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  • 1. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003Indentificação da modalidade: Comunicação de pesquisaTítulo Uma nova musicologia para uma nova sociedadeAnais do II Encontro de Música. Universidade Estadual de Maringá, PR. outubro 2003. Ed. Massoni, 2004. 118 p.: 99-110 ISBN 85-88905-24-8 (capítulo em livro)Nome da autora: Maria Alice VolpeInstituição: Escola de Música da Universidade Federal do Rio de JaneiroPalavras-chave: Musicologia; Transdiciplinaridade; Crítica CulturalÁrea de concentração: MusicologiaEndereço: Rua Conde de Baependi no. 13 apto 404 – Laranjeiras – Rio de Janeiro RJ CEP 22231-240Tel/ fax: (21) 2225-9459e-mail: mavolpe@mail.utexas.edu malicevolpe@ig.com.brTítulo: Uma nova musicologia para uma nova sociedadeAutora: Maria Alice VolpeResumo: O presente trabalho propõe o diálogo da musicologia com outras áreas deconhecimento, bem como com as tendências mais recentes da musicologia internacional,visando a superação do isolamento em que vive a disciplina, de modo que ela cumpra oseu compromisso de integração entre o conhecimento produzido na universidade e asociedade. Propõe uma reflexão sobre os problemas teórico-conceituais levantados pelamusicologia internacional nos últimos 40 anos e suas possíveis contribuições para amusicologia brasileira, colocada à luz dos paradigmas de disciplinas nas quais a práticamusicológica tem se respaldado, sobretudo a história cultural, a nouvelle histoire, aantropologia cultural, a sociologia, a crítica literária, a crítica ideológica derivada daEscola de Frankfurt, o pensamento crítico pós-moderno e a hermenêutica. Propõe,portanto, uma reflexão conceitual da musicologia tout court, levantando aspectosrelevantes para a identidade e expansão dos programa de pós-graduação em música, bemcomo contribuir mais amplamente para o debate sobre a musicologia na universidadebrasileira,visando maior diálogo e representatividade na sociedade mais ampla. 1
  • 2. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003 Uma nova musicologia para uma nova sociedade Maria Alice Volpe* A relevância da musicologia como disciplina se justifica em grande parte pelo seupotencial de se integrar no concerto das outras áreas de conhecimento. Para tanto, énecessário um constante re-equacionamento de seus paradigmas, propósitos e impactosocial. Tais considerações se fazem extremamente oportunas numa época de crescenteinstitucionalização da música na universidade brasileira, sobretudo com a disseminaçãodos estudos pós-graduados por todo o país. Os resultados da pesquisa musicológica brasileira não têm gerado na comunidadeacadêmica ou na sociedade mais ampla o mesmo nível de interesse de outras disciplinas,como a história, os estudos literários e as artes plásticas. A história cultural tem sidoprotagonista de disseminação significativa de estudos acadêmicos entre um público maisamplo. Trabalhos inovadores sobre a história do Brasil, como, por exemplo, A formaçãodas almas (1990), de José Murilo de Carvalho, As barbas do imperador (1998), de LiliaMoritz Schwarcz, a série História da vida privada no Brasil (1997-99), organizada porFernando Novais, os estudos literários que se formaram em torno da figura maior deAntonio Candido, O Cinematógrafo das Letras (1987), de Flora Sussekind, EstiloTropical (1991), de Roberto Ventura, a série sobre a arte brasileira Mostra doRedescobrimento – Fundação Bienal de São Paulo (2000), organizada por NelsonAguilar, e a coletânea de estudos Paisagem e Arte, a invenção da natureza, a evoluçãodo olhar (2000), têm colocado a produção mais recente da pesquisa e reflexão acadêmicapara além dos muros da própria disciplina. Cabe indagar aqui, quais seriam os motivos para o relativo isolamento damusicologia brasileira, seu diálogo precário com as outras disciplinas e a limitação de seu* Maria Alice Volpe, Ph.D. em Musicologia/ Etnomusicologia pela University of Texas at Austin, E.U.A., éProfessora Adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Música, cadeira de Musicologia. 2
  • 3. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003impacto social à disponibilização de produtos sonoros (sobretudo, concertos e CDs). Amusicologia brasileira deveria estar integrada no conjunto das reflexões da história ecrítica cultural e suas contribuições deveriam transcender a sua própria província. Suspeitamos que o relativo isolamento da musicologia brasileira se deva menosaos obstáculos que o conhecimento técnico da linguagem musical coloca aos especialistasde outras áreas e ao público em geral, mas sobretudo à sua desatualização teórico-conceitual. Todos os estudos históricos, literários e das artes visuais mencionadosanteriormente se alinham com as abordagens mais atualizadas de suas disciplinas e, emsua maioria, manifestam substantiva transdisciplinaridade. A pesquisa musicológicabrasileira tem permanecido, em grande medida, e com distinguidas ressalvas queaflorarão no decorrer desta pesquisa, alheia às questões que têm promovido a renovaçãocontínua nas outras disciplinas. Os poucos trabalhos que têm trazido novas abordagens eampliado o campo teórico-conceitual sobre a música e o discurso historiográfico-musicalno Brasil são muitas vezes oriundos de pesquisadores alocados em outras disciplinas,como é o caso de “A música brasileira no séc. XIX: a construção do mito danacionalidade” (1977), Música e ideologia no Brasil (1985) e “Música no Brasil: históriae interdisciplinaridade, algumas interpretações” (1991), de Arnaldo Daraya Contier e,mais recentemente, do excelente estudo O Brilho da Supernova: A Morte Bela de CarlosGomes (1995), de Geraldo Mártires Coelho, ambos historiadores. A desatualização teórico-conceitual da musicologia brasileira deve ser analisadatambém à luz dos desenvolvimentos da musicologia internacional nos últimos 40 anos,período de intenso questionamento dos paradigmas da prática musicológica. A década de1960 foi um período decisivo na musicologia internacional. Críticas à musicologiahistórica surgem de dentro e de fora dessa disciplina. Por um lado, a própria musicologiahistórica procedeu a uma auto-crítica de sua postura predominantemente positivista e, apartir de então, foram questionados todos os paradigmas que guiaram a disciplina,incluindo o organicismo, o historicismo, a idéia de Zeitgeist, a idéia de “estilo musical”, a 3
  • 4. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003idéia de “música absoluta”, o formalismo, o nacionalismo e a construção do canonmusical que marcou profundamente a conceituação histórica que tem guiado os estudosmusicológicos até décadas bastante recentes. Por outro lado, a etnomusicologia engajou-se numa crítica crescentemente acirrada ao etnocentrismo da musicologia que se dedicavaao estudo da música culta ocidental e, confundindo-a com a postura predominante entreos especialistas de teoria e análise musical, acusou-a (a musicologia histórica) de abordaro seu objeto de estudo (a música) fora de seu contexto sócio-histórico-cultural. Essa crítica contínua da musicologia levou à valorização de abordagens alinhadascom uma história sócio-cultural da música. Manfred Bukofzer, por exemplo, teve papelimportante nesse sentido, e seu trabalho The Place of Musicology (1957) refletiuprofundamente sobre a relação da musicologia com as outras disciplinas. A velha guardada musicologia histórica ofereceu modelos expressivos de história sócio-cultural, entre osquais podemos citar, Curt Sachs, Paul Henry Lang, Friedrich Smend, Edward Lowinsky,Leo Schrade, Manfred Bukofzer, Iain Fenlon e William Crosten. Depois disso, CarlDahlhaus, Theodor Adorno, Joseph Kerman e Leo Treitler, figuras decisivas para odesenvolvimento da musicologia das décadas de 1970 e 1980, colocaram em primeiroplano discussões frutíferas sobre o historicismo, a história da recepção, a crítica musical,a crítica cultural, a sociologia da música e a hermenêutica na musicologia. Durante esse período desenvolveu-se também uma relação paradoxal entre amusicologia histórica e a etnomusicologia. Por um lado, acentuou-se um antagonismoentre essas sub-áreas, expressos em artigos como os de Frank Harrison e Mantle Hood(respectivamente, “American Musicology and the European Tradition” e “Music, theUnknown”, in Palisca, Harrison & Hood 1963), que tocaram em problemas que vieram aser a linha de frente das batalhas entre a musicologia e a etnomusicologia. Por outro lado,defendeu-se a unificação da musicologia e da etnomusicologia. Charles Seeger, pioneiroem tal postura, afirmou em seu artigo de 1961 que “não se deve mais tolerar o costume dever a musicologia e a etnomusicologia como duas disciplinas separadas, praticadas por 4
  • 5. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003dois tipos diferentes de especialistas, os quais têm objetivos totalmente diferente emutuamente antagônicos” (p. 80). Tal unificação foi vista, sobretudo, como umaaplicação das técnicas da etnomusicologia ao estudo da música popular e folclórica doocidente, bem como da música culta ou artística do ocidente. O termo “musicologiacultural” foi proposto por Gilbert Chase (“American Musicology and the SocialSciences”, in Brook, Downes & Solkema, 1972), por analogia à “antropologia cultural”,ou seja, uma espécie de etnomusicologia da música ocidental, uma abordagem sócio-cultural na musicologia. As críticas à musicologia pela etnomusicologia tiveram bastante repercussão e, defato, resultados bastante concretos, a partir da década de 1980, sobretudo com um grupobastante polêmico que levantou a bandeira da New Musicology. Esse período foiprotagonizado por trabalhos como os de Rose Rosengard Subotnik, Catherine Clément,Katherine Bergeron, Philip Bohlman, Susan McClary, Gary Tomlinson e LawrenceKramer. O artigo de Tomlinson, “The web of culture: a context for musicology” (1984),onde o autor evoca Clifford Geertz, constituiu um marco no percurso da musicologiahistórica em direção a uma abordagem mais etnográfico-antropológica. Mais tarde emMusic and the Renaissance Magic (1993), Tomlinson propõe uma “historiografia dooutro”, cujo componente teórico-conceitual central reside em considerar o passado comoo “outro”. Nesse livro, Tomlinson se utiliza de autores como Gadamer, Ricouer eFoucault, além de citar James Clifford, Bakhtin, Lyotard, etc. Lawrence Kramer fazcomo que um contraponto à postura de Tomlinson, defendendo um outro tipo de novamusicologia, o que ele chama de musicologia pós-moderna, e cujas posturas principaisestão consubstanciadas em Music as Cultural Practice: 1800-1900 (1990) e ClassicalMusic and Post-Modern Knowledge (1995). Nota-se, portanto, a influência da postura da etnomusicologia perante o discursohistoriográfico sobre a música européia, e sobretudo as contribuições teóricas daantropologia, da hermenêutica, do pensamento crítico pós-estruturalista e pós-moderno. 5
  • 6. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003Esse grupo polêmico se caracterizou também por introduzir temas tabus na musicologia,como a crítica feminista, a sexualidade, a homossexualidade, e posturas revisionistas darelação entre música e historiografia musical e a política. Outros musicólogos menos polêmicos, embora extremamente representativos dasnovas tendências da musicologia internacional, têm se engajado em abordagensextremamente enriquecedoras para o alinhamento da musicologia com a história cultural,entre os quais podemos citar Jim Samson, Lary Todd, Leon Botstein, John Roselli,Richard Leppert, Carolyn Abbate, Ralph Locke, John Daverio e Jeffrey Kallberg. Taisautores se apegaram mais à história institucional, a história das idéias, a história social e asociologia da música, a história da recepção, as teorias do orientalismo e donacionalismo, a teoria dos gêneros, a história da sexualidade e a uma abordagemrevisionista aos estudos estilísticos. Esses desenvolvimentos da musicologia internacional das últimas décadas estãopraticamente ausentes nas posturas teórico-conceituais da produção musicológicabrasileira atual, com exceção dos estudos sobre a mulher na música brasileira. Entre ospoucos musicólogos brasileiros preocupados com os problemas teórico-conceituais daárea, figuram Regis Duprat, cujo artigo “Análise, musicologia, positivismo” (1996,originalmente apresentado no Encontro Nacional da ANPPOM em 1992) pode serconsiderado um divisor de águas nas discussões sobre o assunto no Brasil, e que pelaprimeira vez discutiu o estruturalismo à luz da hermenêutica moderna. Outro textoimportante é o de Ricardo Tacuchian (1992), que abordou o problema do pós-modernismo com a preocupação central de entender a criação musical brasileira recente.Mais recentemente, o trabalho apresentado por Duprat no I Encontro de Musicologia deRibeirão Preto (2003) trouxe uma nova perspectiva a questões que raramente sãorefletidas como um conjunto interdependente, como o problema da linguagem na músicacontemporânea, sua recepção e formação de público e mercado, em estreita relação comos problemas da análise, musicologia e hermenêutica. O diálogo entre a musicologia 6
  • 7. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003histórica e a etnomusicologia tem sido a preocupação de diversos estudiosos, comoGerard Béhague, Regis Duprat, Maria Elisabeth Lucas, Samuel Araújo, Martha Ulhôa, eumesma e muitos outros, embora tal vertente ainda não tenha se constituído nummovimento que articule as diversas propostas dentro de um quadro teórico mais amplo eesteja, portanto, aguardando discussões mais sistemáticas sobre seus problemasconceituais. New Musicology e Musicologia Brasileira As soluções encontradas pela New Musicology americana não sãonecessariamente a panacéia para a musicologia brasileira. Mais do que uma mudançaconceitual, trata-se de uma mudança ideológica na qual está implicada a políticainstitucional da disciplina bem como a ação política de um grupo, de uma comunidade,que quer se legitimar socialmente. Trata-se de musicólogos/as engajados/as em causasdas “minorias” da sociedade americana – por exemplo, os homossexuais definidos comogays e lesbians (curiosamente, a moral americana não advoga outras formas desexualidade na sua agenda política, pelo menos não ostensivamente). Aliás, não apenasengajados, mas que fazem parte efetiva dessas minorias e têm adotado como estratégiaum discurso demolidor, agressivo, polêmico. Certamente, é a parcela da New Musicologyque faz mais barulho. Quando digo que a New Musicology americana não deve sertomada como a panacéia da musicologia brasileira, não estou querendo com issodeslegitimizar suas reivindicações. Me preocupo com nossas especificidades culturais, demodo que possamos estabelecer prioridades que tenham representatividade na sociedadebrasileira mais ampla. As causas das "minorias" estão atualmente entre os problemassociais mais graves, ou pelo menos assim se quer fazer crer, da sociedade americana. Háque se estudar o caso brasileiro. Sem desconhecer que tais causas encontrem eco noBrasil, não ousaria afirmar que as causas que têm chamado mais atenção para a NewMusicology americana – ou seja, gay & lesbian studies – estariam entre os problemas quemais afligem a sociedade brasileira no momento. No entanto, há que se reconhecer que a 7
  • 8. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003causa dos “transgêneros”, termo cunhado por Belisa Ribeiro em seu artigo no Jornal doBrasil (2003), esteja associada a outras causas de grande alcance como a questãoambiental, AIDS, patentes de medicamentos etc., e que no fundo fazem parte do mesmopacote, de um mesmo movimento, de uma mesma postura político-social. Mas há que sesalientar também que nossas "minorias" – que na verdade são maiorias do ponto de vistaestatístico pois perfazem mais de 70% da população – são étnicas. Aliás, adotar talnomenclatura, “minorias”, denota colonialismo cultural pois tal termo, além de nãodefinir com propriedade a realidade brasileira, pode ser substituído por expressões jáconsagradas pelo dito político-popular brasileiro, como os “sem-teto”, os “sem-terra”, os“sem-camisa”, os “meninos de rua”, enfim, os desprivilegiados, os marginalizados dasociedade, ou para ser mais atual e abrangente, os “excluídos”. Parece ser consenso que aprioridade entre as questões sociais do Brasil atual seja a exclusão social, e este termoengloba tanto fatores sócio-econômicos, conseqüências de um longo processo histórico,como também preconceito racial, religioso, sexual, e também falta de acesso à educação,alimentação, moradia, bens de consumo, bens culturais etc.. Fica então a questão que nãoquer calar. De que maneira a musicologia brasileira poderia responder à questão daexclusão, seja ela de que natureza for? De que maneira a musicologia brasileira poderesponder às questões atuais da cidadania? E finalmente, em que medida as questõesurgentes da cidadania no Brasil podem se beneficiar das questões sociais referentes aosdireitos de cidadania dos E.U.A.? Em que medida as questões eleitas pela NewMusicology americana podem contribuir para a musicologia brasileira atual? Claro que a New Musicology americana não se resume em gay & lesbian studies.Olhemos então para outros discursos dessa comunidade que está na vanguarda damusicologia internacional da atualidade. Um dos artigos mais provocativos foi“Musicologia como ato político” (1993), de Philip Bohlman, que constituiu umverdadeiro manifesto, exortando a que a musicologia assuma responsabilidade moralsobre a atual crise intelectual e social. A disciplina costuma equivocadamente se colocar 8
  • 9. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003numa posição apolítica, respaldada em grande parte pela suposta “autonomia” de seuobjeto de estudo. No entanto, a musicologia, quer se reconheça ou não, é agenteimportante numa dada política cultural, e mais amplamente na construção do saber, eseus quadros metodológicos, ideológicos e institucionais têm grande impacto nahistoriografia musical. Outras correntes, como as teorias do exotismo e do nacionalismo, a etnografiahistórica, a formação do canon ou do museu musical, a crítica ideológica, a desconstrução– e até mesmo a história da recepção, a história institucional, a história das idéias, ahistória social, a sociologia da música e as abordagens revisionistas dos estudosestilísticos – têm como denominador comum a crítica cultural, levando na maior parte dasvezes ao questionamento de valores e visões tradicionais, com maior ou menor ênfase noreconhecimento da natureza política da interpretação e do conhecimento como poder(Foucault). A crítica cultural concebida de uma maneira mais ampla nos parece ser a propostada musicologia internacional mais frutífera e de maiores conseqüências para o casobrasileiro, pois nos instiga a buscar novos quadros interpretativos para a nossa história e onosso presente musical. Acima de tudo, decidir sobre o tipo de musicologia quequeremos implica em decidirmos que tipo de sociedade queremos, o que nos lançaportanto para horizontes que visam o futuro. Proposições finais Nessa linha de reflexão visamos contribuir para a integração da musicologiabrasileira nos problemas discutidos pela musicologia internacional mais recente,colocando ambas sob a luz do desenvolvimento das outras áreas de conhecimento,sobretudo a história, a antropologia, a sociologia, a crítica literária, o pensamento críticoe a hermenêutica. Para tanto, faz-se extremamente necessário um estudo crítico dopensamento musicológico brasileiro em seus diversos quadros interpretativos, no qual as 9
  • 10. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003críticas e propostas mais recentes sejam contempladas vis a vis da tradição historiográficomusical brasileira, bem como das tendências mais recentes da musicologia internacional eda potencial contribuição da transdisciplinaridade. O conteúdo das reflexões aqui propostas mantém estreito vínculo com o programade pós-graduação em música, pois além de propor uma revisão crítica da musicologiainternacional, contempla as novas tendências e seu potencial impacto na musicologiabrasileira. As questões abordadas são fundamentais não apenas para o conteúdo dasdisciplinas oferecidas, como também para a filosofia do programa de pós-graduação.Visamos, primeiramente, contribuir para o avanço qualitativo dos cursos de mestrado, esobretudo debater a identidade dos programas de pós-graduação, sua inserção nauniversidade e na sociedade, bem como os caminhos para integração entre musicologia eoutros campos de conhecimento. Consideramos, portanto, abordar aspectos relevantespara a identidade e expansão dos programas de pós-graduação em música, bem comocontribuir mais amplamente para o debate sobre a musicologia na universidade brasileira. Visamos um acessamento crítico sobre o papel da musicologia na universidadebrasileira. Além de refletir sobre a potencial contribuição das novas tendências damusicologia internacional e da transdisciplinaridade, nos guiamos pela constantepreocupação por alternativas que permitam a elaboração de um discurso musicológicoque transcenda as fronteiras da própria disciplina, sem abandonar suas especificidadestécnicas, e que venha a atender aos interesses e expectativas de um público mais amplode leitores. Nossas reflexões sobre as novas musicologias e o programa de pós-graduaçãotêm como horizonte a possibilidade de que a musicologia se torne efetivamente umainterlocutora com relação às outras áreas de conhecimento e, sobretudo, de que elacumpra o seu compromisso de integração entre o conhecimento produzido nauniversidade e a sociedade. 10
  • 11. Maria Alice Volpe – II Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá 2003 Referências BibliográficasAbbate, Carolyn. Unsung Voices: Opera and Musical Narrative in the Nineteenth Century. Princeton: Princeton University Press, 1991.Aguilar Nelson & Fundação Bienal de São Paulo. Mostra do Redescobrimento: o olhar distante. São Paulo: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais: 2000.Araújo, Samuel. “Identidades brasileiras e representações musicais: músicas e ideologias da nacionalidade”, Brasiliana: Revista da Academina Brasileira de Música 4 (Janeiro 2000): 40-48.Béhague, Gerard. “National style versus nationalism: Villa-Lobos’s eclecticism”, in Heitor Villa-Lobos: The Search for Brazil’s Musical Soul. University of Texas at Austin: Institute of Latin American Studies, 1994.Béhague, Gerard. “Reflections on the Ideological History of Latin American Ethnomusicology”. In Comparative Musicology and Anthropology of Music: Essays on the History of Ethnomusicology. Bruno Nettl & Philp Bholman (eds.). Chicago: The University of Chicago Press, 1991.Bergeron, Katherine & Philip Bohlman. Disciplining Music: Musicology and Its Canons. Chicago e London: University of Chicago Press,1992.Bohlman, Philip. “Musicology as a political act”, Journal of Musicology 11/ 4 (1993): 411-436.Botstein, Leon. “Out of Hungary: Bartók, Modernism, and the Cultural Politics of Twentieth-Century Music”, in Peter Larki (ed.), Bartók and His World. Princeton: Princeton University Press, 1995: 3-63.Brett, Philip; Wood, Elisabeth & Thomas, Gary C. (eds.). Queering the Pitch: The New Gay and Lesbian Musicology. New York and London: Routledge, 1994.Brook, Barry; Edward Downes & Sherman van Solkema (eds.). Perspectives in Musicology. New York: Norton, 1972.Bukofzer, Manfred. The Place of Musicology in American Institutions of Higher Learning. New York, 1957.Candido, Antonio. Literatura e sociedade; estudos de teoria e história literária. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1965.Carvalho, José Murilo. A formação das almas: o imaginário da República do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.Clément, Catherine. L’opera ou la défaite des femmes. Paris: Editions Grasset & Fasquelle, 1979.Coelho, Geraldo Martires. O brilho da supernova: a morte bela de Carlos Gomes. Rio de Janeiro: Agir; Belém: Universidade Federal do Pará, 1995.Contier, Arnaldo Daraya. “A música brasileira no séc. XIX: a construção do mito da nacionalidade.” In As Artes no Brasil do século XIX. São Paulo: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977.Contier, Arnaldo Daraya. Música e ideologia no Brasil. 2nd. ed., São Paulo: Editora Novas Metas, 1985.Contier, Arnaldo Daraya. “Música no Brasil: história e interdisciplinaridade, algumas interpretações”, Anais do XVI Simpósio da Associação Nacional de Professores de História; História em Debate: problemas, temas e perspectivas (Rio de Janeiro, 1991). São Paulo: InFour/ CNPq, 1991: 151-189.Dahlhaus, Carl. Foundations of Music History. 1977. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.Daverio, John. Nineteenth-Century Music and the German Romantic Ideology. New York: Schirmer Books, 1993.Duprat, Regis. “Análise, musicologia, positivismo”, Revista Música (Departamento de Música/ ECA-USP) 7/ 1 e 2 (1996): 47-58. 11
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