A escola como local de trabalho e sua especificidade

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  • 1. Pós-Graduação a distância Gestão Escolar e Coord. Pedagógica A escola como local de trabalho e sua especificidade Maria Luisa
  • 2. SumárioA escola como local de trabalho e sua especificidade.............................................. 3 Gestão escolar..................................................................................................................... 3 O que é administração escolar?............................................................................................................. 3 Administração e história........................................................................................................ 5 Taylor e Fayol..................................................................................................................................... 6 Taylor e seus princípios........................................................................................................................ 7 A escola como organização..................................................................................................... 8 Concepção de escola e gestão............................................................................................... 10 Gestão Democrática........................................................................................................................... 13 O Processo de Trabalho na Escola........................................................................................... 14 O Projeto Político-Pedagógico................................................................................................ 17 O Trabalho Coletivo.............................................................................................................. 17 BIBLIOGRAFIA.................................................................................................................... 19
  • 3. A escola como local de trabalho e sua especificidade A escola como local de trabalho determinadas por fatores históricos, sociais, políticos, religio- sos e científicos. e sua especificidade Além disso, é preciso lembrar que uma organização se As modernas teorias educativas sobre as quais se apóiam caracteriza por alguns elementos fundamentais: a existênciaas orientações para se estabelecer um sistema educacional de indivíduos e grupos inter-relacionados; a orientação paraque responda às necessidades sociais apresentam como prin- cumprir metas e objetivos; a diferenciação de funções; a co-cípios a descentralização, a autonomia e a participação. ordenação racional direcionada; a continuidade. Diante disso, é prioritário definir os perfis institucionais Embora seja uma organização que também apresenta es-que darão forma, mediante um currículo pertinente, e que ses elementos, a escola se diferencia das demais organiza-possam responder às expectativas dos alunos e de toda a so- ções porque sua realidade é socialmente construída por múlti-ciedade, numa época de constante evolução tecnológica que plos atores, cada um com formação, percursos e perspectivasexige adaptações mais rápidas às mudanças. educativas diferentes. Além disso, é fundamental ressaltar Nesse contexto, a Escola adquire uma importância funda- que o que torna singular o trabalho da organização chamadamental, porque é no seu interior que os homens e mulheres escola é que ele visa à educação de crianças e jovens.de amanhã devem receber não somente conhecimentos, mas Essa sua singularidade, no entanto, não isenta o gestortambém as ferramentas para a compreensão e a aplicação de ter conhecimentos da ciência administrativa, pelo contrá-desses mesmos conhecimentos. rio, significa que ele deve ser preparado. A preocupação com Para que esta base formativa possa ser adquirida, além este tema não é exclusividade destas primeiras décadas dodos processos de ensino e aprendizagem, é preciso que a Século XXI, há 50 anos o grande educador Anísio Teixeirainstituição escolar funcione sobre uma base estruturada que (saiba mais sobre ele no vídeo recomendado e no quadro quepermita à sua direção e subalternos estabelecerem um tra- vem após o texto) chamava a atenção para o que na época sebalho harmônico, livre de tensões. Isso significa um clima denominava “administração escolar”, e que hoje leva o nomeorganizacional saudável em que todos os integrantes da or- de “gestão escolar”. Trata-se de um texto que poderia perfei-ganização escolar tenham claros os fins e objetivos da escola, tamente ter sido escrito hoje, em que a crueza das palavrasidentifiquem-se com eles e, mediante tarefas conhecidas e é suavizada pela sensibilidade de um educador preocupadobem delimitadas, possam se coordenar em ações conjuntas com a qualidade da Educação. que contribuam para um avanço positivo de toda a organi-zação. Para que isso aconteça, é necessário dispor-se tam- O que é administração escolar?bém de estruturas adequadas, recursos materiais, objetivos A função de administrador é função que dependee procedimentos que estejam de acordo com a organização muito da pessoa que a exerce; o administrador de-escolar. pende de quem ele é, do que tenha aprendido e de uma longa experiência. Tudo isto é que faz o admin- Não estamos falando de utopias, mas de um conceito de istrador. E, é comum, entre nós, pensar que aquilogestão plenamente realizável, que exige conhecimentos da que não se aprende senão em muitos anos, não se precisa aprender. Daí, não se precisar de prepararciência administrativa, está fundamentado em leis e, como o administrador. O Brasil é talvez um país dos mais excepcionais neste assunto. Não me consta que osconsequência de sua especificidade, tem que buscar inspira- administradores se preparem no Brasil. Parece queção no campo pedagógico. não há administração no Brasil no sentido real de algo que se possa aprender e, muito menos, em educação, onde, ao que parece, nunca houve busca Gestão escolar de administradores para as escolas. Qualquer pes- soa pode dirigir as escolas. Qualquer pessoa pode Antes de se falar em gestão escolar, faz-se necessário administrar o ensino. É evidente que o país achaabordar o tema gestão de maneira geral. Em primeiro lugar, que para isso não é preciso preparo. E por quê? Por que será que o país acha que realmente não sevale ressaltar que todos os setores da vida são submetidos precisa de preparo para dirigir escolas, nem dirigira processos administrativos, que são dinâmicos, pois consis- a educação? Só percebo dois motivos: um deles é que os professores são tão perfeitos, que real-tem em tomar decisões sobre os objetivos estabelecidos e de mente não precisem de Administração, e segundo,acordo com eles. Portanto, depreende-se que a gestão esco- que as escolas também sejam tão pequenas, que tais professores, perfeitíssimos, podem realizar seular se encontra dentro de um universo maior, ou seja, no bojo trabalho em perfeito estado, digamos, de anarquia,da administração geral. cada um fazendo o que venha lhe parecer que deve fazer e resultando disso uma admirável Adminis- Um gestor deve levar em conta que todos os setores da tração. Ou isto, ou então que as nossas atividades no ensino estejam de tal modo estabelecidas emvida são submetidos a processos administrativos; não existe leis, regulamentos, instruções e programas, queum único modelo de administração; e as linhas de ação são não haja trabalho para Administração. Cada um só www.posugf.com.br 3
  • 4. A escola como local de trabalho e sua especificidadetem que cumprir o que está escrito, e está admin- a Administração fica sumamente insignificante. Daí,istrada a escola, está administrado o ensino, estão à medida que passamos do ensino primário para oadministradas as nossas Universidades. A situação secundário, e deste para o superior, reduzir-se, te-é de tal ordem, é tão alarmante, que, peço perdão oricamente, a função da Administração, tanto maisaqui ao Magnífico Reitor, o papel do Administrador importante quanto mais tenha a escola professoresse resume, na maior parte das vezes, em manter de nível, digamos, mais modesto. No ensino superi-bem o serviço de portaria do estabelecimento. A or a Administração é quase mínima, no secundário,portaria mantém perfeita ordem, porque todos que é média, e no primário, é máxima.precisam entrar encontram lugar para entrar, osprofessores e alunos se dirigem às suas classes, e o Máxima, por quê?ensino se realiza porque essa “ordem” existe. Ora,efetivamente é assim que se faz ensino no Brasil.Apesar disto, entretanto, parece que há administra- Porque, se podíamos antigamente ter o grandedores no campo do ensino particular. Parece que no professor primário que sozinho dirigia a sua classe,campo de ensino particular, se um estabelecimento hoje, tendo que dar educação à população inteira,encontrar um grande administrador, agarrar-se-á a sou forçado a buscar um magistério em camadasele com unhas e dentes, e não o afastará da direção intelectuais mais modestas. Quanto mais imperfeitodo seu estabelecimento. Por que será que, apesar for o magistério, mais preciso de melhorar as con-de o Brasil ser como é, existe no ensino particular dições de Administração. Quer dizer: entre os doisAdministração Escolar? grandes tipos de Administração - a fabril ou mate- rial e a do tipo humano em que o Administrador é apenas um auxiliar de pessoas supremamente com-A explicação está em que tem ele poder um pouco petentes - a Administração Escolar se situa comomaior do que o do Administrador Público. E, como caso intermediário, sendo a função administrativanão posso administrar sem poder, sendo maior na tanto mais importante, quanto menos preparado forescola particular o poder do administrador, aí pode o professor. Por que insinuo a tendência de que oele administrar. Administra porque se fez adminis- professor está a ficar cada vez menos preparado?trador e tem as qualidades pessoais para isto. Não Porque somente quando o ensino é reduzido emque se prepare. Como é muito difícil administrar, quantidade posso eu fazer uma alta seleção dos ed-não se crê que possa aprender fazê-lo. O adminis- ucadores. Como tenho de educar toda a população,trador faz-se, não se prepara. terei de escolher os professores em todas as cama- das sociais e intelectuais e, a despeito de todo oMas, que é o administrador? O administrador esforço de prepará-los, trazê-los para a escola aindaé homem que dispõe dos meios e dos recursos sem o preparo necessário para que dispensem elesnecessários para obter alguns resultados. Resul- administração. Esta se terá de fazer altamente de-tados certos, e isto é um administrador. Logo, senvolvida, a fim de ajudá-los a realizar aquilo quedeterminados, propositais, estabelecidos pela ação faziam se fossem excepcionalmente competentes.intentada. Não há função mais constante nem mais A ingratidão de nossa cadeira, Professor Querino, égeral. A vida está completamente saturada dela. que temos de criar tais conceitos todos novos. PorSem administração, a vida não se processaria. Mas que somos hoje tão necessários, e antigamente nãohá dois tipos de administração: e daí é que parte a o éramos? Por que antes não se cogitava de prepa-dificuldade toda. Há uma administração que seria, rar o Administrador Escolar, e hoje precisamos fazê-digamos, mecânica, em que planejo muito bem lo? Porque o problema se fez agora extremamenteo produto que desejo obter, analiso tudo que é complexo, sobretudo nesta civilização paulista, quenecessário para elaborá-lo, divido as parcelas de está cèleremente atingindo níveis avançados, semtrabalho envolvidas nessa elaboração e dispondo passar gradual e lentamente pelas fases por quede boa mão-de-obra e boa organização, entro em deveria passar, o que a obriga a esforço maior eprodução. É a administração da fábrica. É a ad- especial. São sobretudo aqui especialmente impor-ministração, por conseguinte, em que a função de tantes os estudos de Administração Escolar. Taisplanejar é suprema e a função de executar, mínima. estudos e o preparo do administrador é que irãoE há outra administração - à qual pertence o caso permitir organizar o ensino em rápido desenvolvi-da Administração Escolar - muito mais difícil. Seu mento e criar a consciência profissional necessária,melhor exemplo é o da Administração dos hospitais, pela qual aquele antigo pequeno sistema escolar,em que a grande figura é, digamos, a do cirurgião; com o professor onicompetente, precisando apenaso administrador é apenas o homem que dispõe o de um guardião para sua escola, hoje transfor-hospital nas condições mais favoráveis possíveis mado no grande sistema moderno, no qual não separa que o cirurgião exerça com a maior perfeição encontra mais aquele tipo de professor e as escolaspossível a sua função. Este é também o caso da ed- complexas e fluidas não dispõem sequer de estabi-ucação. Administração da escola é também aquela lidade do magistério, possa conservar as condiçõesna qual o elemento mais importante não é o admin- equivalentes àquelas anteriores e produzir ensinoistrador, mas o professor. Enquanto na fábrica o el- com a mesma eficácia. O novo administrador terá,emento mais importante é o planejador, o gerente, pois de substituir algumas funções daquele antigoo staff, na educação, o elemento mais importante é professor, ou melhor, fazer o necessário para queo professor. Se este professor é homem de ciência, o novo professor, tanto quanto possível, tenha ade alta competência, e a sua escola é pequena, mesma eficiência daquele antigo professor. Quandopode realizar a função de ensinar e a de adminis- no começo dizia que o grande professor adminis-trar. Organiza a sua classe, administra a sua classe, tra a sua classe, ensina e guia o aluno, estava afaz os trabalhos necessários para que o ensino se indicar as três grandes funções que agora deverãofaça bem. Além disto, ensina aos alunos, e, mais, ser selecionadas, para constituir as grandes funçõesguia e dirige os estudos dos alunos. Estão reunidas da administração da escola. Aquele professor quenas atividades desse professor as três grandes fun- revele maior capacidade administrativa deveráções que vão passar para a Administração. A função orientar-se naturalmente para a especialização dede administrar propriamente a classe; a função administrador da escola. Aquele que tem grandesde planejar os trabalhos e a função de orientar o qualidades de magistério, isto é, as de, sobretudoensino. Se o professor for sumamente competente, saber ensinar, transmitir a matéria, deve especial- www.posugf.com.br 4
  • 5. A escola como local de trabalho e sua especificidadeizar-se para ser o supervisor, ou seja, o professor certa pobreza de magistério, sem negligenciarmos ade professores, que, no staff da administração da experiência européia, caracterizada pela alta quali-escola, trabalha para que métodos e processos de dade do magistério e certa pobreza administrativa.ensino melhorem cada vez mais. E aquele outroprofessor, que revele singular aptidão para guiar Temos que fazer as duas coisas. Já começa a nãoalunos, para compreender alunos, para entender os haver os grandes professores que podem dispensarproblemas de alunos, vai transformar-se no futuro Administração. Estamos atravessando fase algoorientador. parecida com a dos Estados Unidos. Ou nos organi- zamos a ponto de criar uma espécie de cérebroDe maneira que, da célula da classe, onde está coletivo das organizações, ou as iremos mecanizaro professor realizando a obra completa de edu- num grau que talvez nem a América do Norte ascação, saem as três grandes especialidades da tenha mecanizado.Administração Escolar: o administrador da escola,o supervisor do ensino e o orientador dos alunos. As influências européias ainda presentes entre nós éE à medida então que a nossa tarefa aumenta e que nos irão defender desse perigo, desenvolvendopassamos a ter que educar toda a gente, será este o tipo de administração brasileira que o nosso gêniopugilo de homens, a presidir a escola, que irá daraos professores das classes aquele saber que eles há de saber criar. (TEIXEIRA, 1961)antigamente tinham por si mesmos, as condiçõesnecessárias para que possam fazer nas classes o Anísio Teixeira, o inventor da escola pública nomesmo que faziam antigamente os professores oni- Brasilcompetentes e de longa e contínua ex O educador propôs e executou medidas para demo-Por conseguinte, se antigamente era o professor a cratizar o ensino brasileiro e defendeu a experiência dofigura principal da escola, hoje num grande sistema aluno como base do aprendizadoescolar, com a complexidade moderna, complexi-dade que agora chega a atingir a própria Univer- Considerado o principal idealizador das grandes mu-sidade - a escola terá que depender do adminis-trador e de seus staffs altamente especializados, danças que marcaram a educação brasileira no século 20,que elaborem especificamente todo o conjunto de Anísio Teixeira (1900-1971) foi pioneiro na implantaçãoensinamentos e de experiências, que antigamenteconstituía o saber do próprio professor da antiga de escolas públicas de todos os níveis, que refletiam seuinstituição pequena e reduzida, a que servia com objetivo de oferecer educação gratuita para todos. Comosua longa experiência e sua consumada perícia. Aoparticipar desta cerimônia inicial do I Simpósio Bra- teórico da educação, Anísio não se preocupava em defen-sileiro de Administração Escolar, julguei dever fazer der apenas suas idéias. Muitas delas eram inspiradas naestas observações para marcar quanto tais estudossão novos, quanto não têm eles precedentes. filosofia de John Dewey (1852-1952), de quem foi aluno ao fazer um curso de pós-graduação nos Estados Unidos.Está acabando de sair agora, em língua portu-guesa, a tradução da “Educação Comparada” de Dewey considerava a educação uma constante recons-Nicholas Hans. A Cadeira de Administração Escolar trução da experiência. Foi esse pragmatismo, observa ae Educação Comparada existe no Brasil já há maisde vinte anos. Entretanto, os seus próprios livros professora Maria Cristina Leal, da Universidade do Estadode texto estão apenas começando a existir, e os do Rio de Janeiro, que impulsionou Anísio a se projetarlivros de Administração Escolar não existem aquina abundância com que florescem na América do para além do papel de gestor das reformas educacionaisNorte. E por quê? Porque a América do Norte em- e atuar também como filósofo da educação. A marca dopreendeu um trabalho como este que o Brasil estáempreendendo agora: o de generalizar o sistema pensador Anísio era uma atitude de inquietação perma-educacional a uma população enorme sem ter gentedevidamente preparada para isto. Também eles nente diante dos fatos, considerando a verdade não comoatravessaram fases de desenvolvimento econômico algo definitivo, mas que se busca continuamente.rápido. Também eles sofreram singular mobilidadede magistério. O professor primário americano Para o pragmatismo, o mundo em transformação re-conservava-se no magistério em média quatro quer um novo tipo de homem consciente e bem prepara-anos, até 1920. Hoje, é um pouco mais prolongadoo período em que a moça se conserva profes- do para resolver seus próprios problemas acompanhandosora primária. Ora, podemos imaginar o que seriaorganizar uma escola primária em que nenhumprofessor chega a ter quatro anos de experiência. Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-Todas as atividades de administração aumentaram pedagogica/anisio-teixeira-428158.shtmlenormemente para permitir que este trabalho sefizesse sem inevitável prejuízo para a escola. Aescola americana ganhou um pouco o jeito, o feitio Administração e históriade fábrica, de organização muito bem planejada no Vejamos agora um pouco da administração ao longo dacentro e deflagrada para ser executada. Tal situ-ação não ocorreu na Europa, onde a escola se fez o história da humanidade:resultado de longa sedimentação histórica, produto Na Mesopotâmia (1700 a 610 a.C.), os princípiosdo saber adquirido por longa experiência. Não deve- da administração como, por exemplo, o controlemos repetir aqui o caso dos Estados Unidos. Temos executado pelo código de Hamurabi, foi utilizado naque aproveitar a experiência americana, que foi a Administração Pública.experiência de intensa organização administrativa e www.posugf.com.br 5
  • 6. A escola como local de trabalho e sua especificidade O mesmo ocorreu na civilização egípcia que trouxe, dos fatores de produção que sua má distribuição como grande contribuição à administração contem- causava e causa às civilizações. porânea, as técnicas de planejamento, a liderança e o controle demonstrado pela construção das pi- Assim, paradigmas científicos voltados à Adminis- râmides e o uso das águas do rio Nilo. As pirâmides, tração precisam ser criados, renovados, apropriados uma das grandes maravilhas do mundo, até hoje, a cada época. Este fato propicia à humanidade a guardam um grande mistério para a humanidade, perseverante busca de aperfeiçoamento da gestão no sentido dos conceitos de Administração e tecno- para melhorar suas próprias vidas com novas for- logia, em razão de sua grandiosidade e complexi- mas de produção e administração. dade como obra. Esse percurso da administração que vimos acima pode ser identificado como o período empírico, que corresponde a aproximadamente 4.000 anos de atividade humana. Já o chamado período científico surge no começo do Século XX, com Frederick Taylor e Henri Fayol. A Revolução Industrial representa um período de transição Entre os anos 1700 e 1785 aparecem os teares mecânicos e outros inventos posteriores como a máquina a vapor, a fundição do aço, a locomotiva, que mudam as relações sociais e de produção e causam um impacto notável sobre as organizações produtivas e, portanto, tanto sobre a concepçãoFonte: http://2.bp.blogspot.com/_yw8-lk1-2K8/TRJNVet- de governo. É a revolução industrial na Inglaterra.0w2I/AAAAAAAAC-4/YsG3LZeVfp0/s400/piramides-egito.jpg Nela, o maquinário movido por energia aumenta (...) consideravelmente a produção, mas ao mesmo tempo converte o trabalho artesanal em fabril, e o trabalhador perde o orgulho de seu trabalho ao ser Na civilização chinesa, Século IV a.C., Sun-Tzu submetido a uma estrita organização de tipo militar. introduziu princípios de administração e comporta- (CHIRIBOGA, 2010) mento ético nos negócios privados, governamentais e na vida social. Para além da Economia e Administração, a Rev- olução Industrial também contribuiu para a refor- A civilização grega, 1500 a.C., deixou registrada mulação da vida humana no mundo, provocando o sua contribuição para a Administração. Os gregos êxodo de milhares de pessoas do campo às cidades, primavam pelo uso da filosofia e pelo mundo das exigindo um novo estilo de vida. A vida passou a idéias. Dessa prática, surgiram conceitos que até ser organizada de acordo com o apito da fábrica, hoje são encontrados no mundo moderno, como: ocasionando a urbanização e o surgimento de con- democracia, método, ética, liberdade, princípios que sciência de classe e novas profissões. A classe tra- fazem parte das organizações que se ocupam com balhadora dividiu-se em várias categorias determi- o bem-estar de seus clientes internos e externos e nadas pela qualificação profissional, salários e local com a perpetuação e expansão de seus serviços e de trabalho. A vida de um operário têxtil qualificado idéias organizacionais. era muito diferente de um estivador não-qualificado. Até hoje, o embrião das técnicas da Administração A importância da educação começou a se destacar usadas surgiu na civilização romana, de quem her- por oferecer condições de ascensão social mesmo damos o planejamento e o controle, a estratégia, a aos não-qualificados. Entretanto, as famílias ainda centralização da autoridade, os cargos e as hierar- consideravam a educação como um ‘luxo’, sobr- quias. etudo, porque a hora dedicada ao estudo suprimia a complementação da renda familiar. (FONSECA, A civilização romana foi a que mais conquistas fez, 2007) chegando a dominar os povos desde o Oriente até o Ocidente. Para um povo conquistador como os romanos, o emprego de técnicas conhecidas até Taylor e Fayol hoje, como as de administração, era imprescindível. A sociedade romana voltou-se mais às organizações No início do Século XX, Taylor e Fayol, ambos engenheiros, de- do que à indústria e, por isso, faltou-lhe conheci- senvolveram os primeiros trabalhos pioneiros a respeito da Adminis- mentos a respeito da produtividade. Por exemplo, a tecnologia militar tinha alto grau de sofisticação e tração. O americano Frederick Winslow Taylor desenvolveu a chama- eficácia. (FONSECA, 2007) da Escola da Administração Científica, preocupada em aumentar a Após traçar esse breve esboço, a mesma autora conclui eficiência da indústria por meio, inicialmente, da racionalização do tra-que: balho operário. Henri Fayol, europeu, desenvolveu a chamada Teoria Clássica, cuja preocupação está em aumentar a eficiência da empre- A luta pela sobrevivência e a necessidade no geren- ciamento dos fatores de produção escassos fizeram sa por meio da sua organização e da aplicação de princípios gerais de com que o homem buscasse alternativas organiza- cionais por meio das ciências e das técnicas, para administração em bases científicas. minimizar o sofrimento provocado pela escassez www.posugf.com.br 6
  • 7. A escola como local de trabalho e sua especificidade Taylor e seus princípios Apesar das críticas que Taylor recebeu em todo o seu trabalho, não se pode negar que suas idéias Frederick Winslow Taylor (1856-1915. aos 22 anos, tenham servido de alicerce ao desenvolvimento da entrou como trabalhador diarista na Midvale Steel profissionalização do Administrador. Works, e em seis anos chegou a engenheiro chefe, depois de concluir o curso de Engenharia durante as A Teoria Clássica da Administração, proposta por Henry noites e fins de semana no Instituto Stevens. Aos 23 anos e enquanto era contramestre começou a Fayol, surgiu paralelamente à Teoria Científica de Taylor. decompor cada tarefa em seus elementos constitu- Caracteriza-se pela ênfase na estrutura organi- tivos e a registrar o tempo empregado na execução zacional, pela visão do homem econômico e pela de cada elemento. Com isto pretendia encontrar busca da máxima eficiência. A Teoria Clássica dá uma base objetiva para o desenho e a execução ênfase exagerada na estrutura organizacional, isto homogênea das tarefas por si mesmas, independ- é, visão do todo organizacional (seções, depar- entemente das características pessoais do executor. tamentos), e foi criticada principalmente por não Uma vez decomposto e cronometrado o trabalho, existir fundamentação experimental dos métodos procedia-se o redesenho da seqüência com méto- e técnicas estudados por Fayol, os princípios que a dos, equipamentos e tempos padrões. À luz deste teoria apresenta precisava de uma efetiva investi- desenho se procederia a seleção das pessoas fisica- gação, não resistindo ao teste de aplicação prática. mente apropriadas para o trabalho, e a capacitação (PAZ, 2010) para o manejo dos passos e dos tempos, em função de uma maior produtividade. Para Fayol, são funções administrativas: Em sua obra “Princípios da Administração Cientí- fica” (1911) encontram-se os seguintes princípios 1. Prever: visualizar o futuro e traçar progra- fundamentais: mas de ação 2. Organizar: compor a estrutura funcional Criar uma ciência para cada elemento do trabalho do operário, ciência que substitui o sistema empíri- da empresa co. 3. Comandar: dirigir e orientar o pessoal Escolher cientificamente e instruir o trabalhador. 4. Coordenar: ligar, unir, harmonizar todos os atos e esforços da empresa em torno de Assegurar-se cordialmente de que os trabalhadores seu objetivo. treinados executem seu trabalho de conformidade com os princípios criados. 5. Controlar: verificar que tudo ocorra de acordo com as regras estabelecidas e as Procurar uma distribuição equilibrada entre a re- ordens dadas. sponsabilidade dos Em sua obra Administração Industrial e Geral, publicada Trabalhadores e a direção, deixando o trabalho em 1916, em Paris, Fayol identificou 14 princípios gerais da operativo para os operários e o planejamento do trabalho para a direção. (CHIRIBOGA, 2010) Administração. São eles: 1º  Divisão do trabalho: especialização das tarefas eFonseca (2007) observa que: das pessoas visando aumentar o rendimento. “Produzir mais Taylor considerava que todo trabalhador era igual e e melhor, com o menor esforço.   que, portanto, bastava treiná-lo para que ele tivesse bom desempenho. 2º  Autoridade e responsabilidade: direito de mandar e ter o poder de ser obedecido.  A responsabilidade é uma O trabalhador era visto como verdadeira máquina, consequência da autoridade.   suas habilidades e anseios pessoais não eram con- siderados. Por sua vez, os gerentes tinham função 3º  Disciplina: obediência, assiduidade, comportamento igual ao do capataz do período feudal: fiscalizavam o desempenho dos trabalhadores, cabendo-lhes e respeito às convenções estabelecidas entre a empresa e repreender ou, até mesmo, demitir aqueles que não seus agentes. se enquadrassem no padrão requerido. 4º  Unidade de comando: o empregado deve receber [...] ordens de somente um chefe 5º  Unidade de direção: um só chefe e um só programa Embora hoje a teoria de Taylor pareça inadequada, para cada grupo de atividades que tenham o mesmo objetivo;  foi somente baseada nela que a Administração pas- sou a ser estudada cientificamente. A Administração 6º  Subordinação do interesse particular ao interes- pós-Taylor passou a buscar teorias que se adequas- sem aos diversos momentos políticos, econômicos se geral: os interesses de uma pessoa ou de um grupo de e sociais porque passava o mundo na era contem- pessoas não devem prevalecer sobre os da empresa.   porânea. 7º  Remuneração do pessoal: prêmio sobre o serviço [...] prestado; deve ser justa, satisfazendo simultaneamente em- pregador e empregado. www.posugf.com.br 7
  • 8. A escola como local de trabalho e sua especificidade 8º  Centralização: convergência da autoridade na dire- lançados pelas várias teorias e escolas administra- tivas.ção da empresa;   9º  Hierarquia: (ou cadeia escalar) linha de autoridade Os conceitos clássicos da administração, emborado escalão mais alto ao mais baixo, dos chefes aos subordi- importantes para orientar o trabalho dos adminis- tradores escolares, são insuficientes, pois não levamnados. em conta as especificidades e complexidades da es- 10º  Ordem: um lugar para cada coisa e cada coisa em cola. Em outras palavras, as escolas representantes da teoria administrativa não elaboraram estudosseu lugar. Ordem material e humana. específicos que viessem contribuir com as práticas administrativas em organizações educacionais. 11º  Eqüidade: resultante da combinação da benevolên- Dessa forma, a administração escolar se restringiucia com a justiça, para obter a boa vontade e dedicação do aos aspectos puramente administrativos, burocráti- cos e instrumentais, distanciando-se das discussõespessoal. que envolvem a prática pedagógica. 12º  Estabilidade: a permanência no cargo favorece obom desempenho, a rotação de pessoal é prejudicial para a Até que na década de 80 começa a surgir, em con- frontação ao que alguns autores chamam de escolaeficiência da organização.  clássica da Administração escolar, a escola crítica 13º  Iniciativa: a liberdade de conceber e assegurar o da Administração Educacional, com autores como Vitor Paro, Benno Sander e outros. Inaugura novassucesso de um plano gera satisfação e deve ser estimulada. mudanças no cenário da administração da educação por influência das grandes transformações políticas, 14º  União do pessoal: o espírito de equipe, a harmonia econômicas e sociais que passam a acontecer eme união do pessoal são essenciais para o bom funcionamento nível mundial e, consequentemente, nacional. No Brasil, com as exigências do mercado internacional,da empresa. ocorre um redirecionamento das políticas educacio- Essas teorias influenciaram a gestão escolar, como aponta nais alterando de forma substancial a Administração da educação e da escola. Dando margem a troca dePaz (2010): terminologia de Administração para Gestão, como A influência das Teorias da Administração na Edu- afirma Lück (2006): “o termo gestão possibilita superar o enfoque limitado de administração, decação modo que os problemas educacionais são complexos e necessitam de visão global e abrangente, assim Querino Ribeiro em Meneses conceitua adminis- como ações articuladas, dinâmicas e participativa”. tração educacional como o “complexo de processos, Para a autora a mudança terminológica surge para cientificamente determináveis, que, atendendo a representar novas idéias e estabelecer, na institu- certa filosofia e a certa política de educação, de- ição, uma orientação transformadora. senvolve-se antes, durante e depois das atividades escolares para garantir-lhes unidade e economia”. Teóricos como Carneiro Leão já 1939 afirmaram que Nesse novo cenário de gestão educacional o gestor “nenhum problema escolar sobrepuja em importân- é, antes de tudo, um educador, isto é, ele também cia o problema de administração” incorporando as participa das atividades-fins de seu estabelecimento teorias da administração no contexto educacional. de ensino. Portanto necessita de habilidades ped- agógicas para exercer essa função.” As organizações educacionais, assim como qualquer outro tipo de organização, precisam de bons méto- dos administrativos para atingir seus objetivos. No A escola como organização que diz respeito a essas organizações, os primeiros Dissemos anteriormente que a escola é uma organização, trabalhos publicados, voltados para área de admin- istração educacional, surgem a partir de 1913 nos agora vamos ampliar esse conceito, para tanto, vejamos o Estados Unidos, nos artigos escritos pelos teóricos que nos diz Casassus (1994): fundadores da Teoria Geral da Administração, há aplicação dos princípios e normas tanto do tayloris- Para abordar o estudo das organizações existem mo como do fayolismo no campo educacional. muitos enfoques e autores que tratam do tema. Não pretendemos fixar posição neste aspecto mas susci- As tendências do cenário internacional chegaram tar, para cada caso particular, a análise e a reflexão ao Brasil, influenciando muitos autores da Adminis- sobre a escola vista como uma organização onde tração Escolar, que passaram a defender a aplicação são gerados processos de gestão. de princípios racionais, na administração na escola, sendo pioneiro nesse posicionamento José Querino Desde princípios do século (XX), alguns estudiosos Ribeiro já na década de 30 do século XX. Mas ainda têm assinalado que as organizações surgem porque hoje é possível perceber os reflexos do taylorismo, o homem individualmente não é capaz de produzir na fragmentação do ensino, na competição, na tudo o que necessita para satisfazer suas necessi- hierarquização, na organização do tempo das disci- dades. Ou seja, faz-se imperativo o esforço coorde- plinas. nado para a ajuda mútua. Com o passar do tempo o sistema educacional A necessidade de cooperação é a primeira ideia que terminou incorporando a essência da organização subjaz ao conceito de organização. burocrática na estruturação de suas atividades. A administração da educação incorporou, sem conte- star a validade, todos os princípios da administração A segunda ideia básica é a de atingir objetivos comuns. A coordenação de atividades se ordena www.posugf.com.br 8
  • 9. A escola como local de trabalho e sua especificidadecom base em uma finalidade mínima de produzir um de alguma maneira na organização (alguns autores,bem ou serviço, de fazer ou conseguir algo. entre eles Mintzberg, chamam de subsistemas).O terceiro elemento comum a todas as organizações A título de exemplo mencionaremos alguns elemen-é a divisão do trabalho que dá origem à diferen- tos do “meio ambiente específico” da escola:ciação de funções. A coordenação se faz efetiva,distribuindo o conjunto de tarefas entre os partici- Beneficiários: alunos, membros da escola, famílias,pantes. comunidade.O último elemento da definição de uma organização Organizações públicas: estados, prefeituras, minis-é a função de controle necessária para a regulação térios, institutos de capacitação ou formação.do conjunto de atividades a realizar. Organizações civis: empresas, grupos de empresári-Esta função disciplinar pode ser realizada de os, associações de profissionais, sindicatos, asso-distintas formas dependendo dos tipos de grupos ciações de bairros, grupos culturais.ou organizações, desde a autodisciplina, normasespontâneas não explícitas, até a mais formalizadade submissão à autoridade hierárquica. No “meio ambiente em geral”:Inclusive, há aqueles que enfatizam o papel do Marco legal: conjunto de instrumentos legais queindividuo nas organizações, a satisfação das expec- regulam ou afetam o funcionamento da escola (atativas de todos seus membros para conseguir a Constituição Federal, Lei de Educação, Regulamen-“eficiência”, o manejo dos valores como elemento tos, etc.).dinamizador e a tarefa fundamental de líder. Entorno socioeconômico: as condições socioec-Nesta perspectiva, podemos ilustrar estas cara- onômicas das famílias e a comunidade influem decterísticas das organizações. A escola reúne um maneira significativa na dinâmica dentro do con-conjunto de pessoas (direção, docentes, alunos, texto escolar. Os níveis de ingressos, de instrução,funcionários) que cooperam entre si para cumprir de emprego, de expectativas futuras, modelam ascom uma tarefa que a sociedade demanda. Esta demandas da comunidade em relação à escola.tarefa tem objetivos (por exemplo: socialização,formação, comunicação de informação, desenvolvi- Entorno político: a situação política geral, a es-mento de habilidades e destrezas, desenvolvimento tabilidade ou instabilidade, os conflitos políticos,humano, etc.). Para atingir os objetivos o trabalho as relações com os partidos, grêmios, governo,é distribuído ou dividido: uns terão a tarefa de etc., afetam o desenvolvimento escolar positiva odirigir, outros de ensinar, outros de supervisionar ou negativamente. Em muitos casos geram incerteza eorganizar o trabalho, outros de prover os insumos, conflitos.manter as edificações, etc. A articulação de formaordenada das diferentes atividades é controlada dealguma forma. De fato, existem normas que regu- [...]lam o comportamento dos docentes, alunos e detodo o pessoal. No caso da escola é importante ressaltar um aspecto que já foi considerado vital para o desen-A forma como esses elementos se apresentam volvimento organizacional: a pessoa, como parte in-em cada caso particular dá origem a modalidades tegrante da organização e como beneficiário de seusdiferentes de organizações ou a diversos tipos de serviços. Este aspecto se torna fundamental devidoestrutura organizativa que têm estreita relação com à missão da escola na sociedade, aos processos queo estilo de gestão. Realizar esta análise ou reflexão nela se desenvolvem y aos resultados sociais queé indispensável para armar um modelo de gestão. dela são esperados.[...] Considerar as motivações, as expectativas, as redes de interações, as recompensas, a negação dos con- flitos, é básico para a dinâmica da escola.As organizações são consideradas sistemas com-plexos devido a suas múltiplas relações com o meio Este é um tema bastante rico e quando começamos aambiente e às condições de instabilidade com asquais têm que reagir ou afetar. investigá-lo vemos que saber mais sobre ele é útil para a compreensão da gestão escolar e do trabalho na escola. SeriaO meio ambiente é a fonte de demandas, expectati-vas e insumos para a organização. É possível distin- muita pretensão de nossa parte esgotar este assunto nestasguir o meio ambiente específico e o meio ambiente páginas, até porque o espaço não comportaria, no entanto,geral. não poderíamos deixar de incluir um pouco do que dizem Ser-No meio ambiente específico se identificam as or- giovanni e Starrat sobre a natureza das organizações esco-ganizações e indivíduos que têm relação direta com lares:a organização. Reconhecemos, certamente, que as escolas seNo meio ambiente geral, o contexto econômico, constituem de tipos organizacionais significativos esocial, político, demográfico, ecológico, que influem singularmente diferentes de outras organizações. Apesar disso, muito se pode aprender sobre escolas, www.posugf.com.br 9
  • 10. A escola como local de trabalho e sua especificidadevendo-as como entidades organizacionais em si São sintomas de complexidade o simples tamanhomesmas. Como tal, as organizações podem ser e a ampla especialização. O fato de que as escolas,vistas como organismos vivos que possuem um con- muitas vezes, sejam organizadas em uma série dejunto de características, assim como os indivíduos subunidades interdependentes que compõem umpossuem uma variedade de traços de personalidade. sistema escolar e de que esse sistema muitas vezesComo os indivíduos, as organizações precisam iden- é a maior empresa em muitas comunidades do paístificar e buscar objetivos, reagir a pressões, buscar (com a maior parcela de dinheiro de impostos e ohomeostase*, adaptar-se, manter-se internamente, maior orçamento) são evidências complementa-assegurar a sobrevivência, eliminar a incerteza e res de que a escola moderna, na verdade, é umacrescer em tamanho, poder e experiência, se quis- organização complexa. Em comunidades maiores, aerem funcionar eficientemente. diversidade da missão da escola, combinada com o grande número de pessoal (clientes e funcionários) incluídos na organização escolar, frequentemente aMuitas atividades humanas em escolas e em outras faz comparável, em complexidade a outras organi-organizações são motivadas pela reação administra- zações. Deve-se compreender, no entanto, quetiva a essas e outras necessidades organizacionais. tamanho em si não é um critério suficiente paraComo tal, a mudança organizacional, muitas vezes, identificar complexidade. As escolas são compl-é acidental e, portanto, descrita como tendência or- exas, principalmente por causa da sofisticação deganizacional. Parece que as organizações se desen- sua tecnologia, da diversificação de sua missão, davolvem, se ajustam e se reajustam aparentemente natureza variada de sua tarefa e dos padrões de suanão-influenciadas pelos esforços conscientes de estrutura.seus membros. Uma alternativa para este compor-tamento reativo é o comportamento pró-ativo (mu-dança planejada). Aqui a mudança organizacional se * Homeostase - é o estado de equilíbrio instávelrealiza como resultado de esforços conscientes dos mantido entre os sistemas constitutivos do organis-indivíduos para controlar a organização, em vez de mo vivo, e o existente entre esse e o meio ambi-serem controlados por ela. Planejar e estruturar os ente. “Originalmente, o termo biológico homeostasepadrões de crescimento e as diretrizes das escolas, apreendido por W. Canon nos anos 30, vem dodesenvolver estratégias para enfrentar a incerteza grego homeo = igual; stasis = estático, ficar para-ou viver e crescer com ela, e estabelecer a natureza do; ou seja, é a propriedade de um sistema abertoe a frequência das mudanças (novos níveis homeos- dos seres vivos, de regular o seu ambiente internotáticos) são exemplos de comportamento pró-ativo. de modo a manter uma condição estável, medianteAs necessidades organizacionais são motivadoras múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controladospotentes do movimento organizacional, como tam- por mecanismos de regulação inter-relacionados.bém da resistência da organização à mudança. O Seria então, a homeostasia, um modo dos organis-comportamento pró-ativo de administradores e de mos vivos manterem constantes seus parâmetrossupervisores precisa operar dentro dos limites esta- biológicos frente às modificações do meio exterior.belecidos pelas necessidades organizacionais. A homeostase indica um grau de desenvolvimento ou evolução de uma espécie. De modo que, na sua original concepção, quanto mais estáveis estiverem[...] os sistemas internos de um organismo, mais inde- pendente ele se mostrará do meio externo. AssimEmbora ainda existam vestígios românticos das também se concebe a noção em psicologia; princi-escolinhas do passado, as escolas, como muitas palmente em psicologia do desenvolvimento.” (VIZ-organizações, têm experimentado um crescimento ZOTTO, 2006). Vindo da Biologia, hoje, o termofenomenal em termos de tamanho e área servida e já é usado em outras áreas, como a Psicologia e ade complexidade profissional. O aparecimento e a Administração.divulgação da escola média grande, por exemplo,aceleraram-se rapidamente na última década**, *O livro em questão é de 1978, desse modo, seao ponto dessa unidade dominar a educação de 2º levamos em conta a realidade atual, é possívelgrau em muitos países, apresentando-se em formas depreender que a grandeza e a complexidade sãodiferentes. ainda maiores.[...] Concepção de escola e gestãoAlém do tamanho, as organizações modernascaracterizam-se também por um alto grau de espe- Nada mais apropriado para darmos início a este tópico quecialização. As escolas não são diferentes de outras a leitura atenta dos artigos da LDBEN que dizem respeito àorganizações a esse respeito, no sentido em queelas têm a sua parte de especialistas contemporâ- gestão escolar. São eles:neos (alguns imaginados, outros reais) que reivindi-cam monopólio de habilidades sobre certos aspectos Art. 12º. Os estabelecimentos de ensino, respei-do sistema gerencial (diretores, assistentes de tadas as normas comuns e as do seu sistema dediretores, chefes de divisão de unidades de ensino, ensino, terão a incumbência de:pessoal de assistência a alunos, administradores,especialistas em finanças e outros), como também I - elaborar e executar sua proposta pedagógica;do sistema técnico (especialistas de materiais, peri-tos em material didático, especialistas em educação II - administrar seu pessoal e seus recursos mate-compensatória para pré-escolares carentes, profis- riais e financeiros;sionais sócio-psicológicos, e outros). O número denovos cargos e de papéis funcionais que aparecer-am em educação na última década é ofuscado III - assegurar o cumprimento dos dias letivos eapenas por sua variedade. horas-aula estabelecidas; www.posugf.com.br 10
  • 11. A escola como local de trabalho e sua especificidade IV - velar pelo cumprimento do plano de trabalho das modernas teorias educativas, citamos a autonomia. Con- de cada docente; forme Rodrigues e Buzetti (2009): V - prover meios para a recuperação dos alunos de 0 processo de gradativa autonomização da escola menor rendimento; pública, sustentado pelo teor do Artigo 14, Título IV, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) 9394/96, modifica as práticas gestoras dos VI - articular-se com as famílias e a comunidade, sistemas de ensino, necessitando de ações inova- criando processos de integração da sociedade com doras para sua consecução. Essa autonomia supõe a escola; metas de qualidade e produtividade dos sistemas educacionais tendo em vista o redesenhar dos mer- VII - informar os pais e responsáveis sobre a cados globalizados e os níveis de desenvolvimento freqüência e o rendimento dos alunos, bem como econômico mundial, exigindo avanços no plane- sobre a execução de sua proposta pedagógica. jamento e nas ações gestoras, expondo aspectos deficitários em relação ao conhecimento e uso das tecnologias de gestão e às relações com os contex- tos de sua ambiência. Art. 13º. Os docentes incumbir-se-ão de: Sobre os artigos 14 e 15 diz Sousa (2007): I - participar da elaboração da proposta pedagógica Cabe aqui, nesta regulamentação, o princípio da do estabelecimento de ensino; autonomia delegada, pois esta lei decreta a gestão democrática com seus princípios vagos, no sentido de que não estabelece diretrizes bem definidas para II - elaborar e cumprir plano de trabalho, segundo delinear a gestão democrática, apenas aponta o a proposta pedagógica do estabelecimento de en- lógico, a participação de todos os envolvidos. Nesse sino; ínterim, o caráter deliberativo da autonomia as- sume uma posição ainda articulada com o Estado. III - zelar pela aprendizagem dos alunos; É preciso que educadores e gestores se reeduquem na perspectiva de uma ética e de uma política no sentido de criar novas formas de participação na IV - estabelecer estratégias de recuperação para os escola pública, tais como ouvindo, registrando e alunos de menor rendimento; divulgando o que alunos e comunidade pensam, falam, escrevem sobre o autoritarismo liberdade V - ministrar os dias letivos e horas-aula estabeleci- da escola pública e as desigualdades da sociedade dos, além de participar integralmente dos períodos brasileira. É tecendo redes de falas e de registros, dedicados ao planejamento, à avaliação e ao desen- ações e intervenções que surgirão novos movimen- volvimento profissional; tos de participação ativa e cidadã. VI - colaborar com as atividades de articulação da O novo paradigma da administração escolar traz, escola com as famílias e a comunidade. junto com a autonomia, a idéia e a recomendação de gestão colegiada, com responsabilidades com- partilhadas pelas comunidades interna e externa da escola. O novo modelo não só abre espaço para iniciativa e participação, como cobra isso da Art. 14º. Os sistemas de ensino definirão as nor- equipe escolar, alunos e pais. Ele delega poderes mas da gestão democrática do ensino público na (autonomia administrativa e orçamentária) para educação básica, de acordo com as suas peculiari- a Diretoria da Escola resolver o desafio da quali- dades e conforme os seguintes princípios: dade da educação no âmbito de sua instituição. Em certa medida, esta nova situação sugere o papel do último perfil de líder mencionado: o que I - participação dos profissionais da educação na enfrenta problemas “intratáveis”, cuja solução não elaboração do projeto pedagógico da escola; é técnica, mas de engajamento e sintonia com o grupo que está envolvido e que tem muito a ganhar II - participação das comunidades escolar e local com a superação do desafio. No caso da escola, a em conselhos escolares ou equivalentes. qualidade da educação é interesse tanto da equipe escolar, quanto dos alunos e de suas famílias (além do Estado, das autoridades educacionais e da nação como um todo). Sua melhoria depende da busca de sintonia da escola com ela mesma e com seus Art. 15º. Os sistemas de ensino assegurarão às usuários. Uma escola de qualidade tem uma person- unidades escolares públicas de educação básica alidade especial, que integra os perfis (aspirações que os integram progressivos graus de autonomia e valores) de suas equipes internas, alunos, pais e pedagógica e administrativa e de gestão financeira, comunidade externa. observadas as normas gerais de direito financeiro Tudo isso a que se refere Sousa está intimamente relacio- público. nado à mudança de concepção de escola e implica desafios(O texto na íntegra da LDBEN pode ser consultado no en-dereço http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf) e reflexão sobre a especificidade do trabalho na instituição A leitura desses artigos da LDBEN nos remete ao nosso escolar. A esse respeito aponta Faleiro:parágrafo de abertura, no qual, ao apontarmos os princípios O homem antecipa em ideias as finalidades da sua ação, e nessa produção de ideias, de valores, www.posugf.com.br 11
  • 12. A escola como local de trabalho e sua especificidade encontra-se a educação, que é também produção interativas, participativas e democráticas, caracteri- de conhecimentos e está ligada intrinsicamente ao zadas por movimentos dinâmicos e globais, com os homem. O trabalho educativo é, então, o processo quais, para determinar as características de produ- de produzir intencionalmente, em cada indivíduo tos e serviços, interagem dirigentes, funcionários singular, o genérico que é produzido coletiva e e ‘clientes’ ou ‘usuários’, estabelecendo alianças, historicamente pelo conjunto dos homens. Daí o en- redes e parcerias, na busca de soluções de proble- tendimento de que a educação tem uma identidade mas e alargamento de horizontes. própria, tem uma especificidade que é pedagógica e pode ser institucionalizada. O lugar dessa institu- Em meio a essa mudança, não apenas a escola cionalização é a escola. desenvolve essa consciência, como a própria so- ciedade cobra que o faça. Assim é que a escola se Sem perder de vista as contradições da sociedade encontra, hoje, no centro de atenções da socie- capitalista, é possível entender a especificidade da dade. Isto porque se reconhece que a educação, escola enquanto instituição encarregada de trans- na sociedade globalizada e economia centrada no mitir os conhecimentos elaborados pela história dos conhecimento, constitui grande valor estratégico homens. Essa transmissão justifica-se à medida que para o desenvolvimento de qualquer sociedade, o conhecimento é uma das formas pelas quais o assim como condição importante para a qualidade homem se apropria do homem e o transforma. Essa de vida das pessoas. Embora esse enfoque não seja apropriação se dá não só por meio da reflexão, mas plenamente adotado e, quando levado em consid- da prática que, para ser instrumento de transfor- eração, seja orientado, ainda, por um velho e já mação, precisa estar estreitamente ligada à prática enfraquecido paradigma orientador da cobrança, social mais ampla. em vez de participação, ele tem grande impacto sobre o que acontece na escola, que é hoje, mais do que nunca, bombardeada por demandas sociais [...] das mais diversas ordens. Observa-se, também, o interesse de grupos e organizações, no sentido “Na escola, o processo de trabalho enfrenta o de colaborarem com a escola, constituindo-se essa desafio de ter de lidar com problemas acarretados área, um campo fértil para a realização de parcerias pela crise orgânica que toma conta da educação. em prol da educação, para o desenvolvimento da Esses sintomas podem ser evidenciados a partir sociedade, e, por conseguinte, um grande desa- da formação de subculturas e linguagens particu- fio para os gestores escolares, por exigirem deles lares de uma grande parte das populações que novas atenções, conhecimentos e habilidades. São estão fora dos ‘sistemas escolares’, o que resulta demandadas mudanças urgentes na escola, a fim de em outros processos de ensino-aprendizagem, tais que garanta formação competente de seus alunos, como, a cultura das ruas, a cultura da violência e de modo que sejam capazes de enfrentar criativa- do desemprego; da incapacitação para a leitura e a mente, com empreendedorismo e espírito crítico, os escrita em geral; do alheamento dos estudantes em problemas cada vez mais complexos da sociedade, relação aos livros; da distância entre a linguagem conforme indicado na apresentação deste Em Aber- básica da escola e as novas linguagens trazidas pelo to. A educação, no contexto escolar, se complexifica desenvolvimento tecnológico; do descaso para com e exige esforços redobrados e maior organização do o processo histórico, tanto nacional quanto univer- trabalho educacional, assim como participação da sal; da falta de legitimidade do ensino escolar; e da comunidade na realização desse empreendimento, impropriedade do discurso adulto para convocar os a fim de que possa ser efetiva, já que não basta ao jovens para mudar tal situação. estabelecimento de ensino apenas preparar o aluno para níveis mais elevados de escolaridade, uma vez Falar em mudança em relação à gestão escolar signifi- que o que ele precisa é de aprender para com- preender a vida, a si mesmo e a sociedade, comoca falar em gestão democrática, conceito presente na nossa condições para ações competentes na prática daConstituição Federal, promulgada em 1988, na LDBEN, no cidadania. E o ambiente escolar como um todo deve oferecer-lhe esta experiência.Plano Nacional de Educação, nos Parâmetros Curriculares Na-cionais, nas Diretrizes Curriculares, enfim, em todo o Marco Educação, portanto, dada sua complexidade e crescente ampliação, já não é vista como respon-Legal. Mas isso não é suficiente para que a mudança ocorra sabilidade exclusiva da escola. A própria sociedade,de fato, como aponta Lück (2000): embora muitas vezes não tenha bem claro de que tipo de educação seus jovens necessitam, já não Já é lugar comum a afirmação de que vivemos está mais indiferente ao que ocorre nos estabeleci- uma época de mudança. Porém, a mudança mais mentos de ensino. Não apenas exige que a escola significativa que se pode registrar é a do modo seja competente e demonstre ao público essa como vemos a realidade e de como dela participa- competência, com bons resultados de aprendizagem mos, estabelecendo sua construção. No geral, em pelos seus alunos e bom uso de seus recursos, toda a sociedade, observa-se o desenvolvimento como também começa a se dispor a contribuir para da consciência de que o autoritarismo, a centrali- a realização desse processo, assim como a decidir zação, a fragmentação, o conservadorismo e a ótica sobre os mesmos. São inúmeros os exemplos de do dividir para conquistar, do perde-ganha, estão parcerias já existentes no contexto nacional entre ultrapassados, por conduzirem ao desperdício, ao organizações não-governamentais e empresas, com imobilismo, ao ativismo inconsequente, à desre- a escola, assim como o bom funcionamento de As- sponsabilização por atos e seus resultados e, em sociações de Pais e Mestres. última instância, à estagnação social e ao fracasso de suas instituições. Todo esse movimento, alterando o sentido e con- cepção de educação, de escola e da relação escola/ Essa mudança de paradigma é marcada por uma sociedade, tem envolvido um esforço especial de forte tendência à adoção de concepções e práticas gestão, isto é, de organização da escola, assim www.posugf.com.br 12
  • 13. A escola como local de trabalho e sua especificidade como de articulação de seu talento, competência Qual a função, a finalidade e o significado da norma e energia humana, de recursos e processos com instituída, da ‘lei’? Vimos que a lei se fundamenta vistas à promoção de experiências de formação de em valores, por ela formalizados e legitimados, seus alunos, capazes de transformá-los em cidadãos que traduzem as ‘significações’ de nossa identidade participativos da sociedade. Trata-se de uma ex- cultural e política, da cidadania que queremos. A lei periência nova, sem parâmetros anteriores para a define objetivos comuns e regulamenta comporta- qual devemos desenvolver sensibilidade, compreen- mentos e ações para alcançá-los. No sentido estrito, são e habilidades especiais, novos e abertos. Isso a lei define objetivos, e as demais regras – atos e porque tudo que dava certo antes está fadado ao normas (decretos, portarias, resoluções, estatutos, fracasso na nova conjuntura (Drucker, 1992) regimentos, regulamentos) – estabelecem critérios e processos de ação para alcançá-los. Gestão Democrática A nossa identidade cultural e política, que radica em nossa história, incorporaram uma tendência à A gestão democrática da Educação, reivindicada excessiva regulamentação das ações, especialmente pelos movimentos sociais durante o período da na área de educação. Frequentemente leis assumem ditadura militar, tornando-se um dos princípios da a feição de regulamentos minuciosos. O professor educação na Constituição Brasileira de 1988, a ser Cândido Gomes, no estudo Conselhos de Educação: aplicada apenas ao ensino público, abriu uma per- luzes e sombras (2003), nos lembra que o Estado spectiva para resgatar o caráter público da admin- brasileiro, de feitio napoleônico, precedeu à Nação, istração pública. A gestão democrática restabelece ou seja: a norma precedeu a identidade política. Daí o controle da sociedade civil sobre a educação e a deriva nossa tendência hipernormatizadora, que er- escola pública. ige a norma como panacéia para resolver quase to- dos os problemas, na crença de que normas podem No entanto, o patrimonialismo, o clientelismo gerar ética, participação, cidadania, democracia e e a burocracia enraizados no sistema político e tantas outras virtudes políticas. econômico, continuam emperrando as transfor- mações necessárias à administração da educação. A Gomes lembra que Anísio Teixeira (1962) nos transição para a democracia política não conseguiu alertou sobre a ambivalência da vida brasileira, em abolir o regime de correlação de forças desiguais sua dupla personalidade, oficial e real, em que a lei entre os sistemas de ensino. era tida como ‘algo mágico, capaz de mudar a face das coisas, de modo que leis perfeitas seriam uma Para diminuir ou inverter esta situação é necessário ponte para mudar a realidade. E afirma adiante:esta a formação de um controle social da sociedade tendência de o Estado construir, nos menores detal- civil sobre o Estado, através de uma permanente hes, o Brasil oficial não poderia deixar de estender- participação popular nas decisões da coisa pública, se à educação, gerando o que Abreu (1967) chamou da criação de um novo senso comum que substitua de ‘jurisdicismo pedagógico. os velhos princípios por novos princípio e novas práticas participativas de administração. Esse legado histórico depositou no inconsciente coletivo a crença de que valores podem ser criados Nesse sentido inserem-se os conselhos municipais por decreto. Percebe-se uma certa tendência, diante de educação que são órgãos colegiados, com repre- do novo valor da gestão democrática da educação sentantes da sociedade civil. (GOMES, 2006) pública, instituído pela Constituição como resultado de ampla mobilização popular, de garantir a sua efetivação por meio de leis e decretos. Neste momento, você pode estar questionando alguns dospontos aqui expostos sobre gestão democrática. Em primei- A lei vem para instituir e consolidar objetivos pre-ro lugar, saiba que questionar é algo extremamente positivo, viamente criados pelo imaginário coletivo, pelas aspirações da cidadania. A gestão democráticatodo educador deve desenvolver seu espírito crítico, mas não da escola representa um valor a ser cultivado? Adeve confundir postura crítica com intolerância ou negati- resposta óbvia é sim. Por isso a Constituição e a LDB o garantiram como objetivo a ser alcançado. Asvismo. Em segundo lugar, saiba que você não está sozinho normas complementares definem processos e açõesquanto a esses questionamentos, pois a vida em sociedade, para a efetivação desses objetivos. Nesse sentido, a sociedade é instituinte e, por um processo histórico,e a escola está inserida nela, exige o exercício constante da induz a mudança do instituído. Aqui reside a função essencial do legislador: captar, perceber a con-democracia. Isto requer lutar contra preconceitos e concei- vergência dos objetivos da cidadania para instituí-tos estabelecidos que impedem ou prejudicam as mudanças los na lei. Esse é o significado e o papel da democ- racia representativa.necessárias, requer mudanças, como vimos anteriormente,requer transpor para a realidade aquilo que está no papel, Assim, não é a lei que institui novos valores oupara que não se transforme em letra morta. transforma a realidade, mas o cotidiano da prática social. A lei vem para estatuir, consolidar o já criado O texto a seguir, parte integrante de Conselhos escolares: pela ação social instituinte. Nesse sentido as leisuma estratégia de gestão democrática da educação pública, são sempre conservadoras, estabilizadoras, em certo sentido engessadoras dos objetivos. Por isso apublicado pelo Ministério da Educação e Secretaria de Educa- necessidade de reformulações periódicas.ção Básica, em 2004, mostra claramente algumas das mui- A questão central é que as leis firmam valores, nãotas, complexas e graves dificuldades na implementação da criam cultura. A efetivação do novo princípio dagestão democrática. gestão democrática requer um processo instituinte www.posugf.com.br 13
  • 14. A escola como local de trabalho e sua especificidadede uma nova cultura de gestão escolar. Gestão que atitudes de ‘donos do poder’, ou do saber, nãonão se confunde mais com o gestor, com a centrali- florescerá nas escolas o hábitat adequado para ozação nas mãos do diretor, mas que passa a ser efetivo exercício da gestão democrática, fundamen-vista como um projeto coletivo, que institui uma to da cidadania.organização colegiada. Trata-se da constituição deum novo paradigma de gestão escolar. E paradig-mas não nascem da lei. Nascem das ideias, das con-cepções mais radicais de pensamento e das práticas O Processo de Trabalho na Escolaque arruínam o velho para instituir o novo. Como dissemos anteriormente, quando tratamos da ges- tão democrática, os problemas existem e não podemos per-Assim, para que as leis não sejam engessadorasdo instituinte social é preciso que sejam flexíveis, manecer alheios a eles. Da mesma maneira, não podemossucintas e definam somente as questões centrais, idealizar a escola como um local de trabalho perfeito, ondeessenciais. As normas complementares, reguladorasda ação para o alcance dos objetivos da lei, são im- não existem conflitos, o que se faz necessário é termos ges-portantes para a definição dos limites necessários, tores preparados para lidar com essa situação, para imple-mas não para impor caminhos únicos e estreitos. Nocaso da gestão democrática, especialmente, toda mentar modelos de gestão voltados para a eficácia escolar.a excessiva regulação corre o risco de negar o que Portanto, antes de abordarmos o processo de trabalho napretende garantir, afirmar: o exercício da autonomiae da democracia. As formas não podem contrariar escola, acreditamos ser necessária a leitura do texto abaixo,os objetivos. de OLIVEIRA et al (2010), para consolidar o conceito de ges-A essência da gestão democrática é o espaço de au- tão democrática:tonomia. Há uma impossibilidade real de se outor- A demanda da educação pública, a partir dosgar por decreto autonomia e democracia. Ação de- anos 80, passou a ter como foco de preocupaçãocretada será sempre ação heteronômica, que nasce a qualidade do ensino oferecido, e neste sentido,da vontade da lei. As leis e normas ‘não pegam’ compreende-se que essa qualidade está associadaquando nascem de vontades que não correspondem ao tipo de gestão realizada no contexto escolar,aos valores instituídos, eleitos pelos desejos da uma vez que a educação necessária para promovercidadania, ou que não permitem, pela presunção do os princípios da cidadania está ligada às diferentessaber do legislador, espaços para o instituinte da formas de concepção de educação, de homem e deprática social. sociedade.Ação democrática é exercício de poder, autocriação, Neste contexto, uma educação democrática se fazauto-instituição, autogestão. Gestão democrática se pela ação dos atores envolvidos, como o diretor,constrói no cotidiano escolar, no espaço do exercício pedagogos, alunos, professores e outros profission-da autonomia, instituída pela vontade e segundo ais que constituem o espaço escolar.os valores e objetivos coletivos. Para que a gestãoda escola pública seja efetivamente democráticaé fundamental que ela tenha seu espaço de auto- É preciso compreender que a gestão não se resumenomia, inclusive para decidir que tipo de exercício em ações de ordem administrativa no interior dademocrático deseja praticar. escola. A mesma está diretamente ligada a outras instâncias, configurando, assim, uma hierarquia de poderes.Para garantir o espaço de autonomia da escolaé preciso que a lei da gestão democrática afirmediretrizes e princípios, como estratégias do alcance Verifica-se a existência de uma relação verticaldos objetivos legais. Garantidos os princípios, a entre os órgãos da administração, e “nessa relaçãonorma deve ser sucinta o suficiente para não invadir verticalizada, as escolas se percebem sem poder derotinas e práticas do cotidiano escolar e padronizar decisão e o necessário envolvimento dos sujeitoso diferente, matando no nascedouro a possibilidade que atuam no seu interior não ocorre na intensidadede singulares e ricas experiências. Nesse sentido requerida’’ (CERQUEIRA, 2000, p. 30).é importante que a escola possa regulamentar emseu regimento normas relativas a seu conselho e à De todas as instâncias que compõem o sistema degestão democrática que concebe e deseja praticar. ensino, é na escola que se caracteriza mais ampla- mente a democracia, pois as relações, neste caso,[... [ apresentam-se de maneira horizontal. Na medida em que se conseguir a participação de todos os setores da escola - educadores, alunos, funcionáriosA nossa cultura política e a concepção de poder, e pais - nas decisões sobre seus objetivos e seuainda contaminadas pela origem e tradição pat- funcionamento, haverá melhores condições pararimonialista, dificultam a efetiva implantação da pressionar os escalões superiores a dotar a escolagestão democrática na escola pública. Os dirigentes, de autonomia e de recursos (PARO, 2001, p.12).embora afastados, às vezes distantes da sala deaula, também educam, ou deseducam, pelas suasatitudes. Sobre a participação dos segmentos mencionados pelo autor, algumas questões podem ser discutidas a fim de se compreender a complexidade da gestãoOs dirigentes dos sistemas de ensino precisam democrática no nível da escola.nutrir sua ação nos fundamentos da efetiva gestãodemocrática do ensino público, para disseminarnas escolas a cultura democrática. Enquanto não A primeira questão se refere ao diretor da escola,superarmos a cultura patrimonialista, que gera uma vez que ele próprio precisa ser uma pessoa www.posugf.com.br 14
  • 15. A escola como local de trabalho e sua especificidade democrática, pois “não pode haver democracia A palavra trabalho, na linguagem cotidiana, possui plena sem pessoas democráticas para exercê-la” muitos significados. Atualmente, quando pronuncia- (PARO, 2001, p.25). mos a palavra trabalho não a associamos a alegria, a prazer ou a outros sentimentos semelhantes. O que acontece é exatamente o contrário: na maioria A segunda questão diz respeito às convicções das vezes, nós associamos trabalho a tortura, fardo, do diretor quanto às vantagens de uma gestão cansaço, esforço físico, entre outros. democrática. Estando o diretor convencido de que deseja para a escola uma gestão democrática, o processo para que a mesma se torne uma realidade A palavra trabalho originou-se da palavra latina tri- é facilitado e, assim, o seu papel será o de convenc- palium. Tripalium era um instrumento utilizado por er aos outros segmentos da comunidade escolar a agricultores para bater os cereais, sendo associado, se empenharem para que as mudanças necessárias posteriormente, a ação de torturar. Daí surgiu a se estabeleçam. relação entre trabalho e labor, trabalho e tortura. A terceira questão é reconhecer que o processo de A história parece-nos indicar que o trabalho hu- tornar efetiva a gestão escolar democrática exige mano, enquanto atividade de transformação da aprendizagem, ou seja, “a participação da comuni- natureza e do próprio homem para sua sobrevivên- dade na escola, como todo processo democrático, é cia, sempre se fez presente. Com as mudanças cul- um caminho que turais, sociais, políticas e econômicas da sociedade, o significado dessa atividade inerente ao homem foi sendo, gradativamente, modificado e complexificado se faz ao caminhar” (PARO, 2001, p.17). em consequência do desenvolvimento capitalista. De acordo com as relações existentes na escola, os O próprio significado da palavra trabalho indica o sujeitos envolvidos estarão aprendendo a conviver processo de alterações por que passa a relação en- em um espaço coletivo em que as situações são tre o homem, a natureza e os meios de produção ao propícias para o debate e a reflexão coletiva. longo do capitalismo. Observemos alguns de seus significados historicamente construídos: A quarta questão que se pode apontar é a ne- cessidade de identificar e enfrentar as dificuldades → aplicação das forças e faculdades humanas para al- encontradas. Em cada contexto podem aparecer cançar determinado fim; diferentes dificuldades que inibem a prática de uma → atividade coordenada de caráter físico ou intelectual, gestão democrática e cada uma deve ser percebida necessário à realização de qualquer tarefa, serviço como um desafio. ou empreendimento; Um dos desafios é envolver os sujeitos do processo → exercício de atividade, como ocupação, ofício, pro- educacional desenvolvido dentro e fora da escola, para exercitarem juntos uma nova relação edu- fissão etc. cador-educando, diretor-professor, diretor-aluno, Novos significados são atribuídos à palavra trabal- diretor-funcionário, diretor-pai de aluno, escola- ho, gerados por essa modificação entre a relação Secretaria de Educação e assim por diante (CER- homem/natureza, em conseqüência do processo QUEIRA, 2000, p.35). capitalista de produção, tais como: resultado útil do funcionamento de qualquer máquina e atividade hu- Como se percebe, não é fácil praticar a gestão mana, realizada ou não com o auxílio de máquinas e democrática na escola pública, uma vez que são destinada à produção de bens e serviços. muitos os sujeitos envolvidos e cada um apresenta pontos de vista que podem divergir dos demais. Os significados que, ao longo do tempo, foram Entretanto, o respeito à coletividade é que fornece atribuídos à palavra trabalho expressam as modifi- as bases para a interação dentro de um espaço cações pelas quais passaram a própria organização democrático. da sociedade e seus modos de produção. Como salienta Torres (1998, p.16), “a democra- Destaca-se, nesse processo, a exploração do capital tização não é um dado, mas uma conquista da sobre o trabalho, que, ao valorizar o trabalho de própria sociedade. produção em série de máquinas e não o do homem enquanto processo de humanização, expropriou-o Acreditamos também que para conhecer e entender o de sua força de trabalho e de sua capacidade emprocesso de trabalho na escola é preciso antes conhecer e pensá-lo. Visto que a exploração do trabalhador é um fato inerente ao modo de produção capitalista,entender as relações de trabalho ao longo do tempo e na identifica-se na estrutura hierárquica do processo deatualidade. Diante disso, selecionamos o texto abaixo (OLI- produção capitalista a consolidação de mecanismos destinados ao controle tanto da produção como doVEIRA, MORAIS e DOURADO, s.d.e.), em que este assunto é próprio trabalhador, como a divisão pormenorizada/ individualizada do trabalho, a especialização emapresentado de maneira bastante interessante: atividades dentro da própria empresa, a separação A relação entre organização do trabalho e organi- entre trabalho manual e intelectual, os processos de zação escolar é estabelecida a partir da maneira de gerenciamento, entre outros (FÉLIX, 1989; PARO, organização e estruturação da sociedade. 1999, citado por OLIVEIRA, MORAIS e DOURADO, s.d.e). www.posugf.com.br 15
  • 16. A escola como local de trabalho e sua especificidade Essas modificações ocorridas no mundo do tra- degradantes. Prédios escolares caindo, sem ma- balho, referentes às concepções de trabalho e à nutenção, falta de material e recursos didáticos, re- organização das relações hierárquicas de poder e de tratam o cotidiano da escola. Os salários e os planos produção do capitalismo, afetaram não só o sistema de carreira existentes não estimulam os professores econômico e político. Essas alterações influenciam a buscarem algum tipo de aperfeiçoamento para a organização de toda a sociedade, inclusive a or- melhorar profissionalmente. Neste “quadro negro” ganização do sistema educacional como um todo e, não há, evidentemente, por parte dos professores, particularmente, do trabalho escolar. nenhum compromisso com as políticas educacionais implementadas nestas últimas décadas, pois estas se revelaram descompromissadas com a melhoria [...] do ensino e da educação. O trabalho escolar situa-se numa esfera não- A formação dos professores está muito aquém material, voltando-se, portanto, para a formação daquilo que se poderia considerar razoável: no de seres humanos enquanto sujeitos históricos. primeiro grau, aproximadamente um terço dos A escola, nessa ótica, caracteriza-se como uma professores são leigos; os cursos de formação de instituição social cuja especificidade consiste em seu professores não preparam adequadamente os edu- caráter criador, como geradora do conhecimento, cadores para enfrentar essa realidade dura e cruel consubstanciada na indissociabilidade entre teoria e da escola brasileira; não há programas sérios e prática, tendo como objetivos: duradouros de formação em serviço. → a formação do sujeito crítico e autônomo; Contraditoriamente, ao mesmo tempo em que essa → a formação do homem enquanto ser social; situação escolar velha e envelhecida foi sendo con- → a organização de meios adequados para a realização struída, ocorreu uma “modernização” das funções exercidas nas escolas, da máquina burocrática, e de seus fins específicos, ou seja, para a produção e das relações de poder. Há algum tempo vem sendo a socialização de conhecimento; estimulada a figura do especialista, a racionalização administrativa, a hierarquia de funções, enfim, um → a sistematização do saber historicamente produzido modelo técnico-burocrático de organização escolar tido como “moderno”. pelos homens nas relações sociais que estabelecem entre si, seja no trabalho, na escola ou nas demais Este modelo traz como características: a fragmen- instituições sociais existentes; tação do trabalho na escola; a hierarquização de funções com a concentração de poder nas mãos de → a formação do indivíduo para o trabalho, entre ou- alguns especialistas; forte controle sobre os profes- tros. sores, funcionários e alunos; perda de autonomia por parte do professor sobre o seu trabalho; fun- Sobre o processo de trabalho na escola aponta Hypolito cionários que não se sentem comprometidos com a ação educativa da escola; saber cada vez mais(1991): fragmentado; várias instâncias pedagógico-admin- No Brasil, neste século especialmente, a escola pas- istrativas espalhadas e hierarquizadas por todo o sou por uma série de modificações que refizeram sistema de ensino e outras características desse tipo o seu perfil em termos de estrutura e organização. que poderiam ser aqui arroladas. Apesar dessas modificações nem sempre mostrar- em-se aparentes, substancialmente a escola transi- tou de um modelo tradicional, que se caracterizava O mesmo autor aponta para outra questão de fun- pela autonomia do professor em relação ao ensino damental importância: e à organização escolar e por processos burocráti- cos praticamente inexistentes, para um modelo Muito se ouve falar nas escolas sobre a necessidade técnico-burocrático, caracterizado pela redução da de um trabalho integrado, harmônico, etc.etc. A autonomia do professor em relação ao ensino e à cooperação é fundamental para que o trabalho da organização da escola – divisão de tarefas, formas escola se realize de acordo com os objetivos dos de controle, hierarquização, enfim, por uma marca planejadores. Mas esta realidade é contraditória, burocrática muito acentuada. pois se a cooperação pode ser um fator de esta- bilidade para o poder, ao mesmo tempo a reunião Hoje nossa escola se encontra em uma situação de dos trabalhadores coletivos possibilita uma unidade baixa qualidade do ensino. Os resultados da escola de interesses e favorece formas de resistências à disponível para as classes populares são preocu- dominação. pantes: um índice de evasão e repetência muito grande; uma produção de analfabetos funcionais As entidades sindicais de professores, grupos extraordinária; um ensino completamente desvin- isolados em escolas, associações de categorias e culado das necessidades da população, tanto em científicas e o movimento popular têm reivindi- termos de conteúdos quanto de métodos, que não cado insistentemente formas mais participativas de forma adequadamente aqueles que permanecem na gestão escolar. Algumas conquistas foram obtidas escola. como a formação de conselhos escolares, eleições para diretores, colegiados, etc. São recorrentes os diagnósticos mostrando as condições dessa escola e do trabalho nela reali- Está no momento de se fazer uma avaliação des- zado. O professorado dessa escola está submerso sas conquistas, principalmente quanto ao caráter em condições precárias de trabalho e formação. da participação. Muitas vezes a discussão sobre a As condições de trabalho, desde os aspectos físico democracia na escola se reduz à escolha eleitoral materiais às condições de salário e carreira, são dos diretores. www.posugf.com.br 16
  • 17. A escola como local de trabalho e sua especificidade Não se pode concordar com formulações tais como: Esses elementos todos são mutáveis, modificam-se de “cabe ao diretor ampliar o espaço de ação dos ano para ano, no mesmo ano; de Escola para Escola, na mes- professores”; “cabe ao diretor permitir que os edu- cadores da sua escola (...) possam reintegrar o tra- ma Escola. balho pedagógico por meio de uma ação cooperativa e participativa”; “... vejo os órgãos colegiados (...) Por isso, o projeto não está pronto, mas em constru- como uma das maneiras de se conseguir compro- ção. Nele, a equipe vai depurando, explicitando, detalhando meter os educadores com a escola e com a edu- cação...” Comprometer-se com qual escola? Qual a inserção dessa Escola na transformação social. educação? É necessário ser mais preciso. A autora O projeto político-pedagógico ganha consistência e solidez dessas colocações (Teixeira, 1985:443), após uma análise do processo de trabalho na escola, começa a à medida que vai captando sistematicamente a realidade na discutir a relação do educador com a administração qual se insere. Daí ser a realização contínua de diagnósti- da escola e sugere caminhos como estes. Não se pode atribuir a um indivíduo, no caso o diretor, as cos dessa realidade um instrumental importantíssimo nessa funções que a autora propõe. As tarefas de mu- dança da escola numa perspectiva transformadora construção. Diagnóstico aberto, que não se cristaliza e que passam, necessariamente, pela articulação do co- não se encerra na constatação da realidade, mas que a lê letivo escolar e por um projeto político-pedagógico claramente definido em termos de classe. e a Interpreta - o que supõe conhecimento/posicionamento teórico/prático da equipe. Esse trabalho com o diagnóstico - Profundas mudanças na escola não serão obra de os dados - serão definidor/redefinidor do conteúdo/forma do um diretor bem intencionado. Essas mudanças passam por um questionamento da organização do projeto político-pedagógico da Escola. trabalho escolar e pela busca de novas formas de organização que possibilitem, pelo menos, a con- sciência das condições precárias, alienantes, des- O Trabalho Coletivo qualificadoras, em que ocorre a produção escolar. O resultado que a Escola pretende - contribuir para o pro- O quadro pintado por Hypólito não se apresenta muito cesso de humanização do aluno-cidadão consciente de si nopromissor, mas, como já foi dito anteriormente, as mudanças mundo, capaz de ler e interpretar o mundo no qual está e nelenão são fáceis. Para dar cores a este lado sombrio, vejamos o inserir-se criticamente para transformá-lo - não se consegueque nos diz PIMENTA (1993): pelo trabalho parcelado e fragmentado da equipe escolar - Quais desafios a problemática da civilização coloca para a à semelhança da produção de um carro, onde um grupo deEscola, a fim de que esta forme o novo cidadão? Como a Es- operários aperta, cada um, um parafuso, sempre da mes-cola vai traduzir no seu e pelo seu trabalho essa problemáti- ma maneira, conforme o que foi concluído fora da linha deca? Estas são as questões fundamentais da nova organização montagem -, mas sim com o trabalho coletivo. Neste há ado trabalho na Escola. contribuição de todos no todo e de todos no de cada um. A As escolas, partícipes da mesma problemática civilizató- especialização de um não é somada à especialização de outro,ria, não são, entretanto, iguais. Por isso, não se trata de en- mas ela colabora com e se nutre da especialização do outro,contrar uma única forma nova de organizar o trabalho nela. É visando a e por causa de finalidades comuns.importante não nos embrenharmos por esse risco apriorístico O trabalho coletivo tem sido apontado por pesquisadoresessencialista de chegar-se a um modelo universal. Isto não e estudiosos como o caminho mais profícuo para o alcancedá conta dos novos problemas atuais. A história da Pedagogia das novas finalidades da Educação Escolar, porque a nature-já o demonstrou. No entanto, a história recente também nos za do trabalho na Escola -que é a produção do humano - émostra que é possível definirem-se alguns princípios nortea- diferente da natureza do trabalho em geral na produção dedores para essa organização nova, sobre os quais já há certo outros produtos.consenso entre os educadores estudiosos do tema. São eles:o projeto político-pedagógico, o trabalho coletivo e o conheci-mento da ciência pedagógica. O Projeto Político-Pedagógico O projeto político-pedagógico resulta da construção co-letiva dos atores da Educação Escolar. Ele é a tradução quea Escola faz de suas finalidades, a partir das necessidadesque lhe estão colocadas, com o pessoal - professores/alunos/equipe pedagógica/pais – e com os recursos de que dispõe. www.posugf.com.br 17
  • 18. A escola como local de trabalho e sua especificidade Diante de tudo que vimos sobre trabalho coletivo, gestão democrática, mudanças, vale reforçar que a gestão escolar é umacooperação que vai além do diretor, do coordenador pedagógico e do orientador educacional. No entanto, é preciso deixar claro queeles têm funções a desempenhar, por isso, cremos ser oportuna a reprodução dos quadros a seguir: DIRETOR → Organizar e articular todas as unidades competentes; → Controlar os aspectos materiais e financeiros; → Formular normas, regulamentos e adoção de medidas condizentes com os objetivos e princípios propostos; → Articular e controlar os recursos humanos; → Promover um sistema de ação integrada e cooperativa; → Manter um processo de comunicação claro e aberto entre os membros da escola e entre a escola e a comunidade; → Estimular a inovação e melhorar o processo educacional; → Gerenciar o Projeto Pedagógico; → Construir procedimentos de formação em serviço que incluam critérios de avaliação dos profissionais com elementos para as ações formadoras; → Construir relação nos diversos âmbitos da escola; → Analisar criticamente a realidade inserida no trabalho pedagógico da escola.Fonte: Mariza Pan – Diretora de Ensino do Colégio Integral, em Curitiba/PR Maura Balbinot – Secretária Municipal de Educação deOurinhos/SP In Revista Aprendizagem, Ano 3 nº 3 – julho/agosto de 2009 COORDENADOR PEDAGÓGICO → Auxiliar os professores na elaboração e diversificação de suas aulas; → Buscar alternativas, junto aos professores, para trabalhar os conteúdos propostos de forma efetiva, clara e que possa atingir os alunos de maneira abrangente, melhorando e facilitando o processo de ensino-aprendizagem; → Promover a Formação Continuada dos professores; → Desenvolver a cooperação no grupo de professores e alunos; → Verificar a progressão de aprendizagem dos alunos; → Construir e planejar situações de aprendizagem a partir da observação e trabalho com alunos; → Organizar a adequação curricular para alunos com necessidades especiais; → Elaborar, em conjunto, projetos anuais da instituição; → Utilizar novas tecnologias.Fonte: Mariza Pan – Diretora de Ensino do Colégio Integral, em Curitiba/PR Maura Balbinot – Secretária Municipal de Educação deOurinhos/SP In Revista Aprendizagem, Ano 3 nº 3 – julho/agosto de 2009 ORIENTADOR EDUCACIONAL → Auxiliar o educando quanto a seu autoconhecimento, a sua vida intelectual e a sua vida emocional; → Trabalhar para estabelecer na escola um ambiente de harmonia e confiança; → Procurar trazer a família para cooperar, de maneira mais eficiente e positiva; na vida do educando; → Realizar trabalhos de aproximação entre a escola e a comunidade; → Realizar observações e entrevistas pessoais com os alunos e seus familiares quando necessário; → Participar do processo de avaliação escolar e recuperação dos alunos; → Gerenciar o cotidiano escolar elaborando proposta estratégica.Fonte: Mariza Pan – Diretora de Ensino do Colégio Integral, em Curitiba/PR Maura Balbinot – Secretária Municipal de Educação deOurinhos/SP In Revista Aprendizagem, Ano 3 nº 3 – julho/agosto de 2009 www.posugf.com.br 18
  • 19. A escola como local de trabalho e sua especificidade BIBLIOGRAFIA inep . gov . br / index . php / emaberto / article / view F ile /1087/989.BRASIL, Ministério da Educação/Secretaria de Educação Básica. Acesso em 24/01/2011. Conselhos escolares: uma estratégia de gestão democrática da educação pública. Brasília: MEC/Secretaria de Educação Bási- OLIVEIRA, Aurelina Sandra Barcellos de et al. Gestão democrá- ca, 2004. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arqui- tica na escola pública: ação sócio-pedagógica que se faz ao vos/pdf/Ensfund/noveanorienger.pdf. Acesso em 28/11/2010. caminhar. In SCHWARTZ, M. C., ARAUJO, G. C. & RODRI- GUES, P. da S. (orgs.) Escola de gestores da educação básica:CASASSUS, Juan. Gestión y Educación. Santiago: Geseduca/Unes- democracia, formação e gestão escolar: reflexões e experiências co-Orealc, 1994. Disponível em: http://www.redparticipa.cl/ do Programa Nacional Escola de Gestores da Educação Básica uploads/media/MATERIAL_03_Y_05_JUNIO_gestion_y_edu- no Estado do Espírito Santo. Vitória: GM, 2ª edição - 2010. cacion.pdf. Acesso em 28/11/2010. Disponível em: http://escoladegestores.mec.gov.br/site/sala_ politica_gestao_escolar. Acesso em 04/01/2011.CHIRIBOGA, Leonardo Izurieta. ¿Administración educati- va o gestión educativa? Hacia un nuevo modelo de gobierno OLIVEIRA, João Ferreira, MORAIS, Karine Nunes de, DOURADO, del sistema de educación superior. Quito, 2010. Disponí- Luiz Fernando. Políticas e gestão na educação: organização vel em: http://190.152.149.26/portal_conea/descargas/ da educação escolar no Brasil na perspectiva da gestão de- publicaciones/institutos. GESTION%20EDUCATIVA%20 mocrática: sistemas de ensino, órgãos, órgãos deliberativos e O%20ADMINISTRACION%20EDUCATIVA.pdf. Acesso em executivos, regime de colaboração, programas, projetos e ações. 12/11/2010. Escolas de Gestores/MEC: s.d.e. Disponível em: http://esco- ladegestores.mec.gov.br/site/4-sala_politica_gestao_escolar/FALEIRO, Marlene de O. Lobo. Os conceitos de público e privado pdf/texto2_2.pdf. Acesso em 04/01/2011. e suas implicações na organização escolar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005. Formação de Professores: Saberes e Identida- PARO, Vitor Henrique. Gestão Democrática da Escola. São Paulo: des. In: Pimenta, Selma Garrido (org.) Saberes pedagógicos e Ática, 2001. atividade docente. São Paulo. Cortez. 1999. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/19406/1/Saberes-Peda- PAZ, Peterson da. As teorias da Administração e suas influências na gogicos - e -A tividade -D ocente / pagina 1. html # ixzz 1I lji S c WN. Educação. 2010. Disponível em: http://www.webartigos.com/ Acesso em 12/11/2010. articles/35539/1/AS-TEORIAS-DA-ADMINISTRACAO-E- -SUAS-INFLUENCIAS-NA-EDUCACAO/pagina1.html. Aces-FONSECA, Josefa Sônia Pereira da. A interferência do modelo so em 18/01/2011. de gestão no projeto pedagógico de uma instituição de ensi- no superior: um de estudo de caso. São Paulo: 2007. Dis- PIMENTA, Selma Garrido. Questões sobre a organiza- ponível em: http://www.sapientia.pucsp.br/tde_busca/arquivo. ção do trabalho na escola. Série Idéias n. 8. São Pau- php?codArquivo=4292. Acesso em 23/01/2011. lo: FDE, 1993. Disponível em: http://www.crmarioco- vas.sp.gov.br/prp_a.php?t=005. Acesso em 15/01/2011.GOMES, Leda. Gestão democrática da educação. MEC/Secretaria de Educação Básica: 2006. Disponível em: http://www. RODRIGUES, Zita Ana Lago & BUZETTI, Celita Maria da Silva. undime.org.br/htdocs/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID Gestão educacional. Revista Aprendizagem, ano 3 nº 13, julho/ =941. Acesso em 06/01/2011. agosto 2009. Pinhais: Editora Melo.HYPÓLITO, Álvaro Moreira. Processo de Trabalho na escola: algu- SERGIOVANNI, Thomas J. & STARRAT, Robert J. Novos padrões de mas categorias para análise. Revista Teoria & Educação, nº 4, supervisão escolar. São Paulo: EPU/EDUSP, 1978. 1991. Disponível em: http://www.ufpel.edu.br/fae/ppge/arqui- vos/File/hypolito_Teo_Ed.pdf. Acesso em 11/01/2011. SOUSA, Valdivino Alves de. A Gestão Educacional e a LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9.394/96. 2007. Dispo-LÜCK, Heloísa. Perspectivas da gestão escolar e implicações quanto nível em: http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/texto. à formação de seus gestores. Em Aberto, Brasília, v. 17, n. 72, asp?id=1853. Acesso em 12/01/2011. p. 11-33, fev./jun. 2000. Disponível em: http://www.rbep. www.posugf.com.br 19
  • 20. A escola como local de trabalho e sua especificidadeTEIXEIRA, Anísio. Que é administração escolar? Revista Brasi- leira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.36, n.84, 1961. p.84-89. Disponível em: http://www.undime.org.br/ htdocs/index.php?acao=biblioteca&publicacaoID=53. Acesso em 16/01/2011.VIZZOTTO, Marília M. Psicologia da Saúde: Especificidades e Diá- logo Interdisciplinar. 2006. Disponível em: http://virtualpsy. locaweb.com.br/destaque_janela. php?cod=540&cor=. Acesso em 16/12/2010. www.posugf.com.br 20