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Primeiro número do espetacular Rosebud Pop Media. Entrevistas emocionantes com críticos de música, criticando sua própria crítica. http://www.oerratico.com

Primeiro número do espetacular Rosebud Pop Media. Entrevistas emocionantes com críticos de música, criticando sua própria crítica. http://www.oerratico.com

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  • 1. EDITORIAIS Rosebud Pop Media é uma publicação sem qualquer periodici- LOUCOS MAS FELIZES dade, mas tentaremos fazê-lo semestralmente. Sempre me pareceu absolutamente normal pensar na músi- Quem fez: ca como um elemento importantíssimo para a manutenção Renato Grimbaum - Sun City Girls, Década de 90, Críticos de quase todas as atividades humanas que envolvessem um certo teor de inspiração e autenticidade (por conseqüência, a Ricardo Amaral - Internet, Gravadoras, Sebadoh,Críticos música deveria ser sempre autêntica e inspirada, é claro). Rodrigo Villalba - algo aqui e lá... Não só na minha vida, mas na de todo mundo, em todas as sociedades, em todas as épocas, nas garagens, clubes e Quem ajudou: carros; a música sempre estava lá, ajudando as pessoas a colocar os pensamentos em ordem, dando coragem aos Rodrigo Lucianetti amantes amedrontados, aos soldados confusos, inflamando discursos de intelectuais e revolucionários, influenciando email: rosebudpopmedia@zipmail.com.br decisões de todo tipo. Em breve: homepage. Aguardem. Minha idéia a respeito da importância da música nunca esbarrou na visão obtusa que teima em perceber a arte ape- Rua João de Lery 117 nas como entretenimento, um passatempo. Lembro-me da Jd. Aeroporto - São Paulo/SP primeira vez que ouvi “so, central rain”, do R.E.M., e me CEP 04653-030 emocionei, assim como lembro-me de outras centenas de vezes pessoais demais, piegas demais para colocar num texto, em que determinadas melodias ditaram o ritmo e a forma de viver a minha vida. Na verdade, eu preferiria acre- CRÉDITO A QUEM MERECE ditar que toda essa pieguice, todo essa “trilha sonora perma- nente” com a qual fiz questão de rechear grande parte dos vinte e dois, serviram ao menos para ajudar na formação de Pra que um zine? Essa talvez é a pergunta número um que deve um cara um pouco menos alienado. Um pouco mais sensí- vir à cabeça de alguns de vocês e particularmente à minha. A vel, talvez. O problema todo veio à tona, no entanto, quando resposta até que é simples: porque é necessário. Minha intenção comecei a desconfiar que toda essa sensibilidade e con- sempre foi informar as pessoas do que acontece e infelizmente, sciência crítica seriam apenas sintomas de um grande dese- quilíbrio mental... nenhum canal conhecido por aqui permite ou faz algo do gênero. Explico. Lendo revistas especializadas nacionais, ouvindo os Mesmo canais ditos alternativos no Brasil são mais maquiagem últimos “lançamentos” das rádios brasileiras e assistindo à do que qualquer outra coisa. televisão descobri que o conceito de música como instru- Existem duas origens para esse desejo de colocar esse novo mento transformador e enriquecedor da realidade humana canal no ar. O primeiro surgiu depois de alguns anos. Como estava totalmente ultrapassado, se é que um dia tinha vinga- nunca fui muito fã da modinha ou de axé/pagodinho/country do realmente. Zanzando pelos bares da vida, encontrei três dance, não foram poucas as vezes que ouvia a seguinte frase: camaradas (Ricardo, Renato e Lucianetti) que pareciam tam- bém deveras transtornados. “Você é muito radical!”, “Você é muito limitado!”. Confesso que “Por que as grandes gravadoras amam o Brasil?”, pergunta- por um momento (ou uns anos), até acreditava nisso, que deve- va um. “Será que há espaço para a ironia inteligente num ria “abrir mais minha cabeça” e ouvir de tudo. Só que notei que cenário musical tão grande?”, questionava outro. “Ninguém quem estava errado não era eu: afinal, eu ouvia de tudo e não se incomoda com tanta mediocridade latente, tanta me limitava a ouvir somente o que as rádios (e por trás delas, as repetição, sendo que há uma porção de coisas boas apare- gravadoras) jogavam. Todos nós do Rosebud ouvimos de música cendo e se perdendo na obscuridade?”, indagava um ter- clássica a hardcore, mas primamos acima de tudo por duas ceiro (coitado) totalmente desgostoso. coisas: qualidade e inteligência. E isso efetivamente não está nas Reunimo-nos algumas vezes mais, tentando aliciar críticos musicais da grande imprensa, DJ´s e celebridades do meio rádios. para uma conversa séria, sem resultados. Parávamos pes- A segunda origem foi ao descobrir os verdadeiros zines. soas na rua e berrávamos: “Você não vê o que está aconte- Confesso que zine para mim lembrava “coisa mal feita”, “trabalho cendo?!? Eles não querem que a gente pense!!!”. Algumas de fã-clube” e panfleto político. Mas ao passar a ler coisas como riam, outras gritavam ainda mais e havia aquelas que não Poptopia, Popwatch, Bucketfull of Brains, Beer Frame, No diziam nada pois o volume de seus walkmans não permitiam Depression, Sound Collector, Pop Culture Press, The Bob, que ouvissem nada além de Shakira e Whitesnake nas FMs Magnet e duas clássicas: Ptoleimac Terrascope e Wire, notei que sintonizadas. Abatidos, voltamos ao circuito de bares da cidade e, após a função do zine era muito mais importante do que acreditava. uma noite regada a cervejas e divagações, formulamos a Mas dois zines em particular foram os que me motivaram mais: nossa teoria conspiratória: um grupo nefasto de “extrater- Escargot, da Kathleen Billus e Jeanne McKinney e Stay Free!, da restres” infiltrados em todos os segmentos da mídia planeja- Carrie McLaren. É para elas que dedico este zine. va imbecilizar a população terrestre, minimizando ao máximo os efeitos positivos causados pela boa música. E o pior é Ricardo Amaral que eles estavam conseguindo!!! Bem, aqui estamos. Bem vindos(as) à leitura do Rosebud. Brincadeiras à parte, sei que nem sempre nossas obser- vações e comentários serão uma unanimidade mas assim mesmo resta a certeza de que todos concordamos em dois pontos: 1- Alguns caras que tocam guitarras e cantam ajudam as engrenagens da nossa cabeça e do coração a funcionar Bizarre - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (220 7933) melhor e; Velvet - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (221 8947) 2- Um pouco da nossa atenção e interesse a respeito das Parasol - http://www.parasol.com coisas que tornam essas pessoas tão especiais para nós e Vinyl Ink - http://www.vinylink.com para o mundo (mesmo que quase ninguém se dê conta) é o Forced Exposure - http://www.forcedexposure.com mínimo que podíamos fazer. Rodrigo Villalba CDNow - http://www.cdnow.com CDUniverse - http://www.cduniverse.com ou em alguma Saraiva MegaStore (que surpreende às vezes)
  • 2. NASCE UM NOVO TEMPO ca, desde a década de 60: Beatles, Who, Yes, Pink Floyd, Black Sabbath, Whitesnake, Queen, Motorhead, Sex Pistols, Joy Porque Rosebud? Responderei no final, mas adianto o quan- Division, Echo & the Bunnymen, Oasis, Kula Shaker e Guided by to é difícil descrever tal missão em tão curtas palavras. Mas Voices. São inúmeros os exemplos. Mas todas devem algo a cumpre-nos o dever de tentar. Rosebud existe para informar. Stone Roses. Eu a chamaria de banda aranha, que consegue Para ser crítico. Para integrar, disseminar cultura. juntar em sua teia as mais diversas influências, e ao mesmo Pretendemos ao longo do tempo instruir, mostrar o que é tempo tributear-las em um som ao mesmo tempo diverso e importante musicalmente. Isto é ser crítico, e inteligente. único. O seu pop é o t empo todo inédito, embora cheio destas Mostrar aspectos ocultos dos grandes mestres do indie pop, referências. A banda tem um punch, uma vibração que progrediu aspectos que talvez você nem imaginava que existissem. durante os anos 90 como terremotos secundários. Tudo o que Mais importante que descrições, vamos mais à frente, à práti- se fez na década de 90 reverenciou os Roses. O que fizeram no ca com pequenos exemplos - as bandas mais importantes de primeiro álbum foi estonteante. Eles nem precisavam ter gravado rock dos últimos anos segundo toda a crítica mundial (Falarei o segundo disco. E uma vez gravado, não deveriam ter lançado, de techno e hip hop no próximo número - aguardem!). Estes mas tudo bem. Quem provocou o vagalhão que eles provo- pequenos mas expressivos exemplos são feitos para que caram, tem seu desconto. você entenda. E não só isto, para que melhor enxergue a Esta banda tem três características (4AD, posição da crítica e do seu novo expoente, este zine. É Cleopatra, Hyperion) que a coloca no nosso topo. Em primeiro óbvio, você vai ficar com raiva quando eu falar mal da sua lugar, o etéreo, a viagem constante e o conhecimento supremo. banda predileta. Azar. Para nós, críticos especializados, o É uma banda culta, com raízes em música medieval, árabe, ori- gosto pouco importa. Você é que deve se adaptar aos con- ental, africana, gótica e semiótica. Com tanta cultura, seu cantar ceitos mais atuais, e não nós a você. Você é quem deve é nosso prazer, conhecimento. Em segundo lugar, ela é perfeita saber o que é a dificuldade do pensamento de Nietzche, de tecnicamente. Com som claro, bem produzido, sem um só arran- Adorno. Do pós-moderno. E porque você deve se adaptar? hão. A minha vontade é a de mandar o mundo se calar para Por questão de formação. Porque se estuda? Em geral, a ouvir DCD. Em último lugar, a banda expressa o mais verdadeiro maioria dos críticos faz parte de uma classe organizada, edu- sentimento humano: a tristeza, a depressão. A lamúria, o canto cada, estudada. Muitos de nós temos boas referências e triste. As noites silentes, a vagar pela noite calada, com a músi- antecedentes, pós-graduação na França em onanologia. ca na cabeça até que a pilha do walkman se acabe. Somente os Afinal, somos pagos para passar horas em casa fazendo o ingleses têm esta capacidade, a de trazer a dor profunda para quê? E se tudo isto fosse pouco, algo me dá sustento. O que fora, o sofrimento para a claridade, onde podemos, mais que falo não é diferente do que escrevem a Rolling Stone e o resolvê-los, senti-los em toda a sua profundidade. NME. Porque questionar? O que falamos está embasado. O Aos vivos. Das maiores pro- que nos falta, talvez, é uma linguagem única, um modo de fundidades. Um CD de grandes talentos. classificar similar. Embora de forma não totalmente dis- Mas nada lentos. Poéticos. Pô: éticos! cutida, o grupo de críticos tem parâmetros bem rígidos Junto com Cuscuz clã, CC traz a mais bela para avaliação dos CDs que você um dia irá ouvir. perspectiva de uma fusão inteligente entre Estes quesitos são: 1. Bandas que influenciaram; 2. a MPB e o pop, embora ele ainda não Presença de ritmos exóticos e samplers; 3. Postura tenha feito pop. O regionalismo ao seu do líder; 3. Profundidade do intróito filosófico; 4. mais extremo valor. Neste misto de cul- Relações epistemológicas com o paradigma da esco- turas, fico imaginando nosso pequeno la musical e atemporalidade; 5. Tema; 6. Guimarães Rosa cantando covers de Composição; 7. Evolução; 8. Harmonia; 9. Enredo. pop. Seria delicioso ouvi-lo cantando Enfim, chega de conversa. Vamos à exposição clara Stone Roses: “I wanna be adored”. Chico e simplista das bandas abordadas. Ocasionalmente, César é aquilo que o Brasil precisa: caris- se você ficar irritado com as opiniões, escreva para o ma e poesia. Vamos reviver Caetano, Gil, editor. É importante que você saiba o quanto é impor- a tropicália. CC traz para todos nós os tante é a polêmica. Ela é mais rica que a informação. É bons tempos de volta, a lambreta e a sensi- a polêmica que faz o meio, que garante empregos e ven- bilidade. Seus efeitos poéticos trazem mais das. Portanto, escreva! percepção que Paulo Coelho. E sua musicalidade Nirvana trouxe duas coisas importantes para a inédita só nos fazem lembrar nossos grandes ícones, nossas cena indie. Em primeiro lugar, popularizou a cena indie. Isto estrelas. Brasil, terra eterna da musicalidade. é importante. Nós não estaríamos hoje ouvindo bandas como Outra banda britânica excelente. E traz de volta algo TFUL, Guided by Voices se não houvesse Nirvana. Sua importante: banda de referência única, Wire. Lembra-se? entrada para a Geffen, sua veiculação pela MTV foi como um Monkeys? Eram os novos Beatles. Bad Religion? Os novos trabalho de conversão e conscientização: milhões de pes- Buzzcocks. Rancid? O novo Clash. Elastica é como a chama soas passaram a entender o espírito indie, a questionar a olímpica, que por gerações leva a mensagem original, preserva- indústria fonográfica e todo o poder no seu dia a dia. O da sem distorções, lembrando ao mundo seus votos de paz e mundo passou a ser mais honesto depois do Nirvana. O prosperidade. segundo ponto é mais tocante. Nirvana toca o público mais Esta banda é uma lição de vida. Uma emoção à parte. adolescente, adultos jovens em momentos críticos, de confli- Pense bem: U2 é uma banda veterana, e seu grande mérito é a to. É aqui que transmitem sua maior identidade. A revolta, a coerência. Há tantos anos na estrada, e continua dando a transformação pelo grito. Eu me lembro das notícias de mesma lição, a mesma garra, a mesma música. Não se deixou Cobain dopado, quebrando o quarto de hotel em Sampa. Ato corromper no caminho, nada mudou seu destino. Além disto, U2 da mais legítima transgressão e profundidade. Eles utilizaram nunca se vendeu. Tem todo o ativismo político incorruptível. Ela o doping como protesto, o chapado como bandeira. Foram a nos dá a luta das grandes causas: a Anistia, a Bósnia, as cri- banda mais revolucionária da década. Viva Nirvana! anças carentes. Ela canaliza toda a boa vontade das pessoas Esta é provavelmente a mais importante numa... boa causa! Caridosa e enérgica, a banda esteve recen- banda do rock, depois de Love. Apesar de carregar o peso temente no Brasil e no seu megashow, um espetáculo à parte, de ser britânica, a banda superou as expectativas. A competente e profissional, com lindíssimos efeitos sonográficos Inglaterra é um país onde muito se cobra das bandas, afinal que deixam a música quase como coadjuvante, a banda deu o rock está na veia. É o continente onde melhor se faz músi-
  • 3. uma lição de democracia, de comunicação. Com toda sinceri- Watt mostrou ao mundo que os indies podem ter cargos de dade, eu, todo o público, todo o país se emocionou quando no confiança, que não são levianos. São sérios e coerentes. estádio do Morumbi Bozo Vox se expressando com dificuldade Merecem o poder que têm. falou em nossa língua mãe : “Oi! Boa noite! Rio de Janeiro!” ou Esta banda foi de importância suprema. “Nós gostamos de ustedes”. A resposta do público foi suprema, Conseguiu trazer o punk o lugar devido da música: diversão. emocionante. Mesmo em língua estrangeira, o público se O punk errou por décadas, trazendo questionamentos e con- esforçou e cantou lindamente a letra do refrão da ultra-romântica testações, desviando o caminho de pessoas que iam aos “In the name of love”. shows com o único intento de se divertir. Agora as coisas O que se poderia esperar de uma banda com nome estão em seus devidos lugares. O honesto punk do Green como este? Experimental Day é a mais absoluta audio research? Genial. Eu, diversão, entretenimento um reles Experimental (*) lis- garantido para pessoas de tener me sinto um aprendiz todas as idades. cósmico. Ouvindo as mais O pop compe- avançadas técnicas de loop, tente dos Sundays trouxe drone, collage e marriage aos anos 90 mais atribu- sonoros, ecoando infinito tos: a pureza. Emoções num ritmo infinitamente mini- claras e limpas, na voz malístico e hipnótico consigo cristalina, quase infantil da atingir o Nirvana tão pre- sua vocalista, que veio a tendido por gerações e ban- influenciar importantes das. Uma viagem. EAR con- bandas como Cranberries, seguiu o que já se acreditava Cardigans e Drugstore. A impossível: a fusão das EXPERIMENTAL A UDIO RESEARCH doçura e candice desta filosofias orientais e ocidentais, banda só tem paralelos na o conhecimento interior através da tecnologia. Consigo com a música mineira, na apologia pastoral à natureza e ao banda, além do mais, me sentir dialético: ouvir música com quem romance. É a música do nascer do dia, canção do por do busca sua paz interior, e ao mesmo tempo delirar de prazer com sol, das abelhinhas, dos pássaros e aves, dos campos, e do as mais recentes conquistas tecnológicas da guitarra eletrônica. sentimento forte, o amor. Sundays é, antes de tudo, beleza. Bravo! Melancólica e bucólica. Mas beleza. Mike Watt é uma lenda viva do indie rock, um ver- Este compositor foi aclamado pela críti- dadeiro ícone. Aquele pelo qual reverenciamos, e todas as vezes ca americana como um dos mais importantes da música pop que necessitarmos de apoio, nele encontraremos. Tudo o que dos últimos anos. Com músicas absolutamente perfeitas, de sonho na vida é ter seu autógrafo. Proveniente de uma banda composição clara, com letras irônicas e divertidas, foram obscura dos anos 80, Minutemen, Watt teve seu talento reconhe- gravadas inicialmente por diversas bandas, entre elas Yo La cido e lançou, em 95 o álbum conceitual da década, com a par- Tengo. Existem também gravações caseiras, não oficiais, ticipação de todo mundo que interessa no indie, de Pearl Jam a em fita, que ocasionalmente foram transformadas em CD Lemonheads. O álbum é o marco básico, um testamento do indie com o momento de inspiração do compositor, com seu com toda a sua estética gravada em sulcos magnetizados. Um órgão Casio. Para ser sincero, este brilhante lofi é um exce- álbum destes tem seu lugar na galeria dos imperdíveis, no Indie lente compositor, mas nunca li nenhum comentário a Rock Hall of Fame, que ainda virá a ser criada. Watt é o elo per- respeito das suas espontâneas interpretações. dido, o fio comum entre as diversas tendências. Se eu tivesse que pensar na figura que mais me faz lembrar os anos 90, pen- saria em Watt ou Bowie. Mais Watt, pois ele deu ao indie este ar Renato Grinbaum de coisa séria, de instituição adulta, e por isto mesmo confiável. EXPLICAÇÕES Quando o Ricardo, o Renato e o Villalba me convidaram para fazer parte deste projeto, que já estava em andamento, descreve- ram-no rapidamente como um zine basicamente crítico. Informativo, porém buscando a reflexão do leitor. Animado, aceitei o con - vite e já fui pedindo a minha pauta, além dos textos que eles já haviam terminado e nos quais ainda estavam trabalhando. Qual não foi a minha surpresa quando, após ler com grande entusiasmo a enxurrada de palavras que invadiram o meu email-box, dei- me por conta de que a tarefa a que me propus seria um desafio muito maior do que eu imaginara inicialmente. Informações providas de análise, críticas ácidas, humor refinado, emoção, vontade de transgredir e transformar. Anseios de todos os que não querem e principalmente não conseguem ficar apáticos com relação a mediocridade do cenário musical brasileiro e com o nivela - mento por baixo da nossa cultura. Chega de ficar se sentido um alienígena por não se enquadrar no gosto da massa. E se você também pensa desta maneira está convidado a participar desta conspiração. No entanto, não pense que será fácil ou mesmo agradável ler estas páginas. A nossa intenção é chocá-lo, incomodá-lo, fazer com que você perceba o mal estar que nós senti - mos por estarmos rodeados de tanto lixo. Enfim, nós queremos aguçar o seu senso crítico e testar o seu humor. A regra aqui é ler nas entrelinhas, retirar o tapete que esconde a sujeira. Alternativas a esse cenário existem aos montes e nós também iremos mostrá-las com todo o prazer, pois, hoje, não há mais desculpas para aceitar o que nos é imposto por falta de opção. O acesso à informação está cada vez mais facilitado. Ou, se não, como um cara vivendo na insólita e provinciana capital do Estado de Santa Catarina pôde se juntar a três cidadãos paulistanos para, à distância, criar este canal? Por fim, gostaria de pedir inspi - ração ao nosso mentor, Orson Welles, para que nos dê a arrogância e pretensão necessárias a nossa missão. Rodrigo Lucianetti NOTA DOS EDITORES: LUCIANETTI REALMENTE ACHOU TUDO UM GRANDE DESAFIO: TANTO QUE SUMIU, COM MEDO DO TERRÍVEL EMBATE QUE IRIA SOFRER. E O RENATO NEGA SEU STATUS DE CIDADÃO PAULISTANO.
  • 4. PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES soas, como eu, esperaram tantos anos para conseguir estes CDs? Algumas tediosas resenhas sobre alguns álbuns novos e outros Pere Ubu é uma das melhores bandas de rock que conheço. Nascida nem tanto na década de 70 em Cleveland, ela antecipou todo o movimento punk, pós-punk e mesmo o New Wave. Até hoje é uma banda que parece estar à frente. Porque a importância? Porque foi uma banda, assim Swell Maps - Jane From Occupied Europe (Mute) como Modern Lovers, Television entre outras, que transgrediram a Apesar do início dos anos 80 estarem normalmente associados no norma do pop tradicional dos anos 60 e 70, dos eruditismos do pro- Brasil com góticos e Joy Division, havia muita coisa boa rolando por gressivo, para construir um rock novo, irônico, provocador e questio- trás, tanto os pós-punks como bandas inclassificáveis como Wire, nador colocando em primeiro plano o tesão. Se você ouvir os dois Young Marble Giants e Swell Maps. Teoricamente, ouvir um álbum do melhores álbuns desta caixa, “Modern Dance” e “Dub Housing” vai Swell Maps de 1980 hoje poderia soar datado, mas não é o que acon- reconhecer sem grande esforço, características que foram tece. A banda inglesa era formada por pessoas até hoje importantes aproveitadas posteriormente (sem nenhuma conotação negativa) por no cenário alternativo, os irmãos Epic Soundtracks e Nikki Sudden quase todas as bandas atuais. A relação entre Pere Ubu e bandas das (que formou o Jacobites), além de Richard Earl e Jowe Head, que décadas de 70 e 80, como Talkng Heads, Joy Division é muito evi- mais tarde iria aparecer no grande Television Personalities. E como dente. Em alguns momentos, Pere Ubu transgrediu além, mais à disse acima, é difícil explicar o som da banda a não ser como caótica. frente do que a maior parte das bandas fazem. Conseguem, em Muitas guitarras, barulhos, efeitos sonoros de helicópteros, baixos momentos brilhantes (“Life stinks” e “Laughing”) serem irônicos, martelando, beat tipicamente britânico bombas e coisas do tipo. A poe- acessíveis e ao mesmo tempo brincarem com free-jazz. Antes que a sia da banda nas letras desesperadas de Sudden mesclava-se per- edição fique fora de catálogo, é imprescindível deixar claro: a caixa é feitamente às experiências sonoras de Epic. essencial não tanto por ser importante, mas por ser um tesão mesmo. Robot Factory, a faixa que abre o segundo álbum da banda, de 1980, é um demolidor sonoro. Instrumental com todos os tipos de barulho RPQG - Quase todo o rock atual e desde os anos 70. De Talking possíveis (nos créditos, todos aparecem tocando “brinquedos”). A Heads a Henry Cow. De Guided by Voices a Joy Division (RG) segunda faixa segue um tema menos concreto e mais melodioso, mas o assalto sonoro continua. Apesar disso, há um lado pop claríssimo na DJ Shadow - Endtroducing (Mo´Wax/ffrr) banda (não tocam assim porque tocam mal, mas porque esta é a forma que sentem para expressarem-se), como fica claro na maravi- O livreto que acompanha o álbum é bastante sugestivo. lhosa Secret Island, o que acaba por explicar o status cult que a Agradecimentos aos pioneiros do hip-hop como Grandmaster Flash, banda acabou alcançando. O álbum é recheado de fragmentos de DJ Premier, Pete Rock. Admiração e elogios à cultura do vinil. Bem, músicas, coisas de curtíssima duração e drones enormes em faixas deve ser mais um disco de rap ou coisa parecida, certo? Muito errado. de até 6 minutos, criando uma variedade e uma consistência para um Na verdade, este álbum praticamente representa a ressurreição do álbum que jamais cansa. A versão em CD contém ainda 6 bonus hip-hop, da cultura de rua iniciada no fim da década de 70, início da tracks, tão boas quanto o álbum (destaque para o single Let´s Build a década de 80. Mas não pense em hip-hop como rappers e gangsters. Car, um clássico, e Mining Village, tocada com concreto, máquina de Hip-hop é bem mais profundo que isso, tanto é que não há rappers no escrever e kazoos - nem adianta me perguntar do que se álbum. Tratam-se de colagens, samplers trata). Álbum obrigatório para sua coleção de essenciais do bem sacados, com influências que vão do indie rock. É bastante clara a influência da banda sobre os drone-rock a Björk e jazz. Um disco de um trabalhos iniciais do Sonic Youth, Thinking Fellers, entre out - instrumentista das pick-ups. Segundo ros. alguns, DJ Shadow é uma espécie de DJ Resta complementar comentando a triste morte de Epic virtuoso, pegando qualquer disco que esti- Soundtracks em 1997, presumidamente por suicídio, causa- ver na frente dele e montando músicas a do pela separação com sua namorada. Em futuras oportu- partir daí, na hora. É nesse ideal do-it-your- nidades, comentaremos mais sobre seus álbuns solos, que self que está um forte elemento da cultura seguiram um caminho bem diferente da proposta do Swell hip-hop. O mais interessante é que, apesar Maps. de ser um DJ de San Francisco, a única gravadora que lhe deu uma chance foi a já RPQG: Wire, Sonic Youth, Thinking Fellers Local Union 282, célebre britânica Mo´Wax de James Lavelle Fall, Mekons, Swans (RA) (também conhecido por seu trabalho como U.N.K.L.E.), com outros ótimos artistas em seu catálogo, como o japonês DJ Krush, Pere Ubu - Datapanik In The Year Zero - (Geffen Records) Air, Dr. Octagon e Luke Vibert, um dos Qual o interesse de se falar de álbuns da década de setenta? remixers do Tortoise. Inúmeros. Contar somente com novidades é insuficiente. Mas a razão Em faixas como The Number Song, Shadow se utiliza de batidas principal é o fato de que esta edição dos primeiros, e melhores álbuns jazzísticas em alta rotação, com várias quebradas e mudanças desta banda estarem disponíveis em edição limitada. Quantas pes- durante os seus minutos de duração. Midnight In The Perfect World é
  • 5. outro destaque, com batidas mais pesadas, mas ainda assim via- jantes. What is Killing Hip-Hop In The 90´s é uma brincadeira com o Euphone - Euphone - (Hefty) mela-cueca do R&B moderno, o que já responde (parcialmente) o títu- lo em questão. The Organ Song é uma criativa colagem de sons de O termo “pós-rock” é uma das coisas mais difíceis de se definir. tudo órgão que acabam criando uma cara e identidade própria, muito dife- virou pós-rock, todo mundo quer ser pós-rock. Na verdade, se há uma rente de um sampler comum, onde este é repetido ad nauseum. Em definição ela é vaga, mas em geral as bandas de pós-rock se apegam momentos como esse, DJ Shadow se aproxima muito mais de uma à mistura de diversos estilos e tendências sob a roupagem mais rock. banda do circuito Chicago/Louisville, coisa que apenas DJ Premier Em geral os estilos mais mesclados são dub, jazz (sem nunca se (Gangstarr) e Rakim conseguiam fazer. Um álbum que certamente parecer com fusion), erudito e música eletrônica, incluindo o techno. marca uma nova era de possibilidades para o hip-hop. Esperem ver Além disto, não há tanto punch, as músicas são mais calmas e há este álbum citado como um dos mais influentes da década em breve. uma grande valorização do conteúdo instrumental sem solos exagera- dos. Ao contrário, a textura e timbre são mais importantes aqui do que RPQG: Tortoise remixes, U.N.K.L.E., DJ Krush, Eric B & Rakim, Folk a habilidade técnica. Entre as melhores bandas de pós-rock, Tortoise, Implosion (em KIDS), Gangstar, Air (RA) Bark Psychosis e UI. Euphone é uma banda nova, ainda obscura, mas com inúmeros méritos. Fazem um pós-rock simples, acessível, de É o Tchan! - É o Tchan do Brasil! (PolyGram) sonoridade fácil e rapidamente assimilável sem cair em lugares- comuns. Todas as faixas são instrumentais, relativamente curtas, sem Mais um trabalho do grupo afropop que vem conquistando cada vez nenhuma enrolação. O que chama atenção é a diversidade e a varia- mais espaços no Brasil e no exterior. E desta vez, eles voltaram com bilidade. Em cada canção o arranjo, o conjunto de instrumentos é dife- várias novidades. Primeiramente, a triste saída da Débora Brasil, que rente, de solo percussão à estranha combinação de órgão-baixo-bate- deve estar agora preparando trabalho solo. Com isso, a banda deu ria, passando pela guitarra solo. A referência mais imediata é Durutti uma virada para a entrada da mineira Scheila, estrela da Playboy de Column, uma vez que o timbre da guitarra, o eco são bem parecidos. fevereiro, onde demonstra todas suas qualidades musicais para felici- Mas Euphone tem maior variabilidade e soa mais espontâneo. O som dade dos fãs do grupo. da banda é calmo e tranquilo, sem cair nos excessos viajantes ou Neste que é o segundo trabalho da esotéricos. O principal defeito do álbum é sua duração reduzida, banda com o nome atual, a banda defeito pequeno perante à qualidade do som. além da tradicional utilização de diversos estilos afro- RPQG: Oval, Neu, Tortoise, Roy Montgomery, Marilyn Decade, Durutti brasileiros (como o axé, a Column (RG) lambada, a dança da bundinha, a dança da Kenny G - Love Will Tear Us Apart (My Love Records/Sony) garrafa, a dança do põe-põe, o pagode e Kenny G é o sétimo na linhagem de uma família tradicionalmente a dança da galinha) musical. Kenny A, além de ser um dos inventores do jazz melódico e resolveu inovar ao emotivo, também inventou Burt Bacharach, Nat King Cole e Peninha. incorporar a antiga Kenny B Profunda, além de fazer uma música rítmica e sensual, foi (mas como disse uma das pessoas que melhor manipulou o sax alto. Kenny G, filho de Carla Perez, Kenny F drogado e prostituído, faz música voltada para o coração, “ainda desconheci- como uma apache, arrebatando o músculo com sua flecha, da”) dança do ven- despedaçando o querido órgão em mil estrelinhas, cada uma tre em seu som. refletindo uma diversa e brilhante influência musical. Seu ecletismo e Com isso, a banda cultura são pontuados com uma rígida noção de seu espaço: o amor, acabou criando o o sentimento, a espera, esta última no consultório do meu dentista. world axé, que é a Neste álbum, Kenny G está no auge da performance, tocando pérolas mistura da world de origens mais diversas como “Love hurts” (Nazareth), “Love bites” music com o axé- (Judas Priest), “Love is a many splendored thing” (This Mortal Coil), pagode, uma deli- “Love me Tender” (Chester), “Love, reign o’er me” (Nelson Ned) e ciosa combinação de “Who do I love?” (Smiths) e composições próprias como “Gimme my elementos rítmicos. Isso love back” e “Come my love” entre outras. Todas em versões adultas, tudo faz deste um disco classificadas com 3X. Hit certo para o inverno que se aproxima, e para irresistível nas pistas de a sua próxima viagem de elevador. dança. Não espere sutilezas nas letras: RPQG: Ray Conniff, Richard Clayderman, Whitesnake, Black Sabbath todas são salpicadas de malandragem (circa “Changes”), Wando, Chico César (RG) e malevolência, como convém a uma música tão contagiante. A voz de Beto Jamaica no hit Ralando o Tchan (Dança do Ventre) pode ser Bedhead - WhatFunLifeWas (TranceSyndicate) comparada como duas poderosas caixas de som no alto de uma ladeira do Pelourinho. Deve-se destacar que a mistura de ritmos é Apesar de hoje em dia ser meio caído gostar de bandas compostas constante e inovadora, como se vê nos detalhes do rock de Rock do por baixo, guitarra e bateria, numa era onde o número de teclados Tchan, na ginga de Dança do Põe-Põe e a bem humorada Mão Boba. esquisitos e baterias eletrônicas conta muito, Bedhead consegue ser Mas eles, apesar dos novos caminhos trilhados, não se esqueceram ao mesmo tempo única no que faz, e agradar aos que procuram de seu passado, já que fizeram um medley de sucessos de sambas coisas mais “modernas”. Originária de Dallas, mas atualmente entre baianos. Este é um álbum essencial para aquelas festas de sábado New York e Austin, possui seu núcleo em dois irmãos (Matt e Bubba regado a muito chopp e alegria. Kadane) responsáveis pela bateria e guitarra, além de Kris Wheat e A positiva influência deste álbum deverá se refletir ainda por muitos Trini Martinez. Estamos aqui falando de seu disco de estréia, o fabu- anos, como se nota pela explosão de bandas conterrâneas que loso WhatFunLifeWas, de 1993. A banda consegue neste álbum se bebem do mesmo rico caldeirão de ritmos musicais que é a Bahia, utilizar de recursos que, normalmente, já são meio batidos, como terra de Caetano, Bethânia e Gil. Aguarda-se agora ansiosamente o drones (passagens repetitivas, como mantras) e build-ups (aquele tipo que a carreira solo de Carla Perez irá nos apresentar. de música que vai crescendo em intensidade durante sua execução). Contudo, isto é feito de uma forma original, já que jogam uma pitada RPQG: Gerasamba, Molejo, Asa de Águia, Kula Shaker, Karametade, de country rock psicodélico (leia-se Gram Parsons, ou até Grupo Raça, Malícia (RA) mesmo David Roback do Mazzy Star) dentro disto tudo. O que acontece é que se enriquece de melodia um tipo de música que normalmente se retém na repetição de 2 ou 3 notas. Além disso, o uso de pedais de efeitos é reduzido a um fuzz ou algo do gênero, o que faz o disco ganhar ainda mais em emotividade, em detrimento de simples efeitos de pedais. Aliás, noise não é algo aplicável ao Bedhead. Vocais sussurrados mas não inaudíveis ou forçosamente bedhead “shoe-gazers” criam um clima bastante melancólico, prati-
  • 6. camente presente em todas as faixas do álbum. Outro fator importante com-balão-de-hélio típico de Doug. Ouvindo ainda mais o álbum, ele é de ser lembrado é que o álbum (apesar de excelente) ainda perde bem diferente de Alternative Wave Dancers: faixas bem mais curtas, muito em estúdio, pois um show ao vivo do Bedhead é algo absoluta- com o “mamute sonoro” dando lugar a um pop refinado, com pitadas mente mágico, ganhando muito em tensão e carga emotiva. psicodélicas e poesia a là Daniel Johnston, além de revelar um novato Faixas como Haywire são daquelas que literalmente arrepiam e te produtor de mão cheia: Phil Ek. There’s Nothing Wrong With Love deixam de meio atordoados quando chegam no final, sendo a faixa tornou-se um cult do indie pop americano, e meio que referência para mais “nervosa” do álbum, junto a Unfinished e à genial Living Well. boa parte da nova safra, como Bikeride e bandas da Double Agent. The Unpredictable e a linda To The Ground trazem à tona o lado mais Doug também se mostra um guitarrista formado numa geração que texano do álbum, com a leve psicodelia típica da banda. Landlord lem- cresceu ouvindo Sonic Youth, Mudhoney e Dinosaur Jr., o que é bem bra Low, caso este fosse menos minimalista. A banda também flerta diferente da geração anterior, que ouvia heavy metal. O resultado é a com um lado mais etéreo, criando canções de ninar adultas, como é o perfeita combinação de barulhos e melodia, sem exageros e demons- caso de Crushing. trações masturbatórias de solos. Um de meus álbuns favoritos e deve ser ouvido em volume relativa- In The Morning, a faixa que abre este álbum, muda tantas vezes de mente alto, para melhor efeito visual. Infelizmente, a banda terminou ritmo que assusta numa primeira ouvida. Car é pura psicodelia, com este ano, para minha tristeza um belíssimo cello e viagens guitarrísticas ponteando toda a música. Big Dipper é totalmente jangly, com uma historinha simpática sobre RPQG: Low, Telstar Ponies, Yo La Tengo, Mazzy Star, Transona Five, infância e efeitos lisérgicos. Fling é talvez a mais bela faixa do álbum, Codeine, Joy Division (RA) um acústico com uma belíssima instrumentação de cellos em seus parcos dois minutos e meio de duração. Cleo é a que mais se aproxi- ma da primeira formação do BTS, com suas massas de guitarras dis- Built To Spill - There´s Nothing Wrong With Love (Up) sonantes num caldo lento e chapante, assim como Stab. Twin Falls é Um pouquinho de história: havia uma banda em Seattle que, durante totalmente Daniel Johnston, com uma história simples, porém esquisi- a invasão “grunge”(®) do início dos anos 90, meio que ficou à margem ta, de amores perdidos. Até o vocal lembra o mestre. Distopian Dream disto tudo (assim como todo o resto do cast da C/Z Records), que se Girl é um clássico jangly pop, nem dá pra falar muito sobre a faixa. chamava Treepeople. Depois de dois álbuns bastante elogiados, Doug Há uma faixa escondida no CD que eles chamam de “sneak preview Martsch, um deles, sai andando e lança, meio que pra ignorância to the next BTS record” (uma prévia do próximo álbum da banda), que geral de todos, o primeiro álbum do Built To Spill (Alternative Wave trata-se da melhor tiração de sarro do som 89FM/Brasil 2000(©) já Dancers - C/Z) em 1992, um mamute noise-psicodélico, com faixas feito e que vale o CD inteiro e prova como é fácil se tornar o próximo que, na época, soavam como palavrão (com seis, nove minutos). O Matchbox 20(®) ou Third Eye Blind(®). álbum passou batido e, depois de lançar junto com Calvin Johnson o Halo Benders, ele retorna em 1994 com nova formação e um novo RPQG: Unrest, Bikeride, Class, Dinosaur Jr., Halo Benders, Daniel estilo. Johnston, Flaming Lips (RA) Pra quem não conhece, a primeira faixa começa com guitarras limpi- nhas, bem jangly (efeito onde a guitarra é tocada muito rapidamente, Van Halen - Van Halen III (Warner Bros.) normalmente o menos distorcido possível) e o vocal Flaming-Lips- Como o nome sugere, este álbum vem para fechar duas décadas de incontestável talento e, ao mesmo tempo, servir de estopim para o começo da terceira. Nascidos na Holanda, Edward e Alex Van Halen são herdeiros da tradição germânica em produzir virtuoses. Motivados pela excelente herança genética, seus pais treinaram-lhes desde pequenos na arte de tocar piano clássico. O que eles não previram (e a humanidade agradece) foi a mudança para Pasadena, Califórnia. Influenciados pelo ritmo con- tagiante do modo de vida californiano e maravilha- dos com a grandiosidade do rock de arena, deci- dem empregar seus talentos natos em prol da músi- ca pop. Estava nascendo uma parceria singular na historia do rock e um dos maiores virtuoses da gui- tarra desde Kevin Shields. A exatamente 20 anos atras, os irmãos Van Halen, lançaram seu primeiro petardo, “Van Halen”, um dos primeiros trabalhos a introduzir, de um modo acessível, técnicas da músi- ca erudita no universo pop. Hoje, pode-se dizer que a historia do rock está intimamente ligada a história desta banda. Com toda esta bagagem não é de se estranhar que este álbum atrairia toda a atenção da mídia, mas, mesmo sufocado pela expectativa, este trabalho só veio confirmar o talento visionário de Edward, ou Eddie para os fãs. Eddie mostra-se completamente sintonizado com o novo vocalista, Gary Cherone, oriundo de uma banda não tão origi- nal, mas com muito punch e que até já esteve em terras brasilis, o Extreme. Alex também está sober- bo na bateria chegando ao extremo de adaptar sua baqueta para poder tirar timbres de scratch. Alias, a inclusão de timbres diferenciados e a batida sinco- pada mostra aos incrédulos que é possível soar moderno apenas com os velhos instrumentos sagrados do bom e velho rock’n’roll. Uau! É claro que estas novas texturas sonoras apenas vem somar ao turbilhão de referencias que os irmãos, como de costume, despejam de maneira sublime em nossos ouvidos. Nota-se de Bach e Schöenberg (resquícios do seu passado) a estrelas da nova safra como Radiohead e Prodigy. Se o Van Halen manterá sua hegemonia por mais uma década ainda é cedo para prever, mas que começou bem, isso não se pode negar. RPQG: Radiohead, 3a Sinfonia de Henryk Mikolaj Gorecki, Led Zeppelin, Kiss, Prodigy (RL)
  • 7. Sun City Girls é uma banda única. Daquelas incomparáveis, que você tem dificuldade para descrever. Para começar as coisas estranhas, os girls não contam com mulheres na sua formação. São três marmanjos o Arizona. Na ativa desde 1984, com quase uma dezena álbuns lançados por gravadoras bastante obscuras, e diversas fitas caseiras. Como esperado, quase não conhecidos no Brasil, onde se conhece o que vende. Pelo menos em geral. E como caracterizar o som? Bem, ai complica. Para facilitar, vou traçar um paralelo entre os Girls e uma outra banda que tem algo próximo: os Residents. Não que os sons sejam tão parecidos. Não que eu esteja querendo dizer que a música das duas bandas seja igual, mas algo em comum pode aju- dar a descrever uma música tão complexa. 1. As duas bandas gostam de fazer álbuns temáticos, ou com assunto único. Residents fez o Commercial Album e o Third Reich’n’roll, sobre a música pop. Fez Eskimo. Os Girls fizeram um álbum sobre o pop/hard/blues comercial (Midnight Cowboys from Ipanema), outro sobre música lati- na (Torch of Mystics) e também um sobre música pop oriental (3003 Crossdressers From Beyond the Rig Veda). 2. As duas bandas ironizam a música pop tradicional. Ambas possuem uma visão critica sobre a música que estamos acostumados a ouvir nas rádios. Esta visão crítica e irônica em momento algum é grosseira ou ridícula. Não há infantilidade. Não se trata de “The killer mamonas”, nem nada parecido. Ironia pode ser apenas um espelho. 3. A ironia esta basicamente na percepção da estrutura e na forma da música. Os Girls e os Residents descarregam suas críticas nestes aspectos da música. Distorcem e transformam o pre- visível. Evitam o formato canção-refrãozinho grudento. Quando os refrões surgem, eles sempre pas- sam a impressão de estarem deslocados, mas propositadamente colocados ali para chocar. Da mesma forma, a sonoridade é distorcida, torta mesmo, sem a clareza muitas vezes estupidamente aberta da música tradicional. A transformação força que você entre na música para perceber sua sonoridade, nada é imediato. Só que aí reside uma grande diferença entre as duas bandas. A ironia dos Residents é intelectual, sofisticada e de difícil compreensão. E isto é um defeito. Eles distorcem a música e seu formato até o ponto que você tem que se esforçar para perceber a proposta, para assimilar e gostar. Eles mostram um lado distorcido e sarcástico da música, com covers bem estra- nhas. Sua versão de Satisfaction, dos Stones, beira a perfeição, embora seja constituída mais de neurônios que músculos. Residents é uma banda difícil. Os Girls não, a banda é descontraída. Distorce mantendo o punch e a energia do rock. O formato da música não é tão brutalmente recorta- do como nos Residents. Embora a banda possua momentos jazzísticos ou experimentais, com a introdução de instrumentos bem pouco tradicionais, neste ponto sem ironia, é essa critica descontraída que predomina na maior parte do tempo. Você entende a proposta, e gosta logo na primeira vez que coloca o CD para tocar, embora você seja forçado a participar da música de modo diferente que no pop tradicional, que entra até quando você está desatento. Ao contrário dos Residents, SCG continua sendo rock, que apela para o corpo, para o ritmo, antes de atingir o cérebro. Esta é uma diferença enorme e marcante entre as duas bandas. Mas diferenças não querem dizer supe- rioridade ou inferioridade. Das duas bandas, prefiro ambas. 4. Os Girls muitas vezes utilizam os mesmos vocais em falsete bem estridente, característica muito peculiar dos vocais dos Residents. 5. Um ponto de divergência: os Residents abusam dos recursos eletrônicos. Os Girls em alguns momentos são acústicos, mas na maior parte das vezes utilizam formação tradicional de guitarra/baixo/ bateria. Em outros momen- tos, acrescentam instrumentos apropriados para o tipo de som, como os sinos e outros instrumentos orientais em “3003”. E também improvisam, de um modo quase jazzístico. A impressão que se tem é que os Girls estão se divertindo muito enquanto gravam. Com qual álbum começar? Certamente com o “3003 Crossdressers from Beyond the Rig Veda” (Abduction Records, 1995). Neste álbum os Girls ironizam não o espirito e a filosofia oriental. Aliás nem precisa. Estamos todos cansados desta ilusão da década de 60 de que o misticismo ori- ental seria a salvação do mundo. E que os orientais seriam sempre pessoas sábias e viajantes. Como se o Tibete fosse a capital do mundo; puro preconceito e desinformação. E reducionismo: cul- tura oriental é muito mais rica e diversa que isso. E às vezes mais cruel. Os Girls ironizam as canções pop orientais, ouvidas em radio. Em “Soi Cowboy”, as letras são incompreensíveis.
  • 8. Aparentemente, os Girls não cantam em língua nenhuma, inventando sons, e o rock bem marcado e simples dá o tom de diver- são. É um disco belo e divertido, com muito punch. Em todo o álbum algum clima de estranhamento e desconforto acontece. Nas guitarras esquisitas, no vocal indiscretamente estranho, nos arranjos mais complexos. Mas é este estranhamento, este certo desafio que agrada. Compreender o som do álbum requer atenção. Não basta ouvirmos ao mesmo tempo que falamos ao tele- fone. “Torch of the mystics” (Abduction Records, 1991) também é uma boa escolha, mas ele pode parecer um pouco mais estranho a principio. Eles tocam lambada, distorcendo o ritmo de uma forma brilhante. Também um grande álbum, com uma bela capa e encartes. Os primeiros álbuns são de assimilação mais difícil. Há momentos jazzísticos, de improvisação, e uma audição mais atenta e cuidadosa é necessária para melhor apreciação. Alguns destes momentos persistem nos álbuns mais recentes, porém de um modo melhor trabalhado e com recursos musicais bem superiores. Os últimos CDs são mais fáceis e espontâneos sem perder o punch e a vitalidade originais. Os Girls são daquelas bandas que... bem, chega. O negócio é ouvir e curtir essa banda, que por sinal não é mais conhecida talvez porque sua ironia seja madura o suficiente para ser indesejada. A comédia acrítica, pastelão agrada enquanto reforça. A comédia crítica alfineta e pode incomodar. E além disso, nem sempre é fácil aceitar algo novo e inesperado. Às vezes é preciso cora- gem para podemos gostar do diferente. Neste caso então é melhor ficar com a nossa velha parada de sucessos. A melhor razão para gostarmos de um hit é o tanto que já vendeu... Unanimidade, meu amigo! BANDAS AFINS: Residents, e provavelmente tudo de pop/rock que você possa imaginar, desde que distorcido e ironiza- do. Em particular God is My Co-Pilot, Zip Code Rapists.
  • 9. A rede mundial se tornou o grande hype da mídia nos últimos anos e de certa forma, muito disto é justi- ficável. Mas, talvez uma das maiores vantagens acabou surgindo para nós, pessoas isoladas culturalmente da música de qualidade produzida pelo mundo afora. Vejo como nossa principal vantagem em relação à Internet, a possibilidade de efetivamente procurarmos o nosso nicho de gostos e preferências. Considerando o estado massificante e acachapante dos meios de comunicação brasileiros, cada vez menores espaços para as variações e diferenças de gosto serão permitidas. Resta a rede, que facilitou não somente a possibilidade de contato com pes- soas do mundo inteiro, mas até mesmo dentro de uma mesma cidade (o que é, inclusive, o caso do Conselho Editorial deste zine), pelos gostos e estilos que possuem. Isso sem contar com a moleza da aquisição de material antes caríssimo, quando vinha pra cá. Então esta coluna pretende dar algumas dicas de sites interessantes para o que achamos inte- ressante. Isso significa que nem sempre sites bonitinhos serão escalados. O conteúdo é o que manda por aqui. E conteúdo é o que não falta no site da Matador Records (http://www.matador.recs.com), de longe, o melhor site de gravadora atualmente no ar. E há uma história por trás disso, que começa há muito tempo atrás. Gerard Cosloy, um dos sócios da gravadora junto com Chris Lombardi, era o editor de um dos zines mais importantes e mais cultuados dos anos 80, o Conflict. Esse zine era caracterizado pela acidez, ironia e finesse com que tratava todos os assuntos. Chagavam ao ponto de criarem cartas falsas (com endereços existentes!) pra montar seções, mas era extremamente confiável quanto a suas resenhas. O tempo passou, o zine acabou, ele montou a Matador e chegamos ao site, que mantém muito deste estilo. A boa sacada do site é que ele possui as resenhas mais sarcásticas e engraçadas que exis- tem (o que por si só já é corajoso, dentro de uma empresa), além de algumas surpresas. Todo ano, a gravadora lança “campanhas institucionais” no site - uma bruta tirada de sarro no marketing moderno - e entre elas estão o ridículo “Stay´n´school”, onde a Matador e seu cast recomendam às crianças ficarem na escola, enquanto aprendem com vários materiais “educativos” (com muita propaganda da Matador, claro), e a campanha pró-armamento do Detetive Paully (troque suas armas por outras menores, para redução da violência). Agora, nenhum destes artigos bate o ácido Stop The Vote, uma tiração de sarro em cima do mais que babaca projeto da MTV americana para eleger os democratas, o Rock the Vote. Nestas série de páginas, a Matador convida todos a registrarem-se para não votar nas eleições. Uma das melhores piadas é uma foto do fuzilado Tupac Shakur dizendo “Este ano não voto de JEITO NENHUM!!!”. Também alegam que muitas pessoas bonitas e de sucesso, como alguns dos Kennedys, não votam. E, caso você tenha que votar, por que não em candidatos patrocinados como Papai Smurf, Caco e Gonzo e o Jack, do Jack´n´the Box (fotos disponíveis no site)? Há também o newsletter ¡Escandalo! (que eles fazem questão de dizer que não é um zine, o que bastante ético, já que é uma peça comercial com o estilo de um zine, prato cheio pra marqueteiro fazer pose de “cool”), com várias matérias interes- santes (não deixem de ler That´s Edutainment, uma crítica ao comercialismo da edu- cação, Worst Of The Web -o pior da Web - e Matador Lite, onde comparam bandas “originais” e suas ver- sões “Lite”) e entrevistas com bandas não necessariamente da Matador. O site ainda oferece boas informações sobre as bandas do selo e vários links de fãs. Terrível mesmo só a parte comercial do site (eficiente na tela, mas um tanto confusa na hora de mandar material para o Brasil e agora dependente da CD Now), mas que vale a pena, pelo menos para ganhar um colante “Yo La Tengo For President” ou algo do Guided By Voices. Essa é a dica de site deste mês, e com certeza você vai perder muito tempo dentro dele. Na próxima edição, falarei sobre o Stay Free!, que de certa forma tem a ver com este site.
  • 10. O que faz uma banda ou uma cena serem mar- Mas na primeira metade da década a principal e mais marcante cantes? Uma questão de percepção simples. Muitas boas bandas mudança vem de Louisville, Kentucky. Slint. Banda formada por ex- fazem um som convencional, já um pouco batido. Bem, se alguém faz membros de uma banda de hardcore, Squirrel Bait, e que foi progres- competentemente um som da mesma forma que os Beatles, esta sivamente se dissolvendo em outras bandas como Bastro, Rodan e, banda soará desgastada, sem nada de novo. Ocasionalmente você a posteriormente, em bandas com tendências as mais diversas: pop chamará de vazia, embora competente e divertida. São bandas de (King Kong), pós-rock Tortoise, experimental/minimalista (Gastr del pouca expressão. Uma banda ou cena marcante são aquelas que Sol), instrumental (Aerial M), rock (June of ‘44, Retsin), elementos de trazem algo de novo no conteúdo, ou, principalmente, quando con- erudito (Rachel’s) e assim por diante. seguem se expressar de forma diferente. Não necessariamente exper- Talvez Slint não seja minha banda predileta do período, nem a que imental e árdua, mas certamente diferente e por isto mesmo estranha mais ouço. Mas é a mais marcante. A que mais mudou o cenário num primeiro contato. É esta transgressão, ou evolução, que fazem da musical. Não foi Nirvana. Nevermind é um bom álbum, mas como música, inclusive a pop, um instrumento, arte, mais do que uma sim- expressão não é muito diferente do rock que se fazia nos anos 80. ples diversão. Poucas variações. Já Slint traz estas mudanças. Num único álbum, O que foram os anos 80, ou sua segunda metade? Em primeiro lugar, Spiderland, de 1991, Slint fez mais que o bastante. O som traz diver- é preciso enfatizar um pouco a queda do rock inglês. Muita coisa boa sas coisas novas, e outras recicladas numa nova forma, como aquela se produziu e ainda se produz na Inglaterra, mas em especial na área construção de canção que parece circular, geométrica, a exemplo de eletrônica e dance. O pop inglês, embora de qualidade, passou a se King Crimson (“math-rock”). Mas Slint está longe de Robert Fripp. importar mais com a aparência e postura do que com a música. Todo Com Slint, de certa forma há uma volta a músicas longas, com um o pop inglês é divertido e bem feito, sem a menor dúvida. Mas como grande destaque ao setor instrumental. Mas sem solos, sem exibi- expressão, repete bandas e cenas anteriores com evoluções peque- cionismos do rock progressivo. Ao contrário, as guitarras são ásperas, nas. Já no meio da década de 80, Big Black, Pixies e Sonic Youth e o som está mais próximo de Big Black do que de Genesis. A grande mostraram que a evolução maior no pop e rock estaria em terreno e mais fundamental diferença está no modo de se trabalhar o instru- americano. Os yankees começaram a ficar mais criativos e ousados, mental. Antecipando um pouco o que virá a ser incorporado no ainda procurando quebrar o excelente ciclo britânico de dez anos, que, vago “pós-rock”, Slint trabalha climas e ambientes. Modula tensões e naquele momento, já começava a se repetir e pouca coisa nova trazia, sensações com pausas em momentos precisos, alternados com diver- apesar da insistente histeria dos tablóides, colocando Stone Roses sos ambientes criados, entre eles momentos pesados. Em outros tre- como uma das bandas mais chos, a guitarra lenta, sombria é acompanhada de um vocal sussurra- importantes na evolução do pop. do, quase imperceptível. Climas e sensações, descrições. Emoções Stone Roses, e boa parte do brit- bem construídas, com sensação de espaço bem ocupado. Slint, sem pop, repetem fórmulas con- nenhuma complicação ou intelectualização faz um som acessível e sagradas. Sua luta maior, como já inteligente. E são estas mudanças, esta abertura do rock/pop para dito, é no vestuário, na forma de algo mais descritivo e trabalhado, mas mantendo-se o formato pop e o se colocar numa entrevista, no punch de bandas bem barulhentas como Big Black é que fazem esta clip, na mídia britânica. banda ser um marco importante no início desta década. O álbum Musicalmente competentes, mas contém somente seis músicas, mas é homogêneo, segue uma sem a ousadia das bandas ameri- lógica e parece ter sido todo pensado, bem construído. canas que surgiam. Sim, o DIY, A cena Louisville, como já dito, não se resumiu à sonoridade do essência da mudança nos anos Slint. Vide Rachel’s, Gastr del Sol, 70, estava gasta e sem alternativa Palace, Smog, Sonora Pine, etc. na Inglaterra, e renascia de forma Mas Slint se comportou ao con- distinta do outro lado do mar. trário, a própria banda encerrou o Os anos 90, ao contrário do que sempre diz seu trabalho por aí, e o EP de 95 a crítica séria, são ricos e diversos. Do rock contém canções compostas e ao eletrônico, do folk ao pop, cenas fragmen- gravadas na época do Spiderland. tadas e bem setorizadas são de grande valor Cada membro da banda seguiu e qualidade, embora transgressão maior, seu caminho, procurando não como anos 60 e movimento punk, não ocor- repetir o Slint, mas levando esta reram e nem se esperava que ocorressem. idéia de espaço para diversas As mudanças não ocorrem primariamente no sonoridades, ampliando a lin- mundo da música, mas nas mentalidades. guagem do pop. Os anos 90 deste ângulo foram e estão Óbvio. Muita gente gostou de sendo um pouco apáticos. Mas só um pouco. Observando com maior Slint. E o que fizeram? Alguns entenderam o recado. Outros, ao invés atenção, todas as iniciativas são individuais, ou em pequenos grupos. de aproveitar a idéia do espaço e modulação, procuraram repetir o Dificilmente uma banda terá impacto de Beatles, a sociedade já não som de Slint, como uma família. E o que isto gerou? Esgotamento. tem uma linguagem comum. Ao contrário, quando uma boa banda que Repetição. Cansaço. Boas bandas, como Rex, June of ‘44 e A Minor você gosta começa a aparecer demais, toca em todas as rádios e TVs Forest possuem identidade própria. Mas após um certo tempo e até aquele seu colega nerd conhece, você passa a olhar a banda acabaram se tornando repetitivas. Outras são meros clones, e trans- com desconfiança. Porque será? formaram a perspectiva Slint em acomodação. Linguagem morta. Nos anos 90 as mudanças musicais são fragmentadas, moleculares, É por isto que logo algo seria necessário para que não houvesse uma dentro de pequenos universos. O pop perfeito e simples está pre- estagnação. Bem, mudanças podem ocorrer em grandes saltos, mas sente, sendo lançado por pequenas gravadoras, vide Apples in Stereo com maior freqüência ocorrem lentamente, quase que de forma imper- e Holiday. TFUL 282 é a banda mais diversa e ousada da década, ceptível. Na maioria das vezes, diversas bandas vão somando embora inacessível em alguns momentos. O LoFi, gravações caseiras mudanças até que alguma faz uma espécie de síntese e aí surge o de má qualidade técnica, reinou de 87 a 95, com lançamento de impacto. dezenas de bandas que de outra forma talvez não conseguiriam O que discutiremos na próxima edição é a segunda metade da déca- gravar. O LoFi foi moda, e, de certa forma, chegou ao desgaste. Entre da, o que estamos vivendo agora. Enfim, muito do que está aconte- as boas bandas, Sebadoh, Mountain Goats, Smog, Strapping cendo, em especial o pós-rock, guarda alguma relação com Louisville, Fieldhands, Palace, Grifters, Guided by Voices. Stereolab é outra mesmo que de forma bem indireta. banda marcante no período, assim como Trumans Water, P.J.Harvey, God is My Co-Pilot e tantas outras que injustamente não serão Álbuns recomendados: citadas. Pavement foi uma das bandas mais importantes do período, com um Slint - Spiderland (Touch & Go) grande, imenso mérito. Conseguiu trazer uma forma nova de Bastro - Diablo Guapo (Homestead) expressão de modo claro o suficiente para ser compreendido por um Rachel’s - Handwriting (Quarterstick) público maior. Este tipo de banda, que consegue conciliar uma lin- The For Carnation - Marshmallows (Matador) guagem nova e inteligente com o grande público é talvez o tipo de Rodan - Rusty (Quarterstick) banda mais importante que temos. Não adianta, no meu modo de ver, June of ‘44 - Tropics and Meridiens (Quarterstick) uma nova linguagem que permanece restrita. Além disto, me impres- Palace Brothers - Days of the Wake (Drag City) siona a postura da banda: o melhor é vê-la após anos de estrada, não Smog - Julius Caesar (Drag City) fazendo pose para mídia, mantendo sua coerência.
  • 11. xada por esses artistas apaixonados sobrevive até hoje através de seus filhotes: Paulo Ricardo, Herbert Viana e, é claro, Perry Farrell, Dance Of The Celts - que presta uma merecida homenagem aos seus mentores no clip (Narada) Pets. O hábito de cobrir o rosto em apresentações é imitado por mem- Você conhece John bros da banda paulistana Pavilhão 9 num rasgo de tietagem explícita. Constantine, o personagem Longa vida à memória dos Patos!! Que as próximas gerações saibam mais sem-vergonha do univer- reconhecer a sua importância. so de quadrinhos Vertigo (uma Frases : “Somos mais famosos que o Pato Donald...”(Patinho Número divisão mais adulta da DC 2, em uma declaração polêmica, que gerou protestos da Igreja e Comics)? Bem, esse álbum é a demais instituições conservadoras); “Avoz nunca é aguda trilha sonora ideal para acom - demais”.(Patinho Número 1); “Quá, quá !!!”(todos) panhar o anti-herói em suas investidas irlandesas. Também RPQG: Chico César, Planet Hemp, Pavilhão 9, Banana Split (RV) é uma ótima música de fundo para tomar todas, para brigar, Ravi Shankar - Chants Of India (Angel) confraternizar com aquele amigo que você não via fazia tempo e dançar sozinho no seu apartamento. Primeiro, a necessidade de algumas confabulações sobre a música Começo ridículo para uma crítica séria? Bem, a tradição celta ao qual étnica . Ouvir um CD de canções folclóricas ou tradicionais de um país as quinze bandas dessa coletânea pertencem com certeza não dá a pode ser comparado, em muitos sentidos, a assistir a uma aula de mínima para a sua seriedade. Por isso, é bom não tentar encará-las ciências humanas . O professor (músico) e a matéria (música) podem desse jeito...ou de qualquer outro. Apesar do compromisso em difundir ser extremamente agradáveis e interessantes, podem tornar a com- a cultura saxônica através dessa iniciativa musical, Dance of the Celts preensão (audição) algo extremamente acessível e encorajador, para é executada de maneira fleumática e descontraída. Não é New Age. É que todos os alunos procurem, cada vez mais, informações sobre o Old Age. Ouça no acampamento, bêbado, e troque uma idéia com o assunto e referências sobre sua aplicação na música cultural contem- leprechal mais próximo. porânea (entenda-se aqui, influência musical sobre artistas diversos). Da mesma forma, tudo pode ser RPQG: Pogues, Mark Lanegan, Pogues (RV) um grande pé no saco. Chants of India, de Ravi Shankar, é composto de diversos elementos Lambchop - Thriller - (Merge) que acabam enquadrando-o na Está bom. Nashville, country, isto tudo é coisa chata. Lambchop é de categoria de “ótima aula; professor Nashville, gosta de country, mas não é. É uma banda folk, como tarimbado”. É um disco leve, sem Leonard Cohen, Nick Drake, Palace e tantos outros. Uma marca da solos de cítara de vinte e cinco banda é o arranjo, uma vez que a banda sempre toca junto como uma minutos, que apresenta textos gangue, uma mini-orquestra, assim como Tindersticks. E, assim como sagrados dos Vedas, Upanishas e os ingleses, faz um som melódico, depressivo, quase sombrio, bem ao outras escrituras sagradas, canta- gosto de “Five Leaves Left”, do Nick Drake. O álbum de 1995, “How I dos e musicados por pessoas que Quit Smoking” muito provavelmente estará entre os melhores da déca- conhecem bem o ouvido ocidental, da, por misturar este estilo folk de Drake com algo um pouco mais mas que têm vínculos suficiente - rural, muita slide guitar, sem em momento algum ser countrymente mente fortes com a tradição hindu pífio. Mas a banda não para por aí. Kurt Wagner, o mastermind da para não comprometer a qualidade musical em nome de uma criação banda pretende algo mais pop, dá uma guinada no som da banda. “mais comercial”. Assim, optou-se conscientemente por uma obra Boa parte das faixas deste álbum foi composta por F.M. Cornog, do didática e profunda, uma excelente porta de entrada para quem quer East River Pipe, que faz um pop simples, quase lofi, bem melódico e conhecer mais sobre a fonte onde tantas bandas de pop andam com letras bastante depressivas. Aliás, as canções de Cornog matando a sede, sem cair na armadilha da New Age e sem abandonar ganham uma roupagem diferente, bem mais rica com Lambchop e é a audição antes do fim por estranhamento. interessante comparar com a pálida simplicidade do East River Pipe. Ravi Shankar é velho conhecido dos Beatles e do seu público. A pro- Na verdade, Lambchop é a mais britânica das bandas folk ameri- dução e co-autoria do álbum fica creditada a George Harrison . No canas. A diferença é que no novo álbum tende o som a uma leveza encarte, os “mantras” e orações (há também composições poéticas do maior, maior variedade rítmica, menos baladas e canções com clima próprio músico) aparecem escritas em sânscrito, em caracteres oci- sombrio. A banda se afasta de Nick Drake e se aproxima de um pop dentais sem tradução e em inglês. Todas as letras são comentadas e simples, perfeito, embora mais complexo que bandas de som redondi- em algumas há também interpretação de significado. nho como Holiday e Magnetic Fields. Embora Thriller não seja um As gravações ocorreram em Madras (Índia) e Londres. Nas músicas, álbum inovador ou genial, é um excelente álbum, e uma guinada uma base orquestrada serve de pano de fundo melódico para as inteligente no som da banda. veenas, tablas, e o corpo que recita os versos e os canta . O resultado varia entre a melancolia (“Prabhujee”), o lirismo (“Omkaaraaya RPQG: Palace, Nick Drake, East River Pipe (RG) Namaha”) e o fervor (“Vandanaa Traye”). No mínimo, uma aquisição enriquecedora. Os Três Patinhos - Vamos Brincar Criançada (CBS) RPQG: Ustad Usman Khan, Beatles (fase 66-67), George Harrison, Muito se falou sobre esses três incríveis objetores de consciência, Cornershop (RV) mas muito pouco do que se disse ou se escreveu estava realmente à altura de sua música, um power pop com influências psicodélicas cujo DITADURA ERA IMPLACÁVEL resultado era sempre surpreendentemente visceral. Os Três Patinhos praticavam música honesta e criativa ainda na época do governo Figueiredo. Por sua atitude extremamente contesta- dora e pela acidez de suas letras, foram implacavelmente perseguidos pelos porcos opressores, sendo obrigados a esconder seus rostos por detrás de máscaras confeccionadas pelo estilista e cabeleireiro Chalita (o Steve Martin tupiniquim, que hoje trabalha no Jô Soares Onze e Meia como esteticista). Vocais esganiçados, distorcidos e agudos (muito, muito agudos) desfilavam um cardápio musical variado, que ia de “Mamãe Eu Quero“ a “Um Bom Menino”, versões de clássicos do cancioneiro popu- lar executadas com a competência e seriedade de sempre, marca registrada da banda. A influência musical e a lição de vida dei- PATINHOS VIVIAM DISFARÇADOS
  • 12. 10. Pete Townsend - Face the Face 9. Lou Reed - I Love You Suzanne 8. Paul McCartney - Say Say Say 7. R.E.M. - Shiny Happy People 6. The Ramones - Pet Cemetery 5. Nirvana - Come As You Are 4. Paul Westerberg - Waiting For Somebody 3. David Bowie - Let´s Dance 2. Smashing Pumpkins - tudo desde Disarm 1. Sting - morto desde Every Breath You Take (inclusive) 1.E.A.R. - Mesmerizing 2.E.A.R. - Hipnotizing 3.E.A.R. - Travelling 4.E.A.R. - Flying 5.E.A.R. - Vaporising 6.E.A.R. - Boiling 7.E.A.R. - Enterprising 8.E.A.R. - Terrifying 9.E.A.R. - Drowning (by numbers) 10. Trilha sonora de qualquer filme iraniano
  • 13. Em 1987, saber que sua banda havia lançado álbum novo pela MTV deveria ser um bom motivo de alegria. Mas para Lou Barlow foi um tremendo baque, pois ele não havia sequer gravado este novo disco! Era a época do auge do Dinosaur Jr. (não popular- mente, mas criticamente) e esta história marcou por muito tempo a história da banda que veio a superar o próprio Dinosaur em importância na década seguinte: o Sebadoh. Na verdade, a banda não havia começado neste momento, mas sim antes, quando Lou e seu cole- ga Eric Gaffney resolveram gravar canções bem lo-fi, 4-track, na tradição de Daniel Johnston e outras bandas do selo que acabou adotando a banda: a Homestead. Depois de dois álbuns, entra na banda o grande Jason Loewenstein, que passa a ter uma participação cada vez mais vital no grupo. A partir de agora, você vai conhecer o resto da história por eles mesmos. Lou fez uma entrevista por telefone com o RPM em 28/07/97 e Jason fez logo em seguida por email. Vamos a ela! LB - E então, onde você está agora? adorava todos os tipos de músicas esquisitas e extremas, coisas como Meat Puppets. Mesmo quando eles eram meio que hardcore e country, você sabe. Nós apenas achá- Estou em São Paulo agora. vamos que era interessante [fazer essas coisas]. LB - Bem longe. Uns milhares de milhas. Em 87, não havia essa coisas do lo-fi. Tipo, “Lo-fi é a nova onda” e coisas do tipo. Vocês já foram convidados a tocar por aqui? LB - Mas havia coisas assim antes disso... LB - Hum... Sim, teve um cara que nos telefonou que conhece Ian McKay do Fugazi... Daniel Johnston poderia ser considerado... Eles vão tocar por aqui próxima semana! LB - Sim, Daniel Johnston, mas também haviam coisas como o Swell Maps e Young LB - Sim, o cara que faz a turnê deles tentou nos contactar para tocarmos por aí. Ele Marble Giants. Haviam todas aquelas bandas independentes inglesas na Rough falou que é muito legal, que deveríamos tocar lá. Trade Records, que tinham todos aqueles chiados e loucuras no som. Quer dizer, se você ouvir alguns piratas dos Beatles, [eles] tinham um som meio que porcaria e uma Parece que o Pavement vem em outubro. (nota: foi falso alarme, como se sabe.) gravação totalmente tosca, mas todas aquelas grandes músicas. Algumas gravações, LB - Eles vão? às vezes,... Elas soam meio porcaria mas às vezes aquilo, pra mim, apenas soa Sim. muito melhor. Aquilo soava mais misterioso, mais concatenado. Eu simplesmente gosto da forma que o som distorce, então nós meio que fomos atrás daquilo. LB -Uau, estou meio chocado! Como eram as gravações com Eric Gaffney? Vocês gravavam tudo ao vivo ou tinham Como eram as coisas com o Dinosaur Jr.? E quanto de participação no som da banda muitos overdubs? você tinha, apesar de não ter escrito muitas músicas? LB - Nós fazíamos overdubs, sim, no 4-tracks. Nós fazíamos um monte de coisas LB -Certo. Bem, isso depende de qual álbum. Cada álbum era meio diferente. O separados e colávamos tudo junto na fita. Isso e nós também tocávamos muito ao primeiro [Dinosaur]..., quer dizer, eu escrevi todas as linhas de baixo. J escreveu vivo normalmente. O que fazíamos era lançar as fitas, assim teríamos algo pra tocar todas as músicas, mas eu escrevi as linhas de baixo e cantei às vezes. No segundo quando tocássemos ao vivo. álbum, [You’re Living All Over Me], eu até escrevi duas músicas [Lose e Poledo] no disco, escrevi todas as linhas de baixo e cantei todas as minhas músicas. Mas no ter- Quando você tocava com Eric ao vivo, vocês faziam shows mais acústicos ou elétri- ceiro disco [Bug], eu já nem mais compunha minhas linhas de baixo. J me dizia o que cos? tinha que tocar e ponto final. LB - A maioria era elétrica mas ocasionalmente rolavam uns shows acústicos. Mas Você já sentia que estava caindo fora da banda no sentido que você já nem mais tra- mesmos os shows acústicos eram meio que fora de controle. balhava como membro da banda? Você vai lançar alguns destes shows? LB - Bem, J não parecia muito fazer parte de uma banda. Nós quase sempre atuáva- LB - Eu gostaria, mas Eric roubou todas elas. Ele meio que... mos como se fosse muito difícil e terrível estar numa banda [risadas]. Nós reclamáva- Vou caçá-lo até conseguir essas fitas... mos muito, então era meio difícil se divertir e levar tudo numa boa. Eu pensava, quer dizer, o jeito que tocava baixo, o estilo, isso era muito importante no Dinosaur. LB - Ele meio que juntou todas aquelas fitas ao vivo que tínhamos daquele período. Havia um vídeo da gente tocando no Middle East [em Cambridge] que era totalmente O que influenciou você no início dos trabalhos com Sebadoh, no sentido de lançar louco. Nós éramos mesmo... humm... cassetes com produção lo-fi, pedaços e colagens de música clássica, filmes pornôs e toda aquela merda? Loucos? LB - Hum... Quer dizer... Hum, essa é uma boa pergunta. Quer dizer, eu ouvia um LB - Sim, [risos] loucos. Nós éramos putos e nervosos. Era tudo meio... Foi uma monte de bandas locais que tocavam pela área onde Eric [Gaffney] e eu morávamos época engraçada. e eles soltavam aquelas fitas com som de merda e acho que as canções curtas... eu Porque The Freed Man era tão mais Eric? Basicamente, TFM foi o primeiro álbum estava muito ligado naquela coisa do punk-hardcore, sabe? Aquelas coisas entre as lançado após a saída do Dinosaur Jr... músicas, isso vinha mais de quando eu era bem jovem, quando estava muito ligado em coisas como Throbbing Grissle e bandas mais industriais. Eu gostava de tudo. Eu LB - Bem, na verdade era tudo meio a meio. Tudo que fazíamos, com exceção de
  • 14. Weed Forestin, era na base do meio a meio. Eu tenho certeza absoluta que... Então, nós gravamos o disco inteiro em três dias, tipo, 1, 2, 3. E nós gravamos todas suas [Eric] músicas em 2 dias e ele ficou muito puto. Ele ficou muito, muito, muito, ... é que soa muito mais como Eric. muito, muito, bêbado uma noite e essa noite ele gravou... LB - Há muitas músicas que fiz na espontaneidade, muitas músicas que nós fizemos ...As The World Dies [The Eyes Of God Grow Bigger]... [risos] que eram misticamente loucas e coisas do tipo e que as pessoas já assumiam que eram músicas do Eric. Nós não dizíamos, nós nem listávamos quem escrevia as LB - As The World Dies... Ele fez todos aqueles vocais pra aquela canção enquanto músicas. Nós fazíamos propositadamente tudo de forma confusa e tão grudadas e estava absoluta e poluidamente bêbado. Acho que acabou saindo muito legal. Sean misturadas que às vezes acho que é difícil de acreditar que eu pudesse fazer algo Slade estava... Havia muita tensão entre ele e Eric. Eu acho que tudo acabou sendo que soasse tão fodido e louco. Ficou meio que marcado quem controlava essas para nossa vantagem. coisas, tipo “Eric faz as coisas mais bizarras”, mas ambos éramos capazes de fazer Como foi o início da banda para você, na época do Oven Is My Friend e Asshole? ambas as coisas. Quais eram suas influências então? Mas você tinha que manter a fama de que “Eric é o malvado e Lou é o bacana”. JL- O começo foi difícil. Tocando guitarras com luvas em nossas mãos em uma LB - Oh, totalmente, as pessoas já [assumiam isso]. Mas nós dois éramos “bad garagem congelante no inverno. Nós tocávamos de 0 a 24 horas por dia e lutávamos asses” (fodões) [risos]. Nós éramos malvados/ Nós éramos mesmo, como disse, ferozmente pra decidir quem iria escrever a próxima música que ninguém iria gostar. caras estranhos, verdadeiros terroristas quando tocávamos ao vivo. Havia um gato caolho chamado “Crazy” e um fusca sem chão estacionado na O que saiu antes: Oven Is My Friend e Asshole ou Sebadoh III? garagem. LB - Eu acho que OIMF e Asshole vieram antes... Oh, Deus, essa é uma boa pergun- Sebadoh III tem 3 canções suas. Conseguiam ser mais bizarras que as de Eric. ta. Alguma razão pra isso? ... porque ambos EPs soam mais toscos que Sebadoh III, mas ao mesmo tempo, JL- Os arranjos rítmicos equilibrados que o approach do folk-core moderno ao rock e parecem ter gravações em estúdio... psicodelia, conforme eram interpretados no final dos anos 80 e início dos anos 90, eram algo ao qual tinha que resitir. Eu sabia as formas que os rítmos do dia iriam per- LB - Sebadoh III, o álbum, foi todo mixado em estúdio. mear e ensurdecer nosso mundo com o rugir de sua estagnante pressa. Era um fre- Sim, e por que todas as músicas de Eric foram gravadas em estúdio e a maioria das nesi escapar dele, mas agora eu sinto que fui engolido, pois eu também sou vítima da suas eram gravações caseiras? lavagem. LB - Isso é porque Eric queria gravar em estúdio e eu gostava de minhas gravações E Asshole e Oven Is My Friend? O que você lembra das histórias daquela época? Por caseiras. Eu realmente gostava de todas as coisas que tinha feito no 4-track porque exemplo, todo mundo procura e eu paguei bem caro por eles apesar de ainda não ter tinha trabalhado muito naquilo. Eu só achava que... Nós [também] não tínhamos conseguido o 4-Song CD. [Nota a posteriori: consegui depois de 3 anos de procura!] tempo suficiente para prepará-lo... Nós só tínhamos tempo em estúdio para gravar as músicas elétricas de Eric e mixar minhas coisas de 4-track. LB - Este aí deve ser mais fácil de se achar. E no final, parece que tudo saiu de uma forma muito sólida, um álbum muito consis- Também achava mas... tente. As pessoas parecem adorar o álbum. Pelo menos, todos meus amigos ado- LB - E ele é muito bom, porque as músicas de Jason gravadas em 4-track são real- ram... mente incríveis. Elas são provavelmente algumas das melhores músicas que Jason já LB - Eu gosto dele. ... provavelmente, de uma certa forma, nosso álbum mais comple- fez. Quanto a Asshole e Oven Is My Friend, nós gravamos tudo em 4 canais. Tipo, to. Todas as canções de Eric foram muito bem produzidas, nós trabalhamos nelas, nós produzindo e mixando. nós meio que o forçamos a fazer os vocais, então... pra terminar as músicas, nós afi- E quanto à contra-capa? Parece o Johnny Quest. namos todas as guitarras direito, os caras que produziram o álbum são na verdade, os mesmos caras que produziram o Radiohead... LB - Naquele? O pessoal do Fort Apache... É, parece. LB - Sim, como Radiohead, Hole, então eles eram verdadeiros mágicos no que fazi- LB - Eu acho que não. Não tenho muita certeza. ... apenas algo que Eric... Ele fazia am. Foi meio que legal deixar que as músicas do Eric aos produtores e minhas músi- muitas destas colagens. cas meio que... Eu gosto da forma que as músicas do Eric soaram em estúdio porque É, parecia mesmo Eric. elas ficaram maiores de uma certa maneira. LB - [risos] Deve ter sido a razão dele ter colocado aquilo lá! Eu gosto dele, é meio que misturado... Só tem uma coisa que acho meio estranha. As Há todas aquelas estranhas mensagens, mágicas... três faixas do Jason [Loewenstein] são socadas bem no meio do álbum. L - É, isso parecia fazer sentido porque, humm.... L - É, Eric era meio obcecado por magia negra, a idéia de bem e mal... Tipo: “Ok, eu acabei de chagar bem no meio, então deixe-me jogar algumas coisas Talvez ele seja o cara do Marilyn Manson... no miolo do álbum.” LB -Ele poderia ter sido! Ele realmente achou que eu era “do mal”. LB - Mais ou menos. Sim, Porque minhas letras... É uma história bem interessante. Ela meio que isso fazia algum sentido. Na começou há muito tempo atrás quando estava em minha primeira verdade, eu nunca real- banda, Deep Wound. Ele achava que o Deep Wound fazia músicas mente... Hum. Eric não tinha sobre ele e eu nem desconfiei disso até muito tempo depois, mas isso [mais canções], ele havia explicava muito porque Eric era... Ele realmente achava que escrevia gravado todas aquelas e todas essas músicas sobre ele, e ele achava que o Dinosaur escrevia saiu andando. [Risos]. Ele músicas sobre ele também... odiou Sean Slade e Paul Ele era bem complexado! Kolderie [produtores do álbum]. LB - É, bem complexado e eu não sabia disso até depois do Sebadoh III e, assim que descobri, eu meio que entendi porque ele era tão puto [risos] É mesmo? comigo. Mas não estava certo, sabe? [Risos] LB - [risos] Oh, sim, porque Ele entendeu as coisas [depois] ou não? eles diziam a ele o que achavam. “Você deveria LB - Não tenho certeza. Eu realmente não sei se ele alguma dia enten- refazer isso aí, não estava deu a história. Eu sei que ele é simplesmente o tipo que pessoa que certo”. E ele odiava isso. nunca acredita em nada. Bem, ele nunca acreditou em mim, e nunca Ele até disse enquanto está - pareceu entender mais ninguém. Ele tinha dificuldade em lidar com vamos no estúdio, Sean muitas coisas. Seu pai o abandonou antes dele nascer, seu pai vive Slade estava na sala de [agora] no Alaska, então ele é muito triste. Sua infância foi cortada. E controle, na mesa de som, isso aparecia muito... [enquanto] nós estávamos Tudo parece somar. no estúdio trabalhando em LB - É, tudo se soma, e ele era como eu, ele falava sobre sua vida nas alguma parte de alguma músicas. Ele normalmente falava a verdade em suas canções, de uma música e ele disse: “He’s no forma diferente da minha. Ele dizia suas histórias de uma maneira dife- fucking George Martin!” rente. Realmente acho que complementávamos um ao outro de uma (“Ele não é nenhum porra forma muito legal. de George Martin!”). [risos]
  • 15. Como foi a produção de Smash Your Head On The Punk Rock? É fantástica. pedaço e eu pensava sobre a África e as endorfinas. Sebadoh foi a primeira banda que efetivamente prestei atenção às letras. LB - O que fizemos, quando gravamos, quer dizer, nós não gravamos muito no 4- track. Nós fomos a estúdios normais, mas nós mesmos mixávamos, montávamos nós LB - Nós pensávamos muito sobre nossas letras. Isso vem desde o começo, as letras mesmos. Nós mixamos nós mesmos e fizemos tudo muito rápido. De certa forma, eram muito importantes. Talvez para mim, especialmente, mas até Eric. Sabe, eu quando me lembro de, por exemplo, Bakesale e Harmacy, eu meio que lamento que acho as letras dele em Bubble And Scrape incríveis. Eu gostava muito mesmo de não tivéssemos esse tipo de controle, sabe? Porque acho que... Não...Esses álbuns suas letras. Eu o achava um grande letrista. Ele nunca, quer dizer, ele sempre parecia [Smash Your Head e as versões européias] eram muito, muito crus. Bubble And insatisfeito com todas suas letras, ele nunca gostava de nada. Nós dizíamos: “Nós Scrape foi na mesma balada. Foi numa época semelhante que nós produzíamos tudo podemos fazer tudo de novo, Eric” e ele [respondia] “Não, esqueça, odiei isso”. E ele nós mesmos. As coisas antigas, soava muito como... Mesmo que a produção os dei- tentava se prevenir que suas músicas não fossem lançadas depois. Ele ficava pos- xassem loucos, eu realmente gostava daquilo. Naquela época, eu amava essas sesso comigo por isso. Porque eu dizia: “Bem, nós vamos lançar tudo assim mesmo”. coisas. Eu meio que levava a coisa adiante. Eu meio que forçava: “Nós não temos dinheiro, Algumas pessoas reclamam dos vocais e das mixagens do álbum. vou lançar!”. Era difícil [risos], porque nós éramos todos muito pobres. Era difícil de levar. Quando conseguíamos dinheiro pra bancar um álbum, nós acabávamos tendo LB - Nós realmente gostamos quando fizemos! Nós gravamos juntos, mas Eric iria que usá-lo pra sobreviver. Nós gastávamos metade no álbum, e dividíamos a outra mixar suas próprias músicas, eu iria mixas as minhas coisas, mas em Really Insane é metade em três, assim cada um conseguia se sustentar. meio diferente porque era Bob Fay [tocando]. Era muito... nós realmente controláva- mos tudo aquilo! Por que você acha que Eric largou a banda de vez? O que Circles Around Ruston (Notsur Dnoura Selcric) quer dizer? LB - Naquela vez, ele estava meio que... Ele estava nessa psicose, tipo, por um mês ele parecia estar numa fase feliz e feliz com as coisas ou algo parecido, e aí no mês JL- É algo sobre um fraco fim de dança com a morte. Minha conexão entre a alma e seguinte, ele passava a achar que eu era o mal, que [eu] tentava controlar tudo e o cérebro se tornou uma ameaça à minha saúde e eu senti este efeito. É quente lá na largava a banda. Aí nós o deixávamos voltar, porque era nosso amigo, porque nós Louisiana, e eles bebem muito líquido para manter suas entranhas molhadas. Eles não podem beber enquanto dormem e se ressecam e tornam-se desmiolados. Eles todos entendíamos Eric de uma certa forma, mas no final ele acabou não querendo acordam de manhã para descobrir que têm vivido com mentirosos, que eles real- mais ninguém o entendendo. [Risos] Finalmente, após Bubble And Scrape, nós fize- mente NUNCAencontraram o amor. Eles tinham vivido com o azar, crendo que o que mos uma grande turnê e tocamos em Seattle, e ele disse: “Este é meu último show”. achavam ser verdade ERAmesmo verdade. Neste momento, eles se perderam. Nós respondemos: “Ah, então tá”. Você sabe, ele dizia isso toda hora. Mas aí ele me mandou essa carta maluca. [Nota: essa carta estava no antigo site da banda, que O que o inspirou na época de vs. Helmet e Rocking the Forest, meus álbuns está atualmente fora do ar.] favoritos? Fale um pouco sobre as gravações em si, que soam tão bombásticas e com uma sonoridade “ao vivo” que não se percebe em nenhum outro álbum. Você acredita que ele possa voltar algum dia? JL- Este primeiro lote de cestas foi aplicado na mídia com habilidades limitadas, LB - Oh, não. Hum... Na verdade, um amigo nosso encontrou-se com ele recente- empregada sobre certos aspectos deste esforço. Sons bombásticos foram o resultado mente. desta confusão. E como ele está? E aí nós chegamos a Bubble And Scrape, que para mim é o primeiro álbum de estú- LB - Ele está morando em New York. Então, eu... Eu não... Bem, espero que esteja dio em termos sonoros. Quanta diferença vocês sentiram nesta mudança de formatos tudo bem com ele. Na verdade, ele recentemente conseguiu um advogado. Ele está [de preferir coisas acústicas em 4 canais para um estúdio]? dizendo que nós nunca o pagamos, o que não é verdade. [Risos] LB - Nós trabalhamos praticamente o mesmo tempo nesse. Levou quase o mesmo Você podia pedir pra Homestead Records pagá-los primeiro, já que eles nunca tempo pra gravá-lo, mas é um pouco mais... Nós passamos a tocar junto um pouco pagaram nada a vocês. mais, pelo menos eletricamente. Eu acho que em Bubble And Scrape há um pouco disso. Ambas canções foram minhas primeiras músicas efetivamente elétricas, sabe, LB - É, isso foi mau. Além do mais, as gravadoras que nós trabalhamos... Nós exigi- Soul And Fire e Two Years Or Two Days. Eu sou realmente orgulhoso delas. mos delas que sempre pague Eric diretamente, porque Eric não nos dizia onde esta- va, e disse para sua mãe nunca dizer pra ninguém onde estava e eu tentava mandá- Bubble And Scrape (Deixe embolhar e raspe) foi tirado de uma história ocorrida com você, estou certo? lo e recebia todos os cheques de volta. E isso foi um arranjo que nós fizemos com todas as gravadoras para pagá-lo, e elas sempre fazem isso toda vez, e agora ele sai JL- Sim, eu ainda sinto isso de tempos em tempos. Eu não estou surpreso que você dizendo que nunca foi pago. O que ele fazia todo momento. Nós lhe daríamos dinhei- esteja me perguntando sobre isso. ro e ele falava: “Você pode me arrumar aqueles 20 dólares?” e dizíamos: “Eu acabei de dá-lo”. [E ele dizia]: “Não, você não deu”, “Sim, eu dei!”. Pra dinheiro, era meio... Dinheiro era um problema com ele. Eu acho que de uma certa forma, meus parente sempre foram muito bons pra mim. Eles não tinham muito dinheiro, mas eu confio muito nas pessoas e Jason é bastante confiável também, a maioria das pessoas que conheço são. Mas Eric não confiava em ninguém, então quando dinheiro entra- va no meio, era realmente horrível. Era difícil, muito, muito, muito difícil. Quando as pessoas apenas... Primeiro, [seja] quando é pessoal ou criativamente [as diferen- ças] e quando há dinheiro no meio, é tudo meio... [suspiro] Bakesale para mim soa como um álbum totalmente diferente de tudo que vocês haviam feito anteriormente. Em álbuns anteriores, você pareciam ter uma idéia para a letra e aí você escrevia uma melodia de encontro com a letra. Pelo menos é o que soava para mim. Em Bakesale, vocês parecem procurar mais por riffs e guitarras e aí escreveram letras de encontro aos riffs. ... verdade ou estou totalmente fora de qualquer base? LB - Hum, bem... Hum, não é muito verdade [risos]. Eu escrevi todas as músicas muito como já escrevia antes, em violão acústico, sabe? E coisas como, tipo, Skull. Essa começou com uma melodia, aí então [fiz] as letras, então descobri algumas notas na guitarra, aí toquei com Bob e Jason e se tornou uma música de verdade, sabe? Mas a maioria das minhas músicas, faz muito tempo, quase sempre começam em violão acústico. Você costuma procurar a melodia primeiro? LB - Perdão? Quero dizer que me parece que as letras combinavam perfeitamente com a violên- cia da melodia. LB - Hum. Deixe-me [entender]... Por exemplo, Soulmate. Começa lento, você soa cínico durante a letra e a melodia estoura assim que você começa a cuspir a parte “nervosa”. Eu não sei, mas soa como se você tivesse a letra montada e aí veio com a música pra combinar com a Parece que um certo estilo “Jason” começou a surgir a partir deste álbum. Alguma história interessante desta época? idéia. JL- Sim, eu estava chapado de ácido com minha namorada quando tinha 18 anos e LB - Na verdade, em Soulmate, tudo veio junto. Eu meio que liguei o gravador e meio nós tiramos nossos sapatos e começamos a correr pela rua. Nós corremos um bom que fiz, sabe? [Risos] É difícil dizer, cada música é uma coisa. Então...
  • 16. Jason também mudou muito em Bakesale. melhores músicas. LB - Sim. JL- É algo a se fazer no meio de todo o caos que ocorria na mansão próxima ao oceano. Os gravadores ADAT estavam todos fodidos e a TV ficava ligada o dia todo, Então, o que efetivamente influenciou vocês nessa mudança de Bubble And Scrape todos estavam absortos pensando tanto em que algo iria ocorrer que nada poderia pra Bakesale? ocorrer. Havia bebês correndo e irmãs e tias e namoradas e primos e o caramba. “Era LB - Nós todos, quer dizer, Jason escreveu mais músicas, obviamente. Eu realmente como tocar e pagar pelo casamento de alguém que você não conhece”. acho que suas músicas em Bakesale são ótimas, são minhas favoritas mesmo, de Que história é essa de Bob [Fay] sair da banda? todas que ele escreveu. Eu realmente gosto delas. Mas quando Bob Fay entrou na banda, nós quase tivemos que... Nós tivemos que... Porque Bob não era ... Tipo, seu LB - Jason e eu começamos a tocar com um novo baterista. Seu nome é Russ. estilo era muito mais simples que o de Eric, porque Eric era esse baterista maluco. Ele era de outra banda? Ele era..., mais ou menos, ele era esse... Ele podia fazer muito mais coisas e Bob era LB - Sim, ele estava em outra banda, mas eu nem sei o nome dela [risos] . Eu acho muito mais... Ele podia só fazer esse tipo uma batida de cada vez, então tivemos que que era Caffeine ou algo do gênero. Mas ele tem 22 anos, adora tocar bateria mas simplificar tudo. O que foi legal, porque especialmente após a saída de Eric, nós também sabe tocar guitarra e baixo. Ele é real- queríamos mais nos divertir. E nós estávamos... Nós tínhamos passado por maus mente um grande baterista. bocados com Eric e Bob era um puta amigo nosso, o que foi bem excitante. Nós aprendemos as músicas rapidamente, Bob aprendia tudo rapidamente, e Jason man- Ele é mais “técnico”, dava aquela grande linha de baixo, e nós tocávamos por alguns dias e íamos ao num sentido tipo estúdio, sabe, e era isso. Foi realmente pensado junto. Eu lamento... Quer Eric dizer, eu gosto da energia do álbum mas de alguma forma eu gostaria de [Gaffney]? ter trabalhado um pouco mais em algumas músicas de alguma LB - maneira. Eu gosto de como [o álbum] soa, eu gosto dos nervosismo Ele das guitarras. Sei lá, era somente, foi somente a era de Bob Fay, toca sabe? Tocar com Bob iria mudar as coisas. mais Bakesale foi a prova final que você era tão bom compositor quanto Lou ou Eric, mas os críticos pareciam não levar muito isso em conta. Por que você acha que isso ocorreu? como Jason JL- Eu sou abençoado com a habilidade de ver e resolver problemas. toca. Eu Eu não queria isso, mas posso lidar com esta situação. Mas sou único, adoro a e nem todos podem enxergar este fato. Reconhecimento externo de resul- forma de tados passados não é essencial ao nascimento e realização de novas idéias. Jason tocar bate- Isso necessita outras habilidades. ria, e Russ é poderoso, Indo para Harmacy... Harmacy foi bem recebido pelos críticos mas os fãs mais anti- ele age como um baterista, ele gos parecem odiá-lo ou pelo menos desprezá-lo. Por que você acha que as coisas pensa como baterista, sabe [risos] ? Eu o aconteceram desta forma? conheci quando fui para Louisville, pois fui para lá tocar com Jason porque achava LB - Ah. por causa da produção, eu acho. Eu acho que é porque ele soa muito... Pra que talvez Jason e eu fôssemos trabalhar no próximo álbum do Sebadoh, e talvez mim, Harmacy é uma versão melhorada de Bakesale. Eu acho que as músicas são Bob não fosse mais sair em turnê conosco, sabe... melhores, a produção é um pouco melhor, as guitarras estão um pouquinho melhores. Foi idéia de Bob sair, já que anda tocando com outra banda? Quer dizer, enquanto nós tentávamos... Foi difícil, quer dizer, nós tentamos torná-lo LB - Não, ele está muito, muito, muito nervoso com a gente agora [risos]. Ele está mais poderoso, fazê-lo um álbum mais poderoso, mas não podia ser mais poderoso. bem chateado. É meio triste, na verdade. É uma merda. Porque ele é demais, Bob é As pessoas o estavam comparando a Bread ao invés de Sonic Youth, o que é o opos - o mais bacana. Ele musicalmente é grande. Ele é realmente divertido, ele é um cara to do começo do [Sebadoh]. engraçado pra sair em turnê mas era muito difícil, porque ele nunca foi um baterista LB - Também é porque o álbum inicia-se com uma canção lenta. ... meio elétrica, mas de verdade, sabe? Ele nunca soube como fazer... como Jason e Eric, e mesmo quan- lenta. Eu acho, talvez com o tempo, se você der uma chance, eu acredito que há do eu tocava no Folk implosion com Jonh Davis, todos eles sabiam como tocar bate- várias canções bem diversas, diferentes estilos de produção, e... Há certas músicas ria, todos sabiam como fazer um monte de coisas diferentes com a bateria, sabiam como Too Pure e Beauty Of The Ride que são, acho, algumas das melhores músicas um monte de ritmos diferentes, podiam variar e trocar as coisas pra caramba e Bob que já escrevi, e estou realmente orgulhoso delas. Eu acho que nele falta apenas simplesmente... não podia fazer isso. E isso foi algo que nós sabíamos quando uma certa crueza que as pessoas... começamos a tocar em Bakesale e então no Harmacy. Era assim: “Oh, não... Isso vai ser problema” [risos]. Era complicado, sabe? Nós não podíamos tirá-lo fora, sabe, ...esperavam. porque ele é muito amigo nosso. Mas já fazem 3 anos que tocamos com Bob, e LB - Isso, esperavam. Mas eu acho que mais pessoas odiaram Bakesale quando este Jason e eu, quando estávamos em Loiusville, e Russ veio tocar e fez um jam havia sido lançado, como me lembro. Algumas pessoas que não gostaram do conosco, foi tipo: “Oh, meu Deus!”. Bem, parece que podemos fazê-lo. Bakesale ou mesmo de B&S gostaram mais do Harmacy. Eu realmente estava tentan- Qual o nome completo dele? do... Quer dizer, músicas como Willing To Wait, eu estava tentando, eu havia escrito canções que eram muito... Eu queria ver como elas soavam com uma produção lisin- LB - É Russ Pollard. ha, redondinha. Eu queria ver, sabe, era um experimento para ver se podíamos tocar Assim como Bob Pollard? Estão chamando o pessoal do Guided by Voices pra tocar coisas assim. com vocês agora? Podemos esperar uma versão lounge do álbum? LB - [risos] Sim, é o mesmo sobrenome, mas não há nenhuma relação. LB - Não [risos]. É que, sabe, todo álbum que criamos, nós procuramos tentar coisas Como Russ Pollard entrou na banda? Onde você o encontrou? De qual banda fazia diferentes. Como B&S é um pouco diferente de Smash Your Head..., porque é algo parte anteriormente? E preparem-se para as piadas com o Guided By Voices que cer- mais estúdio. E Bakesale é um pouco diferente de B&S porque tínhamos um baterista tamente virão... e um approach totalmente diferente, havia um estilo de tocar diferente. Isso foi acon- JL- Eu vi Russ tocando trombone e pensei: “esse cara deve dar um bom baterista”. tecendo, e em Harmacy tentamos expandir, tentamos fazer um álbum como Bakesale Eu o chamei pra mesa que estava sentado e comprei o trombone dele por US$ 35.00. mas com mais, tipo, músicas mais lentas, músicas mais rápidas com... Eu toquei bateria com o trombone aquela noite e a bateria soava ótima, eu nunca Mais extremos? toquei tão bem em minha vida. Foi incrível, então fumei um cigarro depois. LB - É, mais extremos, mais dinâmico. Eu gosto de Harmacy mais do que Bakesale. Como você acha que o novo álbum vai soar? Harmacy só funciona em seu conjunto por causa de suas músicas, em minha opinião. LB - Não tenho certeza nenhuma... Elas parecem estar amadurecidas, mas muito mais baseadas em riffs e ganchos, Será na SubPop? acredito. Isso foi intencional? Você ainda sente necessidade de gravar faixas mais esquisitas como no início? LB - Não tenho certeza. Nós estamos mais ou menos pensando em sair da SubPop. JL- Sim, as restrições que o fórum de turnês me deixaram recentemente parecem a Ainda independente ou talvez numa grande gravadora? mim um concerno menor. Haviam limites físicos que aceitei sem entender por comple- LB - Nós estamos pensando em mudar-nos para uma grande. É porque a SubPop to. Estes limites, agora derrubados, podem ser superados através da manifestação agia como uma grande gravadora. Eles tentavam dizer como fazer um monte de intencional de certo caos perdido no meio. coisas, eles diziam quando entrar em turnê, nós efetivamente tentamos trabalhar com O que há por trás de Surly I Do? [faixa de uma compilação da Sub Pop, só lançada eles, e fazer o que pediam, tipo, trabalhar do jeito deles... e na verdade, não funcio- no Japão]. Não parece ser exatamente um outtake de Harmacy. É talvez uma de suas nou muito bem [risos]. Funcionou mais ou menos, mas um monte de pessoas que
  • 17. gostávamos no selo foram despedidas ou largaram. Foi pesado. Eu gosto da SubPop, levou muito tempo pra ser lançado. eu gosto das pessoas nela, mas não é um selo independente. Não parece ser. E o Como será este? Mais garage ou mais como o último? Techno? Vão tocar com o Folk Implosion, como nosso último álbum Dare To Be Surprised, que foi lançado num Chemical Brothers? selo independente [Communion], você não consegue achá-lo em lugar algum. LB - [risos] Um pouco dos dois, acho. DISCOGRAFIA RESUMIDA Mas eu achei no Brasil. É o mais poderoso até agora. A músi- LB - Você pôde? ca é bem mais poderosa, porque Weed Forestin Homestead (1987) somente vinil e cassete fomos a um estúdio maior e há mais É, foi fácil. The Freed Man Homestead (1989) somente vinil e cassete guitarras nele. LB - Mas eu acho que o que é The Freed Weed Homestead (1990) CD - compila parcialmente os álbuns Quem produziu? acima, com versões diferentes em alguns casos difícil é que você pode achá- Sebadoh 3 Homestead (1991) lo em boas lojas mas não LB - Wally Gagel, o mesmo produtor pode achá-los em lojas ruins. Sebadoh vs. Helmet de KIDS e DTBS. City Slang - 20/20(1992) EP- Somente europeu Ah, é claro, mas depende de Rocking The Forest City Slang - 20/20(1992) EP- Somente europeu Algum outro projeto paralelo pela quão longe você quer chegar. Smash Your Head On The Punk Rock Sub Pop (1993) compila algumas faixas dos EPs acima frente? Bubble And Scrape Sub Pop (1993) LB - Certo, eu suponho que LB - Não. Bakesale Sub Pop (1994) desde que há 12 anos que Eu gostei muito daquele que você fez comecei a tocar, eu acho que Harmacy Sub Pop (1996) com Eric Matthews. quero meus álbuns em lojas The Sebadoh Sub Pop/Sire (1999) LB - Belt Buckle. Sim, foi bom, era ruins também. Quando era somente eu, Bob Fay e Eric. pequeno, quando estava na High School, eu comprava grandes discos em péssimas lojas, sabe? É meio Lounge, bem Paul McCartney, e gosto de Paul, pode tacar tomates... Bem, Best Buy [cadeia de lojas de eletrônicos nos EUA] tem Sebadoh e FI, então LB - É porque Eric tocou baixo e ele meio que leva um estilo Paul McCartney no quão pior você pode chegar? baixo. Mas Paul fez parte de uma das maiores bandas do mundo, você sabe... LB - Há um monte de Best Buys no mundo que não..., sabe? Como foi seu trabalho com Will Oldham? Foi um grande trabalho em Viva Last Blues. Há planos de trabalharem juntos novamente? Nós não temos Best Buy no Brasil, mas de qualquer forma, já perdi toda a paciência com o mercado brasileiro. JL - A areia em Birmingham é vermelha pela quantidade de rochas ferrosas na área. Há muitas caldeiras por lá jorrando pedaços derretidos de terra em moldes. Nós não LB - Posso imaginar. Deve ser bem complicado. nos conhecíamos e estávamos surpresos pela quantidade de bons churrascos de O que você acha que o Sebadoh será sem Bob Fay? Alguma idéia? Já decidiram porco na área. qual selo você estarão assinando? Recomenda algo para se ouvir? O que deveríamos estar ouvindo? JL- Sebadoh irá sentir muita falta de Bob. E esperamos assinar com uma boa LB - Você deve ouvir aquilo que acha que deve ouvir. gravadora. Há alguma? A “grande visão” do mercado fonográfico que vejo me dá calafrios. É, eu sei, mas... Você costumava escrever canções muito honestas e irônicas, bem tapa-na-cara, mas LB - [risos] “É, eu sei mas...” [risos] Bem, no momento, não ando ouvindo muita coisa agora você parece escrever coisas mais simbólicas, especialmente com o Folk [nova]. Implosion. É intencional? Por falar nisso, o Sepultura está novamente gravando. LB - Bem, essas letras eu escrevo com John Davis. Ele é mais, tipo, quando escreve LB - É, eu vi Max [Cavalera]. Eu o vi em Nova York! Ele estava ficando no mesmo letras, [ele é] mais poético, então ao combinar-mos meu estilo com o dele, sai... você hotel que estávamos. Eu estava saindo do hotel e k.d.lang passou por mim e Max sabe... Vem algo bem diferente do que eu iria escrever, mais simbólico. Mas há certa Cavalera estava lá e acho que a esposa também, porque estava de óculos escuros e músicas que... você sabe. longos cabelos verdes. Eu fiquei meio assim, tipo: “Oh, meu Deus!!! Max!!! Max!!!” A quantas anda o Sentridoh? [risos]. Ouvi um papo de que largou o Sepultura, mas nem sei o que ocorre. Bem, comprei este CD do Everly Brothers chamado Roots... LB - Eu não... Quer dizer, tudo que tenho feito no momento ou vai para o Sebadoh ou para o Folk implosion. Bem recente! [Risos] Sentridoh era bem legal. LB - Na verdade, todos meus amigos, bem, não todos, mas um tanto deles, gostaram muito, muito mesmo do novo do Radiohead. Então fui atrás e o comprei hoje. E o LB - Eu tenho um monte de coisas em 4-track, mas acho que quero aguardar até... ouvi. É legalzinho [risos]. Sério, a produção é muito boa, o vídeo é muito bonito. No ... você ficar rico e aí pode lançar uma super-ultra caixa com 10 CDs do Sentridoh... geral, a produção é poderosa, mas eu não... Há algo neles que realmente não gosto LB - [risos] Eu quero esperar até ter canções boas o suficiente para lançar um novo [risos]. Me desculpa, não posso recomendar [nada]... álbum do Sentridoh, isto é, boas canções em 4-track. JL - The Beatles. Por falar nisso, é Sen-TRAI-doh ou Sen-TRI-doh? Quais as chances de ver Sebadoh por aqui? LB - Ah, tanto faz, não importa [risos]. LB - Bem, nós iremos aí algum dia, não posso dizer quando. Quer dizer, nós sempre Você lançou 2 singles como Sparkalepsy e pelo menos um fita (Leaches), todos muito esperamos o Pavement ir pra algum lugar e aí somos os próximos. Se o Pavement difíceis de serem conseguidos. Você tem a intenção de lançá-los qualquer dia destes vai, nós podemos ir [risos]! em CD ou numa compilação? Algum material do Sparkalepsy novo talvez? O split sin- JL- Eu ADORARIAtocar no Brasil. Estou cansado da Europa, e enjoado de pessoas gle com o Unconvinced é especialmente bom, com versões superiores às encon- brancas. Seria legal estar ao lado de pessoas que não estivessem de saco cheio de tradas em Harmacy. branquinhos e eu não ter que estar ao lado delas. As pessoas gostariam da gente no JL- Eu não sei o que a fita Leaches é exatamente [NE. - é um pirata], mas tenho uma Brasil? idéia da época. Eu tenho muitas horas de material substandard. Eu não sei se vou Algum comentário final? lançar alguma coisa disso. Eu só quero lançar material que eu ACABO de escrever. JL- Eu acho que precisamos mais organização em nossas vidas. Fazer as coisas que Eu só consigo me interessar pelas coisas por pouco tempo. Essa merda antiga não precisam ser feitas e sentir um senso de realização que você é capaz de fazer por si soa muito bem pra mim às vezes. só. Pense em algo que queira fazer e vá em frente e faça. Aí você pode relaxar um Qual baixo você toca? Algum pedal de fuzz? pouco. Eu preciso fazer paçoca para as crianças agora. Elas estão com fome. JL- Eu gosto do som de meu baixo Rickenbacker plugado em meu pedal “Hot Tubes” da Electro-Harmonix. E DESDEENTÃO ? BEM, ELESASSINARAMCOM A SUBPOP, NOVAMENTE, MAS COMDISTRIBUIÇÃO E quanto ao Folk Implosion? Será um projeto contínuo ou vai parar por um tempo? MAJORITÁRIAPELA SIRE/WARNER. O NOVO ÁLBUMSAIEM JANEIRODE 99 COM O NOME “THE LB - Não, nós entramos em estúdio por 2 semanas semana passada. SEBADOH” E PRODUÇÃODO DAMBUILDER ERIC MASUNAGA. SEGUNDO CONSTA, O ÁLBUMSERÁ MAIS SUJO E COESO QUE HARMACY. MAIORES INFORMAÇÕESEM WWW.SEBADOH.COM. O FOLK É um novo EP? IMPLOSIONASSINOU COM A INTERSCOPE/UNIVERSAL E LANÇAÁLBUM TAMBÉM EM 99. ERIC LB - Não, estamos trabalhando num novo álbum. GAFFNEYFEZRECENTEMENTE SHOWS EM BOSTON E NEW YORK E, SEGUNDO CONSTA, FOI PURO NOISE. O QUE É ÓTIMO. Já? Prolixos! (ESTEJÁ LB - Não, não é verdade. Mas...é, nós terminamos DTBS muito tempo atrás, mas SITE: WWW.SEBADOH.COM FUNCIONA)
  • 18. Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normal- mente é responsável por esta tarefa, que são OS CRÍTICOS. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passa na cabeça de alguns dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. São eles MARCEL PLASSE, do ESTADO DE SÃO PAULO, PEDRO ALEXANDRE SANCHES, da FOLHA DE SÃO PAULO e CELSO MASSON, da REVISTA VEJA. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. Será que eles tinham razão e conhecimen- to para atuarem na imprensa? Qual tipo de influência eles achavam que causavam? Estas foram suas respostas. Lou Reed e Velvet, Patti Smith, David Bowie, Rita Lee e Mutantes, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Erasmo Carlos, Television, Love, Roxy Music e Brian Ferry, Blondie, Sly Stone, Smokey Robinson e Miracles, Sam Cooke, Marvin Gaye, Supremes, Temptations, Clara Nunes, Roberto Carlos, Prince, Michael Jackson e Jackson Five, Sonic Youth, 1. Quais são suas bandas e estilos favoritos? Beach Boys, Nara Leão, Leonard Cohen, Marianne Faithfull, Itamar Assumpção, Elza Soares, Assis Valente, Clementina de Jesus, Araci MP - Mudam o tempo todo. Apenas no ano passado, quatro novos de Almeida, Cartola, Elizeth Cardoso, Funkadelic, Tim Maia, Novos rótulos ganharam destaque na mídia - big beat, speed garage, Paris Baianos, Leno e Lilian, Troggs, Ira!, Marina Lima, Lobão, Modern Disko e electronica. Banda também é uma expressão restritiva, que Lovers, Big Star, Tim Buckley, Nick Drake, Tom Tom Club, Chic, Zé ignora cantores, produtores, músicos, rappers e DJs. Mas você deve Ramalho, Nick Cave, Maria Bethânia, Gilberto Gil... Nos anos 90: estar querendo uma resposta objetiva. No momento, o estilo favorito é Beck, Luna, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Yo La breakbeat, que virou toda uma cultura. Break é uma expressão do Tengo, Júpiter Maçã, Ben Harper, Neneh Cherry, Air, Daft Punk, Sex funk, que virou breakbeat nos dias do hip-hop old school (1974-1983) Beatles, Alvin L. e Cris Braun, Edgard Scandurra, Cássia Eller, e voltou à moda nos últimos anos, passando a ser usada no jungle, no Humberto Effe, Björk, Primal Scream, Beat Happening, PJ Harvey, big beat e também como substitutivo para o rótulo trip-hop entre os Chemical Brothers, Cowboy Junkies, Chris Isaak, Fernanda Abreu, artistas das gravadoras Ninja Tunes e Mo’Wax. Nos últimos meses, os Lenine, Virginia Rodrigues, Wander Wildner, Rita Ribeiro, Soul II Soul, DJs de breakbeats radicalizaram uma cena específica, à parte, origi- A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, Lenny Kravitz, Wyclef Jean, nária do hardcore (estilo de dance music) como o jungle, mas que Jota Quest... representa um racha em relação ao estilo drum’n’bass para os lados do big beat. Gosto de todos as fases e variações das breakbeats, mas 2. Visão sobre o que é a crítica musical (sua função, necessidade nos últimos tempos tenho dedicado mais interesse sobre essa nova etc.) cena, chamada de nu school breaks. Também tenho comprado quilos de CDs de house music francesa, o tal Paris Disko. Dentre os estilos MP - A famosa questão: defina “vida” em 20 toques. Ok, objetividade: clássicos, nada bate a soul music dos anos 60. Artistas que se crítica musical é algo que a revista Rolling Stone vendeu como vital revezam na fila ao lado do meu CD-Player nas últimas semanas: DJ nos anos 60 e que tem pouca tradição no Brasil. A primeira geração Shadow, Fatboy Slim (Norman Cook), Radiohead, Air, Roni de críticos famosos e tupi-guaranis era toda carioca e nos legou o Size/Reprazent, Alan Freeland, Thursday Club/Rennie Pilgrem, Barão Vermelho. A segunda era paulista e nos legou o RPM. Crítico Riverdales, Grooverider, The Mr. T Experience, Kid Loco, Jon Spencer, costumava ser aquele palhaço que levava porrada do Nasi na Folha Nas, Missy Elliot, Cornershop, Aquasky, Plug, Fiona Apple (só para de S. Paulo. Depois, virou aquele que dizia que andava armado para ficar olhando o encarte), Sleater-Kinney, Portishead, Belle and o Nasi na Bizz. Engraçado, mas a função da crítica não é humor, Sebastian, Beth Orton, Spiritualized, Monkey Mafia, Etienne de embora ajude. Cada qual tem sua idéia de crítica. Para começar, Crecy/Motorbass, Stereolab, Bentley Rhythm Ace (BRA) gosto se discute e por isso existe a crítica. Minha visão particular vai Artistas que, volta e meia, fazem fila ao lado do meu CD-Player: the além disso. A música é apenas a ponta do iceberg. Há um elitismo great Sam Cooke, the greatest Marvin Gaye, The Clash, Lou Reed, muito grande na imprensa cultural, que desdenha do pop (cinema de David Bowie, KRS-One, Ultramagnetic MC’s, Isaac Hayes, Run-DMC, ficção científica, literatura de horror, quadrinhos, rock, etc.), mas ele é Beastie Boys, Afrika Bambaataa, Charlatans, My Bloody Valentine, Big a marca mais importante da cultura contemporânea. A pop art, último Star, Replacements, Funkadelic, Curtis Mayfield, Moonshake, AR movimento artístico a ser considerado como tal, copiava os quadrin- Kane, The Loft, The Jesus and Mary Chain, The Shirelles, Herman’s hos, ia ao Club 54, fazia filmes pornôs, se entupia de cocaína e ban- Hermits, Donovan, Melanie, The Ronettes, James Brown, Roy cava o Velvet Underground. É tudo interligado: trilha sonora, compor- Orbison, Eric B & Rakim, The Who, Otis Redding, The Kinks, Small tamento, política cultural. Não é dizer que o Tchan é brega porque é Faces, Herbie Hancock, The Trane (John Coltrane), The Byrd (Charlie brega. As Spice Girls também são. Não é dizer que Madonna é tudo. Parker), Count Basie, Booker T, Jan & Dean, Dee Dee Sharp, Ela já foi considerada brega. Ainda é brega, na minha opinião. Na ver- Mantronix, Blondie, Kraftwerk, The Crystals, Lee “Scratch” Perry, U. dade, meu ideal de crítica é uma variação da antropologia cultural, Roy, Junior Murvin, Joseph Hoo Kim, L. Lindo, Leith Stevens, The uma forma de desvendar signos, índices, ícones, símbolos, significa- Archies, The Byrds, The Chiffons, Shop Assistants, Joe Gibbs and the dos e significantes, de forma a perceber a realidade/atualidade. Não Professionals, Buzzcocks, The Beat, The Cars, Kiss, Beach Boys, The creio que a função da crítica seja ensinar, mas, sim, desvendar o zeit- Fantastic Baggys. Que fila, hein? geist. Não adianta nada você ter ouvido todos os discos de guitar bands (denominação de zineiros brasileiros para o chamado indie CM - Você não acha que isso é um pouco indiscreto demais para ser rock, que fazia sentido nos anos 80), porque a realidade musical não colocado assim, na rede? Eu jamais cairia nessa, meu chapa! é monotemática e, no máximo, essa experiência só serve para avaliar ou falar de um grupo de comportamento muito restrito. Como um fã de PAS - Bem, como são muitos, vou responder muitos. Os de sempre:
  • 19. Radiohead, que só ouviu guitar bands, avalia uma declaração de que sença física (a banda). As gravadoras chiam quando você fala mal de OK Computer foi influenciado por DJ Shadow? O que significa a um produto prioritário. Ficam de mal por uma semana. Na outra, têm relação abobalhada da mídia diante do show do U2 no Brasil? Porque outro produto prioritário e já esqueceram do anterior, porque precisam a comparação com os Beatles funcionou para o Oasis no Brasil? - até concentrar-se na divulgação do novo disco/artista. A maioria dos aces- o jornal do SBT destacou a banda por conta desse cliché. Por que o sores de imprensa estudou jornalismo. São profissionais como os críti- disco de Madonna é um lixo pop vulgar se toda a crítica adorou? Por cos e respeitam o trabalho do outro lado da cerca, embora tenham que alguém tem coragem de defender a misoginia dos Funk Fuckers? que apresentar resultados para os patrões capitalistas. Hoje em dia, já É preciso ter essas respostas e elas dizem muito sobre o estado das estão mais conformados com as idiossincrasias de parte da crítica, coisas, o inconsciente coletivo, grau de alfabetização, etc. de um país, que prefere falar de Roni Size ou Cornershop ao novo disco do de uma cultura, e, nessa época de globalização, que já é total numa Hanson ou das Spice Girls. Mas Hanson e Spice Girls não precisam cidade como São Paulo, essas respostas funcionam como senhas no da crítica para vender, embora as multinacionais vejam o papel do jor- computador da realidade. Uma vez acessado esse mainframe, a cul- nalista como uma ferramenta de vendas. No fundo, é o que o jornalis- tura pode ser vista por uma perspectiva muito mais agressiva. mo atrelado ao cronograma de lançamentos de produtos capitalistas se torna na prática. CM - A melhor definição não poderia ser minha mesmo, então pego essa, de Federico Fellini: “a crítica serve para colocar um produto cul- CM - Costuma ser cordial. A dependência é mútua e ninguém é ingê- tural em seu devido lugar, dentre os demais”. Se essa é uma função nuo a ponto de se achar mais importante. As gravadoras não lançam necessária, não sei. Mas deve ser, porque há dez anos me pagam discos para a imprensa, que também não publica artigos para satisfa- salário para ouvir discos e escrever a respeito. zer os interesses das gravadoras. Quanto mais nítida for essa situ- ação, melhor. PAS - Acredito que a crítica (em qualquer área, não só a musical) seja uma forma de auxiliar a compreensão do mundo como um todo. PAS - É, hoje em dia, absolutamente mercantilizada. Usando um Sendo brasileiro e gostando pra exemplo recente, adoraria receber da gravadora na minha caixinha na caramba de música, acabei me Folha o último CD da Marina Lima. Aí eu poderia olhar, ficar curioso interessando mais pela crítica com a capa, ir ouvir, perceber que tem algo muito especial lá dentro, de música brasileira, acreditan - ficar com vontade de falar com ela, ligar pra ela, falar com meu editor do que refletir sobre o último e convencer ele que tinha algo importante aí pra virar notícia (e crítica) disco da Marina Lima ou do de jornal. Claro que nada é assim. A gravadora manda em cima da Júpiter Maçã possa ajudar, hora, eu tenho tantas horas para ouvir e ir entrevistar a mulher, que mesmo que de forma insignifi - vai estar falando a mesma coisa no mesmo dia para todos os jornais. cante, a entender o próprio E todo mundo vai ficar desesperado pra sair no mesmo dia, pra país, qual é a dele, o que está ninguém “furar” o outro. Mediocridade e comodismo, acho. Resta ten- acontecendo. Aí entra também tar fazer o melhor possível dentro do esquema - mas sem, acredito, o interessa histórico: pelo pas - ficar puxando saco ou ficando amiguinho de artista pra ter vantagem sado da música (os relança - sobre os outros, o que só cria constrangimentos de outra natureza. mentos, os nomes injustiçados, 4. Relação bandas/gravadoras as mudanças que foram acon - tecendo) acho que é possível refletir também sobre MP - As bandas hipócritas - as que não são do tipo Tchan - reclamam evoluções (ou retrocessos) em da indústria, odeiam dar entrevistas, acham tudo medíocre, abominam escala maior. Pensando em playback em programa de TV de baixa audiência, mas não se tornam música estrangeira, também independentes. Isso diz muito sobre elas. Agora, só 8% dos lucros de nas relações (em geral colo - um CD para o artista é sacanagem da grossa. O dono da loja, que nialistas e colonizadas) do papa cerca de 50% do preço, é mais importante que o artista? Brasil com o mundo. Parece esdrúxulo, mas utilizo a coisa CM - Sei lá, não trabalho em gravadora. Vende milhões que mais gosto (a música), para tentar entender todo o PAS - Bem, isso eu acompanho de longe. Não sendo idiota, vejo que resto, até o que eu próprio penso e sinto. Bem, se puder ser assim é bastante mercantilizada também, acho que desumana mesmo. Vejo mesmo, não acho difícil responder que acho a crítica (de qualquer bandas e bandas que certamente fazem (estou falando do Brasil, natureza) crucial, essencial, fundamental - tanto quanto a arte, talvez, claro) sons muito diferentes do que fariam se não fossem as embora menos importante e impactante. pressões. Pra citar um caso recente, não acredito que a Sony não tenha influenciado (mesmo que seja por expectativa de vendagens) o 3. Relação imprensa/gravadoras Skank a fazer um disco exatamente igual ao anterior, apenas com umas disfarçadinhas aqui e ali. Aposta-se no certo, só no certo. MP - Um exemplo: o Estadão proibiu viagens pagas por gravadoras. Parece óbvio, também, que artistas importantes, de qualquer idade - Resultado: o Estadão não deu a coletiva do Oasis no Chile - único jor- cito a Rita Lee, por exemplo -, são absolutamente subvalorizados por nal importante do país a ficar de fora dessa. O que é mais importante, “hitmakers” de quinta categoria (como o É o Tchan, da mesma a notícia ou contar vantagem de jornalismo independente? Por outro gravadora de Rita Lee, a PolyGram, que vende trilhões de discos a lado, historicamente os cadernos de Turismo sobrevivem de jabás de mais). Acho que nos EUA(na Inglaterra, menos) esse negócio é um agências. Acho que o pior caso desse tipo de relacionamento entre tanto diferente, mais inteligente, mas o Brasil ainda é puro Terceiro notícia e jornal é o do jornalista político, que costuma ser convidado Mundo, miséria mesmo. por um político de direita para assumir um cargo de acessoria de comunicação numa campanha eleitoral - mamãe de Gabriel, o 5. Capacidade de indução de gosto musical Estupor, por exemplo. Um jornalista político da Globo é hoje o péssi- mo governador do Rio Grande do Sul. No campo da música, o lobby é MP - Rádios e TV (não MTV) total. Jornais e revistas quase nenhuma. forte e há vários exemplos de jornalistas que passaram para o outro Importa apenas para uma pequena fatia da classe média com o lado, fazendo releases ou mesmo assumindo cargos em gravadoras. segundo grau e universitários, cuja especialização costuma ser na Mas, uma coisa que poucos percebem fora do meio, é que jornalista área de Ciências Humanas. Ou seja, pessoas com cultura mais sofisti- também derruba assessor de imprensa e pressiona por lançamentos cada. de discos. Os setores que têm verba, numa gravadora são os de mídia eletrônica. É notório que há um incentivo financeiro para certas CM - O que isso quer dizer? músicas tocarem no rádio. Não há isso na imprensa, porque o alcance é pequeno. A crítica pouco influi na decisão de compra da massa. PAS - É algo que foge do meu domínio. Por mais que tente ser “cientí- Björk nunca vendeu bem no Brasil, por exemplo - os números são fico”, rigoroso e coerente nas opiniões, não posso deixar de reconhe- mais ridículos do que se pensa. Também, Björk não toca no rádio. cer que elas são, também, fruto de gostos pessoais, de “crenças” pes- Mas tem quilômetros de rodagem na imprensa. A única hora em que a soais. Tento acreditar que meu gosto é condicionado pelo que a arte gravadora investe na imprensa é na hora do show, quando pode oferece, e, sendo assim, o gosto apresenta uma linha de coerência rachar a verba com alguma produtora ou patrocinador de evento, e que é ditada por fatores estéticos, artísticos, políticos até, e não só por quando há algo mais para ser promovido além de música - uma pre-
  • 20. questõezinhas do tipo “vou com a cara de fulano”. Seja como for, o 8. Papel da imprensa musical hoje em dia. que se escreve em jornal ecoa bastante num certo tipo de leitor - aqueles que são ávidos por cultura, por informação -, que acabam, sim, sendo influenciados. Com os artistas também isso é bem percep- MP - Vide respostas anteriores. tível - eles levam muito em conta o que a gente fala, para o bem ou para o mal. Acho que o ideal seria que houvesse muitas vozes, muitas CM - No Brasil, mercado fonográfico que mais cresce no mundo, a opiniões falando ao mesmo tempo e se contrapondo; quantas menos imprensa musical poderia ser utilíssima. Como estou nesse meio, há, maior é o poder - e a arbitrariedade - das que há (é como o posso reconhecer que seu papel atual é péssimo, sem me excluir. Caetano Veloso, ele acaba sendo nocivo não porque é do jeito que é, Tirando as idiossincrasias de uns poucos falastrões, a imprensa musi- mas porque tudo que fala é interpretado como lei, como obrigato- cal não educa, não polemiza e não revela nada de relevante. riedade - e isso é apenas burrice). É péssimo, e do meu lado a única coisa que posso fazer pra tentar atenuar essa coisa de poder é ten- PAS - Deveria, na minha opinião, ser aquele de veículo de reflexão tando não me deslumbrar, manter aquelas diretrizes iniciais de refletir sobre o mundo e de diálogo com ele. Mas, do jeito que tá, é só baju- sobre história, sobre arte, e não sobre vaidades. É complicado. lação, falta de coragem, “em-cima-do-murismo”, falta de criatividade. A crítica, como um todo, parece bicho em extinção, é algo que não se enxerga em quase nenhuma área, em quase nenhum órgão de 6. Papel de transformação da música imprensa, em quase nenhum fórum de discussão. Costumo pensar que é a era FHC por excelência, o mundo virou um gigantesco muro MP - A música nunca transformou nada. Nem a imprensa. O único em que todo mundo tá empoleirado, e todo mundo se cagando de texto que fez diferença, na História, completou 100 anos recente- medo de cair. Falta de vergonha na cara, em outras palavras. mente, de Zola. Bob Dylan não parou a Guerra do Vietnã, embora tenha sido uma das milhões de vozes que se levantaram. Os Beatles 9. O que é pop para você? não mudaram o mundo - na verdade, o mundo mudou os Beatles, da jaqueta de couro ensebada aos terninhos e, finalmente, ao título de MP - O que começou como denominação de música açucarada para cavalheiro para Sir McCartney. Contracultura? Diga isso para a heran- adolescentes - versão branca do rhythm’n’blues de Little Richards, ça de Linda Eastman. Punk rock? The Filthy Lucre Tour. A mulher que Fats Domino, Ike Turner e Chuck Berry - ganhou outro significado nos vira vegetariana porque Madonna virou vegetariana ignora completa- anos 60, com o termo pop art, e virou revista nos 70, Pop. Hoje, vejo mente o budismo - uma cultura apenas milenar -, que agora anda a palavra com dois sentidos: música descartável, forma como é mais influenciando a ex-garota material, que, por sua vez, representava o empregada, e também como toda a manifestação cultural considerada hedonismo nos anos 80, algo bem anti-Buda. Alguém que se veste descartável e inóqua pela elite da Cultura - tipo, o nome do suple- como Michael Jackson não foi mudado pela música. Foi mudado pelo mento de literatura do Estadão se chama Cultura. Assim, pop é a capitalismo. A música não muda o mundo, mas ela informa sobre Internet, o CD-RW, o sample, o DJ, o filme Scream, o gibi do Super- mudanças em andamento, é um índice, em linguagem de comuni- Homem e o álbum OK Computer. Aquele que condena o Tchan repete, cação, a fumaça que se vê, ao longe, num incêndio. Isso não é ape- numa variação de valores, condenação similar a de Julio Medaglia a nas na música - é no cinema, na literatura, nas artes. qualquer grupo de rock que não seja sinfônico como George Martin - ops, The Beatles. Pop é toda expressão cultural surgida na era da CM - Poderia ser mais específico? comunicação de massas que sofre preconceito por parte da high cul- ture. PAS - Bom, parece que ela já teve muito, né? Como pensar em Elvis, João CM - Uma palavra que quebra um galhão na hora de escrever qual- Gilberto, Little Richard, Velvet quer bobagem. Underground, Beatles, Stones, Caetano, os punks e tanta gente PAS - É o conceito-coisa-valor mais forte e presente e importante que mais como revolucionários, altera- existe. Engenheiros do Hawaii podem ser o fim da picada, mas não dá dores do curso cultural da história? pra discordar deles que o papa é pop, o FHC é pop, o tecno é pop, a Mas hoje - não sei se por falta de Madonna é pop, a falsificação dos remédios é pop, a novela das oito é distanciamento histórico - parece pop, a parada gay é pop... Tudo gira em torno do pop, resta diferen- que tudo ruiu. Vejo o tecno modifi - ciar o pop burro do pop inteligente -porque o pop pode ser, sim, a cando o mundo de um jeito entusias- coisa mais inteligente que existe também. E o pop é, com certeza, mante e ainda muito incompreensível, mas algo muito, muito, muito sério - isso muitos estão por entender ainda. de forma mais mecânica, mais fria. A época em que a música era quente parece ter ficado para trás (quem sabe volte...), sinceramente não 10. Quais são as bandas injustiçadas da história? dá pra crer que Tricky, Oasis, Blur, Massive Attack, Portishead, MP - Herman’s Hermits, Joe Meek, Ultramagnetic MC’s, The drum’n’bass e essas coisas todas Cars, Bohannon, Can, Jimmy Cliff, X-Ray Spex, Todd tenham qualquer poder transfor- Rundgren, o grande injustiçado Johnny Thunders, Jan & mador sobre o mundo. Talvez ten- Dean, Modern Lovers (primeira banda de punk rock), ham, eu é que não tô enxergando... Nick Lowe, Eazy-E, Go-Go’s, Marianne Faithfull, Cheap Trick, Blondie, The Jesus and Mary Chain, A Tribe Called 7. Bandas mais importantes da década Quest, Soft Boys, Suicide, Slits, Slick Rick, o grande esqueci- do Schooly D, o lendário quem Sonny Sharrock, Pussy Galore, MP - Mudado para artista: Nirvana, Prodigy, Gram Parsons, The Only Ones, Meat Beat Manifesto, MC Lyte, Primal Scream, The Chemical Brothers, Wu-Tang Clan, Blur, Magnetic Fields, Last Poets, Richard Hell & The Voidoids, Galaxie Radiohead, Spice Girls, Oasis, Beck, Alanis Morissette, Beastie Boys, 500, Marshall Jefferson, Frankie Knuckles, Bomb the Bass, Coldcut, Hole, Smashing Pumpkins, Dr. Dre, Snoop Doggy Dogg, Cornershop, Fugs, Eric B & Rakim, The Hollies, King Crimson, Billy J. Kramer & Goldie, Roni Size, Daft Punk, Sean “Puffy Daddy” Combs, Tupac The Dakotas, Cilla Black... Shakur, The Notorious B.I.G., DJ Shadow, Stereolab, Green Day, Tricky, Massive Attack, Portishead, Fatboy Slim, Bikini Kill, Sleater- CM - Os Carpenters. Nixon disse que eles eram um exemplo para a Kinney, Cypress Hill, Armand Van Helden, PJ Harvey, My Bloody juventude americana. Vindo de quem veio, o elogio foi pura sacana- Valentine, Liz Phair, Pearl fuckin’ Jam, Jane’s Addiction, Nine Inch gem. Nails... PAS - Nossa, são milhares!!!! Troggs, Jackson Five e Michael Jackson CM - Se eu fosse lojista ou promotor de show, diria que é o Oasis - (porque todo mundo pensa que não são sérios), Wilson Simonal, big business como não se via há tempos. Sendo crítico, fecho com Cassiano, Hyldon, Wanderléa, sei lá... Nirvana, Smashing Pumpkins, Radiohead, Morcheeba e Prodigy. PAS - Lá fora: Beck, Sonic Youth, Daft Punk, Chemical Brothers. Aqui: Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cássia Eller, Lenine.
  • 21. A frase difícil de ser era fortemente influenciado acima pode soar meio coberto, com muitas diferenças pelos americanos (Miami bass, crua demais, coisa pra culturais. Era comum termos mer- funk, pop estilo Califórnia). O cados locais fortemente ancora- rock paulistano (Ira!, Ultraje a fazer barulho ou ser um dos em sucessos locais, pois era Rigor, Premê) era ignorado no Rio grande livro de reve- difícil se conseguir coisas “de (Blitz, Biquini Cavadão, Dr. lações. Longe disto. fora”. Tentem imaginar como era Silvana) e vice-versa. conseguir no interior de Minas Pretendo neste texto O primeiro sinal de mudança Gerais, discos de sucessos amer- surgiu com o aparecimento da MTV apenas ilustrar as icanos. Sucessos esses, que bem brasileira. Ela foi importante facilidades e situações se diga, ancorados na novela da por três principais fatores. Globo. As rádios eram claramente que fazem do Brasil a Primeiro: ela foi a primeira dirigidas ao público local. Ou emissora a difundir pelo Brasil terra do lucro fácil eram rádios antigas, com pro- inteiro a mesma programação musical. E a culpa não é dução local, espaço para artis- musical, isto é, o que o cara do tas locais e muita música region- de um grande e malvado Recife via, o cara de Santa Maria al, ou, como passou a ocorrer com também via. Isto é crítico, pois arqui-inimigo. Foi uma muito mais freqüência a partir da foi uma primeira mexida nos mer- coincidência de fatores, década de 80, rádios políticas e cados locais, que sentiram o de igrejas. Ainda assim, elas notadamente negativos, baque. Segundo: a MTV se posi- eram voltadas para sua região cionou em seus primeiros anos com que catapultaram-nos específica, sem fortes influên- o slogan “Você viu primeiro na neste lodaçal que é o cias externas. A coisa era tão MTV” (notem que não se utilizam pulverizada que nunca ouve um Mercado Musical Brasileiro. Alguns pontos principais podem ser ilustrados logo de cara: desde a venda da Continental/Chantecler no começo da década, não existem mais grandes gravadoras nacionais. Isto é importante, pois tudo agora pertence a um cronograma e a um planejamento decidido pelo cartel das Big 6 (Sony, Universal, PolyGram, BMG, Warner e EMI. Detalhe: a Universal com- prou a PolyGram). Normalmente, eles definem (na famosa feira de música de Miami) que será o ano do, por exemplo, merengue, então o foco de todas passa a ser o merengue. Mas isso fica para mais deste slogan). Foi uma por- sistema de auferição de sucessos depois. rada nas rádios. Ao passar a ser ou algo do gênero, apenas o a “emissora” de ponta e lança- Ibope, que media rádios de São Temos dois grandes divisores mentos, todas as rádios foram de águas, se considerarmos o mer- Paulo e do Rio de Janeiro, que atrás da programação MTV. Me lem- cado fonográfico desde que ele ainda assim tinham claramente bro de ouvir coisas como Nirvana diferenças gritantes entre si. saiu da recessão que foi a déca- e Soundgarden na Jovem Pan e São Paulo tinha rádios mais da de 80. Mas o que tínhamos até Chapterhouse na 89FM. O que nos “européias” (acid house, rock então? O Brasil é um país conti- leva a um terceiro e fundamental nental, ocupando um território anos 70, musak), enquanto o Rio ponto: ela quebrou a perna das
  • 22. gravadoras. Explico: ao assumir país. Este crescimento rápido significa que, quem não for dos que iria lançar antes de todo foi motivado por diversos grandes centros, vai quebrar a mundo, inclusive simultaneamente motivos. Primeiro: era interesse cara. Outro problema é que, noto- aos lança- das rádios expandirem rapida- riamente, estas rádios via mentos do mente, pois um dos maiores prob- satélite são do pior tipo. O mercado ame- lemas delas é ligado ao descrédi- Tutinha, da Jovem Pan, já disse ricano e to dos anunciantes quanto à mídia em entrevistas que pra tocar europeu, ela rádio. Antes do surgi- música na rádio dele, as gravado- criou proble- mento da rádio via ras tem que pagar 30 mil dólares. mas às satélite, elas con- O pior é que ele tem razão: as gravadoras, pois seguiam apenas propa- gravadoras querem de graça o que existe um negócio no gandas locais, e claro, a rádio investiu pra conseguir. “entertainment busi- de baixo custo. Ao Afinal, a rádio efetivamente faz ness” que se chama alcançar vários merca- com que aqueles discos sejam ven- cronograma. O SUA P R I N C I PA L INFLUÊNCIA HOJE É dos, a rádio pode nego- didos, e nada mais justo então, lançamento ciar contas maiores com que a gravadora “invista” na nos mercados RESSUSCITAR CARREIRAS MORTAS VIA anunciantes mais rádio. E, quando falamos em pop latino-ameri- ACÚSTICO, DE ROSTINHO COLADO COM poderosos, além de music (foco da rádio), pode acre- canos vem GRAVADORAS. facilitar as promoções ditar que ele tem razão. É podre? sempre alguns com gravadoras e outros É, mas ele está certo neste meses depois do lançamento no anunciantes (automóveis, lojas ponto. E a grande chave é: mercado americano, que vem de departamento, bebidas). O ninguém se importa com isso. alguns meses depois do mercado outro lado é que é vantagem para Ninguém, a não ser alguns poucos, europeu. Isto serve para manter a gravadora: ela faz o jabaculê vai discutir se isso é bom ou uma constância em vendas de numa só rádio que alcança os não. A rádio via satélite vende determinados grupos durante um principais mercados consumidores entretenimento embalado pra todo tempo maior. Ao lançar antes, do Brasil. Isto chama-se redução mundo (veja que são rádios com criava-se a demanda antes, e de custo, e é sempre bem vinda. foco bem específico: a finalmente, quando o CD era Mas e para as rádios que foram ou Transamérica é pop dosado; a lançado no Brasil, o hit já tinha compradas ou passaram a retrans- Jovem Pan, dance com qualquer se evaporado. Foi assim com o mitir o sinal das grandes? coisa que venda; a Antena Um, Teenage Fanclub, por exemplo. Me musak de baixo nível, vendido pra Do ponto de vista econômico, é lembro que a MTV anunciava e Classe A como chique; a Cidade, uma boa vantagem. As rádios via tocava na pro- brega e tudo que venda). A gramação normal Rádios como a Jovem Pan, a dance music passou a ser o coisas como o grande foco nas cidades do próprio Teenage Transamérica e Antena Um passaram interior, graças à força F a n c l u b , a ser ouvidas em todo o país. destas rádios. Não é que não Chapterhouse, existia, mas passou-se a dom- Urban Dance Squad, Luna e Unrest. inar o mercado. E não há escap- satélite tem promoções, bons Quem efetivamente acreditava que atória: você viaja pra qualquer DJs, lançamentos e boas atrações a gravadora lançaria algo destes cidade e as rádios locais são as (Sobrinhos do Athayde, Café Com em condições normais? Unrest mesmas rádios via satélite que Bobagem etc.), coisa que nenhuma ainda por cima era da 4AD, o que você ouve em São Paulo ou no Rio. rádio de Araçatuba tem bala pra piorava ainda mais a situação Como a crítica não é feita e as investir. Além disto, existe uma (tanto é que ninguém acabou demais rádios estão em sua ampla liberdade em certos horários lançando). É lógico que esta maioria na mão de igrejas ou para a programação local (que situação não durou muito tempo: políticos, acabou-se com o normalmente se restringe a as gravadoras passaram simples- regional. “Liguem e faça o mente a boicotar o envio de Esta mudança seu pedido de vídeos e mandavam somente o que de uma mídia música”), o que lhes interessava. Isso é fato: que era agrada ao dono da trabalhava na MTV e foi por este tipicamente rádio e ao públi- motivo que terminou o então inte- local para co local (que se ressante Dance MTV (época de uma mídia de sente, assim, com Felix e The Shamen). Em seguida, massa com- uma rádio que é as gravadoras passaram a enviar parável à “a cara dela”). os vídeos conforme o timing delas televisão E, finalmente, a e proibiam a aquisição de vídeos traz conse- rádio permite fora do país. A MTV americana qüências ainda aos anun- ainda por cima cobrava (e ainda profundas ciantes locais cobra) pelos vídeos, o que faz que pouca (como a TV e suas DICA: PEGUE UMA MÚSICA DO MUTANTES OU DE com que a MTV hoje só toque o gente tem a f i l i a d a s ) ALGUÉM CULT E FAÇA MPB MODERNA EM CIMA!!! sucesso e aquilo que as gravado- prestado realizarem seus ras liberam de graça. atenção. negócios. Tipicamente, um caso O tiro de misericórdia veio de ganha-ganha, certo? Errado. O primeiro efeito é a banal- com a instalação das rádios FM Quem perde com isso é o lado não- ização e pasteurização total da via satélite. Rádios como a Jovem econômico: com a programação música. Se analisarmos bem, não Pan, a Transamérica e Antena Um toda feita fora do mercado local, há diferenças muito gritantes passaram a ser ouvidas em todo o matou-se a produção local. Isto entre a 89FM (rock) e a
  • 23. PARADA DAS RÁDIOS: ACHE A DIFERENÇA, SE PUDER 89 FM 1 Offspring Pretty Fly 2 Metallica Turn The Page 3 Nativus Presente de um Beija-Flor 4 Aerosmith Angel 5 Alanis Morissette Thank You 6 Kiss Psycho Circus 7 U2 Sweetes Thing 8 Jota QuestFácil 9 Foo Fighters Walking After You 10 Capital Inicial O Mundo Jovem Pan 1 Backstreet Boys Quit Playin’ Games 2 Aerosmith I Don’t Want To Miss A Thing 3 Spice Girls Viva Forever 4 N’Sync I Want You Back 5 Terrasamba Carrinho de Mão 6 Terrasamba Liberal Geral 7 Backstreet Boys All I Have To Give Transamérica (pop). As músicas, Estados Unidos e Europa, a coisa Transamérica já é bem mais difusa, existindo em 70% dos casos, são as mesmas mercado para vários nichos. Se as do U2 e do Bon Jovi. E não há Internacional grandes gravadoras deixarem diferenças gritantes entre a 1 Aerosmith I Don’t Want To Miss A espaço, as médias e pequenas Transamérica e a Jovem Pan, pois tomam o mercado. Não por bondade Thing ambas tocam axé. E também não há ou estranha coincidência, a 2 Backstreet Boys Quit Playin’ Games diferenças entre a Cidade e a Matador, a SubPop e a Mammoth Jovem Pan, pois ambas tocam 3 RadioheadFake Plastic Trees foram engolidas inteira ou par- pagodinho. E não há também entre (Música do Carlinhos) cialmente pelas majors. A MTV a Cidade e a Antena Um, pois americana tem muito mais peso do tocam Celine Dion e Whitney que as majors, podendo derrubar Nacional Houston. E todas tocam Skank, ou levantar um artista facil- 1 Terrasamba Liberal Geral inclusive a “alternativa” Brasil mente. Aqui, é o oposto. As 2 Vinny Heloísa Mexe A Cadeira gravadoras, se quiserem, podem 2000. Em suma, é a mesma coisa 3 Charlie Brown Jr. Quinta-Feira boicotar vídeos à MTV (como já para o mesmo público. O segundo fizeram) e ninguém vai ligar, mas efeito foi destruir as propostas a MTV pode quebrar na brin- Cidade contrárias. A massificação veio cadeira. Em compensação, a MTV de forma tão rápida que canais americana ameaçou, ano passado, outrora independentes tiveram 1 Terrasamba Carrinho de Mão a dedicar 50% de sua programação que entrar no esquema para sobre- 2 Lionel Richie Lady à novos artistas independentes viver, vide a MTV, que hoje toca 3 Daniel Adoro Amar Você em sua M2. Foi um baque nas Carla Pérez e Netinho e jogou o majors que reclamaram e chiaram, 4 Fat Family Jeito Sexy Lado B pra sei-lá-que horas, e e a MTV acabou cedendo e trans- 5 Ara Ketu Mal Acostumado rádios como a Brasil 2000, que se formando a M2 em um horário den- 6 Cidade Negra Sábado À Noite diz “alternativa”, mas que toca tro da programação, ao invés de 7 Grupo Sensação Quando o Sol a mesma coisa que a 89FM, com um novo canal. O importante é que Nascer havia um mercado além, que a MTV algumas sutis diferenças. E o que poderia buscar sem depender das isso tem a ver com as grandes 8 Zezé di Camargo & Luciano Pra majors. Aqui no Brasil, não tem gravadoras? Não Pensar Em Você jeito. Não há distribuição inde- 9 Fábio Jr. Na Canção Tudo. No Brasil, como se sabe, pendente, não há canais de divul- 10 Leandro & Leonardo Cumade e não existe uma coisa chamada con- gação independentes (afinal, corrência. Um só meio de comuni- Cumpade tudo ou é igreja evangélica, ou cação atinge 97% do país, e este rádio política ou pertence a um mesmo meio possui emissoras de mega grupo empresarial, normal- rádio, jornais, revistas, mente com gravadoras atreladas gravadora, entre outros meios. por trás), não há mercado inde- Isso sem entrar no mérito do con- pendente. As grandes gravadoras trole da via de informação celu- também não precisam investir lar, digital etc. Sumarizando, a quase nada em novos talentos, concentração é total. Nos pois não há concorrência. É só
  • 24. pegar mais um pagodeiro e eis o trabalho de A&R (Artist & Repertoire). É claro que, pra facilitar ainda mais, cultural- mente, o Brasil é tradicional- ista e pouco chegado em novidades (tradição bem católica essa). As facilidades ainda são melhores aqui pois o investimen- to em divulgação fica concentra- do em algumas rádios via satélite e os 3 canais de TV que fun- cionam. O resto é efeito multi- plicativo: as demais rádios vão no embalo das líderes. Notem tam- bém que temos, no máximo, 20 artistas que eqüivalem a 90% das vendas (ou mais). E isso para o 6o. maior mercado musical do SEUS IMPOSTOS SÃO INVESTIDOS EM NOVOS TALENTOS, COMO ELES AÍ EM CIMA mundo. Que felicidade! É tudo que efetivos até agora, vivendo no uma empresa espera: economia de “Esse é o jogo: tendências ditas vermelho, pois tradicionalmente, escala, pouco investimento em regionais de música multiplicam o ouvinte de poperô não é chega- pesquisa e desenvolvimento (ou do em comprar CD, e sim, gravar seu valor no mercado nacional no A&R), margens altas (se tudo da rádio. quando adaptam seus estilos ao Por que a maior dificuldade das Talvez a mínimo gosto comum. Eldorado gravadoras no Brasil é a pirataria? que, ape- Respeitando as características sar de ser de cada rítmo (e sem questionar é mais barato para se fabricar um do Grupo Estado, tem mantido pos- CD no Brasil, porque ele é mais sua qualidade artística), qual a tura e atitude alternativa e caro que no resto do mundo, exce- parece ser a única capaz de algo. diferença entre o pagode do Só to Japão?) e zero concorrência. Considerando também que a con- Pra Contrariar, o neo-sertanejo Não se pode falar em disputa centração dos meios de comuni- feroz de mercado no Brasil: cada cação é um tabu que não será dis- de Chitãozinho & Xororó, o axé uma tem seus 2 ou 3 hitmakers e cutido no Brasil tão cedo (ape- do É O Tchan ou o funk de sar do perigo que ele represen- por vezes tentam alguma cópia da Claudinho e Buchecha? Tirando ta), onde uma empresa pode domi- Marisa Monte ou do Katinguelê pra nar todos os canais, meios e dis- ver se cola. A Gazeta Mercantil os aeróbicos baianos, todos os tribuição de informação, nada mostrou: dos 22 milhões de dis- outros se afunilam em direção à indica que haverá uma mudança cos vendidos pela líder no Brasil música para ser escutada com o sensível para o futuro. Resta- (PolyGram), 7,2 milhões (32%) nos tentar mudar esta situação co ra ç ã o. “ Se rtanejos, axé, foram relativos apenas aos últi- apoiando atitudes que diminuam mos álbuns do É O Tchan!, Banda funkeiros, tudo está se modifi- tais imperfeições do “livre mer- Eva, Netinho, Cheiro de Amor e cado” (no Brasil, mercado só é cando para o romântico” atesta , Terrasamba. livre pra quem tem grana). Manuel Camero, presidente da Perguntinha pra vocês pensarem e Só para completar: as gravado- Associação Brasileira dos responderem pra nós: porque sem- ras pagam quase nada de imposto, pre o que vêm para o Brasil são pois o ICMS é descontado em 75% Produtores de Discos (ABPD).” os mesmos sucessos de dois meses a título de “busca de novos tal- atrás nos Estados Unidos? Nosso entos na música nacional” e o gosto é exatamente igual ao resto acaba sendo creditado pelo Gazeta Mercantil, 7/08/98, página C-8 deles? Há um gosto mundial idên- pagamento de direitos autorais. tico? Respostas, aqui para o RPM. Pelo jeito, há uma grande evasão fiscal por Dica 1: a pirataria brasileira ocorre sem - aí. Ou o seu dinheiro está pre nos títulos que vendem como água. indo parar na mão do Só Pra Dica 2: as gravadoras não lançam nada Contrariar, o que é pior. que não seja sucesso garantido por aqui. O futuro? Bem, a O violonista e compositor mineiro José Barbosa dos Santos, o Zé Paradoxx anda Côco do Riachão, morreu dia 13 de setembro aos 86 anos, em Montes Claros, comendo pelas norte do Estado, vítima de complicações respiratórias. Natural de Mirabela (MG), bordas por Zé Côco, que fabricava seus próprios instrumentos - violas caipiras e rabecas causa do (uma espécie de violino rústico) -, ficou conhecido por dezenas de melodias nas dance, onde quais procurou retratar a vida dos habitantes do Norte de Minas, algumas acom- agilidade panhadas de imitações de animais como porcos, cachorros e galinhas. conta (algo que as majors Com três discos lançados, era um dos principais intérpretes de músicas da ‘’Folia no Brasil não de Reis, período festivo tradicional do sertão brasileiro, entre o fim de um ano e o tem) e tentou início de outro. Em mais de 70 anos de carreira, Zé Côco ganhou fama interna- emplacar o “country cional e chegou a ser apelidado por críticos europeus de Beethoven do Sertão. music”, mas MÚSICA REGIONAL DE NASHVILLE, SP Infelizmente, seu trabalho é quase impossível de ser encontrado, inclusive o único sem resulta- lançado em CD pela Pau-Brasil. Vergonhoso. muito PARA AGROBOY OUVIR E PAGAR dos
  • 25. A partir deste primeiro número, gostaríamos de apresentar nosso crítico-mascote, o Dude. Estudou na ECA-USP, mas abandonou no 2o. ano, quando passou a escrever seu próprio zine, o Chumbo-Grosso, um marco na produção independente nacional. Logo após, passou a ser A&R na extinta gravadora Columbia e finalmente, se tornou crítico free-lancer. Já escreveu para todos os principais veículos do país, como O Dia, Jornal dos Sports e Diário Popular, com rápi- da passagem pela Folha de São Paulo. Agora, orgulhosamente, faz Ride - Nowhere (Creation/Sire) 1990 parte de nosso time. Neste número, ele irá iniciar a coluna fixa onde Ah, nada melhor do que começar por um dos irá demolir alguns dos álbuns mais álbuns mais odiáveis dos anos 90. Um hino shoegazer, onde todas as bandas indepen- nefastos da história do pop. Em dentes nacionais bebem, comem, vomitam, futuros números, iremos republicar chupam e regurgitam. Letras inin- uma série de resenhas produzidas teligíveis, com vocais sussurrados e, portanto, mais inintendíveis ainda, o por ele nestas quase 3 décadas de Ride surgiu com um sensacional rótulo crítica musical. Sem atrelado, o já citado shoegazer. Nome mais delongas, com este vindo da maravilhosa idéia isola- cionista do artista em criação não vocês... querendo ser perturbado e, portanto, que fica admirando seu sapato enquanto toca, nem aí com seu público. Esta pose, tão amada e compartilhada por muitas outras bandas conceituais, tem entre seus inimi- gos os maiorais da imprensa brasileira - um ótimo motivo para estas bandas serem adoradas pelos indies nacionais -, e trouxe-nos uma dezena de bandas que, de tão relevantes, eu prefiro não citar. E os títulos das canções? Uma coisa linda, que nos remon- ta à uma banda gera- dora de grande inspi- ração nefasta, que é o Cocteau Twins, no sentido de buscar o sonho, o lado etéreo e, claro, sombrio e tristonho. Vejo letras sobre decadên- cia, rastros de vapor e paralisia, que só reconhecemos por causa do título, já que o vocal não se entende mesmo. Musicalmente, as chu- vas de guitarras for- mando um caldo via- jante e químico, com referências a Velvet Underground e à con- terrânea My Bloody
  • 26. Valentine, transmitem um efeito lisérgi- Temple Pilots, Black Sabbath, Pixies, co, claramente indicando o uso de ácidos Padre Marcelo e drogas constantes, o que minimiza bas- Bob Marley - Legend (Island/PGD) 1990 tante todos os problemas anteriormente apontados. Afinal, droga é uma coisa cool Espertalhões de plantão conseguiram que acho bem legal, então concedo este transformar a maioria absoluta de con- ponto em favor da banda. Mas nem ouço ceitos e referências artísticas, autênti- muito o CD, pois a atitude deles é a cas, revolucionárias e contestadoras num única coisa “cool” de verdade. grande supermercado de “ R$1,99”, também conhecido como indústria cultural da Bandas afins: Lush, Cocteau Twins, década de 90. Catherine Wheel, House of Love, O rock virou algo tão complicado de se Cigarettes, Novos Baianos definir, uma palavra tantas vezes aplica- da em situações imbecis que hoje todo Nirvana - Nevermind - (DGC/Geffen) 1991 mundo (quase) acha que ele morreu, está doente etc. Parece que Vamos imaginar o cenário: o mundo é feito perdeu-se a percepção que de alienados e pessoas sem sensibilidade rock deixou de ser ape- estética. Estas pessoas ouvem o que os nas uma “ fusão de músi- outros mandam, são susceptíveis à ca negra norte-americana influência da perversa indústria e de com country e blá-blá- acordo com a moda, ouvem Jesus and Mary blá” já na década de 60. Chain, Iron Maiden ou Leandro e Leonardo. Mais do que isso, Pobres almas, elas não sabem o que fazem. perdeu-se a percepção da existência de uma carac- São cegas e incapazes de tomar uma terística totalmente decisão racional. Pense bem: você também inerente a toda música pode influenciá-las. Você também pode criada a partir da trazê-las para o caminho da luz. Pode segunda metade da década influir no seu gosto e dizer: você é de 50: a atitude, o dis- feliz. “Você foi purificado. Você agora é curso musical e o com- um de nós, que recebeu a mensagem do céu portamento pessoal e tem a mensagem universal de distribui- refletem e são a maior la por este mundo quadrangular. obra do artista. Aleluia!!!” Pois bem, Nirvana é a O resultado de toda essa manipulação pode saudação. A banda que chegou para salvar. ser visto naquele vagabundo xerocado que Você pode até dizer, Nirvana não é tão faz pose de inovador, no artista con- genial como Smashing Pumpkins ou outras sagrado que “repete a fórmula do sucesso” bandas mais avançadas, complexas e umas 500 vezes, na “casta” arrogante dos inteligentes. que controlam os meios de divulgação Mas Nirvana tem uma grande virtude: uti- musical e na influência nefasta que lizando-se de um elemento metal meio dis- alguns bons discos acabam gerando. farçado, ela coloca subliminarmente a Legend é um disco nefasto porque teve seu inteligência nos neurônios desgastados significado esmerilhado, assim como todo pela opressão. Você dirá para o seu o reggae e a cultura rastafari coitado amigo: “Olhe, de acordo com o (religião). É um símbolo involuntário daquele tipinho maconheiro-cabeça-de- lugar que você estiver, você até poderá alienado-pseudo-surfista que infesta afirmar que ainda ouve heavy-metal. Mas metrôs, boqueirões, Maresias, barzinhos no fundo já é um de nós.” Você poderá da Vila Madalena e outros rincões. Outro dizer: “Minha dia, a Jovem Pan FM apresentou a seqüên- primeira vez foi cia “As 7 Melhores do Verão”, músicas com Nirvana. afinadas com o gosto musical ausente de Esta eu não seus ouvintes. Havia, entre as canções, 6 esqueço.” axés e “Could It Be Love?”. O que Ivete Nirvana é uma Sangalo e Netinho faziam acompanhando um banda intro- dos músicos mais geniais do século? Você dutória, que responde... vibra e esquen- Legend é nefasto também porque descarac- ta. Um clássico. teriza o próprio discurso que encerra. É A genialidade de conviver em mundos o fruto musical de um cara com idéias ambíguos, fazendo uma releitura do políticas bem definidas mas o pessoal renascimento e do iluminismo, por cami- só se preocupa com seu (minimizado como nhos barrocos preservando o romantismo da foi) “ritmo hipnótico”. Sendo assim, modernidade. Nirvana é pós-moderno. E qualquer merda que tiver o tal do “ritmo pense bem: Cobain pensou nisto tudo. Tudo hipnótico” do reggae vale (vide Cidade planejado, com toda a emoção e razão Negra atual e toda legião de porcarias unidos em volta do senhor conhecimento. que nasceu inspirada pelo pobre Bob). Nirvana, um grupo. Nevermind é a banda que faz desta semana. Bandas afins: Peter Tosh, Wailers, Ziggy Marley, Obi Marley, Puffy Marley, Cypress Bandas afins: Smashing Pumpkins, Stone Hill, Cidade Negra, Beach Boys

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