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Primeiro número do espetacular Rosebud Pop Media. Entrevistas emocionantes com críticos de música, criticando sua própria crítica. http://www.oerratico.com

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  1. 1. EDITORIAIS Rosebud Pop Media é uma publicação sem qualquer periodici- LOUCOS MAS FELIZES dade, mas tentaremos fazê-lo semestralmente. Sempre me pareceu absolutamente normal pensar na músi- Quem fez: ca como um elemento importantíssimo para a manutenção Renato Grimbaum - Sun City Girls, Década de 90, Críticos de quase todas as atividades humanas que envolvessem um certo teor de inspiração e autenticidade (por conseqüência, a Ricardo Amaral - Internet, Gravadoras, Sebadoh,Críticos música deveria ser sempre autêntica e inspirada, é claro). Rodrigo Villalba - algo aqui e lá... Não só na minha vida, mas na de todo mundo, em todas as sociedades, em todas as épocas, nas garagens, clubes e Quem ajudou: carros; a música sempre estava lá, ajudando as pessoas a colocar os pensamentos em ordem, dando coragem aos Rodrigo Lucianetti amantes amedrontados, aos soldados confusos, inflamando discursos de intelectuais e revolucionários, influenciando email: rosebudpopmedia@zipmail.com.br decisões de todo tipo. Em breve: homepage. Aguardem. Minha idéia a respeito da importância da música nunca esbarrou na visão obtusa que teima em perceber a arte ape- Rua João de Lery 117 nas como entretenimento, um passatempo. Lembro-me da Jd. Aeroporto - São Paulo/SP primeira vez que ouvi “so, central rain”, do R.E.M., e me CEP 04653-030 emocionei, assim como lembro-me de outras centenas de vezes pessoais demais, piegas demais para colocar num texto, em que determinadas melodias ditaram o ritmo e a forma de viver a minha vida. Na verdade, eu preferiria acre- CRÉDITO A QUEM MERECE ditar que toda essa pieguice, todo essa “trilha sonora perma- nente” com a qual fiz questão de rechear grande parte dos vinte e dois, serviram ao menos para ajudar na formação de Pra que um zine? Essa talvez é a pergunta número um que deve um cara um pouco menos alienado. Um pouco mais sensí- vir à cabeça de alguns de vocês e particularmente à minha. A vel, talvez. O problema todo veio à tona, no entanto, quando resposta até que é simples: porque é necessário. Minha intenção comecei a desconfiar que toda essa sensibilidade e con- sempre foi informar as pessoas do que acontece e infelizmente, sciência crítica seriam apenas sintomas de um grande dese- quilíbrio mental... nenhum canal conhecido por aqui permite ou faz algo do gênero. Explico. Lendo revistas especializadas nacionais, ouvindo os Mesmo canais ditos alternativos no Brasil são mais maquiagem últimos “lançamentos” das rádios brasileiras e assistindo à do que qualquer outra coisa. televisão descobri que o conceito de música como instru- Existem duas origens para esse desejo de colocar esse novo mento transformador e enriquecedor da realidade humana canal no ar. O primeiro surgiu depois de alguns anos. Como estava totalmente ultrapassado, se é que um dia tinha vinga- nunca fui muito fã da modinha ou de axé/pagodinho/country do realmente. Zanzando pelos bares da vida, encontrei três dance, não foram poucas as vezes que ouvia a seguinte frase: camaradas (Ricardo, Renato e Lucianetti) que pareciam tam- bém deveras transtornados. “Você é muito radical!”, “Você é muito limitado!”. Confesso que “Por que as grandes gravadoras amam o Brasil?”, pergunta- por um momento (ou uns anos), até acreditava nisso, que deve- va um. “Será que há espaço para a ironia inteligente num ria “abrir mais minha cabeça” e ouvir de tudo. Só que notei que cenário musical tão grande?”, questionava outro. “Ninguém quem estava errado não era eu: afinal, eu ouvia de tudo e não se incomoda com tanta mediocridade latente, tanta me limitava a ouvir somente o que as rádios (e por trás delas, as repetição, sendo que há uma porção de coisas boas apare- gravadoras) jogavam. Todos nós do Rosebud ouvimos de música cendo e se perdendo na obscuridade?”, indagava um ter- clássica a hardcore, mas primamos acima de tudo por duas ceiro (coitado) totalmente desgostoso. coisas: qualidade e inteligência. E isso efetivamente não está nas Reunimo-nos algumas vezes mais, tentando aliciar críticos musicais da grande imprensa, DJ´s e celebridades do meio rádios. para uma conversa séria, sem resultados. Parávamos pes- A segunda origem foi ao descobrir os verdadeiros zines. soas na rua e berrávamos: “Você não vê o que está aconte- Confesso que zine para mim lembrava “coisa mal feita”, “trabalho cendo?!? Eles não querem que a gente pense!!!”. Algumas de fã-clube” e panfleto político. Mas ao passar a ler coisas como riam, outras gritavam ainda mais e havia aquelas que não Poptopia, Popwatch, Bucketfull of Brains, Beer Frame, No diziam nada pois o volume de seus walkmans não permitiam Depression, Sound Collector, Pop Culture Press, The Bob, que ouvissem nada além de Shakira e Whitesnake nas FMs Magnet e duas clássicas: Ptoleimac Terrascope e Wire, notei que sintonizadas. Abatidos, voltamos ao circuito de bares da cidade e, após a função do zine era muito mais importante do que acreditava. uma noite regada a cervejas e divagações, formulamos a Mas dois zines em particular foram os que me motivaram mais: nossa teoria conspiratória: um grupo nefasto de “extrater- Escargot, da Kathleen Billus e Jeanne McKinney e Stay Free!, da restres” infiltrados em todos os segmentos da mídia planeja- Carrie McLaren. É para elas que dedico este zine. va imbecilizar a população terrestre, minimizando ao máximo os efeitos positivos causados pela boa música. E o pior é Ricardo Amaral que eles estavam conseguindo!!! Bem, aqui estamos. Bem vindos(as) à leitura do Rosebud. Brincadeiras à parte, sei que nem sempre nossas obser- vações e comentários serão uma unanimidade mas assim mesmo resta a certeza de que todos concordamos em dois pontos: 1- Alguns caras que tocam guitarras e cantam ajudam as engrenagens da nossa cabeça e do coração a funcionar Bizarre - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (220 7933) melhor e; Velvet - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (221 8947) 2- Um pouco da nossa atenção e interesse a respeito das Parasol - http://www.parasol.com coisas que tornam essas pessoas tão especiais para nós e Vinyl Ink - http://www.vinylink.com para o mundo (mesmo que quase ninguém se dê conta) é o Forced Exposure - http://www.forcedexposure.com mínimo que podíamos fazer. Rodrigo Villalba CDNow - http://www.cdnow.com CDUniverse - http://www.cduniverse.com ou em alguma Saraiva MegaStore (que surpreende às vezes)
  2. 2. NASCE UM NOVO TEMPO ca, desde a década de 60: Beatles, Who, Yes, Pink Floyd, Black Sabbath, Whitesnake, Queen, Motorhead, Sex Pistols, Joy Porque Rosebud? Responderei no final, mas adianto o quan- Division, Echo & the Bunnymen, Oasis, Kula Shaker e Guided by to é difícil descrever tal missão em tão curtas palavras. Mas Voices. São inúmeros os exemplos. Mas todas devem algo a cumpre-nos o dever de tentar. Rosebud existe para informar. Stone Roses. Eu a chamaria de banda aranha, que consegue Para ser crítico. Para integrar, disseminar cultura. juntar em sua teia as mais diversas influências, e ao mesmo Pretendemos ao longo do tempo instruir, mostrar o que é tempo tributear-las em um som ao mesmo tempo diverso e importante musicalmente. Isto é ser crítico, e inteligente. único. O seu pop é o t empo todo inédito, embora cheio destas Mostrar aspectos ocultos dos grandes mestres do indie pop, referências. A banda tem um punch, uma vibração que progrediu aspectos que talvez você nem imaginava que existissem. durante os anos 90 como terremotos secundários. Tudo o que Mais importante que descrições, vamos mais à frente, à práti- se fez na década de 90 reverenciou os Roses. O que fizeram no ca com pequenos exemplos - as bandas mais importantes de primeiro álbum foi estonteante. Eles nem precisavam ter gravado rock dos últimos anos segundo toda a crítica mundial (Falarei o segundo disco. E uma vez gravado, não deveriam ter lançado, de techno e hip hop no próximo número - aguardem!). Estes mas tudo bem. Quem provocou o vagalhão que eles provo- pequenos mas expressivos exemplos são feitos para que caram, tem seu desconto. você entenda. E não só isto, para que melhor enxergue a Esta banda tem três características (4AD, posição da crítica e do seu novo expoente, este zine. É Cleopatra, Hyperion) que a coloca no nosso topo. Em primeiro óbvio, você vai ficar com raiva quando eu falar mal da sua lugar, o etéreo, a viagem constante e o conhecimento supremo. banda predileta. Azar. Para nós, críticos especializados, o É uma banda culta, com raízes em música medieval, árabe, ori- gosto pouco importa. Você é que deve se adaptar aos con- ental, africana, gótica e semiótica. Com tanta cultura, seu cantar ceitos mais atuais, e não nós a você. Você é quem deve é nosso prazer, conhecimento. Em segundo lugar, ela é perfeita saber o que é a dificuldade do pensamento de Nietzche, de tecnicamente. Com som claro, bem produzido, sem um só arran- Adorno. Do pós-moderno. E porque você deve se adaptar? hão. A minha vontade é a de mandar o mundo se calar para Por questão de formação. Porque se estuda? Em geral, a ouvir DCD. Em último lugar, a banda expressa o mais verdadeiro maioria dos críticos faz parte de uma classe organizada, edu- sentimento humano: a tristeza, a depressão. A lamúria, o canto cada, estudada. Muitos de nós temos boas referências e triste. As noites silentes, a vagar pela noite calada, com a músi- antecedentes, pós-graduação na França em onanologia. ca na cabeça até que a pilha do walkman se acabe. Somente os Afinal, somos pagos para passar horas em casa fazendo o ingleses têm esta capacidade, a de trazer a dor profunda para quê? E se tudo isto fosse pouco, algo me dá sustento. O que fora, o sofrimento para a claridade, onde podemos, mais que falo não é diferente do que escrevem a Rolling Stone e o resolvê-los, senti-los em toda a sua profundidade. NME. Porque questionar? O que falamos está embasado. O Aos vivos. Das maiores pro- que nos falta, talvez, é uma linguagem única, um modo de fundidades. Um CD de grandes talentos. classificar similar. Embora de forma não totalmente dis- Mas nada lentos. Poéticos. Pô: éticos! cutida, o grupo de críticos tem parâmetros bem rígidos Junto com Cuscuz clã, CC traz a mais bela para avaliação dos CDs que você um dia irá ouvir. perspectiva de uma fusão inteligente entre Estes quesitos são: 1. Bandas que influenciaram; 2. a MPB e o pop, embora ele ainda não Presença de ritmos exóticos e samplers; 3. Postura tenha feito pop. O regionalismo ao seu do líder; 3. Profundidade do intróito filosófico; 4. mais extremo valor. Neste misto de cul- Relações epistemológicas com o paradigma da esco- turas, fico imaginando nosso pequeno la musical e atemporalidade; 5. Tema; 6. Guimarães Rosa cantando covers de Composição; 7. Evolução; 8. Harmonia; 9. Enredo. pop. Seria delicioso ouvi-lo cantando Enfim, chega de conversa. Vamos à exposição clara Stone Roses: “I wanna be adored”. Chico e simplista das bandas abordadas. Ocasionalmente, César é aquilo que o Brasil precisa: caris- se você ficar irritado com as opiniões, escreva para o ma e poesia. Vamos reviver Caetano, Gil, editor. É importante que você saiba o quanto é impor- a tropicália. CC traz para todos nós os tante é a polêmica. Ela é mais rica que a informação. É bons tempos de volta, a lambreta e a sensi- a polêmica que faz o meio, que garante empregos e ven- bilidade. Seus efeitos poéticos trazem mais das. Portanto, escreva! percepção que Paulo Coelho. E sua musicalidade Nirvana trouxe duas coisas importantes para a inédita só nos fazem lembrar nossos grandes ícones, nossas cena indie. Em primeiro lugar, popularizou a cena indie. Isto estrelas. Brasil, terra eterna da musicalidade. é importante. Nós não estaríamos hoje ouvindo bandas como Outra banda britânica excelente. E traz de volta algo TFUL, Guided by Voices se não houvesse Nirvana. Sua importante: banda de referência única, Wire. Lembra-se? entrada para a Geffen, sua veiculação pela MTV foi como um Monkeys? Eram os novos Beatles. Bad Religion? Os novos trabalho de conversão e conscientização: milhões de pes- Buzzcocks. Rancid? O novo Clash. Elastica é como a chama soas passaram a entender o espírito indie, a questionar a olímpica, que por gerações leva a mensagem original, preserva- indústria fonográfica e todo o poder no seu dia a dia. O da sem distorções, lembrando ao mundo seus votos de paz e mundo passou a ser mais honesto depois do Nirvana. O prosperidade. segundo ponto é mais tocante. Nirvana toca o público mais Esta banda é uma lição de vida. Uma emoção à parte. adolescente, adultos jovens em momentos críticos, de confli- Pense bem: U2 é uma banda veterana, e seu grande mérito é a to. É aqui que transmitem sua maior identidade. A revolta, a coerência. Há tantos anos na estrada, e continua dando a transformação pelo grito. Eu me lembro das notícias de mesma lição, a mesma garra, a mesma música. Não se deixou Cobain dopado, quebrando o quarto de hotel em Sampa. Ato corromper no caminho, nada mudou seu destino. Além disto, U2 da mais legítima transgressão e profundidade. Eles utilizaram nunca se vendeu. Tem todo o ativismo político incorruptível. Ela o doping como protesto, o chapado como bandeira. Foram a nos dá a luta das grandes causas: a Anistia, a Bósnia, as cri- banda mais revolucionária da década. Viva Nirvana! anças carentes. Ela canaliza toda a boa vontade das pessoas Esta é provavelmente a mais importante numa... boa causa! Caridosa e enérgica, a banda esteve recen- banda do rock, depois de Love. Apesar de carregar o peso temente no Brasil e no seu megashow, um espetáculo à parte, de ser britânica, a banda superou as expectativas. A competente e profissional, com lindíssimos efeitos sonográficos Inglaterra é um país onde muito se cobra das bandas, afinal que deixam a música quase como coadjuvante, a banda deu o rock está na veia. É o continente onde melhor se faz músi-
  3. 3. uma lição de democracia, de comunicação. Com toda sinceri- Watt mostrou ao mundo que os indies podem ter cargos de dade, eu, todo o público, todo o país se emocionou quando no confiança, que não são levianos. São sérios e coerentes. estádio do Morumbi Bozo Vox se expressando com dificuldade Merecem o poder que têm. falou em nossa língua mãe : “Oi! Boa noite! Rio de Janeiro!” ou Esta banda foi de importância suprema. “Nós gostamos de ustedes”. A resposta do público foi suprema, Conseguiu trazer o punk o lugar devido da música: diversão. emocionante. Mesmo em língua estrangeira, o público se O punk errou por décadas, trazendo questionamentos e con- esforçou e cantou lindamente a letra do refrão da ultra-romântica testações, desviando o caminho de pessoas que iam aos “In the name of love”. shows com o único intento de se divertir. Agora as coisas O que se poderia esperar de uma banda com nome estão em seus devidos lugares. O honesto punk do Green como este? Experimental Day é a mais absoluta audio research? Genial. Eu, diversão, entretenimento um reles Experimental (*) lis- garantido para pessoas de tener me sinto um aprendiz todas as idades. cósmico. Ouvindo as mais O pop compe- avançadas técnicas de loop, tente dos Sundays trouxe drone, collage e marriage aos anos 90 mais atribu- sonoros, ecoando infinito tos: a pureza. Emoções num ritmo infinitamente mini- claras e limpas, na voz malístico e hipnótico consigo cristalina, quase infantil da atingir o Nirvana tão pre- sua vocalista, que veio a tendido por gerações e ban- influenciar importantes das. Uma viagem. EAR con- bandas como Cranberries, seguiu o que já se acreditava Cardigans e Drugstore. A impossível: a fusão das EXPERIMENTAL A UDIO RESEARCH doçura e candice desta filosofias orientais e ocidentais, banda só tem paralelos na o conhecimento interior através da tecnologia. Consigo com a música mineira, na apologia pastoral à natureza e ao banda, além do mais, me sentir dialético: ouvir música com quem romance. É a música do nascer do dia, canção do por do busca sua paz interior, e ao mesmo tempo delirar de prazer com sol, das abelhinhas, dos pássaros e aves, dos campos, e do as mais recentes conquistas tecnológicas da guitarra eletrônica. sentimento forte, o amor. Sundays é, antes de tudo, beleza. Bravo! Melancólica e bucólica. Mas beleza. Mike Watt é uma lenda viva do indie rock, um ver- Este compositor foi aclamado pela críti- dadeiro ícone. Aquele pelo qual reverenciamos, e todas as vezes ca americana como um dos mais importantes da música pop que necessitarmos de apoio, nele encontraremos. Tudo o que dos últimos anos. Com músicas absolutamente perfeitas, de sonho na vida é ter seu autógrafo. Proveniente de uma banda composição clara, com letras irônicas e divertidas, foram obscura dos anos 80, Minutemen, Watt teve seu talento reconhe- gravadas inicialmente por diversas bandas, entre elas Yo La cido e lançou, em 95 o álbum conceitual da década, com a par- Tengo. Existem também gravações caseiras, não oficiais, ticipação de todo mundo que interessa no indie, de Pearl Jam a em fita, que ocasionalmente foram transformadas em CD Lemonheads. O álbum é o marco básico, um testamento do indie com o momento de inspiração do compositor, com seu com toda a sua estética gravada em sulcos magnetizados. Um órgão Casio. Para ser sincero, este brilhante lofi é um exce- álbum destes tem seu lugar na galeria dos imperdíveis, no Indie lente compositor, mas nunca li nenhum comentário a Rock Hall of Fame, que ainda virá a ser criada. Watt é o elo per- respeito das suas espontâneas interpretações. dido, o fio comum entre as diversas tendências. Se eu tivesse que pensar na figura que mais me faz lembrar os anos 90, pen- saria em Watt ou Bowie. Mais Watt, pois ele deu ao indie este ar Renato Grinbaum de coisa séria, de instituição adulta, e por isto mesmo confiável. EXPLICAÇÕES Quando o Ricardo, o Renato e o Villalba me convidaram para fazer parte deste projeto, que já estava em andamento, descreve- ram-no rapidamente como um zine basicamente crítico. Informativo, porém buscando a reflexão do leitor. Animado, aceitei o con - vite e já fui pedindo a minha pauta, além dos textos que eles já haviam terminado e nos quais ainda estavam trabalhando. Qual não foi a minha surpresa quando, após ler com grande entusiasmo a enxurrada de palavras que invadiram o meu email-box, dei- me por conta de que a tarefa a que me propus seria um desafio muito maior do que eu imaginara inicialmente. Informações providas de análise, críticas ácidas, humor refinado, emoção, vontade de transgredir e transformar. Anseios de todos os que não querem e principalmente não conseguem ficar apáticos com relação a mediocridade do cenário musical brasileiro e com o nivela - mento por baixo da nossa cultura. Chega de ficar se sentido um alienígena por não se enquadrar no gosto da massa. E se você também pensa desta maneira está convidado a participar desta conspiração. No entanto, não pense que será fácil ou mesmo agradável ler estas páginas. A nossa intenção é chocá-lo, incomodá-lo, fazer com que você perceba o mal estar que nós senti - mos por estarmos rodeados de tanto lixo. Enfim, nós queremos aguçar o seu senso crítico e testar o seu humor. A regra aqui é ler nas entrelinhas, retirar o tapete que esconde a sujeira. Alternativas a esse cenário existem aos montes e nós também iremos mostrá-las com todo o prazer, pois, hoje, não há mais desculpas para aceitar o que nos é imposto por falta de opção. O acesso à informação está cada vez mais facilitado. Ou, se não, como um cara vivendo na insólita e provinciana capital do Estado de Santa Catarina pôde se juntar a três cidadãos paulistanos para, à distância, criar este canal? Por fim, gostaria de pedir inspi - ração ao nosso mentor, Orson Welles, para que nos dê a arrogância e pretensão necessárias a nossa missão. Rodrigo Lucianetti NOTA DOS EDITORES: LUCIANETTI REALMENTE ACHOU TUDO UM GRANDE DESAFIO: TANTO QUE SUMIU, COM MEDO DO TERRÍVEL EMBATE QUE IRIA SOFRER. E O RENATO NEGA SEU STATUS DE CIDADÃO PAULISTANO.
  4. 4. PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES soas, como eu, esperaram tantos anos para conseguir estes CDs? Algumas tediosas resenhas sobre alguns álbuns novos e outros Pere Ubu é uma das melhores bandas de rock que conheço. Nascida nem tanto na década de 70 em Cleveland, ela antecipou todo o movimento punk, pós-punk e mesmo o New Wave. Até hoje é uma banda que parece estar à frente. Porque a importância? Porque foi uma banda, assim Swell Maps - Jane From Occupied Europe (Mute) como Modern Lovers, Television entre outras, que transgrediram a Apesar do início dos anos 80 estarem normalmente associados no norma do pop tradicional dos anos 60 e 70, dos eruditismos do pro- Brasil com góticos e Joy Division, havia muita coisa boa rolando por gressivo, para construir um rock novo, irônico, provocador e questio- trás, tanto os pós-punks como bandas inclassificáveis como Wire, nador colocando em primeiro plano o tesão. Se você ouvir os dois Young Marble Giants e Swell Maps. Teoricamente, ouvir um álbum do melhores álbuns desta caixa, “Modern Dance” e “Dub Housing” vai Swell Maps de 1980 hoje poderia soar datado, mas não é o que acon- reconhecer sem grande esforço, características que foram tece. A banda inglesa era formada por pessoas até hoje importantes aproveitadas posteriormente (sem nenhuma conotação negativa) por no cenário alternativo, os irmãos Epic Soundtracks e Nikki Sudden quase todas as bandas atuais. A relação entre Pere Ubu e bandas das (que formou o Jacobites), além de Richard Earl e Jowe Head, que décadas de 70 e 80, como Talkng Heads, Joy Division é muito evi- mais tarde iria aparecer no grande Television Personalities. E como dente. Em alguns momentos, Pere Ubu transgrediu além, mais à disse acima, é difícil explicar o som da banda a não ser como caótica. frente do que a maior parte das bandas fazem. Conseguem, em Muitas guitarras, barulhos, efeitos sonoros de helicópteros, baixos momentos brilhantes (“Life stinks” e “Laughing”) serem irônicos, martelando, beat tipicamente britânico bombas e coisas do tipo. A poe- acessíveis e ao mesmo tempo brincarem com free-jazz. Antes que a sia da banda nas letras desesperadas de Sudden mesclava-se per- edição fique fora de catálogo, é imprescindível deixar claro: a caixa é feitamente às experiências sonoras de Epic. essencial não tanto por ser importante, mas por ser um tesão mesmo. Robot Factory, a faixa que abre o segundo álbum da banda, de 1980, é um demolidor sonoro. Instrumental com todos os tipos de barulho RPQG - Quase todo o rock atual e desde os anos 70. De Talking possíveis (nos créditos, todos aparecem tocando “brinquedos”). A Heads a Henry Cow. De Guided by Voices a Joy Division (RG) segunda faixa segue um tema menos concreto e mais melodioso, mas o assalto sonoro continua. Apesar disso, há um lado pop claríssimo na DJ Shadow - Endtroducing (Mo´Wax/ffrr) banda (não tocam assim porque tocam mal, mas porque esta é a forma que sentem para expressarem-se), como fica claro na maravi- O livreto que acompanha o álbum é bastante sugestivo. lhosa Secret Island, o que acaba por explicar o status cult que a Agradecimentos aos pioneiros do hip-hop como Grandmaster Flash, banda acabou alcançando. O álbum é recheado de fragmentos de DJ Premier, Pete Rock. Admiração e elogios à cultura do vinil. Bem, músicas, coisas de curtíssima duração e drones enormes em faixas deve ser mais um disco de rap ou coisa parecida, certo? Muito errado. de até 6 minutos, criando uma variedade e uma consistência para um Na verdade, este álbum praticamente representa a ressurreição do álbum que jamais cansa. A versão em CD contém ainda 6 bonus hip-hop, da cultura de rua iniciada no fim da década de 70, início da tracks, tão boas quanto o álbum (destaque para o single Let´s Build a década de 80. Mas não pense em hip-hop como rappers e gangsters. Car, um clássico, e Mining Village, tocada com concreto, máquina de Hip-hop é bem mais profundo que isso, tanto é que não há rappers no escrever e kazoos - nem adianta me perguntar do que se álbum. Tratam-se de colagens, samplers trata). Álbum obrigatório para sua coleção de essenciais do bem sacados, com influências que vão do indie rock. É bastante clara a influência da banda sobre os drone-rock a Björk e jazz. Um disco de um trabalhos iniciais do Sonic Youth, Thinking Fellers, entre out - instrumentista das pick-ups. Segundo ros. alguns, DJ Shadow é uma espécie de DJ Resta complementar comentando a triste morte de Epic virtuoso, pegando qualquer disco que esti- Soundtracks em 1997, presumidamente por suicídio, causa- ver na frente dele e montando músicas a do pela separação com sua namorada. Em futuras oportu- partir daí, na hora. É nesse ideal do-it-your- nidades, comentaremos mais sobre seus álbuns solos, que self que está um forte elemento da cultura seguiram um caminho bem diferente da proposta do Swell hip-hop. O mais interessante é que, apesar Maps. de ser um DJ de San Francisco, a única gravadora que lhe deu uma chance foi a já RPQG: Wire, Sonic Youth, Thinking Fellers Local Union 282, célebre britânica Mo´Wax de James Lavelle Fall, Mekons, Swans (RA) (também conhecido por seu trabalho como U.N.K.L.E.), com outros ótimos artistas em seu catálogo, como o japonês DJ Krush, Pere Ubu - Datapanik In The Year Zero - (Geffen Records) Air, Dr. Octagon e Luke Vibert, um dos Qual o interesse de se falar de álbuns da década de setenta? remixers do Tortoise. Inúmeros. Contar somente com novidades é insuficiente. Mas a razão Em faixas como The Number Song, Shadow se utiliza de batidas principal é o fato de que esta edição dos primeiros, e melhores álbuns jazzísticas em alta rotação, com várias quebradas e mudanças desta banda estarem disponíveis em edição limitada. Quantas pes- durante os seus minutos de duração. Midnight In The Perfect World é
  5. 5. outro destaque, com batidas mais pesadas, mas ainda assim via- jantes. What is Killing Hip-Hop In The 90´s é uma brincadeira com o Euphone - Euphone - (Hefty) mela-cueca do R&B moderno, o que já responde (parcialmente) o títu- lo em questão. The Organ Song é uma criativa colagem de sons de O termo “pós-rock” é uma das coisas mais difíceis de se definir. tudo órgão que acabam criando uma cara e identidade própria, muito dife- virou pós-rock, todo mundo quer ser pós-rock. Na verdade, se há uma rente de um sampler comum, onde este é repetido ad nauseum. Em definição ela é vaga, mas em geral as bandas de pós-rock se apegam momentos como esse, DJ Shadow se aproxima muito mais de uma à mistura de diversos estilos e tendências sob a roupagem mais rock. banda do circuito Chicago/Louisville, coisa que apenas DJ Premier Em geral os estilos mais mesclados são dub, jazz (sem nunca se (Gangstarr) e Rakim conseguiam fazer. Um álbum que certamente parecer com fusion), erudito e música eletrônica, incluindo o techno. marca uma nova era de possibilidades para o hip-hop. Esperem ver Além disto, não há tanto punch, as músicas são mais calmas e há este álbum citado como um dos mais influentes da década em breve. uma grande valorização do conteúdo instrumental sem solos exagera- dos. Ao contrário, a textura e timbre são mais importantes aqui do que RPQG: Tortoise remixes, U.N.K.L.E., DJ Krush, Eric B & Rakim, Folk a habilidade técnica. Entre as melhores bandas de pós-rock, Tortoise, Implosion (em KIDS), Gangstar, Air (RA) Bark Psychosis e UI. Euphone é uma banda nova, ainda obscura, mas com inúmeros méritos. Fazem um pós-rock simples, acessível, de É o Tchan! - É o Tchan do Brasil! (PolyGram) sonoridade fácil e rapidamente assimilável sem cair em lugares- comuns. Todas as faixas são instrumentais, relativamente curtas, sem Mais um trabalho do grupo afropop que vem conquistando cada vez nenhuma enrolação. O que chama atenção é a diversidade e a varia- mais espaços no Brasil e no exterior. E desta vez, eles voltaram com bilidade. Em cada canção o arranjo, o conjunto de instrumentos é dife- várias novidades. Primeiramente, a triste saída da Débora Brasil, que rente, de solo percussão à estranha combinação de órgão-baixo-bate- deve estar agora preparando trabalho solo. Com isso, a banda deu ria, passando pela guitarra solo. A referência mais imediata é Durutti uma virada para a entrada da mineira Scheila, estrela da Playboy de Column, uma vez que o timbre da guitarra, o eco são bem parecidos. fevereiro, onde demonstra todas suas qualidades musicais para felici- Mas Euphone tem maior variabilidade e soa mais espontâneo. O som dade dos fãs do grupo. da banda é calmo e tranquilo, sem cair nos excessos viajantes ou Neste que é o segundo trabalho da esotéricos. O principal defeito do álbum é sua duração reduzida, banda com o nome atual, a banda defeito pequeno perante à qualidade do som. além da tradicional utilização de diversos estilos afro- RPQG: Oval, Neu, Tortoise, Roy Montgomery, Marilyn Decade, Durutti brasileiros (como o axé, a Column (RG) lambada, a dança da bundinha, a dança da Kenny G - Love Will Tear Us Apart (My Love Records/Sony) garrafa, a dança do põe-põe, o pagode e Kenny G é o sétimo na linhagem de uma família tradicionalmente a dança da galinha) musical. Kenny A, além de ser um dos inventores do jazz melódico e resolveu inovar ao emotivo, também inventou Burt Bacharach, Nat King Cole e Peninha. incorporar a antiga Kenny B Profunda, além de fazer uma música rítmica e sensual, foi (mas como disse uma das pessoas que melhor manipulou o sax alto. Kenny G, filho de Carla Perez, Kenny F drogado e prostituído, faz música voltada para o coração, “ainda desconheci- como uma apache, arrebatando o músculo com sua flecha, da”) dança do ven- despedaçando o querido órgão em mil estrelinhas, cada uma tre em seu som. refletindo uma diversa e brilhante influência musical. Seu ecletismo e Com isso, a banda cultura são pontuados com uma rígida noção de seu espaço: o amor, acabou criando o o sentimento, a espera, esta última no consultório do meu dentista. world axé, que é a Neste álbum, Kenny G está no auge da performance, tocando pérolas mistura da world de origens mais diversas como “Love hurts” (Nazareth), “Love bites” music com o axé- (Judas Priest), “Love is a many splendored thing” (This Mortal Coil), pagode, uma deli- “Love me Tender” (Chester), “Love, reign o’er me” (Nelson Ned) e ciosa combinação de “Who do I love?” (Smiths) e composições próprias como “Gimme my elementos rítmicos. Isso love back” e “Come my love” entre outras. Todas em versões adultas, tudo faz deste um disco classificadas com 3X. Hit certo para o inverno que se aproxima, e para irresistível nas pistas de a sua próxima viagem de elevador. dança. Não espere sutilezas nas letras: RPQG: Ray Conniff, Richard Clayderman, Whitesnake, Black Sabbath todas são salpicadas de malandragem (circa “Changes”), Wando, Chico César (RG) e malevolência, como convém a uma música tão contagiante. A voz de Beto Jamaica no hit Ralando o Tchan (Dança do Ventre) pode ser Bedhead - WhatFunLifeWas (TranceSyndicate) comparada como duas poderosas caixas de som no alto de uma ladeira do Pelourinho. Deve-se destacar que a mistura de ritmos é Apesar de hoje em dia ser meio caído gostar de bandas compostas constante e inovadora, como se vê nos detalhes do rock de Rock do por baixo, guitarra e bateria, numa era onde o número de teclados Tchan, na ginga de Dança do Põe-Põe e a bem humorada Mão Boba. esquisitos e baterias eletrônicas conta muito, Bedhead consegue ser Mas eles, apesar dos novos caminhos trilhados, não se esqueceram ao mesmo tempo única no que faz, e agradar aos que procuram de seu passado, já que fizeram um medley de sucessos de sambas coisas mais “modernas”. Originária de Dallas, mas atualmente entre baianos. Este é um álbum essencial para aquelas festas de sábado New York e Austin, possui seu núcleo em dois irmãos (Matt e Bubba regado a muito chopp e alegria. Kadane) responsáveis pela bateria e guitarra, além de Kris Wheat e A positiva influência deste álbum deverá se refletir ainda por muitos Trini Martinez. Estamos aqui falando de seu disco de estréia, o fabu- anos, como se nota pela explosão de bandas conterrâneas que loso WhatFunLifeWas, de 1993. A banda consegue neste álbum se bebem do mesmo rico caldeirão de ritmos musicais que é a Bahia, utilizar de recursos que, normalmente, já são meio batidos, como terra de Caetano, Bethânia e Gil. Aguarda-se agora ansiosamente o drones (passagens repetitivas, como mantras) e build-ups (aquele tipo que a carreira solo de Carla Perez irá nos apresentar. de música que vai crescendo em intensidade durante sua execução). Contudo, isto é feito de uma forma original, já que jogam uma pitada RPQG: Gerasamba, Molejo, Asa de Águia, Kula Shaker, Karametade, de country rock psicodélico (leia-se Gram Parsons, ou até Grupo Raça, Malícia (RA) mesmo David Roback do Mazzy Star) dentro disto tudo. O que acontece é que se enriquece de melodia um tipo de música que normalmente se retém na repetição de 2 ou 3 notas. Além disso, o uso de pedais de efeitos é reduzido a um fuzz ou algo do gênero, o que faz o disco ganhar ainda mais em emotividade, em detrimento de simples efeitos de pedais. Aliás, noise não é algo aplicável ao Bedhead. Vocais sussurrados mas não inaudíveis ou forçosamente bedhead “shoe-gazers” criam um clima bastante melancólico, prati-
  6. 6. camente presente em todas as faixas do álbum. Outro fator importante com-balão-de-hélio típico de Doug. Ouvindo ainda mais o álbum, ele é de ser lembrado é que o álbum (apesar de excelente) ainda perde bem diferente de Alternative Wave Dancers: faixas bem mais curtas, muito em estúdio, pois um show ao vivo do Bedhead é algo absoluta- com o “mamute sonoro” dando lugar a um pop refinado, com pitadas mente mágico, ganhando muito em tensão e carga emotiva. psicodélicas e poesia a là Daniel Johnston, além de revelar um novato Faixas como Haywire são daquelas que literalmente arrepiam e te produtor de mão cheia: Phil Ek. There’s Nothing Wrong With Love deixam de meio atordoados quando chegam no final, sendo a faixa tornou-se um cult do indie pop americano, e meio que referência para mais “nervosa” do álbum, junto a Unfinished e à genial Living Well. boa parte da nova safra, como Bikeride e bandas da Double Agent. The Unpredictable e a linda To The Ground trazem à tona o lado mais Doug também se mostra um guitarrista formado numa geração que texano do álbum, com a leve psicodelia típica da banda. Landlord lem- cresceu ouvindo Sonic Youth, Mudhoney e Dinosaur Jr., o que é bem bra Low, caso este fosse menos minimalista. A banda também flerta diferente da geração anterior, que ouvia heavy metal. O resultado é a com um lado mais etéreo, criando canções de ninar adultas, como é o perfeita combinação de barulhos e melodia, sem exageros e demons- caso de Crushing. trações masturbatórias de solos. Um de meus álbuns favoritos e deve ser ouvido em volume relativa- In The Morning, a faixa que abre este álbum, muda tantas vezes de mente alto, para melhor efeito visual. Infelizmente, a banda terminou ritmo que assusta numa primeira ouvida. Car é pura psicodelia, com este ano, para minha tristeza um belíssimo cello e viagens guitarrísticas ponteando toda a música. Big Dipper é totalmente jangly, com uma historinha simpática sobre RPQG: Low, Telstar Ponies, Yo La Tengo, Mazzy Star, Transona Five, infância e efeitos lisérgicos. Fling é talvez a mais bela faixa do álbum, Codeine, Joy Division (RA) um acústico com uma belíssima instrumentação de cellos em seus parcos dois minutos e meio de duração. Cleo é a que mais se aproxi- ma da primeira formação do BTS, com suas massas de guitarras dis- Built To Spill - There´s Nothing Wrong With Love (Up) sonantes num caldo lento e chapante, assim como Stab. Twin Falls é Um pouquinho de história: havia uma banda em Seattle que, durante totalmente Daniel Johnston, com uma história simples, porém esquisi- a invasão “grunge”(®) do início dos anos 90, meio que ficou à margem ta, de amores perdidos. Até o vocal lembra o mestre. Distopian Dream disto tudo (assim como todo o resto do cast da C/Z Records), que se Girl é um clássico jangly pop, nem dá pra falar muito sobre a faixa. chamava Treepeople. Depois de dois álbuns bastante elogiados, Doug Há uma faixa escondida no CD que eles chamam de “sneak preview Martsch, um deles, sai andando e lança, meio que pra ignorância to the next BTS record” (uma prévia do próximo álbum da banda), que geral de todos, o primeiro álbum do Built To Spill (Alternative Wave trata-se da melhor tiração de sarro do som 89FM/Brasil 2000(©) já Dancers - C/Z) em 1992, um mamute noise-psicodélico, com faixas feito e que vale o CD inteiro e prova como é fácil se tornar o próximo que, na época, soavam como palavrão (com seis, nove minutos). O Matchbox 20(®) ou Third Eye Blind(®). álbum passou batido e, depois de lançar junto com Calvin Johnson o Halo Benders, ele retorna em 1994 com nova formação e um novo RPQG: Unrest, Bikeride, Class, Dinosaur Jr., Halo Benders, Daniel estilo. Johnston, Flaming Lips (RA) Pra quem não conhece, a primeira faixa começa com guitarras limpi- nhas, bem jangly (efeito onde a guitarra é tocada muito rapidamente, Van Halen - Van Halen III (Warner Bros.) normalmente o menos distorcido possível) e o vocal Flaming-Lips- Como o nome sugere, este álbum vem para fechar duas décadas de incontestável talento e, ao mesmo tempo, servir de estopim para o começo da terceira. Nascidos na Holanda, Edward e Alex Van Halen são herdeiros da tradição germânica em produzir virtuoses. Motivados pela excelente herança genética, seus pais treinaram-lhes desde pequenos na arte de tocar piano clássico. O que eles não previram (e a humanidade agradece) foi a mudança para Pasadena, Califórnia. Influenciados pelo ritmo con- tagiante do modo de vida californiano e maravilha- dos com a grandiosidade do rock de arena, deci- dem empregar seus talentos natos em prol da músi- ca pop. Estava nascendo uma parceria singular na historia do rock e um dos maiores virtuoses da gui- tarra desde Kevin Shields. A exatamente 20 anos atras, os irmãos Van Halen, lançaram seu primeiro petardo, “Van Halen”, um dos primeiros trabalhos a introduzir, de um modo acessível, técnicas da músi- ca erudita no universo pop. Hoje, pode-se dizer que a historia do rock está intimamente ligada a história desta banda. Com toda esta bagagem não é de se estranhar que este álbum atrairia toda a atenção da mídia, mas, mesmo sufocado pela expectativa, este trabalho só veio confirmar o talento visionário de Edward, ou Eddie para os fãs. Eddie mostra-se completamente sintonizado com o novo vocalista, Gary Cherone, oriundo de uma banda não tão origi- nal, mas com muito punch e que até já esteve em terras brasilis, o Extreme. Alex também está sober- bo na bateria chegando ao extremo de adaptar sua baqueta para poder tirar timbres de scratch. Alias, a inclusão de timbres diferenciados e a batida sinco- pada mostra aos incrédulos que é possível soar moderno apenas com os velhos instrumentos sagrados do bom e velho rock’n’roll. Uau! É claro que estas novas texturas sonoras apenas vem somar ao turbilhão de referencias que os irmãos, como de costume, despejam de maneira sublime em nossos ouvidos. Nota-se de Bach e Schöenberg (resquícios do seu passado) a estrelas da nova safra como Radiohead e Prodigy. Se o Van Halen manterá sua hegemonia por mais uma década ainda é cedo para prever, mas que começou bem, isso não se pode negar. RPQG: Radiohead, 3a Sinfonia de Henryk Mikolaj Gorecki, Led Zeppelin, Kiss, Prodigy (RL)
  7. 7. Sun City Girls é uma banda única. Daquelas incomparáveis, que você tem dificuldade para descrever. Para começar as coisas estranhas, os girls não contam com mulheres na sua formação. São três marmanjos o Arizona. Na ativa desde 1984, com quase uma dezena álbuns lançados por gravadoras bastante obscuras, e diversas fitas caseiras. Como esperado, quase não conhecidos no Brasil, onde se conhece o que vende. Pelo menos em geral. E como caracterizar o som? Bem, ai complica. Para facilitar, vou traçar um paralelo entre os Girls e uma outra banda que tem algo próximo: os Residents. Não que os sons sejam tão parecidos. Não que eu esteja querendo dizer que a música das duas bandas seja igual, mas algo em comum pode aju- dar a descrever uma música tão complexa. 1. As duas bandas gostam de fazer álbuns temáticos, ou com assunto único. Residents fez o Commercial Album e o Third Reich’n’roll, sobre a música pop. Fez Eskimo. Os Girls fizeram um álbum sobre o pop/hard/blues comercial (Midnight Cowboys from Ipanema), outro sobre música lati- na (Torch of Mystics) e também um sobre música pop oriental (3003 Crossdressers From Beyond the Rig Veda). 2. As duas bandas ironizam a música pop tradicional. Ambas possuem uma visão critica sobre a música que estamos acostumados a ouvir nas rádios. Esta visão crítica e irônica em momento algum é grosseira ou ridícula. Não há infantilidade. Não se trata de “The killer mamonas”, nem nada parecido. Ironia pode ser apenas um espelho. 3. A ironia esta basicamente na percepção da estrutura e na forma da música. Os Girls e os Residents descarregam suas críticas nestes aspectos da música. Distorcem e transformam o pre- visível. Evitam o formato canção-refrãozinho grudento. Quando os refrões surgem, eles sempre pas- sam a impressão de estarem deslocados, mas propositadamente colocados ali para chocar. Da mesma forma, a sonoridade é distorcida, torta mesmo, sem a clareza muitas vezes estupidamente aberta da música tradicional. A transformação força que você entre na música para perceber sua sonoridade, nada é imediato. Só que aí reside uma grande diferença entre as duas bandas. A ironia dos Residents é intelectual, sofisticada e de difícil compreensão. E isto é um defeito. Eles distorcem a música e seu formato até o ponto que você tem que se esforçar para perceber a proposta, para assimilar e gostar. Eles mostram um lado distorcido e sarcástico da música, com covers bem estra- nhas. Sua versão de Satisfaction, dos Stones, beira a perfeição, embora seja constituída mais de neurônios que músculos. Residents é uma banda difícil. Os Girls não, a banda é descontraída. Distorce mantendo o punch e a energia do rock. O formato da música não é tão brutalmente recorta- do como nos Residents. Embora a banda possua momentos jazzísticos ou experimentais, com a introdução de instrumentos bem pouco tradicionais, neste ponto sem ironia, é essa critica descontraída que predomina na maior parte do tempo. Você entende a proposta, e gosta logo na primeira vez que coloca o CD para tocar, embora você seja forçado a participar da música de modo diferente que no pop tradicional, que entra até quando você está desatento. Ao contrário dos Residents, SCG continua sendo rock, que apela para o corpo, para o ritmo, antes de atingir o cérebro. Esta é uma diferença enorme e marcante entre as duas bandas. Mas diferenças não querem dizer supe- rioridade ou inferioridade. Das duas bandas, prefiro ambas. 4. Os Girls muitas vezes utilizam os mesmos vocais em falsete bem estridente, característica muito peculiar dos vocais dos Residents. 5. Um ponto de divergência: os Residents abusam dos recursos eletrônicos. Os Girls em alguns momentos são acústicos, mas na maior parte das vezes utilizam formação tradicional de guitarra/baixo/ bateria. Em outros momen- tos, acrescentam instrumentos apropriados para o tipo de som, como os sinos e outros instrumentos orientais em “3003”. E também improvisam, de um modo quase jazzístico. A impressão que se tem é que os Girls estão se divertindo muito enquanto gravam. Com qual álbum começar? Certamente com o “3003 Crossdressers from Beyond the Rig Veda” (Abduction Records, 1995). Neste álbum os Girls ironizam não o espirito e a filosofia oriental. Aliás nem precisa. Estamos todos cansados desta ilusão da década de 60 de que o misticismo ori- ental seria a salvação do mundo. E que os orientais seriam sempre pessoas sábias e viajantes. Como se o Tibete fosse a capital do mundo; puro preconceito e desinformação. E reducionismo: cul- tura oriental é muito mais rica e diversa que isso. E às vezes mais cruel. Os Girls ironizam as canções pop orientais, ouvidas em radio. Em “Soi Cowboy”, as letras são incompreensíveis.
  8. 8. Aparentemente, os Girls não cantam em língua nenhuma, inventando sons, e o rock bem marcado e simples dá o tom de diver- são. É um disco belo e divertido, com muito punch. Em todo o álbum algum clima de estranhamento e desconforto acontece. Nas guitarras esquisitas, no vocal indiscretamente estranho, nos arranjos mais complexos. Mas é este estranhamento, este certo desafio que agrada. Compreender o som do álbum requer atenção. Não basta ouvirmos ao mesmo tempo que falamos ao tele- fone. “Torch of the mystics” (Abduction Records, 1991) também é uma boa escolha, mas ele pode parecer um pouco mais estranho a principio. Eles tocam lambada, distorcendo o ritmo de uma forma brilhante. Também um grande álbum, com uma bela capa e encartes. Os primeiros álbuns são de assimilação mais difícil. Há momentos jazzísticos, de improvisação, e uma audição mais atenta e cuidadosa é necessária para melhor apreciação. Alguns destes momentos persistem nos álbuns mais recentes, porém de um modo melhor trabalhado e com recursos musicais bem superiores. Os últimos CDs são mais fáceis e espontâneos sem perder o punch e a vitalidade originais. Os Girls são daquelas bandas que... bem, chega. O negócio é ouvir e curtir essa banda, que por sinal não é mais conhecida talvez porque sua ironia seja madura o suficiente para ser indesejada. A comédia acrítica, pastelão agrada enquanto reforça. A comédia crítica alfineta e pode incomodar. E além disso, nem sempre é fácil aceitar algo novo e inesperado. Às vezes é preciso cora- gem para podemos gostar do diferente. Neste caso então é melhor ficar com a nossa velha parada de sucessos. A melhor razão para gostarmos de um hit é o tanto que já vendeu... Unanimidade, meu amigo! BANDAS AFINS: Residents, e provavelmente tudo de pop/rock que você possa imaginar, desde que distorcido e ironiza- do. Em particular God is My Co-Pilot, Zip Code Rapists.
  9. 9. A rede mundial se tornou o grande hype da mídia nos últimos anos e de certa forma, muito disto é justi- ficável. Mas, talvez uma das maiores vantagens acabou surgindo para nós, pessoas isoladas culturalmente da música de qualidade produzida pelo mundo afora. Vejo como nossa principal vantagem em relação à Internet, a possibilidade de efetivamente procurarmos o nosso nicho de gostos e preferências. Considerando o estado massificante e acachapante dos meios de comunicação brasileiros, cada vez menores espaços para as variações e diferenças de gosto serão permitidas. Resta a rede, que facilitou não somente a possibilidade de contato com pes- soas do mundo inteiro, mas até mesmo dentro de uma mesma cidade (o que é, inclusive, o caso do Conselho Editorial deste zine), pelos gostos e estilos que possuem. Isso sem contar com a moleza da aquisição de material antes caríssimo, quando vinha pra cá. Então esta coluna pretende dar algumas dicas de sites interessantes para o que achamos inte- ressante. Isso significa que nem sempre sites bonitinhos serão escalados. O conteúdo é o que manda por aqui. E conteúdo é o que não falta no site da Matador Records (http://www.matador.recs.com), de longe, o melhor site de gravadora atualmente no ar. E há uma história por trás disso, que começa há muito tempo atrás. Gerard Cosloy, um dos sócios da gravadora junto com Chris Lombardi, era o editor de um dos zines mais importantes e mais cultuados dos anos 80, o Conflict. Esse zine era caracterizado pela acidez, ironia e finesse com que tratava todos os assuntos. Chagavam ao ponto de criarem cartas falsas (com endereços existentes!) pra montar seções, mas era extremamente confiável quanto a suas resenhas. O tempo passou, o zine acabou, ele montou a Matador e chegamos ao site, que mantém muito deste estilo. A boa sacada do site é que ele possui as resenhas mais sarcásticas e engraçadas que exis- tem (o que por si só já é corajoso, dentro de uma empresa), além de algumas surpresas. Todo ano, a gravadora lança “campanhas institucionais” no site - uma bruta tirada de sarro no marketing moderno - e entre elas estão o ridículo “Stay´n´school”, onde a Matador e seu cast recomendam às crianças ficarem na escola, enquanto aprendem com vários materiais “educativos” (com muita propaganda da Matador, claro), e a campanha pró-armamento do Detetive Paully (troque suas armas por outras menores, para redução da violência). Agora, nenhum destes artigos bate o ácido Stop The Vote, uma tiração de sarro em cima do mais que babaca projeto da MTV americana para eleger os democratas, o Rock the Vote. Nestas série de páginas, a Matador convida todos a registrarem-se para não votar nas eleições. Uma das melhores piadas é uma foto do fuzilado Tupac Shakur dizendo “Este ano não voto de JEITO NENHUM!!!”. Também alegam que muitas pessoas bonitas e de sucesso, como alguns dos Kennedys, não votam. E, caso você tenha que votar, por que não em candidatos patrocinados como Papai Smurf, Caco e Gonzo e o Jack, do Jack´n´the Box (fotos disponíveis no site)? Há também o newsletter ¡Escandalo! (que eles fazem questão de dizer que não é um zine, o que bastante ético, já que é uma peça comercial com o estilo de um zine, prato cheio pra marqueteiro fazer pose de “cool”), com várias matérias interes- santes (não deixem de ler That´s Edutainment, uma crítica ao comercialismo da edu- cação, Worst Of The Web -o pior da Web - e Matador Lite, onde comparam bandas “originais” e suas ver- sões “Lite”) e entrevistas com bandas não necessariamente da Matador. O site ainda oferece boas informações sobre as bandas do selo e vários links de fãs. Terrível mesmo só a parte comercial do site (eficiente na tela, mas um tanto confusa na hora de mandar material para o Brasil e agora dependente da CD Now), mas que vale a pena, pelo menos para ganhar um colante “Yo La Tengo For President” ou algo do Guided By Voices. Essa é a dica de site deste mês, e com certeza você vai perder muito tempo dentro dele. Na próxima edição, falarei sobre o Stay Free!, que de certa forma tem a ver com este site.
  10. 10. O que faz uma banda ou uma cena serem mar- Mas na primeira metade da década a principal e mais marcante cantes? Uma questão de percepção simples. Muitas boas bandas mudança vem de Louisville, Kentucky. Slint. Banda formada por ex- fazem um som convencional, já um pouco batido. Bem, se alguém faz membros de uma banda de hardcore, Squirrel Bait, e que foi progres- competentemente um som da mesma forma que os Beatles, esta sivamente se dissolvendo em outras bandas como Bastro, Rodan e, banda soará desgastada, sem nada de novo. Ocasionalmente você a posteriormente, em bandas com tendências as mais diversas: pop chamará de vazia, embora competente e divertida. São bandas de (King Kong), pós-rock Tortoise, experimental/minimalista (Gastr del pouca expressão. Uma banda ou cena marcante são aquelas que Sol), instrumental (Aerial M), rock (June of ‘44, Retsin), elementos de trazem algo de novo no conteúdo, ou, principalmente, quando con- erudito (Rachel’s) e assim por diante. seguem se expressar de forma diferente. Não necessariamente exper- Talvez Slint não seja minha banda predileta do período, nem a que imental e árdua, mas certamente diferente e por isto mesmo estranha mais ouço. Mas é a mais marcante. A que mais mudou o cenário num primeiro contato. É esta transgressão, ou evolução, que fazem da musical. Não foi Nirvana. Nevermind é um bom álbum, mas como música, inclusive a pop, um instrumento, arte, mais do que uma sim- expressão não é muito diferente do rock que se fazia nos anos 80. ples diversão. Poucas variações. Já Slint traz estas mudanças. Num único álbum, O que foram os anos 80, ou sua segunda metade? Em primeiro lugar, Spiderland, de 1991, Slint fez mais que o bastante. O som traz diver- é preciso enfatizar um pouco a queda do rock inglês. Muita coisa boa sas coisas novas, e outras recicladas numa nova forma, como aquela se produziu e ainda se produz na Inglaterra, mas em especial na área construção de canção que parece circular, geométrica, a exemplo de eletrônica e dance. O pop inglês, embora de qualidade, passou a se King Crimson (“math-rock”). Mas Slint está longe de Robert Fripp. importar mais com a aparência e postura do que com a música. Todo Com Slint, de certa forma há uma volta a músicas longas, com um o pop inglês é divertido e bem feito, sem a menor dúvida. Mas como grande destaque ao setor instrumental. Mas sem solos, sem exibi- expressão, repete bandas e cenas anteriores com evoluções peque- cionismos do rock progressivo. Ao contrário, as guitarras são ásperas, nas. Já no meio da década de 80, Big Black, Pixies e Sonic Youth e o som está mais próximo de Big Black do que de Genesis. A grande mostraram que a evolução maior no pop e rock estaria em terreno e mais fundamental diferença está no modo de se trabalhar o instru- americano. Os yankees começaram a ficar mais criativos e ousados, mental. Antecipando um pouco o que virá a ser incorporado no ainda procurando quebrar o excelente ciclo britânico de dez anos, que, vago “pós-rock”, Slint trabalha climas e ambientes. Modula tensões e naquele momento, já começava a se repetir e pouca coisa nova trazia, sensações com pausas em momentos precisos, alternados com diver- apesar da insistente histeria dos tablóides, colocando Stone Roses sos ambientes criados, entre eles momentos pesados. Em outros tre- como uma das bandas mais chos, a guitarra lenta, sombria é acompanhada de um vocal sussurra- importantes na evolução do pop. do, quase imperceptível. Climas e sensações, descrições. Emoções Stone Roses, e boa parte do brit- bem construídas, com sensação de espaço bem ocupado. Slint, sem pop, repetem fórmulas con- nenhuma complicação ou intelectualização faz um som acessível e sagradas. Sua luta maior, como já inteligente. E são estas mudanças, esta abertura do rock/pop para dito, é no vestuário, na forma de algo mais descritivo e trabalhado, mas mantendo-se o formato pop e o se colocar numa entrevista, no punch de bandas bem barulhentas como Big Black é que fazem esta clip, na mídia britânica. banda ser um marco importante no início desta década. O álbum Musicalmente competentes, mas contém somente seis músicas, mas é homogêneo, segue uma sem a ousadia das bandas ameri- lógica e parece ter sido todo pensado, bem construído. canas que surgiam. Sim, o DIY, A cena Louisville, como já dito, não se resumiu à sonoridade do essência da mudança nos anos Slint. Vide Rachel’s, Gastr del Sol, 70, estava gasta e sem alternativa Palace, Smog, Sonora Pine, etc. na Inglaterra, e renascia de forma Mas Slint se comportou ao con- distinta do outro lado do mar. trário, a própria banda encerrou o Os anos 90, ao contrário do que sempre diz seu trabalho por aí, e o EP de 95 a crítica séria, são ricos e diversos. Do rock contém canções compostas e ao eletrônico, do folk ao pop, cenas fragmen- gravadas na época do Spiderland. tadas e bem setorizadas são de grande valor Cada membro da banda seguiu e qualidade, embora transgressão maior, seu caminho, procurando não como anos 60 e movimento punk, não ocor- repetir o Slint, mas levando esta reram e nem se esperava que ocorressem. idéia de espaço para diversas As mudanças não ocorrem primariamente no sonoridades, ampliando a lin- mundo da música, mas nas mentalidades. guagem do pop. Os anos 90 deste ângulo foram e estão Óbvio. Muita gente gostou de sendo um pouco apáticos. Mas só um pouco. Observando com maior Slint. E o que fizeram? Alguns entenderam o recado. Outros, ao invés atenção, todas as iniciativas são individuais, ou em pequenos grupos. de aproveitar a idéia do espaço e modulação, procuraram repetir o Dificilmente uma banda terá impacto de Beatles, a sociedade já não som de Slint, como uma família. E o que isto gerou? Esgotamento. tem uma linguagem comum. Ao contrário, quando uma boa banda que Repetição. Cansaço. Boas bandas, como Rex, June of ‘44 e A Minor você gosta começa a aparecer demais, toca em todas as rádios e TVs Forest possuem identidade própria. Mas após um certo tempo e até aquele seu colega nerd conhece, você passa a olhar a banda acabaram se tornando repetitivas. Outras são meros clones, e trans- com desconfiança. Porque será? formaram a perspectiva Slint em acomodação. Linguagem morta. Nos anos 90 as mudanças musicais são fragmentadas, moleculares, É por isto que logo algo seria necessário para que não houvesse uma dentro de pequenos universos. O pop perfeito e simples está pre- estagnação. Bem, mudanças podem ocorrer em grandes saltos, mas sente, sendo lançado por pequenas gravadoras, vide Apples in Stereo com maior freqüência ocorrem lentamente, quase que de forma imper- e Holiday. TFUL 282 é a banda mais diversa e ousada da década, ceptível. Na maioria das vezes, diversas bandas vão somando embora inacessível em alguns momentos. O LoFi, gravações caseiras mudanças até que alguma faz uma espécie de síntese e aí surge o de má qualidade técnica, reinou de 87 a 95, com lançamento de impacto. dezenas de bandas que de outra forma talvez não conseguiriam O que discutiremos na próxima edição é a segunda metade da déca- gravar. O LoFi foi moda, e, de certa forma, chegou ao desgaste. Entre da, o que estamos vivendo agora. Enfim, muito do que está aconte- as boas bandas, Sebadoh, Mountain Goats, Smog, Strapping cendo, em especial o pós-rock, guarda alguma relação com Louisville, Fieldhands, Palace, Grifters, Guided by Voices. Stereolab é outra mesmo que de forma bem indireta. banda marcante no período, assim como Trumans Water, P.J.Harvey, God is My Co-Pilot e tantas outras que injustamente não serão Álbuns recomendados: citadas. Pavement foi uma das bandas mais importantes do período, com um Slint - Spiderland (Touch & Go) grande, imenso mérito. Conseguiu trazer uma forma nova de Bastro - Diablo Guapo (Homestead) expressão de modo claro o suficiente para ser compreendido por um Rachel’s - Handwriting (Quarterstick) público maior. Este tipo de banda, que consegue conciliar uma lin- The For Carnation - Marshmallows (Matador) guagem nova e inteligente com o grande público é talvez o tipo de Rodan - Rusty (Quarterstick) banda mais importante que temos. Não adianta, no meu modo de ver, June of ‘44 - Tropics and Meridiens (Quarterstick) uma nova linguagem que permanece restrita. Além disto, me impres- Palace Brothers - Days of the Wake (Drag City) siona a postura da banda: o melhor é vê-la após anos de estrada, não Smog - Julius Caesar (Drag City) fazendo pose para mídia, mantendo sua coerência.
  11. 11. xada por esses artistas apaixonados sobrevive até hoje através de seus filhotes: Paulo Ricardo, Herbert Viana e, é claro, Perry Farrell, Dance Of The Celts - que presta uma merecida homenagem aos seus mentores no clip (Narada) Pets. O hábito de cobrir o rosto em apresentações é imitado por mem- Você conhece John bros da banda paulistana Pavilhão 9 num rasgo de tietagem explícita. Constantine, o personagem Longa vida à memória dos Patos!! Que as próximas gerações saibam mais sem-vergonha do univer- reconhecer a sua importância. so de quadrinhos Vertigo (uma Frases : “Somos mais famosos que o Pato Donald...”(Patinho Número divisão mais adulta da DC 2, em uma declaração polêmica, que gerou protestos da Igreja e Comics)? Bem, esse álbum é a demais instituições conservadoras); “Avoz nunca é aguda trilha sonora ideal para acom - demais”.(Patinho Número 1); “Quá, quá !!!”(todos) panhar o anti-herói em suas investidas irlandesas. Também RPQG: Chico César, Planet Hemp, Pavilhão 9, Banana Split (RV) é uma ótima música de fundo para tomar todas, para brigar, Ravi Shankar - Chants Of India (Angel) confraternizar com aquele amigo que você não via fazia tempo e dançar sozinho no seu apartamento. Primeiro, a necessidade de algumas confabulações sobre a música Começo ridículo para uma crítica séria? Bem, a tradição celta ao qual étnica . Ouvir um CD de canções folclóricas ou tradicionais de um país as quinze bandas dessa coletânea pertencem com certeza não dá a pode ser comparado, em muitos sentidos, a assistir a uma aula de mínima para a sua seriedade. Por isso, é bom não tentar encará-las ciências humanas . O professor (músico) e a matéria (música) podem desse jeito...ou de qualquer outro. Apesar do compromisso em difundir ser extremamente agradáveis e interessantes, podem tornar a com- a cultura saxônica através dessa iniciativa musical, Dance of the Celts preensão (audição) algo extremamente acessível e encorajador, para é executada de maneira fleumática e descontraída. Não é New Age. É que todos os alunos procurem, cada vez mais, informações sobre o Old Age. Ouça no acampamento, bêbado, e troque uma idéia com o assunto e referências sobre sua aplicação na música cultural contem- leprechal mais próximo. porânea (entenda-se aqui, influência musical sobre artistas diversos). Da mesma forma, tudo pode ser RPQG: Pogues, Mark Lanegan, Pogues (RV) um grande pé no saco. Chants of India, de Ravi Shankar, é composto de diversos elementos Lambchop - Thriller - (Merge) que acabam enquadrando-o na Está bom. Nashville, country, isto tudo é coisa chata. Lambchop é de categoria de “ótima aula; professor Nashville, gosta de country, mas não é. É uma banda folk, como tarimbado”. É um disco leve, sem Leonard Cohen, Nick Drake, Palace e tantos outros. Uma marca da solos de cítara de vinte e cinco banda é o arranjo, uma vez que a banda sempre toca junto como uma minutos, que apresenta textos gangue, uma mini-orquestra, assim como Tindersticks. E, assim como sagrados dos Vedas, Upanishas e os ingleses, faz um som melódico, depressivo, quase sombrio, bem ao outras escrituras sagradas, canta- gosto de “Five Leaves Left”, do Nick Drake. O álbum de 1995, “How I dos e musicados por pessoas que Quit Smoking” muito provavelmente estará entre os melhores da déca- conhecem bem o ouvido ocidental, da, por misturar este estilo folk de Drake com algo um pouco mais mas que têm vínculos suficiente - rural, muita slide guitar, sem em momento algum ser countrymente mente fortes com a tradição hindu pífio. Mas a banda não para por aí. Kurt Wagner, o mastermind da para não comprometer a qualidade musical em nome de uma criação banda pretende algo mais pop, dá uma guinada no som da banda. “mais comercial”. Assim, optou-se conscientemente por uma obra Boa parte das faixas deste álbum foi composta por F.M. Cornog, do didática e profunda, uma excelente porta de entrada para quem quer East River Pipe, que faz um pop simples, quase lofi, bem melódico e conhecer mais sobre a fonte onde tantas bandas de pop andam com letras bastante depressivas. Aliás, as canções de Cornog matando a sede, sem cair na armadilha da New Age e sem abandonar ganham uma roupagem diferente, bem mais rica com Lambchop e é a audição antes do fim por estranhamento. interessante comparar com a pálida simplicidade do East River Pipe. Ravi Shankar é velho conhecido dos Beatles e do seu público. A pro- Na verdade, Lambchop é a mais britânica das bandas folk ameri- dução e co-autoria do álbum fica creditada a George Harrison . No canas. A diferença é que no novo álbum tende o som a uma leveza encarte, os “mantras” e orações (há também composições poéticas do maior, maior variedade rítmica, menos baladas e canções com clima próprio músico) aparecem escritas em sânscrito, em caracteres oci- sombrio. A banda se afasta de Nick Drake e se aproxima de um pop dentais sem tradução e em inglês. Todas as letras são comentadas e simples, perfeito, embora mais complexo que bandas de som redondi- em algumas há também interpretação de significado. nho como Holiday e Magnetic Fields. Embora Thriller não seja um As gravações ocorreram em Madras (Índia) e Londres. Nas músicas, álbum inovador ou genial, é um excelente álbum, e uma guinada uma base orquestrada serve de pano de fundo melódico para as inteligente no som da banda. veenas, tablas, e o corpo que recita os versos e os canta . O resultado varia entre a melancolia (“Prabhujee”), o lirismo (“Omkaaraaya RPQG: Palace, Nick Drake, East River Pipe (RG) Namaha”) e o fervor (“Vandanaa Traye”). No mínimo, uma aquisição enriquecedora. Os Três Patinhos - Vamos Brincar Criançada (CBS) RPQG: Ustad Usman Khan, Beatles (fase 66-67), George Harrison, Muito se falou sobre esses três incríveis objetores de consciência, Cornershop (RV) mas muito pouco do que se disse ou se escreveu estava realmente à altura de sua música, um power pop com influências psicodélicas cujo DITADURA ERA IMPLACÁVEL resultado era sempre surpreendentemente visceral. Os Três Patinhos praticavam música honesta e criativa ainda na época do governo Figueiredo. Por sua atitude extremamente contesta- dora e pela acidez de suas letras, foram implacavelmente perseguidos pelos porcos opressores, sendo obrigados a esconder seus rostos por detrás de máscaras confeccionadas pelo estilista e cabeleireiro Chalita (o Steve Martin tupiniquim, que hoje trabalha no Jô Soares Onze e Meia como esteticista). Vocais esganiçados, distorcidos e agudos (muito, muito agudos) desfilavam um cardápio musical variado, que ia de “Mamãe Eu Quero“ a “Um Bom Menino”, versões de clássicos do cancioneiro popu- lar executadas com a competência e seriedade de sempre, marca registrada da banda. A influência musical e a lição de vida dei- PATINHOS VIVIAM DISFARÇADOS
  12. 12. 10. Pete Townsend - Face the Face 9. Lou Reed - I Love You Suzanne 8. Paul McCartney - Say Say Say 7. R.E.M. - Shiny Happy People 6. The Ramones - Pet Cemetery 5. Nirvana - Come As You Are 4. Paul Westerberg - Waiting For Somebody 3. David Bowie - Let´s Dance 2. Smashing Pumpkins - tudo desde Disarm 1. Sting - morto desde Every Breath You Take (inclusive) 1.E.A.R. - Mesmerizing 2.E.A.R. - Hipnotizing 3.E.A.R. - Travelling 4.E.A.R. - Flying 5.E.A.R. - Vaporising 6.E.A.R. - Boiling 7.E.A.R. - Enterprising 8.E.A.R. - Terrifying 9.E.A.R. - Drowning (by numbers) 10. Trilha sonora de qualquer filme iraniano

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