3 revista literária voo da gralha azul numero 3  marco abril 2010 final
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3 revista literária voo da gralha azul numero 3  marco abril 2010 final 3 revista literária voo da gralha azul numero 3 marco abril 2010 final Document Transcript

  • no 3 - Ano 0 Paraná, março/abril de 2010Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  • SUMÁRIOACADEMIAS XXIII Jogos Florais de Ribeirão Preto .................... 98Academia de Letras de Rondônia..............81 XI Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto ........... 98ANÁLISE DE OBRAS ENTREVISTAMario de Andrade Alberto Paco (Maringá/PR)Contos Novos ............................................. O Escritor em Xeque................................................. 89BIOGRAFIAS ESTANTE DE LIVROSAnayde Beiriz............................................................93 ALUÍSIO AZEVEDOAntonio Augusto de Assis...........................................54 O cortiço .................................................... 106Antonio Brás Constante..............................................4 ÁLVARES DE AZEVEDOAntonio Roberto de Paula ..........................................15 Noite na taverna ....................................... 106 ALVARO CARDOSO GOMESAparecido Raimundo de Souza...................................52 Fase terminal ............................................ 108Branca Tirollo...........................................................80 ANTONIO CALLADOCaio Porfírio Carneiro ...............................................58 A expedição Montaigne ............................. 107Clarice Lispector........................................................70 GUIMARÃES BERNARDO GUIMARÃES A escrava Isaura ....................................... 108Dinair Leite ...............................................................81 O seminarista............................................ 109Franklin Ras Lopes....................................................51 CAMILO CASTELO BRANCOHelena Kolody...........................................................43 Amor de perdição ...................................... 107José Carlos Capinan ...................................................28 EDUARDO BUENO A viagem do descobrimento ...................... 107Luiz Otávio................................................................36 Capitães do Brasil – A saga dos primeirosMario de Andrade......................................................21 colonizadores ............................................. 107Nilto Maciel...............................................................13 Náufragos , traficantes e degredados ....... 107Oswald de Andrade....................................................6 O descobrimento das Índias...................... 107 ELIAS JOSÉPedro Ornellas ..........................................................79 Um pássaro em pânico.............................. 109Pedro Silva ...............................................................18 ELISABETH LOIBLTatiana Belinky ........................................................29 O mistério do índio voador........................ 110Tchelo D’ Barros........................................................57 O segredo do ídolo de barro....................... 110 GUILHERME DE OLIVEIRA FIGUEIREDOVicência Jaguaribe ....................................................3 Tratado geral dos chatos........................... 108CONCURSOS COM INSCRIÇÕES ABERTAS HERNÂNI DONATOXX Concurso de Trovas de Pindamonhangaba ...........94 Brasil 5 séculos ......................................... 108VI Concurso de Trovas da UBT-Maranguape/2010 ......94 IVAN ÂNGELO A face horrível ........................................... 106Jogos Florais UBT Seccional Mérida – Venezuela.......95 JOÃO GUIMARÃES ROSA JOÃOJogos Florais de Cambuci/RJ – 2010 ........95 Grande sertão: veredas ............................. 109Concurso Internacional de Literatura Para 2010. .......95 Primeiras estórias ..................................... 109Concursos da UBT São Paulo - 2010 (100 Anos do Sagarana ................................................... 109Nascimento de Noel Rosa) ...................................96 JORGE AMADO A descoberta da América pelos turcos ...... 105IX Concurso de Trovas de Caicó -2010..................... 97 A morte e a morte de Quincas Berro D’Água............... 105IV Jogos Florais de Balneário Camboriú / SC ...........97 ABC de Castro Alves................................. 105V Jogos Florais de Cantagalo / RJ ............ 97 Dona Flor e seus dois maridos .................. 105Xl Jogos Florais de Niterói .................................97 O sumiço da santa..................................... 106Concurso de Trovas de Taubaté ................97 Os pastores da noite.................................. 105XXX Concurso Estadual/Nacional e I Concurso Interno de Trovas São Jorge dos Ilhéus ................................. 106da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte................. 97 Tenda dos milagres ................................... 106 Terras do sem fim ..................................... 106 Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  • Tieta do agreste .........................................106 De como Malasartes passa adiante a carneirada ......... 12Tocaia grande: a face obscura ...................106 O Saci ........................................................ 98JORGE CALDEIRAMauá, empresário do Império ...................107 HAIKAISJOSÉ DE ALENCAR Helena KolodyIracema: a lenda do Ceará.........................104 Último........................................................ 42Lucíola .......................................................104 Aplauso...................................................... 42O garatuja: crônica dos tempos coloniais..104 Alegria ....................................................... 42O guarani...................................................104 Flecha de Sol ............................................. 42O sertanejo.................................................105 Ipês Floridos.............................................. 42Senhora......................................................105 Qual? ......................................................... 42Til...............................................................105 Poesia Mínima........................................... 42JOSUÉ GUIMARÃES Manhã ....................................................... 42Camilo Mortágua.......................................109 Arco-Íris..................................................... 42Os tambores silenciosos.............................109 Jornada ..................................................... 42LÚCIA MACHADO ALMEIDA Ressonâncias ............................................. 43As viagens de Marco Pólo ..........................105 Noite .......................................................... 43 GARCIA-LUIZ A. GARCIA-ROZA Repuxo Iluminado..................................... 43O silêncio da chuva....................................108 Depois........................................................ 43MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA Alquimia.................................................... 43Memórias de um Sargento de Milícias......105 Manhã ....................................................... 43MARIA DEZONE PACHECO FERNANDES No Mundo da Lua ..................................... 43Sinhá moça ................................................108 Sem Poesia ................................................ 43MARIA JOSÉ DUPRÉ Noturno ..................................................... 43Éramos seis................................................108 Felicidade .................................................. 43MÁRIO DE ANDRADE Dom ........................................................... 43Macunaíma: o herói sem nenhum caráter 106 NOSSO PORTUGUÊS DE CADA DIANILO ALGE Expressões Redundantes .......................... 49Mergulho no fim ........................................105 NOTÍCIASORÍGENES LESSAA pedra no sapato do herói........................109 Academia de Letras do Brasil/ Estado do ParanáO feijão e o sonho.......................................109 Imortais ..................................................... 111Rua do sol ..................................................109 Tatiana Belinky toma posse na AcademiaTio Pedro....................................................109 Letras..................................... 110 Paulista de LetrasPAULO LINS O ESCRITOR COM A PALAVRACidade de Deus .........................................109 Anayde BeirizPAULO MENDES CAMPOS Carta de Amor........................................... 92Cartas do meu moinho ..............................107 Antonio Brás ConstantePEDRO BLOCH O Homem, o Carteiro e o Cachorro .......... 3Cara nova ou beleza pura..........................106 Aparecido Raimundo de SouzaRUBEM FONSECA O Homem Só ............................................. 51O doente Molière .......................................108 Artur de AzevedoRUY CASTRO A Filosofia do Mendes ............................... 88Bilac vê estrelas.........................................108 Branca TirolloVERA FERREIRA/ ANTONIO AMAURY Não Brinque com o Fogo ........................... 79De Virgolino a Lampião.............................108 Caio Porfírio CarneiroZÉLIA GATTAI Vingança.................................................... 57Anarquistas graças a Deus........................108 Clarice LispectorJardim de inverno .....................................108 Ruído de Passos......................................... 70FOLCLORE Franklin RAS LopesAventuras de Pedro Malasartes (3) O Inesperado Aprendizado nas CurvasUma das de Pedro Malasartes ....................................11 Femininas do Preconceito ......................... 50 Machado de AssisDe como Malasartes fingiu que se Matava....................12 A Cartomante............................................ 38 View slide
  • Nilto Maciel Pronominais .............................................. 5Hiroito........................................................12 Vício na Fala ............................................. 5Pedro Silva Balada do Esplanada ................................ 5Uma Viagem na Época dos Descobrimentos ..............16 Escapulário ............................................... 5Tatiana Belinky Ocaso ......................................................... 6O Diabo e o Granjeiro ................................29 Brasil ......................................................... 6Tchelo D’ Barros Relicário .................................................... 6“M” E “H” no 609 ...................................... ...................................... ......54 Senhor Feudal........................................... 6Vicência Jaguaribe Paulo Vieira PinheiroMãe, ela parece um gatinho! .....................2 A régua que mede...................................... 68 Adverso...................................................... 68POESIAS Amores à letra dalma............................... 68Alberto Paco ( (Maringá/PR) Chuvisco .................................................... 69Fruto do Carnaval .....................................86 Cintilar (Estudo 080608-1) ....................... 67Antonio Augusto de Assis (Maringá/PR) De pé me deito........................................... 69Carnaval ....................................................53 Desabafo.................................................... 69Luolhar ......................................................53 Esperanças (Exercício 21042008-3) .......... 67Terceira infância........................................53 Já ............................................................... 66Aurora bela ................................................54 Momentos de insensatez ........................... 66Por um beijo...............................................54 Tanto tempo que nem sei.......................... 66Antonio Cândido da Silva ( (Porto Velho/RO) Tempos de Inocência ................................. 69Bar do Zizi .................................................85Antonio Manuel Abreu Sardenberg ( (São Universo das Palavras (Exercício 21042008-1)............ 66 Veneta ....................................................... 66Fidélis/RJ) Xadrez ....................................................... 66Namorar em Sonhos ..................................85 Ramsés Ramos ( (Teresina/PI)Antonio Roberto de Paula (Maringá/PR)O Silêncio de Maringá ...............................13 Sete Pecados do Amor ............................... 86Cabrito na Horta ......................................14 Samuel Castiel Jr. ( (Porto Velho/ RO) Flor Tropical.............................................. 87Emir Simionato Sabião (Ubiratã/PR) Tatiana Belinki ( (São Paulo/ SP)Procura .....................................................2 O Grande Cão-Curso................................. 86Desejo.........................................................2 Os "Limerick" ........................................... 87José Carlos Capinan (Esplanada/BA)Mudando de Conversa ...............................24 SOPA DE LETRASAlgumas Fantasias ...................................24 A Origem da Escrita ................................. 58Madrugadas de Narciso.............................25 TROVASOutras Confissões......................................25 Alberto Paco (PR)Didática......................................................25 Quadro Trovadoresco ................................ 89Poesia Pura................................................25 Dinair LeiteO Rebanho e o Homem ..............................26 Trovas........................................................ 80Ponteio .......................................................26 João Paulo Ouverney (SP)Clarice........................................................26 Quadro Trovadoresco ................................ 104Papel Machê ..............................................27 Luiz OtávioMachado de Assis ( (Rio de Janeiro/RJ) 100 Trovas................................................. 31A Mosca Azul .............................................84 Pedro OrnellasMaria Eliana Palma ( (Maringá/PR) A Lágrima na Trova.................................. 77Albatroz .....................................................87 Wilma Mello Cavalheiro (RS)Olga Agulhon ( (Maringá/PR) Quadro Trovadoresco ................................ 50Ridícula......................................................84Oswald de Andrade (São Paulo/SP) INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURA ........... 112Relógio .......................................................4Erro de Português......................................4 FONTES .................................................... 113 ....................................................Canto de Regresso à Pátria .......................5 View slide
  • Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” março/abril n0. 3 – Paraná, março/abril 2010 Idealização, seleção e edição: José Feldman Contatos, sugestões, colaborações: pavilhaoliterario@gmail.comhttp://singrandohorizontes.blogspot.comQue a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que oequilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existênciado Homem na face da Terra!!! Prezado LeitorEsta revista não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros, jornais,colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo aocidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado.Por que o Voo da Gralha Azul? A poetisa norte-americana Emily Dickinson, que viveu no século XIX, diz“Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”. No caso da revista, estafragata é a Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo e semeia no coração de cadaum que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações.Ao leitor, novos conhecimentos.Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores, etc.,um caminho de conhecimento e inspiração. Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos, José Feldman
  • 2 Emir Simionato Sabião (Poesias)PROCURA DESEJOProcurei tudo e não encontreiTentei tudo e não consegui No fundo dos olhos de alguémFalei tudo e não ouvi mergulhei e me perdiOlhei pra tudo e nada vi Nos lábios de alguém me entregueiAndei muito, mas não saí e mesmo assim eu resistiToquei em tudo, mas não senti No corpo de alguém eu me esquenteiPerguntei muito e não respondi e nunca mais esqueciEntão não sei Porém não sei o que fazerporque ainda estou aqui! se nada disso está aqui! Vicência Jaguaribe (Mãe, ela parece um gatinho!) gatinho!) Nega do cabelo duro, / qual é o pente segurava o barrigão inchado. Às vezes, soltavaque te penteia, / qual é o pente que te penteia um gemido. A menina olhava-a e sentia que/ qual é o pente que te penteia, ó nega... algo estava errado – aliás, sentia isso há algum A menina ouvia a voz de uma das tias tempo, já. Primeiro aquela barriga que todo diabrincando com ela e com a irmã. Depois de crescia um pouco, até ficar daquele tamanho,adulta, sempre que ouvia o samba de Ary ameaçando explodir. O que ela tinha naquelaBarroso, Rubens Soares e David Nasser, barriga? Ninguém lhe dizia nada, e ela sentialembrava-se daquele dia. Mas, principalmente, vergonha de perguntar. Há algum tempo, vira alembrava-se da tia. Aquela música havia mãe vomitando e perguntara-lhe se ela comeraaderido à figura da tia como a areia adere ao alguma coisa estragada. A mãe confirmou.corpo molhado. A coisa que ela tinha mais medo no Ela e a irmã estavam na casa da avó, mundo era de perder a mãe. Quando ouviaporque a mãe fora buscar o irmão delas, que dizer que morrera uma mãe, ela passava o dianasceria naquele dia. Quando ela chegasse, seguindo a sua. E era preciso que a mãe amandaria buscá-las. Foi isso o que lhes pusesse no colo, conversasse com ela,disseram. Ela só tinha cinco anos quando o explicasse que não ia morrer, porque nãoirmão nasceu, mas se lembra perfeitamente do estava doente, para que ela voltasse ao normal.que aconteceu. A irmã, com três anos, não Enquanto a irmã ria brincando com aatinava para a situação nem guardou nenhum tia, ela ficou sentada no chão, de frente para orecordação. corredor, observando o movimento, para tentar Mas ela, a mais velha, pressentia entender alguma coisa. De vez em quando,alguma coisa anormal no ar. Não sabia o que entrava um tio ou uma tia com cara deera. Mas que havia, havia. De manhã bem preocupação. A avó estava todo o tempocedo, a mãe acordou-as, ajudou-as a escovar ajoelhada em frente ao santuário, rezando paraos dentes; preparou-lhes o café e mandou a os santos dela. Mais tarde, perto do almoço,empregada levá-las para a casa da avó uma das tias chegou chorando, entrou nopaterna. Mas a menina observara que ela não quarto e disse alguma coisa à mãe. A meninaestava bem. De vez em quando, curvava-se e apurou os ouvidos, mas só ouviu uma palavra: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 3hemorragia, que ela não sabia o que era. Mas no carro, depois de despedir-se de seu pai, e oviu quando a avó começou a chorar. A tia que carro partir. O pai não entrou em casa, veiohavia chegado chamou a irmã que brincava para a casa da mãe. Ao vê-la sentada nacom as meninas, cochichou alguma coisa. E a calçada, botou-a no braço. Ele estava com airmã ficou com cara de enterro. cara alegre: A menina não sabia precisar, mas intuía - Seu irmão chegou, e sua mãe agoraque algo grave acontecia com a mãe. O pai está bem. Daqui a pouco você pode ir vê-la.havia, poucas horas atrás, entrado na casa da A menina começou a chorar, como semãe, dizendo que mandara buscar um médico alguém houvesse apertado um botão liberadorna cidade vizinha. Logo depois, alguém lhe de lágrimas.dissera que não precisava mais, já estava tudo - Mas por que essa menina estábem. O pai, no entanto, não mandara o carro chorando? – Perguntou à irmã, que sevoltar. aproximava. Então, se o pai mandara chamar um Os adultos pensavam o que dasmédico era porque alguém estava doente. E só crianças? Que eram burras, insensíveis? Epodia ser a mãe dela, raciocinou a menina. quanto mais tomava consciência de que nemTeve vontade de chorar, mas se controlou. passara pela cabeça do pai que ela podia estarOlhou para a irmã, que continuava rindo e sofrendo, mais chorava. Só se calou quando acantando. O pai foi para casa, e a menina ficou tia, mesmo sem o consentimento do irmão,mais preocupada ainda. Mas ninguém ali se levou-a a ver a mãe.importava com a sua tristeza. Parecia até que A mãe abraçou-a e jurou que estavaninguém a via. bem. Mas percebeu que a sua menina não era Foi à cozinha, tentar escutar alguma tão ingênua como se pensava. Teve certeza decoisa das empregadas. Ela sabia – de ouvir que percebera que a mãe quase se fora. Edizer – que empregada sabe de tudo e mandou que ela fosse ver o irmão no berço.conversa tudo na frente das crianças. Mas, A menina ficou de ponta de pé e olhou odaquela vez, nada. A tia aproximou-se e falou irmão, que lhe pareceu um embrulho branco. Eem almoço. A menina, que normalmente quase o primeiro sentimento que experimentou pornão comia, disse não estar com fome. Mas foi ele foi raiva. Se não fosse ele, a mãe não tinhaobrigada a engolir alguns bocados, à força, a ficado doente. Mas, de repente, ele mexeu-se etia fazendo bolinhos na mão. E aí ela se abriu os olhos – uns grandes e belos olhoslembrou dos perus que a mãe engordava para azuis. Foi nesse momento que ela seo Natal. Era exatamente assim que ela dava descontraiu e, sorrindo, disse para a mãe:comida aos bichos. Deus a livrasse de ser peru! - Mãe, ele parece um gatinho!Ave Maria! Quando a tia achou que ela haviacomido – à força – o suficiente, ou cansou detentar, liberou-a, e ela foi para a calçada.Sentou-se à sombra do fícus benjamim, virada Vicência Jaguaribepara o lado de sua casa, que ficava umas nove Vicência Maria Freitas Jaguaribe, natural decasas à frente. Viu, parado em frente à casa, o Jaguaruana-Ce. Professora de Literatura e Estilísticacarro que fora buscar o doutor. Mais ou menos da Universidade Estadual do Ceará. Mestra emuma hora depois – e durante esse tempo ela Literatura pela UFC. Trabalhos publicados nas áreasficou na quentura da calçada, sem ninguém se de Literatura, Estilística e Lingüística do Texto.incomodar –, viu um homem de branco entrar Antonio Brás Constante (O Homem, o Carteiro e o Cachorro) O cachorro é o melhor amigo do primeiramente vamos tentar explicar para essahomem, com exceção do carteiro. Mas juventude que só conhece internet o que é um Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 4carteiro. O carteiro seria uma espécie de irrita e maltrata seu cão, que em contrapartidaprovedor de e-mails biológico. Quando ele morde o carteiro em sinal de represália.entrega as correspondências a pé, isto Uma forma de contemporizar oequivaleria a uma conexão discada e lenta. Se problema de donos de cães que deixam osele estiver de moto poderia ser considerado animais soltos ou mal trancados (facilitandocomo uma conexão ADSL (banda larga), e o ataques aos carteiros) seria fazer esses donosSEDEX é a internet empresarial, rápida, passarem um dia na função de carteiroseficiente e muito mais cara. auxiliares, entregando cartas somente em O carteiro poderia entendido (na ótica residências com grandes e ferozes cães. Umdos cães) como uma espécie de válvula de bom castigo, já que eles sentiriam na pele (queescape para o cachorro, que muitas vezes sofre é o primeiro lugar que sente a mordida dosde forma obediente a crueldade de seu dono, e cachorros) o problema enfrentado todos os diaspor não poder pagar um psicólogo canino, pelos entregadores de cartas.resolve descontar suas frustrações no carteiro, Enfim, no mato sem cachorro em quevisto que ele, na teoria, é a imagem e vivemos, onde quem não tem cão caça comosemelhança do seu dono. Ou seja, a profissão um gato, nós estamos rumando para umde carteiro acaba sendo um negócio bom pra mundo sem cartas, ou carteiros, ou mesmocachorro, literalmente falando. cachorros. E neste futuro, quando percebermos Talvez o cachorro entenda que o carteiro que a idéia de que tínhamos as cartas na mesa,é como algum tipo de ave de mau agouro, algo era falsa, e que fizemos uma grande cachorradaparecido com um corvo, como descrito pelo com nosso fiel e amigável planeta, não haveráescritor Edgar Alan Poe. O cão já deve ter mais como reescrever a história, e a cartadapercebido que muitos dos papéis deixados pelos final de nossa existência já estarácarteiros têm símbolos que quando unidos derradeiramente selada.formam a frase: “C-O-N-T-A-S-A-P-A-G-A-R”, eque cada vez que seu dono lê essas mensagensescritas fica aborrecido, irritado, chegandoalgumas vezes a amassar o papel. E o que odono do cachorro geralmente faz depois? Chutaseu pobre companheiro de patas, Antonio Brás Constanteprovavelmente por achá-lo culpado pelo carteiro Antonio Brás Constante, natural de Porto Alegre. Residente em Canoas/RS. Bacharel em computação,ter conseguido entregar aquela infeliz bancário e cronista de coração, escreve commensagem para ele. naturalidade, descontraída e espontaneamente, Este é um dos ciclos da vida, o carteiro sobre suas idéias, seus pontos-de-vista, sobre otrás as contas para o dono da residência que se panorama que se descortina diferente a cada instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores). Oswald de Andrade (Poesias) Oswald, pintura de Tarsila do Amaral RELÓGIO As horas Vão e vêm As coisas são Não em vão As coisas vêm As coisas vão ERRO DE PORTUGUÊS As coisas Vão e vêm Quando o português chegou Não em vão Debaixo duma bruta chuva Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 5 Vestiu o índio Uma balada Que pena!Fosse uma manhã de sol Antes de ir O índio tinha despido Pro meu hotel. O português É que este Coração CANTO DE REGRESSO À PÁTRIA Já se cansou De viver só Minha terra tem palmares E quer então Onde gorjeia o mar Morar contigo Os passarinhos daqui No Esplanada. Não cantam como os de lá Eu queria Minha terra tem mais rosas Poder E quase que mais amores Encher Minha terra tem mais ouro Este papel Minha terra tem mais terra De versos lindos É tão distinto Ouro terra amor e rosas Ser menestrel Eu quero tudo de lá No futuro Não permita Deus que eu morra As gerações Sem que volte para lá Que passariam Diriam Não permita Deus que eu morra É o hotel Sem que volte pra São Paulo É o hotel Sem que veja a Rua 15 Do menestrel E o progresso de São Paulo Pra me inspirar PRONOMINAIS Abro a janela Como um jornal Dê-me um cigarro Vou fazer Diz a gramática A balada Do professor e do aluno Do Esplanada E do mulato sabido E ficar sendo Mas o bom negro e o bom branco O menestrel Da Nação Brasileira De meu hotel Dizem todos os dias Deixa disso camarada Mas não há, poesia Me dá um cigarro Num hotel Mesmo sendo VÍCIO NA FALA Splanada Ou Grand-Hotel Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Há poesia Para pior pió Na dor Para telha dizem teia Na flor Para telhado dizem teiado No beija-flor E vão fazendo telhados No elevador BALADA DO ESPLANADA ESCAPULÁRIO Ontem à noite No Pão de Açúcar Eu procurei De Cada Dia Ver se aprendia Dai-nos Senhor Como é que se faziaRevista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 6 A Poesia À espera de visitas que não vêm De Cada Dia (Primeiro caderno do aluno de poesia) OCASO Em 11 de janeiro de 1890 nasce em São Paulo José Oswald de Sousa Andrade, filho No anfiteatro de montanhas único de José Oswald Nogueira de Andrade e Os profetas do Aleijadinho Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Monumentalizam a paisagem Inicia seus estudos, em 1900, na Escola As cúpulas brancas dos Passos Modelo Caetano de Campos, ainda marcado E os cocares revirados das palmeiras pelo fato de haver presenciado a mudança do São degraus da arte de meu país século. Onde ninguém mais subiu Em 1901, vai para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo. Tem como colega Pedro Rodrigues BRASIL de Almeida, o “João de Barros” do”Perfeito Cozinheiro das Almas desse mundo...”. O Zé Pereira chegou de caravela Em 1903, transfere-se para o Colégio São E perguntou pro guarani da mata virgem Bento. Lá tem como colega o futuro poeta - Sois cristão? modernista Guilherme de Almeida.- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte Em 1905, com o São Paulo em ebulição — Teterê tetê Quizá Quizá Quecê! surge o bonde elétrico, o rádio, a propaganda, Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu! o cinema — participa da roda literária de O negro zonzo saído da fornalha Indalécio Aguiar da qual faz parte o poeta Tomou a palavra e respondeu Ricardo Gonçalves. - Sim pela graça de Deus Em 1908, conclui os estudos no Colégio São Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum! Bento com o diploma de Bacharel em E fizeram o Carnaval Humanidades. De família abastada, Oswald, em 1909 inicia sua vida no jornalismo como redator RELICÁRIO e crítico teatral do “Diário Popular”, assinando a coluna "Teatro e Salões". Ingressa na No baile da corte Faculdade de Direito. Foi o conde d’Eu quem disse Em 1910, monta um atelier com o pintor Pra Dona Benvinda Oswaldo Pinheiro, no Vale do Anhangabaú. Que farinha de Suruí Conhece o Rio de Janeiro, e fica hospedado na Pinga de Parati residência de seu tio, o escritor Inglês de Fumo de Baependi Souza. Passa o primeiro Natal longe da família É comê bebê pitá e caí em Santos, numa hospedaria de carroceiros das docas. SENHOR FEUDAL No ano seguinte, com a ajuda financeira de sua mãe, funda “O Pirralho”, cujo primeiro Se Pedro Segundo número é lançado em 12 de agosto, tendo Vier aqui como colaboradores Amadeu Amaral, Voltolino, Com história Alexandre Marcondes, Cornélio Pires e outros. Eu boto ele na cadeia Conhece o poeta Emílio de Meneses, de quem se torna amigo. Lança a campanha civilista em torno de Ruy Barbosa. Passa uma temporada em Baependi, Minas, nas terras da família de seu avô. Em 1912, viaja à Europa. Visita vários países: Oswald de Andrade Itália, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha. Conhece durante a viagem a jovem Senhor dançarina Carmen Lydia, (Helena Carmen Que eu não fique nunca Hosbale) que Oswald batiza em Milão. Morre Como esse velho inglês em São Paulo sua mãe, no dia 6 de setembro. Aí do lado Retorna ao Brasil, trazendo a estudante Que dorme numa cadeira francesa Kamiá (Henriette Denise Boufflers).Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 7Reassume sua atividade de redator de “O primeiro grupo modernista com Mário dePirralho”, onde publica crônicas em português Andrade, Guilherme de Almeida, Ribeiro Coutomacarrônico com o pseudônimo de Annibale e Di Cavalcanti. De 1917 a 1922 escreveScipione. regularmente no “Jornal do Comércio”. No ano seguinte, participa das reuniões da Trabalha em “A Gazeta”, em 1918. Começa aVila Kirial e conhece o artista plástico Lasar compor “O perfeito cozinheiro das almas desseSegall. Escreve “A recusa”, drama em três atos. mundo...”, diário coletivo escrito em Nasce o seu filho, José Oswald Antônio de colaboração com Maria de Lourdes CastroAndrade (Nonê), com Kamiá, em 1914. Torna- Dolzani de Andrade (Miss Cyclone), Guilhermese Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio de Almeida, Monteiro Lobato, Leo Vaz, PedroSão. Bento, onde foi aluno do abade Sentroul. Rodrigues de Almeida, Inácio Pereira da Costa,Cursa Filosofia no Mosteiro de São Bento. Edmundo Amaral e outros. Fecha a revista “O Em 1915, participa do almoço em Pirralho”.homenagem a Olavo Bilac, promovido pelos Bacharel em Direito, é escolhido orador daestudantes da Faculdade de Direito. Torna-se turma. Morre seu pai, em fevereiro. Casa-se, “inmembro da Sociedade Brasileira dos Homens de extremis”, com Maria de Lourdes Castro DolzaniLetras, fundada em São Paulo por Bilac. Chega de Andrade (Miss Cyclone).ao Brasil a dançarina Carmen Lydia, com quem Publica no jornal dos estudantes damantém um barulhento namoro. Faz viagens Faculdade de Direito, “XI de Agosto”, trêsconstantes de trem ao Rio a negócio ou para capítulos de “Memórias Sentimentais de Joãoacompanhar Carmen Lydia. Miramar”. No ano seguinte, publica em “A Cigarra” o No ano seguinte edita “Papel e Tinta”,primeiro capítulo — e, depois, lança, com assinando com Menotti del Picchia o editorial eGuilherme de Almeida, as peças teatrais escrevendo regularmente para o periódico.“Theatre Brésilien — Mon Coeur Balance” e Descobre o escultor Brecheret. Escreve em “A“Leur Âme”, pela Typographie Asbahr. Faz a Raposa” artigo elogiando Brecheret com textoleitura das peças em vários salões literários de ilustrado com fotos de trabalhos do artista.São Paulo, na Sociedade Brasileira de Homens 1921 – Em julho, publica artigo sobre ode Letras, no Rio de Janeiro e na redação “A poeta Alphonsus de Guimarães, ressaltando aCigarra”. Publica trechos de “Memórias forma de expressão, no seu entender,Sentimentais de João Miramar” na “A Cigarra” e precursora da linguagem modernista. (“Jornalna “A Vida Moderna”. Sofre de artritismo. A do Comércio” (SP), 07/1921). Faz a saudação aatriz Suzanne Després recita no Municipal Menotti del Picchia no banquete oferecido paratrechos de “Leur Âme”. Passa a colaborar políticos e poetas no Trianon. Revela Mário deregularmente em “A Vida Moderna”, que publica Andrade poeta, em polêmico artigo "O meuem 24 de maio, cenas de “Leur Âme”. Volta a poeta futurista". Principia a colaboração doestudar Direito, cujo curso havia interrompido “Correio Paulistano” até 1924.em 1912. Recebe o convite de Valente de Participa da caravana de jovens escritoresAndrade para fazer parte do “Jornal do paulistas ao Rio de Janeiro, a fim de fazerComércio”, edição de São Paulo e em 1º de propaganda do Modernismo. Torna-se o lídernovembro começa seu trabalho como redator. dessa campanha preparatória para a SemanaRedator social de “O Jornal”. de Arte Moderna. Continua a viajar intermitentemente ao Rio. Em 1922, participa da Semana de ArteNaquela cidade freqüenta a roda literária de Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. FazEmílio de Meneses, João do Rio, Alberto de conferência, em 18 de setembro, comemorativaOliveira, Eloi Pontes, Olegário Mariano, Luis ao centenário da Bandeira Nacional. É um dosEdmundo, Olavo Bilac, Oscar Lopes e outros. participantes do grupo da revista “Klaxon”,Passa temporada em Aparecida do Norte. Está onde colabora. Integra o grupo dos cinco comescrevendo o drama “O Filho do Sonho”. Mário de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Em 1917, conhece Mário de Andrade. Amaral e Menotti del Picchia.Defende a pintora Anita Malfatti das críticas Publica “Os Condenados”, com capa de Anitaviolentas feitas por Monteiro Lobato ("A Malfatti, primeiro romance de “A trilogia doexposição de Anita Malfatti", no “Jornal do exílio”. Viaja a negócios ao Rio. Em dezembroComércio”, São Paulo, 11/01/1918). Participa do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 8embarca para a Europa. Começa sua amizade Publica, em 1927, “A Estrela de Absinto”,com Tarsila do Amaral. segundo romance de “A trilogia do exílio”, pela No ano seguinte, ganha na justiça a custódia Editora Hélios com capa de Brecheret.do seu filho Nonê. Faz viagem a Portugal e Publica “Primeiro Caderno de Poesia doEspanha, com passagem pelo Senegal, Aluno Oswald de Andrade”, ilustrado pelo autor,acompanhado de Tarsila. Matricula seu filho no com capa de Tarsila. Começa no “Jornal doLicée Jaccard em Lausanne, Suiça. Reside em Comércio” a coluna "Feira das Quintas".Paris até agosto, no atelier de Tarsila. Disputa o prêmio romance, patrocinado pela Conhece o poeta Blaise Cendrars. Academia Brasileira de Letras, com “A Estrela Em Paris, de volta ao Brasil, é homenageado de Absinto”, que obteve menção honrosa.com um banquete pela Sociedade Amis des Publica trechos de “Serafim Ponte Grande” naLettres Françaises, sendo saudado pela revista “Verde”.presidente do grupo Mme.Rachilde. Em 1928, publica o “Manifesto Antropófago” Em 1924, no dia 18 de março publica no na “Revista de Antropofagia”, que ajuda a“Correio da Manhã” o “Manifesto da Poesia Pau fundar, com os amigos Raul Bopp e Antônio deBrasil”. Toma parte na excursão ao carnaval do Alcântara Machado.Rio de Janeiro e à Minas com outros intelectuais É expulso do Congresso de Lavradores,brasileiros e do poeta Blaise Cendrars, chamada realizado no Cinema República (SP) por proporde “Caravana Modernista”. Em Minas Gerais, um acordo com o trabalhador do campo.recebidos por Aníbal Machado, Pedro Nava e Separa-se de Tarsila do Amaral. Rompe comCarlos Drummond de Andrade, excursionam Mário de Andrade e Paulo Prado.pelas cidades históricas. No “Correio No dia 1º de abril de 1930 casa-se comPaulistano”, publica o artigo “Blaise Cendrars — Patrícia Galvão (Pagú) numa cerimônia poucoUm mestre da sensibilidade contemporânea". convencional. O acontecimento foi simbólico,Participa do V Ciclo de Conferência da Vila realizado no Cemitério da Consolação, em SãoKyrial falando sobre "os ambientes intelectuais Paulo. Mais tarde, se retrataram na igreja.da França". Publica “Memórias Sentimentais de Escreve "A casa e a língua", em defesa daJoão Miramar”, com capa de Tarsila. Faz uma arquitetura de Warchavchik. Nasce seu filholeitura do “Serafim Ponte Grande”, em casa de Rudá Poronominare Galvão de Andrade com aPaulo Prado para uma platéia de amigos escritora Pagú. É preso pela polícia do Rio demodernistas. Janeiro, por ameaçar o antigo amigo, poeta Viaja à Europa. Monta com Tarsila um novo Olegário Mariano.apartamento em Paris, conservando este Em 1931, escreve “O mundo político”.endereço até 1929. Começa a escrever ensaios políticos, Publica em Paris pela editora Au Sans Pareil geralmente sobre a situação e os problemas doo livro de poemas “Pau Brasil”. operário. Funda com Queiroz Lima e Pagú “O Retorna ao Brasil. Candidata-se à Academia Homem do Povo”. Publica o “Manifesto Ordem eBrasileira de Letras. Oficializa o noivado com Progresso”. Engaja-se no Partido Comunista.Tarsila do Amaral. No ano seguinte, redige o prefácio definitivo Recebido com outros brasileiros em de “Serafim Ponte Grande”.audiência pelo papa, a fim de tentarem a Em 1933, publica “Serafim Ponte Grande”.anulação do casamento de Tarsila. Patrocina a publicação de “Parque Industrial”, Casa-se com Tarsila do Amaral, em 30 de romance de Pagú.outubro, em cerimônia paraninfada pelo No ano seguinte, deixa Pagú e une-se àPresidente Washington Luis. pianista Pilar Ferrer. Publica “A Escada Publica na “Revista do Brasil” o prefácio de Vermelha”, terceiro romance de “A trilogia do“Serafim Ponte Grande”, primeira versão, exílio”, e “O Homem e o Cavalo”, com capa de"Objeto e fim da presente obra". seu filho, Oswald de Andrade Filho. No dia 24 Divulga em “Terra Roxa e Outras Terras” a de dezembro, assina contrato ante-nupcial em"Carta Oceânica", prefácio ao livro “Pathé Baby” regime de separação de bens com Julietade Antônio de Alcântara Machado e um trecho Bárbara Guerrini.do “Serafim Ponte Grande”. Em 1935, compra uma serraria. Escreve sátira política para “A Platéia”. Faz parte do movimento artístico cultural Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 9“Quarteirão”. Fichado na polícia civil do apresentada à cadeira de literatura brasileira daMinistério da Justiça, como subversivo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da No ano seguinte, publica na revista “XI de Universidade de São Paulo, na qual oagosto”, "Página de Natal" do Marco Zero. biografado é livre-docente.em LiteraturaConclui o poema “O Santeiro do Mangue”, 1ª Brasileira. Nasce sua filha Antonieta Marília.versão, dedicado criticamente a Jorge de Lima e Reúne no volume “Ponta de Lança” artigosMurilo Mendes. esparsos. Publica "A sátira na poesia brasileira", Em dezembro casa-se com a escritora Julieta conferência pronunciada na Biblioteca PúblicaBárbara Guerrini, tendo como padrinho o Municipal de São Paulo.jornalista Casper Líbero, o pintor Portinari e Publica “Poesias Reunidas - Oswald deuma irmã da noiva, Clotilde. Passa a residir no Andrade”, editora. Gazeta e “Marco Zero: II —Rio de Janeiro. Chão”, pela José Olympio. Escreve “O país da sobremesa”, em 1937. É Inicia a organização da Ala Progressistafeita uma tentativa de encenação da peça “O Brasileira, programa de conciliação nacional.Rei da Vela” pela Companhia de Álvaro Lança um manifesto ao "Povo de São Paulo,Moreyra. Atua na Frente Negra Brasileira. Trabalhadores de São Paulo. Homens livres deEscreve na revista “Problemas” (São Paulo). São Paulo". Escreve o "Canto do Pracinha só".Publica “A Morta” e “O Rei da Vela”. No Rio de Rompe com o Partido Comunista do Brasil eJaneiro, a edição de “Serafim Ponte Grande” é Luis Carlos Prestes, seu secretário geral.dada como esgotada. Publica na “Gazeta de Limeira”, conferência Em 1938, publica o trecho "A vocação" da pronunciada em Piracicaba intitulada "A lição dasérie “Marco Zero: IV”, “A presença do Mar”. inconfidência"Está ligado ao Sindicato de Jornalista de São Em 1946, publica “O Escaravelho de Ouro”Paulo, matrícula nº. 179. Redige “Análise de (poesia). Assina contrato com o governo de Sãodois tipos de ficção”. Paulo para a realização da obra "O que fizemos 1939, Oswald ingressa no Pen Club do Brasil. em 25 anos", espécie de levantamento da vidaPublica no jornal “Meio Dia” as colunas "Banho nacional, em todos os setores da atividadede Sol" e "De literatura". É o representante do técnica e social à literária e artística.jornal “Meio Dia” em São Paulo. Escreve para o Apresenta o escritor norte-americano Samuel“Jornal da Manhã” (SP) uma série de Putnam, em visita ao Brasil, na Escola dereportagens sobre personalidades importantes Sociologia e Política (São Paulo). Participa emda vida política, econômica e social de São Limeira (SP) do Congresso de Escritores.Paulo. Candidata-se a delegado regional da Escreve “O lar do operário”. Candidata-se à Associação Brasileira de Escritores e perde aAcademia Brasileira de Letras pela segunda vez, eleição. Envia bilhete-aberto ao Presidente daenviando uma carta aberta aos imortais, em Seção Estadual, escritor Sérgio Buarque de1940. Holanda, protestando e desligando-se da Em 1941, monta um escritório de imóveis na Associação, em 1947.rua Marconi, com Nonê, o filho mais velho. Em 1948, pronuncia em Bauru a conferência 1942, publica “Cântico dos Cânticos para "O sentido do interior". Nasce seu filho PauloFlauta e Violão”, dedicado à sua futura mulher, Marcos.Maria Antonieta d’Alkmin. Lança, em 2ª edição Publica na revista Anhembi o texto "Opela Globo, “Os Condenados”, com capa de modernismo", em 1949. Profere conferência noKoetz. Centro de Debates Casper Líbero: "Civilização e Publica “Marco Zero: I A revolução dinheiro", e no Museu de Arte de São Paulo,melancólica”, pela José Olympio, capa de Santa “Novas dimensões da poesia". Realiza excursãoRosa. Começa a publicar no “Diário de S.Paulo” a Iguape, com Albert Camus, para assistir àsa coluna "Feira das Sextas". Casa-se com Maria tradicionais festas do Divino. É encarregado deAntonieta dAlkmin, em 1943. apresentar e saudar o escritor francês de Em 1944, inicia a série “Telefonema”, passagem por São Paulo para fazerpublicada no “Correio da Manhã”, até 1954. conferências. Escreve a coluna "3 linhas e 4 No ano seguinte escreve "O sentido da verdades" na “Folha de S.Paulo”, até 1950.nacionalidade no Caramuru e no Uruguai". Profere nova conferência na Faculdade dePublica "A Arcádia e a inconfidência", tese Direito em homenagem a Rui Barbosa. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 10 Em 1950, escreve “O antropófago”. É Andrade; é lançado o filme “Cemhomenageado com um banquete, no Automóvel Oswaldinianos”, de Adilson Ruiz e instaladoClube, pela passagem do 60º aniversário, painel na estação República do Metrô paulista”.saudado por Sérgio Milliet. Participa deconcurso para provimento da Cadeira de OBRASFilosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Humor:Letras da Universidade de São Paulo, ocasião - Revista “O Pirralho” — crônicas em portuguêsem que defende a tese "A crise da filosofia macarrônico sob o pseudônimo de Annibalemessiânica", sem êxito. Candidata-se a Scipione (1912 — 1917)deputado federal pelo PRT, com o seguinte Poesia:slogan: “Pão – Teto – Roupa – Saúde – - Pau-Brasil (1925)Instrução”. Pronuncia as seguintes - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswaldconferências: "A arte moderna e a arte de Andrade (1927)soviética", "Velhos e novos livros atuais". - Cântico dos cânticos para flauta e violãoRedige "Um aspecto antropofágico da cultura (1945)brasileira — o homem cordial" para o 1º - O escaravelho de ouro (1946)Congresso Brasileiro de Filosofia. Apresenta a Romance:versão definitiva de “O Santeiro do Mangue”. - A trilogia do exílio: I — Os condenados, II —A Escreve, em 1952, “Introdução à estrela de absinto, III — A escada vermelhaantropofagia”. Profere discurso de saudação em (1922-1934)homenagem a Josué de Castro, representante - Memórias sentimentais de João Miramarda ONU, por iniciativa da Secretaria Municipal (1924)de Cultura de São Paulo. Escreve o artigo "Dois - Serafim Ponte Grande (1933)emancipados: Júlio Ribeiro e Inglês de Souza". - Marco Zero: I - A revolução melancólica, II — É membro da Comissão Julgadora do Salão Chão (1943).Letras e Artes Carmen Dolores, em 1953. - Memórias: Um homem sem profissão (1954)Saudou o escritor José Lins do Rego, pelo Teatro:prêmio recebido em torno do romance - A recusa (1913)“Cangaceiros”, patrocinado pelo Salão de Letras - Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leure Artes Carmen Dolores Barbosa. Começa a Âme (1916) (com Guilherme de Almeida)publicar a série “A Marcha das Utopias” no - O homem e o cavalo (1934)jornal “O Estado de S.Paulo”. Tenta em vão - A morta (1937);vender sua coleção de quadros. - O rei da vela (1937). Em 1954, escreve o ensaio “Do órfico e mais - O rei floquinhos (1953)cogitações" e "O primitivo e a antropofagia”. Manifestos:Envia comunicação, por intermédio de Di - Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)Cavalcanti, para o Encontro de Intelectuais, no - Manifesto Antropófago (1928)Rio de Janeiro. Publica o primeiro volume das - Manifesto Ordem e Progresso (1931)“Memórias — Um homem sem profissão”, com - Teses, artigos e conferências publicadas:capa de seu filho, Oswaldo Jr., pela José - O meu poeta futurista (1921)Olympio. Graças à interferência de Vicente Rao, - A Arcádia e a Inconfidência (1945)foi indicado para ministrar um curso de cultura - A sátira na poesia brasileira (1945)brasileira em Genebra. Retorna como sócio à Versões e adaptações:Associação Brasileira de Escritores (A.B.D.E.). - Filme “O homem do Pau-Brasil”, de Joaquim Falece em São Paulo, em 22 de outubro de Pedro de Andrade, baseado na vida de Oswald1954, na sua residência da rua Marquês de de Andrade (1980)Caravelas, 214. É sepultado no jazigo da - Filme “Oswaldinianas”. Formado por cincofamília, no cemitério da Consolação, em São episódios, dirigidos por Julio Bressane, LuciaPaulo (SP). Murat, Roberto Moreira, Inácio Zatz, Ricardo É homenageado postumamente pelo Dias e Rogério Sganzerla (1992)Congresso Internacional de Escritores, em Publicações póstumas:1954. Em 1990, no centenário de seu - A utopia antropofágica – Globonascimento, a “Oficina Cultural Três Rios” passa - Ponta de lança – Globoa se chamar “Oficina Cultural Oswald de - O rei da vela – Globo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 11- Pau Brasil – Obras completas – Globo - O perfeito cozinheiro das almas desse mundo- O santeiro do mangue e outros poemas – – GloboGlobo - Os condenados – A trilogia do exílio – Globo- Obras completas – Um homem sem profissão - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald– Memórias e confissões sob as ordens de de Andrade – Globomamãe – Globo - Os dentes do dragão – Globo- Telefonema – Globo - Mon coeur balance – Le Âme - Globo- Dicionário de bolso – Globo Aventuras de Pedro MalasartesUMA DAS DE PEDRO MALASARTES Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus, e matou-os a todos, Um dia, Pedro Malasartes foi ter com o labreando de sangue as ovelhas. O homem,rei e lhe pediu três botijas de azeite, indo-os buscar, achou-os mortos, e voltouprometendo-lhe levar em troca três mulatas muito aflito, dizendo: "Pedro, não sabe, asmoças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro ovelhas mataram os seus perus". Ouvindo isto,saiu e foi ter à casa de uma velha, ali pela Malasartes fez um grande espalhafato, gritandonoitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe que o homem tinha morto os perus do rei ebotasse as botijas no poleiro das galinhas. A recebeu seis ovelhas pelos perus. Largou-se,velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro indo dormir na casa de um homem que tinhaMalasartes levantou-se, foi de pontinha de pé um curral de bois. Aí ele fez as mesmasao poleiro, quebrou as botijas, derramou o artimanhas, até pegar seis bois pelas seisazeite, lambuzando as galinhas. De manhã ovelhas.muito cedo Malasartes acordou a velha, e Mais adiante, ele encontrou unspediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro.buscá-las, e, achando-as quebradas, disse: Mais adiante encontrou uns homens que iam "Pedro, as galinhas quebraram as carregando uma rede com um defunto. Pedrobotijas e derramaram o azeite". perguntou quem era, disseram-lhe que era uma – Não quero saber disso, -disse Pedro; - moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deram.quero para aqui meu azeite, senão quero três Logo que os homens se ausentaram, elegalinhas. tirou a moça da rede, encheu-a de bastante A velha ficou com medo, deu-lhe as três ouro e de enfeites, e foi ter com ela nas costasgalinhas. Malasartes partiu e foi à noite à casa à casa de um homem rico que havia ali perto.de outra velha; pediu rancho e que agasalhasse Pediu rancho, disse às filhas do tal homem queaquelas três galinhas entre os perus. A velha, aquela era a filha do rei que estava doente, ecomo tola, consentiu. Alta noite, Pedro se ele andava passeando com ela, e pediu que alevantou, foi ao quintal, matou as três galinhas, fossem deitar.besuntando de sangue os perus. No dia Foram levar a moça para umaseguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo camarinha, indo Malasartes com ela, dizendoas suas galinhas, porque queria seguir viagem. que só com ele ela se acomodava. Deitou aA velha foi buscá-las e encontrou o destroço. moça defunta na cama e retirou-se, dizendo àsVoltou aflita, contando a Malasartes. donas da casa: "Ela custa muito a dormir, ainda Ele fez um grande barulho até levar seis chora como se fosse uma criança; quandoperus em troca das galinhas. Na noite seguinte, chorar, metam-lhe a correia."foi ter à casa de um homem que tinha um Alta noite, Pedro foi e se escondeuchiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a debaixo da cama onde estava a moça e pôs-senoite em sua casa e que lhe agasalhasse a chorar como menino. As moças da casa,aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas, supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito atéporque bicho com bicho se acomodavam bem. ela se calar, que foi quando Pedro se calou.O homem assim fez. Depois ele escapuliu e foi para o seu quarto. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 12 De manhã ele pediu a moça, que queria Quando o perseguidor chegou à toda, eir-se embora. Foram ver a filha do rei, e nada perguntou à lavadeira se tinha visto passar umde a poderem acordar. Afinal conheceram que homem tocando uma carneirada, elaela estava morta, e vieram dar parte a respondeu, quase sem poder falar, que PedroMalasartes. Ele pôs as mãos na cabeça dizendo: Malasartes havia feito o que ficou dito."Estou perdido; vou para a forca; me mataram E, porque Pedro já estava longe com oa filha do rei!…" rebanho, o homem voltou soltando um milhão Os donos da casa ficaram muito aflitos, de pragas.e começaram a oferecer cousas pela moça, ePedro sem querer aceitar nada, até que ele DE COMO MALASARTES PASSA ADIANTEmesmo exigiu três mulatas das mais moças e A CARNEIRADAbonitas. O homem rico as deu, e Pedro disseque dava uma desculpa ao rei sobre a morte de Já muito longe, encontrou um porqueirosua filha, e lhe dava de presente as três que vinha tocando também. Pedro Malasartesmulatas, para o rei não se agastar muito. que já previa que o fazendeiro havia de vir no Malasartes largou-se e foi logo para o seu rasto, propôs troca dos carneiros, (quepalácio, onde entregou o rei as três mulatas valiam menos, pelos porcos, que valiam mais).com este dito: "Eu não disse a vossa majestade Fecharam o negócio, tendo o porqueiroque lhe dava três mulatas pelas três botijas de feito uma volta em dinheiro.azeite? Aí estão elas". O rei ficou muito Malasartes seguiu com a porcada e oadmirado. outro com os carneiros, em direção oposta. O porqueiro foi pousar em casa do donoDE COMO MALASARTES FINGIU QUE dos carneiros. Ao ver o seu rebanho, o homemSE MATAVA avançou para o porqueiro, e exigiu entrega do que era seu. O porqueiro quis resistir, mas Vendo que a vitima vinha em sua vendo que o homem estava armado até osperseguição, deu tudo quanto tinha e, ao dentes e tinha muitos capangas, não teve outroaproximar-se de um riacho, encontrou uma remédio senão fazer a restituição, ficando nomulher a lavar roupa. Estava perdido, porque a prejuízo, e tocou pra trás a ver se encontrava olavadeira daria ao perseguidor a sua direção. Malasartes que já estava longe, tendo tomado Mais que depressa tocou a carneirada a por um atalho que foi dar numa fazenda. E, vaiatravessar o riacho, e tomando um dos então, vendeu a porcada por um precinhocarneiros, tirou-lhe as tripas e meteu-as barato, mas com a condição de o compradordebaixo da camisa. Quando a manada passou, deixar que ele cortasse a ponta do rabo deele arrancou da faca, fingiu que abriu o ventre cada porco.e deixou cair na água as tripas do carneiro, que Fecharam o negócio e Pedro Malasartesali levou ocultas. meteu no embornal os rabinhos dos porcos e A lavadeira deu um grito, caiu bateu o pé na estrada.desmaiada ao presenciar tal cena e Malasartesdesapareceu. Nilto Maciel Hiroito) (Hiroito) Japonezinho mirrado, já velho, sorria. Os moleques o chamavam de “japa”. Eleenrugado, banguela. Vigiava carros num se zangava, cuspia farelos e pingos de caldo.estacionamento. Em troca recebia minguadas Deitado no catre imundo, Hiroitomoedas. Quando a fome apertava, corria ao recordava a Grande Guerra. Dores, mortes,vendedor de pastéis. Esmigalhava com os dedos destruição. E a fuga para o Brasil. Dormia,a iguaria e enchia a boca de farelos de carne cansado, e sonhava horrores. Milhões de pulgasmoída e trigo assado. Pedia caldo de cana e a roê-lo vivo. Baratas e ratos fardados, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 13enormes, violentos. Prendiam-no, arrastavam- a vitória. O poderoso exército do Império do Solno, molestavam-no. Nascente. Quando a guerra terminasse, o Japão Mal amanhecia, pulava do gramado e, seria dono do mundo. E ele, Hirohito, o homemtonto, buscava a aurora. Fechava os olhinhos mais poderoso da Terra.sujos e enfiava as mãos na água da bacia. A E expirou.fome de novo. Imaginava pastéis macios. ---------–Esquecia os inimigos, a guerra, os insetos.Corria para pegar o ônibus. Precisava chegarcedo ao estacionamento. E disputar com osmoleques o direito de receber moedas dosdonos dos carros. Moedas e insultos. “Vaitrabalhar, vagabundo!” Nilto Maciel Um dia lhe disseram que no Japão havia Nasceu em Baturité, Ceará, em 1945.muita riqueza. Indústrias e mais indústrias. Obteve primeiro lugar em algunsComo em nenhum outro país. O povo vivia farto concursos literários nacionais e estaduais, come feliz. Nem parecia aquele povo destruído em o livro de contos Tempos de Mula Preta; livro45. Riu. Não acreditou naquilo. E, se fosse de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; Averdade, mesmo assim preferia viver no Brasil, Última Noite de Helena; Os Luzeiros do Mundo;onde não havia guerra. A Rosa Gótica; conto “Apontamentos Para Um Noutro dia houve tiroteio entre policias e Ensaio”; “livro Pescoço de Girafa na Poeira;ladrões de carro. O estacionamento virou "Eça de Queiroz", livro Vasto Abismo.campo de batalha. Tiros a torto e a direito. Tem contos e poemas publicados emCorreria e gritaria. Um pandemônio. Assustado, esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabrao velho japonês correu. Talvez alcançasse a que Virou Bode foi transposto para a telabarraca dos pastéis. Quando aquilo acabasse, (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993.mataria a fome. Porém, antes de alcançar Alguns livros:refúgio, uma bala se incrustou em seu peito. Itinerário, Tempos de Mula Preta, AAtirado ao chão, rolou para debaixo de um Guerra da Donzela, Punhalzinho Cravado decarro. Se sentia dor, não sabia. Na verdade, Ódio, Os Guerreiros de Monte-Mor, O Cabra quetudo parecia grandioso aos seus olhos semi- Virou Bode, Navegador, Vasto Abismo,abertos. Aviões devastavam céus. Tanques Panorama do Conto Cearense, A Leste darolavam sobre os inimigos, que viravam pastéis. Morte, etc.As tropas japonesas invadiam Ásias e Américas.E ele, Hirohito, imperador do Japão, comandava Antonio Roberto de Paula Poesias) (Poesias) O SILÊNCIO DE MARINGÁ Um motor ronca Rompendo uma reta É na noite Perdendo força Quando procuro o sono Nos meus ouvidos Fecho os olhos E tento ouvir Chega uma música O silêncio de Maringá Em baixo volume Um silêncio que dura Sobe poderosa A eternidade E se perde na escuridão De poucos segundos Logo outros sons Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 14 Itinerantes de vozes Demarcava seu espaço sem pedir licença Passos e latidos Vêem e seguem Para Pedro Caveira era vencer ou morrer Sem dar boa-noite Dos homens ganhava o temor, o respeito Das mulheres conseguia tirar o prazer A noite passa veloz Era na marra, na força, de qualquer jeito O dia começa na madrugada Acelerações e freios Entre as tantas moçoilas submissas Buzinas e máquinas Havia uma que ocupava seu coração É a cidade de pé Era a bela , doce e estonteante melissa Em movimento Morena brejeira exalando amor e paixão Houve um tempo Por ela é que Pedro Caveira se derretia Em que a cidade Um caso conhecido em toda comunidade Dormia mais cedo Quando ela chegava seu sorriso se abria Não vagava tanto Para ela, ele pedia só amor e fidelidade E acordava no horário Na vida acontecem coisas inesperadas Tempo da poeira Por uma bronca sem grande repercussão Dos lampiões Caveira teve que tirar férias forçadas Das casas de madeira Fora de circulação, um ano de prisão E portões de balaústres Um dia antes de se entregar à justiça A noite era de poucos Pediu ao bando a palavra em penhor Só dos profissionais Chorou abraçado à querida Melissa Hoje o dia ficou pequeno Que lhe fez juras de eterno amor A noite é a extensão Chamou num canto o seu preferido É na noite O humilde amigo Zequinha Terceiro Quando procuro o sono Lhe pediu em lágrimas, comovido Fecho os olhos Que cuidasse de todo o seu terreiro E tento ouvir O silêncio de Maringá Zequinha levou à risca aquele pedido Um precioso silêncio Por sua conta incluiu a bela morena Um frágil silêncio Virou chefão do pedaço, cabra temido Que dura menos E botou as guampas no Pedro Caveira Que a pureza do instante Passou o tempo, cumprida a sentença A noite Caveira quis retornar ao antigo ninho Já não é mais noite Mas ninguém mais quis a sua presença É só o dia sem sol E até Melissa lhe negou os carinhos Entrando no outro dia (Antonio Roberto de Paula - Livro Maringânias - Humilhado, pobre, com medo de morrer2007 - Poesias comemorativas - Maringá 60 anos) Pedro Caveira abandonou aquela cidade Com ódio de Zequinha de endoidecerCABRITO NA HORTA Hoje perambula na estrada da infelicidade Patrono, manda-chuva, mandava brasa O mundo sempre foi e será dos espertos Pedro Caveira era o tipo de fazer tremer Zequinha agora é senhor, do alto escalão Nunca foi de levar desaforo para casa O pai e o avô na vida não deram certo Não havia homem que podia lhe conter Mas ele é o terceiro, o chefe, um campeão Na faca, na bala, no pau, na porrada E finalizando essa incrível história Pedro Caveira se valia da truculência Pra você não ser tomado de revolta A cada dia mais uma área era dominada Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 15 E pra que a tua vida não seja inglória Regional do Bradesco-Maringá; e foi Não deixe o cabrito tomar conta da horta proprietário do Bar do Toninho ( 1985 a 1990), --- na avenida Dr. Alexandre Rasgulaeff, no Jardim Letra: Antonio Roberto de Paula Alvorada, em Maringá. Melodia: Helington Lopes Desde a adolescência escreve poesias, História contada por Cláudio Viola contos, crônicas e artigos, inclusive com A música "Cabrito na horta" , em versão publicações desde a década de 1970, nosreduzida, participou do Femucic, em 2005, com jornais O Diário do Norte do Paraná , O Jornalapresentação do grupo Receita do Samba de Maringá e Jornal do Povo . Sua primeira experiência efetiva no jornalismo ocorreu em 1975, no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, com o jornal Skeletus , do CETA (Centro Estudantil Tristão de Athaíde). Publicado até 1977, o Skeletus tinha Antonio Roberto de Paula como editores, além de De Paula, seus amigos O jornalista Antonio Roberto de Paula, Mário Sérgio Recco, José Miguel Grillo, Nivaldosócio-proprietário da TV Clipping Maringá, Gôngora Verri, Edson Cemensati e Edson Luiznasceu na cidade paulista de Lupércio, em 17 Matias. Em 1981, foi colaborador do Vôo Livre ,de junho de 1957. É o primogênito dos quatro suplemento de O Diário publicado às sextas-filhos de Alcebíades de Paula Neto e Rita feiras, editado por Mário Sérgio Recco.Andrade de Paula. A mudança para Maringá Seu primeiro emprego efetivo naocorreu em 1959. De Paula concluiu o curso imprensa foi no Jornal do Povo, em 1991, comoprimário em 1967, em Engenheiro Beltrão (PR), colunista de futebol amador, passando depoisonde a família residiu até meados de 1972. para a editoria de esportes e escrevendo a Em 1968 estudou no Seminário Verbo coluna Visão de jogo. Neste mesmo ano atuouDivino, em Ponta Grossa. De 1969 a 1976, fez o como comentarista da extinta Rádioginásio e o científico, como eram chamados na Metropolitana (Rádio Jornal).época os ensinos fundamental e médio, nos Em 1992 e 1993 trabalhou comoseguintes estabelecimentos de ensino de comentarista em transmissões de futebolMaringá: Santo Inácio, Instituto de Educação, amador pela RTV Maringá. Em 1993, deixou oGastão Vidigal e Paraná. Jornal do Povo e se transferiu para a sucursal Foi aprovado no vestibular do curso de do Correio de Notícias, jornal curitibano queLetras na UEM (Universidade Estadual de encerrou as atividades na cidade no anoMaringá) em 1981, mas desistiu do curso. Em seguinte. Lá, foi colunista e editor de esportes.2001, formou-se em Jornalismo pelo Cesumar Ainda em 1993, deixou a RTV indo para(Centro Universitário de Maringá). Em 2003, fez a TV Maringá (Band) para ser editor, pauteiro eo curso de pós-graduação Língua Portuguesa – produtor do programa diário Esporte porTeoria e Prática, pelo Instituto Paranaense de Esporte , onde permaneceu até 1995.Ensino e Univale (União das Escolas Superiores Neste período, De Paula também foido Vale do Ivaí). Atualmente, cursa Mestrado produtor e comentarista do programa Atalaiaem Letras na UEM. Esportiva, da Rádio Atalaia de Maringá. De Sua monografia de conclusão do curso 1995 a 1997, trabalhou no O Diário exercendode graduação foi a apresentação do livro Os as funções de editor de esportes, colunista dohomens da Folha do Norte do Paraná , jornal DNP Esporte, repórter de matérias políticas emaringaense fundado em 1962, pelo primeiro locais, pauteiro e secretário de redação.arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, De 1997 a 1998 foi repórter da Revistae que teve suas atividades encerradas em M-9. De 1997 a 1999 escreveu crônicas,1979. artigos, poesias e contos na coluna Linha Antes de atuar profissionalmente na Expressa, no Jornal do Povo. Em 1998 e 1999imprensa, De Paula foi escriturário na atuou como editor-chefe do departamento deTransparaná (1977), funcionário público jornalismo da TV Cidade – Sistema NET. Emmunicipal ( 1977 a 1979), tendo trabalhado na 2000, foi repórter, pauteiro e colunista doextinta Codemar (Companhia de jornal Hoje Maringá.Desenvolvimento de Maringá) e Secretaria deFazenda; bancário ( 1979 a 1985), no Centro Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 16 De Paula e o jornalista Cláudio Viola são produtores do programa Beca TV , da TVparceiros em composições em que incluem os Clipping Maringá, com Guilherme Tadeu e Allanhinos do Maringá Futebol Clube (1996), do Oliveira, em 2004. Em 2003, publicou o livro DaGrêmio Maringá (2000) e as músicas Maringá minha janela, de crônicas, artigos, poemas,Velho, gravada em 2003 pela cantora contos inéditos e já publicados.maringaense Márcia Mara, e Cabrito na horta , Em 2004 lançou o livro A história políticaclassificada no Femucic (Festival de Música de um cabo de José, de Maria e de todos osCidade Canção), gravada por Helington Lopes Santos , em que narra a história do vereador(que também foi um dos compositores) e o maringaense Cabo Zé Maria e seus dez anos degrupo Receita do Samba. mandato. Em 2005, dirigiu o videodocumetário Em 2002, abriu com a jornalista Simone Crônica democrática de uma cidade brasileira ,Labegalini a TV Clipping Maringá. No início de sobre as Eleições 2004, numa produção da TV2003, De Paula trabalhou como produtor, Clipping Maringá, com roteiro de Guilhermerepórter e comentarista do programa Estação Tadeu de Paula e fotografia e montagem deComunitária , da Rádio Comunitária São Allan Oliveira.Francisco FM, do Jardim Alvorada, retornando Foi nomeado assessor de imprensa dano ano seguinte. Foi responsável juntamente Câmara Municipal de Maringá em 1997, vindo acom seu filho Guilherme Tadeu de Paula da ocupar a chefia do setor no final de 1999, ondesucursal em Maringá do jornal londrinense permanece até hoje.Paraná Shimbun, em 2003 e 2004, e um dos Pedro Silva (Uma Viagem na Época dos Descobrimentos)Um sonho de criança Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não - Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma sabia.donzela formosa, com pouco mais de trinta Ao jantar, o seu pai, conhecedor por seranos. de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se Por todo o lado procurava, mas o seu ao filho:filho não aparecia em sítio algum. - Bartolomeu, tua mãe contou-me que De repente, um franzino jovem surge. passaste o dia junto ao riacho. É verdade?Tinha um olhar simpático. O cabelo - Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e odespenteado. Mas a sua maneira de ser era jovem baixou a cabeça, em tom triste.delicada: - Sabes que a vida não é só brincadeira, - Desculpe, mãe. Estava a brincar no não sabes?riacho. - Eu sei, meu pai, mas… - Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te - E olha que a nossa vida tem sido desentes bem junto à água? trabalho. Os sonhos são apenas para quando O jovem, envergonhado, encolhe os dormimos. A realidade é bem diferente quandoombros e responde: estamos acordados. – afirmou o pai de - Por acaso… sim! – e corre a abraçar a Bartolomeu Dias.sua mãe. - Desculpe, pai. Mas isto não é um Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias, sonho, eu serei mesmo navegador!nascido em Mirandela, uma belíssima localidade O pai não deixou de esboçar umtransmontana, dava os primeiros passos na sua pequeno sorriso. O empenho do seu filho erafutura vida de navegador. Apesar de ter apenas de louvar. Dentro do seu coração, o pai dequinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir Bartolomeu desejava que este conseguisse seras pisadas de Dinis Dias, seu parente e também o mais famoso dos navegadores portugueses.famoso navegador. Mas também sabia as dificuldades que o filho Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 17teria de enfrentar. “Porém, sonhar não custa”, - O que quereis de mim? – perguntou D.pensava de si para si. João II, o Príncipe Perfeito. - Senhor, eu gostaria… - a voz pareciaVivendo um sonho não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de poder participar na próxima viagem a África. Pouco anos depois, Bartolomeu Dias O rei pensou um pouco e respondeu:despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino - Pois bem, embarcarás daqui a doisera a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa maistodos os sonhos seriam possíveis de conquistar. importante feitoria.Até então, passara os seus dias numa pequena E assim foi.povoação do interior do país. Nunca vira o mar, Cruzando mares pela primeira vezmas sonhara com ele todos os dias de sua vida. chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria esteve algum tempo, aperfeiçoando os seusmatemática e astronomia na Universidade de conhecimentos marítimos e aprendendo osLisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar, costumes locais.a primeira atitude que teve ao chegar à capitalfoi deslocar-se à zona de Belém. A razão? A viagem de uma vidaQueria ver o local de onde as caravelas partiamrumo ao desconhecido. Tão rapidamente ganhou experiência “Que local magnífico!”, pensava que, dois anos depois, o rei João II confiou-lheBartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram uma importante missão: descobrir o Prestemarinheiros que se despediam das suas João das Índias. Desde há alguns anos que emfamílias. Eram vendedores que apregoavam os Portugal se contava a história da existência deseus produtos. E, por fim, eram crianças que um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei,choravam de saudades ao ver a chegada dos ao contrário dos reis que o rodeavam, eraseus pais ou que brincavam indiferentes a tudo cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II nao mais. conquista de novos territórios na África e na Com tudo isto sonhara o jovem Ásia.Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes, No entanto, este era o plano secreto.partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem Oficialmente, Bartolomeu Dias tinhanão parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o como missão investigar as costas do continenteseu parente que ganhara alguma fama ao africano. Isto para se tentar perceber se seriacomando de caravelas. Queria saber tudo: possível chegar à Índia por mar.como se preparava uma expedição; quantos Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava quemarinheiros levava a embarcação; e, mais fosse possível ultrapassar a zona conhecida porimportante, quando ele poderia participar. A Cabo das Tormentas. Este nome havia sidotudo respondia Dinis com a sua calma de ganho pelo fato de o mar ser muito perigoso esempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na de muitos barcos ali terem desaparecido.altura certa, chegará o teu momento de Mas Bartolomeu Dias não tinha medo deembarcar”. nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão, Os estudos passaram a correr. Tudo assim seria cumprida.aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar Na verdade, o navegador, queterra firme e aventurar-se no alto mar. comandava duas caravelas, não chegou a Quanto os estudos terminaram, e encontrar qualquer notícia do mítico rei dasauxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na Índias, o famoso Preste João. Porém, traziacorte portuguesa. À sua frente estava D. João relatos muito entusiasmantes para D. João II.II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se. Chegado à corte, Bartolomeu correuEra o seu rei que ali se encontrava. Portanto, para junto do seu rei e declarou:mandava a educação que lhe fizesse uma - Senhor, é possível dobrar o Cabo dasvénia. Tormentas. Eu sei! - Levantai-te. – afirmou o soberano. - Mas como tal será possível, - Obrigado, senhor. É uma honra poder Bartolomeu? – perguntou o monarca.estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu. - Acreditai em mim. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 18 Perante tamanha demonstração de Adamastor. Mas nada disso aconteceu eotimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar quando perceberam que haviam cruzado ono seu navegador. Apesar de todos os projetos ponto mais complicado de África, todos seconcretizados pelos portugueses, a cada sentiram muito felizes. Lançaram os braços aomomento sentia-se a necessidade de ir um Céu, em jeito de agradecimento e alívio dapouco mais além. E, neste momento, dobrar o tensão acumulada.Cabo das Tormentas era o maior desafio da Ao regressarem a Lisboa foramnação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias. acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los O dia da partida foi igual a tantos outros pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: anaquela zona de Belém do século XV. Muita partir daí, em homenagem aos bravostristeza misturada com enorme dose de marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boaesperança. Esperança, pois permitiria chegar à Índia por Se, por um lado, já se chorava de mar.saudades do que estava para vir, por outro, - Obrigado Bartolomeu. – disse o rei,havia sorrisos de expectativa em regressarem olhando para o navegador entretantocomo heróis. Apenas Bartolomeu Dias se regressado do alto mar.mantinha sereno. As histórias do passado não o - Senhor, apenas cumpri o meu dever.atemorizavam. Os muitos barcos e vidas Tanta humildade encerrava no seuperdidos algures no Cabo das Tormentas, onde coração.um gigante Adamastor afundaria as naus, não E tanta vontade de servir o seu país.intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele Assim como de estar junto à água, tal comotinha, do seu lado, a força da experiência e o quando era criança.poder fornecido pela crença nas suas Pouco depois, partiu na expedição decapacidades. Estudara a geografia marítima do Vasco da Gama, que viria a tornar real olocal durante alguns anos. Preparara-se Caminho Marítimo para a Índia.enquanto comandante e enquanto marinheiro. E, em 1500, fez igualmente parte daFaltava, apenas, concretizar o seu sonho: missão de descoberta do Brasil, liderada portornar-se famoso honrando a bandeira de Pedro Álvares Cabral.Portugal. Tudo o que se seguiu ao feito principal, O mês de Agosto de 1487 marcou a ou seja, o agora chamado Cabo da Boapartida de Lisboa. O dia estava solarengo. As Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenasalmas dos marinheiros estavam iluminadas, um justo acréscimo ao seu currículo dequiçá do sol ou da esperança de um fruto navegador.radioso. Em Dezembro, alguns meses após a Bartolomeu Dias foi a Boa Esperançapartida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais que necessitávamos para tornar Portugal uma sul que havia sido registado pelos importante país de comércio e de navegaçãoportugueses. A partir daí, apenas o marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria,desconhecido imperava. hoje em dia, tanto interesse na História dos É então que o tempo deixa de ajudar. Descobrimentos Portugueses…Uma violenta tempestade abate-se sobre aexpedição marítima. Bartolomeu Dias manteve-se calmo, apesar do temor da sua tripulação.Voltava a pairar o medo de um acidente fatal.Durante treze dias andaram à deriva, Pedro Silvaprocurando a costa, mas não a encontrando. O autor Pedro Silva nasceu em TomarNa verdade, ainda que não o soubessem, (Portugal). Cedo deu provas do seu interesseandavam bem perto. Passado algum tempo, pela escrita, tendo alcançado o seu primeiroaproveitando o vento favorável, navegou para prêmio literário com apenas dez anos de idade.nordeste. Sem saber, tinha concretizado um Colaborador assíduo de diversos órgãos defeito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas. comunicação social, o autor alcançou a suaPorém, apenas viria a aperceber-se do que estréia literária em 2000, através da obra sobrefizera na viagem de regresso. Ao regresso fora os Templários chamada "Ordem do Templo: Emobrigado pela tripulação que, supersticiosa, Nome da Fé Cristã". Um ano depois lançou notemia pelo súbito aparecimento do mítico Brasil "História e Mistérios dos Templários". No Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 19ano de 2002, lança-se no campo da ficção, com - "Os Grandes Mistérios da Humanidade" (Axcelum conjunto de contos apelidados "Escritos Books, Brasil, 2006) EnsaioErrantes (histórias leves como o vento mas - "Já Passou" (Corpos Editora, Portugal, 2006)tocantes como a tempestade)". Ficção Com o lançamento de "Ku Klux Klan: - "Assassinos" (Pulso Editorial, Brasil, 2006)Pesadelo Branco", o autor reata a sua paixão Ensaiopelo ensaio histórico, é um estudo intenso - "O Código da Maçonaria" (Universo dossobre a sociedade secreta norte-americana. Em Livros, Brasil, 2007) Ensaio2005, lança "Tripla Imparável I: Juventude em - "1977" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) CrónicasAcção". - "Portugal-Brasil: A Aventura do Paralelamente a isso, é cronista dos Descobrimento" (LGE Editora, Brasil, 2007) co-seguintes órgãos de comunicação portugueses: autor: Jean Angelles / Ilustrações: GleydsonTribuna da Marinha Grande, Jornal O Caetano / Ficção InfantilTemplário, O Almonda e foi Diretor da revista - "Cátaros (história de uma heresia)" (Viatemplária "Das Brumas do Templo e do Graal. Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio - "História Mística de Portugal" (Saída deBibliografia: Emergência, Portugal, 2007) Ensaio- "Ordem do Templo: Em Nome da Fé Cristã" - "Templarios (Cruz y Medialuna)" (Bajo Los(Ulmeiro, Portugal, 2000) Ensaio Hielos, Chile, 2007) co-autor: Sergio Fritz Roa /- "História e Mistérios dos Templários" 2ª EnsaioEdição Esgotada (Ediouro, Brasil, 2001) Ensaio - "Roteiro do Portugal Templário" (Letras e- "Escritos Errantes (histórias leves como o Magia, Brasil, 2007) Turismovento mas tocantes como a tempestade)" - "História Mística do Brasil" (Centauro Editora,Esgotado (Publicações Senso, Portugal, 2002) Brasil, 2007) EnsaioContos - "Codex Templi (Os Mistérios Templários à Luz- "Ku Klux Klan: Pesadelo Branco" (Magno da História e da Tradição" (Zéfiro, Portugal,Edições, Portugal, 2003) Ensaio 2007) participação como autor do capítulo XXX- "Tripla Imparável I: Juventude em Acção" "Os Templários e o Brasil (Terra de Vera Cruz)"(Magno Edições, Portugal, 2005) Ficção Juvenil / Ensaio- "Os Templários e o Brasil" (Flâmula Editora, - "O dia em que a Corte Portuguesa chegou aoBrasil, 2005) Ensaio Brasil" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) Ensaio- "Templários em Portugal (a verdadeira - "Tomar (cidade templária)" (Edições Outrora,história)" (Ícone Editora, Brasil, 2005) Ensaio Portugal, 2007) Ensaio- "Templários em Portugal (a verdadeira - "As Maiores Personalidades da História"história)" (Dinalivro/Ícone Editora, Portugal, (Universo dos Livros, Brasil, 2007) Primeiro2005) Ensaio Volume da Colecção "História Extraordinária do- "Templários (Ordem Militar e Religiosa)" Mundo" / Ensaio(Catedral das Letras, Brasil, 2005) Ensaio - "O Nascimento do Reino de Portugal" (Edições- "Confraria Mística Brasileira: a História" (MAP, Chimpanzé Intelectual, Portugal, 2007)Brasil, 2006) Ensaio Ilustrações: Filipa Canhestro / Ficção Infantil- "Símbolos e Mitos Templários" (Centauro - "Templários (História Integral)" (Letras eEditora, Brasil, 2006) Ensaio Magia, Brasil, 2007) Ensaio- "Mistérios da Humanidade" (Via Occidentalis, - "Dos Templários à Ordem de Cristo" (ViaPortugal, 2006) Ensaio Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio- "O Sol de Rita" (Corpos Editora, Portugal, - "As Maiores Civilizações da História" (Universo2006) Ficção dos Livros, Brasil, 2008) Segundo Volume da- "Roteiro Místico de Portugal" (Editora Leitura, Colecção "História Extraordinária do Mundo" /Brasil, 2006) Turismo Ensaio- "Assassini (uma seita esotérica)" (Via - "Aljubarrota: da Independência à GrandeOccidentalis, Portugal, 2006) Ensaio Batalha" (Edições Chimpanzé Intelectual,- "História dos Lusitanos" (Editora Prefácio, Portugal, 2008) Ilustrações: Filipa Canhestro /Portugal, 2006) Ensaio Ficção Infantil- "Romance na Net" (Idea Editora, Brasil, 2006)co-autor: Eliete Madureira / Ficção Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 20- "Los Templarios en España y Portugal" - "A Lança Sagrada de Hitler" (Universo dos(Editorial Europa Viva, Espanha, 2008) Livros, Brasil, 2008) EnsaioTradução: Maiquel da Costa Brito / Ensaio - "Baphomet – um enigma templário" (Letras e- "Os mais belos lugares para se conhecer Magia, Brasil, 2008) Ficção(antes que eles acabem)" (Universo dos Livros, - "Ordem dos Assassini: os primeiros terroristasBrasil, 2008) Ensaio da humanidade" 1ª Reimpressão (Pulso- "A Magia das Palavras" (LGE Editora, Brasil, Editorial, Brasil, 2009) Ensaio2008) Ilustrações: Fernando Reis / Ficção - "Historia Misteriosa de España y Portugal"Infantil (Editorial Europa Viva, Espanha, 2009) co-- "Grandes Enigmas do Passado (Desvendando autor: Jordi Buch Oliver / Tradução: Maiquel dao Inexplicável)" (Pulso Editorial, Brasil, 2008) Costa Brito / EnsaioEnsaio - "Portugal (país de tradição)" (Ramiro Leão, Portugal, 2010) Ensaio Mario de Andrade Novos) (Contos Novos)Autor com sua prima Maria, bruscamenteMário de Andrade (São Paulo, 1893-1945), líder interrompidas por uma Tia Velha. A repressãoda geração que implantou o Modernismo na associa-se à rejeição da prima, que o esnobacultura brasileira. na adolescência. A prima se casa, descasa, e o convida para visitá-la. "FantasticamenteObra mulher", sua aparição deixa Juca assustado.Contos Novos (1947), escrito num período decrise pessoal, teve publicação póstuma. Reúne 2. "O ladrão": Numa madrugada paulistana,narrativas da maturidade artística do autor, um bairro operário é acordado por gritos demarcadas pela maior depuração compositiva e pega-ladrão. Num primeiro momento, marcadoestilística. "Eu também me gabo de levar de pela agitação, os moradores reagem com1927 a 42 pra achar o conto, e completá-lo em atitudes que vão do medo ao pânico e àseus elementos" (Carta a Alphonsus de histeria, anulados pela solidariedade com queGuimaraens Filho). se unem na perseguição ao ladrão. Num segundo momento, caracterizado pelaGênero literário serenidade e enleio poético, um pequeno grupoContos de estrutura moderna, que acolhem as de moradores experimenta momentos deprincipais correntes ficcionistas que marcaram a êxtase existencial. Os comportamentos seLiteratura Brasileira das décadas de 30 e 40. sucedem, numa linha que vai do instintoMais do que os fatos exteriores, os relatos gregário ao esvaziamento trazido pela rotina.procuram registrar o fluxo de pensamento daspersonagens. 3. "Primeiro de Maio": Conflito de um jovem operário, identificado como "chapinha 35", comContexto histórico-cultural o momento histórico do Estado Novo. 35 vêSão Paulo, capital e interior, décadas de 20 a passar o Dia do Trabalho, experimentando40; processo de urbanização e industrialização reflexões e emoções que vão da felicidade(cidade); patriarcalismo X progressismo matinal à amargura e desencanto vespertinos.(ambiente rural). Mesmo assim, acalenta a esperança de que, no futuro, haja liberdade democrática para queEnredos: "sua" data seja comemorada sem repressão.1. "Vestida de preto": Juca, em flash-back, 4. "Atrás da catedral de Ruão": Relato dosrecupera as primeiras experiências amorosas obsessivos anseios sexuais de uma professora Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 21de francês, quarentona invicta, que procura Integra-se de forma dinâmica nos conflitos dashipocritamente dissimular seus impulsos personagens. Por exemplo, em "O poço", o friocarnais. Aplicação ficcional da psicanálise: cortante do vento de julho, no interior paulista,decifração freudiana. amplifica o tratamento desumano que o fazendeiro Joaquim Prestes dá a seus5. "O poço": Joaquim Prestes, fazendeiro empregados.dividido entre o autoritarismo e o progressismo,é desafiado por um grupo de peões que se Personagensinsubordinam, desrespeitando o mandonismo Nas nove narrativas, evidencia-se um profundoabsurdo do patrão. mergulho na realidade social e psíquica do homem brasileiro. Os quatro contos de cunho6. "Peru de Natal": Juca exorciza a figura do biográfico e memorialista, centrados em Juca,pai, "o puro-sangue dos desmancha-prazeres", promovem uma "interiorização" de temasproporcionando à família o que o velho, sociais e familiares. Já os com enunciação em"acolchoado no medíocre", sempre negara. terceira pessoa apresentam personagens cuja densidade psicológica procura expressar a7. "Frederico Paciência": Dois adolescentes relação conflituosa do homem com o mundo.envolvidos por uma amizade dúbia, de Em contos como "Primeiro de Maio", "Atrás daconotação homossexual, procuram encontrar catedral de Ruão" e "Nélson", os protagonistasjustificativas para esse controvertido vínculo e não têm nome: isso é índice da retificação e dase rebelam contra as convenções impostas pela alienação que fragmentam a existência humanasociedade. na sociedade contemporânea.8. "Nélson": Registro do comportamentoinsólito de um homem sem nome. Num bar, umgrupo de rapazes exercita seu "voyeurismo"pela curiosidade despertada pelo estranhosujeito: quatro relatos se acumulam, na Mário de Andradetentativa de decifrar a identidade e a história devida de uma pessoa que vive ilhada da Eu sou um escritor difícilsociedade, ruminando sua misantropia. Que a muita gente enquisila, Porém essa culpa é fácil9. "Tempo de camisolinha": Juca, De se acabar de uma vez:posicionando-se novamente como personagem- E só tirar a cortinanarrador, evoca reminiscências da infância, Que entra luz nesta escuridez. (A Costela de Grão Cão)especialmente do trauma que lhe causou ocorte de seus longos cabelos cacheados. 1893: Nasce Mário Raul de MoraesReconcilia-se com a vida ao presentear um Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlosoperário português com três estrelas-do-mar. Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em SãoFoco narrativo de 1ª pessoa Paulo - SP.Centra-se no eixo de individualidade de Juca, 1904: Escreve o primeiro poema, cantadoprotagonista-narrador. Por meio de evocação com palavras inventadas. "O estalo veio nummemorialista, em profunda introspecção, ele desastre da Central durante um piquenique derelembra a infância, a adolescência e o início de subúrbio. Me deu de repente vontade de fazervida adulta. um poema herói-cômico sobre o sucedido, e fiz. Gostei, gostaram. Então continuei. Mas isso foiFoco narrativo de 3ª pessoa o estralo apenas. Apenas já fizera algumasCentra-se num eixo de referência social, de estrofes soltas, assim de dois em três anos; einspiração neo-realista. A denúncia de aos dez, mais ou menos, uma poesia cantada,problemas sociais se alia à análise da de espírito digamos super realista, queproblemática existencial das personagens. desgostou muito minha mãe. "— Que bobagem é essa, meu filho?" — ela vinha. Mas eu nãoEspaço conseguia me conter. Cantava muito aquilo. Até Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 22hoje sei essa poesia de cor, e a música 1920: Lê obras Index . Faz parte do grupotambém. Mas na verdade ninguém se faz modernista de São Paulo. Colabora em Papel eescritor. Tenho a certeza de que fui escritor Tinta (São Paulo), na Revista do Brasil (Rio dedesde que concebido. Ou antes... Meu avô Janeiro - até 1926) e na Illustração Brasileiramaterno foi escritor de ficção. Meu pai também. (Rio de Janeiro - até - 1921).Tenho uma desconfiança vaga de que refinei a 1921: É professor de História da Arte noraça..." Este o depoimento do escritor a Conservatório. Pertence à Sociedade de CulturaHomero Senna, publicado no livro "República Artística. Está presente no lançamento dodas Letras", Editora Civilização Brasileira - Rio Modernismo no banquete do Trianon. Éde Janeiro, 1996, 3a. edição, sobre como havia apresentado ao público por Oswald de Andradecomeçado a escrever. através do artigo "Meu poeta futurista" (Jornal 1905: Ingressa no Ginásio N. Sra. do Carmo do Commércio São Paulo). Escreve "Mestres dodos Irmãos Maristas. passado" para o citado jornal. 1909: Forma-se bacharel em Ciências e 1922: Professor catedrático de História daLetras. Terminado o curso multiplica leituras e Música e Estética no Conservatório. Participa dafreqüenta concertos e conferências. Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 13 1910: Cursa o primeiro ano da faculdade de a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de SãoFilosofia e Letras de São Paulo. Paulo. Faz parte do grupo da revista Klaxon, 1911: Inicia estudos no Conservatório publicando poemas e críticas de literatura, artesDramático e Musical de São Paulo. plásticas, música e cinema. Escreve Losango 1913: Morre seu irmão Renato, aos 14 Cáqui, poesia experimental. Inicia aanos, devido a complicações decorrentes de correspondência com Manuel Bandeira, queuma cabeçada em jogo de futebol. Abalado dura até o final de sua vida. Publica Paulicéiapelo fato e trabalhando em excesso, Mário tem desvairada, poesia.uma profunda crise emocional. Passa um tempo 1923: Estuda alemão com Kaethe Meichen-em Araraquara, na fazenda da família. Quando Bosen, de quem se enamora. Faz parte daretorna desiste da carreira de concertista revista Ariel, de São Paulo. Escreve A escravadevido a suas mãos terem se tornado trêmulas. que não é Isaura, poética modernista. ContinuaDedica-se, então a carreira de professor de a colaborar na Revista do Brasil (Rio demúsica. Janeiro). 1915: Conclui curso de canto no 1924: Realiza a histórica "Viagem daConservatório. Descoberta do Brasil", Semana Santa dos 1916: Conclui, como voluntário, o Serviço modernistas e seus amigos, visitando asMilitar. cidades históricas em Minas. Colabora em 1917: Diploma-se em piano pelo América Brasileira (contos de Belazarte),Conservatório. Morre seu pai. Publica Há uma Estética e Revista do Brasil (Rio de Janeiro).gota de sangue em cada poema, poesia, sob o 1925: Colabora nA Revista Nova de Belopseudônimo de Mário Sobral. Primeiro contato Horizonte. Publica A Escrava que não é Isaura:com a modernidade na Exposição de Anita discurso sobre algumas tendências da poesiaMalfatti. Primeira viagem a Minas: encontra o modernista. Adquire a tela de André Lhote,barroco mineiro, visita Alphonsus de Futebol, através de Tarsila.Guimarães. Já iniciou sua Marginália. 1926: Férias em Araraquara, escrevendo 1918: Recebe Diploma de Membro da Macunaíma. Publica Primeiro andar, contos, eCongregação Mariana de N. Sra. da Conceição Losango Cáqui (ou Afetos Militares de Misturada Igreja de Santa Ifigênia. Noviciado na com os Porquês de eu Saber Alemão), poesia.Ordem Terceira do Carmo. Nomeado professor Escreve poemas de Clã do Jaboti. Colabora nano Conservatório. Escreve contos e poemas. Revista de Antropofagia, na Revista do Brasil eColabora ocasionalmente em jornais e revistas em Terra Roxa e Outras Terras.como crítico de arte e cronista; em A Gazeta e 1927: Colabora no Diário Nacional de SãoO Echo (São Paulo). Paulo: crítico de arte e cronista (até 1932, 1919: Profissão na Ordem Terceira do quando o jornal é fechado). Estréia comoCarmo a 19 de março. É colaborador de A romancista, publicando Amar, verboCigarra, O Echo e A Gazeta. Viagem a Minas intransitivo, que choca a burguesia paulistanaGerais, visitando as cidades históricas. com a história de Carlos, um adolescente de Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 23família tradicional iniciado nos prazeres do sexo catedrático de Filosofia e História da Arte napela sua Fraülein, contratada por seu pai Universidade do Distrito Federal e colabora noexatamente para essa tarefa. Lança, também, o Diário de Notícias daquela cidade. Publicalivro Clã do Jaboti, de poesias. Realiza a Namoros com a Medicina, estudos de folclore.primeira "viagem etnográfica": percorrendo o 1939: Cria a Sociedade de Etnologia eAmazonas e o Peru, da qual resulta o diário O Folclore de São Paulo, sendo seu primeiroTurista Aprendiz. presidente. Organiza o 1o. Congresso da Língua 1928: Membro do Partido Democrático. Nacional Cantada (jul.). Projeta a criação doRealiza sua segunda "viagem etnográfica": ao Serviço do Patrimônio Histórico e ArtísticoNordeste do Brasil (dez. 1928 - mar. 1929). Nacional, SPHAN. É nomeado encarregado doColabora na Revista de Antropofagia e em Setor de São Paulo e Mato Grosso. EscreveVerde. Publica Ensaio sobre a Música Brasileira poemas de A Costela do Grão Cão. Publicae Macunaíma - o Herói sem nenhum caráter, Samba Rural Paulista, estudo de folclore. Éonde inova com audácia e rebela-se contra a crítico do Diário de Notícias (até 1944) emesmice das normas vigentes. Com enorme colabora na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro)sucesso a obre repercutiu em todo o país por e em O Estado de S. Paulo. Publica A Expressãoseus enfoques inéditos. Sob um fundo Musical nos Estados Unidos.romanesco e satírico, aí se mesclavam numa 1941: Volta a viver em São Paulo, à Ruanarrativa exemplar a epopéia e o lirismo, a Lopes Chaves 546. Está comissionado nomitologia e o folclore, a história e o linguajar SPHAN. Colabora em Clima (SP).popular. O personagem-título, um "herói sem 1942: Sócio-fundador da Sociedade dosnenhum caráter", viria a ser uma síntese, o Escritores Brasileiros. Colabora no Diário de S.resumo das virtudes e defeitos do brasileiro Paulo e na Folha de S. Paulo. Publica Pequenacomum. História da Música. 1929: Inicia coluna de crônicas "Táxi", no 1943: Publica Aspectos da LiteraturaDiário Nacional. "Viagem etnográfica" ao Brasileira, O Baile das Quatro Artes, crítica, eNordeste, colhendo documentos: música Os Filhos de Candinha, crônicas.popular e danças dramáticas. Rompimento da 1944: Escreve Lira Paulistana, poesia.amizade com Oswald de Andrade. Publica 1945: Coberto de reconhecimento peloCompêndio de História da Música. papel de vanguarda que desempenhou em três 1930: Apóia a Revolução de 30. Defende o décadas, Mário de Andrade morreu em SãoNacionalismo Musical. Publica Modinhas Paulo - SP em 25 de fevereiro de 1945,Imperiais, crítica e antologia, e Remate de vitimado por um enfarte do miocárdio, em suaMales, poesia. casa. Foi enterrado no Cemitério da 1933: Completa 40 anos. Faz crítica para o Consolação. Publicação de Lira Paulistana eDiário de São Paulo (até 1935). Poesias completas. 1934: Diplomado Professor honorário do Um capítulo à parte em sua produçãoInstituto de Música da Bahia. Cria e passa a literária sem fronteiras é constituído peladirigir a Coleção Cultural Musical (Edições correspondência do autor, volumosa e cheia deCultura Brasileira - São Paulo). Colabora em interesse, ininterruptamente mantida comFesta (Rio de Janeiro), Boletim de Ariel. Publica colegas como Manuel Bandeira, CarlosBelazarte, contos, e Música, Doce Música, Drummond de Andrade, Oswald de Andrade,crítica. Tarsila do Amaral, Fernando Sabino, Augusto 1935: É nomeado chefe da Divisão de Meyer e outros. Suas cartas conservaram, deExpansão Cultural e Diretor do Departamento regra, a mesma prosa saborosa de suasde Cultura. Publica O Aleijadinho e Álvares de criações com palavras — um lirismo que, comoAzevedo. ele disse, "nascido no subconsciente, acrisolado 1936: Deixa de lecionar no Conservatório. num pensamento claro ou confuso, cria frasesNomeado Chefe do Departamento de Cultura que são versos inteiros, sem prejuízo de medirda Prefeitura. tantas sílabas, com acentuação determinada". 1937: É contra o Estado Novo. Coberto de reconhecimento pelo papel de 1938: Transfere-se para o Rio de Janeiro vanguarda que desempenhou em três décadas,(27 jun.), demitindo-se do Departamento de Mário de Andrade morreu em São Paulo SP emCultura (12 mai.). É nomeado professor- 25 de fevereiro de 1945. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 24 - Música do Brasil, 1941 Bibliografia: - Poesias, 1941- Há uma gota de sangue em cada poema, - O movimento modernista, 19421917 - O baile das quatro artes, 1943- Paulicéia desvairada, 1922 - Os filhos da Candinha, 1943- A escrava que não é Isaura, 1925 - Aspectos da literatura brasileira 1943 (alguns- Losango cáqui, 1926 dos seus mais férteis estudos literários estão- Primeiro andar, 1926 aqui reunidos)- A clã do jabuti, 1927 - O empalhador de passarinhos, 1944- Amar, verbo intransitivo, 1927 - Lira paulistana, 1945- Ensaios sobra a música brasileira, 1928 - O carro da miséria, 1947- Macunaíma, 1928 - Contos novos, 1947- Compêndio da história da música, 1929 - O banquete, 1978(reescrito como Pequena história da música - Será o Benedito!, 1992brasileira, 1942)- Modinhas imperiais, 1930 Antologias:- Remate de males, 1930 - Obras completas, publicação iniciada em- Música, doce música, 1933 1944, compreendendo 20 volumes.- Belasarte, 1934 - Poesias completas, 1955.- O Aleijadinho de Álvares de Azevedo, 1935 - Poesias completas, 1972.- Lasar Segall, 1935 José Carlos Capinan Poesias) (Poesias)MUDANDO DE CONVERSA Há quem chore, há quem ligue a chave de igniçãoNão me venham falar de éticas Entretanto em meu coração fortemente chovePrefiro locomotivas Chove chove choveOu motivos loucos para ser felizPrefiro vagões de urânio e feijão Enquanto chove, choro e relampejaAtravessando o país Se despem e se despedem todos os amantesVendo o povo acenando lenços brancos As chaves de ignição acendem os trovões(Campos férteis) Apagam-se as velas e assim sejaAos que vão sul a norteLeste oeste VIITrilhos novos, outros brasis Os carros são cada ano mais potentesE eu menino outra vez a dar adeus aos tempos E capazes de desenvolver velocidadesda antihistória surpreendentesQuero sorrir das janelas de trens supersônicos São capazes de atirar quilômetros animaisEm trilhos magnéticos árvoresE novamente pensar que podemos alcançar as genteestrelas Não sei porque a vida se faz tão urgente(Dakar, em maio/2006) VIIIALGUMAS FANTASIAS Sou políticoI E nem sei o que possa dizer com issoÉ noite, tudo é mistério, eu vejo Mas é da época ser político Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 25E há vários políticos Os cães provavelmente ladrarão inteiramente aE cada um tem a sua verdade política noiteE a sua maneira política de ser político Enquanto a lua cheia obtura os dentes podresE cada político tem o seu melhor mundo a das cançõesoferecer Um traficante bolivianoSou político e também penso que talvez tenha Diz alô de Amsterdãum mundo Um fracassado governanteMas nem por isso, talvez somente fantasie inútil Diz alô num telegramaE acredite poder alterar esse inexorável rumo. Tudo é ópio, para um ex-marxista Para um ex-espiritualista, tudo é transe.Fui tão político às vezes que desdenhei as Tudo é provisoriamente eterno para os poetasformas Tudo é eternamente provisório para osE contestei as normas amantesE confessei ridículas as pétalas de rosas E o poema apenas a configuração do instanteFui tão político às vezes que fiz da beleza umacoisa perigosa DIDÁTICAE tão político às vezes que tornou-se a noitepavorosa A poesia é a lógica mais simples.Fui tão político às vezes que se desfizeram as Isso surpreendeminhas Aos que esperam ser um gato mãos amorosas Drama maior que o meu sapato.E tão político às vezes que pensei entender a Ou aos que esperam ser o meu sapato,guerra Drama tanto mais duro que andar descalçoO chumbo e a pólvora E ainda aos que pensam não ser o meu andarFui tão político às vezes que despendi mil descalçoimpossíveis horas Um modo calmo.Dissolvendo em amnésia todas as memórias (Maior surpresa terão passadoAs máquinas são políticas Os que julgam que me engano:As poéticas são políticas Ah, não sabem o quanto quero o sapatoAs canções são políticas Nem sabem o quanto trago de humanoMas eu desconfio que alguma coisa possa Nesse desespero escasso.deixar de ser Não sabem mesmo o que falo Em teorema tão claro.MADRUGADAS DE NARCISO Como não se cansariam ao me buscar osEncalho nas madrugadas as minhas velas em passosfarrapos Pois tenho os pés soltos e ando aos saltosSou eu mesmo os marinheiros E, se me alcançassem, como se chocariam aoSou eu mesmo a cabotagem saber que façoSou eu quem traça os portos do roteiro A lógica da verdade pelos pontos falsos)E torna em desespero a bússola da viagem POESIA PURANaufrago nas madrugadasMas eu mesmo me faço nadar em vão até as Se esta é a busca da noite enquanto noite,mais A busca intensa que nada perturba, longínquas praias Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta.Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade Nego a compreensão, pois ela já tem noçõesSou eu mesmo a terra à vista E pode perturbar a flor pelo conhecer doInalcançável homem. Hoje não relaciono, não comprometo.OUTRAS CONFISSÕES Quero a coisa em seu íntimo mais grave Quero a coisa, essencialmente a coisa,Narciso se despe, é noite, estão ladrando oscães Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 26A coisa metafísica, para provar a Violência, viola violeiroimpossibilidade. Era a morte em redor mundo inteiro Era um dia, era claro, quase meioO REBANHO E O HOMEM Era um que jurou me quebrar Mas não lembro de dor nem receioO rebanho trafega com tranqüilidade o Só sabia das ondas do marcaminho: Jogaram a viola no mundoÉ sempre uma surpresa ao rebanho que ele Mas fui lá ho fundo buscarchegue Se toma a viola eu ponteioAo campo ou ao matadouro. Meu canto não posso pararNenhuma raivaNenhuma esperança o rebanho leva. Quem me dera agoraPouco importa que a flor sucumba aos cascos Eu tivesse a violaOu ainda que sobreviva. Pra cantarNenhuma pergunta o rebanho não diz: Era um era dois, era cemAté na sede ele é tranqüilo Era um dia, era claro, quase meioAté na guerra ele é mudo. Encerrar meu cantar já convémO rebanho não pronuncia, Prometendo um novo ponteioUsa a luz mas nunca explica a sua falta Este dia bem claro por inteiroUsa o alimento sem nunca se perguntar Eu espero não vá demorarSobre o rebanho o sexo Este dia estou certo que vemQue ele nunca explicara Digo logo que vim pra buscarE as fêmeas cobertas Parado no meio do mundoRecebem a fecundidade sem admiração. Não deixo a viola de ladoA morte ele desconhece e a sua vida. Vou ver o tempo mudadoNo rebanho não há companheiros, E um novo lugar pra cantarHá cada corpo em si sem lucidez alguma. Quem me dera agoraO rebanho não vê a cara dos homens Eu tivesse a viola pra cantarAceita o caminho e vai escorrendo Ponteio, ponteioNum andar pesado sobre os campos. Todo mundo PontearPONTEIO “Em 1967, Ponteio ganhou o III Festival da(Música em parceria com Edu Lobo) MPB, enquanto era morto em SantaCruz de la Sierra, Bolívia, um mito latino americano, queEra um, era dois, era cem derrubara em Cuba, ao lado de Fidel, a ditaduraEra o mundo chegando e ninguém de Fulgêncio Baptista, criando pela primeira vezQue soubesse que eu sou violeiro uma república socialista nas Américas. NesteQue me desse ou amor ou dinheiro festival, foram plantadas as sementes daEra um era dois era cem Tropicália. Caetano Veloso defende Alegria,Vieram pra me perguntar Alegria, e enquanto se preparava para cantarOh você de onde vai de onde vem Domingo no Parque, entreguei a Gilberto Gil oDiga logo o que tem pra cantar poema-letra Soy Loco Por Ti, América.Parado no meio do mundo Considero estas três canções precursoras doPensei chegar meu momento Tropicalismo. E considero Ponteio oOlhei pro mundo e nem via encerramento do ciclo que elejera o NordesteNem sombra nem sol nem vento como síntese de nossa postura estético- política”. (Capinan)Quem me dera agoraEu tivesse a viola CLARICEPra cantar (música em parceira com Caetano Veloso)Era um dia, era claro, quase meioEra um canto calado sem ponteio Há muita gente Apagada pelo tempo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 27Nos papéis desta lembrança Assistiu minha partidaQue tão pouca me ficou Chorando pediu lembrançaIgrejas brancas, luas claras nas varandas E vendo o barco se afastar de AmaralinaJardim de sonho e cirandas Desesperadamente lindaFoguetes claros no ar Soluçando e lentamente E lentamente despiu o corpo morenoQue mistério tem Clarice E entre todos os presentesPra guardar-se assim tão firme Até que seu amor sumisseNo coração Permaneceu no adeus chorando e nua Para que a tivesse todaClarice era morena Todo tempo que existisseComo as manhãs são morenasEra pequena no jeito de não ser quase ninguém Que mistério tem ClariceAndou conosco caminhos de frutas e Que mistério tem Claricepassarinhos Pra guardar-se assim tão firmeMas jamais que se despiu No coração?Entre os meninos e os peixesEntre os meninos e os peixes “1966 (...) Morava no Rio de Janeiro, numaDo rio espécie de exílio interno, que vivi ao sair da Bahia, em 1964. Eu tinha uma idéia recorrenteEu pergunto o mistério de voltar. Algumas vivências de adolescenteQue mistério tem Clarice insistiam em permanecer no meu coração,Pra guardar-se assim tão firme resistindo ao sex appeal das garotas deNo coração Ipanema, pelejando com as novas emoções que o Rio oferecia. E eram muitas. Mas a quaseTinha receio do frio namoradinha do interior permaneceu comoMedo de assombração ícone da beleza nativa, a cobiçada filha de seuUm corpo que não mostrava Cícero (...). Escrevi Clarice num surto de banzo.Feito de adivinhação E mostrei o poema a Suzana (filha de ViníciusOs botões sempre fechados de Moraes) e Macalé. Suzana identificouClarice tinha o recato Caetano como parceiro ideal (...) A morenaDe convento e procissão Clarice foi gravada também por Orlando Silva, o que vim a descobrir após a sua morte”.Que mistério tem Clarice (Capinan)Que mistério tem ClaricePra guardar-se assim tão firme PAPEL MACHÊNo coração (música em parceria com João Bosco)Soldado fez continência Cores do marO coronel reverência Festa do Sol0 padre fez penitência Vida é fazerTrês novenas e uma trezena Todo sonho brilharMas Clarice era inocência Ser felizNunca mostrou-se a ninguém No seu colo dormirFez-se modelo das lendas E depois acordarDas lendas que nos contaram Sendo seu colorido brinquedoAs avós De papel machêEu pergunto o mistério Dormir no teu coloQue mistério tem Clarice É tornar a nascerPra guardar-se assim tão firme Violeta e azulNo coração Outro ser Luz do quererTem que um dia amanhecia e Clarice Não vai desbotar Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 28Lilás cor do mar Festival da Record de 1967, com a cançãoSeda cor do batom “Ponteio”. Volta a se aproximar de seusArco-íris crepom conterrâneos – compõe com Gil o clássico “SoyNada via desbotar Loco por Ti, América”, e integra o históricoBrinquedo de papel machê disco “Tropicália” (68), ao lado de Caetano, Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat e“Poucas canções eu fiz tomando como ponto de Torquato Neto.partida uma melodia já composta. Ponteio e Não diminui o seu ritmo como letrista ePapel Machê foram raras exceções. Gosto de segue dividindo parcerias com grandes nomesescrever os poemas ou letras livremente, sem da música, como Jards Macalé (em “Gothamum padrão a ser alcançado... Esta parceria com City”, vaiadíssima no IV Festival InternacionalJoão Bosco é um dos maiores sucessos de tudo da Canção de 1969), Fagner (em “Como seque escrevi. Eu estava feliz e bem amado Fosse”) e Geraldo Azevedo (em “For All Paraquando a fiz e me interessava muito pelas Todos”). Em 2000, compôs a ópera “Rei Brasilrelações amorosas que dão certo, porque me 500 Anos” ao lado de Fernando Cerqueira esinto mal-educado afetivamente (...)” Paulo Dourado, uma crítica as comemoração(Capinan) dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, e dividiu parceria nos novos discos de Tom Zé (em “Perisséia”) e de Sueli Costa (em “Jardim”). Segundo Gilberto Gil, (...) Capinan, como todos nós outros, vivia aquela aventura com a sofreguidão das almas jovens. Vindo de José Carlos Capinan um interior ainda mais agreste, ainda mais Nascido na cidade baiana de Esplanada, nordeste do que o de onde vínhamos eu eem 19 de dezembro de 1941, José Carlos Caetano — porque ainda mais longe do mar deCapinam é considerado um dos grandes águas e de luzes da baía —, Capinan eraletristas de sua geração, tendo participado portador e manifestante de uma alma aindaativamente do movimento tropicalista no fim da mais severina, no sentido joãocabralino dadécada de 60. palavra. Mais caprino, mais cismado mais Poeta desde a adolescência, mudou-se dependurado nas argolas das interrogações,para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso como se elas fossem aquelas gangorras toscasde Direito, na Universidade Federal da Bahia. pendendo dos galhos das mangueiras dos Militante fervoroso do CPC da UNE, fez quintais das casas no seu sertão. Delogo amizade com Caetano Veloso e Gilberto pensamento arisco, arredio, maisGil, na época cursando, respectivamente, as litera(l)riamente desconfiado do que os outros,faculdades de Filosofia e de Administração de Capinan viria depositar a palavra nas mãos doEmpresas. seu coração semiárido. A sua poesia estava, Com o golpe militar, em 1964, é forçado então, naquela região do sertão, naquelea deixar Salvador e vai morar em São Paulo, coração semiúmido e de lá ela se faria escreveronde inicia os primeiros poemas de seu livro de e falar.estréia, “Inquisitórial”. Alguns anos depois, Aqui e ali essa poesia viria a ser, maisvolta à capital baiana, desta vez para fazer tarde, um pouco mais entumescida pelo mar daMedicina, profissão que chega a exercer por viagem ao desconhecido ou pelo orvalho dasalgum tempo. últimas madrugadas neo-românticas, quando Paralelamente, intensifica o seu trabalho dos estertores da revolução política e culturalcomo poeta e participa do primeiro disco de dos sessenta e dos setenta e logo dos oitenta eGilberto Gil, em 1966, dividindo a parceria na tantos quantos foram os anos-luzes do seufaixa “Viramundo”. No mesmo ano, sua música percurso por sampas e riodejaneiros. Mas, no“Canção para Maria”, defendida e composta em fundo, eu quase arriscaria afirmar que a poesiaparceria com Paulinho da Viola, é um dos de Capinan repousa, ainda e eternamente, nodestaques do II Festival de Música da Record, caroço de umbu da sua caatinga. Umbu cujaobtendo a terceira colocação. carne é assim meio fibra, meio nervo e um Torna-se um dos mais assediados tanto pouca, que ao morder se dá mais parcaletristas da época e vence com Edu Lobo o Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 29que farta, com seu doce ancorado em seu permanece. Aquilo que não se perde nasazedo, cujo gosto é bom mas exigente e névoas do delírio. Como a um fio de Ariadnedificultoso, e cujo caroço é duro e traiçoeiro atado. Aquilo que, como no sonho acordado dopara os dentes. Creio que assim será sempre a menino, leva-o à exploração das grutaspoesia de Capinan, embora seu verso tenha obscuras da fantasia mas o traz sempre deuma vez ameaçado que “já não somos como na volta ao ser do presente, ao claro recinto dochegada”. seu quarto — ainda que sob tênue luz de Sabemos que em todos nós há sempre lamparina iluminado. Quatro paredes, o teto,um que vai e um que fica, um que muda e um seu ambiente. Sempre de volta à obstinadaque permanece, e que há um outro que atento recusa da solidão. De volta a algum/alguémos observa a ambos, quase sempre a um deles sempre ao seu lado. Ele mesmo, o seu amigodistinguindo como se com um amor de pai. ambíguo, um tanto quanto deslocado, quase (...) A poesia de Capinan distingue, que num quarto ao lado, contíguo a si mesmo,elege e prestigia aquilo/aquele que nele mas ainda no âmbito da sua con(si)guidade. Tatiana Belinky Belinky (O Diabo e o Granjeiro) Um pobre lavrador precisava construir a E voltou correndo para casa, paracasa de sua pequena granja, mas não comunicar à esposa o bom negócio queconseguia realizar esse sonho, pois o que acabara de fechar.ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com A pobre mulher ficou horrorizada:sua mulher. Por mais economia que fizesse, — Tu és um louco, marido! Acabas denão conseguia juntar o necessário para prometer àquele velho, que só pode ser ocomeçar a construção. próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai Um dia, estando a caminhar pelo seu nascer daqui a alguns meses!pedaço de chão, mergulhado em tristes O homem, que não sabia da gravidez,pensamentos, deu com um velho esquisito que pôs as mãos na cabeça, mas não havia maislhe disse com voz desagradável: nada a fazer: o pacto estava selado. — Pára de preocupar-te, homem. Eu A mulher, porém, que não estavaposso resolver o teu problema antes do disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeitoprimeiro canto do galo, amanhã cedo. de frustrar o plano do diabo. — Como assim? — espantou-se o E naquela noite, sem conseguir dormir,lavrador. ficou o tempo todo escutando apavorada o — Tu precisas construir a casa da barulho que o demônio e seus auxiliaresgranja, certo? Pois eu me encarrego de infernais faziam, ao construírem a tal obra, comconstruir e entregar-te essa obra, antes do espantosa rapidez. A noite ia passando,canto do galo, em troca de uma pequena aproximava-se a madrugada.promessa tua. Mas, pouco antes de o céu clarear, — Que promessa? Não tenho nada para quando faltavam só umas poucas telhas para ate oferecer em troca de tal serviço. conclusão da obra, a atenta mulher do — Não importa: o que quero que me granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correuprometas é um bem que tu tens mas ainda não até o galinheiro, onde o galo ainda nãosabes. É topar ou largar. despertara. O pobre granjeiro pensou com seus Tomando fôlego, imitou o canto do galo,botões “o que é que eu tenho a perder?” e, com tal perfeição que todos os galos dasem hesitar mais, respondeu ao velho que vizinhança, junto com o seu próprio, lheaceitava o trato e fez a promessa. responderam com um coro sonoro de cocoricós — Só que quero ver a casa da granja matinais, momentos antes do romper daconstruída, amanhã, antes do canto do galo — aurora.observou ele, ainda meio incrédulo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 30 Como um trato com o diabo tem de ser De 1948 a 1951, criou com o maridoestritamente observado, tanto pela vítima como várias adaptações de histórias infantis parapor ele mesmo, a obra em final de construção teatro. Nessas encenações, Tatiana fazia oteve de ser parada naquele mesmo instante, roteiro e o marido, a direção. As peças erampor quebra de contrato “antes do primeiro encenadas em teatros da Prefeitura de Sãocanto do galo”. Paulo, com recursos da prefeitura. E o diabo, espumando de raiva por se Em 1952, o casal encenou sua bem-ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de sucedida adaptação “Os três ursos” na extintavolta para o inferno, junto com seus acólitos, TV Tupi. Com o sucesso da encenação napara nunca mais voltar àquele lugar. televisão, a Tupi convidou o casal a elaborar oMas a casa da granja permaneceu construída, programa “Fábulas Animadas”, preenchendopara alegria do granjeiro, faltando apenas umas uma lacuna da programação da época para opoucas telhas que jamais puderam ser público infanto-juvenil.colocadas. A primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, estreou em 10 de janeiro de 1952, e a direção coube a Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Foram 300 episódios, mas infelizmente não ficou nada registrado pois Tatiana Belinky o programa era feito ao vivo.Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro A primeira adaptação ocorreu no Teatrode mim continua vivinha a criança que fui e isto Escola de São Paulo - TESP - um teleteatrome permite estar em sintonia com crianças e dirigido ao público infantil, criado em 1948 porjovens, com quem procuro repartir minhas Tatiana e Júlio Gouveia. "A Pílula Falante", umcurtições de ontem e de hoje. Meu prêmio dos capítulos do livro "Reinações de Narizinho",maior é saber que meus livros irão para as foi a história escolhida para ser exibida ao vivomãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se na Tupi. O sucesso alcançado por esta únicaemocionarem, ou ficarem pensativas, eu ficarei apresentação levou a emissora a produzir afeliz". primeira série de televisão do "Sítio do Picapau Tatiana Belinky (São Petersburgo, 18 de Amarelo".março de 1919) é uma das mais importantes O primeiro programa estreou em 3 deescritoras infanto-juvenis contemporâneas. junho de 1952 (às quintas-feiras, 19h30), comEmbora russa, está radicada no Brasil há quase a reprise do episódio "A Pílula Falante", ficandooitenta anos. no ar por 11 anos. Paralelamente à exibição ao Nasceu em São Petersburgo (Rússia) no vivo em São Paulo, a TV Tupi do Rio de Janeirodia 18 de março de 1919, mudando-se para exibiu, por dois meses no ano de 1955, umaRiga aos dois anos de idade. Seu pai, Aron, era versão da série com direção de Mauríciocomerciante e a mãe, Rosa, cirurgiã-dentista. A Sherman e produção de Lúcia Lambertini, quemenina Tatiana aprendeu a ler no idioma também interpretava a Emília ao lado de Danielmaterno, o russo. Aos dez anos de idade, Filho (o Visconde) e Zeni Pereira (Tia Nastácia).fugindo das guerras civis que assolavam a Seguiram-se outros programas deentão União Soviética, Tatiana já falava russo, sucesso, sempre na linha de adaptações para oalemão e letão. Devido à perseguição aos público infanto-juvenil, que estiveram no ar porjudeus na Rússia Soviética, a família Belinky, um total de 13 anos, até 1966. Essesque era judia, resolveu se mudar para o Brasil, programas tinham sempre o propósito explícitochegando a São Paulo em 1929. de estimular a leitura entre os jovens, criando Aos dezoito anos, após concluir um nestes a curiosidade de ler os originais dascurso preparatório, começou a trabalhar como adaptações.secretária-correspondente bilíngüe, nos idiomas Torna-se presidente da CET (Comissãoportuguês e inglês. Aos vinte (1939) ingressou Estadual de Teatro de São Paulo).no curso de Filosofia da Faculdade São Bento, Paralelamente à atividade comomas abandonou-o em 1940, quando casou-se roteirista de teatro e televisão, Tatiana Belinkycom o médico e educador Júlio Gouveia. deu início, em 1952, à atividade como tradutora Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 31literária, iniciada com suas adaptações de peças outras premiações.de teatro infantis e contos russos. Traduziu Na área de tradução, recebeu o Prêmiomais de 80 livros do russo, alemão, inglês e Monteiro Lobato de Tradução em 1988 e 1990.francês. Entre os textos que traduziu e adaptou Em 1994, deixou de atuar como tradutora, masestão obras de autores como Dostoiévski, não abandonou, entretanto, sua atuação comoTolstói, Gorki, Gogol, Turgueniev, Goethe, escritora.Brecht, Irmãos Grimm e Lewis Carroll. Suaespecialidade sempre foi a literatura infantil De sua vasta obra, destacam-se "Coralrussa, ajudando a divulgar a cultura russa entre dos Bichos", "Limeriques", "O Grandecrianças e adolescentes. Rabanete", "Di-versos russos", "Limerique das Coisas Boas", entre outros. Também atuou, a partir de 1972, comocrítica de literatura infanto-juvenil e de teatro, Nestes últimos anos, Tatiana Belinkycomo colaboradora dos jornais Folha de São tem também publicado livros de crônicas ePaulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde memórias.e da TV Cultura. Tatiana explica o que significa Finalmente, em 1985, Tatiana Belinky limerique:desponta como escritora de livros, colaborando O limerique é um estilo de versoem uma série infanto-juvenil. inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick, e Seu primeiro livro de poesia infantil, desenvolvido pelo poeta Edward Lear. São"Limeriques das Coisas Boas", foi publicado em cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o1987. Os poemas do livro, que brincam com segundo e o quinto; o terceiro e o quarto, maiscacófatos e exploram a riqueza verbal da língua curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimoportuguesa, inspiram-se nos "limerick", poemas para fazer algumas brincadeiras. Aprendi nade origem irlandesa de apenas cinco versos, Playboy americana. Claro que o autor lá se valiacuja característica é o non-sense e o bom- do limerique de uma forma maliciosa. Mas aí euhumor. pensei: posso brincar com isso de outra maneira. A idéia é ressaltar uma coisa que é o A partir desta publicação, Tatiana passa contrário do que penso, e a criança, que não éa trabalhar fervorosamente sobre novas nada boba, vai entender direitinho. Olha estecriações, chegando a escrever mais de cem exemplo aqui:obras. Suas publicações são acompanhadas porvários prêmios literários, entre eles o célebre Quem pensa que eu sou uma ograPrêmio Jabuti, recebido em 1989. No seu pensamento malogra. Língua bifurcada? Tatiana Belinky é autora premiada em Só quando enfezada.literatura e teatro. Recebeu o Prêmio Mérito Porque eu sou mesmo é sogra."Educacional em 1979, e o Prêmio Jabuti dePersonalidade Literária do Ano em 1989, entre Otávio Luiz Otávio rovas) (Trovas) 1 Tudo a juntar-nos: o amor, Ó trovas simples quadrinhas o gênio igual, a constância, que têm sempre um quê de novo... até mesmo a própria dor. . . - Como podem quatro linhas - Só nos separa a Distância. trazer toda a alma de um povo?! 4 2 A Vida com esta oferta Se a ti próprio dominares, nos prende... (Quanta esperteza) - pensa nisso bem a fundo, - para tostão de Alegria, serás feliz, porque assim contos de réis de Tristeza!... já venceste meio Mundo! ... 5 3 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 32 Quando estou longe de ti, 16 o Tempo, malvado, traz: Lábios trêmulos se unindo... Ventura sempre de menos, Bocas febris se beijando! Saudade sempre de mais! ... - Ao Céu as almas subindo, 6 na Terra os corpos deixando. Vejo-te sempre ao meu lado, 17 vá ao lugar aonde for... Se demorares, querida, Vejo-te tanto ... ainda dizem algo triste vai se dar: que estou ceguinho de amor... - encontrarás a Saudade 7 vivendo no meu lugar. "O sábio tem por vingança 18 o silêncio. . ." disse alguém. Duas vidas todos temos, - Não creio... Pois quem é sábio - muitas vezes, sem saber... não se vinga de ninguém. . . - A vida que nós vivemos 8 e a que sonhamos viver. .. Cada quadrinha que faço, 19 em hora calma ou incalma, Toda noite ao me deitar, é pequenino pedaço (por certo você reprova), que eu mesmo furto à minha alma... - eu me esqueço de rezar 9 e fico fazendo trova Fechando os olhos, te vejo... 20 Abro os olhos - vejo a Vida! Não gosto de teimosia... - Ah, se eu pudesse viver Mas, não sei dizer por quê, de olhos fechados, querida! ... sendo você tão teimosa, 10 gosto tanto de você... Se é de amor tua ferida, 21 não busques remédio, - cala! - A minha alma é consumida O Tempo, aliado à Vida, por tormentos bem diversos! lentamente há de curá-la... Porém, me vingo da vida, 11 sorrindo... e fazendo versos O Tempo custa a passar 22 nas horas más da Desgraça! Esta manhã clara e calma, Mas, se a Ventura chegar, um tal contágio produz, bem depressa o Tempo passa ... que sinto até que minha alma 12 ficou cheinha de luz! ... E vai-se levando a vida... 23 Vives lá... eu vivo aqui... Há sempre em tôdas as vidas, Mas a vida não é vida felizes ou infelizes, se eu vivo a vida sem ti ... saudades, mágoas, feridas, 13 de inescrutáveis raízes ... Este milagre, quem há-de 24 dizer que não é divino: Do Passado faço culto! - Colocar tanta saudade Mas tenho cá o meu rito: num verso tão pequenino?! - Sendo triste, eu o sepulto! 14 Se feliz, o ressuscito. . . Tão grande é o vazio da alma, 25 ao de ti me separar, Eu estava tão gripado ... que mesmo a Saudade imensa Depois ficaste também... é pequena em teu lugar... - Por um simples resfriado, 15 nós nos traímos, meu bem ... Eu, pecador, me confesso, 26 deste pecado também: Na Solidão e no Tédio, - Dei-te apressado um só beijo em que tristonho hoje vivo, quando podia dar cem...Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 33 a Saudade é um remédio, 37 teu amor - um lenitivo ... Nesta trova pequenina, 27 quero deixar o sabor, Na Morte, nós encontramos do beijo que ainda há pouco o final de nossas dores... eu roubei do meu amor... - E é por isso que enfeitamos 38 a cova toda de flores. . . Nada fala neste Mundo 28 tanto bem de nossas vidas, O beijo de namorado, como o silêncio profundo mesmo escondido, é sublime: de duas bocas unidas... - Um pequenino pecado 39 que mil pecados redime... Cada passo que pisamos, 29 rumo ao Sul ou rumo ao Norte, Vais levando, entristecida, é passo a menos na vida tua vida numa treva... e passo a mais para a morte. Eu nem vou levando a vida... 40 Pois a vida é quem me leva ... Um mês assim tão risonho, 30 eu juro: nunca vivi! É desigual esta vida - Uns dias cheios de Sonho... pois, nos engana... nos furta, Uns sonhos cheios de ti... - Dá velhice tão comprida! 41 E mocidade tão curta! ... É feliz quem faz o Bem, 31 mesmo sem bens receber; Paradoxo inexplicável! pois Bem maior não se tem Misterioso contraste: que poder o Bem fazer... - Levaste tanta saudade! ... 42 Tanta saudade deixaste! ... Não lamentes tua vida! 32 O teu sofrer sempre cala! Meus olhos ficam bem secos - Se pões à mostra a ferida em cada tristeza nova ... podes até arruiná-la. . . - Meu pranto vai para dentro 43 e sai em forma de trova ... Não desejo nem capela, 33 nem mármore em minha cova... Se és infeliz nunca chores! Apenas escrevam nela Guarda bem a tua queixa! pequenina e humilde trova. . . - Nenhuma Ventura vale 44 toda a saudade que deixa... Qual o maior sofrimento: 34 não se ver o amor ausente, Há pessoas neste Mundo ou querer o esquecimento tão pequenas moralmente, e vê-lo constantemente?! ... que nem merecem, sequer, 45 o próprio ódio da gente. . . Sem coração não vivemos 35 nem um só momento, não ... Imita, no Sofrimento, - Mas, como nos prejudica, as árvores que padecem: às vezes, ter coração... - quando feridas, podadas, 46 com mais vigor reflorescem... Que sina, que padecer 36 foi a Sorte aos cegos dar: Inveja, anseios, dispensa! - Não ter olhos para ver Os destinos são iguais... e tê-los para chorar... Com pequena diferença: 47 sofrer menos... sofrer mais... Saudade que nasceu hoje e amanhã já se esqueceu,Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 34 não é saudade, é lembrança. 58 Saudade nunca morreu! ... Eu receio que esta Vida, 48 de lutas e desenganos, Por tudo o que tu fizeres, modifique esta alma simples receberás, misturadas, que eu carrego há tantos anos! com agradáveis surpresas, 59 tristezas inesperadas ... Se foi sua alma ferida, 49 não culpe à Vida, rapaz ... Menina, que tanto enfeitas - Não é má ou boa a Vida... o teu rosto singular ... É só vida ... e nada mais ... - Não esqueças que tua alma 60 também deves enfeitar... Tão etérea, tão airosa, 50 passou naquele momento, Trabalhosa é minha lida ! que parecia uma rosa Tenho tristezas também... despetalando-se ao vento. . . - Mas não troco minha vida 61 pela vida de ninguém!... Quem só deseja encontrar 51 no futuro lar - bonança, Meu Coração, ó demente, entre rosas há de achar vê se agora tu me explicas: um chorinho de criança. . . - Por que ajudas tanta gente, 62 e só a mim prejudicas?! Por mais pesados, por mais 52 que sejam nossos cansaços, Esta Saudade, em meu peito, sempre é leve para os pais de um amor que feneceu, trazer um filho nos braços ... é como o brilho perfeito 63 de um astro que já morreu... Tendo só o teu retrato 53 é tua ausência tão cheia, A amizade grande e pura que é mais presença de fato de duas almas iguais, que muita presença alheia. quando chega a Desventura, 64 ainda se aprofunda mais. É um prazer bem diferente 54 e de sabor sempre novo, Há na janela uma grade... ouvir a trova da gente Dentro do quarto - estou eu. . . andar na boca do povo ... Dentro de mim - a saudade 65 do beijo que alguém me deu. . . Toda trova herdou o espírito 55 navegante português ... A Virtude que flutua - Nasce... foge... corre Mundo ... entre vícios, faz lembrar e abandona quem a fez... um raio puro de lua 66 no lodo imundo a brilhar... Não te lamentes se encontras 56 desonestos e venais ... Vi morrer tanta ilusão! - Quando os outros se rebaixam Tantos castelos perdi... sem querer te elevam mais! - Não faz mal, pois tenho tudo 67 de pouco que vem de ti... Ó livro, bom companheiro, 57 do nosso espírito - pão. Às vezes, uma emoção - Quem tem olhos e tem livros que na minhalma se aninha, nunca está em solidão ... não cabe bem num Poema... 68 ... Mas cabe numa quadrinha. . . "Meu Deus como o Tempo passa!... - Nós, às vezes, exclamamos...Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 35 Mas por sorte ou por desgraça, 79 fica o tempo... e nós passamos ... A trova definitiva, 69 - ideal do trovador - Toda saudade, de fato, por mais que padeça e viva se dói consola também... eu jamais hei de compor... Pois fica como um retrato 80 daquilo que nos fez bem. . O tempo não me dá tempo 70 de bem o tempo fruir... O lago, na pela nua, ... E nesta falta de tempo mostrava um leve arrepio, nem vejo o Tempo fugir... por beijá-lo a luz da lua 81 ou porque sentisse frio... Saudade. .. Horas ditosas 71 que o Tempo mau nos levou. . . Muitas vezes ao partir, - Pingos que ficam nas rosas (oh! tortura singular) - de uma chuva que passou... os que ficam, querem ir... 82 os que vão, querem ficar. . . De rosas fiz um colchão ... 72 Fiz um lençol do luar ... Meu coração - triste lente Travesseiro fiz do peito de incríveis melancolias: para o meu amor sonhar ... aumenta só as tristezas ... 83 diminui as alegrias... Tua alma emotiva e pura 73 nesta tristeza se expande: Depois de meses sem fim - de tão pequena ventura teu rosto vi com prazer. ter a saudade tão grande! Mas a tua alma - ai de mim! 84 nunca mais a pude ver ... Deste amor não sou culpado... 74 Nem mesmo culpo você. Desconfio que a Saudade - A gente ama ou é amado não gosta de ti, meu bem. sem nunca saber por quê... - Quando tu vens ela vai ... 85 Quando tu vais ela vem ... Igual à marca de um quadro 75 da parede retirado, Tu és agora alta dama, teu amor ficou-me, na alma de porte belo e correto! eternamente marcado. - Conheço bem tua fama ... 86 Mas - sossega! - sou discreto... A Ventura não tem preço! 76 É a experiência que o diz. . . A Ventura é uma quimera ... - Quem compra a Felicidade Delgada nuvem que esvoaça ... é quase sempre infeliz... - A Vida é uma longa espera 87 da nuvem que logo passa... Saudade - ausência presente 77 sempre em nosso coração ... Para nossa desventura, Perfume que a gente sente na vida, seja qual for, de rosas que longe estão... - o prazer custa e não dura ... 88 Dura e não custa uma dor ... Meu túmulo, belo ou feio, 78 será pequeno, suponho, Tu és linda, na verdade. para guardar tanto anseio, Porém, para meu desgosto, para enterrar tanto sonho! na alma não tens a metade 89 da beleza do teu rosto ... A desventura em minha alma passou como um furacão!Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 36 Não me matou, por milagre... Vivemos do amor que vem. . . Mas levou-me o coração ... Do que chega. . . do que vai. . . 90 - Sonho ... Ventura... e Saudade... Quem vive pela saudade Três atos ... e o pano cai ... por longos anos ou meses, possui a felicidade de reviver várias vezes! ... 91 A tua alma irresoluta e invejosa de permeio, Luiz Otávio Gilson de Castro nasceu a 18 de julho de 1916, sempre acha que a melhor fruta no Rio de Janeiro. Luiz Otávio foi o pseudônimo está no pomar alheio ... que ele adotou para assinar suas trovas, 92 poesias e outras manifestações de seu talento Se a Vida num "ai" escorre literário. Era cirurgião-dentista, profissão que e a Morte, do Eterno, é a face, exerceu no Rio de Janeiro, onde se formou e quando a gente nasce, morre mais tarde se transferindo para Santos no final quando a gente morre, nasce... de sua vida. 93 Saudade - quase se explica Começou a enviar seus versos para os jornais e nesta trova que te dou: revistas lá por 1938, ainda timidamente, oculto - Saudade é a falta que fica sob pseudônimo. Não pretendia misturar a vida daquilo que não ficou. . . literária com a profissional. As principais 94 revistas e jornais da época começaram a Ventura não tem Presente, divulgar poesias e principalmente trovas de nem Passado; só Porvir ... Luiz Otávio, que podiam ser encontradas no Felicidade da gente "Correio da Manhã", "Vida Doméstica", "Fon- está só no que há de vir ... Fon", "O Malho", "Jornal das Moças", revistas 95 que, como "O Cruzeiro", eram as mais lidas dos Na Vida sofre-se muito! anos 1939, 40 e 41, etc. A revista "Alterosa" de Mas não há maior tormento Belo Horizonte, também o divulgou. Pouco a que desejar esquecer pouco, a Trova tomou conta do coração do e não ter o esquecimento ... poeta, assumindo Literalmente papel de 96 Liderança na sua vida. E ele confessa: A trova é tão pura e humilde, que eu julgo, pensando nisto, A Trova tomou-me inteiro, que o primeiro trovador tão amada e repetida, foi, por certo, Jesus Cristo. que agora traça o roteiro 97 das horas da minha vida!... Comparo a saudade minha, tão manhosa e persistente Para a ascensão da Trova na vida de Luiz àquela tal borrachinha Otávio, muito contribuiu sua amizade com que o dentista põe na gente ... Adelmar Tavares. Quem os aproximou foi o 98 consagrado poeta A. J Pereira da Silva. Eu tenho sofrido tanto! Recuperava-se Luiz Otávio na Fazenda Manga Nunca as dores vêm sozinhas! Larga em Pati de Alferes, quando teve Julgo até que estou sofrendo oportunidade de conhecer esse renomado as dores que não são minhas ... poeta, da Academia Brasileira de Letras, com 99 quem iniciou amizade edificante, solidificada O pecado é sempre um mal. pela Poesia; amizade que se estendeu até os Isto é bem determinado. derradeiros dias de A. J. Pereira da Silva que, - Se a coisa é boa, afinal naquele tempo, já passava dos sessenta, não devia ser pecado... enquanto Luiz Otávio não galgara ainda o 100 vigésimo segundo degrau de sua sofrida existência. Isto não perturbou as horasRevista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 37deliciosas de conversa amena e espiritualizada, livros, publicava trovas, poesias e arrebanhavaem que a fina sensibilidade de ambos fazia fãs e admiradores de todas as idades. Daí aidesaparecer a diferença de idade, provando constituir-se Líder de um Movimentoque um coração capaz de vibrar "de amor" e Trovadoresco, era questão de um passo, muitopulsar em ritmo de poesia, simplesmente não embora isto viesse acontecer sem procura.tem idade. Idealista, lírico, por excelência, com um profundo senso de organização, Luiz OtávioA viúva do acadêmico Antônio Joaquim Pereira acumulava ainda outras qualidadesda Silva, doaria posteriormente, a preciosa indispensáveis ao "verdadeiro Líder", seja lá doBiblioteca do poeta ao seu particular amigo, que for. Era simples, honesto, e sabiaLuiz Otávio, que, por sua vez, ao transferir convencer sem forçar. Embora convicto eresidência para Santos, em 1973, doou parte determinado, sabia humildemente ceder, sedesse valioso acervo, juntamente com livros de preciso fosse. Se persuadido da necessidade desua própria estante - num total de mil uma renúncia, cedia, sim, porém, nãoexemplares devidamente catalogados - à facilmente, mesmo porque antes de proporAcademia Santista de Letras, que só então teve algo, o fazia convicto de que aquilo era o certo,formada sua Biblioteca. Na época, a A.S.L. era respondendo de antemão a todos os possíveispresidida pelo Dr. Raul Ribeiro Florido que se apartes - o que de certo modo desarmava, aresponsabilizou pelo transporte Rio-Santos. priori, o opositor. Era bom, afável e acima deCom esta doação, Luiz Otávio não pretendia tudo, profundamente carismático. Umnada para si, como deixou bem claro em carta, verdadeiro Príncipe!(era de conhecimento geral sua quase aversãoàs Academias, em virtude do próprio O TROVADORtemperamento). Mas pediu, por uma questãode justiça, que numa das estantes fosse Era, portanto, o campo fecundo onde acolocada uma placa que levasse o nome de A. J semente da Trova encontrou chão propícioPereira da Silva. Luiz Otávio recebeu um para deitar raízes, expandindo sua opulênciacarinhoso oficio de agradecimento do então por todo território nacional. O ritmo da TrovaPresidente da Academia. O atual Presidente, que embalava seus ouvidos desde os temposDr. Nilo Entholzer. Ferreira, trovador de de escoteiro, cresceu com ele, ganhandoméritos, comprometeu-se a cumprir essa melodia ao som do violão de Glauco Vianna,cláusula. Como já dito, A. J. Pereira da Silva foi mais tarde pertencente ao "Bando dosquem levou Luiz Otávio até Adelmar Tavares, Tangarás", seu colega de faculdade e detambém da Academia Brasileira de Letras, em noitadas de seresta.visita à sua casa, em Copacabana. Corria o anode 1939. Adelmar Tavares sentia a idade Luiz Otávio sempre gostou de cantar e comporpesar-lhe nos ombros, e, mais uma vez, um embora não conhecesse música. Aloysio dejovem poeta e um velho e consagrado mestre Oliveira, outro companheiro, também possuidorda Poesia uniam-se por laços afetivos dos mais de um bom timbre vocálico, iria pertencer, noduradouros. A principal responsável por essa futuro, ao Bando da Lua, que tanto sucesso fezunião foi a Trova, que Adelmar Tavares na terra de Tio Sam ao lado de Carmencultivava e da qual Dr. Gilson de Castro já era Miranda. A influência destes dois amigos foiprofundo apaixonado, trazendo-a para o grande na iniciação poética de Luiz Otávio.público sob o Pseudônimo, agora Glauco tocava, Aloysio cantava e Luiz Otáviodefinitivamente adotado. não apenas cantava como também compunha letras e músicas de canções, sambas, fox-Luiz Otávio. Luiz, por ser bonito, melodioso, e trotes, valsas, etc. e continuou cantando ecombinar com Octávio, o nome do Pai, a quem, compondo até o final dos seus dias. Nascia ohomenageava. Para atualizar o nome, o c foi "Trovador" - assim carinhosamente chamado,cortado em acordo às regras ortográficas já naquele tempo, antes mesmo do seuvigentes. A Poesia de Luiz Otávio ganhava ingresso definitivo no Mundo da Trova.espaço. Jornais de outros estados o acolhiamem suas páginas, tinha ao seu dispor colunas Cada quadrinha que façoliterárias de crítica poética, onde comentava em hora calma ou incalma, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 38 é pequenino pedaço Uma trova pequenina, que eu mesmo furto a minha alma. tão modesta, tão sem glória, bem pouca gente imagina, Ó trovas – simples quadrinhas que também tem sua história. que tem sempre um que de novo... - Como podem quatro linhas trazer toda a alma de um povo?! Machado de Assis (A Cartomante) Hamlet observa a Horácio que há mais Foi então que ela, sem saber quecousas no céu e na terra do que sonha a nossa traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que haviafilosofia. Era a mesma explicação que dava a muito cousa misteriosa e verdadeira nestebela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas oNovembro de 1869, quando este ria dela, por certo é que a cartomante adivinhara tudo. Queter ido na véspera consultar uma cartomante; a mais? A prova é que ela agora estava tranqüiladiferença é que o fazia por outras palavras. e satisfeita. — Ria, ria. Os homens são assim; não Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se,acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que Não queria arrancar-lhe as ilusões. Tambémela adivinhou o motivo da consulta, antes ele, em criança, e ainda depois, foimesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas supersticioso, teve um arsenal inteiro decomeçou a botar as cartas, disse-me: "A crendices, que a mãe lhe incutiu e que aossenhora gosta de uma pessoa..." Confessei que vinte anos desapareceram. No dia em quesim, e então ela continuou a botar as cartas, deixou cair toda essa vegetação parasita, ecombinou-as, e no fim declarou-me que eu ficou só o tronco da religião, ele, como tivessetinha medo de que você me esquecesse, mas recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-que não era verdade... os na mesma dúvida, e logo depois em uma só — Errou! Interrompeu Camilo, rindo. negação total. Camilo não acreditava em nada. — Não diga isso, Camilo. Se você Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía umsoubesse como eu tenho andado, por sua só argumento; limitava-se a negar tudo. E digocausa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, mal, porque negar é ainda afirmar, e ele nãonão ria... formulava a incredulidade; diante do mistério, Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou contentou-se em levantar os ombros, e foipara ela sério e fixo. Jurou que lhe queria andando.muito, que os seus sustos pareciam de criança; Separaram-se contentes, ele ainda maisem todo o caso, quando tivesse algum receio, a que ela. Rita estava certa de ser amada;melhor cartomante era ele mesmo. Depois, Camilo, não só o estava, mas via-a estremecerrepreendeu-a; disse-lhe que era imprudente e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e,andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e por mais que a repreendesse, não podia deixardepois... de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era — Qual saber! tive muita cautela, ao na antiga rua dos Barbonos, onde morava umaentrar na casa. comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua — Onde é a casa? das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde — Aqui perto, na rua da Guarda Velha; residia; Camilo desceu pela da Guarda velha,não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; olhando de passagem para a casa daeu não sou maluca. cartomante. Camilo riu outra vez: Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma — Tu crês deveras nessas coisas? aventura, e nenhuma explicação das origens.perguntou-lhe. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 39infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho.Camilo entrou no funcionalismo, contra a Palavras vulgares; mas há vulgaridadesvontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velhapai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até caleça de praça, em que pela primeira vezque a mãe lhe arranjou um emprego público. passeaste com a mulher amada, fechadinhosNo princípio de 1869, voltou Vilela da província, ambos, vale o carro de Apolo. Assim é oonde casara com uma dama formosa e tonta; homem, assim são as cousas que o cercam.abandonou a magistratura e veio abrir banca Camilo quis sinceramente fugir, mas jáde advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os não pôde. Rita como uma serpente, foi-selados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar — É o senhor? exclamou Rita, os ossos num espasmo, e pingou-lhe o venenoestendendo-lhe a mão. Não imagina como meu na boca. Ele ficou atordoado e subjugado.marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu Camilo e Vilela olharam-se com ternura. de mistura; mas a batalha foi curta e a vitóriaEram amigos deveras. Depois, Camilo delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que oconfessou de si para si que a mulher do Vilela sapato se acomodasse ao pé, e aí foramnão desmentia as cartas do marido. Realmente, ambos, estrada fora, braços dados, pisandoera graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, folgadamente por cima de ervas e pedregulhos,boca fina e interrogativa. Era um pouco mais sem padecer nada mais que algumas saudades,velha que ambos: contava trinta anos, Vilela quando estavam ausentes um do outro. Avinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, confiança e estima de Vilela continuavam a sero porte grave de Vilela fazia-o parecer mais as mesmas.velho que a mulher, enquanto Camilo era um Um dia, porém, recebeu Camilo umaingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe carta anônima, que lhe chamava imoral etanto a ação do tempo, como os óculos de pérfido, e dizia que a aventura era sabida decristal, que a natureza põe no berço de alguns todos. Camilo teve medo, e, para desviar aspara adiantar os anos. Nem experiência, nem suspeitas, começou a rarear as visitas à casa deintuição. Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo Uniram-se os três. Convivência trouxe respondeu que o motivo era uma paixão frívolaintimidade. Pouco depois morreu a mãe de de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausênciasCamilo, e nesse desastre, que o foi, os dois prolongaram-se, e as visitas cessarammostraram-se grandes amigos dele. Vilela inteiramente. Pode ser que entrasse tambémcuidou do enterro, dos sufrágios e do nisso um pouco de amor-próprio, uma intençãoinventário; Rita tratou especialmente do de diminuir os obséquios do marido, paracoração, e ninguém o faria melhor. tornar menos dura a aleivosia do ato. Como daí chegaram ao amor, não o Foi por esse tempo que Rita,soube ele nunca. A verdade é que gostava de desconfiada e medrosa, correu à cartomantepassar as horas ao lado dela; era a sua para consultá-la sobre a verdadeira causa doenfermeira moral, quase uma irmã, mas procedimento de Camilo. Vimos que aprincipalmente era mulher e bonita. Odor di cartomante restituiu-lhe a confiança, e que ofemina: eis o que ele aspirava nela, e em volta rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez.dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os Correram ainda algumas semanas. Camilomesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tãoCamilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e apaixonadas, que não podiam ser advertênciajogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe da virtude, mas despeito de algumser agradável, pouco menos mal. Até aí as pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, porcousas. Agora a ação da pessoa, os olhos outras palavras mal compostas, formulou esteteimosos de Rita, que procuravam muita vez os pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara,dele, que os consultavam antes de o fazer ao não gasta tempo nem papel; só o interesse émarido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um ativo e pródigo.dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma Nem por isso Camilo ficou maisrica bengala de presente, e de Rita apenas um sossegado; temia que o anônimo fosse ter comcartão com um vulgar cumprimento a lápis, e Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio.foi então que ele pôde ler no próprio coração; Rita concordou que era possível. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 40 — Bem, disse ela; eu levo os demora." Ditas, assim, pela voz do outro,sobrescritos para comparar a letra com a das tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já,cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde.guardo-a e rasgo-a... A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto Nenhuma apareceu; mas daí a algum imaginou o que se iria passar, que chegou atempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo.falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se Entrou a cogitar em ir armado, considerandopressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso que, se nada houvesse, nada perdia, e adeliberaram. A opinião dela é que Camilo devia precaução era útil. Logo depois rejeitava atornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando oaté que lhe ouvisse a confidência de algum passo, na direção do largo da Carioca, paranegócio particular. Camilo divergia; aparecer entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandoudepois de tantos meses era confirmar a seguir a trote largo.suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem- — Quanto antes, melhor, pensou ele;se, sacrificando-se por algumas semanas. não posso estar assim...Combinaram os meios de se corresponderem, Mas o mesmo trote do cavalo veioem caso de necessidade, e separaram-se com agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e elelágrimas. não tardaria a entestar com o perigo. Quase no No dia seguinte, estando na repartição, fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve derecebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, parar; a rua estava atravancada com umajá, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo,Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, estimou o obstáculo, e esperou. No fim deadvertiu que teria sido mais natural chamá-lo cinco minutos, reparou que ao lado, àao escritório; por que em casa? Tudo indicava esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa damatéria especial, e a letra, fosse realidade ou cartomante, a quem Rita consultara uma vez, eilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou nunca ele desejou tanto crer na lição dastodas essas cousas com a notícia da véspera. cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando — Vem já, já, à nossa casa; preciso todas as outras estavam abertas e pejadas defalar-te sem demora, — repetia ele com os curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia aolhos no papel. morada do indiferente Destino. Imaginariamente, viu a ponta da orelha Camilo reclinou-se no tílburi, para nãode um drama, Rita subjugada e lacrimosa, ver nada. A agitação dele era grande,Vilela indignado, pegando na pena e extraordinária, e do fundo das camadas moraisescrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, emergiam alguns fantasmas de outro tempo, ase esperando-o para matá-lo. Camilo velhas crenças, as superstições antigas. Oestremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa,e em todo caso repugnava-lhe a idéia de e ir por outro caminho; ele respondeu que não,recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se que esperasse. E inclinava-se para fitar ade ir a casa; podia achar algum recado de Rita, casa... Depois fez um gesto incrédulo: era aque lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava aoninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem longe, muito longe, com vastas asas cinzentas;descobertos parecia-lhe cada vez mais desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-severossímil; era natural uma denúncia anônima, no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vezaté da própria pessoa que o ameaçara antes; as asas, mais perto, fazendo uns girospodia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A concêntricos... Na rua, gritavam os homens,mesma suspensão das suas visitas, sem motivo safando a carroça:aparente, apenas com um pretexto fútil, viria — Anda! agora! empurra! vá! vá!confirmar o resto. Daí a pouco estaria removido o Camilo ia andando inquieto e nervoso. obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensavaNão relia o bilhete, mas as palavras estavam em outras cousas; mas a voz do maridodecoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta:o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas "Vem já, já..." E ele via as contorções do dramaao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem e tremia. A casa olhava para ele. As pernasjá, já à nossa casa; preciso falar-te sem queriam descer e entrar... Camilo achou-se Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 41diante de um longo véu opaco... pensou não tivesse medo de nada. Nada aconteceriarapidamente no inexplicável de tantas cousas. A nem a um nem a outro; ele, o terceiro,voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos ignorava tudo. Não obstante, era indispensávelextraordinários; e a mesma frase do príncipe de mais cautela; ferviam invejas e despeitos.Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza decousas no céu e na terra do que sonha a Rita... Camilo estava deslumbrado. Afilosofia..." Que perdia ele, se...? cartomante acabou, recolheu as cartas e Deu por si na calçada, ao pé da porta; fechou-as na gaveta.disse ao cocheiro que esperasse, e rápido — A senhora restituiu-me a paz aoenfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz espírito, disse ele estendendo a mão por cimaera pouca, os degraus comidos dos pés, o da mesa e apertando a da cartomante.corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu Esta levantou-se, rindo.nada. Trepou e bateu. Não aparecendo — Vá, disse ela; vá, ragazzoninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a innamorato...curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes E de pé, com o dedo indicador, tocou-latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fossetrês pancadas. Veio uma mulher; era a mão da própria sibila, e levantou-se também. Acartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela cartomante foi à cômoda, sobre a qual estavafe-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma um prato com passas, tirou um cacho destas,escada ainda pior que a primeira e mais escura. começou a despencá-las e comê-las, mostrandoEm cima, havia uma salinha, mal alumiada por duas fileiras de dentes que desmentiam asuma janela, que dava para os telhados do unhas. Nessa mesma ação comum, a mulherfundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair,de pobreza, que antes aumentava do que não sabia como pagasse; ignorava o preço.destruía o prestígio. — Passas custam dinheiro, disse ele A cartomante fe-lo sentar diante da afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandarmesa, e sentou-se do lado oposto, com as buscar?costas para a janela, de maneira que a pouca — Pergunte ao seu coração, respondeuluz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. ela.Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, ecompridas e enxovalhadas. Enquanto as deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. Obaralhava, rapidamente, olhava para ele, não preço usual era dois mil-réis.de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma — Vejo bem que o senhor gosta muitomulher de quarenta anos, italiana, morena e dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor.magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura;Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: ponha o chapéu... — Vejamos primeiro o que é que o traz A cartomante tinha já guardado a notaaqui. O senhor tem um grande susto... na algibeira, e descia com ele, falando, com um Camilo, maravilhado, fez um gesto leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo,afirmativo. e desceu a escada que levava à rua, enquanto — E quer saber, continuou ela, se lhe a cartomante alegre com a paga, tornavaacontecerá alguma coisa ou não... acima, cantarolando uma barcarola. Camilo — A mim e a ela, explicou vivamente achou o tílburi esperando; a rua estava livre.ele. Entrou e seguiu a trote largo. A cartomante não sorriu; disse-lhe só Tudo lhe parecia agora melhor, asque esperasse. Rápido pegou outra vez as outras cousas traziam outro aspecto, o céucartas e baralhou-as, com os longos dedos estava límpido e as caras joviais. Chegou a rirfinos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, dos seus receios, que chamou pueris; recordoutranspôs os maços, uma, duas, três vezes; os termos da carta de Vilela e reconheceu quedepois começou a estendê-las. Camilo tinha os eram íntimos e familiares. Onde é que ele lheolhos nela, curioso e ansioso. descobrira a ameaça? Advertiu também que — As cartas dizem-me... eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se Camilo inclinou-se para beber uma a tanto; podia ser algum negócio grave euma as palavras. Então ela declarou-lhe que gravíssimo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 42 — Vamos, vamos depressa, repetia ele outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pelaao cocheiro. Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os E consigo, para explicar a demora ao olhos para fora, até onde a água e o céu dãoamigo, engenhou qualquer cousa; parece que um abraço infinito, e teve assim uma sensaçãoformou também o plano de aproveitar o do futuro, longo, longo, interminável.incidente para tornar à antiga assiduidade... De Daí a pouco chegou à casa de Vilela.volta com os planos, reboavam-lhe na alma as Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardimpalavras da cartomante. Em verdade, ela e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seisadivinhara o objeto da consulta, o estado dele, degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, aa existência de um terceiro; por que não porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.adivinharia o resto? O presente que se ignora — Desculpa, não pude vir mais cedo;vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que há?que as velhas crenças do rapaz iam tornando Vilela não lhe respondeu; tinha asao de cima, e o mistério empolgava-o com as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foramunhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si para uma saleta interior. Entrando, Camilo nãomesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, pôde sufocar um grito de terror: — ao fundoas palavras secas e afirmativas, a exortação: — sobre o canapé, estava Rita morta eVá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e,a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais com dois tiros de revólver, estirou-o morto noeram os elementos recentes, que formavam, chão.com os antigos, uma fé nova e vivaz. A verdade é que o coração ia alegre e Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, emimpaciente, pensando nas horas felizes de 1884. Helena Kolody (Haicais) . ÚLTIMO QUAL? Vôo solitário Damos nomes aos astros... na fímbria da noite Qual será nosso nome em busca do pouso distante. nas estrelas distantes? APLAUSO POESIA MÍNIMA Corrida no parque Pintou estrelas no muro O menino inválido e teve o céu Aplaude os atletas. ao alcance das mãos. ALEGRIA MANHÃ Trêmula gota de orvalho Nas flores do cardo, presa na teia de aranha, leve poeira de orvalho. rebrilhando como estrela. Manhã no deserto. FLECHA DE SOL ARCO-ÍRIS A flecha de sol Arco-íris no céu. pinta estrelas na vidraça. Está sorrindo o menino Despede-se o dia. Que há pouco chorou. IPÊS FLORIDOS JORNADA Festa das lanternas! Tão longa a jornada! Os ipês se iluminaram E a gente cai, de repente, de globos de cor-de-ouro. No abismo do nada. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 43 RESSONÂNCIAS Bate breve o gongo. Na amplidão do templo ecoa o som lento e longo. NOITE Helena Kolody Luar nos cabelos. Nasce em Cruz Machado, Paraná, em 1912. Constelações na memória. Primeira brasileira de família de imigrantes Orvalho no olhar. ucranianos. Pais: Miguel e Vitória Kolody. REPUXO ILUMINADO Em líquidos caules, Em 1931, Professora normalista pela Escola irisadas flores d´agua Normal Secundária de Curitiba. Em 1937, passa cintilam ao sol. a lecionar na Escola Normal de Curitiba (futuro Instituto de Educação), onde ficará por mais de DEPOIS 23 anos, interrompidos apenas por um ano Será sempre agora. quando vai a Jacarezinho (Escola de Viajarei pelas galáxias Professores). Em 1947 presta concurso público universo afora. federal para Inspetora Federal de Ensino Secundário do MEC. Em 1991, é eleita para a ALQUIMIA Academia Paranaense de Letras. Em 1992, o Nas mãos inspiradas cineasta Sylvio Back faz um filme em 35 mm, A nascem antigas palavras Babel de Luz, em homenagem aos 80 anos da com novo matiz. poeta. O filme ganha o prêmio de melhor curta NO MUNDO DA LUA e melhor montagem, do 25o Festival de Brasília Não ando na rua. do Cinema Brasileiro. Em 2003 a Universidade Ando no mundo da lua, Federal do Paraná homenageia a autora com o falando às estrelas. título de Doutora Honoris Causa. Morre em fevereiro de 2004. SEM POESIA Que fonte secou? Helena Kolody (1912-2004), a consagrada Que sol se apagou em mim? poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série Fugiu-me a poesia. de mulheres haicaístas do país. Dona de uma NOTURNO enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras- Dormem as papoulas. emblemas, atribuídos a ela pelo povo A lua sonha no céu. paranaense, Helena deixou uma obra, que na Vigiam os grilos. qualidade lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. O amor que ela conquistou pelos FELICIDADE poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua Os olhos do amado poesia feita de canções à vida, da esqueceram-se nos teus, solidariedade, da natureza e a inquietude da perdidos em sonho. condição humana. Pode-se brincar dizendo que as letras iniciais do nome da poeta, HK, são asNa série Memória Paranaense (programa de mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela orádio e TV de 1997), o entrevistador pergunta à fazia.Helena: "Daquilo que foi escrito, o que asenhora considera o mais importante em Os Três Primeiros Haicaispoesia, resumindo o que foi a sua vida, a suatrajetória?"- Com voz firme e demonstrando Em 1941 Helena Kolody, com 29 anos de idade,contentamento ela responde: publicava seu primeiro livro, Paisagem Interior, com 45 poemas. Entre os quais três eram DOM: haicais e, no meio destes, o mais popular da "Deus dá a todos uma estrela. autora: Uns fazem da estrela um sol. Outros nem conseguem vê-la". Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 44 ARCO-ÍRIS (certamente qualidades exigidas no haicai). Na Arco-íris no céu. entrevista pública, Um escritor na Biblioteca, de Está sorrindo o menino 1986 (na qual participaram Paulo Leminski e Que há pouco chorou. Alice Ruiz como entrevistadores), ela fala sobre o assunto: "Os literatos e os críticosOs outros dois: simplesmente ignoraram essa poesia que ninguém, ainda, estava fazendo no Paraná. No PRISÃO entanto, meus alunos, alunas principalmente, Puseste a gaiola decerto porque eram muito jovens, e os jovens Suspensa dum ramo em flor, adoram novidades, gostaram muito. Tanto que Num dia de sol. a turma de 1943, se não me engano, ofereceu- me, como presente de aniversário, seis FELICIDADE quadros, em pergaminho, com ilustrações dos Os olhos do amado três hai-kais de Paisagem Interior: três quadros Esqueceram-se nos teus, de Guido Viaro e três iluminuras de Garbácio." Perdidos em sonho. No depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som, em 1989, ela reforçou esseEra a primeira vez que uma mulher publicava ponto dizendo que sabia fazer o haicai, "...haicais no Brasil. A segunda foi Rosemary de tinha técnica e tudo, mas ninguém ligou. EntãoBarros em 1947, na Revista ASSA, do Centro a gente se complexa".Acadêmico da Universidade Católica de SãoPaulo, que segundo Masuda: "...divulgou cinco Fanny Dupré, amiga e orientadorahaicais, fortemente influenciados por Guilhermede Almeida". E, a terceira, Fanny Luíza Dupré, Fanny Luíza Dupré vinha, desde 1939,em 1949, também de São Paulo. escrevendo haicais e preparando um livro (Pétalas ao Vento), tendo feito "contato com oTodavia, foi Fanny Dupré a primeira mulher a haicai ao freqüentar o grupo de estudos depublicar um livro exclusivamente de haicais no cultura japonesa mantido por Jorge Fonseca Jr.Brasil, em fevereiro de 1949: Pétalas ao Vento, na Faculdade de Direito da USP". Foi com elaem cujo prefácio o haicaísta Jorge Fonseca que Helena estudou o haicai. Trocavam cartas,Junior salientou: "...este livro se inclui, sem indicações de leitura, e é provável que Fannydúvida, na primeira meia dúzia de coletâneas tenha visitado Curitiba nesse período, cujoexclusivamente de haikais publicadas em registro se pode ler no haicai da página 89 doportuguês e em nosso País e é, por certo, entre Pétalas ao Vento:elas, o primeiro de autoria feminina, sendo,mais - o que muitíssimo importa - obra de "Pinheirais augustos.autêntica haikaista." Curitiba. Paraná... Vestidos de verde".Helena sempre fez questão de dizer que seusprimeiros haicais não foram bem recebidos. O No livro há também um haicai dedicado aque a desanimara não a impediu de continuar a Helena, pág. 45:fazê-los, pois em 1945, no segundo livro,Música Submersa, o haicai estava lá, com o "À Helena Kolodyfamoso Pereira em Flor. Entretanto, como Vastos pinheirais!dissemos, é justamente daqueles primeiros que É clara noite de lua...o público consagrou o seu favorito: Arco-íris. O Mais abaixo, o mar!"mais citado, copiado e incluído em antologias.Talvez Helena quisesse uma aceitação maior Na entrevista do MIS, Helena afirma: "Em 41 jápara os seus haicais, naquela ocasião, pois o publicava, por causa da correspondência comlivro fora recebido com relativo sucesso para uma poetisa paulista chamada Fanny Dupré; foiuma estreante. Os outros poemas sempre através dela, uma das pioneiras do hai-kai,foram muito citados, como o famosíssimo ainda agora eu recebi carta dela de São PauloPrece, p. ex., e já continham a marca indelével [1989 - Fanny faleceu em 1996]. Então, já node sua poesia: a concisão e a simplicidade Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 45primeiro livro eu fiz hai-kai, porque tinha quanto ao haiku (...) deve indicar ou refletir aaprendido com ela..." estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, porNa entrevista da Biblioteca, Helena acrescenta sua extrema concisão, devendo, ao mesmomais um dado: "Foi através do Jornal de Letras tempo, através desta, fluir com naturalidade oe da correspondência com a poetisa paulista conteúdo poético". Acrescenta serFanny Dupré que tive conhecimento dessa "desnecessário colocar título em cada poemaminiatura japonesa que é o hai-kai" (Revisei de haicai, nem observar rima".todos os números do Jornal de Letras da épocae não encontrei nenhuma matéria sobre haicai Um haicai de Fonseca, citado em Masuda:ou poemas deste tipo publicados. O que meleva a crer que o primeiro contato com o "Brisas refrescantesaprendizado do haicai, Helena teve mesmo foi esgueiram-se ao sol ardente...com a poetisa paulista). Penumbra do tato..."Através de Fanny, Helena estava ligada ao Fanny seguirá seu professor na forma sugerida,seleto grupo dos iniciadores do haicai no Brasil, nos haicais de Pétalas ao Vento, o rigor daem língua portuguesa, especialmente a Jorge métrica, a dispensa de títulos, menos no uso doFonseca Júnior, orientador da amiga paulista. kigo (que ela não o faz), e desenvolve umaFonseca, que inicialmente teve influência (como temática brasílica de lirismo delicado. Helena,os demais brasileiros) do haicai europeu (pela por sua vez, colocará título em seus haicais,via francesa, inglesa e portuguesa), já vinha utilizará da métrica, algumas vezes a rima; erecebendo desde 1937 "informações e terá uma temática mais voltada à condiçãoesclarecimentos sobre o haiku", de Masuda humana. Diferenciando-se, por certo, da amigaGoga (considerado um Mestre do haicai, cuja Fanny, constrói Helena seu próprio jeito delinha é japonesa). Goga e Fonseca mantiveram fazer haicai, sempre fiel às suas vivências,um "relacionamento de 50 anos (1937/1987)". como pregava Fonseca.Ele publica em 1939, Roteiro Lírico, e em 1940,Do Haikai e em seu louvor, bem recebidos pela Influencia de Guilherme de Almeida?crítica. Fonseca viaja ao oriente neste ano,Masuda anota: "...durante sua estada no Japão, Em 1994, com 82 anos de idade, Helena foiavistou-se com Kyoshi Takahama, enri- entrevistada pelo Prof. Paulo Venturelli. A certaquecendo seus conhecimentos sobre o haiku - altura, perguntada sobre a "influência do haicaifator muito positivo na evolução do seu haicai". em sua obra", ela nos surpreende: "Também aqui foi importante a correspondência comEm 1940, em Do haikai e em seu louvor, o poetas de outros lugares. Não me lembro maisapresentador de Fonseca destaca como como foi que comecei a me corresponder comqualidades do seu haicai a concentração, Fanny Dupré, de São Paulo, que foi uma dassutilidade, imaginação. Fonseca Júnior primeiras haicaístas do Brasil. E ela então merecomenda a feitura do poema em dezessete disse para ler um livro do Guilherme desílabas de 5-7-5, em três versos e sem rima. Almeida, que era autor de haicais rimados. Por"Superior sutileza do haikai. Um verdadeiro isso, até hoje, sigo esta linha, isto é, metrifico ehaikai poderá exprimir o sentimento mais forte, rimo os versos do haicai, o que não é comum."sutilissimamente". E compreendia seu conteúdocomo "multiangular, sempre e todos lhe Guilherme de Almeida inventou uma forma quedescobrirão fartos sentidos, a par de não existia para o haicai: deu-lhe título e quatrosonoridades, coloridos, sabores e sensações rimas. Cito o haicaísta paranaense Domingosvariadas. (...) Delicioso valor da brevidade". Pellegrini, para entendermos melhor isso: "Ele fazia um tipo de haicai que parecia destinado aNo livreto O Haicai no Brasil, Masuda aponta garantir que só ele fizesse haikais empara a "influência de Kyoshi Takahama" sobre o Português: além do rígido esquema de versoshaicai de Fonseca, que passa a defender a de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso tinha deutilização da presença do termo de estação rimar com o terceiro, e a segunda sílaba do(kigo) em um dos três versos: "Assim (...) segundo verso tinha que rimar com a sétima, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 46numa acrobática rima-interna." Vejamos um Em 1968, ao fazer um prefácio para um livro dohaicai de Guilherme de Almeida e seu esquema: poeta Mário Stasiak, seu amigo, Leminski escreveu: "Lembrai-vos, irmãos, que o maior O Haicai génio poético do Paraná é de raiz eslava, sendo Lava, escorre, agita Helena Kolody (pronunciar: Guélena Kolódi)". A a areia. E, enfim, na bateia esse admirador apaixonado, Helena fica uma pepita. Esquema correspondia com igual afeto, ela que havia ----X deixado um tanto de lado o haicai, disse: "Só -O----O voltei ao haikai quando o Paulo Leminski, então ----X um jovem de 20 anos, vizinho de apartamento, descobriu-me como a primeira pessoa a fazerQuem fizer uma revisão da obra de Helena, haikai no Paraná".seguindo a trilha dos seus haicais, poderácertificar-se de que ela não utilizava o esquema Para a biografia de Leminski, Helena deu umdo que se convencionou denominar de "haicai emocionado depoimento (cito um trecho): "Eleguilhermino". Segui também, na coletânea me emprestou as revistas Invenção eHaikais, os setenta haicais reunidos e somente Noigandres e foi assim que tomei conhecimentoencontrei 14 deles com rimas: 4 rimam o do concretismo em S. Paulo. Mas, quando veiosegundo com o terceiro verso; 2 rimam o me procurar, ele já estava em outra. Estavaprimeiro com o segundo verso; e, 8 rimam o interessado em haikais e se surpreendeu aoprimeiro com o terceiro verso. Vejamos dois encontrar três deles em meu livro Paisagemdeles: Interior, de 1941. Por isso ele me procurou. Mas, o verdadeiro haikaísta era ele. Nesta AVESSO ocasião, estava aprendendo japonês para Seu olhar profundo mergulhar no espírito da língua e na cultura olha na poça dágua oriental. Por isso seus haikais foram tão e enxerga estrelas no fundo. autênticos". AREIA Os anos 80 foram "leminskianos" em Curitiba. Da estátua de areia, Apesar de Leminski achar que a cidade não nada restará, tinha uma vida cultural (como ele desejava), depois da maré cheia. sua Culturitiba - "Sem raízes e sem carências, que fazer?"- foi o palco de sua vida e obra.Como se pode ver, Helena seguiu Almeida Inúmeros valores literários apareceram nessesomente no item dar um título (que ela sempre tempo, principalmente a consagração da poetao fez, ao contrário de Fanny e Fonseca), mas Helena Kolody (a "Padroeira da Poesia", comosuas rimas, métrica e a forma do haicai não ele dizia). Se Leminski se tornou um mito,seguiam a proposta guilhermina; ela não usava Helena seguiu junto, ampliando o espaço míticode sua bateia. deixado por ele em 1989.Helena e Leminski Quando em 1985 Helena reinaugura-se, lançando Sempre Palavra, fina concisãoHelena ficou feliz quando Paulo Leminski, em poética, incluindo três haicais, Leminski tece-lhe1965, elogiou seus haicais. Ele seria seu vizinho rasgados elogios. Seu texto tinha o título deno edifício São Bernardo por três Santa Helena Kolody, e diz que o livro "incluimovimentados anos da vida dele, que, com 20 uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luzanos, já tinha fama de poeta e agitador cultural bastante para iluminar esta cidade por todo umna cidade. O biógrafo de Leminski, Vaz, assim ano". Segue fazendo comparações e sugerindose referiu a este fato: "Foi também nesta época análises mais profundas, e acrescenta: "Nossaque conheceu pessoalmente a poeta Helena padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba,Kolody, uma filha de ucranianos bem mais de uma modernidade enorme, umavelha, que morava no andar de cima - e desde modernidade de quase oitenta anos. Nenhumos anos 40 fazia poemas em forma de hai-kais". de nós tem modernidade desse tamanho". E termina: "Tem certas manhãs azuis em Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 47Curitiba, mas tão azuis, tão azuis, que eu tenho A natureza vivencial da maioria de seus haicaiscerteza: Helena Kolódy acordou cedo e olha por pode-se perceber quando Helena conta atodos nós". É desse livro este haicai: história desse Pereira em Flor: GESTAÇÃO "Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma Do longo sono secreto noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com na entranha escura da terra, aquela pereira completamente florescida, o carbono acorda diamante. banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade.Aos estímulos do amigo poeta, Helena Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereirarespondeu com mais livros, mais poemas de com uma noiva: a noiva toda vestida deamor pela poesia. E dedicou a ele, não um branco, sonhando, com a pereira ao luar".haicai, mas um de seus dísticos (que ela sabiautilizar com mestria), Figo da Índia (1986): Ainda frisando este aspecto importante do haicaísta, qual seja o da observação, A casca espinhenta contemplação e vivência, base da poesia de guarda a macia doçura da polpa. haicai, cito outra história de Helena: "Estou numa idade em que dou-me ao luxo de sair nasMais tarde, ela diria: "Ele, às vezes, parecia ruas com a maior tranqüilidade e parar paraagressivo. Todavia, tinha uma polpa doce, ele contemplar uma árvore, um pássaro, umera muito carinhoso. Tanto que ele me fez uma transeunte - sem temer o ridículo. Dia destes,dedicatória: "Mãe querida, nada como ter uma quando cruzava a Praça Rui Barbosa, vi umafada na vida". pena de pombo cair na calçada. Apanhei-a, contemplando-a, e na hora pensei num poema.A Palavra é uma Vivência Pessoal Como tinha apenas um lenço de papel, foi nele que escrevi:Carlos Drummond de Andrade enviou em 1980uma pequena carta à poetisa, onde dizia: "Tão Apanhei na calçadasimples, tão pura - e tão funda - a poesia de Uma pena de pomboInfinito Presente. Você domina a arte de Aprisioneiexprimir o máximo no mínimo, e com que Um momentomeditativa sensibilidade!" É do livro citado, De vôo e vento"entre outros, este haicai: Leiamos algumas frases ditas por Helena na LUZ INTERIOR entrevista da Biblioteca, as quais nos dão uma O brilho da lâmpada idéia do seu fazer poético: no interior da morada empalidece as estrelas. "Quando menos espero, e nas ocasiões mais imprevistas, começo a sonhar palavras".No segundo livro de Helena, Música Submersa,de 1945, saiu um haicai, o Pereira em Flor: "Na hora, invade-me a indizível alegria de criar". De grinalda branca, Toda vestida de luar, "É verdade que, no fundo, todo poeta é autor e A pereira sonha. leitor de seu poema. É autor na hora da inspiração, quando entra "em estado deDrummond, segundo Kamita, fez um elogio poesia." (...) No momento da inspiração, somosdizendo ter ficado feliz com poemas como esse, autores. Depois, o poeta lê o poema, avalia a"em que à expressão mais simples e discreta se composição, corta, acrescenta, substituialia uma fina intuição dos imponderável vocábulos. É a fase do leitor".poéticos". "O poeta, a princípio, escreve para si mesmo, entrega-se ao prazer de criar; depois, quer Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 48alcançar o leitor. Sem isso, a poesia deixa deser comunicação". "persigo um pássaro e alcanço apenas"Há dois tipos de temas em minha poesia: os no muroque refletem meu próprio Eu, confessionais, e a sombra de um vôo".os que mostram minha preocupação com osoutros e com os problemas do mundo, ou seja, Reika, seu nome de haicaistatemas do eu íntimo e do eu social. Uso muitoimagens, metáforas, símbolos tirados da Em 1993, a comunidade nipo-brasileira depaisagem. Sou uma enamorada da beleza do Curitiba fez-lhe uma homenagem, concedendo-mundo que me cerca". lhe o nome haicaísta Reika, "em reconhecimento à dedicação, divulgação e"Creio que há sugestões plásticas em meus grandiosidade que deu à poesia de origemversos. Uma amiga pintora disse que meus japonesa, haicai". O documento haiku no meigopoemas poderiam ser pintados". (outorga de haimei - nome de poeta do haicai), explica os ideogramas do nome Reika: Rei -"Embora não pareça, o verso moderno é muito designa pessoa de destaque no gênero demais sutil e mais difícil do que o tradicional". poesia haiku (haicai), renome na literatura; Ka - pode ser kaoru (aroma, fragrância) ou niou"Como recursos estilísticos, uso muito (aromatizar, perfume). Reika, portanto,aliterações, anáforas e outros recursos significa "perfume da literatura", ou "renomadafonéticos". fragrância da poesia", ou, ainda, "aroma da poeta maior". E, o documento encerra,"Há um elemento lúdico no fazer poético, uma dizendo: "A tradução é difícil de se fazer,emoção de prazer, como em qualquer jogo. É porque não se refere ao perfume em si, masum jogo fascinante, feito com palavras". sim ao contágio ou vibração que vai envolvendo as pessoas pelo encanto, que a poesia dessa"Creio que uma das características do poeta é pessoa emite".essa paixão pela palavra e pela leitura. A leituraamplia nossos horizontes, enriquece nossa arte. Compondo o conjunto vieram quadros com osÉ preciso ler, ler e ler". ideogramas em belas caligrafias (shodô) em quatro estilos."A sensibilidade do poeta é como a da harpaeólica que os gregos penduravam nas árvores, Helena e a Tankae que vibrava com o menor sopro de vento. Elevibra intensamente, não só com as próprias Seu amor pela poesia japonesa a fez publicaremoções; capta, com o radar da imaginação, o no melhor jornal de literatura que se fez nosentir do outro, o viver do outro. Esse ver os Paraná, o Nicolau, quatro tankas (poema deoutros com os olhos da imaginação é, também, cinco versos: 5-7-5-7-7), até então inéditos, emum dom do poeta; nem sempre é a sua própria dezembro de 1992; cito duas:experiência que ele expressa em versos.Incorporamos em nossa vivência as vivências PIRILAMPEJOalheias que nos atingem, nos alegram, ou nos O sapo engoliufazem sofrer". a estrelinha que piscava no escuro do brejo.E, perguntada sobre como escreveu o haicai Ficou mais sombria a noitePereira em Flor, esclareceu: "As impressões que sem o seu pirilampejo.me atingem vão se acumulando em meuinconsciente e elaborando uma espécie de AQUARELAhúmus, no qual se misturam impressões de Sol de primavera.muitos tempos; desse húmus brota o poema, Céu azul, jardim em flor.impregnado de minha própria personalidade". E Risos de crianças.mais adiante, diz: "Junto com a alegria de criar, Na pauta dos fios elétricos,existe a agonia de perseguir o inatingível. uma escala de andorinhas. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 49Em 1993, a Fundação Cultural de Curitiba graciosos senryu. Aponto-os, entretanto,publicou Reika, com 28 poemas (19 haicais e 9 apenas baseado no fato de haver autorestankas), numa edição artística limitada. Mais (mesmo entre os japoneses) que nãotarde, em 1996, a Secretaria da Cultura do diferenciam o senryu do haiku, incluindoParaná, republica as mesmas tankas inclusas no aqueles entre estes. Vejamos:livro Caixinha de Música. Destaco duas: SALDO SABEDORIA Na página adolescente Tudo o tempo leva... deste mundo em flor, A própria vida não dura. sou um saldo anterior. Com sabedoria, colhe a alegria de agora VIGILÂNCIA para a saudade futura. O que vigia e reprime, passa por baixo do pano INVERNO e salta na arena do circo... No céu de cristal cintila o sol sem calor. EPIGRAMA Sopra um vento frio. No círculo esotérico Tiritam árvores nuas dos novíssimos, nos campos que a geada veste. múmia não tem vez.Helena e o Senryu IDADE A morte desgoverna a vida.O senryu tem a mesma forma do haicai (três Hoje sou mais velhaversos de 5-7-5) mas trata de temas que meu pai.unicamente humanos, sempre em tom irônico,satírico, humorístico. É provável que Helena (artigo escrito pelo haicaista paranaense Josénão tenha se dado conta de que fez alguns Marins) O Nosso Português de Cada Dia Expressões RedundantesOcorre redundância quando, numa frase, Seria possível que eles encarassem "de trás"?repete-se uma idéia já contida num termoanteriormente expresso. Assim, as construções "A modelo ESTREOU seu vestido NOVO."redundantes são aquelas que trazem Seria possível que ela estreasse um vestidoinformações desnecessárias, que nada "velho"?acrescentam à compreensão das mensagens.No dia-a-dia, muitas pessoas utilizam tais "Adoro tomar CANJA DE GALINHA."expressões sem perceber que, na verdade, são Se é canja que você toma, só pode ser "deinadequadas. Veja a seguir frases com galinha"!expressões redundantes freqüentementeutilizadas: "O estado EXPORTOU PARA FORA menos calçados este ano.""Eu e minha irmã repartimos o chocolate em E como ele poderia fazer para exportar paraMETADES IGUAIS." "dentro"?Ao dividir algo pela metade, as duas partes sópodem ser "iguais"! "Quando AMANHECEU O DIA, o sol brilhava forte.""O casal ENCAROU DE FRENTE todas as Você já viu amanhecer a "noite"?acusações." Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 50"Tiradentes teve sua CABEÇA DECAPITADA." "Pessoal, não vamos ADIAR PARA DEPOIS estaAlguém já viu um "pé" ser decapitado? reunião!" Decapitação só existe da cabeça mesmo! O verbo adiar já indica que é "para depois"."A criança sofreu uma HEMORRAGIA DE "Será que tenho OUTRA ALTERNATIVA?"SANGUE e foi parar no hospital." A palavra alternativa significa "outra opção". ATodas as hemorragias são "de sangue"! forma correta seria: "Será que tenho alternativa?""HÁ muito tempo ATRÁS fui à Portugal."A forma verbal há já indica que o tempo é no "Eu e meu marido CONVIVEMOS JUNTOSpassado. durante dois anos." O verbo conviver já expressa a idéia de "viver"Ela é LOUCA DA CABEÇA!" com", "junto". "A professora ACRESCENTOUVocê já viu algum louco do "pé"? MAIS UMA idéia ao projeto.""O rapaz se INFILTROU DENTRO da festa sem Será que ela poderia acrescentar "menos" umaser convidado." idéia?O verbo infiltrar já indica "para dentro". Franklin RAS Lopes (O Inesperado Aprendizado nas Curvas Femininas do emininas Preconceito) Vou contar um dos fatos pitorescos segurando e sendo o porta retrato, etc edesta vida nos mares, certa vez indo ao também existia algumas posições de gostoshopping em Florianópolis, vi uma exposição de muito duvidoso..um artista plástico, um escultor, que trabalhava Mas existiu uma obra que realmente mecom pedra, argila, madeira e uns materiais que chamou a atenção, era uma peça inteira enão sei o nome ao certo, mas isto não importa única de madeira de uma mulher de joelhosem nossa historia, este escultor era inteiramente nua, com as mãos pra cima e comespecializado em mulheres. o pescoço virado para o lado, de tal forma que Sim, todas as suas esculturas eram as duas mãos e a cabeça serviam de suportemulheres nuas ou semi nuas, deitadas em cima para um tampo de uma mesa - Sim estade rochedos, deitadas confortavelmente, presas escultura se tratava dos pés da mesa. Era umem redes, sentadas, e algumas delas se mulherão sendo o suporte da mesa e como omisturavam como base de utensílios tampo era de vidro era só sentar e ver aqueladomésticos, tipo: O suporte do abajur como mulher de joelhos em uma posição no mínimouma mulher nua sentada, mulheres nuas desconfortável.. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 51 Depois de ver tantas obras tendo as amigo, eu achei este tronco jogado em ummulheres como suporte de utensílio, acho que a terreno baldio era um tronco qualquer e euobra da mulher suporte de mesa fez sacudir transformei ele em uma linda mulher, olhe ela éalguma coisa nesta minha mascara cristã e quis linda, eu não me importo com o que possamsaber qual era visão daquele homem, pois ele dizer, ela é linda.devia ter problemas com as feministas!!! Ainda Neste momento eu entendi melhor a questãomais sendo a exposição dentro de um shopping da utilidade no Pequeno Príncipe, em que eleo que aguçou a minha inquietação para dizia que a “utilidade esta na beleza”, confessoconversar com o escultor. que isto me tirou da aridez acadêmica por um É claro que conhecendo a delicadeza em tempo, eu ia ao shopping para ver este escultortocar certos assuntos, fui calmamente falando trabalhar, ele estava fazendo uma releitura dodas mudanças ou tendências da escultura para Pensador de Rodin (é assim mesmo?) em argilao nu feminino, fato que não era comum na para uma empresa de celular, na realidade eleGrécia antiga aonde o homem era visto como o estava fazendo o Falador de Celular rsss, elebelo. E o escultor por minha sorte era um cara mesmo disse mudanças nos tempos. No temposimpático, risonho conversou de forma de Rodin o pensar era valorizado, hoje não.agradável dizendo que as mulheres eram mais Além do que, para quem não sabe a belaplásticas, e assim podia se trabalhar com uma Gabriela trabalhava ali perto, e eu como ummaior multiplicidade de visões do que a simples romântico medroso torcia para que a força dosvisão guerreira ou do ser reto masculino ventos dos mares deixasse Gaby em meusdescansado... sim ele realmente gostava das braços - aprendizado instantâneo da utilidademulheres mesmo. do artista Mas ainda assim, achei que existiaalguma coisa de machismo em suas palavras eem seu trabalho e finalmente questionei-o arespeito daquela obra da mulher suporte demesa, dizendo de uma forma delicada que amulher podia ser vista como um objeto de usoe ainda por cima não estando em uma posiçãomuito agradável:- de joelhos para servir. Franklin Ras Lopes Franklin Rodolfo Aguiar Silveira (Ras) Lopes é A resposta deste escultor foi uma das Oceanógrafo, Mestre em Aqüicultura, Doutorcoisas mais surpreendentes para mim, ele não em ciências e atualmente trabalha comose alterou em nem um momento apenas me consultor ambiental. Reside em Piracicaba, SP.chamou para frente da obra e disse: Olhe Aparecido Raimundo de Souza (O Homem Só) Só) Como um fantasma que se refugia Mas tu não vieste ver minha Desgraça! Na solidão da natureza morta, E eu saí, como quem tudo repele, Por trás dos ermos túmulos, um dia, - Velho caixão a carregar destroços - Eu fui refugiar-me à tua porta! Levando apenas na tumbal carcaça Fazia frio e o frio que fazia O pergaminho singular da pele Não era esse que a carne nos conforta... E o chocalho fatídico dos ossos! Cortava assim como em carniçaria (Augusto dos Anjos) O aço das facas incisivas corta! –––––––––––- Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 52 O homem firmamento. Que belos e maravilhosos anda, momentos de ternura e enlevo desfrutaram!... procura, procura, indaga... No entanto, o copo do destino transbordou o licor amargo. O céu tingiu-se de nuvens negrasE ninguém sabe dizer onde encontrar a mulher e um vendaval inesperado fez-se forte, muitodos seus sonhos. Todos negam com a cabeça. poderoso e intransponível. Suas idéias e ideais,Uns nem respondem. Outros viram-lhe o rosto a partir daí, entraram em parafuso, como umem sinal de pouco caso. Alguns posicionam-se avião desgovernado e tudo o que era bomindiferentes e alheios à sua presença. Na voltou-se, de repente, para o nada. Todaverdade, a multidão o trata como se o pobre aquela plebe ao seu redor deve estar comnão existisse. A maioria daquela escumalha o razão. Ele é mesmo, sem sombra de dúvidas,considera um estróina, a julgar por seus modos um alienado mental. Sente que as pernasestranhos, pelo seu vestir e até pelo falar. bambeiam a carcaça. Em derredor de si, coisas, pessoas, casas...giram, e a medida que entramE o coitado, o infeliz, parece mesmo nesse movimento rotatório, as vistas turvam-seapalermado, furioso, louco. E como um por completo e quedam-se, em seguida, emdoidivanas, pesadas brumas de solidão.Portanto, Está, pois, tolhido, segue adiante... indefeso, persegue vencido...vencido eimagens distantes, figuras indistintas que nada sem forças para soerguer o nariz,têm a ver com a amada. Perdido e só, esse levantar a moral, dar a volta por cima e berrar.caminhante não vive. Vegeta um tempo Na verdade, quer gritar que está vivo, carente,obumbrado, esquecido no espaço irrecuperável dependente do amor dessa deusa quedo compasso inconseqüente dos dias que enfeitiçou sua alma e, no final das contas, opassam um após outro, como se para o mundo abandonou ao grotesco mais iracundo dotodas as coisas tivessem mortas há séculos. É o ridículo.destino imprecativo que manipula seus desejose ansiedades como melhor agrada. A - Te amo, te amo – grita o pobre infeliz olhandoesperança, aquela esperança ambígua de para um pequeno retrato três por quatro. - Teoutrora retirou-se, às pressas, de seu peito, tal amo, porque tu te escondestes de mim?como quem foge de algo ruim e prestes aacontecer. Tudo isso, porém, tem uma causa: Seria esse homem um louco?sua outra metade que busca incansavelmente.O efeito, sente agora, abraçado à ausência da Como louco? Se o mísero só quer saber ondesaudade que domina toda a mente, está a autora dos seus sonhos?transformando o pensamento num redemoinhode idéias confusas. Afinal, onde está, por Deus,onde está a figura que coloriu seus devaneios?Sem ela e seus aconchegos é um homem vaziode vida, de cores, e de esperanças. A partidada jovem doeu-lhe muito. Feriu de tal formaque até o coração bate descompassado, numa Aparecido Raimundo de Souzaatitude convulsiva de sofrimentos embaraçosos. Aparecido Raimundo de Souza, 56 anos,Em seu peito uma ferida imensa abriu feio à jornalista. Natural de Andirá, Paraná. Free-flor da pele, e desde então não cicatriza. lancer das revistas "Textos Inteligentes" e "Isto é gente". Publicou: Quem Se Abilita? (prefácioEnquanto anda e procura, indaga e persegue, de Paulo Coelho); Com Os Chifres À Flor Darecorda o passado... Cabeça (25 cronicas); Tudo o que eu Gostaria de Ter Dito (livro com 365 frases dos maisLembra a vida à dois; os verdes anos de diversos autores, frases essas publicadasprosperidade e fortuna como dádivas caídas do durante três anos numa coluna que manteve na Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 53Revista Class, em Vitória, no Espírito Santo); As Os textos de Aparecido Raimundo de SouzaMentiras Que As Mulheres Gostam De Ouvir (25 retratam o cotidiano das pessoas. São escritoscronicas); A Outra Perna Do Saci, Refúgio para leves e soltos, alguns cheios de intransigências,Cornos Avariados (25 cronicas), Mulheres em outros salpicados de ironia e muita picardia eEstado de Coma; Travessuras de Mindinho e irreverência. Seu estilo lembra o escritorFura Bolos; Talvez Eu Volte para Casa na gaúcho Luiz Fernando Veríssimo, embora tenhaPrimavera. criado uma grafia própria e inconfundível. Antonio Augusto de Assis (Poesias) (Poesias) CARNAVAL O trilo do apito, É sexta-feira, o grito do aflito, véspera da folia. o confete, o conflito. Lá vai Maria. É quarta-feira, cinzas. Lá vai lavar em lágrimas Lá vai Maria. a vida ávida de vida, Lavai, Maria. sofrida vida dividida Lavai o mundo, Maria. em dívidas e dúvidas. Lavai o imundo, mundo imundo vasto mundo, É sábado, é domingo, lavai o mundo, Maria! é segunda, é terça gorda. –––––––––––––––––––– Roda no asfalto o samba, LUOLHAR geme o povo em sobressalto. Roda rotunda a moça moma, Duas luas peitos nus lançando chamas. viu Ismália Gemem bocas de crianças, na noite em que enlouqueceu: barrigas ocas “viu uma lua no céu, mendigando mamas. viu outra lua no mar”. Roda impávido o desfile na avenida multicor. Bem mais louco, Gemem pálidos vejo três, rostos esquálidos quando me ponho a cismar: desfilando a dor. a terceira é a que flutua O sonho roda, geme o horror. tentadoramente nua na noite do teu olhar. O samba-enredo, o medo em roda. ––––––––––––––––– A serpentina, o ser penante. A passarela, o pária ao lado. TERCEIRA INFÂNCIA O palanque, a pelanca. O pandeiro, a pancada. Meu neto O sambeiro, o sem-nada. me disse um dia: O tamborim, o camburão. — Converse comigo, vô, O saxofone, o saque-sem-fundo. mas converse como amigo, A fantasia, a mão vazia. mais amigo do que vô. A apoteose, a verminose. A alegoria, onde a alegria? Desfez-se logo a distância. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 54 Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz, Conversamos. minha fé na ternura e no bem que ela faz, Conversamos. meu apego à esperança e ao que a possa Conversamos. manter. Ele na primeira, Por um beijo, um só beijo, um momento de eu na terceira infância. amor, eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor, AURORA BELA o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser! Da janela do meu quarto vejo Aurora na janela. Toda tarde, à mesma hora, Aurora lá. Que será que ela olhará? Antonio Augusto de Assis Aurora, Aurora, Aurora bela, Nasceu em São Fidélis – Estado do Rio bela Aurora da janela, de Janeiro, no dia 07 de abril de 1933. Filho de Aurora Pedro Gomes de Assis e Maria Ângela de olhar sem fim... Guimarães de Assis. Casado com a professora Lucilla Maria Simas de Assis, tem duas filhas e Se sobrar uma olhadinha, cinco netos. por favor, olha pra mim! Residente em Maringá-PR desde janeiro de 1955. Hoje aposentado, foi jornalista e POR UM BEIJO também professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá. Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho: Integrante da Academia de Letras de os bons sonhos que sonho, as plantinhas que Maringá (Cadeira no. 27 - Patrono: Manuel planto, Bandeira), da UBT – União Brasileira de a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto, Trovadores (seção de Maringá) e da Academia e o meu verso se acaso houver nele arte e Virtual de Letras Luso-Brasileira. Editor da engenho. revista eletrônica Trovia (da UBT-Maringá) e co-editor da revista eletrônica Trovamar (da Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu UBT-Balneário Camboriú). pranto, Autor de Robson, Itinerário, Bate-papo, as angústias da luta em que há tanto me Trovas de paz e amor, Os quebra-molas do empenho, casamento, Lufa-lufa, Chiquinho, Felicidade as saudades da infância e do chão de onde sem camisa, Da arte de ser pai, Desafio do venho, amor, Carta aos moços, Xangrilá, O portuguêsas promessas que eu faço em segredo ao meu nosso de cada dia, Poêmica, Caderno de Trovas santo. e A missa em trovas. Tchelo D’ Barros (“M” E “H” no 609) 609)São Paulo é uma cidade grande, muito grande. inesperadas, que talvez por comodidadeM e H conheceram-se numa dessas situações convencionamos chamar de acaso. M, há Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 55tempos que estava acostumada com a rotina do ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi-metrô, meia hora para ir e outra longa meia livros de faroeste, sua única distração literária.hora para voltar. Para suportar melhor esse M imaginou inicialmente que H estivesse lhelimbo de tempo inútil, lia revistas de seguindo, mas logo concluiu que isso nãofotonovelas, que adquiria numa loja de livros poderia ser, pois quando ela chegou ele já seusados, próxima à estação da Praça da Sé. A encontrava no local. Depois pensou emmonotonia desse trajeto só era quebrada lá de coincidência, em destino, essas coisas que nãovez em quando, com alguma paquera, pelo entendemos muito bem, e logo já estavafuzuê com algum trombadinha ou algum ator fantasiando que fosse algum investigadorfazendo sua performance e passando o chapéu. contratado, um tipo de detetive.Aquela manhã de sábado com garoa não Saiu de tais devaneios quando percebeu queprometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se ele já não estava mais naquela sala, entãoum pouco por ter que ficar em pé, e tratou de escolher alguns exemplares decavalheirismo, como se sabe, não anda muito revistas para sua coleção. O segundo susto foina moda. Incomodou-se um pouco mais na hora de pagar, pois ambos chegaram juntosquando, no frenesi das pessoas que ao balcão, o que fez com que o balconistaapressadamente entravam e saíam do vagão, perguntasse o típico quem está na vez?, o queum sujeito passou por trás dela, encostando-se, inicialmente causou um certo constrangimentoinevitavelmente. Este momento deve ter para ambos, mas foi a ocasião para uma brevedurado apenas um segundo, mas foi o troca de olhares e o esboço de um sorriso. Osuficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e fato de H ter permitido que M pagasseele percebeu a fragrância de alfazema nos primeiro, foi a senha para continuaremcabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou conversando e o manuseio do pagamentode soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo permitiu que ambos vissem que nenhum dosque H, também discretamente, observava sua dois estava usando aliança.silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela.Ato seguinte, um assento que ficou vago As recentes aquisições permitiram que apermitiu que a vida voltasse ao normal no conversa se prolongasse num café próximo dali.escapismo de mais algumas páginas da Esgotado o assunto das preferências literárias,fotonovela. trataram de puxar outros temas corriqueiros, amenidades bem triviais, apenas umasDesceu na estação de sempre e depois de mais desculpas para poderem continuar se olhando,uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto um adentrando o semblante do outro, tentandoestava livre, seu fim-de-semana começou com desvendar camadas de personalidades eo fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas nuances dessa atração inusitada. Esse mesmobarracas da feirinha da Liberdade, onde ardente encontro de olhares, sequer permitiuadquiriu umas bonequinhas de origami. O que falassem sobre relacionamentos, fossemalmoço se resumiu à alguns camarões no palito, anteriores ou atuais, profissões ou endereços,assim, almoçava caminhando, observando os esses itens que definem tanta gente. Eramartesanatos e antigüidades espalhados pelas apenas dois intensos olhares cruzados, que embanquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente, seguida receberam a cumplicidade de duasjulgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à mãos que se tocavam de leve, no início, euns quadros de paisagens japonesas que um assim não demorou para que um certo par depintor apresentava no chão de uma pracinha. lábios ávidos também se encontrassem. A vidaTímida do tipo ousada, aproximou-se para ter naquele momento era apenas um sabor decerteza, mas não viu mais o vulto, certamente hortelã e um suave aroma de alfazema,era outra pessoa. naquela esquina da megalópole.Lembrou-se que precisava renovar o estoque Não se conheciam, não queriam se conhecer,de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi mas desejavam se entregar. Talvez essaela em direção ao sebo. Ao chegar foi substância abstrata que chamamos de naturezadiretamente à sala das tais revistas, onde levou humana, explique o fato de que dentro deum susto, pois ninguém menos que H estava poucas horas, já no número 609 de um hotel Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 56da Rua Ipiranga, o par estivesse resfolegando reencontraram, e assim foram repetindo seusnum faiscante entrelaçamento com fusão de encontros semanais, pontuados pela entregacorpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo. total em suas experiências, preservadas porDepois, quando os corações foram segredos mútuos, quase como se suas vidasdesacelerando, o suor foi secando e os instintos particulares nem existissem, como se a vidapermitiram que alguma lucidez se instalasse no real acontecesse apenas naquele idílico quartorecinto, começaram a conversar e, conversaram 609. E mais não precisava. E como é própriodemoradamente, outro prazer que descobriram dessas raras uniões onde o casal se completa,assim, sem querer. Concluíram que esse se complementa e se funde, chegaram à umenigma, que as pessoas chamam de amor, nível de cumplicidade e simbiose onde erapode acontecer assim, de repente, numa possível sentir plenamente o estado emocionalnublada tarde de sábado, no labirinto da do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelogigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém toque. Não raro, depois do descanso, abriam ossabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com oquer que fosse sobre o outro, esses ítens que outro, e muitas vezes um ia dizer uma coisa e oidentificam muita gente, o que não impediu de outro completava. Ao final de um ano a sintoniacombinarem se encontrar no saguão do mesmo era tanta que de vez em quando já sehotel, no mesmo horário, uma semana depois. conseguia até mesmo ler o pensamento.E passados sete dias, na tarde paulistana, desta Foi mais ou menos por essa época que Mvez ensolarada, lá estavam M e H novamente, começou a pensar na possibilidade detentando ser discretos na recepção do hotel, investigá-lo, de tentar saber mais sobre essemas mal disfarçando a gana de avançar um homem misterioso, que lhe fazia tão feliz.sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo Talvez desvendar o cotidiano desse íntimoque fecharam a porta do mesmo quarto 609. desconhecido, saber o que ele fazia durante aPura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e semana, onde morava, se era casado, no quelascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem elúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiuque muitos preferem resumir como tesão. não quebrar a magia que os unia, não queriaApagado o primeiro de muitos incêndios, M desconfianças, não queria que ele fizesse opercebeu então que H havia trazido champanhe mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. Ecom morangos, e H pode enfim também notar assim continuaram, já que toda a felicidade doos detalhes da lingerie provocante que M mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era oescolheu para o novo encontro. Algumas endereço do amor, da paixão, do romance e dolabaredas mais tarde, fruíram daquele prazer desejo. O resto era apenas o mundo. Ede conversar, de poder falar das sensações, pequenas mudanças naquele quarto eramdos sentimentos e das percepções desses quase um acontecimento. O dia em quemomentos incandescentes. E falavam da trocaram as cortinas. Uma pequena gravurasaudade, e dos desejos, e dos medos, e das que apareceu em uma das paredes. Osvontades, e das fantasias, e de todo um outro desenhos florais na estampa de um lençol. Elabirinto, o das afetividades que se um dia as paredes receberam uma novaentrelaçavam nas relações e no tonalidade, o salmão suave passou para umrelacionamento. Antes de se despedir, H notou rosa pálido. Isso foi uma grande novidade.entre os pertences de M uma pequena réplicade espada japonesa, dessas para abrir E o tempo foi passando. As fronhas dosenvelopes, sinal de que ela devia ter passado travesseiros foram naturalmente se gastando,novamente pela feirinha oriental. Já M, perdendo a cor, a textura. As conversas agorapercebeu que H havia adquirido mais alguns tinham diminuído um pouco, entremeadas delivrinhos com histórias de bang-bang. Mas breves silêncios, que aos poucos foram seninguém quis comentar nada, nada de prolongando e muitas vezes a falta de assuntoobservações, nada de perguntas. Manter algum era compensada com a leitura de fotonovelas emistério era muito mais excitante. os livrinhos de bolso. Num dos encontros sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias.E assim se despediram, e assim se Depois, uma viagem impediu o próximo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 57encontro, e uma desculpa aqui e outra alifizeram rarear os sábados dos amantes. Atéque numa dessas tardes de muito calor, asparedes do 609 sequer viram o casal se despir,apenas conversaram, olharam-sedemoradamente, choraram, abraçaram-se eentão convenceram-se de que poderiam parar Tchelo D’ Barrosde se encontrar. O rio da vida que seguisse seu Nascido em 1967, é escritor efluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda artista visual. Natural de Brunópolis/SC, residiuum longo e afetuoso último beijo. 15 anos em Blumenau/SC, onde iniciou a carreira artística. Percorreu 20 países emNa saída para a rua, nenhuma palavra, apenas constantes pesquisas na área cultural e desdedois semblantes que se encontravam quem 2004 está radicado em Maceió/AL onde escrevesabe pela última vez e cada um seguiu para um e produz sua obra visual, expondo na Internetlado. H dobrou a próxima esquina, refletindo e em diversos espaços culturais pelo Brasil.sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se Publicou 5 livros de Poesia e possui 2isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos, inéditos de Conto e Crônica. Foi sócio-fundadorconcluiu. De seu destino nada sabemos, apenas da Sociedade Escritores de Blumenau,que deixou de freqüentar uma certa loja de presidente por duas gestões, tendo idealizado elivros usados daquele lado da cidade. M, que coordenado diversos projetos culturais. Foi umtomou o metrô mais próximo, olhava dos idealizadores e coordenadores das ediçõesdemoradamente as fotografias da revista, mas do Fórum Brasileiro de Literatura.nada via, apenas pensava em como era Realizou 12 mostras individuais e comopossível conhecer alguém com tal profundidade designer, desenvolveu ilustrações para agênciase sintonia sem sequer saber seu nome. Dela de publicidade e estúdios de criação têxtil.também pouco sabemos, apenas que continua Ilustrou jornais, revistas e livros, num total deusando xampu com perfume de alfazema e mais de 10.000 desenhos.adquiriu o hábito de comprar pastilhas de É membro fundador do Fórum de Arteshortelã. Visuais de Alagoas, gestor de Literatura do APL Cultura em Jaraguá, membro-fundador do INAVDizem que aquele sebo fechou. Dizem também Instituto Nacional de Artes Visuais e integra aque vai reabrir em outro ponto da cidade, mas Câmara Setorial de Artes Visuais -não se sabe bem onde, pois como sabemos, Minc/Funarte.São Paulo é uma cidade grande, muito grande. Caio Porfírio Carneiro (Vingança) Vingança) Ele andava lentamente à minha frente. igreja ali em frente, a banca de jornais eAproximei-me. Emparelhamo-nos. Sorri: revistas tampando-me um pouco a visão da - Bom dia. fachada. Meu desprezo por aquele homem - Bom dia. ampliava-se: O bom dia dele foi de susto e - Vai comprar jornais ou vai rezar?curiosidade. Voltei a sorrir: - Vou rezar. - O senhor não me conhece. Mas devo - Acompanho.conhecê-lo. - Mas quem é você? Não estou - De onde? reconhecendo. - Depois lhe digo. Os olhos dele eram apertados, como de Chuvinha miúda e nós dois sem guarda- míope, mas não usava óculos. A calvície luzidia,chuva. Poucas pessoas passavam por nós. A onde rebrilhavam pingos de chuva. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 58 - Não importa agora. Não vai rezar? Euo acompanho. Rezar é bom. Alivia. Não émesmo? Olhava-me com rapidez. Apressou opasso. Apressei o meu. E emparelhadoschegamos à igreja. Dei-lhe passagem, que a Caio Porfírio Carneiroporta era estreita: Natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), - Faça o favor. tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem Ele se ajoelhou próximo ao altar, olhos cultivado o conto com regularidade. Sua estréiameio fechados fitos na cruz enorme, a cabeça no gênero se deu em 1961, com ode Cristo bambeada para a esquerda. elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os MeninosProcurava afastar-se de mim, visivelmente e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva –incomodado, e eu pregado nele. As suas mãos, Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelhocruzadas, tremiam, e os lábios caídos (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos ebalbuciavam palavras em direção à cruz. os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) A raiva não me cessou. Cresceu. Não e Maiores e Menores (2003). Seus romancesme contive, cochichei-lhe ao ouvido: são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão - Você me paga, canalha. Vai ver. (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle Pela primeira vez abriu (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e Adesmesuradamente os olhos, pestanejando Oportunidade, estas em 1988.muito, e eu me fui, o eco dos meus passos É autor também de ensaios, como Doreboando na nave quase deserta, duas-três Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre músicacabeças dispersas e contritas. popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: Na rua, sol nos olhos, que a chuva se esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Dafôra, desorientei-me um pouco. Depois, suando Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiromuito, andei de cá para lá, de lá para cá, Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso),concentrando-me, inutilmente, para descobrir reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa dequem seria aquele homem, a fim de vingar-me Bar, Perfis de Memoráveis).dele. Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, Desalentado, voltei para casa. da Câmara Brasileira do Livro, em 1975. A ORIGEM DA ESCRITAA escrita propriamente dita surgiu no Oriente 300 a.C). Tanto as primeiras escritasMédio e na China há cerca de 5.500 anos. cuneiformes quanto a hieroglífica eram deDestes dois focos principais (pois o americano, natureza fonético-pictográfica. Isso significasurgido independentemente há apenas 1.300 que os símbolos usados tanto representavamanos, e o do Vale do Indo, que durou de 3.500 os sons de uma palavra quanto a forma doa.C. até 1.200 a.C., não deixaram descendência objeto que ela representava. Este sistema nãomoderna), a escrita se irradiou para diversas era muito diferente do utilizado pelo Chinês, ooutras partes da Eurásia. único dos primeiros que continua em uso até hoje, chamado normalmente de ideográfico.No Oriente Médio, originaram-se dois principaissistemas de escrita: o cuneiforme, utilizado por Cientificamente, a escrita cuneiforme sumerianadiversos povos e línguas da Mesopotâmia e e a ideográfica chinesa são denominadasPérsia de 3.000 a.C. até 300 d.C., e o logográficas. Isso significa que cada palavrahieroglífico, desenvolvido no Egito e lá utilizado (“logo”) é representada por um símbolosomente para a língua egípcia por mais de (“graphos”). Os hieroglifos egípcios e asquatro mil e quinhentos anos (4.900 a.C até escritas cuneiformes assírias e acadianas Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 59(posteriores à sumeriana) são de natureza logo- outro que lembrava o conceito. Por exemplo, sesilábica: há símbolos para palavras e outros em chinês “andorinha” é “wong”, o ideogramapara sons isolados. É por isso que a designado seria o para pássaro (que lembra odenominação “ideográfica” (=escrita de idéias), conceito) mais o de outra palavra qualquer queconsagrada para o chinês, é imprecisa, já que rimasse com “wong”, como “wang” (parede). Oos “ideogramas” chineses não representam leitor então se perguntaria: “qual o pássaro queidéias, e sim palavras. rima com wang? - “Wong!”. (o exemplo é inventado)Embora separadamente, as escritas da China,do Indo e do Oriente Médio ( e posteriormente Cada símbolo representa uma palavra. “8”, porna América) surgiram a partir de desenhos exemplo, representa “guo” (país), “l”neolíticos, que foram cada vez mais representa “xin” (coração). As palavras emsimplificados até se tornarem bem estilizados. chinês têm apenas uma sílaba e não variam.Primeiramente, se desenhavam objetos, Palavras que têm o mesmo som, mas significamanimais e pessoas, o que equivalia a uma cena, coisas diferentes, têm ideogramas diferentes.ou estória em quadrinhos; em seguida, passou-se a inventar símbolos para noções abstratas e Nas línguas do antigo Oriente Médio, como oações, e depois se procurou representar acadiano, o persa e o egípcio, havia, como nograficamente as palavras na mesma ordem e português, uma série de formas que asforma em que apareciam na língua falada - foi palavras podiam assumir de acordo com aaí que surgiu a verdadeira escrita. A distinção conjugação verbal ou a função na oração, sementre escrita e desenhos de cenas jaz, que seu significado se alterasse (como noportanto, no fato de que a escrita realmente português: eu> mim; tu> ti, amar> amo,representa a língua de seus falantes (posição amas; casa> casas, casinha). Era entãode palavras, gramática, pronúncia) e não necessário que se desenvolvesse um sistema deapenas suas idéias em forma de figuras. escrita que mostrasse a pronúncia diferenciada de cada forma das palavras. Os primeirosChina e Oriente Médio: dois caminhos sistemas, que funcionavam à base dediferentes. logogramas, mostraram-se conseqüentemente imprecisos, sendo desenvolvidos depoisA escrita da China evoluiu diferentemente da do caracteres-sílaba que não possuíam significadoOriente Médio devido a diferenças na e serviam apenas para registrar os diferentesmorfologia das línguas. Na parte ocidental da sufixos, prefixos, partículas sem significadoEurásia, as línguas faladas apresentavam próprio e desinências gramaticais. Surgia assimmuitas formas gramaticais, como conjugações e a escrita logo-silábica, misturando caracteresdeclinações, exigindo que a escrita fosse mais puramente logográficos (que eram desenhosclara quanto à pronúncia - o que não acontecia estilizados das palavras que representavam) eno chinês, cujas palavras são invariáveis. Por caracteres fonéticos (servindo apenas paraexemplo, em chinês moderno (que não é muito indicar a pronúncia). Os hieroglifos egípciosdiferente do chinês arcaico), a palavra “gong” eram claros exemplos desse sistema.carrega em si o conceito geral de “trabalho”,podendo significar “trabalho”, “trabalhar”, E, assim como o chinês, o egípcio precisou criar“trabalhista”, etc., dependendo do contexto, representações para conceitos complexos,sendo que não há variação no plural nem utilizando-se de truques para tal fim. Era comoconjugação verbal. se usassem um hieroglifo composto das palavras “cama” e “leão” para escreverEra desnecessário, portanto, indicar com “camaleão”.precisão a pronúncia da palavra “gong”,bastando designar-lhe um logograma. Com o Fenícios, gregos e hindus: inovaçõestempo, porém, surgiu a necessidade de seescrever conceitos mais complexos, para os Por volta de 1.200 a.C., os feníciosquais não havia pictograma. Criaram-se então desenvolveram uma escrita mais simples, acaracteres mistos, compostos de um ideograma partir das escritas logo-silábicas, devido àbem conhecido que auxiliava na pronúncia e necessidade de uma forma prática de escrita Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 60para que seu império comercial de então ΤΙΝΑ ’ΑΙΣΘΕΣΘΑΙ Τ Ν ΠΟΛΕΜΙ Ν.pudesse funcionar melhor. Nesse sistema, cada Lê-se: epí to ákron anébe kheirisóphos prin tínasímbolo representava uma consoante, sendo aisthésthai ton polemíon. (Kheirisophos subiuque as vogais tinham que ser lembradas pelo ao pico antes de qualquer inimigo perceber).leitor. Para cada consoante, foi escolhido umsímbolo que previamente era um logograma Na Índia, por volta de 700 a.C., surgiu, para arepresentando uma palavra de uso comum, e língua sagrada dos brâmanes, o sânscrito, umafoi-lhe dado um valor puramente fonético, de escrita silábico-alfabética, chamada brahmi, queacordo com seu som inicial. Por exemplo: beth deu origem a várias escritas indianas como o(casa) foi escolhido para o fonema /b/, ‘aleph devanágari (“escrita divina”, 1000 d.C.), além(boi) foi escolhido para o fonema /’/, a parada de escritas do Sudeste Asiático. Devido ao fatoglotal típica das línguas semíticas. Esse tipo de de o sânscrito ser uma língua indo-européiaproto-alfabeto, denominado cientificamente de como o grego (embora nem os gregos nem os“alfabeto consonantal”, foi a origem imediata indianos se reconhecessem como aparentadosdos atuais alfabetos hebraico e árabe, que na época, pois as pesquisas lingüística de indo-ainda deixam de marcar as vogais, talvez do europeística têm apenas 200 anos), o os hindusalfabeto da Índia, e do alfabeto grego, que também sentiam a necessidade de marcarapresentou a novidade de designar símbolos às todos os sons na escrita com precisão. Só quevogais. Surgia com os gregos, portanto, o eles foram muito mais além, criando umverdadeiro alfabeto, denominado de “alfabeto alfabeto extremamente rico e complexo, capazvocálico-consonantal”. de representar qualquer som. Esse sistema utiliza-se de formas teóricas de letras que sãoOs árabes e os hebreus nunca sentiram a então combinadas de forma complexa umas àsnecessidade de marcar as vogais devido à outras para formarem sílabas e então palavras,peculiar estrutura morfológica de suas línguas, sendo denominado “alfabeto silábico”. Oque são do grupo semítico, assim como os resultado são algumas das escritas visualmenteantigos fenício e aramaico. Nas línguas desse mais harmoniosas do mundo.grupo, as conjugações se dão através docorreto preenchimento de um esqueleto de três O devanágari ainda é utilizado hoje, comconsoantes por um certo grupo de vogais, poucas modificações, por dezenas de línguas daportanto pelo contexto pode-se deduzir estas Índia e pelo bengalês, de Bangladesh. Contudo,claramente. Já o grego, uma língua indo- ainda se discute a verdadeira origem de suaeuropéia como o português, não tem escrita-mãe, o brahmi, pois, apesar deparadigmas vocálicos tão fixos como o das provavelmente ser de inspiração semítica, é umlínguas semíticas, o que levou à criação das mistério o fato de ela já ter surgido pronta,letras para as vogais, adaptadas a partir de desde os mais antigos manuscritos, como se jáconsoantes fenícias que não tinham utilidade tivesse sido criada perfeita pelos deuses! Opara o grego. Por exemplo, o ‘aleph, que tailandês, outro exemplo de escrita de baserepresentava em fenício o som da parada brahmi, está em uso até hoje também.glotal, foi reaproveitado para a vogal “a”(alpha, em grego), já que na língua helênica Etruscos e latinos: a escrita se expandenão havia tal fonema. Além disso, outramudança do grego foi a de escrever da Os etruscos foram os antecessores dosesquerda para a direita, pois o fenício, assim romanos no domínio da península itálica.como o árabe e o hebraico modernos, se Mesmo Roma lhes foi subalterna. Dos gregos,escreve da direita para a esquerda. os etruscos tomaram muitas coisas, entre elasInicialmente, contudo, os gregos se utilizavam o alfabeto. Discute-se ainda hoje que tipo dedo sistema denominado “boustrophédon” língua era o etrusco, se indo-européia ou não,(arado), em que uma linha ia da esquerda para mas, a essa altura, isso não importava mais: oa direita e a seguinte da direita para a esquerda alfabeto vocálico-consonantal já havia sidoe assim por diante. inventado pelos grandes gregos e era de fácil adaptação a qualquer língua. A Etrúria seExemplo de escrita grega antiga (400 a.C.): extinguiu, Roma se ergueu, levando das cinzas’ΕΠΙ ΤΟ ’ΑΚΡΟΝ ’ΑΝΕΒH ΧΕΙΡΙΣΟΦΟΣ ΠΡΙΝ etruscas, ligeiramente modificado, o seu Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 61alfabeto - mais do que apropriado para se falado, só escrito, mas agora já diferia do latimescrever a língua latina, indo-européia por clássico. A esse latim cristão dá-se o nome deexcelência e de fonética similar à do grego. latim medieval, usado até hoje pela Igreja deCom o Império Romano, a escrita foi divulgada Roma.por uma extensão territorial enorme, inclusivepor regiões não romanas, dando origem, ainda Mas nas secretas bibliotecas monásticas, osna Idade Antiga, por exemplo, à escrita rúnica monges copistas cuidadosamente reproduziamdos víquingues e a escrita céltica, entre as grandes obras da Antigüidade para garantiroutras. que sobrevivessem ao tempo. Esses monges, em nome da praticidade e influenciados pelaA escrita munumental se usava em inscrições estética medieval obscura, desenvolveram asde monumentos e edifícios, e é a base da escritas cursivas, manuscritas, em que as letrasforma atual das nossas letras de fôrma. Para se ligavam umas às outras de modo a agilizar aescrever textos, porém, os romanos se cópia. Essa escrita cursiva deu origem às letrasutilizavam de formas mais “garranchadas” das minúsculas latinas e gregas, desconhecidas naletras, muitas vezes sem espaço entre as Antigüidade, quando só se usava aspalavras. maiúsculas. Nossa atual escrita à mão, obviamente, também tem essa origem.Como se pode ver, a letra “V” representava osom /u/, e o som /v/ não existia em latim Assim formava-se a escrita atual, composta declássico. A letra e o som “j” não existiam, nem minúsculas e maiúsculas. No início, não haviatampouco o “w”. O alfabeto latino era portanto padronização quanto ao uso das maiúsculas,assim: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, mas com o tempo, e dependendo da língua,Q, R, S, T, V, X, Y, Z, sendo que as letras K, Y e elas passaram a ser utilizadas como iniciais deZ serviam apenas para grafar palavras de parágrafos e palavras importantes. Em muitasorigem grega. A letra C representava sempre o línguas, todos os substantivos, próprios ousom /k/: Ave Caesar era pronunciado “áue comuns, se iniciavam com maiúscula, mas hojecáissar”. Não é à toa que “imperador” em apenas o alemão conserva essa excentricidade.alemão até hoje é “Kaiser” - as tribos A invenção da vírgula, do ponto final, degermânicas ouviram o termo há 2.000 anos e exclamação e interrogação data do final damantiveram sua pronúncia, enquanto nas Idade Antiga, mas somente na Idade Média,línguas latinas a palavra evoluiu para “César” especialmente em seu final, se padronizou seuem português, “Cesare” /tchézare/ em italiano, uso tanto no alfabeto latino quanto no grego.etc. Mesmo uma palavra como “cerevesia” Uma curiosidade: no grego, o ponto de(cerveja, em latim clássico) era pronunciada interrogação é igual ao nosso ponto e vírgula/kereuéssia/. Conclui-se, já que o alfabeto (;).latino fora adaptado a partir do gregoexclusivamente para o latim, que cada letra No final da Idade Média, as outras línguas damantinha sempre seu valor básico, não importa Europa passaram a ser escritas também. Noem que posição. entanto, os alfabetos latino e grego não eram perfeitos para os sons de todas as línguas. PorIdade Média: as grandes línguas clássicas exemplo, o som grafado em português “ch” nãomorrem mas suas escritas não. existia nem em grego nem em latim, portanto não havia uma letra para ele, o que causou aO Império Romano chegou a um fim por volta necessidade de se usar “dígrafos” -de 340 d.C., e suas línguas oficiais - o grego combinações de duas letras - para esse eclássico e o latim - deixam de ser falados. outros sons específicos de cada língua. Para oSurgem o grego medieval e as línguas neo- nosso som “ch”, em inglês, usa-se o dígrafolatinas (português, castelhano, catalão, francês, “sh”; em alemão, o trígrafo “sch”; em sueco,italiano, provençal, romeno, etc.), marcadas “sj”; em polonês, “sz”, e assim por diante. Nasagora pela dominação da Igreja Católica línguas dos povos ortodoxos, como os russos,Ortodoxa (grega) e Romana. As línguas neo- os búlgaros, os ucranianos, os sérvios e oslatinas ainda demorariam a ser escritas, pois romenos, foi utilizado um alfabeto novo,preferia-se ainda o latim, que não era mais inventado a partir do grego, chamado “cirílico”, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 62que foi incrementado com letras hebraicas para Na China, a escrita, como a língua, sofreuos sons “ch”, “tch”, “ts” e ainda com letras poucas mudanças, pois sua civilização foi ainéditas (mas o romeno, língua neo-latina, única da Antigüidade a sobreviver até hoje. Masadotou o alfabeto latino no século XIX). O seus ideogramas foram adotados pelosalfabeto grego permaneceu em uso apenas coreanos e japoneses, que, contudo,para o próprio grego. Na Geórgia e na Armênia, desenvolveram depois alfabetos silábicos paraos dois primeiros países a se tornarem cristãos designar elementos gramaticais e conjugações,(cerca de 400 d.C.), foram inventados alfabetos para uso complementar aos ideogramas, já quepróprios para cada língua, cujas letras tinham essas línguas têm uma estruturaformas totalmente diferentes da das greco- completamente diferente da chinesa. A escritalatinas mas funcionando no mesmo sistema. silábica coreana (hangul) é de inspiraçãoAssim se criaram os alfabetos da Europa devanágari ou brahmi, enquanto que amoderna: o latino (em suas dezenas de japonesa (hiragana e katakana) consiste devariantes) , o cirílico (com variações regionais sílabas fixas derivadas de ideogramastambém) , o grego moderno, o armênio e o simplificados. O japonês e o coreano são,georgiano. portanto, escritos de maneira logo-silábica.Com o tempo, o alfabeto latino, que era aquele A Etiópia permanece como o único país africanoutilizado por mais línguas, necessitou ser negro a desenvolver uma escrita própria paraacrescido de sinais especiais para melhor sua língua, o amárico, desenvolvida no séculoindicar a pronúncia de cada idioma, como VI e usada até hoje. Tanto a língua amáricaacentos, crase, cedilhas, e vários outros, a como seu alfabeto são originados do Orienteexemplo do que já vinha acontecendo no grego Médio, mais precisamente de uma escrita domedieval e no hebraico litúrgico. Esses sinais Iêmen pré-islamico já extinta, a chamadaadicionais se chamam diacrícticos. escrita sul-arábica, que não marcava as vogais. Mas os etíopes desenvolveram sinais para asMas essa onda de mudanças não varreu vogais, o que os destaca como inventores desomente a Europa: na Ásia, as diversas escritas um alfabeto.clássicas passaram a ser usadas para as novaslínguas emergentes, e para outras línguas que A invenção da imprensa e a expansão colonialjamais haviam sido escritas. européia: universalização do alfabeto latino.Na Índia, o alfabeto devanágari passou por Gutenberg inaugurou a era da imprensa, masmodificações superficiais para se escrever o só o fez porque morava na Europa. Ahindi, o gujarati, o bengalês, o nepalês, o praticidade e simplicidade do alfabeto latinocaxemiro e outras. O Tibete, a Tailândia, a facilitou em muito o conceito de imprensa. NaBirmânia, o Laos e o Camboja, assim como China, séculos antes do Ocidente, já houveracertas línguas do sul da Índia, adotaram tentativas de se usar tipos móveis para aescritas de inspiração brahmi, devido à impressão repetida de livros, mas o caráterinfluência do budismo. complexo dos milhares de ideogramas eram uma barreira intransponível para essa técnicaOs árabes solidificaram sua escrita de origem funcionar. Nem mesmo os silabários dosfenício-aramaica por volta de 650 d.C., com o semitas e hindus eram muito práticos para asurgimento do islamismo. Sua escrita passou imprensa de tipos móveis.para línguas de povos convertidos como opersa - que já estava abandonando a escrita Aliada ao Renascimento, a imprensa contribuiucuneifome mesmo- e o turco, que, contudo, para o expansionismo colonial europeu que iriaveio a adotar a escrita latina em 1923. O levar o alfabeto latino aos confins inexploradosegípcio morreu definitivamente como língua da Terra. Muitos povos que não tinhamfalada com a conquista árabe no século VII, qualquer escrita - como era o caso da maioriamas então já se desenvolvera no Egito uma dos africanos - adotaram o alfabeto ocidental,escrita alfabética de inspiração grega sem contar os que trocaram seus alfabetos dedenominada alfabeto cóptico - preservada até então pelo latino, como muitos povos que jáhoje pela Igreja Cóptica. haviam tomado emprestado um alfabeto Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 63estrangeiro. Foi assim com os malaios e os Os nossos algarismos atuais são, portanto, osindonésios, que escreviam com o alfabeto últimos vestígios de escrita logográfica- naárabe, e os vietnamitas, que usavam verdade, poderiam ser chamados deideogramas chineses. ideogramas, já que representam o conceito de número e não apenas palavras, servindo paraApesar de que, com a revolução russa, o qualquer língua.alfabeto cirílico passasse a ser utilizado pormuitas línguas de regiões sob influência A relação entre línguas e escritas: errossoviética (cazaque, quirguiz, turcomeno, comuns.uzbeco, mongol), foi o alfabeto latino que seestabeleceu como alfabeto universal, sendo Intimamente ligada à língua, a escrita, contudo,ensinado hoje em todas as escolas de todos os em sua evolução, não pode ser tomada comopaíses, ao lado da escrita local. sinônimo do idioma que a utiliza. Se nósExemplos de escritas não européias a usarem o vemos, por exemplo, ‫ى‬ ً‫ى‬ ُ ْ escritoalfabeto latino (na ordem: zulu, suaíli, turco e em algum lugar, dizemos “olha lá aquilo escritomalaio12[12]): em árabe”. Mas na verdade, a menos que conheçamos a língua árabe e saibamos lê-la,Númerais: além da língua. não podemos afirmar ser aquilo árabe. Só temos certeza de que se trata de letras árabes.Não somente de letras, logogramas e silabários O persa, por exemplo, que é uma língua tãose faz a escrita humana. Desde os primórdios, diferente do árabe quanto o português, écentenas de outros símbolos vêm sido usadas escrito com o mesmo alfabeto consonantal.para se registrar o conhecimento humano. As Saiba, portanto, distinguir entre escrita equantidades, por exemplo, desde cedo eram língua. O exemplo arábico acima, por exemplo,representadas não pelas palavras que as não está escrito em nenhuma língua, é apenasdesignavam na língua falada, mas por símbolos um amontoado de letras.especiais. Nada de mais para as escritaslogográficas, em que tudo tinha um símbolo O mesmo vale para a evolução da escrita. Naespecial. Mas nas línguas escritas escola, nada nos é ensinado sobre a evoluçãoalfabeticamente, as quantidades e cálculos das línguas, e pouco se fala sobre a escrita:permaneceram a ser caracterizadas por surgiu no Oriente Médio, passou aos gregos esimbolos especiais, geralmente uma letra do daí aos romanos. Até aí nada de errado, masalfabeto. Os numerais romanos, exemplos essa simplificação acaba por nos levar a crerdesse sistema, com sua notória precariedade - que as línguas seguiram o mesmo curso que asquem diria - são utilizados por nós até hoje. Os escritas. Nada poderia estar mais longe daromanos derivaram seu sistema dos gregos, verdade. Os povos do antigo Oriente Médioque o adaptaram dos fenícios e judeus. Mas se eram todos semitas (na verdade o nomenão era tão difícil expressar quantidades científico é camito-semítico), à exceção dossimples com esse sistema alfabético de persas e sumérios. Os persas, hindus enumeração, calcular somas, divisões e europeus eram (e são) indo-europeus. A escritamultiplicações era uma tortura, um desafio para nasceu, portanto, com um povo que não eraos gênios. Imagine dividir MCCVIII por nem semita nem indo-europeu: os sumérios,MMMCCXVIII... Muito mais fácil dividir 1208 por que, até onde se saiba, não pertencem a3218, não? Pois é, a diferença entre esses dois nenhum grupo maior.sistemas é nada. Isso mesmo, nada. Zero. Ozero, a noção abstrata de vazio, foi um Mas o que significa “povo semita” e “povo indo-desenvolvimento fundamental para o europeu”? Na verdade, essas denominaçõespensamento humano. No ocidente, esse não se aplicam a raças, e sim às línguas quesistema é tradicionalmente denominado cada povo fala. Nós, brasileiros, somos “indo-“arábico”. É verdade que ele foi introduzido na europeus”, pois falamos português. Os judeusEuropa pelos árabes na Idade Média (cerca de são considerados “semitas”, pois originalmente910), mas estes apenas o conheceram dos falavam hebraico. Mas qual a importância?indianos, seus verdadeiros inventores. Bem, para a história da escrita basta saber que a estrutura da língua influencia na maneira com Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 64que elas são escritas, como se pôde ler no logograma sem relação com a pronúncia, poiscapítulo sobre fenícios, gregos e hindus. em chinês “lua” é “yue” e em japonês “tsuki”.Os indo-europeus são, hoje, os europeus Conclusão: razões e conseqüências.(exceções: finlandeses, húngaros, estonianos,lapões e bascos), os persas (ou iranianos), os Depois de se ler tantos fatos sobre essacurdos, os indianos (excetos alguns do sul), invenção fundamental da humanidade, pode-sepaquistaneses, afegãos e bengaleses. perguntar qual a importância de se conhecer aPressupõe-se que as línguas faladas por esses história da escrita. Bem, para começo depovos tenha vindo a partir de uma tribo que há conversa, a invenção da escrita equivale àuns 6.500 anos começou a se espalhar do sul invenção da civilização. É difícil precisar qualda atual Rússia levando consigo sua língua até proporcionou qual. Por onde quer que tenhaa Europa e Ásia, onde começaram a se cindir passado, a escrita mudou para sempre osem diferentes tribos e dialetos à medida em povos e a maneira como levavam sua vida.que se distanciavam uns dos outros eencontravam outros povos no caminho. Há No início, a escrita possuía um aspecto religioso3.800 anos, já haviam se formado os principais e político: era exclusiva das classestroncos lingüísticos derivados do antigo indo- dominantes, para que fossem os detentores doeuropeu: Na Itália, o itálico; Na Grécia, o conhecimento e do poder. Além disso, asgrego; na Europa Oriental, o eslavo; no norte escritas antigas eram complexas pois suada Europa, o germânico; na Pérsia, o irânico; finalidade não era prática, e sim ritualística,na Europa Ocidental, o celta; no norte da Índia, religiosa. Escrevia-se o conhecimento como umo ariano e, no Cáucaso, o armênio. Do itálico, auxílio às práticas orais e aos rituais, e paradepois se desenvolveram o latim e ensinar as tradições às novas gerações. Elesdescendentes; do eslavo, o russo, polonês, deixavam de simplificar a escrita não porservo-croata, tcheco, búlgaro e ucraniano; do incapacidade, mas sim para evitar que ogermânico, o alemão, o holandês, o inglês e as conhecimento se transferisse da memória paralínguas escandinavas (exceto finlandês); do o papel, papiro ou pedra. Como diziam osirânico, o persa antigo e moderno e o curdo; e, antigos hindus, “todo conhecimento em livros édo céltico, o gaulês antigo, e os modernos inútil e perdido como dinheiro emprestado”. Airlandês, escocês e galês. escrita, portanto, nasceu com a finalidade de manter as estruturas sociais e não a de alterá-Portanto é outro erro assumir que todas as las.línguas modernas derivam do latim. O alemão,o russo, o inglês e o polonês na verdade são À medida que o mundo se tornava maissobrinhas do latim, vindas de suas irmãs complexo e surgiam rotas de comércio eantigas. O latim, por sua vez, é irmão do grego, impérios vastos, tornou-se necessáriopois ambos derivam do antigo indo-europeu. desenvolver uma escrita prática. Os fenícios, pioneiros em finanças internacionais, é queOs primeiros indo-europeus a aprenderam a deram o golpe definitivo no elitismo da escrita:escrita o fizeram através dos semitas, como os com apenas vinte e poucas letras, podiam pôrhindus (arianos) e gregos. Mas suas línguas todo o conhecimento humano à disposição denão derivam das línguas semíticas - de fato, quem quisesse e pudesse. Os gregos apenasdiferem tanto delas que tiveram que inventar deram um toque de racionalidade no alfabetoas letras para as vogais. consonantal fenício, adicionando vogais à escrita e dando-lhe um aspecto linear, quaseNo caso do Extremo Oriente, também deve-se como uma linha de montagem, sem o qual aestar avisado que as línguas de lá diferem mais grande filosofia grega talvez não seentre si do que os da Europa e Oriente Médio. desenvolvesse. Escreve Marshall McLuhan, emPara efeito prático, pressuponha apenas que seu “Understanding Media” (“Os meios detodas as línguas do Extremo Oriente são 100% comunicação como extensões do homem”, cap.diferentes umas das outras. Mas então como 9):tanto os japoneses quanto os chinesesescrevem “y”” para “lua”? É que se trata de um “O mito grego sobre o alfabeto era que Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 65Cadmus, o rei mítico que teria introduzido as alfabeto fonético. A eletricidade e a informáticaletras fonéticas na Grécia, semeou os dentes de nos dão novos meios de conhecer a realidade eum dragão, e deles brotaram homens armados. de armazenar nossos pensamentos além daComo qualquer outro mito, este encapsula um escrita. Logotipos, ícones, gráficos, filmes,processo prolongado em um ‘insight’ vídeos, jingles, músicas ameaçam tirar (se éinstantâneo. O alfabeto significava poder, que já não tiraram) o monopólio do alfabetoautoridade e controle de estruturas militares a como meio de registrar a cultura. Na China e nodistância. Quando combinado com papiro, o Japão, que nunca saíram da cultura visual-alfabeto significou o fim das burocracias intuitiva por causa de seus logogramas, a novaparalíticas dos templos e do monopólio religioso cultura visual-eletrônica é absorvida com maisdo conhecimento e do poder. Diferentemente naturalidade do que na Europa alfabética, eda escrita pré-alfabética, que com seus não é à toa que esses povos e outros doinúmeros signos era difícil de dominar, o Oriente são vistos como os que dominarão oalfabeto podia ser aprendido em algumas futuro.horas. A aquisição do conhecimento tãoextenso e da habilidade tão complexa que a Mas, no planeta Terra, o alfabeto vocálico-escrita pré-alfabética representava, quando consonantal ainda parece dominar, pois é comaplicada a materiais tão pouco práticos como ele que se escreve a língua internacional: otijolos e pedra, assegurava à casta dos escribas inglês. Contudo, uma análise um pouco maiso monopólio do poder religioso. O alfabeto mais profunda mostra que o inglês concilia o visualsimples e o papiro barato, leve e transportável, com o fonético, o linear com o caótico, e opostos juntos, efetivaram a transferência do lógico com o ilógico. Por exemplo, o grupo depoder dos religiosos aos militares. Tudo isso letras “ough” é pronunciado de maneiraimplicava no mito de Cadmus, incluindo a diferente nas palavras tough /tãf/, thoughtqueda das cidades-estado, o surgimento de /thót/, though /dhôu/ e through /thru/. Não háimpérios e de burocracias militares.” consistência na relação letra-fonema na ortografia inglesa. Você simplesmente, emO alfabeto vocálico-consonantal é uma muitos casos, tem que olhar para a palavra e sedevastadora arma cultural, sacrificando mundos lembrar de sua pronúncia. O inglês é quasede significado logográficos em nome da uma língua de escrita logo-silábica, poispraticidade. A China, mantendo a escrita algumas palavras têm pronúncia arbitrária elogográfica através dos séculos, preservou sua outras, lógica. Algumas palavras têm a mesmaestrutura social até o século XIX, quando pronúncia, mas significando coisas diferentes eclasses cultas conheceram a escrita alfabética portanto tendo escritas diferentes (cf. chinês,estudando no ocidente e causando ultimamente sumeriano): “write” (escrever), “right” (direito)a queda do império chinês e depois a revolução e “rite” (rito), todos pronunciados /ráit/.comunista de 1949. Na Índia, que, com suasescritas silábicas, era mais dinâmica que a É claro que a comparação da escrita inglesaChina, o alfabeto vocálico-consonantal que com as logo-silábicas ou silábicas é exagerada,chegara com os europeus causou menos mas serve para mostrar que a nova culturamudanças, mas alterou a cultura daquele país visual do mundo de hoje aceita o sucesso domilenar para sempre - hoje a Índia é a maior inglês, em parte, por causa da visualidade edemocracia do mundo. arbitrariedade de sua ortografia, ativando, como logotipos e logogramas, nossos sensosIndividualidade, continuidade linear e visuais mais do que qualquer outra língua deuniformidade de códigos são a marca do escrita vocálico-consonantal. Alia, pois, ahomem civilizado, e sua origem está aqui, bem linearidade industrial do alfabeto à intuitividadenestas letras que você está lendo agora. da cultura visual - que língua mais perfeita para o mundo de hoje!Mas agora o mundo é outro. No século vinte, acultura visual está ameaçando a cultura do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 66 Vieira Paulo Vieira Pinheiro (Poesias) (Poesias) JÁ XADREZ No futuro bem próximo me vejo leve, Minha alegria não se dá por solucionar assim como quem passou, problemas. assim como quem se foi. Hoje estou de malas prontas. Livre de laços. Vou para o paraíso dos sonhos. Dentro em breve estarei encontrando o ar que TANTO TEMPO QUE NEM SEI quero. Daqui há pouquinho pisarei miudinho em alvas Parei pela dor. sombras. Constato que poderia, sim, mas não deu. Reverei minhas matas e sentirei o seu cheiro. Juntando tudo que lembro fui, mas não fiz. Odor tão intenso que me vem à boca. Voltando tudo sei que poderia ter sido mais, Um amor que na serra me espera abraçarei. mas não fui. Contaremos inúmeras estrelas, sem medos. Nesse rascunho escrevo o que quero Curiangos valentes se lançarão em vôos e em pouca vez isto fiz. abruptos. Um sucesso é tudo. Cintilantes estrelas por testemunhas. Que horas são? Para quê mais? Os nossos exageros que brotaram e o peso do MOMENTOS DE INSENSATEZ sei não nos abateu. O som do coração, em êxtase sóbrio, nos Bom dia minha querida! convida a aquietar. Como você dormiu? bem? O dia se faz largo. UNIVERSO DAS PALAVRAS O sol se enfeitou e todos os pássaros que Exercício 21042008-1 cantam cantam para você.Antes que o café esfrie venha ver uma coisa. Para ir aprendi a falar, Sim... deixa pra depois. para ficar aprendi a escrever. Dormes como um bichinho. Bem idas e benvindas, estadas imperfeitas. VENETA Degraus de palavras ascendem em mim. Quando te comecei pensava no que darias. O primeiro me diz quem sou. Não sabia ao certo qual rumo tomarias. O segundo me diz onde estou. Rubra tinta multicores sentidos desfia e O terceiro me diz com quem,assim sendo das veias minhas tinto destino és. certamente com alguém ou ninguém. Do novelo arranco um fio que cria Outros, porem, há. Aponto ao longo do vão contido da página Aquele de raro barro. Digo a que vim e a que viria Uns de pedra firme. Se não me barro a passagem de meu dia Aqueloutro etéreo tropeço. Pensei em cantar uns versos antigos Em pouca página, Daqueles que a memória se esforça em vão muitas palavras. Dizer alegres cantares que contam Uma poesia que corrói, Histórias e glórias da alma em canção uma construção de idéias.Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 67 Construir degraus, CINTILAR por mais caros que sejam, Estudo 080608-1 encerra penares benfazejos. Traços de alegrias que chegam. Noite sem lua clara de estrelas Faz viajar em mil pensamentos. Fazer em um segundo Calo agora a te contemplar um pensar tão fecundo... Esperança de alma noturna momento que não voltará... instante único em vida tanta. A beleza certa e tamanha Cresce a cada vislumbre ao céu Um brusco mudar. Sou eu quem a admiro silente O intenso me ensinou a calar e Ou ela quem se expõe a meu olhar calando tive tempo de aprender. Sofro essa sede tanta. Cintilam olhos feito estrelas Minha boca seca seca imagens tantas. As olho com elas a me fitar Calar se tornou o normal. Visões de um espaço imenso Escrever se tornou letal. Sentenças de vida e de morte em grupos de Contido num instante tão breve letras Que encanta em nosso descobrir fazem de mim o deus que sou. Nos procuramos e nos achamos Tontas vidas, vidas... vidas? Embrulho de gentes. O preço de minha Liberdade. Rejeitos nascentes. (um tipo de oração - lamentação) Fluxos escorrem nos meio-fios de aço. Pai, Deus meu, te suplico a tua Proteção A chuva corre e o lixo escorre... Prometo agir em harmonia com Teus Todos os meus sentidos fendidos, torcidos, Ensinamentos meio vivos, meio mortos. Portanto ensinai-meOnde estou agora? Onde estarei nessa hora? Se tenho de vender a minha liberdade que sejaDe certo não nasci para só vir ver, tenho ânsia para Ti de ser. Tentei vender aos homens as minhas virtudes Preso neste mundo de quatro paredes, com (o que sabia) céus sem sóis, Sobrou-me as maldades e é o preço que posso aspiro mais escrever do que ser lido. pagar Sei que não é muito, mas é o que tenho ESPERANÇAS Sacrifiquei minhas virtudes aos homens Exercício 21042008-3 Hoje, para o Teu altar, sobraram meus vícios Sacrifico-os a Ti, minhas últimas moedas Há braços Tomaram minha casa e me deram sua posse Há maços Invadiram minha mente com idéias Há traços Que não são minhas e que não são Tuas De amor Pagam salários para difamar Teu Nome De mora Tenho que mentir, sonegar, diminuir De hora Dizem que isso é negociar com a vida Corola de honor. Acho que é negociar com o Inimigo Faz-se passar por normal tudo que não é Que trazes Aqui, a Tua Virtude não pode caber Mais ases Chamam de humanidade algo que não parece Mais ares ser De cor Um humano aqui vive da mentira e da ilusão De fora Paguei para ser feliz e Agora Quem não pode pagar teve de se sentir mal Seja o que for Então, Consola-me com Tua Luz Olhai para toda criaçãoRevista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 68Esmaga a humanidade a Tua Casa, a Tua Terra Os arrepios do frio se cura com o calor Choram as águas, árvores e Teus filhos O ardor intenso do fogo no luar se esfria Parece ser isso normal quando distante Assim os humanos e suas naturezas vaziasAcho que incomoda um pouco em nosso quintal Reagindo à falta de inteligência natural Crucificamos Teu Filho em cada árvore que Se aquece e se esfria fugindo de si sempre matamos Assim são as naturezas de humanos vazios Corrompemos as águas de Teu Batismo No viver perdemos os amigos aos pedaços Apodrecemos o Fogo de Teu Santo Espírito Aparamos tanto até nos ver solitários Quem sou? Então quem sou? Dificilmente entendemos nossas vidas Te compro a Proteção com meus vícios Porque com a dos outros assim se faria Para reconquistar Tua Liberdade em mim Assim na convivência reaprendemos a vida Nos desenganos melhor apuramos o rumo AMORES À LETRA D’ALMA Assim uns crescem buscando o progresso Enquanto outros não, assumem quem são Um só minuto em compasso Amar ainda é o melhor remédio a terra viva move a terra; Só isso faz mover o inemovível ela respira um ar de amor, A expressão no poema, poesia, cria e recria folha, fruto e flor. Trova, conto, novela e suas letras A luz guarida dos fortes Creio respiro e me movo O vício covil dos fracos num compasso de abraço O amor como expressão e assim amo a flora-cor... Vem aprender falar a quem minha terra viva em flor. O poeta que escreve para si Nada escreve para os outros Num papel fino e ferino, letra levou mensagem, A RÉGUA QUE MEDE contou a outros meninos meu canto de luz selvagem: A régua que uso para medir minha liberdade é o que expresso - “Inda n’era o sol quando te vi Se não me prendes, se não me prendem, sou prostrada a venerar a lua, eu quem o faço mensageira de quem ama, De todas as torturas a maior é o silêncio passageira luz que inflama. forçado Por quem? Não importa, não. C’oa liberdade de quem vai, Medos de que não me entendam? vem e se aninha no coração, Talvez sejam medos que não me deixam dizer ama até ser incompreendida, Ouço diversas vozes que me dizem que cale ou ser amada ou esquecida”. Não te exponhas, não me envergonhes Dizer tudo que vem a cabeça, nem sempre Língua que te quero amante... Acho que não é assim que se diz expresso tua língua doravante. Porém calar e não dizer é pior Cantar a velha canção ADVERSO Repetir os velhos refrões É velar a criação em leito de morte Nas noites escuras, sem estrelas ou lua O novo, queremos o novo, aquilo que ainda não Uso meu entendimento para me orientar veio Nas horas meiodiais onde o sol esfola Não importa a tua idade, diga Uso o meu entendimento prá me orientar Diga o mais torto, mas diga Olho os homens e suas vidas em saltos Conte tuas histórias, as nossas histórias Fogem da vida, de nada, de tudo e de si ... mas conte! Acorrem às gotas de lírios, engargalam Se queremos a nossa liberdade devemos usá-la Fogem pra dentro das garrafas vazias Seu uso a faz caber por fora A vida não é um jogo a jogar pros sábios Seu uso a faz caber por dentro Fugir da sombra ao sol e do sol à sombra Expresse e aperfeiçoe isso Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 69 CHUVISCO Não que procure isto, mas acontece... O feio não gosto, o grosseiro é pior. Chuva miúda Falo sim das flores, mas olho atrás das cores. Enxada corta o mato Me encantam as águas, dos risos às máguas, E passo a passo vira raízes Suas chuvas nestas terras que rasga coração, Trabalho feliz de pronto visível E cabem assim os meus olhos em tuas mãos. Pequenos alados saltam ao meu lado Traço dos altos morros vidas, sopros, anjos. Ansiosos do alimento que brota dos torrões Traço nas alvuras da tela de papel figuras do Passo a passo chão, Corto o terreno Figuras do céu e cavalgo Ventania Calma enxada corta Corcel do dia-a-dia que lambe as estrelas. Cai contínuo o sereno Na noite que viajo buscando a quadra, Delicioso verme no bico Quadra perfeita que não vejo, estende o verso Leva pardoca para o ninho Cada tom que de matiz surpreende vero anis. Milho virá Cada pluma que me deste me fez aprendiz. Tulha encherei E da pena, que pena, todo me emplumo Ano passará ligeiro Das dores de amores e me faço cantor. Guardarei dos companheiros Exclamo ao azul os dias felizes, De lida da terra o colher antes As noites de prosa, do verso e da dor! Do trabalho deste seu companheiro E provoco, e me rio, e te conto Segredo feliz que resposta: Bem se vê Nada que faz pensar é bonito, Nos olhos a ânsia Nada que faz pensar é bonito. Nossos pequeninos Aguardando seu prato TEMPOS DE INOCÊNCIA Distante e sisudo se espanta (um canto de esperança de quem espera Aquel’outro que canta: bem-te-vi (por procurador da juventude silente, ainda) DE PÉ ME DEITO. Amanhã é o dia que não veio Crescemos juntos e separados Eu te digo quem sou e o que fazes de mim? Vimos as mesmas coisas diferentes Cantas tuas rimas, ou te afastas ou te Amamos as mesmas coisas e não aproximas. Criamos amizades nem sempre Fales sobre mim. Ouvimos as mesmas canções Eu te digo quem sou e o que fazes de mim? Minha amiga morreu Me cantas a metade, me encantas a metade Será quem a matou? Sou eu quem não fui ou você quem não viu? Ou foi alguém quem não sei Eu te mostro quem sou e o que fazes de mim? Ou fui eu quem não fui Me cortas, me deitas, me usas, me incendeias Que será de mim? Me queimas, me queimas, me queimas. Minha inocência? Me impactas solenemente com teus bois. Minha liberdade? Me plantas com tuas estacas, teus tratores. Quem cuidará de mim? Me dizes que sou... terra, enfim. De minha juventude perdida?E nem mais reconheço em mim a minha própria Aquela que me arde o peito? natureza! Os grandes homens se esqueceram de nós Me dizes quem sou? Perdem os nossos tempos em conversas Pois não sei mais de mim. Tão longas como suas velhices Mais digo que de ti sei mais que queria... Tão curtas quanto suas esperanças De ti sei mais que queria. Enquanto eles governam para os números Quem respira somos nós DESABAFO Quem vota somos nós E isso podemos demonstrar. Nada que escrevo pode ser bonito. Talvez diferente, reverso, contrário. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 70 Clarice Lispector (Ruído de Passos) Passos) Do Livro: A VIA CRUCIS DO CORPO Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo. Essa senhora tinha aApresentação: Adriana Falcão vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude,"Sabia, gosto de você chegar assim, arrancando o verde das árvores, a chuva, tudo isso apáginas dentro de mim desde o primeiro dia." piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda.Chico Buarque Fora linda na juventude. E tinha vertigem GOSTO QUANDO CLARICE chega assim quando cheirava profundamente uma rosa.e me dá uma rasteira. Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo Aconteceu com "Ruído de passos". de prazer não passava. Comecei a me apaixonar por donaCândida Raposo nas primeiras linhas do conto. Teve enfim a grande coragem de ir a um Quem não se apaixonaria por uma ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada,velhinha de 8l anos que tem vertigem de viver? de cabeça baixa: "A altitude", "o verde das árvores", "achuva", "arrepios com Liszt", "perfume de - Quando é que passa?rosa", e vamos compreendendo a vertigem de - Passa o quê, minha senhora?dona Cândida. Até que ela nos surpreende, - A coisa.quando vai ao consultório médico se queixar - Que coisa?que "ainda tem a coisa". Além de "a coisa", - A coisa, repetiu. O desejo de prazer, dissedona Cândida também se refere ao seu desejo enfim.de prazer como "o inferno". O diagnóstico do - Minha senhora, lamento lhe dizer que nãomédico é preciso: "é a vida." passa nunca. Quando achamos que era isso, que idéiacorajosa, um conto sobre uma velhinha Olhou-o espantada.aristocrática que ainda sente volúpia sexual, edecide, sem mais alternativas, resolver seu — Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!problema, sozinha, claro que Clarice vai além. - Não importa, minha senhora. É até morrer. A filha que espera no carro, lá fora, o - Mas isso é o inferno!filho morto na guerra e "a intolerável dor no - É a vida, senhora Raposo.coração de sobreviver a um ser adorado", e lávou eu me apaixonando cada vez mais por essa A vida era isso, então? Essa falta de vergonha?dona Cândida, gente, bicho, ser vivo. E não éque ela resolve se satisfazer sozinha, todas as - E o que é que eu faço? Ninguém me quernoites, "sempre triste", "esperando a benção da mais...morte"? O ruído de passos de seu marido, O médico olhou-a com piedade.Antenor Raposo, me assusta como um filme desuspense. - Não há remédio, minha senhora. E eu sinto a vida como um filme de - E se eu pagasse?suspense, e adoro e odeio minhas vertigens. - Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de RUÍDO DE PASSOS idade. - E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer? Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 71— É, disse o médico. Pode ser um remédio. rica", peça em três atos, cujos originais foram perdidos. Seu pai resolve adotar aEntão saiu do consultório. A filha esperava-a nacionalidade brasileira.embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo 1931 - Inscreve-se para o exame de admissãoperdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa no Ginásio Pernambucano. Já escrevia suasintolerável dor no coração: a de sobreviver a historinhas, todas recusadas pelo Diário deum ser adorado. Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. Isso se deviaNessa mesma noite deu um jeito e solitária ao fato de que, ao contrário das outrassatisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois crianças, as histórias de Clarice não tinhamchorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o enredo e fatos — apenas sensações. Convivemesmo processo. Sempre triste. É a vida, com inúmeros primos e primas.senhora Raposo, é a vida. Até a bênção damorte. 1932 - É aprovada no exame de admissão e, junto com sua irmã Tania e sua prima Bertha,A morte. ingressa no tradicional Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. Passa a visitar a livraria doPareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos pai de uma amiga. Lê "Reinações de Narizinho",de seu marido Antenor Raposo. de Monteiro Lobato, que pegou emprestado, já que não podia comprá-lo. 1935 - Viaja para o Rio, em companhia de sua irmã Tania e de seu pai. No colégio Sílvio Leite, cursa a quarta série ginasial. Lê romances adocicados, próprios para sua idade. Clarice Lispector 1936 - Termina o curso ginasial. Inicia-se na leitura de livros de autores nacionais e1920 - Clarice Lispector nasce em estrangeiros mais conhecidos, alugados emTchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de uma biblioteca de seu bairro. Conhece osdezembro, tendo recebido o nome de Haia trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado deLispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, JorgeLispector. Seu nascimento ocorre durante a Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz.viagem de emigração da família em direção àAmérica. 1937 - Matricula-se no curso complementar (dois últimos anos do curso secundário) visando1922 - Chegam a Maceió em março desse ano. o ingresso na Faculdade Nacional de Direito daPor iniciativa de seu pai, à exceção de Tania — Universidade do Brasil, hoje Universidadeirmã, todos mudam de nome: o pai passa a se Federal do Rio de Janeiro.chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia — irmã,Elisa; e Haia, em Clarice. 1938 - Transfere-se para o curso complementar do colégio Andrews, na praia de1925 - A família muda-se para Recife, Botafogo. Às voltas com dificuldadesPernambuco, onde Pedro pretende construir financeiras, dá aulas particulares de portuguêsuma nova vida. A doença de sua mãe, Marieta, e matemática. A relação professor/aluno seriaque ficou paralítica, faz com que sua irmã Elisa um dos temas preferidos e recorrentes em todase dedique a cuidar de todos e da casa. a sua obra — desde o primeiro romance: Perto1928 - Passa a freqüentar o Grupo Escolar do Coração Selvagem. Ao mesmo tempo,João Barbalho, naquela cidade, onde aprende a aprende datilografia e faz inglês na Culturaler. Inglesa.1930 - Morre a mãe de Clarice no dia 21 de 1939 - Inicia seus estudos na Faculdadesetembro. Nessa época, com nove anos, Nacional de Direito. Faz traduções de textosmatricula-se no Collegio Hebreo-Idisch- científicos para revistas em um laboratório ondeBrasileiro, onde termina o terceiro ano primário. trabalha como secretária. Trabalha, tambémEstuda piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao como secretária, em um escritório deteatro a inspira e ela escreve "Pobre menina advocacia. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 721940 - Seu conto, Triunfo, é publicado em 25 1943 - Casa-se com o colega de faculdadede maio no semanário "Pan", de Tasso da Maury Gurgel Valente e termina o curso deSilveira. Em outubro desse ano, é publicado na Direito. Seu marido, por concurso, ingressa narevista "Vamos Ler!", editada por Raymundo carreira diplomática.Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses 1944 - Muda-se para Belém do Pará (PA),trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas acompanhando seu marido. Fica por lá apenascoletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26 seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveisde agosto, a escritora — talvez motivada por de Guilherme Figueiredo, Breno Accioly, Dinahesse acontecimento — escreve diversos contos: Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, LúcioA fuga, História interrompida e O delírio. Esses Cardoso, Antonio Cândido e Ledo Ivo, entrecontos serão publicados postumamente em A outros. Álvaro Lins publica resenha com reparosbela e a fera, de 1979. Passa a morar com a ao livro mesmo antes de sua publicação,irmã Tania, já casada, no bairro do Catete. baseado na leitura dos originais. Qualifica oConsegue um emprego de tradutora no temido livro de "experiência incompleta". Há os queDepartamento de Imprensa e Propaganda - pretendem não compreender o romance, osDIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não que procuram influências — de Virgínia Wolf ehavia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o James Joyce, quando ela nem os tinha lido — elugar de redatora e repórter da Agência ainda os que invocam o temperamentoNacional. Inicia-se, ai, sua carreira de feminino. Nas palavras de Lauro Escorel, asjornalista. No novo emprego, convive com características do romance revelam umaAntonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, "personalidade de romancista verdadeiramenteJosé Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por excepcional, pelos seus recursos técnicos e pelaquem nutre durante tempos uma paixão não força da sua natureza inteligente e sensível." Ocorrespondida: o escritor era homossexual. casal volta ao Rio e, em 13/07/44, muda-seCom seu primeiro salário, entra numa livraria e para Nápoles, em plena Segunda Guerracompra "Bliss - Felicidade", de Katherine Mundial, onde o marido da escritora vaiMansfield, com tradução de Erico Verissimo, trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-pois sentiu afinidade com a escritora se dividida entre a obrigação de acompanhar oneozelandesa. marido e ter de deixar a família e os amigos.1941 - Em 19 de janeiro, publica a reportagem Quando chega à Itália, depois de um mês de"Onde se ensinará a ser feliz", no jornal "Diário viagem, escreve: "Na verdade não sei escreverdo Povo", de Campinas (SP), sobra a cartas sobre viagens, na verdade nem mesmoinauguração de um lar para meninas carentes sei viajar." Termina seu segundo romance, Orealizada pela primeira-dama Darcy Vargas. lustre. Recebe o prêmio Graça Aranha comAlém de textos jornalísticos, continua a publicar Perto do coração selvagem, considerado otextos literários. Cursando o terceiro ano de melhor romance de 1943. Conhece Rubemdireito, colabora com a revista dos estudantes Braga, então correspondente de guerra dode sua faculdade, "A Época", com os artigos jornal "Diário Carioca".Observações sobre o fundamento do direito depunir e Deve a mulher trabalhar? Passa a 1945 - Dá assistência a brasileiros feridos nafreqüentar o bar "Recreio", na Cinelândia, guerra, trabalhando em hospital americano. Ocentro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe umautores como Lúcio Cardoso, Vinicius de retrato. Viaja pela Europa e conhece o poetaMoraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado nomuitos mais. Brasil pela Livraria Agir Editora.1942 - Começa a namorar com Maury Gurgel 1946 - Após o lançamento do livro, Clarice vemValente, seu colega de faculdade. Com 22 anos ao Brasil como correio diplomático do Ministériode idade, recebe seu primeiro registro das Relações Exteriores, aqui ficando por quaseprofissional, como redatora do jornal "A Noite". três meses. Nessa época, apresentado porLê Drummond, Cecília Meireles, Fernando Rubem Braga, conhece Fernando Sabino que aPessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de introduz a Otto Lara Resende, Paulo Mendesantropologia brasileira e psicologia, na Casa do Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino.Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu De volta à Europa, vai morar com a família emprimeiro romance, Perto do coração selvagem. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 73Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido 1952 - Cola grau na faculdade de direito,designado como segundo-secretário. Sua depois de muitos adiamentos. Volta a trabalharcorrespondência com amigos brasileiros a em jornais, no período de maio a outubro,mantinha a par das novidades, em especial as assinando a página "Entre Mulheres", no jornaltrocadas com Fernando Sabino. A troca de "Comício", sob o pseudônimo de "Terezacartas com o escritor, quase que diariamente, Quadros". Atendeu a um pedido do amigoduraria até janeiro de 1969. A convite, passam Rubem Braga, um dos fundadores do jornal.as festas de fim de ano com Bluma e Samuel Nesse setembro, já grávida, embarca para aWainer, em Paris. capital americana onde permanecerá por oito1947 - Em carta às irmãs, em janeiro de 47, anos. Clarice inicia o esboço do romance A veiade Paris, Clarice expõe seu estado de no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro,inadaptação:"Tenho visto pessoas demais, livro publicado em 1961.falado demais, dito mentiras, tenho sido muito 1953 - Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seugentil. Quem está se divertindo é uma mulher segundo filho. Ela continua a escrever A Maçãque eu detesto, uma mulher que não é a irmã no Escuro, em meio a conflitos domésticos ede vocês. É qualquer uma." Em carta a Lúcio interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seuCardoso, que havia lhe enviado seu livro tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os"Anfiteatro", demonstra sua admiração pelas contos de Laços de Família e a literaturapersonagens femininas da obra. infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conhece o1948 - Clarice fica grávida de seu primeiro renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposafilho. Para ela, a vida em Berna é de miséria Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. Oexistencial. A Cidade Sitiada, após três anos de escritor gaúcho e sua esposa são escolhidostrabalho, fica pronto. Terminado o último para padrinhos de Paulo. Não tem sucesso seucapítulo, dá à luz. Nasce então um projeto de escrever uma crônica semanal paracomplemento ao método de trabalho. Ela a revista "Manchete". Tem a agradável notíciaescreve com a máquina no colo, para cuidar do de que seu romance Perto do coração selvagemfilho. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de seria traduzido para o francês.uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua 1954 - É lançada a primeira edição francesa devida foi salva por causa do nascimento do filho Perto do coração selvagem, pela Editora Plon,Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter com capa de Henri Matisse, após inúmerasescrito um dos livros "menos gostados" (a reclamações da escritora sobre erros naeditora Agir recusara a publicação). tradução. Em julho, com os filhos, viaja para o1949 - Clarice volta ao Rio. Seu marido é Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aosremovido para a Secretaria de Estado, no Rio Estados Unidos, interrompe a elaboração de Ade Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela maçã no escuro e se dedica, por cinco meses, aeditora "A Noite". O livro não obtém grande escrever seis contos encomendados por Simeãorepercussão entre o público e a crítica. Leal.1950 - Escrevendo contos e convivendo com 1955 - Retorna a escrever o novo romance eos amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M. contos. Sabino, que leu os seis contos feitosCampos), vê chegar a hora de partir: seguindo sob encomenda, os acho "obras de arte".os passos de seu marido, retorna à Europa, 1956 - Termina de escrever A Maçã no Escuroonde mora por seis meses na cidade de (até então com o titulo de A veia no pulso).Torquay, Inglaterra. Sofre um aborto Érico Veríssimo e família retornam ao Brasil,espontâneo em Londres. É atendida pelo vice- não sem antes aceitarem serem os padrinhoscônsul na capital inglesa, João Cabral de Melo de Pedro e Paulo. Entre os escritores, inicia-seNeto. uma vasta correspondência. A escritora e filhos1951 - A escritora retorna ao Rio de Janeiro, vêm passar as férias no Brasil e Clariceem março. Publica uma seleta com seis contos aproveita para tentar a publicação de seu novona coleção "Cadernos de cultura", editada pelo romance e os novos contos. Apesar de todo oMinistério da Educação e Saúde. Falece sua empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga,grande amiga Bluma, ex-esposa de Samuel os livros não são editados. A escritora dá sinaisWainer. de sua indisposição para com o tipo de vida que leva. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 741957 - Rompe unilateralmente o contrato com mais tarde tradutor para o inglês de A maçã noSimeão Leal e autoriza Sabino e Braga a escuro. A paixão segundo G. H. é escrito emencaminharem seus contos — nessa altura em poucos meses, sendo entregue à Editora donúmero de quinze — para serem publicados no Autor, de Sabino e Braga, para publicação."Suplemento Cultural" do jornal "O Estado de Compra um apartamento em construção noSão Paulo". Seu casamento vive momentos de bairro do Leme.tensão. 1964 - Publica o livro de contos A legião1958 - Conhece e se torna amiga da pintora estrangeira e o romance A Paixão Segundo G.Maria Bonomi. É convidada a colaborar com a H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro,revista "Senhor", prevista para ser lançada no o juiz profere a sentença que poria fim aoinício do ano seguinte. Erico Verissimo escreve processo de separação de Clarice e Maury.informando estar autorizado a editar seu 1965 - Em maio, muda-se para o apartamentoromance e, também, seus contos pela Editora comprados em 1963. Sua obra passa a ser vistaGlobo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares — com outros olhos — pela crítica e pelo públicodos mais de 1.700 remanescentes — de "Près leitor — após A paixão segundo G. H. Resultadodu coeur sauvage" são incinerados, por falta de de uma seleta de trechos de seus livros,espaço de armazenamento. O casamento de adaptados por Fauzi Arap, é encenada noClarice dá sinais de seu final. Teatro Maison de France o espetáculo Perto do1959 - Separa-se do marido e, em julho, coração selvagem, com José Wilker, Glauceregressa ao Brasil com seus filhos. Seu livro Rocha e outros. Dedica-se à educação doscontinua inédito. A escritora resolve comprar o filhos e com a saúde de Pedro, que apresentaapartamento onde está residindo, no bairro do um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidadosLeme, e, para isso, busca aumentar seus especiais. Apesar de traduzida para diversosganhos. Sob o pseudônimo de "Helen Palmer", idiomas e da republicação de diversos livros, ainicia, em agosto, uma coluna no jornal situação financeira de Clarice é muito difícil."Correio da Manhã", intitulada "Correio 1966 - Na madrugada de 14 de setembro afeminino — Feira de utilidades". escritora dorme com um cigarro aceso ,1960 - Publica, finalmente, Laços de Família, provocando um incêndio. Seu quarto ficouseu primeiro livro de contos, pela editora totalmente destruído. Com inúmerasFrancisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só queimaduras pelo corpo, passou três dias sob opara Mulheres", como "ghost-writer" da atriz risco de morte — e dois meses hospitalizada.Ilka Soares, no "Diário da Noite", a convite do Quase tem sua mão direita — a mais afetada —jornalista Alberto Dines. Assina, com a amputada pelos médicos. O acidente mudariaFrancisco Alves, novo contrato para a em definitivo a vida de Clarice.publicação de A maçã no escuro. Torna-se 1967 - As inúmeras e profundas cicatrizesamiga da escritora Nélida Piñon. fazem com que a escritora caia em depressão,1961 - Publica o romance A maçã no escuro. apesar de todo o apoio recebido de seusRecebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira amigos. Não foi só um ano de acontecimentosdo Livro, por Laços de família ruins. Começa a publicar em agosto — a1962 - Passa a assinar a coluna "Childrens convite de Dines — crônicas no "Jornal doCorner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica Brasil", trabalho que mantém por seis anos.contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex- Lança o livro infantil O mistério do coelhomarido que se encontra na Polônia. Recebe o pensante, pela José Álvaro Editor. Emprêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela dezembro, passa a integrar o Conselhosenhora paulistana de mesmo nome), por A Consultivo do Instituto Nacional do Livro.maçã no escuro, considerado o melhor livro do 1968 - Em maio, o livro O mistério do coelhoano. pensante é agraciado com a "Ordem do1963 - A convite, profere no XI Congresso Calunga", concedido pela Campanha NacionalBienal do Instituto Internacional de Literatura da Criança. Entrevista personalidades para aIbero-Americana, realizado em Austin - Texas, revista "Manchete" na seção "Diálogos possíveisconferência sobre o tema "Literatura de com Clarice Lispector". Participa davanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa, manifestação contra a ditadura militar, em Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 75junho, chamada "Passeata dos 100 mil". em outras coletâneas. Alberto Dines, em cartaMorrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso à escritora, diz sobre Água viva: "[...] É menose Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É um livro-carta e, muito mais, um livro música.nomeada assistente de administração do Acho que você escreveu uma sinfonia". Viaja àEstado. Profere palestras na Universidade Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixaFederal de Minas Gerais e na Livraria do de colaborar com o "Jornal do Brasil", face àEstudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher demissão de Alberto Dines, no mês deque matou os peixes, outro livro infantil, dezembro.ilustrado por Carlos Scliar. 1974 - Para manter seu nível de renda,1969 - Publica seu "hino ao amor": Uma aumenta sua atividade como tradutora. Verte,aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela entre outros, "O retrato de Dorian Gray", deEditora Sabiá. O romance ganha o prêmio Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil,"Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do pela Ediouro. Publica, pela José OlympioSom. Viaja à Bahia onde entrevista para a Editora, outro livro infantil, A vida íntima de"Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Laura e dois livros de contos, pela Artenova: AMário Cravo e Genaro. Em 14/08 é aposentada via crucis do corpo e Onde estivestes de noite.pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Uma curiosidade: a primeira edição de OndeSocial. Seu filho Paulo, mora nos Estados estivestes de noite foi recolhida porque foiUnidos desde janeiro, num programa de colocado, erroneamente, um ponto deintercâmbio cultural. Seu irmão Pedro, em interrogação no título. Seu cão, Ulisses, lhetratamento psiquiátrico, esteve internado por morde o rosto, fazendo com que se submeta aum mês, em junho. cirurgia plástica reparadora. Lê, em Brasília1970 - Começa a escrever um novo romance, (DF), a convite da Fundação Cultural do Distritocom o título provisório de Atrás do Federal, a conferência "Literatura de vanguardapensamento: monólogo com a vida. Mais no Brasil", que já apresentara no Texas.adiante, é chamado Objeto gritante. Foi Participa, em Cali — Colômbia, do IV Congressolançado com o título definitivo de Água viva. da Nova Narrativa Hispano-americana. SeuConhece Olga Borelli, de que se tornaria grande filho, Paulo, vai morar sozinho, em umamiga. apartamento próximo ao da escritora. Pedro vai morar com o pai, em Montevidéu — Uruguai.1971 - Publica a coletânea de contos Felicidadeclandestina, volume que inclui O ovo e a 1975 - Tendo como companheira de viagem agalinha, escrito sob o impacto da morte do amiga Olga Borelli, participa do I Congressobandido Mineirinho, assassinado pela polícia Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. Nocom treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também, dia de sua apresentação sente-se indisposta eum conjunto de escritos em que rememora a pede a alguém que leia o conto O ovo e ainfância em Recife. Encarrega o professor galinha, não apresentando a fala sobre a magiaAlexandre Severino da tradução, para o inglês, que havia preparado para a introdução dade Atrás do pensamento: monólogo com a vida. leitura. Muito embora minimizada, essaDez de seus contos já publicados constam de participação tem muito a ver com as palavras"Elenco de cronistas modernos", lançado pela ditas por Otto Lara Resende, conhecidoEditora Sabiá. escritor, em um bate-papo com José Castello: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se1972 - Retoma a revisão de Atrás do trata de literatura, mas de bruxaria." Otto sepensamento, com o qual não estava satisfeita. baseava em estudos feitos por Claire Varin,Faz inúmeras alterações no texto e passa a professora de literatura canadense quechamá-lo Objeto gritante. Repensando o escreveu dois livros sobre a biografada.romance, procura distrair-se. Durante um mês Segundo ela, só é possível ler Clarice tomandoposa para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio seu lugar — sendo Clarice. "Não há outro(RJ). caminho", ela garante. Para corroborar sua1973 - Publica o romance Água viva, após três tese, Claire cita um trecho da crônica Aanos de elaboração, pela Editora Artenova, que descoberta do mundo, onde a escritora diz: "Olançaria também, nesse ano, A imitação da personagem leitor é um personagem curioso,rosa, quinze contos já publicados anteriormente estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 76terrivelmente ligado ao escritor que na verdade entrevista feita com a artista Elke Maravilha, aele, o leitor, é o escritor." Traduz romances, primeira de uma série que se estenderia atécomo "Luzes acesas", de Bella Chagall, "A outubro de 1977.rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais de 1977 - A revista "Fatos e Fotos Gente" publica,Agatha Christie. Ao longo da década, faz em janeiro, entrevista feita pela escritora comadaptações de obras de Julio Verne, Edgar Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. OAllan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen. jornal "Última Hora" passa a publicar, a partirLança Visão do esplendor, com trabalhos já de fevereiro, semanalmente, as suas crônicas.publicados na coluna "Childrens Corner", da Ainda nesse mês, é entrevistada pelo jornalistarevista "Senhor" e também no "Jornal do Júlio Lerner para o programa "PanoramaBrasil". Publica De corpo inteiro, com algumas Especial", TV Cultura de São Paulo, com oentrevistas que fizera anteriormente para compromisso de só ser transmitida após a suarevistas cariocas. É muito elogiada quando morte. Escreve um livro para crianças, quevisita Belo Horizonte, fato que a deixa seria publicado em 1978, sob o título Quase decontrariada. Passa a dedicar-se à pintura. verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantisMorre, dia 28 de novembro, seu grande amigo para o calendário de 1978 da fábrica dee compadre Erico Verissimo. Reúne trabalhos brinquedos "Estrela", intitulado Como nasceramde Andréa Azulay num volume artesanal as estrelas. Vai à França e retornailustrado por Sérgio Mata, intitulado "Meus inesperadamente. Publica A hora da estrela,primeiros contos". Andréa tinha, então, dez pela José Olympio, com introdução — "O gritoanos de idade. do silêncio" — de Eduardo Portella. Esse livro1976 - Seu filho Paulo casa-se com Ilana seria adaptado para o cinema, em 1985, porKauffmann. Participa, em Buenos Aires, Suzana Amaral. A editora Ática lança novaArgentina, da Segunda Exposición — Feria edição de A legião estrangeira, com prefácio deInternacional del Autor al Lector, onde recebe Affonso Romano de SantAnna.muitas homenagens. É agraciada, em abril, Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro decom o prêmio concedido pela Fundação Cultural 1977, um dia antes do seu 57° aniversáriodo Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. vitimada por uma súbita obstrução intestinal,Grava depoimento no Museu da Imagem e do de origem desconhecida que, depois, veio-se aSom, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido saber, ter sido motivada por umpor Affonso Romano de SantAnna, Marina adenocarcinoma de ovário irreversível. OColasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS. enterro aconteceu no Cemitério ComunalEm maio, corre o boato de que a escritora não Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Vai aomais receberia jornalistas. José Castello, ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevistabiógrafo e escritor, nessa época trabalhando no gravada em fevereiro desse ano.jornal "O Globo", mesmo assim telefona e 1978 - Três livros póstumos são publicados: oconsegue marcar um encontro. Após muitas romance Um sopro de vida — Pulsações, pelaidas e vindas é recebido. Trava então o Nova Fronteira, a partir de fragmentos emseguinte diálogo com Clarice: parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicasJ.C. "— Por que você escreve? Para não esquecer, e o infantil, Quase deC.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: verdade, em volume autônomo, pela Ática.— Por que você bebe água?" Para não esquecer é composto de crônicas que haviam sido publicadas na segunda parte doJ.C. "— Por que bebo água? Porque tenho livro A legião estrangeira, em 1964, quesede." compunham a seção "Fundo de Gaveta" doC.L. "— Quer dizer que você bebe água para citado livro. A hora da estrela é agraciada comnão morrer. Pois eu também: escrevo para me o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixãomanter viva." sendo G. H. é publicada na França, com tradução de Claude Farny.Enquanto escreve A hora da estrela com a aajuda da amiga Olga, toma notas para o novo 1979 - É publicado A bela e a fera, pela Novaromance, Um sopro de vida. Revê Recife e Fronteira, contendo contos publicadosvisita parentes. Em dezembro, "Fatos e Fotos esparsamente em jornais e revistas. Estréia, noGente", revista do grupo "Manchete", publica teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 77de vida, baseado em livro de mesmo nome, Bibliotèque des voix", fita cassete com trechoscom adaptação de Marilena Ansaldi e direção de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anoukde José Possi Neto. Aimée.1981 - "Clarice Lispector — Esboço para um 1985 - A hora da estrela recebe dois prêmiosretrato", de Olga Borelli, é lançado pela Nova na 36ª edição do Festival de Berlim: daFronteira. Confederação Internacional de Cineclubes —1984 - Reunindo a quase totalidade de Cicae, e da Organização Católica Internacionalcrônicas publicadas no Jornal do Brasil, no do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa-período de 1967 a 1973, é lançado "A metragem de mesmo nome, dirigido pordescoberta do mundo", organização de Paulo Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo OrosGurgel Valente, filho da autora. A Éditions des também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe oFemmes, da França, lança, em sua coleção "La Urso de Prata de "Melhor Atriz". Pedro Ornellas (A Lágrima na Trova)Trovador é poeta, poeta é sensível, poeta Chora o pobre, o rico chora,chora, poeta sente quando outros choram... uns por muito, outros por nada!Por isso a lágrima está presente nos versos do Quantas lágrimas e por quem você já chorou?trovador, quer sejam as suas, quer as de Não pergunte à Clenir Neves Ribeiro – Novaoutros, quer as que só ele consegue ver Friburgo RJ:brotando de olhos figurativos. Tanta lágrima perdidaReinaldo Aguiar, grande poeta potiguar, para esquecer me empenhei,percebeu a força de comunicação que tem a que já nem sei nesta vida,lágrima: porquê e por quem eu chorei! A lágrima, na verdade, A dor é expressa na lágrima, certo? Nem por seu poder infinito, sempre, diz a poeta gaúcha Delcy Canalles: traduz com fidelidade o que não pode ser dito... A lágrima mais doída não é a que aos olhos vem,E ela tem mesmo grande poder de persuasão, mas a que fica escondidaadmitido prontamente pela Darly O. Barros, de sem se mostrar a ninguém!São Paulo: O saudoso Newton Meyer, de Pouso Alegre MG, Meu perdão foi em tributo concorda e lamenta não ter chorado: a uma lágrima suspensa: – um detalhe diminuto “Homem que é homem, não chora!” mas, que fez a diferença! – obedeci, sem defesas. Pergunto: o que faço agoraQue todo mundo chora, todo mundo sabe... com tantas lágrimas presas?!mas por que todo mundo chora?O grande poeta A.A. de Assis, Maringá PR, tem Na definição da saudade feita por Alberto Isaíasseu palpite: Ramires – ES ela se faz presente: Noite e dia, mundo afora, Saudade - um berço vazio, quanta lágrima chorada... uma lágrima, uma dor; Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 78 coração sentindo frio é uma lágrima infinita longe da chama do amor... que Deus chorou sobre o mundo!Numa das trovas mais expressivas que já Rodolpho Abud – Nova Friburgo descreve umconheci, Mário Peixoto - RJ, contou ao tipo de lágrima que não seca nunca:descobrirque até o homem mais forte do mundo chora: Alcançando a eternidade, dia e noite ela palpita: Eu vi meu Pai derramando A lágrima da saudade uma lágrima em segredo. tem dimensão infinita! Era uma fonte brotando pela fresta de um rochedo. Para o Waldir Neves - RJ, a lágrima travestida de saudade, é um caminho com destino certo:E falando em descoberta, o imortal WaldirNeves, do Rio, flagrou, fotografou e revelou um Saudade é gota caída,segredo guardado a sete chaves: é pranto que ninguém vê: -É uma lágrima sentida É uma lágrima sentida que leva sempre a você. ... que toda mulher enxuga: a que lhe rola escondida Ás vezes o próprio motivo da dor suprime a por sobre a primeira ruga! lágrima. Pedro Ornellas – SP, descreve assim o drama do retirante:Heron Patrício, de São Paulo, deixa porprevenção seu conforto para a amada, caso Ao partir, deixando norte,venha a chorar sua partida: uma lágrima ensaiou, mas a seca era tão forte Sobre a minha campa nua, que até seu pranto secou! se tu chegares, amor, em cada lágrima tua, Cyroba B. O. Ritzmann - PR inveja a lágrima e há de brotar uma flor! explica por que:Não sei se o poeta imagina o que vê ou de vê o Tão livre pelo meu rostoque imagina... Pedro Ornellas, São Paulo, teve sinto a lágrima rolar.a impressão de ver, ou quem sabe tenha Quando, terei eu, o gostomesmo visto o que diz nesta trova: de também me libertar? O trem partindo... um aceno... Quem chora mais, o homem ou a mulher? A e ao retornar pela estrada, resposta é óbvia para a Divenei Boseli - São vi lágrimas de sereno Paulo: nos olhos da madrugada! Uma lágrima, sequer,Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba PR, eu vi no adeus...Nem depois.consegue acomodar a lua numa lágrima. Não faz mal...eu sou mulher, posso chorar por nós dois! Essa lágrima suspensa reflete a luz do luar... Alguns, na falta de lágrimas, choram trovas. É o parece que a lua imensa que afirma Antonio Salomão - PR: naufraga no teu olhar! A trova é gota de prantoMas há quem consiga dar a ela uma dimensão que cai dos olhos de alguémainda maior. Lilinha Fernandes, por exemplo: e por alguém chorou tanto que nem mais lágrimas tem O mar que geme e palpita no seu tormento profundo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 79Não há como esconder sentimentos quando a Pedro Ornellas é poeta dedicado aolágrima assina a mensagem, revela José cultivo de trova, isto é, o poema monostróficoOuverney, Pindamonhangaba - SP: de 4 versos em redondilhas menores. Neste gênero, Pedro Ornellas consagrou-se junto à Expulsando a maquiagem, União Brasileira de Trovadores, onde é a lágrima veio, pura, conhecido como um grande trovador. Neste e pousou sobre a mensagem, movimento, Pedro Ornellas ingressou na no lugar da assinatura!... década de 80, após desligar da FEBET (Federação Brasileira de Entidades Trovistas),Renata Paccola – São Paulo, indica a melhor entidade da qual participou da fundação commaneira de lidar com o motivo da lágrima: Eno Teodoro Wanke e outros escritores. Na UBT, Pedro Ornellas alcançou grande Uma lágrima que escorre projeção, sendo premiado em diversos traz mais brilho à própria face certames de trova, a maioria conhecida como se a cada sonho que morre "Jogos Florais". Em Nova Friburgo, (década de há um novo sonho que nasce! 90) obteve o título de "Magnífico Trovador" no gênero lírico/filosófico, após três classificaçõesEncerro com uma cena que todo mundo viu, subsequentes entre os 10 primeiros colocados.mas só o poeta entendeu. Pedro Ornellas - SP: Em 2003, obteve novamente o título de Magnífico Trovador após três classificações no Novo rumo, despedida... gênero humorístico. e ao pressentir minhas dores, Conforme supracitado, Pedro Ornellas a paineira entristecida venceu muitos concursos de trova, logrando chora lágrimas de flores! centenas de prêmios. Entre todas as suas . premiações, no entanto, destacam-se as obtidas na cidade fluminense de Nova Friburgo, nos seus importantes Jogos Florais, o mais antigo concurso literário realizado no Brasil, ininterruptamente desde 1960. Pedro Ornellas destacou-se Pedro Ornellas principalmente no gênero humorístico, no qual Pedro Ornellas (Nome artístico de Pedro obteve seis vezes o 1o. lugar, a saber, emAugusto de Ornellas) é um poeta, compositor e 1984, 1987, 1993, 1998, 2001 e 2003, além decantor de música caipira, nascido em Marialva, vencedor entre o 2o. e o 5o. lugar, mençõesestado do Paraná, em 1952, e radicado na honrosas e menções especiais.cidade de São Paulo. Pedro Ornellas também se dedica ao soneto, gênero que cultiva menos Branca Tirollo (Não Brinque com o Fogo) Notei a porta entreaberta. Não era o ela, a pequenina luz desapareceu. De repentevento a tocá-la. O ar estava parado, e as folhas tudo escureceu e na negridão da noite eu medo coqueiro, silenciosa. Levantei-me do sofá e senti perdida. Pensava estar caminhando decaminhei até a varanda. Então, notei uma luz volta, mas sentia que o caminho de volta ficavabem pequenina por trás das montanhas. Não mais distante.havia estrelas no céu, nem a lua estava Caminhei, caminhei, e quando dei porexposta. Havia algumas nuvens escuras. conta, estava à beira de um grande rio. Quase A luz me atraia cada vez mais, e não enxergava, mas ouvia nitidamente o somlentamente caminhando, cruzei a avenida. das águas que bravas desciam para o mar. Do outro lado havia uma arvorepequena e enquanto voltei meus olhos para Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 80 Meus pés estavam machucados. Não para limpar a sujeira, mas foi bem melhor dotinha colocado os sapatos quando fui atraída que estar perdida num lugar qualquer.pela porta se abrindo. Eu não reconhecia o rio e tinha certezade que não estava em minha cidade, pois lánão havia nenhum rio grande. Mas eu lembrei de um fato muito Branca Tirolloimportante: eu tinha deixado alguma coisa no Branca Tirollo é Atriz de Teatro, Roteirista, efogão, acho que estava cozinhando algo. Só Escritora. Presidente da Academia de Letras donão me lembrava o que era. Brasil/ Piracicaba. Revolucionária desde sua Cada minuto que passava, sentia que a mocidade, sempre praticou trabalho voluntário,água daquele rio misterioso subia com muita lutando pelo bem estar social. Empresária noforça. Já estavam molhados, os meus pés. ramo de confecções há mais de vinte anos,Ainda estava escuro e eu não enxergava nada. abandonou a carreira profissional para levar De repente ouço um estouro: PUF! adiante a carreira artística, cujo sonho de sua Nossa! Eu tinha adormecido no sofá que mocidade, estava adormecido. Voltou a fazerfica na copa, observando o gás aceso. teatro, onde desenvolveu alguns projetos de Lá tinha se ido a minha panela de sua autoria. A maioria de suas Peças Teatrais,pressão. Hilariante! Precisei gastar muita água são temas voltados para as questões do Meio Ambiente. Dinair Leite (Trovas) O meu pai, bom trovador, que se abriu para o poeta trovava como ninguém deixou passar em cadência, hoje faz trova ao Senhor trovas da lira seleta nos campos azuis, além. O poeta se despede Essa mão que lavra a terra da trova, poesia amada planta no chão a semente. Com devoção ele cede A benção de Deus encerra, sua obra, imortalizada pois mata a fome da gente. Foi o poeta! Se chora... Confraria dos Poetas Encantados Quedou da rosa o perfume que invadiu belo anjo que ora Extinguiu-se a flor do lume pro poeta e acende lume! Do poeta expira o canto Qual menino vaga-lume, No último canto o queixume, chega ao céu e vira encanto por ele que foi embora Na terra a flor, e o perfume O poeta pousa a lira o anjo recolhe agora e se apaga sua tocha A sua arte aqui expira, Na terra ele virou flor, porém no céu desabrocha plantada por triste ausência Deixou versos, deu amor Quando o poeta atravessa e a Jesus deu sua essência para o outro lado da vida Chega ao céu leve e com pressa No morno sopro do vento, de prosseguir sua lida passarinho em revoada, para viver novo evento, A nuvem azul-hortência Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 81 cantar a Deus em toada página cultural no Jornal de Poesia (do MPN), e Revista Bali (do Kleber Leite - Itaocara/RJ). Murchou rosa, chorou trova No início de outubro o SESC promoveu a e o poeta emudeceu... 28ª edição da Feira de Livros do SESC 2009 - Despertou em vida nova, Literatura e Jornalismo, na qual Dinair onde a rosa reviveu participou com a exposição de Livros Raros e O poeta emudeceu, Antigos, de seu acervo. Convidada a compor a dormiu sua inspiração homenagem Euclidiana, declamou as 10 trovas Mas no céu apareceu premiadas no concurso Cantagalo (Euclides da de lira e rosa na mão Cunha), o que estimulou muitos alunos presentes a se interessarem pela feliz arte da A dor o meu peito invade, trova! ao ver tudo assim deserto A escritora Dinair Leite assumiu mais um cargo Mas lembro a sua saudade literário na cidade. Ela foi nomeada delegada de ouvir estrelas de perto municipal da UBT (União Brasileira de Na vida vibra seu verso... Trovadores) tendo como padrinho o vice- O poeta compõe, canta! presidente nacional da entidade Tadeu Haggen. Planta amor no universo Oradora da A.L.A.P. (Academia de Letras e e jamais morre, se encanta. Artes de Paranavaí), o que muito honra o núcleo cultural local. A poetisa Dinair é membro do MPN há 15 anos, onde sua obra é apresentada em saraus e reuniões. Sua filha Cristina Leite Goetten, é vice-presidente da Dinair Leite A.L.A.P., assessora de Dinair nos trabalhos culturais. Delegada em Paranavaí/PR, doMovimento Poético Nacional, colaboradora da Academia De Letras de Rondônia Academia de Letras de Rondônia – da região. A seguir, a relação dos AcadêmicosACLER é uma entidade cultural, sem fins presentes à reunião de fundação da Academia,lucrativos e de duração indeterminada, que tem realizada no auditório da Biblioteca José Pontessua sede e foro na cidade de Porto Velho, Pinto: Abnael Machado de Lima, Ary Tupinambácapital do Estado de Rondônia. Foi fundada aos Pena Pinheiro, Amizael Gomes da Silva, Bolívardez dias do mês de junho de hum mil Marcelino, Edson Jorge Badra, Emmanuelnovecentos e oitenta e seis. Sua fundação foi Pontes Pinto, Esron Penha de Meneses, Eunicefruto da iniciativa de um grupo de cidadãos, Bueno da Silva e Souza, Gesson Álvares deoriundos de diferentes segmentos da sociedade Magalhães, Hélio Fonseca, José Calixto derondoniense, autores que contribuíram e Medeiros, José Valdir Pereira, Matias Alvescontribuem para a formação da literatura Mendes, Paulo Nunes Leal, Raymundo Nonatorondoniense e brasileira, historiadores e críticos de Castro e Vitor Hugo. Por ocasião destaliterários, cientistas sociais, jornalistas, políticos reunião, em 10 de junho de 1986, deliberarame cientistas, cujas obras e vida profissional os presentes nomear o Desembargador Hélioconstituem uma referência em suas respectivas Fonseca para dirigir os trabalhos.áreas. Assim sendo, a reunião foi conduzida Decidiram, com essa iniciativa, prover o pelo desembargador Hélio Fonseca, que logoEstado de Rondônia de uma instituição cultural colocou em discussão os seguintes assuntos:capaz de promover o cultivo dos livros e nome da entidade, composição da comissãoincentivar as atividades intelectuais e culturais responsável pela elaboração do anteprojeto do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 82Estatuto da Academia, horário, local e datas membros beneméritos e membros honorários,das próximas reuniões. Após análise e sendo as vagas preenchidas de acordo comdiscussão da pauta, os presentes deliberaram, critérios previstos no Estatuto. O quadro depor unanimidade: a entidade cultural, fundada Patronos é composto de escritores já falecidos,na ocasião pelos presentes, chamar-se-á de reconhecido conceito e valor literário, comAcademia de Letras de Rondônia – ACLER; a sua vida ou obra apresentando algum vínculocomissão responsável pela elaboração do com o Estado de Rondônia.anteprojeto do Estatuto da Academia seráconstituída pelos membros: Edson Jorge Badra, O BrasãoJosé Valdir Pereira, Matias Alves Mendes eGesson Álvares Magalhães, sendo que referida a) Descrição Técnica Geometral:comissão deverá apresentar o anteprojeto do Da Forma:Estatuto, para discussão e aprovação, na A forma geométrica do Brasão dapróxima reunião, dia 17 de junho de 1986. Academia de Letras de Rondônia possui umaDeliberou também os presentes, que as forma ovalada distinguindo-se por uma figurapróximas reuniões acontecerão sempre às geométrica Elipse Falsa constituída por doisterças-feiras, no mesmo local, a partir das 20h eixos. Dentro desse círculo elipsoidal forma-se30min. um anel circunscrevendo-se no seu interior uma No dia 17 de junho, na reunião figura plana, distinguindo-se sobre ela umaseguinte, atendendo convocação expressa fração de arquitetura iconográfica do Forte doregistrada em Ata, os participantes, sob a Príncipe da Beira, encimado por uma figuracoordenação do Desembargador Hélio Fonseca, estilizada de uma coruja. Essas peças podemPresidente do núcleo de fundadores da ser em relevo – madeira ou metálica. Os ramosAcademia, foram informados da pauta da de café e cacau ladeiam a figura. Abaixo daReunião, destacando como prioritário a análise, figura iconográfica, está a frase Fundada em 10discussão e aprovação do anteprojeto do de junho de 1986, que marca a data deEstatuto da Academia. Após análise e discussão fundação da Academia.do Estatuto, o Presidente o submeteu à Das Cores:aprovação dos presentes, sendo aprovado por A Fração arquitetônica do Forte dounanimidade, já com a Diretoria provisória da Príncipe da Beira, representa por uma guarita,Academia definida, eleita por unanimidade, em blau, sendo as faixas que a atravessam, aficando assim constituída: Presidente: superior, sinopla e a inferior, ouro. O desenhoDesembargador Hélio Fonseca, Vice-Presidente: onde a guarita se apóia, representando aÉdson Jorge Badra e Secretário-Geral: José muralha do Forte, em goles. Essas cores são asValdir Pereira. utilizadas no Brasão do Estado de Rondônia, Até o ano de 2005, a Academia tendo, para a Academia de letras de Rondônia,funcionou na sua sede própria, imóvel doado o mesmo significado.pelo governo José Bianco, prédio ondefuncionou a Biblioteca José Pontes Pinto, b) Descrição Filosófica:situado à Av. Farqhuar, 1793, Bairro Caiari, Da Forma Estrutural:Porto Velho - Rondônia. Deixou de funcionar A figura em forma de elipse, formandoem sua sede, a pedido do governo do Estado, um círculo ovalado, significa a imortalidade daIvo Cassol, dizendo este que faria uma reforma cultura e das letras, em cujos pontos não seno referido prédio e o entregaria logo em encontra princípio nem fim.seguida. Atualmente, a Academia realiza suas O círculo ovalado constitui-se um anel eSessões Ordinárias no auditório do Conselho possui as seguintes legendas: na parteEstadual de Educação de Rondônia, superior,, onde se lê: ACADEMIA DE LETRASgentilmente cedido pela Presidência da colenda DE RONDÔNIA. Na parte inferior, onde se lê:Instituição de educação, de acordo com NON VI, SED VIRTUTE, traduzindo NÃO PELAconvênio celebrado entre as duas entidades. FORÇA, MAS PELA QUALIDADE, buscando A Academia é composta de quarenta imprimir às sucessivas gerações a consciênciamembros titulares, membros do quanto é importante o conhecimentocorrespondentes (brasileiros ou estrangeiros), humano a serviço da valorização da vida, nãoresidentes no restante do país ou no exterior, pela força, pela violência, mas pela coragem, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 83pela qualidade, pelo mérito da produção 6º.- Do lado direito, um ramo de cacauliterária de cada um de nós. e do esquerdo, um ramo de café, simbolizando Da Figura Iconográfica: as duas maiores riquezas do Estado de A guarita estilizada que guarnece os Rondônia, à época da fundação da academia.bastiões do Forte do Príncipe da Beira, significa 7º.- Em baixo, a inscrição latina “NONa necessidade de os membros da Academia de VI, SED VIRTUTE”, lema que traduz oLetras de Rondônia estarem alertas às invasões sentimento dos acadêmicos: “Não pela força,lingüísticas e literárias danosas à preservação mas pela virtude”.do bom vernáculo, assim como o forte defendiaa Amazônia Ocidental das invasões espanholas Acadêmicosdo século XVIII. (Patrono) Acadêmico Atual O desenho estilizado da coruja é osímbolo da sabedoria que deve nortear as 1 (Francisco Meireles) Dimas Ribeiro Da Fonsecaações e as obras intelectuais dos membros da 2 (Ary De Macedo) Gesson Álvares De MagalhãesAcademia. 3 (Alkindar Brasil De Arouca) Edson Jorge Badra Dos ramos de cacau e de café: 4 (José Pontes Pinto) Emanuel Pontes Pinto 5 (Antônio Tavernard) Bolívar Marcelino Representam as principais riquezas do 6 (Manoel Nunes Pereira) Abnael Machado Desetor produtivo rural que, se conduzindo com Limasustentabilidade, poderá ser o ícone 7 (Teotônio De Gusmão) Hélio Fonsecaeconômico/social do Estado, contribuindo, 8 (Alexandre Rodrigues Ferreira) José Valdirtambém, para a independência econômica do PereiraPaís. 9 (Amilkar B. Magalhães) Vaga 10 (Antur Virgílio) VagaRESUMO 11 (Cândido Mariano Da Silva Rondon) Em resumo, o Brasão da Academia de Raymundo Nonato De CastroLetras de Rondônia é constituído dos seguintes 12 (João Nicolleti) Vagaelementos: 13 (Maria Madalena Neimeier Duarte) Matias 1º.- Um bastião do Forte do Príncipe da Alves MendesBeira, monumento construído às margens do 14 (Ricardo Franco De Almeida Serra) Heinzrio Guaporé, no município de Costa Marques, Roland Jakobina fronteira de Rondônia com a Bolívia, 15 (Ferreira De Castro) Eunice Bueno Da Silva E Souzaconstruído em 1776, como marco de defesa do 16 (Antônio José Cantanhede) Antônio Cândidoterritório brasileiro, contra as incursões Da Silvabolivianas que aconteciam àquela época. As 17 (Aluisio Pinheiro Ferreira) Yêeda Mariacores do bastião, (verde, amarelo, azul e Pinheiro Borzacovbranco) são as cores da bandeira nacional. 18 (Humberto De Campos) Pedro Albino De 2º.- O bastião é encimado por uma Aguiarcoruja, símbolo da sabedoria de que são 19 (Carlos Mendonça) Viriato José Da Silva Mouraportadores os membros da academia. 20 (Ramayana Chevalier) João Teixeira De Souza 3º.- Em vermelho, parte do muro 21 (Oswaldo Cruz) Aparício Carvalho De Moraesdaquele Forte, simbolizando o sangue dos 22 (Joaquim Tanajura) Joaquim Cercino Da Silvabrasileiros que morreram em defesa da pátria, 23 (Vespasiano Ramos) Átila Ibanezem luta contra os bolivianos que invadiam 24 (Paulo Nunes Leal) Dante Ribeiro Da Fonsecanossa terra. Parte do muro encontra-se 25 (José Alves De Lira)Marco Antônio Dominguesdeteriorado, como deteriorado está todo o Teixeiraforte, necessitando de reformas à época da 26 (Joaquim De Araújo Lima) Cláudio Batistafundação da academia. Feitosa 27 (Jorge Teixeira De Oliveira) Zelite Andrade 4º.- Sob o muro, a inscrição “Fundada Carneiroem 10/06/1986”, data da fundação da 28 (Raymundo Moraes) Antonio Serafim Da SilvaAcademia de Letras de Rondônia. 29 (José Calixto De Medeiros) Vaga 5º.- Tudo isso é circundado por dois fio 30 (José Guilherme De Araújo Jorge) José Lúcionegros, em forma oval, entre os quais há, em Cavalcante De Albuquerquecima, a inscrição “ACADEMIA DE LETRAS DE 31 (Pedro Tavares Batalha) William HaverlyRONDÔNIA”. Martins Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 8432 (José Francisco Monteiro) Raimundo Neves De 37 (Marise Magalhães Costa Castiel) SamuelAlmeida Moisés Castiel Júnior33 (Emília Smithlaje) Vaga 38 (Dom João Batista Costa) Adaídes Batista Dos34 (Vitor Hugo) Arlene Pinheiro Gorayeb Santos35 (Ari Tupinanbá Penna Pinheiro) Paulo Cordeiro 39 (Júlio Nogueira) VagaSaldanha 40 (Amizael Gomes Da Silva) Gerino Alves Da36 (Enos Eduardo Lins) Vaga Silva Filho Brasil sem Fronteiras Fronteiras Um brilhante do Grão-Mogol. Olga Agulhon Maringá/PR Um poleá que a viu, espantado e tristonho, Um poleá lhe perguntou: RIDÍCULA — "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,(a Fernando Pessoa) Dize, quem foi que te ensinou?"Quando deixar de escrever cartas de amor, Então ela, voando e revoando, disse:deixarei de ser ridícula, — "Eu sou a vida, eu sou a florserei amarga. Das graças, o padrão da eterna meninice, E mais a glória, e mais o amor".Quando deixar de chorar por amor,deixarei de ser ridícula, E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudoserei seca. E tranqüilo, como um faquir, Como alguém que ficou deslembrado de tudo,Quando deixar de pedir seu amor, Sem comparar, nem refletir.deixarei de ser ridícula,serei outra. Entre as asas do inseto a voltear no espaço, Uma coisa me pareceuQuando aprender a fazer versos, Que surdia, com todo o resplendor de um paço,deixarei de ser ridícula, Eu vi um rosto que era o seu. serei Pessoa. Era ele, era um rei, o rei de Cachemira, Que tinha sobre o colo nu Machado de Assis Um imenso colar de opala, e uma safira Rio de Janeiro/RJ Tirada ao corpo de Vixnu. A MOSCA AZUL Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas, Aos pés dele, no liso chão, Era uma mosca azul, asas de ouro e granada, Espreguiçam sorrindo as suas graças finas, Filha da China ou do Indostão. E todo o amor que têm lhe dão. Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada. Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios, Em certa noite de verão. Com grandes leques de avestruz, Refrescam-lhes de manso os aromados seios. E zumbia, e voava, e voava, e zumbia, Voluptuosamente nus. Refulgindo ao clarão do sol E da lua — melhor do que refulgiria Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 85 E enfim as páreas triunfais Doutor Tanajura, Mario Monteiro De trezentas nações, e os parabéns unidos e Bohemundo Álvares Afonso. Das coroas ocidentais. Protesta Professor Carlos Mendonça, Doutor Celso Pinheiro Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto e Rui Brasil Cantanhede Das mulheres e dos varões, que o prédio finalmente concluiu.Como em água que deixa o fundo descoberto, Via limpos os corações. Venham ver o que fizeram do mercado e da luta de vocês que foi em vão. Então ele, estendendo a mão calosa e tosca. Ninguém se levantou pra defender Afeita a só carpintejar, o pedaço de nossa história Com um gesto pegou na fulgurante mosca, que teimava em não cair. Curioso de a examinar. Segismundo se calou, nem Zé Catraka botou "Lenha na Fogueira" e se apagou. Quis vê-la, quis saber a causa do mistério. Zizi, nosso velho Zizi, tombou cansado depois E, fechando-a na mão, sorriu de tanto tempo resistir. De contente, ao pensar que ali tinha um império, A última telha de Marselha virou pó. E para casa se partiu. Guarde a sua lembrança com carinho pois o passado perdeu a realeza. Alvoroçado chega, examina, e parece Só nos resta mandar nossa saudade Que se houve nessa ocupação convocar Ernesto Melo Miudamente, como um homem que quisesse pra cantar nossa tristeza. Dissecar a sua ilusão. Antonio ManuelDissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela, Abreu Sardenberg Rota, baça, nojenta, vil São Fidélis/RJ Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela Visão fantástica e sutil. NAMORAR EM SONHOS Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo Na cabeça, com ar taful Existe coisa melhor do que namorar Dizem que ensandeceu e que não sabe como Perdeu a sua mosca azul. em sonhos, principalmente quando esse sonho é acordado e esse namoro é com a vida, a natureza e tudo aquilo que DEUS nos dá no dia-a-dia: o ar que respiramos, o Antonio Cândido da Silva Porto Velho/RO sol que nos aquece, a chuva que faz germinar as sementes que dão flores e BAR DO ZIZI frutos, enfim, tudo que de belo está ao nosso alcance. A última telha importada de Marselha Existe coisa mais linda do que um Virou pó na dureza do cimento. céu coalhado de estrelas, um mar azul, Resta somente o espaço, o pó e o tempo filhos e netos à nossa volta? levando tudo para o esquecimento. Pois é! Acho que não existe e por isso estou mandando esse modesto poema. E a tristeza nos arquivos da memória guarda mais um registro de saudade Namorei por toda a vida misturada com indignação Todos os sonhos que sonhei, e o sentimento de impotência Até meus sonhos perdidos diante de que tem nas mãos a força do poder. Confesso que namorei! Levanta do silêncio Guapindaia, Namorei sonhos distantes, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 86 Que senti, mas não toquei, Beberam, fumaram. E até meus sonhos errantes, Ao romper do dia se esgueiraram. Confesso: também gostei! Na areia úmida se deitaram, se abraçaram, esquecidos das diferenças Namorei sonhos do sul, sociais. Do norte e do nordeste, Não pensaram em gravidez Sonho rosa, sonho azul, nem AIDS. Sonho do centro e sudeste, Transaram sem camisinha, Sonhos que tanto sonhei livres como os animais. Mas que tu nunca me deste! Cansados, adormeceram. Ao acordar, Namorei sonhos dourados, Maria estava sozinha! Pretos, brancos, coloridos, Sonhos nunca imaginados Que me tocaram os sentidos. Ramsés Ramos Teresina/PI Namorei sonhos da noite SETE PECADOS DO AMOR E também da madrugada; Sonhos doces de criança o melhor amor é o que não faz alarde Com a primeira namorada, (mar como arde) Sonhos que se perderam ao melhor amor nunca se esquece Na poeira das estradas... (mas quem merece?) melhor amor sempre tem dinheiro Mas o sonho mais bonito, (onde, o banqueiro?) Com gostinho de maçã, o melhor amor é desinteressado Foi aquele que sonhei (todo mundo é culpado!) No despertar da manhã: melhor amor jamais atraiçoa Eu te querendo todinha (desse se caçoa) Você dizendo: hã, hã... o melhor amor te amará eternamente (quanto se mente!) o melhor amor, enfim, de tudo abdica Alberto Paco (esse, com quem fica?) Maringá/PR FRUTO DO CARNAVAL Tatiana Belinky A bela Maria; São Paulo/ SP Loira, olhos verdes, esguia, tem em seus braços uma linda criança, negra. O GRANDE CÃO-CURSO Fruto do carnaval passado.Do terraço da mansão, em São Conrado, Perante o Juiz, Senhor Dom Urso, Maria Reunidos para o maior Cão-curso, vê o povo passar apressado, Apresentaram-se - sem seus patrões - a caminho da folia. Cachorros, cachorrinhos, cachorrões, Sente saudade! De muitas raças, tipos e modelos - Um ano atrás, exuberante de alegria, De pêlos lisos, crespos e outros pêlos - no meio do salão, Pra concorrer ao prêmio - um tesouro viu um belo rapaz, alto, forte, Por todos cobiçado: o "Osso de Ouro". negro como carvão. ... Dançou com ele a noite inteira.Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 87 O Juiz, preocupado, Paira sereno sobre os espasmos úmidos do Já bastante atrapalhado, mar.] Olha em volta - e de repente Vê, não longe, à sua frente Altas vagas explodem desconexas Um cachorro desleixado, espargindo espumas brancas de água e sal complexas.] Pêlo todo arrepiado, O vento desafina tons de ópera funesta Cor de um tom indefinido, mas o mantém na rota e não contesta De rabinho encolhido, o roteiro alado que teima percorrer. O desfile a observar, Bem quietinho em seu lugar. Como fugir, - Vem cá, diz o Juiz Urso, - se o clarão da tempestade não se esconde? Participe do Cão-curso, Para onde ir, Apresente-se também, se o rugir dos céus se ouve ao longe? Mostre o que é que você tem! Onde ficar, ... se a segurança não é vista no horizonte ? Por que temer, se males vêm e vão Sou um pobre vagabundo, e depois da fúria fica em paz o coração? Sem família e só no mundo! Mas se encontro um bom senhor O amassado da superfície Dou-lhe todo o meu amor: deixa escapar grunhidos de profundezas frias. Na alegria ou no perigo, O negrume baixo do céu congestionado, Serei sempre o seu amigo! por riscos de luz pulsa, iluminado: É só isto. E disse o Urso, espetáculo de força magistral. - Quem ganhou este Cão-curso, Explosão da natureza temperamental! Foi você, meu bom, valente, Viralata, inteligente Exemplo e alento vêm, ave marinha, Mas modesto. O Troféu ensina a coragem para o embate. Reforça-nos o bico, prepara o bom combate. "Osso de Ouro" é todo seu! Dá-nos força para vencer o caos que se avizinha! ... Sobre a procela flutua o albatroz! Juiz, com toda a humildade, Na certeza que vencerá este momento; Peço um osso... de verdade! nunca faz do mau tempo seu algoz. Firme, contra ou a favor do vento, paira seguro aproveitando o tempo OS "LIMERICK" enquanto voa livre, feliz, veloz! Os "limerick" são poeminhas Que sempre só têm cinco linhas, Samuel Castiel Jr. Contando, rimados, Porto Velho/ RO Uns "causos" gozados: Estórias bem piradinhas. FLOR TROPICAL Flor tropical, soberba e encantadora Maria Eliana Palma Que cresce e floresce em terrenos hostis Maringá/PR Como guardiã desafiadora Do belo nativo e essências sutis!... ALBATROZ Como brisa que soprou todas as vidas Albatroz: mensageiro de tormenta. Nascestes bela, livre e agreste, Dela nunca se afasta; nem mesmo tenta…Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 88 Repartindo-te em pétalas coloridas Fascinam-me teu porte, tua cor... Invejam-te o crisântemo e o cipreste... Quero- te sempre assim bela e formosa Não queiras nunca te tornar rainha Como um livro escrito em verso e prosa Pois sempre foste à preferida minha! Como a mulher que me ensinou o amor! Artur de Azevedo (A Filosofia do Mendes) Mendes) Decididamente o Fulgêncio não nascera mesmo antes de ter certeza de que eu opara cavalarias altas: não havia rapaz de trinta enganava, andava armado de revólver!anos mais tímido nem mais pacato vivendo só,na sua casinha de solteiro, independente e O Fulgêncio, que não tinha sangue defeliz. herói, viveu dali por diante em transes terríveis. Aconteceu, porém, que um dia o Saía de casa o menos possível, e nas ruas sóFulgêncio foi tão provocado pelos bonitos olhos andava de tilburi, recomendando aos cocheirosde uma senhora, que se sentara ao seu lado que fossem depressa. Quando via ao longe umnum bondinho da Carris Urbanos, que se sujeito qualquer parecido com o Mendes,deixou arrastar numa aventura de amor. punha-se a tremer que nem varas verdes. Quando, depois da primeira entrevista, Um dia, tendo descido de um tílburi nona casa dele, Bárbara - ela chamava-se Bárbara Largo da Carioca, para comprar cigarros,- lhe confessou que era casada com um sujeito encontrou na charutaria o Mendes, quechamado Mendes, o pobre rapaz, que a comprava charutos. Ficou de repente muitosupunha solteira ou pelo menos viúva, ficou pálido e trêmulo e quis fugir, mas o outrohorrorizado de si mesmo. Ficou horrorizado, agarrou-o por um braço, dizendo-lhe com muitamas era tarde: gostava dela, e não teve forças brandura:para fugir-lhe. As entrevistas amiudaram-se. Quando - Faça favor... venha cá... não se assuste... nãoBárbara não ia ter pessoalmente com o trema... não lhe quero mal... ouça-me... é paraFulgêncio escrevia-lhe cartas inflamadas, e o seu bem...nenhuma ficava sem resposta. Essa imprudência teve mau resultado: O Fulgêncio caiu das nuvens. O maridoum dia Bárbara Mendes entrou em casa do continuou:amante acompanhada de duas malas, umatrouxa e um baú. - Eu sei que o sr. tem medo de mim que se péla: receia que eu o mate, ou que lhe bata...- Que é isto? Tranqüilize-se: não lhe farei o menor mal. Pelo- Alegra-te! Meu marido, que é muito abelhudo, contrário!encontrou debaixo do meu travesseiro a tuaúltima carta e expulsou-me de casa. O pobre Fulgêncio não conseguiu- Hein? articular um monossílabo.- Foi melhor assim: agora sou tua, só tua, e por As maxilas batiam uma na outra.toda a vida!... Não estás contente?- Muito... - Matá-lo? Bater-lhe? Seria uma ingratidão! O- Estou te achando assim a modo que... Sr. Prestou-me um relevante serviço: livrou-me- É a surpresa... a comoção... a alegria... de Bárbara! E não era meu amigo, sim, porque- Como vamos ser felizes! Mas olha, peço-te em geral são os amigos que têm aque não te exponhas nestes primeiros especialidade desses obséquios...tempos... O Mendes é ciumento e brutal e, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 89 O Fulgêncio continuava a tremer. desassombradamente por toda a parte ... não receie uma vingança que seria absurda... e se,- Não esteja assim nervoso! Depois que o Sr. algum dia, eu lhe puder servir para algumame libertou daquela peste, sou outro homem, coisa, disponha de mim. Não sou nenhumvivo mais satisfeito, como com mais apetite, ingrato.tudo me sabe melhor e durmo que é um Daí por diante, o Fulgêncio nunca maisregalo... Aqui entre nós, se o amigo quiser uma teve receio de estar na rua, mas em poucoindenização em dinheiro, uma espécie de luvas, tempo se convenceu de que não podia estarnão faça cerimônia; estou pronto a pagar - não em casa, porque Bárbara era definitivamentehá nada mais justo ... Ande insuportável. O Mendes foi o mais feliz dos três. Alberto Paco (O Escritor em Xeque)Alberto Paco, contabilista, empresário e Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que aescritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos – primeira, mas com as mesmas necessidades.Portugal. Com vinte e dois anos chegou no Com doze anos fui morar na cidade do PortoBrasil para ficar residindo em caráter onde me formei em Contabilidade enquantopermanente. Em 2001 lançou seu primeiro trabalhava. Com vinte e dois vim morar noromance que foi escrito entre 1958 e 1959, Brasil em caráter permanente.logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu acadeira de número 23 da Academia de Letras Como era a formação de um jovemde Maringá ocupando o cargo de tesoureiro. naquele tempo? E a disciplina, como era?Desde a posse escreveu mais oito livros sendo Meu pai era militar. Impunha aos filhos oum de contos, um de poesias e seis romances. regime do quartel, mas nos ensinou a respeitarAlém de membro da ALM é membro da UBT- os outros e principalmente a ler. Não admitiaMaringá, e do Elos Clube Maringá. Escritor erros de português.imortal ocupando a Cadeira n. 25 da Academiade Letras do Brasil, cujo patrono é Jorge Quais livros foram marcantes antes deAmado. começar a escrever? O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entreConte um pouco de sua trajetória de vida, os onze e doze anos, recebi diversos livros deonde nasceu, onde cresceu, o que presente. Eram obras famosas de diversosestudou. autores. Acredito que aí começou minha ligaçãoNasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos com a escrita. Lia esses livros e viajava com osGalegos, distrito de Mogadouro, na Província de personagens pelo mundo da fantasia.Trás-os-Montes. Ali vivi meus primeiros onzeanos. Completei o quarto ano primário, único Fale um pouco sobre sua trajetóriaestudo existente naqueles lugares longínquos. literária. Como começou a vida deCom essa idade mudei com a família para escritor? Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 90Ao chegar em São Paulo no ano de 1958 entrei Finalmente no ano de dois mil e um publiqueia serviço de grande empresa multinacional no aquele livro de quarenta anos atrás. Com essasetor de contabilidade. Lá publicavam um jornal publicação fui convidado a entrar para amensal com a tiragem de trinta mil unidades Academia de Letras de Maringá e daí por diantedistribuídas pelos funcionários das diversas recomecei minha trajetória literária.filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores,vendo que eu gostava de leitura porque nas Meus livros publicados sãohoras vagas estava sempre com algum livro emmãos, me convidou a participar do jornal com “O homem do rio” romance (escrito em 1958)algum artigo. Escrevi uma poesia que foi publicado em 2001“publicada e daí por diante, durante os dois anos “No coração do vulcão” Romance de aventurasque permaneci na empresa sempre era publicado em 2002publicado algum trabalho de minha autoria. Foi “Caminhos...” Poesias Publicado em 2002nessa época que escrevi o meu primeiro “Presídio feminino” Romance policial Publicadoromance. em 2003 “Conjugando o verbo trair” Romance publicadoVocê encontra muitas dificuldades em em 2007viver de literatura em um país que está “As amantes de Carolino” Romance publicadobem longe de ser um apreciador de em 2007livros? “ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007São muitos os apreciadores de livros no Brasil,porém poucos têm acesso ao preço que A publicar:custam. Por isso são raros os que vivem deliteratura. Somente alguns privilegiados pela “Mãe solteira” Romancemídia ou então autores estrangeiros, “Estupradores violentos” Romance policialpriorizados pelas editoras nacionais. “Quinário – Traição consentida” Romance “Atalhos...” PoesiasComo começou a tomar gosto pela “Lendo e escrevendo” Contos.escrita?Como disse quando falei de minha infância, Dentre os seus livros escritos , qual tecomecei a ler obras famosas de aventuras, de chamou mais atenção? E por quê?amores intensos e policiais. Continuei sempre O livro de minha autoria que mais gosto é opreferindo esses estilos e daí surgiu minha romance “Mãe solteira” porque é extraído detendência por esse tipo de literatura. um caso real. Mostra a incompreensão de alguns pais com esse tabu que dá nome aoComo definiria seu estilo literário? livro. Felizmente esse preconceito aos poucosMeu estilo literário é simples e objetivo. Evito vai sendo anulado.fazer “rodeios” para não cansar o leitor nemdesviar sua atenção da história. Meus romances Que acha de sua obra?são do estilo que sempre gostei de ler, mas Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo issocom meu próprio estilo sem imitar ninguém. para meus leitores. No entanto, digo que gostoDigamos uma mistura de todos. muito de tudo que escrevo.Quais foram os seus livros escritos ? Qual a sua opinião a respeito da Internet?Entre mil novecentos e cinquenta e oito e A seu ver, ela tem contribuído para acinquenta e nove escrevi meu primeiro difusão do seu trabalho?romance. Somente quarenta anos depois voltei Em minha opinião, a internet é um meio rápidoa escrever. Em todo esse período que fiquei e eficiente de se tomar conhecimento de tudoafastado da escrita continuei lendo muito, mas (bom e ruim), mas como divulgação de livrosos afazeres eram tantos, envolvido com de tamanho razoável, deixa um pouco adiversas atividades, principalmente a monetária desejar. Acho que os reais adeptos da leiturapara dar um futuro digno aos familiares que gostam mais de manusear as páginas do livroforam surgindo ao longo do caminho, que não do que acionar o mouse. É mais prazeroso.houve tempo para continuar escrevendo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 91 é uma história insípida com começoVocê precisa ter uma situação incompreensível, meio que nada diz e fim sempsicologicamente muito definida ou já final definido.chegou num ponto em que é só fazer um"clic" e a musa pinta de lá de dentro? Existe uma constelação de escritores quePara se inspirar literariamente, precisa de nos é desconhecida. Para nós, a quemalgum ambiente especial ? chega apenas o que a mídia divulga, queA criação literária existe dentro da minha autores são importantes descobrir?mente. Simplesmente aflora sem muito esforço. Na época atual acredito que há quase tantosGosto de escrever de noite, quando reina o escritores quanto leitores. Existem pessoas quesilêncio. Costumo rascunhar meus escritos juntam algumas receitas caseiras, formam umdurante a madrugada. Os personagens e os livro e publicam. Porque essas pessoas sãoacontecimentos vão surgindo e passo-os famosas em outra atividade, a mídia já asrapidamente para o papel. Quando a obra considera escritores. Outras, que escrevemtermina é que passo a corrigir tudo, mas a obras interessantes, mas não têm acesso aoshistória já esta delineada. meios midiáticos, suas obras, muitas vezes verdadeiras pérolas literárias, ficam paraVocê acredita que para ser escritor basta sempre escondidas no fundo do baú.somente exercitar a escrita ou vocação éessencial? Na sua opinião, livro ou livros daAcredito que a vocação é essencial, mas é literatura da língua portuguesa deveriamnecessário ler muito porque vocação sem ser leitura obrigatória?conhecimento não leva a lugar nenhum. A leitura obrigatória não deveria existir, mas ser mais abrangente. Deveriam dar mais opções deComo é que você concebe suas obras? escolha aos jovens, para que cada um seguisseO momento de escrever um livro às vezes suas tendências.surge de uma conversa com alguém que nosconta uma história. A partir daí, modela-se o Qual o papel do escritor na sociedade?que nos foi contado, acrescentam-se fatos e O papel do escritor é marcante na sociedadepersonagens e a obra surge. porque apesar da pouca divulgação da literatura, ainda consegue prender atenção deQuanto tempo você leva para escrever um muita gente que sente prazer na leitura.livro?Alguns livros são escritos em dois meses, mas Há lugar para a poesia em nossospara lhe dar forma aceitável demoram mais tempos?quatro ou cinco. È necessário uma revisão A poesia é e será sempre uma peça importanteperfeita tanto nos textos quanto na gramática, na literatura mundial. Muitos leitores têm poucoentão leio e reviso cinco ou seis vezes. tempo disponível para ler um romance, que deve ser lido com o menor tempo deComo foi o processo de pesquisa para a interrupção para se assimilar a história. No livroescrita de seus livros? de poesias podem ser lidas uma ou duasMinhas histórias são fictícias. Entretanto páginas, colocá-lo de lado e retomar a leiturapesquiso com muito cuidado os lugares a que muito tempo depois, sem ter perdido nenhumame refiro para evitar que algum leitor que sequência.porventura conheça esses lugares me conteste.As pesquisas são feitas geralmente na internet Tem prêmios literários?ou em enciclopédias em que as informações Algumas trovas premiadas em diversos setoressão mais antigas. da União Brasileira de Trovadores da qual faço parte. Por opção, não costumo concorrer aNo processo de formação do escritor é prêmios literários.preciso que ele leia porcaria?Acredito que devemos ler de tudo um pouco. O O que te choca ?que não devemos é seguir o exemplo dos que O que me abala profundamente é ver jovensescrevem porcarias. Em minha opinião, porcaria alunos serem aprovados e passar de ano sem Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 92os mínimos conhecimentos de escrita ou Que conselho daria a uma pessoa queleitura. É uma falha dos dirigentes que vai começasse agora a escrever ?refletir mais adiante. O ensino está decadente. Diria para ler muito e analisar bem o que escreve antes de mostrar seus escritos aoO que lê hoje em dia? público leitor, mas não pare nunca de escreverLeio muito e sempre. Acabei de ler “O caçador seja o que for. Escrever é um dom de Deus quede pipas”, um romance que fala sobre as vidas não pode ser desperdiçado.de pessoas espezinhadas por regimesautoritários e desumanos. O que é preciso para ser um bom poeta? Bom poeta é todo aquele que escreve poesia.Você possui algum projeto que pretende Cada um tem seu gênero e cada leitor gosta deainda desenvolver? um tipo. O campo é vasto, porém deve existirMeu projeto maior é continuar escrevendo, certa coerência para não escrever patacoadas.tentando sempre melhorar. Existem outrosprojetos que por enquanto não vejo E para encerrar a entrevistanecessidade de divulgar. Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?De que forma você vê a cultura popular Meu primeiro desejo seria que a paz reinassenos tempos atuais de globalização? entre os homens.A globalização é muito importante para a O segundo que a fome e a miséria fossemcultura popular porque aumenta a possibilidade erradicadas da face da terra.de todos expandirem seus conhecimentos. Finalmente que a Literatura fosse maisTudo se torna mais acessível. divulgada com incentivos para que os menos favorecidos tivessem acesso constante e garantido aos livros de sua preferência. Anayde Beiriz (Carta de Amor)A carta é de 4 de julho de 1926. desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida,“(...) O amor que não se sente capaz de um nobremente, em outras, pelas forças vitoriosassacrifício não é amor; será, quando muito, da inteligência, da vontade, superiormentedesejo grosseiro, expressão bestial dos dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ouinstintos, incontinência desvairada dos sentido, pelo poder selético e dignificador da cultura.que morre com o objetivar-te, sem lograratingir aquela atura onde a vida se torna um Não amamos num homem apenas a plástica ouenlevo, um doce arrebatamento, a o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós,transfiguração estética da realidade... E eu não as mulheres, não temos meio termo no amor;quero amar, não quero ser amada assim... não amamos as linhas, as formas, o espírito ouPorque quando tudo estivesse findo, quando o essa alguma coisa de indefinível que arrastadesejo morresse, em nós só ficaria o tédio; vocês, homens, para um ente cuja posse é paranem a saudade faria reviver em nossos vocês um sonho ou raia às lides do impossível.corações a lembrança dos dias findos, dos dias Não, meu Hery, não é assim que as mulheresde volúpia de gozo efêmero, que na nossa amam. Amam na plenitude do ser e nessefebre de amor sensual tínhamos sonhado sentimento concentram, por vezes, todas aseternos. forças da sua individualidade física ou moral.Mas não me julgues por isto diferente das É pois assim que eu te amo, querido; e porqueoutras mulheres; há, em todas nós, o mesmo te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-instinto, a mesma animalidade primitiva, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 93te que sejas paciente. O tempo passa lento, e a maneira de vivenciar o amor livre causarammas passa... escândalo. Em 1928, iniciou seu romance com o...E porque ele passa, e porque a noite já vai deputado João Dantas, que era adversário dealta, é-me preciso terminar. João Pessoa, candidato à presidência da Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltasAdeus. Beija-te longamente, Anayde” importantes. A chamada política do "café com––––––––––––––––– leite" centralizava o poder entre os Estados deUma das cartas de Anayde Beiriz a Heriberto São Paulo e Minas Gerais. O bloco político, doPaiva é bastante revelador da personalidade ao qual a Paraíba fazia parte, interveio nasmesmo tempo romântico e ousada da disputas políticas, que se tornaram violentas eprofessora paraibana. as questões pessoais se misturaram às questões da vida pública.Anayde Beiriz A ligação amorosa entre João Dantas e Anayde Beiriz (João Pessoa, 18 de Anayde Beiriz não era bem vista pela hipocrisiafevereiro de 1905 — Recife, 22 de outubro de social, uma vez que não eram casados. Prato1930) foi uma professora e poetisa brasileira. feito para os inimigos políticos de João Dantas, O seu nome está ligado à História da que sob as ordens de João Pessoa, arrombaramParaíba, devido à tragédia em que foi a casa, apropriaram-se da correspondênciaenvolvida, juntamente com o advogado e erótica do casal e publicaram-na nos jornais dajornalista João Duarte Dantas, com quem cidade. Sensual e libertária, Anayde foimantinha um relacionamento amoroso. duramente exposta à sociedade paraibana. O Poetisa e professora, ela escandalizou a que era uma invasão de cunho político,sociedade retrógrada da Paraíba com o seu mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno devanguardismo: usava pintura, cabelos curtos, uma grande paixão, vivida às escondidas.saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar No dia 26 de julho, João Dantas, furiosonem ter filhos, escrevia versos que causavam com a publicação de suas cartas de amor,impacto na intelectualidade paraibana e correu pela cidade atrás do mandante e aoescrevia para os jornais. encontrá-lo disse: "Sou João Duarte Dantas, a Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João quem tanto injuriaste e ofendeste". Matou comPessoa. Diplomou-se pela Escola Normal em três tiros João Pessoa e logo em seguida foi1922, com apenas 17 anos, destacando-se preso. Este ocorrido serviu de pivô para umacomo primeira aluna da turma. Passou, assim, convulsão nacional que sucumbiu na Revoluçãoa lecionar, alfabetizando os pescadores da de 30. A morte de João Pessoa comoveu todo oentão vila de Cabedelo. Além de normalista, era Brasil, pois ele nesta época já era muitopoeta e amante das artes. Logo que se formou, famoso, ao ter concorrido à presidência comopassou a lecionar na colônia de pescadores vice de Getúlio Vargas. Em outubro daqueleperto de sua cidade natal. Em 1925, ganhou ano o movimento revolucionário foi deflagradoum concurso de beleza. Circulava também nos e Anayde passou a ser perseguida e apontadameios intelectuais, onde declarava-se na rua como "a prostituta do bandido quepublicamente a favor da liberdade e da matou o presidente."autonomia feminina. Chamavam a atenção os Ela abandona sua casa e vai morar emseus olhos de cor negra, que lhe valeram o um abrigo na cidade de recife. Lá passa aapelido, em seu círculo de amizades, de "a visitar João Dantas, preso imediatamente apóspantera dos olhos dormentes". o crime. Este é achado morto nos primeiros Sendo uma mulher emancipada para os dias da Revolução, supostamente por suicídio,costumes do seu tempo, Anayde perturbou a mas em circunstâncias pouco claras. A própriasociedade conservadora da Paraíba, nos anos Anayde é encontrada morta em 22 de outubro30. Ousou exprimir uma sensibilidade que daquele ano, supostamente porchocou o modelo de moralidade prevalente: sua envenenamento, sendo enterrada comomaneira de se vestir (o uso dos decotes), o indigente no cemitério de Santo Amaro, e suacorte dos cabelos, "à la garçonne", que eram memória foi renegada durante anos pelospintados, as suas idéias políticas (quando as paraibanos. Sua imagem só se tronoumulheres não tinham sequer o direito ao voto) emblemática quando foi elegida como uma das Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 94personagens míticas da história do Brasil, pelo Heriberto passou a chamá-la também demovimento feminista. Mas, até hoje, sua “pantera”, desde que ela lhe escreveu: “Amemória causa desconforto naquela região. pantera é bem humana, não é verdade, amor? Quase todas as cartas do diário deixam Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti;explícitas que a grande paixão de Anayde não mas, para os outros. Eu queria poder esmagá-foi o advogado João Dantas, mas o médico los, a todos... Contudo, gostei desse título deparaibano, que foi morar no Rio de Janeiro, e a fera que eles me deram; escrevi um conto comquem ela chamava de “Hery”. Já o nome esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’.“Panthera dos olhos dormentes” era como Creio que brevemente será publicado”.amigos de Anayde já a chamavam antes dela Hoje, a sua história, tematizada noconhecer Heriberto. Eles justificavam a teatro, no cinema e na literatura, instiga adesignação porque diziam que, em seus contos, pensar sobre a intersecção entre os fatos daAnayde sempre colocava uma mancha de vida privada e da vida pública, no contexto dasangue e porque ela gostava de tudo que era história nacional. A encenação da vida devermelho. Tanto que, em carta, cujo teor Anayde Beiriz nos chama a atenção para ascompleto está no livro de Marcus Aranha, "dobras do lado de dentro" da história oficial,Anayde revelou a Heriberto Paiva: “Crêem eles isto é, a dimensão do intimismo no contexto daque eu sou trágica, que gosto desse amor que experiência pública. Ficou conhecida como aqueima, dessa paixão que devora, dessa febre "Paraíba masculina, mulher-macho sim senhor".amorosa que mata...”. XX CONCURSO DE TROVAS DE VI CONCURSO DE TROVAS DA PINDAMONHANGABA UBT-MARANGUAPE/2010 Promoção: UBT-MARANGUAPE e ACLAPrazo: até 15 de abril de 2010 2010. Prazo: até 22 de maio de 2010.TEMAS: 1. TEMA E ÂMBITO:Nacional: "Multidão" a) Nacional/Internacional: “Sonhos” (L/F) eRegional: "Ninguém" (Pinda, Vale do Paraiba, “Rádio” (H)Litoral Norte e Região Serrana) b) Estadual: “Flor” (L/F) e “Cadeira(s)” (H)Estudantil: "Galera" c) Municipal: “Luz” (L/F) e “Safado(a)” (H)Máximo de 03 trovas por autor, "Sistema deEnvelopes” OBS.: Os trovadores de outros Estados/outros países poderão participar em quaisquer dos Enviar para: temas de âmbito Estadual e Municipal, como Biblioteca Municipal "Rômulo C. DArace" Participação Especial.Ladeira Barão Barão de Pindamonhangaba, S/N - Bosque 2. REQUISITOS: Trovas líricas ou filosóficas e Cep 12.401-320 humorísticas em cada um dos temas e âmbitos, Pindamonhangaba - SP inéditas, de sentido completo, rimando o 1o. verso com o 3o. e o 2o. com o 4o., sistema ABAB, devendo o tema principal constar na trova, na língua portuguesa. 3. LIMITES: No máximo uma (1) trova para cada Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 95concorrente por tema no âmbitonacional/internacional. Nos âmbitos Estadual e Prazo: 15 de junho de 2010.Municipal podem ser enviadas até duas (2) trovasp/concorrente. JOGOS FLORAIS DE4. ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS: i)Por CAMBUCI/RJ – 2010e-mail para: ubt.mpe@gmail.com, indicando o Seção de Cambuci - UBT/RJnome do autor, endereço completo, fone e CEP. Prazo: até 31 de Maio de 2010.5. PRAZO PARA REMESSA: Até 22 de maio de2010. Enviar para: ALMIR PINTO DE AZEVEDO6. CLASSIFICAÇÕES: 5 Trovas vencedoras [1º. a PRAÇA DA BANDEIRA, 79 - TEL.: (0xx) 22.5º.] / 5 Menções honrosas [6º. a 10º.] / 5 2767.2010.Menções especiais [11º a 15º.] e 5 Destaques 28.430–000- CAMBUCI – ESTADO DO RIO DE[16º. a 20º.]. JANEIRO.7. PRÊMIOS: Troféu para o 1º. colocado e diploma Âmbito Nacional e Internacionalpara cada um dos classificados, por tema e Tema: Musa (necessidade de usar a palavra doâmbito, inclusive diploma de participação tema)especial p/trovadores de outros Estados/outros Paralelamente, haverá Concursopaíses, no caso da trovas ser selecionada Municipal e Estudantilp/julgadores. A premiação está prevista para o Sistema de Envelopes.dia 24.10.2010, na sede da ACLA/Maranguape- O trovador poderá concorrer somente comCE. trova. uma única trova Premiação: 25 de Setembro de 20108. JULGAMENTO: A UBT-Maranguape formará a Troféu, Diploma, Hospedagem e Passeiocomissão julgadora do concurso. Turístico.Obs: Serão desclassificadas as trovas quefugirem aos temas propostos e/ou sem métrica, CONCURSO INTERNACIONAL DEbem como enviadas por e-mail após 22.05.2010.Pelas simples remessa das trovas o(a) LITERATURA PARA 2010.concorrente aceita as normas do presenteregulamento e autoriza a publicação das trovas. Prazo: até 15 de maio de 2010Em 15.12.2009 - Moreira Lopes/Coord. Concursode Trovas REGULAMENTOParticipe pelo e-mail: ubt.mpe@gmail.com I - DOS PRÊMIOS Art. 1.° - Ainda com a ressonância do JUBILEU DE OURO recém-comemorado JOGOS FLORAIS UBT (1958/2008), a União Brasileira de Escritores SECCIONAL MÉRIDA – (UBE-RJ) concederá, no próximo ano (2010), os seguintes prêmios literários para livros editados VENEZUELA em 2009: – Contos - PRÊMIO CLARICE LISPECTOR;Tema para os Trovadores de Língua Portuguesa: – Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS;IMENSIDÃO – Ensaio - PRÊMIO AMELIA SPARANO;Tema para os Trovadores de Língua Espanhola: – Literatura Infantil e Juvenil - PRÊMIO VIRIATOINMENSIDAD CORRÊA; – Poesia – PRÊMIO ADALGISA NERY;Enviar para: – Romance - PRÊMIO LÚCIO CARDOSO;carlosrodriguezsanchez@hotmail.com – Teatro - PRÊMIO MARTINS PENA.con copia para:carlosrodriguezsanchez@yahoo.es Parágrafo único - Para livro de contos, será concedida também Art. 2° - A critério das ComissõesPara os Trovadores dos dois idiomas, enviar as 3 Julgadoras poderão ser concedidas às obrasTrovas e junto, no mesmo e-mail, a identificação concorrentes a qualquer dos prêmios umae endereço completo). menção especial e uma menção honrosa, excetoMáximo de 3 Trovas por tema Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 96a Medalha Harry Laus que terá somente um Art. 12 - Os casos omissos no presenteganhador. Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da UBE-RJ.II - DA APRESENTAÇÃO DAS OBRASCONCORRENTES Rio de Janeiro, RJ, 30 de outubro de 2009. Art. 3° - Poderão concorrer autores de EDIR MEIRELLESquaisquer nacionalidades, desde que se Presidente da UBE-RJexpressem em língua portuguesa e tenham sidoeditados no ano de 2009. Enviar três exemplaresda obra concorrente. CONCURSOS DA UBT SÃO § 1° - O autor deverá anexar envelope PAULO - 2010 (100 ANOScontendo: título da obra, nome e endereçocompleto do autor, telefone, e-mail (se houver) e DO NASCIMENTO DE NOELsucinto curriculum vitae. ROSA) § 2° - Não haverá devolução de livrosconcorrentes. Prazo: até 30.04.2010III - DAS INSCRIÇÕES E DOS PRAZOS Art. 4° - Não há limitação quanto ao Máximo de 03 trovas por temanúmero de livros por autor, observadas asdisposições do Art. 3.° e seus parágrafos. TEMAS: Art. 5° - Os trabalhos deverão serenviados entre os dias 4 de janeiro a 15 de maio 01) Âmbito nacional/Internacional: FEITIÇOde 2010, considerando-se, no caso de remessa (Líricas/Filosóficas)pelo correio, a respectiva data da postagem. Art. 6° - Os livros concorrentes a prêmios Endereço para remessa:devem ser remetidos, em separado por categoria, Renata Paccolapara o seguinte endereço: Rua Teixeira de Rua Cafelândia, 53, Cep 01255-030, São PauloFreitas, 5, Sala 303 - Lapa, CEP 20021-350 - Riode Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se colocar no 02) Assinantes do Informativo SP: DESEJOenvelope ou embalagem o nome do prêmio a que (L/F)se destina(m) a(s) obra(s). Art. 7° - É vedada a participação de Endereço para remessa:membros da Diretoria da UBE-RJ. Domitilla Borges Beltrame Rua Batista Cepelos, 18, aptº 31, Cep 04109-IV - DAS COMISSÕES JULGADORAS E ACEITAÇÃO 120, São PauloDOS CONCORRENTES Art. 8° - As comissões julgadoras serão 03) Associados da Seção São Paulo:constituídas, cada uma, por três escritores ORVALHO (L/F)indicados pela Diretoria da União Brasileira de APITO (humorísticas)Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis asdecisões desses Colegiados. Enviar "Orvalho" para: Art. 9° - A participação no concurso Marina Brunaimplica a aceitação, por parte do concorrente, de Rua Changuá, 55, Cep 04141-070todas as exigências regulamentares, resultandoem desclassificação o não-cumprimento de Enviar "Apito" para:quaisquer destas. Héron Patrício Art. 10° - O resultado do concurso será Av.Jabaquara, 2022, aptº 81, Cep 04046-400tornado público até 90 (noventa) dias após oencerramento das inscrições, devendo a entregados prêmios ser em data e local previamente NOTAS =anunciados. 1 - Previsão das festividades de entrega de Art. 11 - Qualquer informação ou prêmios e congraçamento: 16/17 de julho.correspondência, enviar para a Secretária daUBE-RJ Margarida Finkel - Rua Malvino Ferreira 2 - Na ocasião será homenageada a Magníficade Andrade, 69, Aleixo - CEP 25900-000 – Magé, Trovadora Maria Nascimento Santos Carvalho.RJ, Brasil. E-mail: margafinkel@hotmail.com Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 97 IX CONCURSO DE TROVAS DE Estadual: SONHO CAICÓ -2010 Máximo de 03 trovas. É obrigatório o uso da palavra-tema. Cognatas não valem.A/C do poeta Manoel DantasRua: Izolda Medeiros, nº 388 - Conj. Vila doPríncipe XL JOGOS FLORAIS DE NITERÓICaicó, RN CEP: 59300-000 Caixa Postal 100.518TEMAS: Niterói/RJ, Cep 24.001-970Nac/Internacional – OCASO (s) (L/F)Estadual – FONTE (s)(L/F) TEMAS: (valendo palavras derivadas)Máximo - 2 (duas) trovas.PRAZO: 30.06.2010 Nacional/Internacional: "Palavra" Estadual: "Algemas" IV JOGOS FLORAIS DE BALNEÁRIO CAMBORIÚ/SC Máximo de 03 trovas por autor Prazo: até 31.05.2010A/C de Gislaine Canales Sistema de EnvelopesRua 4.000, nº 85, aptº 411 - Barra Sul HotelBalneário Camboriú/SC, CONCURSO DE TROVAS DECep 88.330 - 180 TAUBATÉPrazo máximo = 31.05.2010 A/C de Angélica Villela SantosMáximo de trovas por participante: 03 Rua Francisco Xavier de Assis, 36 - Jardim MorumbiÂmbito estadual: "Segredo/s" Taubaté - SP, Cep 12.060-460Restante do Brasil e países de língua Temas:portuguesa: "Vento/s" Regional e Nacional = "Mocidade""Sistema de Envelopes" Concurso Vicentino = "Esperança"Para países de língua hispânica, tema Concurso para alunos de Taubaté = "Atenção""Beso/s", os participantes deverão enviarseus trabalhos para Concurso para professores de Taubaté = "Aula"gislainecanales@gmail.com Máximo de 02 trovas por autor.Festejos de encerramento marcados para o Prazo = até 30.06.2010período de 05 a 07/11/2010. XXX CONCURSO V JOGOS FLORAIS DE ESTADUAL/NACIONAL E I CANTAGALO / RJ CONCURSO INTERNO DE TROVAS DARua Dr. Nagib Jorge de Farah, 204 ACADEMIA DE TROVAS DO RIOCantagalo / RJ, CEP 28,500-000 GRANDE DO NORTEPrazo = até 30.06.2010 NATAL/2010Temas: 1) ESTADUAL - Tema: AUSÊNCIA eNacional / Intern.: REALIDADE cognatos; Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 98coordenador: José Lucas de Barros, VERDE – (Humorístico)travessa Alda Ramalho Pereira, 1010, Tirol,Natal/RN, Estudantil para alunos de 5ª a 8ª e ensinoCEP 59014-605; médio de todas as redes de ensino2) NACIONAL – Tema: INSPIRAÇÃO e AMOR - (Lírico ou Filosófico)cognatos;coordenador: Neves de Macedo GATO - (Humorístico)rua Ribeirão Preto, 218, Gramoré, Natal/RN Os trovadores (autores de trovas) podem3) INTERNO (só para sócios efetivos e remeter até três (3) trovas, inéditas, escritascorrespondentes) – na face de envelopes 8/11, contendo no interior a identificação completa. OsTema: e cognatos; estudantes devem colocar o nome e e-mail de sua unidade escolar.coordenador: Joamir MedeirosAv. Romualdo Galvão, 968, Obs. Os temas destes concursos foramTirol, Natal/RN – 59056-100. lançados no livro dos Jogos Florais de 2009. As trovas dos concursos nacional/internacionalNúmero de trovas por concorrente: 3 deverão ser remetidas para :(três), remessa pelo sistema de envelopes,para os respectivos coordenadores. Trovador Nilton Manoel Caixa Postal 448 -centroPrazos: estadual e nacional, 30.9.2010; CEP 14001-970interno: 31.5.2010. Ribeirão Preto/SP -BRASIL XXIII JOGOS FLORAIS DE As trovas do concurso municipal deverão ser enviadas para: RIBEIRÃO PRETO Trovadora Carmen PioXI JOGOS FLORAIS ESTUDANTIS Rua Uruguai, 91 - 523 - Centro DE RIBEIRÃO PRETO Porto Alegre - RS CEP 90010-140São temas nos concursos de trovas: As trovas dos XI Jogos Florais Estudantis deNacional / internacional: Ribeirão Preto deverão ser enviadas para:VIAGEM (Lírico) Francisco Neves MacedoTURISTA (Humoristico) Rua Ribeirão Preto, 218 - Gramoré 59135-550-Natal/RNMunicipal (somente aos trovadores de RibeirãoPreto) A recepção das trovas encerrar-se-á em 3 de maio (Dia Municipal da Poesia)MADURO – ( Lirico ou filosófico) Folclore Brasileiro (O Saci) É um duende idealizado pelos indígenas perneta, de cabelos avermelhados, encantadorbrasileiros como apavorante guardião das de crianças e adultos que pertubava o silêncioflorestas. A princípio ele era um curumim das matas. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 99 Saci é o duende mais popular do Brasil. agulhas, esconde as tesourinhas de unha,Sua lenda ocorre no Sul, no Centro e no Norte embaraça os novelos de linha, faz o dedal dasdo Brasil. costureiras cair nos buracos, bota moscas na Gozando da faculdade de se sopa, queima o feijão que está no fogo, gora ostransformar, como todos os personagens ovos das ninhadas. Quando encontra um prego,elementais, ora é visto sob a forma de um vira ele de ponta pra riba para que espete o pépequeno tapuio, sozinho ou acompanhado por do primeiro que passa. Tudo que numa casauma horrível megera, ora como um negrinho acontece de ruim é sempre arte do saci. Nãounípede, de barrete vermelho que aparecia aos contente com isso, também atormenta osviajantes extraviados na floresta, mas pode cachorros, atropela as galinhas e persegue osainda, aparecer disfarçado de uma ave. Na cavalos no pasto, chupando o sangue deles. Omaioria das lendas Tupis, o Saci é encontrado saci não faz maldade grande, mas não hána forma de um pássaro. Distingue-se pelo maldade pequenina que não faça.canto, que consiste em duas sílabas: "sa-cim". Tio Barnabé continua: O cântico dos pássaros sempre esteve - Tinha anoitecido e eu estava sozinholigado ao fato da crença greco-romana dos em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, eaugúrios que se julgava poder tirar-se da depois me deu vontade de comer pipoca. Fui aliaparição, do vôo ou do canto das aves. no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem Quando os Tapuias ouviam o canto do seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus aSaci, os velhos o esconjuravam, as crianças caçarola no fogo e vim para este canto picarprocuravam o aconchego do colo de suas mães, fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro umos pais tremem, mas não negam o fumo que barulhinho que não me engana. "Vai ver que éespalham pelas cercas dos quintais, para que o saci!" - pensei comigo. - E era mesmo. Dali aSaci se cale e se retire, levando com que pouco um saci preto que nem carvão, desatisfazer o vício de fumar. carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu Em contato com o elemento africano e a na janela. Eu imediatamente me encolhi nosuperstição dos brancos, recebeu o cognome meu canto e fingi que estava dormindo. Elede Taperê, Pererê Sá Pereira, etc. Tornou-se espiou de um lado e de outro e por fim pulounegro, ganhou um gorro vermelho e um para dentro. Veio vindo, chegou pertinho decachimbo na boca. Em alguns lugares, como às mim, escutou os meus roncos e convenceu-semargens do rio São Francisco, adquiriu duas de que eu estava mesmo dormindo. Entãopenas e a personalidade de um demônio rural começou a reinar na casa. Remexeu tudo, queque faz travessuras e gosta de enganar nem mulher velha, sempre farejando o ar compessoas. É o famoso Romão ou Romãozinho. o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho Na zona fronteiriça ao Paraguai ele é começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-seum anão do tamanho de um menino de 7 a 8 para o fogão. Ficou de cócoras no cabo daanos, que gosta de roubar criaturas dos caçarola, fazendo micagens. Estava "rezando" opovoados e largá-las em lugar de difícil acesso. milho, como se diz. E adeus pipoca! Cada grãoTalvez devido aos vestígios culturais trazidos que o saci reza não rebenta mais, vira piruá.pelos bandeirantes em suas andanças pelo sul Dali saiu para bulir numa ninhada dedo Brasil, o saci mineiro recebeu, além dessas ovos que a minha carijó calçuda estavaqualidades do "Yaci-Yaterê" guarani, um chocando num balaio velho, naquele canto. Abastão, laço ou cinto, que usa como a "vara de pobre galinha quase que morreu de susto. Fezcondão" das fadas européias. Sincretizado cró, cró, cró... e voou do ninho feito uma louca,freqüentemente como o capeta, tem medo de mais arrepiada que um ouriço-cacheiro.rosários e de imagens de santos. Quando quer Resultado: o saci rezou os ovos e todosdesaparecer, transforma-se num corrupio de goraram.vento. Em seguida pôs-se a procurar o meu Através de Tio Barnabé, um dos seus pito de barro. Achou o pito naquela mesa, pôspersonagens, Monteiro Lobato descreve o Saci- uma brasinha dentro e paque, paque, paque...Pererê: tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta O saci é um diabinho de uma perna só multo do número sete.que anda solto pelo mundo, armando reinaçõesde toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 100 Eu disse cá comigo: "Deixe estar, coisa- -"Ah! nossa avó, nós não somos maisruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para gente, e sim só espíritos. Assim, sendo, nósvocê. Você há de voltar outro dia e eu te curo." teremos que te deixar, mas quando ouvires E assim aconteceu. Depois de muito cantar:virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu Tincauan...Tincauan!...foge para casa.fiquei armando o meu plano para assim que ele Mas quando cantarmos:voltasse. Ti....Ti...Ti...., então nos reconhecerás. Na sexta-feira seguinte apareceu aqui Ficaram os jovens, desde então,outra vez às mesmas horas. Espiou da janela, mudados em dois pássaros de agouro, deouviu os meus roncos fingidos, pulou para mistério e de morte. Um é Saci, o outro é odentro. Remexeu em tudo, como da primeira Matintaperera. Ambos nascidos de umavez, e depois foi atrás do pito que eu tinha tragédia, só espalham desgraças e semeiamguardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e pavores.foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxedançando nas mãos. Impondo-se à crendice popular como Tem as mãos furadinhas bem no centro um pássaro possuído pelo demônio, o Saci,da palma; quando carrega brasa, vem adquiriu feições de gente e à noite vagueavabrincando com ela, fazendo ela passar de uma pelas estradas, cantando e assobiando.para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa, Contam que nos tempos coloniais,pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas quando se avistava uma moça magra, triste,cruzadas para fumar com todo o seu sossego. pálida, logo diziam: Quando quer cruza as pernas como se - "Isso é obra de Saci", porque, segundotivesse duas! São coisas que só ele entende e os velhos colonos, as moças se apaixonavamninguém pode explicar. Cruzou as pernas e por ele, sendo a morte a conseqüênciacomeçou a tirar baforadas, uma atrás da outra, inevitável desta paixão. Daí as quadrinhasmuito satisfeito da vida. Mas de repente, puf! consagradas no folclore popular:aquele estouro e aquela fumaceira!... O sacideu tamanho pinote que foi parar lá longe, e "Menina, minha menina,saiu ventando pela janela fora. Quem te fez tão triste assim? Eu tinha socado pólvora no fundo do De certo foi Sacipito – exclamou tio Barnabé, dando uma risada Que flor te fez do seu jardim."gostosa. – A pólvora explodiu justamentequando ele estava dando a fumaçada número Sua imagem e sua lenda, sofreramsete, e o saci, com a cara toda sapecada, transformações quando em contato comraspou-se para nunca mais voltar. elementos africanos e europeus. Suas características comportaram muitas variantes.LENDA DA ORIGEM INDÍGENA DO SACI Cada qual o vê a seu modo. De suas diabruras foram narradas coisas espantosas. Não se têm Um tuixaua tinha dois filhos. O tio conta do número de molecagens e sortilégiosodiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá- que o diabinho infantil praticou. À noite davalo em uma derrubada de árvores para fazer um nó na crina dos cavalos, roubava os ninhos dasplantio. Os dois sobrinhos aceitaram. galinhas, cuspia nas panelas quando a Chegando na floresta, o tio embriagou cozinheira era preta, deixava as porteirasos jovens e os assassinou por pura maldade. abertas, assobiava como o vento nas janelas e Depois um dos assassinados perguntou nas portas, etc.ao outro: O cavalo era uma das suas vítimas -"Eu tive um sonho muito estranho e tu preferidas. Segundo a crendice popular, o Sacio que sonhaste?" corre as pastagens, lança um cipó no animal -"Sonhei, diz o outro, que nos escolhido e nunca errou, trança-lhe a crina paralavávamos com carajuru". amarrar com ela o estribo e, de um salto, ei-lo -"O mesmo sonhei eu". montado. O cavalo toma-se de pânico e deita a E resolveram voltar para a casa da avó. corcovear campo a fora, enquanto o Saci lheVendo-os, a velha já ia aquecer o jantar, mas finca o dente no pescoço e chupa seu sangue.os dois netos disseram: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 101 Uma curiosidade em relação ao Saci- exemplo, os da Escócia, com os quis, segundoPererê é que ele pode tornar-se invisível com o Ramiz Galvão, muito se assemelha o "Trilby",uso do sua carapuça vermelha. Contam alguns, do conto de Nodier e o diabrete "Robin", deque onde se forma um redemoinho de vento que nos fala Shakespeare, ora tão prestativo eque levanta muito poeira (pé de vento), é certo ora tão perverso para com a gente da casa emque dentro dele há um Saci. Para capturá-lo, que se instala."deve-se jogar dentro dele um rosário ou uma Há também ainda, quem lhe pinte compeneira. Todo o Saci, como todo o diabinho, feições mais perversas, descrevendo-o como otem horror de cruz. Já outros, afirmam que ele "terror dos caçadores", que salta à garupa dosusa um barrete feito de marrequinhas (flores da cavaleiros, chibatando-os e torturando-os.corticeira) e é o Saci que governa as moscas Foi Monteiro Lobato em seu livro "Oimportunas, as mutucas e os mosquitos. Saci", quem mais popularizou este personagem, como uma entidade travessa. Conta-nos queMas porque nosso Saci tem uma perna ele nascia em um local da floresta conhecidasó? como "sacizeiros", constituída de bambuzais. Desse local só sairá quando completar 7 anos e O Saci é considerado um fiel viverá até os 77.representante de um período social da história Mas mesmo Lobato não conseguiu comdo Brasil: a época da escravidão. Portanto, não sua obra apagar os traços estigmatizantes doé por acaso que o Saci apresenta-se com uma Saci, pois a mentalidade da escravidão aindaperna só, pois todos os escravos fugidos que era muito forte. Tais marcas só desaparecemeram recapturados passavam por muitas bem mais tarde, quando a indústria culturaltorturas e muitas vezes eram esquartejados. O consegue domesticar o Saci e torná-lo tãoSaci retrata este negro escravo em sua luta somente um molequinho arteiro, que perdeucontra o dominador e o discriminador. A falta seus poderes mágicos e sua agressividade.da perna não é só metáfora, mas sim algo que Serão suas travessura que lherealmente acontecia nesta época e passou para garantirão popularidade em todo o País e forao folclore a partir das amas negras, ao dele também. Conheça um pouco da suacontarem suas estórias para embalar os sonhos estória....das crianças brancas. Com o passar do tempo, a imagem do O SACI E A PERNA DE PAUSaci rebelde e desordeiro, foi amenizada,forçosamente controlada e passou então para Conta-se que numa noite, há muitoestória brasileira como um símbolo nacional, tempo atrás, em que outros homens seum mestiço que une classes sociais e as etnias. divertiam jogando e bebendo, um deles,Mas sabemos que a verdade não é bem chamado Felício, resolveu dar umas voltar e seessa....! deliciar com o luar. Sentou-se num grosso O valioso livro "Contos Populares" de tronco de ipê, a beira do riacho e começou aLindolfo Gomes, conta-nos um curioso caso, em preparar um "pito". Foi quando ouviu umaque domina o Saci. E, das eruditas notas vozinha:explicativas, transcrevemos: - "Moço, tem um pouco de fumo aí?". "A respeito do Saci, há uns que afirmam Pensando que fosse um de seus amigos,ser um negrinho de uma banda, ou de uma virou-se para responder, quando deu com operna só, gênio em alguns casos benfazejo e Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinhoprotetor e em outros, perverso e malfazejo, que vazio.vaga à noite pelas estradas a perseguir os Felício, ficou branco, depois verde, umviajantes ou penetrar nos lares para praticar arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quistoda a sorte de malefícios e acender seu gritar, mas sua voz sumiu por encanto, oucachimbo, sempre armado de um cacetinho, medo mesmo. O Saci chegou mais perto epronto a descarregá-lo no lombo alheio. Já para disse:outros, o Saci é um passarinho cabuloso e - "Não tenha medo, meu amigo. Sómaléfico. Percebe-se logo que este mito saci foi quero um pouco de fumo."com o decorrer dos tempos se ampliando de Felício faz um esforço danado e tira doelementos míticos estranhos, como por bolso um pedaço de fumo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 102 - "Aqui está!". Diz ele ao Saci, mal Felício saiu atrás dos homens. Gritou umconseguindo balbuciar as palavras. tempão até conseguir reunir todos. Eles não - "Assim não serve. Respondeu o queriam ficar mais no barracão. Não queriamdiabinho. "Tem que ser picado, pois não tenho nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele?canivete". Nem sonhando! Mas acabaram concordando, Com medo de irritar o Saci, o pobre pois era a única maneira de se livrar dohomem tratou de fazer rapidinho o que ele lhe diabinho.pediu. Depois, com muito sacrifício, Felício deu Trabalharam com afinco. No diao fumo ao Saci. marcado, o Saci voltou e ficou muito contente. - "Encha o pito!" Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a - "Agora acenda!". Ordenou ele. estória acaba assim? Que nada! Ele falou que O Saci passou então, a dar baforadas de desejava uma perna para cada Saci de suasatisfação. Passados alguns minutos, o família. Não esperou resposta, deu um assobiodanadinho chegou mais perto e perguntou a e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claroFelício o que estava fazendo tão longe de casa. que Felício ficou sozinho! Não vendo outraFelício explicou então que trabalhava com saída, ele concordou em fazer as pernas demadeiras e foi contando sua história... No final pau, mas ia levar anos. Quis saber então quaiso Saci deu uma grande risada e disse: os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim - "Madeira, não é mesmo? Pois é o tumulto foi grande, ninguém queria ser ojustamente o que eu estava procurando..." último. - "Mas para que?" Pergunta Felício. Foi quando Felício teve uma idéia. Ele - "Olhe, pois vou lhe confessar uma viu uma enorme arca que haviam trazido paracoisa, as vezes tenho muita vontade de ser deixar no rancho e mentalmente resolveu acomo as outras pessoas e ter duas pernas, situação.entende? Dirigiu-se ao Saci-chefe: - "Ah!". Respondeu, compreendendo a - "O melhor modo de resolver quaisintenção do Saci. "Você quer que eu lhe faça serão os primeiros é este..." Pegou umuma perna de pau, não é mesmo?" punhado de feijão e esparramou no fundo da - "Pois é isso mesmo e te darei três dias arca. Depois disse que quem pegasse maispara que esteja pronta, senão não darei grãos seriam os primeiros. Todos os Sacissossego a você e seus companheiros!" Em concordaram e mergulharam na arca. Masseguida saiu pulando e sumiu no meio do mato. Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi Felício voltou ao seu barracão e contou quando então tirou-lhe da mão a perna de pauaos companheiros o acontecido. Uns e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou eacreditaram ,outros acharam que tinha bebido também se jogou dentro da arca. O Felíciodemais.. Até que Felício acabou esquecendo o então fechou-a. Chamou os homens e levaramcaso. No terceiro dia, conforme prometido, a arca o mais longe possível. Desde entãoquando os homens estavam em pleno trabalho, nenhum Saci apareceu mais por aquelaseis que um menino de gorro vermelho surge à bandas.porta do barracão. Quando deram com ----------------------------ele..vocês nem podem imaginar..uns Em seu O Sacy-Perêrê – Resultado deempurravam os outros, caiam, levantavam-se e um inquerito , Monteiro Lobato faz um retratoacabaram saindo todos pela abertura da janela. falado do Saci, conforme lhe foi passado porApenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí entendidos no assunto:perguntou: Só no convívio do sertanejo, valente de - "O que você quer?" dia e medroso de noite, ao som da viola num - "Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar rancho de tropeiros, vendo bruxolear aminha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer fogueirinha e, fóra, na imprimadura daque ainda não está pronta?" escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até um artista poderá “ouvir e entender” sacys.que consegui dizer que ainda não estava O medinho contagioso abrir-lhe-á todaspronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou as valvulas da comprehensão. E saberá pelaindo embora com a promessa que tudo estaria boca ingenuamente credula do Geca Tatu quepronto dentro de mais três dias. tempéra a viola que o Sacy é um molecote Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 103damninho, cabrinha malvado, amigo de montar pássaro-Saci se convertem um no outro ou seem pêllo nos “animaes” soltos no pasto e trabalham em sociedade...sugar-lhes o sangue emquanto os pobres Já Alceu Maynard Araújo, no primeirobichos se exhaurem em correria desapoderada, volume de Folclore Nacional , cita o majoràs tontas, loucos de pavor. E que em dias de Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz dovento elle passa pinoteando nos remoinhos de Paraitinga, evidentemente:poeira. E que nessa ocasião basta lançar no Conhecemos três espécies de Saci:turbilhão um rosario de caiapiá para tel-o trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontradocaptivo e a seu serviço como um criadinho por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho deinvisível. E saberá mil particularidades mais, uma perna só, capuz vermelho na cabeça eouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos, que, segundo alguns, usa cachimbo, mas euou dentro de casa se uma cruz na porta nunca vi. É comum ouvir-se no mato umprincipal não a proteje do capeta. E ficará “trique”isso é sinal que por ali deve estar umencantado com a psychologia do pernetinha, Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só decuja mania é atazanar a vida do sertanejo com fazer certas brincadeiras como, por exemplo,molecagens de todo o genero sem entretanto amarrar o rabo de animais.cahir em excessos de perversidade. Não tem O saçurá é um negrinho de olhosmaus bofes, o Sacy. O que quer é divertir-se a vermelhos; o trique é moreninho e com umacusta do caboclo e quebrar a vida monótona do perna só; o pererê é um pretinho que, quandosertão. quer se esconder, vira um corrupio de vento e Mas há controvérsias. desaparece no espaço. Para se apanhar o Na Geografia dos Mitos Brasileiros , pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio deCâmara Cascudo cita uma passagem de vento.Poranduba Amazonense em que Barbosa Quando se perde qualquer objeto, pega-Rodrigues vê a identidade do insigne perneta se uma palha e dá-se três nós, pois se estáse sobrepor à de uma ave, o popularíssimo amarrando o órgão genital do Saci. Enquanto“Pássaro-Saci”: ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele ... no Sul é Saci tapereré, no Centro logo faz a gente encontrar o que se perdeuCaipora e no Norte Maty-taperê. porque fica com vontade de urinar. Quando se O civilizado, que muitas vezes não vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Sacientende a pronúncia do sertanejo, que é o mais quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci-perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe pererê, ele trará para quem o devolva tudo oalterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, que quiser.Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um Quando passar o redemoinho de vento,nome português, o de Matinta-Pereira, que jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci.mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva” Há outras versões: dizem que jogando-se umou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-sesuas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci uma peneira, fica nela.ou Mati metamorfoseado em pássaro, que sedenuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, Um ancestral do Saciora graves ora agudas, iludem o caminhanteque não pode assim descobrir-lhe o pouso Pesquisando sobre a origem eporque, quando procura vê-lo pelas notas abrangência geográfica do saci, me aventureigraves, que parecem indicar-lhe estar o Saci por livros e enciclopédias de folclore. Emboraperto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E todos os continentes tenham duendesassim, iludido pelo canto se perde, leva protetores das florestas, nenhum tem asdescaminho nunca vendo o animal. características de nosso simpático unípede. Um adendo. Gabriel Esquerra, um Nem mesmo na África negra descobri parentessociólogo argentino, diz existir uma dúvida do saci, o que delimita seu habitat natural àpolêmica, entre a população de Misiones, na América do Sul.região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, Os guaranis contam histórias de umquanto à questão levantada por Barbosa pequeno índio meio mágico, com o poder deRodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o ficar invisível, que vive nos bosques e protege os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 104nome é Cambai ou Cambay, e curiosamente ele Um saci estranhíssimo! Diz o texto, umtem uma perna torta, e anda manquitolando. relato dos primeiros desbravadores, que eleVem daí a expressão cambaio, que significa assim agia para se proteger do sol naquelamanco, em português. Cambai pode ser região desértica. Foi chamado de “patagon”considerado um ancestral do saci moderno, que (grande pata, pezão), e daí deriva o nome daadquire a cor preta por influência da cultura região: Patagônia. Como hoje não há maisafro trazida para o Brasil. relatos sobre sua presença, podemos supor que Nas lendas amazônicas ou litorâneas está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança(aruaques, tupinambás) não há registros de com o nosso saci revela que foi um parentesaci, o que nos leva à conclusão de que ele é próximo, um antepassado igualmente sul-originário do Centro-Sul do país - área guarani - americano.tendo como centro de irradiação o Vale doParaíba, onde registramos a maior parte dasocorrências. Quando já considerava encerrada apesquisa deparei com um fato assombroso, quepasso agora a relatar. Viajantes do século XVII,explorando o extremo sul do continente,chegaram às terras geladas da Terra do Fogo,onde encontraram uns poucos índios, altos efortes, habituados à aridez do solo e àinclemência do tempo. Uma rara ilustração daépoca, encontrada num livro espanhol, revelaum pequeno homem, nu, barbado, deitado nochão com sua única perna erguida e umenorme pé sobre a cabeça. ESTANTE DE LIVROSO garatuja: crônica dos tempos coloniais O guaraniAlencar, José de Alencar, José de O romance é ambientado na cidade de São A branca Ceci se apaixona pelo índioSebastião do Rio de Janeiro, em meados do Peri, numa tragédia típica da época dasséculo XVII, integrando uma trilogia publicada Bandeiras. O enredo, do mais famoso livro deem 1873, com o título de Alfarrábios. Alencar, já serviu para movimentar filmes,Ivo, personagem principal, nasceu de um óperas e novelas.relacionamento conjugal e é enjeitado pela Iracema: a lenda do Cearásociedade. Vive uma história de amor inocente, Alencar, José deescondida dos pais da moça, e participa Lenda cearense que conta a história daativamente das peripécias políticas nas Tabajara Iracema e do colonizador Martim, deconstantes intrigas entre a Coroa e a Igreja, as cujo amor nasce Moacir. Relato poético sobre aprincipais instituições da época. Ele, porém, vida dos indígenas e dos homens brancos.não é uma pessoa comum. Possui grandetalento para o desenho, daí o apelido de Lucíola"Garatuja". Suas caricaturas, rabiscadas nos Alencar, José de Alencarmuros da cidade, são um dos elementos que A linda Lúcia não se enquadrava nosconduzem o enredo. Nenhum outro preconceitos dos sonhos de Paulo. No Rio depersonagem é capaz de compreendê-lo e até Janeiro de cem anos atrás, mundano, frívolo,comentam que ele tem parte com o diabo, fato materialista, Lúcia era a mundana, a frívola, aque acaba contribuindo para sua expulsão do materialista. E, por amor, os sonhos de Paulocolégio dos jesuítas. tiveram de se adaptar à realidade de Lucíola. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 105Aos poucos, essa realidade revelou-se muito, forma a tornar a história mais acessível emuito melhor do que os sonhos. divertida aos adolescentes.Senhora Memórias de um Sargento de MilíciasAlencar, José de Almeida, Manoel Antônio de Aurélia, uma personagem feminina Crônica semi-histórica de amores euniversal. Criada há mais de cem anos, tornou- aventuras no Rio de Janeiro de Dom João VI. Ose real, adquirindo uma existência mais sólida livro retrata a sociedade brasileira no início dodo que se tivesse existido em carne e osso. Em século XIX, por meio das peripécias docarne e sangue. Em carne e charme. Em carne vivaldino Leonardo.e verdade. Nesse romance, José de Alencarparecia antever o debate feminista do século ABC de Castro AlvesXX, ao criar uma personagem jovem, mas forte, Amado, Jorgeque procura impor sua condição de mulher no A biografia sentimental do poeta baianomundo masculino, onde todas as decisões são Antônio Castro Alves serve para que o autor setomadas pelos homens. E pelo dinheiro. coloque como um de seus discípulos eO sertanejo transforma o poeta romântico em um profetaAlencar, José de revolucionário. Os dias e os trabalhos do vaqueirocearense Arnaldo traçam um painel do A descoberta da América pelos turcosNordeste brasileiro no último romance Amado, Jorgepublicado em vida por José de Alencar. Em 1922, Jorge Amado lançou a história da chegada do árabe Jamil Bichara à Itabuna,Til no início do século XX. Foi a sua forma de falarAlencar, José de sobre os 500 anos da descoberta da América O desejo de vingança do capanga sem deixar de ser original e regional.profissional João Fera e a vida rural do BrasilImperial, são os temas desse romance de Dona Flor e seus dois maridosaventura do autor cearense. Amado, JorgeUbirajara Florípedes, a Dona Flor, é professora deAlencar, José de culinária da escola Sabor & Arte e perde seu A continuação de Iracema conta as primeiro marido, Vadinho, malandroguerras indígenas no Nordeste do Brasil antes incorrigível, em pleno domingo de carnaval.do Descobrimento. Como ainda é jovem e bonita atrai a atenção do corretíssimo farmacêutico Teodoro e casa-seMergulho no fim com ele. As diferenças entre os dois maridosAlge, Nilo são gritantes. O fantasma de Vadinho passa a Marcos é convidado para jantar na casa se entrometer na vida (e na cama) de D.Flor ede seu amigo Jorge. Entre os presentes está Teodoro.um velho professor de Biologia, ainda dostempos em que eram estudantes. Os A morte e a morte de Quincas Berroconvidados passam a suspeitar das pesquisas D’Águafeitas pelo cientista e a temer pelo destino da Amado, Jorgehumanidade, após a divulgação do que ele vem O respeitável Joaquim Soares da Cunha,trazendo em segredo, segredo este somente funcionário público exemplar, rompe com acompartilhado por sua jovem assistente. família e as convenções sociais para viver aventuras no porto e na zona de meretrício deAs viagens de Marco Polo Salvador.Almeida, Lúcia Machado Os pastores da noite O livro baseia-se nas viagens e Amado, Jorgeaventuras do célebre navegador italiano da Personagens inesquecíveis nesta tramaIdade Média, narrado de forma mais viva pela que conta o dia-a-dia de um morro emautora e tendo Marco Polo como herói, de Salvador. O cabo Martim está para se casar Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 106com Marialva, mas uma dona de bordel tem Uma trama de lutas, violência e paixãorazão para desconfiar da moça. na zona baiana do cacau, construída com leveza, humor e sensualidade.São Jorge dos IlhéusAmado, Jorge Macunaíma: o herói sem nenhum caráter Continuação do livro “Terras do sem Andrade, Mário defim”. A segunda geração de homens que Crítica social e política através deconquistaram a terra, a política, os seres alegorias e simbologia. O autor usa grandehumanos, a decadência do cacau. Intrigas, quantidade de palavras indígenas.amor e paixões. A face horrívelO sumiço da santa: uma história de Ângelo, Ivanfeitiçaria Contos que manifestam ao primeiroAmado, Jorge exame, a essência de todo o texto irônico. A Dono de um estilo inconfundível, Jorge atração inicial ou a criação de uma expectativa,Amado reforça, neste livro, sua posição de segue-se a traição ou a frustração dessaartista fortemente identificado com o espírito expectativa. O elemento surpresa está semprecultural baiano. O humor, a malícia e a presente, geralmente oculto sob a poeira finainfluência do autor fazem deste romance uma do cotidiano.obra-prima. A história conta a visita de SantaBárbara , Yansã no candomblé, à cidade de O cortiçoSalvador. Ela se mistura ao povo e interfere na Azevedo, Aluísiovida de duas de suas filhas. Um dos mais conhecidos e expressivos romances da escola naturalista brasileira,Tenda dos milagres retrata a vida numa habitação coletiva do RioAmado, Jorge de Janeiro na época da escravatura. Seus Um painel social e político da Bahia, personagens típicos, as pequenas trapaças edesde o fim do século XIX até a Segunda violências surgem aos olhos do leitor em coresGuerra Mundial. O centro do romance é a vida vivas e lances emocionantes. O autor pinta ode Pedro Arcanjo, um personagem fascinante retrato de todo um processo de transformaçãoque luta pela afirmação da cultura afro- econômica e social que ocorreu com abrasileira e pela dignidade social do negro expansão urbana da antiga capital do país.enfrentando os preconceitos e a repressão Publicado em 1890, por muito tempo estepolicial. romance foi considerado escandaloso.Terras do sem fim Noite na tavernaAmado, Jorge Azevedo, Álvares Romance sobre o ciclo do cacau na Proporciona ao leitor uma viagem aoBahia. O poder absoluto dos coronéis na mundo fantástico da melancolia e morbidez queconquista das terras, domina tudo e todos pela caracterizam a época em que viveu Alvares deforça. Este livro tem continuação em “São Jorge Azevedo. Numa taverna, um grupo dedos Ilhéus”. conhecidos reúne-se para espantar o tédio com o vinho nos lábios e contos macabros afluindoTieta do agreste na mente.Amado, Jorge Expulsa do lugarejo onde nasceu, após Cara nova ou beleza puradecorrer vários anos, Tieta retorna rica e Bloch, Pedropoderosa, guardando um segredo. Todos Pedro Bloch realiza uma viagem nestatemem uma possível vingança, ao mesmo sociedade moderna. É um desafio aos leitorestempo que se defrontam com os costumes para que reflitam sobre o consumismo, oousados de uma mulher que não temia nada. modismo, os conflitos de diversos perfis psicológicos, sobre os seus própriosTocaia grande: a face obscura sentimentos e atitudes.Amado, Jorge Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 107Amor de perdição Eduardo Bueno leva o leitor a bordo daBranco, Camilo Castelo esquadra de Cabral onde será conhecida cada O drama mais passional da língua etapa decisiva que culmina na chegada dosportuguesa, onde o autoritarismo e o portugueses ao Brasil.preconceito impedem a avassaladora paixão Mauá, empresário do Impériobanida:Teresa, para um convento e Simão, Caldeira, Jorgepara o degredo nas Índias. Em segredo, Biografia de Irineu Evangelista deMariana ama Simão, que não sabe desse amor. Sousa, Barão e Visconde de Mauá, queEle só tem sentidos para a sua inatingível começou sua vida como caixeiro e foiTeresa. Resignada, Mariana ajuda o amor de surpreendendo, enriquecendo e assustando aSimão por sua rival, fazendo despontar a todos numa sociedade de senhores e escravos,tragédia. Uma história de extremos. favores e conchavos. Trabalhou até o final daCapitães do Brasil – A saga dos primeiros vida e protagonizou uma aventura empresarialcolonizadores sem paralelo em qualquer outro momento daBueno, Eduardo história do Brasil. Que homens receberam os imensos A expedição Montaignelotes da nova colônia portuguesa – as Callado, Antoniochamadas capitanias hereditárias? Por que Disposto a organizar, no coração doforam eleitos donatários e que missão, Brasil, um exército de índios, rebelando-osrealmente, viriam a cumprir? A saga dos contra os brancos, o jornalista Vicentino Beirãoprimeiros capitães do Brasil, entre 1530 e 1550, arrasta com ele, na louca empresa, o camaiurárevela o jogo do poder e ambição da Coroa Ipavu (ou Paiap),portuguesa, e seu projeto para a colonizaçãoda margem oriental do Atlântico, abandonada tirado por ele do reformatório (ou presídio) dedesde o descobrimento. Crenape. O Resultado da expedição é surpreendente.O descobrimento das ÍndiasBueno, Eduardo Cartas do meu moinho O diário perdido da viagem de Vasco da Campos, Paulo MendesGama, escrito pelo marinheiro Álvaro Velho, é Um escritor que mora em um moinho deeditado pela primeira vez no Brasil numa versão pás móveis, observa os tipos humanos e asatualizada e com prefácio do jornalista Eduardo paisagens da Provença. Uma coletânea deBueno. O livro é o relato dramático da rota feita contos escritos por autor perspicaz e sensível.pelo navegador Vasco da Gama, de Lisboa até Bilac vê estrelasCalicute, sendo um documento precioso para Castro, Ruyquem gosta de história e aventura. Rio de Janeiro, 1903. Olavo Bilac está em seu posto de observação na calçada daNáufragos , traficantes e degredados Confeitaria Colombo. Com a própria glóriaBueno, Eduardo garantida, só uma coisa o preocupa: como é O livro conta a saga dos primeiros efêmera a glória alheia. Seu amigo José dobrasileiros, os esquecidos náufragos e Patrocínio, grande jornalista da Abolição, podeaventureiros que desbravaram nossas terras e ter sido encontrado morto em Paquetá. Bilac setravaram contato com os índios durante os mete numa trama envolvendo um fabulosoanos 1500 a 1530, um período obscuro da dirigível, inventado por Patrocínio e objeto daHistória do Brasil. cobiça de dois aeronautas franceses e de umaA viagem do descobrimento traiçoeira espiã portuguesa. Na tentativa de seBueno, Eduardo apoderar dos planos do balão, a espiã e seu A partir de ampla pesquisa em cúmplice, fazem Bilac literalmente ver estrelasdocumentos da época e em textos de com uma bengalada na cabeça, que o leva aoestudiosos no assunto, o autor revisita espaço e ao Olimpo. O cenário e a época sãoimportante tema da nossa história: o reais: boa parte da história se passa nas ruasdescobrimento do Brasil. Num texto bem do Rio durante a agitada Belle Époque carioca.humorado, repleto de casos pitorescos, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 108Bilac vê estrelas é a estréia de Ruy Castro na O silêncio da chuvaficção. Garcia-Roza, Luiz A. No centro do Rio de Janeiro umBrasil 5 séculos executivo é encontrado morto sentado aoDonato, Hernâni volante de seu carro. Além de um tiro único, História do Brasil escrita de uma não há outros sinais de violência. Ninguém viumaneira justa, onde a verdade não sofre nada, ninguém ouviu nada. O policialinfluência das diferentes doutrinas tão encarregado do caso, inspetor Espinoza,numerosas no século XX e que muito costuma refletir sobre a vida olhando o mar,influenciaram os rumos da humanidade. sentado em um banco da praça Mauá e noÉramos seis momento tem muito sobre o que refletir. DeDupré, Maria José um lado, um morto surgido num edifício- A luta e o destino de uma família muito garagem; de outro, a incessante multiplicaçãounida, na São Paulo dos anos 30 e 40. de protagonistas do drama. Tudo se complica quando ocorre outro assassinato e pessoasSinhá moça começam a sumir.Fernandes, Maria Dezone Pacheco Romance de amor, no tempo da luta Anarquistas graças a Deuscontra a escravidão negra no Brasil. Gattai, ZéliaDe Virgolino a Lampião Autobiografia. A indomável coragem deFerreira, Vera / Amaury, Antonio uma gente sofrida. Imigrantes italianos em São Paulo, suas dificuldades, lutas e alegrias na Neste livro, os autores procuram sobrevivência na grande metrópole. (Sugestão:mostrar a história real de Lampião, o “Rei do ler em seguida “Um chapéu para viagem”.)Cangaço”, esclarecendo a verdade dos fatos eseparando a ficção da realidade, de uma forma Jardim de invernoclara, objetiva e imparcial. Gattai, ZéliaTratado geral dos chatos Um outro sucesso da autora, ondeFigueiredo, Guilherme de Oliveira aborda a Guerra fria, a vida na Tchecoslováquia, a perseguição à comunistas A humanidade está chata. O Brasil está devotados. Um livro politicamente oportuno.chato. A chatura cresce a olhos vistos e seespalha sobre nós. Não liqüidaremos com a Fase terminalchatura, mas aprendemos a conhecê-la em Gomes, Alvaro Cardosotodas as suas múltiplas facetas, pois assimestabeleceremos as regras de convivência Para cada problema um antídotosuportável que nos reconduzem à proposição estimulante. Para o tédio e a falta deinicial, "O chato não se chateia", e isso nos perspectiva: louvor ao perigo e à violência. Parapermitirá, como último gesto de esperança, a perda do afeto, da compreensão e dobradar: Chatos de todo mundo, uni-vos! diálogo: drogas e pichações. Esse era o cotidiano de Teto, Kika e Caco, antes daO doente Molière doença de Vado, companheiro de aventuras.Fonseca, Rubem Centrados em si mesmos, os três desconheciam as dificuldades daqueles que trabalham para Dando continuidade à proposta da sobreviver. Desconheciam, principalmente, ocoleção literatura ou morte, Rubem Fonseca poder destruidor da AIDS. Onde buscarescolheu Molière para compor este policial que antídotos para a fragilidade humana?se passa na corte de Luis XIV. Após umaapresentação da peça “ O doente imaginário “, A escrava IsauraMolière sente-se mal e, agonizante, revela a Guimarães, Bernardoseu amigo que foi envenenado. Na busca peloassassino, o leitor passeia pela França Isaura nasceu branca, mas nasceu nasetecentista e ainda tem o prazer de “assistir” senzala. Nasceu escrava, destinada a uma vidaàs peças do dramaturgo. de miséria, de humilhação, ao fim da qual só a esperava uma morte cruel como a de sua mãe. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 109Linda, capaz de sobreviver em meio às moças Um pássaro em pânicomais aristocráticas do Recife, Isaura desperta a José, Eliaspaixão abjeta do fazendeiro Leôncio, seu Contos onde se misturam realidade e“dono” de direito. Mas desperta também o fantasia.amor puro de Álvaro. O feijão e o sonhoO seminarista Lessa, OrígenesGuimarães, Bernardo Romance que narra a história do poeta Tornar-se padre e internar-se em um Campos Lara, professor de uma pequenaseminário pela imposição dos pais, quando lá cidade do interior paulista, dividido entre ofora está Margarida, sua paixão. universo sensível da poesia e as amargas necessidades do cotidiano.Grande sertão: veredasGuimarães Rosa, João A pedra no sapato do herói O único romance do escritor mineiro Lessa, Orígenesconta, em linguagem perturbadora, as A história de um garoto muito esperto,lembranças do jagunço Riobaldo em suas que se torna herói, ao livrar sua pequenadesventuras e cavalhadas no espaço mítico dos namorada das mãos de um bandido quecampos gerais e seu amor impossível por pretendia assaltar o prédio onde moravam.Diadorim. Rua do solPrimeiras estórias Lessa, OrígenesGuimarães Rosa, João O dia-a-dia da vida de um menino de 6 Este é o melhor livro para começar a anos, no Maranhão. Suas aventuras eentender Guimarães Rosa. São vários contos experiências, alegrias e tristezas.que passeiam do fantástico ao anedótico, Tio Pedropassando pelo psicológico, o autobiográfico e o Lessa, Orígenessatírico. É um livro que mostra como osSagarana preconceitos e os falsos valores de umaGuimarães Rosa, João sociedade consumista podem deformar a Estréia do autor no conto. O livro consciência das crianças. Há 25 anos, Tio Pedrodesponta como a semente de uma obra cujo tinha partido para os seringais do Acre e ossignificado está longe de ser decifrado. São sobrinhos esperavam que ele retornasse rico enove histórias, que apresentam a paisagem cheio de presentes para satisfazer seus desejoshumana e geográfica do Brasil em linguagem de crianças pobres. Riqueza e bens materiais, oabsolutamente pessoal. Obra de fundamental sonho de consumo da classe média brasileira.importância para a compreensão do universo Cidade de Deusficcional de Guimarães Rosa. “Sagarana” é Lins, Pauloexaltação e deslumbramento, uma criação Inaugurado em 1966, o conjuntoabsoluta. habitacional Cidade de Deus se tornou uma dasCamilo Mortágua maiores e mais violentas favelas do Rio deGuimarães, Josué Janeiro. Neste seu romance de estréia, Paulo A história de Camilo Mortágua Lins faz um painel das transformações sociaisamadureceu por oito anos, antes de tornar sua pelas quais a favela passou: da pequenaestrutura definitiva. Trata-se da trajetória criminalidade dos anos 60 à situação depolítica de seu país. violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos tempos atuais. Para redefinir aOs tambores silenciosos situação do lugar onde cresceu, Lins usa oGuimarães, Josué termo “neofavela”, em oposição à favela antiga, Discussão sobre a legitimidade da aquela das rodas de samba e as malandragenscensura, através da sátira de personagens de românticas. Baseado em fatos reais, grandeuma cidade que não consta no mapa. Vasto parte do material utilizado para escrever estepainel humano que se expressa em um livro foi coletado durante oito anos deromance realista e vencedor, por unanimidade pesquisas antropológicas sobre a criminalidadedo prêmio Érico Veríssimo. e as classes populares do Rio de Janeiro. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 110O mistério do índio voador O segredo do ídolo de barroLoibl, Elisabeth Loibl, Elisabeth Aventura vivida pelos irmãos Nando e Quando o Dr. Henrique resolveu levarPituca que tem como cenário o Vale do Seridó, seus jovens sobrinhos para os fascinantesno Rio Grande do Norte, e sua arte rupestre. A caminhos da arqueologia, as descobertasautora relata o trabalho feito por uma começaram na cidade de Belém, no Mercadoexpedição arqueológica e a bonita integração Ver o Peso, na visita ao Museu Emílio Goeldi.dos cientistas/arqueólogos com os valiosos Mas é na Ilha de Marajó que eles vivem umaconhecimentos com os nativos da região. incrível aventura quando Paulinho ganha de presente um misterioso ídolo de barro, tesouro de uma civilização perdida. Tatiana Belinky toma posse na Academia Paulista de Letras Dia 15 de abril de 2010, às 19,00 horas, Ainda hoje, Tatiana é apaixonada porno Colégio Dante Alighieri, haverá a solenidade Monteiro Lobato e o coloca acima de todos osde posse de TATIANA BELINKY, a grande dama outros escritores que se dedicaram ao universoda Literatura e da TV e tradutora das obras da criança, inclusive estrangeiros. O amorrussas no Brasil, na ACADEMIA PAULISTA DE surgiu logo no primeiro contato, quando seLETRAS, com saudação do acadêmico mudou de São Petersburgo, à época parte daFRANCISCO MARINS. União Soviética, para São Paulo com sua Tatiana Belinky é uma das escritoras de família. Ela vinha munida de toda a culturalivros infantis mais conhecidas no Brasil. cultivada em casa - a mãe cantava, o paiCuriosamente, ela nasceu na Rússia, em 1919, escrevia poesia - e de três idiomas na ponta dae veio pequena ao Brasil, com apenas dez anos língua (russo, alemão e letão). Logo aprenderiade idade. Além dos livros infantis, Tatiana ficou muito bem o português, e o adotou como afamosa por ter sido responsável pela primeira língua oficial de sua escrita.adaptação do "O Sítio do Pica-Pau Amarelo", de Outra novidade de Tatiana são seusMonteiro Lobato, para a televisão. Já recebeu contos, entre eles "A coruja e a onça",muitos prêmios pelas suas histórias e trabalhos republicados na coleção Ciranda Cirandinha, darealizados na televisão e no teatro. Nesta Editora Paulus, que reúne grandes autores daentrevista concedida ao CRE, a escritora literatura infanto-juvenil. Os volumes vêmreafirma a importância do hábito da leitura para engrossar a lista já impressionante de mais deas crianças. 100 livros publicados, sem contar com as "Capitu que me desculpe, mas a Emília é muitas traduções de obras-primas assinadasa maior heroína literária brasileira". Esta por ela, como dos contos de Hans Christiandeclaração já virou marca registrada de Tatiana Andersen e dos Irmãos Grimm. Tatiana foiBelinky, que acaba de completar 91 anos e responsável, ainda, pela primeira adaptação detambém de entrar para a Academia Paulista de "O Sítio do Picapau Amarelo" para a TV,Letras. "Nunca imaginei que fossem me indicar, veiculada na década de 1950 pela Tupi. Seufiquei até um pouco assustada. Mas fui eleita e marido, Júlio Gouveia, dirigia os episódios.agora vou à festa da posse. Estou pensando em Ganhou, mais tarde, o Prêmio Jabuti dequem convidar", diverte-se a escritora com o Personalidade Literária do Ano em 1989. Alémentusiasmo infantil que nutre desde menina, disso, ao longo de sua carreira, traduziu muitosquando queria ser bruxa para praticar compatriotas, entre os quais Gogol, Tchekhov etravessuras sem receio. Ruth Rocha, sua amiga Tolstoi, mas a criança sempre foi seu públicoe membro da Academia, participou do convite, favorito. "Tomei conta do meu irmãozinho, queo que a deixou ainda mais lisonjeada. me ensinou metade de tudo que sei sobre Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 111crianças. Desde então, minha preferência é falar com os pequenos, e sei falar com eles". Academia de Letras do Brasil/ Estado do Paraná Imortais A solenidade dos novos membros Patrono: Luiz OtávioImortais da ALB, pelo Estado do Paraná serárealizada na cidade de Maringá, na data de 020 – LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE (posse em agosto14 de agosto de 2010, sábado, às 20hs. 2010) Pinhalão Pelo Paraná as cadeiras estão assimcompostas: Patrono: Elias DomingosCADEIRAS da Academia de Letras do Brasil 025 – ALBERTO PACO (posse em agosto 2010)001 - Dr. JOSÉ FELDMAN - Ph.I. MaringáUbiratã Patrono: Galdino AndradePatrono: Paulo Leminski 027 – ÁTILA JOSÉ BORGES (posse em agosto 2010)002 – ROZA DE OLIVEIRA (posse em agosto 2010) MaringáCuritiba Patrono: Túlio VargasPatrono: Helena Kolody 028 - DARTAGNAN PINTO GUEDES - Ms.003 – ANDRÉA MOTTA (posse em agosto 2010) LondrinaCuritiba 033 – FRANCISCO JOSÉ SINKE PIMPÃO (posse em agostoPatrono: Emiliano Perneta 2010)004 – VALTER MARTINS DE TOLEDO (posse em agosto Curitiba2010) Patrono: Sebastião ParanáCuritiba 034 – MARIA ELIANA PALMA (posse em agosto 2010)Patrono: Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul Maringá007 – OLGA AGULHON (posse em agosto 2010) Patrono: Ary de LimaMaringá 043 - ORLY BUCHI (UFPR)Patrono: Antonio Facci Curitiba008 – VÂNIA MARIA DE SOUZA ENNES (posse em agosto2010) 055 – SINCLAIR POZZA CASEMIRO (posse em agosto 2010)Curitiba Campo MourãoPatrono: Heitor Stockler de França Patrono: Aracyldo Marques011 – DINAIR LEITE (posse em agosto de 2010) 069 - Dr. ANDRÉ G. CARNEIRO - Ph. I.Paranavaí Curitiba014 – ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS (posse em agosto Patrono: Oswald de Andrade2010) 077 - JORGE JOSÉ MATIEVICZ - Ph.I.Maringá Cascavel Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 112 INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURALiteratura em geral Academia de Letras do Brasilhttp://www.coladaweb.com http://www.academialetrasbrasil.org.brhttp://www.releituras.com Domínio Público (livros digitais)http://literaturasemfronteiras.blogspot.com http://www.dominiopublico.gov.brhttp://www.poetasdelmundo.com Escritores do Sulhttp://www.vaniadiniz.pro.br http://www.escritoresdosul.com.brhttp://singrandohorizontes.blogspot.com TrovasLiteratura do Paraná http://www.falandodetrova.com.brhttp://simultaneidades.blogspot.com Alma de PoetaAcademia de Letras de Maringá http://www.sardenbergpoesias.com.brhttp://www.academiadeletrasdemaringa.com.br Portal de Literatura e ArteAcademia de Letras de Rondônia http://www.cronopios.com.brhttp://www.acler.josevaldir.com Jornal de PoesiaAcademia Sorocabana de Letras http://www.jornaldepoesia.jor.brhttp://www.academiasorocabana.com.br Cultura Popular BrasileiraAcademia Paranaense de Letras http://www.jangadabrasil.com.brhttp://www.academiaprletras.kit.net PoetrixAcademia Brasileira de Letras http://www.gouglartgomes.comhttp://www.academia.org.br Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
  • 113 FONTES ColaboradoresAcademia Paulista de LetrasAlberto PacoAntonio Augusto de AssisAntonio Brás ConstanteAntonio Manuel Abreu SardenbergAparecido Raimundo de SouzaBranca TirolloDinair LeiteEmir Simionato SabiãoFranklin Ras LopesMaria Eliana PalmaNilto MacielNilto Manoel (UBT/Ribeirão Preto)Olga AgulhonPaulo Vieira PinheiroPedro OrnellasPedro SilvaVicencia Jaguaribe Bibliografia:- Blog do De Paula.- CEMEP. Professora Vera Lúcia Ravagnani.- Cliquemusic.- Falando de Trova. José Ouverney.- Jornal de Poesia.- Jornal do Conto.- Organização de Cláudio Murilo Leal. Toda poesia de Machado de Assis. Ed. Record.- Organização de Teresa Montero . Clarice na Cabeceira. Ed. Rocco, 2009.- Organização de Carlos Leite Ribeiro. Revista Recanto da Prosa e do Verso – Ano III - Fevereiro de 2010- Portal São Francisco.- Projeto Releituras.- TV Clipping Maringá- UBT Juiz de Fora- Várias Histórias. Machado de Assis.- Wikipedia.- www.antoniomiranda.com.br- www.singrandohorizontes.wordpress.com- www.vestibular1.com.br Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.