EDITORIAIS Rosebud Pop Media é uma publicação sem qualquer periodici-
LOUCOS MAS FELIZES dade, mas tentaremos fazê-lo semestralmente.
Sempre me pareceu absolutamente normal pensar na músi-
Quem fez:
ca como um elemento importantíssimo para a manutenção
Renato Grimbaum - Sun City Girls, Década de 90, Críticos
de quase todas as atividades humanas que envolvessem um
certo teor de inspiração e autenticidade (por conseqüência, a Ricardo Amaral - Internet, Gravadoras, Sebadoh,Críticos
música deveria ser sempre autêntica e inspirada, é claro). Rodrigo Villalba - algo aqui e lá...
Não só na minha vida, mas na de todo mundo, em todas as
sociedades, em todas as épocas, nas garagens, clubes e
Quem ajudou:
carros; a música sempre estava lá, ajudando as pessoas a
colocar os pensamentos em ordem, dando coragem aos Rodrigo Lucianetti
amantes amedrontados, aos soldados confusos, inflamando
discursos de intelectuais e revolucionários, influenciando
email: rosebudpopmedia@zipmail.com.br
decisões de todo tipo.
Em breve: homepage. Aguardem.
Minha idéia a respeito da importância da música nunca
esbarrou na visão obtusa que teima em perceber a arte ape- Rua João de Lery 117
nas como entretenimento, um passatempo. Lembro-me da
Jd. Aeroporto - São Paulo/SP
primeira vez que ouvi “so, central rain”, do R.E.M., e me
CEP 04653-030
emocionei, assim como lembro-me de outras centenas de
vezes pessoais demais, piegas demais para colocar num
texto, em que determinadas melodias ditaram o ritmo e a
forma de viver a minha vida. Na verdade, eu preferiria acre-
CRÉDITO A QUEM MERECE
ditar que toda essa pieguice, todo essa “trilha sonora perma-
nente” com a qual fiz questão de rechear grande parte dos
vinte e dois, serviram ao menos para ajudar na formação de
Pra que um zine? Essa talvez é a pergunta número um que deve
um cara um pouco menos alienado. Um pouco mais sensí-
vir à cabeça de alguns de vocês e particularmente à minha. A
vel, talvez. O problema todo veio à tona, no entanto, quando
resposta até que é simples: porque é necessário. Minha intenção
comecei a desconfiar que toda essa sensibilidade e con-
sempre foi informar as pessoas do que acontece e infelizmente,
sciência crítica seriam apenas sintomas de um grande dese-
quilíbrio mental... nenhum canal conhecido por aqui permite ou faz algo do gênero.
Explico. Lendo revistas especializadas nacionais, ouvindo os Mesmo canais ditos alternativos no Brasil são mais maquiagem
últimos “lançamentos” das rádios brasileiras e assistindo à do que qualquer outra coisa.
televisão descobri que o conceito de música como instru- Existem duas origens para esse desejo de colocar esse novo
mento transformador e enriquecedor da realidade humana
canal no ar. O primeiro surgiu depois de alguns anos. Como
estava totalmente ultrapassado, se é que um dia tinha vinga-
nunca fui muito fã da modinha ou de axé/pagodinho/country
do realmente. Zanzando pelos bares da vida, encontrei três
dance, não foram poucas as vezes que ouvia a seguinte frase:
camaradas (Ricardo, Renato e Lucianetti) que pareciam tam-
bém deveras transtornados. “Você é muito radical!”, “Você é muito limitado!”. Confesso que
“Por que as grandes gravadoras amam o Brasil?”, pergunta- por um momento (ou uns anos), até acreditava nisso, que deve-
va um. “Será que há espaço para a ironia inteligente num ria “abrir mais minha cabeça” e ouvir de tudo. Só que notei que
cenário musical tão grande?”, questionava outro. “Ninguém quem estava errado não era eu: afinal, eu ouvia de tudo e não
se incomoda com tanta mediocridade latente, tanta
me limitava a ouvir somente o que as rádios (e por trás delas, as
repetição, sendo que há uma porção de coisas boas apare-
gravadoras) jogavam. Todos nós do Rosebud ouvimos de música
cendo e se perdendo na obscuridade?”, indagava um ter-
clássica a hardcore, mas primamos acima de tudo por duas
ceiro (coitado) totalmente desgostoso.
coisas: qualidade e inteligência. E isso efetivamente não está nas
Reunimo-nos algumas vezes mais, tentando aliciar críticos
musicais da grande imprensa, DJ´s e celebridades do meio rádios.
para uma conversa séria, sem resultados. Parávamos pes- A segunda origem foi ao descobrir os verdadeiros zines.
soas na rua e berrávamos: “Você não vê o que está aconte- Confesso que zine para mim lembrava “coisa mal feita”, “trabalho
cendo?!? Eles não querem que a gente pense!!!”. Algumas
de fã-clube” e panfleto político. Mas ao passar a ler coisas como
riam, outras gritavam ainda mais e havia aquelas que não
Poptopia, Popwatch, Bucketfull of Brains, Beer Frame, No
diziam nada pois o volume de seus walkmans não permitiam
Depression, Sound Collector, Pop Culture Press, The Bob,
que ouvissem nada além de Shakira e Whitesnake nas FMs
Magnet e duas clássicas: Ptoleimac Terrascope e Wire, notei que
sintonizadas.
Abatidos, voltamos ao circuito de bares da cidade e, após a função do zine era muito mais importante do que acreditava.
uma noite regada a cervejas e divagações, formulamos a Mas dois zines em particular foram os que me motivaram mais:
nossa teoria conspiratória: um grupo nefasto de “extrater- Escargot, da Kathleen Billus e Jeanne McKinney e Stay Free!, da
restres” infiltrados em todos os segmentos da mídia planeja- Carrie McLaren. É para elas que dedico este zine.
va imbecilizar a população terrestre, minimizando ao máximo
os efeitos positivos causados pela boa música. E o pior é
Ricardo Amaral
que eles estavam conseguindo!!!
Bem, aqui estamos. Bem vindos(as) à leitura do Rosebud.
Brincadeiras à parte, sei que nem sempre nossas obser-
vações e comentários serão uma unanimidade mas assim
mesmo resta a certeza de que todos concordamos em dois
pontos:
1- Alguns caras que tocam guitarras e cantam ajudam as
engrenagens da nossa cabeça e do coração a funcionar Bizarre - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (220 7933)
melhor e; Velvet - Rua 24 de Maio 116 - Rua Alta (221 8947)
2- Um pouco da nossa atenção e interesse a respeito das
Parasol - http://www.parasol.com
coisas que tornam essas pessoas tão especiais para nós e
Vinyl Ink - http://www.vinylink.com
para o mundo (mesmo que quase ninguém se dê conta) é o
Forced Exposure - http://www.forcedexposure.com
mínimo que podíamos fazer.
Rodrigo Villalba CDNow - http://www.cdnow.com
CDUniverse - http://www.cduniverse.com
ou em alguma Saraiva MegaStore (que surpreende às vezes)
NASCE UM NOVO TEMPO ca, desde a década de 60: Beatles, Who, Yes, Pink Floyd, Black
Sabbath, Whitesnake, Queen, Motorhead, Sex Pistols, Joy
Porque Rosebud? Responderei no final, mas adianto o quan- Division, Echo & the Bunnymen, Oasis, Kula Shaker e Guided by
to é difícil descrever tal missão em tão curtas palavras. Mas Voices. São inúmeros os exemplos. Mas todas devem algo a
cumpre-nos o dever de tentar. Rosebud existe para informar. Stone Roses. Eu a chamaria de banda aranha, que consegue
Para ser crítico. Para integrar, disseminar cultura. juntar em sua teia as mais diversas influências, e ao mesmo
Pretendemos ao longo do tempo instruir, mostrar o que é tempo tributear-las em um som ao mesmo tempo diverso e
importante musicalmente. Isto é ser crítico, e inteligente. único. O seu pop é o t empo todo inédito, embora cheio destas
Mostrar aspectos ocultos dos grandes mestres do indie pop, referências. A banda tem um punch, uma vibração que progrediu
aspectos que talvez você nem imaginava que existissem. durante os anos 90 como terremotos secundários. Tudo o que
Mais importante que descrições, vamos mais à frente, à práti- se fez na década de 90 reverenciou os Roses. O que fizeram no
ca com pequenos exemplos - as bandas mais importantes de primeiro álbum foi estonteante. Eles nem precisavam ter gravado
rock dos últimos anos segundo toda a crítica mundial (Falarei o segundo disco. E uma vez gravado, não deveriam ter lançado,
de techno e hip hop no próximo número - aguardem!). Estes mas tudo bem. Quem provocou o vagalhão que eles provo-
pequenos mas expressivos exemplos são feitos para que caram, tem seu desconto.
você entenda. E não só isto, para que melhor enxergue a
Esta banda tem três características (4AD,
posição da crítica e do seu novo expoente, este zine. É
Cleopatra, Hyperion) que a coloca no nosso topo. Em primeiro
óbvio, você vai ficar com raiva quando eu falar mal da sua
lugar, o etéreo, a viagem constante e o conhecimento supremo.
banda predileta. Azar. Para nós, críticos especializados, o
É uma banda culta, com raízes em música medieval, árabe, ori-
gosto pouco importa. Você é que deve se adaptar aos con-
ental, africana, gótica e semiótica. Com tanta cultura, seu cantar
ceitos mais atuais, e não nós a você. Você é quem deve
é nosso prazer, conhecimento. Em segundo lugar, ela é perfeita
saber o que é a dificuldade do pensamento de Nietzche, de
tecnicamente. Com som claro, bem produzido, sem um só arran-
Adorno. Do pós-moderno. E porque você deve se adaptar?
hão. A minha vontade é a de mandar o mundo se calar para
Por questão de formação. Porque se estuda? Em geral, a
ouvir DCD. Em último lugar, a banda expressa o mais verdadeiro
maioria dos críticos faz parte de uma classe organizada, edu-
sentimento humano: a tristeza, a depressão. A lamúria, o canto
cada, estudada. Muitos de nós temos boas referências e
triste. As noites silentes, a vagar pela noite calada, com a músi-
antecedentes, pós-graduação na França em onanologia.
ca na cabeça até que a pilha do walkman se acabe. Somente os
Afinal, somos pagos para passar horas em casa fazendo o
ingleses têm esta capacidade, a de trazer a dor profunda para
quê? E se tudo isto fosse pouco, algo me dá sustento. O que
fora, o sofrimento para a claridade, onde podemos, mais que
falo não é diferente do que escrevem a Rolling Stone e o
resolvê-los, senti-los em toda a sua profundidade.
NME. Porque questionar? O que falamos está embasado. O
Aos vivos. Das maiores pro-
que nos falta, talvez, é uma linguagem única, um modo de
fundidades. Um CD de grandes talentos.
classificar similar. Embora de forma não totalmente dis-
Mas nada lentos. Poéticos. Pô: éticos!
cutida, o grupo de críticos tem parâmetros bem rígidos
Junto com Cuscuz clã, CC traz a mais bela
para avaliação dos CDs que você um dia irá ouvir.
perspectiva de uma fusão inteligente entre
Estes quesitos são: 1. Bandas que influenciaram; 2.
a MPB e o pop, embora ele ainda não
Presença de ritmos exóticos e samplers; 3. Postura
tenha feito pop. O regionalismo ao seu
do líder; 3. Profundidade do intróito filosófico; 4.
mais extremo valor. Neste misto de cul-
Relações epistemológicas com o paradigma da esco-
turas, fico imaginando nosso pequeno
la musical e atemporalidade; 5. Tema; 6.
Guimarães Rosa cantando covers de
Composição; 7. Evolução; 8. Harmonia; 9. Enredo.
pop. Seria delicioso ouvi-lo cantando
Enfim, chega de conversa. Vamos à exposição clara
Stone Roses: “I wanna be adored”. Chico
e simplista das bandas abordadas. Ocasionalmente,
César é aquilo que o Brasil precisa: caris-
se você ficar irritado com as opiniões, escreva para o
ma e poesia. Vamos reviver Caetano, Gil,
editor. É importante que você saiba o quanto é impor-
a tropicália. CC traz para todos nós os
tante é a polêmica. Ela é mais rica que a informação. É
bons tempos de volta, a lambreta e a sensi-
a polêmica que faz o meio, que garante empregos e ven-
bilidade. Seus efeitos poéticos trazem mais
das. Portanto, escreva!
percepção que Paulo Coelho. E sua musicalidade
Nirvana trouxe duas coisas importantes para a inédita só nos fazem lembrar nossos grandes ícones, nossas
cena indie. Em primeiro lugar, popularizou a cena indie. Isto estrelas. Brasil, terra eterna da musicalidade.
é importante. Nós não estaríamos hoje ouvindo bandas como
Outra banda britânica excelente. E traz de volta algo
TFUL, Guided by Voices se não houvesse Nirvana. Sua
importante: banda de referência única, Wire. Lembra-se?
entrada para a Geffen, sua veiculação pela MTV foi como um
Monkeys? Eram os novos Beatles. Bad Religion? Os novos
trabalho de conversão e conscientização: milhões de pes-
Buzzcocks. Rancid? O novo Clash. Elastica é como a chama
soas passaram a entender o espírito indie, a questionar a
olímpica, que por gerações leva a mensagem original, preserva-
indústria fonográfica e todo o poder no seu dia a dia. O
da sem distorções, lembrando ao mundo seus votos de paz e
mundo passou a ser mais honesto depois do Nirvana. O
prosperidade.
segundo ponto é mais tocante. Nirvana toca o público mais
Esta banda é uma lição de vida. Uma emoção à parte.
adolescente, adultos jovens em momentos críticos, de confli-
Pense bem: U2 é uma banda veterana, e seu grande mérito é a
to. É aqui que transmitem sua maior identidade. A revolta, a
coerência. Há tantos anos na estrada, e continua dando a
transformação pelo grito. Eu me lembro das notícias de
mesma lição, a mesma garra, a mesma música. Não se deixou
Cobain dopado, quebrando o quarto de hotel em Sampa. Ato
corromper no caminho, nada mudou seu destino. Além disto, U2
da mais legítima transgressão e profundidade. Eles utilizaram
nunca se vendeu. Tem todo o ativismo político incorruptível. Ela
o doping como protesto, o chapado como bandeira. Foram a
nos dá a luta das grandes causas: a Anistia, a Bósnia, as cri-
banda mais revolucionária da década. Viva Nirvana!
anças carentes. Ela canaliza toda a boa vontade das pessoas
Esta é provavelmente a mais importante
numa... boa causa! Caridosa e enérgica, a banda esteve recen-
banda do rock, depois de Love. Apesar de carregar o peso
temente no Brasil e no seu megashow, um espetáculo à parte,
de ser britânica, a banda superou as expectativas. A
competente e profissional, com lindíssimos efeitos sonográficos
Inglaterra é um país onde muito se cobra das bandas, afinal
que deixam a música quase como coadjuvante, a banda deu
o rock está na veia. É o continente onde melhor se faz músi-
uma lição de democracia, de comunicação. Com toda sinceri- Watt mostrou ao mundo que os indies podem ter cargos de
dade, eu, todo o público, todo o país se emocionou quando no confiança, que não são levianos. São sérios e coerentes.
estádio do Morumbi Bozo Vox se expressando com dificuldade Merecem o poder que têm.
falou em nossa língua mãe : “Oi! Boa noite! Rio de Janeiro!” ou Esta banda foi de importância suprema.
“Nós gostamos de ustedes”. A resposta do público foi suprema, Conseguiu trazer o punk o lugar devido da música: diversão.
emocionante. Mesmo em língua estrangeira, o público se O punk errou por décadas, trazendo questionamentos e con-
esforçou e cantou lindamente a letra do refrão da ultra-romântica testações, desviando o caminho de pessoas que iam aos
“In the name of love”. shows com o único intento de se divertir. Agora as coisas
O que se poderia esperar de uma banda com nome estão em seus devidos lugares. O honesto punk do Green
como este? Experimental Day é a mais absoluta
audio research? Genial. Eu, diversão, entretenimento
um reles Experimental (*) lis- garantido para pessoas de
tener me sinto um aprendiz todas as idades.
cósmico. Ouvindo as mais O pop compe-
avançadas técnicas de loop, tente dos Sundays trouxe
drone, collage e marriage aos anos 90 mais atribu-
sonoros, ecoando infinito tos: a pureza. Emoções
num ritmo infinitamente mini- claras e limpas, na voz
malístico e hipnótico consigo cristalina, quase infantil da
atingir o Nirvana tão pre- sua vocalista, que veio a
tendido por gerações e ban- influenciar importantes
das. Uma viagem. EAR con- bandas como Cranberries,
seguiu o que já se acreditava Cardigans e Drugstore. A
impossível: a fusão das EXPERIMENTAL A UDIO RESEARCH doçura e candice desta
filosofias orientais e ocidentais, banda só tem paralelos na
o conhecimento interior através da tecnologia. Consigo com a música mineira, na apologia pastoral à natureza e ao
banda, além do mais, me sentir dialético: ouvir música com quem romance. É a música do nascer do dia, canção do por do
busca sua paz interior, e ao mesmo tempo delirar de prazer com sol, das abelhinhas, dos pássaros e aves, dos campos, e do
as mais recentes conquistas tecnológicas da guitarra eletrônica. sentimento forte, o amor. Sundays é, antes de tudo, beleza.
Bravo! Melancólica e bucólica. Mas beleza.
Mike Watt é uma lenda viva do indie rock, um ver- Este compositor foi aclamado pela críti-
dadeiro ícone. Aquele pelo qual reverenciamos, e todas as vezes ca americana como um dos mais importantes da música pop
que necessitarmos de apoio, nele encontraremos. Tudo o que dos últimos anos. Com músicas absolutamente perfeitas, de
sonho na vida é ter seu autógrafo. Proveniente de uma banda composição clara, com letras irônicas e divertidas, foram
obscura dos anos 80, Minutemen, Watt teve seu talento reconhe- gravadas inicialmente por diversas bandas, entre elas Yo La
cido e lançou, em 95 o álbum conceitual da década, com a par- Tengo. Existem também gravações caseiras, não oficiais,
ticipação de todo mundo que interessa no indie, de Pearl Jam a em fita, que ocasionalmente foram transformadas em CD
Lemonheads. O álbum é o marco básico, um testamento do indie com o momento de inspiração do compositor, com seu
com toda a sua estética gravada em sulcos magnetizados. Um órgão Casio. Para ser sincero, este brilhante lofi é um exce-
álbum destes tem seu lugar na galeria dos imperdíveis, no Indie lente compositor, mas nunca li nenhum comentário a
Rock Hall of Fame, que ainda virá a ser criada. Watt é o elo per- respeito das suas espontâneas interpretações.
dido, o fio comum entre as diversas tendências. Se eu tivesse
que pensar na figura que mais me faz lembrar os anos 90, pen-
saria em Watt ou Bowie. Mais Watt, pois ele deu ao indie este ar Renato Grinbaum
de coisa séria, de instituição adulta, e por isto mesmo confiável.
EXPLICAÇÕES
Quando o Ricardo, o Renato e o Villalba me convidaram para fazer parte deste projeto, que já estava em andamento, descreve-
ram-no rapidamente como um zine basicamente crítico. Informativo, porém buscando a reflexão do leitor. Animado, aceitei o con -
vite e já fui pedindo a minha pauta, além dos textos que eles já haviam terminado e nos quais ainda estavam trabalhando. Qual
não foi a minha surpresa quando, após ler com grande entusiasmo a enxurrada de palavras que invadiram o meu email-box, dei-
me por conta de que a tarefa a que me propus seria um desafio muito maior do que eu imaginara inicialmente. Informações
providas de análise, críticas ácidas, humor refinado, emoção, vontade de transgredir e transformar. Anseios de todos os que não
querem e principalmente não conseguem ficar apáticos com relação a mediocridade do cenário musical brasileiro e com o nivela -
mento por baixo da nossa cultura. Chega de ficar se sentido um alienígena por não se enquadrar no gosto da massa. E se você
também pensa desta maneira está convidado a participar desta conspiração. No entanto, não pense que será fácil ou mesmo
agradável ler estas páginas. A nossa intenção é chocá-lo, incomodá-lo, fazer com que você perceba o mal estar que nós senti -
mos por estarmos rodeados de tanto lixo. Enfim, nós queremos aguçar o seu senso crítico e testar o seu humor. A regra aqui é
ler nas entrelinhas, retirar o tapete que esconde a sujeira. Alternativas a esse cenário existem aos montes e nós também iremos
mostrá-las com todo o prazer, pois, hoje, não há mais desculpas para aceitar o que nos é imposto por falta de opção. O acesso
à informação está cada vez mais facilitado. Ou, se não, como um cara vivendo na insólita e provinciana capital do Estado de
Santa Catarina pôde se juntar a três cidadãos paulistanos para, à distância, criar este canal? Por fim, gostaria de pedir inspi -
ração ao nosso mentor, Orson Welles, para que nos dê a arrogância e pretensão necessárias a nossa missão.
Rodrigo Lucianetti
NOTA DOS EDITORES: LUCIANETTI REALMENTE ACHOU TUDO UM GRANDE DESAFIO: TANTO QUE SUMIU, COM MEDO DO TERRÍVEL EMBATE QUE IRIA
SOFRER. E O RENATO NEGA SEU STATUS DE CIDADÃO PAULISTANO.
PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES soas, como eu, esperaram tantos anos para conseguir estes CDs?
Algumas tediosas resenhas sobre alguns álbuns novos e outros Pere Ubu é uma das melhores bandas de rock que conheço. Nascida
nem tanto na década de 70 em Cleveland, ela antecipou todo o movimento punk,
pós-punk e mesmo o New Wave. Até hoje é uma banda que parece
estar à frente. Porque a importância? Porque foi uma banda, assim
Swell Maps - Jane From Occupied Europe (Mute)
como Modern Lovers, Television entre outras, que transgrediram a
Apesar do início dos anos 80 estarem normalmente associados no norma do pop tradicional dos anos 60 e 70, dos eruditismos do pro-
Brasil com góticos e Joy Division, havia muita coisa boa rolando por gressivo, para construir um rock novo, irônico, provocador e questio-
trás, tanto os pós-punks como bandas inclassificáveis como Wire, nador colocando em primeiro plano o tesão. Se você ouvir os dois
Young Marble Giants e Swell Maps. Teoricamente, ouvir um álbum do melhores álbuns desta caixa, “Modern Dance” e “Dub Housing” vai
Swell Maps de 1980 hoje poderia soar datado, mas não é o que acon- reconhecer sem grande esforço, características que foram
tece. A banda inglesa era formada por pessoas até hoje importantes aproveitadas posteriormente (sem nenhuma conotação negativa) por
no cenário alternativo, os irmãos Epic Soundtracks e Nikki Sudden quase todas as bandas atuais. A relação entre Pere Ubu e bandas das
(que formou o Jacobites), além de Richard Earl e Jowe Head, que décadas de 70 e 80, como Talkng Heads, Joy Division é muito evi-
mais tarde iria aparecer no grande Television Personalities. E como dente. Em alguns momentos, Pere Ubu transgrediu além, mais à
disse acima, é difícil explicar o som da banda a não ser como caótica. frente do que a maior parte das bandas fazem. Conseguem, em
Muitas guitarras, barulhos, efeitos sonoros de helicópteros, baixos momentos brilhantes (“Life stinks” e “Laughing”) serem irônicos,
martelando, beat tipicamente britânico bombas e coisas do tipo. A poe- acessíveis e ao mesmo tempo brincarem com free-jazz. Antes que a
sia da banda nas letras desesperadas de Sudden mesclava-se per- edição fique fora de catálogo, é imprescindível deixar claro: a caixa é
feitamente às experiências sonoras de Epic. essencial não tanto por ser importante, mas por ser um tesão mesmo.
Robot Factory, a faixa que abre o segundo álbum da banda, de 1980,
é um demolidor sonoro. Instrumental com todos os tipos de barulho RPQG - Quase todo o rock atual e desde os anos 70. De Talking
possíveis (nos créditos, todos aparecem tocando “brinquedos”). A Heads a Henry Cow. De Guided by Voices a Joy Division (RG)
segunda faixa segue um tema menos concreto e mais melodioso, mas
o assalto sonoro continua. Apesar disso, há um lado pop claríssimo na DJ Shadow - Endtroducing (Mo´Wax/ffrr)
banda (não tocam assim porque tocam mal, mas porque esta é a
forma que sentem para expressarem-se), como fica claro na maravi- O livreto que acompanha o álbum é bastante sugestivo.
lhosa Secret Island, o que acaba por explicar o status cult que a Agradecimentos aos pioneiros do hip-hop como Grandmaster Flash,
banda acabou alcançando. O álbum é recheado de fragmentos de DJ Premier, Pete Rock. Admiração e elogios à cultura do vinil. Bem,
músicas, coisas de curtíssima duração e drones enormes em faixas deve ser mais um disco de rap ou coisa parecida, certo? Muito errado.
de até 6 minutos, criando uma variedade e uma consistência para um Na verdade, este álbum praticamente representa a ressurreição do
álbum que jamais cansa. A versão em CD contém ainda 6 bonus hip-hop, da cultura de rua iniciada no fim da década de 70, início da
tracks, tão boas quanto o álbum (destaque para o single Let´s Build a década de 80. Mas não pense em hip-hop como rappers e gangsters.
Car, um clássico, e Mining Village, tocada com concreto, máquina de Hip-hop é bem mais profundo que isso, tanto é que não há rappers no
escrever e kazoos - nem adianta me perguntar do que se álbum. Tratam-se de colagens, samplers
trata). Álbum obrigatório para sua coleção de essenciais do bem sacados, com influências que vão do
indie rock. É bastante clara a influência da banda sobre os drone-rock a Björk e jazz. Um disco de um
trabalhos iniciais do Sonic Youth, Thinking Fellers, entre out - instrumentista das pick-ups. Segundo
ros. alguns, DJ Shadow é uma espécie de DJ
Resta complementar comentando a triste morte de Epic virtuoso, pegando qualquer disco que esti-
Soundtracks em 1997, presumidamente por suicídio, causa- ver na frente dele e montando músicas a
do pela separação com sua namorada. Em futuras oportu- partir daí, na hora. É nesse ideal do-it-your-
nidades, comentaremos mais sobre seus álbuns solos, que self que está um forte elemento da cultura
seguiram um caminho bem diferente da proposta do Swell hip-hop. O mais interessante é que, apesar
Maps. de ser um DJ de San Francisco, a única
gravadora que lhe deu uma chance foi a já
RPQG: Wire, Sonic Youth, Thinking Fellers Local Union 282, célebre britânica Mo´Wax de James Lavelle
Fall, Mekons, Swans (RA) (também conhecido por seu trabalho como
U.N.K.L.E.), com outros ótimos artistas em
seu catálogo, como o japonês DJ Krush,
Pere Ubu - Datapanik In The Year Zero - (Geffen Records)
Air, Dr. Octagon e Luke Vibert, um dos
Qual o interesse de se falar de álbuns da década de setenta? remixers do Tortoise.
Inúmeros. Contar somente com novidades é insuficiente. Mas a razão Em faixas como The Number Song, Shadow se utiliza de batidas
principal é o fato de que esta edição dos primeiros, e melhores álbuns jazzísticas em alta rotação, com várias quebradas e mudanças
desta banda estarem disponíveis em edição limitada. Quantas pes- durante os seus minutos de duração. Midnight In The Perfect World é
outro destaque, com batidas mais pesadas, mas ainda assim via-
jantes. What is Killing Hip-Hop In The 90´s é uma brincadeira com o Euphone - Euphone - (Hefty)
mela-cueca do R&B moderno, o que já responde (parcialmente) o títu-
lo em questão. The Organ Song é uma criativa colagem de sons de O termo “pós-rock” é uma das coisas mais difíceis de se definir. tudo
órgão que acabam criando uma cara e identidade própria, muito dife- virou pós-rock, todo mundo quer ser pós-rock. Na verdade, se há uma
rente de um sampler comum, onde este é repetido ad nauseum. Em definição ela é vaga, mas em geral as bandas de pós-rock se apegam
momentos como esse, DJ Shadow se aproxima muito mais de uma à mistura de diversos estilos e tendências sob a roupagem mais rock.
banda do circuito Chicago/Louisville, coisa que apenas DJ Premier
Em geral os estilos mais mesclados são dub, jazz (sem nunca se
(Gangstarr) e Rakim conseguiam fazer. Um álbum que certamente
parecer com fusion), erudito e música eletrônica, incluindo o techno.
marca uma nova era de possibilidades para o hip-hop. Esperem ver
Além disto, não há tanto punch, as músicas são mais calmas e há
este álbum citado como um dos mais influentes da década em breve.
uma grande valorização do conteúdo instrumental sem solos exagera-
dos. Ao contrário, a textura e timbre são mais importantes aqui do que
RPQG: Tortoise remixes, U.N.K.L.E., DJ Krush, Eric B & Rakim, Folk
a habilidade técnica. Entre as melhores bandas de pós-rock, Tortoise,
Implosion (em KIDS), Gangstar, Air (RA)
Bark Psychosis e UI. Euphone é uma banda nova, ainda obscura, mas
com inúmeros méritos. Fazem um pós-rock simples, acessível, de
É o Tchan! - É o Tchan do Brasil! (PolyGram)
sonoridade fácil e rapidamente assimilável sem cair em lugares-
comuns. Todas as faixas são instrumentais, relativamente curtas, sem
Mais um trabalho do grupo afropop que vem conquistando cada vez
nenhuma enrolação. O que chama atenção é a diversidade e a varia-
mais espaços no Brasil e no exterior. E desta vez, eles voltaram com
bilidade. Em cada canção o arranjo, o conjunto de instrumentos é dife-
várias novidades. Primeiramente, a triste saída da Débora Brasil, que
rente, de solo percussão à estranha combinação de órgão-baixo-bate-
deve estar agora preparando trabalho solo. Com isso, a banda deu
ria, passando pela guitarra solo. A referência mais imediata é Durutti
uma virada para a entrada da mineira Scheila, estrela da Playboy de
Column, uma vez que o timbre da guitarra, o eco são bem parecidos.
fevereiro, onde demonstra todas suas qualidades musicais para felici-
Mas Euphone tem maior variabilidade e soa mais espontâneo. O som
dade dos fãs do grupo.
da banda é calmo e tranquilo, sem cair nos excessos viajantes ou
Neste que é o segundo trabalho da
esotéricos. O principal defeito do álbum é sua duração reduzida,
banda com o nome atual, a banda
defeito pequeno perante à qualidade do som.
além da tradicional utilização
de diversos estilos afro-
RPQG: Oval, Neu, Tortoise, Roy Montgomery, Marilyn Decade, Durutti
brasileiros (como o axé, a
Column (RG)
lambada, a dança da
bundinha, a dança da
Kenny G - Love Will Tear Us Apart (My Love Records/Sony)
garrafa, a dança do
põe-põe, o pagode e
Kenny G é o sétimo na linhagem de uma família tradicionalmente
a dança da galinha)
musical. Kenny A, além de ser um dos inventores do jazz melódico e
resolveu inovar ao
emotivo, também inventou Burt Bacharach, Nat King Cole e Peninha.
incorporar a antiga
Kenny B Profunda, além de fazer uma música rítmica e sensual, foi
(mas como disse
uma das pessoas que melhor manipulou o sax alto. Kenny G, filho de
Carla Perez,
Kenny F drogado e prostituído, faz música voltada para o coração,
“ainda desconheci-
como uma apache, arrebatando o músculo com sua flecha,
da”) dança do ven-
despedaçando o querido órgão em mil estrelinhas, cada uma
tre em seu som.
refletindo uma diversa e brilhante influência musical. Seu ecletismo e
Com isso, a banda
cultura são pontuados com uma rígida noção de seu espaço: o amor,
acabou criando o
o sentimento, a espera, esta última no consultório do meu dentista.
world axé, que é a
Neste álbum, Kenny G está no auge da performance, tocando pérolas
mistura da world
de origens mais diversas como “Love hurts” (Nazareth), “Love bites”
music com o axé-
(Judas Priest), “Love is a many splendored thing” (This Mortal Coil),
pagode, uma deli-
“Love me Tender” (Chester), “Love, reign o’er me” (Nelson Ned) e
ciosa combinação de
“Who do I love?” (Smiths) e composições próprias como “Gimme my
elementos rítmicos. Isso
love back” e “Come my love” entre outras. Todas em versões adultas,
tudo faz deste um disco
classificadas com 3X. Hit certo para o inverno que se aproxima, e para
irresistível nas pistas de
a sua próxima viagem de elevador.
dança.
Não espere sutilezas nas letras:
RPQG: Ray Conniff, Richard Clayderman, Whitesnake, Black Sabbath
todas são salpicadas de malandragem
(circa “Changes”), Wando, Chico César (RG)
e malevolência, como convém a uma música tão contagiante. A voz
de Beto Jamaica no hit Ralando o Tchan (Dança do Ventre) pode ser
Bedhead - WhatFunLifeWas (TranceSyndicate)
comparada como duas poderosas caixas de som no alto de uma
ladeira do Pelourinho. Deve-se destacar que a mistura de ritmos é
Apesar de hoje em dia ser meio caído gostar de bandas compostas
constante e inovadora, como se vê nos detalhes do rock de Rock do
por baixo, guitarra e bateria, numa era onde o número de teclados
Tchan, na ginga de Dança do Põe-Põe e a bem humorada Mão Boba.
esquisitos e baterias eletrônicas conta muito, Bedhead consegue ser
Mas eles, apesar dos novos caminhos trilhados, não se esqueceram
ao mesmo tempo única no que faz, e agradar aos que procuram
de seu passado, já que fizeram um medley de sucessos de sambas
coisas mais “modernas”. Originária de Dallas, mas atualmente entre
baianos. Este é um álbum essencial para aquelas festas de sábado
New York e Austin, possui seu núcleo em dois irmãos (Matt e Bubba
regado a muito chopp e alegria.
Kadane) responsáveis pela bateria e guitarra, além de Kris Wheat e
A positiva influência deste álbum deverá se refletir ainda por muitos
Trini Martinez. Estamos aqui falando de seu disco de estréia, o fabu-
anos, como se nota pela explosão de bandas conterrâneas que
loso WhatFunLifeWas, de 1993. A banda consegue neste álbum se
bebem do mesmo rico caldeirão de ritmos musicais que é a Bahia,
utilizar de recursos que, normalmente, já são meio batidos, como
terra de Caetano, Bethânia e Gil. Aguarda-se agora ansiosamente o
drones (passagens repetitivas, como mantras) e build-ups (aquele tipo
que a carreira solo de Carla Perez irá nos apresentar.
de música que vai crescendo em intensidade durante sua execução).
Contudo, isto é feito de uma forma original, já que jogam uma pitada
RPQG: Gerasamba, Molejo, Asa de Águia, Kula Shaker, Karametade,
de country rock psicodélico (leia-se Gram Parsons, ou até
Grupo Raça, Malícia (RA)
mesmo David Roback do Mazzy Star) dentro disto tudo. O
que acontece é que se enriquece de melodia um tipo de
música que normalmente se retém na repetição de 2 ou 3
notas. Além disso, o uso de pedais de efeitos é reduzido a
um fuzz ou algo do gênero, o que faz o disco ganhar ainda
mais em emotividade, em detrimento de simples efeitos de
pedais. Aliás, noise não é algo aplicável ao Bedhead.
Vocais sussurrados mas não inaudíveis ou forçosamente
bedhead “shoe-gazers” criam um clima bastante melancólico, prati-
Sun City Girls é uma banda única.
Daquelas incomparáveis, que você tem dificuldade para
descrever. Para começar as coisas estranhas, os girls
não contam com mulheres na sua formação. São três
marmanjos o Arizona. Na ativa desde 1984, com quase
uma dezena álbuns lançados por gravadoras bastante
obscuras, e diversas fitas caseiras. Como esperado,
quase não conhecidos no Brasil, onde se conhece o que
vende. Pelo menos em geral.
E como caracterizar o som? Bem, ai complica. Para
facilitar, vou traçar um paralelo entre os Girls e uma outra
banda que tem algo próximo: os Residents. Não que os
sons sejam tão parecidos. Não que eu esteja querendo dizer
que a música das duas bandas seja igual, mas algo em comum pode aju-
dar a descrever uma música tão complexa.
1. As duas bandas gostam de fazer álbuns temáticos, ou com assunto único. Residents fez o
Commercial Album e o Third Reich’n’roll, sobre a música pop. Fez Eskimo. Os Girls fizeram um
álbum sobre o pop/hard/blues comercial (Midnight Cowboys from Ipanema), outro sobre música lati-
na (Torch of Mystics) e também um sobre música pop oriental (3003 Crossdressers From Beyond
the Rig Veda).
2. As duas bandas ironizam a música pop tradicional. Ambas possuem uma visão critica
sobre a música que estamos acostumados a ouvir nas rádios. Esta visão crítica e irônica em
momento algum é grosseira ou ridícula. Não há infantilidade. Não se trata de “The killer mamonas”,
nem nada parecido. Ironia pode ser apenas um espelho.
3. A ironia esta basicamente na percepção da estrutura e na forma da música. Os Girls e os
Residents descarregam suas críticas nestes aspectos da música. Distorcem e transformam o pre-
visível. Evitam o formato canção-refrãozinho grudento. Quando os refrões surgem, eles sempre pas-
sam a impressão de estarem deslocados, mas propositadamente colocados ali para chocar. Da
mesma forma, a sonoridade é distorcida, torta mesmo, sem a clareza muitas vezes estupidamente
aberta da música tradicional. A transformação força que você entre na música para perceber sua
sonoridade, nada é imediato. Só que aí reside uma grande diferença entre as duas bandas. A ironia
dos Residents é intelectual, sofisticada e de difícil compreensão. E isto é um defeito. Eles distorcem
a música e seu formato até o ponto que você tem que se esforçar para perceber a proposta, para
assimilar e gostar. Eles mostram um lado distorcido e sarcástico da música, com covers bem estra-
nhas. Sua versão de Satisfaction, dos Stones, beira a perfeição, embora seja constituída mais de
neurônios que músculos. Residents é uma banda difícil. Os Girls não, a banda é descontraída.
Distorce mantendo o punch e a energia do rock. O formato da música não é tão brutalmente recorta-
do como nos Residents. Embora a banda possua momentos jazzísticos ou experimentais, com a
introdução de instrumentos bem pouco tradicionais, neste ponto sem ironia, é essa critica
descontraída que predomina na maior parte do tempo. Você entende a proposta, e gosta
logo na primeira vez que coloca o CD para tocar, embora você seja forçado a participar
da música de modo diferente que no pop tradicional, que entra até quando você está
desatento. Ao contrário dos Residents, SCG continua sendo rock, que apela para
o corpo, para o ritmo, antes de atingir o cérebro. Esta é uma diferença enorme
e marcante entre as duas bandas. Mas diferenças não querem dizer supe-
rioridade ou inferioridade. Das duas bandas, prefiro ambas.
4. Os Girls muitas vezes utilizam os mesmos vocais em
falsete bem estridente, característica muito peculiar dos vocais
dos Residents.
5. Um ponto de divergência: os Residents
abusam dos recursos eletrônicos. Os Girls em
alguns momentos são acústicos, mas na maior
parte das vezes utilizam formação tradicional
de guitarra/baixo/ bateria. Em outros momen-
tos, acrescentam instrumentos apropriados
para o tipo de som, como os sinos e outros
instrumentos orientais em “3003”. E também
improvisam, de um modo quase jazzístico. A
impressão que se tem é que os Girls estão
se divertindo muito enquanto gravam.
Com qual álbum começar? Certamente com o “3003 Crossdressers from Beyond the Rig
Veda” (Abduction Records, 1995). Neste álbum os Girls ironizam não o espirito e a filosofia oriental.
Aliás nem precisa. Estamos todos cansados desta ilusão da década de 60 de que o misticismo ori-
ental seria a salvação do mundo. E que os orientais seriam sempre pessoas sábias e viajantes.
Como se o Tibete fosse a capital do mundo; puro preconceito e desinformação. E reducionismo: cul-
tura oriental é muito mais rica e diversa que isso. E às vezes mais cruel. Os Girls ironizam as
canções pop orientais, ouvidas em radio. Em “Soi Cowboy”, as letras são incompreensíveis.
Aparentemente, os Girls não cantam em língua nenhuma, inventando sons, e o rock bem marcado e simples dá o tom de diver-
são. É um disco belo e divertido, com muito punch. Em todo o álbum algum clima de estranhamento e desconforto acontece.
Nas guitarras esquisitas, no vocal indiscretamente estranho, nos arranjos mais complexos. Mas é este estranhamento, este certo
desafio que agrada. Compreender o som do álbum requer atenção. Não basta ouvirmos ao mesmo tempo que falamos ao tele-
fone.
“Torch of the mystics” (Abduction Records, 1991) também é uma boa escolha, mas ele pode parecer um pouco mais
estranho a principio. Eles tocam lambada, distorcendo o ritmo de uma forma brilhante. Também um grande álbum, com uma bela
capa e encartes. Os primeiros álbuns são de assimilação mais difícil. Há momentos
jazzísticos, de improvisação, e uma audição mais atenta e cuidadosa é necessária
para melhor apreciação. Alguns destes momentos persistem nos álbuns mais
recentes, porém de um modo melhor trabalhado e com recursos musicais bem
superiores. Os últimos CDs são mais fáceis e espontâneos sem perder o punch e a
vitalidade originais. Os Girls são daquelas bandas que... bem, chega. O negócio é
ouvir e curtir essa banda, que por sinal não é mais conhecida talvez porque sua
ironia seja madura o suficiente para ser indesejada. A comédia acrítica, pastelão
agrada enquanto reforça. A comédia crítica alfineta e pode incomodar. E além
disso, nem sempre é fácil aceitar algo novo e inesperado. Às vezes é preciso cora-
gem para podemos gostar do diferente. Neste caso então é melhor ficar com a
nossa velha parada de sucessos. A melhor razão para gostarmos de um hit é o
tanto que já vendeu... Unanimidade, meu amigo!
BANDAS AFINS: Residents, e provavelmente tudo de pop/rock que você possa imaginar, desde que distorcido e ironiza-
do. Em particular God is My Co-Pilot, Zip Code Rapists.
A rede mundial se tornou o grande hype da mídia nos últimos anos e de certa forma, muito disto é justi-
ficável. Mas, talvez uma das maiores vantagens acabou surgindo para nós, pessoas isoladas culturalmente
da música de qualidade produzida pelo mundo afora. Vejo como nossa principal vantagem em relação à
Internet, a possibilidade de efetivamente procurarmos o nosso nicho de gostos e preferências.
Considerando o estado massificante e acachapante dos meios de comunicação brasileiros, cada vez
menores espaços para as variações e diferenças de gosto serão permitidas. Resta a rede, que facilitou não
somente a possibilidade de contato com pes-
soas do mundo inteiro, mas até mesmo dentro
de uma mesma cidade (o que é, inclusive, o
caso do Conselho Editorial deste zine), pelos
gostos e estilos que possuem. Isso sem contar
com a moleza da aquisição de material antes
caríssimo, quando vinha pra cá.
Então esta coluna pretende dar algumas dicas
de sites interessantes para o que achamos inte-
ressante. Isso significa que nem sempre sites
bonitinhos serão escalados. O conteúdo é o que
manda por aqui.
E conteúdo é o que não falta no site da Matador
Records (http://www.matador.recs.com), de
longe, o melhor site de gravadora atualmente no
ar. E há uma história por trás disso, que começa
há muito tempo atrás. Gerard Cosloy, um dos
sócios da gravadora junto com Chris Lombardi,
era o editor de um dos zines mais importantes e
mais cultuados dos anos 80, o Conflict. Esse
zine era caracterizado pela acidez, ironia e
finesse com que tratava todos os assuntos.
Chagavam ao ponto de criarem cartas falsas
(com endereços existentes!) pra montar seções,
mas era extremamente confiável quanto a suas
resenhas. O tempo passou, o zine acabou, ele montou a Matador e chegamos ao site, que mantém muito
deste estilo. A boa sacada do site é que ele possui as resenhas mais sarcásticas e engraçadas que exis-
tem (o que por si só já é corajoso, dentro de uma empresa), além de algumas surpresas. Todo ano, a
gravadora lança “campanhas institucionais” no site - uma bruta tirada de sarro no marketing moderno - e
entre elas estão o ridículo “Stay´n´school”, onde a Matador e seu cast recomendam às crianças ficarem
na escola, enquanto aprendem com vários materiais “educativos” (com muita propaganda da Matador,
claro), e a campanha pró-armamento do Detetive Paully (troque suas armas por
outras menores, para redução da violência).
Agora, nenhum destes artigos bate o ácido Stop The Vote, uma tiração de sarro em
cima do mais que babaca projeto da MTV americana para eleger os democratas, o
Rock the Vote. Nestas série de páginas, a Matador convida todos a registrarem-se
para não votar nas eleições. Uma das melhores piadas é uma foto do fuzilado
Tupac Shakur dizendo “Este ano não voto de JEITO NENHUM!!!”. Também alegam
que muitas pessoas bonitas e de sucesso, como alguns dos Kennedys, não votam.
E, caso você tenha que votar, por que não em candidatos patrocinados como Papai
Smurf, Caco e Gonzo e o Jack, do Jack´n´the Box (fotos disponíveis no site)?
Há também o newsletter ¡Escandalo! (que eles fazem questão de dizer que não é
um zine, o que bastante ético, já que é uma peça comercial com o estilo de um zine,
prato cheio pra marqueteiro fazer pose de “cool”), com várias matérias interes-
santes (não deixem de ler That´s Edutainment, uma crítica ao comercialismo da edu-
cação, Worst Of The Web -o pior da Web - e Matador Lite, onde comparam bandas “originais” e suas ver-
sões “Lite”) e entrevistas com bandas não necessariamente da Matador.
O site ainda oferece boas informações sobre as bandas do selo e vários links de fãs. Terrível mesmo só a
parte comercial do site (eficiente na tela, mas um tanto confusa na hora de mandar material para o Brasil
e agora dependente da CD Now), mas que vale a pena, pelo menos para ganhar um colante “Yo La Tengo
For President” ou algo do Guided By Voices.
Essa é a dica de site deste mês, e com certeza você vai
perder muito tempo dentro dele. Na próxima edição,
falarei sobre o Stay Free!, que de certa forma tem a ver
com este site.
O que faz
uma banda
ou uma
cena
serem mar- Mas na primeira metade da década a principal e mais marcante
cantes? Uma questão de percepção simples. Muitas boas bandas mudança vem de Louisville, Kentucky. Slint. Banda formada por ex-
fazem um som convencional, já um pouco batido. Bem, se alguém faz membros de uma banda de hardcore, Squirrel Bait, e que foi progres-
competentemente um som da mesma forma que os Beatles, esta sivamente se dissolvendo em outras bandas como Bastro, Rodan e,
banda soará desgastada, sem nada de novo. Ocasionalmente você a posteriormente, em bandas com tendências as mais diversas: pop
chamará de vazia, embora competente e divertida. São bandas de (King Kong), pós-rock Tortoise, experimental/minimalista (Gastr del
pouca expressão. Uma banda ou cena marcante são aquelas que Sol), instrumental (Aerial M), rock (June of ‘44, Retsin), elementos de
trazem algo de novo no conteúdo, ou, principalmente, quando con- erudito (Rachel’s) e assim por diante.
seguem se expressar de forma diferente. Não necessariamente exper- Talvez Slint não seja minha banda predileta do período, nem a que
imental e árdua, mas certamente diferente e por isto mesmo estranha mais ouço. Mas é a mais marcante. A que mais mudou o cenário
num primeiro contato. É esta transgressão, ou evolução, que fazem da musical. Não foi Nirvana. Nevermind é um bom álbum, mas como
música, inclusive a pop, um instrumento, arte, mais do que uma sim- expressão não é muito diferente do rock que se fazia nos anos 80.
ples diversão. Poucas variações. Já Slint traz estas mudanças. Num único álbum,
O que foram os anos 80, ou sua segunda metade? Em primeiro lugar, Spiderland, de 1991, Slint fez mais que o bastante. O som traz diver-
é preciso enfatizar um pouco a queda do rock inglês. Muita coisa boa sas coisas novas, e outras recicladas numa nova forma, como aquela
se produziu e ainda se produz na Inglaterra, mas em especial na área construção de canção que parece circular, geométrica, a exemplo de
eletrônica e dance. O pop inglês, embora de qualidade, passou a se King Crimson (“math-rock”). Mas Slint está longe de Robert Fripp.
importar mais com a aparência e postura do que com a música. Todo Com Slint, de certa forma há uma volta a músicas longas, com um
o pop inglês é divertido e bem feito, sem a menor dúvida. Mas como grande destaque ao setor instrumental. Mas sem solos, sem exibi-
expressão, repete bandas e cenas anteriores com evoluções peque- cionismos do rock progressivo. Ao contrário, as guitarras são ásperas,
nas. Já no meio da década de 80, Big Black, Pixies e Sonic Youth e o som está mais próximo de Big Black do que de Genesis. A grande
mostraram que a evolução maior no pop e rock estaria em terreno e mais fundamental diferença está no modo de se trabalhar o instru-
americano. Os yankees começaram a ficar mais criativos e ousados, mental. Antecipando um pouco o que virá a ser incorporado no ainda
procurando quebrar o excelente ciclo britânico de dez anos, que, vago “pós-rock”, Slint trabalha climas e ambientes. Modula tensões e
naquele momento, já começava a se repetir e pouca coisa nova trazia, sensações com pausas em momentos precisos, alternados com diver-
apesar da insistente histeria dos tablóides, colocando Stone Roses sos ambientes criados, entre eles momentos pesados. Em outros tre-
como uma das bandas mais chos, a guitarra lenta, sombria é acompanhada de um vocal sussurra-
importantes na evolução do pop. do, quase imperceptível. Climas e sensações, descrições. Emoções
Stone Roses, e boa parte do brit- bem construídas, com sensação de espaço bem ocupado. Slint, sem
pop, repetem fórmulas con- nenhuma complicação ou intelectualização faz um som acessível e
sagradas. Sua luta maior, como já inteligente. E são estas mudanças, esta abertura do rock/pop para
dito, é no vestuário, na forma de algo mais descritivo e trabalhado, mas mantendo-se o formato pop e o
se colocar numa entrevista, no punch de bandas bem barulhentas como Big Black é que fazem esta
clip, na mídia britânica. banda ser um marco importante no início desta década. O álbum
Musicalmente competentes, mas contém somente seis músicas, mas é homogêneo, segue uma
sem a ousadia das bandas ameri- lógica e parece ter sido todo pensado, bem construído.
canas que surgiam. Sim, o DIY, A cena Louisville, como já dito, não se resumiu à sonoridade do
essência da mudança nos anos Slint. Vide Rachel’s, Gastr del Sol,
70, estava gasta e sem alternativa Palace, Smog, Sonora Pine, etc.
na Inglaterra, e renascia de forma Mas Slint se comportou ao con-
distinta do outro lado do mar. trário, a própria banda encerrou o
Os anos 90, ao contrário do que sempre diz seu trabalho por aí, e o EP de 95
a crítica séria, são ricos e diversos. Do rock contém canções compostas e
ao eletrônico, do folk ao pop, cenas fragmen- gravadas na época do Spiderland.
tadas e bem setorizadas são de grande valor Cada membro da banda seguiu
e qualidade, embora transgressão maior, seu caminho, procurando não
como anos 60 e movimento punk, não ocor- repetir o Slint, mas levando esta
reram e nem se esperava que ocorressem. idéia de espaço para diversas
As mudanças não ocorrem primariamente no sonoridades, ampliando a lin-
mundo da música, mas nas mentalidades. guagem do pop.
Os anos 90 deste ângulo foram e estão Óbvio. Muita gente gostou de
sendo um pouco apáticos. Mas só um pouco. Observando com maior Slint. E o que fizeram? Alguns entenderam o recado. Outros, ao invés
atenção, todas as iniciativas são individuais, ou em pequenos grupos. de aproveitar a idéia do espaço e modulação, procuraram repetir o
Dificilmente uma banda terá impacto de Beatles, a sociedade já não som de Slint, como uma família. E o que isto gerou? Esgotamento.
tem uma linguagem comum. Ao contrário, quando uma boa banda que Repetição. Cansaço. Boas bandas, como Rex, June of ‘44 e A Minor
você gosta começa a aparecer demais, toca em todas as rádios e TVs Forest possuem identidade própria. Mas após um certo tempo
e até aquele seu colega nerd conhece, você passa a olhar a banda acabaram se tornando repetitivas. Outras são meros clones, e trans-
com desconfiança. Porque será? formaram a perspectiva Slint em acomodação. Linguagem morta.
Nos anos 90 as mudanças musicais são fragmentadas, moleculares, É por isto que logo algo seria necessário para que não houvesse uma
dentro de pequenos universos. O pop perfeito e simples está pre- estagnação. Bem, mudanças podem ocorrer em grandes saltos, mas
sente, sendo lançado por pequenas gravadoras, vide Apples in Stereo com maior freqüência ocorrem lentamente, quase que de forma imper-
e Holiday. TFUL 282 é a banda mais diversa e ousada da década, ceptível. Na maioria das vezes, diversas bandas vão somando
embora inacessível em alguns momentos. O LoFi, gravações caseiras mudanças até que alguma faz uma espécie de síntese e aí surge o
de má qualidade técnica, reinou de 87 a 95, com lançamento de impacto.
dezenas de bandas que de outra forma talvez não conseguiriam O que discutiremos na próxima edição é a segunda metade da déca-
gravar. O LoFi foi moda, e, de certa forma, chegou ao desgaste. Entre da, o que estamos vivendo agora. Enfim, muito do que está aconte-
as boas bandas, Sebadoh, Mountain Goats, Smog, Strapping cendo, em especial o pós-rock, guarda alguma relação com Louisville,
Fieldhands, Palace, Grifters, Guided by Voices. Stereolab é outra mesmo que de forma bem indireta.
banda marcante no período, assim como Trumans Water, P.J.Harvey,
God is My Co-Pilot e tantas outras que injustamente não serão Álbuns recomendados:
citadas.
Pavement foi uma das bandas mais importantes do período, com um Slint - Spiderland (Touch & Go)
grande, imenso mérito. Conseguiu trazer uma forma nova de Bastro - Diablo Guapo (Homestead)
expressão de modo claro o suficiente para ser compreendido por um Rachel’s - Handwriting (Quarterstick)
público maior. Este tipo de banda, que consegue conciliar uma lin- The For Carnation - Marshmallows (Matador)
guagem nova e inteligente com o grande público é talvez o tipo de Rodan - Rusty (Quarterstick)
banda mais importante que temos. Não adianta, no meu modo de ver, June of ‘44 - Tropics and Meridiens (Quarterstick)
uma nova linguagem que permanece restrita. Além disto, me impres- Palace Brothers - Days of the Wake (Drag City)
siona a postura da banda: o melhor é vê-la após anos de estrada, não Smog - Julius Caesar (Drag City)
fazendo pose para mídia, mantendo sua coerência.
xada por esses artistas apaixonados sobrevive até hoje através de
seus filhotes: Paulo Ricardo, Herbert Viana e, é claro, Perry Farrell,
Dance Of The Celts -
que presta uma merecida homenagem aos seus mentores no clip
(Narada)
Pets. O hábito de cobrir o rosto em apresentações é imitado por mem-
Você conhece John bros da banda paulistana Pavilhão 9 num rasgo de tietagem explícita.
Constantine, o personagem Longa vida à memória dos Patos!! Que as próximas gerações saibam
mais sem-vergonha do univer- reconhecer a sua importância.
so de quadrinhos Vertigo (uma Frases : “Somos mais famosos que o Pato Donald...”(Patinho Número
divisão mais adulta da DC 2, em uma declaração polêmica, que gerou protestos da Igreja e
Comics)? Bem, esse álbum é a demais instituições conservadoras); “Avoz nunca é aguda
trilha sonora ideal para acom - demais”.(Patinho Número 1); “Quá, quá !!!”(todos)
panhar o anti-herói em suas
investidas irlandesas. Também RPQG: Chico César, Planet Hemp, Pavilhão 9, Banana Split (RV)
é uma ótima música de fundo
para tomar todas, para brigar, Ravi Shankar - Chants Of India (Angel)
confraternizar com aquele amigo que você não via fazia tempo e
dançar sozinho no seu apartamento. Primeiro, a necessidade de algumas confabulações sobre a música
Começo ridículo para uma crítica séria? Bem, a tradição celta ao qual étnica . Ouvir um CD de canções folclóricas ou tradicionais de um país
as quinze bandas dessa coletânea pertencem com certeza não dá a pode ser comparado, em muitos sentidos, a assistir a uma aula de
mínima para a sua seriedade. Por isso, é bom não tentar encará-las ciências humanas . O professor (músico) e a matéria (música) podem
desse jeito...ou de qualquer outro. Apesar do compromisso em difundir ser extremamente agradáveis e interessantes, podem tornar a com-
a cultura saxônica através dessa iniciativa musical, Dance of the Celts preensão (audição) algo extremamente acessível e encorajador, para
é executada de maneira fleumática e descontraída. Não é New Age. É que todos os alunos procurem, cada vez mais, informações sobre o
Old Age. Ouça no acampamento, bêbado, e troque uma idéia com o assunto e referências sobre sua aplicação na música cultural contem-
leprechal mais próximo. porânea (entenda-se aqui, influência musical sobre artistas diversos).
Da mesma forma, tudo pode ser
RPQG: Pogues, Mark Lanegan, Pogues (RV) um grande pé no saco.
Chants of India, de Ravi Shankar,
é composto de diversos elementos
Lambchop - Thriller - (Merge)
que acabam enquadrando-o na
Está bom. Nashville, country, isto tudo é coisa chata. Lambchop é de categoria de “ótima aula; professor
Nashville, gosta de country, mas não é. É uma banda folk, como tarimbado”. É um disco leve, sem
Leonard Cohen, Nick Drake, Palace e tantos outros. Uma marca da solos de cítara de vinte e cinco
banda é o arranjo, uma vez que a banda sempre toca junto como uma minutos, que apresenta textos
gangue, uma mini-orquestra, assim como Tindersticks. E, assim como sagrados dos Vedas, Upanishas e
os ingleses, faz um som melódico, depressivo, quase sombrio, bem ao outras escrituras sagradas, canta-
gosto de “Five Leaves Left”, do Nick Drake. O álbum de 1995, “How I dos e musicados por pessoas que
Quit Smoking” muito provavelmente estará entre os melhores da déca- conhecem bem o ouvido ocidental,
da, por misturar este estilo folk de Drake com algo um pouco mais mas que têm vínculos suficiente -
rural, muita slide guitar, sem em momento algum ser countrymente mente fortes com a tradição hindu
pífio. Mas a banda não para por aí. Kurt Wagner, o mastermind da para não comprometer a qualidade musical em nome de uma criação
banda pretende algo mais pop, dá uma guinada no som da banda. “mais comercial”. Assim, optou-se conscientemente por uma obra
Boa parte das faixas deste álbum foi composta por F.M. Cornog, do didática e profunda, uma excelente porta de entrada para quem quer
East River Pipe, que faz um pop simples, quase lofi, bem melódico e conhecer mais sobre a fonte onde tantas bandas de pop andam
com letras bastante depressivas. Aliás, as canções de Cornog matando a sede, sem cair na armadilha da New Age e sem abandonar
ganham uma roupagem diferente, bem mais rica com Lambchop e é a audição antes do fim por estranhamento.
interessante comparar com a pálida simplicidade do East River Pipe. Ravi Shankar é velho conhecido dos Beatles e do seu público. A pro-
Na verdade, Lambchop é a mais britânica das bandas folk ameri- dução e co-autoria do álbum fica creditada a George Harrison . No
canas. A diferença é que no novo álbum tende o som a uma leveza encarte, os “mantras” e orações (há também composições poéticas do
maior, maior variedade rítmica, menos baladas e canções com clima próprio músico) aparecem escritas em sânscrito, em caracteres oci-
sombrio. A banda se afasta de Nick Drake e se aproxima de um pop dentais sem tradução e em inglês. Todas as letras são comentadas e
simples, perfeito, embora mais complexo que bandas de som redondi- em algumas há também interpretação de significado.
nho como Holiday e Magnetic Fields. Embora Thriller não seja um As gravações ocorreram em Madras (Índia) e Londres. Nas músicas,
álbum inovador ou genial, é um excelente álbum, e uma guinada uma base orquestrada serve de pano de fundo melódico para as
inteligente no som da banda. veenas, tablas, e o corpo que recita os versos e os canta . O resultado
varia entre a melancolia (“Prabhujee”), o lirismo (“Omkaaraaya
RPQG: Palace, Nick Drake, East River Pipe (RG) Namaha”) e o fervor (“Vandanaa Traye”). No mínimo, uma aquisição
enriquecedora.
Os Três Patinhos - Vamos Brincar Criançada (CBS)
RPQG: Ustad Usman Khan, Beatles (fase 66-67), George Harrison,
Muito se falou sobre esses três incríveis objetores de consciência, Cornershop (RV)
mas muito pouco do que se disse ou se escreveu estava realmente à
altura de sua música, um power pop com influências psicodélicas cujo
DITADURA ERA IMPLACÁVEL
resultado era sempre surpreendentemente visceral.
Os Três Patinhos praticavam música honesta e criativa ainda na
época do governo Figueiredo. Por sua atitude extremamente contesta-
dora e pela acidez de suas letras, foram implacavelmente perseguidos
pelos porcos opressores, sendo obrigados a esconder seus rostos por
detrás de máscaras confeccionadas pelo estilista e cabeleireiro Chalita
(o Steve Martin tupiniquim, que hoje trabalha no Jô Soares Onze e
Meia como esteticista).
Vocais esganiçados, distorcidos e agudos
(muito, muito agudos) desfilavam um
cardápio musical variado, que ia de
“Mamãe Eu Quero“ a “Um Bom Menino”,
versões de clássicos do cancioneiro popu-
lar executadas com a competência e
seriedade de sempre, marca registrada da
banda.
A influência musical e a lição de vida dei- PATINHOS VIVIAM DISFARÇADOS
10. Pete Townsend - Face the Face
9. Lou Reed - I Love You Suzanne
8. Paul McCartney - Say Say Say
7. R.E.M. - Shiny Happy People
6. The Ramones - Pet Cemetery
5. Nirvana - Come As You Are
4. Paul Westerberg - Waiting For Somebody
3. David Bowie - Let´s Dance
2. Smashing Pumpkins - tudo desde Disarm
1. Sting - morto desde Every Breath You Take
(inclusive)
1.E.A.R. - Mesmerizing
2.E.A.R. - Hipnotizing
3.E.A.R. - Travelling
4.E.A.R. - Flying
5.E.A.R. - Vaporising
6.E.A.R. - Boiling
7.E.A.R. - Enterprising
8.E.A.R. - Terrifying
9.E.A.R. - Drowning (by numbers)
10. Trilha sonora de qualquer filme iraniano
Em 1987, saber que sua banda havia lançado álbum novo pela MTV deveria ser um
bom motivo de alegria. Mas para Lou Barlow foi um tremendo baque,
pois ele não havia sequer gravado este novo disco! Era a
época do auge do Dinosaur Jr. (não popular-
mente, mas criticamente) e esta história marcou
por muito tempo a história da banda que veio a
superar o próprio Dinosaur em importância na
década seguinte: o Sebadoh.
Na verdade, a banda não havia começado neste
momento, mas sim antes, quando Lou e seu cole-
ga Eric Gaffney resolveram gravar canções bem
lo-fi, 4-track, na tradição de Daniel Johnston e
outras bandas do selo que acabou adotando a
banda: a Homestead. Depois de dois álbuns, entra
na banda o grande Jason Loewenstein, que passa
a ter uma participação cada vez mais vital no grupo.
A partir de agora, você vai conhecer o resto da história por eles mesmos. Lou
fez uma entrevista por telefone com o RPM em 28/07/97 e Jason fez logo em seguida por email.
Vamos a ela!
LB - E então, onde você está agora? adorava todos os tipos de músicas esquisitas e extremas, coisas como Meat Puppets.
Mesmo quando eles eram meio que hardcore e country, você sabe. Nós apenas achá-
Estou em São Paulo agora.
vamos que era interessante [fazer essas coisas].
LB - Bem longe. Uns milhares de milhas.
Em 87, não havia essa coisas do lo-fi. Tipo, “Lo-fi é a nova onda” e coisas do tipo.
Vocês já foram convidados a tocar por aqui?
LB - Mas havia coisas assim antes disso...
LB - Hum... Sim, teve um cara que nos telefonou que conhece Ian McKay do Fugazi...
Daniel Johnston poderia ser considerado...
Eles vão tocar por aqui próxima semana!
LB - Sim, Daniel Johnston, mas também haviam coisas como o Swell Maps e Young
LB - Sim, o cara que faz a turnê deles tentou nos contactar para tocarmos por aí. Ele Marble Giants. Haviam todas aquelas bandas independentes inglesas na Rough
falou que é muito legal, que deveríamos tocar lá. Trade Records, que tinham todos aqueles chiados e loucuras no som. Quer dizer, se
você ouvir alguns piratas dos Beatles, [eles] tinham um som meio que porcaria e uma
Parece que o Pavement vem em outubro. (nota: foi falso alarme, como se sabe.)
gravação totalmente tosca, mas todas aquelas grandes músicas. Algumas gravações,
LB - Eles vão?
às vezes,... Elas soam meio porcaria mas às vezes aquilo, pra mim, apenas soa
Sim. muito melhor. Aquilo soava mais misterioso, mais concatenado. Eu simplesmente
gosto da forma que o som distorce, então nós meio que fomos atrás daquilo.
LB -Uau, estou meio chocado!
Como eram as gravações com Eric Gaffney? Vocês gravavam tudo ao vivo ou tinham
Como eram as coisas com o Dinosaur Jr.? E quanto de participação no som da banda
muitos overdubs?
você tinha, apesar de não ter escrito muitas músicas?
LB - Nós fazíamos overdubs, sim, no 4-tracks. Nós fazíamos um monte de coisas
LB -Certo. Bem, isso depende de qual álbum. Cada álbum era meio diferente. O
separados e colávamos tudo junto na fita. Isso e nós também tocávamos muito ao
primeiro [Dinosaur]..., quer dizer, eu escrevi todas as linhas de baixo. J escreveu
vivo normalmente. O que fazíamos era lançar as fitas, assim teríamos algo pra tocar
todas as músicas, mas eu escrevi as linhas de baixo e cantei às vezes. No segundo
quando tocássemos ao vivo.
álbum, [You’re Living All Over Me], eu até escrevi duas músicas [Lose e Poledo] no
disco, escrevi todas as linhas de baixo e cantei todas as minhas músicas. Mas no ter- Quando você tocava com Eric ao vivo, vocês faziam shows mais acústicos ou elétri-
ceiro disco [Bug], eu já nem mais compunha minhas linhas de baixo. J me dizia o que cos?
tinha que tocar e ponto final.
LB - A maioria era elétrica mas ocasionalmente rolavam uns shows acústicos. Mas
Você já sentia que estava caindo fora da banda no sentido que você já nem mais tra- mesmos os shows acústicos eram meio que fora de controle.
balhava como membro da banda?
Você vai lançar alguns destes shows?
LB - Bem, J não parecia muito fazer parte de uma banda. Nós quase sempre atuáva-
LB - Eu gostaria, mas Eric roubou todas elas. Ele meio que...
mos como se fosse muito difícil e terrível estar numa banda [risadas]. Nós reclamáva-
Vou caçá-lo até conseguir essas fitas...
mos muito, então era meio difícil se divertir e levar tudo numa boa. Eu pensava, quer
dizer, o jeito que tocava baixo, o estilo, isso era muito importante no Dinosaur. LB - Ele meio que juntou todas aquelas fitas ao vivo que tínhamos daquele período.
Havia um vídeo da gente tocando no Middle East [em Cambridge] que era totalmente
O que influenciou você no início dos trabalhos com Sebadoh, no sentido de lançar
louco. Nós éramos mesmo... humm...
cassetes com produção lo-fi, pedaços e colagens de música clássica, filmes pornôs e
toda aquela merda? Loucos?
LB - Hum... Quer dizer... Hum, essa é uma boa pergunta. Quer dizer, eu ouvia um LB - Sim, [risos] loucos. Nós éramos putos e nervosos. Era tudo meio... Foi uma
monte de bandas locais que tocavam pela área onde Eric [Gaffney] e eu morávamos época engraçada.
e eles soltavam aquelas fitas com som de merda e acho que as canções curtas... eu
Porque The Freed Man era tão mais Eric? Basicamente, TFM foi o primeiro álbum
estava muito ligado naquela coisa do punk-hardcore, sabe? Aquelas coisas entre as
lançado após a saída do Dinosaur Jr...
músicas, isso vinha mais de quando eu era bem jovem, quando estava muito ligado
em coisas como Throbbing Grissle e bandas mais industriais. Eu gostava de tudo. Eu LB - Bem, na verdade era tudo meio a meio. Tudo que fazíamos, com exceção de
Weed Forestin, era na base do meio a meio. Eu tenho certeza absoluta que... Então, nós gravamos o disco inteiro em três dias, tipo, 1, 2, 3. E nós gravamos todas
suas [Eric] músicas em 2 dias e ele ficou muito puto. Ele ficou muito, muito, muito,
... é que soa muito mais como Eric.
muito, muito, bêbado uma noite e essa noite ele gravou...
LB - Há muitas músicas que fiz na espontaneidade, muitas músicas que nós fizemos
...As The World Dies [The Eyes Of God Grow Bigger]... [risos]
que eram misticamente loucas e coisas do tipo e que as pessoas já assumiam que
eram músicas do Eric. Nós não dizíamos, nós nem listávamos quem escrevia as LB - As The World Dies... Ele fez todos aqueles vocais pra aquela canção enquanto
músicas. Nós fazíamos propositadamente tudo de forma confusa e tão grudadas e estava absoluta e poluidamente bêbado. Acho que acabou saindo muito legal. Sean
misturadas que às vezes acho que é difícil de acreditar que eu pudesse fazer algo Slade estava... Havia muita tensão entre ele e Eric. Eu acho que tudo acabou sendo
que soasse tão fodido e louco. Ficou meio que marcado quem controlava essas para nossa vantagem.
coisas, tipo “Eric faz as coisas mais bizarras”, mas ambos éramos capazes de fazer
Como foi o início da banda para você, na época do Oven Is My Friend e Asshole?
ambas as coisas.
Quais eram suas influências então?
Mas você tinha que manter a fama de que “Eric é o malvado e Lou é o bacana”.
JL- O começo foi difícil. Tocando guitarras com luvas em nossas mãos em uma
LB - Oh, totalmente, as pessoas já [assumiam isso]. Mas nós dois éramos “bad garagem congelante no inverno. Nós tocávamos de 0 a 24 horas por dia e lutávamos
asses” (fodões) [risos]. Nós éramos malvados/ Nós éramos mesmo, como disse, ferozmente pra decidir quem iria escrever a próxima música que ninguém iria gostar.
caras estranhos, verdadeiros terroristas quando tocávamos ao vivo. Havia um gato caolho chamado “Crazy” e um fusca sem chão estacionado na
O que saiu antes: Oven Is My Friend e Asshole ou Sebadoh III? garagem.
LB - Eu acho que OIMF e Asshole vieram antes... Oh, Deus, essa é uma boa pergun- Sebadoh III tem 3 canções suas. Conseguiam ser mais bizarras que as de Eric.
ta. Alguma razão pra isso?
... porque ambos EPs soam mais toscos que Sebadoh III, mas ao mesmo tempo, JL- Os arranjos rítmicos equilibrados que o approach do folk-core moderno ao rock e
parecem ter gravações em estúdio... psicodelia, conforme eram interpretados no final dos anos 80 e início dos anos 90,
eram algo ao qual tinha que resitir. Eu sabia as formas que os rítmos do dia iriam per-
LB - Sebadoh III, o álbum, foi todo mixado em estúdio.
mear e ensurdecer nosso mundo com o rugir de sua estagnante pressa. Era um fre-
Sim, e por que todas as músicas de Eric foram gravadas em estúdio e a maioria das
nesi escapar dele, mas agora eu sinto que fui engolido, pois eu também sou vítima da
suas eram gravações caseiras?
lavagem.
LB - Isso é porque Eric queria gravar em estúdio e eu gostava de minhas gravações
E Asshole e Oven Is My Friend? O que você lembra das histórias daquela época? Por
caseiras. Eu realmente gostava de todas as coisas que tinha feito no 4-track porque
exemplo, todo mundo procura e eu paguei bem caro por eles apesar de ainda não ter
tinha trabalhado muito naquilo. Eu só achava que... Nós [também] não tínhamos
conseguido o 4-Song CD. [Nota a posteriori: consegui depois de 3 anos de procura!]
tempo suficiente para prepará-lo... Nós só tínhamos tempo em estúdio para gravar as
músicas elétricas de Eric e mixar minhas coisas de 4-track. LB - Este aí deve ser mais fácil de se achar.
E no final, parece que tudo saiu de uma forma muito sólida, um álbum muito consis- Também achava mas...
tente. As pessoas parecem adorar o álbum. Pelo menos, todos meus amigos ado-
LB - E ele é muito bom, porque as músicas de Jason gravadas em 4-track são real-
ram...
mente incríveis. Elas são provavelmente algumas das melhores músicas que Jason já
LB - Eu gosto dele. ... provavelmente, de uma certa forma, nosso álbum mais comple- fez. Quanto a Asshole e Oven Is My Friend, nós gravamos tudo em 4 canais. Tipo,
to. Todas as canções de Eric foram muito bem produzidas, nós trabalhamos nelas, nós produzindo e mixando.
nós meio que o forçamos a fazer os vocais, então... pra terminar as músicas, nós afi-
E quanto à contra-capa? Parece o Johnny Quest.
namos todas as guitarras direito, os caras que produziram o álbum são na verdade,
os mesmos caras que produziram o Radiohead... LB - Naquele?
O pessoal do Fort Apache... É, parece.
LB - Sim, como Radiohead, Hole, então eles eram verdadeiros mágicos no que fazi- LB - Eu acho que não. Não tenho muita certeza. ... apenas algo que Eric... Ele fazia
am. Foi meio que legal deixar que as músicas do Eric aos produtores e minhas músi- muitas destas colagens.
cas meio que... Eu gosto da forma que as músicas do Eric soaram em estúdio porque
É, parecia mesmo Eric.
elas ficaram maiores de uma certa maneira.
LB - [risos] Deve ter sido a razão dele ter colocado aquilo lá!
Eu gosto dele, é meio que misturado... Só tem uma coisa que acho meio estranha. As
Há todas aquelas estranhas mensagens, mágicas...
três faixas do Jason [Loewenstein] são socadas bem no meio do álbum.
L - É, isso parecia fazer sentido porque, humm.... L - É, Eric era meio obcecado por magia negra, a idéia de bem e mal...
Tipo: “Ok, eu acabei de chagar bem no meio, então deixe-me jogar algumas coisas Talvez ele seja o cara do Marilyn Manson...
no miolo do álbum.”
LB -Ele poderia ter sido! Ele realmente achou que eu era “do mal”.
LB - Mais ou menos. Sim, Porque minhas letras... É uma história bem interessante. Ela meio que
isso fazia algum sentido. Na começou há muito tempo atrás quando estava em minha primeira
verdade, eu nunca real- banda, Deep Wound. Ele achava que o Deep Wound fazia músicas
mente... Hum. Eric não tinha sobre ele e eu nem desconfiei disso até muito tempo depois, mas isso
[mais canções], ele havia explicava muito porque Eric era... Ele realmente achava que escrevia
gravado todas aquelas e todas essas músicas sobre ele, e ele achava que o Dinosaur escrevia
saiu andando. [Risos]. Ele músicas sobre ele também...
odiou Sean Slade e Paul
Ele era bem complexado!
Kolderie [produtores do
álbum]. LB - É, bem complexado e eu não sabia disso até depois do Sebadoh
III e, assim que descobri, eu meio que entendi porque ele era tão puto
[risos] É mesmo?
comigo. Mas não estava certo, sabe? [Risos]
LB - [risos] Oh, sim, porque
Ele entendeu as coisas [depois] ou não?
eles diziam a ele o que
achavam. “Você deveria LB - Não tenho certeza. Eu realmente não sei se ele alguma dia enten-
refazer isso aí, não estava deu a história. Eu sei que ele é simplesmente o tipo que pessoa que
certo”. E ele odiava isso. nunca acredita em nada. Bem, ele nunca acreditou em mim, e nunca
Ele até disse enquanto está - pareceu entender mais ninguém. Ele tinha dificuldade em lidar com
vamos no estúdio, Sean muitas coisas. Seu pai o abandonou antes dele nascer, seu pai vive
Slade estava na sala de [agora] no Alaska, então ele é muito triste. Sua infância foi cortada. E
controle, na mesa de som, isso aparecia muito...
[enquanto] nós estávamos
Tudo parece somar.
no estúdio trabalhando em
LB - É, tudo se soma, e ele era como eu, ele falava sobre sua vida nas
alguma parte de alguma
músicas. Ele normalmente falava a verdade em suas canções, de uma
música e ele disse: “He’s no
forma diferente da minha. Ele dizia suas histórias de uma maneira dife-
fucking George Martin!”
rente. Realmente acho que complementávamos um ao outro de uma
(“Ele não é nenhum porra
forma muito legal.
de George Martin!”). [risos]
Como foi a produção de Smash Your Head On The Punk Rock? É fantástica. pedaço e eu pensava sobre a África e as endorfinas.
Sebadoh foi a primeira banda que efetivamente prestei atenção às letras.
LB - O que fizemos, quando gravamos, quer dizer, nós não gravamos muito no 4-
track. Nós fomos a estúdios normais, mas nós mesmos mixávamos, montávamos nós LB - Nós pensávamos muito sobre nossas letras. Isso vem desde o começo, as letras
mesmos. Nós mixamos nós mesmos e fizemos tudo muito rápido. De certa forma, eram muito importantes. Talvez para mim, especialmente, mas até Eric. Sabe, eu
quando me lembro de, por exemplo, Bakesale e Harmacy, eu meio que lamento que acho as letras dele em Bubble And Scrape incríveis. Eu gostava muito mesmo de
não tivéssemos esse tipo de controle, sabe? Porque acho que... Não...Esses álbuns suas letras. Eu o achava um grande letrista. Ele nunca, quer dizer, ele sempre parecia
[Smash Your Head e as versões européias] eram muito, muito crus. Bubble And insatisfeito com todas suas letras, ele nunca gostava de nada. Nós dizíamos: “Nós
Scrape foi na mesma balada. Foi numa época semelhante que nós produzíamos tudo podemos fazer tudo de novo, Eric” e ele [respondia] “Não, esqueça, odiei isso”. E ele
nós mesmos. As coisas antigas, soava muito como... Mesmo que a produção os dei- tentava se prevenir que suas músicas não fossem lançadas depois. Ele ficava pos-
xassem loucos, eu realmente gostava daquilo. Naquela época, eu amava essas
sesso comigo por isso. Porque eu dizia: “Bem, nós vamos lançar tudo assim mesmo”.
coisas.
Eu meio que levava a coisa adiante. Eu meio que forçava: “Nós não temos dinheiro,
Algumas pessoas reclamam dos vocais e das mixagens do álbum. vou lançar!”. Era difícil [risos], porque nós éramos todos muito pobres. Era difícil de
levar. Quando conseguíamos dinheiro pra bancar um álbum, nós acabávamos tendo
LB - Nós realmente gostamos quando fizemos! Nós gravamos juntos, mas Eric iria
que usá-lo pra sobreviver. Nós gastávamos metade no álbum, e dividíamos a outra
mixar suas próprias músicas, eu iria mixas as minhas coisas, mas em Really Insane é
metade em três, assim cada um conseguia se sustentar.
meio diferente porque era Bob Fay [tocando]. Era muito... nós realmente controláva-
mos tudo aquilo! Por que você acha que Eric largou a banda de vez?
O que Circles Around Ruston (Notsur Dnoura Selcric) quer dizer? LB - Naquela vez, ele estava meio que... Ele estava nessa psicose, tipo, por um mês
ele parecia estar numa fase feliz e feliz com as coisas ou algo parecido, e aí no mês
JL- É algo sobre um fraco fim de dança com a morte. Minha conexão entre a alma e
seguinte, ele passava a achar que eu era o mal, que [eu] tentava controlar tudo e
o cérebro se tornou uma ameaça à minha saúde e eu senti este efeito. É quente lá na
largava a banda. Aí nós o deixávamos voltar, porque era nosso amigo, porque nós
Louisiana, e eles bebem muito líquido para manter suas entranhas molhadas. Eles
não podem beber enquanto dormem e se ressecam e tornam-se desmiolados. Eles todos entendíamos Eric de uma certa forma, mas no final ele acabou não querendo
acordam de manhã para descobrir que têm vivido com mentirosos, que eles real- mais ninguém o entendendo. [Risos] Finalmente, após Bubble And Scrape, nós fize-
mente NUNCAencontraram o amor. Eles tinham vivido com o azar, crendo que o que mos uma grande turnê e tocamos em Seattle, e ele disse: “Este é meu último show”.
achavam ser verdade ERAmesmo verdade. Neste momento, eles se perderam. Nós respondemos: “Ah, então tá”. Você sabe, ele dizia isso toda hora. Mas aí ele me
mandou essa carta maluca. [Nota: essa carta estava no antigo site da banda, que
O que o inspirou na época de vs. Helmet e Rocking the Forest, meus álbuns
está atualmente fora do ar.]
favoritos? Fale um pouco sobre as gravações em si, que soam tão bombásticas e
com uma sonoridade “ao vivo” que não se percebe em nenhum outro álbum. Você acredita que ele possa voltar algum dia?
JL- Este primeiro lote de cestas foi aplicado na mídia com habilidades limitadas, LB - Oh, não. Hum... Na verdade, um amigo nosso encontrou-se com ele recente-
empregada sobre certos aspectos deste esforço. Sons bombásticos foram o resultado mente.
desta confusão.
E como ele está?
E aí nós chegamos a Bubble And Scrape, que para mim é o primeiro álbum de estú-
LB - Ele está morando em New York. Então, eu... Eu não... Bem, espero que esteja
dio em termos sonoros. Quanta diferença vocês sentiram nesta mudança de formatos
tudo bem com ele. Na verdade, ele recentemente conseguiu um advogado. Ele está
[de preferir coisas acústicas em 4 canais para um estúdio]?
dizendo que nós nunca o pagamos, o que não é verdade. [Risos]
LB - Nós trabalhamos praticamente o mesmo tempo nesse. Levou quase o mesmo
Você podia pedir pra Homestead Records pagá-los primeiro, já que eles nunca
tempo pra gravá-lo, mas é um pouco mais... Nós passamos a tocar junto um pouco
pagaram nada a vocês.
mais, pelo menos eletricamente. Eu acho que em Bubble And Scrape há um pouco
disso. Ambas canções foram minhas primeiras músicas efetivamente elétricas, sabe, LB - É, isso foi mau. Além do mais, as gravadoras que nós trabalhamos... Nós exigi-
Soul And Fire e Two Years Or Two Days. Eu sou realmente orgulhoso delas. mos delas que sempre pague Eric diretamente, porque Eric não nos dizia onde esta-
va, e disse para sua mãe nunca dizer pra ninguém onde estava e eu tentava mandá-
Bubble And Scrape (Deixe embolhar e raspe) foi tirado de uma história ocorrida com
você, estou certo? lo e recebia todos os cheques de volta. E isso foi um arranjo que nós fizemos com
todas as gravadoras para pagá-lo, e elas sempre fazem isso toda vez, e agora ele sai
JL- Sim, eu ainda sinto isso de tempos em tempos. Eu não estou surpreso que você
dizendo que nunca foi pago. O que ele fazia todo momento. Nós lhe daríamos dinhei-
esteja me perguntando sobre isso.
ro e ele falava: “Você pode me arrumar aqueles 20 dólares?” e dizíamos: “Eu acabei
de dá-lo”. [E ele dizia]: “Não, você não deu”, “Sim, eu dei!”. Pra dinheiro, era meio...
Dinheiro era um problema com ele. Eu acho que de uma certa forma, meus parente
sempre foram muito bons pra mim. Eles não tinham muito dinheiro, mas eu confio
muito nas pessoas e Jason é bastante confiável também, a maioria das pessoas
que conheço são. Mas Eric não confiava em ninguém, então quando dinheiro entra-
va no meio, era realmente horrível. Era difícil, muito, muito, muito difícil. Quando as
pessoas apenas... Primeiro, [seja] quando é pessoal ou criativamente [as diferen-
ças] e quando há dinheiro no meio, é tudo meio... [suspiro]
Bakesale para mim soa como um álbum totalmente diferente de tudo que vocês
haviam feito anteriormente. Em álbuns anteriores, você pareciam ter uma idéia para
a letra e aí você escrevia uma melodia de encontro com a letra. Pelo menos é o que
soava para mim. Em Bakesale, vocês parecem procurar mais por riffs e guitarras e
aí escreveram letras de encontro aos riffs. ... verdade ou estou totalmente fora de
qualquer base?
LB - Hum, bem... Hum, não é muito verdade [risos]. Eu escrevi todas as músicas
muito como já escrevia antes, em violão acústico, sabe? E coisas como, tipo, Skull.
Essa começou com uma melodia, aí então [fiz] as letras, então descobri algumas
notas na guitarra, aí toquei com Bob e Jason e se tornou uma música de verdade,
sabe? Mas a maioria das minhas músicas, faz muito tempo, quase sempre
começam em violão acústico.
Você costuma procurar a melodia primeiro?
LB - Perdão?
Quero dizer que me parece que as letras combinavam perfeitamente com a violên-
cia da melodia.
LB - Hum. Deixe-me [entender]...
Por exemplo, Soulmate. Começa lento, você soa cínico durante a letra e a melodia
estoura assim que você começa a cuspir a parte “nervosa”. Eu não sei, mas soa
como se você tivesse a letra montada e aí veio com a música pra combinar com a
Parece que um certo estilo “Jason” começou a surgir a partir deste álbum. Alguma
história interessante desta época? idéia.
JL- Sim, eu estava chapado de ácido com minha namorada quando tinha 18 anos e LB - Na verdade, em Soulmate, tudo veio junto. Eu meio que liguei o gravador e meio
nós tiramos nossos sapatos e começamos a correr pela rua. Nós corremos um bom que fiz, sabe? [Risos] É difícil dizer, cada música é uma coisa. Então...
Jason também mudou muito em Bakesale. melhores músicas.
LB - Sim. JL- É algo a se fazer no meio de todo o caos que ocorria na mansão próxima ao
oceano. Os gravadores ADAT estavam todos fodidos e a TV ficava ligada o dia todo,
Então, o que efetivamente influenciou vocês nessa mudança de Bubble And Scrape
todos estavam absortos pensando tanto em que algo iria ocorrer que nada poderia
pra Bakesale?
ocorrer. Havia bebês correndo e irmãs e tias e namoradas e primos e o caramba. “Era
LB - Nós todos, quer dizer, Jason escreveu mais músicas, obviamente. Eu realmente como tocar e pagar pelo casamento de alguém que você não conhece”.
acho que suas músicas em Bakesale são ótimas, são minhas favoritas mesmo, de
Que história é essa de Bob [Fay] sair da banda?
todas que ele escreveu. Eu realmente gosto delas. Mas quando Bob Fay entrou na
banda, nós quase tivemos que... Nós tivemos que... Porque Bob não era ... Tipo, seu LB - Jason e eu começamos a tocar com um novo baterista. Seu nome é Russ.
estilo era muito mais simples que o de Eric, porque Eric era esse baterista maluco. Ele era de outra banda?
Ele era..., mais ou menos, ele era esse... Ele podia fazer muito mais coisas e Bob era
LB - Sim, ele estava em outra banda, mas eu nem sei o nome dela [risos] . Eu acho
muito mais... Ele podia só fazer esse tipo uma batida de cada vez, então tivemos que
que era Caffeine ou algo do gênero. Mas ele tem 22 anos, adora tocar bateria mas
simplificar tudo. O que foi legal, porque especialmente após a saída de Eric, nós
também sabe tocar guitarra e baixo. Ele é real-
queríamos mais nos divertir. E nós estávamos... Nós tínhamos passado por maus
mente um grande baterista.
bocados com Eric e Bob era um puta amigo nosso, o que foi bem excitante. Nós
aprendemos as músicas rapidamente, Bob aprendia tudo rapidamente, e Jason man- Ele é mais “técnico”,
dava aquela grande linha de baixo, e nós tocávamos por alguns dias e íamos ao num sentido tipo
estúdio, sabe, e era isso. Foi realmente pensado junto. Eu lamento... Quer Eric
dizer, eu gosto da energia do álbum mas de alguma forma eu gostaria de [Gaffney]?
ter trabalhado um pouco mais em algumas músicas de alguma
LB -
maneira. Eu gosto de como [o álbum] soa, eu gosto dos nervosismo
Ele
das guitarras. Sei lá, era somente, foi somente a era de Bob Fay,
toca
sabe? Tocar com Bob iria mudar as coisas.
mais
Bakesale foi a prova final que você era tão bom compositor quanto
Lou ou Eric, mas os críticos pareciam não levar muito isso em
conta. Por que você acha que isso ocorreu? como
Jason
JL- Eu sou abençoado com a habilidade de ver e resolver problemas.
toca. Eu
Eu não queria isso, mas posso lidar com esta situação. Mas sou único,
adoro a
e nem todos podem enxergar este fato. Reconhecimento externo de resul-
forma de
tados passados não é essencial ao nascimento e realização de novas idéias.
Jason tocar bate-
Isso necessita outras habilidades.
ria, e Russ é poderoso,
Indo para Harmacy... Harmacy foi bem recebido pelos críticos mas os fãs mais anti- ele age como um baterista, ele
gos parecem odiá-lo ou pelo menos desprezá-lo. Por que você acha que as coisas pensa como baterista, sabe [risos] ? Eu o
aconteceram desta forma? conheci quando fui para Louisville, pois fui para lá tocar com Jason porque achava
LB - Ah. por causa da produção, eu acho. Eu acho que é porque ele soa muito... Pra que talvez Jason e eu fôssemos trabalhar no próximo álbum do Sebadoh, e talvez
mim, Harmacy é uma versão melhorada de Bakesale. Eu acho que as músicas são Bob não fosse mais sair em turnê conosco, sabe...
melhores, a produção é um pouco melhor, as guitarras estão um pouquinho melhores. Foi idéia de Bob sair, já que anda tocando com outra banda?
Quer dizer, enquanto nós tentávamos... Foi difícil, quer dizer, nós tentamos torná-lo
LB - Não, ele está muito, muito, muito nervoso com a gente agora [risos]. Ele está
mais poderoso, fazê-lo um álbum mais poderoso, mas não podia ser mais poderoso.
bem chateado. É meio triste, na verdade. É uma merda. Porque ele é demais, Bob é
As pessoas o estavam comparando a Bread ao invés de Sonic Youth, o que é o opos - o mais bacana. Ele musicalmente é grande. Ele é realmente divertido, ele é um cara
to do começo do [Sebadoh]. engraçado pra sair em turnê mas era muito difícil, porque ele nunca foi um baterista
LB - Também é porque o álbum inicia-se com uma canção lenta. ... meio elétrica, mas de verdade, sabe? Ele nunca soube como fazer... como Jason e Eric, e mesmo quan-
lenta. Eu acho, talvez com o tempo, se você der uma chance, eu acredito que há do eu tocava no Folk implosion com Jonh Davis, todos eles sabiam como tocar bate-
várias canções bem diversas, diferentes estilos de produção, e... Há certas músicas ria, todos sabiam como fazer um monte de coisas diferentes com a bateria, sabiam
como Too Pure e Beauty Of The Ride que são, acho, algumas das melhores músicas um monte de ritmos diferentes, podiam variar e trocar as coisas pra caramba e Bob
que já escrevi, e estou realmente orgulhoso delas. Eu acho que nele falta apenas simplesmente... não podia fazer isso. E isso foi algo que nós sabíamos quando
uma certa crueza que as pessoas... começamos a tocar em Bakesale e então no Harmacy. Era assim: “Oh, não... Isso vai
ser problema” [risos]. Era complicado, sabe? Nós não podíamos tirá-lo fora, sabe,
...esperavam.
porque ele é muito amigo nosso. Mas já fazem 3 anos que tocamos com Bob, e
LB - Isso, esperavam. Mas eu acho que mais pessoas odiaram Bakesale quando este Jason e eu, quando estávamos em Loiusville, e Russ veio tocar e fez um jam
havia sido lançado, como me lembro. Algumas pessoas que não gostaram do conosco, foi tipo: “Oh, meu Deus!”. Bem, parece que podemos fazê-lo.
Bakesale ou mesmo de B&S gostaram mais do Harmacy. Eu realmente estava tentan-
Qual o nome completo dele?
do... Quer dizer, músicas como Willing To Wait, eu estava tentando, eu havia escrito
canções que eram muito... Eu queria ver como elas soavam com uma produção lisin- LB - É Russ Pollard.
ha, redondinha. Eu queria ver, sabe, era um experimento para ver se podíamos tocar Assim como Bob Pollard? Estão chamando o pessoal do Guided by Voices pra tocar
coisas assim. com vocês agora?
Podemos esperar uma versão lounge do álbum? LB - [risos] Sim, é o mesmo sobrenome, mas não há nenhuma relação.
LB - Não [risos]. É que, sabe, todo álbum que criamos, nós procuramos tentar coisas Como Russ Pollard entrou na banda? Onde você o encontrou? De qual banda fazia
diferentes. Como B&S é um pouco diferente de Smash Your Head..., porque é algo parte anteriormente? E preparem-se para as piadas com o Guided By Voices que cer-
mais estúdio. E Bakesale é um pouco diferente de B&S porque tínhamos um baterista tamente virão...
e um approach totalmente diferente, havia um estilo de tocar diferente. Isso foi acon-
JL- Eu vi Russ tocando trombone e pensei: “esse cara deve dar um bom baterista”.
tecendo, e em Harmacy tentamos expandir, tentamos fazer um álbum como Bakesale
Eu o chamei pra mesa que estava sentado e comprei o trombone dele por US$ 35.00.
mas com mais, tipo, músicas mais lentas, músicas mais rápidas com...
Eu toquei bateria com o trombone aquela noite e a bateria soava ótima, eu nunca
Mais extremos? toquei tão bem em minha vida. Foi incrível, então fumei um cigarro depois.
LB - É, mais extremos, mais dinâmico. Eu gosto de Harmacy mais do que Bakesale. Como você acha que o novo álbum vai soar?
Harmacy só funciona em seu conjunto por causa de suas músicas, em minha opinião. LB - Não tenho certeza nenhuma...
Elas parecem estar amadurecidas, mas muito mais baseadas em riffs e ganchos,
Será na SubPop?
acredito. Isso foi intencional? Você ainda sente necessidade de gravar faixas mais
esquisitas como no início? LB - Não tenho certeza. Nós estamos mais ou menos pensando em sair da SubPop.
JL- Sim, as restrições que o fórum de turnês me deixaram recentemente parecem a Ainda independente ou talvez numa grande gravadora?
mim um concerno menor. Haviam limites físicos que aceitei sem entender por comple-
LB - Nós estamos pensando em mudar-nos para uma grande. É porque a SubPop
to. Estes limites, agora derrubados, podem ser superados através da manifestação
agia como uma grande gravadora. Eles tentavam dizer como fazer um monte de
intencional de certo caos perdido no meio.
coisas, eles diziam quando entrar em turnê, nós efetivamente tentamos trabalhar com
O que há por trás de Surly I Do? [faixa de uma compilação da Sub Pop, só lançada eles, e fazer o que pediam, tipo, trabalhar do jeito deles... e na verdade, não funcio-
no Japão]. Não parece ser exatamente um outtake de Harmacy. É talvez uma de suas nou muito bem [risos]. Funcionou mais ou menos, mas um monte de pessoas que
gostávamos no selo foram despedidas ou largaram. Foi pesado. Eu gosto da SubPop, levou muito tempo pra ser lançado.
eu gosto das pessoas nela, mas não é um selo independente. Não parece ser. E o Como será este? Mais garage ou mais como o último? Techno? Vão tocar com o
Folk Implosion, como nosso último álbum Dare To Be Surprised, que foi lançado num Chemical Brothers?
selo independente [Communion], você não consegue achá-lo em lugar algum.
LB - [risos] Um pouco dos dois, acho.
DISCOGRAFIA RESUMIDA
Mas eu achei no Brasil. É o mais poderoso até agora. A músi-
LB - Você pôde? ca é bem mais poderosa, porque
Weed Forestin Homestead (1987) somente vinil e cassete
fomos a um estúdio maior e há mais
É, foi fácil. The Freed Man Homestead (1989) somente vinil e cassete
guitarras nele.
LB - Mas eu acho que o que é The Freed Weed Homestead (1990) CD - compila parcialmente os álbuns
Quem produziu?
acima, com versões diferentes em alguns casos
difícil é que você pode achá-
Sebadoh 3 Homestead (1991)
lo em boas lojas mas não LB - Wally Gagel, o mesmo produtor
pode achá-los em lojas ruins. Sebadoh vs. Helmet de KIDS e DTBS.
City Slang - 20/20(1992) EP- Somente europeu
Ah, é claro, mas depende de Rocking The Forest City Slang - 20/20(1992) EP- Somente europeu Algum outro projeto paralelo pela
quão longe você quer chegar. Smash Your Head On The Punk Rock Sub Pop (1993) compila algumas faixas dos EPs acima frente?
Bubble And Scrape Sub Pop (1993)
LB - Certo, eu suponho que LB - Não.
Bakesale Sub Pop (1994)
desde que há 12 anos que Eu gostei muito daquele que você fez
comecei a tocar, eu acho que Harmacy Sub Pop (1996) com Eric Matthews.
quero meus álbuns em lojas The Sebadoh Sub Pop/Sire (1999)
LB - Belt Buckle. Sim, foi bom, era
ruins também. Quando era
somente eu, Bob Fay e Eric.
pequeno, quando estava na High School, eu comprava grandes discos em péssimas
lojas, sabe? É meio Lounge, bem Paul McCartney, e gosto de Paul, pode tacar tomates...
Bem, Best Buy [cadeia de lojas de eletrônicos nos EUA] tem Sebadoh e FI, então LB - É porque Eric tocou baixo e ele meio que leva um estilo Paul McCartney no
quão pior você pode chegar? baixo. Mas Paul fez parte de uma das maiores bandas do mundo, você sabe...
LB - Há um monte de Best Buys no mundo que não..., sabe? Como foi seu trabalho com Will Oldham? Foi um grande trabalho em Viva Last Blues.
Há planos de trabalharem juntos novamente?
Nós não temos Best Buy no Brasil, mas de qualquer forma, já perdi toda a paciência
com o mercado brasileiro. JL - A areia em Birmingham é vermelha pela quantidade de rochas ferrosas na área.
Há muitas caldeiras por lá jorrando pedaços derretidos de terra em moldes. Nós não
LB - Posso imaginar. Deve ser bem complicado.
nos conhecíamos e estávamos surpresos pela quantidade de bons churrascos de
O que você acha que o Sebadoh será sem Bob Fay? Alguma idéia? Já decidiram porco na área.
qual selo você estarão assinando?
Recomenda algo para se ouvir? O que deveríamos estar ouvindo?
JL- Sebadoh irá sentir muita falta de Bob. E esperamos assinar com uma boa
LB - Você deve ouvir aquilo que acha que deve ouvir.
gravadora. Há alguma? A “grande visão” do mercado fonográfico que vejo me dá
calafrios. É, eu sei, mas...
Você costumava escrever canções muito honestas e irônicas, bem tapa-na-cara, mas LB - [risos] “É, eu sei mas...” [risos] Bem, no momento, não ando ouvindo muita coisa
agora você parece escrever coisas mais simbólicas, especialmente com o Folk [nova].
Implosion. É intencional?
Por falar nisso, o Sepultura está novamente gravando.
LB - Bem, essas letras eu escrevo com John Davis. Ele é mais, tipo, quando escreve
LB - É, eu vi Max [Cavalera]. Eu o vi em Nova York! Ele estava ficando no mesmo
letras, [ele é] mais poético, então ao combinar-mos meu estilo com o dele, sai... você
hotel que estávamos. Eu estava saindo do hotel e k.d.lang passou por mim e Max
sabe... Vem algo bem diferente do que eu iria escrever, mais simbólico. Mas há certa
Cavalera estava lá e acho que a esposa também, porque estava de óculos escuros e
músicas que... você sabe.
longos cabelos verdes. Eu fiquei meio assim, tipo: “Oh, meu Deus!!! Max!!! Max!!!”
A quantas anda o Sentridoh? [risos]. Ouvi um papo de que largou o Sepultura, mas nem sei o que ocorre. Bem,
comprei este CD do Everly Brothers chamado Roots...
LB - Eu não... Quer dizer, tudo que tenho feito no momento ou vai para o Sebadoh ou
para o Folk implosion. Bem recente! [Risos]
Sentridoh era bem legal. LB - Na verdade, todos meus amigos, bem, não todos, mas um tanto deles, gostaram
muito, muito mesmo do novo do Radiohead. Então fui atrás e o comprei hoje. E o
LB - Eu tenho um monte de coisas em 4-track, mas acho que quero aguardar até...
ouvi. É legalzinho [risos]. Sério, a produção é muito boa, o vídeo é muito bonito. No
... você ficar rico e aí pode lançar uma super-ultra caixa com 10 CDs do Sentridoh... geral, a produção é poderosa, mas eu não... Há algo neles que realmente não gosto
LB - [risos] Eu quero esperar até ter canções boas o suficiente para lançar um novo [risos]. Me desculpa, não posso recomendar [nada]...
álbum do Sentridoh, isto é, boas canções em 4-track. JL - The Beatles.
Por falar nisso, é Sen-TRAI-doh ou Sen-TRI-doh? Quais as chances de ver Sebadoh por aqui?
LB - Ah, tanto faz, não importa [risos]. LB - Bem, nós iremos aí algum dia, não posso dizer quando. Quer dizer, nós sempre
Você lançou 2 singles como Sparkalepsy e pelo menos um fita (Leaches), todos muito esperamos o Pavement ir pra algum lugar e aí somos os próximos. Se o Pavement
difíceis de serem conseguidos. Você tem a intenção de lançá-los qualquer dia destes vai, nós podemos ir [risos]!
em CD ou numa compilação? Algum material do Sparkalepsy novo talvez? O split sin- JL- Eu ADORARIAtocar no Brasil. Estou cansado da Europa, e enjoado de pessoas
gle com o Unconvinced é especialmente bom, com versões superiores às encon- brancas. Seria legal estar ao lado de pessoas que não estivessem de saco cheio de
tradas em Harmacy. branquinhos e eu não ter que estar ao lado delas. As pessoas gostariam da gente no
JL- Eu não sei o que a fita Leaches é exatamente [NE. - é um pirata], mas tenho uma Brasil?
idéia da época. Eu tenho muitas horas de material substandard. Eu não sei se vou Algum comentário final?
lançar alguma coisa disso. Eu só quero lançar material que eu ACABO de escrever.
JL- Eu acho que precisamos mais organização em nossas vidas. Fazer as coisas que
Eu só consigo me interessar pelas coisas por pouco tempo. Essa merda antiga não
precisam ser feitas e sentir um senso de realização que você é capaz de fazer por si
soa muito bem pra mim às vezes.
só. Pense em algo que queira fazer e vá em frente e faça. Aí você pode relaxar um
Qual baixo você toca? Algum pedal de fuzz? pouco. Eu preciso fazer paçoca para as crianças agora. Elas estão com fome.
JL- Eu gosto do som de meu baixo Rickenbacker plugado em meu pedal “Hot Tubes”
da Electro-Harmonix.
E DESDEENTÃO ? BEM, ELESASSINARAMCOM A SUBPOP, NOVAMENTE, MAS COMDISTRIBUIÇÃO
E quanto ao Folk Implosion? Será um projeto contínuo ou vai parar por um tempo? MAJORITÁRIAPELA SIRE/WARNER. O NOVO ÁLBUMSAIEM JANEIRODE 99 COM O NOME “THE
LB - Não, nós entramos em estúdio por 2 semanas semana passada. SEBADOH” E PRODUÇÃODO DAMBUILDER ERIC MASUNAGA. SEGUNDO CONSTA, O ÁLBUMSERÁ
MAIS SUJO E COESO QUE HARMACY. MAIORES INFORMAÇÕESEM WWW.SEBADOH.COM. O FOLK
É um novo EP?
IMPLOSIONASSINOU COM A INTERSCOPE/UNIVERSAL E LANÇAÁLBUM TAMBÉM EM 99. ERIC
LB - Não, estamos trabalhando num novo álbum. GAFFNEYFEZRECENTEMENTE SHOWS EM BOSTON E NEW YORK E, SEGUNDO CONSTA, FOI PURO
NOISE. O QUE É ÓTIMO.
Já? Prolixos!
(ESTEJÁ
LB - Não, não é verdade. Mas...é, nós terminamos DTBS muito tempo atrás, mas SITE: WWW.SEBADOH.COM FUNCIONA)
Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normal-
mente é responsável por esta tarefa, que são OS CRÍTICOS. Se considerarmos que a música não é
exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser
ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passa
na cabeça de alguns dos críticos musicais de importantes
veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas.
São eles MARCEL PLASSE, do ESTADO DE SÃO PAULO, PEDRO
ALEXANDRE SANCHES, da FOLHA DE SÃO PAULO e CELSO
MASSON, da REVISTA VEJA. Nossa intenção foi deixá-los à
vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer
interpelação. Será que eles tinham razão e conhecimen-
to para atuarem na imprensa? Qual tipo de influência
eles achavam que causavam? Estas foram suas
respostas.
Lou Reed e Velvet, Patti Smith, David Bowie, Rita Lee e Mutantes,
Jorge Ben, Paulinho da Viola, Erasmo Carlos, Television, Love, Roxy
Music e Brian Ferry, Blondie, Sly Stone, Smokey Robinson e Miracles,
Sam Cooke, Marvin Gaye, Supremes, Temptations, Clara Nunes,
Roberto Carlos, Prince, Michael Jackson e Jackson Five, Sonic Youth,
1. Quais são suas bandas e estilos favoritos? Beach Boys, Nara Leão, Leonard Cohen, Marianne Faithfull, Itamar
Assumpção, Elza Soares, Assis Valente, Clementina de Jesus, Araci
MP - Mudam o tempo todo. Apenas no ano passado, quatro novos de Almeida, Cartola, Elizeth Cardoso, Funkadelic, Tim Maia, Novos
rótulos ganharam destaque na mídia - big beat, speed garage, Paris Baianos, Leno e Lilian, Troggs, Ira!, Marina Lima, Lobão, Modern
Disko e electronica. Banda também é uma expressão restritiva, que Lovers, Big Star, Tim Buckley, Nick Drake, Tom Tom Club, Chic, Zé
ignora cantores, produtores, músicos, rappers e DJs. Mas você deve Ramalho, Nick Cave, Maria Bethânia, Gilberto Gil... Nos anos 90:
estar querendo uma resposta objetiva. No momento, o estilo favorito é Beck, Luna, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Yo La
breakbeat, que virou toda uma cultura. Break é uma expressão do Tengo, Júpiter Maçã, Ben Harper, Neneh Cherry, Air, Daft Punk, Sex
funk, que virou breakbeat nos dias do hip-hop old school (1974-1983) Beatles, Alvin L. e Cris Braun, Edgard Scandurra, Cássia Eller,
e voltou à moda nos últimos anos, passando a ser usada no jungle, no Humberto Effe, Björk, Primal Scream, Beat Happening, PJ Harvey,
big beat e também como substitutivo para o rótulo trip-hop entre os Chemical Brothers, Cowboy Junkies, Chris Isaak, Fernanda Abreu,
artistas das gravadoras Ninja Tunes e Mo’Wax. Nos últimos meses, os Lenine, Virginia Rodrigues, Wander Wildner, Rita Ribeiro, Soul II Soul,
DJs de breakbeats radicalizaram uma cena específica, à parte, origi- A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, Lenny Kravitz, Wyclef Jean,
nária do hardcore (estilo de dance music) como o jungle, mas que Jota Quest...
representa um racha em relação ao estilo drum’n’bass para os lados
do big beat. Gosto de todos as fases e variações das breakbeats, mas 2. Visão sobre o que é a crítica musical (sua função, necessidade
nos últimos tempos tenho dedicado mais interesse sobre essa nova
etc.)
cena, chamada de nu school breaks. Também tenho comprado quilos
de CDs de house music francesa, o tal Paris Disko. Dentre os estilos
MP - A famosa questão: defina “vida” em 20 toques. Ok, objetividade:
clássicos, nada bate a soul music dos anos 60. Artistas que se
crítica musical é algo que a revista Rolling Stone vendeu como vital
revezam na fila ao lado do meu CD-Player nas últimas semanas: DJ
nos anos 60 e que tem pouca tradição no Brasil. A primeira geração
Shadow, Fatboy Slim (Norman Cook), Radiohead, Air, Roni
de críticos famosos e tupi-guaranis era toda carioca e nos legou o
Size/Reprazent, Alan Freeland, Thursday Club/Rennie Pilgrem,
Barão Vermelho. A segunda era paulista e nos legou o RPM. Crítico
Riverdales, Grooverider, The Mr. T Experience, Kid Loco, Jon Spencer,
costumava ser aquele palhaço que levava porrada do Nasi na Folha
Nas, Missy Elliot, Cornershop, Aquasky, Plug, Fiona Apple (só para
de S. Paulo. Depois, virou aquele que dizia que andava armado para
ficar olhando o encarte), Sleater-Kinney, Portishead, Belle and
o Nasi na Bizz. Engraçado, mas a função da crítica não é humor,
Sebastian, Beth Orton, Spiritualized, Monkey Mafia, Etienne de
embora ajude. Cada qual tem sua idéia de crítica. Para começar,
Crecy/Motorbass, Stereolab, Bentley Rhythm Ace (BRA)
gosto se discute e por isso existe a crítica. Minha visão particular vai
Artistas que, volta e meia, fazem fila ao lado do meu CD-Player: the
além disso. A música é apenas a ponta do iceberg. Há um elitismo
great Sam Cooke, the greatest Marvin Gaye, The Clash, Lou Reed,
muito grande na imprensa cultural, que desdenha do pop (cinema de
David Bowie, KRS-One, Ultramagnetic MC’s, Isaac Hayes, Run-DMC,
ficção científica, literatura de horror, quadrinhos, rock, etc.), mas ele é
Beastie Boys, Afrika Bambaataa, Charlatans, My Bloody Valentine, Big
a marca mais importante da cultura contemporânea. A pop art, último
Star, Replacements, Funkadelic, Curtis Mayfield, Moonshake, AR
movimento artístico a ser considerado como tal, copiava os quadrin-
Kane, The Loft, The Jesus and Mary Chain, The Shirelles, Herman’s
hos, ia ao Club 54, fazia filmes pornôs, se entupia de cocaína e ban-
Hermits, Donovan, Melanie, The Ronettes, James Brown, Roy
cava o Velvet Underground. É tudo interligado: trilha sonora, compor-
Orbison, Eric B & Rakim, The Who, Otis Redding, The Kinks, Small
tamento, política cultural. Não é dizer que o Tchan é brega porque é
Faces, Herbie Hancock, The Trane (John Coltrane), The Byrd (Charlie
brega. As Spice Girls também são. Não é dizer que Madonna é tudo.
Parker), Count Basie, Booker T, Jan & Dean, Dee Dee Sharp,
Ela já foi considerada brega. Ainda é brega, na minha opinião. Na ver-
Mantronix, Blondie, Kraftwerk, The Crystals, Lee “Scratch” Perry, U.
dade, meu ideal de crítica é uma variação da antropologia cultural,
Roy, Junior Murvin, Joseph Hoo Kim, L. Lindo, Leith Stevens, The
uma forma de desvendar signos, índices, ícones, símbolos, significa-
Archies, The Byrds, The Chiffons, Shop Assistants, Joe Gibbs and the
dos e significantes, de forma a perceber a realidade/atualidade. Não
Professionals, Buzzcocks, The Beat, The Cars, Kiss, Beach Boys, The
creio que a função da crítica seja ensinar, mas, sim, desvendar o zeit-
Fantastic Baggys. Que fila, hein?
geist. Não adianta nada você ter ouvido todos os discos de guitar
bands (denominação de zineiros brasileiros para o chamado indie
CM - Você não acha que isso é um pouco indiscreto demais para ser
rock, que fazia sentido nos anos 80), porque a realidade musical não
colocado assim, na rede? Eu jamais cairia nessa, meu chapa!
é monotemática e, no máximo, essa experiência só serve para avaliar
ou falar de um grupo de comportamento muito restrito. Como um fã de
PAS - Bem, como são muitos, vou responder muitos. Os de sempre:
Radiohead, que só ouviu guitar bands, avalia uma declaração de que sença física (a banda). As gravadoras chiam quando você fala mal de
OK Computer foi influenciado por DJ Shadow? O que significa a um produto prioritário. Ficam de mal por uma semana. Na outra, têm
relação abobalhada da mídia diante do show do U2 no Brasil? Porque outro produto prioritário e já esqueceram do anterior, porque precisam
a comparação com os Beatles funcionou para o Oasis no Brasil? - até concentrar-se na divulgação do novo disco/artista. A maioria dos aces-
o jornal do SBT destacou a banda por conta desse cliché. Por que o sores de imprensa estudou jornalismo. São profissionais como os críti-
disco de Madonna é um lixo pop vulgar se toda a crítica adorou? Por cos e respeitam o trabalho do outro lado da cerca, embora tenham
que alguém tem coragem de defender a misoginia dos Funk Fuckers? que apresentar resultados para os patrões capitalistas. Hoje em dia, já
É preciso ter essas respostas e elas dizem muito sobre o estado das estão mais conformados com as idiossincrasias de parte da crítica,
coisas, o inconsciente coletivo, grau de alfabetização, etc. de um país, que prefere falar de Roni Size ou Cornershop ao novo disco do
de uma cultura, e, nessa época de globalização, que já é total numa Hanson ou das Spice Girls. Mas Hanson e Spice Girls não precisam
cidade como São Paulo, essas respostas funcionam como senhas no da crítica para vender, embora as multinacionais vejam o papel do jor-
computador da realidade. Uma vez acessado esse mainframe, a cul- nalista como uma ferramenta de vendas. No fundo, é o que o jornalis-
tura pode ser vista por uma perspectiva muito mais agressiva. mo atrelado ao cronograma de lançamentos de produtos capitalistas
se torna na prática.
CM - A melhor definição não poderia ser minha mesmo, então pego
essa, de Federico Fellini: “a crítica serve para colocar um produto cul- CM - Costuma ser cordial. A dependência é mútua e ninguém é ingê-
tural em seu devido lugar, dentre os demais”. Se essa é uma função nuo a ponto de se achar mais importante. As gravadoras não lançam
necessária, não sei. Mas deve ser, porque há dez anos me pagam discos para a imprensa, que também não publica artigos para satisfa-
salário para ouvir discos e escrever a respeito. zer os interesses das gravadoras. Quanto mais nítida for essa situ-
ação, melhor.
PAS - Acredito que a crítica (em qualquer área, não só a musical) seja
uma forma de auxiliar a compreensão do mundo como um todo. PAS - É, hoje em dia, absolutamente mercantilizada. Usando um
Sendo brasileiro e gostando pra exemplo recente, adoraria receber da gravadora na minha caixinha na
caramba de música, acabei me Folha o último CD da Marina Lima. Aí eu poderia olhar, ficar curioso
interessando mais pela crítica com a capa, ir ouvir, perceber que tem algo muito especial lá dentro,
de música brasileira, acreditan - ficar com vontade de falar com ela, ligar pra ela, falar com meu editor
do que refletir sobre o último e convencer ele que tinha algo importante aí pra virar notícia (e crítica)
disco da Marina Lima ou do de jornal. Claro que nada é assim. A gravadora manda em cima da
Júpiter Maçã possa ajudar, hora, eu tenho tantas horas para ouvir e ir entrevistar a mulher, que
mesmo que de forma insignifi - vai estar falando a mesma coisa no mesmo dia para todos os jornais.
cante, a entender o próprio E todo mundo vai ficar desesperado pra sair no mesmo dia, pra
país, qual é a dele, o que está ninguém “furar” o outro. Mediocridade e comodismo, acho. Resta ten-
acontecendo. Aí entra também tar fazer o melhor possível dentro do esquema - mas sem, acredito,
o interessa histórico: pelo pas - ficar puxando saco ou ficando amiguinho de artista pra ter vantagem
sado da música (os relança - sobre os outros, o que só cria constrangimentos de outra natureza.
mentos, os nomes injustiçados,
4. Relação bandas/gravadoras
as mudanças que foram acon -
tecendo) acho que é possível
refletir também sobre MP - As bandas hipócritas - as que não são do tipo Tchan - reclamam
evoluções (ou retrocessos) em da indústria, odeiam dar entrevistas, acham tudo medíocre, abominam
escala maior. Pensando em playback em programa de TV de baixa audiência, mas não se tornam
música estrangeira, também independentes. Isso diz muito sobre elas. Agora, só 8% dos lucros de
nas relações (em geral colo - um CD para o artista é sacanagem da grossa. O dono da loja, que
nialistas e colonizadas) do papa cerca de 50% do preço, é mais importante que o artista?
Brasil com o mundo. Parece
esdrúxulo, mas utilizo a coisa CM - Sei lá, não trabalho em gravadora.
Vende milhões
que mais gosto (a música),
para tentar entender todo o PAS - Bem, isso eu acompanho de longe. Não sendo idiota, vejo que
resto, até o que eu próprio penso e sinto. Bem, se puder ser assim é bastante mercantilizada também, acho que desumana mesmo. Vejo
mesmo, não acho difícil responder que acho a crítica (de qualquer bandas e bandas que certamente fazem (estou falando do Brasil,
natureza) crucial, essencial, fundamental - tanto quanto a arte, talvez, claro) sons muito diferentes do que fariam se não fossem as
embora menos importante e impactante. pressões. Pra citar um caso recente, não acredito que a Sony não
tenha influenciado (mesmo que seja por expectativa de vendagens) o
3. Relação imprensa/gravadoras Skank a fazer um disco exatamente igual ao anterior, apenas com
umas disfarçadinhas aqui e ali. Aposta-se no certo, só no certo.
MP - Um exemplo: o Estadão proibiu viagens pagas por gravadoras. Parece óbvio, também, que artistas importantes, de qualquer idade -
Resultado: o Estadão não deu a coletiva do Oasis no Chile - único jor- cito a Rita Lee, por exemplo -, são absolutamente subvalorizados por
nal importante do país a ficar de fora dessa. O que é mais importante, “hitmakers” de quinta categoria (como o É o Tchan, da mesma
a notícia ou contar vantagem de jornalismo independente? Por outro gravadora de Rita Lee, a PolyGram, que vende trilhões de discos a
lado, historicamente os cadernos de Turismo sobrevivem de jabás de mais). Acho que nos EUA(na Inglaterra, menos) esse negócio é um
agências. Acho que o pior caso desse tipo de relacionamento entre tanto diferente, mais inteligente, mas o Brasil ainda é puro Terceiro
notícia e jornal é o do jornalista político, que costuma ser convidado Mundo, miséria mesmo.
por um político de direita para assumir um cargo de acessoria de
comunicação numa campanha eleitoral - mamãe de Gabriel, o 5. Capacidade de indução de gosto musical
Estupor, por exemplo. Um jornalista político da Globo é hoje o péssi-
mo governador do Rio Grande do Sul. No campo da música, o lobby é MP - Rádios e TV (não MTV) total. Jornais e revistas quase nenhuma.
forte e há vários exemplos de jornalistas que passaram para o outro Importa apenas para uma pequena fatia da classe média com o
lado, fazendo releases ou mesmo assumindo cargos em gravadoras. segundo grau e universitários, cuja especialização costuma ser na
Mas, uma coisa que poucos percebem fora do meio, é que jornalista área de Ciências Humanas. Ou seja, pessoas com cultura mais sofisti-
também derruba assessor de imprensa e pressiona por lançamentos cada.
de discos. Os setores que têm verba, numa gravadora são os de
mídia eletrônica. É notório que há um incentivo financeiro para certas CM - O que isso quer dizer?
músicas tocarem no rádio. Não há isso na imprensa, porque o alcance
é pequeno. A crítica pouco influi na decisão de compra da massa. PAS - É algo que foge do meu domínio. Por mais que tente ser “cientí-
Björk nunca vendeu bem no Brasil, por exemplo - os números são fico”, rigoroso e coerente nas opiniões, não posso deixar de reconhe-
mais ridículos do que se pensa. Também, Björk não toca no rádio. cer que elas são, também, fruto de gostos pessoais, de “crenças” pes-
Mas tem quilômetros de rodagem na imprensa. A única hora em que a soais. Tento acreditar que meu gosto é condicionado pelo que a arte
gravadora investe na imprensa é na hora do show, quando pode oferece, e, sendo assim, o gosto apresenta uma linha de coerência
rachar a verba com alguma produtora ou patrocinador de evento, e que é ditada por fatores estéticos, artísticos, políticos até, e não só por
quando há algo mais para ser promovido além de música - uma pre-
questõezinhas do tipo “vou com a cara de fulano”. Seja como for, o
8. Papel da imprensa musical hoje em dia.
que se escreve em jornal ecoa bastante num certo tipo de leitor -
aqueles que são ávidos por cultura, por informação -, que acabam,
sim, sendo influenciados. Com os artistas também isso é bem percep- MP - Vide respostas anteriores.
tível - eles levam muito em conta o que a gente fala, para o bem ou
para o mal. Acho que o ideal seria que houvesse muitas vozes, muitas CM - No Brasil, mercado fonográfico que mais cresce no mundo, a
opiniões falando ao mesmo tempo e se contrapondo; quantas menos imprensa musical poderia ser utilíssima. Como estou nesse meio,
há, maior é o poder - e a arbitrariedade - das que há (é como o posso reconhecer que seu papel atual é péssimo, sem me excluir.
Caetano Veloso, ele acaba sendo nocivo não porque é do jeito que é, Tirando as idiossincrasias de uns poucos falastrões, a imprensa musi-
mas porque tudo que fala é interpretado como lei, como obrigato- cal não educa, não polemiza e não revela nada de relevante.
riedade - e isso é apenas burrice). É péssimo, e do meu lado a única
coisa que posso fazer pra tentar atenuar essa coisa de poder é ten- PAS - Deveria, na minha opinião, ser aquele de veículo de reflexão
tando não me deslumbrar, manter aquelas diretrizes iniciais de refletir sobre o mundo e de diálogo com ele. Mas, do jeito que tá, é só baju-
sobre história, sobre arte, e não sobre vaidades. É complicado. lação, falta de coragem, “em-cima-do-murismo”, falta de criatividade. A
crítica, como um todo, parece bicho em extinção, é algo que não se
enxerga em quase nenhuma área, em quase nenhum órgão de
6. Papel de transformação da música imprensa, em quase nenhum fórum de discussão. Costumo pensar
que é a era FHC por excelência, o mundo virou um gigantesco muro
MP - A música nunca transformou nada. Nem a imprensa. O único em que todo mundo tá empoleirado, e todo mundo se cagando de
texto que fez diferença, na História, completou 100 anos recente- medo de cair. Falta de vergonha na cara, em outras palavras.
mente, de Zola. Bob Dylan não parou a Guerra do Vietnã, embora
tenha sido uma das milhões de vozes que se levantaram. Os Beatles 9. O que é pop para você?
não mudaram o mundo - na verdade, o mundo mudou os Beatles, da
jaqueta de couro ensebada aos terninhos e, finalmente, ao título de MP - O que começou como denominação de música açucarada para
cavalheiro para Sir McCartney. Contracultura? Diga isso para a heran- adolescentes - versão branca do rhythm’n’blues de Little Richards,
ça de Linda Eastman. Punk rock? The Filthy Lucre Tour. A mulher que Fats Domino, Ike Turner e Chuck Berry - ganhou outro significado nos
vira vegetariana porque Madonna virou vegetariana ignora completa- anos 60, com o termo pop art, e virou revista nos 70, Pop. Hoje, vejo
mente o budismo - uma cultura apenas milenar -, que agora anda a palavra com dois sentidos: música descartável, forma como é mais
influenciando a ex-garota material, que, por sua vez, representava o empregada, e também como toda a manifestação cultural considerada
hedonismo nos anos 80, algo bem anti-Buda. Alguém que se veste descartável e inóqua pela elite da Cultura - tipo, o nome do suple-
como Michael Jackson não foi mudado pela música. Foi mudado pelo mento de literatura do Estadão se chama Cultura. Assim, pop é a
capitalismo. A música não muda o mundo, mas ela informa sobre Internet, o CD-RW, o sample, o DJ, o filme Scream, o gibi do Super-
mudanças em andamento, é um índice, em linguagem de comuni- Homem e o álbum OK Computer. Aquele que condena o Tchan repete,
cação, a fumaça que se vê, ao longe, num incêndio. Isso não é ape- numa variação de valores, condenação similar a de Julio Medaglia a
nas na música - é no cinema, na literatura, nas artes. qualquer grupo de rock que não seja sinfônico como George Martin -
ops, The Beatles. Pop é toda expressão cultural surgida na era da
CM - Poderia ser mais específico? comunicação de massas que sofre preconceito por parte da high cul-
ture.
PAS - Bom, parece que ela já teve muito,
né? Como pensar em Elvis, João CM - Uma palavra que quebra um galhão na hora de escrever qual-
Gilberto, Little Richard, Velvet quer bobagem.
Underground, Beatles, Stones,
Caetano, os punks e tanta gente PAS - É o conceito-coisa-valor mais forte e presente e importante que
mais como revolucionários, altera- existe. Engenheiros do Hawaii podem ser o fim da picada, mas não dá
dores do curso cultural da história? pra discordar deles que o papa é pop, o FHC é pop, o tecno é pop, a
Mas hoje - não sei se por falta de Madonna é pop, a falsificação dos remédios é pop, a novela das oito é
distanciamento histórico - parece pop, a parada gay é pop... Tudo gira em torno do pop, resta diferen-
que tudo ruiu. Vejo o tecno modifi - ciar o pop burro do pop inteligente -porque o pop pode ser, sim, a
cando o mundo de um jeito entusias- coisa mais inteligente que existe também. E o pop é, com certeza,
mante e ainda muito incompreensível, mas algo muito, muito, muito sério - isso muitos estão por entender ainda.
de forma mais mecânica, mais fria. A época
em que a música era quente parece ter ficado
para trás (quem sabe volte...), sinceramente não 10. Quais são as bandas injustiçadas da história?
dá pra crer que Tricky, Oasis, Blur,
Massive Attack, Portishead, MP - Herman’s Hermits, Joe Meek, Ultramagnetic MC’s, The
drum’n’bass e essas coisas todas Cars, Bohannon, Can, Jimmy Cliff, X-Ray Spex, Todd
tenham qualquer poder transfor- Rundgren, o grande injustiçado Johnny Thunders, Jan &
mador sobre o mundo. Talvez ten- Dean, Modern Lovers (primeira banda de punk rock),
ham, eu é que não tô enxergando... Nick Lowe, Eazy-E, Go-Go’s, Marianne Faithfull, Cheap
Trick, Blondie, The Jesus and Mary Chain, A Tribe Called
7. Bandas mais importantes da década Quest, Soft Boys, Suicide, Slits, Slick Rick, o grande esqueci-
do Schooly D, o lendário quem Sonny Sharrock, Pussy Galore,
MP - Mudado para artista: Nirvana, Prodigy, Gram Parsons, The Only Ones, Meat Beat Manifesto, MC Lyte,
Primal Scream, The Chemical Brothers, Wu-Tang Clan, Blur, Magnetic Fields, Last Poets, Richard Hell & The Voidoids, Galaxie
Radiohead, Spice Girls, Oasis, Beck, Alanis Morissette, Beastie Boys, 500, Marshall Jefferson, Frankie Knuckles, Bomb the Bass, Coldcut,
Hole, Smashing Pumpkins, Dr. Dre, Snoop Doggy Dogg, Cornershop, Fugs, Eric B & Rakim, The Hollies, King Crimson, Billy J. Kramer &
Goldie, Roni Size, Daft Punk, Sean “Puffy Daddy” Combs, Tupac The Dakotas, Cilla Black...
Shakur, The Notorious B.I.G., DJ Shadow, Stereolab, Green Day,
Tricky, Massive Attack, Portishead, Fatboy Slim, Bikini Kill, Sleater- CM - Os Carpenters. Nixon disse que eles eram um exemplo para a
Kinney, Cypress Hill, Armand Van Helden, PJ Harvey, My Bloody juventude americana. Vindo de quem veio, o elogio foi pura sacana-
Valentine, Liz Phair, Pearl fuckin’ Jam, Jane’s Addiction, Nine Inch gem.
Nails...
PAS - Nossa, são milhares!!!! Troggs, Jackson Five e Michael Jackson
CM - Se eu fosse lojista ou promotor de show, diria que é o Oasis - (porque todo mundo pensa que não são sérios), Wilson Simonal,
big business como não se via há tempos. Sendo crítico, fecho com Cassiano, Hyldon, Wanderléa, sei lá...
Nirvana, Smashing Pumpkins, Radiohead, Morcheeba e Prodigy.
PAS - Lá fora: Beck, Sonic Youth, Daft Punk, Chemical Brothers. Aqui:
Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cássia Eller, Lenine.
A
frase difícil de ser era fortemente influenciado
acima pode soar meio coberto, com muitas diferenças pelos americanos (Miami bass,
crua demais, coisa pra culturais. Era comum termos mer- funk, pop estilo Califórnia). O
cados locais fortemente ancora- rock paulistano (Ira!, Ultraje a
fazer barulho ou ser um dos em sucessos locais, pois era Rigor, Premê) era ignorado no Rio
grande livro de reve- difícil se conseguir coisas “de (Blitz, Biquini Cavadão, Dr.
lações. Longe disto. fora”. Tentem imaginar como era Silvana) e vice-versa.
conseguir no interior de Minas
Pretendo neste texto O primeiro sinal de mudança
Gerais, discos de sucessos amer-
surgiu com o aparecimento da MTV
apenas ilustrar as icanos. Sucessos esses, que bem
brasileira. Ela foi importante
facilidades e situações se diga, ancorados na novela da
por três principais fatores.
Globo. As rádios eram claramente
que fazem do Brasil a Primeiro: ela foi a primeira
dirigidas ao público local. Ou
emissora a difundir pelo Brasil
terra do lucro fácil eram rádios antigas, com pro-
inteiro a mesma programação
musical. E a culpa não é dução local, espaço para artis-
musical, isto é, o que o cara do
tas locais e muita música region-
de um grande e malvado Recife via, o cara de Santa Maria
al, ou, como passou a ocorrer com
também via. Isto é crítico, pois
arqui-inimigo. Foi uma muito mais freqüência a partir da
foi uma primeira mexida nos mer-
coincidência de fatores, década de 80, rádios políticas e
cados locais, que sentiram o
de igrejas. Ainda assim, elas
notadamente negativos, baque. Segundo: a MTV se posi-
eram voltadas para sua região
cionou em seus primeiros anos com
que catapultaram-nos específica, sem fortes influên-
o slogan “Você viu primeiro na
neste lodaçal que é o cias externas. A coisa era tão
MTV” (notem que não se utilizam
pulverizada que nunca ouve um
Mercado Musical
Brasileiro.
Alguns pontos principais podem
ser ilustrados logo de cara:
desde a venda da
Continental/Chantecler no começo
da década, não existem mais
grandes gravadoras nacionais.
Isto é importante, pois tudo
agora pertence a um cronograma e
a um planejamento decidido pelo
cartel das Big 6 (Sony,
Universal, PolyGram, BMG, Warner
e EMI. Detalhe: a Universal com-
prou a PolyGram). Normalmente,
eles definem (na famosa feira de
música de Miami) que será o ano
do, por exemplo, merengue, então
o foco de todas passa a ser o
merengue. Mas isso fica para mais deste slogan). Foi uma por-
sistema de auferição de sucessos
depois. rada nas rádios. Ao passar a ser
ou algo do gênero, apenas o
a “emissora” de ponta e lança-
Ibope, que media rádios de São
Temos dois grandes divisores
mentos, todas as rádios foram
de águas, se considerarmos o mer- Paulo e do Rio de Janeiro, que
atrás da programação MTV. Me lem-
cado fonográfico desde que ele ainda assim tinham claramente
bro de ouvir coisas como Nirvana
diferenças gritantes entre si.
saiu da recessão que foi a déca-
e Soundgarden na Jovem Pan e
São Paulo tinha rádios mais
da de 80. Mas o que tínhamos até
Chapterhouse na 89FM. O que nos
“européias” (acid house, rock
então? O Brasil é um país conti-
leva a um terceiro e fundamental
nental, ocupando um território anos 70, musak), enquanto o Rio
ponto: ela quebrou a perna das
gravadoras. Explico: ao assumir país. Este crescimento rápido significa que, quem não for dos
que iria lançar antes de todo foi motivado por diversos grandes centros, vai quebrar a
mundo, inclusive simultaneamente motivos. Primeiro: era interesse cara. Outro problema é que, noto-
aos lança- das rádios expandirem rapida- riamente, estas rádios via
mentos do mente, pois um dos maiores prob- satélite são do pior tipo. O
mercado ame- lemas delas é ligado ao descrédi- Tutinha, da Jovem Pan, já disse
ricano e to dos anunciantes quanto à mídia em entrevistas que pra tocar
europeu, ela rádio. Antes do surgi- música na rádio dele, as gravado-
criou proble- mento da rádio via ras tem que pagar 30 mil dólares.
mas às satélite, elas con- O pior é que ele tem razão: as
gravadoras, pois seguiam apenas propa- gravadoras querem de graça o que
existe um negócio no gandas locais, e claro, a rádio investiu pra conseguir.
“entertainment busi- de baixo custo. Ao Afinal, a rádio efetivamente faz
ness” que se chama alcançar vários merca- com que aqueles discos sejam ven-
cronograma. O SUA P R I N C I PA L INFLUÊNCIA HOJE É dos, a rádio pode nego- didos, e nada mais justo então,
lançamento ciar contas maiores com que a gravadora “invista” na
nos mercados RESSUSCITAR CARREIRAS MORTAS VIA anunciantes mais rádio. E, quando falamos em pop
latino-ameri- ACÚSTICO, DE ROSTINHO COLADO COM poderosos, além de music (foco da rádio), pode acre-
canos vem GRAVADORAS. facilitar as promoções ditar que ele tem razão. É podre?
sempre alguns com gravadoras e outros É, mas ele está certo neste
meses depois do lançamento no anunciantes (automóveis, lojas ponto. E a grande chave é:
mercado americano, que vem de departamento, bebidas). O ninguém se importa com isso.
alguns meses depois do mercado outro lado é que é vantagem para Ninguém, a não ser alguns poucos,
europeu. Isto serve para manter a gravadora: ela faz o jabaculê vai discutir se isso é bom ou
uma constância em vendas de numa só rádio que alcança os não. A rádio via satélite vende
determinados grupos durante um principais mercados consumidores entretenimento embalado pra todo
tempo maior. Ao lançar antes, do Brasil. Isto chama-se redução mundo (veja que são rádios com
criava-se a demanda antes, e de custo, e é sempre bem vinda. foco bem específico: a
finalmente, quando o CD era Mas e para as rádios que foram ou Transamérica é pop dosado; a
lançado no Brasil, o hit já tinha compradas ou passaram a retrans- Jovem Pan, dance com qualquer
se evaporado. Foi assim com o mitir o sinal das grandes? coisa que venda; a Antena Um,
Teenage Fanclub, por exemplo. Me musak de baixo nível, vendido pra
Do ponto de vista econômico, é
lembro que a MTV anunciava e Classe A como chique; a Cidade,
uma boa vantagem. As rádios via
tocava na pro- brega e tudo que venda). A
gramação normal Rádios como a Jovem Pan, a dance music passou a ser o
coisas como o grande foco nas cidades do
próprio Teenage Transamérica e Antena Um passaram interior, graças à força
F a n c l u b , a ser ouvidas em todo o país. destas rádios. Não é que não
Chapterhouse, existia, mas passou-se a dom-
Urban Dance Squad, Luna e Unrest. inar o mercado. E não há escap-
satélite tem promoções, bons
Quem efetivamente acreditava que atória: você viaja pra qualquer
DJs, lançamentos e boas atrações
a gravadora lançaria algo destes cidade e as rádios locais são as
(Sobrinhos do Athayde, Café Com
em condições normais? Unrest mesmas rádios via satélite que
Bobagem etc.), coisa que nenhuma
ainda por cima era da 4AD, o que você ouve em São Paulo ou no Rio.
rádio de Araçatuba tem bala pra
piorava ainda mais a situação Como a crítica não é feita e as
investir. Além disto, existe uma
(tanto é que ninguém acabou demais rádios estão em sua ampla
liberdade em certos horários
lançando). É lógico que esta maioria na mão de igrejas ou
para a programação local (que
situação não durou muito tempo: políticos, acabou-se com o
normalmente se restringe a
as gravadoras passaram simples- regional.
“Liguem e faça o
mente a boicotar o envio de Esta mudança
seu pedido de
vídeos e mandavam somente o que de uma mídia
música”), o que
lhes interessava. Isso é fato: que era
agrada ao dono da
trabalhava na MTV e foi por este tipicamente
rádio e ao públi-
motivo que terminou o então inte- local para
co local (que se
ressante Dance MTV (época de uma mídia de
sente, assim, com
Felix e The Shamen). Em seguida, massa com-
uma rádio que é
as gravadoras passaram a enviar parável à
“a cara dela”).
os vídeos conforme o timing delas televisão
E, finalmente, a
e proibiam a aquisição de vídeos traz conse-
rádio permite
fora do país. A MTV americana qüências
ainda aos anun-
ainda por cima cobrava (e ainda profundas
ciantes locais
cobra) pelos vídeos, o que faz que pouca
(como a TV e suas DICA: PEGUE UMA MÚSICA DO MUTANTES OU DE
com que a MTV hoje só toque o gente tem
a f i l i a d a s ) ALGUÉM CULT E FAÇA MPB MODERNA EM CIMA!!!
sucesso e aquilo que as gravado- prestado
realizarem seus
ras liberam de graça. atenção.
negócios. Tipicamente, um caso
O tiro de misericórdia veio de ganha-ganha, certo? Errado. O primeiro efeito é a banal-
com a instalação das rádios FM Quem perde com isso é o lado não- ização e pasteurização total da
via satélite. Rádios como a Jovem econômico: com a programação música. Se analisarmos bem, não
Pan, a Transamérica e Antena Um toda feita fora do mercado local, há diferenças muito gritantes
passaram a ser ouvidas em todo o matou-se a produção local. Isto entre a 89FM (rock) e a
PARADA DAS RÁDIOS: ACHE A DIFERENÇA, SE
PUDER
89 FM
1 Offspring Pretty Fly
2 Metallica Turn The Page
3 Nativus Presente de um Beija-Flor
4 Aerosmith Angel
5 Alanis Morissette Thank You
6 Kiss Psycho Circus
7 U2 Sweetes Thing
8 Jota QuestFácil
9 Foo Fighters Walking After You
10 Capital Inicial O Mundo
Jovem Pan
1 Backstreet Boys Quit Playin’ Games
2 Aerosmith I Don’t Want To Miss A
Thing
3 Spice Girls Viva Forever
4 N’Sync I Want You Back
5 Terrasamba Carrinho de Mão
6 Terrasamba Liberal Geral
7 Backstreet Boys All I Have To Give
Transamérica (pop). As músicas, Estados Unidos e Europa, a coisa Transamérica
já é bem mais difusa, existindo
em 70% dos casos, são as mesmas
mercado para vários nichos. Se as
do U2 e do Bon Jovi. E não há
Internacional
grandes gravadoras deixarem
diferenças gritantes entre a
1 Aerosmith I Don’t Want To Miss A
espaço, as médias e pequenas
Transamérica e a Jovem Pan, pois
tomam o mercado. Não por bondade Thing
ambas tocam axé. E também não há
ou estranha coincidência, a 2 Backstreet Boys Quit Playin’ Games
diferenças entre a Cidade e a
Matador, a SubPop e a Mammoth
Jovem Pan, pois ambas tocam 3 RadioheadFake Plastic Trees
foram engolidas inteira ou par-
pagodinho. E não há também entre (Música do Carlinhos)
cialmente pelas majors. A MTV
a Cidade e a Antena Um, pois americana tem muito mais peso do
tocam Celine Dion e Whitney que as majors, podendo derrubar Nacional
Houston. E todas tocam Skank, ou levantar um artista facil- 1 Terrasamba Liberal Geral
inclusive a “alternativa” Brasil mente. Aqui, é o oposto. As 2 Vinny Heloísa Mexe A Cadeira
gravadoras, se quiserem, podem
2000. Em suma, é a mesma coisa
3 Charlie Brown Jr. Quinta-Feira
boicotar vídeos à MTV (como já
para o mesmo público. O segundo
fizeram) e ninguém vai ligar, mas
efeito foi destruir as propostas
a MTV pode quebrar na brin- Cidade
contrárias. A massificação veio
cadeira. Em compensação, a MTV
de forma tão rápida que canais
americana ameaçou, ano passado,
outrora independentes tiveram 1 Terrasamba Carrinho de Mão
a dedicar 50% de sua programação
que entrar no esquema para sobre- 2 Lionel Richie Lady
à novos artistas independentes
viver, vide a MTV, que hoje toca 3 Daniel Adoro Amar Você
em sua M2. Foi um baque nas
Carla Pérez e Netinho e jogou o majors que reclamaram e chiaram, 4 Fat Family Jeito Sexy
Lado B pra sei-lá-que horas, e e a MTV acabou cedendo e trans- 5 Ara Ketu Mal Acostumado
rádios como a Brasil 2000, que se formando a M2 em um horário den- 6 Cidade Negra Sábado À Noite
diz “alternativa”, mas que toca tro da programação, ao invés de
7 Grupo Sensação Quando o Sol
a mesma coisa que a 89FM, com um novo canal. O importante é que
Nascer
havia um mercado além, que a MTV
algumas sutis diferenças. E o que
poderia buscar sem depender das
isso tem a ver com as grandes 8 Zezé di Camargo & Luciano Pra
majors. Aqui no Brasil, não tem
gravadoras? Não Pensar Em Você
jeito. Não há distribuição inde- 9 Fábio Jr. Na Canção
Tudo. No Brasil, como se sabe, pendente, não há canais de divul-
10 Leandro & Leonardo Cumade e
não existe uma coisa chamada con- gação independentes (afinal,
corrência. Um só meio de comuni- Cumpade
tudo ou é igreja evangélica, ou
cação atinge 97% do país, e este rádio política ou pertence a um
mesmo meio possui emissoras de mega grupo empresarial, normal-
rádio, jornais, revistas, mente com gravadoras atreladas
gravadora, entre outros meios. por trás), não há mercado inde-
Isso sem entrar no mérito do con- pendente. As grandes gravadoras
trole da via de informação celu- também não precisam investir
lar, digital etc. Sumarizando, a quase nada em novos talentos,
concentração é total. Nos pois não há concorrência. É só
pegar mais um pagodeiro e eis o
trabalho de A&R (Artist &
Repertoire). É claro que, pra
facilitar ainda mais, cultural-
mente, o Brasil é tradicional-
ista e pouco chegado em novidades
(tradição bem católica essa).
As facilidades ainda são
melhores aqui pois o investimen-
to em divulgação fica concentra-
do em algumas rádios via satélite
e os 3 canais de TV que fun-
cionam. O resto é efeito multi-
plicativo: as demais rádios vão
no embalo das líderes. Notem tam-
bém que temos, no máximo, 20
artistas que eqüivalem a 90% das
vendas (ou mais). E isso para o
6o. maior mercado musical do
SEUS IMPOSTOS SÃO INVESTIDOS EM NOVOS TALENTOS, COMO ELES AÍ EM CIMA
mundo. Que felicidade! É tudo que
efetivos até agora, vivendo no
uma empresa espera: economia de “Esse é o jogo: tendências ditas
vermelho, pois tradicionalmente,
escala, pouco investimento em
regionais de música multiplicam
o ouvinte de poperô não é chega-
pesquisa e desenvolvimento (ou
do em comprar CD, e sim, gravar seu valor no mercado nacional
no A&R), margens altas (se tudo
da rádio.
quando adaptam seus estilos ao
Por que a maior dificuldade das Talvez a
mínimo gosto comum.
Eldorado
gravadoras no Brasil é a pirataria? que, ape- Respeitando as características
sar de ser
de cada rítmo (e sem questionar
é mais barato para se fabricar um do Grupo Estado, tem mantido pos-
CD no Brasil, porque ele é mais sua qualidade artística), qual a
tura e atitude alternativa e
caro que no resto do mundo, exce- parece ser a única capaz de algo. diferença entre o pagode do Só
to Japão?) e zero concorrência. Considerando também que a con-
Pra Contrariar, o neo-sertanejo
Não se pode falar em disputa centração dos meios de comuni-
feroz de mercado no Brasil: cada cação é um tabu que não será dis- de Chitãozinho & Xororó, o axé
uma tem seus 2 ou 3 hitmakers e cutido no Brasil tão cedo (ape-
do É O Tchan ou o funk de
sar do perigo que ele represen-
por vezes tentam alguma cópia da
Claudinho e Buchecha? Tirando
ta), onde uma empresa pode domi-
Marisa Monte ou do Katinguelê pra
nar todos os canais, meios e dis-
ver se cola. A Gazeta Mercantil os aeróbicos baianos, todos os
tribuição de informação, nada
mostrou: dos 22 milhões de dis- outros se afunilam em direção à
indica que haverá uma mudança
cos vendidos pela líder no Brasil
música para ser escutada com o
sensível para o futuro. Resta-
(PolyGram), 7,2 milhões (32%)
nos tentar mudar esta situação co ra ç ã o. “ Se rtanejos, axé,
foram relativos apenas aos últi-
apoiando atitudes que diminuam
mos álbuns do É O Tchan!, Banda funkeiros, tudo está se modifi-
tais imperfeições do “livre mer-
Eva, Netinho, Cheiro de Amor e cado” (no Brasil, mercado só é cando para o romântico” atesta ,
Terrasamba. livre pra quem tem grana).
Manuel Camero, presidente da
Perguntinha pra vocês pensarem e
Só para completar: as gravado-
Associação Brasileira dos
responderem pra nós: porque sem-
ras pagam quase nada de imposto,
pre o que vêm para o Brasil são
pois o ICMS é descontado em 75% Produtores de Discos (ABPD).”
os mesmos sucessos de dois meses
a título de “busca de novos tal-
atrás nos Estados Unidos? Nosso
entos na música nacional” e o
gosto é exatamente igual ao
resto acaba sendo creditado pelo
Gazeta Mercantil, 7/08/98, página C-8
deles? Há um gosto mundial idên-
pagamento de direitos autorais.
tico? Respostas, aqui para o RPM.
Pelo jeito, há uma grande evasão
fiscal por
Dica 1: a pirataria brasileira ocorre sem -
aí. Ou o seu
dinheiro está
pre nos títulos que vendem como água.
indo parar na
mão do Só Pra
Dica 2: as gravadoras não lançam nada
Contrariar, o
que é pior.
que não seja sucesso garantido por aqui.
O futuro?
Bem, a
O violonista e compositor mineiro José Barbosa dos Santos, o Zé
Paradoxx anda
Côco do Riachão, morreu dia 13 de setembro aos 86 anos, em Montes Claros,
comendo pelas
norte do Estado, vítima de complicações respiratórias. Natural de Mirabela (MG),
bordas por
Zé Côco, que fabricava seus próprios instrumentos - violas caipiras e rabecas
causa do
(uma espécie de violino rústico) -, ficou conhecido por dezenas de melodias nas
dance, onde
quais procurou retratar a vida dos habitantes do Norte de Minas, algumas acom-
agilidade
panhadas de imitações de animais como porcos, cachorros e galinhas.
conta (algo
que as majors
Com três discos lançados, era um dos principais intérpretes de músicas da ‘’Folia
no Brasil não
de Reis, período festivo tradicional do sertão brasileiro, entre o fim de um ano e o
tem) e tentou
início de outro. Em mais de 70 anos de carreira, Zé Côco ganhou fama interna-
emplacar o
“country cional e chegou a ser apelidado por críticos europeus de Beethoven do Sertão.
music”, mas MÚSICA REGIONAL DE NASHVILLE, SP Infelizmente, seu trabalho é quase impossível de ser encontrado, inclusive o único
sem resulta-
lançado em CD pela Pau-Brasil. Vergonhoso.
muito PARA AGROBOY OUVIR E PAGAR
dos
A partir deste primeiro número,
gostaríamos de apresentar nosso
crítico-mascote, o Dude. Estudou
na ECA-USP, mas abandonou no 2o.
ano, quando passou a escrever seu
próprio zine, o Chumbo-Grosso, um
marco na produção independente
nacional. Logo após, passou a ser
A&R na extinta gravadora Columbia
e finalmente, se tornou crítico
free-lancer. Já escreveu para
todos os principais veículos do
país, como O Dia, Jornal dos
Sports e Diário Popular, com rápi-
da passagem pela Folha de São
Paulo. Agora, orgulhosamente, faz
Ride - Nowhere (Creation/Sire) 1990
parte de nosso time. Neste número,
ele irá iniciar a coluna fixa onde Ah, nada melhor do que começar por um dos
irá demolir alguns dos álbuns mais álbuns mais odiáveis dos anos 90. Um hino
shoegazer, onde todas as bandas indepen-
nefastos da história do pop. Em
dentes nacionais bebem, comem, vomitam,
futuros números, iremos republicar chupam e regurgitam. Letras inin-
uma série de resenhas produzidas teligíveis, com vocais sussurrados e,
portanto, mais inintendíveis ainda, o
por ele nestas quase 3 décadas de
Ride surgiu com um sensacional rótulo
crítica musical. Sem atrelado, o já citado shoegazer. Nome
mais delongas, com este vindo da maravilhosa idéia isola-
cionista do artista em criação não
vocês...
querendo ser perturbado e, portanto, que
fica admirando seu sapato enquanto toca,
nem aí com seu público. Esta pose, tão
amada e compartilhada por muitas outras
bandas conceituais, tem entre seus inimi-
gos os maiorais da imprensa brasileira -
um ótimo motivo para estas bandas serem
adoradas pelos indies nacionais -, e
trouxe-nos uma dezena de bandas que, de
tão relevantes, eu
prefiro não citar.
E os títulos das
canções? Uma coisa
linda, que nos remon-
ta à uma banda gera-
dora de grande inspi-
ração nefasta, que é
o Cocteau Twins, no
sentido de buscar o
sonho, o lado etéreo
e, claro, sombrio e
tristonho. Vejo
letras sobre decadên-
cia, rastros de vapor
e paralisia, que só
reconhecemos por
causa do título, já
que o vocal não se
entende mesmo.
Musicalmente, as chu-
vas de guitarras for-
mando um caldo via-
jante e químico, com
referências a Velvet
Underground e à con-
terrânea My Bloody
Valentine, transmitem um efeito lisérgi- Temple Pilots, Black Sabbath, Pixies,
co, claramente indicando o uso de ácidos Padre Marcelo
e drogas constantes, o que minimiza bas-
Bob Marley - Legend (Island/PGD) 1990
tante todos os problemas anteriormente
apontados. Afinal, droga é uma coisa cool
Espertalhões de plantão conseguiram
que acho bem legal, então concedo este
transformar a maioria absoluta de con-
ponto em favor da banda. Mas nem ouço
ceitos e referências artísticas, autênti-
muito o CD, pois a atitude deles é a
cas, revolucionárias e contestadoras num
única coisa “cool” de verdade.
grande supermercado de “ R$1,99”, também
conhecido como indústria cultural da
Bandas afins: Lush, Cocteau Twins,
década de 90.
Catherine Wheel, House of Love,
O rock virou algo tão complicado de se
Cigarettes, Novos Baianos
definir, uma palavra tantas vezes aplica-
da em situações imbecis que hoje todo
Nirvana - Nevermind - (DGC/Geffen) 1991 mundo (quase) acha que ele morreu, está
doente etc. Parece que
Vamos imaginar o cenário: o mundo é feito perdeu-se a percepção que
de alienados e pessoas sem sensibilidade rock deixou de ser ape-
estética. Estas pessoas ouvem o que os nas uma “ fusão de músi-
outros mandam, são susceptíveis à ca negra norte-americana
influência da perversa indústria e de com country e blá-blá-
acordo com a moda, ouvem Jesus and Mary blá” já na década de 60.
Chain, Iron Maiden ou Leandro e Leonardo. Mais do que isso,
Pobres almas, elas não sabem o que fazem. perdeu-se a percepção da
existência de uma carac-
São cegas e incapazes de tomar uma
terística totalmente
decisão racional. Pense bem: você também
inerente a toda música
pode influenciá-las. Você também pode
criada a partir da
trazê-las para o caminho da luz. Pode
segunda metade da década
influir no seu gosto e dizer: você é
de 50: a atitude, o dis-
feliz. “Você foi purificado. Você agora é
curso musical e o com-
um de nós, que recebeu a mensagem do céu
portamento pessoal
e tem a mensagem universal de distribui-
refletem e são a maior
la por este mundo quadrangular.
obra do artista.
Aleluia!!!” Pois bem, Nirvana é a
O resultado de toda essa manipulação pode
saudação. A banda que chegou para salvar. ser visto naquele vagabundo xerocado que
Você pode até dizer, Nirvana não é tão faz pose de inovador, no artista con-
genial como Smashing Pumpkins ou outras sagrado que “repete a fórmula do sucesso”
bandas mais avançadas, complexas e umas 500 vezes, na “casta” arrogante dos
inteligentes. que controlam os meios de divulgação
Mas Nirvana tem uma grande virtude: uti- musical e na influência nefasta que
lizando-se de um elemento metal meio dis- alguns bons discos acabam gerando.
farçado, ela coloca subliminarmente a Legend é um disco nefasto porque teve seu
inteligência nos neurônios desgastados significado esmerilhado, assim como todo
pela opressão. Você dirá para o seu o reggae e a cultura rastafari
coitado amigo: “Olhe, de acordo com o (religião). É um símbolo involuntário
daquele tipinho maconheiro-cabeça-de-
lugar que você estiver, você até poderá
alienado-pseudo-surfista que infesta
afirmar que ainda ouve heavy-metal. Mas
metrôs, boqueirões, Maresias, barzinhos
no fundo já é um de nós.” Você poderá
da Vila Madalena e outros rincões. Outro
dizer: “Minha
dia, a Jovem Pan FM apresentou a seqüên-
primeira vez foi
cia “As 7 Melhores do Verão”, músicas
com Nirvana.
afinadas com o gosto musical ausente de
Esta eu não
seus ouvintes. Havia, entre as canções, 6
esqueço.”
axés e “Could It Be Love?”. O que Ivete
Nirvana é uma
Sangalo e Netinho faziam acompanhando um
banda intro-
dos músicos mais geniais do século? Você
dutória, que responde...
vibra e esquen- Legend é nefasto também porque descarac-
ta. Um clássico. teriza o próprio discurso que encerra. É
A genialidade de conviver em mundos o fruto musical de um cara com idéias
ambíguos, fazendo uma releitura do políticas bem definidas mas o pessoal
renascimento e do iluminismo, por cami- só se preocupa com seu (minimizado como
nhos barrocos preservando o romantismo da foi) “ritmo hipnótico”. Sendo assim,
modernidade. Nirvana é pós-moderno. E qualquer merda que tiver o tal do “ritmo
pense bem: Cobain pensou nisto tudo. Tudo hipnótico” do reggae vale (vide Cidade
planejado, com toda a emoção e razão Negra atual e toda legião de porcarias
unidos em volta do senhor conhecimento. que nasceu inspirada pelo pobre Bob).
Nirvana, um grupo. Nevermind é a banda
que faz desta semana. Bandas afins: Peter Tosh, Wailers, Ziggy
Marley, Obi Marley, Puffy Marley, Cypress
Bandas afins: Smashing Pumpkins, Stone Hill, Cidade Negra, Beach Boys
Primeiro número do espetacular Rosebud Pop Media. more
Primeiro número do espetacular Rosebud Pop Media. Entrevistas emocionantes com críticos de música, criticando sua própria crítica. http://www.oerratico.com less
0 comments
Post a comment