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6 revista o voo da gralha azul numero 6 janeiro maio 2011
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Almanaque Voo da Gralha Azul numero 6

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    6 revista o voo da gralha azul numero 6 janeiro maio 2011 6 revista o voo da gralha azul numero 6 janeiro maio 2011 Document Transcript

    • Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” n0. 6 – Paraná, janeiro/maio 2011 janeiro/ 2011 Idealização, seleção e edição: José Feldman Contatos, sugestões, colaborações: voodagralhaazul@gmail.comhttp://singrandohorizontes.blogspot.comEndereço para correspondencia:Rua das Mangueiras, 296-ACep.87080-680Maringá/PRQue a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que oequilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existênciado Homem na face da Terra!!! Prezado Leitor Esta revista não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros,jornais, colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo aocidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado. Por que o Voo da Gralha Azul? A Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo esemeia no coração de cada um que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações. Ao leitor, novos conhecimentos. Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores,etc., um caminho de conhecimento e inspiração. Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos, José Feldman
    • SUMÁRIO VII Concurso de Trovas da Academia Mageense de LetrasACADEMIAS ................................................................................258 XV Jogos Florais de Porto Alegre ..........................259Academia Paraibana de Letras ................ 100 X Concurso de Trovas do C.T.S./2011/Caicó-Rn ....Academia Paranaense de Letras .............. 107 ................................................................................259 XXXI Concurso Estadual/Nacional/2011 da ATRN - Academia De Trovas Do RN ................................259BIOGRAFIAS Concurso de Trovas de Taubaté – 2011...............260 XII Concurso Vicentino de Trovas.......................260Abel Fernandes.......................................... 206Al Mutamid ................................................ 186Almeida Garrett ........................................ 193 CONTOSAntônio Campos ........................................ 139Apolônio Alves Dos Santos ....................... 178 A. A. de AssisArlindo Tadeu Hagen ................................... 5 A Eleição da Vênus ........................................ 6Carolina Maria de Jessus ......................... 162 Abel FernandesCarolina Ramos .......................................... 20 A Reunião no Bosque do Sonho ................ 204Cesídio Ambrogi ......................................... 13 Alfredo Ciuffi NetoChico Anysio .............................................. 180 Noite de Lua Cheia ...................................... 17Cidinha Frigeri .......................................... 255 Aninha CalijuriCyl Gallindo ............................................... 139 O Grande Amor de Anitinha e Lazzini ...... 27Eno Teodoro Wanke .................................. 105 Carlo ManzoniFelipe Machado ......................................... 140 Porcaloca .................................................... 130Figueiredo Pimentel ................................... 59 Carlos Alberto OmenaFlorbela Espanca ....................................... 114 Crime na Mansão ...................................... 245Gislaine Canales ......................................... 73 Carlos Drummond de AndradeHeloisa Seixas .......................................... 255 A de Sempre ............................................... 226Ibn Ammar ................................................. 183 Carolina RamosJosé Afrânio ............................................... 133 O Tombo ....................................................... 19Lino Sapo ..................................................... 99 Chico AnysioLuís Fernando Veríssimo .......................... 133 Silêncio, Hospital ....................................... 179Maria Antônia Canavezi Scarpa .............. 142 Derotheu Gonçalves da SilvaMaria Eliana Palma .................................. 198 Padre Zico .................................................... 23Maria Nascimento Santos Carvalho ........ 203 Emir Macedo NogueiraMiguel Sanches Neto................................. 110 O Homem que Colecionava Caixas de FósforosMilton Hatoum ............................................ 22 ................................................................. 84Myriam Campello ...................................... 141 Um Caso de Emir como Professor .............. 86Nany Schneider .......................................... 48 Figueiredo PimentelSilas Correa Leite ..................................... 122 Histórias da Avozinha : O avô e o netinho . 58Vania Dohme .............................................. 64 Histórias da Avozinha : O soldado e o diabo58Vasco José Taborda .................................. 228 Heloísa SeixasWilliam Shakespeare ............................... 150 Assombração .............................................. 219 Jorge Fregadolli O Vendedor ................................................ 136CONCURSOS COM INSCRIÇÕES José Afrânio Moreira Duarte O barranco mais fotografado do Brasil .... 131ABERTAS Lima Barreto A Biblioteca ................................................ 156Antologia e Concursos Literários da APALA - Academia Um Músico Extraordinário ......................... 48Pan Americana De Letras E Artes ........................ 256 Lino SapoJogos Florais da Academia de Letras e Artes de Cambuci – Conhecendo as Cidades do Rio Grande do Norte2011....................................................................... 257 em um Conto ................................................ 96XLI Jogos Florais de Niterói – 2011..................... 257 Luís Fernando VeríssimoII Jogos Florais de São Francisco de Itabapoana.. 257 Pá, Pá, Pá ................................................... 254VII Concurso de Trovas da UBT Maranguape/CE .. Sexa ............................................................ 133............................................................................... 258 Lygia Fagundes TellesVI Jogos Florais de Cantagalo .............................. 258 A Chave na Porta ........................................ 43
    • Millôr Fernandes LITERATURA DE CORDELO Rei dos Animais ..................................... 207Monteiro LobatoO Rabo do Macaco ..................................... 144 Apolônio Alves dos SantosNilto Maciel A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara176Jornal de Domingo ...................................... 95 História do Cordel ..................................... 170Homens de Negócios.................................. 125 Métricas do Cordel .................................... 171Olga AgulhonO Bezerrinho Malhado .................................. 1Sônia Bettencourt NOSSO PORTUGUÊS DE CADAMar Vazio ................................................... 186 DIAENTREVISTAS A Língua Portuguesa agradece (e nossos ouvidos também) ..................................................... 145 Lingua PortuguesaMarcia Sanchez Luz Situações Didáticas ................................... 120em Xeque.................................................... 249ESTANTE DE LIVROS POESIAS Abú Bakr Mubammad Ibn-Ammar Ibn-Antônio Campos e Cyl Gallindo A Alcachofra ............................................... 182Panorâmica do conto em Pernambuco ..... 138 A Al’Mutamid (I)........................................ 181Ariano Suassuna A Al’Mutamid (II) ...................................... 182Auto da Compadecida ............................... 236 A Amada..................................................... 181Carolina Maria de Jesus A Leitura .................................................... 181Quarto de Despejo ..................................... 162 À Sannabus ................................................ 182Érico Veríssimo Maçãs e Peras ............................................ 181O Tempo e o Vento .................................... 229 Agenir Agenir Leonardo VictorFelipe Machado Amor de um Poeta ....................................... 28Olhos cor de chuva .................................... 139 Almeida GarrettFiodor Dostoievski - A Tempestade .......................................... 192Os Irmãos Karamazov .............................. 234 - O Anjo Caído ............................................ 193Jane Austen Al MutamidRazão e Sensibilidade ............................... 234 A propósito de uma carta .......................... 185Orgulho e Preconceito ............................... 235 Evocação de Silves ..................................... 185Myriam Campello “Quando será que estarei” ........................ 184Como Esquecer – anotações quase inglesas .. André Augusto Passari ............................................................... 140 O Mago da Ironia ....................................... 137Viriato Corrêa Augusto dos AnjosCazuza ........................................................ 142 A Máscara .................................................... 96William Shakespeare Apollo Taborda FrançaA Megera Domada ..................................... 148 As Quatro Raças ........................................ 161 Cesídio AmbrogiFOLCLORE Lenda: Cruz de ferro ................................... 13 Minha Terra ................................................. 13 Eno Teodoro WankeA Menina dos Brincos de Ouro ................... 67 Apelo ........................................................... 103Lenda da Missa dos Mortos ........................ 65 Desejos de retorno ..................................... 105O Saci-Pererê ............................................... 65 Epílogo........................................................ 104Os Compadres Corcundas ........................... 67 Gama .......................................................... 104Folclore Indígena Nascimento do soneto ................................ 103Origem da Música ..................................... 225 Omega ........................................................ 104O Folclore Negro na Literatura Norte-Americana Norte- Saudade ...................................................... 105 ................................................................. 82 Soneto vazio ............................................... 104 Florbela Espanca Amar ........................................................... 117 Deixai entrar a morte ................................ 117 Eu ............................................................... 116
    • Nostalgia .................................................... 118 José Carlos A. BritoPoetas ......................................................... 113 Florbela Espanca, a alma em expansão ... 115Ser Poeta .................................................... 118 Leny Magalhães MrechSonho vago ................................................. 118 A Criança e o Computador: Novas formas deVozes do Mar ............................................. 113 pensar ........................................................... 74Voz que se cala .......................................... 113 Manuel da FonsecaMárcia Sanchez Luz Os Olhos do Poeta...................................... 119Lua Negra .................................................. 249 Miguel Sanches NetoO amor no sonho ........................................ 248 Do perigo das idéias fixas ......................... 110Remendos ................................................... 248 Milton HatoumRéquiem para um homem simples, brasileiro Leitores Incomuns ....................................... 21 ............................................................... 249 Orientações Metodológicas para o Estudo Estudo188Maria Antônia Canavezi Scarpa Rubens ZárateSerá Incondicional ..................................... 141 A Fala-adornada-do-espírito, as Aldeias da SerraMaria Eliana Palma do Mar & a Terra em que Vivemos ............ 87Os Perfumes do Amor ............................... 197 Sylvia PlathNany Schneider Devaneios ................................................... 119Ciranda da Felicidade ................................. 47 Tom HarrisDois lados de mim ....................................... 47 Auto-publicação de um Livro (Como Funciona)Embalos de luz ............................................ 46 ................................................................... 6Então, Carnaval .......................................... 47 Vania DohmeIlusão ............................................................ 47 A História como Veículo de Comunicação .. 60Impossível .................................................... 46 Tradição dos Nativos Americanos de Crepúsculo eJangada da dor ............................................ 47 as Lendas Quileute de Lua Nova .............. 51Rei do Nada ................................................. 46Sonho ............................................................ 48Ney Souza Lima TEATROGralha Azul ................................................... 1Nilto Maciel O TeatroO Jangadeiro.............................................. 124 Origens e história ...................................... 208Poema em Dó Maior .................................. 123 Teatro no Brasil ......................................... 215Visionário ................................................... 123Sandra KezenCaravelas ..................................................... 86Silas Corrêa Leite TROVASO Poeta e o Ser Humano ........................... 122Vicência Jaguaribe A. A. de AssisNa Palma da Minha Mão .......................... 145 Trovas Brincantes ....................................... 90 Ademar Macedo Livro de Trovas .......................................... 242SOPA DE LETRAS (Crônicas, Arlindo Tadeu Hagen Trovas ............................................................. 2Artigos, etc.) A Trova nos Versos dos Trovadores .......... 29 Cesídio AmbrogiAlbert Uderzo e René Goscinny Trovas ........................................................... 13Asterix .......................................................... 53 Cidinha Frigeri Norte-A Literatura Indígena Norte-Americana ...... Trovas ......................................................... 255 .............................................................. .............................................................. 69 Dinair LeiteAmosse Mucavele Homenagem aos Irmãos Trovadores .......... 19Poegrafia ao Lêdo Ivo .................................. 17 Eno Teodoro WankeDavid Pontes Trovas ................................................. 103, 106Como se ensina o prazer da leitura .......... 191 Gislaine CanalesFelipe Conrado Trovas .......................................................... 70As Cartas de Lobato para Cesídio Ambrogi... Glosas ........................................................... 72 ................................................................. 15 Maria Nascimento Santos CarvalhoFlávia Carpes Westphalen / Sandy Anne Palestra sobre Trovas................................ 198Czoupinski Almeida Trovas Humorísticas (“BARAFUNDAS”) 252A Literatura Indígena Brasileira ............... 31 Vasco José TabordaGérson Valle Trovas ......................................................... 228Vozes Novas para Velhos Ventos ............. 127
    • 1 Ney Souza Lima Gralha Azul nasci entre os galhos da araucária nos braços da mãe natureza, aqui meu nome é Gralha Azul, sou Bicho do Paraná na terra de muito pinhão entre tropas e frio, nasci neste lugar no útero do Aqüífero-Guarani ninguém nunca viu, em nenhum estado há ave tão interligada como sou no Paraná! conheço o Parque Nacional de Ilha Grande o clima o relevo a argila e o Arenito Caiuá carrego entre as mãos o meu livro didático vi na história o índio Xetá e o Kaigang com a história da minha vida,dessa gente- -pássaro e as paisagens no varjão, do Rio Paraná nas campinas só sobraram eu e a araucária preciso dela para viver e ela precisa de mim andei caminhos trechos estradas e trilhos extinta, nos limites da serra do mar sou um só corpo com a fauna e com a flora sou Gralha-Azul, e do Paraná eu sou Símbolo em terras vegetadas,cheia de trilhas nuvens e para os bichos e as aves viver é voar passo os dias nas galhas a observar a Gaia as Araucárias novinhas, o grão que plantei represento essa gente, cabocla,roxa vermelha gente de olhos azuis na cidade, no campo a árvore nasce do solo, uma nova muda africanos, escravos, heróis de pele negra assim que o meu Paraná-uê tem que crescer no sul personalidades, folclore, lendas e fandango de uma arvorezinha destacar no mundo com as cores da Bandeira no corpo da Gralha -Azul eu faço parte da lenda e da realidade ave canora, ave azul, da cor da água sou Símbolo do Paraná, levo a semente Sete Quedas,os turistas, Cataratas do Iguaçu faço minha trilha, nutrida de pinhão e entre a mata desmatada solto meus gritos de trato da família no ninho paranaense Gralha ao ouvir sonoramente o grito de alimentação eu vi guerras, Bandeirantes, paraguaia e 3º Lugar Categoria Adulto no 16° Concurso de Poesia Contestado Pinheiro do Paraná 2008 até hoje tenho medo, da bala, da flecha e do machado Fonte: http://www.overmundo.com.br/banco/gralha-azule se eu fosse guerrear juntamente com os pássaros definindo nossas terras, exigindo nosso espaço?! Olga Agulhon O Bezerrinho Malhado Duas semanas depois, três vacas deram cria. Isa havia completado cinco anos. Houve festa na Isa, quando viu os bezerrinhos, não teve dúvida.Fazenda São Pedro, mas não ganhou, no dia, o Encantou-se, de imediato, com o bezerrinho malhado,presente que mais esperava dos pais, pois o que tinha cria da Mimosa.pedido ainda estava para nascer. Queria, há muito, um bezerrinho só para ela. – É esse, papai! Que lindo o meu presente!
    • 2 – Escolha outro, filha. Esse é macho, vai virar pensamentos. Foi ficando cada dia mais triste,touro. Já temos muitos na fazenda; o suficiente para comendo menos, até cair doente. Pegou uma fortecobrir as vacas que temos; não pretendo ficar com ele. gripe, a gripe piorou, virou pneumonia. – Mas, pai, ele…. É o meu presente… É esse Já havia passado um mês da venda doque eu quero. Malhado, quando o pai de Isa viu-se obrigado a sair à – As outras duas são novilhas. Escolha uma procura dele. Buscou notícias por toda parte. Achou adelas, e os bezerrinhos que ela tiver, quando ela pessoa que o havia comprado do leiloeiro.crescer, também serão seus. Se escolher o O dono, um tal de Onofre, adquirira o animal paramalhadinho, não prometo que ficará com ele até cobrir suas vacas, mas não teve sorte.adulto. – Olha, moço, não sei o que tinha o touro! Mas Isa nem ouvia mais o pai. Estava a Parecia doente, às vezes até triste. Estava sempreacariciar o bezerrinho. Ninguém a faria mudar de isolado do resto do gado e não cobria as vacas. Nemidéia. umazinha. Assim, não servia, não senhor. Sua vida mudou. Tornou-se mais alegre. Na Homem prático e conhecedor de gado quemaior parte do tempo estava com o bezerrinho. No era, o senhor Onofre não insistiu; comprou um bomcomeço ele era arisco, mas logo se tornou dócil; reprodutor e vendeu Malhado para o frigorífico.parecia entender a menina, que chegava a fazê-lo de Desanimado e desorientado, o pai de Isacavalinho. pensou, então, em procurar um substituto, outro O bichinho chegou a desgarrar-se da mãe, touro bem parecido. Talvez Isa percebesse que não eracomo se ela fosse menos importante que Isa. Ambos o mesmo; afinal, já fazia muito tempo que ela não viaforam crescendo e a amizade entre eles era cada vez o Malhado. Ficou dois dias fora de casa rodando amaior. região e, enquanto isso, Isa piorava. As coisas na fazenda também foram No terceiro dia, ele retornou com um touromudando. O pai de Isa estava mecanizando a terra em cima do caminhão.para plantar soja e, para isso, estava acabando com o – Que sorte, Marta! Comprei pelo dobro dorebanho. Ficara apenas com umas poucas vacas de preço, mas vai valer a pena. Achei um touroleite e escolhera o melhor touro. igualzinho ao Malhado. Nossa filha não perceberá Malhado crescera, já era touro e não havia nenhuma diferença. Ficará contente, ficará boa. Vámais lugar para ele na fazenda. O pai de Isa nem correndo buscá-la.pensou que a filha, depois de tanto tempo, iria ligar. Dona Marta voltou com a filha no colo, poisVendeu-o, junto com os outros, para um leiloeiro. a menina estava muito fraca para andar.Quando a menina chegou da escola, ficou – Olhe, Isa, achamos os seu Malhado!desesperada. Chorou o resto do dia, mas os pais nãolhe deram muita atenção. Acharam que passaria a sua A menina virou a cabeça, sem forças, emdor. direção ao touro. Seus olhos se entristeceram ainda mais. Não disse palavra alguma. Voltou a cabeça para Ao levantar-se, no dia seguinte, Isa continuou o colo da mãe e deu mais um suspiro.fazendo suas tarefas. Nos momentos em que estariacom Malhado, permanecia no quarto, tentando ler Fonte: AGULHON, Olga. Germens da terra. Maringá: Midiograf, 2004.alguma coisa, mas não conseguia distrair os Arlindo Tadeu Hagen Trovas Garimpeiro, pelos vãos dos teus dedos que envelhecem, É nossa união perfeita muda a riqueza de mãos magia para os ateus: para mãos que não merecem!…
    • 3 se este amor for “coisa feita”, e o luso da padaria, foi coisa feita por Deus! bem distraído, diz: – Ui!… Por magia, o sonho lindo, Enganador é o Ramiro,que me segue ao fim da estrada, que finge como ninguém, é um pombo alegre fugindo e só de “último suspiro” de uma cartola surrada! ele já deu mais de cem!… Trata o amor com fantasia Ela voltou de surpresa para fazê-lo viver; e eu pude assim, num só dia, o amor que perde a magia após chorar de tristeza tem muito pouco a perder!… também chorar de alegria! Ser seu amigo é um valor Faltaram surpresa e encanto que para mim não compensa, em nosso encontro no cais… para quem deseja o amor, Eu te esperei tanto, tanto, a amizade é quase ofensa!. que eu nem esperava mais… Cansei de crer tolamente Num mau-humor quase eterno, nos meus sonhos de menino. há quem, no viver sombrio,Nem sempre o que agrada a gente faz da vida um grande inverno… também agrada ao Destino! depois reclama do frio! Eu não troco as ilusões No verão ela anuncia Pelos caminhos mais certos. que o nudismo é a sensação Meu sonho de abrir portões e o que só o marido via, Despreza os portões abertos! agora todos verão! Bate à porta… e a desconfiança É inverno… e ao vê-Ia passar põe o Salim na agonia: num shortinho tentação, tem mais medo de cobrança eu mal consigo esperar do que gato de água fria! a chegada do verão! Por mais que a vida dê volta, Lembrando o amor que a iludia nosso carinho perdura… minha alma, feliz, revive… que a mão do tempo não solta Eu sei que foi fantasia as mãos dadas com ternura! porém foi tudo que eu tive! Recordo o velho sobrado… Ante a clonagem, desmaiameus pais… a infância inocente… o cientista pouco esperto: e as essências do passado fez a sogra de cobaia vão perfumando o presente!… e a experiência deu certo! Como negar evidências Minhas mágoas mais secretas sobre um Ser especial em versos vou transformando. se, na essência das essências, No horizonte dos poetas Deus é sempre essencial!?… Há sempre estrelas brilhando! - Casamento é mesmo o fim! Se a vida é mera passagem diz ela, no seu enfado, por este plano somente, - Quem suspirava por mim o preço desta viagem agora ronca ao meu lado!… é a própria vida da gente- Quero um suspiro, – Anuncia, Na rede, pela manhã, em frente, ao balcão, o Rui; sonhei com a loura incomum.
    • 4 Na melhor hora do tchan, revezando as fantasias a rede arrebenta e … tchun! de pierrô e de arlequim… Num constante caminhar, Minha alma reflete o tema a minha vida consiste de um passarinho fujão, na procura de um lugar vivendo o eterno dilema que nem mesmo sei se existe! entre a fome e o alçapão Meu coração tem lutado Num dilema de amargura, na guerra contra a razão: a Deus eu tento culpar soldado, à força alistado meu fascínio pela altura no exército de paixão! sem asas para voar. Saudade são velhos trapos, Partir… ficar… e o problema pedaços do coração, de espinhosa solução que fica feito farrapos enlaça em nós de dilema na cerca da solidão! as cordas da indecisão ! “Boa viagem” – perdoa Por ver a nossa ansiedade mas te atender não consigo ao ter de nos separar, que a viagem só é boa o dilema da saudade quando tu segues comigo! é saber com quem ficar. Numa batalha incontida Se alguns sofrem se sozinhos eu luto a ver se domino, e outros sofrem por amar, na imensa arena da vida, dilema é ter dois caminhos os touros do meu destino! e nenhum para trilharInfância é um brinquedo usado Sou gota d’água a cismar que um dia a vida resolve num dilema-desafio, tomar um pouco emprestado entre a ventura do mar e nunca mais nos devolve! e a segurança do rio Senti, no suave cheiro Ter ou não ter seu amor… que o vento me trouxe agora, Este dilema profundo que o vento passou primeiro me faz o mais sofredor pela rua onde ela mora! dos sofredores do mundo. Para mudar a visão Vens… não vens… e na incertezade quem não muda as retinas, do dilema que me cansa, Deus, em sábia decisão, a minha vida está presa encheu as ruas de esquinas! neste fio de esperança! Violando os frágeis abrigos, Meu sogro cheio de medo, a chuva lembra uma espada tenta a peruca escondercortando os sonhos mendigos e o que ele guarda em segredo no meio da madrugada. “tô” careca de saber ! Ao te esperar, na agonia, Para manter a mensagem entre o dilema e a incerteza, daquele adeus, na partida, minha vida é tão vazia eu gastei toda a coragem que transborda de tristeza que eu juntei durante a vida! Indecisos, nossos dias Minha sogra é uma desgraça: vivem dilemas sem fim, magricela e jururu;
    • 5 a coroa é mais sem graça só restaram na velhice, que rodízio de chuchu! as migalhas da saudade! Pobre horizonte pequeno Em dupla transformação,de quem crê, sem ver mais nada, a dois milagres assista: que uma rosa com sereno o trigo em forma de pão… é só uma rosa molhada e o pão em forma de Cristo. Selei, ao negar-te o abraço, Olho o perfil da cascata a minha sina de só. e tenho a impressão estranha A mão que desfaz um laço de ver um manto de prata nem sempre desfaz um nó! sobre as costas da montanha! Eras corda enfraquecida… O sol, em plena alvorada, e eu era uma corda só… abrindo o dia bonito, Fez-se o nó… e a mão da vida é uma cascata dourada jamais defez este nós! jorrando luz do Infinito. Maria é um resto somente Nossa seleção – coitada… no cais, largada ao desdém… nesta copa, em desatino, ontem – mar de tanta gente… em vez de dançar lambada, hoje – porto de ninguém!… dançou um tango argentino! As leis do sangue são vãs Diz o burro: – Não dá pé pois sinto, nas horas calmas, minha paquera travessa! nossas almas tão irmãs… Não sei fazer cafuné e não há sangue nas almas… numa “mula sem cabeça”!!! Eu te imploro, por favor, No forró, lá no escurinho, não insistas neste adeus. ante tanta iniqüidade, Se não for por meu amor, foi que meu primo Santinho fica pelo amor de Deus! perdeu sua “santidade”. . Mil conquistas… sonhos vãos O toureiro Chico Louro que passaram como a bruma… é chífrado onde estiver: Eu apertei tantas mãos Na tourada… pelo touro, e não segurei nenhuma!… No forró… pela mulher. As ruas são labirintos Num constante caminhar, onde eu noto, em profusão, a minha vida consiste milhões de dramas distintos na procura de um lugar vagando na multidão! que nem mesmo sei se existe! Respeita as dores e anseios na igualdade que proclamas e vê que os dramas alheios ARLINDO TADEU HAGEN nasceu em Juiz desão dos outros… mas são dramas! Fora-MG, em 01 de agosto de 1964, filho de Arlindo Hagen e Isaura Pinto Hagen. Profissionalmente é A casa quase vazia Engenheiro Civil, formado pela UFJF e atua no ramo da mostra ao ator, numa trama, construção civil. que outro drama se inicia Trovador atuante, pertence à União Brasileira dequando ele encerra o seu drama Trovadores – Seção de Juiz de Fora, onde já ocupou diversos cargos, sendo atualmente seu Presidente. Magnífico Do trigo da meninice Trovador nos Jogos Florais de Nova Friburgo, tem centenas e do pão da mocidade de Troféus e Medalhas obtidos em Concurso de Trovas e
    • 6Jogos Florais por todo o Brasil. Possui, também, premiações Célio Grünewald, seu tio e grande incentivador na Trova eem Poesias, Contos, Crônicas e outros gêneros menos à Academias Mineira de Trovas, Cadeira nº 36 – Patronovisitados. Luiz Otávio. Pertence à Academia Juizforana de Letras, Cadeira nº Fonte:07 – Patrono Oscar da Gama, cujo ocupante anterior foi UBT/ Juiz de Fora A. A. de Assis A Eleição da Vênus Era, sem dúvida, uma escola de samba muito Operava-se a venda dos votos durante os ensaiosoriginal, descontraída até no nome: Estraga-Lar, que da escola de samba, assim de gente nasaliás na época andava em campanha arrecadativa de arquibancadas, o animador de voz barrocafundos. Não exatamente com vistas a cobrir os ditos assanhando as torcidas, as candidatas calipigiando nadas cujas; muito pelo contrário: o povão tanto mais passarela. “Reparem no calipígio dela!”, provocavaaplaudia as moças quanto mais ventiladas fossem. Os inocente o espíquer. Bum-bum... bum-bum, ritmavamfundos seriam para reequipar a bateria, comprar os bumbos, como se soubessem traduzir o grego.novos adornos e outros ziriguiduns. Abertas, afinal, ruidosamente, as urnas, a falta de Os diretores decidiram que para animar a iniciação em cultura clássica fez diferença mínima. Acampanha (e aumentar o ganho com a venda de intuição do eleitorado mostrou-se mais uma vezvotos) haveria de surtir bom resultado a eleição de atenta: por polpuda maioria de votos, deu o título aalgo assim como rainha ou miss, porém que não fosse Margaridinha Pureza, sedutor arranjo de rotundas,uma coisa nem outra, títulos por demais bem-distribuídas e bronzeadíssimas virtudes.chavonizados. “Vamos pedir umas ideias ao professor Ah, sim, quanto ao significado de calipígio, oPolycarpo”, e lá se foram consultar o sábio da cidade. pessoal da Estraga-Lar só deu pela coisa muito tempo Machadiano, o velho mestre sintonizou a depois, quando um dos diretores, por acidentalinspiração nas graças da Grécia antiga, riu por dentro, curiosidade, resolveu conferir no dicionário. A partirbotou pra fora a solução: “Elejam a Vênus Calipígia. daí nenhuma outra Vênus se fez eleger por lá.Nenhum título expressará mais abundantemente o ======essencial nas artes do requebrado...” Obs: “Vênus Calipígia!”, repetiu de boca unânime a Calipigia, segundo o Dicionário Caudas Aulete é quem temdiretoria da Estraga. Todos tinham razoável noção do formosas nádegas.que fosse Vênus. De calipígios, contudo, pareciampouco entender (será?). Mas o professor falou, tava Fonte: ASSIS, A. A. De. Vida, verso e prosa. Maringá/PR: EDUEM, 2010.sancionado. Soava bonito, gordo, macio, solene.Vênus Calipígia ficou sendo o epíteto. Tom Harris Auto-publicação de um Livro (Como Funciona) Introdução Primeiramente, é uma solução intrigante para um problema antiqüíssimo. Como levar suas Para um escritor, a auto-publicação é palavras ao grande público – de preferência um conceito poderosíssimo e muito atraente. ganhando algum dinheiro ao fazê-lo? Em
    • 7segundo lugar, é uma extensão singular do editor. Como auto-editor, você administra umaprocesso criativo. Além de colocar as palavras pequena empresa. Dependendo de onde vocêno papel, a auto-publicação permite ao escritor mora, começar um pequeno negócio significacontrolar todos os aspectos de ser autor de um passar por algumas etapas simples.livro – ele cria o livro e participa ativamente do – escolher um nome – obviamente, vocêprocesso de levá-lo ao público. É uma mistura precisa de um nome de editora que ninguémharmoniosa, satisfatória e singular entre arte e mais esteja usando, para evitar confusões. Vocêcomércio. pode consultar livros e publicações para ver se Obviamente não é fácil, mas hoje em há alguém usando nome escolhido. O nomedia a auto-publicação não é tão difícil como se deve incluir a palavra “publicação”, a palavrapensa. Hoje, é possível produzir uma tiragem “gráfica” ou a palavra “livros”, para deixar clarosubstancial de um livro de qualidade por aos futuros clientes o que você faz. Na maioriaaproximadamente R$12 mil. dos casos, você prefere algo que tenha uma certa flexibilidade, que dê margem a diversasO contexto geral interpretações – se o seu primeiro livro é sobre metralhadoras, não dê à sua empresa o nome Qual o significado verdadeiro de auto- de “Editora Metralhadora”, porque talvez vocêpublicação? deseje escrever sobre outro assunto no próximo livro; Em sua essência, significa que, além deescrever, você cuida de tudo que uma editora – obtenha uma licença comercial – No casocuidaria. Isso não quer dizer que você faz tudo do Brasil, é preciso, então, abrir uma empresaliteralmente sozinho – não vemos muitos em uma junta comercial como micro ouescritores operando o prelo, por exemplo. pequena empresa.Significa que você contribui com o necessáriopara ajudar a criar o livro e financia o projeto – crie um logotipo – ou contrate os serviços detodo (com seu dinheiro ou com dinheiro um ilustrador.emprestado). Ou seja, auto-publicação significa que Além disso, você precisará de coisasvocê produz e financia um pequeno fundamentais para a operação de umaempreendimento dedicado a produzir e empresa, por exemplo:comercializar um único produto: seu livro (ou – uma conta bancária em nome da empresa;livros, depois que você entende como funciona você não quer misturar contas empresariaisa coisa). Na maioria dos casos, a meta do com o seu orçamento pessoal; por isso, separe-empreendimento é ter lucro com o decorrer do os desde o início;tempo – criar um produto que venda bem o – papel timbrado, cartões de visita, etc;suficiente para cobrir os gastos de criá-lo e um – uma página na Internet. É preciso obterpouco mais. hospedagem e reservar um nome de domínio Esse empreendimento comercial se adequado;divide em três etapas: – uma caixa postal na agência dos Correios, 1 – escrever, editar e ilustrar o livro; para que você possa receber correspondência. 2 – preparar o livro para impressão eimprimi-lo; Como empresário, é provável que você 3 – vender o livro. se enquadre em diversas deduções fiscais. Por exemplo, se você escreve em casa, parte de suas Cada uma dessas etapas engloba tomar despesas domésticas são despesas de trabalho,muitas medidas e decisões individuais, como bem como seu computador, espaço paraveremos. armazenamento de livros, etc. Para obter uma lista completa do que você pode ou nãoAnatomia de um editor deduzir, será preciso a orientação de um contador. Antes de falarmos da criação de umlivro, vejamos os detalhes para se tornar um
    • 8O início do livro universal e chamativo para um enorme mercado-alvo, é também de grande relevância Na maioria dos casos, o primeiro passo que os seus livros possam vender tanto nasna auto-publicação é ter uma idéia para o livro. livrarias quanto no varejo de especialidades.Você pode auto-editar quase tudo que quiser, Nos meus livros, por exemplo, uma das boasmas se deseja ter lucro, é bom considerar o seu coisas é que depois de meses tentando vendê-livro não apenas como uma obra de arte, mas los, fui aceito por uma grande rede varejista emtambém como um produto vendável. Qual o todo o país chamada USA Baby… Eles colocampúblico que mais se interessa pelo assunto e meus livros ao lado do caixa e vendem muitocomo chamar sua atenção? bem ali. Todos têm uma opinião sobre o quevende e não falaremos muito sobre isso aqui – Que tipo de livro?faz parte do processo criativo individual peloqual passam os auto-editores. O mais Você não precisa saber exatamenteimportante é que, como auto-editor, você tem quantas páginas seu livro terá antes mesmo deque considerar as vendas como qualquer começar a escrevê-lo. Mas se você tem umagrande editora faria. A primeira etapa é ter meta e sabe que tipo de livro vai criar, poderáuma abordagem para o livro que o torne planejar seu orçamento adequadamente.valioso para o público. Entre outras coisas, isso Primeiro, a decisão mais abrangente:significa quais os livros semelhantes que você quer um livro capa dura ou brochura? Aexistem no mercado e como eles vendem. impressão de livros de capa dura é bem mais Obviamente, o dinheiro não é tudo. onerosa e, por causa do preço de capa maisPouquíssimos livros serão campeões de venda e elevado, ele pode vender menos do que amuitos auto-editores não estão nem um pouco brochura.preocupados em ganhar dinheiro. Mas mesmo Depois de tomar essa decisão, vocêdeixando o lucro de lado, é fundamental ter pode definir quantas páginas terá o livro. Penseum plano de negócios baseado no que você no escopo do que você tem a dizer e verifique oacredita que pode vender. Ou seja, não faz número de páginas de livros com conteúdosentido imprimir 10 mil livros se livros como o semelhante. Mas também pense como vocêseu costumam demorar três anos para vender quer que o livro seja. Basta pegar um livro quemil cópias. tenha o mesmo tamanho e formato do que Além do assunto e da abordagem, um você tem em mente.auto-editor precisa pensar sobre o livro como Quando você encontrar um bomum produto físico real. Será um livro de capa modelo para seguir, conte o número dedura ou brochura? Quantas páginas? Quanto palavras por página. Multiplique-o pelocustará? Todas essas perguntas estão inter- número de páginas. Depois, subtraia palavrasrelacionadas, como veremos na próxima seção. das “páginas atípicas” – a primeira e a última de cada capítulo (essas não costumam serO assunto certo cheias), páginas em branco numeradas e páginas no início e no final do livro. Isso lhe É útil escolher um assunto que é dará uma estimativa do número de palavras dosempre atual. livro. Se você calcular quantas palavras há em Ou seja, as pessoas fazem filhos, isso uma página de seu programa de processamentonunca vai sair de moda. Bebês nascem o tempo de texto (ou no papel, se você usar umatodo, ano após ano; por isso, o público máquina de escrever ou se escrever à mão),continua se renovando… você terá uma meta para o número de páginas. Quanto mais livros você tiver no Por que isso é importante? Porque émercado, mais fluxo de caixa você pode gerar. preciso pensar na psicologia do indivíduo queMinha idéia é continuar acrescentando livros, compra livros. Se você pretende criar um livrosem tirar nenhum. Todos são viáveis no para presente, brochura, você não vai querermercado, todos geram dólares… um volume de 500 páginas, porque ele ficará Ao escolher o assunto a ser publicado, parecendo uma enciclopédia. Se o público-alvoalém de ser importantíssimo que ele seja tem um interesse mais casual, o livro deve ter
    • 9uma aparência mais leve. Mas se você pretende solução é contratar um editor assistentelançar um manual, o futuro cliente não freelance. Ele tem a mesma função do editorpensará que um livro de 100 páginas é que trabalharia com você em uma editora –vantajoso. Os leitores escolherão o livro mais você pode lhe mostrar rascunhos e esboços, egrosso na prateleira ao lado do seu, porque ele ele pode editar algumas partes para melhorar oparece mais substancial. livro. A diferença, é claro, é que você tem a O preço também é importante. Mais palavra final e não ele. Teoricamente, apáginas custam mais e certos múltiplos de principal coisa que esses profissionais trazempáginas são menos onerosos do que outros. As para a publicação de livros é seu conhecimentográficas imprimem um determinado número especializado – um editor assistente precisade páginas de cada vez – em geral, 32 páginas, saber como criar um bom livro.frente e verso. Isso significa que é bem mais O custo de um editor assistentebarato imprimir um livro de 320 páginas do freelance entra em seu orçamento total para oque um de 321. Não é preciso tomar essa livro. Dependendo do seu modo de trabalhar,decisão logo no início, mas é algo a ser a presença desse profissional pode lhe pouparconsiderado quando você estiver com o livro tempo e ser um gasto que vale a pena.quase pronto. Além disso, você talvez queira a ajuda de outros profissionais. Na próxima seção,Tamanho é documento falaremos das outras pessoas que você poderá incluir em sua folha de pagamento. Com o primeiro livro, Walter Roarkreavaliou a sua escolha do tamanho do livro: Solicite reforços“Decidi que o primeiro livro ficou um pouco fino. Oprimeiro livro tem 160 páginas, ou seja, 5×32. E Além do editor assistente freelance,decidi que o segundo seria mais substancial porque o você pode conseguir mais ajuda durante obebê de 1 a 3 anos é mais complicado do que o processo de criação do conteúdo. Talvez vocêrecém-nascido. Decidi que o livro teria 224 páginas precise de:– 7×32. Também tive a impressão de que se ele – Um ilustrador ou cartunista para asparecesse mais substancial – um pouco mais páginas internas do livro ou a capa.volumoso – as livrarias ficariam mais tentadas a – Um pesquisador de fotos paravendê-lo. A Borders não quis pegar meu primeiro localizar fotos ilustrativas e obter permissãolivro… para usá-las. Uma coisa que entendi é que capas – Um revisor para revisar o texto final,chamam a atenção, mas quando estão só com a melhorar a redação e corrigir possíveis erroslombada para fora eles somem. Por isso, pensei em gramaticais ou de digitação.fazer o livro um pouco mais volumoso – assim, eleteria uma lombada maior e não se perderia. Foi isso A revisão é muito importante. Vocêque eu fiz e a Borders pegou meu segundo livro“. pode confiar em sua própria revisão, com a ajuda de amigos e familiares, mas se quiser umA criação do conteúdo texto coerente, relativamente sem erros, provavelmente terá de contratar um revisor Depois que você escolhe o tipo de livro experiente. Você ficará surpreso ao ver como éque deseja produzir, é hora de começar a difícil encontrar todos os erros em um artigoescrevê-lo. A maneira mais óbvia é fechar a de 1.500 palavras; imagine em um livro inteiro.porta para o mundo, escrever o que você quiser De modo geral, o período de criaçãoe só se preocupar com a edição depois. Mostre- diz respeito à redação, revisão e ilustrações.o à família e aos amigos quando você quiser Mas se você estiver trabalhando no conteúdomas, fora isso, faça do jeito que achar melhor. de seu livro, também precisará fazer algumasVocê não tem que se preocupar com o editor. coisas para que seu trabalho se transforme em Para muitos auto-editores, isso não um livro de verdade. Na próxima seção,funciona muito bem – e eles se perdem sem analisaremos estas etapas simples.alguém com quem possam trocar idéias. Uma
    • 10Sobre a revisão similares ao seu para ter uma idéia do que escrever. A revisão é uma parte importantíssima do – Você pode escrever uma biografia doprocesso final, porque por mais que você leia e releia autor para a quarta capa.o seu texto, você ficará surpreso com a quantidadede errinhos – pontuação, erros gramaticais – Depois que você terminar de escreverexistentes em um manuscrito eletrônico. É incrível. o conteúdo, é hora de colocá-lo na forma de livro. Na próxima seção, analisaremos esseO que um livro de verdade precisa processo. Os componentes básicos de um livro Preparar para imprimirsão óbvios – páginas de texto e de desenhos,encadernadas entre as duas capas. Mas para Até agora, o seu “livro” ainda não éque a sua obra seja um livro viável que possa um livro propriamente dito – é apenas umocupar as prateleiras de livrarias e de manuscrito. A próxima etapa é converter essebibliotecas, ele precisa de mais algumas coisas. manuscrito em uma forma pronta para serAntes de imprimi-lo, você precisa: impressa – a base para o que vai se tornar um – Obter um número ISBN – é como o livro real.número do CPF dos livros – todo livro Isso é muito mais fácil hoje. Com umimpresso tem um número exclusivo, e as microcomputador de boa qualidade e olivrarias, atacadistas de livros e outros usam software adequado para editoração eletrônica,esse número para identificar determinados você pode criar um livro pronto para sertítulos. Para obter o ISBN, você preenche impresso na forma digital. Com esse software,alguns formulários, pagar uma taxa. No Brasil, é possível configurar margens e tamanho daquem é responsável pelo número é a Fundação letra para obter o número de páginas desejado.Biblioteca Nacional. Você não pode simplesmente enviar à – Obter um código de barras EAN – gráfica um documento do Word formatado,trata-se de um código de barras UPC que pode porque esse tipo de programa deser conseguido pela Associação Brasileira de processamento de texto não é projetado paraAutomação Comercial. os drivers de impressão necessários para se usar – Definir um preço – você terá que uma impressora gráfica. Assim, é precisoimprimi-lo no livro; portanto, você precisa dele formatar o livro usando alguns programasantes da impressão. Mas você precisará dele o específicos: Quark Xpress (site em inglês) oumais cedo possível para que possa controlar o Adobe Pagemaker (site em inglês), porseu orçamento. O bom senso convencional diz exemplo. O software não é barato, e não é fácilque o seu livro deve custar, no mínimo, cinco aprender a usá-lo, mas a pessoa versada emvezes o valor de cada livro na produção inicial. computação poderá compreendê-lo comPara calcular o preço certo, veja livros relativa facilidade.semelhantes. Na maioria dos casos, definir um Além disso, você não pode usar umapreço menor do que o da concorrência não das fontes que vem com o seu programa deajuda as vendas; por isso, escolha um preço processamento de texto. Para o material prontomédio. para ser impresso, você precisa de uma fonte Postscript, além de drivers de impressão Outras coisas a considerar: Postscript. – Talvez você queira solicitar Para adicionar ilustrações, vocêcomentários (aprovações) para a quarta capa de precisará de um scanner de alta qualidade eseu livro. um bom programa gráfico, como Adobe – Você terá que escrever o material pré Photoshop (site em inglês), para que o textoe pós-textual para o seu livro – prefácio, fique pronto para a impressão.sumário, a página sobre direitos autorais e os Com o seu programa de editoraçãoagradecimentos que costumamos ver no início eletrônica, você pode montar cada página doou no final dos livros. Veja livros publicados livro. Depois, grave tudo em um CD – o arquivo de editoração eletrônica, o arquivo
    • 11para a fonte que você usou e todos os arquivos local de armazenamento dos livros ou qualquergráficos. Eis o seu livro, na forma digital, outro lugar que você escolher (por exemplo,pronto para a gráfica. diretamente a um atacadista de livros para quem você vendeu). É hora da etapa final:Para a gráfica divulgar e vender o livro. Depois que o seu livro estiver na forma Números e preçodigital, você precisa encontrar uma gráfica.Para isso, é preciso pesquisar um pouco o A maioria dos auto-editores começammercado. Faça pesquisas e encontre algumas com uma produção de 1.000 a 5.000 livros.gráficas especializadas em livros com as quais Walter Roark comentou suavocê possa trabalhar. Muitas gráficas costumam experiência: “Constatei que se eu quisesse imprimirimprimir apenas folhetos – certifique-se de 3 mil livros – que me parece um pouco ambiciosoprocurar gráficas especializadas em livros, que quando olho para trás, mas foi isso que eu deciditêm experiência no assunto. fazer, porque quanto mais livros impressos, menor o Peça a cotação para algumas gráficas – preço. Resolvi imprimir 3 mil e pedi que osum preço para a impressão, que a gráfica enviassem ao meu escritório, no porão de casa. Foihonrará por 30-90 dias – e solicite amostras de um dia assustador.trabalhos similares feitos no local. Compare e Recebi cerca de 47 caixas com 72 livrosveja quem oferece os melhores resultados com cada, que minha mulher e eu carregamos da portao melhor preço. de casa até o porão. Pouco mais de dois anos depois, Para fazer uma cotação, você terá que esvaziei a última caixa daquela primeira remessa. Jádecidir quantos livros deseja imprimir. Grande imprimi cerca de 10 mil livros até agora, desde aparte do custo da impressão está em preparar a primeira vez, e isso aconteceu há pouco mais de trêsgráfica para o trabalho. Por isso, você anos“.conseguirá um preço menor por livro seimprimir uma quantidade maior de uma só Marketing inicialvez. Contudo, se você superestimar o númerode livros que pode vender, acabará gastando Antes da data de publicação de seumuito dinheiro que não conseguirá recuperar livro, sua obra terá que chamar a atenção deem um período de tempo razoável. Essa é uma algum crítico importante ou, pelo menos,das decisões comerciais mais importantes que começar a circular entre os formadores devocê terá que tomar, que influencia opinião. Algumas etapas possíveis dediretamente seus lucros imediatos. marketing: Antes da gráfica imprimir o seu livro, – Procure sites ou blogs que divulgamela deverá imprimir provas. Quando as provas o tipo de material que você está publicando.ficarem prontas, é seu dever verificar cada – Faça uma assessoria de imprensapágina para que não haja erros. Qualquer coisa própria, divulgando, mesmo antes doque não estiver em seu arquivo original é erro lançamento, para algumas publicações que temde impressão – a gráfica terá que consertar e um perfil de leitores semelhante ao que leriaarcar com as despesas. Qualquer erro que seu livro.estiver em seu arquivo original é um ajuste doautor (AA), que significa que você terá que O marketing continuará enquantopagar por ele (embora a gráfica permita um você estiver vendendo livros. O marketing sedeterminado número de correções gratuitas). divide em duas áreas: promover o seu livroDepois de revisar as provas, você deve passá-las para revendedores (por exemplo, livrarias ouà gráfica para que façam as devidas correções. feiras) e para o público real para que as pessoas Neste ponto, ou ainda antes, a gráfica possam encomendá-lo e procurá-lo nas lojas.pode imprimir provas de granel (as primeiras Há dúzias e dúzias de truques e estratégias paraversões encadernadas do livro). Você poderá fazer o marketing nas duas áreas. Vocêusá-las para começar a divulgar o livro. encontrará muitas idéias nos livros e links que Finalmente, a gráfica criará uma provainteira do livro, e enviará as cópias à sua casa, o
    • 12aparecem na página “Mais informações”, no devolver os livros que não consegue vender. Sefinal deste artigo. os livros não estiverem danificados, você tem de devolver o dinheiro ao comprador. HáMarketing criativo também quem venda em consignação, ou seja, você entrega o livro e só recebe se o livro for A experiência de Walter Roark’ foi que vendido.o marketing aconteceu, de certo modo, na base Você precisará de um contrato deda tentativa e erro – algumas coisas termos e condições que defina, com detalhes,funcionaram, outras não. Ele deu algumas como você administrará a transação – quais osorientações: descontos que você oferece, como você lida “Constatei que gastar o tempo de maneira com as devoluções, como você faz a cobrança,abrangente é melhor do que trabalhos detalhados, etc. Os seus termos e condições dependemtentando vender um livro de cada vez. Quando apenas de você, mas você terá que trataraloco os meus dólares para o orçamento determinados tipos de compradores de certapromocional, tomo o máximo cuidado e sigo aquilo forma para fazer negócios. Por exemplo:que funciona. Constatei que enviar postais é muito – as livrarias individuais geralmentebom. É uma ótima opção de mala direta, com custo têm 40% de desconto do preço de capa;razoável; por isso, eu os envio aos bibliotecários. – atacadistas e distribuidores em geral Eis uma coisa que não valorizei muito no têm 50 – 55% de desconto do preço de capa;início – o mercado das bibliotecas. Um livro na – distribuidores exclusivos têm 62 abiblioteca é lido por muitas pessoas; por isso, um 67% do preço de capa.único exemplar chega a diversas pessoas“. Vender é um processo contínuo queVendas pode durar anos (sem tomar muito tempo). Quando a sua primeira remessa de livros acaba, Quando finalmente chega a data de e ainda há demanda, você volta à gráfica parapublicação, você tem apenas uma tarefa: fazer pedir a próxima remessa. Se o seu livrocom que as pessoas comprem o seu livro. Para realmente fizer sucesso, talvez você consiga umcompradores individuais de livros, isso é bom negócio com uma editora maior capaz desimples. Eles pagam o preço de capa, você aumentar o nível de suas vendas. No decorrerregistra a transação e envia ou entrega dos anos, muitos autores bem-sucedidospessoalmente o livro. Mas os compradores usaram esse caminho para entrarem na tela deindividuais de livros formam o menor grupo de radar das editoras.sua base de clientes. Os seus principais clientes O melhor momento de escrever umsão: livro costuma ser no início do processo – – livrarias independentes; quando estamos sentados ao computador, – atacadistas, que recebem pedidos de transformando nossas idéias em palavras. Pormuitas livrarias; eles só compram o que outro lado, o melhor momento da publicaçãoprecisam ou que esperam precisar; acontece depois que fazemos todo o trabalho – – distribuidores, que compram livros quando recuperamos nossos custos iniciais, epara revendê-los às livrarias; cada livro vendido é dinheiro que entra em – distribuidores exclusivos, que nosso bolso. Essa é a recompensa máxima decuidarão de tudo que a venda de seu livro um auto-editor.engloba em troca do direito exclusivo de Tom Harris é redator freelancer e bacharel emdistribuição; Inglês pela Universidade da Carolina do Norte. – vendedores de livros virtuais. Fonte: Dois novos fatores entram na questão Como funciona a auto-publicação. por Tom Harris – traduzido por HowStuffWorks Brasilcom esses clientes – descontos e devoluções. http://empresasefinancas.hsw.uol.com.br/auto-Para garantir o lucro, os vendedores de livros publicacao4.htmsempre compram livros bem abaixo do preçode capa, e a maioria se reserva o direito de
    • 13 Cesídio Ambrogi Trovas e Sonetos Produziu inúmeras Trovas, como estas que Um velho casarão acaçapado.são conhecidas no meio trovadoresco em todo Nossa casa tranqüila e hospitaleira.Brasil: O Cruzeiro lá em cima, em plena serra, “Sempre em lágrimas, tristonhos, Braços abertos para a minha Terra… são os olhos das rendeiras, E, eu criança e feliz. Que doce idade ! que a tecer rendas de sonhos envelheceram solteiras! Hoje, porém meu Deus, quanta emoção! Do meu peito no triste mangueirão, Morro de inveja do mar, Cavo e soturno, o aboio da saudade…”. felizardo, vagabundo, que não se cansa em beijar LENDA: CRUZ DE FERRO as praias de todo o mundo! No mais alto da serra, junto à estrada, Em Taubaté não me arrisco no ermo sertão, na paz silenciosa, a afirmar, mas acredito, por crentes mãos, um dia ali plantada, que em terra de São Francisco, a Cruz de Ferro se ergue majestosa. quem manda é São Benedito! E cansado de longa caminhada, Do bairro a mulher mais bela ante a cruz solitária e misteriosa, mora na esquina, a Gioconda. o viandante, ao passar, susta a jornada, – Rondam tanto a casa dela orando aos céus, em prece fervorosa. que a esquina ficou redonda…”. E a grande Cruz de Ferro, “…Penso em ti. Mas a esperança, negra e muda, insensível aos tempos, de ver-te minha, se trunca: a ação ruda, serena, - Meu sonho sempre te alcança, sempre a mesma olhando o mar… mas eu não te alcanço nunca…” E – milagre! – em abril, contam viajores, O seu romântico Soneto, em homenagem à se lhe enroscam nos braços rubras flores,sua terra natal Natividade da Serra, é de uma como se fossem rosas a sangrar…“Poesia lírica” talvez um dos únicos da nossalíngua, sem Verbo: MINHA TERRA CESÍDIO AMBROGI (1893 – 1974) Cesídio Ambrogi (Natividade da Serra, Meu vilarejo um cromo estilizado. 22 de maio de 1893 — Taubaté, 27 de julho de O Largo da Matriz. Uma palmeira. 1974). Considerado um dos maiores nomes da A cadeia sem preso nem soldado. intelectualidade valeparaibana do século XX. Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira. Foi professor, escritor e jornalista. Poeta eclético, sonetista emérito, além de Andorinhas em bando no ar lavado. notável trovador. Fundador de diversos O rio. O campo. Além de uma porteira, periódicos, foi também um dos fundadores da
    • 14“Sociedade Taubateana de Ensino” e Depois de ter ficado viúvo, Cesídioconsiderado presidente perpétuo da União Ambrogi em 21 de fevereiro de 1938 casou-seBrasileira de Trovadores (UBT-Taubaté). com sua segunda esposa, a talentosa professora, Como trovador fez jus a vários troféus advogada e trovadora Lygia Teresinhae menções honrosas. Colaborou assiduamente Fumagalli, com quem teve os seguintes filhosnos diversos órgãos da imprensa do Vale do nascidos em Taubaté: Elisa Mariana AmbrogiParaíba e de São Paulo. nascida no dia 21 de maio de 1939, Cesídio Ambrogi Filho, nascido no dia 25 de julho deBiografia 1941, Walfrido Ambrogi nascido aos 04 de setembro de 1943, Anabela Ambrogi nascida Filho dos comerciantes Bernardo aos 20 de julho e 1945 e Lygia Mara AmbrogiAmbrogi e de Marianna Nardi, imigrantes nascida aos 19 de fevereiro de 1947.italianos vindo para o Brasil, estabelecidos em Por várias décadas, como mestre eNatividade da Serra no final do século XIX. poeta, o grande Cesídio Ambrogi honrou o seuNasceu e passou sua infância em Natividade da mister, dedicando-se ao magistério com amor eSerra onde amava pássaros. Em 1905 sua dignidade, tendo lecionado lingua portuguesa efamília se transferiu pra Taubaté onde fez seus literatura brasileira, exercendo notávelpreparatórios e ingressou no tradicional ginásio influência na formação de professores, muitos“Nogueira da Gama” de Jacareí, no qual dos quais, pontificam hoje na Universidade deconcluiu o curso secundário. Tentou estudar Taubaté.engenharia na Escola Politécnica de São Paulo, Cesídio Ambrogi faleceu no dia 27 demas sem êxito. Foi pra Itália, onde se julho de 1974, às 19h e 15min no Hospitalmatriculou na Universidade de Pisa, como Santa Isabel de Taubaté, vítima de insuficiênciaaluno do curso de Engenharia e Letras respiratória aguda e de carcinomaClássicas que se graduou. Com a eclosão da broncogênico. Está sepultado no CemitérioPrimeira Guerra Mundial interrompeu os Municipal de Taubaté, Quadra 19, túmuloestudos e regressou ao Brasil em companhia do 102.primo Dante Cicchi. Algum tempo depois tentou colocação Cesídio Ambrogi e Monteiro Lobatono alto comércio do Rio de Janeiro onde o paidesfrutava de boas relações comerciais. Sua mãe Cesídio Ambrogi foi amigo íntimo donão vendo vocação do filho para trabalhar com escritor Monteiro Lobato de quem recebeu ocomércio, trouxe-o de volta para Taubaté e apelido de “jacaré”. E entre as inúmerasatravés da influência dos amigos da família correspondêcias trocadas, a famosa frase escritaPuccini, foi nomeado para o cargo de coletor por Monteiro Lobato ao amigo Cesídiofederal, que lhe fora oferecido. Ambrogi: ” As coisas mais belas que um leitor Mais tarde aceitou o convite para encontra num livro não são o que pomos neleexercer as funções de fiscal federal, junto à – são as que estão dentro do leitor e nós apenasantiga escola de comércio de Taubaté. Em sugerimos”.meados da Década de 20, Cesídio Ambrogi já Durante o período que Monteirodispunha de uma apreciável bagagem literária Lobato esteve no comando literário das(Prosa e Verso) o que lhe valeu o convite para editoras Monteiro Lobato & Cia e Companhiafigurar no primeiro corpo docente do recém Editora Nacional, ele apresentou e publicoucriado ginásio do estado, em Taubaté. algumas obras do amigo Cesídio Ambrogi. Casou-se duas vezes com mulheres dedescendência italiana. Seu primeiro casamentoem 22 de maio de 1920 com PetronilhaChiaradia, falecida em 26 de julho de 1933, Obras Literáriasteve um casal de filhos nascidos em Taubaté:Bernardo Ambrogi Neto nascido no dia 21 de O Caboclo do Vale do Paraitinga, São Paulo,abril de 1927 e Teresa Maria Ambrogi 1943.conhecida como Tita nascida no dia 28 de O opúsculo satírico “Janíadas”, publicado comjulho de 1928. o pseudônimo de K. Mões de Araque, 1945.
    • 15 =========Livros de Poesia Fontes: http://www.litoralvirtual.com.br/litoral/lenda_cruzdeferro.htmAs Moreninhas 1943. http://pt.wikipedia.orgOs Poemas vermelhos 1947. http://www.jornaldacidadedepinda.com.br Felipe Conrado As Cartas de Lobato para Cesídio Ambrogi Monteiro Lobato Cesídio Ambrogi Escritos íntimos de Monteiro Lobato a pintora Georgina Albuquerque, que teve grandeque estudiosos sabiam existir, mas que sucesso“, afirmou.permaneciam guardados a sete chaves vão vir à A partir das cartas, os autorestona em breve. O pesquisador Pedro Henrique iniciaram uma pesquisa aprofundada sobre asRubim e os jornalistas Vladimir Sacchetta e origens e infância de Lobato, mostrando desdeMárcia Camargos vão utilizar 57 cartas de a vida de seu avô, o Visconde de Tremembé atéLobato enviadas ao escritor Cesídio Ambrogi a amizade com os três jacarés (Gentil deentre 1919 e 1945 para revelar fatos Camargo, Urbano Pereira e Cesídio Ambrogi),desconhecidos e a relação de Lobato com passando pelo início de sua carreira e até osTaubaté. métodos de conquista utilizados por ele na Após conseguirem convencer a viúva juventude.de Ambrogi, Lygia, que tinha as cartas e ORIGENS – Para Vladimir Saccheta,recusou inúmeros pedidos de estudiosos que foi um dos autores do livro ‘Monteiroanteriormente para cedê-las, o grupo partiu Lobato -Furacão da Botocúndia’, as cartaspara a confecção de um livro, que está sendo possibilitam uma melhor compreensão denegociado com editoras e está previsto para ser determinadas posições tomadas por Lobato.lançado no segundo semestre deste ano, em “Descobrimos que o interesse e preocupaçãoque são comemorados os 120 anos do com o petróleo teve origem nas pesquisas com xistonascimento do taubateano. betuminoso feitas em Taubaté. As cartas também O projeto ’120 Anos de Monteiro mostram bastidores da política taubateana. É umaLobato’, que também conta com uma material que vai surpreender“, afirmou.exposição, tem cartas escritas entre 1919 a Segundo ele, os 57 textos devem1924, e de 1942 a 1945, tidas como os únicos representar cerca de 20% das cartas entre ostextos inéditos do escritor por sua filha escritores, mas provavelmente não é o únicoMartha. material inédito sobre Lobato. “Ele é uma fonte Nelas, o escritor fala sobre tudo e, sem inesgotável, sempre há algo novo sobre Lobato.papas na língua, destila sua irreverência (leia Como a memória cultural do país, o material sobretrechos nesta página). “As cartas esclarecem ele está disperso“, completou.pontos de vista de Lobato sobre a cidade. Achavamque ele odiava Taubaté em certo momento“, disse MUDANÇA DE IDÉIA – A viúva deRubim. Cesídio Ambrogi, Lygia Fumagalli Ambrogi, de Segundo ele, as cartas trazem 87 anos, disse que mudou de idéia em relaçãoinformações curiosas sobre o início da carreira. à publicação das cartas há pouco tempo,“A primeira crítica de arte de Lobato foi sobre a incentivada pelos pesquisadores.namorada Georgina Andrade, que depois se tornou “Meu marido não admitia a possibilidade de publicar as cartas. Elas são íntimas, revelam
    • 16detalhes da vida de Lobato e ele respeitava a Dona vendem ou vendem mal, concentraram no rabo delePurezinha (mulher de Lobato). Mas essas cartas os raios da inveja- e em plena exposição produziram-estavam se perdendo e podem completar o Lobato. lhe uma hemorróide terrível. O coitado teve deNão custa mostrá-las agora“, afirmou. deixar o salão e ir a um sanatório operar-se. (…) Segundo ela, as cartas ficaram Meu rabo ainda está virgem de hemorróides; mas seintocadas durante décadas e muitas se você e outros insistem tal Prêmio Nobel, não douperderam quando sua casa teve problemas nada para essa virgindade.”estruturais, nos anos 90, quando o material foi Buenos Aires, 15 de fevereiro de 1947perdido. Lygia disse que Lobato e Cesídio “Hoje dizem que criança é tudo, falam em s.m. dacostumavam passar tardes inteiras em sua casa criança- mas falam só. A não ser na Rússia e nosfalando sobre política e literatura. “Lobato era EUA, a criança não passa dum tema para belasum homem de muita fé no Brasil, irreverente e dissertações em salas de conferências elegantes. Efranco“, afirmou. entre nós ninguém quer saber das crianças, ou então Além das cartas entre os dois, Lygia tornam-na como ‘material político’… A nossa ordemtambém guarda correspondências do marido social é uma coisa tão suja e sórdida que meucom personalidades como Adhemar de Barros, consolo hoje é um só: saber que vou morre e afastar-Luís Carlos Prestes, Paulo Setúbal, Plínio me ab aeternitate da sujeira. Quando meus filhosSalgado e Cassiano Ricardo. Mas isso é assunto morreram senti uma grande satisfação íntima quepara outro livro. nem aqui em casa compreenderam. É que os vi livres Trechos das cartas de Lobato para da Sordície Reinante. E invejo-os, e anseio para queAmbrogi também me chegue a hora de escapar deste imenso campo de concentração de Estupidez Dominante“E a verdade é que a Argentina prospera aqui e em toda parte.”progressivamente, vai subindo como um balão, e onosso pobre Brasil desce, rola por uma ladeira, São Paulo, 20 de dezembro de 1943empurrado pelas duas maiores forças da estupidezhumana: o militarismo e o clericalismo. E como “Mas o grande prazer da literatura está justamenteessas duas forças, na sua atuação, no Brasil, são no contrário: ser lido pelo maior número de pessoas eincoercíveis e incontratáveis, o nosso destino está ser entendido por crianças, velhos, sábios, e imbecis.escrito na parede de Baltazar: Bancarrota, desastre, E para isso meu caro, o remédio é escrevermiséria cada vez maior, penúria do povo, hospital, vitaminadamente, com tintas vivas, vivíssimas- ehospício.” não empastar. Não sobrecarregar. Nunca dizer demais. Nunca, nunca dizer tudo. Já fiz está grande Buenos Aires, 15 de fevereiro de 1947 descoberta. As coisas mais belas que um leitor encontra num livro não são os pomos nele- são a que“Essa história do Prêmio Nobel só serve para uma está dentro do leitor e nós apenas sugerimos.coisa: botar contra mim todos os literatos do Brasil. São Paulo, 1943A inveja é um fato, meu caro. O ano passado tiveprova disso no Jurandir Campos (pintor, casado com Fontes: http://jornal.valeparaibano.com.br/a filha do escritor, Martha Lobato). Como é um http://www.jornaldacidadedepinda.com.brpintor que vende todos os quadros que pinta, naexposição do ano passado os pintores que não
    • 17 Amosse Mucavele Poegrafia ao Lêdo Ivo Um homem vindo de um lugar pobre suas mãos REI da EUROPA reconheceu ae distante das metrópoles, sonhou em um dia grandeza da sua obra.alavancar o nome da sua terra natal (Maceió – Neste momento eu estou aqui naAlagoas). ESTAÇÃO CENTRAL a espera do trem que Como os sonhos não envelhecem traz O UNIVERSO POÉTICO deste homem.(R.Riso) continuou firme a trilhar o caminho *Ledo Ivo é natural de Maceió-Alagoasdos seus sonhos, mas nunca compartilhou com expoente da Geração 45, publicou numerososalguém, guardava-os na gaveta da sua cachola. livros de poesia- As Imaginações(1944), A Procurou tantos ofícios e aperfeiçoou- linguagem(1951), Acontecimento do soneto ese no oficio de ourives da palavra, lapidou os ode a noite(1951), um Brasileiro em Paris e oseus sonhos e lançou-os em forma de Rei da Europa(1955), Estação central(1964).IMAGINAÇÕES, e dai percebeu que ter uma Também é novelista, contista, cronista e criticoourivesaria precisa de mão-de-obra e material e literário autor do ensaio- O universo poéticoa título individual não iria conseguir levar de Raul Pompeia (1963)avante o projeto, o coletivismo veio à tona(nasceu a Geração 45). Os sonhos deste homem continuaram AMOSSE EUGENIO MUCAVELfortes como a rocha, altos como o Everest nasceu em Maputo aos 8 de julho de 1987,e fez Colocou um desafio a si mesmo – de o curso agropecuário Instituto Agrário Boane.deliciar o mundo e mostrar o quão grande e a É membro do Movimento LiterárioLINGUAGEM da palavra que ele fabrica. Kuphaluxa, onde coordena o projeto literatura Este homem nunca teve inspiração na escola.pois a poesia e o sol que brilha no seu dia – a – O blog é http://kuphaluxa.blogspot.com/.dia e os SONETOS acontecem A NOITE. O Brasil tornou-se pequeno, atravessou Fonte: Texto enviado pelo autoros céus e foi a PARIS graças as MAGIAS das Alfredo Ciuffi Neto Noite de Lua Cheia Na fazenda reinava um clima de muita águas mansas. Deslizavam suavemente numalegria naquele dia ensolarado de tarde de clima de muita paz.verão. O sol mansamente se punha atrás da As crianças brincavam no quintalmontanha que ficava a pouca distância do correndo soltas numa algazarra simplesmenteseleiro e do curral, onde ficavam os cavalos e as infernal. Liberavam toda a sua energiavacas. O galinheiro situava-se no lado oposto, demonstrando muita saúde e vontade de viver.muito bem cercado e mantinha as galinhas Sempre que a tarde ia chegando, José e Maria,poedeiras confinadas até que pusessem seus proprietários daquelas paragens, tomavam seusovos. Outros animais como patos e gansos lugares na linda varanda cheia de vasos comficavam soltos e livres nadando no lago de samambaias pendentes do forro, através de
    • 18pequenas correntes que as mantinham estava deitado. Preocupada Maria foi até seususpensas, dando um toque todo especial na quarto procurando averiguar se estava bem.decoração. Ali ficavam por horas em suas Marcos achava-se encolhido sob seu lençol comcadeiras de balanço apreciando as brincadeiras os olhos arregalados e ainda um tantodas crianças. Enquanto Maria tricotava ou amedrontado. Sua avó o aconchegou em seusbordava, seu José pitava em longas baforadas o braços acariciando sua cabecinha de meninoseu cigarro de palha. assustado até que, se recuperando, levantou e À medida que a tarde ia avançando o foi ter com os demais à mesa do café.céu tornava-se cada vez mais escuro; pontos Durante o dia o clima na fazenda erabrilhantes cintilavam no infinito distante; e normal, os animais estavam sossegados e aspor detrás da montanha surgia devagarinho a crianças brincavam como sempre, exceção delua com sua luminosidade clara, prateava e Marcos que continuava apreensivo e divagandoenvolvia tudo ao redor. Era noite de lua cheia. num canto. Até certo ponto aquilo era normal Todos se recolheram para o descanso. numa criança atemorizada, e por ser o maisA noite já ia alta e lá fora o luar continuava velho, tinha mais consciência das coisas que semaravilhoso e inigualável, banhando toda a passaram na noite anterior, só quem conhece ovegetação, que assumia uma paisagem perigo tem medo, mas mesmo assim, nãosimplesmente esplendorosa pelo reflexo dos deixava de ser criança, pensava o seu avô,raios nas águas límpidas do lago. inspirando-lhe maior cuidado.Meia noite. O silêncio foi quebrado pela Quando a noite foi se aproximando,uivada ensurdecedora e enervantes dos cães, todos se recolheram mais cedo, trancaram bemcujas vozes lamentosas imitavam os lobos, as portas procurando maior segurança, casoinsistiam no seu grito prolongado e agoniante. aqueles barulhos estranhos voltassem aLadravam, ganiam de maneira desesperada. Os acontecer.outros animais se punham inquietos A noite avançou depressa, a lua,demonstrando um total desassossego; as vacas redonda e brilhante, com seus raios luminososmugiam; os cavalos relinchavam não tardou a aparecer nas montanhas,amedrontados. Um barulho estranho embelezando e clareando a tudo que envolvia.provocava aquela reação nos animais. O lago assumia um aspecto prateado e deixava Seu José levantou-se assustado com a refletir parte das árvores e outras vegetaçõesespingarda na mão, procurava saber o que circundantes, como se fosse um grande espelhoestava acontecendo lá fora; e enquanto isso, de cristal polido.Maria tratava de acalmar as crianças que Meia noite, o silêncio foi quebrado deestavam visivelmente apavoradas. Nada foi maneira repentina, outra vez os animais sevisto. No restante da noite seguiu-se tranqüila agitaram. Ouvia-se um grunhido ensurdecedorembora ninguém mais pudesse conciliar o que agitava os cães. Parecia que o barulhosono. vinha de dentro da própria casa. Seu José Pensativo, seu José questionava-se levantou-se com a espingarda na mão, indosobre o que poderia ter acontecido; morava na diretamente para o quarto das crianças,fazenda há trinta anos e nunca tinha visto ou pareceu-lhe que havia qualquer coisa lá, pois asescutado nada igual. Isso não poderia estar crianças gritavam desesperadamente poracontecendo, não agora que seus netos socorro.passavam as férias com ele. Tudo havia de estar Assim que abriu a porta do quartobem, as crianças não podiam ficar assustadas, notou que a janela estava aberta, e por ela umapois atrapalharia as suas férias, o que criatura de estatura mediana fugia. Era umpensariam seus pais quando viessem buscá-los, monstro meio homem meio animal, possuíapensava preocupado. uma cabeça grande e peluda, mãos compridas Logo cedo levantaram e reunidos à tinham unhas pontiagudas como a de ummesa do café matinal, comentavam sobre o felino. Era algo jamais visto. Inacreditável.ocorrido ainda com resquícios de medo e Seu José foi até a janela e viu a criaturasinalizando a noite mal dormida em suas faces. correndo em direção ao lago. Ainda da janelaFoi quando notaram que o menino mais velho do quarto apontou sua arma e disparou umque contava com apenas onze anos ainda tiro certeiro. O corpo rolou pelo gramado e
    • 19permaneceu inerte, deixando escorrer o sangue A lua no alto do céu azul, começavaque se esvaia fervilhando pelo buraco agora a ficar encoberta por nuvens negras queperfurado pela bala. ofuscavam a claridade e o brilho que lhe Todos apressadamente foram até o conferia tanta beleza. Dali a algumas horas umlago. Quando lá chegaram viram o que jamais novo dia iria começar.queriam ter visto. Estirado ao chão estava semvida o seu neto, o menino Marcos, que ainda Fonte: CIUFFI NETO, Alfredo. Contando contos.tremia o corpo agonizante. http://tutomania.com.br/file.php?cod=8165 Dinair Leite (Homenagem aos Irmãos Trovadores) Trovador e passarinho, da flor carinho ele goza dois arautos da poesia: perfumando seus caminhos. Se perdem amor ou ninho Trovador por ironia, gorjeiam dor…todavia. quando a trova terminou, Trovador quando ama a rosa da pena viu que escorria respeitando seus espinhos, pranto que a trova borrou. Dinair Leite (Paranavaí/PR) Carolina Ramos O Tombo Se melancia tivesse pernas, certamente Naquela tarde histórica, vinha ele daseriam as de João Sereno – curtas, gordinhas, fábrica. Passo lento, cansado, pura imagem daatarrancadas – um parênteses, aberto na exaustão.esquerda e fechado na direita. Pernas bastante Desde que apontara no alto da rua,fortes para sustentar um corpo rotundo. cumprimentava, um a um, os amigos da Quando apontava na esquina, todo o vizinhança com a cordialidade costumeira e omundo sabia: – Lá bem João Sereno. sorriso que, mesmo debaixo de chuva,Inconfundível! prenunciava sol. E o dia em que João Sereno caiu, foi João Sereno não esperava pelamemorável! Um tombinho à-toa como outro escorregadela. E quem a espera? Não fossequalquer. Desses de cair e levantar num assim, os tombos, as topadas, as imprecações esegundo. Mas, não foi isso o que aconteceu. A os dedões esfolados deixariam de existir.queda de João Sereno foi algo de sensacional, Aquela casca de manga, esquecidapara não ser esquecido por ninguém, que viu traiçoeiramente no meio da calçada, foi oou ouviu contar! bastante para que a melancia humana voasse,
    • 20pernas acima da cabeça, estatelando-se, em Academia Feminina de Letrasseguida, espetacularmente no solo. Tudo Centro de Expansão Cultural.terminaria nessa desastrosa aterrisagem, se o Foi agraciada com diversas medalhasdeclive acentuado, não desse continuidade à de mérito cultural, entre as quais a detragédia. A própria rotundidade do acidentado "Magnífica Trovadora", em 1973, em Novafavoreceu-a. João Sereno rolou, como rolaria a Friburgo-RJ, e em Santos, com a Medalha domelancia, que largada ao topo da ladeira! Por Sesquicentenário e a Medalha dos Andradas.mais que as pernas curtas e os braços maiscurtos ainda, tentassem simular tentáculos para Também recebeu diversos títulos, homenagensagarrar-se a alguma coisa, só conseguiram e prêmios em Portugal e Angola.impulsionar, com maior ímpeto, o bólidohumano. Mais abaixo, foi chocar-se contra a Um dos mais importantes foi o Prêmio Ruilata de lixo reciclável, à espera da coleta, e que Ribeiro Couto, da União Brasileira derolou com ele, a esparramar, na trajetória, tudo Escritores de São Paulo.o quanto engolira. João Sereno deixou, temporariamente, Bibliografia:de ser sereno. Sacudindo as roupas ecompondo a dignidade, não pode deixar de "Sempre" (poesias, 1968);considerar, maldita, a casca da manga e a não "Cantigas feitas de sonhos" (trovas, 1969);menos abominável displicência do dono dela. "Espanha" (poema épico, 1970);Mestres no ensino de vôo e no resguardo dos "Rui Ribeiro Couto - Vida e Obra"segredos para uma boa aterrisagem. (bibliografia, 1989); Ganhou algumas escoriações "Trovas que cantam por mim" (trovas, 1989);inevitáveis. Não graves. E ganhou, também, "Espanha" e outros poemas (1992);nova alcunha. "Interlúdio" (contos, 1993); Os velhos amigos continuaram a "Paulo Setúbal - Uma vida/Uma obra" (1994,chamá-lo, com simpatia, de João Sereno. Os em co-autoria com Cláudio de Cápua),mais novos, maliciosos e irreverentes, não Evocação (História da Associação das Ex-deixaram por menos: – mal vislumbrada, ao Alunas do Colégio São José) em co-autoria comlonge, a figura redonda, já risos abafados e Maria Edith Prata Real;cochichos maldosos, alertavam: Feliz Natal (Contos natalinos); – Sai da frente… lá vem o João Principe da Trova (biografia);Boliche! Saga de uma vida (biografia) e Pilhéria ou precaução? – A questão é Um amigo Especial (Conto-ficção), 2003.que o caminho ficava, num instante,completamente livre!. Obras inéditas: "Rosas de sangue" (sonetos); "Trovas de amor e ternura";CAROLINA RAMOS nasceu em Santos, em "Canta Sabiá" (poesias sobre o Brasil, lendas e1929. Estudou no Colégio São José, onde, temas do folclore);além do curso primário e ginasial, fez, também, "Júlia Lopes de Almeida" (biografia);Secretariado e a Escola Normal. Completou "Contos";seus estudos formando-se em música e "Contos Infantis" eenfermagem. "Trovas". Trovadora, contista, poeta, santista --------------------------ilustre, foi Presidente do Instituto Histórico e No próximo número entrevista descontraídaGeográfico de Santos por oito anos (2001 a realizada pelo Singrando Horizontes com Carolina.2007) e é a atual Presidente da União Fontes:Brasileria de Trovadores – Seção de Santos. http://www.novomilenio.inf.br/cultura/cult016.htm Carolina pertence a diversas entidades Instituto Histórico e Geográfico de Santos. http://www.ihgs.com.br/culturais, como RAMOS, Carolina. Interlúdio: contos. São Paulo: Editor:Academia Santista de Letras, Cláudio de Cápua. Abril/93.
    • 21 Milton Hatoum Leitores Incomuns O observador sabe que lá no alto, sentado pontos de interrogação. Há os que elaboramnum galho, alguém olha para um livro fichas com resumos ou esquemas do enredo, Há tanta diferença entre a “atitude” de árvores genealógicas, comentários sobre oquem lê e a de quem escreve? Um dos tempo da narrativa, posição do narrador,problemas cruciais do leitor e do escritor é a personagens, idéias, metáforas, ambientefalta de tempo, decorrente da pressão do dia-a- político, social etc. Esse leitor incansável seria odia. leitor ideal, mencionado por Umberto Eco no Os escritores que vivem de sua pena não ensaio Seis passeios pelo bosque da ficção.podem escolher uma hora do dia ou da noite No Tempo redescoberto – último volumepara trabalhar. Mesmo os que tiveram ou têm a do Em busca do tempo perdido –, o narradorsorte de não depender do trabalho da escrita, de Proust faz uma reflexão sobre esse tema.revelam-se compulsivos, ávidos para narrar. O Um livro, diz o narrador proustiano, pode serque deve ser escrito é inadiável. Deixar para sábio demais, obscuro demais para um leitorescrever mais tarde, amanhã ou outro dia ingênuo. A imagem que Proust evoca é a dequalquer só atrapalha o andamento da uma lente embaçada entre o olhar e asnarrativa. Adiar um trabalho pode ser um palavras: um anteparo à leitura. Mas o inversoalívio para um burocrata, não para um escritor. também acontece quando o leitor astuciosoAinda assim, há momentos de pausa e reflexão, revela capacidade e talento para ler bem. Dede pesquisa e anotações, e, às vezes, de acordo com o autor francês, “cada leitor é,interrupções forçadas, um verdadeiro castigo quando está lendo, o leitor de si próprio”. Oupara quem escreve. E há também pausas para seja, uma obra literária permite ao leitorleitura: a urgência de escrever não é menor discernir tudo aquilo que, sem a leitura dessanem menos intensa do que a urgência de ler. obra, ele não teria visto ou percebido em sua “Escrevo porque leio”, afirmam alguns própria vida.escritores. Mas um leitor poderia dizer: não No quarto capítulo de seu belo ensaio Oescrevo nada, mas é como se a leitura fosse um último leitor, o argentino Ricardo Pigliamodo de escrever, de imaginar situações, lembra a figura de um leitor incomum: odiálogos e cenas que a memória registra no ato revolucionário e guerrilheiro Ernesto Guevara.da leitura. O comandante Che sonhava ser escritor, mas o O pior leitor é o passivo, resignado, que compromisso político-social o conduziu aaceita tudo e lê o livro como uma receita ou outras veredas. No entanto, ele escreveu diáriosbula para o bem viver. Este é o não-leitor. de viagem, textos sobre técnicas e estratégias dePorque o texto de auto-ajuda é um compêndio guerrilha, relatos inspirados diretamente emde trivialidades, palavras que não questionam, sua experiência revolucionária em Cuba, nanão intrigam nem fazem refletir sobre o África e na América do Sul. O que não faltamundo e sobre nós mesmos. em suas incansáveis viagens – inclusive aII última, pouco antes de morrer – é o livro, a Um bom leitor reescreve o livro com a leitura.imaginação de um escritor. Alguns vão mais IIIlonge. Com os olhos no texto e um lápis na “A marcha, escreve Piglia, supõe leveza,mão, eles fazem anotações nas margens das agilidade, rapidez. É preciso desprender-se porpáginas, sublinham frases, cravam aqui e ali completo, estar leve e andar. Mas Guevara
    • 22mantém um certo peso. Na Bolívia, já semforças, carregava livros. Ao ser detido emÑancahuazu, quando é capturado depois daodisséia que conhecemos, uma odisséia quesupõe a necessidade de movimento incessantee de fuga ao cerco, a única coisa que ele MILTON HATOUM é um escritor,conserva (porque perdeu tudo, não tem nem tradutor e professor brasileiro. Hatoum ésapatos) é uma pasta de couro, que leva considerado um dos grandes escritores vivos doamarrada ao cinturão, sobre a ilharga direita, Brasil.onde guarda seu diário de campanha e seus Descendente de libaneses, ensinoulivros. Todos se desfazem daquilo que dificulta literatura na Universidade Federal doa marcha e a fuga, mas Guevara continua Amazonas (UFAM) e na Universidade damantendo seus livros, que pesam e são o Califórnia em Berkeley.oposto da leveza exigida pela marcha.” (pág. Escreveu quatro romances: Relato de103) um Certo Oriente, Dois Irmãos, Cinzas do A capa do livro (da autoria de Angelo Norte (esse último vencedor do PrêmioVenosa) foi inspirada numa fotografia de Portugal Telecom de Literatura e todos os trêsErnesto Guevara lendo no alto de uma árvore. primeiros ganhadores do Prêmio Jabuti deÉ uma imagem notável do guerrilheiro – melhor romance) e Órfãos do Eldorado. Seushomem de ação – que faz uma pausa para ler. livros já venderam mais de 200 mil exemplaresArmas e letras, dois temas medievais no Brasil e foram traduzidos em oito países,explorados no Dom Quixote, parecem reviver como a Itália, os Estados Unidos, a França e anessa imagem em que o leitor, significativa e Espanha.simbolicamente, situa-se no alto. Longe de ser Hatoum costuma em suas obras falaruma posição de quem se sente elevado, a de lares desestruturados com uma levealtura, aqui, é uma posição precária, que tendência política. Em suas duas últimas obras,denota perigo e instabilidade. O inimigo pode Dois Irmãos e Cinzas do Norte, Miltonestar por perto, pode surgir a qualquer hora e Hatoum fez uma sutil crítica ao regime militarmatar o guerrilheiro-leitor. Na fotografia é brasileiro.impossível reconhecer com nitidez a figura de ==============Guevara, mas o observador sabe que lá no alto, Hatoum nasceu no dia 19 de agosto desentado num galho, alguém olha para um livro. 1952 em Manaus, Amazonas. Seu pai era umO fundo da fotografia é alaranjado, de uma imigrante do Líbano que conheceu umatonalidade que evoca o fogo crepuscular: brasileira também de origem libanesa. Durantecomeço ou fim do dia. Ou luz que se esvai, sua infância, Milton conviveu com a cultura, aanunciando a noite, o enigma do que vem por religião e a língua dos árabes do Oriente Médioaí. Não sabemos se este livro é o último que e dos judeus da África. Aos 15 anos mudou-seGuevara leu. O último leitor é a metáfora de para Brasília e concluiu os estudos secundáriosuma atitude diante da leitura: alguém que não na capital.pode viver sem livros. Depois dos estudos secundários naIV capital brasileira, Hatoum mudou-se para São Narrar para não morrer é a mensagem de Paulo. Três anos depois, ingressou naSherazade ao rei Shariar (e ao leitor) em cada Universidade de São Paulo, cursandoconto do Livro das mil e uma noites. Ernesto arquitetura e urbanismo. Em 1980 viajou paraGuevara lê para viver. Ou suportar a vida: fado a Espanha como bolsista do institutode um homem que vivia perigosamente à beira Iberoamericano de Cooperación. Nestada morte. Mas ler é também o destino de década, viveu entre Madri e Barcelona. Logotantos outros seres que não se lançam à depois, mudou-se para a França, onde cursouaventura utópica de transformar o mundo por pós-graduação na Universidade de Paris III.meio da ação revolucionária. Esse leitor Depois de concluído seus cursosapaixonado forma o duplo do escritor. E superiores, Milton retornou para Manaus,ambos justificam a literatura. onde passou a lecionar língua e literatura francesa na Universidade Federal do
    • 23Amazonas. Relato de um Certo Oriente foi O colunista Roberto Amorimpublicado quando ele tinha 37 anos. considera a escrita de Milton possuidora de Titulou-se doutor em teoria literária na "uma linguagem caudalosa e envolvente que fazUSP em 1998, quando sentiu-se insatisfeito o leitor sentir a força da boa literatura."com a política de Manaus e passou a morar, A partir do romance Relato de umdefinitivamente, em São Paulo. Onze anos certo Oriente, Milton Hatoum vem gozando deapós a publicação do primeiro romance, um reconhecimento muito grande por parteMilton publica Dois Irmãos. Entre a dos críticos e também dos leitores do seu país epublicação do primeiro livro e do segundo, do exterior. O primeiro livro, assim como seupublicou diversos contos em jornais e revistas recente Orfãos do Eldorado, são consideradosbrasileiras e do exterior. por diversos críticos como uma "obra-prima". Hatoum é conhecido por misturar Milton já foi chamado de "O escritor queexperiência e lembranças pessoais com o coleciona prêmios", mas disse certa vez: "nãocontexto sócio-cultural da Amazônia e do escrevo para ganhá-los".Oriente. Sobre o primeiro livro, assim eleexplica: "No Relato de um certo Oriente há um Obrastom de confissão, é um texto de memória sem Relato de um Certo Oriente (romance). Sãoser memorialístico, sem ser auto-biográfico; há, Paulo: Cia. das Letras, 1990.como é natural, elementos de minha vida e da Dois Irmãos (romance). São Paulo: Cia. dasvida familiar. Porque minha intenção, do Letras, 2000.ponto de vista da escritura, é ligar a história Cinzas do Norte, 2005pessoal à história familiar: este é o meu Orfãos do Eldorado. São Paulo: Cia. dasprojeto. Num certo momento de nossa vida, Letras, 2008nossa história é também a história de nossafamília e a de nosso país (com todas as Fontes: Revista Entrelivros. edição 28. agosto 2007.limitações e delimitações que essa história http://www2.uol.com.br/entrelivros/suscite)."[4] http://oglobo.oglobo.com http://pt.wikipedia.org Derotheu Gonçalves da Silva Padre Zico Era dia de festa em Bororó. Festa grande. cívicos, apenas os famosos “pontos deDepois de quatro longos anos, chegava o novo umbanda”. E regidos por uma senhora de pelepadre. Pouco se sabia a seu respeito. O bispo escura e idade muito avançada. Lá atrás, muitofora breve na notícia. Era o seu jeito de lidar atrás, o tímido padre Bento, com seus oitenta ecom Bororó. Breve nas notícias e demorado tantos anos, ao lado do prefeito.. Batina batidanas decisões. Aquela sempre fora uma pelo uso diário e noturno, sorriso infantil –paróquia problemática. Sua primeira e última talvez até meio divertido. Podia jurar que atévisita ao local foi marcante. Ocorrera havia ele estava cantarolando “…chegou o Pai Ubá,mais de dez anos mas continuava inesquecível. Nosso Pai Ubá chegou…”. Pai Ubá ! Tanto naPor mais que tentasse se livrar das impressões Itália, como burocrata no Vaticano, quantodaquele dia, não conseguia. Todo o povo de nesta terra abençoada, primeiro comobranco na estação ferroviária. No lugar das sacerdote de uma capital e agora como bispohabituais bandinhas municipais, o inédito som daquele fim de mundo, já recebera váriosdos atabaques. Em vez de hinos religiosos ou títulos, honoríficos ou não. Mas “Pai Ubá”
    • 24nunca havia imaginado. Com aquela inédita que fora nomeado não para uma paróquia,recepção, procurou rapidamente apressar a mas para um grande centro de umbanda.volta para o refúgio de seu confortável palácio III.episcopal. Mas os horários do trem, apenas a A manhã fora longa. Primeiro o discurso decada dois dias, estavam acima de seu poder Mãe Lena. É bem verdade que ele nãotemporal. E foram dois longos, longos dias… acompanhou o significado de palavras comoTalvez por isso, com a morte, havia mais de “zurungudun e zurungunde”, mas pareceram-lhetrês anos, de padre Bento, apenas agora palavras elogiosas à sua pessoa. Também nãodecidira pela nomeação de padre Zico para entendeu muito bem tanta referência aoaquele recanto, onde o tratamento de Sua grande “Pai Ubá”. Com certeza, reminiscênciasExcelência fora reduzido a um simples “PAI de alguma distante língua tribal. Uma coisa,UBÁ”. contudo, ficou clara: Mãe Lena era aII. autoridade maior na cidade. Depois dela falou Quando o trem chegou conduzindo padre o prefeito, que lhe pareceu estar levementeZico, a cidade parou de novo. A curiosidade embriagado. Ficar em pé sob o sol escaldanteera geral. Quem o grande Pai Ubá teria foi a prova mais difícil. Quando finalmenteenviado para substituir o querido padre Bento chegou sua vez, padre Zico falou pouco para? uma platéia que reagia conforme ditava o Os atabaques, como sempre, se puseram a corpo volumoso de Mãe Lena. Quando elatrabalhar. Mãe Lena logo fez os últimos reparos começou com alguns bocejos, sabiamentena comitiva de recepção. Essa parte também percebeu que era hora de interromper sua fala.era com ela. Na frente as crianças, depois os No início da tarde, finalmente conseguiu ficarjovens e por último a ala dos velhos. Todos de só para conhecer a nova morada. Igrejinhabranco e, bem ensaiados, mostrando seus antiga, construída em pedras, com umcânticos antigos, herdados dos antepassados pequeno quarto e cozinha num anexo.escravos. Quando entrou ali no final da manhã, Padre Zico era jovem. E inexperiente. conduzido por aquela improvisada procissãoRecém-saído do seminário, aquela seria sua ainda ao ritmo dos atabaques, não conseguiuprimeira paróquia. No vagão, ao lado de ver muita coisa. Agora fazia o reconhecimento.poucos passageiros, procurava relembrar todos Nos fundos minúsculo quintal com uma hortaos rituais de etiqueta e convívio social que bem cuidada. O quarto, com pequeno guarda-aprendera. Cumprimentar primeiro o prefeito, roupa, não era muito diferente de sua antigaos vereadores, depois as damas. Manter sempre cela no seminário. Foi quando desfazia a únicaum sorriso de poucos dentes e semblante mala que o viu pela primeira vez. Não precisousereno e de poder. Sabia pouco de seu novo muito para sentir que ele era o dono dorebanho. O bispo fora muito vago nas quarto. Com miados firmes, parecia acariciarinformações. Cidade pequena, antiga colônia as paredes, roçando aquele bolo de pêlos nelas.de escravos libertos. Enfim, almas boas. Dissera Imaginando tratar-se de um gato comum,ainda alguma coisa sobre um pequeno enxotou-o batendo com os pés no chão. Emsincretismo religioso que imperava no local. vão. Miando com certo desdém, de um saltoQuando quis saber mais a respeito, não obteve empoleirou-se na antiga escrivaninha. Era seuresposta. Ficou com a impressão de que Sua velho dilema, sentia que os animais gostavamExcelência demonstrara certa pressa, talvez até dele, embora o sentimento não fosse recíproco.mesmo um pequeno nervosismo. Atribuiu à Aliás, sempre se perguntava por que virarasua própria inexperiência de jovem, franciscano, já que nunca simpatizara muitodemonstrando insegurança ante a primeira com os amigos prediletos de São Francisco.paróquia. Enfim, achou normal. Enquanto Quando foi inspecionar melhor o interior darelembrava esse rápido encontro, pareceu-lhe igreja, fez de conta que não o viu seguir na suaouvir o som intermitente de atabaques. Talvez frente. O altar estava em perfeitas condições,algum músico da banda municipal, um pouco toda a indumentária sagrada nos devidosmais empolgado, afinando seu instrumento de lugares. Enquanto examinava uma estolapercussão. Olhou pela janela enquanto o tremlentamente parava e viu… foi quando percebeu
    • 25corroída pelo tempo, foi surpreendido por um Chamou sua atenção o fato de estar tudosonoro “- ‘tarde’, seu padre”. estranhamente muito limpo e arrumado.IV. Notou que até os canteiros da horta estavam Surpreso, viu aquela figura retornando bem cuidados, com várias hortaliças plantadas.de um sono profundo no último banco. Barba Exausto, tinha decidido que sua primeira missade cinco anos e chinelão nos pés, idade de ali seria no dia seguinte, por ser domingo. Umancião, que logo lhe trouxeram à mente a forte cheiro de comida, vindo da pequenafigura de Antônio Conselheiro, por sinal filho cozinha, lembrou-lhe que ainda não tinhadaquela região. O gato logo pulou no mesmo pensado a respeito de sua logística doméstica.banco, demonstrando tratar-se de amizade Qual foi sua surpresa quando deparou com oantiga. “morador” trajando enorme avental, com - O povo daqui estava rezando muito pela várias panelas já no fogão.sua chegada. - Vejo que o senhor também se apossou de - Sei, sei – mas é melhor que nos minha cozinha.apresentemos primeiro. Sou o padre Zico e - Sua não, padre. De Deus. E estouestes bancos parece-me que foram feitos para cozinhando para o Mialzão. Às vezes eleos fiéis rezarem. permite que eu também coma com ele. Talvez - Ah ! seu padre. Não leve a mal não, é que hoje ele abra esta exceção para nós dois…eu moro aqui. Fiquei cuidando da casa de vamos esperar para ver o seu humor.Deus depois da partida do padre Bento. Mas - Sei. A propósito, quem vem cuidando tãopode ficar tranqüilo que nunca dormi naquela bem das coisas por aqui ? Tudo tão limpo, tãocama lá dentro. Faz mal para a minha coluna. organizado. E também tenho curiosidade emColchão muito macio. Sabe como são estas saber sobre a despensa, de onde vêm oscoisas. Prefiro dormir por aqui mesmo. mantimentos. - Disse que mora aqui !? Na igreja ? - Quem cuida das coisas de Deus por aqui - É. O padre Bento deixava e Deus também sou eu, padre. E os gêneros alimentícios para asnunca reclamou. refeições de Mialzão vêm da prefeitura e da - Respeito com as coisas sagradas, por favor. nossa pequena horta. Por falar nisso, amanhã - Não falo por mal, seu padre, mas dizem preciso visitar o prefeito de novo. O azeite eque é a casa Dele, não é ? toucinho de que o Mialzão tanto gosta estão - Tá bom, tá bom… Mas vamos dizer que pelo final.agora Ele mudou de idéia. Não quer mais você - É, agora ele vai ter um convidado a maisnem o gato morando por aqui. diariamente, não é verdade ? - Vai dar não, seu padre. Eu o Mialzão aqui - Não sei, padre. Como disse, vai dependersomos do tempo do padre… dele. Com essa conversa da tarde sobre isto ser - Já sei, já sei. Do bondoso padre Bento…. de Deus, aquilo dos fiéis, aquilo outro do Mas agora precisamos reorganizar as padre… Não sei não. Acho que ele deve tercoisas. Além de ser alérgico a gatos, não ficado meio ofendido.gostaria de ter também o senhor morando em - Por falar nisso, não estou vendo o felpudotempo integral em minha igreja. folgado por aqui. Será que ele levou minha - Sua não, seu padre. De Deus… recomendação a sério e já se mudou? - Pois é. Mesmo assim, aqui é lugar para - Fique tranqüilo, padre. Ele só apareceoração e não moradia. quando a mesa já está servida. É impaciente.V. Não gosta de esperar no pé do fogão como os Mialzão e Profeta – este era o nome do outros gatos.morador clandestino – eram daqueles que não - Tá, tá. Já vi que minha alergia vai ter umatinham muita paciência para discutir sobre as séria recaída para o futuro. Mas, apenas porpropriedades de Deus na terra. Antes de curiosidade, qual é o cardápio do… como éterminar a conversa, um voltou a dormir, agora mesmo o nome dele?acompanhado pelo outro, no mesmo banco. - Mialzão.Padre Zico, vendo que não tinha jeito, ignorou - É, qual o cardápio do Mialzão para hoje?suas presenças e passou parte da tarde - Rosbife, acompanhado de uma salada comconferindo cada detalhe da bela igrejinha. legumes frescos e algumas gotinhas de vinho.
    • 26 - Bom gourmet esse Mialzão. Vinho O problema da freqüência à missa logotambém via contrabando da prefeitura ? se resolveu. Profeta encarregou-se de ser o - Não, padre. Vinho de Deus. Daquele bom embaixador junto a Mãe Lena, dizendo quemesmo. Ainda do estoque do falecido padre aquele convite era permanente. Missas trêsBento. Mas, como o Mialzão anda bebendo um vezes por semana e domingo cedo e à noite.pouquinho a mais ultimamente, acho que Uma visita ao Terreiro foi cobrada de padrenosso estoque vai durar pouco… Ainda mais Zico, que ele sempre negou ter feito, mas queagora, com um convidado a mais diariamente. Profeta com sua sabedoria fez chegar ao Quando o último talher foi posto na conhecimento do mundo profano como tendomesa, Mialzão materializou-se janela adentro. ocorrido. E os anos foram passando…Rosnou para Profeta, miou com indiferença VII.para o padre e foi direto para sua tigela de Mialzão não abria mão de seussuculento rosbife, ao lado do fogão. Padre Zico direitos. Não houve vassoura forte o suficientenão se conteve e começou a rir sozinho para expulsá-lo dos pés da cama. Padre Zico,daqueles dois personagens. Verdade seja dita, o quando viu que não tinha jeito, cedeu. Não eracozinheiro do gato conhecia bem de culinária. como demonstração de amizade felina não.VI. Apenas uma questão de direito adquirido. Enquanto jantavam, Mialzão, já Sempre dormira ali, desde os tempos do padresaciado com duas pequenas tigelas cheias de Bento e não era agora que iria sair. Simplesrosbife, fazia a digestão dormindo embaixo da assim. E acabou sendo bom, pois com issomesa. Padre Zico começou a observar então padre Zico descobriu que nunca tivera alergia aque Profeta tinha uma inquestionável pêlos coisa nenhuma. Aliás, apegou-se tanto asofisticação. Sabia lidar com destreza com os Mialzão que, contava Profeta, chegava a sairtalheres, apanhava o guardanapo pela ponta pelas proximidades da igreja, à sua procura, nascorreta, e – quando não estava satirizando – noites em que ele não aparecia para o jantar.era eloqüente e com uma erudição que Profeta, embora muito a contragosto, acabouprocurava ocultar. Mas não falou nada de sua cedendo aos apelos do padre e passou a dormirvida pregressa. Apenas morava ali, era também num pequeno retirado, construído ao lado dao sacristão e responsável pelo convites para as cozinha. Mas nunca falava a seu respeito.missas. “Convite para as missas ?”. “É, padre, Sempre respondia a essas perguntas comaqui é assim. As pessoas só vêm à igreja evasivas. Até que um dia foi surpreendidoquando são convidadas. Têm outra fé, entende lendo um livro em latim enquanto cozinhava.?” Dizem que então, em confissão, afirmou se “Não, e nunca tinha visto isso ! Quer tratar de um bispo que encabeçara um cismadizer que amanhã cedo eles não virão à missa na igreja católica da França e, proscrito de suadominical ?”. pátria e do clero, exilara-se naquele local “Só se forem convidados”. E foi o que isolado de nosso país, onde fora recebidoaconteceu. Ou melhor, não aconteceu. A fraternalmente pelo bondoso padre Bento.primeira missa de padre Zico ali foi celebrada Depois dessa revelação, Profeta viveu poucoapenas com a presença de Profeta, que atuou tempo. Tempos depois, quando foi transferidocomo sacristão. Mialzão postou-se em seu de Bororó, padre Zico entrou no trem levandobanco predileto e ali dormiu para não sua única mala e um gato muito velho embaixoincomodar ninguém… nem ser incomodado. do braço. Mialzão, apesar de desconfortável naMas outro fato intrigou o padre. A forma coleira de pano improvisada por Mãe Lena,como Profeta atuava como sacristão. Era como parecia feliz por não ser abandonado pelose fosse alguém escondendo um grande amigo que cativara. E naquele dia os atabaquestreinamento com a prática litúrgica geral. Sabia voltaram a tocar…cada movimento da ritualística. Vez ou outraparecia captar até as mínimas falhas cometidas Fonte:pela inexperiência do celebrante. Academia de Letras de Maringá http://www.afacci.com.br/
    • 27 Aninha Calijuri O Grande Amor de Anitinha e Lazzini O calendário assinalava o ano de 1953. com dezenove anos, quando pela vez primeira, Anitinha com apenas onze anos de ele pisara aquele chão e, também a última!…idade e o Lazzini vinte anos mais velho que ela. - Anitinha, jamais irei esquecê-la,Na cidadezinha onde residiam, o céu porque você é a minha pequenina namorada,testemunhava aquele amor tão grande e uma Julieta tão criancinha. Sei que nunca maisparecido ao de Julieta e Romeu. conhecerei alguém tão doce igual a você! (Ela O Lazzini, que havia tido inúmeras realmente era doce e meiga e o temponamoradas, cantor, boêmio, de repente encarregara-se de mudar bastante aquele beloencontrara-se demasiadamente apaixonado aspecto).pela menina, que a todos encantava pela sua - Lazzini, com o coração partido, deixo-sensibilidade. Ele confessava aos seus amigos o, porque meu pai não simpatiza com você emais íntimos que deixara de lado a boêmia, seu assim, com essa barreira enorme, jamaisritmo antigo de vida, para ser feliz com sua conseguiremos ser felizes.namoradinha tão criancinha, sua paixãozinha! Havia lágrimas nos olhos dele e nos Certa vez, numa noite linda, um baile olhos dela. Os olhos dele de cantor romântico,abrilhantava a Festa de Formatura dos alunos sensível, pleno de esperanças, que durantedaquele tradicional Colégio. O Lazzini era aqueles oito anos ofertara-lhe flores, cartõescantor da famosa Orquestra de uma cidade coloridos e cartas apaixonadas, perderapaulista, que percorria várias cidades do Brasil. naquele momento todo o brilho. Ele, quePelo fato de ser ele cantor, ser bem mais velho nascera numa cidade do Estado de Minasque ela e haver tido muitas namoradas, o pai Gerais e, menino ainda chegara com suadela era desesperadamente contra aquele família ao Norte do Paraná, encontrara-senamoro, ainda mais por ela contar somente naquele momento, com seu semblante tomadocom onze anos. de imensa tristeza. Naquele único Clube da cidadezinha, O rosto de Lazzini (parecido com oo baile avançava pela noite adentro. Anitinha rosto do cantor Plácido Domingo), o rosto desabia que lá ele estaria cantando com sua Lazzini, tão amado por ela, a paixão dele porOrquestra. A tia dela, então, levara-a ao Clube. ela, o Tempo encarregara-se de guardar, noEle, no palco cantando, não tirava os olhos mais profundo e refrigerado verde recanto dadaquela mesa, onde ela estava ao lado de sua alma dela!… Nunca, jamais alguém a amariatia Maria. daquela maneira. Como ele adorava aquela Aquela noite foi uma triste despedida, menininha!…porque no dia seguinte, logo de manhã, o A primeira mão de um homem em suaLazzini e sua família estariam seguindo de mãozinha, fora a do Lazzini. O primeiro abraçomudança, para o interior do Rio de Janeiro. de um homem, em seus delicados braços, foraEle prometera-lhe que voltaria sempre para o do Lazzini. E o primeiro beijo de umrevê-la… Assim passaram-se oito anos!… homem, nos lábios dela tão doces, fora o do Na nova cidade, onde ela passara a Lazzini.residir, juntamente com sua família, no - Anitinha, minha menina meiga, doceprimeiro semestre do ano de1961, ela já estava flor, nosso amor é igual ao de Julieta e Romeu. É terrível estarmos separando-nos hoje. É uma
    • 28dor lancinante. Ouça bem, nunca acabarei por Outro Lado da Vida, deixando terrivelmenteunir-me a outra mulher, porque creio órfã a alma dela?…firmemente que, se um dia, você decidir-se Ou será que ainda vive?… Estará só ouchamar-me de volta, quero estar totalmente com alguém?…livre para você! Dizia para si mesma que aquele sonho A partir do ano de 1961, quarenta e lindo de unir-se a ele nunca se realizaria!… Ecinco anos passaram-se. No silêncio da alma ela sabia que morrera imensamente, pordela, seus pedidos de perdões como em preces dentro de sua alma, naquele dia tão triste,para ele. – Perdoa-me, Lazzini, meu querido quando se separaram para sempre!…cantor tão amado, meu primeiro namorado, - Oh, Lazzini, meu primeiromeu único e verdadeiro grande amor, perdoa- namorado, meu único e verdadeiro amor!…me, por deixá-lo um dia! Ainda estou a ouvi-lo Sim, são lembranças que a Vida nãono longe do Tempo, cantando as famosas desfaz e ao redor dela, apenas subsiste o vazio,canções: “Caminhemos”, “Mis noches sin ti”, da grande ausência dele. Só restara para ela,“El dia que me quieras”!… Saiba querido lágrimas, muitas para chorar!… Chorar demaisLazzini, as minhas doçuras, meiguices e desconsoladamente!… E apesar de tudo saberguardadas, estão no mais profundo de meu que Amanhã será um outro dia e ela tem queâmago. Perdoa-me, meu querido cantor, forçosamente continuar vivendo. Assim é aporque é bem verdade que nunca mais alguém Vida!… Mas também, por outro lado, mesmome amará como você me amou! Por essa razão, dentro de todas as machucaduras em seuminha doçura e minha meiguice, estão bem coração, a plena certeza do amor dele, naquelaescondidinhas, no cantinho especial, precioso época, já bem distante. Como ele a amara!…de meu coração!… Aquela verdade tão rica acompanha-a, porque Vésperas de maio de 2006. O Tempo não houve somente perdas. Ele amara-a muito!passara demais. Onde estaria o Lazzini, na hora E isso é tudo para Anitinha!…presente? Será que ele já terá partido para o Fonte: Academia de Letras de Maringá http://www.afacci.com.br/ Agenir Leonardo Victor Amor de um Poeta O amor de um poeta é como as estrelas, saudade. que possuem sua própria luz, a iluminar Procura resplandecer na o espaço do mundo. primavera da vida raios de luz Sonha em abraçar o luar a brilhar no coração a flor da esperança. numa noite de inverno. É na inocência de criança que brota Lágrimas rolam em meu rosto… em seu ser o perfume que enobreceO palhaço, que chora no picadeiro do destino, e ajuda a viver. faz transparecer em seu semblante Paira muitas vezes com o destino incerto, as angústias e preocupações, e tenta e leva consigo as marcas do tempo que fugir mesmo quando elas o perseguem. não volta mais. Ama o belo e exalta com carinho Seus sentimentos são como vento a flor da inocência. a balançar as folhas das árvores e acariciar Planta paz nos corações machucados os cabelos embaraçados que esvoaçam pelo ar. e faz nascer na humanidade um canto de Entre poesias e sonhos, luta contra
    • 29 os preconceitos e as injustiças. sempre tendo como sua maior arma, o amor,Fala do amanhã num gesto de preocupação. somente o amor. Sonha com o futuro e recorda o passado, Fonte: Academia de Letras de Maringá num soluço de dor. http://www.afacci.com.br/ Na certeza de um novo amanhã A Trova nos Versos dos Trovadores Cada momento vivido Há trovas que o vento leva; na vida que se renova, outras, o vento desfaz… às vezes é definido Mas, as minhas, sem reserva apenas em uma trova! são trovas que o vento traz. Alberto Paco Maria Nicolas A Trova não morre nunca, Uma Trova pra ser boa, Retempera a humanidade Expressiva, universal, E vence a tristeza adunca, Na mensagem apregoa Alegrando a mocidade! A cultura e a moral! Apollo Taborda França Apollo Taborda França A trova é gota de pranto Dia dezoito de julho, que cai dos olhos de alguém é dia do trovador. e por alguém chorou tanto Eu faço trovas – me orgulho, que nem mais lágrima tem. pois as faço com amor. Antonio Salomão HLuna Sete sílabas por cima Canta, canta, trovador Com idéia sempre nova, e promove a festança, E cadência, boa rima, convidando com amor Numa quadra… a bela Trova! todo mundo para a dança. Apollo Taborda França Ana Maria Gazzaneo A trova pra ser bonita E desse dia festivo tal qual filhinha dileta: eu venho participar, traz sempre o laço de fita pois das trovas sou cativo: da inspiração do poeta! não sei ficar sem trovar. Joaquim Carvalho Mário Roberto Guimarães Sou trovador, tenho senso Da poesia fiz meu canto, Da importância da poesia: do meu canto a alegria! Encerra tudo o que penso, Fiz meus versos com amor, Realidade e fantasia! a canção do trovador. Apollo Taborda França Maurélio Machado
    • 30 Trova é cantiga bonita, Por estar na solidão, nascida do coração! tu de mim não tenhas dó. Dessa inspiração bendita Co trovas no coração, vertida em linda canção. eu nunca me sinto só.” Zélia Nicolodi Luiz Otavio A minha vida é uma Trova, Trovando, deixa pegadas trova de ilusão perdida, Que outros podem seguir. pois a vida é grande prova, Porque as pedras, paradas, que prova a Trova da vida! Não têm razão pra sorrir! Gislaine Canalles Luiz Carlos Lemos Trovador, qual o motivo “Pelo tamanho não deves desse teu mundo risonho? medir valor de ninguém. O segredo é porque vivo Sendo quatro versos breves envolvido no meu sonho! como a trova nos faz bem. Pedro Viana Filho Luiz Otávio Nesta casa tão singela É dia do trovador, Onde mora um Trovador sonhando a sua dama. É a mulher que manda nela Faz poesia e amor,Porém nos dois manda o amor. rosa vermelha lhe chama… Clério José Borges António Zumaia Ó linda trova perfeita, Tão simples, as trovas são que nos dá tanto prazer, cantigas com que a alma expande tão fácil, – depois de feita, tudo que há no coração tão difícil de fazer.” do poeta – um menino grande. Adelmar Tavares J. G. de Araújo Jorge “A trova tomou-me inteiro! Tudo é trova: a flor, a onda, tão amada e repetida, a nuvem, que passa ao léo… agora traça o roteiro E a lua… trova redonda das horas de minha vida.” que a noite canta no céu! Luiz Otávio J. G. de Araújo Jorge No simples fazer da trova Cartilhas do coração, A Poesia tem valor. onde o povo se inicia, E o poeta tem a prova os livros de trovas são Que, se trova, é por amor! um ABC de poesia! Luiz Carlos Lemos J. G. de Araújo Jorge “Trovador, grande que seja, A trova, conta de um canto, tem esta mágoa a esconder: poça d’água sobre o chão a trova que mais deseja - tão pequenina, e entretanto, jamais consegue escrever … “ reflete toda a amplidão! Luiz Otavio J. G. de Araújo Jorge Quando nasce a boa trova O coração está cheio A trova é como uma contaDo amor que sempre renova de um rosário multicor,O homem, para o seu meio!… é a cantiga que desponta Luiz Carlos Lemos do peito de um trovador. J. G. de Araújo Jorge
    • 31 por isso é que numa trova Pequeninas e redondas vou sepultar este amor. as trovas são contas, são J. G. de Araújo Jorge como as cantigas das ondas que se espraiam no coração. Quis tornar-me um trovador J. G. de Araújo Jorge para dizer que ela é minha, mas tudo em vão, meu amor Uma quadrinha é uma cova, não coube numa quadrinha. onde a poesia é uma flor, J. G. de Araújo Jorge A Literatura Indígena BrasileiraIntrodução têm acesso. Segundo o próprio Daniel Munduruku, A literatura de produção nativa no Brasil teve existem dois grupos de escritores indígenasum início bem mais recente que na América do no Brasil: “(...) os que estão criando umaNorte. Já que o domínio da escrita em literatura de ficção baseada na sua experiênciaPortuguês e o interesse por parte do mundo de aldeia e os que são memorialistas noliterário brasileiro ocorreram somente em sentido de que estão escrevendo coisas a partirmeados da década de 1980, até então o tema da memória tradicional de sua gente”indianista pode somente ser encontrado na (MUNDURUKU, s/d).obra de escritores considerados “brancos”, na Ainda segundo ele, não há autoreschamada Literatura Indianista, ou Romances suficientes para suprir a demanda atual porIndianistas, do século XIX, que representava o textos de autoria indígena, mostrando como oíndio como herói nacional, em um retrato interesse passou de escasso à extremo nos últimosestereotipado e irreal, como O Guarani (1857), anos. Algumas coleções de autoria indígena têmIracema (1865) e Ubirajara (1874), de José de obtido publicação, como a “MemóriasAlencar, além dos relatos e textos jesuíticos, Ancestrais”, formada por 12 livros, da Editoracomo a obra de Padre José de Anchieta. Fundação Peirópolis. Além disso, a Editora É somente na década de 1980 que Palavra de Índio surge com o objetivo decomeçamos a ver as primeiras produções de propagar a cultura indígena trabalhandoautoria nativa no Brasil. Dentre estes novos exclusivamente com autores de origem nativa,autores encontramos Olivio Jekupe, Eliane tendo a coordenação do próprio DanielPotiguara, Graca Graúna, Daniel Munduruku, Munduruku.Luiz Karai, Giselda Jera e Kerexu Mirim, entreoutros. Contexto histórico e formação Esta nova literatura busca expressar averdadeira cultura dos povos nativos do Brasil Os povos indígenas habitantes das terrase luta por espaço e reconhecimento; por ser uma que se tornariam o Brasil sempre tiveramluta que está apenas começando, um histórico suas tradições, as quais incluem manifestaçõesformal e mais detalhado dessa produção está espirituais e artísticas como cantos, danças,ainda por ser agregado. Informações sobre a rezas, oratória e contação de histórias. Essasprodução nativa brasileira ficam por conta dos manifestações podem perfeitamente serpróprios autores, que buscam alcançar a consideradas literatura, sendo o uso da palavracomunidade através de websitese blogs, e sagrada e espiritual designado, em línguatomando parte em todo evento literário a que guarani, como ne’e porã, ou seja, “belas
    • 32palavras”. No entanto, lembrando que neste o beiço e os dentes é feita a modo de roque detrabalho estamos nos limitando estritamente ao xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte queconceito clássico ocidental de literatura como não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar,obra escrita e de autoria específica, precisamos nem no comer e beber. Os cabelos deles sãotraçar um percurso que permita entender como corredios. E andavam tosquiados, de tosquiachegamos a esse estágio no contexto brasileiro. alta antes do que sobrepente, de boa grandeza, A primeira literatura de temática indígena rapados todavia por cima das orelhas. E umdo país pode ter sua data precisada com deles trazia por baixo da solapa, de fonte aexatidão: 1º de maio de 1500. Este foi o dia em fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira,que, após pouco mais de uma semana no que de penas de ave amarela, que seria doviria a ser o país, Pero Vaz de Caminha redigiu comprimento de um coto, mui basta e muisua célebre carta ao rei de Portugal, relatando cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E“o que viu e lhe pareceu” da terra em que andava pegada aos cabelos, pena por pena, comchegaram. Como aponta Alcir Pécora em uma confeição branda como, de maneira talCartas à segunda escolástica, a carta de que a cabeleira era mui redonda e mui basta, eCaminha, assim como as tantas cartas jesuíticas mui igual, e não fazia míngua mais lavagemque a seguiram, não deve ser vista apenas como para a levantar (Caminha, 1963: 3).testemunho da vida e conflitos característicosda primeira fase de colonização do Brasil. Deve- Por todo o texto, abundam referências àse observar, nas palavras de Pécora, que elas nudez “desavergonhada” com que senão são absolutamente uma tábua em branco apresentavam. À idéia de nudez, é associadaimpressionada por acontecimentos vividos àquela que, por muitos anos, permanecerápelos missionários – nem objetivamente, como marcada como característica principal dasrepresentação ou notícia da gente e terra do populações indígenas brasileiras: a inocência.Brasil; nem subjetivamente, como impacto Apresentados como inocentes, os quaissentimental ou expressivo dessa notícia em sequer conseguem ver o pecado de sua nudez,certa mentalidade católica européia. As cartas, os índios são colocados como seres bondosos eno verossímil que proponho, devem ser vistas, sem cultivo, os quais necessitam apenas daantes de mais nada, como um mapa retórico em chegada de missionários para batizá-los e “salvá-progresso da própria conversão (Pécora, In: los”. Essa “salvação”, bem como os jogosNovaes, 1999: 373). colonialistas que se encenariam no país, está Pécora ainda destaca que, devido a sua muito bem ilustrada n’A Carta. Ao colocar osretórica, essas cartas não comportam nada que índios como ingênuos, os quais lhe parecemnão esteja de acordo com sua própria tradição e “gente de tal inocência que, se nósdinâmica formal. É assim que se forma, no entendêssemos a sua língua e eles a nossa,Brasil, a simulação de um índio, bem aos seriam logo cristãos, visto que não têm nemmoldes daquele que Vizenor combate no entendem crença alguma, segundo ascontexto norte-americano. É perceptível, aparências” (Caminha, 1963: 8), Caminhamesmo em descrições longas, a fixação de deixa o terreno livre para as imposiçõesCaminha na aparência: religiosas dos missionários da Companhia de A feição deles é serem pardos, um tanto Jesus.avermelhados, de bons rostos e bons narizes, Além disso, é baseado no mesmo tipo debem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. suposição, a qual serve aos propósitosNem fazem mais caso de encobrir ou deixar de expansionistas do império, que Caminha dizencobrir suas vergonhas do que de mostrar a acreditar que, ao apontar para a terra, para umcara. Acerca disso são de grande inocência. rosário de contas brancas, e depois para o colarAmbos traziam o beiço de baixo furado e de ouro do Capitão, um índio está querendometido nele um osso verdadeiro, de comunicar que daria ouro em troca das contas.comprimento de uma mão travessa, e da Como diz o próprio autor, “[i]sso tomávamosgrossura de um fuso de algodão, agudo na nós nesse sentido, por assim o desejarmos” (p.ponta como um furador. Metem-nos pela parte 3). Ao contrário do esforço quase nulo feito node dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre sentido de entender o que dizem os índios a respeito de suas crenças, sendo mais
    • 33conveniente acreditar que não possuem possamos definir uma “voz” indígena, podemosnenhuma, o entendimento de seus gestos é colocar nesses silêncios a primeira afirmação derápido quando se quer entender que sua terra uma subjetividade indígena em narrar-se a sitem riquezas e que eles estão dispostos a dá-las própria. Desde sua origem, pois, a literaturaem troca de pouco ou nada. indígena brasileira foi essencialmente uma Como aponta Cláudia Neiva de Matos no literatura de resistência, um produtoartigo Textualidades Indígenas no Brasil, os transcultural que emerge de um espaço deíndios eram vistos como seres, nas palavras de tensão e hibridação entre os mundos indígenaAmérico Vespuccio, “nudi e formosi”, e ocidental.espetáculos visuais cujas palavras despertavam Parece unanimidade entre os estudiosos dapouco ou nenhum interesse. Essa é a principal literatura indígena brasileira que essa deve seucausa para que, embora tivessem suas imagens surgimento tardio, na sua forma escrita eassociadas a uma forte poeticidade no autoral, em grande medida à falta dasindianismo romântico, houvesse, na mesma condições educacionais para formar escritoresépoca, uma notável ausência de documentos indígenas até que entrasse em vigor aque atestassem tal poeticidade (Matos, In: Constituição de 1988. Carlos Frederico MarésFigueiredo, 2005: 438). em Da tirania à tolerância: O Direito dos Foi apenas no final do século 19 e no início índios, destaca sete avanços da Constituiçãodo século 20 que começaram a surgir os democrática de 1988 em relação ao sistemaprimeiros esforços para documentar as anterior. São eles:tradições autóctones e suas formas de 1) ampliou os direitos dos índios reconhecendoexpressão. Esses registros de narrativas sua organização social, seus usos, costumes,indígenas atingiram uma culminância com os religiões, línguas e crenças; 2) considerou oestudos de Claude Lévi-Strauss e Darcy Ribeiro, direito à terra como originário, isto é, anteriorentre outros. No entanto, Matos afirma que a lei ou ato que assim o declare; 3) conceituoutais estudos, ainda que importantes, muitas terra indígena, incluindo aquelas necessáriasvezes, repetindo o caso que estudamos na não só à habitação, mas à produção, àAmérica do Norte, deram ênfase às “narrativas preservação do meio ambiente e à suade antigamente”, histórias ancestrais, lendas e reprodução física e cultural; 4) pela primeiramitos. As histórias atuais, bem como os cantos, vez admitiu-se no Brasil, em nívelforam relegadas a um segundo plano. Além constitucional, que existem direitos indígenasdisso, mesmo aquelas narrativas que foram coletivos, seja reconhecendo a organizaçãoregistradas deixavam muito a desejar no que diz social indígena, seja concedendo à comunidaderespeito ao contexto performático e às o direito de opina sobre o aproveitamento dospotencialidades estéticas do texto, visto que recursos naturais e o de postular em juízo; 5)eram recontadas por etnógrafos, tratou com mais detalhes, estabelecendo assiminvariavelmente enfatizando o aspecto melhores garantias, da exploração dos recursospitoresco e narrativo, deixando de lado naturais, especialmente os minerais, para o quecomplexidades subjetivas da narrativa a fim de exige prévia anuência do Congresso Nacional;forjar uma unidade na simplificação de uma 6) proibiu a remoção de grupos indígenas,suposta poesia “primitiva”. dando ao Congresso Nacional a possibilidade Para além de tudo isso, o conhecimento de estudo das eventuais e estabelecidassobre esses povos indígenas se revela ainda mais exceções; 7) mas acima de tudo chamou oslacunar quando sabemos que as narrativas índios de índios e lhes deu o direito derecontadas aos brancos eram invariavelmente continuarem a sê-lo (Marés, In: Novaes, 1999:modificadas, buscando uma compatibilidade 58-9).com o público alvo. Ademais, a única fonte Embora à primeira vista não estejam ligadospossível para a apropriação das histórias por à produção cultural em si, esses direitos foramparte dos etnógrafos era a voz indígena, o que importantes por diversos motivos. Comolevava muitos dos contadores de histórias a poderemos observar nas narrativas de Kakáoptar pelo silêncio, deixando de contar Werá Jecupé e Eliane Potiguara, era comumhistórias inteiras ou parte delas. Portanto, que tribos inteiras fossem dizimadas eembora até a primeira metade do século 20 não dissolvidas pela invasão de territórios indígenas
    • 34por mineiros, garimpeiros, madeireiros, etc. bilíngües; narrativas escritas diretamente em Com a unidade comunitária, eram português por índios bilíngües ou mesmo dedestruídas línguas e culturas, sendo o futuro de nações que já perderam o uso do idiomaeventuais remanescentes comumente marcado ancestral, mas conservam parte do acervopelo deslocamento para o meio urbano, pela cultural da tradição (Matos, In: Figueiredo:alienação cultural e pelos problemas sociais, 2005: 453).econômicos e psicológicos decorrentes de tal Poderíamos dizer que, atualmente, a formasituação. Além disso, o decreto do fim de de autoria que mais se prolifera é a conjunta,políticas assimilacionistas visando a “incluir” o fruto de programas ligados à educaçãoíndio na sociedade fortaleceu os movimentos diferenciada promovida pelo Estado, porindigenistas emergentes, os quais valorizaram e instituições religiosas e por organizações não-reivindicaram a identidade indígena, muitas governamentais. Os autores dessas obras sãovezes resgatando tradições ameaçadas de se não raro professores indígenas que participamperder definitivamente. de cursos de formação e capacitação para Certamente estamos cientes de que a lei está trabalhar nas escolas indígenas, bem comolonge de ser uma realidade inquestionável em alguns dos estudantes. A maioria dessas obras énosso país: são freqüentes as notícias de produzida na forma de livros didáticos,conflitos entre exploradores e indígenas, objetivando a alfabetização bilíngüe de índiosprincipalmente no norte do país, por terras nessas escolas diferenciadas e o resgate daférteis e ricas, e não é raro ouvirmos discursos cultura e da voz indígena.essencialistas da identidade indígena, Em Que história é essa? A escrita indígenacolocando esses indivíduos como seres no Brasil, Lynn Mário T. M. de Souza apontaprimitivos, ingênuos e profundamente ligados à para o fato de que esse tipo de literatura,natureza, os quais mantêm forte a opinião embora já prolífico e de grande abrangência,legada por Caminha e seus pares na tipificação ainda não recebeu a devida atenção dado índio. academia e das instituições literárias nacionais, No entanto, apenas o fato de existir uma lei sendo visto como literatura popular, de massasjá torna possível que seu cumprimento seja ou “para crianças”. O autor, por sua vez,reivindicado, e é por isso que a consciência destaca os aspectos subversivas dessa literaturaindígena vem se fortalecendo ainda mais desde que, desestabilizando conceitos ocidentais deo início dos anos 1990. Além disso, como autoria, “já est[á] formando, em menos de umaaponta Lynn Mário T. M. de Souza em “As geração, seus próprios cânones de escrita.visões da anaconda: a narrativa escrita indígena Mais do que re-escrever a suano Brasil”, a criação da escola indígena estória/história, as comunidades indígenasdiferenciada na década de 1990 é conseqüência parecem já estar escrevendo sua história. Dedireta da Constituição de 1988, que forma diferente das literaturas pós-coloniais dereconheceu a existência de línguas indígenas língua inglesa e francesa, que antes de tudobrasileiras. Foi a partir dessa modelo de buscaram “escrever de volta” aos antigoseducação que se criaram as condições para o centros colonizadores metropolitanos, paraaumento do número de autores indígenas e serem ouvidos e lidos, as comunidadespara a formação de um público leitor. indígenas brasileiras parecem ter se contentado A autoria indígena, pela peculiaridade da em re-escrever a sua história escrevendo paravisão de mundo desses povos, pode ser dividida eles mesmos, construindo assim uma novaem diferentes tipos, entre os quais Matos identidade indígena, ambígua e híbrida, aodestaca, no já referido artigo, os registros mesmo tempo local ... e nacional (Souza, In:gravados da boca dos narradores tradicionais Santos, 2003: 134-5)(geralmente os “velhos” da aldeia) e depois Quase todos os artigos que lemos sobretranscritos para o papel, sempre em língua literatura indígena, quando tratam damaterna, geralmente por outros índios; os modalidade escrita em língua portuguesa, comfeitos diretamente por escrito, em língua autor único, reforçam o fato de que esta é umamaterna por índios alfabetizados; traduções literatura incipiente, a qual está em fase deintegrais, parciais ou sintetizadas dos textos em formação e conta com poucos autoreslíngua original, realizadas por indígenas publicados.
    • 35 Souza não é exceção, e termina seu artigo difusão das culturas indígenas brasileiras, tendocom uma menção a autores como Daniel realizado projetos junto às nações Guarani eMunduruku, Olívio Tupã e Kaká Werá Jecupé Krahô. Hoje trabalha como coordenador doque, tendo migrado para centros urbanos, Instituto Arapoty, organização voltada para aescrevem “de e para a cultura dominante não- difusão dos valores sagrados indígenas, éindígena”, seguindo, com algumas exceções, terapeuta da linhagem dos pajés, escritor etradição escrita e seus gêneros. O autor parece conferencista.cético em relação à efetividade do propósito Nesta dissertação, estudamos sua primeiradessas literaturas em dar visibilidade à questão obra, Oré awé roiru’a ma - Todas as vezes queindígena e à construção das identidades dissemos adeus (1994), à qual se seguiram Aindígenas (p. 135). Terra dos Mil Povos (1998) e Tupã Tenondé: No entanto, acreditamos que essa literatura, A criação do Universo, da Terra e do Homemescrita em língua portuguesa, não vem segundo a tradição oral Guarani (2001). Arecebendo a devida importância nas análises escolha da obra foi pautada pelo fato de que,acadêmicas, visto que essas mais em Todas as vezes que dissemos adeus, Jecupéfreqüentemente apenas mencionam sua faz uma narrativa autobiográfica, na qualexistência, sem analisá-las, e as colocam como encena as suas principais idéias sobre a questãoum conjunto de textos amplamente indígena na atualidade e as saídas que podeminoperantes, em decorrência da marginalização ser encontradas para os impasses.que sofrem no mercado editorial. Além disso, a obra é marcada por um Pouco mais de dez anos nos separam das profundo diálogo entre os mundos indígena eprimeiras publicações desse tipo, e parece ainda branco, oferecendo importantes idéias sobre amuito cedo para julgar sua eficácia. Além disso, survivance nativa no Brasil contemporâneo. Aqueremos mostrar neste capítulo que tais tensão entre mundos se encena desde ostextos, a exemplo do que dissemos sobre prólogos da obra. No prefácio à primeiraHighway e seu romance, têm um papel edição, Pierre Clastres, ainda que com oimportante na sociedade atual, oferecendo a objetivo de louvar autor e obra, reproduzum público leitor branco um material nativo a estereótipos bastante conhecidos dos povospartir do qual possa buscar melhor entender as indígenas. Fala de “homens verdadeiros”,questões indígenas, livrando-se de estereótipos “marcados pelo sinal divino” e por umque já completam mais de 500 anos de idade. “orgulho heróico”, cujas cabeças são ornadasAlém disso, e talvez mais importante, esses por coroas de plumas. Além disso, fala dosíndios urbanos e transculturados oferecem guaranis como uma grande nação no século 16,àqueles que, como eles, foram empurrados para da qual “só subsistem ruínas hoje em dia: talveza margem das metrópoles, uma experiência cinco ou seis mil índios, dispersos emsemelhante com a qual se identificar na minúsculas comunidades que tentamprocura por alternativas à posição de vítima sobreviver à margem do homem branco”. Alémmarginal. de reproduzir a idéia colonial do vanishing indian, Clastres perpetua também o mito doKaká Werá Jecupé: perdão e sobrevivência bom selvagem, afirmando que esses seres, marcados por uma religiosidade intensa e uma Kaká Werá Jecupé é um índio txucarramãe, profundidade propriamente metafísica,tribo do norte do país que, devido aos pertencem a um mundo distante do olhardeslocamentos impostos por invasores, foi se profanador do estrangeiro, no fundo daespalhando em direção ao sul. Jecupé viveu floresta.desde cedo entre os guaranis das aldeias Como veremos na análise do texto, taisKrukutu e Morro da Saudade, em São Paulo, estereótipos contrariam diametralmente atendo sido por eles nomeado. Além disso, o imagem do indígena contemporâneo queautor compartilhou das tradições espirituais de Jecupé apresenta em sua obra. É por isso que,muitos outros povos indígenas em um período no prefácio à segunda edição, datado de maiode 15 anos durante o qual viajou pelo Brasil. de 2002, o próprio autor toma a palavra paraDesde 1989, Jecupé participa de ações voltadas contrariar a falsa idéia de que as histórias daspara a defesa, o resgate, o desenvolvimento e a
    • 36culturas indígenas brasileiras eram obtidas de O desafio que lhe coloca esse espírito estáexóticos oradores, últimos narradores de uma narrado ao longo da obra, entremeado com ascultura em desaparecimento, que viviam em estratégias de sobrevivência de Jecupé. O fatoparques nacionais, inteiramente isolados da mesmo de estar contando sua história,sociedade circundante. depositária dos segredos que normalmente não Ele afirma que sua história se passa em São são revelados pelos membros da tribo, é umaPaulo, uma das maiores metrópoles do planeta, missão que recebeu em um sonho de seusonde vivem cerca de 700 índios guaranis nas Tamãi – relatar sua experiência “entre doisreservas de Barragem e do pico do Jaraguá. mundos”. Nessa experiência, Jecupé se colocaSendo parte desse grupo de índios urbanos, os como um verdadeiro tradutor cultural,quais são freqüentemente tolhidos de sua negociando os aportes de culturas, histórias eidentidade indígena pela sociedade por não povos díspares obrigados a habitar o mesmoestarem de acordo com os estereótipos de bom espaço. Assim, nesse sonho, o autor conta queselvagem em desaparecimento, Jecupé firmou “o compromisso de traduzir dademonstra um profundo desejo de alterar tal vermelha ‘escrita-pintura’ de [seu] corpo para otipificação, esclarecendo que “este povo guarda branco corpo desta ‘pintura-escrita’.e pratica suas crenças mais sagradas. Enfrenta Cumprindo a tarefa nesse relato, para tingiros desafios de assimilação e de transformação o que até então no mundo tem parecidode alguns padrões de costumes materiais e ‘intingível’, a mistura do vermelho sobre omantém a cosmovisão que sustenta a alma”. É branco resultando na cor da vida” (Jecupé,por isso que é a eles, a esses “desaldeados de 2002: 16). Note-se nesse trecho o uso quasesua cultura pelo lado exterior” que buscam “sua casual da preposição “sobre”. Embora afirme aaldeia interior através de suas raízes sagradas”, necessidade de aceitação entre culturas, Jecupéque Jecupé dedica sua obra. infere que as estratégias predominantes para O tema da urbanização do indígena não está encontrar a solução aos conflitos que hojeapenas no prefácio, mas segue sendo colocado existem estão na visão “vermelha” do mundo.ao longo de todo o livro. Na descrição de como Em uma perspectiva humanista, a qualfoi parar na cidade, Jecupé apresenta elementos busca a todo custo dissolver a diferenciaçãodo imaginário tradicional indígena, assim entre os papéis de indivíduos indígenas edesestabilizando a idéia de que a urbanização brancos no mundo, Jecupé acredita que ado índio se associa a um abandonar dessa aceitação do outro e o respeito à Mãe Terraidentidade: devem valer para todos, pois disso depende a Meus Espíritos Instrutores (os Tamãi) sobrevivência de toda a humanidade:empurraram-me na boca do jaguar, essa A tradição milenar que compôs meuyauaretê chamada metrópole, creio que como espírito tem mantido a minha sobrevivência e aprova, para que aprendesse e comesse dessa de meu povo. Agora, porém, não é a minhalíngua e cultura de pedra e aço. Foi assim que vida nem a de meu povo que está em jogo. É acomi o pão que a civilização amassou. de todos. É a das culturas e nações semeadasSobrevivi. Por isso, devorei o cérebro dessa pela extensão do carinho e da enorme bondadecidade (Jecupé, 2002: 16). dessa Mãe a que chamam Terra. Por isso eu É interessante notar como essa afirmação passo a ser também a voz que partilha umdialoga com a descrição que faz do encontro aprendizado. Para nos superarmos, paraentre a reserva indígena e a cidade de São sobrevivermos, para reinventarmos a vida.Paulo. Nesta, Jecupé relata como a cidade, suas Ofereço a sabedoria milenar da tribo, emboraindústrias e favelas foram crescendo até atingir ela não esteja toda aqui, como troca doa área indígena. Embora tenha sido a cidade conhecimento que de vós recebi. Comi doque avançou em direção à terra indígena, o vosso cérebro; agora, como manda a tradição,autor coloca esse encontro como uma prova ofereço meu espírito (Jecupé, 2002: 17).que lhe foi colocada por seus Espíritos Notamos ao longo de Todas as vezes queInstrutores. Além disso, se a metrópole não é dissemos adeus uma forte preocupação emum espírito bom (anhan), ela também não é preservar a tradição e o meio ambiente; e essaum espírito mau (anguery); o jaguar, na cultura preservação, assim como observamos emguarani, é um espírito desafiador. autores como Tomson Highway, passa por um
    • 37momento de fechamento ao outro, instante cultivador da sabedoria, sobretudo a que osmarcado fortemente pelo medo da perda anciões semeiam” (Jecupé, 2002: 24); é por issoidentitária. Jecupé relata o período de sua que, seguindo seus Espíritos Instrutores, junta-infância em que freqüentou a escola. Para ele, se à UNI (União das Nações Indígenas), emaquele aprendizado novo era fascinante, a defesa das culturas das nações indígenasescola era o local em que “se riscava com traços ‘contactas’. Além disso, lança-se sem medo aoo que se falava” (p. 31). Esse primeiro fascínio, conhecimento do outro, aceitando, porno entanto, foi sobrepujado pelo medo de sua exemplo, o papel de índio aimoré na telenovelamãe de que sua alma estivesse sendo O Guarani da TV Manchete em 1991.aprisionada em um papel. Esta, então, proibiu- Fortalecido por esse conhecimento, o quallhe de freqüentar a escola e cantou a sua associa ao seu conhecimento das tradiçõesmúsica durante três dias para expulsar os maus indígenas, Jecupé se prepara para cumprir oespíritos. papel de tradutor intercultural. É assim que o No entanto, o medo do outro acaba guerreiro-sem-armas, a quem Vizenoreventualmente sendo derrotado pela percepção certamente chamaria de word warrior, se investede que a sobrevivência passa pela aceitação. em contar-nos sua vida. Sua autobiografia éAssim, o “nome-número” civilizado, ainda que concebida como uma contação de histórias aoa contragosto, tem de ser aceito pelo bem da pé do fogo, na qual fala diretamente ao leitor:sobrevivência na cidade (p. 26); da mesmaforma, a comunidade decide alfabetizar-se, pois Agora, de acordo com a tradição, faço a“a resistência passava pela compreensão mais fogueira e lhe convido para que fique àprofunda de outras culturas, principalmente a vontade, esse ritual é para melhor ouvir ne’echamada civilização” (p. 51). porás, as belas falas, as falas sagradas, de alguns Essa percepção acontece, para Jecupé, em anciões que por essa história hão de passar, eum momento em que, paralisado pelo ódio à são cheias de lições antigas do povo guarani. Ecivilização que marginaliza o índio e destrói a invento essa fogueira para seguir corretamente anatureza, parte em uma viagem de tradição (Jecupé, 2002: 27, grifo meu).autoconhecimento pelo Brasil. EmFlorianópolis, conhece uma professora Nesse trecho, queremos notar em especial ochamada Gike, ambientalista esotérica a qual uso da palavra “invento” em relação à fogueira.lhe mostra, através de uma antena parabólica Ao invés de simular totalmente uma situaçãoharmonicamente colocada em sua casa no meio de contação de histórias, na tentativa de criarda mata, que há maneiras de conjugar os no leitor uma ilusão de que aquilo está de fatomodos de vida indígenas aos aportes da ocorrendo no momento, Jecupé coloca acivilização. É Gike também que o alerta para palavra invenção, em uma lembrança de queum ponto fundamental, dizendo que “[a] luta é seu texto, apesar de autobiográfico, encena-senossa. Mas não vamos alimentar a raiva e o ficcionalmente, seguindo modos narrativos queódio. É nosso ponto fraco” (p. 47). Se não correspondem à realidade performática dalembrarmos as posições de vítima estabelecidas contação de histórias. Além disso, coloca-sepor Atwood, veremos que é exatamente no dentro da linhagem dos postindian word warriorsponto de risco da terceira posição que Jecupé se de Vizenor, que criam em seus textosencontrava: reconhecendo o papel de vítima e simulações alternativas à imagem cristalizada doparalisado pelo ódio àquele que lhe vitima. A indian.partir desse conhecimento, Jecupé é capaz de Sua batalha de guerreiro-sem-armas éretornar a São Paulo e cumprir seu papel no travada sutil e indubitavelmente, combatendomundo. explicitamente os índios inventados por O nome de sua tribo – txukarramãe – Caminha n’A Carta. Há dois momentos emcarrega já importante significado na missão de que a referência ao texto é clara; no primeiro,Jecupé sobre a terra; significando “guerreiro quando se coloca na posição de contador, diz:sem armas”, essa filiação lhe dá uma pista de “Então eu vim para mostrar a nudez do meucomo deverá proceder em sua guerra pela povo. A claridade do coração. Eu vim para nossobrevivência. Ademais, Jecupé sabe que “todo despirmos. Para descobrirmos os brasis. Paranomeado deve ser um guerreiro zelador e
    • 38descobrirmos os brasileiros” (Jecupé, 2002: 17). em guarani, “Fim do vale dos velhos anahns”. A nudez do índio, apresentada por De acordo com sua crença de que todas asCaminha como “desavergonhada”, como fruto culturas devem estar abertas umas as outras, ada fim de sobreviver pacificamente e em harmoniainocência e da ingenuidade daquele povo que com a Mãe Terra, Jecupé convida todas assequer percebia sua impropriedade, é culturas e etnias que queiram participar para otransformada por Jecupé em signo de pureza, ritual; participam membros da ordem esotéricamas não de ingenuidade. Ela representa, pelo Arco-Íris, a qual é orientada por um antigocontrário, o conhecimento indígena e sua tupinambá, Roman Quéchua, peruanoapresentação, sem preconceitos ou resistências, remanescente dos incas, o babalorixá Cássio deao encontro do outro. Ogum, Daniel Munduruku, indígena da tribo O segundo momento se aproveita do dos mundurukus, um pajé da comunidadeadjetivo “desavergonhado”, também aplicado judaica, budistas, hinduístas, iogues... enfim,por Caminha ao falar da nudez dos índios: Jecupé afirma que toda manifestação religiosaCom o tempo, passei a andar pelas largas ou cultural poderá participar da dança, comtrilhas da cidade chamadas avenidas. Percorri seus rituais próprios, pois “[s]eus ancestrais,suas florestas de aço e comi de seus frutos que não estão mais presentes aqui no chão,artificiais para descobrir os brasis. No asfalto querem perdoar os males causados por certapor onde andei, se plantando nada dá. Provei ignorância da chamada mentalidade civilizada”do bom e provei do ruim. Conheci uma (Jecupé, 2002: 80).qualidade de caciques, que põem gravatas O ato é contado em um longo capítulocomo na minha época de estudante e que, chamado Anahngabaú-Opá, por sua vezcomo dizia um antiqüíssimo e histórico subdividido em 18 subcapítulos, cada umescrivão, andam deveras desavergonhados representando um passo da dança do perdão(Jecupé, 2002: 37). no processo que leva a sua ocorrência. Essa Jecupé coloca nesse trecho o mundo nativo, construção transforma a própria obra em umo qual os portugueses encontraram quando do ritual de perdão, visto que Jecupé afirma: “só“descobrimento”, e o mundo da civilização, o fazendo a dança que se perdoa, que se vê a siqual impuseram em seu lugar. A abundância de mesmo, a sua ignorância primeira, que é a deáguas e a fertilidade da terra são substituídas olhar a imperfeição do outro para ocultar apela dureza e pela frieza do aço e dos frutos própria; quando se vê, a si, com os olhos daartificiais. Além disso, a suposta falta de águia, é possível aos filhos do sol retomar overgonha daqueles que andavam nus é caminho” (Jecupé, 2002: 93). Portanto, aosubstituída por outra, mais vexaminosa e contar sua vida e afirmar os valores indígenas,verdadeira: a dos políticos corruptos. Em Jecupé está também aceitando e admitindo seusambos os trechos mencionados, podemos próprios defeitos, pedindo perdão eobservar o deslocamento do termo perdoando.“descobrimento”. Da exploração apropriativa A organização do ritual, na forma de umque designava em textos sobre o “Novo evento, a fim de atrair patrocínio, é apoiadaMundo”, o descobrimento passa, em Todas as pelo empresário de descendência árabevezes que dissemos adeus, a um ato de Eduardo Elchemer, o qual se identifica com(re)conhecimento de um mundo outro. É nesse Jecupé pelo fato de ambos se sentirem comoespírito que Jecupé nos contará a mais estrangeiros no país. Sendo um rito deimportante de suas histórias: a história do passagem, no entanto, a organização do eventoAnhangabaú-Opá. Essa cerimônia, concebida apresentará provações a Jecupé. Elas aparecemcomo um ato de perdão, funciona como um quando ele se dá conta de que o Dr. Ulisses,ritual de passagem de Kaká Werá Jecupé de dentista da aldeia e ecologista, decidememboktire (aspirante a guerreiro) a transformar o ritual em um “mega-eventomenononure (guerreiro). exótico” com o objetivo de obter lucro. Ao retornar de uma visita ao norte, ao local Quando Jecupé tenta expulsar o dentista doonde uma vez viveram os txukarramãe, Jecupé grupo, este se nega a fazê-lo, alegando quevolta determinado a realizar o Anhangabaú- aquela era “atividade sua” junto à SecretariaOpá, ato de perdão cujo nome significa, Municipal de Cultura e a data e o local estavam
    • 39registrados sob seu nome. conselheira do Inbrapi (Instituto Indígena Outra dificuldade que se revela no processo Brasileiro para Propriedade Intelectual) ede perdão é a notícia do massacre de índios coordenando o Grumin (Rede deyanomamis no extremo norte do país, bem Comunicação Indígena) e a Rede de Escritorescomo a distorção desse fato, minimizando sua Indígenas na Internet.gravidade e a culpabilidade dos que o Em decorrência de seu trabalho em defesaperpetraram. A maneira encontrada para das culturas indígenas brasileiras, com ênfaseperdoar mais essa tragédia foi inserir na dança na recuperação da auto-estima e da valorizaçãoum passo intitulado “A primeira missa do da mulher indígena, Potiguara foi uma das 52Brasil”. A referida missa nada tem a ver com a mulheres brasileiras indicadas ao prêmio Nobelmissa de primeiro de maio de 1500, relatada na da paz no projeto internacional “Mil mulherescarta de Caminha. Esta é, na verdade, uma para o Nobel”. Foi nomeada uma das “Dezcerimônia realizada na Catedral da Sé, em São mulheres do Ano de 1988”, por terPaulo, na qual, “pela primeira vez, sem 88 criado a Rede Grumin, inicialmentedistinção de raça, cor, credo, religião, assim chamada Grupo Mulher-Educação Indígena, ecomo diz a Constituição, foi rezada a primeira por ter participado ativamente na elaboraçãomissa brasileira” (p. 95). Com esse trecho, da Constituição brasileira do mesmo ano. AJecupé reivindica os direitos indígenas e o autora defende os direitos humanos dos povoscumprimento das normas constantes na indígenas em inúmeras conferências e palestrasConstituição de 1988, implicando que, se de que participa no país e no mundo. Emassim é o Brasil, diverso e multicultural, aquela 1992, seu livro A terra é a mãe do índio foitida como primeira missa de portugueses não premiado pelo PEN CLUB da Inglaterra, e elapoderia ser considerada “brasileira”. foi citada no documentário “Rota 66”, Após a realização desses dois passos realizado por Caco Barcelos para o Jornalimprevistos, o Anhangabaú-Opá acontece, é Nacional da rede Globo, em uma lista deum sucesso, estando todos os perdões “marcados para morrer”, devido a seu trabalhorepresentados em uma dança sob a chuva que de denúncia das explorações e violações deocorre como uma grande purificação em que direitos humanos que sofriam e sofrem osMboraí, o grande amor, é invocado. Contando povos indígenas do Brasil. No entanto, taisa sua história e a de sua passagem, Kaká Werá ameaças não impediram que seguisse em suaJecupé canta sua própria existência, lembrando- luta e, como parte dela, temos a publicação dese do guerreiro-sem-armas em si. É essa Metade Cara, Metade Máscara (2004), obralembrança que permite que passe que analisaremos a seguir.definitivamente a menononure, preparando-o Este livro faz parte da coleção Visõespara lutar, com as armas tradicionais e as Indígenas, organizada por Daniel Munduruku,palavras adquiridas, pela sobrevivência diretor-presidente do Inbrapi, o qual prefacia aindígena, combatendo o espírito desafiador do obra. Nas palavras de Munduruku, Visõesjaguar, assim como outros tantos índios Indígenas são uma maneira de externalizar ourbanos. olhar indígena, de dar voz aos “indígenas em movimento”. Esse termo é relacionado àquelesEliane Potiguara: uma sobrevivência feminina que participam de alguma forma do movimento indígena, definido pelo autor comoAmor, criação e sobrevivência “exercício de expressão da própria dor; momento de liberdade, ainda que ilusório, um Nascida em 1949, Eliane Potiguara é uma átimo de futuro”. O termo está portantoindígena descendente da tribo dos Potiguara, relacionado aos índios brasileiros que seos quais viviam no norte do Brasil antes que os investem na luta contra a simulação do índioexploradores dessas terras, nos anos de 1920, desaparecido, enfrentando as dificuldades quedizimassem grande parte desse povo, obrigando essa luta apresenta, encarando suas situaçõesos remanescentes a deslocarem-se para centros muitas vezes dolorosas e contribuindo para queurbanos. Licenciada em Letras, Potiguara é o indígena passe de objeto a sujeito de suaescritora e professora. Além disso, mantém um história, a fim de “deixar que o Outro seja”importante trabalho de cunho social, sendo (Munduruku, In: Potiguara, 2003: 15-6).
    • 40 Eliane Potiguara atesta sua voz já nas papel da mulher como geradora da vida emepígrafes que escolhe para sua obra, ressaltando contato com a Mãe Terra, é o caminho paraa “utilidade pública da poesia” e anunciando: dissolver uma situação que se criou a partir do“vou soltar minha voz num grito estrangulado, colonialismo. Em sua auto-história, a autorasufocado há cinco séculos”. Ela é parte, aponta dois momentos históricos fundamentaisportanto, dessa “literatura que expande seu para que se tenha chegado à solidão que hojegrito” mencionada por Graça Graúna em seu caracteriza a vida das mulheres indígenasprefácio à obra. Acreditando que “o indígena brasileiras.brasileiro não pode ser mais idolatrado na sua O primeiro deles é a batalha de 7 decultura e arte, nas suas fotografias, nas suas fevereiro de 1756 que, já dentro de umartes cinematográficas, nas suas expressões contexto de escravização e extermínio dosliterárias e orais e ser literalmente ignorado na povos indígenas, resultou no assassinato desua condição física, humana, social e política” Sepé Tiaraju e mais 10 mil índios guarani por(Potiguara, 2003: 95), a autora escreve uma parte dos exércitos português e espanhol.obra que, embora composta de maneira híbrida Deixando sua esposa Mariana com umae complexa, se preocupa mais com o conteúdo menina recém-nascida, Sepé Tiaraju morreue as modificações sociais que pode empreender marcando o início da solidão das mulheres,do que com a forma do texto. Diz ela: “para [...] “motivada pela violência, racismo e todas asa literatura burguesa eu misturo prosa e poesia. formas de intolerância, referentes inclusive àEu misturo verdade e reação. História e espiritualidade e à cultura indígenas”desabafo. Vida e voz indígena, a luta pela (Potiguara, 2003: 23).sobrevivência” (Potiguara, apud Graúna, In: O segundo momento é o período dos anosPotiguara, 2003: 18). de 1920, quando muitas terras indígenas Em Metade Cara, Metade Máscara, tradicionais no nordeste do país foramPotiguara escreve uma auto-história, ou seja, invadidas, obrigando as comunidades indígenasuma autobiografia mesclada com um relato da região a se deslocar para outras partes. Essehistórico apresentado a partir de seu ponto de relato é feito a partir de um ponto de vistavista e seu lugar no mundo. Em decorrência muito pessoal, incorporando na história dadisso, o texto é permeado por ensaios e família de Potiguara a história de muitas outrasprotestos sobre a condição social do indígena e famílias indígenas. Tendo seu bisavô sidotrechos narrativos sobre História e sua vida, os assassinado durante a invasão, assim comoquais são colocados tanto na forma de prosa muitos outros homens indígenas, as mulheresquanto na forma de poesia. da família se viram obrigadas a migrar para Na visão de Potiguara, assim como na dos grandes centros urbanos, no caso de sua avó otrês autores anteriormente analisados, não há Rio de Janeiro, onde foram vítimas daoutra forma de se atingir a sobrevivência no violência, da miséria e de estupros, nãoatual contexto que não seja a promoção de encontrando em muitos casos alternativas queconstantes processos de transculturação, não a prostituição.renegociação e ressemantização de Essa vida degradada na cidade grandeconhecimentos ancestrais e contemporâneos. causou muitos dos problemas sociais eNesse jogo, é fundamental ouvir as palavras dos psicológicos que até hoje assolam as vidas dosancestrais, assim como aquela dos idosos, povos indígenas brasileiros e especialmente dasdando-lhes uma nova interpretação que as mulheres indígenas; baixa auto-estima,torne relevantes em relação com os “tempos alienação cultural, perda da relação familiar,modernos”. Essa dualidade está, para ela, alcoolismo, uso de drogas, suicídio e outrostambém representada na dualidade da mulher comportamentos auto-destrutivos são parte daindígena, ao mesmo tempo mãe pacífica e vida de muitos indígenas atualmente.guerreira que protege a sobrevivência de sua No entanto, Potiguara ressalta diversas vezesfamília. ao longo de sua obra, assim como Jecupé, que a Assim como Paula Gunn Allen, Potiguara condição do índio urbano, acusado pelosacredita que a recuperação do ginocentrismo brancos de “não ser mais índio” por ter seoriginal dos povos indígenas, valorizando o afastado da floresta é em grande medida causa da colonização. Como maneira de lidar com
    • 41tais problemas, Potiguara, de maneira situação que é ainda muitas vezes obliteradasemelhante a Highway e Jecupé, encontra na pela sociedade dominante, a posição de não-produção artística um caminho para escapar vítima criativa. Quando fala do ato de criação,desse círculo vicioso. no entanto, a autora parece colocar-se ao lado Após o casamento com o cantor de origem de King, Highway e Jecupé em uma afirmaçãocharrua Taiguara, em 1978, e sob seu contundente da survivance indígena. Ela diz: “Éincentivo, Potiguara afirma que “fez o retorno preciso sorrir, é preciso criar quando estamosao inconsciente coletivo, visitando nações na luta pela sobrevivência e preservaçãoindígenas e perseguindo, sem medir esforços, a cultural, mesmo que nos arranquem os dentesverdadeira história de sua tão sacrificada, e a língua”.marginalizada e racificada família migrante do Também em acordo com os outros trêsnordeste brasileiro” (Potiguara, 2003: 27). Esse autores analisados nesta dissertação, Potiguaraprocesso de conscientização se completou afirma que “a criação é um ato divino quequando, em uma visita às terras ancestrais de tende a mudar consciências, formar opiniões,sua família na Paraíba, conheceu um velho suavizar o individualismo que ronda as mentes”índio Potyguara chamado Sr. Marujo, quem lhe (p. 58). Segundo ela, as mulheres indígenascontou a história de seus antepassados. “Com sobrevivem porque são criativas. Ao ligar aesse testemunho, agora sabedora de suas raízes, criatividade à mulher indígena e àtinha a certeza de que estava em casa e queria sobrevivência, Potiguara empreende uma ponteresgatar e preservar essa cidadania” (Potiguara, entre concepção e criação; “o ato de criação é2003: 27). um ato de amor. Amor a si mesmo, amor ao O trecho citado acima é muito importante próximo, amor à natureza. Seja criar um texto,na determinação da identidade indígena, uma música, uma pintura ou qualquer outraespecialmente quando relacionado à teoria de arte” (p. 57).Neal McLeod sobre o retorno ao lar. Estando a No poema Identidade Indígena, primeirosua aldeia física ocupada por imigrantes e poema de autoria indígena feminina de línguaplantações, sendo impossível o retorno físico a portuguesa a ser publicado (1975) e que aesse local, Potiguara encontra uma maneira de autora reproduz em Metade Cara, Metaderetornar a seu “lar ideológico”, ou seja, o Máscara, Potiguara afirma ser “uma agulha queespaço liminar em que se forma uma ferve no meio do palheiro”, mostrando que suaconsciência indígena necessariamente híbrida. revolta, apesar de isolada, é forte e capaz deEsse lar está muito bem expresso no poema “Eu contagiar os que estão junto a ela. Nessenão tenho minha aldeia”, o qual está colocado poema, em que fala da identidade indígena, deperto do fim da obra, denotando um encontro sua afirmação e de seu fortalecimento,que foi buscado durante toda a auto-história de Potiguara ressalta a idéia do amor como meio ePotiguara: resultado para a sobrevivência indígena. Eu não tenho minha aldeia/Minha aldeia é Assim, os lares são transformados emminha casa espiritual/Deixada pelos meus pais “aldeias de amor” e os bebês são descritos comoe avós/A maior herança indígena./Essa casa “guerreiros do futuro”. Nessa recusa da morte,espiritual/É onde vivo desde tenra idade/Ela acompanhada da afirmação do amor àme ensinou os verdadeiros valores/ Da identidade, a autora coloca a fecundidade e aespiritualidade/Do amor/Da solidariedade/E criatividade da mulher indígena comodo Verdadeiro significado/Da tolerância. elementos complementares, sem os quais É apenas após esse reencontro com sua sobreviver seria impossível.“casa espiritual” que Potiguara encontra a Poderíamos dizer, portanto, que, sendo amotivação que lhe faltava para engajar-se mais escrita um ato criativo de amor, ela anda lado aativamente no movimento indígena e, como lado com esses lindos bebês indígenas,parte de seu trabalho político, começar a “guerreiros do futuro” no engendramento deescrever. A autora apresenta em sua obra um futuro em que cada vez mais os indígenasrelatos e poemas ainda muito presos à estarão, como quer Munduruku, “emdenúncia da vitimização das populações movimento”.indígenas, não tendo atingido, talvez por causade sua preocupação em denunciar uma
    • 42Cunhataí e Jurupiranga: uma sobrevivência são freqüentemente colocadas em situações depara além dos tempos amor espiritual e carnal, as quais atestam a fecundidade da mulher indígena e a Entremeada na auto-história de Potiguara continuidade e multiplicação desses povos.está um poema sobre Cunhataí e Jurupiranga – Após serem separados, encontramos muitosdois amantes cuja história atemporal não poemas em que Cunhataí lamenta sua dor epossui localização específica. Esse poema serve solidão. O importante, no entanto, é que nãocomo uma espécie de espinha dorsal ao texto há de maneira nenhuma aceitação dessade Potiguara, reencenando para além do tempo posição vitimada e inferiorizada. Os poemase do espaço as problemáticas destacadas pela sempre destacam que ela é uma mulherautora em sua narração. guerreira, preparada para muita luta e que diz Além disso, Cunhataí serve, a exemplo do “não” à morte da família e ao fim daJeremiah Okimasis de Highway, como uma identidade indígena. Essa é, portanto, umaespécie de alter ego ficcional para Potiguara, o história sobre o resgate de raízes, como atestaqual destaca e amplia o que conta de sua vida. Potiguara: A separação entre narradora e personagem Na realidade, a simbologia de Cunhataíse faz muitas vezes ambígua durante o texto, demonstra o compromisso que ela tem comvisto que narra histórias de sua vida em terceira todas as mulheres indígenas do Brasil. Sua dor,pessoa, deixando incerto se conta sobre si sua insatisfação e consciência de mulher é aprópria ou sobre Cunhataí. mesma trazida pelas mulheres guerreiras dos Assim como Potiguara, Cunhataí possui em tempos atuais, que ora se organizam. Cunhataíseu rosto uma marca de nascença no formato tem os olhos da águia, Cunhataí tem ade uma folha de jenipapo. Motivo de vergonha memória dos elefantes. Cunhataí tem as pernasna infância, se revela, com o passar de um alce, velozes como as éguas. Cunhataídos anos e a aquisição de conhecimentos sobre vislumbra o novo, apesar de sua angústia e quera tradição indígena, uma marca de saber onde está o seu amor, desaparecido porsobrevivência e ancestralidade: ação do colonizador. Cunhataí reconhece que O branco ria e incutia maus valores em as bases de suas tradições indígenas só serãoalguns membros do povo... A semente ferida e preservadas quando sua família estiver unida,mutilada nasceu triste e com uma estrela no física e moralmente. Cunhataí sai pelas matas,olho direito. Era Cunhataí. Foi o lado direito pelos céus, pelos rochedos, pelas montanhas,que quase morreu. Só ficou roxo como uma rios e lagos buscando suas raízes fragmentadas emarca, “um sinal” e sobreviveu para ouvir os fragilizadas pelo colonizador de todos osespíritos, os antepassados e as velhas mulheres tempos (Potiguara, 2003: 69-70).enrugadas pelos séculos (Potiguara, 2003: 67). Essa busca pelas raízes ancestrais, ainda que Cunhataí e Jurupiranga são apresentados no com angústia, não deixa de fora o novo, pois,poema Ato de amor entre povos, datado de como dissemos, é apenas através de novas1982 e reproduzido em Metade Cara, Metade aplicações do tradicional – da “comunhão daMáscara. Essas personagens são nova e avançada tecnologia, utilizada porsobreviventes do processo de colonização e alguns indígenas com as tecnologias e tradiçõesremoção dos povos indígenas, os quais indígenas, onde o diálogo entre jovens e velhossimbolizam a família indígena e o amor, [é] uma realidade” (p. 129) – que se podeindependentemente de tempo, local ou espaço. atingir a sobrevivência.De Quando Cunhataí apercebe-se de suaacordo com a autora, essas personagens podem cultura e ancestralidade, então Jurupiranga dáhabitar tanto o espaço onírico quanto o físico, sinais de vida e retorno, pois “só a valorizaçãopodem mudar de nome, ir e voltar no tempo e dos ancestrais e das tradições trarão aespaço. Poderíamos, portanto, dizer que perpetuação das culturas” (p. 121). Com esseCunhataí e Jurupiranga são os tricksters do texto conhecimento, Cunhataí organiza uma festade Potiguara, personagens metamórficas que para o retorno de Jurupiranga à qual todos osmedeiam os mundos espiritual e real. povos indígenas brasileiros e estrangeiros são Desde que são apresentadas, as personagens convidados. Jurupiranga retorna após andar pelas
    • 43Américas e ver imagens dolorosas como a lágrimas do casal, síntese de toda a alegria edestruição da natureza e a violência entre seres tristeza que marcam a família indígena. A obrahumanos. Esse conhecimento, no entanto, termina de forma circular, com trechos dojunto a um sonho em que vê a universidade poema Ato de amor entre povos, apresentadoindígena e o respeito aos índios como uma ao início. Esses trechos, no entanto, não sãorealidade, o fortalece para o retorno. A isso se uma reprodução do passado retomado, masassociam também as memórias do passado: uma composição nova, formada a partir dos “Forte, renascido, encontrou forças, por fragmentos das raízes que puderam sermeio das lembranças de suas histórias, de seus recuperados. Em uma homenagem a todas asancestrais e de sua cultura e pôde encontrar o mulheres indígenas, e a seu papel de guerreirascaminho de volta de onde saíra, há cinco protetoras da sobrevivência da família indígena,séculos atrás” (Potiguara, 2003: 130). Potiguara nomeia esse novo poema O retorno ao lar representa aí um reparo da “Cunhataí”.família indígena e das condições em que seencontrara nos “cinco séculos” que se passaram Fontes: Textos extraídos de:desde o início do processo de colonização. WESTPHALEN, Flávia Carpes. Survivance: A Sobrevivência nasCunhataí, apesar de esperar ansiosa por seu Literaturas Indígenas do Canadá e do Brasil. Dissertação demarido, não participa da cerimônia de Mestrado em Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre/RS: 2007.recepção, dormindo um sono que representa odescanso da mulher indígena após tantos anos ALMEIDA, Sandy Anne Czoupinski. Histórias de Índio, de Daniel Munduruku, e Will’s Garden, de Lee Maracle: Afirmando ade solidão. Identidade Indígena pela Literatura. Monografia do curso de Além disso, suas carnes secas e suas peles Letras, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes daenrugadas retomam o viço na união das Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008. Lygia Fagundes Telles A Chave na Porta A chuva fina. E os carros na furiosa Sininho? Ah! é claro, o própriodescida pela ladeira, nenhum táxi? A noite tão Sininho, um antigo colega da Faculdade, oescura. E aquela árvore solitária lá no fim da simpático Sininho! Tinha o apelido de Sinorua, podia me abrigar debaixo da folhagem mas porque estava sempre anunciando algumaonde a folhagem? Assim na distância era visível novidade. Era burguês mas dizia-se anarquista.apenas o tronco com os fios das pequeninas — Sininho, é você!luzes acesas, subindo em espiral na decoração Ele abriu a porta e o sorrisonatalina. Uma decoração meio sinistra, pensei. branquíssimo, de dentinhos separados.E descobri, essa visão lembrava uma chapa — Um milagre, eu disse enquantoradiográfica revelando apenas o esqueleto da afundava no banco com a bolsa e os pequenosárvore, ah! tivesse ela braços e mãos e seria bem pacotes. Como conseguiu me reconhecer nestacapaz de arrancar e atirar longe aqueles fios treva?que deviam dar choques assim molhados. — Estes faróis são poderosos. E olha — Quer condução, menina? que já lá vão quarenta anos, menina. Quarenta Recuei depressa quando o carro anos de formatura! Aspirei com prazer aarrefeceu a marcha e parou na minha frente, fumaça do cachimbo e que se misturava ao seuele disse menina? O tom me pareceu familiar. próprio perfume, alfazema? E não parecia terInclinei-me para ver o motorista, um homem envelhecido muito, os cabelos estavamgrisalho, de terno e gravata, o cachimbo aceso grisalhos e a face pálida estava vincada mas ono canto da boca. Mas espera, esse não era o sorriso muito claro não era o mesmo? E me
    • 44chamava de menina, no mesmo tom daqueles ele matriculou o filho num colégio, tiveram umtempos. Acendi um cigarro e estendi filho. E em plena depressão ainda passou porconfortavelmente as pernas, mas espera, esse aquela estação no inferno, quando teve umacarrão antiquado não era o famoso Jaguar que ligação com uma mulher casada. Um amor tãogostava de exibir de vez em quando? atormentado, tão louco, ele acrescentou. — O próprio. Vivemos juntos algum tempo, ela também me Fiquei olhando o belo painel com o amava mas acabou voltando para o marido quepequeno relógio verde embutido na madeira não era marido, descobri mais tarde, era oclara. próprio pai. — Você era rico e nós éramos pobres. E — O pai?!ainda por cima a gente lia Dostoievski. — Um atroz amor de perdição. Fiquei — Humilhados e ofendidos! destrambelhado, desandei a beber e sem outra Rimos gostosamente, não era mesmo saída aceitei o que me apareceu, fui lecionaruma coisa extraordinária? Esse encontro numa pequena cidade afastada de Londres.inesperado depois de tanto tempo. E em plena Um lugar tão modesto mas deslumbrante.noite de Natal. Contei que voltava de uma Deslumbrante, ele repetiu depois de um brevereunião de amigos, quis sair furtivamente e acesso de tosse. Nos fins de semana viajavapara não perturbar inventei que tinha para visitar o filho mas logo voltava tãocondução. Quando começou a chuva. ansioso. Fiquei muito amigo de um abade —Acho essas festas tão deprimentes, eu velhíssimo, Dom Matheus. Foi ele que me deudisse. a mão. Conversávamos tanto nas nossas Ele então voltou-se para me ver andanças pelo vasto campo nas redondezas domelhor. Dei-lhe o meu endereço. No farol da mosteiro. Recomecei minhas leituras quandoesquina ele voltou a me olhar. Passou de leve a fui morar no mosteiro e lecionar numa escolamão na minha cabeça mas não disse nada. fundada pelos religiosos, meus alunos eramGuiava como sempre, com cuidado e sem a camponeses.menor pressa. Contou que voltava também de — Você não era ateu?uma reunião, um pequeno jantar com colegas — Ateu? Era apenas um sermas acrescentou logo, eram de outra turma. completamente confuso, enredado em teiasTentei vê-lo através do pequeno espelho que me tapavam os olhos, os ouvidos… Fiqueientortado, mas não era incrível? Eu me sentir por demais infeliz com o fim do meuassim com a mesma idade daquela estudante casamento e não me dei conta disso. E logo emda Academia. Outra vez inteira? Inteira. E seguida aquele amor que foi só atormentação.também ele com o seu eterno carro, meu Deus! Sofrimento. Aos poucos, na nova vida tãona noite escura tudo parecia ainda igual ou simples em meio da natureza eu fuiquase. Ou quase, pensei ao ouvir sua voz um encontrando algumas respostas, eram tantas astanto enfraquecida, rateando como se viesse de minhas dúvidas. Mas o que eu estou fazendoalguma pilha gasta. Mas resistindo. aqui?! me perguntava. Que sentido tem tudo — Quarenta anos como se fossem isto? Ficava muito em contato com os bichos,quarenta dias, ele disse. Você usava uma boina. bois. Carneiros. Fui então aprendendo um — Sininho, você vai achar isso estranho jogo que não conhecia, o da paciência. E nessemas tive há pouco a impressão de ter aprendizado acabei por descobrir… (fez umarecuperado a juventude. Sem ansiedade, ô! que pausa) por descobrir…difícil e que fácil ficar jovem outra vez. Saímos de uma rua calma para entrar Ele reacendeu o cachimbo, riu numa travessa agitada, quase não entendia obaixinho e comentou, ainda bem que não que ele estava dizendo, foi o equilíbrio interiorhavia testemunhas dessa conversa. A voz ficou que descobriu ou teria falado em Deus?mais forte quando recomeçou a falar em meio — Depois do enterro de Domdas pausas, tinha asma? Contou que depois da Matheus, despedi-me dos meus amigos, fuiformatura foi estudar na Inglaterra. Onde buscar meu filho que já estava esquecendo aacabou se casando com uma colega da língua e voltei para o Brasil, a gente sempreuniversidade e continuaria casado se ela não volta. Voltei e fui morar sabe onde? Naquelativesse inventado de se casar com outro. Então
    • 45antiga casa da rua São Salvador, você esteve lá bolsa estava a minha chave. Será que elanuma festa, lembra? podia?… — Mas como podia esquecer? Uma casa A mulher me examinou com o olharde tijolinhos vermelhos, a noite estava fria e severo. Mas que história era essa se o patrãovocês acenderam a lareira, fiquei tão fascinada nem tinha saído e já estava até se recolhendoolhando as labaredas. Me lembro que quando com a mulher e os gêmeos? Carro prateado?atravessei o jardim passei por um pé de Como esqueci a bolsa num carro prateado semagnólia todo florido, prendi uma flor no na garagem estavam apenas os carros decabelo e foi um sucesso! Ah, Sininho, voltou sempre, o bege e o preto?para a mesma casa e este mesmo carro… — Decerto a senhora errou a casa, Ele inclinou-se para ler a tabuleta da dona, ela disse e escondeu a boca irônica narua. Empertigou-se satisfeito (estava no gola do uniforme. Em noite de tanta festa acaminho certo) e disse que os do signo de gente faz mesmo confusão…Virgem eram desse jeito mesmo, conservadores Tentei aplacar com as mãos os cabelosnos hábitos assim no feitio dos gatos que que o vento desgrenhou.simulam um caráter errante mas são — Espera, como é o nome do seucomodistas, voltam sempre aos mesmos patrão?lugares. Até os anarquistas, acrescentou — Doutor Glicério, ora. Doutorzombeteiro em meio de uma baforada. Glicério Júnior. Tinha parado de chover. Apontei-lhe o — Então é o pai dele que estouedifício e nos despedimos rapidamente porque procurando, estudamos juntos. Mora nestaa fila dos carros já engrossava atrás. Quis dizer- rua, um senhor grisalho, guiava um Jaguarlhe como esse encontro me deixou prateado…desanuviada mas ele devia estar sabendo, eu A mulher recuou fazendo o sinal-da-não precisava mais falar. Entregou-me os cruz:pacotes. Beijei sua face em meio da fumaça — Mas esse daí morreu faz tempo, meuazul. Ou azul era a névoa? Deus! É o pai do meu patrão mas ele jáQuando subia a escada do edifício, dei por morreu, fui até no enterro… Ele já morreu!falta da bolsa e lembrei que ela tinha caído no Fechei o casaco e fiquei ouvindochão do carro numa curva mais fechada. minha voz meio desafinada a se enrolar nasVoltei-me. Espera! cheguei a dizer. E o Jaguar já desculpas, tinha razão, as casas desse bairroseguia adiante. Deixei os pacotes no degrau e eram muito parecidas, Devo ter me enganado,fiquei ali de braços pendidos: dentro da bolsa é evidente, fui repetindo enquanto ia recuandoestava a chave da porta, eu não podia entrar. até o táxi que me esperava.Através do vidro da sua concha, o porteiro me O motorista tinha o rádio ligado numaobservava. E me lembrei de repente, rua São música sacra. Pedi-lhe que voltasse para oSalvador! Apontei para o porteiro os meus ponto.pacotes no chão e corri para o táxi que acabava Já estava na escada do edifício quandode estacionar. o porteiro veio ao meu encontro para avisar — É aqui! Quase gritei assim que vi o que um senhor tinha vindo devolver a minhabangalô dos tijolinhos. Antes de apertar a bolsa:campainha, fiquei olhando a casa ainda — Não é esta?iluminada. Não consegui ver a garagem lá no Fiz que sim com a cabeça. Quandofundo, mergulhada na sombra mas vislumbrei consegui falar foi para dizer, Ah! que bom.o pé de magnólia, sem as flores mas firme no Abri a bolsa e nela afundei a mão mas algumameio do gramado. Uma velhota de uniforme coisa me picou o dedo. Fiz nova tentativa eveio vindo pela alameda e antes mesmo que ela dessa vez trouxe um pequeno botão de rosa,fizesse perguntas, já fui me desculpando, um botão vermelho enredado na correntinhalamentava incomodar assim tarde da noite mas do chaveiro. Na extremidade do cabo curto, oo problema é que tinha esquecido a bolsa no espinho. Pedi ao porteiro que depois levasse oscarro do patrão, um carro prateado, devia ter pacotes e subi no elevador.entrado há pouco. Ele me deu carona e nessa Quando abri a porta do apartamento tive o vago sentimento de que estava abrindo
    • 46uma outra porta, qual? Uma porta que eu não pelo tronco enegrecido. Mas não era mais asabia onde ia dar mas isso agora não tinha visão sinistra da radiografia revelando na névoaimportância. Nenhuma importância, pensei e o esqueleto da árvore, ao contrário, ofiquei olhando o perfil da chave na palma da espiralado fio das pequeninas luzes me fezminha mão. Deixei-a na fechadura e fui pensar no sorriso dele, luminoso de tãomergulhar o botão no copo d’água. Agora branco.desabrocha! pedi e toquei de leve na corolavermelha. Fonte: Invenção e Memória. RJ: Editora Rocco, 2000, pág. 89. Debrucei-me na janela. Lá embaixo na Disponível em http://www.releituras.com/rua, a pequena árvore (parecida com a outra)tinha a mesma decoração das luzes em espiral Nany Schneider Livro de Poesias EMBALOS DE LUZ Dão forças às águas escuras de teus sentimentos… Sem ao menos esperar, Beba-as !! Puxa-me pela mão e enlaça nossos corpos, Se os destroços de sonhos dourados Para que juntos possamos sentir a harmonia, Constroem teu reino de sadismo… Daquele som que inebria. Aproveite-os !! Pela madrugada escura, brilha a luz desses Pois os teus desejos pequenos, momentos. Não alcançam a plenitude do amor…Pois deles sempre renasce, a sensação violenta Pois a tua indiferença ingrata, do amor. Não conhece a extensão da doação… Dançando sobre o tapete, pés descalços, só o Teu caminho é calçado, na esperança toque. destruída… Sentindo mais e mais a proximidade que nos Teu leito é forrado, de amarguras e solidão… envolve. Pobre de teu reino pobre !!!Essa é a dança da luz, luz que vem do coração. Teu cetro de egoísmo, se erguerá ao nada… Só a música quebra o silêncio, dos beijos E no meio de tanta angústia… apaixonados. Lembrarás, tardiamente, que um dia… Dança da luz, onde estrelas descem para Foste a razão de viver, de alguém… acompanhar, A pureza de sentimentos, da beleza desse par. IMPOSSÍVEL!!!? Luz que dança a nossa volta, Luz que está dentro de nós. O que na vida será impossível, senhor? Luz que embala nossos passos, Se tiver um amor para amar…Nesta dança que me faz tão sua em seus braços. O que pode tornar-se impossível, Senhor? Se aquela pessoa ficar… REI DO NADA O que pode chamar de impossível, Senhor? Se a alegria de um sonho viver… Se a dor que hoje causas, Como pode achar impossível, Senhor? Faz bem à tua alma perversa… Tendo amor em cada amanhecer… Alegra-te !! Não há nada que o faça impossível, Senhor. Se as lágrimas que fazes correr, Pois da terra é o florescer….
    • 47 Nunca diga que é impossível, Senhor… O outro lado rompe barreiras ao que procuro. É meu ar, da manhã ao anoitecer… Há um lado de mim que ruma perdido pelo Por isso tudo não é impossível, Senhor… céu. Nesta vida jamais se sentir dor… O outro encontra a paz na terra. É possível que a tristeza me leve, Senhor… Um lado de mim esconde medos, Se de mim, afastar-se esse amor…. inseguranças. O outro vê o futuro entre doces véus. CIRANDA DA FELICIDADE Há um lado de mim que em desvantagem. O outro é forte, leonino, em eterna luta. Cria no amor a criatura, Um lado de mim permanece sombrio. que criará a ciranda. O outro grita em voz límpida a coragem. Ciranda da vida criada, Há sempre dois lados nessa vida irreal. da cantiga entoada. Há sempre dois gumes nessa afiada adaga. Cria no perdão a vivência, Há sempre dois caminhos a escolher viver. que transita pelo eterno. Há sempre dois lados no amplo espelho moral. Retira do mundo a carência, do louco viver moderno. ILUSÃO Cria na mente a lembrança, dos pés descalços, da liberdade. Ilusão é sonhar um sonho perfeito, Cirandando como herança, Querendo guardar no peito, a sensação do seu Uma semente de felicidade. sono? Ilusão é sonhar acordada, ENTÃO, CARNAVAL! Cada gesto perfeito, do seu modo protetor? Ilusão é se pegar pensando, Chega outra vez a alegria de tantos, Na maneira de você respirando, olhando a me A espera trabalhosa dos sonhos da avenida. chamar? Montam-se verdadeiros cenários, madeira, Se tudo o que vivo é ilusão, papel, lantejoulas… Permita, meu Deus que seja eterna. Bordam-se os panos da bandeira, fantasias e Que nunca, nunca termine, mantos. Essa linda sensação. Ensaia sonhando em encantos, a cabrocha escolhida. JANGADA DA DORCom seu par tão bem formulado, dança, seduz, tão brejeira… Na madrugada dos sentimentos, Cheios de evoluções, cada um tomando Parte a débil jangada da esperança. cuidado, para melhor demonstrar, Com a coragem ingênua em proventos, O requinte apaixonado, do Mestre-Sala e sua Inspirada pelo sonhar de mudança. Porta-Bandeira. Acolhida pelas águas inconstantes, Mas mesmo com tanta magia, tanto samba e De um mar de humor caprichoso. dedicação… Deixa para trás rostos em nuances,O coração da saudade, não deixa de relembrar, Procurando provável futuro ardiloso. A história meiga e antiga, tão cheia de Não pensa o que deixa, tola jangada, emoção… Parte em busca de um horizonte qualquer. De um tristonho Pierrot e sua linda Não vê que a maré a mudanças é dada, Colombina, Não vê a tempestade em andamento, sequer. Em todos os carnavais, presentes na eterna Jangada que procura vida sem pensar, canção. Encontra na próxima vaga de um mar revolto, Pedaços de felicidade jogados a boiar, DOIS LADOS DE MIM Estilhaços do amor que ao vento foi solto. Não sabe se volta jangada amargura.Há um lado de mim que se mostra frio, escuro. Não sabe se algo vai encontrar. O outro lado recria a aurora de esperança. Esquece da praia onde ficou a doçura, Um lado de mim claudica por vielas. Por dias e dias a lhe esperar.
    • 48 Assim vai a jangada, agora sem rumo. Desenhista, fazendo cursos de aperfeiçoamento Assim entra a renúncia salgada do mar. e estudante extra-curricular de japonês e Agora sabe que é jangada sem prumo. alemão. Agora sente a dor infinita do desamar. Tem como formação psicologia/ parapsicologia/professora, atuando hoje, como SONHO escritora, webmistress e designer. Possui e-books presenteados por grandes De tão reais nossos sonhos, formatadores e escritores e poemas traduzidos O véu do passado desvendou. em vários idiomas. Desvendou o amor torturado, Tem como site, seu BETTY BOOP STAR, De puro coração arrancado. onde lança escritores amadores e mantém uma Mas a vida não é cega. gama imensa de poemas e mensagens para Nem o tempo, sem razão. divulgação da cultura. Da espera fez-se o encanto, Seus poemas podem ser encontrados em vários Do encontro, pura emoção. sites famosos, como Castillo Sekher, Locura Poética,Sokarinhos, Ligia Tomarchio e outros. Possui membresia como ‘Dama de Honra’ em Castillo Sekher e em Puent de La Amistad. NANY SCHNEIDER nasceu e vive Sua luta é pela divulgação cultural, ajudaem Curitiba capital do Paraná, Brasil. espiritual de irmãos em sofrimento e à Escreve desde pequena, sempre proteção dos animais por diversas ONGS.participando ativamente de movimentos Fonte:literários. Poetas Del Mundo http://www.bettyboopstar.com.br/ Lima Barreto Um Músico Extraordinário Quando andávamos juntos no colégio, Nenhum colega o entendia, mas todos oEzequiel era um franzino menino de quatorze estimavam, porque era bom, tímido eou quinze anos, triste, retraído, a quem os generoso. E porque ninguém o entendessefolguedos colegiais não atraíam. Não era visto nem as suas leituras, ele vivia consigo mesmo;nunca jogando “barra, carniça, quadrado, e, quando não estudava as lições de que davapeteca”, ou qualquer outro jogo dentre aqueles boas contas, lia seu autor predileto.velhos brinquedos de internato que hoje não Quem poderia pôr na cabeça daquelasse usam mais. O seu grande prazer era a leitura crianças fúteis pela idade e cheias de anseios dee, dos livros, os que mais gostava eram os de carne para a puberdade exigente o sonho que oJules Verne. Quando todos nós líamos José de célebre autor francês instila nos cérebros dosAlencar, Macedo, Aluísio e, sobretudo, o meninos que se apaixonam por ele, e oinfame Alfredo Gallis, ele lia a Ilha Misteriosa, bálsamo que os seus livros dão aos delicadoso Heitor Servadac, as Cinco Semanas em um que prematuramente adivinham a injustiça e aBalão e, com mais afinco, as Vinte Mil Léguas brutalidade da vida?Submarinas. O que faz o encanto da meninice não Dir-se-ia que a sua alma ansiava por é que essa idade seja melhor ou pior que asestar só com ela mesma, mergulhada, como o outras. O que a faz encantadora e boa é que,Capitão Nemo do romance vernesco, no seio durante esse período da existência, nossado mais misterioso dos elementos da nossa capacidade de sonho é maior e mais forçamisteriosa Terra. temos em identificar os nossos sonhos com a
    • 49nossa vida. Penso, hoje, que o meu colega das ambições dos nortistas, dos sulistas e dos…Ezequiel tinha sempre no bolso um canivete, cariocas.no pressuposto de, se viesse a cair em uma ilha Sentei-me nos primeiros bancos; e jádeserta, possuir à mão aquele instrumento havia passado o Lírico e entrávamos na Ruaindispensável para o imediato arranjo de sua Treze de Maio quando, no banco atrás do meu,vida; e aquele meu outro colega Sanches se levantou uma altercação com o condutor,andava sempre com uma nota de dez tostões, uma dessas vulgares altercações comuns nospara, no caso de arranjar a “sua” namorada, ter nossos bondes.logo em seu alcance o dinheiro com que lhe — Ora, veja lá com quem fala! diziacomprasse um ramalhete. um. Era, porém, falar ao Ezequiel em — Faça o favor de pagar a suaHeitor Servadac, e logo ele se punha passagem, retorquia o recebedor.entusiasmado e contava toda a novela do — Tome cuidado, acudiu o outro. Olhemestre de Nantes. Quando acabava, tentava que não trata com nenhum cafajeste! Veja lá!então outra; mas os colegas fugiam um a um, — Pague a passagem, senão o carro nãodeixavam-no só com o seu Jules Verne, para segue.irem fumar um cigarro às escondidas. E como eu me virasse por esse tempo a Então, ele procurava o mais afastado ver melhor tão patusco caso, dei com ados bancos do recreio, e deixava-se ficar lá, só, fisionomia do disputador que me pareceuimaginando, talvez, futuras viagens que havia vagamente minha conhecida. Não tive de fazerde fazer, para repassar as aventuras de Roberto esforços de memória. Como uma ducha, eleGrant, de Hatteras, de Passepartout, de me interpelou desta forma:Keraban, de Miguel Strogoff, de Cesar — Vejas tu só, Mascarenhas, como sãoCascavel, de Philéas Fogg e mesmo daquele as cousas! Eu, um artista, uma celebridade,curioso doutor Lindenbrock, que entra pela cujos serviços a este país são inestimáveis, vejo-cratera extinta de Sueffels, na desolada me agora maltratado por esse brutamonte queIslândia, e vem à superfície da Terra, num exige de mim, desaforadamente, a paga de umaascensor de lavas, que o Estrômboli vomita nas quantia ínfima, como se eu fosse da laia dosterras risonhas que o Mediterrâneo afaga… que pagam. Saímos do internato quase ao mesmo Àquela voz, de súbito, pois ainda nãotempo e, durante algum, ainda nos vimos; mas, sabia bem quem me falava, reconheci obem depressa, perdemo-nos de vista. homem: era o Ezequiel Beiriz. Paguei-lhe a Passaram-se anos e eu já o havia de passagem, pois, não sendo celebridade, nemtodo esquecido, quando, no ano passado, vim artista, podia perfeitamente e sem desdouroa encontrá-lo em circunstâncias bem singulares. pagar quantias ínfimas; o veículo seguiu Foi em um domingo. Tomei um pacatamente o seu caminho, levando o meubonde da Jardim, aí, na avenida, para visitar espanto e a minha admiração pelaum amigo e, com ele, jantar em família. Ia ler- transformação que se havia dado nome um poema; ele era engenheiro hidráulico. temperamento do meu antigo colega de Como todo o sujeito que é rico ou se colégio. Pois era aquele parlapatão, o tímidosupõe ou quer passar como tal, o meu amigo Ezequiel?morava para as bandas de Botafogo. Pois aquele presunçoso que não era da Ia satisfeito, pois de há muito não me laia dos que pagam era o cismático Ezequiel doperdia por aquelas bandas da cidade e me colégio, sempre a sonhar viagens maravilhosas,aborrecia com a monotonia dos meus dias, à Jules Verne? Que teria havido nele? Ele mevendo as mesmas paisagens e olhando sempre pareceu inteiramente são, no momento e paraas mesmas fisionomias. Fugiria, assim, por sempre.algumas horas, à fadiga visual de contemplar as Travamos conversa e mesmo amontanhas desnudadas que marginam à procurei, para decifrar tão interessante enigma.Central, da estação inicial até Cascadura. — Que diabo, Beiriz! Onde tensMorava eu nos subúrbios. Fui visitar, portanto, andado? Creio que há bem quinze anos queo meu amigo, naquele Botafogo catita, Meca não nos vemos – não é? Onde andaste?
    • 50 — Ora! Por esse mundo de Cristo. A — Isto durante muito tempo?última vez que nos encontramos… Quando foi — Algum. Conto-te o resto. Já memesmo? dispunha a experimentar o funcionalismo, — Quando eu ia embarcar para o quando, certo dia, descendo as escadas de umainterior do Estado do Rio, visitar a família. secretaria, onde fui levar um pistolão, — É verdade! Tens boa memória… encontrei um parente afastado que as subia.Despedimo-nos no Largo do Paço… Ias para Deu-me ele a notícia da morte do meu tio ricoMuruí – não é isso? que me pagava colégio e, durante alguns anos, — Exatamente. me dera pensão; mas, ultimamente, a tinha — Eu, logo em seguida, parti para o suspendido, devido, dizia ele, a eu nãoRecife a estudar direito. esquentar lugar, isto é, andar de escola em — Estiveste lá este tempo todo? escola, de profissão em profissão. — Não. Voltei para aqui, logo de dois — Era solteiro esse seu tio?anos passados lá. — Era, e, como já não tivesse mais pai — Por quê? (ele era irmão de meu pai), ficava sendo o seu — Aborrecia-me aquela “chorumela” de único herdeiro, pois morreu sem testamento.direito… Aquela vida solta de estudantes de Devido a isso e mais ulteriores ajustes com aprovíncia não me agradava… São vaidosos… A Justiça, fiquei possuidor de cerca de duassociedade lhes dá muita importância, daí… centenas e meia de contos. — Mas, que tinhas com isso? Fazias — Um nababo! Hein?vida à parte… — De algum modo. Mas escuta. filho! — Qual! Não era bem isso o que eu Possuidor dessa fortuna, larguei-me para asentia… Estava era aborrecidíssimo com a Europa a viajar. Antes – é preciso que saibas –natureza daqueles estudos… Queria outros.. fundei aqui uma revista literária e artística – — E tentaste? Vilhara – em que apresentei as minhas idéias — Tentar! Eu não tento; eu os faço… budistas sobre a arte, apesar do que nelaVoltei para o Rio a fim de estudar pintura. publiquei as cousas mais escatotógicas — Como não tentas, naturalmente… possíveis, poemetos ao suicídio, poemas em — Não acabei. Enfadou-me logo tudo prosa à Venus Genitrix, junto com sonetos,aquilo da Escola de Belas-Artes. cantos, glosas de cousas de livros de missa de — Por quê? meninas do colégio de Sion. — Ora! Deram-me uns bonecos de —Tudo isto de tua pena?gesso para copiar… Já viste que tolice? Copiar — Não. A minha teoria era uma e a dabonecos e pedaços de bonecos… Eu queria a revista outra, mas publicava as cousas maiscousa viva, a vida palpitante… antagônicas a ela, porque eram dos amigos. — É preciso ir às fontes, começar pelo — Durou muito a tua revista?começo, disse eu sentenciosamente. — Seis números e custaram-me muito, — Qual! Isto é para toda gente… Eu pois até tricromias publiquei e hás devou de um salto; se erro, sou como o tigre adivinhar que foram de quadros contrários aodiante do caçador – estou morto! meu ideal búdico. Imagina tu que até estampei — De forma que… uma reprodução dos “Horácios”, do idiota do — Foi o que me aconteceu com a David!pintura. Por causa dos tais bonecos, errei o — Foi para encher, certamente?salto e a abandonei. Fiz-me repórter, jornalista, — Qual! A minha orientação nuncadramaturgo, o diabo! Mas, em nenhuma dessas dominou a publicação… Bem! Vamos adiante.profissões dei-me bem… Todas elas me Embarquei quase como fugido deste país emdesgostavam… Nunca estava contente com o que a estética transcendente da renúncia, doque fazia… Pensei, de mim para mim, que aniquilamento do desejo era tão singularmentenenhuma delas era a da minha vocação e a do traduzida em versos fesceninos e escatológicosmeu amor; e, como sou honesto e em quadros apologéticos da força da guerra.intelectualmente, não tive nenhuma dor de Fui-me embora!coração em largá-las e ficar à-toa, vivendo ao — Para onde?deus-dará.
    • 51 — Pretendia ficar em Lisboa, mas, em —Tu sabias música?caminho, sobreveio uma tempestade;. e deu-me — Não. Mas, continuei a viagem atévontade, durante ela, de ir ao piano. Esperava Hamburgo, em cujo conservatória meque saísse o “bitu”; mas, qual não foi o meu matriculei. Não me dei bem nele, passei para oespanto, quando de sob os meus dedos surgiu e de Dresde, onde também não me dei bem.ecoou todo o tremendo fenômeno Procurei o de Munique, que não me agradou.meteorológico, toda a sua música terrível… Ah! Freqüentei o de Paris, o de Milão…Como me senti satisfeito! Tinha encontrado a — De modo que deves estar muitominha vocação… Eu era músico! Poderia profundo em música?transportar, registrar no papel e reproduzi-los Calou-se meu amigo um pouco e logoartisticamente, com os instrumentos respondeu:adequados, todos os sons, até ali intraduzíveis — Não. Nada sei, porque nãopela arte, da Natureza. O bramido das grandes encontrei um conservatório que prestasse.cachoeiras, o marulho soluçante das vagas, o Logo que o encontre, fica certo que serei umganido dos grandes ventos, o roncar divino do músico extraordinário. Adeus, vou saltar.trovão, estalido do raio – todos esses ruídos, Adeus! Estimei ver-te.todos esses sons não seriam perdidos para a Saltou e tomou por uma ruaArte; e, através do meu cérebro, seriam postos transversal que não me pareceu ser a da suaem música, idealizados transcendentalmente, a residênciafim de mais fortemente, mais intimamente Fonte: http://www.biblio.com.brprender o homem à Natureza, sempre boa esempre fecunda, vária e ondeante; mas… Tradição dos Nativos Americanos de Crepúsculo e as Lendas Quileute de Lua Nova A saga Crepúsculo de Stephenie Meyer escondido ao longo dos anos. Na seqüência deintroduziu uma profunda e histórica camada Crepúsculo, Lua Nova, Stephenie Meyerda história dos nativos americanos em suas permitiu que seus personagens contassempopulares séries do romance Crepúsculo por sobre suas próprias histórias a respeito dasuma delicada mistura de fatos e ficção. A lendas, especialmente Jacob, já que ele é umtradição dos nativos americanos vem sendo foco integral nas camadas de Meyer sobre auma fonte de interesse dos antropologistas e história dos nativos americanos.historiadores que dedicaram inúmeros livros às Embora a história de vampiros versushistórias de diferentes tribos incluindo tudo, lobisomens não seja nada nova, o conflitodesde a criação de histórias às mudanças de levanta uma interessante questão. Porquetempo e localização do sol e lua. escolher esse duelo particular? A própria Meyer Crepúsculo trás parte das lendas de La afirmou que a saga Crepúsculo é uma históriaPush da tribo Quileute para uma imensa completamente ficcional sobre os clãs deaudiência. A própria La Push é um lugar real e vampiros e sobre o bando de lobos. A únicaé moradia da tribo Quileute no norte do parte que foi emprestada da lenda real dosestado de Washington. Os personagens de Quileutes foi a tradição de que a triboJacob Black, interpretado por Taylor Launter, e descende de lobos capazes de se converter emseu pai Billy são membros da tribo, assim como humanos. Como a fascinação do vampiro, aum segredo ainda maior que vem sido história do lobisomem está longe de ser
    • 52definida. Existem orientações básicas. Por Os guerreiros vulneráveisexemplo, que revelam como os lobisomens deCrepúsculo podem mudar na lua cheia ou que Embora os lobisomens a muito tempobala de prata, similar ao homólogo vampiro, vêm sendo vistos como monstros vis, A Sagapodem matá-los. Na tecelagem de seu próprio Crepúsculo de Meyer expõe a vulnerabilidadetapete criativo de Crepúsculo, usando as duas emocional dessas criaturas. Uma vez que oconvenções e sua própria originalidade, romance Crepúsculo é profundo e românticoStephenie Meyer deu aos leitores da saga por natureza, o que funciona muitoCrepúsculo e aos fãs de Lua Nova uma efetivamente para a Saga e Lua Nova é que oderradeira batalha, jogando uma criatura medo e a intimidação associados aos seussobrenatural contra a outra, ambas com suas monstros atingem um grau elevado,forças e fraquezas. confrontando vampiro contra lobisomem pelo amor de uma garota. E fazer da Bella Swan O lobisomem e a história uma humana é o mais atraente, uma vez que isso bate de leve em um elemento atemporal de Embora a tribo Quileute seja dita uma história de amor proibida.como descendente dos lobos, existe uma Os atores de Crepúsculo Robertvariedade de tribos norte-americanas nativas Pattinson e Taylor Launter já levam suaque têm o mesmo folclore em suas ricas atraente aparência física e chame carismáticolinhagens. A tribo Navajo (também conhecida para os filmes de Crepúsculo. Emboracomo nação Navajo), a maior tribo nos Estados Pattinson tenha entrado em Lua NovaUnidos, tem uma lenda que é quase relativamente com a mesma forma deaparentada ao clã de lobisomens na saga Crepúsculo, Launter teve muito mais paraCrepúsculo. A versão dos Navajos sobre os provar em Lua Nova, uma vez que trabalhoulobisomens se origina do “Skinwalker”, que na incansavelmente para ganhar 30 libras deverdade alcança o poder da mudança de forma. músculo no seu corpo a fim de encontrar osMas, a fim de adquirirem as habilidades requisitos físicos que Jacob Black suporta emperversas dos mutantes de forma, membros da Lua Nova. Curiosamente, ambos Jacob etribo, como conta a lenda, devem matar um Edward não são os típicos monstros sedentosmembro familiar. Por sua vez, a lenda Quileute por sangue que eles poderiam ter retratado emé muito menos pavorosa, visto que dizem que histórias similares. Em vez disso, ambos brigamum Skinwalker encontrou um lobo e o contra suas naturezas verdadeiramente nãotransformou em um ser humano, nascendo, humanas, rebelando as mesmas com a ajuda dedeste modo, a lenda. Bella. Edward é eternamente bonito e elegante, Em relação a Crepúsculo e Lua Nova, mas mortal. Jacob é notavelmente bonito, masStephenie Meyer dá um passo adiante rancoroso. O conflito deles é muito maisexplicando em grandes detalhes como Jacob e interno do que unicamente publicamenteo resto do clã de lobisomens efetivamente se físico, o que adiciona camadas envolventes e interativas à Saga Crepúsculo.transformam de humanos a lobos por umângulo de desordem interna e experiência detransformação. Em Lua Nova, a transformação Fatos, Ficção, Lendas e o futuro dede Jacob Black é cheia de questões envolvendo Crepúsculodor mental e como a mudança está tambémligada ao auto-controle. O que é diferentesobre como a lenda e a tradição esvaecem em Não há dúvidas que a saga CrepúsculoLua Nova considerando a atual transformação, gerou incrível, até mesmo fenomenal, enormeem comparação com outras histórias e filmes interesse entre os fãs, mas também lançou umbaseados em lobisomens, é que o livro vai bem imenso holofote sobre a cultura dos nativosalém da transformação visual até um nível americanos e as origens das lendas Quileutes.intrigante de emoção humana. Ao contrário de muitos personagens que são
    • 53tão fictícios como as histórias que os cercam, a Lua Nova desloca um foco visível paratradição dos nativos americanos, seja segundo a longe de Edward e Robert Pattinson etribo Quileute ou outros, ainda está passando direciona para Jacob e Taylor Launter, quepor novas gerações, embora também sejam sofre uma preensão emocional, e talvezregistradas por antropologistas e historiadores surpreendente e interessante transfor-maçãoansiosos por preservar as várias versões de física. O desafio para o diretor Chris Weitz e ahistórias similares. Afinal de contas, os Estados equipe de produção será de como elesUnidos e o Canadá não existiam a princípio, conduzirão para criar as transformaçõesmas as lendas estavam vivas bem antes das mantendo a linha de história do romance Luafronteiras serem desenhadas no mapa. Nova. Em Vancouver, a Columbia britânica, Uma vez que Stephenie Meyer criouonde Lua Nova está cerca de quase enrolar a uma nova sensibilidade acerca da cultura dosprodução, a tribo Haida da costa de B.C. nas nativos americanos, Crepúsculo e Lua Novailhas da rainha Charlotte também tem suas voltaram um brilhante holofote para as muitaspróprias lendas sobre a mudança de forma, ricas e profundamente intrigantes lendas quecujo centro é sobre ursos ao invés de lobos. existiram por um longo tempo antes dosCuriosamente, lendas sobre humanos que vampiros Europeus, a principio, se enraizaremmudam de forma são também similares às nas margens da America do Norte. Em relaçãotradições dos vampiros ao longo dos anos e a à Lua Nova e às lendas dos nativos americanos,habilidade de vários sanguessugas de mudar e Jacob e seu bando de lobos Quileutes devemse transformarem. Contudo, Stephenie Meyer ficar presos nos fatos a fim de ficar o mais foraconcebeu dois personagens condutores, possível da ficção.Edward Cullen e Jacob Black, como heróissurreais ao passo que pincela dentro de Fonte:histórias similares e lendas do passado para Twilight Team e the age of the vampires.criar uma nova e fresca cena para mostrar suashabilidades sobrenaturais. http://universetwilight.wordpress.com Albert Uderzo e René Goscinny Asterix Asterix (em francês: Astérix) é um inspirou 11 adaptações para o cinema (8personagem de histórias em quadrinhos criada animações e 3 com atores), jogos, brinquedos eem 1959 na França por Albert Uderzo e René um parque temático.Goscinny. Após o falecimento de Goscinny,Uderzo deu continuidade ao trabalho, com a Históriacolaboração de Sylvie, filha de Uderzo. As histórias de Asterix foram Estamos no ano 50 antes de Cristo.traduzidas para mais de 100 idiomas, sendo Toda a Gália foi ocupada pelos romanos…populares ao redor da Europa, Canadá, Toda? Não! Uma aldeia povoada porAustrália, Nova Zelândia, América do Sul, irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. EÁfrica e Ásia. Porém não são muito conhecidas a vida não é nada fácil para as guarnições denos Estados Unidos e Japão. legionários romanos nos campos fortificados Até aos dias de hoje foram lançados 33 de Babaorum, Aquarium, Laudanum eálbuns com o personagem, um dos quais é uma Petibonum…compilação de histórias curtas. Asterix também
    • 54 Este é o prólogo de todas as edições O seu nome provém do francês age canoniquedos livros de Asterix, o gaulês. (idade canônica). O personagem reside, com seusamigos, em uma pequena aldeia na Armórica • Éautomatix ou Automatix (no original,ao norte da antiga Gália, resistindo ao domínio Cétautomatix), o ferreiro que sempre critica aromano. Para enfrentar as legiões, contam com qualidade dos peixes vendidos pora ajuda de uma poção mágica, que lhes dá Ordenalfabetix. O seu nome provém doforça sobre-humana, preparada pelo druida francês c’est automatique (é automático).Panoramix. A exceção é Obelix, que caiudentro de um caldeirão com a poção quando • Ordemalfabetix ou Ordenalfabetix (noainda era bebê, e por isso adquiriu original, Ordralfabetix), o peixeiro que semprepermanentemente a superforça. está brigando com Automatix por causa de suas críticas. O seu nome provém do francêsPersonagens ordre alfabetix (ordem alfabética).• Asterix, o herói Gaulês e melhor amigo deObelix. O seu nome provém da palavra • Júlio César, o majestoso imperador romano,asterisque (asterisco). inimigo dos gauleses.• Obelix, o distribuidor de menires e amigo de • Boapinta ou Naftalina, (no original,Asterix, possui força sobre-humana Bonemine) é a mulher de Abracurcix, semprepermanente porque caiu dentro do caldeirão arrependida de ter casado com este. Seu nome,de poção quando era bebê. Adora seu no original (Bonemine), vem do francês bonnecachorrinho Ideiafix. Só pensa em duas coisas: mine, significando “estar em forma”, “estarcomer javali e bater nos romanos. Seu nome bem”, “disposta”.provém do francês Obelisque obelisco e estárelacionado a seu trabalho com menires. Humor• Panoramix, o velho druida que aconselha O humor de Asterix é tipicamente francês,Asterix, Obelix e o chefe Abracourcix, é o com trocadilhos, caricaturas e estereótipos.único a saber preparar a poção mágica. O seunome provém da palavra panoramique Estereótipos e alusões(panorâmico). Asterix e Obelix encontram muitas• Matasetix ou Abracourcix (no original, alusões ao século XX em suas jornadas. OsAbraracourcix), o chefe da aldeia. O seu nome godos são militaristas, lembrando os alemãesprovém do original francês à bras raccourcis dos séculos XIX e XX; os bretões são(braço partido), em português evoca “abra um fleumáticos, educados, falam ao contráriocurso”. (numa tradução direta do inglês, como “Eu peço seu o perdão?”), tomam cerveja quente e• Cacofonix ou Chatotorix, (no original, água quente com leite (até Asterix trazer o chá)Assurancetourix), o bardo. Péssimo cantor, e conduzem do lado esquerdo da estrada; amas bom companheiro. O seu nome provém Hispânia é um local cheio de pessoas de sanguedo francês assurance tous risques (seguro quente e turistas; e os lusitanos são baixinhos econtra todos os riscos). educados (Uderzo disse que todo os portugueses que ele conhecera eram assim). Há• Ideiafix (no original, Idéfix), o cão de Obelix. também humor com franceses: os normandosO seu nome provém do francês ideé fixe (idéia comem tudo com creme, e os corsos sãofixa). preguiçosos e têm queijos nauseabundos. Existem muitas caricaturas, como o• Decanonix ou Veteranix ((no original, burocrata de Obelix e Companhia baseado emAgecanonix), o ancião da aldeia, também Jacques Chirac. Alguns personagens queconhecido como Geriatrix em algumas versões. servem de alusão ao local visitado: a Cleópatra é inspirada em Elizabeth Taylor, ao visitar a
    • 55Bretanha encontram-se quatro bardos famososlembrando os Beatles, encontram na Bélgica • O péssimo canto de Chatotorix (que emDupond e Dupont de Tintin, e na Hispânia livros tardios enerva os deuses e leva à chuva),Dom Quixote e Sancho Pança. Nos livros mais geralmente impedido por Automatix.recentes aumentam as paródias, com o espiãoZerozerosix, baseado em Sean Connery, o • Automatix reclamar dos peixes deescravo Spartakis, baseado em Kirk Douglas, e Ordenalfabetix, iniciando uma briga entre todaum alienígena inspirado em Mickey Mouse. a aldeia.Linguagem • Obelix requisitar poção mágica apesar desta ter efeito permanente nele (em A Galera de Uma das bases do humor são os Obelix, ele acaba por tomá-la com gravestrocadilhos, a começar pelos protagonistas, consequências).batizados com os símbolos para notas derodapé: asterisco (*) e obelisco (†). Para • Legionários reclamarem após seremaumentar os trocadilhos, todos os povos têm espancados ou fazendo trabalhos tediososterminações comuns de nomes: os gauleses (“alistem-se, diziam eles”).terminam em -ix (em possível citação aVercingetorix) e as gaulesas em -a (Naftalina, • A gula de Obelix.Iellousubmarina), os romanos em -us(Acendealus, Apagalus, General Motus), • Um grupo de piratas (paródia de Barbenormandos em -af (Batiscaf, Telegraf), bretões Rouge, uma história contemporânea) que ao seem -ax e -os (Relax, Godseivezekingos), egípcios encontrar com Asterix e Obelix, geralmenteem -is (Pedibis, Quadradetenis), gregos em -os e têm seu navio afundado (às vezes, eles até-as(Okeibos, Plexiglas), vikings em -sen sacrificam o seu próprio barco para evitar a(Kerosen, Franksen), godos em -ic (Clodoric, surra dos gauleses).Eletric), e hispânicos nomes compostos(Conchampiñon & Champignon, • Chatotorix ser amarrado na hora doLindonjonsón & Nixón). banquete para que não possa cantaLínguas estrangeiras tem representação Revisionismodiferente: Algumas piadas provém de fatosIberos: Igual ao espanhol, inversão e históricos:exclamações (‘¡’) e interrogações (‘¿’) Após atravessar o canal da ManchaGodo: escrita gótica (gauleses não entendem) Obelix sugere um túnel sob esse mesmo canal, e um bretão responde que já planejamViking: Ø e Å no lugar de O e A (gauleses não construir;entendem) Obelix derruba o nariz da Esfinge; Asterix diz à Cleópatra para apelar aos gaulesesÍndios americanos: Pictogramas (gauleses não para, por exemplo, eles construírem um canalentendem) entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho; Os gregos impedem substâncias queEgípcios: hieróglifos com notas de rodapé dão força extra nas Olimpíadas;(gauleses não entendem) Asterix introduz o chá na Inglaterra; Os menires de Obelix viram as rochasGrego: letras retas, esculpidas de Carnac; Muitas vezes a aparição de BrutusPiadas recorrentes alude á sua participação na morte de César• O bordão de Obelix é “Esses [nome do povo] Cinemasão uns loucos”, sendo “romanos” o povo maisfreqüente.
    • 56 Algumas histórias de Asterix foram - Asterix e os Bretões (1966)transformadas em filmes de animação e filmes Após conquistar quase toda a Gália, Césarcom actores. decide invadir a Bretanha (atual Reino Unido). Apenas uma aldeia resiste, e Cinemapax, umAnimação contraparente de Asterix, resolve ir à GáliaAsterix, o Gaulês – 1967 para pedir a ajuda de seu primo e da poção deAsterix e Cleópatra – 1968 Panoramix.Os 12 Trabalhos de Asterix – 1976 - Asterix e os Normandos (1967)Asterix e a Surpresa de César – 1985 Abracurcix recebe seu sobrinho covarde,Asterix Entre os Bretões – 1986 Calhambix, com a missão de torná-lo umA Grande Luta – 1989 homem. No meio-tempo, normandos vêm áAsterix Conquista a América – 1995 Gália em busca do “campeão do medo”.Asterix e Obelix e Os vikings – 2006 - Asterix Legionário (1967)Filmes Obelix se apaixona por Falbalá – e ao descobrirAsterix e Obelix contra César (1999) que o noivo desta, Tragicomix fora alistado àAsterix e Obelix: Missão Cleópatra (2002) força e mandado para a África, Asterix eAsterix nos Jogos Olímpicos (2008), Obelix entram na legião romana para resgatá- lo.Livros - O Escudo Arverno (1968)- Asterix o Gaulês (1961) Abracurcix é enviado para uma estânciaO centurião romano Caius Bonus, após hidroterápica por estar doente, Asterix edescobrir sobre a poção mágica sequestra Obelix vão para Gergóvia, e César busca oPanoramix para descobrir como fazê-la. escudo de Vercingetorix.- A Foice de Ouro (1962) - Asterix nos Jogos Olímpicos (1968)Panoramix quebra sua foice, e Asterix e Obelix Asterix descobre que os romanos e os gregosvão comprar outra em Lutécia. participam, de quatro em quatro anos, de uma- Asterix e os Godos (1963) competição chamada jogos olímpicos. Como aPanoramix é sequestrado pelos godos, e Asterix Gália está ocupada pelo Império Romano,e Obelix vão à Germânia resgatá-lo. Asterix pode participar dos jogos, como- Asterix Gladiador (1964) representante da Gália. Mas há um problema:Chatotorix é sequestrado pelos romanos como ele não pode usar a poção de Panoramix…presente para César, e Asterix e Obelix vão a - Asterix e o Caldeirão (1969)Roma. Para conseguir resgatá-lo, entram para a Um gaulês deixa um caldeirão cheio deescola de gladiadores. serstécios na aldeia por segurança – e após o- A Volta à Gália (1965) dinheiro sumir, Asterix e Obelix buscamApós um romano começar a isolar a aldeia recuperá-los.com uma paliçada, Asterix propõe a ele desistir - Asterix na Hispânia (1969)após um banquete com comidas pegas ao redor O filho do chefe da última aldeia resistente àda Gália (num trajeto parecido com o Tour de ocupação na Hispânia é sequestrado e levadoFrance). para a Gália – e Asterix e Obelix esolvem levá-- Asterix e Cleópatra (1965) lo de volta.O arquiteto egípcio Numerobis é incumbido - A Cizânia (1970)pela rainha Cleópatra de construir um palácio César decide conquistar a aldeia acabando compara Júlio César em três meses, para que a união dos gauleses – para isso, usa umCleópatra ganhe uma aposta feita com o romano especializado em discórdia, Tuliusimperador romano. Por sorte, seu pai Detritus.conheceu Panoramix e vai pedir ajuda ao - Asterix entre os Helvécios (1970)druída e a Asterix e Obelix. Um questor romano é envenenado pelo- O Combate dos Chefes (1966) governador da Gália, e apela á Panoramix –Um chefe de aldeia simpático aos romanos porém a poção antídoto exige uma florpropõe um duelo a Abracurcix, valendo a montanhosa, que Asterix e Obelix vão buscaraldeia. No meio-tempo, Panoramix é atingido na Helvécia.por um menir e enlouquece. - O Domínio dos Deuses (1971)
    • 57Para conquistar a aldeia César começa a e livrar a princesa Jade de ser executada.construir um grande hotel, o Domínio dos - A Rosa e o Gládio (1991)Deuses, na floresta que a circunda. Os guerreiros se envolvem com a galanteria- Os Louros de César (1972) gaulesa, a liberação feminina e uma nova eUm bêbado Abracurcix promete ao cunhado diferente legião de legionário(a)s.um guisado temperado com a coroa de louros - A galera de Obelix (1994)de César, e Asterix e Obelix acabam em Roma Escravos roubam a galera de César e atentando conquistá-la. escondem na aldeia gaulesa; Obelix se- O Adivinho (1972) transforma em granito ao beber a poção mágicaEnquanto Panoramix está ausente, um e Asterix e o druida vão com os escravos atrásadivinho começa a se aproveitar da credulidade de uma possível cura.dos gauleses. - Asterix e Latraviata (2001)- Asterix na Córsega (1973) Os romanos usam uma atriz idêntica à belaApós descobrirem um líder corso seqüestrado, Falbala para que ela recupere o gládio e o elmoAsterix e Obelix resolvem acompanhá-lo de de Pompeu, dados de presente a Asterix evolta para casa. Obelix por seus pais.- O presente de César (1974) - Asterix: O dia em que o céu caiu (2005-César dá a um legionário por seaposentar, as França)terras da aldeia, e este legionário repassa-as a Os gauleses recebem a visita de estranhos seresum taverneiro, que vai reclamar seu terreno. espaciais que querem confiscar a poção mágica- A Grande Travessia (1975) (referências a Walt Disney, aos mangás e aoAsterix e Obelix vão pescar – e acabam por Schwarzenegger).chegar à América do Norte. - Asterix e a volta às aulas / Asterix e o- Obelix e Companhia (1976) Regresso dos Gauleses – (2007-Brasil) – (2003-Para desunir a aldeia, um assessor de César França / Portugal)começa a comprar os menires de Obelix, Coleção de histórias curtas publicadas naestimulando a concorrência na aldeia. revista Pilote.- Asterix entre os Belgas (1979)Abracourcix não se conforma com o fato de Além disso há álbuns dos filmes:César achar os belgas o povo mais bravo da - Asterix e os índiosGália e vai à Bélgica tirar satisfações. Semelhante ao álbum “A grande travessia”- O Grande Fosso (1980) – (O primeiro álbum - A Surpresa de Césarrealizado sem a contribuição de Goscinny) Semelhante aos álbuns “Asterix Legionário” eAsterix e Obelix se envolvem com uma aldeia “Asterix Gladiador”separada por um fosso, as rivalidades de seus - Os 12 Trabalhos de Asterixdois chefes e as artimanhas de um gaulês - Asterix: O golpe do menirtraidor que quer se casar com a filha de um dos - Asterix e os Vikingschefes. e- A Odisséia de Asterix (1981) “Como Obelix caiu no caldeirão do druidaAsterix e Obelix viajam até a Galiléia conseguir quando ele era pequeno”.petróleo para o druida acompanhados por umdruida espião Zerozerosix (feito à imagem de Parque AsterixSean Connery, ator de 007). O parque temático foi inaugurado em- O Filho de Asterix (1983) 1989 em Paris. Conta com diversas atrações,Um bebê é deixado na porta da casa de como brinquedos e shows, além de pessoasAsterix, que se vê obrigado a encontrar seus fantasiadas como os personagens das histórias.verdadeiros pais – ninguém menos que César e Apesar do apelo de herói nacional, sofre com aCleópatra. concorrência da vizinha Eurodisney.- As 1001 Horas de Asterix (1987) Fonte: http://pt.wikipedia.orgAsterix e Obelix vão à Índia com Chatotorixpara que o bardo use sua voz para fazer chover
    • 58 Figueiredo Pimentel Histórias da Avozinha formosamente para o bem; e se não manifestou O AVÔ E O NETINHO a sua impressão, foi por supor que assim se fazia sempre com os velhinhos, que não se Bastante velho já, fatigado por uma sentavam à mesa, nem comiam em pratos,longa existência de trabalhos e canseiras, como os outros.exausto de forças e doente de velhice – porque O pequeno Luís era o único quea velhice é, também, uma doenç a – estava tio verdadeiramente estimava o ancião, próximosBenedito, o bom e estimado velhote tio entre si aquela primavera e aquele inverno,Benedito: oitenta anos pesavam-lhe às costas, aquela criança e aquele velho, ambos nacomo um grande fardo que ele a custo infância, ambos no crepúsculo da vida.carregasse. Dias depois, Augusto e Henriqueta Na sua mocidade, e mesmo durante viram o filho entretido a brincar com algunsparte da velhice, ninguém trabalhara mais que pedaços de tábuas, um martelo e pregos, comoele, honesto sempre, mourejando, dia e noite, não tinha por costume fazer.para sustento de sua família. A mãe, estranhando aquilo, Não podendo fazer serviço algum, perguntou: – Que estás fazendo aí, Luisinho? –alquebrado pela idade, veio morar em casa de Estou fazendo um prato, para dar de comer aAugusto, seu filho mais moço, já com um papai e mamãe, quando eu for grande, e eles jáfilhinho de três para quatro anos, o pequenino estiverem velhinhos como vovô, respondeue interessante Luís, vivo e esperto como ingenuamente a criança.poucos. Henriqueta e Augusto entreolharam-se Velho e enfermo, qual estava, tio confusos, vexados e arrependidos da suaBenedito como que volvera à primeira ingratidão, e de novo trouxeram o pai para seinfância; e, por isso, eram precisos inúmeros sentar à mesa, em sua companhia.cuidados com ele, que mal se sustinha sozinho, Desde então, trataram-no com todo otrêmulo, muito trêmulo, quase sem poder respeito, o desvelo e a consideração que osandar. filhos devem aos pais. Quando se sentava à mesa, para oalmoço e para o jantar, derramava sopa na O SOLDADO E O DIABOtoalha, quebrava pratos e copos, com as mãosfracas, como uma criança arteira e estouvada. Contam que, em outros tempos, há Augusto, e sua mulher, Henriqueta, milhares e milhares de anos, quando nadaaturavam-no com dificuldade, zangados, existia do que hoje existe, viveu em certacontrariados, aborrecidos principalmente com cidade um rico fidalgo, o barão de Macário, tãoo prejuízo diário que o pai lhes dava. poderoso e opulento, quão orgulhoso e mau. Afinal, não podendo mais suportar o Uma tarde, achava- se ele no seuvelho, resolveram comprar uma cuia; e às horas escritório, contemplando avaramente a grandedas refeições sentavam-no no chão, perto da fortuna que acumulara, roubando aos pobres,mesa dando-lhes a comida naquela tosca às viúvas e aos órfãos, emprestando dinheiro avasilha. juros elevados, quando, de súbito, se sentiu Quando Luisinho, o pequenino, viu tocado por um raio de bondade, até entãoque o avô não se sentava mais à mesa, ficou jamais experimentado pelo seu coraçãotriste, mas não disse palavra. Estranhou aquilo empedernido.porque a sua almazinha desabrochava
    • 59 Lembrou- se que já estava velho; e que, – Senhor vestido de vermelho, disse ocom aquela idade, nunca fizera o menor soldado, o senhor não é meu superior, nembenefício a pessoa alguma, sem ter dado jamais mesmo um oficial. Não posso, pois, obedecer-uma única esmola sequer. Arrependeu- se, lhe; e, assim, digo -lhe que se retire daqui, poisentão, do seu passado. aqui chegamos primeiro. Nessa mesma tarde, Augusto, um O diabo, vendo aquele militarinfeliz sapateiro, seu vizinho, que vivia na destemido, não quis puxar barulho, e lembrou-maior pobreza, carregado de filhos, veio bater à se de comprá-lo, perguntando-lhe quantoporta, suplicando que lhe emprestasse cem mil- queria para se ir embora.réis, para se ver livre de uma penhora, e poder – Aceito o negócio que me propõe, sr.comprar o material que precisava para os Satanás. Basta que me dê o dinheiro em ouro,trabalhos de sua profissão. que uma das minhas botas puder conter. – Em vez de cem- mil réis, dar- te-ei um O diabo saiu, e foi pedir emprestado aconto de réis, Augusto; disse o barão, com a um judeu seu amigo, que morava naquelacondição, porém, que, se eu morrer primeiro, mesma cidade.você irá vigiar meu túmulo, nas três primeiras Enquanto não vinha, o soldadonoites depois do meu enterro. puxando o rifle, cortou a sola do pé direito, e O sapateiro prometeu, acossado como colocou-a por cima de um túmulo aberto.estava pela necessidade, e o fidalgo deu- lhe o Quando Satanás chegou, vergado aoconto de réis. peso de um saco de ouro, esvaziou- a, peça por*** peça, dentro da bota. O dinheiro caía todo na Dois meses depois, o barão de Macário sepultura.morreu; e Augusto, lembrando-se de sua – Olé! disse o capataz do Inferno, estapromessa, como era homem de promessa, foi bota parece-me mágica! – Vá buscar mais …cumpri-la. mandou o soldado. Duas noites passou ele em claro, no Mais de dez sacos foram assim trazidoscemitério da cidade, cheio de medo, mas sem pelo diabo. As moedas escorregavam pelo canoque ocorresse novidade alguma. da bota, e iam cair no túmulo, de modo que a Na terceira e última, dirigia -se para ir bota jamais se enchia. Satanás, desesperado, iavelar junto no túmulo, quand o avistou um trazendo saco por saco. Na ocasião em quesoldado encostado a um mausoléu. carregava o décimo saco, cheio de moedas de – Eh! camarada! bradou. Que fazes aí? ouro, eis que amanheceu de repente. O galoNão tens medo de estar no cemitério? – Eu não cantou; o sol rompeu; e o sino da igreja bateutenho medo de coisa alguma, respondeu o alegremente, chamando para a missa.militar. Vim para aqui, porque não tenho onde Satanás deu um berro e desapareceu…pousar esta noite. Estava salva a alma do barão de Puseram-se ambos a conversar, Macário…enquanto o sapateiro contava ao soldado por O soldado e o sapateiro Augustoque motivo ali se achava. repartiram entre si a grande fortuna que o Passou-se o tempo, sem que eles o diabo deixara na cova; e foram viver ricos esentissem, quando o relógio da torre da igreja felizes, empregando uma boa parte do dinheirobateu compassadamente as doze badaladas em dar esmolas aos pobres.fúnebres da hora terrível da meia-noite!… Então, nesse momento, próximo delessurgiu de súbito, sem que soubessem de ondevinha, um homem vestido de vermelho, com ALBERTO FIGUEIREDO PIMENTELos olhos chispando fogo, e cheirando (Macaé, 1869 — 1914) foi um romancista,fortemente a enxofre. cronista, diplomata, contista, poeta e jornalista Era o diabo, que lhes ordenou: – brasileiro.Retirem-se daqui, rapazes! a alma deste Figueiredo Pimentel foi além de poeta,homem, que foi um grande usurário na terra, contista, cronista, autor de literatura infantil epertence-me, e eu vim buscá-la. tradutor. Manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada Binóculo na Gazeta
    • 60de Notícias. Publicou novelas, poesia, histórias coluna Binóculo, assinada pelo autor,infantis e contos. identificado como o primeiro cronista social da Um de seus grandes êxitos foi o capital. Era ele quem tratava das novidades daromance naturalista O Aborto, estudo moda, do bom gosto, do chic em voga em Parisnaturalista, publicado em 1893 e que hoje se e que deveria ser aqui aclimatado.encontra completamente esgotado à espera deuma urgente e necessária reedição. Como Obraspoeta, participou da primeira geração Fototipias, poesia, 1893;simbolista chegando a se corresponder com os Histórias da avozinha, conto, somente emfranceses. Era amigo de Aluísio Azevedo, com 1952;quem trocou cartas, enquanto o autor de O Histórias da Carochinha;Cortiço estava fora do país como diplomata. Livro mau, poesia, 1895; Foi figura destacada na cena Belle O aborto, estudo naturalista, romance eÉpoque carioca. Poeta, romancista, escritor de novela, Rio de Janeiro : Livraria do Povo,literatura infantil, ganhou destaque e se Quaresma & Comp. 1893;perpetuou nos compêndios da literatura O terror dos maridos, romance e novela, 1897;brasileira. Possui a autoria da máxima “O Rio Suicida, romance e novela, 1895;civiliza-se”. O slogan lançado, em 1904, na Um canalha, romance e novela, 1895;Gazeta de Notícias, ganha envergadura comopalavra de ordem do reformismo reacionário Fontes: PIMENTEL, Figueiredo. Histórias da Avozinha. Rio de Janeiro,que provoca mudanças na vida carioca, 1896.interferindo em hábitos e costumes de seus COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia demoradores. A comunicação terá como foco a literatura brasileira. São Paulo: Global; Rio de Janeiro; Vania Dohme A História como Veículo de Comunicação uma presunção, na maioria das vezes acertada, Contar histórias é uma forma de de que ela não terá muita paciência para ouvir.comunicação. Mesmo sem se dar conta as Pudera há tantas outras coisas interessantespessoas usam este artifício no dia a dia. É para fazer!comum, querendo dar mais ênfase ou As crianças poderão não entender overacidade a uma afirmação, o interlocutor conteúdo daquilo que se deseja transmitir: Asusar de uma história acontecida com ele, com histórias irão colocar os elementos desejadosamigos ou até, uma que “ouviu falar”. Isto dá dentro de um contexto simples e adequado aouma impressão que a outra pessoa irá entender entendimento da criança. Os elementos chavesmelhor aquilo que se esta querendo transmitir. que se deseja comunicar não estarão soltos, Partindo deste ponto as histórias exigindo um pensamento abstrato para dar-lhespodem ser usadas com as mais diversas sentido, eles já estarão encadeados dentro daintenções, e uma delas é como uma forma de história. Compreender a história irá significarcomunicação entre pais e filhos. compreender situações, razões e resultados,Principalmente porque os pais tem sempre que em última análise são os elementos que semuitas coisas que gostariam de falar para seus deseja transmitir.filhos e, as vezes, não sabem como faze-lo. Isto A impaciência ou incapacidade de seporque pode haver uma certa insegurança em concentrar por um período mais longo: Asaber se a criança poderá entender ou não história tem a propriedade de interessar aaquilo que se deseja falar e também, porque há criança e com isso mantê-la atenta.
    • 61Qualidade da mensagem seu lugar e coloca o coração ensangüentado do animal em um baú para entrega-lo à rainha Partindo do ponto de que as histórias como prova de ter cumprido a sua missão.são bons veículos de informação, resta a Como se matar um animal fosse coisa boa,pergunta: mas que tipo de informação? principalmente em uma época em que lutamos Pode-se transmitir bem, mas isto não para despertar a consciência ecológica emserá necessariamente bom ou construtivo para nossas crianças e o amor aos animais. Será quea criança. Isto leva à reflexão: o que se deseja isso é coisa de criança?transmitir? O conceituado psicanalista inglês Assim, quando os pais se depararem Bruno Betellhein em seu livro: “A Psicanálisecom uma história com potencial para ser dos Contos de Fadas” traz contribuiçõescontada para seus filhos, deverão discernir no importantes para se entender o efeito que osseu conteúdo a que tipo de conclusões ela contos de fadas causam nas crianças. Como élevará, quais sentimentos despertará, se ela sabido, as crianças tem uma forma diferentepoderá incentivar ou inibir determinada dos adultos de entender e refletir. As criançasconduta. pequenas não conseguem desenvolver um Se não houver esta preocupação inicial raciocínio de causa e efeito. Seu entendimentocorre-se o risco de estar comunicando, até é baseado muito mais na emoção do que nacomunicando bem, algo indesejado, que não razão. Assim, querer persuadir uma criançaestá de acordo com as crenças e valores de baseando-se em argumentos racionais, comumquem a está narrando. aos adultos, terá grandes possibilidades deDeve-se tomar cuidado de analisar a história fracassar.não só pelo seu roteiro principal, mas também Os medos que os adultos sentem, dapelos acontecimentos periféricos, secundários. violência, instabilidade financeiro, de perder aUma história poderá estar valorizando a saúde são percebidos pela criança e, embora elacoragem de determinado príncipe, que luta não consiga entender, também tem medo, e opela salvação de seu povo. Mas se na pior é absolutamente incapaz de fazer algo paraintimidade este príncipe for arrogante e vence-lo ou de encontrar argumentos paramandão com seu fiel escudeiro, a história diminuí-lo.estará valorizando a coragem, mas também As histórias, entre outros efeitos, irãocomprometendo a cortesia que um cavaleiro aparecer como um bálsamo para esta situação.deve ter. Estes detalhes poderão passar Na história de chapeuzinho vermelho, pordespercebidos, mas o trato com empregados exemplo, o lobo funciona como um símboloestá mais próximos das crianças do que a luta do perigo, de alguém com quem se precisa terpela liberdade de um povo. cuidado. E o que acontece: ele engole chapeuzinho, e em algumas versões a vovóAs histórias de fadas também, o que significa que os temores se concretizaram. Porém, quando aparece o Dentre as diversas categorias que as caçador, ele abre a barriga do lobo e de lá saihistórias podem se dividir, as histórias de fadas chapeuzinho vermelho intacta e feliz. Isto iráaparecem como as preferidas para as crianças, mostrar para a criança que mesmo que osporém, curiosamente muitas delas apresentam terríveis males aconteçam, as coisas podemuma dose de violência que gera uma certa acabar bem, isto lhe dá esperança e,perplexidade: porque histórias tão violentas são consequentemente, segurança.milenarmente utilizadas com crianças? Em Rapunzel o príncipe vaga cego por As fábulasmuitos anos, Bela Adormecida é condenada amorte simplesmente porque seus pais deixaram Atribui-se à Ésopo e, posteriormente, àde convidar uma das fadas e, em Branca de Fedro, a idéia de usar as fábulas para transmitirNeve, sua madrasta, por não tolerar a sua situações de relacionamento dos seresbeleza, manda mata-la. A sina de Branca de humanos, encerrando lições e ditames deNeve só é atenuada porque o caçador que comportamento de uma forma velada,deveria mata-la penalizado, mata um cervo em protegida pelo fato dos protagonistas serem
    • 62animais. Isso fica mais claro quando sabemos raposa e as uvas” a agir dessa forma, masque ambos eram escravos alforriados, nesta gostará de ver o fantoche, dará risadas quandosituação é fácil imaginar que eles usariam esta a sua mãe fizer a voz mais grossa para imitá-la.liberdade para transmitir mensagens aosdemais escravos usando os animais como O desenvolvimento que todas as históriasproteção. Foi graças a La Fontaine que as propiciamfábulas chegaram até nós, e este não usou asfábulas com outro objetivo, plebeu Cada história tem uma mensagemfreqüentador da corte e vivendo em uma época específica, típica ao seu roteiro e que motivou ade grande injustiça social na França, as fábulas sua escolha de acordo com a mensagemapareciam como um meio de falar verdades de educacional desejada pelo seu narrador.forma alertadora e segura. De forma genérica as histórias As fábulas encerram padrões de contribuem com diversos aspectos da formaçãocomportamento, evidenciam valores e de crianças e jovens. Estes aspectos podemgeralmente apontam para soluções justas. E, da variar de intensidade de uma história paramesma forma que foram usadas a séculos atrás, outra, porém, pode-se dizer que de maneiraelas podem ser usadas modernamente pelos geral todas as histórias propiciam opais para falar sobre estes padrões de desenvolvimento:comportamentos com seus filhos. Usando-as ospais poderão falar sobre verdade, lealdade, Atenção e raciocínio: Todos sabem que asaltruísmo, despojamento, bondade e tantos histórias têm o poder mágico de prender aoutros valores, no momento exato que seus atenção das crianças (e a experiência mostrafilhos precisam ouvir, quando perceberem que que a dos adultos também). Isso por si só já éfatos ou os próprios sentimentos de seus filhos um exercício, mas as histórias provocam muitoestão necessitando de um modelo de mais do que isso. A crianças acompanham oscomportamento. fatos e fazem conjecturas, como será que o Então ter um repertório de histórias, herói se saíra dessa situação? Será que ode seus diversos tipos: de fadas, fábulas, lendas, ratinho, por gostar somente de queijo, rejeitarámitos, para serem “retiradas do baú” na hora o chocolate? A princesa encontrará o príncipe enecessária, se torna uma importante será feliz novamente? Ao tomaremferramenta para ser usada na educação. E o conhecimento do desfecho do enredo irãoque é importante, as histórias não propiciam compará-lo com as suposições que fizeram, istouma educação condicionante, ao contrário, fará com que elas exercitem a relação de causaelas são um convite para o pensar, para a e efeito, que faz parte do seu amadurecimento.investigação e para se chegar às suas próprias A narrativa exercitará também aconclusões. memória, pois as maldades feitas pela rainha As histórias de fadas são mais má serão relembradas, no final da história,adequadas às crianças pequenas, já as fabulas, quando esta for castigada. Alguns personagensas lendas e mitos, são mais adequadas às que aparecem apenas no início da história,crianças com mais de sete ou oito anos. Mas podem ter um papel decisivo no seu final. Aisso não quer dizer que as crianças não irão criança por estar interessada no enredo gravarágostar mais de histórias de fadas quando elementos e detalhes que sabe que lhe traráficarem mais velhas ou, ao contrário, as satisfação em outra parte da história. Istopequenas não apreciam as fabulas. Esta também pode acontecer quando a mesmaadequação está relacionada ao entendimento e história é contada diversas vezes, a cada novaao aproveitamento que ela terá ao ouvir a narrativa a criança saboreará melhor esteshistória. Ou seja, liberta de medos e com elementos. E as crianças tem uma predileçãoresposta a algumas de suas indagações sobre a por ouvir a mesma história muitas vezes, istovida, a menina e o rapazinho irão ouvir as porque ela quer ter certeza de que o mal foihistórias de fadas de outra maneira, se derrotado e que tudo acaba bem no final.encantando com a magia, vibrando com a Senso crítico: Sem dúvida pensando naaventura. Já a pequenina, poderá não entender formação do cidadão de amanhã, umas dasas razões que levaram a raposa da fábula “A maiores preocupações dos pais é formar um
    • 63homem e uma mulher crítico, que tenha referências às crianças. E o que é importante écapacidade de analisar o que está a sua volta, que estas referências não são apenas aquelasavaliar o que está de acordo com os seus apresentadas a elas, prontas, de formaprincípios e o que não está, e tomar decisões conceitual ou visual. Mas são tambémde acordo com as suas próprias convicções. resultantes de seu próprio raciocínio e de sua Isso nem sempre é fácil perante uma imaginação.sociedade massificante onde as informações se Nesta linha de raciocínio podemoscruzam em velocidade vertiginosa e nem afirmar que por proporcionar referências assempre com objetivos explícitos. histórias incentiva a criatividade. As ingênuas histórias podem ser um Mas, podemos ir além disso. Asmotivo para os pais discutirem com seus filhos histórias fornecem um contexto com o qualcomportamentos, posicionamentos. Não de podemos trabalhar de diversas maneirasforma impositiva, mas sim convidativa ao fazendo com que as crianças sejam convidadaspensar. Os pais poderão perceber, encantados, a criarem. Após ouvir uma história podemosque a forma de seus filhos verem os fatos vão pedir que ela faça um desenho da cena queamadurecendo a medida que eles crescem. mais gostou, ou a modele em argila. Um grupo As crianças pequenas ficaram de crianças poderá representa-la ou, mesmo,encantadas quando Cinderela apaixona-se ser convidado a fazer a sua continuação. Seráimediatamente pelo príncipe. Mas as mais necessário criar o roteiro, fazer o cenário, ovelhas poderão ser questionadas se somente o figurino. Situações que ficariam difíceis defato de ser bonito, rico e poderoso é suficiente serem pedidas aleatoriamente, mas quepara alguém se apaixonar. ganham sentido dentro de uma história que E será que o Patinho Feio não seria acabou de ser contada.mais feliz continuando feio, mas filho de suamãe pata e irmão dos patinhos, do que se Afetividade: As crianças adoram ouvir históriastransformar em um cisne belo, porém, e querem que seus pais contem sempre mais,sozinho? que contem a mesma história outras vezes. Isto O que importa é que as histórias vão se dá pelo prazer que ela tem de ouvir histórias,trazer o contexto, onde os pais com habilidade mas também pela situação de aconchego quepoderão fundamentar uma discussão que ela representa.busque produzir a reflexão e o exercício do Neste momento seu pai, ou sua mãe, é só delasenso crítico. e lhe dedica a mais completa atenção. Ela poderá estar no seu colo ou os dois estãoImaginação: As histórias conduzem o ouvinte largados em uma montanha de almofadas, eàs mais diversas paragens e, não há limite. para ela esta situação poderá se perdurarUma boa narrativa pode levar ao fundo domar, infinitamente…acima das nuvens, a países distantes, ao futuro Estes momentos de cumplicidade,e ao passado. aumentam o companheirismo e favorece a A descrição detalhada, fará com que o afetividade. Isto faz com que as relaçõesouvinte sinta o cheiro das flores, visualize a melhorem, melhorando as relações o diálogo égrama verdinha e se encante com o cavalo favorecido. Mais diálogo mais compreensão,alado que dorme sossegadamente. mais confiança, mais conhecimento das Porém, a este detalhamento não deve peculiaridades das crianças e, emser exagerado, a fim de permitir que o ouvinte contrapartida, mais abertura para um ouvir ocoloque a sua “própria” cor do céu, enfeite o outro.campo com árvores. A narrativa é um convitepara que a imaginação se desencadeie e Transmissão de valores: As histórias sãocomplemente o cenário. excelentes veículos para a transmissão de valores, porque dão contexto a fatos abstratos,Criatividade: Nos dias de hoje sabe-se que a difíceis de serem transmitidos isoladamente.criatividade é diretamente proporcional à Como falar com crianças, perante aquantidade de referência que uma pessoa constante valorização da esperteza, que mentirpossui. As histórias são capazes de dar estas não é a melhor solução? E que não é porque o
    • 64mentiroso é talentoso e está seguro que está Porém a escolha adequada não finalizagarantido que o ouvinte está sendo a questão, há que passa-la de forma clara, comconvencido? Como transmitir um conceito que graça, humor, causando suspense, emoção.a mentira deixa mais vulnerável o mentiroso Deve-se usar a voz adequada, fazer gestos, usardo que aquele que pretensamente se deseja a expressão facial e a corporal.enganar? Pode-se usar de recurso auxiliares que É difícil, mas a história de Pinochio irão encantar as crianças:magistralmente cumpre este papel de forma fantoches, sombras, marionetes. E pode-se fazersimples: O boneco de madeira mentia e o seu uma série de atividades que irão potencializarnariz crescia, ficando assim formidavelmente os objetivos educacionais pretendidos evulnerável! sobretudo propiciar saudáveis e felizes As histórias, conforme já foi colocado, momentos de convivência entre os pais e seussão um verdadeiro celeiro de fatos que filhos. Mas isto já é outra história…enaltecem os valores éticos, o que precisa é queaquele que irá contá-las esteja aberto para estefator. É preciso que ele acredite realmente naveracidade das afirmações que a história VANIA D’ANGELO DOHME é professoraencerra dentro de sua fantasia. universitária, ludoeducadora, mestre em Para que isto aconteça cada um deve educação, pesquisadora do lúdico na educação,escolher as histórias que realmente lhes são doutoranda em comunicação e semiótica, everdadeiras, que batem com os seus valores membro fundadora do Centro Cultural depessoas, que estejam de acordo com aquilo que Voluntariado de São Paulo. Com umaele deseja transmitir. Somente dessa forma ele experiëncia de mais de 30 anos, realizandopoderá transmitir o que deseja de forma trabalhos voluntários com crianças emconvincente. movimentos educacionais (movimento É importante, também, entender os escoteiro), fundou a Editora Informal, na qualartifícios que a história usa para transmitir a desenvolve capacitação de adultos esua mensagem, pois eles deverão ser narrados professores, através de oficinas, palestras ede forma fiel, a fim de proporcionar a produção de material escrito.compreensão desejada. É autora dos seguintes livros: 32 idéias que Quando se narra a história dos auxiliam o aprendizado ; Técnicas de ContarSaltimbancos, que valoriza a união, a formação Histórias ; Ensinando a criança a amar ade equipe. Se o narrador não deixar muito natureza ; Jogando – O valor educacional dosclaro que o burrico não tinha forças para puxar jogos ; Jogando – Coordenação de jogos ;a carroça, o cachorro não assustava mais Técnicas de contar histórias – Para os paisninguém, a galinha não dava mais ovos e a contarem para seus filhos ; Atividades lúdicasgatinha não servia mais para caçar gatos. Como na educação (Editora Vozes) ; Voluntariado-justificar a súbita coragem que a união de Equipes produtivas (Editora Mackenzie)todos fez nascer, fazendo com que o grupo E os títulos infantis: A queda da fadinha noconseguisse espantar perigosos ladrões. lixão ; A queda da fadinha no lixão- Atividades; Assim a história deve ser escolhida Jaca, o jacaré que virou bolsatendo em vista a faixa etária da criança, o seu O Telefone de contato de Vania Dohme e danível de compreensão, o momento adequado Editora Informal é: (11) 6977-6305 ou 6950-de aborda-la e, principalmente, estar de acordo 7481. Ou pelo site:com os valores que os pais acreditam como http://www.editorainformal.com.br/algo significativo para a formação de seus Fonte:filhos. http://www.qdivertido.com.br/
    • 65 O Saci-Pererê A Lenda do Saci data do fim do século nas crinas dos cavalos, etc. Diz a crençaXVIII. Durante a escravidão, as amas-secas e os popular que dentro de todo redemoinho decaboclos-velhos assustavam as crianças com os vento existe um Saci. Dizem que Ele nãorelatos das travessuras dele. Seu nome no atravessa córregos nem riachos. Diz a lendaBrasil é de origem Tupi Guarani. Em muitas que, se alguém jogar dentro do redemoinhoregiões do Brasil, o Saci é considerado um ser um rosário de mato bento ou uma peneira,brincalhão enquanto que em outros lugares ele pode capturá-lo, e caso consega sua carapuça,é visto como um ser maligno. pode realizar um desejo. É uma criança, um negrinho de uma Alguém perseguido por ele, deve jogarperna só que fuma um cachimbo e usa na em seu caminho cordas ou barbantes com nós.cabeça uma carapuça vermelha, que lhe dá Ele então irá parar para desatá-los, e só depoispoderes mágicos, como o de desaparecer e continua a perseguição, o que dá tempo paraaparecer onde quiser. Existem 3 tipos de Sacis: que a pessoa fuja. Aqui, percebe-se a influênciaO Pererê, que é pretinho, O Trique, moreno e da lenda da Bruxa Européia, que é obrigada abrincalhão e o Saçurá, que tem olhos contar os fios de um feixe de fibras, antes devermelhos. entrar nas casas. Ele também se transforma numa ave Do Amazonas ao Rio Grande do sul, ochamada Mati-taperê, ou Sem-fim, ou Peitica mito sofre variações. No Rio Grande ele é umcomo é conhecida no Nordeste, cujo canto menino de uma perna só, que adoramelancólico, ecoa em todas as direções, não atormentar os viajantes noturnos, fazendo-ospermitindo sua localização. perder o caminho. Em São Paulo é um A superstição popular faz dessa ave negrinho que usá um boné vermelho euma espécie de demônio, que pratica freqüenta os brejos, assustando os cavaleiros.malefícios pelas estradas, enganando os Se o reconhece o chama pelo nome, e entãoviajantes com os timbres dispersos do seu foge dando uma espetacular gargalhada.canto, e fazendo-os perder o rumo. Fonte: http://sitededicas.uol.com.br/ Ele adora fazer pequenas travessuras,como esconder brinquedos, soltar animais doscurrais, derramar sal nas cozinhas, fazer tranças Lenda da Missa dos Mortos A cidade de Ouro Preto, em Minas 1724, Ouro Preto foi capital da capitania deGerais, fica situada sobre diversas colinas que Minas Gerais de 1720 a 1825, servindo decompõem a extremidade meridional da serra palco para inúmeros fatos relevantes dade Ouro Preto, contraforte da serra do história do Brasil, como a rebelião de FelipeEspinhaço. Sua altitude é de 1.100 metros, e dos Santos, em 1720, e a Inconfidênciabem próximo fica o pico do Itacolomi, com Mineira, em 1789, que resultou na condenação1795 metros de altura. Fundada em 24 de à morte de Tiradentes, no suicídio do poetajunho de 1698 e elevada à categoria de vila em Cláudio Manoel da Costa, e no degredo dos
    • 66demais participantes da conjura. Seu nome, na “Pois João Leite, segundo a narrativaépoca, era Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar que lhe ouvi, já lá se vão mais de cinqüentade Ouro Preto. anos, assistiu a uma missa dos mortos. Muitas lendas envolvem o passado Morando na sacristia do templo cuja conservadessa cidade histórica nomeada “patrimônio da lhe era confiada, achava-se recolhido altashumanidade”, relatos de acontecimentos horas da noite quando ouviu bulha na Capela.fantásticos que vieram sendo transmitidos de A noite era uma daquelas frias e chuvosas deuma geração para outra, porque se confundem Ouro Preto, quando, nos começos decom a tradição do lugar. Em outras palavras, o setembro, aqui em Minas, começava o tempoamor, o ódio, a cobiça, a inveja, a repressão, a das águas. João Leite estava com a cabeçainjustiça, o medo e os anseios de liberdade coberta e escondidinho para esquentar-seforam os sentimentos que gravaram na pedra- melhor. Sentindo os rumores, descobriu-se esabão de suas imagens sagradas e profanas, a viu claridade desusada. Seriam ladrões?,vida e o destino de uma povoação cuja riqueza perguntou-se.folclórica enaltece e glorifica toda a nação Mas a igreja era pobre e qualquerbrasileira. ladrão, por mais estúpido que fosse, saberia Um desses fatos aconteceu por volta que a capela das Mercês, sendo paupérrima,de 1900 na igreja de Nossa Senhora das não dispunha de prataria, nem de qualquerMercês, de Cima (ilustração), pequeno templo coisa que valesse um sacrilégio. Enfim poderiacatólico situado ao lado de um cemitério. acontecer, raciocinou João Leite. Estava aindaDizem que em certa noite o cidadão chamado nessa dúvida quando ouviu distintamente oJoão Leite, zelador e sacristão da igreja, uma “Deus vos Salve” do começo da ladainha.pessoa muito popular e querida em toda a Ergueu-se, então, e com aquela coragem queregião, preparava-se para dormir em sua casa caracteriza os homens intrépidos, encaminhou-quando percebeu que algumas luzes estavam se pelo corredor até a porta que dava para aacesas no interior do prédio entregue a seus capela-mor.cuidados. Receoso de que ladrões estivessem Penetrando por ela, verificou que aroubando as imagens dos santos, ele resolveu igreja estava toda iluminada, altares, lustres everificar, e ficou surpreso ao descobrir que na completamente cheia de fiéis. No altar-mor umigreja cheia de fiéis o padre se preparava para sacerdote devidamente paramentado celebravarezar a missa. O zelador estranhou a cerimônia a missa. João Leite estranhou a nuca do padrerealizada àquela hora, sem que dela ele tivesse muito pelada e branca, não se lembrando desido informado previamente, e mais ainda ao calvície tão completa no clero de Ouro Preto.perceber que todos os presentes vestiam roupas Os fiéis que enchiam a nave trajavam de pretoescuras e mantinham abaixadas suas cabeças. e, entre eles, alguns cógulas e algumasQuando o vigário voltou-se para dizer o mulheres com o hábito das Mercês, todas de“Dominus Vobiscum”, o vigia constatou que cabeças baixas. Quando o padre celebranteseu rosto era uma caveira, que os coroinhas voltou-se para dizer o “Dominus vobiscum”,também eram esqueletos vestidos, e que a João Leite constatou que era uma simplesporta lateral voltada para o cemitério estava caveira que ele tinha em lugar da cabeça.escancarada. Então ele voltou correndo para Assustou-se um tanto, e nesse momento,casa, trancou-se em seu quarto, e de lá ficou reparando nos assistentes agora de pé, viu queouvindo até o fim aquela missa do outro eles também não eram mais do que esqueletosmundo. vestidos. Procurou logo se afastar dali e, Em 23 de outubro de 1949 o jornal caminhando, deu com a porta que deitava paraEstado de Minas, editado em Belo Horizonte, o cemitério completamente aberta”.publicou uma pequena crônica sobre essa Fonte:lenda. Escrita por Augusto de Lima Júnior, ela http://recantodasletras.uol.com.brdiz o seguinte:
    • 67 A Menina dos Brincos de Ouro Por causa de uns brincos de ouro Nota: Conto popular na Bahia e Maranhão, Que na fonte eu deixei.trazido pelos escravos africanos. No original africano ospersonagens eram animais. Todo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho. Uma Mãe, que era muito má (severa e Quando foi um dia, ele chegou à casarude) para os filhos, deu de presente a sua da mãe da menina que reconheceu logo a vozfilhinha um par de brincos de de ouro. da filha. Então convidaram Ele para comer eQuando a menina ia à fonte buscar água e beber e, como já era tarde, insistiram muitotomar banho, costumava tirar os brincos e com ele para dormir.botá-los em cima de uma pedra. De noite, já bêbado, ele ferrou num Um dia ela foi à fonte, tomou banho, sono muito pesado.encheu o pote e voltou para casa, esquecendo- As moças foram, abriram o surrão ese dos brincos. tiraram a menina que já estava muito fraca, Chegando em casa, deu por falta deles quase para morrer. Em lugar da menina,e com medo da mãe brigar com ela e castigá-la encheram o surrão de excrementos.correu à fonte para buscar os brincos. No dia seguinte, o velho acordou, Chegando lá, encontrou um velho pegou no surrão, botou às costas e foi-semuito feio que a agarrou, botou-a nas costas e embora. Adiante em uma casa, perguntou selevou consigo. queriam ouvir um surrão cantar. Botou o O velho pegou a menina, meteu ela surrão no chão e disse:dentro de um surrão (um saco de couro), coseu Canta,canta meu surrão,o surrão e disse à menina que ia sair com ela Senão te meto este bordão.de porta em porta para ganhar a vida e que,quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do Nada. O surrão calado. Repetiu ainda.surrão senão ele bateria com o bordão (vara). Nada. Em todo lugar que chegava, botava o Então o velho meteu o cacete nosurrão no chão e dizia: surrão que se arrebentou todo e lhe mostrou a Canta, canta meu surrão, peça que as moças tinham pregado.Senão te meto este bordão. E o surrão cantava: Fonte: http://sitededicas.uol.com.br/ Neste surrão me meteram, Neste surrão hei de morrer, Os Compadres CorcundasConto de origem européia, levemente adaptado pelos lugar vivia zombando da corcunda Pobre e nãobrasileiros. reparava no Rico. A situação do Pobre andava preta, e ele era caçador. Era uma vez, dois compadrescorcundas, um Rico outro Pobre. O povo do
    • 68 Certo dia, sem conseguir caçar nada, já O Caçador meteu-se na estrada e foitardinha, sem querer voltar para casa, resolveu embora. Assim que o sol nasceu abriu o bisacodormir ali mesmo no mato. e o encontrou cheio de pedras preciosas e Quando já ia pegando no sono ouviu moedas de ouro.uma cantiga ao longe, como se muita gente No outro dia comprou uma casa comcantasse ao mesmo tempo. todos os móveis, comprou uma roupa nova e Saiu andando, andando, no rumo da foi à missa porque era domingo. Lá na igrejacantiga que não parava. Depois de muito encontrou o compadre rico, também corcunda.andar, chegou numa clareira iluminada pelo Este quase caiu de costas, assombrado com aluar, e viu uma roda de gente esquisita, vestida mudança. Mais espantado ficou quando ode diamantes que brilhavam com a lua. Velhos, compadre, antes pobre e agora rico, contourapazes, meninos, todos cantavam e dançavam tudo que aconteceu ao compadre rico.de mãos dadas, o mesmo verso, sem mudar: Então cheio de ganância, o rico Segunda, Terça-feira, resolveu arranjar ainda mais dinheiro e livrar-se Vai, vem! da corcunda nas costas. Segunda, Terça-feira, Esperou uns dias e depois largou-se no Vai, vem! mato. Tanto fez que ouviu a cantoria e foi na direção da toada. Achou o povo esquisito Tremendo de medo, escondeu-se dançando numa roda e cantando:numa moita e ficou assistindo aquela cantoria Segunda, Terça-feira,que era sempre a mesma, durante horas. Vai, vem! Depois ficou mais calmo e foi se Quarta e quinta-feira,animando, e como era metido a improvisador, Meu, bem!entrou no meio da cantoria entoando: O Rico não se conteve. Abriu o par de Segunda, Terça-feira, queixos e foi logo berrando: Vai, vem! Sexta, Sábado e Domingo, E quarta e quinta-feira, Também! Meu, bem! Calou-se tudo novamente. O povo Calou-se tudo imediatamente e aquele esquisito voou para cima do atrevido e opovo espalhou-se procurando quem havia levaram para o meio da roda onde estava ofalado. Pegaram o corcunda e o levaram para o velhão. Esse gritou, furioso:meio da roda. Um velhão então perguntou Quem mandou se meter onde não écom voz delicada: chamado seu corcunda besta? Você não sabe - Foi você quem cantou o verso novo que gente encantada não quer saber de Sexta-da cantiga? feira, dia em que morreu o filho do alto; - Fui eu, sim Senhor! sábado, dia em que morreu o filho do pecado, - Quer vender o verso? – perguntou e domingo, dia em que ressuscitou quementão o Velhão. nunca morre? Não sabia? Pois fique sabendo! E - Quero sim, senhor. Não vendo não, para que não se esqueça da lição, leve amas dou de presente porque gostei demais do corcunda que deixaram aqui e suma-se dabaile animado. minha vista senão acabo com seu couro! O Velho achou graça e todo aquele O Velhão passou a mão no peito dopovo esquisito riu também. corcunda e deixou ali a corcunda do compadre - Pois bem – disse o Velhão – uma pobre. Depois deram uma carreira no homem,mão lava a outra. Em troca do verso eu te tiro que ele não sabe como chegou em casa.essa corcunda e esse povo te dá um Bisaco E assim viveu o resto da sua vida, rico,novo! mas com duas corcundas, uma na frente e Passou a mão nas costas do caçador e a outra atrás, para não ser ambicioso. Fonte:corcunda sumiu. Lhe deram um Bisaco novo e http://sitededicas.uol.com.br/disseram que só o abrisse quando o solnascesse.
    • 69 A Literatura Indígena Norte- Americana As primeiras obras nativas norte- pósmoderno de origem indígena. Nas palavrasamericanas a terem sua versão impressa datam de OWENS, Vizenor é “(...) um dos autoresdo século XVII, porém são apenas transcrições americanos mais desafiadores, intrincados edo que ainda eram narrativas unicamente orais brilhantes, [e] continua a ser admirado por(PETRONE, 1990:17). O primeiro nativo estudiosos e celebrado no exterior (...)”canadense a ter um livro publicado em inglês (1998:68).foi o autor Ojibway, George Copway, em 1850 Alguns autores nativos canadenses de(PETRONE, 1990:09), seguido do primeiro destaque, além de Maracle, são: Thomas King,romance por um nativo americano, The Life Cherokee canadense, autor de Medicine Riverand Adventures of Joaquin Murietta, the Celebrated (1990), Green Grass, Running Water (1993), eCalifornia Bandit, de 1854, por John Rollin The Truth about Stories (2003); TomsonRidge (OWENS, 1998:23). Apesar destas e Highway, de origem Cree, autor de Kiss of theoutras publicações, somente a partir dos anos Fur Queen (1998); e Daniel David Moses, de1930 que mais autores tiveram maior sucesso origem Delaware, autor de The Indian Medicineem obter a atenção da indústria literária Shows (1996) e Pursued by a Bear: Talks,(OWENS, 1998:23). Monologues and Tales (2005). Mais e mais autores nativos, Até a finalização desta pesquisa, nãoamericanos e canadenses, conquistam espaço foram encontradas publicações de origemao decorrer dos anos, chegando, na década de nativa canadense no Brasil e a obtenção de1970, a uma explosão de criações literárias exemplares somente se dá através da(PETRONE, 1990:112). É nesta época que importação dos mesmos. Ironicamente, é aMaracle publica seu primeiro livro, Bobbi Lee: produção do “falso” índio que podemosIndian Rebel – Struggles of a Native Canadian encontrar, até mesmo em tradução, no Brasil.Woman, em 1975, descrevendo sua infância e O Aprendizado de Pequena Árvore [The Educationadolescência conturbadas. of Little Tree], de Forrest Carter, teve uma A década de 1980 se inicia com um publicação de sucesso em todo o mundo,movimento ainda maior na literatura nativa apesar da controvérsia sobre a origem de seucanadense. Muitos autores têm suas obras autor. Carter afirmou ter origem Cherokee epublicadas já que muito da vida aborígine se que este livro se tratava de suas memórias,transforma nesta época. Muitos índios trocam porém esta informação é contestada pora vida nas reservas por um lugar nos centros críticos, estudiosos e membros da tribourbanos e suas mensagens são de entusiasmo e Cherokee, já que o retrato que o autor faz dosincentivo a seus povos (PETRONE, 1990:138). costumes, tradições e do índio desta tribo sãoMaracle publica I am Woman, em 1988. errôneos e estereotipados. O sucesso deste livro Uma das obras de autoria nativa mais nos leva a perceber um interesse real dosaclamadas é House made of Dawn, de N. Scott leitores pela cultura indígena, seja sua fonteMomaday, ganhadora do Pulitzer Prize em autenticamente nativa ou não.1969. Além de Momaday, Gerard Vizenor,autor de Darkness in Saint Louis Bearheart, é Fonte: ALMEIDA, Sandy Anne Czoupinski. Histórias de Índio, de Danieloutro autor nativo que merece Munduruku, e Will’s Garden, de Lee Maracle: Afirmando areconhecimento, de acordo com Owens, por Identidade Indígena pela Literatura. Monografia do curso deser o primeiro e mais notável autor Letras, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008.
    • 70 Gislaine Canales Trovas e Glosas TROVAS Eu prossigo o meu caminho, procurando um grande amor, Novo tempo, nova história, que me envolva com carinho nova era, novo amor! e me aqueça com calor! Antiga, só a memóriaque, aos poucos, perde o valor! Meus lábios apaixonados bebem o orvalho dos teus, Cada livro é uma vitória desses teus lábios molhados, na memória de um País, que sonham com os lábios meus! pois nos diz de sua glória e é, da história, a geratriz! Sendo a vida embriagante devemos vivê-la bem. Um mundo melhor…queria, “Há sempre um mágico instante,” para deixar aos meus netos, há sempre um mágico alguém! onde imperasse a alegria numa transfusão de afetos! Vem amor, vamos embora, de mãos dadas pelo mundo, É de ternura o momento “vamos viver vida afora,”em que o Sol sorri do espaço, esse nosso amor profundo! se faz vida e sentimento e lança ao mar seu abraço! Nosso romance de amor começou bem diferente… O mar é o mais doce amante Foi nosso Computador pois não cansa de beijar, que aproximou mais a gente! num lirismo alucinante, toda a praia que encontrar! Nunca mais fiquei sozinha, pois na Internet eu namoro,Me envolve com mil abraços, e essa solidão que eu tinha com mil beijos de afeição, não mora mais onde eu moro! esse mar, de doces braços com seus lábios de paixão! “Teu beijo pela Internet” traz amor, traz alegria, Sou feliz ao relembrar é sempre a melhor manchete que realizei meu desejo… acarinhando o meu dia! Como foi bom te beijar! Como foi bom o teu beijo! Meu interior é risonho, e posso a todos dizer Sou tão triste e tão sozinha, “que trago um mundo de sonho” que o eco do meu lamento, no meu modo de viver! desta saudade tão minha, escuto na voz do vento! Vou vivendo meus agoras, entre sonhos e utopias,
    • 71vou transformando em auroras É contrastante a ironia, “as minhas noites vazias.” nesta verdade contida: lindo o entardecer do dia, Tudo é tão encantador, triste o entardecer da vida! nosso amor é tão bonito,“que, em cada noite de amor” Vivemos juntos, mas sós, ultrapasso o infinito! nossa solidão somada, fez de ti, de mim, de nós, “Tua idade não importa,” a soma triste do nada! se feliz quiseres ser, pois ao amor, não comporta A saudade da saudade, ter idade pra nascer! varreu, de mim, a alegria, levando a felicidade Canto as estrelas nos versos, que eu pensava que existia!com minha alma apaixonada… Vou acendendo Universos… As eternas madrugadas “Criando luzes…do nada!” me encontram sempre a chorar. A vida, cheia de nadas, Quero cantar pelo espaço não me deixa mais sonhar! e, nas estrelas, rever todas as trovas que eu faço. Meu verso é meu companheiro Trova é prece em meu viver! no cenário da ilusão e o universo, imenso, inteiro, Sinto as mãos da solidão se torna pequeno, então! num carinho de verdade, trazendo ao meu coração, O prazo que nós tivemos das tuas mãos, a saudade! para o nosso amor viver, foi pouco. Nos esquecemos A mistura de mil cores antes do prazo vencer! e toda a luz do universo, mais o perfume das flores, Hoje estou triste, alquebrada, desejo pôr no meu verso! sem amor, sem alegria, mas prossigo a caminhada… O sol dourado se espraia Amanhã é um novo dia! tão lindo.com seu calor, por toda a areia da praia Não lembro de ti, passado, em doces beijos de amor! pois, consegui te esquecer, agora, só tenho ao lado A minha vida é uma Trova, os sonhos que vou viver! trova de ilusão perdida, pois a vida é grande prova, A vida é renovação, que prova a Trova da vida! (é amor, é sonho e alegria), é feita só de emoção, Eu quero poder cantar recomeça a cada dia!meus versos aos quatro cantos, talvez possa transformar Quando existe amor sincero em risos, todos os prantos. é forte a emoção que traz, e ele mostrará, austero, Sozinhas nas madrugadas, a grande força da paz! donas do mundo e da lua, nossas mãos entrelaçadas “Somos os dois um só mundo”, seguem juntas pela rua! somos um só, na verdade,
    • 72 e esse nosso amor profundo, Que a paz mundial, que sonhamos, é mais que amor, é amizade! não seja mera utopia… Para alcançá-la, vivamos Em meu coração alterno com muito amor cada dia! as estações…todo o dia, Lutemos pela conquistatornando, assim, meu inverno, da paz mundial no universo, lindo verão de poesia! numa guerra pacifista, usando as armas do verso! “Enganam-se os ditadores” que pensam poder tirar A paz mundial é utopia do mundo, nós, trovadores dizem uns…Não é verdade, e o nosso jeito de amar! se buscarmos na Poesia as armas da HumanidadeA minha vida é um romance, pois sonhando sou feliz… GLOSAS Eu deixo que o vento tranceos sonhos que eu sempre quis! Glosando José Westphalen CorreaEu tenho um sonho bonito: SONHO SER CRIANÇACaminhar por sobre as águas e ao chegar ao infinito, MOTE: esquecer todas as mágoas! AO SENTIR A ALMA PERDIDA NA PROCURA DA ESPERANÇA, Realizando utopias HÁ MOMENTOS NESSA VIDA meu coração quer amar, EM QUE SONHO SER CRIANÇA! no crepúsculo dos dias =========================== da minha vida a findar! AO SENTIR A ALMA PERDIDA no desencanto dos anos, A noite recebe a tarde sinto que ela está ferida, num momento de magia… por sentimentos humanos. No pôr-do-sol, o céu arde e tudo vira poesia! Eu sigo, então, à procura, NA PROCURA DA ESPERANÇA, O amor é pura magia sempre a fugir da amargura, e a ternura da emoção sempre a buscar mais confiança! traduz-se nessa alegria plantada no coração! E nesta estrada comprida cheia de encanto e beleza Era noite e a escuridão HÁ MOMENTOS NESTA VIDA, pensou que raiava o dia, em que sinto dor, tristeza. ao sentir com emoção a luz da tua poesia! Entre as horas – nostalgia, saudade e desesperança, Nosso romance virtual uma, existe, de alegria: é tão doce e verdadeiro EM QUE SONHO SER CRIANÇA! que se torna o mais real xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx romance, do mundo inteiro! Glosando Lacy José Raymundi Numa oração, com carinho, ARMAZÉNS DA LEMBRANÇA eu peço a SAN VALENTIN: Coloque no meu caminho MOTE: um amor real pra mim! MINHA MEMÓRIA PROCURA,
    • 73 NOS ARMAZÉNS DA LEMBRANÇA, GISLAINE CANALES nasceu em OS FARDOS DE TRAVESSURA, Herval/RS/BR, em 20/04/38. Divorciada. DOS BONS TEMPOS DE CRIANÇA!… Quatro filhos. Sete netos. Bacharel em ============================== Pedagogia e Licenciada em Didática, Poetisa, MINHA MEMÓRIA PROCURA, Trovadora. Glosadora, Pescadora, com o nº de numa viagem gostosa, registro 0300862-21. Possui trovas classificadas os momentos de brandura em inúmeros concursos. Pertence a várias de minha infância ditosa! Instituições Literárias do Brasil e Exterior. Perambula pelos cantos, Membro benemérito do Centro Cultural, NOS ARMAZÉNS DA LEMBRANÇA, Literário e Artístico da Gazeta de e ouve até os acalantos Felgueras/Portugal. The International num doce tom de esperança! Academy of Letters of England. Em nossa idade madura, Tem trovas vertidas para o italiano pelo é muito bom recordar Prof. Antônio Boscatto e enviadas para o OS FARDOS DE TRAVESSURA, Centro Cultural de Veneto/Itália. do tempo do velho lar! Possui também poesias traduzidas para o Recordando essa alegria, Espanhol, pelas poetisas: Carmen Patiño o riso vem, sem tardança, Fernandez, da Espanha; Sofia Ríccio, do e eu revivo a euforia Uruguai, Maria Elena, do México e Lisete DOS BONS TEMPOS DE CRIANÇA!… Johnson Oliveira, do Brasil. Participa de 28 ========================= Antologias Poéticas e dos Dicionários de Poetas: Directory of International Writters / Glosando Edmar Japiassú Maia EUA, Publication on International Poety MEU DEPOIS… University of Colorado / 1987, Dicionário de Poetas Contemporâneos / 1991. MOTE: Publicou: “GlosandoTrovas” / 1987. Em PERDIDO E ENTREGUE AO DESGOSTO, preparo: “Glosando Trovas II” e “Tênis de SE ANTIGOS TRAÇOS PERSIGO, Sextilhas”. ENCONTRO O TEMPO EM MEU ROSTO, Convidada a fazer parte do quadro efetivo NUM DESENCONTRO COMIGO!… de poetas do Rincón Poético do Site Espanhol: ============================== Poemasromancesyamor.PERDIDO E ENTREGUE AO DESGOSTO, Livros Virtuais: “Glosas Virtuais de Trovas” nesta amarga solidão, – (31 Volumes) – Com Glosas de Trovas de não vejo a vida com gosto, inúmeros Trovadores do Brasil e Exterior, nem vibro mais de emoção! “Glosando Lourivaldo Perez Baçan “, Se recordo a juventude, “Glosando Delcy Canalles”, “Glosando Joamir SE ANTIGOS TRAÇOS PERSIGO, Medeiros”, “Glosando A A de Assis” e Glosas o espelho me desilude, das Trovas Classificadas no I Concurso não tenho nele um amigo! Nacional / Internacional de Trovas de É hora do meu sol posto Balneário Camboriú / Santa Catarina / Brasil. e é o fim da minha estrada…ENCONTRO O TEMPO EM MEU ROSTO, Fonte: CANALES, Gislaine. Glosas Virtuais de Trovas VIII.2003. só vejo sulcos, mais nada! Biblioteca Virtual “Cá Estamos Nós”. Portal CEN O meu depois, já chegou… http://www.portalcen.org Aceitar-me, eu não consigo, http://www.gislainecanales.com/ por isso, lutando, eu vou NUM DESENCONTRO COMIGO!…
    • 74 Leny Magalhães Mrech A Criança e o Computador: Novas formas de pensar1. INTRODUÇÃO possibilidade de desencadear alterações nas relações entre as pessoas. Portanto, o que os Em todos os países, independentemente do caracteriza basicamente é que eles não sãoseu grau de desenvolvimento, a Informática meros produtos para um consumo imediato,tem sido um dos campos que mais tem trazem acoplado novos rumos para aqueles quecrescido atualmente. Este processo tem os utilizam.atingido sobretudo as áreas de Educação eLazer. Em decorrência, constata-se que, no “Estas máquinas inteligentes já estão começandomundo todo, o computador tem entrado cada a ser usadas para tudo, desde calcular os impostosvez mais cedo na vida das crianças. Tornando- da família e monitorar o uso de energia em casa,se, então, estratégico saber de que maneira ele jogando jogos, conservando um arquivo de petiscos,pode determinar os novos rumos da lembrando seus donos de próximos compromissos econstrução do pensamento das crianças. servindo como “datilógrafas espertas”. Isto,É interessante perceber que tem havido poucas entretanto, oferece apenas um minúsculo vislumbrepesquisas no estudo da interação entre as de seu potencial completo. (…) Viver num ambienteestruturas sócioeconômicas, as estruturas de assim levanta questões filosóficas de arrepiar. Aspensamento da criança e o uso do máquinas assumirão o controle? Poderão máquinascomputador. Na grande maioria das vezes elas inteligentes, especialmente se entrelaçadas em redesse apresentam direcionadas apenas para um de intercomunicação, ultrapassar a nossa habilidadedos lados ou, no máximo, visando a interação de compreendê-las e controlá-las? (…) Até que pontoentre dois aspectos. O que tem faltado é nos tornaremos dependentes do computador e doexatamente uma concepção dinâmica que cartão? Na medida em que bombearmos mais e maisestabeleça uma leitura múltipla direcionada inteligência no ambiente material, atrofiar-se-ão aspara uma interação entre aqueles referenciais nossas próprias mentes?”básicos. É o que este artigo se propõe a fazeridentificando as relações dinâmicas entre as Há, geralmente, uma postura inicial queestruturas sociais, as estruturas do pensamento acompanha a todos aqueles que se iniciam nada criança e o uso dos computadores. utilização de computadores: uma maneira preconceituosa de concebê-los. Primeiramente,2. OS COMPUTADORES: UM NOVO os usuários partem da crença de que eles sãoPRODUTO E UMA NOVA FACE DA máquinas que não pensam. Na verdade, elesCULTURA são produtos de ponta de uma tecnologia inteligente, isto é, uma tecnologia que se Tradicionalmente os computadores têm desenvolve e se estrutura a partir desido pensados apenas como meros componentes oriundos da decodificação deinstrumentos de transmissão rápida de processos cerebrais. São máquinas semânticas,informações. No entanto, sua capacidade utilizando formas de linguagem bastanteefetiva ultrapassa bastante este plano redutor. sofisticadas, tais como : imagens, códigos de Os computadores são um novo tipo de linguagem, processadores de texto e cálculo,produto social. Eles são chamados “produtos etc.inteligentes” ; isto é, produtos com
    • 75 Em segundo lugar, os computadores sempre como o último recurso da certeza docostumam ser vistos como máquinas frias que sujeito. Era no real que estava a concretude donão possibilitam o contato humano. Contudo, pensamento. Era nele que o professor teria queeste processo tem mudado rapidamente através se basear para estruturar o seu processo dedas redes de computação. O que possibilitou a ensino-aprendizagem. No momento atual,emergência de novas maneiras de conceber as assinala Jair Ferreira dos Santos ” (que) osrelações sociais. Surgiram as chamadas relações filósofos estão chamando devirtuais. Elas são estabelecidas através dos desreferencialização do real emicrocomputadores conectados em rede. dessubstancialização do sujeito, ou seja, o Em decorrência, seja através dos grandes referente (a realidade) se degrada embancos de dados, das trocas de mensagens por fantasmagoria e o sujeito (o indivíduo) perde acorreio eletrônico ou dos chats (conversas substância interior, sente-se vazio.”online em pares ou grupos); o que acaba por se Com o processo de desreferencialização doestruturar são novas formas de interação, onde real e dessubstancialização do sujeito como éas distâncias e o tempo se encurtam nos que fica o processo de formação dos alunos?processos de comunicação entre as pessoas. De que maneira o professor deverá agir para “(Invadir) o cotidiano com a tecnologia lidar com os alunos a partir desta novaeletrônica de massa e individual, visando à sua realidade?saturação com informações, diversões e serviços. Na ” Não é o saber ou o saber fazer o fulcro da açãoEra da Informática, que é o tratamento educativa: é a criança, o adolescente, que devem sercomputadorizado do conhecimento e da informação, preparados para viverem com os seus semelhantes,lidamos mais com signos do que com coisas. para dialogarem com eles, para participarem emPreferimos a imagem ao objeto, a cópia ao original, sociedades gradualmente mais tirânicas, sem por issoo simulacro (a reprodução técnica) ao real. deixarem de ser eles mesmos, sem serem dominados,PORQUE DESDE A PERSPECTIVA avassalados por máquinas e burocracia de qualquerRENASCENTISTA ATÉ A TELEVISÃO, QUE tipo”.PEGA O FATO AO VIVO, A CULTURA Pode-se dizer que os computadores não sãoOCIDENTAL FOI UMA CORRIDA EM apenas os produtos mais comuns da nossaBUSCA DO SIMULACRO. SIMULAR POR época. Eles são a metáfora do nosso tempo.IMAGENS COMO NA TV, QUE DÁ O Eles trazem em seu bojo as possíveisMUNDO ACONTECENDO, SIGNIFICA transformações que a sociedade do futuro terá.APAGAR A DIFERENÇA ENTRE REAL E Uma sociedade que exige que os sujeitos sejamIMAGINÁRIO, SER E APARÊNCIA. Mas o preparados para viver em realidades cada vezsimulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza, mais redefinidas e recortadas, onde o conceitointensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, de real e de realidade antigos não dão contaespetacular, um real mais real e mais interessante das indicações dos caminhos por onde ir. Osque a própria realidade. O hiper-real simulado nos alunos precisam ser preparados para umafascina porque é o real intensificado na cor, na sociedade pós-moderna onde os parâmetrosforma, no tamanho, nas suas propriedades. (…) cognitivos serão continuamente redefinidos.ELES NÃO NOS INFORMAM SOBRE O A questão básica passa a ser, emMUNDO; ELES O REFAZEM À SUA decorrência, o que a Educação pode fazer paraMANEIRA, HIPER-REALIZAM O MUNDO , auxiliar os alunos e professores neste processo.TRANSFORMANDO-O NUM ESPETÁCULO.” No passado partia-se do privilegiamento do(GRIFO NOSSO) plano da razão ou consciência. Quando o aluno se volta para a sociedade 3. O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DOatual, através da Informática, não está apenas CONHECIMENTO COM BASE NO EIXOfrente a um novo instrumento de consumo ou DA RAZÃObrinquedo. O computador estrutura um novorecorte da realidade. Um recorte que Durante muitos séculos o grande marcopossibilita ao usuário recriar uma parte da norteador da história do pensamento humanorealidade. Este fato nunca antes tinha foi o chamado modelo consciencialista,acontecido nas dimensõe atuais. O real ficava baseado no modelo filosófico. Foi através dele
    • 76que o ser humano se pensou e tem se pensado novas formas de se pensar a cultura, a própriapara encontrar o rumo da sua sociedade e de si sociedade e o indivíduo. Em síntese, do pontopróprio. de vista da história do conhecimento humano, Neste nível, pode-se dizer que a história do a ciência contemporânea trouxe uma mudançapensamento filosófico durante muitos séculos bastante radical em relação aos paradigmas defoi também a história do processo educacional. saber anteriores. A própria concepção deOu seja, os grandes filósofos foram, ao mesmo pensamento e inteligência humana foi alterada.tempo, os grandes pensadores e educadores da ”As grandes teorias sociais construíram o seuhumanidade. Foram eles que ajudaram a paradigma sob a influência da crença no triunfoconstruir o conhecimento e a inteligência inexorável da razão e do progresso, numa históriauniversais. Eles que determinaram o que civilizatória da humanidade. As Ciências Sociais (àsdeveria ser visto e pensado. quais à Filosofia e à Educação estão estreitamente A partir daí, a consciência passou a ser vista ligadas) tiveram, até agora como premissa que acomo sinônimo do próprio processo de vida social está condicionada por uma lógica, queconhecimento e de desenvolvimento da vai da tradição à modernidade, da fé à razão, dainteligência. Uma pessoa inteligente era acima reprodução à produção, da comunidade à sociedadede tudo uma pessoa consciente, e uma pessoa (SADER,1988). Forjou-se, assim, um modelo geralconsciente era uma pessoa sábia. de análise de caráter macroscópico, que privilegia a A razão tornou-se o instrumento apreensão das regularidades sociais, a partir dosindispensável de autodeterminação do ser movimentos que gravitam no plano institucional ehumano. A crença era que, através da razão, o nas estruturas sociais. Contudo, todas essas teorias ehomem encontraria a medida e os elos de suas premissas, que orientavam a pesquisa social,ligação entre o social e o individual, entre o foram-se mostrando progressivamente insuficientes eestático e o dinâmico, entre o particular e o incapazes de explicar os fenômenos sociais nasuniversal. Isto acabou por levar à uma sociedades contemporâneas. Emergiram, com forçaconcepção onde a consciência e a inteligência crescente, novas dimensões da realidade que, atéeram vistas como faces da mesma moeda. então, eram insuficientes, surpreendendo os Entretanto, com o desenvolvimento das cientistas sociais.”sociedades e das transformações tecnológicastudo isto se altera. As produções Quando se pensa nas estruturas degradativamente se tornaram mais sofisticadas pensamento das crianças, as pesquisas seintelectualmente. voltam para o desenvolvimento da inteligência. Atualmente é possível comprar produtos Isto quer dizer que aquilo que interessa aosmais elaborados do ponto de vista cultural: um psicólogos, professores, psicopedagogos etexto denso de um escritor de vanguarda, um psicanalistas são as formas de pensar maiscomputador de última geração, uma música eficazes, aquelas que possibilitam oinovadora, um livro que aborde a última teoria crescimento maior dos sujeitos. Porém, estade ciências, etc. O capitalismo criou um novo não é uma tarefa fácil de ser executada, porquemodelo de saber, onde a tecnologia assume a Psicologia e a Psicanálise constataram que osuma dinâmica cada vez maior. As Artes e a sujeitos não se direcionam apenas para o seuLiteratura também se densificaram e se bem, mas também para a sua destruição. Istoestruturaram de outra forma. Os produtos quer dizer que, através da utilização da razão,atuais não usam apenas uma mídia como no os seres humanos ainda não conseguiram deterpassado, mas várias. Por exemplo, o músico as fontes de sua própria destruição. Eles apenasJean-Michel Jarre em seus trabalhos usa dos conseguiram mapeá-las ligeiramente. É o querecursos multi-midia que incluem dança, parte Freud designa como pulsão de morte, isto é, ocênica ( iluminação e o cenário), cinema e tv ( que leva o sujeito a sempre escolher o pior,exibição de vídeos e filmes), ao mesmo tempo aquilo que leva à sua destruição.em que ele e o seus músicos tocam a sua última Este aspecto torna-se um elementoprodução artística ( a música contemporânea – fundamental nas discussões porque tem sidoo jazz- fusion). feita uma ligação muito grande entre as Em suma, o modelo capitalista de possilidades de mau uso dos computadores e aprodução, distribuição e consumo instituiu destruição dos sujeitos ou da humanidade.
    • 77 Como se, através do mau uso dos Tradicionalmente a construção dacomputadores, emergisse uma dinâmica inteligência humana tem sido pensada apenasdestrutiva não constatada anteriormente. No como se fosse um mero produto biológicoentanto, a questão não é bem esta. Na história decorrente da combinação de gens humanosda humanidade sempre houve guerras e os ou um produto social. O modelo de Vygotskyseres humanos continuamente se destruiram. incorpora estes dois aspectos, privilegiandoNos dois últimos séculos chegamos a duas tanto um corpo genéticamente construídoguerras mundiais. Mas por que isto acontece? quanto à sua vinculação com o social noAs razões para os processos destrutivos nos desenvolvimento das potencialidades doseres humanos não se encontram nos sujeito. Consequentemente, a concepção torna-computadores, mas nos próprios sujeitos e nos se dialética, onde a interação entre as variáveisseus processos culturais. Além disso, do ponto biológicas e sociais é constantemente referida ade vista dos computadores, acredito que haja um processo contínuo de mudança.aqui um enorme descompasso. Normalmente Não há apenas o cérebro genéticamenteos sujeitos lidam com eles como se fossem dado, mas um cérebro que, após o nascimento,objetos produzidos da mesma forma que os se estrutura e transforma a partir de conteúdosdemais produtos da cultura. Mas será que isto oriundos do ambiente social do sujeito.é verdadeiro? Em primeiro lugar, os computadores fazem 4. AS ONDAS SOCIAIS E O PROCESSOparte de uma linhagem nova de produtos: DE CONSTRUÇÃO DA INTELIGÊNCIAaqueles que são a concretização de formas de HUMANA: AS INTERAÇÕES ENTRE Opensamento concebidas através da linguagem. SOCIAL E O INDIVIDUALEste processo começou a ser identificado com Os historiadores contemporâneosmais clareza a partir do século passado com a estudando a sociedade atual delineam trêsemergência da Linguística e da Antropologia. períodos na história da humanidade. NoA linguagem remete-nos à uma instância que é campo da Informática e Educação, uma dasfundamentalmente de orientação social. Ela leituras mais divulgadas, neste sentido, temseria o elemento maior de ligação entre o social sido aquela proposta pelo futurólogo Alvine o individual. Tofler. Seus trabalhos se iniciaram na década Um dos autores que mais estudou este de 60.processo foi Lev Vygotsky. Ele partia da O seu livro de maior impacto foi A Terceiraperspectiva de que a linguagem é socialmente Onda, lançado em 1983, onde é feito umformada e que, aos poucos, a criança a relato das três “ondas” sucessivas de civilizaçãoincorpora atraves daquilo que vivencia na humana. A metáfora da onda é usada parafamília. designar um fluir da sociedade que não vai em Dessa forma, o processo de construção da uma direção só, mas que apresenta fluxos erealidade social é um dos principais fatores do refluxos contínuos, tal como a água do mar,processo de construção da inteligência em seus aspectos superficiais e profundos dehumana. Há um vínculo estreito entre a dinamização.estruturação das chamadas funções psíquicas A primeira onda surgiu no início dossuperiores dos sujeitos e o processo de tempos e vigorou até finais do século XVII. Aconstrução da linguagem e da fala. sociedade neste período se caracterizava por ser ”Essa nova abordagem para a psicologia fica essencialmente agrícola. As pessoas viviam emexplícita em três idéias centrais que podemos bandos isolados, produzindo alimentos para oconsiderar como sendo os “pilares” básicos do seu próprio consumo. Os antropólogospensamento de Vygotsky: *as funções psicológicas nomearam este tipo de civilização de sociedadetêm um suporte biológico pois são produtos da primitiva.atividade cerebral; *o funcionamento psicológico A segunda onda surgiu após o século XVII efundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo se caracterizou por apresentar um enormee o mundo exterior,as quais desenvolvem-se num desenvolvimento industrial. Houve a própriaprocesso histórico; *a relação homem/mundo é uma transformação das relações agrárias, através darelação mediada por sistemas simbólicos.” produção de quantidades cada vez maiores de alimentos. Com isso, tornou-se possível a saída
    • 78das pessoas do campo na direção das cidades. para programas de emergência, entrando pelo futuroO que acabou por levar as indústrias a adentro sem plano, sem esperança e sem visão.”incorporarem cada vez mais mão de obra. A sociedade da segunda onda introduziu Neste sentido, cumpre assinalar que, dauma nova forma de pensar e se relacionar, mesma forma que o social é reduzido à umadistinta daquela apresentada pelo modelo da única vertente, o processo educacionalprimeira onda. Enquanto na primeira onda as também. Com isso, a realidade educacionalpessoas eram tanto produtores quanto perde seu entrejogo do diverso, diluindo-se emconsumidores, na segunda onda tornou-se captações imaginárias semelhantes. Ou seja,patente a emergência de um novo modelo apreende-se as semelhanças entre as váriassocial onde a produção e o consumo foram instituições escolares a partir de seus contextosdrásticamente dissociados. Ou seja, na segunda sociais e exclui-se tudo aquilo que aparece deonda, as pessoas não produziam mais os seus diferente nelas. A proposta de Alvin Tofflerprodutos. Elas consumiam os produtos resgata este encaminhamento multifacetado epreviamente preparados pelos produtores. interativo entre o social e o educacional. Ela Um outro aspecto a ser assinalado, ao longo captura tanto o aspecto macrossocial quantoda segunda onda, é que a própria civilização microssocial. O social e o sujeito. Astornou-se um produto de consumo. A própria instituições e o grupo. Em suma, ela incorporacultura passou a ser industrializada. Houve a tanto o processo social mais abrangente, oprodução, distribuição e massificação das microssocial e a própria interação entre eles,informações. A estrutura de pensamento em uma construção com múltiplas formas epassou a se direcionar para o consumo de vários caminhos possíveis. Como conseqüênciamaiores quantidades de informações, imediata, o próprio processo de construção daprodutos, etc. inteligência da criança é apreendido de Atualmente, nos países de primeiro mundo, maneira mais complexa. Não sendo reduzido ànós já chegamos à chamada terceira onda de uma vertente social e educacional única, mascivilização, onde os produtos passam a ser capturado em um entrejogo de possibilidades,personalizados e direcionados para um que fogem muitas vezes da própria percepçãoconsumo interativo entre os sujeitos. mais direta do aluno, do professor e de especialistas.5. O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA Um dos aspectos principais das colocaçõesINTELIGÊNCIA HUMANA: OS de Alvin Toffler diz respeito a convivência, aoDIVERSOS EM CONFRONTO mesmo tempo, dos determinantes das três ondas civilizatórias. Eles sobrevivem no mundo Normalmente quando as pessoas analisam todo e em cada país. Quando os partidários deas sociedades, elas o fazem através de uma uma das tendências se encontra com osleitura redutora do social, como se este fosse demais, há a emergência de situações de brigasapenas o delineamento de uma tendência. O e confronto de idéias.modelo tradicionalmente predominante é ”Personalizo às vezes a própria civilização,aquele onde o social é apreendido como se argumentando que a civilização da Primeira Ondafosse uma totalidade. Na realidade, o modelo ou da Segunda Onda “fez” isto ou aquilo.de Toffler revela que a sociedade é uma Naturalmente, eu sei, e os leitores sabem, que asrealidade multifacetada, em constante processo civilizações não fazem nada; as pessoas é que ode transformação, a partir de um entrejogo de fazem. Mas, atribuindo isto ou aquilo, de vez emvárias tendências e perspectivas estruturantes. quando, a uma civilização , poupa-se tempo e fôlego. “Para começar, muitas das mudanças da (…) A Terceira Onda descreve a civilização de umaatualidade não são independentes umas das outras. “tecnosfera”, uma “sociosfera”, uma “infosfera” eNem são fortuitas. (…) Enquanto as considerarmos “poderesfera”; depois dispõe-se a mostrar como cadamudanças isoladas e nos escapar esta significação uma destas está sofrendo mudança revolucionária nomaior, não poderemos idear uma resposta coerente e mundo atual; tenta mostrar as relações destas parteseficaz para elas. Como indivíduos, nossas decisões de uma com a outra, bem como com a “biosfera” e apessoais ficam sem objetivo ou autoneutralizadas. “psicosfera” – esta estrutura de relações psicológicasComo governos, caminhamos aos trancos de crises e pessoais através da qual mudanças ocorridas no
    • 79mundo exterior afetam as nossas vidas mais nesta época, jamais saiu do seu local deíntimas”. nascimento. Vivia-se com as informações que eram transmitidas através das gerações Os sociólogos, antropólogos e psicólogos passadas.têm percebido gradativamente a importância Com a segunda onda tudo isso começa ade uma concepção que privilegia a chamada mudar. A ampliação do mercado, devido àsuperestrutura. É através dela onde se jogam os quantidade enorme de produtos produzidosrumos da construção do pensamento dos pelas indústrias e pelo campo, levou àsujeitos. Toffler chama este processo, emergido exploração de novos mercados. Os limites dasa partir da segunda onda, de indust-realidade. aldeias, cidades e países foram ultrapassados. Os contatos comerciais se tornaram “A Segunda Onda criou não só uma nova determinantes na busca de novos locais onderealidade para milhões, mas também um novo modo achar um mercado comprador ainda virgem.de pensar a realidade. “A segunda Onda multiplicou o número de canais de que o indivíduo tirava a imagem da Chocando-se em mil pontos com os valores, os realidade. A criança não mais recebia apenasconceitos, os mitos e os costumes da sociedade imagens da natureza ou das pessoas, mas também asagrícola, a Segunda Onda trouxe consigo uma recebia dos jornais, das revistas de massa, do rádio e,redefinição de Deus … de justiça … de amor… de mais tarde, da televisão.poder … de beleza. Despertou novas idéias, atitudes Pela maior parte, a igreja, o estado, o lar e ae analogias. Subverteu e suplantou pressuposições escola continuaram a falar em uníssono, reforçando-antigas a respeito do tempo, do espaço , da matéria e se uns aos outros. (…) Certas imagens visuais, porda causalidade. Emergiu uma visão de um mundo exemplo, foram tão amplamente distribuídas empoderoso, coerente, que não só explicava, mas massa e foram implantadas em tantos milhões detambém justificava a realidade da Segunda Onda. memórias particulares que, com efeito, seEsta visão da sociedade industrial do mundo não transformaram em ícones. A imagem de Lenin, otem um nome. Poderia ser designada “indust- queixo projetado para a frente em triunfo sob umarealidade”. esvoaçante bandeira vermelha, assim se tornou tão icônica para milhões de pessoas como a imagem de Um dos aspectos da “indus-realidade” é que Jesus Cristo na cruz. A imagem de Charlie Chaplin,ela traz em seu bojo uma forma bastante com chapéu- coco e bengala, ou Hitler esbravejandoabrangente de compreensão do mundo. em Nuremberg, a imagem de corpos empilhados em “Cada um de nós cria em seu cérebro um modelo Buchenwald, de Churchill fazendo o sinal do V oumental da realidade – um armazém de imagens. Roosevelt usando uma capa preta, de MarilynAlgumas destas são visuais, outras auditivas, mesmo Monroe com a saia levantada pelo vento, depalpáveis. Algumas são apenas “ perceptos” – centenas de estrelas de propaganda e milhares devestígios de informaçõe sobre o nosso meio, como um diferentes produtos comerciais universalmentevislumbre do céu azul visto pelo rabo de um olho. reconhecíveis – a barra do sabão Ivory nos EstadosOutras são “ligações” que definem relações, como as Unidos, o chocolate Morinaga no Japão, a garrafaduas palavras “mãe” e “filho”. Algumas são simples, de Perrier na França – todas figuras se tornaramoutras complexas e conceptuais, como a idéias de peças padronizadas de um arquivo universal deque a “inflação é causada pelo aumento dos imagens.salários”. Juntas, tais imagens formam a nossa Estas fantasias produzidas centralmente,imagem de mundo, localizando-nos no tempo, no injetadas na “mente da massa” pelos meios deespaço e na rede de relações pessoais em volta de comunicação de massa, ajudaram a produzir anós.” padronização do comportamento exigida pelo Durante a primeira onda os “perceptos” sistema de produção industrial.”foram estabelecidos basicamente através dasrelações pessoais familiares ou grupais. Eram os Ao longo da segunda onda emergiu umparentes próximos, os mais velhos, as novo modelo social onde a moral, os costumes,autoridades políticas e religiosas, etc ; que as idéias foram pré-fabricadas. Este processopropiciavam ao sujeito as informações básicas e instituiu uma padronização das formas denecessárias. Grande parte da humanidade, pensar, através da chamada indústria cultural.
    • 80Cada produto era simplificado ao máximo para propaganda criou o que os críticos chamaram umapoder ser consumido por todos. Isto acabou “mentalidade de massa”. Hoje, em vez de massas depor criar uma cultura de aparência, onde as pessoas recebendo todas as mesmas mensagens,informações eram minimamente capturadas. grupos desmassificados menores recebem e enviam Na terceira onda tudo isto mudou. Com a grandes quantidades de suas próprias imagens de unscriação da rede de computadores, e para os outros. Enquanto a sociedade inteira seprincipalmente da Internet, não basta apenas o desloca para a diversidade da Terceira Onda, ossujeito aprender a lidar com as informações novos meios de comunicação refletem e aceleram omais gerais. É preciso aprofundá-las, processo. (…) O consenso de despedaça. Num níveldecodificando-as em toda a sua complexidade. pessoal, são todos cercados e assaltados porIsto porque agora o sujeito está sozinho frente fragmentos de fantasia, contraditória e desconexa,ao processo de transmissão e que abala as nossas velhas idéias e chega até nós sobprodução/reprodução das informações. Cada a forma de blips quebrados ou desencarnados. Nósvez mais elas tendem a crescer e apresentar um vivemos, de fato, numa “ cultura do blip”.fluxo contínuo avassalador. O sujeito precisa Com isto, há uma diferença básica entre asaber lidar com as informações, selecionando- vivência dos sujeitos da Segunda Onda e daas , agrupando-as , reordenando-as. Terceira Onda: a criação de uma autonomia maior. O que leva os indivíduos presos aos “ O que na superfície parece ser uma série de valores da Segunda Onda a se sentiremeventos desconexos resulta ser uma onda de ameaçados pelos valores e propostas damudanças intimamente correlatas, rodando através Terceira Onda.do horizonte dos meios comunicação, dos jornais e “ As pessoas da Segunda Onda, ansiosas pelarádio num extremo, às revistas e televisão no outro. moral pronta para uso e as certezas ideológicas doOs meios de comunicação de massas estão sob passado, estão incomodadas e desorientadas pelaataque. Novos veículos de comunicação blitz de informação. Sentem nostalgia dos programasdesmassificados estão proliferando, desafiando – e de rádio da década de 30 ou dos filmes da década dealgumas vezes mesmo substituindo – os meios de 40. Sentem-se excluídos do ambiente dos novos meioscomunicação em massa que foram dominantes em de comunicação, não apenas porque muito do quetodas as sociedades da Segunda Onda. ouvem é ameaçador ou perturbador, mas porque as A Terceira Onda começa assim uma verdadeira próprias embalagens em que chega a informação sãonova era: a idade dos veículos de comunicação estranhas.”desmassificados. Uma nova infosfera está emergindo Face à um novo mundo que cobra posiçõesjuntamente com a nova tecnosfera. E esta terá um pessoais, o sujeito se sente muitas vezes, aimpacto de longo alcance nessa esfera, a mais partir de suas vivências anteriores, incapaz deimportante de todas , a que está dentro dos nosso dar uma resposta. São principalmente aquelescérebros. Pois, tomandas em conjunto, estas que aprenderam a pensar através de processosmudanças revolucionarão a nossa imagem do mundo simplificados préviamente estabelecidos. Aoe a nossa habilidade para lhe encontrar sentido.” fazê-lo no circuito atual sentem-se impotentes, O sujeito na terceira onda adquiriu um sem os parâmetros necessários de avaliação.novo status no campo do conhecimento. De Por outro lado, frente à geração passada, aum mero recebedor de informações como na geração atual criada dentro do contexto dasegunda onda, ele precisa tornar-se um Terceira Onda se vê com grandes vantagens..produconsumidor, isto é, o que Alvin Toffler “Em vez de recebermos longas e relacionadasdesigna como um produtor/consumidor de “enfiadas” de idéias, organizadas e sintetizadas parainformações. Não basta apenas ele consumir as nós, estamos cada vez mais a breves e modelaresinformações, ele tem de criá-las também. Sob blips de informação – anúncios, pedidos, teorias,este aspecto pode-se dizer que a cultura na fiapos de notícias, fragmentos truncados que seTerceira Onda acabou por se personalizar. Ela recusam a encaixar-se perfeitamente nos nossosnão é mais um produto de massa. arquivos mentais preexistentes. As novas fantasias “ A desmassificação dos meios de comunicação resistem à classificação, em parte porquede massa desmassifica igualmente as nossas mentes. freqüentemente caem fora das velhas categoriasDurante a era da Segunda Onda o martelar conceituais, mas também porque vêm emcontínuo das imagens padronizadas expelidas pela embalagens demasiado estranhas de forma,
    • 81transitórias e desconexas. Assaltadas pelo que elas 6. CONCLUSÃO: O NOVO PAPEL DApercebem como o tumulto da cultura blip, as pessoas EDUCAÇÃOda Segunda Onda sentem uma raiva reprimida O que isso tem a ver com as necessidadescontra os meios de comunicação. básicas do professor em seu processo de As pessoas da Terceira Onda, ao contrário, estão formação e posterior prática pedagógica?mais à vontade no meio deste bombardeio de blips – Acreditamos que a Terceira Onda introduzaa intersecção de recortes de notícias (devido) a um uma posição inédita na cultura humana: porcomercial de 30 segundos, um fragmento de canção e um lado, o professor é um elemento altamenteletra, um cabeçalho, um cartoon, uma montagem, estratégico e, por outro, pode ser facilmenteum item de panfleto, um print-out de computador. dispensável. No primeiro caso, ele podeLeitores insaciáveis de livros de bolso de ler e jogar auxiliar os alunos a aprender a selecionarfora e de revistas de interesse especial engolem melhor as suas alternativas e recursos de acessoenormes quantidades de informação em pequenos à informação. Em segundo lugar, o professorbocados. Mas também estão de olho naqueles novos precisará estar constantemente atualizado paraconceitos ou metáforas que reúnem ou organizam não se tornar um elemento descartável.blips em totalidades maiores. Em vez de tentarem Uma outra variável que não pode seratulhar com os novos dados modulares as categorias esquecida : tal como o professor o alunoou estruturas padronizadas da Segunda Onda, precisará de reciclagens constantes. A diferençaaprendem a fazer as suas, a formar as suas próprias é que ele necessitará de um professor com um“enfiadas” do material “blipado” disparado sobre alto nível técnico de formação e informação.eles pelos novos meios de propaganda. “ Isto introduz uma alteração significativa no Em decorrência, são introduzidas formas quadro de professores. A atualização dediferentes de pensar a partir dos dois tipos de conhecimentos torna-se um processocivilização : a Segunda e a Terceira Onda. Na estratégico. Alguns serão facilmenteSegunda Onda o aluno vai estar pedindo dispensáveis; aqueles não se atualizam. Para osmodelos prontos, enquanto que aqueles que demais, haverá sempre um novo campo devivenciaram os valores da Terceira Onda trabalho a ser tecido e estruturado, a partir daestarão pedindo mais liberdade para pensar própria demanda dos alunos.individualmente. Em decorrência, pode-se dizer que a própria “ Em vez de apenas recebermos o nosso modelo escola muda. Enquanto na Segunda Onda asmental de realidade, nós agora somos impelidos a informações básicas vinham através dela, nainventá-lo e continuamente a reinventá-lo. Isto Terceira Onda os computadores parecem detercoloca um enorme fardo sobre nós. Mas também este lugar estratégico. A base de informaçõesconduz à maior individualidade, à desmassificação maiores não virá dos professores, mas dosda personalidade, assim como da cultura. Alguns de próprios computadores que poderão sernós rebetam sob a nova pressão ou se recolhem à acionados nos lares, nas bibliotecas ou naapatia ou à raiva. Outros emergem como indivíduos própria escola. O professor se tornará entãobem formados, crescendo continuamente, um orientador de formas de estudo maiscompetentes, capazes de operar, por assim dizer, adaptadas às necessidades dos alunos. Assim,num nível mais alto. ( Num ou noutro caso, quer a por exemplo, em vez de uma aula de históriatensão se revele grande demais ou não, o resultado tradicional, um cd-room elaborado com osestá muito longe dos robôs uniformes, padronizados, mais recentes recursos de multimídiafacilmente arregimentados, previstos por tantos propiciará ao aluno um contato maissociólogos e escritores da ficção científica da era da aprofundado com a matéria. Ele poderáSegunda Onda). receber, além de um relato sobre os fatos mais Acima de tudo isto, a desmassificação da importantes do evento histórico, outrascivilização, que reflete e intensifica os meios de informações complementares. Saber como secomunicação, traz com ela um enorme salto na constituia a terra naquela época, como era oquantidade de informação que todos trocaremos uns clima, o céu, a saúde dos sujeitos, etc. Ou seja,com os outros. E é este aumento que explica por que estamos saindo de uma históriaestamos nos tornando uma “sociedade de monocromática para uma hipercromática e deinformação”. “ recursos de multimídia.
    • 82Cabe aos professores, se quiserem participar é alguma coisa que o sistema educacional possadeste processo de transformação social, uma obrigar os professores a fazerem. A Informáticaconstante reciclagem. Para que eles não se é ainda uma opção, uma decisão do professortornem – como já ouvimos de muitos frente aos seus novos rumos de trabalho.professores – o “lixo” descartável desta nova Faculdade de Educação da Universidade de São Pauloera. Um professor atualizado é aquele que tem Fonte:olhos no futuro e a ação no presente, para não http://www.educacaoonline.pro.br/perder as possibilidades que o momento atualcontinuamente lhe apresenta. Porém, isto não O Folclore Negro na Literatura Norte- AmericanaPublicado na Folha da Manhã, domingo, 28 de Na Cabana do Pai Tomás, no capítulosetembro de 1947 intitulado “Uma noite na cabana de Pai Tomás”, aparecem versos do cancioneiro de A idéia do negro assustadiço, Alabama, do escritor Carl Cramer; os dramaspatologicamente supersticioso, já deu varias de acerbo conteúdo social, como Dont’t Youvezes a volta ao mundo, nas asas da literatura. Want to be Free?, de Langston Hughes, porO cinema, onde raramente aparece um afro- exemplo, em cujas paginas deslizamamericano que não faça palhaçadas, acaricie a melancólicos blues, estão todos saturados de“patinha de coelho” ou se espante com criações de arte negras.fantasmas, encarregou-se de recolher essa Referindo-se aos escritores jovens,patranha. principalmente os regionalistas e nativistas, diz No entanto, a brilhante tradição Ortiz Oderigo que se nota neles a salutarrevolucionaria dos filhos de Cam – afirma o sr. tendência de dar aos negros o lugar queNestor R. Ortiz Oderigo, no interessante artigo merecem. A maioria dos que se dedicam asobre o folclore negro na literatura americana, esses gêneros conhece perfeitamente o materialque publicou na revista argentina Nosostros – de que se serve.deram ao mundo figuras admiráveis como as Entre os primeiros escritores que trataramde Toussaint Louverture e Falucho, Maceo e do assunto, está Dorothy Scarborough, queDenmark Vessey, Nat Turner e Barcala, Ansina publicou, há dois decênios, a novela In thee John Brown. Land of Cotton, que tem como cenário as Muitos historiadores se empenharam em plantações de algodão do Estado de Texas. Aafirmar que, durante a guerra civil norte- autora, que conhece a fundo as canções deamericana, os negros não lutaram nos exercitos trabalho dos negros humildes, pois as estudoudo norte, ficando, apenas, a cuidar das casas, com carinho em suas numerosas viagens, teceuenquanto os senhores iam à frente de batalha. com elas, em seu livro, uma trama vivida, queSobram, porem, documentos comprobatórios se entrelaça ao enredo, dando à sua obra umdo contrario. caráter de indiscutível conteúdo humano. As danças, a musica, a poesia e as narrações Ao grupo de escritores provenientes daque, por tradição, correm de boca em boca, Carolina do Sul pertencia o novelista eexerceram poderosa atração sobre a critica e o dramaturgo DuBose Heyward, falecido empublico do mundo inteiro, notando-se na 1940, cujos livros refletem a vida dos negrosdensa trama da literatura norte-americana “gullah”"(termo derivado de Angola, segundo odiversos traços do folclore afro-americano. etnólogo A. E. González) em seu “ghetto” da
    • 83cidade de Charleston, denominado “Catfish Quanto às tendências do autor de This SideRow”. Porgy (1925) e Mamba’s Daughters of Jordan, podemos ter delas uma idéia através(1927), que constituíram extraordinário êxito dos versos por ele escolhidos, pois o livro nãonos palcos de Nova York, se desenvolvem dessa inclui nenhum dos cantos de protesto ante omoldura. trato dos brancos e as injustiças sofridas pela Pertence, também, ao grupo da Carolina do gente de cor. Pertence ao mesmo autor a serieSul, a novelista Julia Peterkin, dona da de narrações intitulada Ol’man Adam an’hisplantação Lang Syne, nesse Estado norte- Chillun, concebidas sobre cenas do Antigoamericano. Seus livros refletem os velhos Testamento nas quais a inclusão deconceitos que sobre a raça negra tinham os “Spirituals” se justifica plenamente.senhores do sul. Não obstante, revelam rica O dramaturgo Marc Connelly inspirou-sefonte de ensinamentos sobre os curiosos rituais nesses contos de Bradfort para conceber a suae tradições praticados pelos escravos e seus farsa Green Pastures, muito popular nosdescendentes. A autora desenvolve com Estados Unidos, e da qual se fez uma versãonotável desembaraço o tema folclórico. Em cinematográfica. Nesse trabalho, osBlack April (1927) descreve, com riqueza de argumentos se misturam, de maneiramaterial, as superstições do homem do campo, indissolúvel, com o material e os cantossuas interpretações dos fenômenos físicos, seus folclóricos, constituindo um todopressentimentos, distanciando-se da técnica sobremaneira homogêneo.novelística para aproximar-se do denso estudo Zora Neale Hurston é o nome de outrado folclore. A sua obra mais importante, cultura do folclore. O notável etnólogo FranzScarlet Sister Mary, apareceu em 1928, sendo- Boas, da Universidade de Columbia, considera-lhe outorgado, pela sua realização, o premio na como a melhor entre os escritores que“Pulitzer” de literatura desse ano. reconheceram em seus livros as tradições, os Roark Bradford também se dedicou cantos, as danças e as superstições do afro-profundamente ao folclore em seus contos, americano do campo. Prenhe de conteúdonovelas e obras teatrais. Embora pertença às folclórico é a sua novela intitulada Jonah’sultimas gerações de escritores, encontra em seu Gourd Vine, em que narra a vida de umponto de vista de lastro dos autores sulistas do humilde negro de Alabama.século passado, para os quais o negro Embora em plano diferente do de Zoraconstituía objeto decorativo. Sem chegar ao Neale Hurston, a escritora Edna Ferberplano reacionário de Octavius Roy Cohen, também contribuiu para a divulgação do temaBradford adultera o material folclórico, literário folclórico, utilizando em seudeturpa-o, como os menestréis desvirtuavam as melodrama Show Boat, de maneira discreta,canções afro-americanas. Em This Side of cantos dos remadores do Mississippi, derivadosJordan, Bradford narrar a vida dos negros nos dos “cantos de remar” dos africanos.campos que o imenso Mississippi banha e Na parte final do seu artigo, Ortiz Oderigofertiliza, rio que é, ao mesmo tempo, o Nilo e o refere-se ao interesse de Eugene O’Neill, oJordão dos homens de côr. Há, nesse livro, maior dramaturgo norte-americano, pelo temagrande abundancia de “folk songs”. Os “revival negro folclórico, do qual se utilizou, pelameetings” – os batismos nas cálidas águas do primeira vez, em 1918, em sua peça The Moonrio descoberto por De Soto – são descritos com of the aribees que trata dos afro-antilhanos,grande riqueza de pormenores. iniciando com essa obra o seu “ciclo negro”. Em seu estudo, Ortiz Oderigo transcreve a Lançou, em seguida, Emperor Jones (1920),seguinte canção, que aqui reproduzimos para conhecida no Brasil, tambem, através da versãoos leitores brasileiros: cinematográfica de Paul Robeson. Dreamy Kid (1921) e All God’s Chillun Got Wings Não tenho dinheiro, encerram esse ciclo. Não tenho blusa, Dentre as figuras folclóricas da gente de cor Não tenho “overalls”, dos Estados Unidos que entraram na novela, Mas agradeço a Deus, na narração, no palco, na poesia – diz Oderigo Porque possuo uns empoeirados, – a que despertou maior interesse entre os Empoeirados, empoeirados sapatos! escritores foi John Henry, figura legendaria,
    • 84recortada pela fantasia inesgotável do povo, Terminando o seu estudo sobre o temamas com inquestionaável fundo humano e folclórico afro-americano, Ortiz Oderigoreal, personificada por um negro operário da menciona diversos poetas raciais, entre osconstrução do túnel Big Bend, em West quais Langston Hughes, Sterling Brown,Virginia. John Henry viveu há mais de meio Alexander e James Weldon Johnson, e, entreséculo, sendo admirado pelos trabalhadores os brancos que se dedicam à poesia negra, Carlnegros dos Estados Unidos pela sua capacidade Sandburg, DuBose Heyward Clemente Woodde trabalho, pois “podia trabalhar por seis e E. L. Adams.homens”, e pela sua trágica morte,lamentadíssima, ocorrida na defesa dos seus Fonte: http://almanaque.folha.uol.com.brafazeres. Seu perfil, refletiu-se na poesia, namusica, no teatro e na novela folclóricos norte-americanos. Emir Macedo Nogueira O Homem que Colecionava Caixas de FósforosPublicado na Folha da Manhã, domingo, 1º de fevereiro de obsessão, que transformou a vida conjugal em1953. um ‘inferno’”. Cada louco com sua mania. Balduino, A verdade é que a Mariazinha sempreapesar de não ser louco — pelo contrário, era pareceu ser muita compreensiva e tolerante,até um individuo bem lúcido, perfeitamente em relação à mania do Balduino, pelo menosnormal — também tinha a sua mania: a mais enquanto não o desposou. No longo tempo deprosaica, a mais inofensiva, talvez a mais tola namoro e noivado (este durou seis anos), eladas manias: colecionar caixas de fósforos. Bem até o ajudava a encontrar novas caixas deconservadas ou não, de qualquer formato, de fósforos, não reprimia interjeições admirativasqualquer marca. Balduíno nunca se vexou de diante dos castelos que ele construía com esseapanhar uma caixa de fósforos na rua, mesmo modesto material e até mesmo o incentivava aque estivesse acompanhado por sua namorada juntar mais e mais.(mais tarde sua esposa), por um amigo ou pelo Foi só casar, porém, e… Minto. Começoupatrão. antes. Já a confecção do bolo do casamento Para se compreender bem o que aconteceu provocara a primeira rusga seria entre os dois.com o Balduino, em consequência de sua Balduino insistia em que o bolo tivesse a formamania, não se pode esquecer que ele viveu a de uma caixa de fósforos, meio aberta, com osvida toda em uma cidadezinha pequena, dessas palitos aparecendo. E no alto dela, duasonde todo o mundo se conhece. Não é de figurinhas simbolizando o casal de noivos.estranhar, portanto, que todos soubessem de Mariazinha fez pé firme e, numa demonstraçãoseu singular habito, a ponto de ninguém mais de como agiria depois de casada, colocou oreparar nele. Para a Mariazinha, vizinha do futuro marido num dilema: ou ela (a caixa deBalduino e que o namorou durante nove anos, fosforos) ou eu. Acredito que em outrasvindo depois a casar-se com ele, nem essa circunstancias Balduino não hesitaria: optariaatenuante ficou: a de poder dizer aos tribunais pela sua caixa de fósforos, sem pensar duasque “ele era um sujeito muito bonzinho, vezes. Mas, fosse porque gostasse mesmo daequilibrado, um chefe de família exemplar mas Mariazinha, ou porque os convites já tivessemde repente pegou uma mania, uma verdadeira sido distribuídos, os doces prontos, a
    • 85cerimônia religiosa encomendada – fosse marido: um dia, jogava no lixo (sem querer,porque fosse, enfim – decidiu ceder dessa vez. dizia ela) uma meia dúzia de caixas que oMas com uma conclusão: a de que as alianças Balduino pacientemente tinha selecionado,fossem levadas, por dois garotinhos, para o entre as mais perfeitas da coleção; outro, pisavacasamento na igreja, dentro de caixas de (também inadvertidamente), em cima defósforos, artisticamente enfeitadas… alguma caixa que o marido tinha esquecido de Dizem as más línguas que, no dia do guardar); certa ocasião, chegou a jogar no fogocasamento Mariazinha ficou mais de meia hora um castelo muito bonito, estilo medieval, queem frente ao padre, com a igreja cheia, os com paciência beneditina o Balduinoconvidados impacientes, esperando o noivo, conseguira armar.que lá ficara, na casa que tinha alugado para a Como pobre casa sem ter nada e aos poucosnova vida, tentando arrumar um lugar vai comprando tudo aquilo de que necessita,“decente” para as suas caixas de fósforos. Pode quando Balduino e Mariazinha chegaram aoser que seja verdade, mas eu não garanto. quinto mês de casados, sua modesta residência Enfim, com todos esses pequeninos já estava mais ou menos abarrotada de moveis,contratempos, o casamento se realizou. utensílios domésticos e bugigangas de todaDurante os primeiros meses, parece que tudo espécie. Mariazinha então começou a apertar ocorreu normalmente, porque, como eu já disse, cerco:Balduino era um bom sujeito, compreensivo, “Baldo, a gente já vive esprimidinha aquimuito simpático e gostava da Mariazinha. dentro, não tem nem lugar pra guardar a louçaNinguém sabe quando esta começou de fato, e você ainda enche a casa com esses baúsrealmente, ferozmente, a implicar com a mania cheios de ‘porcaria’”. Precisamos jogar essasdo Balduino. A principio, apenas o impediu de porcarias fora.”apanhar novas caixas na rua. Quando os dois Naturalmente, havia um certo exagero naspassavam para ir ao cinema, ou dar uma volta palavras de Mariazinha porque Balduino tinhano jardim e Balduino vislumbrava na rua um apenas dois baús, grandes, é certo (de unsdos pequeninos objetos que eram a sua oitenta centímetros de comprimento), ondeobsessão, imediatamente começava a dobrar a guardava as suas caixas de fósforos. Mas aespinha, para apanhá-lo e metê-lo no bolso. mulher insistia tanto, falava, brigava, faziaMas com a Mariazinha ao lado, o gesto ficava cenas, que o Balduino decidiu adotar a soluçãoinacabado. Ela se agarrava ao braço do marido, extrema, dois meses depois.puxava-o com força e passava-lhe um sermão “Já faz sete meses que estamos casados.em regra, sobre comportamento de pessoas na Nem sinal de filho ainda. Quer dizer que Deusrua, “o ridículo a que muita gente se submete”, não abençoou mesmo o nosso casamento. Elaetc. De tal forma o azedume da cara-metade era me martiriza todo dia. Não compreende apronunciado, nessas ocasiões, que Balduino necessidade que eu sinto de ser artista, de criarteve de resignar-se a renunciar a 312 caixinhas alguma coisa, um castelo feito com caixas dede fósforos, bem contadas, que lhe apareceram fósforo, por exemplo. Então, o que é que eusob as vistas, sempre que estava em companhia estou fazendo nesta casa? Que vá às favas oda Mariazinha (durante os sete meses em que casamento”.permaneceram juntos). Em compensação, os Deve ter sido esse o pensamento decompanheiros de trabalho do Balduino Balduino, pois logo depois ele abandonou a(trabalhavam numa modesta selaria que até mulher e voltou a residir com a mãe, viúva,hoje não sei porque cargas d’água se chamava com a qual morava antes de casar-se. Não“A Agulha de Aço”), nunca deixaram de lhe dramatizou o rompimento, não discutiu, nemaumentar a coleção, seja reservando-lhe as pediu ou impôs nada. Disse à mulher que nãopróprias caixas que usavam, seja guardando poderiam viver juntos, que ela também voltassepara ele as que acaso achavam na rua. para a casa dos pais e ele continuaria dando-lhe Apesar de pouco ter transpirado, é fácil uma pequena mesada, do parco ordenado quesupor que a vida do Balduino foi-se tornando recebia na selaria.um inferno, em vista da implicância da Não se sabe qual foi a reação da MariazinhaMariazinha. Volta e meia se comentava um diante da resolução do Balduino, porque senovo ato dela, com relação direta à mania do este, alma simples e ingênua, contou todos os
    • 86fatos acima narrados aos companheiros de vergonha por ter sido vencida, na afeição dotrabalho, ela não se abriu com ninguém. marido, por uma miserável caixinha de O desfecho do caso não se fez esperar. Três madeira, frágil e feia.dias depois da separação, Mariazinha apareceu Todos os moradores da cidade onde sena selaria e pediu para falar com o Balduino, desenrolou o drama ficaram profundamentenum cantinho, longe dos ouvidos dos outros consternados com a morte do Balduino. E, porempregados. Dizem que não conversaram mais iniciativa dos companheiros de trabalho dode três minutos. Um dos companheiros do assassinado, decidiram prestar-lhe uma últimaBalduino, mais curioso, que não despregara os homenagem, a mais significativa que puderamolhos do casal, viu o rapaz balançar imaginar: organizaram uma lista para custear oresolutamente a cabeça, em sinal negativo, enterro. E mandaram fazer um caixão com aprovavelmente diante de um pedido de forma, igualzinha, à de uma caixa de fósforos.reconciliação da esposa. Imediatamente,Mariazinha, desvairada, pegou em cima de umamesa um instrumento de cortar couro,afiadíssimo, em forma de meia-lua, e cravou-ono pescoço do Balduino, que não teve tempo Um Caso de Emir como Professorde esboçar sequer um gesto de defesa. Os No 3º científico no CENEART em 1968, certacompanheiros acorreram rapidamente, mas vez pediu que os alunos dissertassem sobre anada podiam fazer. O corte fora fundo, preguiça. Um aluno de nome Hidekazu, entregou oBalduino sangrava abundantemente e morreu trabalho em branco. Somente ao final escreveu: “Istoali mesmo, poucos instantes depois. é a preguiça, estou com ela”. O Mestre Emir deu-lhe A cidade comenta até hoje as razões do nota 10. O aluno indagou: “Professor, eu tirei 10?”gesto de Mariazinha. Para uns, foi a vaidade A resposta foi: você não tirou 10. Eu é que lhe deiferida, a vergonha de ter sido abandonada e 10 pela sua criatividade e porque você realmente étodo o mundo, onde viviam, saber isso. Outros um preguiçoso.acham que ela amava realmente o marido e Fontes: http://almanaque.folha.uol.com.br/não poderia viver sem ele. Eu, por mim, acho http://www.diariodocentrodomundo.com.br/?tag=emir-nogueiraque foi vaidade, sim, vergonha também: mas Sandra Kezen Caravelas Escrevo palavras breves. e lanço ao mar, caravela. Escrevo e não sei por quê. Escrevo versos bem leves. Escrevo o que ninguém lê. Escrevo, que a noite é fria. Sandra Kezen é professora e coordenadora do Escrevo mais para mim. Laboratório de Línguas da Faculdade de Escrevo em agonia. Direito de Campos e da Faculdade de Não sei por que sou assim. Odontologia de Campos dos Goytacazes (RJ). Procuro a palavra solta, *********** Fonte: aquela que ninguém vê, Revista Partes – Ano V – novembro de 2004 – nº 51 que colho no ar, revolta, http://www.partes.com.br idéia imprecisa e bela, que escolho sem ter por quê
    • 87 Rubens Zárate A Fala-adornada-do- espírito, as Aldeias da Serra do Mar & a Terra em que Vivemos Experimente observar os traços físicos das imagens, aquilo que Castoriadis chama poiésispessoas à sua volta – conhecidos, – & o homem é antes de tudo um animaldesconhecidos – no trabalho, ponto de ônibus, poiético, isto é, imaginante & imaginário.na Praça da Moça ou casas de forró. Aquela Roger Bastide, antropólogo francês & professorloira oxigenada com uns olhinhos meio da USP, ao pesquisar os terreiros de candomblérasgados, uma dobra diferente no canto dos procurou enxergar os praticantes do culto comolhos; aquele senhor evangélico com a ossatura o olhar do Outro – o chamado “olharda face meio proeminente; aquele adolescente antropológico” –, no caso, um olharouvindo pagode ou tecno, beiçudo & de pele afrodescendente. Acabou descobrindo que eracastanho-avermelhada. Costuma-se dizer que o filho de Xangô & apresentado ao panteão nagôBrasil é um país negro & mulato. Isso é correto como membro da linhagem do orixá do trovãoaté certo ponto. Quando o tráfico negreiro & do machado-de-duas-faces. Passou a ser nagô?começou a tornar-se significativo já se havia De certo modo. Nem por isso deixou de serpassado meio século de intensa mestiçagem europeu & lecionar na USP & na Sorbonne.entre ibéricos & indígenas (principalmente Caso parecido é o de Leon Cadogan, etnólogoguaranis, no sudeste, & jês & tupis, mais ao paraguaio rebatizado com o nome de Tupãnorte). Darcy Ribeiro, por exemplo, defende a Kuchuvy pelo pajé da aldeia mbyáguarani quetese de uma protocélula Brasil mameluca ou pesquisava.cabocla, surgida nos primeiros 50 anos de O inverso vale também. Sabe-se que, graçascolonização, base das nossas populações aos mitos & falas sagradas mbyá registrados porcamponesas, com ou sem terras. Desse ponto Cadogan, muitos indivíduos geneticamentede vista o mais correto seria dizer que o Brasil é indígenas puderam se tornar indígenasum país cafuzo. Na verdade, esse tipo de culturalmente, tomando contato com suasabordagem fenotípicoracial parece estar um tradições através da leitura de textostanto ultrapassado. O século XIX criou, com etnográficos, publicados por editoras oubase nos traços físicos dos indivíduos, uma Universidades. Não existem, portanto,série de estereótipos, caricaturas a respeito do “culturas autênticas”, do tipo “folclore emque viria a ser um “índio”, “negro” ou mestiço. conserva”. Noções como “autenticidade” ouA antropologia contemporânea, inclusive Darcy legitimidade” são entulhos ideológicos,Ribeiro, prefere entender que indígena é todo abandonados há décadas pelas ciências sociais.aquele que se reconhece & é reconhecido Todo processo cultural é híbrido, sincrético,como indígena por uma comunidade indígena. uma combinação de elementos heterogêneos,Não vamos então cair naquele tipo de chavão endógenos & exógenos, nativos & estrangeiros,segundo o qual “o brasileiro é musical” por ter “legítimos” ou “espúrios” – como nos cultos daum pé na senzala ou “amante da natureza” por umbanda, do catimbó ou do Santo Daimeter o outro na taba. Sociedades & indivíduos Há quatro aldeias mbyá na Grande São Paulonão são resultado de determinismos genético- (duas delas à beira da Billings): Tenondé-Porãraciais, geográficos-ambientais ou sócio- (Parelheiros), Krukutú (Parelheiros/Sãoeconômicos, mas produções de um imaginário Bernardo do Campo), M’Boi Mirim & Jaraguá,social, de significações simbólicas, de um devir que se interligam a pelo menos mais quatro nohistórico de incessante criação coletiva de litoral paulista, em Itanhaém, Peruíbe,
    • 88Ubatuba & São Sebastião. Seus habitantes migraram para o leste (lugar de Karay, ovivem como estrangeiros quase invisíveis nas espírito do fogo), indo do Paraguai para o Matofrestas & franjas da área mais capitalizada & Grosso & Paraná, & dali para a Serra do Mar,cosmopolita da América Latina, estabelecendo os atuais avá-chiriguanos da Bolívia, do gruporelações entre o modo de vida tradicional do ñandeva, migraram para o oeste (lugar de Tupã,interior das aldeias & a periferia & o centro espírito das águas & tempestades), chegando adas cidades da Grande São Paulo. É curioso invadir o Império Inca no século XVI.notar que a sociedade brasileira, que nas Em seu clássico A Sociedade Contra oúltimas décadas vem aprendendo a reconhecer Estado, Pierre Clastres faz uma leitura bastanteseu legado afrodescendente, ainda se recusa a original sobre a questão, com grandeassumir sua face indígena & mameluca. O repercussão nos campos da Etnologia & daBrasil finge que o índio (real) não existe – a não Política. Sendo as sociedades tribais sociedadesser como avis rara empalhada, museológica & sem Estado, o fenômeno dos profetas karay &exótica. da busca da terra-sem-mal representariam uma Os mbyá, originários do Paraguai oriental, reação contrária ao surgimentosão um dos grupos culturais que formam o dos cacicados, chefi as políticas centralizadaspovo guarani – os outros dois são os kaiowá & nas mãos dos líderes guerreiros. Signifi cariam,os ñandeva –, aquele que melhor preservou portanto, uma rebelião mística contra osuas tradições originais diante da devastação aparecimento de um proto-Estadoprovocada a partir de 1500 pela pirataria monopolizador do poder – & o poder, para osibérica & pela catequese romana. Antes mesmo mbyá, é o poder da palavra. “Falar é, antes deda invenção do Brasil pelos europeus, a cultura tudo, deter o poder de falar”. Os karay,guarani se caracterizava pelas migrações à “profetas selvagens”, pregariam as migraçõesprocura da terra-sem-mal (yvy marãey), situada para a terra-sem-mal – isto é, sem Estado –do outro lado do mar. Esses êxodos, ocorrentes visando a desestabilização das chefias. Essadesde a época pré-cabralina até metade do guerra simbólica entre xamãs & caciquesséculo XX, eram induzidos por visionários em implicaria, para Clastres, na dissolução datranse, os karay, uma categoria especial de pajé, própria sociedade mbyá, que, diante da ameaçaque recitando falas sagradas incitavam as de dominação social pelo Estado, teria optadoaldeias às migrações. O mar, na cosmologia (como ocorre hoje com os kaiowá do Matoguarani, representa o lugar onde o destino Grosso) pela auto-extinção.humano pode se cumprir: é ao mesmo tempo ____________um ponto de chegada & um obstáculo a ser A cultura mbyá se define pelo visionarismotransposto para se atingir o éden. A Serra do xamânico, & este pelo caráter mágico-religiosoMar, nesse contexto, passa a ter um significado da palavra mitopoética, recitada ou cantada.especial: é a barragem do mar (yvy paiãry jocoã). Para Mircea Eliade o sagrado é, na religiosidadeNos antigos mitos ñandeva há menção explícita arcaica, o centro & a origem da realidade, oà Serra do Mar. Talvez por isso os guarani núcleo a partir do qual se propaga o mundotenham ocupado as encostas da serra, ao invés profano. Assim todo rito & todo mitodo litoral como os antigos tupi. Nas tradições representam o retorno ao centro & à origemmbyá & ñandeva, as terras do leste teriam sido do real, o regresso ao sagrado. Não há, nasocupadas por seus antepassados, & sua atual culturas arcaicas, a separação judaico-cristã,reocupação representa o tekoa, o lugar-onde-se- platônica ou cartesiana entre essas duas esferas.pode-ser-aquilo-que-se-é. Nas cosmogonias indígenas não existe um deus____________ criador apartado do mundo por ele Para Curt Nimuendaju, etnólogo alemão engendrado. Sagrado & profano, deuses &que pesquisou as migrações guarani ocorridas criaturas são estágios ou pólos de um mesmodo final do século XIX à metade do XX, a busca processo. O universo é visto como umda terra-sem-mal é um fenômeno incessante desdobrar-se e redobrar-se, umafundamentalmente mágico-religioso, esteja ou continuidade entre a unidade original & anão relacionada a injunções da vida material, multiplicidade do mundo. Para os mbyá, acomo guerras ou procura de novas áreas de criação do mundo se dá quando Ñamandu, ocultivo. É curioso notar que, enquanto os mbyá Mistério das Origens, desdobra-se a partir de si
    • 89mesmo – como um sol que se ilumina, uma Por isso a cerimônia de batismo, ñi-mongaray,semente que irrompe ou uma asa de pássaro talvez seja a mais importante entre os mbyá.que se abre. É o oguero-jerá, conceito Uma criança que nasce é consideradafundamental da metafísica mbyá, que poderia encarnação de uma palavra-alma, um “nome-ser traduzido como aquilo-que-germina-de-sua- que-se-assenta-&-ergue”. O pajé pode ler naprópria-germinação, ou aquilo-que-se-desdobra- névoa do tabaco qual é essa palavra, a linhagemem-seu-próprio-desdobramento, ou ainda espiritual da qual provém aquele a ser batizadoaquilo-que-se-ilumina-da-iluminação-de-si- – leste, oeste, sul, norte ou zênite –, qual é seumesmo. A cosmogênese é uma ereção do avá, nome, isto é, sua essência & origem. Receberforça sagrada da verticalidade. Manifesta-se um nome é receber ñe’e, uma alma-vida-fala.como ayvu, espírito-sompalavra que vem à Do mesmo modo, o ato de cura é a restituiçãoTerra; individualiza-se como ñe’e, alma-cântico- do ñe’e perdido do enfermo. O pajécurandeirofala que encarna nos seres viventes. O mundo utiliza o cachimbo & o fumo, lembrando opassa a existir através do ato da poetização, da nevoeiro que Jakairah trouxe à terra junto ànomeação, do canto-recitação. palavra & ao pensamento, & opera____________ analogamente ao deus da neblina que infunde No idioma guarani não há plural ou a vida como orvalho à vegetação na passagemconjugação dos tempos verbais. Um único do inverno à primavera. Voltar à vida, devolvertermo pode ser substantivo, verbo ou adjetivo. a alma-palavra é também o ato de curar. HáPara Cadogan, “todo o domínio semântico uma relação direta entre o sagrado, aguarani comprova sua extrema riqueza. Sua linguagem, a vida & a verticalidade. Élinguagem não tem declinações passadas ou verdadeiro aquilo que está ereto, erguido. Avá,futuras. Todo seu falar é no presente: a ação que comumente designa a condição humana,reflete a realidade eterna do ser”. Além da fala esotericamente representa o estado dacomum, cotidiana, há uma linguagem secreta, verticalidade. O milho, planta sagrada & solar,esotérica, que só os karay sabem proferir & que é avaty, o vegetal-ereto.não se dirige aos homens, mas ao sagrado. As Considerando a importância central que ospalavras ganham um nível semântico cujo guarani atribuem à palavra, sinônimo de vida,sentido & uso é exclusivamente mágico- alma & espírito, é significativo que os atuaisreligioso. Porã, por exemplo, costuma ser habitantes da Serra do Mar tenham sidoutilizado no sentido de “belo”; mas em seu denominados mbyá: Aqueles-que-Vieram-de-significado esotérico é, literalmente, aquilo-que- Longe, os Estrangeiros, os Outros.é-adornado-com-plumas. ____________ Sendo as penas dos pássaros signos do O mitopoema que traduzo é a parte inicial,sagrado, porã equivale a “adornado, o primeiro ciclo da cosmogonia mbyá, Mainoembelezado pelos deuses”. Ayvu comumente Reko Ypy Kue (Os Atos Primeiros de Colibri-o-signifi ca linguagem, palavra, fala, recitação ou Pássaro-Primeiro). Há mais quatro traduçõescanto; mas em seu sentido mitopoético deste texto, todas baseadas nas falas sagradascorresponde ao sagrado, ao espírito, à vida recolhidas em 1953 por Leon Cadogan entre osdivina ou à música dos deuses. Ñe’e tem os mbyá do Paraguai: para o espanhol, pelomesmos sentidos, mas refere-se à fala dos seres próprio Cadogan (1959); para o francês, porvivos, humanos ou não. Outro exemplo é o Pierre Clastres (1974); para o português, pornome Karay, que designa o espírito do leste, o Yara Miowa (1999) & por Kaka Werá Jecupénascer do sol & as chamas. Secretamente a (2001). Todas elas foram cotejadas em minhapalavra denota também os próprios poetas- versão, que também parte do original, emvisionários, aqueles-que-falam-as-falas-sagradas. idioma mbyá paraguaio. É preciso lembrar queHá também palavras-montagens de imagens. toda etnotradução é uma utopia: impossívelCachimbo é “o esqueleto da névoa”, sendo os traduzir a melopéia da recitação guarani paraossos considerados a morada da alma imortal uma língua européia como a nossa.dos seres vivos, enquanto a neblina & a fumaça Maino narra a passagem do araymá, osão o hálito de Jakairah, o norte, lugar dos tempo primeiro do inverno ou caos primordial,ancestrais & do conhecimento dos anciãos. ao arapoty, tempo da primavera, ou arapyaú ñemokandyre, tempo da terra-em-que-vivemos
    • 90& dos sóis-que-nascem-&- morrem-&-nascem- qual esvoaça o colibri primordial, maino, onovamente. É possivelmente a essa idade do pássaro-primeiro.ouro ou éden terrestre (bem diversa do paraíso A passagem do caos ao cosmos seria então,cristão) que se referem as migrações para o leste na tradição mbyá, o despertar de um pássaro(lugar do sol, primavera simbólica) em busca da cujos olhos, ao se abrirem, fazem o sol nascerterra-sem-mal. pela primeira vez. Uma coruja se solariza ao sol Ñamandu, a Origem-de-Tudo, desdobra-se a de si mesma & Vê-que-É-um- Gavião. É opartir de si mesmo. As primeiras imagens primeiro oguero-jerá. O inverno dos primeirossugerem ao mesmo tempo o vir-à-luz (invertido) ventos, o araymá ou caos primordial, dá lugar àde uma criança & o desabrochar de uma primavera das fl ores do ipê-amarelo, o arapoty.palmeira cujas folhas são um cocar de plumas. O tempo-sem-tempo em que tudo é idêntico aLembram também o popyguá, o cetro si mesmo dá lugar ao arapyaú ñemokandyre,adornado com plumas que é portado pelos que era das madrugadas & primaveras que nascem-falam as falas sagradas. Essas imagens parecem &-morrem-&-nascem-novamente. Tempo dase referir também ao uiraçú ou gavião-real temporalidade: dos cânticos da diversidade da(Harpia harpya), a águia-de-penacho que é a Terra: Yvy Piaú, a terra-em-que-vivemos. Masmaior animal de rapina do planeta & pássaro também a terra que, em nossa condição desagrado em várias culturas indígenas. Antes de estrangeiros em perpétuo fl uxo migratório,desdobrar-se em gavião-real, ave solar, buscamos.Ñamandu aparece como coruja, urukure’a, Fonte:pássaro da noite. O mundo em seu desabrochar Laboratório de Poéticas Antenas & Raízesé ao mesmo tempo um sol & uma flor, sobre o n.1. Diadema: Ponto de Cultura do Imaginário & da Diversidade. 2007. p.36-39. A. A. de Assis Trovas Brincantes 01. que a prudência sai de cena. Teu beijo, pela Internet, Se há chance de ser feliz, vem sempre com tal calor, todo risco vale a pena. que qualquer dia derrete 05. meu pobre computador! Veja a mata: é lindo o verde; 02. veja o céu: o azul é belo. Trova é bom para a saúde, Por que é que então eu vou ter de faz amigos, dá prazer. manter o humor amarelo?… Talvez até nos ajude 06. a esquecer de envelhecer… Moderna e esperta, a formiga à cigarra se juntou: 03. – uma canta, enquanto a amiga A velhice não perdoa monta o circo e vende o show… quem da alegria se furta… 07. – Curta a vida numa boa, Fim do filme… Na saída, porque a vida, amigo, é curta! pergunta à pulga o pulgão: 04. – Voltamos a pé, querida, Na minha idade se diz ou vamos tomar um cão?
    • 91 08. cedemos-lhe uma costela. Finalmente um cão bilíngüe, Fomos cedendo… e hoje em dia que, além do nativo au-au, quem manda no mundo é ela! se expressa e até se distingue 19. fluentemente em miau… Muito cara que se julga 09. ladino, culto, elegante, No carrão recém-comprado no fim não passa de pulga da motorista barbeira: com mania de elefante! “Atenção, muito cuidado… 20. amaciando carteira!” Uma andorinha, voando, 10. sozinha, não faz verão… Da formiga ao boi colosso, Passando, no entanto, em bando, dando um chega no bacana: chove “adubo” em profusão! – Por sorte sua, seu moço, 21. eu sou vegetariana! Corre a bola, deita e rola, 11. salta de pé para pé… Como foi, como não foi, Quica, requica, rebola, conte dois que eu conto um… no grito do povo: – olééé! Num belo inglês, diz o boi, 22.olhando a Lua: moon… moooon… No reino dos passarinhos, 12. joão-de-barro é o burguesão: Porco sofre: além do nome, – de todos os seus vizinhos, que o deixa triste e avexado, só ele mora em mansão… quem o frita e à mesa o come 23. chama o pobre de “capado”! Pernilongo em meu ouvido 13. faz zunzum… zunzum… zunzum… Esse tal de capital Julga-se, ao certo, o exibido deixa todo mundo louco. chofer de fórmula um… – Dinheiro faz muito mal… 24. sobretudo quando é pouco! Procura-se ortopedista, de preferência letrado, 14. pra vaga de especialista O nobre faz e acontece, em versos de pé quebrado… porém me responda, ó meu: se o trabalho é que enobrece, 25. como é que ele enobreceu?… Criança que muito apronta 15. exige rigor dos pais: Diz o sábio, e quase chora, – Água mole não dá conta, por modéstia ou caçoada: se a pedra é dura demais! – Sou doutor “honóvis fora”; 26. quer dizer: doutor em nada! O povo sempre descobre 16. metaforinhas incríveis: Não te cases por dinheiro… couve-flor: “repolho nobre”; sai dessa… tô te falando… as hortas: “jardins comíveis…” Afinal, qualquer banqueiro 27. empresta a juro mais brando! Perdoe-me se ofensa for, 17. mas couve-flor, certamente, A mulher, que é toda encanto, não é nem couve nem flor: lembra a abelha, meiga e boa: é só um repolho emergente… dá mel gostoso; no entanto, 28. se for preciso, ferroa! Pediste, na “vez passada”, 18. que eu melhorasse a comida… Num momento de euforia, Pois hoje está caprichada:
    • 92 vou servir “vespa cozida”! Misto de sábio e de herói, 29. ensina o pobre de leve: Menininho, numa prova, – Quem de seu nada pissóisabiamente assim se exprime: é o que mais tranquilo veve! – Lua nova?… Lua nova 40. é a cheia que fez regime! Vaga-lume é um belo bicho; 30. tem no entanto algo incomum: De um caboclo perspicaz por esquisito capricho, ensinando a geografia: traz o farol no bumbum…– O “çul” fica sempre atrás… 41.com “cedia” ou sem “cedia”… Entre o passado e o futuro, 31. mudou o amor um bocado: É natural que aconteça, – o que o vovô fez no escuro, ao cometa e a certa gente, faz o neto escancarado! por ter pequena a cabeça, 42. mostrar a cauda somente… Lingüiça das boas, uai, 32. faz-se assim, vovó dizia: Pastel, pudim, rabanada, do porco a tripa se extrai; e o mais que te apetecer… na tripa o porco se enfia. Nada disso engorda nada: 43. basta apenas não comer! Ah, como é útil a avó, 33. com seus cuidados e afetos! Pra casar moça bonita, Já o avô, serve tão-só carece exibi-la não… pra ensinar besteira aos netos… Que nem lá no Sul se dita: 44. “Bom vinho escusa pregão!” Avó é a mãe que imagina 34. que a sua parte já fez… Já não suporta a trutinha mas, quando a missão termina,o que a todo instante escuta: começa tudo outra vez!alguém chamando-a, tadinha, 45. de bela filha… da truta! Mas ora-ora, dirás, 35. é fácil ouvir estrelas…O acento é muito importante, – Quem leva um chute por trás, e este exemplo o evidencia: além de as ouvir… vai vê-las! – Para um cágado é bastante 46. uma cágada por dia… – Na briga lobo-cordeiro, qual deles terá razão? 36. – Depende, meu companheiro, O sapo coaracoacoacha de qual dos dois é o patrão… ante a sapa, sua estrela. – Ela é um poema, ele acha, 47. e estufa-se todo ao vê-la! Os gaúchos, mui serenos, 37. dizem rindo: – Calma, irmão… Dor no velho e na velhinha, Se o mundo tá mais ou menos, cada dia é num lugar: então tá louco de bão! nas cadeiras ou na espinha, 48. na nuca ou no calcanhar… Eis um problema intrigante, 38. ainda sem solução: Até os sessenta se assunta: – O touro é um bode gigante,– Como vai, meu grande herói? ou o bode é que é um touro anão?… Depois é outra a pergunta: 49. – Olá, meu velho, onde dói? Até na fauna há esse horror 39. da diferença aqui exposta:
    • 93 – Há o esperto: o beija-flor, 60. e há o coitado: o vira-bosta! Passo à frente este estribilho 50. que escutei de um pai grisalho: Dizem que em boca fechada – Dá trabalho pro teu filho, não entra mosca… sabia? que ele não te dá trabalho… Também não entra mais nada: 61. deixa a barriga vazia… Era um guri tão terror, 51. que a escola inteira o temia. Se de jeca lhe dão nome, Cresceu… virou professor… ele responde: – “Tá bão… paga com juro hoje em dia! Mas, se ocê não passa fome, 62. é graças ao meu feijão!…” Se tens filho, escuta aqui, 52. que um lembrete eu vou deixar-te: Esta é uma antiga lorota, – Guri que já faz guri, que jamais se esclareceu: se fica solto, faz arte!… – Se Judas nem tinha bota, 63. como foi que ele a perdeu?… É uma atitude marota, 53. ambígua e um tanto arriscada Quando se casa a enteada, perguntar a uma garota mais a madrasta se ouriça: se ela quer jogar “pelada”… Além de “mãe emprestada”, 64. agora é “sogra postiça”… Não há diferença alguma 54. se a festa é pobre ou de gala. De longe se escuta o eco – Tanto noutra quanto numa, da turma de cara cheia, quem bebe demais se rala! no alvoroço do boteco 65. pondo em dia a vida alheia… Cuidado, amigo, atenção… 55. não beba o primeiro trago. Só dos homens e dos grilos – Quando se escuta o trovão, a mulher tem medo ainda: o raio já fez o estrago! – dos grilos, porque são grilos; 66.dos homens… porque ela é linda! Atrás das “outras” não perca 56. o seu juízo… cuidado! De grão em grão a galinha Boi que muito pula cerca enche o papo, e não tão-só: volta um dia “desfalcado”… também enche “o” da vizinha 67. com o seu cocorocó… Nem o amor nem a amizade 57. resistem se entre os parceiros Quem com vida dá banquete, não existe afinidade mas não convida o povão, nem de roncos… nem de cheiros… finda a vida, um alfinete 68. pode furar-lhe o balão! Me desculpe se isto aflige-a, mas o progresso endoidou: 58. mais premia a calipígia O bom discurso amoroso do que a moça que estudou!… dispensa texto comprido. Basta um “te gosto” gostoso, 69. murmurado ao pé do ouvido… Segura, peão, segura, 59. que a vida é um grande rodeio… A ciência hoje é um colosso, É bela, no entanto é dura, com tudo fora de centro: com muitos trancos no meio! faz laranja sem caroço, 70. gravidez sem filho dentro… O candidato se inflama,
    • 94 promete mundos e fundos. a pena é que engorda a gente! Cai do coreto… na lama: 81. sai com seus fundos imundos! O cravo, ao que se comenta, 71. coisou a flor do vizinho… O bom cabrito não berra; A rosa, toda ciumenta, gato sabido não mia… fincou-lhe na coisa o espinho! Menos sofre e menos erra 82. quem menos fala hoje em dia. De todos ela atraía 72. mil sorrisos, mas… que dó: “Tem o amor certas razões casada, sofre hoje em dia que nem a razão conhece.” os maus homores de um só… – Por exemplo: as emoções 83.que um gordo cheque oferece… A laranja era tão doce, 73. que o limão ficou com medo: Morre o peixe quando aboca – por inveja, ou lá o que fosse, seu jantar com muito anseio… acabou ficando azedo… Sobretudo se a minhoca 84. traz anzol como recheio! Muito teimosa, a franguinha 74. com um ganso se casou. Água parada, ao moinho Ao ter um ovo, tadinha… não move… nem moveria. de cesárea precisou! Somente serve de ninho 85. para mosquito dar cria… O que faz a boca torta 75. é o cachimbo – assim se diz. Canarinho, quando canta, Quem bate a cara na porta que será que o faz cantar? entorta a boca e o nariz!– Sei lá… mas a mim me espanta 86. que ele cante sem cobrar… O gavião sobe e some, 76. que nem certos liderinhos. Disse-me um dia um vovô, Só desce quando tem fome… todo prosa e convencido: pra comer os passarinhos. – Me sinto que nem ioiô 87. nas mãos do neto querido! Eis um dito dos mais sábios 77. para tempo de eleição: Se tal força o avô tivesse, – Discurso fácil nos lábios, o neto não cresceria: mentira no coração! – crescendo, desaparece, 88. e leva junto a alegria… Quando a eleição se avizinha, 78. dando início à falação, Pica-pau, sossega o taco… de ovo em ovo a galinha faz uma pausa, ó carinha! municia a oposição… Teu toque-toque enche o saco 89. da passarada inteirinha… Assim como faz o gato 79. para o cocô não feder, De biquíni ou minissaia, muito ilustre candidato a verdade se revela… tenta o passado esconder… – Não há mentira na praia: 90. feia é feia, bela é bela! Ao fim de qualquer mandato, somando-se o dito e feito, 80. no saldo exibe o relato Mosquito para a mosquita, muito mais dito que feito… nadando na sopa quente: – Eta piscina bonita…
    • 95 91. divagando sobre o modo O ex-chefe ao novo espicaça, menos vago de vagar… e insulta, e provoca, e xinga… 97. – É o outro agora a vidraça; Tão boa é aquela senhora, ele o estilingue… e se vinga! tão generosa e tão pura, 92. que nem passando a ter nora Muito sepulcro caiado, perdeu jamais a ternura… que bota pose de puro, 98. no claro é distinto e honrado… Pergunto: – Serás a lenda mas como apronta no escuro! que eu vi no mar e na areia? 93. Se rindo, linda, ela emenda: Li num muro, em sábio piche, – Não sou ainda… sereia! que “a virtude está no meio”. 99. De fato: “do sanduíche, No quintal da casa em frente, o mais gostoso é o recheio”… mora um meigo sabiá… 94. Mando um beijo e ele, contente, Papai Noel é, de fato, manda um gorjeio de lá! um puxa-saco… ah se é: 100. para alguns dá até o sapato; Poeta, à porta do Pai, para os demais, só o chulé… entra fácil, certamente. 95. Se São Pedro se distrai, Sempre que ensaia um passeio, São Francisco empurra a gente! assim se apresta o janota: reparte o cabelo ao meio, Fonte: ASSIS, Antonio Augusto de. Trovas Brincantes. Setembro de bota a calça, calça a bota. 2004. 96. Portal CEN Rodo, rodo, rodo, rodo, http://www.caestamosnos.org devagar a divagar… Nilto Maciel Jornal de Domingo Escondido atrás do jornal, o professor Luiz Com sofreguidão, percorreu todo o poema.Vaz passava o domingo. E catava pedras Voltou ao título, ao primeiro verso. Releupreciosas, por puro deleite. Ou para exibi-las a tudo, cheio de entusiasmo.seus alunos. Na sala de aula, Luiz Vaz freou sua emoção. Fora-se o tempo de Virgílio, Camões, Bilac. E amarrou a rubra língua no céu da boca.Agora só queria os novos poetas. Nada de Queria um comentário escrito de cada alunovertitur interea coelum (Entretanto o céu gira. ao poema que copiava no quadro-de-giz.Virgílio, Eneida, Livro II; 250). Riu na cara dos alunos. Não aprendiam Olhos enfiados no chão da folha, Vaz nada. Pareciam idiotas. Especialmente asonhava. Nunca o chamariam velho. Antes, o “crítica” feita por Oton.eterno jovem. O mestre da língua viva. – Uma barbaridade!Polêmico, moderno, brasileiríssimo. E se pôs a falar os versos de Noto de Sissa. Súbita emoção. Arregalou os olhos. Um Pequena obra-prima da poesia épica.poema de Noto de Sissa! Leu o título. Uma A maioria dos jovens abriu a boca e quedabeleza! O primeiro verso. Um primor! ficou. Um, porém, não concordou com a
    • 96análise do mestre. E defendeu com língua e Oton de Assis nada mais falou. Na verdade,dentes sua opinião. não podia se comparar àquele homem. Irritado com a presunção de Oton, o E continuou anônimo entre os colegas. Seuprofessor tratou de humilhá-lo. Não passava de lirismo, porém, ainda germinaria páginas tãoum aluno, um fedelho. Longe ainda se achava belas como as publicadas no jornal daquelede atingir os primeiros degraus do saber. domingo.Enquanto ele, Luiz Vaz, já alcançara o ápice da Fonte:cultura literária. Ora, exercia a crítica e a Jornal de Poesiacátedra há trinta anos. Escrevia para revistas http://www.secrel.com.br/jpoesia/estrangeiras. Correspondia-se com pessoas dotamanho de Barthes, Foucault, Jakobson. Augusto dos Anjos A Máscara Eu sei que há muito pranto na existência, E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca Dores que ferem corações de pedra, A humanidade ri-se e ri-se louca E onde a vida borbulha e o sangue medra, No carnaval intérmino da vida. Aí existe a mágoa em sua essência. No delírio, porém, da febre ardente Fonte: Jornal de Poesia Da ventura fugaz e transitória http://www.secrel.com.br/jpoesia/augusto02.html#mascara O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Assim a turba inconsciente passa, Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Lino Sapo Conhecendo as Cidades do Rio Grande do Norte em um Conto Cumpade PEDRO VELHO me diga MARTINS comprou o bichinho a seucomo você anda? Inda ta trabaiando muito? E MÉSSIAS TARGINO, meu patrão é abastado,como anda cumade NÍSIA FLORESTA? Caba é um homem bom e influente, foi amigo deveio tou puraqui mei perdido, é uma históra infânça de RUY BARBOSA. Ele vive muitomeia adoidaiada mai se o senhor me ouçar bem, agora eu cumpade, é que ando com umadesbatarei sem arrudei. Eu vinhe pra essas maruzia e uma azalação da mulinga.bandas buscar um TOURO chamado Cumpade ultimamente eu ando meioGUAMARÉ, pra levar lá pru ALTO DO os imboléus, já fiz inté prumessa e já rezei praRODRIGUES. Meu patrão seu ANTÔNIO SÃO PEDRO, SÃO FERNANDES e inté para
    • 97SÃO VICENTE, pru mode eles falar com meu lá fizero CURRAIS NOVOS, só de PAU DOSBOM JESUS pra eu ter BOA SAÚDE. Asto FERROS duro feito ASSÚ, e de CARNAÚBAdia eu fui ao DOUTOR SEVERIANO e ele DOS DANTAS, lá daquela LAGOA DANTA.me arreceitou um lambedor de JAÇANÃ. Inda Cumpade foi trabaiada danada, os morãodisse mai, que era bom pra eu viajar, ir pra foram tudim cortado pur seu FRANCISCOoutros lugares. Ele inté me idicou DANTA e o empregado dele seu JOSÉ DABARCELONA, MACAU, EQUADOR ou se PENHA. Cumpade ficou de primera, lá tem onão quisesse sair do Brasil fosse pra mai bunito JARDIM DO SERIDÓ. OPORTALEGRE ou pru ESPÍRITO SANTO. padroeiro da fazenda é um santo de casa, éSabe o que eu fiz? Eu fui foi pru PARANÁ, SÃO JOSÉ DO SERIDÓ. E a padroeira nãomas pense cumpade cumaé pequeno, é um pudia ser de outro lugar e esculheroPARAZINHO!!. Mai purlá tem um SANTANA DO SERIDÓ. Mai dizem as másTABOLEIRO GRANDE com uma AREIA línguas, Cá pra noise, que ela num tá fazendoBRANCA, bem pru lado tem uma SERRA nenhum milagre não, tão inté quereno jogaláNEGRA DO NORTE, na verdade é uma no mato. Já tem inté gente chamando, ver seSERRINHA!, Só que lá enriba cumpade tem pode, de SANTANA DO MATO. Desse jeitouma PEDRA GRANDE, e é uma PEDRA tá rim, já pensou cumpade se o padroeiro nãoPRETA e purriba dela tem uma NOVA CRUZ fizer milagre, e quiserem jogalo naquelefeita de ANGICOS. Mai lá cumpade é tão CAMPO REDONDO, imagine só cumpadequente, tão quente que parece o ceará, um aquele CAMPO GRANDE, vão bem apilidarCEARÁ-MIRIM, claro. de SÃO JOSÉ DE CAMPESTRE. Magina só? Cumpade prosiando e atencionando as Mai cumpade cum toda buniteza ocoisas purcá, mai que BAÍA FORMOSA, é lugar tá sem um pé de vida, logo adispois quemuita bunita. Me alembrei de seu LUIZ seu BENTO FERNANDES bateu as botas, osGOMES, ele inda mora pru trai daquelas filhos RAFAEL FERNANDES e RODOLFOMONTANHAS? E seu PEDRO AVELINO, FERNANDES quisero vender as terras. Indaainda é morador de seu AFONSO BEZERRA? chegaru a vender uma parte para ALMINOSão um povo muito prestativo. Cumpade! Tou AFONSO, que fez um SÍTIO NOVO, que vaime alembrando que tenho uma conta a do RIACHO DA CRUZ inté o MONTE DASacertar, é umas PENDÊNÇIAS com seu GAMELEIRAS. Cumpade num venderoSEVERIANO MELO. Tou só esperano baixar todinha pruque seu MARCELINO VIEIRA ea IPUEIRA par ir cobrar meus GALINHOS, seu FERNANDO PEDROSA cuma era osque ele trouxe lá da SERRINHA DOS moradores mai antigo se intrumeteram. TavamPINTOS. ITAJÁ na hora de a gente acabar brabos e eles diziam: o resto vocês numcom esse quelelé esse EXTREMOZ, esse vendem, o pai de vocês era um santo jáCARNAUBAIS de desavenças, acabar de vez esqueceram? Vocês deviam era fazer uma igrejacom essa picuinha. para o pai de vocês, pra noise as terras inda são Cumpade cortei esse chãozão de uma daquele santo. E a SERRA DE SÃO BENTOponta a outra, em todo canto ta uma caristia ninguém toca, e do jeito que eu tou me agarrudanada, as coisas tá pelo oio da cara. Cumpade cum cobra, piso inté em cascavel e CERROvou te dizer uma sabença, do jeito que a coisa CORÁ.tá rumando só vai piorar, prumode de queultimamente passei uma fome danada. O Cumpade a confusão foi grande demai, erasinhor me imagina que nessa sumana só comie tanta da fofoqueira na fazenda, pisano purribauns peixinhos, uns ACARI pequeno que das plantas e se rindo, que parecia umparecia um BODÓ. PATU ver JAPI die inté a JARDIM DE PIRANHA. O qui qui foi maiorSANTO ANTÔNIO e a SÃO MIGUEL uma quando FRUTUOSO GOMES falou que asboa forragem pru bucho. Pidie com tanta TIMBAÚBAS DOS BATISTAS tava sendoisperança que chega fechie os oios e imaginei o irrigado do OLHO DÁGUA DOS BORGES.rango, e falei arto e GROSSOS, SÃO Minina cumpade, quando MARTINS oiçou foiMIGUEL DO GOSTOSO!!!!! logo dizeno: quero ver irrigar lá do meu Mudando o prosiado, o cumpade se MONTE ALEGRE, pruque lá é uma LAGOAalembra da fazenda siridó? Pois bem, tá bunita, SALGADA! Nisso cumpade, chega RAFAEL
    • 98GODEIRO trazendo o CORONEL PASSAGEM na canoa TIBAU DO SUL. AEZEQUIEL e o TENENTE ANANIAS. TIBAU já havia saído, elas chegam emCumpade quando os homi chegaru, inté a PARELHAS, mai uma sae meia hora antes. AiCRUZETA, feita de OURO BRANCO, cumpade eu pensei desse jeito num dá, soufincada na entrada da fazenda num pé de nortista, no sul num vou agüentar. EntonceBARAÚNA, ficou sem ENCANTO. O cumpade eu sai por um BREJINHO e vie umestrelado foi logo falando: e essas mueres filete d’água conhecido, era do RIACHO DEVIÇOSA não têm nada que VENHA VER SANTANA, uma ÁGUA NOVA, tumei logoaqui. Nesse momento cumpade, ele espiou pra umas goipadas. Adispois cheguie a uma BAIXAeu que me tremie todinho, logo ele cumpade, VERDE e vie muitas arvures agrandaadas e fuique me achava caipira e só me chamava de andano pra lá. Cumpade pense num lugar bemCAIÇARA DO NORTE. sombraiado, paricia um JARDIM DE Ai Ele preguntou o que é que eu fazia ANGICOS. Pensei ter escapado dos homi maiali. A voz ficou entalada mai eu resmunguei a armadia foi pior. Sai bem no mei de umatempo dispois: vinhe rezar pra SÃO BENTO aldea dos índios JANDÚIS e MOSSORÓ.DO NORTE. Ele chega muchou e com um Continuei andano como se numoiar macriado disse: aqui só tem rezatório só se tivesse percebido nada. Foi quando oucei ofor pra SÃO BENTO DO TRAIRI, vá simbora pajé MAXARANGUAPE dizer pra dois índiospercurar outro santo. Arribe para o oeste lá assim: IPANGUAÇU, PARNAMIRIM corramtem muitos, talvez você encontre um SÃO atrás e PARAÚ e tragam para mim. ElesFRANCISCO DO OESTE. Num pricisou nem realmente me pararu, me amarraru e meterminar a pronunciada, sai em toda disparada, colocaru em uma LAGOA DE PEDRA eparicia inté que agora eu nadava e vuava que adispois em um POÇO BRANCO. Cumpadenem um CAIÇARA DO RIO DOS VENTOS. o corpo todo tremia, a voz já num saia, os Cumpade! Cumpade! Fui muito cabelu nem sentava no casco. Foi quando eu aazilado. Na carreira bati num palanque que lembrei de SANTA MARIA e do meu anjo datava o GOVERNADOR DIX-SEPT ROSADO, guarda SÃO RAFAEL, e cumecei a rezar. Nissoo SENADOR ELOI DE SOUSA e mesmo na o pajé me olhou da cabeça aos pés e disse:horinha que o SENADOR GEORGINO UMARIZAL, TAIPÚ vá buscarAVELINO tava se pronunciando. Quando os CANGUARETAMA.povos me viro na carreira em direção ao Cumpade pense numa agonia danada,palanque, pensava que eu ia matar os chefes enquanto eles saia eu me borrava todo naspulíticos. Nisso o CORONEL JOÃO PESSOA calças. Quando vortaru o pajé falou: veja fia seme viu. No aperreio que eu tava eu nem esse serve? Enquanto eu espiava aquelespensava, daquele jeito eu merguiaria inté no cabelus e oios pretu feito a casca de umaRIO DO FOGO. Cumpade, quando eu espio CARAÚBAS, ela tapava o nariz e balançava apru lado o MAJOR SALES e o TENENTE cabeça em negação. Entonce JUCURUTU meLAURENTINO já vinha nos meus carcanhar soltou e APODI disse aqui é PASSA E FICA,pega num pega. Ai foi que eu corri, inda mai mai você num vai ficar. O pajé com um oiarcom o tiro zunindo no peduvido. Pulei por dar uma ordem e ARÊS trai um jumento,riba de uns PILÕES e sai com a gota serena. ITAÚ inda diz: o nome dele é nema. Ai meEscutei na carreira quando dona LUCRÉCIA ajuda a muntar no burro, e espanca o animaldisse, é guerra, FELIPE GUERRA! Felipe que sae em toda carreira, enquanto eles gritamvenha pra casa meu fio, SÃO JOÃO DO aqui num é lugar pra covardes.SABUGÍ pruteja meu fio. Cumpade o burro curria e eu agradecia Num parei não cumpade de correr, se pru céu, o meu estoque de santo já tinhaeles me pegam eles iam JUNDIÁ de eu. Dei acabado, mai inda restava alguns, entãoum pitú nos homi e sai mei escundido pru trai cumecei a agradicer, a SÃO PAULO DOde uma LAJES PINTADA, peguie um POTENGI, SÃO GONÇALO DORIACHUELO e sai sem deixar rasto. Vie de AMARANTE e SÃO JOSÉ DO MIPIBÚ. Fiz olonge uma VÁRZEA e ai eu fui em busca do sinal da SANTA CRUZ e sai me escurregandoPORTO DO MANGUE que era menos nos espinhaço do burro, que começa apirigoso. Quando cheguie purlá só tinha desembestar e a pular devido a catinga. E eu
    • 99gritano aperriado, upa, upa, UPANEMA, pare sua primeira serie fez na mesma escola quemeu bichinho. Nisso só oucei a burduada, cai nasceu, agora reformada e em atividade.estatelado no tronco de um pé de MACAÍBA, Aprende a ler influenciado pelos livrose ali mesmo adurmicie todo duido. de cordéis que via seu pai ler. Em 1989, seu pai Acordei com o canto dum CAICÓ e se separa de sua mãe deixando apenas comdum TANGARÁ. despertei adispois de uma seus cinco filhos onde a mais velha tinha 10madorna boa e sai andano a pé, com o bucho anos e a mais nova estava na barriga com doisroncando que parecia um truvão, a vista já tava meses.escura de sede num via mai nada. Só sei que Andrelino encontra na escola umacheguie numa LAJES e caminhei até achar oportunidade de fugir de sua realidade, já queuma LAGOA NOVA pra me banhar. E bem a fome e tantas outras necessidades o faziamna frente encontrei uma LAGOA DE sofrer diversas formas de preconceito tantoVELHOS. Pedi cumida e me derum umas racial como econômico.GOIANINHAS, preguntei onde estava, e eles Faz seu ginásio em Cachoeira do Sapo,disserum na SERRA DO MEL. Entonce sai e conclui seu ensino médio em 1998, aos 17por entre umas plantaiada que formava uma anos. Considerado como vagabundo por gostarFLORÂNIA e que parecia uma VILA FLOR. e andar com livros pra cima e para baixo, foiSiguie as abeias e achei uma JANDAIRA, e que amante da literatura no qual se apaixona pormé, foi um SÃO TOMÉ. personagens como dom Quixote e Policarpo Rumei para o oeste e dicie a SERRA Quaresma.CAIADA na noite de NATAL. Foi lá que vie a Trabalhou como carregador de raçãobeleza e a PUREZA de ALEXANDRIA. chamie de porco durante nove anos, foi carvoeiro,um muleque pru nome de IELMO batedor de tijolo e arrancador de toco. MesmoMARINHO e pidie um favor. Só pra dar um não tendo apoio fundou o PLUJET, grupo derecado aquela donzela que meu coração amou. jovens que trabalhava com o desenvolvimentoMas o minino olhou e disse: Deus que me livre social e cultural de Cachoeira do Sapo, no qualmeu sinhor, aquela muier bunita é fia de seu ocupava a função de diretor de eventos,JOÃO DIAS e ele é o lampiã da regiã. Mai eu colocando sua pequena cidade na mídia aote juro cumpade, em nome da VERA CRUZ, realizar a festa de comemoração dos 70 anos deaquela muier inté os anjos seduz. Tudo que Cachoeira do Sapo no ano de 1999.hoje eu mai quiria era com ela casar, e se isso No ano 2000 foi soldado do exército,um dia vier a acuntecer, pode ter certeza, pra onde começou a criar suas primeiras poesias.eu será o trofé do meu TRIUNFO Ao terminar seu ano no exército retorna paraPOTIGUAR. Cachoeira do Sapo onde funda no ano 2001 o –––––––––––––––––––––––- Arraiá do Sapo, o primeiro grupo de quadrilhaConto Poético de Lino Sapo ( Andrelino da Silva) matuta a disputar em festival e a ganharem homenagem e respeito a todas as Cidades que destaque no meio cultural da regiãopertence ao estado do Rio Grande do Norte. conquistando seus primeiros troféus. Criador de peças de teatro e também ator, investiu por conta própria na cultura de Cachoeira do Sapo pesquisando e escrevendoANDRELINO DA SILVA (LINO SAPO) história local. No ano de 2003 foi trabalhar emnasceu no dia 06/01/1981, no distrito de Natal como servente de pedreiro, lugar onde seCachoeira do Sapo/RN. Filho do casal José encanta com a Universidade Federal.Adelson da Silva e de dona Damiana Lúcia da No ano de 2005 presta seu primeiroSilva. vestibular. Passando em décimo lugar para o Foi o segundo filho do casal num total curso de Biblioteconomia, se tornando ode cinco. Após seu nascimento foram morar primeiro cidadão Cachoeissapense a entrar naem outras casas do lugar somando num total Universidade Federal, saindo do interior ede doze casas e um pé de árvore por um dia. estudando somente em escola pública semComeçou seus estudos no Projeto Casulo, e nunca ter feito cursinho. No mesmo ano passa no concurso para agente de saúde da Prefeitura Municipal de
    • 100Riachuelo. Também começa a fazer o curso de Suas poesias são trabalhadas a nívelHistória na Universidade potiguar UNP. acadêmico e além de despontar o patriotismo Em 2006 torna-se palestrante do da terra que nasceu, apresenta as situaçõesprojeto conheça a UFRN através do residente, econômica das famílias humildes do interiormotivando os alunos do interior do estado do estado.através de sua história de vida. Atualmente Andrelino ou Lino Sapo, Também leva para o interior a idéia de nome que ganhou por ser dessa terra e terque é possível chegar a universidade, e começa herdado do sapo a característica de sera dar aulas solidariamente para alunos tanto do persistente.interior como de outros. Bacharel em biblioteconomia, No ano de 2007 se torna conselheiro licenciado em Historia pela UNP, aluno deda residência universitária CAMPUS II, letras da UFRN, e mestrando de Ciênciasdurante um ano. Nesse mesmo ano escreve a Sociais pela UFRN. Tem como ícone de suasfabula Inês. poesias coisa do sertão de antes, e o conto Em 2008 apresenta na câmara Conhecendo os Nomes das cidades do Riomunicipal proposta de um projeto de lei que Grande do Norte (publicado neste blog), alémpara cada criança nascida no município, um de livros e outras tantas poesias.livro seja comprado, dedicado à criança einserido na biblioteca pública do município. Fontes: http://linosapovidaeobra.blogspot.com/2010/06/biografia.html Conto enviado pelo Autor Academia Paraibana de Letras Na Paraíba, em fins do século XIX, o Centro Literário Paraibano, Clube Literáriomovimento intelectual teve um surto Benjamim Constant, Clube Sete de Setembro,renovador da maior importância. Os jornais Instituto Histórico Geográfico Paraibano,que circulavam em nosso Estado, dirigidos por Associação dos Homens de Letras, que deugrandes jornalistas da época, com a cooperação origem a Academia dos Novos, Gabinete dede corpo redacional da melhor categoria, se Estudinhos de Geografia e História da Paraíba.tornaram centros culturais em que os Apenas o IHGP mantém-se em atividade, osvocacionados para as letras, manifestavam as demais tiveram vida efêmera. Certamente assuas tendências literárias. idéias, as aspirações e os sonhos desses homensMuitas entidades destinadas ao cultivo do de letras motivaram Coriolano de Medeiros aespírito foram se formando,como bem reunir um grupo formado por Mathias Freire,assinalou o acadêmico Eduardo Martins em Horácio de Almeida, Luiz Pinto, Rochaesboço histórico intitulado “Instituições Barreto, Álvaro de Carvalho, DurwalParaibanas de Cultura – 1801-1941″, publicado Albuquerque, Veiga Júnior, Celso Mariz ena Revista da Academia Paraibana de Letras, Hortêncio Ribeiro (este representado porn.º 8, ano 26, setembro de 1978, pp. 175/180. procuração) constituindo-se em autênticosEnumerou as associações surgidas e que fundadores da Academia.“foram, sem dúvida, as precursoras dessa vida Na tarde do dia 14 de setembro de 1941, olaboriosa das letras”, no Estado. Relacionou professor Coriolano de Medeiros concretizou oem seu artigo as seguintes entidades: Clube seu ideal de criar a “Casa do Pensamento daLiterário e Recreativo, Clube Cardoso Vieira, Paraíba”. Este era o único Estado da Federação
    • 101que ainda não contava com uma entidade A Sede – Nos primeiros tempos, tiveram osdesse tipo. A reunião inaugural realizou-se no acadêmicos de enfrentar grandes problemasgabinete do diretor da Biblioteca Pública do financeiros. Por causa disso, reuniam-se,Estado. inicialmente, na Biblioteca Pública, onde se Em poucas palavras, Coriolano de Medeiros instalaram por mais de dois meses.assumiu a direção dos trabalhos, disse da Posteriormente, na residência do confradefinalidade daquele encontro, declarou que Côn. Mathias Freire, Vice-Presidente daestava fundada a Academia Paraibana de Instituição. Depois, abrigou-se na casa doLetras, destinada a “perpetuar as tradições acadêmico Álvaro de Carvalho.literárias da Paraíba”. Por sugestão do Côn. Oscar de Castro, após assumir, aMathias Freire, Coriolano passou a presidir a Presidência, procurou o Prefeito Municipal danovel instituição, dessa data até 14 de época, Dr. Abelardo Jurema, obtendo asetembro de 1946, quando renunciou, por doação, em 1947 do prédio n.º 179, situado àmotivo de saúde. Rua Visconde de Pelotas, para que, ali, se Foi eleito, naquele mesmo dia, o Dr. Oscar instalasse a Academia.de Oliveira Castro que, em seu breve discurso A pequena dimensão do terreno nãode agradecimento, disse: “Coriolano de permitiu, porém, a construção do nossoMedeiros continua sendo o Presidente de silogeu. Finalmente, por compra do velhoHonra desta Casa, que lhe deve tão assinalados casarão de número 25, situado à Rua Duquetrabalhos.” de Caxias, desta Capital, conseguiu-se a sede Para caracterizar a instituição, criou-se um própria. Nela se encontra até hoje.emblema, idealizado pelo Côn. Mathias Freire O Estado da Paraíba, na administração doe desenhado pelo Prof. Eduardo Stuckert; a então Governador Tarcísio de Miranda Burity,insígnia traz, além do nome e da data de forneceu recursos para aquisição do prédiocriação da APL, o desenho de um sol, contíguo, de n.º 37 que se deu por escriturasimbolizando a inteligência e o talento dos que pública, lavrada em 26 de novembro de 1981.integram o sodalício. A expressão latina, Os dois imóveis, passaram a formar uma sótambém sugerida pelo Côn. Mathias Freire, unidade imobiliária. Neles situa-se a Casa de“DECUS ET OPUS”, que se traduz Estética e Coriolano de Medeiros.Trabalho, tornou-se o lema da associação. Os edifícios conjugados passaram por Inicialmente, a APL contou com 11 diversas reformas, principalmente a realizadacadeiras, número, depois, aumentado para 30. na gestão do acadêmico, Dr. Manuel Batista deEm 1959, com a reforma dos estatutos criaram- Medeiros, hoje, é o mais importante ‘centro dese mais 10, fixando-se, oficialmente, em 40. cultura’ do Estado, não só pela ação daquele Todos com patronos, escolhidos, entre os excelente administrador, mas de outros que onomes mais representativos das nossa sucederam.intelectualidade. São eles: Augusto dos Anjos, O ex-presidente, acadêmico Luiz AugustoArruda Câmara, Albino Meira, Adolpho Crispim, entre outras benfeitorias, criou oCirne, Alcides Bezerra, Aristides Lobo, Arthur Memorial Augusto dos Anjos (1984), que foiAchiles, Afonso Campos, Antonio Gomes, totalmente revitalizado, sendo reinaugurado naCardoso Vieira, Cordeiro Sênior, Coelho passagem do sexagésimo aniversário deLisboa, Diogo Velho, Eliseu Cézar, Eugênio fundação da instituição, ocorrido em 14 deToscano, Francisco Antônio Carneiro da setembro de 2001, na administração doCunha, Gama e Melo, Irineu Joffily, Irineu escritor Joacil de Britto PereiraPinto, Joaquim da Silva, Maximiano Machado, A APL é filiada à Federação das AcademiasMaciel Pinheiro, Neves Júnior, Pedro Américo, de Letras do Brasil, e reconhecida de utilidadePerillo Doliveira, Pe. Inácio Rolim, Pe. pública, entidade de direito privado, sem finsAzevedo, Pe. Lindolfo Correia, Rodrigues de lucrativos. Esse reconhecimento se deu pela LeiCarvalho, Santos Estanislau, Epitácio Pessoa, Municipal n.º 39, de 23.08.1948.Carlos Dias Fernandes, Castro Pinto, Pereira Tem a sua biblioteca registrada no Institutoda Silva, Raul Machado, Tavares Cavalcanti, Nacional do Livro (INL), com o nome deAllyrio Wanderley, Américo Falcão, José Lins Biblioteca Álvaro de Carvalho.do Rego, Mello Leitão.
    • 102 Desde a sua fundação, a entidade já foi RONALDO José da CUNHA LIMA – 14 –dirigida por 10 presidentes: Coriolano de GuarabiraMedeiros (1941-1946), Oscar de Castro (1946- PAULO Gustavo GALVÃO – 15 – C. Grande1970), Clovis Lima (1970-1973), Higino Brito DEUSDEDIT Vasconcelos LEITÃO – 16 –(1973-1976), Aurélio de Albuquerque (1976- Cajazeiras1978), Afonso Pereira (1978-1984), Luís JOACIL DE BRITTO PEREIRA – 17 – CaicóAugusto Crispim (1984-1991), Manuel Batista RNde Medeiros (1991 -1994), Joacil de Britto LUIZ HUGO Guimarães – 18 – J.PessoaPereira (1994-1996), Wellington Hermes GUILHERME Gomes da Silveira D´AVILAVasconcelos de Aguiar (1996-1998). LINS – 19 – J.PessoaAtualmente é presidida pelo escritor Joacil de ELIZABETH Figueiredo Agra MARINHEIROBritto Pereira, estando este no seu terceiro – 20 – C. Grandemandato. FLÁVIO SÁTIRO Fernandes – 21 – Patos O Conselho Diretor editou 17 revistas, JOMAR MORAIS Souto – 22 – Santa Luziaalém de outras publicações e criou um MARIANA Cantalice SOARES – 23 – J.periódico, que já está na 27 ª tiragem. Pessoa Aberta ao público, realiza na última sexta- EVALDO GONÇALVES de Queiroz – 24 –feira de cada mês, o ‘Chá Acadêmico’. Tem São João do Caririlançado, em seu Auditório Celso Furtado e em JOSÉ RAFAEL Menezes – 25 – Monteiroseu Jardim de Academos, livros de sócios, e de Antônio JUAREZ FARIAS – 26 – Cabaceirasescritores alheios aos seus quadros. CARLOS Augusto ROMERO – 27 – Alagoa Acresceu ao número de sócios beneméritos Novae correspondentes algumas ilustres MARCOS Augusto TRINDADE – 28 – J.personalidades. Da mesma forma ampliou, Pessoaembora com parcimônia, o número dos sócios AFONSO PEREIRA da Silva – 29 – Bonito dehonorários. Santa Fé A Academia é um centro ativo, vivo e OTÁVIO Augusto SITÔNIO Pinto – 30 -dinâmico, estuante de entusiasmo. Princesa Izabel ÂNGELA BEZERRA DE CASTRO – 31 -Acadêmicos BananeirasAcadêmicos – Respectivas Cadeiras – Naturalidade WILLS LEAL – 32 – Alagoa NovaALTIMAR de Alencar PIMENTEL – 1 – DAMIÃO Ramos CAVALCANTI – 33 -PilarMaceió – AL HUMBERTO Cavalcanti MELLO – 34 -J.ADYLLA Rocha RABELLO – 2 – J. Pessoa PessoaLUIZ AUGUSTO da Franca CRISPIM – 3 – J. ARIANO Villar SUASSUNA – 35 -J. PessoaPessoa EURIVALDO Caldas TAVARES – 36 – J.JOSÉ LOUREIRO Lopes – 4 – Piancó PessoaOSWALDO TRIGUEIRO DO VALLE – 5 - Luiz GONZAGA RODRIGUES – 37 – AlagoaCruz do Espírito Santo NovaHILDEBERTO BARBOSA Filho – 6 – LUIZ NUNES Alves – 38 – Água BrancaAroeiras SÉRGIO Martinho Aquino DE CASTRODORGIVAL TERCEIRO NETO – 7 – PINTO – 39 – J. PessoaTaperoá ANTÔNIO de Souza SOBRINHO – 40 –ASCENDINO LEITE – 8 – Conceição CajazeirasMANUEL BATISTA de Medeiros – 9 – PedraLavrada Brasão e BandeiraJOSÉ OCTÁVIO de Arruda Mello – 10 – J. A Academia mantém como distintivos umPessoa símbolo em círculos concêntricos com oJosé JACKSON de Carneiro CARVALHO – dístico: ACADEMIA PARAIBANA DE11 – Caiçara LETRAS, na parte superior, e, na inferior, aWELLINGTON Hermes Vasconcelos de data 14 de setembro de 1941, e, no centro, umAGUIAR – 12 – J. Pessoa sol estilizado com a legenda Decus et Opus –José GLÁUCIO VEIGA – 13 – C. Grande Estética e Trabalho.
    • 103 A Academia tem a sua bandeira, em cor E, ainda um círculo formado por palmasazul-marinho e amarelo, na qual se repetem o verdes, rodeadas por tochas com flamantes.dístico definido no artigo anterior, de acordocom o desenho de autoria de Eduardo Stuckert Fonte: Academia Paraibana de Letrase aprovado quando se fez o primeiro estatuto. http://www2.aplpb.com.br/ Eno Teodoro Wanke Trovas e Sonetos - No berço, trazeis a vida. TROVAS - No caixão, levais o morto. 8 1 Quem vai ao mar deitar rede, Ó rosa, nobre e bonita, que tome cuidado, tome! que encantamento trazeis! O mar nunca teve sede, Em vossa beleza habita mas nunca vi tanta fome. a majestade dos reis. 2 SONETOS É bom repartir o vinho da alegria em nosso andar. APELO São os risos do caminho que ajudam a bem chegar. Eu venho da lição dos tempos idos 3 e vejo a guerra no horizonte armada. Meu caro poeta: o Universo Será que os homens bons não fazem nada? espera atendas meu rogo: Será que não me prestarão ouvidos? - Ou pões mais fogo no verso, ou pões o verso no fogo! Eu vejo a Humanidade manejada 4 em prol dos interesses corrompidos. O meu destino se encerra É mister acabar com esta espada num grave e eterno conflito: suspensa sobre os lares oprimidos! - Meu corpo é feito de terra, meu coração, de infinito. É preciso ganhar maturidade 5 no fomento da paz e da verdade, Não há nada mais profundo, na supressão do mal e da loucura… mais belo e comovedor, nem maior poder no mundo Que a estrutura econômica da guerra que um simples gesto de amor! se faça em pó! E que reinem sobre a terra 6 os frutos do trabalho e da fartura! Felicidade, vantagem que todos querem ganhar, O NASCIMENTO DO SONETO não é bem um fim de viagem, é um modo de viajar. Há pouco tive um pensamento estranho: 7 “Que tal se hoje eu fizesse algum soneto?” Pinheiro, dais a guarida, Estou até de veia… Eis que o tamanho o fogo, o fruto, o conforto. da inspiração já deu para um quarteto!
    • 104 PSIBobagem continuar, porém. Que ganho?Caiu-me o lápis. Já apontei. É preto. Nem sabes, filho meu, quanto prazerE como faz calor! — Me espera um banho me causas, quando observo que despontagelado assim termine este soneto. em ti uma juventude alegre e pronta à nítida conquista de viver!Estou também com sono. Que preguiça!Mas, amanhã é domingo. Irei à missa?! Já fui exuberante assim, um serNão sei. Depois, decidirei se vou. risonho, todo envolto em faz-de-conta — e às vezes minha mãe surgia, tontaAi, ai… Vou terminar logo em seguida das traquinagens feitas sem querer…com isto. Estou com sede. Puxa vida!— E o parto do soneto terminou! Revivo os tempos do meu tempo, e sei definitivamente o que é ser rei SONETO VAZIO singrando os mares do sentir risonho… Se este é o primeiro verso de um soneto, És meu caminho de ontem, eu-menino, eis o segundo do soneto acima. e quero apenas, filho, que o destino Terceiro verso: Santo Deus, que meto te faça tudo aquilo que eu te sonho! agora aqui no quarto? Desanima! ÔMEGA E, lido o quinto verso, lhes prometo um sexto! E atenção, que já termina! Se podes namorar? Querida filha, No sétimo, reparo que o quarteto quem sou, para dizer? — Quando o botão acaba neste oitavo. E tome a rima! de rosa espia o mundo, ansioso, não o impedirei de abrir-se em maravilha! E aqui, meu nono verso, meus senhores, no décimo, sugiro-lhes paciência, És juventude, e seguirás a trilha do undécimo habilmente me descarto! do teu destino. E desabrocharão teus dias, tua vida, do clarão Duodécimo: E que tal falar de amores? da aurora que hoje inicialmente brilha… Mas… Décimo-terceiro! A penitência tem chave de ouro, enfim: décimo-quarto! O ciclo do lirismo se completa e em ti revivo anseios de um poeta GAMA que muito ardeu de amor e muito quis… Eu quero ser poesia. Eu quero ser Adivinhando as nuvens do teu sonho, a simples voz das coisas, o acalanto querida filha, em tuas mãos deponho da luz tremeluzindo ao claro encanto o meu consentimento. Sê feliz! dos namorados ébrios de prazer… EPÍLOGO Eu quero aquele mágico poder da música em surdina, ser quebranto As flores, esmagadas pelo duro de lágrimas nos olhos que amo tanto, caminho em nossos passos, tão floridos, ser quase um objetivo de viver… deixaram seus perfumes coloridos em tudo o que procuras e procuro. Eu quero ser o sonho cristalino do absorto pensamento do menino Felicidade é um fruto já maduro, olhando para as nuvens do sol-pôr… e a vida nos encontra já sofridos… Os filhos, tão sonhados e vividos, Eu quero ser a voz azul dos passos já podem caminhar pelo futuro! que os pássaros escrevem nos espaços, eu quero ser poesia. Eu quero amor.
    • 105 Agora, ao som do tilintar das taças Eno Teodoro Wanke (1929-2001) felizes, neste festival de graças que nosso lar recebe do Senhor, “Um livro pode ser nosso sem nos pertencer. Só um livro lido nos pertence realmente”. (Eno só peço a Deus que afaste a nuvem triste, Teodoro Wanke) conserve em nós a luz que em nós existe, Nasceu em Ponta Grossa, Paraná, a 23 de e seja amor, completamente amor! junho de 1929. Filho de Ernesto Francisco Wanke e de Lucilla Klüppel Wanke. Aprendeu SAUDADE as primeiras letras na Escola Evangélica Alemã, de sua cidade natal. Quando a escola foi Mas que saudade, que saudade a minha, fechada em razão do advento do Estado Novo, saudade imensa de sentir poesia, o futuro escritor foi transferido para o Liceu poesia em tudo, assim como eu sentia dos Campos, cuja proprietária era a educadoraenquanto eu tinha o coração que eu tinha… Judith Silveira, hoje nome de rua na cidade. Estudou também no Colégio Regente Feijó, Porque já tive um coração um dia, de Ponta Grossa, no Colégio Santa Cruz, da que disparava, ou quase se detinha cidade de Castro, PR, onde completou o se ela aos meus braços palpitante vinha, ginásio. Em 1948, transferiu-se para Curitiba, e que ternuras doidas consumia… PR, onde terminou o científico no Colégio Iguaçu e em 1949, após vestibular, entrou para Vivia então constantemente imerso a Escola de Engenharia Civil da Universidade na mágica do sonho, no universo do Paraná, formando-se em 1953. Trabalhou do amor ao ser que eu pressupunha meu… na Prefeitura de Ponta Grossa (1954-1955). Atuou como fiscal de construção de uma linha Não vivo mais. Vegeto, na esperança de alta tensão elétrica em Curitiba, da de achá-la ainda — à ladra que, tão mansa, Companhia Força e Luz do Paraná. levou meu coração… Não devolveu… Em 1957 ingressou, por concurso, no curso de Refinação de Petróleo, da Petrobrás, no DESEJOS DE RETORNO Rio, passando a trabalhar em 1958 na Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão, Eu quero pôr de novo as calças rotas, SP, residindo em Santos, onde viveu onze sair na chuva, andar pela calçada, anos. A partir de 1969 passou a residir no Rio juntar-me à garrulice alvoroçada de Janeiro, onde fez carreira dentro da dos bandos de garotos e garotas! Empresa. Começou a escrever desde os doze anos. Poeta, Sentir de novo as arrepiantes gotas Trovador, Contista, Cronista, Biógrafo, no rosto, os pés metidos na enxurrada, Ensaísta, Historiador, Fabulista e Prefaciador, o espírito zanzando, sem mais nada, entre outros. Como sonetista de primeira, sem mais me preocuparem coisas doutas… obteve com o soneto APELO, 160 versões para 95 idiomas e dialetos. É o soneto em português Não posso trabalhar… Nesta vidraça mais traduzido para idiomas estrangeiros: que o meu suspiro de saudade embaça, escorrem cristalizações de sonho… “Eu venho da lição dos tempos idos e vejo a guerra no horizonte armada.Ah, Fausto, eu te compreendo! Se o demônio Será que os homens bons não fazem nada? surgisse agora, eu tinha a alma danada Será que não me prestarão ouvidos? em troca de zanzar pela enxurrada! Eu vejo a Humanidade manejada em prol dos interesses corrompidos. É mister acabar com esta espada suspensa sobre os lares oprimidos! É preciso ganhar maturidade no fomento da paz e da verdade, na supressão do mal e da loucura…
    • 106 Que a estrutura econômica da guerra “ANTOLOGIA DE SONETOS SOBRE A se faça em pó! E que reinem sobre a terra TROVA” (1998), “CONTOS BEM- os frutos do trabalho e da fartura!”. HUMORADOS” (1998), “FARIS MICHAELE, O TAPEJARA” (biografia, 1999),Como trovador, escreveu trovas magníficas e “ELUCIDÁRIO MÉTRICO” (metrificação,inesquecíveis, como estas, entre outras: 2000) e “APARÍCIO FERNANDES, TROVADOR E ANTOLOGISTA” (biografia, “Senhor! Que eu pratique o bem 2000). separe o joio do trigo, O escritor transitou do CLÁSSICO ao e tenha força também MODERNISMO com elegância e de amar o irmão inimigo.” competência, passando pelo lirismo, romantismo, parnasianismo, às vezes até “Na praia deserta, eu penso irreverente como no caso de “NESTE LUGAR que a imagem da solidão SOLITÁRIO” (a trova em grafitos de banheiro, começa no mar imenso 1988) e “ANTOLOGIA DA TROVA e finda em meu coração.” ESCABROSA” (1989), aderindo, de forma brilhante ao TROVISMO, desde o seu “Quem vai ao mar deitar rede primeiro momento, em 1950, tornando-se um que tome cuidado, tome! dos maiores propagadores e historiadores do o mar nunca teve sede, Movimento da Trova Brasileira. mas nunca vi tanta fome!” Eno foi um escritor exuberante, multiforme e polivalente. Alguns CLECS (pensamentos “Seguindo a trilha infinita humorísticos) de Eno, selecionados por Elmar do meu destino estrelado, Joenck, publicados em 1998: “Quando um eu sou aquele que habita adjetivo mente, ele, por castigo, vira advérbio. a ilusão de ser amado.” Folha que se desprende da árvore não volta nunca mais. Melhor perder o trem do que “O meu destino se encerra perder a linha. O sol nasce para todos. Mas a num grave e eterno conflito: maioria prefere dormir um pouco mais. Um - meu corpo é feito de terra, tolo inteligente não fala, que é para não revelar - meu coração, de infinito.” sua condição”. Organizou e participou ao lado do Trovador Clério José Borges de Sant’Anna, A obra de Eno Theodoro Wanke é extensa dos Seminários Nacionais da Trova, no Estadoe variada. Eis as principais: “NAS MINHAS do Espírito Santo, organizados pelo Clube dosHORAS” (poesia, 1953), “MICROTROVAS” Trovadores Capixabas, de 1981 a 1999.(1961), “OS HOMENS DO PLANETA Recebeu o título de Cidadão Espírito-santense,AZUL” (sonetos, 1965), “OS CAMPOS DO conferido pela Assembléia Legislativa doNUNCA MAIS” (poesia, 1967), “VIA Estado do Espírito Santo. Faleceu a 28 de maioDOLOROSA” (sonetos religiosos, 1972), “A de 2001, deixando livros e livrotes queTROVA” (estudo, 1973), “A TROVA ultrapassam 1000 títulos.POPULAR” (estudo, 1974), “A TROVA Está presente em várias obras de AparícioLITERÁRIA” (estudo, 1976), “REFLEXÕES Fernandes, entre outras: “NOSSASMAROTINHAS” (pensamentos humorísticos, TROVAS”, 1973; “NOSSOS POETAS”, 1974;1981), “VIDA E LUTA DO TROVADO “POETAS DO BRASIL”, 1975; “ANUÁRIORODOLFO CAVALCANTE” (biografia, DE POETAS DO BRASIL”, 1976, 1977,1982), “A CARPINTARIA DO VERSO” 1978, 1979, 1980 e 1981; “NOSSA(didática da metrificação, 1982, 1989, 1990 e MENSAGEM”, 1977; “ESCRITORES DO1994), “DE ROSAS & DE LÍRIOS” BRASIL”, 1979, 1980. Participou também das(minicontos, 1987), “O ACENDEDOR DE “COLETÂNEAS DE TROVASSONETOS” (líricos, 1991), “ALMA DO BRASILEIRAS”, organizadas pelo TrovadorSÉCULO” (sonetos, 1991), “FÁBULAS” Fernandes Vianna, Recife, PE. Verbete de(1993), “ADELMAR TAVARES, UM inúmeras obras literárias, entre outras:TROVADOR AO LUAR” (biografia, 1997), ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA
    • 107BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=7644&c at=Ensaios&vinda=SGalante de Sousa, edição do MEC, 1990, http://www.consciencia.net/citacoes/wx/wanke.htmledição revista e atualizada por Graça Coutinho http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/sonetario/wanke.htme Rita Moutinho Botelho, em 2001. TABORDA, Vasco José e WOCZIKOSKY, Orlando (organizadores). Antologia de Trovadores do Paraná. Curitiba: Edição de O Formigueiro – Instituto Assistencial de Autores doFontes: Paraná.Artigo de por Filemon F. Martins Academia Paranaense de LetrasHistórico O distintivo da Academia foi criado e A Academia Paranaense de Letras foi desenhado por Pamphilo d’Assumpção.fundada em Curitiba, em 26 de setembro de Ficou decidido que o traje obrigatório seria a1936, sucedendo a antiga Academia de Letras casaca, a ser usada nas sessões públicas edo Paraná, criada em 1922 e dissolvida por solenes.motivos políticos. A recriação de uma entidade De Sá Barreto elaborou o Regimentocultural representativa da cultura do Estado, Interno, baseado no da Academia Carioca.deu-se por estímulo e influência da Academia Ulysses Vieira manteve-se na Presidência atéCarioca de Letras e da Federação das 1942, sendo sucedido por Oscar MartinsAcademias de Letras do Brasil. Exerceu a Gomes. É eleito, em seguida, De Sá Barreto,liderança, nesse propósito, o Professor Dr. até 1957. Volta á Presidência, Oscar MartinsUlysses Vieira que reagrupou intelectuais Gomes, cujo mandato expirou em 1966. Nadispostos a resgatar os valores acadêmicos sucessão, assume Osvaldo Piloto até 1970.dispersos por força das velhas dissidências. Eleito Vasco Taborda Riba, este exerceu o Da extinta Academia de Letras, alinharam- mandato mais longo, de 1970 a 1990.se na promoção da nova instituição nascente, Convocadas eleições, assumiu Felíciofiguras de relevo, tais como Dom Alberto José Raitani Neto, com mandato até 1992.Gonçalves, João Cândido, Sebastião Paraná, Sucedeu-o Valfrido Piloto, o decano dosDario Velozzo, Santa Rita, Leônidas Loyola, acadêmicos, permanecendo até 1994, quandoPamphilo d’Assupção, Silveira Neto, Tasso da foi eleito Túlio Vargas.Silveira, Andrade Muricy, Leôncio Correia, Túlio manteve-se na presidência até falecer,Lacerda Pinto, Azevedo Macedo e Romario em 27 de março de 2008. Em seguida,Martins. conforme exigência do Estatuto, foi convocadaAs cadeiras restantes foram ocupadas por eleição para o preenchimento do cargo deoutros intelectuais, totalizando quarenta. presidente, sendo eleito Lauro Grein Filho,A primeira diretoria foi constituída de: com mandato até dezembro de 2008. Para a- Presidente: Ulysses Falcão Vieira vice-presidência, até então ocupada por atual- Vice-Presidente: Francisco Leite presidente, foi eleito Valério Hoerner Júnior.- Secretário Geral: De Sá Barreto Fatos- 1° Secretário: Benedito Nicolau dos Santos - É a partir de 13 de maio de 1936, através- 2° Secretário: Ciro Silva do 1º Congresso Nacional das Academias de- Tesoureiro: Pereira de Macedo Letras e Sociedades de Cultura Literária que é- Bibliotecário: Valfrido Piloto aprovada a fundação da Federação das Academias de Letras do Brasil, com sede no Rio Janeiro, para organizar, defender e
    • 108incentivar a produção literária no país. Foi acadêmicos. Mesmo com sérios problemas decom a Federação que teve início o saúde, Ulisses Vieira é reeleito para mais umplanejamento da APL. biênio, 1941/1943, à frente da APL, tendo - Foi em reunião no dia 26 de setembro de novamente Sá Barreto na secretaria-geral.1936, no anfiteatro da Escola Normal - A Academia passa a funcionar em novaSecundária, à rua Emiliano Perneta, sob a sede: à rua Monsenhor Celso, 243, no edifíciodireção provisória de Ulisses Vieira, foi Luis Valente. Nova mudança de endereço,fundada a APL, numa fusão do Centro de devido a pressões política de 1942: na sede daLetras do Paraná e Academia de Letras do Sociedade Giuseppe Garibaldi, no Alto de SãoParaná, que funcionavam sem uma organização Francisco. O presidente Ulisses Vieira falecepara os padrões da época. No ato da fundação em junho de 1942. Numa proposta de Azevedoda APL foram aclamados 16 associados, todos Macedo, a presidência da entidade ficaria vagapertencentes à antiga Academia de Letras do até o final do mandato, em abril de 1943.Paraná: dom Alberto Gonçalves, Andrade - Findado este prazo, Sá Barreto foi eleitoMurici, Azevedo Macedo, Dario Veloso, Dídio para a quarta diretoria, 1943/1945, mas emCosta, Francisco Leite, João Cândido, Lacerda julho de 1944 renunciaria ao cargo, assumindoPinto, Leôncio Correia, Leônidas de Loiola, a vaga Martins Gomes, que já ocupava a vice-Pânfilo d’ Assunção, Romário Martins, Santa presidência. Para comemorar o oitavoRita, Sebastião Paraná, Serafim França, Silveira aniversário da APL, foi realizado requintadoNeto e Tasso da Silveira. almoço de confraternização no Grande Hotel - No dia 13 de março de 1937, em reunião Moderno.no salão nobre da Universidade do Paraná, as No ano seguinte, nova mudança de sededemais cadeiras, 26 das quarenta existentes, para a rua Doutor Murici, Martins Gomes éforam preenchidas com os seguintes membros: reeleito para o biênio 1945/1947 e comemora-Alceu Chichorro, Ângelo Guarinello, Balão se o centenário de nascimento de Eusébio daJúnior, Benedito Nicolau dos Santos, Ciro Mota.Silva, Davi Carneiro, Euclides Bandeira, Flávio - Em 1966, Osvaldo Piloto é eleito para aGuimarães, Francisco Negrão, Heitor Stockler, presidência e a APL ganha nova revitalização,Helvídio Silva, Hugo Simas, Idefonso Serro após vinte anos de marasmo. As reuniõesAzul, Laerte Munhoz, Martins Gomes, Pereira passam a acontecer no Instituto Histórico. Ode Macedo, Quintiliano Pedroso, Raul Gomes, acadêmico Raul Gomes se rebela pelo fato daRodrigo Júnior, Sá Barreto, Sá Nunes, Ulisses não inclusão de Helena Kolody e GracieteVieira e Valfrido Piloto. A presidência Salmon nos quadros da entidade. Vascoprovisória e a secretaria geral foram ocupadas Taborda Ribas, assume a presidência da APLpor Ulisses Vieira e Sá Barreto. em 1970 e até 1990, comanda os destinos da - Ainda neste mesmo ano, no dia 29 de entidade aos trancos e barrancos. Em 30 demaio, em segunda convocação, foi eleita a outubro de 1990, Felício Raitani Neto é eleitoprimeira diretoria da APL que ficou assim e busca revolucionar a entidade com a decisãoconstituída: presidente, Ulisses Vieira; vice- de vários fatores que visariam o fortalecimentopresidente: Francisco Leite; secretário geral: Sá da mesma. O humanista Valfrido PilotoBarreto; primeiro secretário: Benedito Nicolau assume a presidência da APL no biêniodos Santos; segundo secretário: Ciro Silva; 1992/1994 e faz convênios com organismos dotesoureiro: Pereira de Macedo; bibliotecário: Estado.Valfrido Piloto. - Em 29 de novembro de 1994, assume - A primeira sede da APL é o apartamento Túlio Vargas, e passa a dar nova dinâmica e101 , no primeiro andar do Palácio Avenida, postura a entidade, inclusive incentivando alocalizada na travessa da Oliveira Belo. Ulisses abertura de novas academias pelo interior doVieira é reeleito para o biênio 1939/1941. São estado.feitas homenagens ao centenário do - A cronista e memorialista Flora Camargonascimento de Machado de Assis, patrono e Munhoz da Rocha é a nova integrante dafundador da ABL (Academia Brasileira de Academia Paranaense de Letras, após vencer aLetras). A APL passa a conceder auxílio poeta e musicista Kathleen Muller por amplafinanceiro para publicação de obras dos maioria, em eleição realizada. Autora de 11
    • 109livros, Flora é filha, nora e viúva de ex- 5 Leopoldo Schernergovernadores, respectivamente Affonso 6 Oriovisto GuimarãesCamargo, Caetano Munhoz da Rocha e Bento 7 Marino Bueno Brandão BragaMunhoz da Rocha Netto. Este último também 8 Rafael Valdomiro Greca de Macedofoi acadêmico, ocupando a Cadeira nº 25 da 9 Ário Taborda DergintAPL. Nascida em Curitiba, a nova ocupante da 10 Flora Munhoz da RochaCadeira nº 10 foi cronista de diversas 11 João Manuel Simõespublicações, inclusive da revista O Cruzeiro. 12 Ernani Costa StraubeDurante muitos anos também manteve uma 13 Rui Cavallin Pintocoluna na Gazeta do Povo. A posse de Flora 14 José Carlos Veiga LopesMunhoz da Rocha está prevista para o próximo 15 Adélia Maria Woellnermês de setembro. 16 Alceo Ariosto BocchinoBrasão 17 Clemente Ivo Juliatto Criação artística de João Pamphilo 18 Francisco da Cunha Pereira Filhod’Assumpção, fundador da cadeira nº7. Leitura 19 Carlos Alberto Sanchesheráldica de Ernani Costa Straube, da cadeira 20 Luiz Geraldo Mazzanº12. Escudo oval, trazendo em campo azul, a 21 Albino de Brito Freirerepresentação de uma pena de prata em pala, 22 Metry Bacilacom o raque terminando superiormente em 23 Vagagalhadas de pinheiro-do-paraná (Araucaria 24 Chloris Casagrande Justenangustifolia), em verde, acompanhada, à 25 Ruy Noronha Mirandasinistra da constelação do Cruzeiro do Sul, em 26 Léo de Almeida Nevesprata. A pena suplanta a ponta do escudo, cujo 27 Noel Nascimentocálamo se superpõe a uma faixa azul com a 28 Belmiro Valverde Jobim Castorexpressão “Semper Excelsior” em prata, 29 Leonilda Hilgenberg Justusficando tudo sobre a representação de um livro 30 Adherbal Fortes de Sá Jr.aberto, de prata, bordado de preto, com 31 Lauro Grein Filhomarcador de azul. Bordadura de azul, carregada 32 José Wanderlei Resendede pérolas de prata. Como timbre, a 33 Edilberto Trevisanrepresentação de uma máscara indígena, sainte, 34 Antônio Celso Mendesem prata e azul. Lambrequim constituído de 35 Moysés Goldstein Paciornikramos e frutos de pinheiro-do-paraná, nas cores 36 Apollo Taborda Françanaturais, cruzantes na ponta e sobre o livro e 37 Hellê Vellozo Fernandescálamo. O brasão é circundado na metade 38 Carlos Roberto Antunes dos Santossuperior pela expressão: “Academia Paranaense 39 Francisco Filipakde Letras”, em preto. 40 Valério Hoerner Júnior Academia Paranaense de LetrasAcadêmicos Rua Professor Fernando Moreira, 370 A seguir encontra-se a lista dos membros da Tel. (41) 3222-7731Academia Paranaense de Letras. CEP 80410-120 Curitiba – PRCadeira Atual ocupante1 Vaga Fonte: http://www.academiaprletras.kit.net/2 Ernani Lopes Buchmann3 René Ariel Dotti4 Eduardo Rocha Virmond
    • 110 Miguel Sanches Neto Do perigo das idéias fixas Como escrever é carência, estratégia para eram o melhor conto do livro — sob pontos depreencher vazios, o autor sempre quer a vista antagônicos. E isso me pacificou,aprovação amorosa de seu trabalho. Por isso definitivamente, com o volume, que nãoacaba invariavelmente se frustrando, por sofrerá maiores mudanças.melhor que seu livro seja. Haverá sim Digamos que tal fato me tornouaprovação, algumas meramente diplomáticas, invulnerável às restrições, permitindo-me umescritas com palavras gastas em cartões ligeiros, amor mais pleno pelo livro. Posso, portanto,outras de uma verdade comovente, mas é continuar produzindo minha literatura, que aoimpossível controlar a rejeição, que veste os mesmo tempo contentará e descontentarámais variados trajes. quem, amorosa ou rancorosamente, se dedicar Um autor, cujo livro teve cobertura a ela.completa nos canais de comunicação, sofre Com os anos, depois de muito sofrimento,porque certo jornalista não o citou em sua o escritor vai desenvolvendo esta autodefesa.coluna. De repente, por essa omissão talvez Como o mundo o nega, e o negará sempre,involuntária, sua alegria se perde e ele se sente uma vez que inexiste a desejada unanimidade,vencido, sem a mínima vontade de escrever. ele passa a se valorizar mais e mais, criando Um ser com os nervos à flor da pele, assim uma atitude autista, de exílio em seu mundo, aé o escritor. E uma pele fina, tão fina que ponto de nada mais atingi-lo. Só assim, isoladoqualquer palavra mais áspera a rompe. Muitas em sua vocação, consegue força para escrever.vezes, não precisa haver nem a palavra. Basta É aí, então, que ele se torna um serum silêncio. E ei-lo todo esfolado diante de sua desagradável, pois a soberba anula o outro,imperdoável consciência. visto como um irritante desmancha-prazeres, Com o lançamento de Chove sobre minha sem direito a exercer um gosto literário,infância, recebi, de vários leitores que necessariamente seletivo.adoraram o romance, restrições quanto a este Como escrever é carência, estratégia paraou àquele capítulo. No começo, pensei em preencher vazios, o autor sempre quer acortar os capítulos na segunda edição, pois aprovação amorosa de seu trabalho, mas équeria agradar o interlocutor tão sincero que preciso que seu amor-próprio, inflado aotinha corrido risco ao me alertar para as máximo, passe pela calibragem destes leitoresfraquezas do livro. Mas como as opiniões mais críticos, que na maioria das vezes — e falocontinuaram — e, felizmente, continuam — com a experiência de quem atua nas duaschegando, fui percebendo que o que parecia, frentes — não está disposto a usar palavraspara certa pessoa, um trecho menor era o acolchoadas, preferindo as que ferem fundo.melhor para outra. Não havia consenso entre Como escrever é carência, estratégia paraelas, cada uma projetando seus conceitos e preencher vazios, o autor sempre quer apreconceitos na escolha dos melhores e dos aprovação amorosa de seu trabalho.piores momentos do romance. O autor sempre quer. Esta diversidade de opinião aumentou comHóspede secreto, minha primeira coletânea decontos. Não prevalece a menor coerência nasescolhas — feitas em jornais, revistas, cartas e MIGUEL SANCHES NETO (1965)verbalmente — dos bons contos do livro. Cada – 1969 Nasce em Peabiru, pequena cidadeum escolhe o seu, pois se trata de uma do interior do Paraná, aos 4 anos de idade,antologia, elegendo-o por motivos os mais com a morte de seu pai e a transferência dadiversos. A multiplicidade de razões de meus família para a cidade onde ele foi enterrado.leitores me fez perceber que todos os 13 contos
    • 111 - 1965 Errata: para fins oficiais, o autor - 1984 De volta a Peabiru, começa anasceu em 24 de julho, em Bela Vista do trabalhar na cerealista do padrasto. ConheceParaíso (Paraná), filho de Antonio Sanches e Juliana Calisto da Silva. Entra no curso deNelsa da Silva Sanches. Mas só foi registrado Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências eno dia seguinte. Letras de Mandaguari. - 1967 Nasce sua irmã Carmem Antonia - 1985 Tenta a vida como agricultor emSanches, que terá papel importante, como uma propriedade do padrasto, no distrito depersonagem, no romance Chove sobre minha Silviolândia, enquanto freqüenta a faculdade.infância. Maneja a caneta e a enxada. - 1970 Sua mãe, viúva, casa-se com - 1986 Licencia-se em Letras, mas nãoSebastião Ferreira Sobrinho, pequeno comparece à formatura.comerciante. - 1987 Reprovado na seleção para o - 1971 Os filhos do padrasto (José Carlos mestrado da Universidade Federal do RioSobrinho e Luis Carlos Ferreira) vêm morar Grande do Sul, segue, em março, paracom a nova família. Morre seu avô materno Colombo, região metropolitana de Curitiba, eJosé Alves da Silva, o famigerado Zé Zabé. começa a lecionar em escolas da periferia. - 1975 Famosa geada que destrói os cafezais Casa-se em outubro com Juliana Calisto, indoda região, ano em que ele termina o primário morar no Boa Vista, bairro da capitalno Colégio Olavo Bilac, em Peabiru. paranaense. Torna-se amigo da poeta Helena - 1976 Entra para o ginásio, inaugurando o Kolody.prédio recém-construído da Escola 14 de - 1988 Passa o mês de julho, em companhiaDezembro, onde vai se iniciar sozinho na de sua mulher, na Bolívia e no Peru, na famosaleitura. rota do Trem da Morte, rumo a Macho Pichu. - 1978 Escolhido, na aula de português do Começa a colaborar no periódico Nicolau,professor Toniquinho Bassi, para ler uma onde publica seu diário de bordo “Hasta laredação num concurso, fica em último lugar, vista, Peru”. É reprovado na seleção para omas recebe a aprovação entusiasmada do mestrado em literatura na Universidadeprofessor – seu primeiro incentivador. Federal do Paraná. - 1979 Tira o diploma mais importante de - 1989 Faz especialização em Literaturasua vida, o do Curso de Datilografia Brasileira na PUC/Paraná.Bandeirantes, que funcionava no colégio anexo - 1990 Aprovado no mestrado em Literaturaà igreja matriz. Passa com nota 6, iniciando Brasileira da Universidade Federal de Santaassim, humildemente, sua carreira de escritor. Catarina. Viagem longa pelas cidades históricasGanha uma máquina de escrever portátil: de Minas Gerais. Passa a morar emOlivetti Lettera 35, que foi sua primeira Florianópolis, no Morro das Pedras. Ganha,namorada. com seu livro Inscrições a giz, o Prêmio - 1980 Entra para o colégio agrícola de Nacional Luis Delfino de 1989, concedido pelaCampo Mourão na condição de interno. Sofre Fundação Catarinense de Cultura.com a nova vida, mas começa a descobrir os - 1992 Começa a usar computador, graçasautores nacionais e internacionais. ao qual conclui o mestrado com dissertação - 1981 Entra para o PUC (Peabiru União sobre o romance A polaquinha, de DaltonClube), sob o número 244 A, começando a Trevisan.conviver com a pequena burguesia da cidade. - 1993 É aprovado em primeiro lugar no - 1982 Forma-se técnico agrícola depois de concurso público para literatura nahistórica suspensão por insubordinação. Universidade Estadual de Ponta Grossa. Muda- - 1983 Tentativas de vida independe em se para esta cidade. Em dezembro, começa suaRondonópolis e Curitiba. Passa, em segunda atividade de crítico na Gazeta do Povochamada, no vestibular para Direito da (Curitiba), tendo sido apresentado ao jornalUniversidade Estadual de Londrina, mas não por Dalton Trevisan.se matricula. Auge dos conflitos familiares – a - 1994 Entra para o doutorado napadrasto diz que vai deixar-lhe como herança Unicamp.uma enxada.
    • 112 - 1995 Nasce em 25 de abril sua filha Barcelona) na companhia do escritor AntonioCamila Calisto Sanches. Conhece Wilson Torres. Participa da antologia Poesía brasileiraMartins. hoxe (Santiago de Compostela: Editorial - 1996 Começo de suas colaborações em Danú). Chove sobre minha infância é indicadoperiódicos de São Paulo. Faz parte da primeira para o vetibular da Unioeste.equipe da revista Bravo! Embora venha escrevendo há muitos anos, - 1998 Conclui doutorado com tese sobre a desde a adolescência, talvez o escritor MiguelRevista Joaquim. Recusa-se a ir buscar o Sanches Neto tenha começado a ficardiploma. conhecido nacionalmente a partir de 2000, - 1999 Escreve nas férias de verão o quando lançou, pela Editora Record, oromance Chove sobre minha infância. Muda-se romance Chove sobre minha infância, jápara Curitiba em abril, por ser convidado pelo traduzido para o espanhol. De lá para cá, elegovernador Jaime Lerner para atuar como deixou de ser promessa para se firmar comoassessor na Casa Civil. Em 22 de julho, é um dos nomes mais representativos da novanomeado Presidente da Imprensa Oficial do literatura brasileira, o que foi confirmado,Estado do Paraná, cargo que ocupa até agora, com o lançamento, também peladezembro de 2002. Convívio intenso com Record, de Um amor anarquista. NesteDalton Trevisan e Wilson Martins. imperdível romance, o escritor nos conta, com - 2000 Publicação da coletânea poética incrível capacidade de persuasão, a história deVenho de um país obscuro e do romance um grupo de imigrantes italianos, que, no finalChove – sobre minha infância. Início da do século XIX, na pequena cidade de Palmeira,coleção Brasil Diferente, criada por Miguel no interior do Paraná, funda a ColôniaSanches na Imprensa Oficial. Descobre, aos 35 Socialista Cecília, na qual tenta destruir oanos, que tem uma doença crônica, de sistema tradicional da família e implantar onatureza imunológica, chamada Síndrome de amor livre. Assunto que até hoje, passadosAddison. Revisa as provas de Chove sobre tantos anos, permanece causando polêmica nominha infância durante internação no Hospital Paraná.Nossa Senhora das Graças. Miguel Sanches conta que sua idéia de - 2001 Escreve ensaio de introdução para narrar a história começou a ganhar corpo emPoesia completa de Cecília Meireles (Nova 1994, quando estava trabalhando em um livroFronteira) e estudo sobre Vinícius de Moraes produzido por um descendente da colônia.(O Itamaraty na cultura). “desde então, vim sonhando com a - 2002 Vence, entre 1.444 inscritos, o possibilidade de escrever o romance. Li muitaPrêmio Cruz e Sousa com o livro de contos coisa a respeito, e cheguei a traduzir, com umaHóspede Secreto. A comissão era composta por amiga, os escritos de Rossi [Giovanni Rossi,Moacyr Scliar, Luiz Vilela, Carlos Heitor Cony, um dos integrantes da Cecília] sobre aÍtalo Moriconi e Flora Süssekind. experiência no Paraná”, diz o escritor. Até - 2003 Volta às atividades de magistério em começar a escrever, ele visitou várias vezes osPonta Grossa. Primeira viagem à Europa, para locais onde os fatos se passaram, além de terparticipar do Encuentro de Escritores conversado com os descendentes dosBrasileños, em Madri. Sai edição comercial de imigrantes. Planejava, também, viajar à Itália,Hóspede Secreto. Publica Abandono (hai-kais) para visitar os lugares de onde vieram ose o volume de correspondência amorosa Você personagens, mas quando viu que isso nãosempre à minha volta. Ministra oficina literária seria possível, resolveu começar a empreitadana PUC.Minas, na companhia de Sérgio com o material que tinha em mãos. “PasseiSant’Anna, Luiz Vilela, Affonso Romano de dezembro de 2003, fevereiro e maço de 2004Sant’Anna, Marina Colassanti, Antonio Cícero trabalhando 12, 14 horas por dia. Com estee Humberto Werneck. esforço concentrado, obtive o copião, sobre o - 2004 Escreve nas férias de verão o qual mergulhei, eliminando capítulos inteiros,romance Um amor anarquista e inicia acrescentando coisas, e até 15 dias antes dacolaboração na revista Carta Capital. Sai em impressão do livro eu ainda estava mexendo noBarcelona a tradução de seu romance: Llueve texto”, confessa o romancista, agora aliviado, esobre mi infancia. Viagem à Espanha (Madri e
    • 113feliz, com a repercussão positiva que o romance “Apenas estou dando um exemplo, emboravem recebendo. ache que devemos mesmo nos comparar aos Escritor eclético, que tem navegado por grandes”, afirmar Sanches Neto. Mas ele nãodiversos gêneros, Miguel Sanches Neto – que resiste e confessa que, literariamente, sente-senasceu em Bela Vista do Paraíso, interior do melhor no romance, “pela possibilidade deParaná, mas foi criado na pequena Peabiru – dizer mais, e ampliar as estruturas simbólicas”.diz ser um escritor inquieto, daí essa Um amor anarquista está aí para confirmardiversidade literária. Para ele, isso não é este gosto. Leia abaixo entrevista com o autor.nenhuma coisa de outro mundo, embora no “Vivemos dentro de subculturas do gosto.Brasil as pessoas sempre esperem que o autor Guetos que só lêem tais autores”se dedique apenas a um tipo de texto. “Isso é Fontes:bobagem. A gente tem que escrever de acordo http://www.miguelsanches.com.br/com os imperativos interiores. Machado de http://pt.wikipedia.org/Assis fez de tudo”, diz o romancista, sem seimportar que pensem que ele está querendo separecer com o Bruxo do Cosme Velho. Florbela Espanca Poesias Voz que se Cala Andam perdidas na vida, Como as estrelas no ar; “Amo as pedras, os astros e o luar Sentem o vento gemer Que beija as ervas do atalho escuro, Ouvem as rosas chorar! Amo as águas de anil e o doce olhar Dos animais, divinamente puro. Só quem embala no peito Dores amargas e secretas Amo a hera que entende a voz do muro, É que em noites de luar E dos sapos, o brando tilintar Pode entender os poetas De cristais que se afagam devagar, E da minha charneca o rosto duro. E eu que arrasto amarguras Que nunca arrastou ninguém Amo todos os sonhos que se calam Tenho alma pra sentir De corações que sentem e não falam, A dos poetas também! Tudo o que é Infinito e pequenino! ***************** Vozes do mar Asa que nos protege a todos nós! Soluço imenso, eterno, que é a voz Quando o sol vai caindo sobre as águas Do nosso grande e mísero Destino!…” Num nervoso delíquio d’oiro intenso, ***************** Donde vem essa voz cheia de mágoas Poetas Com que falas à terra, ó mar imenso?… Ai as almas dos poetas Tu falas de festins, e cavalgadas Não as entende ninguém; De cavaleiros errantes ao luar? São almas de violetas Falas de caravelas encantadas Que são poetas também. Que dormem em teu seio a soluçar?
    • 114 Tens cantos d’epopeias?Tens anseios ligada por fortes laços afectivos), num acidente D’amarguras? Tu tens também receios, com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em Ó mar cheio de esperança e majestade?! 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os Donde vem essa voz,ó mar amigo?… problemas de saúde, sobretudo de ordem … Talvez a voz do Portugal antigo, psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, Chamando por Camões numa saudade! tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar». Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de FlorbelaFLORBELA ESPANCA (1894 – 1930) Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (1930), As Marcas do Destino (1931, contos),(Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Cartas de Florbela Espanca, por AzinhalEspanca e de Antónia da Conceição Lobo, Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diáriocriada de servir (como se dizia na época), que do Último Ano Seguido De Um Poema Semmorreu com apenas 36 anos, «de uma doença Título, com prefácio de Natália Correia (1981).que ninguém entendeu», mas que veio O livro de contos Dominó Preto ou Dominódesignada na certidão de óbito como nevrose. Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967),Registrada como filha de pai incógnito, foi seria publicado em 1982.todavia educada pelo pai e pela madrasta, A poesia de Florbela caracteriza-se pelaMariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu recorrência dos temas do sofrimento, dairmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em solidão, do desencanto, aliados a uma imensa1897 e registrado da mesma maneira. Note-se ternura e a um desejo de felicidade e plenitudecomo curiosidade que o pai, que sempre a que só poderão ser alcançados no absoluto, noacompanhou, só 19 anos após a morte da infinito. A veemência passional da suapoetisa, por altura da inauguração do seu linguagem, marcadamente pessoal, centradabusto, em Évora, e por insistência de um grupo nas suas próprias frustrações e anseios, é de umde florbelianos, a perfilhou. sensualismo muitas vezes erótico. Estudou no liceu de Évora, mas só depois Simultaneamente, a paisagem da charnecado seu casamento (1913) com Alberto alentejana está presente em muitas das suasMoutinho concluiu, em 1917, a seção de imagens e poemas, transbordando a convulsãoLetras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse interior da poetisa para a natureza.mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Florbela Espanca não se ligou claramente aDireito da Universidade de Lisboa, que passou qualquer movimento literário. Está mais pertoa frequentar. Na capital, contatou com outros do neo-romantismo e de certos poetas de fim-poetas da época e com o grupo de mulheres de-século, portugueses e estrangeiros, que daescritoras que então procurava impor-se. revolução dos modernistas, a que foi alheia.Colaborou em jornais e revistas, entre os quais Pelo carácter confessional, sentimental, da suao Portugal Feminino. Em 1919, quando poesia, segue a linha de António Nobre, factofrequentava o terceiro ano de Direito, publicou reconhecido pela poetisa. Por outro lado, aa sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. técnica do soneto, que a celebrizou, é,Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, sobretudo, influência de Antero de Quental e,de quem vivia separada havia alguns anos, e mais longinquamente, de Camões.voltou a casar, no Porto, com o oficial de Poetisa de excessos, cultivouartilharia António Guimarães. Nesse ano exacerbadamente a paixão, com voztambém o seu pai se divorciou, para casar, no marcadamente feminina (em que algunsano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em críticos encontram dom-joanismo no1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em feminino). A sua poesia, mesmo pecando por1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com vezes por algum convencionalismo, temo médico Mário Laje, em Matosinhos. suscitado interesse contínuo de leitores e Os casamentos falhados, assim como as investigadores. É tida como a grande figuradesilusões amorosas, em geral, e a morte do feminina das primeiras décadas da literaturairmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava portuguesa do século XX.
    • 115 http://www.secrel.com.br/jpoesia/Fontes: http://www.bellelage.blogspot.comJornal de Poesia Florbela Espanca, a alma em expansãopor José Carlos A. Brito sério um caso tão excepcional, e, ao mesmo tempo, Florbela Espanca foi uma poeta de tão significativamente humano…tão expressivamenteextraordinária sensibilidade, nascida em 1894 feminino…”em Vila Viçosa, Portugal. Desde criança fazia Ainda o próprio autor do estudo nos revela,versos originados de uma necessidade interior, nesta significativa citação, como aflorava oque segundo os críticos, mesmo com erros de inconsciente coletivo veiculado por sua poesia.ortografia eram avançados em relação à sua Vejamos:idade. É o processo de criação para atender às “…mais tarde se revelará na sua poesia, comopressões do inconsciente e que levaram uma verdadeira intuição obsessiva e não o caprichoFlorbela a uma permanente angustia de nunca literário que também é, o pós-sentimento de terconseguir expressar-se na proporção em que a vivido em outros mundos, em outras vidas, em outrosforça erótica de sua alma oculta o exigia. Como países: de ter sido não só quaisquer das figurasdiz seu critico José Regis, em estudo de 1952: romanescas sonhadas pela fantasia dos poetas ou“…Nem o Deus que viesse ama-la, sendo um Deus, vitralizadas pela história e a lenda – princesas,lograria satisfazer a sua ansiedade… “ infanta, monja – mas ainda árvore, flor, pedra, Sempre suas manifestações poéticas estavam terra; senão nuvem, som, luz…”aquém da necessidade desse outro ser, uminconsciente imaginativo a impulsionar os Na penumbra do pórtico encantadosentimentos desde dentro. Mas ela avançava De Bugres, noutras eras, já vivi;sem preocupar-se muito com a poesia que Vi os templos do Egito com Loti;circulava nos meios literários a seu redor. As Lancei flores na Índia ao rio sagrado.revistas e movimentos como “Orfeu”,“Presença”, e outros, nada significavam de Mas José Régio, na mesma analise sobremuito importante para ela e nisso o próprio Florbela, dá uma escorregada ao querermodernismo passou desapercebido em sua interpretar seu narcisismo como contradiçãoobra. Florbela poetava por uma necessidade de personalidade da poeta em relação àintrínseca e seu estilo não se detinha em procura ou exaltação do seu amor. Utilizandoacompanhar escolas e modas da época. certa forma pejorativa, mal percebe, esse Era, portanto, um vulcão de paixões crítico, o impressionante processo de expressãoinexplicáveis com fortes elementos do espontânea do feminino inspirador, que ainconsciente coletivo, aflorando, além da poeta mulher faz surgir por imagens malexpressão de sua alma traduzida pela metáfora compreendidas quando conceituadas comodo feminino, que no caso de Florbela era um narcisismo. Indo da incompreensão à censura,fato plasmado através do narcisismo, vejamos o que nos fala Régio a respeito:utilizando-se para tanto de sua própria imagem.Resulta interessante notar essas sinalizações “…Todavia não creio que em tais sonetos se exprima odestacadas por José Régio: “…viveu a fundo esses singular de Florbela. Embora fazendo sonetos de amor atéestados quer de depressão, quer de exaltação, quer de ao fim, e não obstante a feminilidade que já vimos darconcentração em si mesma, quer de dispersão em tom ao seu narcisismo, lembremo-nos, continuemos atudo, que na sua poesia atingem tão vibrante lembrar-nos que Florbela gosta demasiado de si mesma,expressão…” Mais adiante em relação ao comprazendo-se em cantar “os leves arabescos” do seu corpo, a sua “pele de âmbar” os seu “olhos garços”,feminino “…Também de certo aparecem na nossa sobretudo as suas mãos que tanto veste de imagens.poesia autenticas poetisas, antes e depois de Pormenor impressionante: O que em si própria maisFlorbela. Nenhuma, porém até hoje, viveu tão a parece agradar-lhe – as mãos e os olhos – é o que também
    • 116mais canta no amante amado. Dir-se-ia que ainda nele se Florbela Espanca, em vida, conseguiu editarespelha e se procura. E sem dúvida poderemos pensar que, o Livro de Mágoas (1919) e o Livro de Sórorem vários de seus sonetos considerados de amor, ela é que Saudade (1923), deixando inéditos Charnecaé o verdadeiro motivo; e o pretenso amado um em Flor e Relíquia, por não ter encontradopretexto.Ora, narcisismo e egolatria não parecem que editor. As críticas em geral não acertaram essesejam muito favoráveis ao dom de amar. ” compasso espiritual de Florbela, quando a analisam “…desligada de preocupações de conteúdo Isto significa não entender que a verdadeirapoesia e a procura de um algo muito poético humanista ou social. Inserida em seu mundosejam uma coisa só, e que a alma procura pequeno burguês…”(observação citada porsentidos para encontrar-se quase sempre em Rolando Galvão). Uma analise insensível, porcontatos que lhe despertem a sensibilidade por não levar em conta o mergulho da poeta naintermédio do amor, pois é esse amor a energia criação individual, pois, dessa formaerótica, através de uma intensa fabricação de conseguiria sua profunda inserção nalibido, de dentro, que Florbela precisa comunidade, como de fato veio acontecerdesprender e captar ao mesmo tempo na posteriormente. Florbela fez sua poesia emconsciência, para produzir sua obra. Seria uma sonetos, pouco se preocupando com o estilopequena ilusão encontra-la de forma modernista, como já dissemos, porque apermanente no sexo oposto, mas a incitação à essência de seu fluxo poético encaixou-sepossibilidade inicial da paixão leva a poeta a melhor nessa forma (e, por acaso, não seriaprocura-la nos homens, desiludindo-se, nos três igualmente essa forma de cadência, ritmo ecasamentos desfeitos em apenas 15 anos. Sem melodia a indicada por seu ativo imaginário doesquecer que existe a necessidade de criar o inconsciente?). Mesmo, nessa técnica escolhida,pólo oposto para estabelecer a tensão despreocupou-se com a formalidade do verso;necessária à criação, pois a energia nasce da precisava dizer urgentemente ao mundo o querelação dinâmica entres esses opostos. borbulhava dentro dela.Compreende-se o anúncio insistente da No EU que transcrevemos na integra,procura, e também as formas sinceras de vemos a alma que se derrama num caudalimaginar tal encontro como formas de amor, fazendo-a sofrer dolorosamente…por ser irmãou na imagem do seu feminino, ou nas do sonho…é sacrificada e dolorida. Ao nãotentativas de ternura, inclusive em relação ao conseguir encontrar a expressão adequada noseu amado irmão. E isso é a poesia de Florbela, consciente das realidades de sua vida, oanunciação da insatisfação por não encontrar- “…destino amargo, triste e forte a impelese. No soneto seguinte podemos apreciar essa brutalmente para a morte…”, isto é, busca essapoesia: alma, supostamente verdadeira, fora do mundo real dos fatos objetivos, e dentro do sonho, o EU único que a poeta mais conhece e vive. Na sua realidade das coisas, sua figura não é vista e Eu sou a que no mundo anda perdida nem compreendida (chamam-me triste sem o Eu sou a que na vida não tem norte, ser). E ela própria não consegue identificar o Sou a irmã do Sonho, e desta sorte porquê disso. No caso dela é um sofrimento Sou a crucificada… a dolorida… real e não apenas um fingimento poético, com Sombra de névoa tênue e esvaecida, a conseqüente representação artística. E que o destino amargo, triste e forte, Esse sofrimento real leva à tragédia real, que Impele brutalmente para a morte! mais tarde se apresentará no suicídio aos 36 Alma de luto sempre incompreendida!… anos. Se fosse fingido, o sofrimento Sou aquela que passa e ninguém vê… desembocaria em arte representativa, tragédia Sou a que chamam triste sem o ser… que se realiza na obra estética do drama, Sou a que chora sem saber porque… através do símbolo. Florbela é poesia bruta, Sou talvez a visão que Alguém sonhou, pura, como a explosão dos astros, e é por isso Alguém que veio ao mundo pra me ver também extremamente vidente, ao perceber, E que nunca na vida me encontrou! desde seu mundo oculto um Alguém articulador (que vem de algum lugar obscuro?),
    • 117manejando os mecanismos de seu emergir Recordar? Esquecer? Indiferente!…espontâneo. Alguém a provocar-lhe sede, mas Prender ou desprender? É mal? É bem?que não lhe dá água de beber “…Alguém que Quem dizer que se pode amar alguémveio ao mundo pra me ver e que nunca na vida me Durante a vida inteira é porque mente!encontrou.”, visão extraordinária doinconsciente vivo, onde ela dialoga com o Há uma primavera em cada vida:simbolo difuso, diríamos. É preciso canta-la assim florida, E notemos como tenta, antecipadamente, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!prever a cristalização desse encontro, um iralém do metafísico, num dos últimos sonetos E se um dia hei de ser pó, cinza e nadade sua vida: Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder…pra me encontrar… DEIXAI ENTRAR A MORTE Florbela vivia à procura de sua alma Deixai entrar a morte, a iluminada, interior, na beleza imaginada de seu feminino e A que vem para mim, pra me levar, na vivência de sua paixão interior; seu amor, Abri todas as portas par em par que não se realizaria com os homens. Como asas a bater em revoada. Procurei o amor, que me mentiu, Que sou eu neste mundo? A deserdada, Pedi à Vida mais do que ela dava; A que prendeu nas mãos todo o luar, Eterna sonhadora edificava A vida inteira, o sonho, a terra, o mar, Meu castelo de luz que me caiu. (Inconstância) E que, ao abri-las não encontrou nada! ……………………………………………. Quando se defrontava com o feminino de Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste? sua alma achava-se de uma beleza indescritível, Entre agonias e em dores tamanhas não cabia dentro de sua própria formosura. Pra que foi, dize lá, que me trouxeste Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina… Dentro de ti?…pra que eu tivesse sido Pele doirada de alabastro antigo… Somente o fruto das entranhas Frágeis mãos de madona florentina… Dum lírio que em má hora foi nascido!… -Vamos correr e rir por entre o trigo – (Passeio no Campo) Mas antes dessa ida, Florbela tentouexperimentar “… prender nas mãos todo o luar…”. Mas ao defrontar-se com a realidade, quaseE procurou-o no amor aos homens, mas achou desconhecida e a ela desacostumada, exageravao sexo brutal; ali não estava o luar, o erotismo em dizer que seu corpo era feio diante doem que procurava comover-se. Esse pólo espelho. Mesmo que não o fosse, a visão nãoextremo sempre existiria, com o intuito de correspondia a seu estado de sonho, cujoprovocar energia, mas todo pólo que conceito do belo estava além da realidade.predomina sobre o outro desequilibra oprocesso de criação. Florbela sempre que cedia Até agora eu não me conhecia.à tentação de optar por um dos lados, Julgava que era Eu e eu não eraestagnava o processo vital da criação de libido. Aquela que em meus versos descrevera Tão clara como a fonte e como o dia. AMAR Mas que eu não era Eu não o sabia Eu quero amar, amar perdidamente! E, mesmo que o soubesse, não o dissera Amar só por amar: Aqui…Além… Olhos fitos em rútila quimera Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…] Andava atrás de mim e não me via! (EU II) Amar!Amar! E não amar ninguém! …………………………………………………. E ao final Florbela, frente ao dilema de ser ou não ser, terminava correndo para o refúgio da própria poesia, seu ser transcendente, que
    • 118corresponderia à unidade desses dois levarão a sucumbir por não suportar mais essecontrários: o símbolo permanente de sua desejo insaciável e desconhecido, nãopossível salvação. consumado. Vejamos no poema:SER POETA NOSTALGIA Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Nesse País de lenda, que me encanta, Do que os homens! Morder como quem beija!] Ficaram meus brocados, que despi, É ser mendigo e dar como quem seja E as jóias que pelas aias reparti Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! Como outras rosas da Rainha Santa! É ter mil desejos o esplendor Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta! E não saber sequer que se deseja! Foi por lá que as semeei e que as perdi… É ter cá dentro um astro que flameja, Mostrem-me esse País em que eu nasci! É ter garras e asas de condor! Mostrem-me o Reino de que eu sou infanta! É ter fome, é ter sede do Infinito! Ó meu País de sonho e de ansiedade, Por elmo, as manhãs de ouro e de cetim Não sei se esta quimera que me assombra, É condensar o mundo num só grito! É feita de mentira ou de verdade! E é amar-te assim perdidamente Quero voltar! Não sei por onde vim… E seres alma e sangue e vida em mim Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra] E dize-lo cantando a toda a gente. Por entre tanta sombra igual a mim! O sofrimento vinha dessa A poeta, ao refletir sobre essa trajetória,incompatibilidade entre o corpo real e o corpo percebe seu sonho misturado a um vago sonhoda alma. Florbela precisaria de um meio termo, coletivo, que para ela foi “…um sonho aladonão como média, mas como síntese simbólica erguido em horas de demência…”. Não háou filosófica. Talvez a filosofia oriental fosse- realidade palpável, onde possa firmar-se; nãolhe propícia naquele momento de domínio da vem o Desejado e nem o Infante, duas figuras;incompreensão total, exercida sobre ela até a do seu desejo e a do desejo da imaginação dapela cultura circundante. Pois, o meio em que coletividade (através de uma máscara coletivase locomovia era fruto das máscaras do valor de feitos e heróis). Aquilo que seria oaparente, das conquistas violentas, da transcendente – sua própria poesia – já nãosupervalorização física, a nostalgia dos feitos encontrava meios psíquicos de faze-la viver,colonizadores, que em Portugal (sem excluir porque ela própria já não possuía mais recursosoutros paises colonialistas) oprimia a alma de para sustentar-se na vida das imagens. Assimseus poetas profundos (veja-se Fernando diz:Pessoa, morto por alcoolismo, ou mesmo SáCarneiro, levado ao suicídio) SONHO VAGO: Em outra cultura mais espiritual, Florbela,provavelmente teria sobrevivido, conseguindo Um sonho alado que nasceu um instante,que sua psique encontrasse parcerias externas, Erguido ao alto em horas de demênciana condução de seu erotismo ao caminho da Gotas de água que tombem em cadenciaharmonia, ou o equilíbrio entre a alma Na minha alma, tristíssima, distante…insaciável e o corpo real, encaixando-seconteúdo e forma, em sua vida como na Onde está ele o Desejado? O Infante?poesia, misturando a imaginação com a vida O que há de vir e amar-me em doida ardência?]real. O das horas de mágoa e penitencia ? Desse País inexplicável, Florbela, consegue O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?chegar a ponto de perceber o quanto aindecifrável e frustrada história “da pátria” semistura com os enigmas de sua alma, que a
    • 119 E neste sonho eu já nem sei quem sou E tu já me encontras-te e não me vês! O brando marulhar de um longo beijo Que não chegou a dar-se e que passou… Fonte: Jornal de Poesia http://www.secrel.com.br/jpoesia/ Um fogo-fátuo rútilo, talvez… E eu ando a procurar-te e já te vejo! Manuel da Fonseca Os Olhos do Poeta O poeta tem olhos de água para reflectirem contos-de-fada à hora da infância e os trapostodas as cores do mundo, e as formas negros das mulheres dos pescadorese as proporções exatas, mesmo das coisas que esvoaçando como bandeiras aflitas e correndodesconhecem. pela costa de mãos jogadas pro mar Em seu olhar estão as distâncias sem amaldiçoando a tempestade: todas as cores,mistério que há entre as estrelas, todas as formas do mundo se agitam nos olhose estão as estrelas luzindo na penumbra dos do poeta.bairros da miséria, com as silhuetas escuras dos Do seu olhar, que é um farol erguido nomeninos vadios esguedelhados ao vento. alto de um promontório, sai uma estrela Em seu olhar estão as neves eternas dos voando nas trevas, tocando de esperança oHimalaias vencidos e as rugas maceradas das coração dos homens de todas as latitudes.mães que perderam os filhos na luta entre as E os dias claros, inundados de vida, perdem opátrias e o movimento ululante dos homens brilho nos olhos do poeta que escreve poemasque voltam ao lar com as mãos vazias e de revolta com tinta de sol na noite de angústiacalejadas e a luz do deserto incandescente e que pesa no mundo.trémula, e os gelos dos pólos,brancos, e asombra das pálpebras sobre o rosto das noivas Fonte: http://campodetrigocomcorvos.zip.net/index.htmlque não noivaram e os tesourosdos oceanos desvendados maravilhando como Sylvia Plath Devaneios Para que serve minha vida e o que vou fazer (…)Tenho muita vida pela frente, mascom ela? Não sei e sinto medo. Não posso ler inexplicadamente sinto-me triste e fraca. Notodos os livros que quero; não posso ser todas fundo, talvez se possa localizar tal sentimentoas pessoas que quero e viver todas as vidas que em meu desagrado por ter de escolher entrequero. E por que eu quero? Quero viver e alternativas. Talvez por isso queira ser todos –sentir as nuances, os tons e as variações das assim, ninguém poderá me culpar por eu serexperiências físicas e mentais possíveis de eu. Assim, não precisarei assumir aminha existência. E sou terrivelmente limitada.
    • 120responsabilidade pelo desenvolvimento do Fonte: http://portas-lapsos.zip.net/index.htmlmeu caráter e de minha filosofia. Eis a fuga pra loucura… Lingua Portuguesa Situações DidáticasMais do que letras quando vêem o colega com um livro ou Até dominar a leitura e a escrita, a garotada contando uma história curiosa”, ela explica. Aspassa por experiências enriquecedoras, como cinco situações didáticas de Língua Portuguesaler sem saber ler e escrever sem saber escrever estão descritas em duas fases, alfabetização Cada criança chega à escola em uma fase da inicial e continuidade. Como o nível de leituraalfabetização – o nível de compreensão e escrita varia dentro de uma classe, édepende das possibilidades prévias de contato importante identificar em que fase cada alunocom o mundo da escrita. Apesar de uma classe está e escolher atividades adequadas para ater alunos em estágios diferentes de turma.conhecimento, todos podem aprender. “Oambiente escolar deve ser pensado para Seqüência Didáticapropiciar inúmeras interações com a língua Contos do mundo todoescrita”, afirma Telma Weisz, especialista emPsicologia Escolar e uma das maiores Leitura para a classe (na alfabetização inicial)autoridades em alfabetização no Brasil. Opapel do professor é mediar interações. O que é Para auxiliá-lo na tarefa de facilitar o A turma forma uma roda, e o professor lê emingresso da meninada no universo da voz alta textos literários, jornalísticos, regras delinguagem escrita, o docente tem à disposição jogos etc. Os gêneros devem variar para que oalgumas atividades consagradas. “Aprendi que repertório se amplie. Além de contos de fadas,a leitura para a classe é uma delas e faço isso valem notícias que tratem de algum assunto dediariamente. Sento-me em roda com a turma, interesse de crianças. Também é imprescindívelmostro um livro, falo sobre o autor e leio por garantir a qualidade do material à disposiçãocerca de 15 minutos”, afirma Cintia Dante de da meninada.Queiroz Minelli, da EMEB Professor BráulioJosé Valentim, na zona rural de Mogi Mirim, a Quando propor160 quilômetros de São Paulo. A educadora Diariamente.incentiva a escrita utilizando letras móveis oulápis: “É para que as crianças descubram que O que a criança aprendetudo o que falam pode ser escrito”. Os usos e as funções da escrita, as A conclusão da alfabetização inicial ocorre características que distinguem os gêneros e asapós os dois primeiros anos de escolaridade. diferenças entre o oral e o escrito. Ela seNas séries seguintes, a garotada aprofunda familiariza com a linguagem e os elementos dosconhecimentos sobre diferentes gêneros de livros (que contam histórias), dos jornais (quetexto e ganha maior autonomia na produção e trazem notícias) e dos textos instrucionais (quena leitura. Maria Ussifati, da EM Tempo incluem regras de jogos ou receitas culinárias).Integral, de Umuarama, a 600 quilômetros de Leitura para a classe (na continuidade)Curitiba, vê o progresso de seus alunos da 4ªsérie. Eles lêem uns para os outros e indicam O que étítulos a amigos. “Percebo que mesmo os que Leitura de livros literários mais longos (podemnão têm o hábito de ler ficam interessados ser selecionados capítulos inteiros, por
    • 121exemplo) e textos informativos mais RODA DIÁRIA – A garotada fica atenta àcomplexos. O objetivo é que a turma construa professora Cintia, que lê boas histórias comuma compreensão coletiva de cada obra. capricho na entonaçãoQuando propor Produção textual (na alfabetização inicial)Diariamente. O que éO que a criança aprende Os pequenos ditam um texto, e o professorCaracterísticas de textos mais difíceis e de escreve no quadro. Eles ficam com o controlediferentes gêneros. do que se escreve e acompanham como isso é feito. Podem ser feitas perguntas para provocarPrática de leitura participações e estruturar a escrita. Ao fim da atividade, a produção deve ser revisada.Leitura para aprender a ler (na alfabetizaçãoinicial) Quando propor Várias vezes por semana, sempre que houverO que é uso da escrita.A tentativa de ler listas ou textos conhecidos dememória (poemas, canções e trava-línguas). O que a criança aprendeSabendo o que es tá escrito (nomes de frutas, A organizar as idéias principais de um textopor exemplo), é possível antecipar o que pode conhecido e a modificar a linguagem, passandoestar escrito e confirmar por meio do da forma oral para a escrita.conhecimento das letras iniciais ou finais,entre outras formas (leia o quadro abaixo). Produção textual (na continuidade)Quando propor O que éEm dias alternados aos de atividades de escrita. A reescrita e a produção de textos com autonomia crescente. O aluno define o leitor,O que a criança aprende o propósito e o gênero, revisa e cuida daO funcionamento do sistema de escrita. Além apresentação final.disso, ela compreende como acionar asprimeiras estratégias de leitura. Quando propor Diariamente.Leitura para aprender a ler (na continuidade) O que a criança aprendeO que é A usar procedimentos de escritor: planejar oO crescimento da autonomia. O estudante que escrever, fazer rascunhos, reler e revisar.pode entrar em contato com diferentes gênerospara saber quando e como usá-los e, assim, AMIGOS OUVINTES – O gosto pelos livros éaprender a buscar informações e a ler para incentivado na EM Tempo Integral comestudar. leituras feitas por alunos Comunicação oral (na alfabetização inicial)Quando proporEm dias alternados aos de atividades de escrita. O que é Atividades em que a garotada narra histórias,O que a criança aprende declama poemas, apresenta seminários e realizaA compreender textos mais desafiadores. entrevistas. Podem ser feitos saraus eDurante a leitura, ela pode localizar e apresentações para expor um tema usandoselecionar informações apoiandose em títulos, roteiros ou cartazes para apoiar a fala.subtítulos ou imagens e apontando o que éinteressante. Quando propor Algumas vezes por mês, dependendo dos projetos e das atividades em desenvolvimento.
    • 122O que a criança aprende Quando proporA utilizar a linguagem oral com eficiência, Algumas vezes por mês, dependendo dosdefendendo pontos de vista, relatando projetos e das atividades em desenvolvimento.acontecimentos, formulando perguntas eadequando sua fala a diferentes situações O que a criança aprendeformais. A participar de situações que requeiram ouvir com atenção, intervir sem sair do assuntoComunicação oral (na continuidade) tratado, formular perguntas, responder a elas justificando suas respostas e fazer exposiçõesO que é sobre temas estudados.Preparação e realização de atividades e projetosque incluam a exposição oral, articulando Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0213/aberto/mt_2814conteúdos de linguagem verbal e escrita. É 49.shtmlinteressante incentivar a turma a falar combase em um roteiro e a fazer entrevistas eseminários. Silas Corrêa Leite O Poeta e o Ser HumanoO ser humano diz: eu me orgulho de ser o que O ser humano diz: eu sempre pensei em mim esou por mim mesmo por isso sou heróiO Poeta diz: eu sou cidadão vivendo para a O Poeta diz: vivi pelos que amo pois sou eternocomunidade plural aprendizO ser humano diz: eu abri as mãos e possui o O ser humano diz: eu destruo os obstáculosmundo todosO Poeta diz: abrindo o coração plantei O Poeta diz: eu me transformo na vida para aesperanças vida comunitáriaO ser humano diz: quando morrer quero ser O ser humano diz: estudei, fiquei rico e vencireconhecido O Poeta diz: estudando compreendi queO Poeta diz: meus poemas falarão de mim conhecimento é luzplantando sonhos O ser humano diz : eu tomo a espada a venço aO ser humano diz: eu sempre venço os meus todosinimigos. O Poeta diz: eu ajudo todo mundo a carregar aO Poeta diz: eu preciso de inimigos para cruzescrever na luzO ser humano diz: eu vivi por mim mesmo eadquiri possesO Poeta diz: não tenho mais do que ninguém, SILAS CORREA LEITE é autor de umo que tenho lutei para ter vasto material ainda inédito, de romances aO ser humano diz: as pessoas obedecem trabalhos sobre a Prática Educacionalminhas ordens. Vivenciada, poesia para jovens, coletânea deO Poeta diz: eu devo amar as pessoas como elas contos de realismo fantástico e outros, elesão. conta, com a eloqüência que lhe é peculiar, que pensa em traduzir seus trabalhos e tentar lançá-los no exterior, como fez com sucesso
    • 123Ignácio de Loyola Brandão. Mas, sua que só a mulher pode mudar o mundo. Comoversatilidade não pára por aí. nem sempre elas captam funcionalmente isso, ” Componho rocks, alas & blues, tenho pesquisas prefiro escrever meu despojo insano para darsobre Ética e Cidadania da Comunidade Carente e meu testemunho nessa difícil lição da viagemtrabalhos para o público infanto-juvenil”. de Existir”. Silas é membro da UBE-União Brasileira de Silas colabora com diversos SuplementosEscritores. ” Sou uma espécie de ” plantador de Culturais, jornais, revistas e tablóides, comsonhos”, um “inventor do inexistente”, eterno artigos, resenhas críticas, poemas, microcontos,aprendiz da alma humana, sonhando um trabalhos sobre “teens”, Educação, Política,neosocialismo de resultados. ” Escrevo para não Terceira Idade, Ética e outros temas. Dentroficar louco, ou melhor, para livrar-me do que crio, do Mapa Cultural Paulista (Secretaria defeito um “Sentidor”, para citar Clarice Lispector. A Estado de Governo), foi escolhido por doispoesia que produzo é a oxigenação da minha alma”, anos, representando Itararé, como um dos dezele diz.. Ele se define como ” um Rimbaud pós- melhores contistas do Estado São Paulo.moderno (antena da época) que não acreditaem sonho que não seja libertação, e registra Fonte: Jornal de Poesiapara o futuro esses tempos tenebrosos de http://www.secrel.com.br/jpoesia/primatas globalizando a miséria absoluta e aviolência sem fronteira, num país continentalde muito ouro e pouco pão. Acredito, também, Nilto Maciel Poesias Escolhidas POEMA EM DÓ MAIOR torre de babel. Agora, longe da praça, Árvores agitadas, dos pássaros, de meus passos, carros correndo na avenida, longe de mim, do passado. pessoas andando à toa, Aqui, no sofá estendido, um cão vadio. silencioso, só, presente, Cheiros diversos, porvir. Ao fundo, chiados, barulhos. música, chorinho, Onde estará o centro do mundo? valsa inacabada. Onde estará acontecendo Tudo pequeno, a notícia de amanhã? o mundo, o tempo. Dentro daquele ônibus Ou tudo sem fim, viajará a moça iludida e sem começo, e que poderia estar comigo. sem meio. Viajará o rapaz triste, embriagado e que poderia Agora o sono, me contar sua vida a mariposa insone, - arcabouço de um conto. a lua perplexa, O motorista irá atropelar a noite sumindo. uma criança sem futuro. VISIONARIO No automóvel de luxo vai a mulher Da varanda do apartamento que brigou com o marido olho para a cidade. e anda atrás de vingança. Torre de marfim, Na parada de ônibus
    • 124 talvez esteja o assassino do campo, do rio, do mar, de logo mais. do céu, do universo. Na tela do cinema Quero a onipresença, a musa de todos nós, a onisciência, estrela que se apagará. toda a ciência. Numa cadeira O JANGADEIRO um homossexual olhará para as pernas do rapaz Para Edinardo, às vésperas do primeiro que come pipoca. ano de sua partida. Noutra cadeira um senhor alisará o próprio bigode Arrodeio a superesfera pensando no passado. na minha jangada amiga, No banco da praça rindo de quem me espera, o mendigo comerá pão chorando à moda antiga. olhando para as nádegas De quantos paus ela é feita das mocinhas que passam. só dizem os jangadeiros No palácio o presidente velhos e companheiros, alinhará o decreto fugidos da rota estreita. que me dará dor de cabeça. Não rio por palhaçada O deputado beberá uísque nem choro angustiado; no bar e falará de si mesmo. já me bastava a maçada Sentado num sofá o homem de ansiar o desejado. lerá o romance da mulher deitada eternamente Levo comigo a coroa em berço esplêndido. dos filhos da Eternidade, O poeta escreverá uns versos relendo Fernando Pessoa que lerão daqui a dez anos, frente a toda realidade. versos sem rima ou sem ímã, Passeio as nebulosas, sem métrica e sem ritmo. os astros, o espaço sem fim, No meio do mato a onça saudadoso das carinhosas farejará o veado; meninas do Otávio Bonfim. o macaco morderá o rabo do tatu; a formiga De dois velhos meus criadores, caminhará sem rumo; meu primeiro e doce abrigo, e tudo estará escuro. de duas pequenas flores, No rio o peixe, a água, em quem pensando prossigo. o frio, o pescador. De uma soidade que amei No mar o tubarão, e que na Bahia deixei, a baleia, o turbilhão. de sete meus germanos No céu a estrela virando pó, deixados a fazer planos. o foguete se espatifando, Dos parceiros risonhos o infinito e nada. do pobre Amadeu Furtado, Aqui, sozinho, longe e perto esses bebedores bisonhos de todos, de tudo, de fel, cachaça e melado.quero estar no centro do mundo, Mergulho a atmosfera na crista da onde, montado em cavalo-de-pau, quero ser testemunha do crime, zombando da besta-fera, da crise, do apocalipse. lembrando o primeiro mau.Quero ver de perto o amor, o ódio, a solidão, a multidão. Conduzo comigo um poema Quero estar no palco, no show, jamais publicado em papel no centro da cidade,
    • 125 para reler na suprema projetos de muito amar corte do mais alto céu. para a terra e para o mar. Vasculho os tempos perdidos O mundo que nos aguarda no carro dos deuses gregos, não tem regulamentos nem leis, tristonho de ver iludidos é o país do povo sem guarda, os que ficaram aos pregos. não tem um, nem dois, nem três, De recordar os pileques tem milhões de seres iguais, que com meu mano bebi, é a utopia dos pensadores, choroso de ver os moleques o sonho dos ancestrais, famintos do que comi. a terra só dos amores. Cavalgo o cavalo das eras Comigo navegam poetas, na mais incrível carreira, revolucionários e santos, carregando uma flor de parreira partimos no rumo das metas, para o homem e para as feras. dos fins, começos e cantos. Na minha ida desejei Fonte: Nilto Maciel. Visionário. http://www.niltomaciel.net.br deixar o que sempre sonhei: Nilto Maciel Homens de Negócios A alta do dólar deixou Adão muito feliz. Finalmente decidida pelo champanhe,Aquilo merecia comemoração. E convidou sua Cândida voltou a sorrir. Os olhos de Adão nãomulher para jantarem fora. No Restaurante a viam, porém. Preferiam ver as pessoas emBusiness. volta de outra mesa. Pareciam muito mais A felicidade do marido de pronto contagiou alegres que sua mulherzinha. Especialmente oCândida. Nem queria saber que mecanismos colunista.da economia haviam levado dinheiro aos – Ele está falando de nós dois.bolsos de Adão. Importavam o presente e o – Quem, meu bem?futuro próximo: o jantar e mais jóias, vestidos, Esvaziada sua taça, Adão perguntou se seriaviagens… conveniente tomar outro uísque. Sentaram-se à mesa e trocavam idéias sobre – E o jantar?o primeiro drinque. Ele preferia uísque. Ela Ele nem percebeu o sentido da pergunta.pensava em champanhe, vinho ou licor. Olhava para os movimentos de Patrício. Passava próximo à mesa deles o colunista Levantara-se, afastara a cadeira e caminhava nosocial Patrício. E parou para cumprimentá-los. rumo deles.– Já me falaram de sua vitória de hoje. – Ele está vindo para cá.Parabéns! – Quem, meu bem? Adão sorriu e disse duas ou três palavras O colunista queria apresentá-los a unssem sentido aparente. O outro seguiu em amigos. Ora, a noite devia ser de muita alegria.frente. Por que não se juntarem todos?– Não sei como ele vai conseguir ler aquele – Vamos então para a mesa de vocês.livro. Cândida sorriu. Seu champanhe já devia– Que livro? estar morno. As grandes letras do livro de– Você não viu? Patrício brilhavam: Galbraith ou Gallbrat? Patrício conduzia um livro de título em Chegados à grande mesa, o colunista tratouinglês. Com certeza sobre economia. de apresentar Adão e Cândida aos outros.
    • 126Eram três senhores: Fausto, Celestino e Mais dois ou três comentários sobre aPetrônio. Fumavam e bebiam. Uma garrafa de mulher de Armando, e Patrício aproximou auísque quase vazia balançava no centro da boca do ouvido de Fausto. Quase não dissemesa. O odor de cigarros fumados infestava o nada. Ciciou apenas. Logo, porém, chegou aosar. Os cinzeiros estavam repletos de pontas. ouvidos de Celestino uma versão das palavras Não havia nenhum indício de que fossem do colunista social. Não tardou, até Cândida sejantar. O garçom não parava de servir bebidas. inteirou do teor do cochicho.Das bocas dos homens os sons irrompiam feito Por último, Adão alcançou a ponta dalavas. Como se ninguém ouvisse ninguém. E maledicência. E, alegando cansaço eora riam, ora pareciam zangados. embriaguez, decidiu ir embora.– Vamos sair daqui, meu bem – murmurou Com a retirada do casal, as gargalhadasCândida. – Estou tão cansada… voltaram à mesa. Ao mesmo tempo, um dos homens dizia – É mesmo verdade, Patrício?qualquer grande verdade. Pois os outros, – Ora, minhas informantes não mentem.calados, olhavam para ele. Mais uísque beberam, mais cigarros– Se não for a alma, é o espírito – completou fumaram, mais palavras disseram. FulanoFausto. gostava de domésticas, sicrano de mocinhas, E todos gargalharam e fizeram um brinde à beltrano de rapazes.inteligência do médico. Exceto Cândida, que – Você gosta de quê, Celestino?repetiu o apelo. Houve risadas e a expectativa da resposta Adão, porém, parecia mais interessado na terminou impondo silêncio.filosofice dos negócios. Aqueles senhores – Não vai dizer? – insistiu Patrício.pertenciam ao seu mundo. O jantar ficaria Celestino engoliu dois dedos de bebida.para depois. Afinal, queria comemorar a alta – Ele adora brincar com as filhinhas do Fausto.do dólar. E nada mais oportuno para a ocasião – Mentira! Mentira, seu safado!do que um legítimo scotch. – Não, não é mentira. Mas não fique nervoso. Derrotada, Cândida sorriu e olhou para Você não será levado à fogueira. Não estamostrás. E viu mesas, cadeiras e pessoas como mais na Idade Média.aquelas de seu ambiente. Havia até um belo Enquanto o colunista falava, os outrosrapaz parecido com Adão. Apenas mais novo. bebiam sofregamente. Celestino, porém, nãoE uma bonita moça parecida consigo. Talvez quis ouvir a lengalenga do companheiro. Enamorados ou noivos. Deviam se amar. Como retirou-se. No banheiro trancou-se. Olhou paraela e Adão se amaram. A primeira noite e o o espelho. Aquele homem feio não precisavasonho romântico a desfazer-se. O amor não mais viver. Retirou o revólver do bolso epassava daquilo. Animalidade pura. apontou para o ouvido. Quando se voltou para a frente, um olho O estampido chamou a atenção dos garçonsmalicioso piscava para ela. Buscou o marido, e fregueses do Business. Houve correria,sua couraça. Ele gargalhava, como se tivesse confusão.uma convulsão. Um dos homens dava Horas depois, Adão e Cândida acordarampalmadas nas costas de outro. assustados. Ao telefone, uma voz trôpega falava– A do Armando é pior, meus amigos. da morte de Celestino. E eles deveriam prestar O olho malicioso deixou de piscar, Adão declarações à polícia.enxugou os seus e o homem das palmadascoçou as costas. Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/– Dizem que sustenta um pobretão de vinte e http://oglobo.oglobo.com (imagem)poucos anos.
    • 127 Gérson Valle Vozes Novas para Velhos Ventospor Fernando Py Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe. O segundo caso pode ser explicitado por vários Vozes novas para velhos ventos, de Gérson contos, em geral de ficção policial, como os deValle (Brasília: Thesaurus, 2007)1, é um livro Jack Moffitt, que “refez” contos de Maupassantque se assemelha ao último caso: sem exceção, (‘O colar de brilhantes’) e outros. O últimotrata-se de contos inspirados em obras-primas caso é o do livro Missa do galo: variações sobreda literatura universal, sem fazer paráfrase ou o mesmo tema, em que seis escritoresparódia do texto original. Se as histórias de brasileiros retomam personagens do contoValle não imitam nem tentam “melhorar” a machadiano e produzem textos que pouco têmfonte de que se servem, é porque o autor, a ver com a história que lhes serviu de fonte.embora se sentisse subjugado pelo alto valor da Em todos os casos, podemos ver que o escritorobra-prima referenciada, soube trabalhar numa recria o texto porém os personagens já não sãotônica muito diferente, em que apenas o exatamente os mesmos ou quase não“miolo” foi conservado, ou nem isso. aparecem, como em Júlio Verne, estando Para o leitor comum, e mesmo para o ausentes de todo em Lovecraft. A esposa frívolaescritor, contumaz ou não, os grandes clássicos do conto de Maupassant não se repeteda literatura exercem uma atração profunda e exatamente na história de Moffitt, e osirresistível, sobretudo quando se trata de um personagens machadianos têm perfilprincipiante das letras. Este vai se sentir psicológico variado nas histórias dos outrosestimulado pela leitura de uma obra-prima, escritores. São mais ou menos como clones queestímulo que lhe serve de apoio e, muitas vezes, o autor do texto aproveita para dar umade material a ser imitado ou emulado, de aparência do personagem original, para sugeriracordo com seu talento e perspectivas. Se o verossimilhança ao que está sendo narrado.primeiro é escasso e as segundas ainda não lhe Vozes novas para velhos ventos, de Gérsonestão bem delineadas na mente, o produto em Valle (Brasília: Thesaurus, 2007)1, é um livrogeral será uma imitação servil ou até assume que se assemelha ao último caso: sem exceção,contornos de plágio involuntário. Se for trata-se de contos inspirados em obras-primasdotado de maior talento e inventividade, da literatura universal, sem fazer paráfrase oupoderá escrever algo importante, que será lido paródia do texto original. Se as histórias decom interesse apesar das óbvias relações com a Valle não imitam nem tentam “melhorar” aobra-prima de referência. Existem casos em que fonte de que se servem, é porque o autor,o autor parte deliberadamente de um texto embora se sentisse subjugado pelo alto valor dapara construir outro, seja na tentativa de obra-prima referenciada, soube trabalhar numaexplicar certos episódios, seja para concluir de tônica muito diferente, em que apenas omaneira diversa um desenlace que não lhe “miolo” foi conservado, ou nem isso. Acima desatisfaz – ou que oferece uma solução diversa –, tudo, Valle fez questão de manter o “espírito”seja ainda para retomar personagens ou até do texto original; assim, as obras-primas emaspectos do texto original e elaborar um texto que se baseou são unicamente pontos deinteiramente diferente. partida para a elaboração de um texto bastante No primeiro caso, temos o romance A diverso, um texto inventivo, mais próprio àesfinge dos gelos, de Júlio Verne, e o conto To criação de Gérson Valle, criação que às vezesthe mountains of madness (‘Nas montanhas da surpreende nas entrelinhas da elaboração deloucura’), do norte-americano H. P. Lovecraft, uma frase.ambos tentando explicar episódios estranhos O primeiro dos dez textos do livro – “Amorou deixados incompletos na Narrativa de clonado” – aborda justamente o problema da
    • 128clonagem, tendo como referência o conto “As condições de vida que exigem maisruínas circulares”, do argentino Jorge Luis determinação e força de vontade.Borges. Assim como em Borges um homem Já o conto “Crimes sem castigos”, a partirdeseja criar um ser humano, simples aparência, mesmo do título, tem como referência opor meio do sonho, e afinal descobre que ele romance Crime e castigo de Dostoievski. Opróprio era uma aparência, que outra pessoa o romance do escritor russo se enquadra naestava sonhando, o Dr. Pater Clonem, questão do “crime permitido”, ou seja, aquelepersonagem de Gérson Valle, reproduz uma que do ponto de vista do criminoso seriaaparência de mulher, o clone feminino Broda perdoável, como, por ex., a eutanásia. Assim, oBruda Hermana y Hermana, por quem, qual protagonista da história de Gérson Valle – umnovo Pigmaleão, se apaixona. Mas não rapaz russo de nome (Raskolnikov)consegue que esse clone corresponda ao seu americanizado significativamente para Nickamor, e sua frustração o faz perceber a Raskow, que vive no exílio em Nova York –inanidade daquele amor pela criatura que adora passear no Central Park, onde se senterealizou, cuja ética, por sua vez, poderia fazê-la em casa, apaixona-se por uma moça, Sonetchkadesejar não somente o corpo, “que se copia e (diminutivo de Sônia, como a heroína dereproduz, mas o impossível além de todos Dostoievski), que se prostitui para sustentar onós…” velho pai bêbado e imagina que matá-lo seria Em “Bromélias enfiteutas”, a fonte de um benefício. Percebe que não conseguiriareferência é o romance Contraponto, de cometer o crime. Mas conhece duas velhinhasAldous Huxley. A técnica de Huxley consiste que só fazem se lamentar da solidão na velhiceem justapor na narrativa dois ou mais blocos e desejam que a morte as visite. Raskow entãode acontecimentos com certa independência resolve lhes fazer a vontade. E passou a viverde desenvolvimento, mas sempre ligados entre disso, poupando o desgosto da velhice àssi. Gérson Valle se utiliza não propriamente do pessoas idosas e solitárias, encontrandocontraponto huxleyano mas de uma espécie de naquele serviço a sua identificação com ocontínuo flash-back. no qual o economista american way of life, numa sociedade onde sóCarlos Carreira da Costa, negro e de origem é apreciado aquele que cumpre “um trabalhohumilde, recorda o seu passado principalmente com competência”, seja qual for… A visíveldesde uma ocasião em que estivera por algum ironia de Valle, nem sempre exposta comtempo em Petrópolis, de namoro com uma nitidez, surge aqui em todo o seu carátermocinha rica. O conto põe em relevo, com subreptício de condenação.alguma ironia, os prejuízos que o tempo e a O conto seguinte, “Alguma coisa vaiocupação desenfreada das encostas causaram acontecer”, cujo texto inspirador é o romancena paisagem e no nível de vida da cidade Doutor Fausto (1947), de Thomas Mann,imperial. recupera a idéia de fazer um pacto com o O terceiro texto, “Missas de galo”, aproveita demônio, vendendo a alma em troca deo mote do conto de Machado para desenvolver prazeres ou benefícios terrenos. A história deuma história bastante diversa. É o caso de um Mann deve provir da lenda de um certosujeito muito dedicado à obra machadiana, e alemão Faust (1480? – 1540?), que teriaque vai a Parati a fim de procurar conhecer vendido a alma ao diabo, fato que, de certapessoalmente o cineasta Nélson Pereira dos maneira, sintetiza as aspirações de dominaçãoSantos, que ali filmava Um azyllo muito louco, do homem renascentista. A lenda se tornoubaseado em ‘O alienista’, conto do livro Papéis grandemente popular, tendo sido aproveitadaavulsos de Machado. E assim como na “Missa por diversos escritores, como Christopherdo galo” de Machado, o adolescente Nogueira, Marlowe (1588) e sobretudo Goethe, que lheingênuo e de boa-fé, perde canhestramente a confere uma alta significação filosófica eoportunidade de ouro “de comer uma humana. O romance de Mann foi escritobalzaquiana” como a Conceição, assim o durante a II Guerra Mundial, e o doutornarrador se perde e se atrapalha diante do Fausto é um compositor erudito, Adriancineasta a quem admira e não realiza seu maior Leverkühn, personagem que alcança grandedesejo, além de mostrar-se inadaptado às força simbólica, corporificando a soberania e a queda da Alemanha inteira, à época em que a
    • 129nação compactuava com as forças demoníacas aeroportos se parecem”.2 As decepções quedo nazismo. sofre na capital britânica, que julgara melhor O protagonista do conto de Gérson Valle é do que parecia ser, e suas dúvidas a respeito doum funcionário público que conhece num dos personagem de Shakespeare, cuja peça assistirabares da Cinelândia, no Rio de Janeiro, um então pela primeira vez, acabam por fazer comindivíduo manco, de cabelos de fogo, que lhe que ele alugue um carro e saia de qualquerfaz promessas, “como se dissesse: Tome seus jeito, na contramão, como para libertar-sechopinhos e eu lhe darei tudo que suas psicologicamente daquela globalizaçãofrustrações não lhe têm permitido. Não tem castradora e impor seu modo de ser em todasdúvida que, durante a noite, alguma coisa vai as circunstâncias.acontecer…” E assim, durante anos, iludido no Temos visto que os textos aproveitados poríntimo, o funcionário, que nunca mais se Gérson Valle como referência para seus contosencontrou com o sujeito manco, fica à espera são quase sempre, além de obras-primas,do que virá… De certo modo, Gérson Valle histórias que destilam um tom especial, seja noestá ironizando a credulidade do assunto ou na maneira de desenvolvê-lo, sejafuncionalismo público – e por extensão, do na atração exercida sobre o leitor – e aí Gérsonpróprio povo – nas promessas sempre Valle é um pouco de todos nós, leitores. Opostergadas dos políticos. mesmo ocorre com o romance O processo, de Quando a humanidade pode se ver Franz Kafka, que serve como ponto de partidareduzida a simples números de registro e para o conto “O encontro”. O título já éidentificação, seria o caso de organizar uma estranho em si, pois uma das características doinsurreição geral, ainda mais que praticamente escritor tcheco é o “desencontro”, tanto dostodos os seus atos são vigiados por um ser protagonistas com os demais personagens,superior que se intitula Big Brother. Este é o quanto consigo mesmos. Mas o encontro dacaso do romance 1984, de George Orwell, história de Valle se refere a um encontroreferência para o conto “027.135”, de Gérson verdadeiro com K., “um ser tão comum!”Valle. Sabemos que, na história de Orwell, um exclama o narrador. Esse encontro, todavia, éhomem se apaixona por uma mulher de fato um tête-à-tête incompleto, pois K tanto(secretamente, pois o amor é proibido e as pode ser o autor Kafka como um de seuspessoas só podem ter relações exclusivamente muitos personagens chamados apenas por essapara procriar, quase como animais) e ambos inicial, ou que a transportam no nome. Dedecidem enfrentar o poder do Big Brother. qualquer modo, o narrador tenta discutir comAlgo semelhante ocorre na história de Valle, esse K todas as dúvidas e perplexidades que acom algumas diferenças fundamentais. O leitura de Kafka lhe provoca. Mas em vão. Khomem, aliás narrador do conto, é tratado pelo não aceita discutir, pois o enorme sentimentonúmero que dá título à história; possui um de culpa que carrega consigo impede que seutemperamento bastante contemplativo e esse é retrato se faça completo aos olhos e à palavrao apelido que a moça Barrolda lhe dá. Por sua do narrador.vez, é Barrolda quem, achando excessiva a Mas é necessário que o leitor de Valleintromissão dos dirigentes no controle de suas atente para o que escrevi no começo avidas, sugere uma rebelião, que afinal não se propósito das entrelinhas da elaboração deconcretiza. Contemplativo se perde em uma frase. “O encontro” principia com afilosofias vagas, mostrando-se incapaz de passar seguinte frase: “Na frente da catedral,da reflexão à ação, como muita gente no nosso encontrei K.” Nada de mais? Vejamos: “namundo. frente” pode significar, “no princípio de”;O protagonista do conto seguinte, “O fantasma catedral começa com ca, ou seja, o fonema k.de Hamlet”, é um certo mineiro Joel Campos. Assim temos: “no começo da catedral achei oAqui, a história de Valle tem como referencial fonema k.” Dirão que é irrelevante, e eua peça de Shakespeare, enfatizada sob o aspecto concordaria se em Kafka e na história de Valleda dúvida. Joel Campos desconfia da eficácia a catedral não tivesse nenhum destaque. Masda atual globalização, sobretudo quando chega não é o caso, pois qualquer leitor de Kafkapela primeira vez a Londres, de avião – para sabe como é importante a letra (o fonema) Kele, como para muita gente, “todos os em sua obra. Valle, portanto, de modo
    • 130subreptício, concede pistas para a leitura de por sua originalidade e desenvolvimento, é umseus textos. dos melhores lançamentos deste ano. O conto final não tem como referência uma _obra literária, mas um conjunto de textos Notasmusicais. “24 prelúdios” tem como origem o 1. Prêmio Nacional da ANE (Associaçãoconjunto das 24 peças com esse nome de Nacional de Escritores, de Brasília) no ano deChopin, obra-prima do Romantismo pós- 2006.beethoveniano. Aqui, Valle cede ao seu lado de 2. Adaptação da frase de Georges Bernanos noprofundo conhecedor de música, não só como começo do romance Journal d’un curé deteórico mas libretista de óperas (como Olga, de campagne: “Toutes les paroisses seJorge Antunes, e Fronteira, de Guilherme ressemblent” (‘Todas as paróquias seBauer, baseada no romance de Cornélio Pena), assemelham”.)e que possui diversos textos poéticos musicados 3. Aurora: prenome da escritora francesapor Ernani Aguiar, Ricardo Tacuchian e Aurore Dupin, baronesa Dudevant (1804-muitos outros. Sua história narra, em 24 1976); Jorge, nome pelo qual era maisparágrafos, a vida de um certo Frederico, conhecida como escritora (George Sand). Teveexímio no violão. O texto acompanha, até uma relação amorosa e prolongada comcerto ponto, a vida e os amores do próprio Chopin.Chopin, pois entre outras coisas conhece uma =============moça Aurora, que também se faz chamar Fernando Py é poeta, escritor e tradutor, membro daJorge,3 com quem vive um romance cheio de Academia Brasileira de Poesia e da Academiaaltos e baixos, exatamente como Chopin. A Petropolitana de Letras.história, como na realidade que conhecemos, Fonte:se resolve num rompimento entre os dois. E Jornal de Poesiaassim se encerra o livro de Gérson Valle, que, http://www.secrel.com.br/jpoesia/gvalle.html Carlo Manzoni Porcaloca Desculpe, foi o senhor que telefonou para “Aí está, viu? Se o senhor tiver um doce deque eu viesse amputar a sua perna? marmelada…” “Eu? O que é isso? Nem sonhando!” “Como posso ter um doce de marmelada? “Mas o senhor se chama Dante del Torro, Eu trouxe uma serra, pois quem me telefonounão é? Faz meia-hora, um fulano me telefonou me pediu que trouxesse a serra, uma vez que napara que viesse alguém que lhe cortasse uma casa não existia uma serra.”perna.” “Engana-se. Eu tenho uma serra.” “Eu não telefonei. Deve ser outro Dante del “Mas é evidente que a sua não deve servirTorro.” para cortar uma perna.” “Não, não… O endereço que me deram foi “Como não? É igual a sua.”este. E neste endereço só há um Dante del “Mas se é igual a minha, por que meTorro, que é o senhor. Um parente seu deve levaram ao incômodo de trazer outra serra?”ter telefonado.” “Ó Dante, deixa de discussão, homem de “Impossível. Hortênsia, por acaso você Deus. Deixa logo cortar esta maldita perna,telefonou para que viessem cortar a minha mande-o embora e acabe logo com isso.”perna?” “Desculpa, Hortênsia, mas por que haverei “Eu, não. Telefonei para o mercadinho eu de mandar cortar a minha perna quandopedindo que mandasse marmelada.”
    • 131não fui eu que telefonei? Tenho ou não tenho “Vá lá, vá lá… Que seja o polegar, já que merazão?” coloca nesta posição, está bem? E que seja esta “O senhor tem razão. Mas o que é que eu a última vez, ouviu? Da próxima vez mefaço agora? Alguém telefona, eu compro uma telefone de volta para confirmar a chamada…serra nova, gasto meu dinheiro, venho até aqui Se o senhor não fosse um cara tão simpático…e acabo perdendo o meu dia a troco de nada. Pode… Ai!… porc… ahhh….vá aos poucos, isso,O senhor também deve me compreender…” aos pouquinhos… Uuuuh!” “Bem, com boa vontade sempre se podeencontrar uma maneira de se chegar a umacordo. Tampouco ele, coitado, tem culpa.Escuta, Dante, você devia de algum modo CARLO MANZONI (1908-1975), é autor deconcordar com ele. Por que não deixa que ele diversos livros de humor, entre eles “Bravaampute um dedo seu?” Gente”, “É sempre festa”, traduzidos para o “Epa! Pára lá!, minha senhora: um dedo português, e “La Vera Storia (O Quasi) Delnão é o suficiente!” Cognac”, “Ti Svito Le Tonsille, Piccola”, “Io, “Antes isso de que nada. Compreenda: é Quella La Faccio A Fette!”, “50 Scontri Colapenas para agradá-lo, porque eu poderia Signor Veneranda”. Nascido na Itália, essemandá-lo embora de mãos abanando, mesmo milanês mistura como poucos o patético, oporque não fui eu quem o chamou. grotesco, o non-sense e o absurdo em textos de “Bem, nesse caso, dois dedos.” humor negro. “Ou um ou nada.” “Está bem, como quiser. Mas nesse caso, Fonte: COSTA, Flávio Moreira da (org.). Os 100 melhores contos deprecisa que seja um polegar.” humor da literatura universal. RJ: Ediouro, 2001. Disponível em http://www.releituras.com/ José Afrânio Moreira Duarte O barranco mais fotografado do Brasil Marília foi uma irmã que tive, doce e terna Itália e a França, tendo conhecido então acorno seu próprio lindo nome. Tive, não. Áustria, a Bélgica e a Suíça.Tenho. Não sei se realmente “as pessoas não Quando regressou, no início de novembro,morrem: ficam encantadas”, como disse ao abrir a porta do apartamento para recebê-la,Guimarães Rosa, mas estou certo de que elas surpreendi-me por achá-la triste e abatida, opermanecem bem vivas noutra dimensão que não era habitual.muito superior à nossa, esperando os entes Disse-lhe:queridos que por aqui deixaram. – Marília, estou estranhando. Nunca vi você Cheia de amor à vida e ao próximo, assim. Queria que você chegasse com aquelaMarília, desde a infância, fez de sua existência alegria esfuziante, como foi da primeira vez queum permanente ato de doação, pensando você voltou do Paraná.sempre no próximo primeiro e só depois em si. Melancólica, ela respondeu: Sua diversão predileta, entre as muitas que – Não sei explicar, mas, mesmo na Europa,tinha, era viajar. Conheceu quase todas as encantada com tudo que via, eu me senticapitais brasileiras e foi também à Argentina. muito cansada, desanimada. Talvez seja porque Em setembro de 1992 seguiu para sua nós viajamos muito de trem, pensando quesegunda viagem à Europa. Reviu a Holanda, a
    • 132assim seria melhor para ter um conhecimento Gostei tanto de lá que, em vez de ir logomais preciso dos países visitados. para Salto Osório, resolvi ficar uns dias Sintomas de doença acentuaram-se e o conhecendo melhor a bela capital paranaense.médico constatou que se tratava de leucemia, Curitiba tem um encanto de parque onde éjá em estado grave. uma delícia passear e permanecer. Não me Marília foi internada no Hospital Felício lembro bem do nome, mas acho que se chamaRoxo, em Belo Horizonte. Embora fossem Passeio Público.remotas as possibilidades de cura, o chefe da O teatro Guaíra é um primor. Ele está paraequipe médica falou com um dos meus irmãos: Curitiba assim como o Palácio das Artes está – Se ela melhorar, aconselho levá-la a para Belo Horizonte, é onde são levados osCuritiba, para um transplante de medula, pois melhores espetáculos. Adorei-o.é lá que se faz esta cirurgia melhor no Brasil. E em Curitiba há um bairro simpático, No vigésimo sexto dia de internação, 16 de chamado Santa Felicidade, onde cantinasdezembro de 1992, Marília partiu para a Pátria acolhedoras servem excelentes massas italianas,Espiritual, suavemente, durante o sono, acompanhadas de deliciosos vinhos.deixando enorme e perene saudade em todos Fiz também um passeio fora da capital, indonos. a Vila Velha, onde, através dos séculos, a Diariamente eu a rememoro e muitas vezes natureza parece haver feito esculturastenho a forte impressão de que ela está fascinantes nas pedras, principalmente uma nonovamente junto a mim. formato de um cálice. Lembro-me especialmente de sua volta da No último dia eu iria viajar para Saltoprimeira viagem ao Paraná, a que se seguiram Osório, finalmente, mas só à noite. Como jánumerosas outras. tinha visto tudo que queria ver em Curitiba, fiz Nosso irmão Mauro trabalhou até uma viagem rápida de trem-de-ferro, deaposentar-se como economista da Construtora Curitiba a Paranaguá. As paisagens seAndrade Gutierrez, sediada em Belo horizonte, sucediam, encantadoras.mas preferia trabalhar nos acampamentos, Houve uma hora em que o simpático jovemonde havia obras, tendo demorado muito a guia da empresa turística em que me inscreviaceitar os reiterados convites para exercer sua disse em alto e bom som:profissão no escritório central. Numa dessas – Preparem-se para ver o Véu da Noiva e,múltiplas andanças, foi parar em Salto Osório, pouco depois, o barranco mais fotografado dono Estado do Paraná, quando a Andrade Brasil.Gutierrez construía uma usina ali. Marília foi Impressionei-me bem com o Véu da Noiva,visitá-lo. uma bela queda d’água, mas, curiosa, perguntei No dia do seu regresso, ela parecia a própria ao guia que história era aquela de o barrancofelicidade em figura de gente, irradiando mais fotografado do Brasil, coisa que nãoalegria por quarenta léguas quadradas. Depois entendi.de dar notícias dos parentes queridos – irmão, Sorridente, o mocinho explicou:cunhada e sobrinhos, estes naquele tempo – É muito simples. Como você vê, o tremainda meninos – ela falou longamente sobre o hoje está cheio e todos os dias é assim. Quandopasseio, dizendo-me: faço aquele aviso a que você se refere, os – Você precisa conhecer o Estado do turistas preparam as máquinas para tirar oParaná, é simplesmente maravilhoso. Quem retrato do Véu da Noiva, mas, como o trem énunca foi lá, não sabe o que está perdendo. Já muito veloz, não dá tempo e então elesconheço a maioria das capitais brasileiras e fotografam mesmo é o barranco que apareceposso dizer que Curitiba está entre as melhores logo a seguir. É por isso que eu afirmo, seme mais lindas. A cidade é muito boa, mesmo, medo de errar, ser ele o barranco maisimpressionado desde logo por sua fotografado do Brasil…extraordinária limpeza, por muitas ruas floridase também pelo trânsito bem organizado quepode e deve servir de modelo para os outrosgrandes centros do país. Poucas vezes vi tantagente bonita quanto em Curitiba.
    • 133JOSÉ AFRÂNIO MOREIRA DUARTE entrevistador e poeta. Publicou os contos “O(1931-2008) Menino do Parque”, “A Muralha de Vidro” e Imortal da Academia Mineira de Letras, “Azul: Estranhos Caminhos” e os ensaiosJosé Afrânio Moreira Duarte nasceu em “Fernando Pessoa e os Caminhos da Solidão” eAlvinópolis, Minas Gerais, em 8 de maio de “Henriqueta Lisboa: Poesia Plena”.1931, mas vive em Belo Horizonte desde 5 de Faleceu em 4 de junho de 2008, em suafevereiro de 1955, onde bacharelou-se em residencia, em Belo Horizonte. Foi sepultadoDireito pela UFMG. Foi duas vezes no mesmo dia.condecorado pelo Governo de Minas Gerais,com a Medalha da Inconfidência e a Medalha Fonte: Secretaria de Estado de Cultura de Minas Geraisdo Centenário de Belo Horizonte. http://www.cultura.mg.gov.br/ Conhecido de todos os escritores de Minas Jornal de PoesiaGerais e do Brasil, José Afrânio Moreira http://www.secrel.com.br/jpoesia/joseafranio1.htmlDuarte é contista, ensaísta, crítico literário, Luís Fernando Veríssimo SexaPai… - O sexo da mulher é igual ao do homem?- Hmmm? - É. Quer dizer…Olha aqui. Tem o sexo- Como é o feminino de sexo? masculino e o sexo feminino, certo?- O quê? - Certo.- O feminino de sexo. - São duas coisas diferentes.- Não tem. - Então como é o feminino de sexo?- Sexo não tem feminino? - É igual ao masculino.- Não. - Mas não são diferentes?- Só tem sexo masculino? - Não. Ou são! Mas a palavra é a mesma. Muda- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. o sexo, mas não muda a palavra.Masculino e feminino. - Mas então não muda o sexo. Sempre é- E como é o feminino de sexo? masculino.- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino. - A palavra é masculina.- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino - Não. “A palavra” é feminino. Se fossee feminino. masculina seria “o pal…”- O sexo pode ser masculino ou feminino. A - Chega! Vai brincar, vai.palavra “sexo” é masculina. O sexo masculino, O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:o sexo feminino. - Temos que ficar de olho nesse guri…- Não devia ser “a sexa”? - Por quê?- Não. - Ele só pensa em gramática.- Por que não?- Porque não! Desculpe. Porque não. “Sexo” ésempre masculino.- O sexo da mulher é masculino? LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO (1936)- É. Não! O sexo da mulher é feminino. “Um escritor que passasse a respeitar a- E como é o feminino? intimidade gramatical das suas palavras seria tão- Sexo mesmo. Igual ao do homem. ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência
    • 134de um namorado ou com a tediosa formalidade de Histórias, O Jardim do Diabo, Pai nãoum marido. A palavra seria sua patroa! Com que Entende Nada, Peças Íntimas, O Santinho,cuidados, com que temores e obséquios ele Zoeira , Sexo na Cabeça, O Gigolô dasconsentiria em sair com elas em público, alvo da Palavras, O Analista de Bagé, A Mão Doimpiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e Freud, Orgias, As Aventuras da Família Brasil,colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma O Analista de Bagé,O Analista de Bagé emconjunção. A Gramática precisa apanhar todos os Quadrinhos, Outras do Analista de Bagé, Adias para saber quem é que manda.” (O Gigolô das Velhinha de Taubaté, A Mulher do Silva, Opalavras). Marido do Doutor Pompeu, publicados pela L&PM Editores, e A Mesa Voadora, pela Luis Fernando Verissimo nasceu em 26 de Editora Globo e Traçando Paris, pela Artes esetembro 1936, em Porto Alegre, Rio Grande Ofícios.do Sul. Filho do grande escritor Érico Além disso, tem textos de ficção e crônicasVeríssimo, iniciou seus estudos no Instituto publicadas nas revistas Playboy, Cláudia,Porto Alegre, tendo passado por escolas nos Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e nosEstados Unidos quando morou lá, em virtude jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, Jornalde seu pai ter ido lecionar em uma do Brasil e, a partir de junho de 2.000, nouniversidade da Califórnia, por dois anos. jornal O Globo.Voltou a morar nos EUA quando tinha 16 Na opinião de Jaguar “Verissimo é umaanos, tendo cursado a Roosevelt High School fábrica de fazer humor. Muito e bom. Meu consolode Washington, onde também estudou música, — comparando meu artesanato de chistes e cartunssendo até hoje inseparável de seu saxofone. com sua fábrica — era que, enquanto eu rodo pelaí É casado com Lúcia e tem três filhos. com minha grande capacidade ociosa pelos bares da Jornalista, iniciou sua carreira no jornal vida, na busca insaciável do prazer (B.I.P.), oZero Hora, em Porto Alegre, em fins de 1966, campeão do humor trabalha como um mouro (se éonde começou como copydesk mas trabalhou que os mouros trabalham). Pensava que, com aquelaem diversas seções (“editor de frescuras”, vasta produção, ele só podia levantar os olhos daredator, editor nacional e internacional). Além máquina de escrever para pingar colírio, como diziadisso, sobreviveu um tempo como tradutor, no o Stanislaw Ponte Preta. Boemia, papos furadosRio de Janeiro. A partir de 1969, passou a pela noite a dentro, curtir restaurantes malocados,escrever matéria assinada, quando substituiu a lazer em suma, nem pensar. De manhã à noite,coluna do Jockyman, na Zero Hora. Em 1970 sempre com a placa “Homens Trabalhando”mudou-se para o jornal Folha da Manhã, mas pendurada no pescoço.”voltou ao antigo emprego em 1975, e passou a Extremamente tímido, foi homenageadoser publicado no Rio de Janeiro também. O por uma escola de samba de sua terra natal nosucesso de sua coluna garantiu o lançamento, carnaval de 2.000.naquele ano, do livro “A Grande MulherNua”, uma coletânea de seus textos. BIBLIOGRAFIA : Participou também da televisão, criando Crônicas e Contos:quadros para o programa “Planeta dos - A Grande Mulher NuaHomens”, na Rede Globo e, mais - Amor brasileirorecentemente, fornecendo material para a série - Aquele Estranho Dia que Nunca Chega“Comédias da Vida Privada”, baseada em livro - A Mãe de Freudhomônimo. - A Mesa Voadora Escritor prolífero, são de sua autoria, dentre - A Mulher do Silvaoutros, O Popular, A Grande Mulher Nua, - As CobrasAmor Brasileiro, publicados pela José Olympio - A velhinha de TaubatéEditora; As Cobras e Outros Bichos, Pega pra - A versão dos afogados – Novas comédias daKapput!, Ed Mort em “Procurando o Silva”, Ed vida públicaMort em “Disneyworld Blues”, Ed Mort em - Comédias da Vida Privada“Com a Mão no Milhão”, Ed Mort em “A - Comédias da Vida PúblicaConexão Nazista”, Ed Mort em “O Seqüestro - Ed Mort em “O seqüestro o zagueiro central”do Zagueiro Central”, Ed Mort e Outras
    • 135(ilust. de Miguel Paiva) Rodrigues- Ed Mort em “Com a Mão no Milhão” (ilust. - O Santinho (ilust. de Edgar Vasques e Glendade Miguel Paiva) Rubinstein)- Ed Mort e Outras Histórias - Pof (ilust. do autor)- Ed Mort em “Procurando o Silva” (ilust. deMiguel Paiva) Viagens – Culinária:- Ed Mort em Disneyworld Blues (ilust. de - América (ilustrações de Eduardo Reis deMiguel Paiva) Oliveira)- As Cobras em “Se Deus existe que eu seja - Traçando Japão (ilust. de Joaquim daatingido por um raio” Fonseca)- As Aventuras da Família Brasil, Parte II - Traçando Madrid (ilust. de Joaquim da- História de Amor 22 (com Elias José e Fonseca)Orlando Bastos) - Traçando New York (ilust. de Joaquim da- Ler Faz a Cabeça, V.1 (com Paulo Mendes Fonseca)Campos) - Traçando Paris (com Joaquim da Fonseca)- Ler Faz a Cabeça, V.3 (com Dinah S. de - Traçando Ponto de Embarque para Viajar 1Queiroz) - Traçando Ponto de Embarque para Viajar 2- Novas Comédias da Vida Privada - Traçando Porto Alegre (ilust. de Joaquim da- O Analista de Bagé em Quadrinhos Fonseca)- O Marido do Dr. Pompeu - Traçando Roma (ilust. de Joaquim da- O Popular Fonseca)- O Rei do Rock- Orgias Antologias:- O Suicida e o Computador - Para gostar de ler Júnior – Festa de criança- Outras do Analista de Bagé (1) (ilust. de Caulos) –- Para Gostar de Ler, V.13 – “Histórias - As noivas do Grajaú –Divertidas”, com F. Sabino e M. Scliar - Todas as histórias do Analista de Bagé- Para Gostar de Ler, V.14 - Ed Mort – Todas as histórias- Para Gostar de Ler, V.7 – “Crônicas”, com L. - Comédias da vida privada (edição especialDiaféria e J.Carlos Oliveira para escolas)- Peças Íntimas - Para gostar de ler, v. 14 – O nariz e outras- Separatismo; Corta Essa! crônicas- Sexo na Cabeça - Pai não entende nada – Coleção Jovem- Todas as comédias - Zoeira (seleção de Lucia Helena Verissimo e- Zoeira Maria da Glória Bordini)- A eterna privação do zagueiro absoluto - O gigolô das palavras (seleção de Maria da- Comédias para se ler na escola Glória Bordini)- As mentiras que os homens contam- Histórias brasileiras de verão Participações em Coletâneas:- Aquele estranho dia que nunca chega Para entender o Brasil – Organização de Luiz- Banquete com os Deuses Antonio Aguiar. Alegro, 2001. Texto: “O cinismo de (todos) nós”.Romances: Os cem melhores contos brasileiros do século –- Borges e os Orangotangos Eternos Organização de Ítalo Moriconi. Objetiva, 2000.- Gula – O Clube dos Anjos Texto: “Conto de verão nº 2 – Bandeira- O Jardim do Diabo branca”.- O opositor O desafio ético – Organização de Ari Roitman. Garamond, 2000. Texto: “O poder do nada”.Poesia: Para gostar de ler, volume 22 – Histórias de- Poesia numa hora dessas?! amor – Ática, 1999. Texto: “Uma surpresa para Daphne”.Infanto-Juvenis:- O arteiro e o tempo (ilust. de Glauco
    • 136Porto Alegre – Memória escrita – Organização Ler faz a cabeça, volumes 1, 2 e 3 – PedagógicaZilá Bernd. Universidade Editorial, 1998. e Universitária, 1990.Texto: “Bola de cristal”. Crônicas de amor – Ceres, 1989. Textos:Contos para um Natal brasileiro – Relume “Amores”.Dumará, 1996. Texto: “White Christmas”. Sombras e luzes – Um olhar sobre o século –Contos brasileiros – Organização de Sérgio Organização de Hélio Nardi Filho. L&PM,Faraco. L&PM, 1996. Texto: “A missão”. 1989. Texto: “À beira do tapete, à beira doDemocracia: Cinco princípios e um fim – espaço”.Ilustrações de Siron Franco. Organização de O novo conto brasileiro – Nova Fronteira,Carla Rodrigues. Moderna, Coleção Polêmica, 1985.1996. Texto: “Igualdade”. Rodízio de contos – Mercado Aberto, 1985.Continente Sul/Sur – IEL, 1996. Texto: Texto: “Tronco”.“Conversa de velho”. Memórias (Revista Oitenta nº6) – L&PM,O Rio de Janeiro continua lindo – Memória 1982.Viva, 1995. Texto: “Vitória carioca”. Temporal na Duque (Revista Oitenta nº 5) –Passeios pela Zona Norte – Centro Cultural L&PM, 1981.Gama Filho, 1995. Texto: “As noivas do Para gostar de ler, volume 7 – Crônicas. Ática,Grajaú”. 1981. Textos: “Confuso”, “Futebol de rua”,E o Bento levou (charges) – Mercado Aberto, “Comunicação”, “Emergência” e1995. “Matemática”.Amigos secretos – Artes e Ofícios, 1994. Texto: Toda a verdade sobre Brigitte D’Anjou (Revista“Casados x solteiros”. Oitenta nº 3) – L&PM, 1980.A cidade de perfil – Organização de Sérgio Condomínio (Revista Oitenta nº 2) – L&PM,Faraco. Centro Cultural Porto Alegre, 1994. 1980.Textos: “A mal entendida”, “A compulsão” e Humor de sete cabeças (charges e cartuns) –“Soluções”. Sulbrasileiro Seguros Gerais, 1978.Separatismo – Corta essa! (cartuns) – L&PM, Antologia brasileira do humor – L&PM, 1976.1993. O tubarão – L&PM, 1976.Para gostar de ler, volume 13 – Histórias QI 14 – Garatuja, 1975.divertidas – Ática, 1993. Textos: “Atitude Após mais de 20 anos tendo seus trabalhossuspeita” e “O casamento”. publicados pela L&PM Editores, de Porto AlegreO humor nos tempos do Collor – Com Jô (RS), foi anunciada, em 05/07/2000, suaSoares e Millôr Fernandes. L&PM, 1992. contratação pela Editora Objetiva, do Rio deNós, os gaúchos – Editora da Universidade, Janeiro (RJ).1992. Texto: “A cidade que não está no mapa”.Cronistas do Estadão – Organização de Moacir Fontes: http://www.releituras.com/Amâncio. O Estado de S. Paulo, 1991.Texto: VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola.“Negociações”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p.53-54.A palavra é humor – Scipione, 1990. Texto:“Lixo”. Jorge Fregadolli O Vendedor Admiro muito as pessoas que sabem vender ou indo diretamente ao encontro docoisas. Qualquer coisa. No balcão de uma loja comprador. O vendedor me impressiona pelo
    • 137seu fôlego, pelo seu farto assuntário, pela sua O vendedor anima a praça. Estimula osinata psicologia, até muitas vezes pela sua cara- investimentos. Faz o dinheiro rodar. É umde-pau… agente do progresso e, ainda que algumas vezes Tenha ele o nome que tiver: picareta, nos obrigue a comprar o que não queremos,corretor, agente de negócios, é sempre um nem podemos, ainda assim a gente gosta dele emágico, um diplomata, um genial lutador que, o admira.se for desafiado, é capaz de vender geladeira a Um desses gênios do comércio me contouesquimó. que, certa ocasião, vendeu dois tratores a um De vez em quando um deles aparece na casa homem que nem terras possuía, e para que osda gente ou no escritório. Fala, toma um tratores não ficassem inúteis, acabou vendendotempo precioso, chega a irritar pela sua também um sítio ao mesmo freguês. Depois,insistência em vender aquilo que não ainda ao mesmo dito-cujo, vendeu adubos,queremos comprar. Todavia, eu gosto de ouvir pesticidas, uma bela colheitadeira e sei-lá-que-os vendedores, para analisá-los. São pessoas mais. Deu tamanha sorte, que o homemrealmente singulares. enriquecera em pouco tempo com aquele sítio, Impressiona-me a paciência deles. Não se comprando mais terras e é hoje um de seusimportam em levar “chá-de-cadeira”. Sentam-se maiores fregueses.numa sala-de-espera, uma, duas, três horas, O vendedor é aquele que jamais deixa a petecaaguardando a atenção do cliente. Nunca cair. Pode estar a maior crise do mundo e eleperdem o bom-humor, nunca lhes falta aquela continua pregando otimismo. Você acabapiada sensacional para quebrar o gelo. Sabem comprando as coisas dele pelo entusiasmo quede tudo. Entendem de futebol, de política, de ele injetou em sua vida.samba. Entendem de qualquer coisa que ocliente resolva discutir. E, se levam um ”fora”,agradecem do mesmo jeito e prometem voltarno mês que vem. Voltam como se nada Jorge Fregadollihouvesse acontecido. E transam o negócio Membro da Academia de Letras de Maringácompensador. Cadeira nº.30 – Patrono: Monteiro Lobato O Norte do Paraná é, de certa forma, o Advogado, jornalista, editor da Revistaproduto do trabalho de uma grande multidão Tradição. Nasceu em Quatá – SP, no dia 02 dede vendedores. Desde os vendedores de terras março de 1938. Autor do livro: “De olho napara lavouras e lotes urbanos, até os que história”.vendem casas, apartamentos, automóveis, Fonte:máquinas, adubos, inseticidas, material de Academia de Letras de Maringá. http://www.afacci.com.br/escritório, produtos de beleza, geléia-real,sapatos, livros, publicidade, tudo enfim. André Augusto Passari O Mago da IroniaLá se vão cem anos, e quanta solidão!De lá para cá, o ser humano Por isso, com a mesma ironiaEsse espectro frágil de qualquer coisa que seja E em memória àquele que um dia iluminouDeus essa escuridãoTropeçou em suas próprias armadilhas e se Dedico estes versos, pobres e insuficientesperdeu
    • 138versos Mas o fez com tal sinceridade Que até parece crueldadeMas que dão mote à grandeza do nome sobre o É que o homem vive numa crise de identidadequal verso Ante o bem e o mal, a dualidadeAntes do mais, perdoe-me o enganoNão, não é um espectro frágil o ser humano Homenageado com honras em seu velórioÉ antes o próprio ideal trágico de um sonho Machado de Assis nunca foi um simplórioinfeliz e patético Sabia que a vida é um desafio complexoUma gargalhada profunda de um Deus E que só com maestria e valentia é que fazincrédulo e imagético nexo Por isso aproveitou a ironia de ter nascidoMas vá lá, voltemos ao nosso mote pobreE à homenagem ao grande Cavaleiro das Letras Para morrer com a insígnia de um espíritoFundador da Academia Brasileira de Letras nobreE que nos inspira em vida e em morteJoaquim Maria Machado de AssisOu somente Machado de Assis ANDRÉ AUGUSTO PASSARI, novo escritorNão era mesmo para ser o orgulho da pátria nascido em Sorocaba (SP), veio ao mundo emEstava mais para um néscio ou um paria 1979. Médico psiquiatra, reside em RibeirãoMulato pobre, gago, órfão, epilético e sem Preto (SP). Na literatura, assume sua condiçãoestudo de profundo admirador de Machado de Assis.Tornou-se logo entre todos o mais cultoE contrariando a ordem lógica do mundo Fonte:Inverteu a lógica, o real e o oculto PASSARI, André Augusto. Tempo, Solidão e Fantasia. SãoEnxergou como ninguém a alma humana Paulo: Scotercci Editora, 2005.E a revelou com a elegância de uma arte gregaou romana Estante de Livros Editora Escrituras Antônio Campos e Cyl Gallindo desvelar o povo pernambucano no cenário(Panorâmica do conto em nacional. O gênero conto atende muito bem ao momento atual de muitos afazeres e poucoPernambuco) lazer, já que, em questão de minutos, na ante-896 páginas sala de um consultório ou gabinete, no Esta é a segunda grande obra coletiva percurso de uma pequena viagem, em umlançada pelo Instituto Maximiano Campos piscar de olhos, lemos uma obra literária,(IMC) em parceria com a Escrituras Editora. conhecemos um autor, abrimos uma janela doPrimeiro surgiu a poesia, a palavra cristalizada espírito para um mundo que sequerna publicação do Pernambuco, terra da poesia: imaginávamos que existisse. A partir daí, surgeum painel da poesia pernambucana dos séculos o desejo de conhecermos o autor e o restanteXVI ao XXI. Neste volume, destaca-se a prosa, de sua obra.uma forma mais analítica de revelar o ser A Panorâmica do conto em Pernambucohumano, seus sentimentos, seu tempo e seu traz esse painel, visto, sentido e revelado porespaço. 114 autores, nascidos neste Estado ou que, por Panorâmica do conto em Pernambuco qualquer circunstância, vivenciaram oureúne um conjunto de obras literárias a fim de
    • 139vivenciam a realidade pernambucana, suas Comunicação do Senado Federal e de outrasexperiências históricas, seus momentos de repartições públicas. Foi repórter, redator,alegria, seus anseios, suas adversidades e suas editor e colunista de jornais de Pernambuco,realizações. Mergulhamos na documentação e Brasília, e Mato Grosso, além detrouxemos escritos desde o primeiro contista correspondente do Jornal de Letras, RJ.até autores inéditos, com revelações Produziu e apresentou o programa Síntese nasurpreendentes, certos de que estamos TV Universitária, Recife, e colaborou com oedificando um marco histórico na cultura jornal Gazeta do Povo, Paraná. É membro dabrasileira. Academia de Letras do Brasil, do Instituto Quem se debruçar sobre este livro, ao Histórico e Geográfico do Distrito Federal, daconcluir sua leitura, verificará que alcançou ANE, Brasília (DF), e da UBE-P. Recém-eleitouma ampla visão literária de Pernambuco e do para a Alane, cadeira nº 18, substituindo oBrasil, uma vez que deste torrão também se escritor William Ferrer Coelho. Foi membroformou, com muita luta e sacrifício, a (fundador) do Conselho Municipal de Culturaidentidade brasileira. do Recife e é membro efetivo da Alane. Atualmente representa no Brasil a Francachela, Revista Internacional de Literatura e Arte, editada na Argentina e é diretor da Cicla, destinada a tradução e publicação de obra deANTÔNIO CAMPOS autores brasileiros contemporâneos, na Antônio Campos é advogado, articulista, Argentina, e faz parte do Conselho Editorial daconferencista, poeta, contista e presidente do revista Encontro, do GPL, PE. Autor deInstituto Maximiano Campos (IMC). Nasceu diversos livros premiados, escreveu artigos,no Recife (PE), em 25 de junho de 1940. Foi reportagens, críticas, crônicas, entrevistas,um dos fundadores do IMC, depositário do poesias e contos publicados em antologias,acervo literário e artístico do escritor jornais e revistas de diversos Estados do Brasil.Maximiano Campos, seu pai, prematuramente No exterior, foi traduzido, respectivamente,falecido. É também promotor e divulgador da para o espanhol, alemão e francês, em:cultura pernambucana e nordestina. O IMC Francachela, Argentina; Xicóatl, Áustria;apresenta uma lista considerável de Rampa, Colômbia; Poésie du Brésil (org.lançamentos de livros de outros escritores e Lourdes Sarmento), França; e Prismal (org.produção do IMC, como a coletânea Regina Igel), University of Maryland, EstadosPernambuco, terra da poesia: um painel da Unidos.poesia pernambucana dos séculos XVI ao XXI, ====================================organizada pelo próprio Antônio Campos e Felipe Machado (Olhos cor depor Cláudia Cordeiro (IMC/EscriturasEditora, 2005). Além disso, o IMC realiza chuva)eventos culturais, como participação com a 160 páginas“Casa das Letras” no I Festival de Literatura deGaranhuns (2006) e a realização da III Fliporto Quando você dança com o diabo, você não muda o– Festa Literária Internacional de Porto de diabo, o diabo muda você.Galinhas, Pernambuco, com o tema Andrew K. Walker“Integração Cultural Latino-Americana”. Éautor de diversos livros, nas áreas do Direito, Um texto surpreendente, da primeira àGestão Empresarial e Literatura (contos, última página. O ritmo inicial é calmo,crônicas, ensaios). permitindo que nos acomodemos na poltrona,Sites: www.imcbr.org.br / como em um bom filme. Rapidamente, nowww.antoniocampos.com.br entanto, somos capturados em um vórtice de CYL GALLINDO sentimentos e emoções que harmonizam o realCyl Gallindo nasceu em Buíque (PE), em 28 de e o possível, o atual e o virtual, tornando omaio de 1935. Diplomado em Ciências Sociais gesto mais delirante absolutamente lógico epela UFPE, é escritor, poeta, jornalista e natural. Após a leitura, não restará quem acheconferencista. Trabalhou na Assessoria de impossível apaixonar-se por um par de olhos
    • 140cor de chuva, de alguma forma, em algum mesma atenção com que ouvia em casa o ruídocontexto… ininterrupto das máquinas de escrever de seus …Aquela noite tinha tudo para ser apenas pais, ambos jornalistas. Seus discos, nomais uma na agitada vida do escritor Alexandre entanto, não eram os únicos companheiros: osNastari. Freqüentador assíduo do Dixie – casa livros de Monteiro Lobato e Agatha Christienoturna e palco da big band Great Gatsbies -, também eram retirados da estante e devorados,viu sua vida mudar repentinamente: Manoela. um a um. Aos 12 anos, ganhou a primeiraApós uma noite inesquecível, Alex convida guitarra. Aos 16, gravou o primeiro disco comManoela a se mudar para o seu apartamento. uma banda formada com amigos de infância.Um dia, da mesma maneira inesperada que Pouco depois, o VIPER já lançava discos nosurgiu, Manoela se foi. Alex encontra sua mundo inteiro e fazia turnês pela Europa,mulher morta. Japão e Estados Unidos, como guitarrista da Buscando uma razão para o assassinato da banda. Os livros ficaram na estante, esperando.amada, acaba conhecendo Vanessa, ex- No final do século XX, influenciado porgarçonete do Dixie e melhor amiga de personagens reais – e completamente irreais –Manoela. Entre várias revelações, ela conta que da noite paulistana, Machado partiu para umaaquele não era o nome real da amiga, e que as nova carreira e um desafio ainda maior:duas trabalhavam no passado como prostitutas. escrever Olhos Cor de Chuva, romanceVanessa se muda para o seu apartamento. A finalizado poucos dias antes de entrar no prelo.família Nastari, querendo apresentar a garota à Hoje, continua vivendo entre a música e associedade, oferece um almoço para o casal. letras: depois de trabalhar como redator naMas tudo dá errado e Vanessa deixa o local agência de propaganda DPZ, ele divide seuabalada Motivo: Enrico era um cliente antigo tempo entre os palcos da banda Metanol e adela e de Manoela. redação do Jornal da Tarde. Alex tenta matar o pai, mas é impedido por ==================Elizabeth e o velho empregado dos Nastari. As Myriam Campello (Comonoites ficam cada vez mais pesadas, com Esquecer – anotações quasecocaína, maconha e vodka, suas companheiras inglesas)inseparáveis. Uma semana depois, o escritor 128 páginasvai ao Café Mondrian, local onde costumava O livro Como esquecer (anotações quasebuscar inspiração. Lá ele conhece Aline, outra inglesas), de Myriam Campello, foi roteirizadopaixão à primeira vista, igualmente fulminante, para o cinema e começou a ser rodado noque o faz terminar o relacionamento com início de 2008, sob a direção de Malu DeVanessa. Alex conhece os artistas europeus Martino (Mulheres do Brasil). A protagonistaJorge Galies e Christian Lefuric, amigos de do filme será a atriz Andréa Beltrão.John. Lefuric, que lhe mostram a imagem de Qual é a natureza do amor? E de sua perda?uma mulher que transformaria novamente sua Numa casa à beira-mar, todos osvida. personagens sofreram algum tipo de perda. Há, entretanto, um pequeno problema: ela Como esquecer (anotações quase inglesas),não é real. Criada no computador por título que revela a anglofilia da autora, Myriamdesigners europeus, a personagem virtual é a Campello, é o mapa desse emocionanteúltima fronteira entre Alex e a loucura. O percurso interior que se acompanha como umaamor dá lugar a uma obsessão platônica aventura em mar aberto. Duas mulheresquando, depois de tantos relacionamentos formam o par amoroso central que se desfaz efracassados. Alex acredita ter encontrado a deixa todo um deserto de lembranças emulher perfeita… sofrimentos. No texto corre a dramaticidade de desilusões e perdas, misturadas com referências à Inglaterra por toda a narrativa, como o casal Catherine e Heathcliff do clássico de Emily FELIPE MACHADO Brontë, O morro dos ventos uivantes. O que Felipe Machado passou a adolescência nos faz relacioná-lo à intensidade daescutando Beatles e Led Zeppelin com a personagem, tanto na forma de amar como de
    • 141sofrer. Da mesma forma como no numa tentativa de vencer o caos, sejam quaisrelacionamento do casal há uma dependência, forem as combinações afetivas.ao ponto de Catherine afirmar que é O texto cola a palavra ao complexo ato deHeathcliff, na obra, há também esse viver e transformar-se em pura criação literária.sentimento entre Júlia e Antônia. É esta quem reina soberana e que faz a leitura Através da narrativa da protagonista Júlia, desse romance um sofisticado prazer. Asomos envoltos por um emaranhado de experiência da perda comum a todos, a serviçolembranças sofridas e nostálgicas que, na de um estilo inconfundível, torna o livromaioria das vezes, são carregadas de um humor impossível de esquecer.sarcástico – Quando alguém diz eu te amo parasempre, tenha certeza que você só tem umaopção: acreditar, babaca. Eu acredito em amoreterno, Papai Noel, coelhinho da Páscoa e que MYRIAM CAMPELLOtodo sofrimento tem fim – Conformada com a Myriam Campello nasceu no Rio dedor, passa a ironizá-la e a tratá-la como parte Janeiro. Com Cerimônia da noite, seucomum de sua vida. Pelas páginas desse primeiro livro, recebeu em 1972 o Prêmioromance, Júlia vai divagando sobre seus medos, Fernando Chinaglia para romance inédito.suas dores e tentativas de esquecer um amor. Publicou ainda Sortilegiu (romance, 1981), SãoTentativas de se sustentar pelas próprias Sebastião blues (romance, 1993), editado napernas, sem depositar sua vida no outro. Alemanha em 1998, e ainda este ano seráEmbriagada pelas lembranças, a personagem publicado na França, e Sons e outros frutosvive, muitas vezes, ausências da realidade, pega- (contos, 1998), vencedor da Bolsa parase flutuando fora do mundo ao seu redor. Ela Conclusão de Obra da Biblioteca Nacional, emvive a constante busca de sua liberdade: 1996. Recebeu o Prêmio União Latina –esquecer e expulsar definitivamente da Concurso Guimarães Rosa para conto inédito,memória aquela que a abandonou. em 1997. Participou de diversas antologias Júlia compartilha com seus amigos o seu brasileiras, entre elas Os cem melhores contossofrimento. Personagens tão complexos quanto brasileiros do século (2000). Tem contosJúlia, que também perderam pessoas publicados na Polônia, Alemanha, Holanda,importantes, cada um de uma forma. Suas França e Estados Unidos.ações e reações estão muito próximas de nós.São todos convocados a olharem para dentro Fonte:deles mesmos e a conhecerem-se a si mesmos, Editora Escrituras http://www.escrituras.com.br/ Maria Antônia Canavezi Scarpa Será Incondicional Decidi que seria assim : incondicional, dar, dar muito e receber exausta, venho traçando ao longo do caminho, Será uma viagem longa, sem paradas vãs, vértices que me enraízem sem limites, que não sejam para adornar este acalanto, no cerne das nossas vidas, este vento brando, ao polir o brilho do olhar que vem dos seus refrescando os nossos sentimentos e dos olhos meus, como se cada vez Cada detalhe, que não quero esquecer, fosse a primeira vezvou entrelaçando nas páginas que já foram escritas, Tem que ser assim : incondicional, pois tudo somará um livro volumoso, você é o que sempre quis, um domador, onde cada linha versará a rebeldia do querer, vindo de longe, abrir o etéreo,
    • 142 para estes sonhos plurais, transformando-os, Em abril de 2005, participou da 1ª Antologia modificando todos os meus conceitos Literária Internacional do Grupo Ecos da Fui deixando, que se rompessem, Poesia - “O Futuro Feito Presente” – pela todos os limites, quando a dor da saudade, Editora Zeni Leal (Abrali - Curitiba). exigiu que se rasgassem todos os véus Em abril de 2006, participou da que cobriam as minhas verdades, expondo-as, que vivo você! 2ª Antologia Literária Internacional do Grupo Ecos da Poesia -“Dois Povos e um destino” – pela Editora Zeni Leal (Abrali – Curitiba) MARIA ANTÔNIA CANAVEZI SCARPA, Em julho de 2006, participou danascida em uma pequena cidade do interior “Antologia Internacional Rodapaulista – Rafard, casada. Mundo 2006” – pela editora Ottoni (Itu-SP). Formada em Artes Industriais, nunca Em setembro de 2006, participou da coleçãolecionou ou usou sua arte, como gostaria de ter “Biblioteca Sorocabana Volume 3 – Poesias” ,feito. Seguiu outros rumos e se aposentou pela Crearte Editora (Sorocaba – SP)como Secretária Executiva. Participa de vários sites poéticos, com o Escreve desde os meus 13 anos de idade, se é pseudônimo de Tília Cheirosa sendo o seu empoeta não sabe, mas nunca em momento particular :algum perdeu o interesse pelas letras. Aprecia - http://groups.msn.com/CaixinhadePandoraa boa literatura, um bom filme e a música da “Não tenho um vasto “currículo poético” emqual se deixa enlevar todos os dias. prêmios e publicações, sou feliz escrevendo poemas, No ano de 1988 lançou o seu primeiro Livro mesmo que sejam lidos somente por mim.de Poesias - “Pedaços”, rodado Se é fácil escrever poesias, não sei..., mas o dom depela Grafilínea Editora (Sorocaba), uma unir as letras e criar frases e lindas sentenças comcoletânea de poemas que escreveu ao longo da certeza é uma arte.”juventude, sentindo-se vitoriosa, ainda que o Fontes:livro não tivesse o intuito de ser http://cafe-poetico.blogspot.com:80/comercializado. http://www.sorocaba.com.br/acontece http://www.sorocult.com Viriato Corrêa Cazuza Tese mostra como o escritor Viriato Corrêa Elisa de Arruda Penteado, defendida natransformou seu personagem, protagonista de Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.livro homônimo publicado em 1938, em Analisando a relação entre literaturaarquétipo do “cidadão dos novos tempos” infantil, história e educação, a pesquisadora Um menino narra as amargas experiências procura resgatar das páginas de Cazuza comoescolares com um professor autoritário no estavam sendo discutidas questões como pátria,minguado povoado onde nasceu, encravado no trabalho e educação, temas de grandefundo do Maranhão, até os dias de colégio na relevância na construção da ideologia docapital, São Luiz. Esse o núcleo do livro Estado Nacional, que se pretendia arquitetarCazuza, do escritor maranhense Viriato no momento em que a obra foi escrita. DeCorrêa, objeto de dissertação de mestrado — acordo com Ana Elisa, Viriato CorrêaLiteratura infantil, história e educação: Um certamente pretendia, ao escrever sua obraestudo da obra de Viriato Corrêa —, de Ana máxima, ir além de um simples romance.
    • 143Podendo ser visto como um livro de formação, mãos para que o professor batesse nelas com ao escritor planejava, com Cazuza, constituir “o palmatória.cidadão dos novos tempos”. Além de escrever Certa vez Cazuza levou tanto “bolo” doum belo romance, desejou denunciar práticas professor que suas mãos ficaram inchadas eabomináveis de disciplina nos estabelecimentos sangrando; isso revoltou seus pais, quede ensino da época. Como a prática do “bolo”, decidiram tirá-lo da escola do povoado. “Acastigo por meio da palmatória. questão do ‘bolo’ e a precariedade da escola do Publicado pela primeira vez em 1938, em povoado, assim como a hostilidade dopleno regime do Estado Novo, logo após o professor, retratam um quadro negro dagolpe de 37, “o livro insere-se no amplo projeto educação no País do final do século 19”,empenhado em construir o Estado Nacional e observa Ana Elisa. É nesse contexto político eo novo cidadão que a ele convinha. Um ideológico que o livro Cazuza é elaborado.projeto que começou a ser esboçado nos Destinada às crianças, a obra traz, num tomprimórdios da República”, explica Ana Elisa. O fortemente didático, questões que envolvem apaís passava por um processo de modernização moral, o enaltecimento de virtudes que devemequipando-se para ingressar numa nova era do a todo custo ser seguidas. “Como a tolerância,desenvolvimento do capitalismo e a educação a generosidade, a obediência, o respeito e aera, obviamente, um eficiente instrumento de piedade, assim como o repúdio aos vícios — acontrole social e de consolidação de um regime mentira, a soberba, o autoritarismo — aautoritário, perpetrado por Getúlio Vargas. exaltação do amor à família, célula a ser Jornalista, contista, romancista, teatrólogo, mantida, pois é no seu seio que se inicia adramaturgo, autor de uma série de livros formação do cidadão, posteriormente lapidadoinfanto-juvenis, Viriato Corrêa foi ainda pela escola”, acredita Ana Elisa.professor de história do teatro, de história egeografia no ensino público e membro da TRECHOAcademia Brasileira de Letras. A pesquisadora “Cada par copiava um mesmo trecho de prosa e vencia odiz que, com Cazuza, o escritor faz uma crítica aluno que apresentasse a letra mais bonita. O prêmio queà escola do início do século, que ainda se lhe dava era meter-lhe na mão a palmatória para queconservava o ranço do Império. Quer dizer, os castigasse o vencido com uma dúzia de “bolos”. O professor chamou o meu nome e o nome do Doca.alunos, em classe, apenas ouviam a voz do Aproximamo-nos da grande mesa. Eu tremia. Duranteprofessor, principalmente nos estabelecimentos três minutos o velho examinou e comparou as duasde vilarejos, espalhados pelas cidades do escritas. Depois disse:interior. “O professor constituía a única pessoa As duas letras são bem parecidas. Não se pode dizer quena sala com o poder absoluto da palavra. Só ele uma seja melhor do que a outra. Ambas são boas.falava e as crianças apenas ouviam e copiavam E lançou o julgamento:as lições, no mais completo silêncio. Se “Empate”.porventura respondessem de forma errada, os Respirei livremente.alunos apanhavam”, revela o livro. O professor entregou-me a palmatória. O cotidiano de uma sala de aula da escola “Para que isso?”, perguntei. “Para que há de ser?”, disse-me. Os dois nãode primeiras letras, no povoado, era como uma empataram?”. Você dá seis ‘bolos’ nele, e ele lhe dá seisprisão: “qualquer movimento, qualquer olhar ‘bolos’”.de esguelha, qualquer cochicho era motivo Achei aquilo um disparate. Olhei o velho compara que a criança fosse punida surpresa.freqüentemente com castigos físicos. O vilão da “Que é que você está olhando?”, roncou elehistória de Cazuza era o professor João asperamente.Ricardo, criatura de cara amarrada, intratável e A minha língua travou.feroz”, que costumava segurar os alunos pelas “Não posso compreender isso!, exclamei. Por queorelhas e fazer vibrar a régua em suas cabeças. houve empate? Porque o Doca tem letra boa e eu tenho“O professor passeava pela sala de mãos para letra boa. Então quem tem letra boa apanha?” João Ricardo ergueu-se da cadeira com um berro.trás, vigiando-os através dos óculos pretos, com “Não quero novidades! Sempre e sempre foi assim.ar terrível de quem está com vontade de Atrevido! Quem é aqui o professor?encontrar um pretexto para castigar”, conta o E entregou a palmatória ao Doca.personagem Cazuza. As crianças ofereciam as
    • 144 http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/junho200Fonte: 2/unihoje_ju177pag11.htmlCazuza ou a Cartilha das Virtudes. artigo publicado por AntonioRoberto Fava no Jornal da UNICAMP – 17 a 23 de junho 2002 Monteiro Lobato O Rabo do Macaco Era um macaco que resolveu sair pelo O macaco botou a boca no mundo – eumundo a fazer negócios. Pensou, pensou e foi quero, eu quero minha faca ou então umcolocar-se numa estrada, por onde vinha vindo, balaio!lá longe, um carro de boi. Atravessou a cauda O negro, tonto com aquela gritaria, acabouna estrada e ficou esperando. Quando o carro dando um balaio velho para aquela peste dechegou e o carreiro viu aquele rabo macaco que, muito contente da vida, lá se foiatravessado, deteve-se e disse: cantarolando: - Macaco, tire o rabo da estrada, senão passo - Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdipor cima! minha faca, pilhei um balaio! Tinglin, tinglin, - Não tiro! – respondeu o macaco – e o vou agora para Angola!carreiro passou e a roda cortou o rabo do Seguiu caminho.macaco. Mais adiante encontrou uma mulher O bichinho fez um barulho medonho. tirando pães do forno, que recolhia na saia. - Eu quero o meu rabo, eu quero o meu - Ora, minha sinhá – disse o macaco, onderabo ou então uma faca! já se viu recolher pão no colo? Ponha-os neste Tanto atormentou o carreiro que este sacou balaio.da cintura a faca e disse: A mulher aceitou o balaio, mas quando - Tome lá, seu macaco dos quintos, mas começou a botar os pães dentro, o balaiopare com esse berreiro, que está me deixando furou.zonzo. O macaco pôs a boca no mundo. O macaco lá se foi, muito contente da vida, - Eu quero, eu quero o meu balaio ou entãocom a sua faca de ponta na mão. me dê um pão. - Perdi meu rabo, ganhei uma faca! Tinglin, Tanto gritou que a mulher, atordoada, deu-tinglin, vou agora para Angola! lhe um pão. E o macaco saiu a pular, Seguiu caminho. cantarolando: Logo adiante deu com um tio velho que - Perdi meu rabo, ganhei uma faca; perdiestava fazendo balaios e cortava o cipó com os minha faca, pilhei um balaio; perdi meudentes. balaio, ganhei um pão. Tinglin, tinglin, vou - Olá amigo! – berrou o macaco – estou agora para Angola!com dó de você, palavra! Tome esta faca de E lá se foi muito contente da vida,ponta. comendo o pão. O negro pegou a faca mas quando foi cortar Fonte: Covil do Orc. Contos do Covil.o primeiro cipó a faca se partiu pelo meio.
    • 145 Vicência Jaguaribe Na Palma da Minha Mão Na palma da minha mão, Como esconder essa dor e essa angústia, Cabe, irmão, a felicidade e a alegria Que com furor por entre os dedos escapam? Que, com ousadia, não pedem para entrar. No solo se infiltram? Na palma da minha mão, Por baixo da porta vasam? Cabe, irmão, a esperança verde e lustrosa As paredes escalam? Que, nervosa, pede licença para falar. O ar contaminam? Os rios e os oceanos emporcalham? Na palma da minha mão, Também cabe, irmão, aquele amor - Sinto muito, Que, ditador, um dia me deixou aflito. Mas não há como escondê-las. Só resta incinerá-las Na palma da minha mão, E as cinzas, ao vento lançá-las. Cabem, irmão, as estrelas do céu e as do mar Fonte: Que vão se multiplicar pelo tempo infinito. Editora Protexto= http://www.protexto.com.br Na palma da minha mão só não cabem, Irmão, a dor da perda e a angústia da solidão. A Língua Portuguesa agradece (e nossos ouvidos também)Nunca diga: – Trezentas gramas (a grama pode ser de um pasto). Se você quer falar de peso, então é O- Menas (sempre menos) grama: trezentOs gramas.- Iorgute (iogurte)- Mortandela (mortadela) - Di menor, di maior (é simplesmente maior ou- Mendingo (mendigo) menor de idade).- Trabisseiro (travesseiro) - essa é de doer, hein!- Cardaço (cadarço) - Beneficiente (beneficente - lembre-se de- Asterístico (asterisco) Beneficência Portuguesa) - Meia cansada (meio cansada) - O certo é BASCULANTE e nãoE lembre-se: VASCULHANTE, aquela janela do banheiro ou da cozinha.- Mal - Bem- Mau - Bom – Se você estiver com muito calor, poderá dizer que está "suando" (com u) e não "soando", pois quem "soa" é sino !
    • 146 - A casa é GEMINADA (do latim geminare = E agora, o horror divulgado pelo pessoal doduplicar) e não GERMINADA que vem de TELEMARKETING:germinar, nascer, brotar.- O peixe tem ESPINHA (espinha dorsal) e nãoESPINHO. Plantas têm espinhos.- Homens dizem OBRIGADO e mulheresOBRIGADA.– "FAZ dois anos que não o vejo“ e não“FAZEM dois anos”- "HAVIA muitas pessoas no local" e não"HAVIAM”- "PODE HAVER problemas" e não "PODEMHAVER...."(os verbos fazer e haver são impessoais!!)- PROBLEMA e não POBLEMA ouPOBREMA(deixe isso para o Zé Dirceu)- A PARTIR e não À PARTIR (muito mais simples, mais elegante e CORRETO).– O certo é HAJA VISTA (que se oferece àvista) e não HAJA VISTO. Da mesma forma é incorreto perguntar: COM QUEM VOCÊ QUER ESTAR- POR ISSO e não PORISSO (muito comum FALANDO?nas páginas de recado do orkut, junto com oAGENTE pode marcar algo... Se é um agente, - Veja como é o correto e mais simples: COMele pode ser secreto, aduaneiro, de viagens...) QUEM VOCÊ QUER FALAR?– A GENTE = NÓS - Ao telefone não use: Quem gostaria? (É de matar...)– O certo é CUSPIR e não GOSPIR. - Não use: peraí, agüenta aí, só um- HALL é RÓL não RAU, nem AU. pouquinho (prefira: Aguarde um momento, por favor)– Para EU fazer, para EU comprar, para EUcomer e não para MIM fazer, para mim - Por último, e talvez a pior de todas: Por favor,comprar ou para mim comer... arranquem os malditos SEJE e ESTEJE do seu vocabulário (estas palavras não existem!!)(mim não conjuga verbo, apenas "eu, tu, eles,nós, vós, eles") - Não é elegante você tratar ao telefone, pessoas que não conhece, utilizando termos como:- Você pode ficar com dó (ou com um dó) dealguém, mas nunca com "uma dó"; a palavra dó querido(a), meu filho(a), meu bem, amigo(a)...no feminino é só a nota musical (do, ré, mi, etc (a não ser que você esteja ironizando-a(o).etc.) Utilize o nome da pessoa ou senhor(a).- As pronúncias: CD-ROM é igual a ROMAsem o A. Não é CD-RUM (nem CD-pinga, Agora, explicações de algumas expressões queCD-vodka etc). ROM é abreviatura de Read usamos e nem sempre sabemos de ondeOnly Memory - memória apenas para leitura. originou-se:
    • 147NAS COXAS Só que, mais tarde, descobriram que um dosAs primeiras telhas do Brasil eram feitas de vigários havia treinado o burrico, e conto doargila moldada nas coxas dos escravos. vigário passou a ser sinônimo de falcatrua eComo os escravos variavam de tamanho e malandragemporte físicos, as telhas ficavam desiguais.Daí a expressão fazendo nas coxas, ou seja, de A VER NAVIOSqualquer jeito. Dom Sebastião, jovem e querido rei de Portugal (sec XVI), desapareceu na batalha deVOTO DE MINERVA Alcácer-Quibir, no Marrocos. ProvavelmenteNa Mitologia Grega, Orestes, filho de morreu, mas seu corpo nunca foi encontrado.Clitemnestra, foi acusado de tê-la assassinado. Por isso o povo português se recusava aNo julgamento havia empate entre os jurados, acreditar na morte do monarca, e era comumcabendo à deusa Minerva, da Sabedoria, o voto que pessoas subirem ao Alto de Santadecisivo. Catarina, em Lisboa, na esperança de ver o ReiO réu foi absolvido, e Voto de Minerva é, regressando à Pátria. Como ele não regressou,portanto, o voto decisivo. o povo ficava a ver navios.CASA DA MÃE JOANA NÃO ENTENDO PATAVINASNa época do Brasil Império, mais Os portugueses tinham enorme dificuldade emespecificamente durante a menoridade do entender o que falavam os frades italianosDom Pedro II, os homens que realmente patavinos, originários de Pádua, ou Padova.mandavam no país costumavam se encontrar Daí que não entender patavina significa nãonum prostíbulo do Rio de Janeiro cuja entender nada.proprietária se chamava Joana. Como, foradali, esses homens mandavam e desmandavam DOURAR A PÍLULAno país, a expressão casa da mãe Joana Antigamente as farmácias embrulhavam asficou conhecida como sinônimo de lugar em pílulas amargas em papel dourado paraque ninguém manda. melhorar o aspecto do remedinho. A expressão dourar a pílula significa melhorarCONTO DO VIGÁRIO a aparência de algo ruim.Duas igrejas de Ouro Preto receberam, comopresente, uma única imagem de determinada SEM EIRA NEM BEIRAsanta, e, para decidir qual das duas ficaria com Os telhados de antigamente possuíam eira ea escultura, os vigários apelaram à decisão de beira, detalhes que conferiam status ao donoum burrico. Colocaram-no entre as duas do imóvel.paróquias e esperaram o animalzinho caminhar Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de até uma delas. cultura.A escolhida pelo quadrúpede ficaria com a Estar sem eira nem beira significa que a pessoasanta. E o burrico caminhou direto para uma é pobre e não tem sustentáculo no raciocínio.delas...
    • 148 William Shakespeare A Megera Domada A Megera Domada (no original, The Taming esposo, impondo algumas privações e um tantoof the Shrew) é uma das primeiras comédias de mau humor à nova esposa, termina porescritas por William Shakespeare. Tem como amansá-la. Após diversas peripécias, dentre astema central – que compartilha com outras quais o disfarce dos rivais em professores decomédias do autor, como Much Ado About música e retórica para que pudessem fazer aNothing (“Muito Barulho por Nada”) e A corte à jovem Bianca, Lucencio e Bianca casam-Midsummer Night’s Dream (“Sonho de uma se, em segredo; Batista e Vicencio, pai deNoite de Verão”) – o casamento, a guerra dos Lucencio, terminam por aceitar o casamentosexos e as conquistas amorosas. Contudo, “A dos jovens e, ao final, Petrúquio prova a todosMegera Domada” diferencia-se ao dedicar boa que Catarina tornou-se uma esposa maisparte da ação à vida matrimonial, ou seja, aos obediente que a doce Bianca.acontecimentos que se sucedem à cerimônia Técnicas dramatúrgicasnupcial em si, já que não raro as comédiasshakespeareanas tem o casamento como final Para obter o efeito desejado em “A Megerada ação, a exemplo de Much Ado About Domada”, o riso, Shakespeare usa diversosNothing. Os principais personagens são elementos anteriormente citados. A tramaLucêncio, o filho de um rico mercador, e seu central, por exemplo, parte justamente de umaempregado Trânio; Petruchio, um rico quebra de expectativa – a forma de agir deviajante; Catarina, uma megera; e a doce e Catarina, a de uma mulher insubmissa, e ameiga Bianca. maneira pela qual ela é conquistada pelo futuro esposo, Petruqúio –, a qual é reforçadaEnredo pelo uso exacerbado do engano e das inversões A trama, relativamente simples, teria sido retratadas nos disfarces usados peloscoletada por Shakespeare de antigos contos da pretendentes para obter o acesso à jovemtradição oral e diz respeito a um pai, Batista, Bianca com o intuito de cortejá-la. Além disso,que estabelece como condição para ceder a há a forma grosseira com que Petrúquio tratamão de sua filha mais jovem, a bela e doce os demais, em contraste com todo o ambienteBianca, aos possíveis pretendentes, que sua de cavalheirismo e cortesias extremadas dosfilha mais velha, a megera Catarina, consiga que disputam o amor da irmã de sua noivaantes um esposo. Bianca tem não menos que Catarina – um contraste que é refletido atétrês pretendentes – Gremio, Hortencio e mesmo na forma de vestir e no desrespeito àsLutencio, este último um jovem forasteiro que regras de etiqueta na cena do casamento.chega à cidade de Pádua e enamora-se de O engano e a assimilação para melhor, bemimediato por Bianca. Os dois primeiros, rivais como a quebra de hierarquia, estão presentes,nas pretensões de casar-se com Bianca, fazem aliás, já no prólogo da peça, no qualum acordo para conseguir um marido para Shakespeare cria uma situação cômica na qualCatarina e, assim, deixar livre o caminho para um lorde resolve brincar com um bêbadoseguirem em sua disputa amorosa. Petrúquio, miserável que encontra em uma taverna, Sly,um nobre falido de Verona, chega à cidade em vestindo-o de roupas nobres e cercando-o debusca de um bom casamento e apaixona-se pela cuidados e serviçais, para que ele pensasse seridéia de se casar com Catarina, proposta feita a um nobre que acordava de um pesadelo noele por seu amigo Hortensio. qual vivia na pobreza absoluta. Aparentemente contra a vontade da moça, Curiosamente, tal prólogo, que serviria deo casamento de Catarina e Petrúquio é moldura à trama central de The Taming of therealizado e ambos voltam para Verona, onde o Shrew, já que esta seria uma “peça dentro da peça”, encenada para o nobre/miserável Sly
    • 149por um grupo de atores, não é retomado ao SLY – Não, nem um real. Vai, por Sãofinal do texto de Shakespeare, provavelmente Jerônimo! Vai te aquecer em tua cama fria.por uma extração feita da peça original no ESTALAJADEIRA – Já sei o que tenho a fazer;decorrer dos tempos. Há registros de versões vou chamar o inspetor do quarteirão.anteriores na qual a trama do prólogo é (Sai.)retomada ao final da peça, como o despertar de SLY – Quarteirão ou quinteirão, pouco meSly novamente como um reles bêbado na importa. Hei de responder-lhe de acordo com ataverna de onde o lorde o havia recolhido para lei. Não cederei uma polegada, rapaz. E ele queseu jogo cômico, dizendo que “havia tido o venha com jeito.mais incrível dos sonhos” e que agora ele, Sly, (Deita-se no chão e dorme. Toque de trompa.“sabia como devia tratar a mulher em casa”. Entra um nobre que volta da caçada, com Há ainda, em “A Megera Domada”, um caçadores e criados.)interessante paralelismo entre as tramas de NOBRE – Caçador, recomendo-te cuidadoLucentio/Bianca e Petrucchio/Katherine. Em com meus cachorros. A cadela Merriman deverdade, a primeira parece assumir um caráter cansada até espuma. Atrela Clowder com a dede protagonista em boa parte da peça, servindo latido forte. Não notaste, rapaz, como oa relação conflituosa de Petrucchio e Katherine Prateado fez bonito lá na dobra da sebe,como um contraponto burlesco ao amor quando o rasto já fora interrompido? Nãoproibido e sublimado de Lucentio e Bianca. quisera perdê-lo agora nem por vinte libras.Além disso, o relacionamento de Katherine e PRIMEIRO CAÇADOR – Bellman vale,Petrucchio oferece a Shakespeare a senhor, tanto quanto ele; não deixou de latir, epossibilidade de composição de um humor por duas vezes voltou a achar a pista, embora opopular que atingiria boa parte do público de rasto se achasse quase extinto. Acreditai-me:seu teatro, em oposição ao humor que a esse é o melhor de todos os cachorros.relação de Lucentio e Bianca podem oferecer, NOBRE – És um bobo; se fosse Eco mais ágil,algo mais sofisticada. valeria por doze iguais a Bellman. Mas alimenta-os bem e não descures de nenhum,Intertextualidade que amanhã teremos caça. A emissora Globo apresentou a novela O PRIMEIRO CAÇADOR – Pois não, milorde.cravo e a rosa, baseada nessa peça. O texto NOBRE (enxergando Sly) – Que é isso? Mortotambém foi adaptado para os palcos da ou bêbedo? Respira?Broadway, no musical Kiss me, Kate. No SEGUNDO CAÇADOR – Respira, sim,cinema, foi adaptada por Franco Zefirelli, com milorde. Se a cerveja não o aquecesse, o leitoElisabeth Taylor e Richard Burton nos papéis em que se encontra por demais frio fora para oprincipais. sono. NOBRE – Óh animal monstruoso! EstáTrecho da Obra: deitado como um porco. Medonha morte, como tua pintura é feia e repulsiva! VamosINTRODUÇÃO fazer uma experiência, amigos, com este bêbedo. Que tal a idéia de o pormos numaCena I cama e de o cobrirmos com lençóis bem(Num prado. Defronte de una cervejaria. macios, colocarmos-lhe anéis nos dedos, umEntram a Estalajadeira e Sly) banquete opíparo junto ao leito lhe pormos eSLY – Hei de vos dar uma tunda, palavra de solícitos serventes ao redor, quando ele ahonra. ponto estiver de acordar? Não esquecera suaESTALAJADEIRA – Um par de algemas, própria condição este mendigo?velhaco! PRIMEIRO CAÇADOR – Não teria outraSLY – Marafona! Os Slys não são velhacos. escolha, podeis crer-me.Lede as crônicas. Chegamos aqui com Ricardo, SEGUNDO CAÇADOR – Ao despertar,o conquistador. Por isso, pauca palabris. Deixai perplexo ficaria.o mundo rodar. Cessa! NOBRE – Como de um sonho adulador, ouESTALAJADEIRA – Não quereis pagar os mesmo de inócua fantasia. Carregai-o,copos que quebrastes? portanto, e preparai a brincadeira. Ponde-o
    • 150com jeito em meu mais belo quarto, que NOBRE – De todo o coração. Ainda meadornareis com quadros mui lascivos; água lembro deste rapaz, quando representava decheirosa e quente na vazia cabeça lhe passai, e filho de rendeiro.no aposento queimai lenha aromática, Era na peça em que a corte fazíeis gentilmentedeixando cheiroso todo o ambiente. Arranjai a uma senhora nobre. Vosso nome já memúsica logo que ele acordar, para que toadas esqueceu; mas é certeza: dita foi vossa partepossa ouvir agradáveis e divinas. E, se acaso com bastante engenho e naturalidade.falar, sede solícitos E com profunda e humilde UM COMEDIANTE – Vossa Graça decertoreverência lhe perguntai: “Vossa Honra que pensa no papel de Soto.deseja?” Um se apresente com bacia argêntea NOBRE – Perfeitamente! E tu o representastecheia de água de rosas em que pétalas donosas por maneira admirável. Bem; chegaste na horasobrenadem; o jarro outro sustente; o precisa, tanto mais que tenho já iniciado umguardanapo, enfim, terceiro, que lhe desporto em que vossa arte muito útil me será.perguntará: “Vossa Grandeza não quer lavar as Há aqui um nobre que esta noite deseja vermãos?” Vestes custosas tenha alguém prestes, alguma peça do vosso elenco. Mas receio quepara perguntar-lhe que muda ele prefere; outro não possais guardar a compostura à vista dalhe fale de seus cavalos e dos cães de caça, e lhe atitude extravagante de Sua Senhoria, por serdiga que a esposa ainda lastima sua certo que Sua Honra jamais foi ao teatro, oinfelicidade, convencendo-o de que esteve que explosão de riso vos causara, podendo issolunático. E se acaso declarar seu estado ofendê-lo. Pois vos digo, senhores, que severdadeiro, dizei que está sonhando, pois, de rirdes, ele torna-se impaciente a valer.fato, ele é um nobre importante. Fazei isso, UM COMEDIANTE – Nenhum receio vosgentis senhores, sim, porém, com jeito. cause isso, milorde; saberíamos conter-nos,Passatempo será muito agradável, se discrição muito embora se tratasse do mais risível sersouberdes ter em tudo. que acaso exista.PRIMEIRO CAÇADOR – Garanto-vos, NOBRE – Recolhe-os tu à copa, dando a todosmilorde, que sairemos bem do nosso papel, bom tratamento, sem que lhes faleça coisasendo certeza vir ele a convencer-se, tão- nenhuma do que houver em casa.somente por nossa diligência, de que é tudo (Sai um criado com os comediantes.)quanto lhe sugerirmos.NOBRE – Levantai-o com bem jeito e na camao ponde logo. E quando despertar, todos apostos WILLIAM SHAKESPEARE (Stratford-(Sly é carregado. Toque de trombeta.) upon-Avon, 23 de Abril de 1564 — Stratford-Rapaz, vai logo ver o que esse toque de upon-Avon, 23 de Abril de 1616)era umtrombeta anuncia. dramaturgo e poeta inglês, amplamente(Sai um criado.) considerado como o maior dramaturgo daCom certeza é algum fidalgo que se encontra Língua inglesa e um dos mais influentes noem viagem e se deteve aqui para descanso. mundo ocidental. Suas obras que(Volta o criado.) permaneceram ao longo dos tempos consistemEntão, que é que há? de 38 peças, 154 sonetos, dois poemas deCRIADO – Com permissão de Vossa narrativa longa, e várias outras poesias. SuasSenhoria, os atores, que oferecem a Vossa obras são mais atualizadas do que as deHonra os serviços. qualquer outro dramaturgo. Muitos de seusNOBRE – Manda-os vir. textos e temas, especialmente os do teatro,(Entram comediantes.) permaneceram vivos até aos nossos dias, sendoAmigos, sois bem-vindos. revisitados com freqüência pelo teatro,COMEDIANTES – Obrigados ficamos a Vossa televisão, cinema e literatura. Entre suas obrasHonra. é impossível não ressaltar Romeu e Julieta, queNOBRE – É intenção vossa passar a noite se tornou a história de amor por excelência eaqui? Hamlet, que possui uma das frases maisUM COMEDIANTE – Caso Vossa Honra se conhecidas da língua inglesa: To be or not todigne de aceitar nossos serviços.
    • 151be: that’s the question (Ser ou não ser, eis a Vidaquestão). Primeiros anos É certo que muito pouco se sabe sobre a Acredita-se que William Shakespeare foivida de William Shakespeare. Shakespeare filho de John Shakespeare, um bem-sucedidonasceu e foi criado em Stratford-upon-Avon. luveiro e sub-prefeito de Straford (depoisAos 18 anos, segundo alguns estudiosos, casou- comerciante de lãs), vindo de Snitterfield, ese com Anne Hathaway, que lhe concedeu três Mary Arden, filha afluente de um ricofilhos: Susanna, e os gêmeros Hamnet e Judith proprietário de terras. Embora a sua data deQuiney. Entre os anos 1585 e 1592, William nascimento seja desconhecida, admite-se a decomeçou uma carreira bem-sucedida em 23 de Abril de 1564 com base no registro deLondres como ator, dramaturgo e proprietário seu batizado, a 26 do mesmo mês, devido aoda companhia de teatro Lord Chamberlain’s costume, à época, de se batizarem as criançasMen, mais tarde conhecida como King’s Men. três dias após o nascimento. Shakespeare foi oParece que ele reformou a Stratford em torno terceiro filho de uma prole de oito e o maisde 1613, morrendo três anos depois. velho a sobreviver. Há especulações sobre sua sexualidade, Muitos concordam que William foisobre suas convicções religiosas, e sobre a educado em uma excelente grammar schoolsautoria de suas peças, pois há especulativas que da época, um tipo de preparação para ana realidade ele pode nunca ter existido, isto é, Universidade. No entanto, Park Honan conta,talvez suas obras tenham sido compostas por em Shakespeare, uma vida que John foioutras pessoas. Essa última especulação é obrigado a tirá-lo desta escola, quando Williamextensa e tem diversas suposições, desde a de deveria ter quinze ou dezesseis anos (algumasque esses autores assinavam como William fontes citam doze anos). Na década de 1570,Shakespeare, escondendo sua identidade, até a John passou a ter um declínio econômico quede que William Shakespeare foi provavelmente o impossibilitou junto aos credores e teve umum ator passando-se como o autor das obras, desagradável descenso da sociedade. Acredita-que na verdade eram compostas por outros se que, por causa disso, logo o jovemdramaturgos. Shakespeare possuiu uma formação colegial Produziu suas obras mais famosas entre incompleta. Segundo certos biógrafos,1590 e 1613. Suas primeiras peças foram Shakespeare precisou trabalhar cedo paraprincipalmente comédias e histórias, gêneros ajudar a família, aprendendo, inclusive, a tarefado qual ele refinou com sofisticação. Em de esquartejar bois e até abater carneiros.seguida, escreveu principalmente tragédias até Em 1582, aos 18 anos de idade, casou-se1608, incluindo Hamlet, Rei lear e Macbeth, com Anne Hathaway, uma mulher de 26 anos,considerados alguns dos melhores exemplos do que estava grávida. Há fontes que dizem queidioma inglês. Em sua última fase, escreveu Shakespeare queria ter uma vida mais favoráveltragicomédias e colaborou com outros ao lado de uma esposa rica. O casal teve umadramaturgos. Shakespeare era um respeitado filha, Susanna, e dois anos depois, os gêmeospoeta e dramaturgo em sua época, mas sua Hamnet e Judith. Após o nascimento dosreputação só chegou ao nível em que está hoje gêmeos, há pouquissimos vestígios históricos aa partir do século 19. O Romantismo, em respeito de Shakespeare, até que ele éparticular, aclamou a genialidade de mencionado como parte da cena teatral deShakespeare. Londres em 1592. Devido a isso, estudiosos A maioria das informações que se fazem referem-se aos anos 1585 e 1592 como os Anosacerca de William Shakespeare são meras perdidos de Shakespeare.especulações derivadas de estudos, leituras, As tentativas de explicar por onde andouinterpretações, pontos de vistas, hipóteses, William Shakespeare durante esses seis anos,lógicas. A única coisa que se tem certeza foi o motivo pelo qual surgiram dezenas deabsoluta é que as peças atribuídas a anedotas envolvendo o dramaturgo.Shakespeare marcaram praticamente todos os Nicholagas Rowe, o primeiro biógrafo deséculos seguintes, começando pelo tempo em Shakespeare, conta que ele fugiu de Stratfordque viveu. para Londres devido à uma acusação envolvendo o assassinato de um veado numa
    • 152caça furtiva, em propriedade alheia foi lembrando-se dos textos dos mestres(provavelmente de Thomas Lucy). Outra dramáticos da escola, e começou ahistória do século 18 é a de que Shakespeare experimentar como seria escrever para teatro.começou uma carrreira teatral com os Lord Desde 1594, as peças de Shakespeare foramChamberlains. realizadas apenas pelo Lord Chamberlain’s Men. Com a morte de Elizabeth I, em 1603, aLondres e carreira teatral companhia passou a atribuir uma patente real Foi em Londres onde se atribui a ao novo rei, James I da Inglaterra, mudandoShakespeare seus momentos de maiores seu nome para King’s Men (Homens do Rei).oportunidades para destaque. Não se sabe de Todas as fontes marcam o ano de 1599exato quando Shakespeare começara a escrever, como o ano da fundação oficial do Globemas alusões contemporâneas e registros de Theatre. Foi fundado por James Burbage eperformances mostram que várias de suas peças ostentava uma insígna de Hércules sustentandoforam representadas em Londres em 1592. o globo terrestre. Registros de propriedades,Neste período, o contexto histórico favorecia o compras, investimentos de Shakespeare odesenvolvimento cultural e artístico, pois a tornou um homem rico. William era sócio doInglaterra vivia os tempos de ouro sob o Globe. O edifício tinha forma octogonal, comreinado da rainha Elizabeth I. O teatro deste abertura no centro. Não existia cortina e, porperíodo, conhecido como teatro elisabetano, causa disso, os personagens mortos deveriamfoi de grande importância e primor para os ser retirados por soldados, como mostra-se emingleses da alta sociedade. Na época, o teatro Hamlet. Inclusive, todos os papéis eramtambém era lido, e não apenas assistido e representados pelos homens, sendo os maisencenado. Havia companhias que compravam jovens os encarregados de fazerem papéisobras de autores em voga e depois passavam a femininos. Em 1597, fontes dizem que elevender o repertório à s tipografias. As comprou a segunda maior casa em Stratford,tipografias imprimiam os textos e vendiam a New Place. De 1601 a 1608, especula-se queum público leitor que crescia cada vez mais. ele esteve motivado para escrever Hamlet,Isso fazia com que as obras ficassem em Otelo e Macbeth. Em 1613, O Globe Theatredomínio público. foi destruído pelo fogo. Alguns biógrafos dizem Biógrafos sugerem que sua carreira deve ter que foi durante a representação da peça Henrycomeçado a qualquer momento a partir de VIII. Shakespeare teria estado um tantomeados dos anos 1580. Ao lado do The Globe, cansado e por esse motivo resolveu se desligarhaveria um matadouro, onde aprendizes do do Globe e voltar para Stratford, onde aaçougue deveriam trabalhar. Ao chegar em família o esperava.Londres, há uma tradição que diz queShakespeare não tinha amigos, dinheiro e Últimos anos e morteestava pobre, completamente arruinado. Após 1606-7, Shakespeare escreveu peçasSegundo um biógrafo do século XVIII, ele foi menores, que jamais são atribuídas como suasrecebido pela companhia, começando num após 1613. Suas últimas três obras foramserviço pequeno, e logo fora subindo de cargo, colaborações, talvez com John Fletcher, quechegando provavelmente à carreira de ator. Há sucedeu-lhe com o cargo de dramaturgo noreferências que apresentam Shakespeare como King’s Men. Escreveu a sua última peça, Aum cavalariço. Ele dividiria seu emprego entre Tempestade, terminada somente em 1613.tomar conta dos cavalos dos espectadores do Então, Rowe foi o primeiro biógrafo a dizerteatro, atuar no palco e auxiliar nos bastidores. que Shakespeare teria voltado para StratfordSegundo Rowe, Shakespeare entrou no teatro algum tempo antes de sua morte; mas acomo ponto, encarregado de avisar os atores o aposentadoria de todo o trabalho era raramomento de entrarem em cena. O então naquela época; e Shakespeare continuou acavalariço provavelmente tinha vontade mesmo visitar Londres. Em 1612, foi chamado comoera de atuar e de escrever. testemunha em um processo judicial relativo Seu talento limitante como ator teria o ao casamento de sua filha Mary. Em março deinspirado a conhecer como funcionava o teatro 1613, comprou uma gatehouse no priorado dee seu poeta interior foi floreando, floreando, Blackfriars; a partir de novembro de 1614,
    • 153ficou várias semanas em Londres ao lado de Com a morte de Shakespeare, a Inglaterraseu genro John Hall. passou por alguns momentos políticos e William Shakespeare morreu em 23 de religiosos. Jaime I morreu em 27 de março deAbril de 1616, mesmo dia de seu aniversário. 1625, em Theobalds House, e tão logo suaSusanna havia se casado com um médico, John morte foi anunciada, Carlos I, seu filho comHall, em 1607, e Judith tinha se casado com Ana da Dinamarca, assumiu o reinado. ÉThomas Quiney, um vinificador, dois meses válido lembrar que, com a morte de Elizabethantes da morte do pai. A morte de Shakespeare I, Shakespeare e os demais dramaturgos daenvolve mistério ainda hoje. No entanto, é época não foram prejudicados. Jaime I, oóbvio que existam diversas anedotas. A que sucessor da rainha, contribuiu para omais se propagou é a de que Shakespeare florescimento artístico e cultural inglês; era umestaria com uma forte febre, causada pela apaixonado por teatro.embriaguez. Recebendo a visita de Ben Jonson Em 1649, a Câmara dos Comuns cria umae de Michael Drayton, Shakespeare bebeu corte para o julgamento de Carlos I. Era ademais e, segundo diversos biógrafos, seu primeira vez que um monarca seria julgado naestado se agravou. história da Inglaterra. No dia 29 de janeiro do mesmo ano, Carlos I foi condenado a morte Bom amigo, por Jesus, abstenha-te de profanar o por decapitação. Ele foi decapitado no diacorpo aqui enterrado. Bendito seja o homem que seguinte. Foi enterrado no dia 7 de fevereirorespeite estas pedras, e maldito o que remover meus na Capela de St.George do Castelo deossos. Windsor em uma cerimônia privada.Epitáfio na tumba de Shakespeare Peças Admite-se que Shakespeare deixou comoherança sua segunda melhor cama para a Os eruditos costumam anotar quatroesposa. Em sua vontade, ele deixou a maior períodos na carreira de dramaturgia departe de sua propriedade à sua filha mais velha, Shakespeare. Até meados de 1590, escreveuSusanna. Essa herança intriga biógrafos e principalmente comédias, influenciado porestudiosos porque, afinal, como Anne modelos das peças romanas e italianas. OHathaway aguentaria viver mais ou menos segundo período iniciou-se aproximadamentevinte anos cuidando de seus filhos, enquanto em 1595, com a tragédia Romeu e Julieta eShakespeare fazia fortuna em Londres? O terminou com A Tragédia de Júlio César, emescritor inglês Anthony Burgess tem uma 1599. Durante esse tempo, escreveu o que sãoexplicação ficcional sobre esse assunto. Em consideradas suas grandes comédias e histórias.Nada como o Sol, um livro de sua autoria, ele De 1600 a 1608, o que chamam de “períodocita Shakespeare espantado em um quarto sombrio”, Shakespeare escreveu suas maisdiante de seu irmão Richard e de sua esposa prestigiadas tragédias: Hamlet, Rei lear eAnne; estavam nus e abraçados. Macbeth. E de aproximadamente 1608 a 1613, Os restos mortais de Shakespeare foram escrevera principalmente tragicomédias esepultados na igreja da Santíssima Trindade romances.(Holy Trinity Church) em Stratford-upon- Os primeiros trabalhos gravados deAvon. Seu túmulo mostra uma estátua Shakespeare são Ricardo III’ e as três partes devibrante, em pose de literário, mais vivo do que Henry V, escritas em 1590, adiantados durantenunca. A cado ano, na comemoração de seu uma moda para o drama histórico. É difícilnascimento, é colocada uma nova pena de ave datar as primeiras peças de Shakespeare, masna mão direita de sua estátua. Acredita-se que estudiosos de seus textos sugerem que AShakespeare temia o costume de sua época, em Megera Domada, A Comédia dos Erros e Titusque provavelmente havia a necessidade de Andronicus pertecem também ao seu primeiroesvaziar as mais antigas sepulturas para abrir período. Suas primeiras histórias, parecemespaços à novas e, por isso, há um epitáfio na dramatizar os resultados destrutivos e fracos ousua lápide, que anuncia a maldição de quem corruptos do Estado e têm sido interpretadasmover seus ossos. como uma justificação para as origens da dinastia Tudor. Suas composições foram
    • 154influenciadas por obras de outros dramaturgos Em Rei Lear, o velho rei comete o erro deisabelinos, especialmente Thomas Kyd e abdicar de seus poderes, provocando cenas queChristopher Marlowe, pelas tradições do teatro levam ao assassinato de sua filha e à tortura e amedieval e pelas peças de Sêneca. A Comédia cegueira do Conde de Glócester.dos Erros também foi baseada em modelos Segundo o crítico Frank Kermode, “a peçaclássicos. não oferece nenhum personagem divino ou As clássicas comédias de Shakespeare, bom, e não supre da audiência qualquer tipocontendo plots (centro da ação, o núcleo da de alívio de sua crueldade”.história) duplos e sequências cênicas de Em Macbeth, a mais curta e compactadacomédia, cederam, em meados de 1590, para tragédia shakesperiana, a incontroláveluma atmosfera romântica em que se ambição de Macbeth e sua esposa, Ladyencontram suas maiores comédias. Sonho de Macbeth, de assassinar o rei legítimo e usurparuma Noite de Verão é uma mistura de seu trono, até à própria culpa de ambos dianteromance espirituoso, fantasia, e envolve deste ato, faz com que os dois se destruam.também a baixa sociedade. A sagacidade das Portanto, Hamlet seria seu personagemanotações de Muito Barulho por Nada’, a talvez mais admirado. Hamlet reflete antes daexcelente definição da área rural de Como ação em si, é inteligente, perceptivo,Gostais, e as alegres sequências cênicas de observador, profundamente proprietário deNoite de Reis completam essa sequência de uma grande sabedoria diante dos fatos. Suasótimas comédias. Após a peça lírica Ricardo II, últimas e grandes tragédias, Antônio eescrito quase inteiramente em versículos, Cleópatra e Coriolano contêm algumas dasShakespeare introduziu em prosa as histórias melhores poesias de Shakespeare e foramdepois de 1590, incluindo Henry VI, parte I e consideradas as tragédias de maior êxito peloII, e Henry V. poeta e crítico Ts Eliot. Seus personagens tornam-se cada vez mais No seu último período, Shakespearecomplexos e alternam entre o cômico e o centrou-se na tragicomédia e no romance,dramático ou o grave, ou o trágico, completando suas três mais importantes peçasexpandindo, dessa forma, suas próprias dessa fase: Cimberlino, Conto de Inverno e Aidentidades. Esse período entre essas tais Tempestade, e também Péricles, príncipe dealternações começa e termina com duas Tiro. Menos sombrias do que as tragédias,tragédias: Romeu e Julieta, sem dúvida alguma essas quatro peças revelam um tom mais gravesua peça mais famosa e a história sobre a da comédia que costumavam produzir naadolescência, o amor e a morte; e Júlio César. década de 1590, mas suas personagensO período chamado “período trágico” durou terminavam com reconciliação e o perdão dede 1600 a 1608, embora durante esse período seus erros. Certos comentadores vêem essaele tenha escrito também a “peça cômica” mudança de estilo como uma forma de visãoMedida por medida. Muitos críticos acreditam da vida mais serena por parte de Shakespeare.que as maiores tragédias de Shakespeare Shakespeare colaborou com mais doisrepresentam o pico de sua arte. trabalhos, Henry VIII e Dois parentes nobres, Seu primeiro herói, Hamlet, provavelmente provavelmente com John Fletcher.é o personagens shakesperiano mais discutidodo que qualqueis outros, em especial pela sua Performancesfrase “Ser ou não ser, eis a questão”. Ao Ainda não está claro para as companhias ascontrário do reflexivo e pensativo Hamlet, os datas exatas de quando Shakespeare escreveuheróis das tragédias que se seguiram, em suas primeiras peças. O título da página daespecial Otelo e Rei Lear, são precipitados edição de 1594 de Titus Andronicus revela quedemais e mais agem do que pensam. Essas a peça havia sido encenada por três diferentesprecipitações sempre acabam por destruir o companhias. Após a Peste negra de 1592-3, asherói e frequentemente aqueles que ele ama. peças shakesperianas foram realizadas por sua Em Otelo, o vilão Iago acaba assassinando própria empresa no The Theatre e no Thesua mulher inocente, por quem era Curtain, em Shoreditch. As multidõesapaixonado. londrinas foram ver a primeira parte de Henrique IV. Depois de uma disputa com o
    • 155caseiro, o teatro foi desmantelado e a madeira edição, que o First Folio define como “stol’nusada para a construção do Globe Theatre, a and surreptitious copies”. No entanto, é neleprimeira casa de teatro construída por atores em que se encontram um material extenso epara atores. A maioria das peças shakesperianas rico do trabalho de Shakespeare.pós-1599 foram escritas para o Globe, As peças shakesperianas são peculiares,incluindo Hamlet, Otelo e Rei Lear. complexas, misteriosas e com um fundo Quando a Lord Chamberlain’s Men mudou psicológico espantoso. Uma das qualidades doseu nome para King’s Men, em 1603, eles trabalho de Shakespeare foi justamente suaentraram com uma relação especial com o capacidade de individualizar todos seusnovo rei, James I. Embora as performances personagens, fazendo com que cada um serealizadas são díspares, o King’s Men realizou tornasse facilmente identificado. Shakespearesete peças shakesperianas perante à corte, entre também era excêntrico e se adaptava a gêneros1 de Novembro de 1604 e 31 de Outubro de diferentes. Trabalhando com o sombrio e com1605, incluindo duas performances de O o divertido ou cômico, Shakespeare conseguiumercador de Veneza. Depois de 1608, eles a chegar perto da unanimidade.realizaram no teatro Blackfriars Theatre. A Diversos filósofos e psicanalistas estudarammudança interior, combinada com a moda as obras de Shakespeare e a maioria encontroujacobina de aprimorar a montagem dos palcos uma riqueza psicológica e existencial. Entree cenários, permitiu com que Shakespeare eles, Arthur Schopenhauer, Freud e Goethepudesse introduzir uma fase com dispositivos e são os que mais se destacam. No Brasil,recursos mais elaborados. Em Cibelino, por Machado Assis foi muito influenciado peloexemplo, “Júpiter desce em trovão e dramaturgo. Diversas fontes alegam querelâmpagos, sentado em uma águia e lança um Bentinho, de Dom Casmurro, seja a versãoraio”. tropical de Otelo. A revolta dos canjicas, em O Os atores da empresa de Shakespeare Alienista, é provavelmente uma outra versão daincluem o famoso Richard Burbage, William revolta fracassada do Jack Cage, descrita emKempe, Henry Condell e John Heminges. Henrique IV. Na introdução de A Cartomante,Burbage desempenhou um papel de liderança Assis utiliza a frase “há mais coisas entre o céuem muitas performances das peças de e a terra do que supõe vossa vã filosofia”, fraseShakespeare, incluindo Richard III, Hamlet, que pode ser encontrada em Hamlet.Otelo e Rei Lear. O popular ator cômico WillKempe encenou o agente Peter em Romeu e PoemasJulieta e também encenou em Muito barulho Em 1593 e 1594, quando os teatros forampor nada. Kempe fora substituído na virada do fechados por causa da peste, William publicouséculo XVI por Robert Armin, que dois poemas eróticos, hoje conhecidos comodesempenhou papéis como a de Touchstone Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia. Eleem Como Gostais e os palhaços no Rei Lear. os dedica a Henry Wriothesley, o que fez comSabe-se que em 1613, Sir Henry Wotton que houvesse várias especulações a respeitoencenou Henry VIII e foi nessa encenação que dessa dedicatória, fato esse que veremos maiso Globe foi devorado por um incêndio tarde. Em Vênus e Adônis, um inocentecausado por um canhão. Imagina-se que Adônis rejeita os avanços sexuais de VênusShakespeare, já retirado em Stratford-on-Avon, (mitologia); enquanto que o segundo poemaretornou para auxiliar na recuperação do descreve a virtuosa esposa Lucrécia que éprédio. violada sexualmente. Ambos os poemas, influenciados pela obra Metamorfoses, doImortalidade poeta latino Ovídio, demonstram a culpa e a Em 1623, John Heminges e Henry Condell, confusão moral que resultam numadois amigos de Shakespeare no King’s Men, determinada volúpia descontrolada. Ambospublicaram uma compilação póstuma das obras tornaram-se populares e foram diversas vezesteatrais de Shakespeare, conhecida como First republicados durante a vida de Shakespeare.Folio. Contém 36 textos, sendo que 18 Uma terceira narrativa poética, A Lover’simpressos pela primeira vez. Não há evidências Complaint, em que uma jovem lamenta suade que Shakespeare tenha aprovado essa sedução por um persuasivo homem que a
    • 156cortejou, fora impresso na primeira edição do Conto do InvernoSonetos em 1609. A maioria dos estudiosos Cimbelinohoje em dia aceitam que fora Shakespeare A Megera Domadaquem realmente escreveu o soneto A Lover’s A TempestadeComplaint. Os críticos consideram que suas Como Quiseresqualidades são finas e dirigidas por efeitos. Tudo está bem quando termina bem As Alegres Comadres de WindsorSonetos Trabalhos de Amor Perdidos Publicado em 1609, a obra Sonetos foi o Périclesúltimo trabalho publicado de Shakespeare semfins dramáticos. Os estudiosos não estão certos Tragédiasde quando cada um dos 154 sonetos da obra Tito Andrônicoforam compostos, mas evidências sugerem que Romeu e JulietaShakespeare as escreveu durante toda sua Júlio Césarcarreira para leitores particulares. Macbeth Ainda fica incerto se estes números todos Antônio e Cleópatrarepresentam pessoas reais, ou se abordam a Coriolanovida particular de Shakespeare, embora Timão de AtenasWordsworth acredite que os sonetos abriram Rei Learsuas emoções. A edição de 1609 foi dedicada a Otelo, o Mouro de Veneza“Mr. WH”, creditado como o único procriados Hamletdos poemas. Não se sabe se isso foi escrito por Tróilo e CréssidaShakespeare ou pelo seu editor Thomas A TempestadeThorpe, cuja sigla aparece no pé da página dadedicação; nem se sabe quem foi Mr. WH, Dramas Históricosapesar de inúmeras teorias terem surgido a Rei Joãorespeito. Os críticos elogiam os sonetos e Ricardo IIcomentam que são uma profunda meditação Ricardo IIIsobre a natureza do amor, a paixão sexual, a Henrique IV, Parte 1procriação, a morte e o tempo. Henrique IV, Parte 2 Henrique VPrincipais obras Henrique VI, Parte 1 Henrique VI, Parte 2Comédias Henrique VI, Parte 3Sonho de uma Noite de Verão Henrique VIIIO Mercador de Veneza Eduardo IIIA Comédia dos Erros Fontes:Os Dois Cavalheiros de Verona Biblioteca Eletronica. In Revista do CD Roim. n.156. julhoMuito Barulho por Nada 2008. Editora Europa. (CD-ROM).Noite de Reis http://pt.wikipedia.orgMedida por Medida Lima Barreto A Biblioteca À proporção que avançava em anos, mais bandas da Rua do Conde, por onde passavamnítidas lhe vinham as reminiscências das então as estrondosas e fagulhentascousas da casa paterna. Ficava ela lá pelas “maxambombas” da Tijuca. Era um casarão
    • 157grande, de dois andares, rés-do-chão, chácara O aparelho de chá, o usual, o de todo o dia,cheia de fruteiras, rico de salas, quartos, como era lindo! Feito de uma louça negra, comalcovas, povoado de parentes, contraparentes, ornatos em relevo, e um discreto esmalte muitofâmulos, escravos; e a escada que servia os dois igual de brilho – donde viera aquilo? Dapavimentos, situada um pouco além da China, da Índia?fachada, a desdobrar-se em toda a largura do E a gamela de bacurubu em que a Inácia, aprédio, era iluminada por uma grande e larga sua ama, lhe dava banho – onde estava? Ah! Asclarabóia de vidros multicores. Todo ele era mudanças! Antes nunca tivesse vendido a casaassoalhado de peroba de Campos, com vastas paterna…tábuas largas, quase da largura da tora de que A casa é que conserva todas as recordaçõesnasceram; e as esquadrias, portas, janelas, eram de família. Perdida que seja, como que ela sede madeira de lei. vinga fazendo dispersar as relíquias familiares Mesmo a cocheira e o albergue da sege eram que, de algum modo, conservavam a alma e ade boa madeira e tudo coberto de excelentes e essência das pessoas queridas e mortas… Elepesadas telhas. Que cousas curiosas havia entre não podia, entretanto, manter o casarão… Foios seus móveis e alfaias? Aquela mobília de o tempo, as leis, o progresso…jacarandá-cabiúna com o seu vasto canapé, de Todos aqueles trastes, todos aquelestrês espaldares, ovalados e vastos, que mais objetos, no seu tempo de menino, sem grandeparecia uma cama que mesmo um móvel de valia, hoje valeriam muito… Tinha ainda osala; aqueles imensos consolos, pesados, e bule do aparelho de chá, um escumador, umainda mais com aqueles enormes jarrões de guéridon com trabalho de embutido… Se eleporcelana da Índia que não vemos mais; tivesse (insistia) conservado a casa, tê-los-iaaqueles desmedidos retratos dos seus todos hoje, para poder rever o perfil aquilino,antepassados, a ocupar as paredes de alto duro e severo do seu pai, tal qual estava ali, noabaixo – onde andava tudo aquilo? Não sabia… retrato de Agostinho da Mota, professor deVendera ele, aqueles objetos? Alguns; e dera academia; e também a figurinha de Sèvres quemuitos. era a sua mãe em moça, mas que os retratistas Umas cousas, porém, ficaram com o irmão da terra nunca souberam pôr na tela. Mas nãoque morrera cônsul na Inglaterra e lá deixara a pôde conservar a casa… A constituição daprole; outras, com a irmã que se casara para o família carioca foi insensivelmente sePará… Tudo, enfim, desaparecera. O que ele modificando; e ela era grande demais para aestranhava ter desaparecido eram as alfaias de sua. De resto, o inventário, as partilhas, aprata, as colheres, as facas, o coador de chá… E diminuição de rendas, tudo isso tirou-a dele. Ao espevitador de velas? Como ele se lembrava culpa não era sua, dele, era da marcha dadesse utensílio obsoleto, de prata! sociedade em que vivia… Era com ternura que se recordava dele, nas Essas recordações lhe vinham sempre e cadamãos de sua mãe, quando, nos longos serões, vez mais fortes, desde os quarenta e cinco anos;na sala de jantar, à espera do chá – que chá! – estivesse triste ou alegre, elas lhe acudiam. Seuele o via aparar os morrões das velas do pai, o Conselheiro Fernandes Carregal,candelabro, enquanto ela, sua mãe, não tenente-coronel do Corpo de Engenheiros einterrompia a história do Príncipe Tatu, que lente da Escola Central, era filho do sargento-estava contando… mor de engenharia e também lente da A tia Maria Benedita, muito velha, ao lado, Academia Real Militar que o Conde desentada na estreita cadeira de jacarandá, tendo Linhares, ministro de Dom João VI, fundouo busto ereto, encostado ao alto espaldar, em 1810, no Rio de Janeiro, com o fim de seficava do lado, com os braços estendidos sobre desenvolverem entre nós os estudos de ciênciasos da cadeira, o tamborete aos pés, olhando matemáticas, físicas e naturais, como lá diz oatenta aquela sessão familiar, com o seu agudo ato oficial que a instituiu. Desta academiaolhar de velha e a sua hierática pose de estátua todos sabem como vieram a surgir a atualtebana tumular. Eram os nhonhôs e nhanhãs, Escola Politécnica e a extinta Escola Militar danas cadeiras; e as crias e molecotes acocorados Praia Vermelha. O filho de Carregal, porém,no assoalho, a ouvir… Era menino… não passara por nenhuma delas; e, apesar de farmacêutico, nunca se sentira atraído pela
    • 158especialidade dos estudos do pai. Este dedicara- os Principia de Newton, não a primeira edição,se, a seu modo e ao nosso jeito, à Química. mas uma de Cambridge muito apreciada; e asTinha por ela uma grande mania… edições princeps da Méchanique Analytique,bibliográfica. A sua biblioteca a esse respeito de Lagrange, e da Géométrie Descriptive, deera completa e valiosa. Possuía verdadeiros Monge.“incunábulos”, se assim se pode dizer, da Era uma biblioteca rica assim de obras dequímica moderna. No original ou em tradução, ciências físicas e matemáticas que o filho dolá havia preciosidades. De Lavoisier, Conselheiro Carregal, há quarenta anos paraencontravam-se quase todas as memórias, além cinqüenta, piedosamente carregava de casa emdo seu extraordinário e sagacíssimo Traité casa, aos azares das mudanças desde queÉlémentaire de Chimie, présenté dans un perdera o pai e vendera o casarão em que elaordre et d’après les découvertes modernes. quietamente tinha vivido durante dezena de O velho lente, no dizer do filho, não podia anos, a gosto e à vontade.pegar nesse respeitável livro que não fosse Poderão supor que ela só tivesse obras dessatomado de uma grande emoção. especialidade; mas tal não acontecia. Havia as — Veja só meu filho, como os homens são de outros feitios de espírito. Encontravam-se lámaus! Lavoisier publicou esta maravilhosa obra os clássicos latinos; a Voyage autour du Mondeno início da Revolução, a qual ele de Bougainville; uma Nouvelle Héloise, desinceramente aplaudiu… Ela o mandou para o Rousseau, com gravuras abertas em aço; umacadafalso—sabe você por quê? linda edição dos Lusíadas, em caracteres — Não, papai. elzevirianos; e um exemplar do Brasil e a — Porque Lavoisier tinha sido uma espécie Oceania, de Gonçalves Dias, com umade coletor ou cousa parecida no tempo do rei. dedicatória, do próprio punho do autor, aoEle o foi, meu filho, para ter dinheiro com que Conselheiro Carregal.custeasse as suas experiências. Veja você como Fausto Carregal, assim era o nome do filho,são as cousas e como é preciso ser mais do que até ali nunca se separara da biblioteca que lhehomem para bem servir aos homens… coubera como herança. Do mais que herdara, Além desta gema que era a sua menina dos tudo dissipara, bem ou mal; mas os livros doolhos, o Conselheiro Carregal tinha também o conselheiro, ele os guardara intatos eProust, Novo Sistema de Filosofia Química; o conservados religiosamente, apesar de não osPriestley, Expériences sur les différentes espèces entender. Estudara alguma cousa, era atéd’air; as obras de Guyton de Morveau; o Traité farmacêutico, mas sempre vivera alheado dode Berzelius, tradução de Hoefer e Esslinger; a que é verdadeiramente a substância dos livros—Statique Chimique do grande Berthollet; a o pensamento e a absorção da pessoa humanaQuímica Orgânica de Liebig, tradução de neles.Gerhardt – todos livros antigos e sólidos, Logo que pôde, arranjou um empregosendo dentre eles o mais moderno as Lições de público que nada tinha a ver com o seuFilosofia Química, de Würtz, que são de 1864; diploma, afogou-se no seu ofício burocrático,mas, o estado do livro dava a entender que esqueceu-se do pouco que estudara, chegou anunca tinham sido consultadas. Havia mesmo chefe de seção, mas não abandonou jamais osalgumas obras de alquimia, edições dos livros do pai que sempre o acompanharam, e asprimeiros tempos da tipografia, enormes, que suas velhas estantes de vinhático comexigem ser lidas em altas escrivaninhas, o leitor incrustação de madrepérola.de pé, com um burel de monge ou nigromante; A sua esperança era que um dos seus filhose, entre os desta natureza, lá estava um os viesse a entender um dia; e todo o seuexemplar do – Le Livre des Figures esforço de pai sempre se encaminhou para isso.Hiéroglyphiques que a tradição atribui ao O mais velho dos filhos, o Álvaro, conseguiualquimista francês Nicolau Flamel. ele matriculá-lo no Pedro II; mas logo, no Sobravam, porém, além destes, muitos segundo ano, o pequeno meteu-se emoutros livros de diferente natureza, mas calaçarias de namoros, deu em noivo e, mal feztambém preciosos e estimáveis: um exemplar dezoito anos, empregou-se nos correios,da Geometria de Euclides, em latim, impresso praticante pro-rata, casando-se daí em pouco.em Upsal, na Suécia, nos fins do século XVI; Arrastava agora uma vida triste de casal pobre,
    • 159moço, cheio de filhos, mais triste era ele ainda seu pai tinha horror ao laboratório, àporquanto, não havendo alegria naquele lar, experiência feita com as suas mãos, elenem por isso havia desarmonia. Marido e mesmo…mulher puxavam o carro igualmente… O seu filho, porém, o Jaime, não seria O segundo filho não quisera ir além do assim. Ele o queria com o maçarico, com ocurso primário. Empregara-se logo em um bico de Bunsen, com a baqueta de vidro, comescritório comercial, fizera-se remador de um o copo de laboratório…clube de regatas, ganhava bem e andava pelas — Irene tu vais ver como o Jaime vai alémtolas festas domingueiras de sport, com umas do avô! Fará descobertas.calças sungadas pelas canelas e um canotier Sua mulher, entretanto, filha de um clínicomuito limpo, tendo na fita uma bandeirinha que tivera fama quando moço, não tinhaidiota. nenhum entusiasmo por essas cousas. A vida, A filha casara-se com um empregado da para ela, se resumia em viver o maisCâmara Municipal de Niterói e lá vivia. simplesmente possível. Nada de grandes Restava-lhe o filho mais moço, o Jaime, tão esforços, ou mesmo de pequenos, para se irbom. tão meigo e tão seu amigo, que lhe além do comum de todos; nada de escaladas,pareceu, quando veio ao mundo, ser aquele de ascensões; tudo terra-a-terra, muito cáque estava destinado a ser o inteligente, o embaixo… Viver, e só! Para que sabedorias?intelectual da família, o digno herdeiro do avô Para que nomeadas? Quase nunca davame do bisavô. dinheiro e quase sempre desgostos. Por isso, Mas não foi; e ele se lembrava agora como jamais se esforçou para que os seus filhosrecomendava sempre à mulher, nos primeiros fossem além do ler, escrever e contar; e issoanos de vida do caçula, ao ir para a repartição: mesmo a fim de arranjarem um emprego que — Irene, cuida bem do Jaime! Ele é que vai não fosse braçal, pesado ou senil.ler os papéis do meu pai. O Jaime cresceu sempre muito meigo, Porque o pequeno, em criança, era tão muito dócil, muito bom; mas com venetasdoentinho, tão mirrado, apesar dos seus olhos estranhas. Implicava com uma vela acesa emmuito claros e vivos, que o pai temia fosse com cima de um móvel porque lhe pareciam osele a sua última esperança de um herdeiro círios que vira em torno de um defunto, nacapaz da biblioteca do conselheiro. vizinhança; quando trovejava ficava a um canto Jaime tinha nascido quando o mais velho calado, temeroso; o relâmpago fazia-oentrava nos doze anos; e o inesperado daquela estremecer de medo, e logo após, ria-se de umconcepção alegrava-lhe muito, mas inquietara a modo estranho… Não era contudo doente;mãe. com o crescimento, até adquirira certa Pelos seus quatro anos de idade, Fausto robustez. Havia noites, porém, em que tinhaCarregal já tinha podido ver o uma espécie de ataque, seguido de um chorodesenvolvimento dos dois outros seus filhos convulso, uma cousa inexplicável que passava evarões e havia desesperado de ver qualquer um voltava sem causa, nem motivo. Quandodeles entender, quer hoje ou amanhã, os livros chegou aos sete anos, logo o pai quis pôr-lhe nado avô e do bisavô, que jaziam limpos, mão a cartilha, porquanto vinha notando comtratados, embalsamados, nos jazigos das singular satisfação a curiosidade do filho pelosprateleiras das estantes de vinhático, à espera livros, pelos desenhos e figuras, que os jornaisde uma inteligência, na descendência dos seus e revistas traziam. Ele os contemplava horas eprimeiros proprietários, para de novo fazê-los horas, absorvido, fixando nas gravuras os seusvoltar à completa e total vida do pensamento e olhos castanhos, bons, leais…da atividade mental fecunda. Pôs-lhe a cartilha na mão: Certo dia, lembrando-se de seu pai em face — “A-e-i-o-u” – diga: “a”.das esperanças que depositava no seu filho O pequeno dizia: “a”; o pai seguia: “e”;temporão, Fausto Carregal considerou que, Jaime repetia: “e”; mas quando chegava a “o”,apesar do amor de seu progenitor à Química, parecia que lhe invadia um cansaço mental,nunca ele o vira com éprourettes, com copos enfarava-se subitamente, não queria maisgraduados, com retortas. Eram só livros que ele atender, não obedecia mais ao pai e, se esteprocurava. Como os velhos sábios brasileiros, insistia e ralhava, o filho desatava a chorar:
    • 160 — Não quero mais, papaizinho! Não quero deuses os livros, que precisam ser analisados,mais! para depois serem adorados; e eles não aceitam Consultou médicos amigos. a adoração senão dessa forma… Aconselharam-no esperar que a criança Naquela manhã, como de costume, forativesse mais idade. Aguardou mais um ano, para a sala dos livros, ler os jornais; mas não osdurante o qual, para estimular o filho, não pôde ler logo.cessava de recomendar: Pôs-se a contemplar os volumes nas suas —Jaime, você precisa aprender a ler. Quem molduras de vinhático. Viu o pai, o casarão, osnão sabe ler, não arranja nada na vida. moleques, as mucamas, as crias, o fardão do Foi em vão. As cousas se vieram a passar seu avô, os retratos… Lembrou-se maiscomo da primeira vez. Aos doze anos, fortemente de seu pai e viu-o lendo, entrecontratou um professor paciente, um velho aquelas obras, sentado a uma grande mesa,empregado público aposentado, no intuito de tomando de quando em quando rapé, que elever se instilava inteligência do filho o mínimo tirava às pitadas de uma boceta de tartaruga,de saber ler e escrever. O professor começou espirrar depois, assoar-se num grande lenço decom toda a paciência e tenacidade; mas, a Alcobaça, sempre lendo, com o cenhocriança que era incapaz de ódio até ali, perdeu carregado, os seus grandes e estimados livros.a doçura, a meiguice para com o professor. As lágrimas vieram aos olhos daquele velho Era falar-lhe no nome, a menos que o pai e avô. Teve de sustê-las logo. O filho mais novoestivesse presente, ele desandava em entrava na dependência da casa em que ele sedescomposturas, em doestes, em sarcasmos ao havia recolhido. Não tinha Jaime, porém, porfísico e às maneiras do bom velho. Cansado, o esse tempo, um olhar de mais curiosidade paraantigo burocrata, ao fim de dois anos, aqueles veneráveis volumes avoengos. Cheiodespediu-se tendo conseguido que Jaime dos seus dezesseis anos, muito robusto, nãosoletrasse e contasse alguma cousa. havia nele nem angústias, nem dúvidas. Não Carregal meditou ainda um remédio, mas era corroído pelas idéias e era bem nutridonão encontrou. Consultou médicos, amigos, pela limitação e estreiteza de sua inteligência.conhecidos. Era um caso excepcional; era um Foi logo falando, sem mais detença, ao pai:caso mórbido esse de seu filho. Remédio, se — Papai, você me dá cinco mil-réis, para euum houvesse, não existia aqui; só na Europa… ir hoje ao football.Não podia, o pequeno, aprender bem, nem O velho olhou o filho. Olhou a suamesmo ler, escrever, contar!… Oh! Meu Deus! adolescência estúpida e forte, olhou seu mau A conclusão lhe chegou sem choque, sem feitio de cabeça; olhou bem aquele últimonenhuma brusca violência; chegou fruto direto de sua carne e de seu sangue; e nãosorrateiramente, mansamente, pé ante pé, se lembrou do pai. Respondeu:devagar, como uma conclusão fatal que era. — Dou, meu filho. Dentro em pouco, você Tinha o velho Carregal, por hábito, ficar na terá.sala em que estavam os livros e as estantes do E em seguida como se acudisse algumapai, a ler, pela manhã, os jornais do dia. Ã cousa deslembrada que aquelas palavras lheproporção que os anos se passavam e os fizeram surgir à tona do pensamento,desgostos aumentavam-lhe n’alma, mais acrescentou com pausa:religiosamente ele cumpria essa devoção à — Diga a sua mãe que me mande buscar namemória do pai. Chorava às vezes de venda uma lata de querosene, antes que feche.arrependimento, vendo aquele pensamento Não se esqueça, está ouvindo!todo, ali sepultado, mas ainda vivo, sem que Era domingo. Almoçaram. O filho foi paraentretanto pudesse fecundar outros o football; a mulher foi visitar a filha e ospensamentos… Por que não estudara? netos, em Niterói; e o velho Fausto Carregal Dava-se assim, com aquela devoção diária, a ficou só em casa, pois a cozinheira teveele mesmo, a ilusão de que, se não também folga.compreendia aqueles livros profundos e Com os seus ainda robustos setenta anos, oantigos, os respeitava e amava como a seu pai, velho Fausto Fernandes Carregal, filho doesquecido de que para amá-los sinceramente tenente-coronel de engenharia, Conselheiroera preciso compreendê-los primeiro. São Fernandes Carregal, lente da Escola Central,
    • 161tendo concertado mais uma vez o seu antigo No começo a espessa fumaça negra docovaignac inteiramente branco e pontiagudo, querosene não deixava ver bem as chamassem tropeço, sem desfalecimento, aos dois aos brilharem; mas logo que ele se evolou, o clarãoquatro, aos seis, ele só, sacerdotalmente, delas, muito amarelo, brilhou vitoriosamenteritualmente, foi carregando os livros que com a cor que o povo diz ser a do desespero…tinham sido do pai e do avô para o quintal dacasa. Amontoou-os em vários grupos, aqui e ali, Fonte: http://www.biblio.com.bruntou de petróleo cada um, muitocuidadosamente, e ateou-lhes fogosucessivamente. Apollo Taborda França As Quatro Raças Modelando à sua imagem, Fez da Europa o paradeiro, Deus soprou, todo carinho… Onde se plantou na aurora. No acalanto dessa aragem, Tem estirpe requintada, Surgem RAÇAS no cadinho. Vencedor da incerteza… Fez do barro o grande elo, Faz do Cosmo a nova estrada, Constituindo a humanidade… Consagra sua grandeza! Homem branco, amarelo, Preto, vermelho: acuidade. HOMEM AMARELO Deu início à povoação Desta terra, ao confim…. O AMARELO das estepes, Juntou Eva com Adão, Da Mongólia milenar… Nas delícias de um jardim. Envolvido em suaves crepes, E cresceu tudo em beleza, É de casta singular. Colorido e muito amor… Homem reto, aprimorado, Completou-se a natureza, De índole contemplativa… Aplaudindo o Criador! Tem costume delicado, Que surpreende e que cativa. HOMEM BRANCO Oriental, tem olho oblíquo, Traz as gamas do mistério… Talhado pra dominar, É humilde, mas conspícuo Surge o BRANCO, criativo… E domina um hemisfério. Assumiu bem seu leu lugar, Ritualista, espiritual, Disse: – Sou substantivo! Não se entrega na voragem… Ninguém sabe a certa origem, É poder no mundo atual, Muito hábil, audacioso…. Sua mística a coragem! Num assomo de vertigem, Se deslumbra em áureo gozo. HOMEM NEGRO Elegante, aventureiro, Estendeu-se mundo afora… Homem NEGRO vem, desfi