O JORNAL A GARGALHADA - TEXTO JADIEL LIMA
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    O JORNAL A GARGALHADA - TEXTO JADIEL LIMA O JORNAL A GARGALHADA - TEXTO JADIEL LIMA Document Transcript

    • Ser TÃO SerSe o povo soubesse o valor que ele tem...ResistênciaViajanteRealidadePovoCasaMigraçãoTerraDireitoImpactoCampinhoHumanidade...Comunidade Bahia Medo Ciclo FavelaDureza Opressão Perseverança Não sobrou Buchada do Costela Luz CachorroRealidade surreal Rotina Gente bicho Polícia. Publicação do Buraco d`Oráculo – A última ano IV :: nº 25 :: set/12 REPRESSÃO. Distribuição Gratuita
    • O que será feito no projeto EditorialNarrativas do Trabalho II O jornal A Gargalhada, que surge na perspectiva de divulgar os projetos do Buraco d`Oráculo e como prestação de contas públicas da realização de seus projetos, tem se tornado uma referência O projeto Narrativas de Trabalho II para o público e os artistas, inclusive foraestá sendo desenvolvido na região de SãoMiguel Paulista e Itaim Paulista, extremo de São Paulo, pois seu conteúdo nunca seleste da cidade de São Paulo. São diversas restringiu ao fazer do grupo. Ao contrário,as ações que o compõe, desde a reunião do sempre se buscou ampliar as discussões,material produzido no projeto anterior, bem sobretudo sobre o teatro de rua. Com essecomo o estudo sobre a precarização do tra- objetivo, foi ampliada a quantidade debalho, o teatro épico, estudo da música e o páginas e a tiragem e a mesma sempreaperfeiçoamento artístico dos integrantes fica disponibilizada no site do grupo,do grupo. Por isso, o projeto apresenta duas para que pessoas que não tiveramações norteadoras: a) uma ação artística e b) acesso ao conteúdo impresso possa tê-uma ação pedagógica; que são divididas em lo virtualmente. O objetivo é partilhar etrês etapas. ampliar a discussão. A ação artística é a forma de manter Nessa edição as discussões passamo grupo em relação com as comunidades e é pelo teatro documentário, sobre o uso dacomposto de uma mostra teatral – 7ª Mostra música no teatro de rua, sobre políticasde Teatro de São Miguel Paulista –, a ser re- públicas, entre outros. Apesar dealizada em dezembro de 2012; e a circulaçãodo espetáculo que será produzido no desen- parecerem díspares, os assuntos estãovolver do projeto. O espetáculo, inicialmente interligados, pois a reflexão impulsiona onominado de Opera do Trabalho, será criado nosso fazer, que, por sua vez só avançajuntamente com atores e não atores da região, se o Estado investe, retornando o ciclo aque participarão de uma oficina preparatória, nova reflexão.a ser iniciada em novembro próximo. Ainda se discutirá o assunto tratado no espetáculo (precarização do trabalho) ou aspectos esté- A Gargalhada está no ar! Boa leitura!dentro da ação artística, tem o aperfeiçoa-mento técnico dos integrantes do grupo, que ticos.recebem aulas de corpo, percussão, canto e Como forma de registro do processode instrumentos musicais. será publicada três edições de A Gargalha- No que diz respeito à ação pedagógi- da, que o leitor tem em mãos, com tiragensca, a mesma é composta de uma oficina tea- de seis mil exemplares cada.tral para até 20 pessoas, que receberão aulas Por fim, o projeto prever a manutençãoteóricas e práticas, como forma de prepará- da sede do grupo, Casa d`Oráculo, e produ- Poesia da Capa-los para o espetáculo a ser criado. Além dis- ção de novo espetáculo, que cumprirá diver- Criada coletivamente pelo Sarau Quilombaque, após aso, como complemento teórico, ainda haverá sas apresentações nas comunidades e outros apresentação do espetáculo Ser TÃO Ser – narrativasmais três encontros do Café Teatral, em que pontos da cidade de São Paulo. da outra margem (a 99ª), dentro da programação da IV Mostra de Teatro de Rua da Zona Norte, realizada pelo Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo. Expediente: Buraco d`Oráculo: Adailton Alves, Edson Paulo Souza, Heber Humberto Teixeira, Lu Coelho e Selma Pavanelli | Colaboradores: Fernando Kinas, Jadiel Lima, Jussara Trindade, Sarau Quilombaque. | Projeto gráfico: Maurício F. Santana. | Contato: buracodoraculo@yahoo.com.br www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | Tel.: (11) 98152-4483 / 98188-3670 | Tiragem: 6000 exemplares 2
    • Ser TÃO 100 O negocio não está na partida e nem na chegada, está na travessia. J. G. Rosas A soma de 100 apresentações do fizeram as comunidades percorridas, mas não zona leste, que fomos trocar experiências.espetáculo Ser TÃO Ser – narrativas da outra tínhamos o caminho, a forma do espetáculo. Dessa forma, Ser TÃO Ser é o sertão que jámargem alcançada pelo Buraco d`Oráculo, Tínhamos em mãos histórias de luta de um estava dentro de nós desde o nosso iniciotorna-se um marco na trajetória do espetáculo povo desterritorializado, aguerrido e jogado à enquanto grupo de teatro de rua.e do grupo. Desde agosto de 2009, quando margem de uma grande cidade. Queríamos As primeiras apresentaçõesteve sua estreia, o Ser TÃO ser já percorreu mostrar esse povo, trazê-lo para o centro de do espetáculo foram feitas ainda em48 cidades de sete estados das cinco regiões nosso trabalho. Então o recorte escolhido, meio a acertos, em que retirávamos oudo país. Sabemos que o número alcançado foi a luta por um pedaço de chão: a moradia. acrescentávamos novos elementos. Muitaé pouco se comparado a espetáculos que Essa questão social esteve presente em quase coisa ficou para trás nas primeiras investidascumprem seguidas temporadas em espaços todas as histórias colhidas em mais de 80 na rua. Inúmeros parceiros foram consultadosfechados. No entanto, se não esquecermos horas de vídeo gravado e outras tantas escutas como provocadores, em um exercício deque Ser TÃO Ser é um espetáculo de rua, e em trajetos e conversas com os parceiros escuta, de maneira a adquirirmos elementosque a cada nova apresentação – assim como envolvidos direta ou indiretamente com o para a construção de um trabalho que fosseos feirantes – nos deslocamos e montamos projeto. Como afirmou Leon Tolstoi: “Cante verdadeiro e levasse à a reflexão por meioa estrutura, apresentamos e tornamos tua aldeia e cantarás o mundo”. Decidimos das histórias contadas. Levamos à cena oa guardar tudo, a quantidade de 100 cantar o nosso pedaço de chão, pois nos humano, construído de forma narrativa eapresentações é muito significativa. Além identificamos como seres desterritorializados, poética, sem perder o questionamento e adisso, produzido em grupo, fruto de intenso afinal todos os integrantes do grupo fazem provocação necessária, a quem se propõetrabalho técnico e reflexivo, apresenta, por parte de algum tipo de sertão. usar o teatro como veículo de transformação.meio de sua temática, a tomada de partido O Ser TÃO Ser pode ser considerado o Mesmo com todo empenho eda classe trabalhadora, tão marginalizada. trabalho mais autoral do grupo, mas ele não dedicação depositados na sua construçãoNesse percurso, estimamos que um público está isolado na história de quase 15 anos do espetáculo, sempre pairou uma dúvidade 25.000 pessoas já tenha presenciado o de Buraco d`Oráculo. Desde o inicio, cada em relação a sua longevidade. Não sabíamosespetáculo. Dessa forma, podemos considerar projeto, cada novo trabalho é continuidade, ao certo a estrada que iríamos percorrerque a trajetória percorrida ao longo destas 100 desdobramento dos anteriores. Não com esse trabalho. Queríamos, é certo - eapresentações, firma a certeza do caminho renegamos nada que tenhamos feitos continua a disposição - ampliar as relaçõesescolhido pelo Buraco d`Oráculo. anteriormente, mesmo os equívocos. As com os movimentos sociais, sobretudo os de O espetáculo é resultado de um tomadas de decisões erradas fazem parte de moradia, para levar esse espetáculo, porémprofundo mergulho em histórias coletadas em nossa trajetória contínua de aprendizado e esse caminho foi ainda pouco percorrido.seis comunidades da região do extremo leste amadurecimento. Para chegar ao Ser TÃO Por outro lado, frequentamos a programaçãoda cidade de São Paulo, realizada dentro do Ser foi necessário percorrer um caminho de diversos festivais e instituições culturais,projeto “10 Anos: a cidade, a comunidade e que solidificasse a história do grupo, o sempre levando a discussão da luta poras pessoas na trajetória do Buraco”, graça aos entendimento político e histórico no qual moradia, sempre atual em um país de muitarecursos do Programa de Fomento ao Teatro estamos inseridos e, principalmente, uma exclusão.para a Cidade de São Paulo. Ao iniciar o aproximação e uma relação com o nossoprojeto tínhamos a certeza do que queríamos público. Foi com o público da periferia, mais Edson Paulover em cena: os sujeitos históricos que especificamente de São Miguel Paulista, na Ator do Buraco d`Oráculo. 3
    • e, ad ta lidm u s e ica ge sc va d ro sma , eno es t u i ra : d ea distanciado da cena, mas pelo deslocamento do espetáculo no espaço e pela participaçãoM o a a t ativa daqueles que o acompanhavam, em seus movimentos e sons. c d onnibilio noa s cê i ã ru É a partir da ideia dessa recepção multissensorial - por parte não só de um espectador, mas um espectador-ouvinte - que s defendo aqui a necessidade de ampliarmos sepç de os nossos canais perceptivos, aprofundando o o entendimento do espetáculo de teatro O verbete recepção é definido pelo pec de rua de modo a percebê-lo como uma Dicionário de Teatro de Patrice Pavis – arte capaz de abranger simultaneamente importante obra de referência para os r várias camadas de recepção igualmente estudos teatrais da atualidade - como importantes. Não se trata, evidentemente, “interpretação da obra pelo espectador” e de substituir uma primazia (visual) por outra “análise dos processos mentais, intelectuais (auditiva), mas de mergulhar mais fundo e emotivos da compreensão do espetáculo”. na obra de arte, e absorver o fenômeno Jussara Trindade Mas, ainda que logo a seguir o autor utilize teatral por outras vias que a modernidade como recurso explicativo uma imagem do renascentista, em seu ideal de Ciência, espectador como que imerso “num banho frequentemente deixou à sua margem. Trata- de imagens e sons”, ao desenvolver suas se de compreender o espetáculo teatral de considerações sobre os códigos perceptivos rua como obra artística essencialmente da recepção a atividade teatral é descrita audiovisual, e não apenas visual. apenas dentro de um quadro referencial Nesse sentido, o caminho que visual, corroborando a tendência de proponho abordar é o sonoro-musical, ou apreensão do espetáculo ainda sob os seja, o da audição e da escuta – dimensão parâmetros da perspectiva - conceito da sensorial que transcende o fenômeno pintura que inseriu, no palco renascentista, estritamente acústico, para abranger esferas o princípio cartesiano de separação radical mais amplas do humano, inscritas também entre observador e objeto observado, entre no social, no cultural, no urbano e no espetáculo e espectador. contemporâneo. Se o “ouvir”, possibilitado Numa época ávida por explicações pelo aparelho auditivo, cumpre uma função científicas, a noção de perspectiva ofereceu fisiológica, o ato da “escuta” vai além e se ao teatro burguês meios de criar, sobre um converte num meio para a atribuição de painel plano colocado no fundo da cena, sentido do mundo, pois é também uma a ilusão da profundidade em um palco construção histórico-cultural e, como tal, espacialmente limitado. A inovação trouxe condicionada pela época na qual está o espaço tridimensional para dentro das inserida (HARNONCOURT, 1998). Ou seja, salas teatrais, substituindo a visão real aquilo que ouvimos como “som” também da vida cotidiana pela ilusão “realística” nos informa sobre a realidade circundante, do ponto de vista do espectador ideal, ajudando-nos a lembrar, associar, raciocinar, sentado no centro da plateia. Desta forma, tomar decisões; enfim, a sobreviver no o teatro burguês não teve mais qualquer mundo e, também, transformá-lo. necessidade de espaços abertos, pois podia A multidimensionalidade do teatro inventar o seu próprio mundo “real” a partir de rua coloca em questão a noção teatral de das leis da perspectiva visual. Enquanto recepção enquanto processo estritamente isso, do lado de fora das salas fechadas, o visual, o que poderia ser sintetizado na ideia teatro que se realizava em espaços públicos de escuta cênica como um modo de recepção da cidade permanecia atuando a partir de próprio dessa modalidade, uma vez que na uma realidade multidimensional, dada não rua o espectador mantém com o espetáculo pela ótica de um observador estático e uma relação mais complexa do que aquela4
    • que foi historicamente definida pelo palco A noção de imagem sonora permite- memória afetiva; enfim, alcançar dimensõesrenascentista. Em meio aos múltiplos e nos vislumbrar a complexa rede de relações inacessíveis apenas pelo verbal/conceitual.incontroláveis estímulos – especialmente que se estabelecem entre espetáculo Estudos de semiologia musical,visuais e sonoros – presentes no espaço e espectador-ouvinte a partir de uma como os do etnomusicólogo Jean-Jacquesurbano, o teatro de rua é potencialmente escuta cênica, pois diferentes maneiras Nattiez, levam à identificação de umaum centro para o qual tende a convergir a de se utilizar de elementos musicais num “sintaxe musical” – um sistema de relaçõesatenção de um público que, a princípio, se espetáculo evocam também diferentes formais entre os elementos constituintesencontra ali de passagem; e a musicalidade imagens sonoras. Por isso, a musicalidade do fenômeno musical (melodia, harmonia,do espetáculo é um fator essencial neste do teatro de rua pode ir muito além da estilos) - e uma “semântica musical” queprocesso, motivo pelo qual muitos teatristas simples utilização de “música” como um relaciona as sensações auditivas a outrasde rua tornam-se, também, atores-músicos. recurso acessório da cena. O impacto das esferas, além da sensorial: emoção, cultura, Frequentemente, é a música – imagens sonoras produzidas pelos atores ideologia. Para o pesquisador, há dois níveismobilizada pela escuta cênica – o fator contribui para multiplicar, polifonicamente, de recepção musical: no primeiro, maisdeterminante através do qual o espectador os sentidos do espetáculo, possibilitando consciente, o ouvinte percebe sensaçõeseventual da rua se sente atraído pelo espetáculo ainda a economia de elementos cênicos físicas; no segundo, mais profundo, ase decide interromper o seu trajeto cotidiano que o ambiente frequentemente ruidoso sensações se ligam a sentimentos. Alémpara assisti-lo, ou mesmo acompanhá-lo num do espaço aberto não favorece, como a disso, se por um lado procedimentos sonoro-cortejo. É amiúde pela musicalidade que um palavra e o diálogo. Uma simples canção musicais podem ser empregados numaespetáculo de rua obtém sucesso no desafio de pode tornar desnecessária uma longa cena teatral com o propósito de suscitarinstaurar, no ambiente caótico e fragmentado explicação ao público e potencializar, no público associações como as descritasda cidade contemporânea, um espaço cênico com os seus elementos musicais (o ritmo, por Nattiez, por outro cumprem também acapaz de religar o cidadão às suas matrizes a melodia, o timbre dos instrumentos função de organizar sonoramente o jogo dosmais profundas, restaurando o seu sentido musicais utilizados, o trabalho vocal), os atores, pois a música de cena favorece aode pertencimento a uma comunidade, a um sentidos menos explícitos, as associações ator manter-se plenamente consciente doslugar. com outros fatos que se deseja mencionar, a laços existentes entre cada trecho, frase Mas, a que se poderia atribuir esta musical, tonalidade de uma canção, e onotável capacidade? Segundo pesquisas no ritmo, a duração e intensidade de uma cenacampo da neurologia e da psicoacústica, ou mesmo do espetáculo como um todo.estímulos sonoro-musicais criam imagens Deste modo, a escuta cênica dassonoras na mente do ouvinte. imagens sonoras produzidas na cena Originalmente, a noção de imagem teatral de rua parece ser um caminhosonora se relaciona com um tipo de através do qual é possível transcender osconstrução mental pré-conceitual, pois limites bidimensionais de uma recepçãoé, basicamente, um padrão de impulsos estritamente visual (FLÜSSER, 2002) eneurais interpretado pelo cérebro como a expandir os canais de recepção para umapercepção sensível daquilo que é captado apreensão multidimensional do espetáculo -pelo ouvido. As imagens sonoras – ou seja, as principalmente através de sua musicalidadeimagens mentais evocadas por sonoridades - uma vez que a percepção do som pelo– formam-se no córtex cerebral onde são ser humano se dá por todas as direções,identificadas, armazenadas na memória e, diferentemente da percepção visual queeventualmente, enviadas a outros centros é prioritariamente frontal (e em menorcerebrais (ROEDERER, 2002). É por isso medida, lateral).que, ao escutarmos um dobrado, o badalo Todas estas possibilidades em tornode um sino ou um estampido, podemos da musicalidade do teatro de rua, aquiexperimentar sensações de alegria, apenas esboçadas, apontam para a ideianostalgia e medo, antes mesmo de podermos de que esta modalidade possui aspectosvisualizar mentalmente e racionalizar sobre estéticos e exigências técnicas diferentesas imagens mentais decorrentes dessas daquelas que a sociedade ocidental modernapercepções auditivas: uma cena de circo, a acostumou-nos a compreender como sendoigreja convocando os fiéis para a missa e um as “do” teatro e que, a rigor, foram erigidastiro. para atender ao teatro das salas fechadas. 5
    • A atualidadePor isso, apresenta-se para o teatro de rua odesafio de construir as próprias referências,com base em suas especificidades políticaestruturais, como aporte imprescindívelpara o desenvolvimento de atividades depesquisa estética, análise do espetáculo do teatroe crítica teatral, voltadas especificamentepara a modalidade. documentário Fernando Kinas teatro O documentário, ou documental, constitui um conjunto de ideias e práticas teatrais complexo e estimulante, seja sob o ponto de vista estético, quanto social. Pouco estudado e praticado no Jussara Trindade Brasil, suas possibilidades de utilização Doutora em teatro pela Unirio; integrante continuam, portanto, insuficientemente do Núcleo Brasileiro de Pesquisadores de exploradas. Para investigar a atualidade Teatro de Rua. desta modalidade teatral seria preciso aliar a investigação teórica com a análise da produção teatral contemporânea, brasileira e estrangeira. Esta tarefa poderia, ainda, contribuir para a reflexão geral a respeito de temas que lhe são correlatos: novasReferências bibliográficas exigências no trabalho de interpretação, impacto no ensino teatral, relação com aFLÜSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: crítica especializada, alterações na recepçãoensaios para uma futura filosofia da e caráter inter ou transdisciplinar.fotografia. Rio de Janeiro: Relume, 2002. A matriz europeia do teatroHARNOUNCOURT, Nikolaus. O discurso documentário – existem formas muitodos sons: caminhos para uma nova variadas de teatro documentário, da Américacompreensão musical. Rio de Janeiro: Jorge Latina à Ásia – tem um ponto de inflexãoZahar Ed., 1998. nos anos 1960, com a obra do dramaturgoNATTIEZ, Jean-Jacques. Etnomusicologia Peter Weiss (1916-1982). Para ele, o teatroe significações musicais. Tradução de documentário filia-se à tradição do teatroSilvana Zilli Bomskov. In: Per Musi. Revista político e realista (proletkult, agitprop,Acadêmica de Música. Programa de Pós- experimentos teatrais de Piscator, peçasGraduação em Música da Universidade didáticas de Brecht). Mesmo não sendoFederal de Minas Gerais, nº 10, jul-dez/2004, precursor – diretores russos e alemães dosp. 5-30. anos 1920 já tinham dado exemplos destasPAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São práticas –, Weiss introduziu de forma radicalPaulo: Perspectiva, 2003. o “documento” na cena (atas, relatórios,ROEDERER, Juan. Introdução à Física e estatísticas, comunicados da bolsa,Psicofísica da Música. São Paulo: Editora entrevistas, balanços bancários, cartas,da Universidade de São Paulo, 2002. reportagens). 6
    • Embora defendendo a recusa de sobre a libertação da Angola, Canto do possível, é inegável a recusa da imitação, atoda forma de invenção (certamente uma Fantoche Lusitano). ruptura com a ilusão cênica e o interesse peloreação ao status quo teatral da sua época), o Apesar de diferentes visões exame das estruturas sociais no lugar dosteatro documentário, tal como proposto por artísticas e políticas relacionadas ao embates entre subjetividades. Mesmo se háWeiss, mantém a condição de obra artística: teatro documentário, entre as quais não dificuldades em evitar o elemento ficcional,“Mesmo quando tenta se liberar do quadro se pode ignorar aquela que deriva da vaga como afirma Bernard Dort3, Weiss e Kipphardtque faz dele um meio artístico, mesmo pós-moderna, pode-se afirmar que parte (cf. O caso Oppenheimer), aproximam-se daquando abandona as categorias estéticas importante delas apontam na direção da exposição imediata (não mediada) dos fatos.(...) o teatro documentário é no final das inteligibilidade da atualidade, isto é, a Este trabalho dramatúrgico, sobretudo nocontas um produto artístico e deve sê-lo, se realidade pode e deve ser explicada. Cabe, caso de Peter Weiss, não parece ter sidoquiser justificar sua existência.”1 Para Weiss, então, localizar e estudar experiências inteiramente absorvido e desenvolvido pelaso teatro documentário mostra “a imagem teatrais inspiradas nesta matriz (tanto sob novas gerações.de uma parcela da realidade arrancada ao o ponto de vista formal, como político) que No entanto, hoje são frequentes osfluxo contínuo da vida” e tem como objetivo participam desta tarefa de compreensão do trabalhos cênicos que exploram a utilização“estabelecer um modelo das contradições momento histórico atual. do material documental em cena, indício dareais”. Evidentemente, na continuação direta O teatro documentário é, portanto, atualidade desta modalidade teatral. Nossada tradição brechtiana, este mecanismo deve uma forma artística veiculadora de hipótese, confirmada por inúmeros casosrevelar a condição histórica da atualidade e a potenciais novas formas e novos conteúdos, recentes, no Brasil e no exterior (Luis Antôniopossibilidade da sua alteração. A tarefa deste neste sentido, ele está em sintonia com - Gabriela, de Nelson Baskerville; Accidens,tipo de teatro seria, então, fazer a crítica o rearranjo que caracteriza o teatro matar para comer, de Rodrigo Garcia; Genovaradical da camuflagem, da falsificação da contemporâneo das últimas décadas. Uma 01, de Fausto Paravidino; Rwanda 94, derealidade e da mentira. das vertentes deste debate diz respeito Jacques Delcuvellerie; O interrogatório, de Esta proposta teatral, pelas suas à recusa do regime ficcional canônico. Eduardo Wotzik; Tableau com existênciasopções formais e de conteúdo, pretende Anatol Rosenfeld, na época em que estas marginais, de Björn Auftrag e Stefanie Lorey),investigar a realidade social, opondo-se, experiências estavam no apogeu (década é de que há, simultaneamente, referênciaportanto, à desinformação e às diferentes de 1960), afirmou que “tanto Hochhuth ao modelo histórico de teatro documentárioestratégias de opressão e dominação. É [escritor e dramaturgo alemão, nascido e exploração de novas possibilidades. Ospreciso lembrar que Peter Weiss nasceu em 1931] como outros expoentes do teatro resultados estéticos e políticos destasem plena Primeira Guerra Mundial, viveu documentário procuram eliminar, na medida experiências, evidentemente, são desiguais.a Segunda e escreveu sob o impacto da do possível, o elemento ficcional”.2 Ainda Peter Weiss sistematizou e exercitouGuerra do Vietnã e das lutas anticoloniais que um puro teatro de relatório, pela própria um tipo de teatro que, segundo ele mesmo,(Weiss escreveu, por exemplo, uma peça natureza do dispositivo teatral, não pareça abandonou “os cânones estéticos do teatro 1 Peter Weiss, “Notes sur le théâtre documentaire”, in Discour sur la genèse et le déroulement de la très longue guerre de libé- ration du Vietnam illustrant la nécessité de la lutte armée des opprimés contre leurs oppresseurs, Paris, Seuil, 1968, p. 10. As próximas citações são igualmente deste texto. 2 Anatol Rosenfeld, “O teatro documentário”, in Prismas do teatro, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 122. 3 Cf. Bernard Dort, O teatro e sua realidade, São Paulo, Pers- pectiva, 1977, pp. 28-30. 7
    • tradicional” e desenvolveu “novas técnicas Popular de Arte e Ciência – do que vivi, do que aprendi Congresso da Universidadeadaptadas às novas situações”4. Seriaimportante, agora, identificar e estudar estasnovas possibilidades do teatro documentário Sobre a experiência no IIcontemporâneo. O surgimento nos últimosanos de coletivos teatrais que rejeitam os e do que me contarampadrões da produção canônica e comercial Sem Culto à Culpamostram o vigor da produção atual. Muitosdestes grupos dialogam explicitamente coma tradição do teatro documentário. Analisarestas contribuições significa também extrairreflexões capazes de extrapolar o âmbitorestrito em que elas ocorrem. Do conjuntodestas experiências pode-se vislumbrar Fernando Kinasum modo de trabalho cênico e de reflexão Doutor em Teatro pela Universidade Ocupa Nisecapazes de servir como referência para a Sorbonne Nouvelle e Universidade de Sãoação teatral crítica. Paulo. Dirige desde 1996 a Kiwi Companhia Seria preciso destacar alguns de Teatro/Cooperativa Paulista de Teatro.fenômenos relacionados ao teatrodocumentário, como a reorganização daação do ator/atriz em função de exigênciasdiversas daquelas feitas pelo teatrodramático, uma vez que são alteradasnoções como as de personagem, conflitointersubjetivo, progressão e desenlace. Viade regra, estes marcadores clássicos doteatro perdem sua centralidade. Reflexosimportantes destas práticas teatraisdocumentais também podem ser percebidasna recepção, já que o público estaria menospreparado para lidar com estas propostascênicas avessas ao teatro “aristotélico”. Durante 21 dias, e alguns mais, oTemas correlatos também mereceriam Ocupa Nise reuniu artistas, cientistas,análise mais detida, como a relação entre curadores, cidadãos e alguns bichosteatro documentário e performance; o “efeito transeuntes – enfim, loucos para saudardo real” (a expressão, no âmbito do cinema, a expressividade e a própria Loucura,foi usada, entre outros, por Ismail Xavier5); homenageando e aprendendo com oso retorno, potencial, ao subjetivismo (teatro ensinamentos de Spinoza, Nise da Silveira,biográfico, de depoimento ou confessional); Nelson Vaz, Amir Haddad e outras(os)as revisões da fronteira entre arte e vida e o educadoras(es) da cultura e da arte popular.reivindicado “fracasso da representação” (cf., Internos em um plasma às vezespor exemplo, as produções do Rimini Protokoll, leve, às vezes denso, experimentamos oForced Entertainment e coletivo LFKs). prazer de nos surpreender a cada momento, Um programa de estudo se apresenta por cada momento de sensibilidade quee suas implicações são potencialmente nos embelezava. Neste clima, o hospitalricas. Para que isto aconteça é decisivo psiquiátrico Dom Pedro II – no bairro denão desvincular as esferas formais e de Engenho de Dentro (pra fora), Rio de Janeiroconteúdo, estabelecer uma base conceitual – recebeu experiências e relatos vindos desólida e ancorar a análise na realidade 4 Peter Weiss, op. cit., p. 14. todos os cantos, práticas corporais, plásticas,social, definindo campo, valores e horizonte sonoras e espirituais, momentos de cuidado 5 Cf. Ismail Xavier, Iracema: o cinema-verdade vai ao teatro.políticos. In: Devires - Cinema e Humanidades, v.2. n. 1, 2004, p. 70-85. e de cura. 8
    • Não haveria como sair de lá intacto,sem toques, sem ranhuras, sem se cortar,sem provocações internas ou à flor dostatos. Avisava Ray Lima: “Estamos mexendoem cacho de marimbondo”. Assim, asmanifestações foram aparecendo, como umenxame ou a maré que vem enchendo atétransbordar. No início, de mansinho, algunscalados, alguns já com empolgação, osprotagonistas do espetáculo-terapia-festa-novela começaram a contar quem são, deonde vieram, as marcas do cotidiano e de um grau em que as mostram conscientemente Sem gritos, pra poder ouvir todooutro mundo – mágico, surreal, que os rodeia ou não. Chegamos a uma malha onde não mundo e atrair quem se diz estar externo.e que se faz presente, mareando aquele local. mais impera o objetivo fajuto, cerceado pelo Ou se gritarmos, que nosso grito seja comoSão os atores-personagens principais sem subliminar malicioso e triste. um murmúrio, um afago!:nem estrelar numa megaprodução fantástica Desatamos nós por nós, até que nossa “Escuta, escutade Hollywood ou numa falsa realidade como rede livre fez encontrar em nossa arte, em O outro, a outra já vema do Big Brother. Não precisam. Eles são nosso teatro, em nossa vida, o objetivo e o Escuta, acolheas estrelas de suas próprias vidas. De suas subjetivo. E é tão bonito quando entendemos Cuidar do outro faz bem”.luzes traduzem, como singelas e grandiosas também a subjetividade, quando tornamos (Ray Lima)oferendas, as poesias, composições, claras as nossas linguagens. Por passar momentos tão intensos decantorias, danças, pinturas, o humor, o Não precisamos mais estar certos. transformação, de criação, de filosofia-ação,amor. Vão modificando suas caricaturas, O campo que escolhemos adentrar, porque de místicas que não conhecia, não me sintodesconstruindo e reconstruindo o espaço muito novo e inovador, é recheado de reabilitado. Pois a questão não é estar aptoe as energias como artesãos. Grandes incertezas. A nossa clareza tem de ser para se integrar novamente e ser aceitado noArquitetos do Universo, Gadú! O imenso mar livre da certeza cartesiana recriminadora, “mundo dos normais” – o mundo capitalista,que nos apresentaram, esses mergulhadores, opressora, anti-diversificadora. No mundo que faz com que arregalemos nossos olhosnadadores e pescadores geniais, mareia certinho, é esta a certeza que domina: às para um cardápio de espantos, que desvendaagora nossas vidas! vezes rígida como uma parede de aço; às os mistérios, a profundeza e os segredos das Nós fomos pra chuva! E dançamos vezes flexibilíssima, como quando se pode coisas, dos sentimentos, até nos tornarmospara ela, que nos banhou, amoleceu os vender e comprar a verdade. contempladores estáticos, consumidoresrecantos ainda rígidos do nosso corpo, da manipulados e manipuladores, encarcerados Ter clareza não é ter certeza. É a partirnossa mente; lavando a sujeira acumulada e torturadores. da incerteza, da dúvida, que construímosde anos: lixo orgânico, lixo industrial, lixo a coragem e o compromisso plenos, a A terapia ocupacional que começa ahospitalar, lixo nuclear, lixo visual, lixo disposição de lidar com a obscuridade e os se desenvolver não tem relação com a simplessonoro, lixo intraorgânico, lixo mental – dos devaneios. Precisamos então ter clareza do reabilitação. Ela dialoga com a construçãoquais ainda não nos livramos, também que queremos, do que compreendemos e de outro sentido para o mundo, ou mesmoporque é uma terapia, uma luta pra ser do que ainda não, de quando entrar ou do outro universo: é a medicina/ciência/modotravada um dia após o outro. que fazer quando entrar ou se não entrar em de vida que permite que cada um descubra e A cura é árdua e às vezes dolorosa. cena, das nossas escolhas. transforme suas realidades, suas essências eFicar abstinente do individualismo, das se comunique, sem preconceitos, com as do Muito inquietante o que está sementiras do conformismo me deixou com o outro. É a revolução que cada um se propõe construindo, não? Mas não podemos nosego, a alma e as carnes à mostra. Cada apelo a fazer em si e que constrói, a partir da aperrear. Como Vitor Pordeus me alerta:por carinho e cuidado, cada palavra sincera, expressividade dessa mudança, a revolução “Não é pra enlouquecer”, não pela ansiedadecada olhar vai nos perfurando, extraindo, coletiva. e pelo escândalo. Nosso grito não é gritogota por gota, o veneno que nos seca. Vamos de guerra. Não queiramos travar uma nova A luta que aqui se trava não se firmareligando nossa sensibilidade. guerra. Muitos dos que estão lá fora esperam em enfrentar inimigos, não se contenta em Agora olhamos as pessoas na rua por isso, se preparando para vender mais buscar as culpas e as desculpas. “Desculpae enxergamos todas as suas loucuras, no armas no seu podre mercado. cú”, como me diz uma amiga. A luta está em não haver culpa nenhuma e sim em que 9
    • eu mesmo tenho um problema pra resolver,um compromisso para cumprir, caminhosinteiros a seguir, milhares de escolhas a II Seminário Amazônicofazer. E tudo isso em uma vida apenas. Euma vida que não acaba. de Teatro de Rua 6 Que sejamos mais livres e quedescubramos onde em nós essa liberdade Adailtom Alves Teixeiraainda não foi conquistada, buscando aprendê-la logo em seguida. Que mergulhemos fundo A história da sociedade capitalista é a história da inclusão de todos os indivíduosno oceano que nos foi apresentado e no e de todas as coisas no mercado ou a redução de todos e de tudo à condição dequal muitos já viviam. Que subamos um mercadoria.pouco à superfície, quando precisarmos Marilena Chauí. Cidadania cultural: o direito à culturarespirar, olhar pro céu e mergulhemos denovo. Que estejamos dispostos, mesmoque nunca prontos, a receber, se comunicar Todos sabem, ou deveriam saber,e respeitar o outro, quem quer que seja, que governar não é o mesmo que ter ode maneira incondicional. Que sejamos poder para fazer o que bem entende, masincondicionalíssimos. sim encaminhar os projetos daqueles que Gratidão a todos, por tudo! realmente detêm o poder. Marilena Chauí “Nós podemos ir até onde nós – que foi gestora da cultura na cidade dequisermos” – Judith (entidade Naná, Rei São Paulo de 1989 a 1992, quando o PartidoReginaldo Terra e gerente do Hotel da dos Trabalhadores (PT) ganhou a primeiraLoucura). eleição nessa cidade – afirma que para os Jadiel Lima, Maraguape-CE, 12 de dirigentes do PT a cultura é vista sob trêsagosto de 2012. aspectos: como saber de especialistas, campo das belas-artes e instrumento de agitação política. Na primeira, a cultura é vista peloReginaldo/Dona Judite/Nanã - Interno que se tornou o “gerente doHotel da Loucura”, durante o Ocupanise. viés da competência, isto é, poucos sabem e muitos recebem passivamente, logo, faz parte da ideologia dominante. No segundo, campo das belas-artes (teatro, dança, música etc.), a cultura é vista como própria dos talentosos, daqueles que receberam formação específica. Assim, é espetáculo, entretenimento, não se valoriza a criação e seu processo, mas os resultados. O terceiro reúne os dois anteriores, com o objetivo de No entanto, ainda segundo a persuadir as massas; coloca-se a serviço da pensadora, a cultura e a esquerda tem laços política. indissolúveis e se faz necessário um trabalho Questiona Chauí, em Cidadania crítico que desvele a realidade e engaje cultural: novos sujeitos na transformação social. Qual o paradoxo? Em lugar de Para a esquerda, a cultura é a tomar a cultura como uma das capacidade de decifrar as formas chaves da prática social e política da produção social da memória e da esquerda, os dirigentes petistas do esquecimento, das experiências, deixam de lado a dimensão crítica e das ideias e dos valores, da produção reflexiva do pensamento e das artes das obras do pensamento e das obras e simplesmente aderem à concepção de arte e, sobretudo, é a esperança instrumental da cultura, própria da racional de que dessas experiências sociedade capitalista (2010: 9-10). e ideias, desses valores e obras 10
    • surja um sentido libertário, com democrática? Mas quantos brasileiros tem força para orientar novas práticas acesso e dominam as ferramentas digitais? e políticas das quais possa nascer Muitas são as perguntas. outra sociedade (CAHUÍ, 2010: 8-9). Para completar a tragédia farsesca,Por isso mesmo, a cultura permite existe um refluxo dos movimentos culturais,desvelar a luta de classes, possibilitando cansados de esmurrar as pontas de facasa contraposição à oficialidade, criando, a sempre afiadas. Como diria certo camarada:partir da memória, outros símbolos, outros que fazer?7espaços. Muitos Podem pensar que dozeanos de governo do partido supracitado,pareciam caminhar dentro dessa proposta, Apesar das três dimensões,mas não. Devido à extensão do texto, simbólica, cidadã e econômica, o horizontetambém não vamos nos debruçar sobre maior é o aspecto econômico, isto é, a culturatodos os supostos avanços e nem sobre como mercadoria. Por isso a ênfase na tal datodos os retrocessos. Mas, peguemos um economia criativa, indústrias criativas, entreexemplo, sem esmiuçá-lo item por item: as outras. Portanto, a cultura não é vista comoMetas do Plano Nacional de Cultura (PNC). direito e como processo do desenvolvimentoAs metas são uma orientação, um norte das humano, mas pela ótica do econômico.ações do governo federal e deveriam estar O objetivo é atingir 4,5% do PIB (Produtovalendo desde 2011, com validade até 2020. Interno Bruto). A cultura é mercadoria. EmÉ uma “experimentação” do que deve vir a sendo mercadoria, não é para todos, é paraser a cultura brasileira. Mas nem mesmo o quem pode comprar; e também não seráprazo foi cumprindo, tudo só começará pra qualquer um que poderá criar, apenas “os Adailtom Alves Teixeiravaler em 2013. criativos”, “os empreendedores”. Portanto, entra na ótica já apontada por Marilena Mestre em Artes pela Unesp; membro do Mesmo assim, o prazo não é o maior Chauí. É sempre bom se questionar: em Núcleo Brasileiro de Pesquisadores deproblema, mas o norte apontado pelo quais bolsos irão parar esses 4,5% do PIB? Teatro de Rua; articulador da RBTR; ator dopróprio PNC. Criado em conjunto com a Provavelmente nos bolsos dos mesmos grupo Buraco d`Oráculo.sociedade civil, por meio de conferênciase outros mecanismos participativos, o privilegiados, isto é, daqueles que já são osdocumento deveria, em tese, expressar a donos das tais indústrias criativas. Clarovontade da sociedade civil, ou pelo menos que um artista ou outro possa furar essedaqueles que se envolveram diretamente cerco da economia criativa, tornando-sena construção do mesmo. Mas não é bem uma exceção (que existe para confirmar a 6 Texto produzido como início das reflexões na Roda regra), este será destacado, justamente para 3 – Políticas Públicas Para as Artes, ocorrida no diaassim. E não sabemos onde nós, sociedade 25/07/12, ao lado do Rio Madeira, no Complexo da Es-civil, perdemos a mão, onde as coisas se demonstrar como o projeto é maravilhoso e trada de Ferro Madeira Mamoré – Porto Velho/RO.embaralharam e começaram a apontar “democrático”. Afinal o capitalismo já fazem outra direção. Muitos trabalharam, isso há séculos: só os melhores conseguem; 7 Apesar do aparente cansaço, a sociedade civil conti-pensaram, discutiram, visando criar um e a ideologia faz muitos crer que basta lutar nua organizada e mobilizada, pois sabem que qualquer para se sair vencedor. conquista para os trabalhadores só vem com muita luta.documento que norteasse a política cultural Em relação aos artistas que escolheram os espaços pú-brasileira, no sentido do desenvolvimento Para completar a tragédia ou a farsa blicos abertos – que não se enganam em relação aoshumano. No entanto, o resultado final parece (e claro que faz parte do pacote, a ditadura novos caminhos que parece seguir a política cultural deque já estava pronto a partir de práticas burguesa sempre vem travestida de nosso país –, tem demonstrado vigor de sua organiza-contrárias ao sentimento de sua construção. democracia), existe um falso diálogo entre o ção. No Seminário Amazônico de Teatro de Rua, havia articuladores de 13 estados do Brasil. E lá, em mais umaSe somarmos a organização e o processo governo e a sociedade civil, que mesmo com tentativa, foi criada a campanha nacional “Dilma, nãode construção, foram décadas de luta. Para tanta grita de todos os lados, faz ouvidos desmanche! Dialogue Já.” A perspectiva é que todos osquê? Para transformar o PNC e as ações daí moucos. O último exemplo é o processo seguimentos culturais abracem a campanha e apresentedecorrentes no que se combatia. Afinal o eleitoral para o CNPC (Conselho Nacional as suas reivindicações. Talvez seja insuficiente, mas nãoPNC aponta para a uma prática mundial: de Política Cultural), eminentemente se pode parar de lutar. Ainda no seguimento de teatro de rua, está agendado de 13 a 16 de setembro de 2012 o XIa reinvenção do capitalismo por meio da excludente, apesar de vir sob a aparência Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que ocor-cultura. de democrático. Afinal a internet não é rerá na cidade de João Pessoa-PB. 11
    • vem aí VII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista 07A16DEZ2012. Serão 12 espetáculos de teatro de rua! Vila Mara e Cidade Nova, São Miguel Paulista – São Paulo-SP Oficina de Teatro de Rua duração de seis meses Inscrições no site: www.buracodoraculo.com.br/oficinarealização Maiores informações (11) 98188-3670 / 98152-4483 www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | buracodoraculo@yahoo.com.br Apoio