que funcione como referência para toda a comu- nicação oficial; mensagens muito complexas; dificuldade na construção de me- canismos, ou mesmo a inexistência deles, que permitam avaliar o processo de comunicação e retroalimetá-lo. Então, planejar a comunicação organizacional é considerar as dimensões de comu- nicação, é considerar os fluxos pelos quais as mensagens são transmitidas, aliando sistematicamente a coleta de informações com os públicos, implemen- tando ações estratégicas, controlando-as e analisando os resultados. No entanto, nada será realizado com eficácia sem um planejamento estratégico, com políticas de comunicação bem definidas. Pressupostos para a comunicação integrada nas organizações Bueno (2003, p. 8) enfatiza que a comunicação organizacional é vista agora como “um conjunto de novos atributos que a tipificam como insumo estratégico”. Nessa perspectiva, “caminha para assumir, por inteiro, a chamada comunicação integrada, com uma articulação estreita entre os vários departamentos/áreas e profissionais que exercem atividades de comunicação nas empresas ou entidades”, complementa o autor. Embora o conceito de comunicação integrada não seja novo, ainda é possível observar “estruturas parciais de comunicação, com serviços fragmentados e sem uma política definida”. (KUNSCH, 1992, p. 87). Trevisan (2003) argumenta que a comunicação integrada necessita de um processo de planejamento estratégico, pois requer uma visão acurada e
  • 195. abrangente das necessidades comunicacionais da organização para atingir o objetivo final, que é o de contribuir para a construção das imagens interna eexterna da empresa. Pressupõe a sinergia e a integração entre