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História do Oriente Medieval
 

História do Oriente Medieval

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Este é meu primeiro grande texto a respeito de uma grande civilização do passado. De fato, este é o tema de minha preferência e acredito que minha contribuição, por mais débil que seja, é ...

Este é meu primeiro grande texto a respeito de uma grande civilização do passado. De fato, este é o tema de minha preferência e acredito que minha contribuição, por mais débil que seja, é muito válida, pois elucida a muitos sobre acontecimentos quase desconhecidos da História do Mundo. Digo quase desconhecidos porque não são comumente tratado pela História tradicional, ou seja, a História fundamentada na escola Francesa.

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    História do Oriente Medieval História do Oriente Medieval Document Transcript

    • 1 – Introdução:Este é meu primeiro grande texto a respeito de uma grande civilização do passado. De fato,este é o tema de minha preferência e acredito que minha contribuição, por mais débil queseja, é muito válida, pois elucida a muitos sobre acontecimentos quase desconhecidos daHistória do Mundo. Digo quase desconhecidos porque não são comumente tratado pelaHistória tradicional, ou seja, a História fundamentada na escola Francesa.Os Árabes, no entanto, são muito estudados, pois sua implicação na História Ocidental é tãogrande quanto foi a de Gregos e Romanos, porém, o período da História Árabe, e porque nãodizer Islâmica, mais estudado é o compreendido entre os séculos XI e XV, pois foi entre essesséculos que se realizaram as Cruzadas, tanto as Orientais, que levam mesmo este nome,quanto as Ocidentais, que se realizaram especialmente em Portugal e na Espanha e que sãotambém conhecidas como Guerra de Reconquista.Depois do século XV, em especial depois da queda de Granada e conseqüente fim da Guerrade Reconquista, em 1492; e da tomada de Constantinopla, em 1453, o estudo dos povosIslâmicos decai um pouco e só é referido no que se trata do Império Otomano (Turquia), quepassa a levar praticamente sozinho, até a I Guerra Mundial, a bandeira do Islã frente oOcidente.Justamente pelo fato de meu enfoque histórico ser direcionado a civilizações Antigas eMedievais (ou que se comportem dessa forma, como já me referi acerca das civilizações daAmérica pré-colombiana e do Japão) e a períodos pouco estudados pela História tradicional, éque não me referirei, senão em pequenas menções, neste texto, às Cruzadas. Meu objetivo érealmente explicar os primórdios do Islamismo, o início da disposição das peças no tabuleiro,que mais tarde seria palco das Cruzadas. Pretendo elucidar ponto nebulosos a respeito daHistória de Maomé, dos quatro primeiros Califas e das duas dinastias Imperiais, os Omíadas,cujo governo estudarei por completo (exceto o seu refúgio na Espanha) e os Abássidas, cujogoverno será estudado até o Califa Harun al-Rachid, quando precipita-se a fragmentação dopoder, fragmentação esta que já havia sido iniciada justamente pela perda da Espanha, ou al-Andalus, para os Omíadas, quando do estabelecimento da dinastia Abássida, em meados doséculo VIII.A partir das explicações dadas, pode-se concluir, corretamente, que o enfoque de meutrabalho será entre o princípio do século VII d.C. e o princípio do século IX d.C., quando oImpério se encontra em seu apogeu cultural, mas quando encontra-se em francodesmembramento.Por fim, gostaria de ressaltar algumas coisas que julgo de extrema importância:1) Alguns nomes (tanto de pessoas, quanto de lugares), senão todos, estão grafados de formaocidentalizada, mesmo quando entre parênteses, isso porque nos é muito difícil transliterarpalavras do alfabeto Arábico para o nosso.2) Apesar de os Muçulmanos utilizarem-se de um sistema de contagem de anos diferente;tanto pelo fato dos anos lunares terem durações diferentes dos anos solares utilizados pornós, quanto pelo fato de seu marco inicial ser a Hégira, em 622 do nosso calendário; todas asdatas apresentadas no texto são pertencentes ao calendário gregoriano, todavia, deve-senotar que algumas podem estar erradas, visto que o calendário gregoriano só foi instituído no
    • século XVI e, dessa forma, podem haver pequenas discrepância entre suas datas e as docalendário juliano, que vigorava na época a que o texto se remete.3) Desde já peço desculpas a quaisquer adeptos do Islamismo que porventura venham a lereste texto e se sentir ofendidos com alguma das informações aqui contidas, ou mesmo comquaisquer opiniões minhas, expostas ao longo do trabalho. Quero deixar claro que nada tenhocontra a liberdade de culto, ou mesmo contra o Islamismo em si, no entanto, ocomprometimento com a discussão crítica proposta pela História me obrigam a, por vezes,parecer ofensivo ou demasiado crítico a essa religião, bem como a muitas outras, como aoCristianismo de um modo geral, o Judaísmo e várias outras citadas ou não neste texto. Quemeus pedidos de desculpas aos Muçulmanos se estendam a todos os outros religiosos.2 – Preâmbulo da Península Arábica:Antes de Maomé operar a unificação da península Arábica através do Islamismo, comoveremos ao longo deste texto, a região era extremamente fragmentada e nela coexistiamdiversos reinos e povos autônomos. Neste item de meu trabalho, farei um pequeno resumo detais povos, porém incluirei também nas descrições alguns povos que não estavam exatamentelocalizados na península, mas que tiveram, ao longo da História anterior ao Islamismo, algumcontato com ela.Antes, porém, de iniciar os relatos, é importante acentuar que toda a região é de clima áridoou semi-árido, existe um grande deserto no norte da península, o Nufud, que constituiu para aregião uma espécie de muralha natural, impedindo sua anexação por qualquer dos grandesImpérios antigos, nem os Mesopotâmicos, nem os Egípcios, nem os Persas, nem Alexandre, oGrande, nem os Reinos Helenísticos, nem mesmo os Romanos conseguiram colocar a regiãosob seu domínio. Talvez Alexandre tivesse conseguido operar a conquista da região, pois,segundo consta, quando morreu, na Babilônia, estaria preparando uma expedição que teriajustamente esse objetivo. Dessa forma, julgando-se pelo retrospecto do conquistador, pode-seconcluir que a Arábia só escapou de fazer parte do enorme e efêmero Império de Alexandre,devido à morte prematura do monarca.Especulações históricas à parte, é interessante que se fale sobre alguns aspectos da região naépoca, como por exemplo a fauna e a flora. Esta última, como se pode imaginar, era escassa,mas mesmo assim havia além de cactos, palmeiras (nos oásis), tamareiras (uma das principaisfontes de alimentos da região), bananeiras, figueiras, abricoteiras...Quanto à fauna, é interessante notar que além dos camelos, conhecidos e lembrados portodos quando se menciona a região, existia uma grande variedade de animais, inclusive leões epanteras, hoje extintos na península. Muitas aves de rapina, como abutres e urubus tambémcompõem a fauna Árabe, gatos e burros eram muito populares na região e, além de todosesses animais, não podemos esquecer dos cavalos, visto que os cavalos árabes eram (ou são)os melhores cavalos do mundo. Estes animais foram introduzidos na península pelos Hititas,no primeiro milênio antes de Cristo, lá eles ficaram isolados dos demais cavalos da Ásia e,dessa forma, se converteram numa espécie particular do animal, uma espécie refinada, defísico resistente e porte elegante, muito apreciados nas diversas regiões.Mas falemos sobre os diversos povos que habitavam a região antes do Islamismo os unificar.
    • 2.1 – O Reino de Sabá:O Reino de Sabá tem suas origens no século VIII a.C., no atual Iêmen. Inicialmente, o Reinoconstituía-se numa Teocracia, cuja capital era a cidade de Sirwah.No decorrer de seiscentos anos, os governantes do país expandiram seus domínios para toda acosta do Mar Vermelho, boa parte do sul da península e algumas regiões ao norte. Nessesanos, a capital muda duas vezes, primeiro para Marib e depois para Zafar.As origens desse Estado remontam à organização de uma etnia, os Sabeus, em torno de seuRei-Deus, porém, em 115 a.C., por motivos desconhecidos, os Himiaritas (povo que estava sobo jugo dos Sabeus) passam a governar o Reino e, no início do século I a.C., o monarca perde ocaráter divino.Talvez o mais notável feito dos Sabeus tenha sido a construção de uma gigantesca represa(uma das maiores, senão a maior de toda a Antiguidade), no século VI a.C..Os Himiaritas passaram a governar o país, mas com a conversão de seus vizinhos de costa (dooutro lado da costa do Mar Vermelho), os Abissínios (Etíopes), ao Cristianismo, no século IVd.C., passaram a enfrentar invasões constantes que visavam converter o Reino de Sabá aoCristianismo. Em 340 d.C., os Etíopes conquistaram o Reino e mantiveram-se no poder até 378d.C., quando numa grande revolta, os Himiaritas retomaram o poder.O segundo período Himiarita foi marcado por dois fatores: a nova religião, visto que duranteos 37 anos de domínio dos Etíopes, os Himiaritas não se converteram ao Cristianismo, comoqueriam os invasores, mas sim, ao Judaísmo; e o descaso com o patrimônio público. Devido aesse descaso, tudo foi se degradando, desde as construções, até as finanças e o exército. Atéque, em 530 d.C., os Etíopes conseguiram, numa nova invasão, retomar o controle sobre oReino.Já era tarde, o estado de destruição no qual se encontravam as construções públicas era tal,que o monarca Etíope empossado pelos conquistadores nada pode fazer e, por volta de 540d.C., a grande represa construída na Antiguidade rompeu alagando boa parte do território ematando muitas pessoas.O rompimento da represa fez com que a seca caísse sobre a região e, dessa forma, muitosforam os que abandonaram o país e rumaram para o norte. A escassez demográficadecorrente desse êxodo propiciou, em 575 d.C., a invasão, a pedido dos Himiaritas, da regiãopela Pérsia. Esta reempossa os Himiaritas no governo do país, e estes mantém sua soberania,mas com a condição de que sua região se torna-se uma Satrápia Persa (território semi-autônomo existente no Império Persa desde seus primórdios, que se destinava a, além depagar impostos ao governo central, vigiar a região e suas proximidades, informando quaisqueralterações ao Grande-Rei Persa.Em 632 d.C., o Reino de Sabá foi incorporado ao Islã, com sua conversão e anexação pelastropas de Maomé.2.2 – Reino Mineano:Reino organizado da mesma forma que o Reino de Sabá, ou seja, com um grupo étnico, osMineanos, se organizando numa Teocracia, cuja capital era Qarnaw (atual Ma’in).
    • O Reino se estabeleceu também por volta do século VIII a.C., ao norte do Reino de Sabá. Porserem vizinhos, os dois Estados entraram em conflito várias vezes, até que, no século I a.C.,pouco depois da ascensão dos Himiaritas no Reino vizinho, o Reino Mineano foi conquistadopelo Reino de Sabá.2.3 – Reino de Qataban e Reino de Hadramaut:Reinos vizinhos, estabelecidos a leste do Reino de Sabá, tinham importância comercialindiscutível no tocante ao comércio Índico (eram os entrepostos entre as mercadorias da Índiae as do Mar Vermelho), além de, a exemplo do Reino de Sabá, serem produtoras de incenso eouro.O Reino de Qataban se estabeleceu por volta de 600 a.C., tendo como capital Tamma (atualKuhlan), e perdurou até mais ou menos 50 a.C.. Já o Reino de Hadramaut, se estabeleceu porvolta de 450 a.C., tendo como capital Shabwah (atual Sabota) e perdurou até o início do séculoII d.C..Ao contrário do Reino Mineano, que foi anexado pelo Reino de Sabá, estes Reinopermaneceram autônomos. O que aconteceu foi que, devido à importância que as diversasregiões desses Reinos adquiriram individualmente, devido ao comércio, os chefes regionaispassaram a se julgar poderosos demais para obedecerem a uma autoridade central, dessaforma, foi ocorrendo uma gradual descentralização dessas regiões até que nos períodosreferidos, os governantes das capitais dos respectivos Reinos já não mais se consideravam,sequer nominalmente, soberanos de todo o país. Dessa forma, ficaram extintos os Reinos.Essas regiões continuaram a exercer políticas independentes até sua anexação pelo Islã, em632 d.C..2.4 – Reino de Petra:Este Reino se localizava numa região que não pertence à península Arábica, mas sua história éinteressante ao estudo, pois depois da anexação ao Islã, a região tornou-se, junto com a Arábiae com as regiões dos demais Reinos que citarei, o centro do Califado, especialmente noperíodo Omíada.Bem, por volta de 550 a.C., várias tribos nômades do nordeste da península Arábica sereuniram com o objetivo de proteção e auxílio mútuos, fundaram então uma cidade, Petra (emhebraico, Sela’). Apesar de não terem conseguido conquistar muito espaço, seu Reino,semelhante a uma cidade-Estado, prosperou. Tanto que ficou livre do domínio de Alexandre, oGrande.O Reino de Petra, constituído por tribos que se identificavam como Nabateus, auxiliou osRomanos na destruição da Judéia e, em 106 d.C., Trajano transformou o Reino em provínciaRomana. Depois da queda de Roma, Petra nunca mais voltou a ser um Reino autônomo, tendopertencido ao Império Bizantino e depois ao Persa, até ser anexada ao Islã.2.5 – Império de Palmyra ou Tadmor:Tadmor era uma cidade a nordeste de Damasco, sua origem remonta a tempos já esquecidos,mas ela só adquire importância quando do domínio Romano, isso porque ela é a o principal
    • entreposto entre o Oriente (Pérsia, Índia, China...) e Roma. Tal importância comercial lhe valeuo status de colônia Romana.O nome Palmyra advém, inclusive, dos Romanos, pois estes chamava a cidade assim por elaestas localizada num oásis, onde existem muitas palmeiras, em latim, palmyra.Em 267 d.C., Odenato, Rei de Tadmor e seu filho, foram acusados de traição a Roma e, sendoassim, executados. Zenóbia (al-Zabba, ou Zaynab), a Rainha, assumiu o governo da cidade e,em retaliação à atitude Imperial, lançou seus exércitos contra as possessões Romanas. Empoucos meses, Zenóbia conquistou o Oriente Médio, a Ásia Menor, o Egito e chegou às portasde Bizâncio (que ainda não havia sido transformada em Constantinopla).Aureliano, então Imperador Romano, investiu contra a Rainha afim de retomar-lhe asconquistas e, entre 272 e 273, não só retomou tudo que Zenóbia havia lhe tirado, comotambém invadiu Tadmor, matou a Rainha e destruiu a cidade como exemplo.Apesar de muito efêmero, o Império de Tadmor foi grande e, por si só já justificaria suamenção aqui, mas, além de tudo isso, a região, assim como Petra e outras que citarei, foi umadas principais componentes do núcleo do Império Islâmico, especialmente no CalifadoOmíada.Depois de destruída, Tadmor não foi totalmente abandonada e, mais tarde acaboureconstruída, mas perdeu sua importância comercial.2.6 – Reino dos Gassânidas:O Reino dos Gassânidas foi fundado por volta de 400 d.C., por fugitivos do Reino de Sabá, quehavia sido conquistado pelos Etíopes. No princípio, esses refugiados viviam em acampamentositinerantes a sudeste de Damasco, porém, com o tempo, acabaram fundando duas cidades,suas duas capitais: al-Yiabiyah e Jilliq.A região se tornou um porto seguro para os imigrantes do Reino de Sabá, tanto que foi para láque estes emigraram quando a grande represa rompeu.Aretas II foi o maior de todos os monarcas Gassânidas, tendo inclusive, lutado em favor deJustiniano. Seu filho, al-Mundhir, foi preso pelo Império Bizantino por ter incendiado, em 580d.C., a cidade de Hira, capital dos Lácmidas. Em retaliação pela prisão do pai, os filhos de al-Mundhir devastaram o território do Império Bizantino, mas também acabaram derrotados epresos.As conquistas que fizeram passaram para as mãos dos Persas e o Reino perdeu importância, sebem que o último soberano, Jaballah ibn-al Ayham, ofereceu muita resistência ao Islã e só caiudiante dos Árabes na Batalha de Yarmuk, em 636, batalha na qual contou com auxílioBizantino.2.7 – Reino de Hira:Assim como o Reino de Petra, o de Hira também se constituía apenas de uma cidade-Estado.Na verdade, esta cidade foi fundada a partir de um acampamento da tribo Tanukh (quepertencia à etnia Lácmida), que, desde 275 d.C., havia se estabelecido na atual Síria.
    • Após terem tido participação efetiva na mudança dinástica do Império Persa (fim da dinastiaArsácida e início da Sassânida), edificaram uma cidade no local de seu acampamentopermanente. A cidade levou o nome de Hira porque esta palavra quer dizer acampamento emSiríaco.Apesar de ter nascido sob a influência Persa, pendia entre os Impérios Persa e Bizantino, masseus maiores inimigos eram os Gassânidas, que, em 580 d.C., queimaram a cidade.Após o incêndio a cidade nunca mais foi a mesma, acabou absorvida totalmente pelo ImpérioPersa e permaneceu parte deste até ser conquistada pelo Islã, em 633 d.C..2.8 – Estado de Kindah e os Beduínos:O centro da península Arábica, em especial o planalto de Nedjd, era habitado por tribosnômades conhecidas como Beduínos, que viviam no deserto e regiões semi-desérticas aprocura de oásis e de alimentos.Além dos Beduínos, povoavam a região os habitantes de cidades independentes, cidades-Estado nas quais a forma de governo variava de uma para a outra.Pois, bem essa região nunca havia conhecido nenhum tipo de centralização política, nuncahavia sido formado um Reino ou coisa parecida no centro da Arábia. Nunca até que HassanTubba, soberano Himiarita do Reino de Sabá conquistou todas as tribos nômades do centro daArábia. Na realidade o que ele fez foi dominar as tribos de Beduínos e pô-las sob suaautoridade. Depois de fazer isso, Hassan Tubba cedeu a região ao irmão, Hudjr, dessa forma, ocentro da Arábia, apesar de ter sido conquistado pelo Reino de Sabá, não passou a fazer partedele, pelo menos não na prática, porque em teoria era apenas mais um "estado" dele, umestado governado pelo irmão do Rei.No entanto, a dinastia de governadores de Kindah, o estado central da Arábia, só teve trêsrepresentantes, o próprio Hudjr, seu filho e seu neto, Aretas. Este último, de tão poderoso,chegou a ser Rei de Hira, além de governar Kindah.Após a morte de Aretas, em 529 d.C., seus filhos iniciaram uma guerra para sucede-lo, as tribosBeduínas aproveitaram-se da situação e se declararam independentes novamente, sendoassim, acabava o Estado de Kindah, no entanto, ele trouxe um importante aprendizado para ospovos da Arábia central: a primeira experiência de unificação, experiência esta que seriafundamental ao Islamismo.3 – Caaba, uma união sincrética:A Caaba era um templo existente em Meca, a cidade onde nasceu Maomé. Meca era mais umadaquelas cidades-Estado do centro da Arábia, com governo e leis próprias. Ao contrário do queera mais comum nessas cidades, Meca não era uma monarquia, mas sim uma oligarquiacomercial.Vejamos como surgiu a cidade. As origens de Meca são desconhecidas e de tão antigas,existem lendas que remontam ao próprio Adão, porém, o que nos interessa saber é que acidade foi fundada por uma etnia, os Khozâ’a, já na era Cristã, mas numa data não precisada,
    • Qusay, líder dos Coraixitas, um povo que vivia nas montanhas próximas a Meca, liderou seupovo numa invasão à cidade, dessa invasão resultou o domínio de Meca pelos Coraixitas e aconseqüente subjugação dos Khozâ’a.Os Coraixitas, amparados por seu líder, realizaram algumas mudanças na estruturação dacidade, tornando a Caaba, seu templo, o centro de todos os cultos da Arábia Central.A Caaba, segundo a mitologia Árabe é tão antiga quanto Meca e teria sido construída porAdão. Ao seu redor, desenvolveu-se a cidade. O fato é que antes dos Coraixitas dominaremMeca, o culto da Caaba era dedicado a uma estranha Pedra Negra, que muitos acreditam(hoje), ser um pedaço de asteróide caído na Terra. Porém, Qusay, após dominar a cidade,reconstruiu a Caaba (que segundo as lendas teria sido reconstruída dez vezes, sendo as duasúltimas já pelos Islâmicos, enquanto as duas primeiras por Adão e por seu filho Seth, irmãomais novo de Caim e Abel, do qual descenderia toda a humanidade, uma vez que Abel foimorto e Caim condenado por sua morte) e levou para ela as diversas divindades da ArábiaCentral. O objetivo do conquistador era, não outro senão o atrair fiéis para Meca e, com isso,realizar feiras que renderiam grandes lucros aos Coraixitas. Na verdade Meca sempre conviveucom feiras, visto que se desenvolveu no cruzamento de rotas comerciais, tanto da Índia para aÁfrica, quanto da Arábia para a Ásia.A idéia de Qusay deu certo e, em pouco tempo Meca se tornou o centro mais cosmopolita daArábia, com visitantes em todas as épocas do ano, mas especialmente durante as festasreligiosas. No início, a cidade se limitava a sediar as feiras, mas depois de algum tempo, passoua enviar caravanas comerciais para as diversas regiões da Arábia e até a Damasco.Com o avanço comercial de Meca, uma elite substituiu gradualmente o poder de um só líder,esta elite era constituída pelas famílias, ou clãs, de comerciantes ricos, ou chefes de cada umadessas famílias compunham o conselho dos Coraixitas, que governava Meca. Estas famíliaspossuíam as melhores casa, ou seja, as mais centrais e, portanto, mais próxima a Caaba e aopoço que havia em sua frente. Os Coraixitas mais pobres viviam no subúrbio, ou seja, nasregiões mais afastadas do centro. Além dos Coraixitas, detentores de maior status na cidade,havia também os membros de outras etnias, como os próprios Khozâ’a, e outros povos quemigraram para a cidade em conseqüência de sua prosperidade, prosperidade esta devida àCaaba, dessa forma, a Caaba era, para Meca, muito mais do que um lugar de culto religioso,era mesmo a fonte de poder e razão de existência da cidade.4 – Maomé, um profeta revolucionário:Existe uma certa discordância entre os autores especialistas no período, sobre em que anoexatamente nasceu Maomé. É certo, no entanto, que a data de seu nascimento não pode seranterior a 567, nem posterior a 572. Dentro deste breve intervalo de possibilidades (apenascinco anos), o ano tomado como mais provável é o de 571, sendo assim, será esta data queadotarei para me referir à idade do profeta nos diferentes períodos.O fundador do Islamismo era filho de um negociante chamado Abdallah e de uma mulherchamada Amina. Não chegou a conhecer o pai, que faleceu numa de suas viagens, antesmesmo de seu nascimento. Quando tinha seis anos de idade, perdeu também a mãe, que sólhe legou alguns camelos, algumas ovelhas e uma escrava.
    • Filho único, Maomé passou então a viver com o avô paterno, Abd al-Mottalib, que, no entanto,só viveu até que o neto completasse oito anos de vida.Mais uma vez sozinho no mundo, o garoto foi viver com seu tio, Abu Talib. Este, com a mortedo pai, herdara a liderança da família, os Banu Hachim, e, dessa forma, um posto no conselhoCoraixita de Meca, visto que a família, ou clã (palavra mais apropriada, visto que família, deum modo geral, engloba apenas o núcleo familiar, enquanto que clã engloba a totalidade dosparentes e, no caso de uma sociedade patriarcal, como a Árabe sempre foi, também asmulheres que se casassem com os homens da família, deixando, no entanto, as mulheresrealmente do clã de fazer parte deste quando se casassem com um homem de outro clã; emoutras palavras, a mulher pertencia ao clã de seu pai até que se casasse, quando passava afazer parte do clã do marido) estava entre as mais proeminentes da cidade.Abu Talib tinha um filho, Ali, que cresceu como irmão de Maomé e que, ao longo de suaadolescência, tornou-se seu maior e melhor amigo, além de vir a ser um de seus primeirosseguidores.Quando passa a viver com o tio, Maomé começa a ser iniciado na profissão de mercador, ouseja, começa a realizar viagens a toda parte, em especial para o norte, rumo a Damasco eoutras cidades do Império Bizantino e da Pérsia, principalmente na Síria. Reza a tradiçãoMuçulmana de que numa dessas viagens, Maomé, ainda adolescente (entre 12 e 15 anos) teriaencontrado um monge do deserto, um eremita (nos primórdios do Cristianismo os eremitaseram muito comuns, visto que segundo as pregações do apóstolo Paulo, a salvação estarianuma renúncia ao sexo e a sociedade, ou seja, na castidade total e esta só seria possível com oafastamento das tentações mundanas, em suma, com o isolamento do indivíduo em um lugardistante, como uma montanha, uma floresta ou um deserto) chamado Bahira. Este teriapredito a missão do garoto e recomendo a seu tio que o protegesse de seus possíveis inimigos(que os Islâmicos gostam de ver como sendo os Judeus ou talvez os Bizantinos, porém, commaior possibilidade para os primeiros).Até os vinte anos Maomé continua trabalhando e vivendo com seu tio, até que, em 591, torna-se agregado (um empregado que vive na casa do patrão e, em troca de seus serviços, ésustentado por ele, porém, um agregado é muito diferente de um servo ou um escravo, poispossui única e exclusivamente um vínculo empregatício com seu patrão, vínculo este que podeser desfeito a qualquer momento por qualquer das partes, ou então baseado em um acordoformal pré-existente) de Khadidja, uma rica viúva de trinta e cinco anos.Para a viúva, Maomé trabalha por cinco anos, provavelmente como chefe de suas caravanascomerciais, visto que, com a morte de seu marido, não havia quem acompanhasse osempregados nas viagens de negócios. Depois de cinco anos, o futuro profeta, agora com 25anos, casa-se com a patroa, agora com 40 anos (idade avançada para a época e para ascondições de vida da Arábia).O casamento resulta em tranqüilidade financeira e status social para o rapaz. Além disso, eletem sete filhos com a esposa (ao que, parece todos em seqüência, e nos primeiros anos decasamento, devido à avançada idade de Khadidja): três homens que morreram ainda bebês equatro mulheres: Zeineb, Roqaia, Ummu Keltsum e Fátima.Em 611, já com quarenta anos, Maomé finalmente iniciou sua vida de profeta; depois dedistribuir gordas esmolas aos pobres de Meca, retirou-se para as montanhas, onde iniciaria suameditação.
    • 4.1 – Meditação e Experiência, a criação da nova Fé: Alguns meses se passam sem que Maomé retorne para casa, nesse tempo, ele observa os céus e medita constantemente (talvez se lembrando do que o velho eremita lhe dissera, quando garoto). Nada acontece nos primeiros tempos de meditação do profeta, porém, depois de um certo período de isolamento, numa certa noite, enquanto Maomé dormia, sonhou com um anjo que lhe entregava um pergaminho e ordenava: "Leia!". Maomé, O mais antigo exemplar do Al Corão do mundo que era analfabeto, insistia ao anjo que não sabia ler, no entanto este insistiu que o homem o fizesse e este, sem escolha, obedeceu.Para sua própria surpresa, ele conseguiu ler tudo o que estava escrito no pergaminho e,quando acordou, sentiu que um livro havia descido dos céus para seu coração. A este livro,Maomé chama Corão, ou Alcorão.À partir dessa noite, Maomé teve certeza de que era realmente o "escolhido" de Allah e quedeveria pregar ao mundo. Retornou então a cãs, onde contou sua experiência a Khadidja,agora uma anciã de 55 anos. Ela, que poderia ter desdenhado do marido, ao contrário, tornou-se a primeira convertida ao Islã. Nascia uma nova fé.Maomé estava convertido, aos 40 anos, em profeta, o que, na Arábia daquela época, eracomum, visto que por todos os lados havia os Kâhin, ou profetas, que preconizavam desde avinda de um messias até o Juízo Final.Inicialmente, o profeta pregou apenas para aqueles que lhe eram mais caros, ou seja, para amulher, para o primo, Ali; para Abu Bakr, um grande amigo; para Zayd, um escravo liberto queMaomé adotara como filho; e para Uthman, seu genro. Maomé esperava que novos sinais doscéus lhe fossem enviados, porém, em quase três anos nada aconteceu, dessa forma, ele sesentia acovardado em iniciar suas pregações para estranhos.Em 613, porém, um novo "contato divino" foi estabelecido com Maomé, ele teve uma espéciede ataque epilético (tanto que hoje muitos historiadores suspeitam que o profeta sofresse deepilepsia), do qual, depois de voltar a si, contou revelações. Na verdade, a partir dessa data,esses "contatos divinos" começaram a se tornar mais freqüentes e isso motivou o profeta ainiciar suas pregações ao povo.A princípio, as pregações do profeta não atingiram grandes proporções, mas por volta de 615,já havia um bom número de recém-convertidos ao Islamismo. Nesse grupo podia-se contarprincipalmente jovens dos grandes clãs Coraixitas; membros dos clãs Coraixitas menosinfluentes; pessoas não pertencentes aos clãs Coraixitas e escravos.
    • A conversão dos filhos dos grandes clãs começou a preocupar a elite Coraixita que não via combons olhos algumas das práticas recomendadas por Maomé, tais como: a valorização dasolidariedade e a doação de esmolas (essas práticas iam de encontro aos ideais pré-capitalistasprofundamente enraizados na sociedade Mequense, isso porque os ricos almejavam se tornarmais ricos e para isso exploravam os pobres, sendo assim, o fato de Maomé condenar àdanação os que não fossem solidários e caridosos enfurecia as elites), e o caráterprofundamente monoteísta do Islamismo (esta era a pior característica da nova religião, doponto de vista dos Coraixitas, isto porque se ela se propagasse muito, poderia causar umcolapso na economia de Meca que, como expliquei anteriormente, girava em torno da Caaba).Devido a esses pontos de conflito entre as elites de Meca e a religião de Maomé, iniciou-seuma forte perseguição a seu culto na cidade. Tais perseguições (iniciadas em 615) acarretaramna dissidência de muitos convertidos e na fuga de outros para a Etiópia, onde o monoteísmoera aceito devido ao fato de o país (que à época se chamava Abissínia) ser Cristão.Vendo que seus adeptos estavam começando a diminuir devido às perseguições, Maomécomeçou a "se mexer" para arrumar um lugar onde seu culto fosse aceito.4.2 – A Hégira:Na verdade, Maomé não sofria, ele próprio, nenhuma sanção dos Coraixitas, porque seu tio,Abu Talib, apesar de não ter se convertido ao Islã, permanecia como um dos membros doconselho da cidade e protegia o sobrinho e filho adotivo da ira do conselho. Além disso,Khadidja, sua esposa, era muito rica.Porém, em 619, duas tragédias ocorrem em seguida para Maomé: primeiro Khadidja falece,aos 63, vítima de sua idade avançada. O profeta havia dedicado a ela vinte e três anos de suavida e seu casamento havia sido tão feliz que Maomé nunca traiu a esposa, o que eracomuníssimo na época.Porém o pior golpe viria apenas alguns dias após a morte da esposa, seu tio e protetor, AbuTalib, chefe de seu clã, morreria e, ao se recusar a se converter, mesmo em seu leito de morte,geraria a crença, entre os seguidores de Maomé e no próprio, de que iria para o inferno. Essacrença fez com que Abu Lahab, irmão de Abu Talib e novo chefe do clã de Maomé, se tornasseo pior inimigo dos Muçulmanos, incentivando as perseguições, principalmente ao próprioMaomé.Ao perder seus pontos de apoio, Maomé percebeu que sua vida, caso permanecesse em Meca,correria perigo, sendo assim, abandonou imediatamente a cidade e tentou se instalar em Taif,uma cidade nas montanhas, próxima a Meca. No entanto, depois de apenas alguns dias nacidade, foi expulso e obrigado a voltar a Meca. Tentou então contato com os chefes das tribosBeduínas, mas fracassou em uni-los e mesmo em converte-los, pois para estes, a unidadepolítica não tinha sentido, amava a liberdade e o nomadismo que lhes eram intrínsecos háséculos.Depois do fracasso diplomático frente aos Beduínos, Maomé voltou sua atenção à cidade ondeseu pai havia sido sepultado: Yathrib.A cidade de Yathrib havia sido fundada por três tribos Judaicas fugidas da destruição da Judéia:os Nadhir, os Qorayza e os Qaynoqa. Porém, depois de alguns anos do estabelecimento destasno território, duas tribos Árabes dissidentes do Iêmen, os Khazradj e os Awz, chegaram à
    • cidade e depois de subjugar os Judeus, dominaram-na e passaram a lutar entre si pelahegemonia. Os Awz com os quais os Judeus se aliaram, venceram e passaram a controlar acidade, num sistema semelhante ao de Meca. Porém, ao que parece, havia participação dosmembros da outra tribo Iemenita no conselho da cidade, mas uma participação minoritária.Maomé reuniu-se, em 620, com os líderes dos seis clãs khazradj (os minoritários) e converteu-os. Dessa forma, meio caminho já estava andado para o profeta. Depois da conversão de partedos membros da tribo Awz, Maomé recebeu, em 622, garantias de que poderia vir com seusadeptos de Meca para Yathrib.Maomé voltou para Meca e organizou a partida de seus seguidores, que partiram empequenos grupos para não levantar muitas suspeitas. Ele e Abu Bakr foram os últimos a deixara cidade. Ambos passaram por Qoba, onde Ali os esperava e os três marcham para Yathrib,onde em 24 de setembro de 622, fazem sua entrada triunfal (notem que, como veremos maisà frente, o dia da Hégira é considerado o 16 de julho, não o 24 de setembro).A Hégira, ou seja, a saída dos Muçulmanos de Meca e sua ida para Yathrib, está concretizada.Na nova cidade Maomé é recebido com honras e assume o posto de Malik (Rei). É interessantenotar que as duas tribos Iemenitas de Yathrib viram em Maomé e na nova religião tanto oMessias do qual os Judeus da cidade falavam, quanto uma esperança para o fim das disputasentre ambas as tribos pelo poder a cidade.É interessante notar que a maioria dos adeptos de Maomé que havia migrado com ele deMeca, não tinha sequer uma propriedade em Yathrib e, dessa forma, estariam condenados àmiséria se não fosse a política de intervenção do profeta, política esta que explicarei no itemseguinte.4.3 – Destruição dos Ídolos da Caaba:Chegando em Yathrib e obtendo o poder, Maomé tornou a cidade a inimiga número um deMeca, tanto que esta passou desde o princípio ao confronto aberto contra o profeta.Foram oito anos nos quais se por um lado Meca atacava, por outro Yathrib se defendia efortalecia. Não convém aqui explicar detalhadamente todas as batalhas entre as duas cidades-Estado ocorridas entre 622 e 630, mas sim contar como pode Maomé, em oito anos, passar deMalik, líder político a Califa líder político e religioso (Imam) e como pode ele, nesse mesmoperíodo, fortalecer sua cidade a ponto de empreender a conquista da rival.Bem, quando da chegada do profeta a Yathrib, a cidade estava dividida em alguns grupos bemdistintos quanto a sua orientação religiosa: havia o grupo de fiéis que havia migrado de Mecacom Maomé, portanto fiéis mais antigos, mas que estavam marginalizados social eeconomicamente na nova cidade; havia os convertidos de Yathrib, em especial a aristocraciada cidade, que davam força a Maomé; havia os hesitantes, ou seja, aqueles que haviam aceitoo Islã, mas não com plena convicção; havia também os pagãos, ou seja, aqueles que serecusavam a aceitar o Islã e continuavam a praticar suas religiões antigas; e, por fim, havia osJudeus, que praticavam sua religião milenar (embasaba no Velho Testamento e no Talmude,livros que dão respaldo ao Judaísmo) e nunca aceitariam a conversão ao Islamismo.Quanto a esses grupos, Maomé tomou as seguintes providências. Das elites convertidas deYathrib, ele tirava o apoio para realizar seus projetos; quanto aos hesitantes, fazia de tudopara torna-los realmente fiéis ao Islã; quanto aos pagãos, deu-lhes liberdade de culto, pois
    • sabia que, na posição em que se encontrava, se fosse intolerante com aqueles quecompunham a maioria da população, seria fragorosamente derrotado. Porém, as atitudes maismarcantes do profeta foram realmente com relação aos Judeus e aos que emigraram de Mecacom ele. Como estes estavam sem terra e eram os mais leais à nova fé e como, por outro lado,aqueles eram os maiores inimigos da fé na cidade (lembrem-se do que disse o eremita aMaomé enquanto ele ainda era uma criança), Maomé decidiu unir o útil ao agradável, ou seja,iniciou uma política de perseguição violenta aos Judeus, e, à medida que estes eramexterminados, seus bens ficavam para os oriundos de Meca. Essa política, em oito anosexterminou as três tribos Judaicas de Yathrib, além de impor o medo aos pagãos que temiamserem os próximos a sofrerem tais perseguições. Dessa forma, Maomé conseguiu as terras ebens dos Judeus para seus protegidos e ainda conseguiu forçar a conversão de boa parte dospagãos, tanto que, por volta de 628, Yathrib mudou seu nome para Medina, ou seja, a cidadedo profeta; e Maomé recebeu o título de Califa, chefe político e religioso, sendo assim, oEstado de Medina constituía-se numa Teocracia.Em fevereiro de 628, Maomé resolveu realizar uma peregrinação a Meca, é claro que foiimpedido pelos Coraixitas de entrar na cidade, mas firmou um acordo com eles de que poderiarealizar sua peregrinação no ano seguinte. Este acordo foi visto como um sinal de fraquezapelos Muçulmanos, mas, na verdade, constituía uma jogada política do profeta, isso porque,quando em 629, ele foi até Meca, com permissão para ficar três dias, conseguiu prolongar suaestadia realizando mais um casamento (após a morte de Khadidja, Maomé iniciou uma sériede casamentos, o primeiro deles foi justamente com a filha de seu grande amigo Abu Bakr,mas depois foram realizados inúmeros outros, tanto que a Mesquita de Medina, a primeiraque foi construída, tinha diversos quartos para as esposas do profeta; estes quartos eramconstruídos junto às paredes externas do templo e aumentavam em número à medida que oharém de Maomé crescia), com Maimuna, filha de seu tio, al-Abbas (que não se convertera) etia de Khalid ibn al-Walid, o maior general de Meca.Graças a seu casamento, Maomé conseguiu a ira do tio e a conversão de Khalid ibn al-Walid.Este, no mesmo ano, liderou uma grande expedição contra as fronteiras do Império Bizantino,expedição que terminou em fiasco e morte da maior parte dos Muçulmanos, mas que foi umademonstração de que as tropas de Medina estavam prontas para uma guerra definitiva contraMeca.No princípio de 630, o general Mequense recém convertido liderou os exércitos de Medina atéas portas de Meca, lá, ele recebeu uma embaixada Coraixita que se destinava a ceder aosdesígnios de Maomé. Estes eram entrar em Meca sem resistência e visitar a Caaba.Aceitas as condições do profeta, procedeu-se a entrada em Meca. Uma pequena tropaMequense que ofereceu resistência foi destruída pelas tropas Muçulmanas e Maomé, juntocom seu exército marchou até a Caaba. Chegando lá, contornou o templo sete vezes e depoisentrou; então, tocou a Pedra Negra com seu cajado e gritou: "Allah é o maior!".Depois disso, ordenou a destruição dos mais de trezentos e sessenta ídolos das várias religiõesda Arábia, que havia na Caaba e, por fim, mandou que o teto, onde havia um afresco Judaico-Cristão, fosse pintado. Era a conquista de Meca, a vitória de Maomé, o profeta de Allah.4.4 – A conquista da Arábia:Depois de conquistar Meca e destruir os ídolos da Caaba, Maomé retornou a Medina, de ondeorganizou expedições para toda a Arábia Central. Essas expedições colocaram boa parte da
    • península sob a autoridade do profeta, mas não toda, sua unificação só seria concluída um anoapós a morte de Maomé.Na peregrinação anual dos povos Árabes à Caaba, em 631, os peregrinos não encontram suasdivindades, em seu lugar encontram a Caaba transformada numa Mesquita (templo Islâmico),com efeito, esta peregrinação é uma transição entre o politeísmo praticado no Hedjaz atéentão e o monoteísmo que o substituiria a partir do ano seguinte.Em 632, na peregrinação anual à Caaba, Maomé se faz presente e, com várias demonstraçõesdos rituais a serem seguidos nas visitas futuras, além de um discurso forte, declarou tercumprido sua missão e rogou a todos os Árabes que permanecessem unidos no Islã. Depois,fechou seu discurso perguntando a todos se havia cumprido sua missão e como recebesse umaresposta afirmativa, declarou que aquele seria seu último discurso.É provável que Maomé já tivesse ciência de que a morte se aproximava dele, afinal, já estavacom 61 anos, idade avançadíssima para a época e sendo assim, quis dar por encerrada suamissão, mas o fato é que o profeta estava correto em seu auspício, pois ao retornar a Medina,morreu apenas três meses depois, no dia oito de junho de 632.5 – O período dos quatro Califas (Rashidun):O enterro de Maomé foi uma cerimônia simples, sem muita pompa, realizado em Medina nodia seguinte à sua morte. O motivo pelo qual Maomé não foi sepultado com muitas honras eestardalhaço não foi religioso ou mesmo moral, mas sim político, isso porque devido ao fatode o profeta não ter deixado nenhum filho homem, não se sabia quem seria seu sucessor e,sendo assim, havia muitos pretendentes ao título de governante da Arábia. Dessa forma,alguns desses pretendentes, dentre os quais se contava Ali, o primo de Maomé, temiam queAbu Bakr, por seu caráter de liderança fizesse de uma possível solenidade de sepultamento doprofeta, uma forma de assumir o poder.Porém, de nada adiantaram as precauções dos candidatos à sucessão de Maomé, pois AbuBakr e Omar (um importante membro da sociedade Caraixita que, ao ser convertido, em 619,proporcionou a conversão de boa parte da população de Meca devido à sua popularidade)chamaram para eles a responsabilidade de governar a Arábia e, apoiados em no outro,realizaram esta missão, Abu Bakr se tornou então o Califa, que segundo reza a tradição foi oprimeiro, devido ao fato de Maomé ser o Profeta.5.1 – Os Califas:O período que se seguiu à morte de Maomé foi o chamado Período dos Quatro Califas, ele é operíodo em que começa a se formar o Império Islâmico propriamente dito, pois antes o queMaomé fez foi costurar a colcha de retalhos que étnico-religiosa que formava a Arábia e torna-la um país unitário. Este período é muito conturbado, com o surgimento das primeirassesseções religiosas no Islã e com o a abertura das novas frentes de batalha, contra Pérsia eImpério Bizantino.Aliás, a respeito de Pérsia e Império Bizantino é interessante notar que após uma longa guerraentre os dois Impérios, finalmente, em 628, Heráclio I, Imperador Bizantino, conseguiu umavitória definitiva sobre a dinastia Sassânida (a dinastia Persa). Definitiva não porque destruiu
    • definitivamente a dinastia, mas porque impossibilitou-a de reagir e tornou a queda do ImpérioPersa apenas uma questão de tempo, tanto que, em 630, o próprio Heráclio I tomou Jerusalémaos Persas e continuaria tomando regiões não fossem os Árabes...5.1.1 – Abu Bakr (632 – 634):Quando Maomé morreu, as diversas religiões Árabes retomaram força, alimentadas pelosdiversos profetas aos quais já me referi. Esses profetas tentaram operar a desunificação doque estava unificado na Arábia, porém, o novo Califa agiu rápido e em pouco tempo, contandocom a ajuda imprescindível de Khalid ibn al-Walid, não só exterminou esses profetas, comotambém apaziguou os Beduínos, conquistando-os e enviou seu general ao sul da península,onde os Estados independentes não participavam da vida do Hedjaz, esta expediçãoconquistou o Reino de Sabá e os diversos Estados independentes do Iêmen, Hadramaut, Omãe litoral do Golfo Pérsico.Apesar do ano de 633 ter sido tão grandioso e proveitoso para o Califa, ele já estava velho e,sendo assim, em 634, adoeceu e morreu, porém, em seu leito de morte, Abu Bakr não seesqueceu de recompensar seu principal aliado no poder, Omar e, sendo assim, designou-ocomo seu sucessor.5.1.2 – Omar ibn al-Khattab (634 – 644):Omar (em algumas fontes também mencionado como Umar) tomou o título de Califa e,segundo a História é conhecido como Omar I, isto porque, futuramente haverá outros Califascom este nome. Homem que inicialmente era um inimigo ferrenho do Islamismo, acabou seconvertendo por volta de 619, e se tornou um dos principais responsáveis pelo poder deste.Em seu governo, ditado pelas aristocracias comerciais de Meca e Medina (esta última tinha seconvertido na capital natural do Império, devido ao fato de ter sido o verdadeiro berço doIslamismo, de onde partiram as tropas que conquistaram Meca e toda a Arábia), concentrouseus esforços em conquistar a Mesopotâmia, as antigas Judéia e Fenícia e em se expandir atéAlexandria, no Egito, pois queria dominar as principais rotas comerciais.Seus exércitos foram liderados mais uma vez por Khalid ibn al-Walid, que por todos os seusfeitos em prol do Islã, recebeu o digno apelido de "A Espada de Allah".Com efeito, o governo de Omar I foi marcado por conquistas, conquistas essas proporcionadaspela fragilidade do decadente (e por que não moribundo) Império Persa e do enfraquecidoImpério Bizantino. Quando Khalid estava velho demais para continuar suas conquistas, foisubstituído, com honras, mas as conquistas não pararam e, em 642, o Império Árabe seestendia do Egito ao Irã.A viabilidade das conquistas se deu devido à tolerância dos conquistadores, pois quando osÁrabes dominavam uma região, não obrigavam-na a se converter ao Islamismo, apenasimpunham um pesado tributo (que servia para financiar a conquista de novas regiões pagandoo soldo dos exércitos e proporcionando a confecção de armamentos) a quem não aceitasse afé de Allah.Dos pontos de vista estratégico, cultural e econômico, Omar foi impecável. Ordenou aconstrução de três cidades que serviam de bases militares (Kufa, ao sul da Babilônia antiga;Basra, no Iraque; e Fostat (atual Cairo), no Egito) que funcionavam mais ou menos como ascolônias Romanas, ou seja, regiões com a finalidade militar de defender e controlar a região e
    • a finalidade social de Arabizar ou Islamizar a região. Além disso, foi Omar I quem organizou ocalendário Muçulmano que é seguido hoje, ou seja, foi ele quem fixou a Hégira (se bem queem data errada) como marco zero do calendário Islâmico.O Califa também organizou as finanças do Império, criando o balanço (ou lista de receita edespesa) deste e organizou os territórios conquistados colocando um Wali, governador egeneral assistido por um Amil, responsável pela receita em cada uma das regiõesconquistadas.Além de todos esses feitos, o Califa ainda é lembrado pelos Islâmicos como um modelo dasvirtudes do Muçulmano, ou seja, enérgico, justo e mais temido do que amado. Seu caráter eratão forte e sua crueldade devia ser tamanha que, em novembro de 644, um escravoenfurecido atacou-o causando-lhe um ferimento mortal.Omar I ainda teve tempo de, em seu leito de morte designar um conselho com seis membroscom a função de eleger o novo Califa.5.1.3 – Uthman ibn Affan (644 – 656):O conselho dos seis era formado por, dentre outros, o próprio Uthman; que além de amigo deMaomé, havia desposado uma de suas filhas; e Ali (o primo de Maomé). Este conselhoterminou por eleger Uthman como novo Califa.Uthman, ao contrário de seus predecessores, não era uma figura famosa entre o povo, nemtão pouco, um herói militar, era, no entanto, um importante membro da aristocracia comercialde Meca, sendo pertencente ao clã Omíada (em Árabe, Umayyad). Dessa forma, a eleição donovo Califa marcou a vitória, e porque não o início da hegemonia, da aristocracia comercial deMeca sobre o Califado.Os objetivos do novo Califa eram óbvios desde o início de seu governo, pois tentou dominar asmais importantes regiões comerciais do Oriente Médio e norte da África. Em seu governoAlexandria foi retomada, pois havia sido momentaneamente reconquistada pelos Bizantinos ea conquista da Palestina e da antiga Fenícia foi consolidada. Estas conquistas, juntas,possibilitaram o início da expansão marítima Árabe, pois antes, estes nunca haviam searriscado nas águas do Mediterrâneo.A principal figura da expansão marítima é Moawiya (em Árabe, Mu’awiyya), o governador daSíria, que instalado na proeminente cidade de Damasco, chefiou as esquadras Árabes em suassucessivas vitórias sobre a esquadra Imperial Bizantina. Em 649, o Chipre caiu nas mãosMuçulmanas e isto marcou o fim da hegemonia de Constantinopla sobre as águas doMediterrâneo, em especial sobre o Mediterrâneo Oriental.Com as fronteiras comerciais consolidadas e a economia do Império indo "de vento em popa",o Califa tomou duas atitudes importantes relacionadas com a política interna: diminuiu afervor expansionista, com intuito de fortalecer as defesas; e direcionou seus esforços nosentido de elaborar um texto único para o Alcorão, pois a existência de textos conflitantes(visto que Maomé não sabia escrever e, sendo assim ditou o livro para outros) começava agerar discórdias religiosas que,mais tarde eclodiriam em revoltas e num cisma religioso.Uthman, no entanto, desenvolveu em seu governo algumas vicissitudes que o tornaram muitoimpopular, além de enfraquecerem a unidade do Império. Contam entre essas medidas a
    • prática deliberada do nepotismo (ou seja, o emprego de parentes e amigos em cargos públicosde confiança ou não) seguido do esbanjamento do tesouro central, o que acarretou emdiminuição de recursos para fins importantes, como o militar.Somam-se ao esbanjamento duas práticas que, por si sós, já seriam suficientes para reduzir areceita Imperial, ou seja, a parada na expansão, que acarretou no fim (pelo menos temporário)das presas de guerra; e a conversão ao Islamismo da maioria das populações conquistadasanteriormente. Esta última ação reduziu as receitas, pois, como o leitor deve se lembrar,aqueles que não quisessem se converter ao Islã depois de conquistados, não seriam obrigados,mas estariam sujeitos a pesados tributos, dessa maneira, muitos simularam sua conversãopara assim se verem livres de impostos (dos quais os Islâmicos estavam livres).A repercussão de tais fatos teve um peso negativo muito maior do que o peso positivo dasconquistas (leve-se em consideração que foi no governo de Uthman que as conquistas foramrealmente divididas em três frentes (como será explicado mais adiante), além disso, foi em seugoverno que a Pérsia caiu de joelhos definitivamente diante dos Árabes, com a morte doúltimo Grande Rei), tanto que desde o princípio de seu governo, o Califa encontrou ferozoposição de quatro figuras importantes dentro da comunidade Islâmica: Aysha, filha de AbuBakr e principal esposa de Maomé; Ali, primo do profeta; al-Zubayr e Talha, ambos, assimcomo Ali, membros do conselho dos seis que elegeu o Califa.O nepotismo e o esbanjamento praticados pelo Califa se irradiaram para as províncias, dessaforma, as populações passaram a ser muito exploradas (talvez isso tenha, mais que tudo,motivado as conversões em massa) pelos governadores locais que eram nomeados erenomeados pelo Califa a seu bel prazer.A situação se tornou calamitosa quando no final de 655, Amr, o governador do Egito foideposto pelo Califa que nomeara para seu lugar um parente. Ele com seus soldados tentaramdepor Uthman, mas não lograram sucesso. Porém, este (o Califa) pediu auxílio ao novogovernador do Egito para que este sufocasse a revolta, este (o governador) obedecendo,matou um importante general leal a Amr. A morte do oficial revoltou os exércitos do Califadoe, sendo assim, quando a notícia chegou a Medina, os soldados que outrora eram leais aUthman invadiram seu palácio e mataram-no enquanto lia o Alcorão.5.1.4 – Ali ibn Abi Talib (656 – 661):Quando Uthman morreu, mais do que depressa (no mesmo dia) Ali (o mesmo que era primode Maomé e que com ele crescera) tomou para si o título de Califa, no entanto, ascircunstâncias nas quais o antigo Califa fora morto (lendo o livro sagrado) fizeram com que,inesperadamente, ele se converte num mártir (um herói morto). Sendo assim, Ali, quepossivelmente instigara os exércitos contra Uthman, foi considerado por seus antigos aliados(leia-se Aysha, al-Zubayr e Talha), além de por Moawiya (governador da Síria, que era primode Uthman e que, dessa forma, com sua morte, herdou a chefia do clã Omíada).Certamente, Ali contava com inúmeros aliados, dentre os quais podemos referirprincipalmente os mais antigos fiéis, ou seja, os que haviam conhecido Maomé, além de quasea totalidade dos exércitos, visto que as três fortalezas Árabes (Fostat, no Egito; Kufa e Basra, naMesopotâmia) lhe eram fiéis.A viúva de Maomé (entenda-se que apesar de após a morte de Khadidja, o profeta ter criadoum harém, a primeira mulher com a qual se casou, no caso Aysha, passou para a História como
    • sua viúva, isto porque foi a única que teve alguma relevância depois da morte do marido, alémde ter sido a única cujo pai (Abu Bakr) também se tornou Califa), juntamente com os outrosdois inimigos de Ali, se mudou para Basra, onde pretendia corromper a fortaleza contra o novoCalifa.Vendo que sua presença se fazia necessária junto aos exércitos, em especial na Mesopotâmia,Ali transferiu a capital do Império de Medina (onde haviam reinado Maomé, Abu Bakr, Omar eUthman) para Kufa. Lá, ele organizou as tropas e marchou contra os rivais. Tudo isso ainda e656, o mesmo ano de sua posse.Desenrolou-se então a chamada batalha do camelo, de onde Ali saiu vitorioso, exterminandoas tropas dos oponentes e, além de matar al-Zubayr e Talha, capturou Aysha, esta foisilenciada (pois ficou sem aliados) e então enviada de volta para Medina, onde viveu o resto desua vida (morreu em 678, de velhice, com quase oitenta anos) confortavelmente, mas sem teroutra chance de agir politicamente falando.A morte de seus inimigos serviu para consolidar as posições de Ali no Iraque (ouMesopotâmia), mas, no entanto, na Síria as coisas estavam diferentes. Moawiya não aceitavao governo de Ali, a quem considerava um usurpador, dessa forma, agora aliado com Amr(entendam que Amr, apesar de ter sido inimigo de Uthman, viu em seu primo Moawiya, umaliado poderoso, posto que este não praticava os mesmos erros grotescos que o Califaanterior, além disso, Ali lhe tinha usurpado a idéia de dar um golpe e tomar para si o título deCalifa, visto que havia feito isto antes, sendo assim, a vingança também o motivava), iniciou, jáem 657, suas ofensivas.A batalha de Siffin, na margem direita do rio Eufrates, em 657, foi decisiva em muitos aspectos,pois os exércitos de Ali estavam levando vantagem até que Amr, que comandava os exércitosde Moawiya, ordenou que todos os seus homens colocassem sobre as espadas folhas doAlcorão. Essa imagem fez com que as tropas de Ali desistissem de lutar, pois consideravamsacrilégio matar homens tão leais à sua fé. Além da desistência, os homens de Ali decidiramsubmete-lo a uma Arbitragem, ou seja, uma espécie de julgamento que apontaria se suaascensão ao poder era válida (na prática, isto punha em dúvida o mérito do governante, ouseja, o desmoralizava).Enquanto Ali se retirava do campo de batalha com seus homens, cerca de metade deles veioinsistir para retornar ao combate. O Califa, no entanto, achou prudente não aceitar, poisestariam em menor número e certamente perderiam a batalha. Diante da recusa de Ali, estessoldados desertaram, mas ao invés de passarem para o lado de Moawiya, formaram umamilícia religiosa cujos seguidores foram batizadados de Kharidjitas (os que saem). A formaçãodessa milícia marca o primeiro grande cisma do Islã.Depois da formação do Kharidjismo, Ali teve que ocupar seu tempo enfrentando-os, dessaforma, Moawiya passou a agir livremente e, sendo assim, não só retomou o Egito, cujogovernador era leal a Ali, e entregou-o a Amr, como, em 660, em Jerusalém, proclamou-seCalifa. Isso gerava uma situação de quase ruptura, uma vez que passava a haver doisindivíduos que se consideravam governantes supremos do Império, um cuja influência deestendia ao Egito e à Síria (Moawiya) e o outro, ao qual eram leais a Arábia em si e o Iraque(Ali).Ali finalmente derrotou os revoltosos Kharidjitas, na batalha de Nahrawan, nas margens (emesmo dentro dele, dizem que as águas do rio se tornaram turvas com o sangue dos
    • dissidentes) do rio Tigre. Porém, apesar de agora ineficazes militarmente, os Kharidjitascontinuaram a existir e a agir de forma semelhante aos terroristas de hoje, tanto que, em 661,quando (livre dos insurretos) Ali organizava suas tropas para marcharem contra a Síria, umKharidjita disfarçado invadiu a Mesquita de Kufa e matou o Califa. Com a morte de Ali, ocaminho ficou livre para as pretensões de Moawiya. Expansão máxima do Islã nos primeiros anos5.2 – As Revoltas Xiitas e as dissidências religiosas no Islã:As tensões que se iniciaram no Califado de Uthman acarretaram diversas transformações nomundo Árabe. Porém, as principais talvez tenham sido as religiosas. Digo principais, pois alémdas transformações políticas profundas ocorridas no Império Islâmico, decorrentes em grandeparte de tais dissensões religiosas (não devemos esquecer que os Kharidjitas atrapalharam apossível e provável reação de Ali, abrindo o caminho para o fortalecimento dos Sírios), até hojeessas diferentes correntes têm, em maior ou menor grau, alguma influência no mundoMuçulmano, sendo que o Irã tem como religião oficial o Xiismo.O Kharidjismo foi a primeira dessas dissensões religiosas e, como já expliquei no item anterior,surgiu de uma discordância entre os soldados de Ali e este. Ele foi responsável por diversosataques tanto na época de Ali, quando ainda era efetivo numericamente o suficiente pararealizar reides, quanto em épocas posteriores, através de atentados e da conversão deadeptos do Sunismo (ortodoxia Islâmica original) a sua causa. A principal discordância dosKharidjitas em relação aos Ortodoxos (os Muçulmanos que seguem os ensinamentos originaisde Maomé) era política, eles acreditavam que qualquer cidadão deveria ter o direito deascender ao Califado, desde que fosse Islâmico. Porém, o Califa deveria ser cobrado quanto aocumprimento de suas obrigações, podendo ser deposto se não as cumprisse adequadamente.
    • Esse princípio batia de frente com o caráter hereditário que viria a se instaurar no Califadoapós a morte de Ali, sendo assim, essa seita continuou agindo contra o interesse dos Califas. Omais curioso quanto aos Kharidjitas é que para eles (apesar de serem Islâmicos), era mais fácilconsiderar um Judeu ou um Cristão como igual do que um Muçulmano não adepto de suacausa.Após a morte de Ali, que possuía muitos apoiadores incontestes, este foi transformado pormuitos numa figura semi-divina, de fato, Ali, bem como seus descendentes (filhos deste comsua esposa Fátima, filha de Maomé) passaram a ser considerados mais importantes do queMaomé. É bom que se explique que os Califas eram, até o tempo de Ali, ao mesmo tempoMalik (Rei) e Imam (Líder Religioso), porém o culto que se desenvolveu a Ali, tratava-o, etambém a seu filho, Hussayn, como Imam. Este culto recebeu o nome de Xiismo. Os Xiitas,uma seita que persiste, como já foi referido, até os dias de hoje, acreditam que o Califado sópode ser exercido pelos descendentes diretos de Ali, pois estes são naturalmente divinizados.Cada Imam tem o dom, concedido por Allah, de rever as escrituras, sendo assim, a palavra deum Imam é absoluta sendo superior ao Alcorão e até mesmo a palavra do Imam anterior. Acrença na divindade do Imam fez com que os Xiitas não aceitassem os Califas e, sendo assim,desenvolvessem vários ataques e revoltas ao longo de todo o Califado Omíada e depois,também do Abássida.Para os Xiitas, o Imam designa entre seus filhos aquele apto a ser o futuro Imam. Porém, issocausou algumas dissidências entre os próprios Xiitas, pois o sexto Imam, Djafar, não escolheucomo futuro Imam ao seu filho mais velho, Ismail, como era costume até então, mas sim aoseu filho mais novo, Musa. Dessa forma, alguns Xiitas que acreditavam na sucessão varonil poridade (ou seja, o filho homem mais velho deveria ser o novo Imam), não aceitaram Musa comoImam e passaram a cultuar Ismail como seu Imam, estes foram então ditos Ismailitas, umafacção Xiita considerada radical até mesmo por estes (que, diga-se de passagem, já são radicaiso bastante). Os Ismailitas recusam-se a acreditar que Ismail tenha morrido um dia, aocontrário, eles afirmam que seu líder irá retornar ao mundo e salvá-los, bem como a todos osque se converterem, sendo assim, para os Ismailitas, com Ismail encerra-se o ciclo de Imans.Ao contrário, para os Xiitas, que aceitaram Musa como seu Imam, o ciclo só se encerra quando(por volta do final do século X) o décimo segundo Imam se retira para uma montanha sob opretexto de meditar. Os Xiitas acreditam (talvez inspirados nos Ismailitas) que este ainda estámeditando nas montanhas, até hoje, e um dia retornará para salva-los, nesse dia, asrevelações finais sobre o Alcorão serão feitas, e as partes perdidas (que teriam sido excluídaspropositalmente para retirar os predicados de Ali quando foi elaborado o texto único) serãoreencontradas.Tanto os Xiitas, quanto os Ismailitas (que nada mais são do que uma facção dos Xiitas)acreditam que, quando Uthman realizou a edição do texto "oficial" do Alcorão,deliberadamente negligenciou algumas partes que beneficiavam Ali. Dessa forma, ele teriaimpedido o "fundador" do Xiismo de obter privilégios semelhantes aos de Maomé.É interessante notar no Xiismo que apesar de Ali ser seu "fundador", ou pelo menos inspirador,seu filho Hussayn foi mais venerado, isso porque sua morte (apesar de ter sido morto numaemboscada, armada pelo novo Califa Moawiya, que temia que o filho de Ali reunisse forçassuficientes para destrona-lo) foi considerada um rito de auto-sacrifício, em busca depurificação, de salvação. A morte de Hussayn entrou para a História como o massacre, oudrama, de Karbala, e inspirou o início das violentas hostilidades Xiitas ao longo da História.Para os Xiitas, existe uma necessidade de vingar Hussayn, sendo assim, eles se mobilizam para
    • tal feito. Essa mobilização, aliada a outras causas que veremos mais adiante, foi uma dasresponsáveis pela queda da dinastia Omíada.O enviado de Allah que, tanto para os Xiitas, quanto os Ismailitas, esperam, é chamado deMahdi e será simplesmente infalível.5.3 – As três frentes da expansão:Certamente foi durante o governo de Uthman que a expansão dos domínios Árabes tomourealmente a forma que viria a ter nos próximos anos, sobretudo durante a dinastia Omíada.Três foram os caminhos adotados pelos Muçulmanos para expandir sua fé e seu controletemporal.Veremos neste item boa parte das principais conquistas Islâmicas desde o estágio embrionárioda divisão em frentes de combate, até o final do período ao qual se remete este texto, ou seja,em 809, com a morte de Harun al-Rachid.5.3.1 – Oriente:A expansão rumo ao Oriente existiu em boa parte sobre os domínios do antigo Império Persa.Este estava fragilizado pelas sucessivas derrotas que sofrera frente ao Império Bizantino,sendo assim, não pode resistir à organização das tropas Islâmicas.O leitor deve estar intrigado com uma questão importante e pouco estudada sobre o ImpérioPersa. Ele não havia acabado no século IV a.C., quando Alexandre matou Dario III e conquistouseu Império Persa.Vejamos, depois da morte de Alexandre, seu Império foi dividido entre seus principais homens,dentre eles contavam Antígono, a quem coube o núcleo do Império, ou seja, a Grécia-Macedônia; Ptolomeu, a quem coube o Egito; e Seleuco, a quem coube a Ásia, ou o antigoImpério Persa.Logo no início, a Ásia Seleucida foi desmembrada em diversos Reinos: Armênia; MédiaAtropatena; Partia; Bactriana e a própria Seleucida.Em 64 a.C., a Partia, que sob a dinastia dos Arsácidas (dinastia estabelecida em 247 a.C.) sefortalecera, toma as demais regiões, mas não recria o Império Persa, este período é chamadode Reino Parto, e perdura até 224 d.C.. Os Partos impuseram dura resistência ao ImpérioRomano, tendo sido combatidos por famosos generais, tais como Lépido e Marco Antônio.Em 224 d.C., um príncipe regional chamado Ardachêr, filho de Sâssân, organiza uma revoluçãonacional e, derrubando a dinastia Arsácida, instala no lugar a sua, que em homenagem a seupai, se chama Sassânida. Os Sassânidas, em busca de respaldo anterior ressucitam o nomePérsia, bem como todos os seus títulos, dessa maneira, o soberano volta a se chamar Grande-Rei, como na Pérsia Pré-Alexandrina e o Império volta a se chamar Império Persa.Os Sassânidas oferecem muito mais problemas aos Romanos do que seus antecessores, osPartos, talvez por serem mais ferozes que estes, ou pelo fato de aqueles estarem emdecadência. O fato é que um Imperador Romano é morto (Juliano, em 363) e outro capturadoe escravizado (Valeriano, em 260) em guerras contra os Persas Sassânidas.
    • Depois da queda do império Romano, os Sassânidas passam a disputar com os Bizantinos ahegemonia do Oriente. De início, são atrapalhados em suas tentativas, pelos Hunos e quandotentam conquistar territórios Bizantinos, encontram Constantinopla em seu apogeu militar,com Justiniano, que os repele. Khosrô II, no entanto, conquista diversos territórios do ImpérioBizantino (Ásia Menor, Síria, Palestina e Egito) após a morte de Justiniano, desencadeandouma guerra feroz entre os dois Impérios.Heráclito I, Imperador Bizantino, começa a retomar o que lhe havia sido usurpado pelos Persase, em 628, lhes impõe uma derrota definitiva (já mencionada anteriormente), derrota esta quepraticamente destrói qualquer chance da dinastia Sassânida se reerguer. É neste contexto queos árabes encontra os Persas, ou seja, praticamente derrotados desde 628, precisando apesardo "último empurrão" para caírem no precipício; e este "empurrão" é dado pelosMuçulmanos.Em 651, Yazdgard, último Grande-Rei Sassânida é morto pelos Árabes depois de fugir decidade em cidade, sendo assim, termina a dinastia, pelo menos na Pérsia, visto que noTurquestão (antiga pátria dos Turcos, dos quais falarei brevemente no item sobre a dinastiaAbássida) e depois na China, ainda resistem Reis Sassânidas até meados do século VIII, quandosão finalmente exterminados pelos Árabes.Se por um lado a expansão Árabe em seu rumo oriental se fundamentou na conquista dosterritórios do Império Persa, por outro, não se limitou a isso, visto que entre o governo deUthman (644 – 656) e o de Al-Walid (705 – 715), estenderam seus domínios do oeste do atualIrã até certas regiões da China e da Índia, tendo inclusive se deparado com tropas da dinastiaT’ang, da China da época.5.3.2 – Norte:Enquanto a expansão rumo ao leste se fundamentava na anexação dos territórios do ImpérioPersa, a expansão no sentido norte almejava a conquista de regiões do Império Bizantino.Iniciada por Uthman, esta direção das conquistas foi a que menos logrou efeito (pelo menos naépoca referida, visto que como esta frente nunca foi esquecida pelos povos Islâmicos,posteriormente os Turcos, saídos do Turquestão, atacaram a Ásia Menor, ou Capadócia,visando se instalarem. Venceram a batalha de Manzikert, em 1071, iniciaram a formação doImpério Turco, ou Otomano, que, dominando os Bálcãs e boa parte dos domínios centrais doImpério Islâmico original, perdurou até o final da Primeira Guerra Mundial), pois teve comooposição ferrenha o, ainda poderoso, Império Bizantino.As principais motivações dessa frente de combate eram nitidamente comerciais. Os Árabes,que estavam sob a égide de um clã comercial (os Omíadas), desejavam banir os Bizantinos docomércio do mar Mediterrâneo e, se não pudessem conquista-los, pelos menos queriamsobrepuja-los.Foi com esse intuito que, já no governo de Uthman, o Império Islâmico iniciou a construção desua esquadra que conseguiu grandes vitórias logo de início, conquistando o Chipre e dizimandoa marinha Bizantina.Depois de conquistar a supremacia no Mediterrâneo, os Árabes iniciaram a construção de umarede de postos avançados no mar, com a conquista de diversas ilhas e cidades costeiras, comoRhodes e Chipre, além de ataques a Sicília e ao sul da Itália.
    • Desejando exterminar definitivamente os Bizantinos e abrir seu caminho rumo a Europa, osÁrabes enviaram, em 674, uma grande esquadra para Constantinopla, pois sabiam que se acapital caísse, todo o Império cairia. Ocorreu um longo cerco de quatro anos, nos quais acidade resistia e os Árabes atacavam, até que os Bizantinos utilizaram a ciência para lhesgarantir a sobrevivência. Graças a pesquisas de Calímaco, um engenheiro da Síria que serefugiou no Império Bizantino para fugir do domínio Islâmico, foi inventado o fogo grego, umamistura de petróleo, enxofre, salitre e cal viva, que se inflama com o impacto e queima emqualquer superfície, inclusive sobre a água (devido ao petróleo, que é o que queimarealmente). Graças ao fogo grego, Constantinopla conseguiu armar suas defesas navais edestruir a esquadra Árabe que a cercava (isso porque, como os navios da época eram feitos demadeira, o fogo se tornava especialmente perigoso para eles). Os Árabes evitaram realizarnovas investidas navais contra Constantinopla para não perderem mais navios, em contrapartida, os Bizantinos não conseguiram reaver o que haviam perdido, pois assim como nãoconseguiriam produzir fogo grego suficiente para queimar todos os navios Árabes, tambémnão teriam recursos para reconstruir sua marinha perdida (uma vez que depois da dispendiosareconquista organizada por Justiniano (que governou entre 527 e 565), as finanças Imperiaisficaram de tal forma arruinadas, que nunca mais se recuperaram). Dessa maneira, houve umacerta paz nos mares entre os Impérios Islâmico e Bizantino.5.3.3 – Ocidente:A expansão Árabe rumo ao ocidente foi a que começou mais cedo, já no governo de Omar,talvez motivada pelo sentimento de revanchismo que boa parte dos Árabes nutria em relaçãoaos Abissínios (Etíopes), pois, como já foi explicado, este dominaram por longo período oReino de Sabá, além de tentarem impor o Cristianismo aos povos Árabes pré-Islâmicos.Durante o Califado de Omar (634 – 644), as conquistas se estenderam até Trípoli, tendotomado, no caminho, o Egito e a Abissínia. No governo de Uthman, esta frente foi preteridaem detrimento das outras duas e no Califado de Ali, devido às diversas guerras que o primo deMaomé teve que travar e ao conturbado momento político em que se encontrava o Califado, aexpansão parou momentaneamente.Quando a dinastia Omíada se instalou, voltou seus olhos novamente a esta direção daexpansão. Talvez a ênfase maior a estas conquistas tenha sido dada quando os Árabes sederam conta de que, pelo menos por aquela hora, não poderiam tomar Constantinopla, sendoassim, precisavam atingir a Europa de outra maneira.Através das conquistas no norte da África, ocorreu um aumento brutal da extensão doImpério, bem como uma verdadeira revolução na máquina de guerra Islâmica, visto que osBerberes (povo do norte da África (região da Numídia) conhecido por sua resistênciaintransponível a todos os Impérios anteriores e por seu nomadismo, além de suas altíssimasqualificações militares) se converteram ao Islamismo e tomaram para si a responsabilidade deinvadir a Espanha Visigótica (o domínio da Espanha será contado em detalhes num itemespecial, devido à grandeza do general responsável por sua conquista).
    • Outras conseqüências importantes tanto para oImpério Islâmico, quanto para o mundo atualda conquista do norte da África foram: osurgimento da África Branca, ou seja, airradiação dos povos Semitas da Arábia e Egitoaté o Maghreb; a destruição definitiva deCartago (a cidade havia sido destruída pelosRomanos em 146 a.C., porém, depois de ficarvários anos desocupada, foi revivida por JúlioCésar) para a construção, no mesmo lugar, deTunis; a criação de portos importantes para oataque a ilhas do Mediterrâneo e regiõescosteiras da Europa; além da principalconseqüência Histórica, a conquista da Espanhae o subseqüente fechamento do Mediterrâneo Arquitetura islâmica no Norte da África:à navegação Européia, pois os Árabes passaram Mesquita em Kano, Nigériaa domina-lo completamente.Com certeza, com veremos, a conquista da Espanha (entre 711 e 714) marca o início doapogeu do Império Islâmico, uma Império que existia a apenas oitenta anos e que já dominavauma região maior do que a extensão máxima do Império Romano.7 – A Revolução Abássida:Acredito que muitas coisas mudaram no Império Islâmico depois da ascensão dos Abássidas aopoder. Primeiramente, como pode-se perceber, até aqui o Império havia sido um ImpérioÁrabe e, porque não, um Império do Hedjaz e da Síria, sendo que os Muçulmanos das demaisregiões nunca haviam sido considerados como iguais pelas elites dominantes. Sendo assim, sónão chamo o Império construído pelos seguidores da religião de Maomé de Império Árabe,justamente porque sob os Abássidas, o Império perde esse caráter e, ao contrário, ganha, cadavez mais um caráter Persa.Sob a nova dinastia, ocorrem diversas transformações em diversos campos do Império.Primeiramente, deve-se notar que, enquanto os Omíadas laicizaram o Estado, os Abássidasretornaram à Teocracia orginal, aliás, a Teocracia Abássida era muito mais real do que a dosCalifas Ortodoxos. Os Califas dessa dinastia realmente se consideravam homens acima damédia, que haviam sido escolhidos por Allah para governar não só o Império, mas também avida de todos os Muçulmanos. Sendo assim, Esta dinastia retomou para o Califa o título deSumo Pontífice Islâmico.Justamente pelo fato de os Abássidas se considerarem os donos da verdade Islâmica é que asperseguições contra todos aqueles que não seguissem exatamente a Sunna do Profeta, ouseja, todos os não Sunitas, seriam perseguidos implacavelmente, tanto por meio de armas,quanto através da propaganda do Estado.Porém, os Abássidas não foram de todo ruim, eles tinham uma grande preocupação com ahumanidade, por isso, tentavam de todas as maneiras tornar todos os Muçulmanos iguais, aocontrário dos Omíadas, que não se preocupavam com o bem estar do povo. Foi sob estadinastia que foram produzidos os principais legados do mundo Árabe: obras literárias, como"As mil e uma noites"; Mesquitas gigantescas, túmulos igualmente majestosos; a tradução dasantigas obras Gregas (Platão, Aristóteles, Sófocles, Aristófanes, Tales, Arquimedes, Pitágoras,
    • Homero...) que estavam perdidas na memória Européia, mas que foram resgatadas pelosÁrabes através da memória Persa, mantida devido à helenização da Ásia proporcionada porAlexandre, o Grande; dentre outras grandes façanhas.No campo da política, os Califas Abássidas criam um novo cargo: o Vizir. Este é, a exemplo doPrefeito do Palácio, do Reino Franco, uma espécie de Primeiro Ministro Islâmico que, à medidaque os Califas vão se ocupando mais e mais da cultura e da religião, tornam-se os responsáveispela administração política e militar do Império.A dinastia também é marcada pelo início da fragmentação do Império, com a criação de umgoverno (mais tarde Califado) Omíada na Espanha e, com a independência das tribos Berberesdo norte da África. Além disso, a capital do Império é mais uma vez alterada, inicialmente secentra em Kufa e depois, passa para Bagdad, uma cidade construída justamente com o intuitode ser a nova capital do mundo Islâmico, sendo a herdeira de Ctesifonte (antiga capital doImpério Persa (se bem que o Império Persa tinha quatro capitais: Ctesifonte, Pasárgada,Persépolis e Susa)) e da gloriosa, porém esquecida, Babilônia.7.1 – O refúgio Omíada na Espanha:Quando iniciou-se a dinastia Abássida, com o governo de Abu al-Abbas, os Omíadas, como jáfoi dito, foram perseguidos. Boa parte deles foi exterminada de uma só vez no fatídico jantarem Damasco. Porém, alguns membros da família resistiram ao massacre, mas perceberam quesua permanência dentro dos domínios do novo Califa (que se denominara o caçador do sangueOmíada) seria impossível.Observando que, devido às conjunturas presentes no conturbado início da nova dinastia, osAbássidas não desfrutavam de um controle pleno sobre as províncias do ocidente; Abd el-Rahman, o último sobrevivente do clã Omíada, fugiu para al-Andalus (a Espanha), em 756.Lá, ele obteve boa receptividade das populações e, sendo assim, pode se instalar em Córdoba,onde se proclamou Emir (espécie de governador soberano, ou seja, muito superior aos merosgovernadores de província do Império, pois tinha total autoridade sobre a região na qualgovernava). Estava fundado o Emirado de Córdoba, uma região que, justamente por pertenceraos Omíadas, não aceitava o domínio Abássida e que constituiu o primeiro grande rachadentro do Império Islâmico.Abd el-Rahman fundou, assim, a dinastia Omíada da Espanha, um prolongamento da dinastiaque havia governado o Império Islâmico entre 661 e 750. O Emir contava não só com o apoiodas populações Espanholas convertidas ao Islamismo, mas também com o apoio dos Bascosque, apesar de Cristãos, preferiam manter boas relações com os Árabes do que sesubmeterem aos ataques dos demais Reinos Cristãos.Em 778, a Espanha foi atacada por Carlos Magno que, como parte de seu acordo com Harunal-Rachid (Califa Abássida que, como veremos, mantinha um pacto com o Rei Franco)pretendia exterminar os Omíadas da Espanha. Carlos Magno foi ajudado por Ibn el-Arabi,antigo governador de al-Andalus, que, quando os Omíadas chegaram, se refugiou emSaragoça, de onde pretendia reconquistar seus domínios, ajudado pelo soberano Franco.Com a ajuda dos Bascos, o Emir Omíada trucidou as tropas de Carlos Magno e, destruindo Ibnel-Arabi, obteve a hegemonia de toda a antiga Espanha Visigótica (exceto do Reino de Astúrias
    • (onde haviam se refugiado os Visigodos) e da região dos Bascos (que por meio de um tratado 6– O Califado Omíada:Após a morte de Ali, finda-se o período dos Califas ditos Ortodoxos, isso porque, os quatro quereinaram depois da morte do profeta haviam tido contato direto com ele e assim, estavamentre os primeiros convertidos ao Islã.Moawiya dá um golpe em 660, quando se proclama Califa, em Jerusalém. Seu golpe, noentanto, só se concretiza em 661, quando Ali morre, desde então, o antigo governador da Síriae agora, novo Califa, introduz algumas mudanças substanciais na política e, trazendo de voltapara sua família o poder (visto que Uthman era seu primo e líder da família antes dele)proclama o Califado como hereditário, estabelecendo assim, a dinastia Omíada, visto que umadinastia se caracteriza pelo domínio do poder por uma família ao longo de um certo tempo.6.1 – Os Califas e os feitos da Dinastia:A dinastia Omíada foi marcada por alguns pontos importantes tanto de conflito quanto deevolução. Já mencionei que foi durante esta dinastia que o Império Islâmico atingiu seuapogeu tanto físico (em tamanho) quanto militar, somente o apogeu cultural é que viriaposteriormente, com a dinastia Abássida.Do ponto de vista político-religioso, a transformação do Estado em Estado Laico foi umaevolução, no sentido em que retirou do Califa o peso de ser o sumo pontífice do Islamismo,deixando-o livre para decidir o futuro econômico, militar, social e político do império; aomesmo tempo que talvez tenha sido um retrocesso, uma vez que esta separação acarretou nadissolução da Teocracia que havia sido criada ainda na época de Maomé. O fim da Teocracia éruim, pois retira parte do apoio popular, advindo da Religião, ao governante.Outra característica importante da dinastia Omíada é que ela nunca contou com o apoio totalda população do Império, tanto por causa das revoltas religiosas (Kharidjitas e Xiitas), quantopelo fato do tamanho do Império ter começado a torna-lo ingovernável na época. Pois emregiões tão distantes e, sendo assim, tão distintas, se tornava difícil manter uma comunhão depensamentos e mesmo religiosa, em suma, o que era bom para a Espanha nãonecessariamente era bom para a Síria, ou para o Iraque, ou para a Arábia.Porém, acredito que a principal característica da dinastia Omíada tenha sido realmente avitória dos grupos mercantis (repito pré-capitalistas) sobre os grupos religiosos fundadores doImpério, dessa forma, o Império que foi criado e era mantido através da difusão de uma fé,não era mais administrado pelos superiores dela.6.1.1 – Moawiya (661 – 680):Moawiya foi o fundador da dinastia Omíada e, apesar de não ter sido o primeiro membrodesse clã o governar o Império (Uthman também era do clã Omíada), foi, com certeza, o maisrevolucionário Califa desde de Maomé.Em seu governo, o novo Califa operou várias transformações no mundo Islâmico. Uma delas jáfoi mencionada, ou seja, foi a laicização do Estado, mas convém enumerar outras: atransferência da capital de Kufa (para onde Ali tinha transferido-a anteriormente) paraDamasco; a proclamação da hereditariedade do título de Califa (o que fundou a dinastiapropriamente dita); a retomada das frentes expansionistas iniciadas por Uthman; a
    • reintegração da totalidade do Império sob uma só autoridade; o combate às dissensõesreligiosas.Quando Ali morreu, seu filho, Hassan, foi escolhido pelas tropas do Iraque como seu sucessor,dessa forma, as disputas entre Síria e Iraque continuariam, no entanto, por motivos ignorados,Hassan abandonou o poder, deixando-o todo para Moawiya. Existem duas hipóteses paraexplicar o ocorrido, sendo uma delas mais provável. A primeira, e menos provável, é a utilizadapelos Sunitas (os Muçulmanos Ortodoxos, ou seja, que seguem o Alcorão tal como foi escrito eque se posicionaram ao lado dos Omíadas), e diz que num encontro entre Hassan e Moawiya,o filho de Ali se sentiu inferior ao concorrente e, sendo assim, abandonou o poder. A outrahipótese, mais provável, é defendida pelos Xiitas (aqueles que se posicionaram ao lado de Ali,contra os Omíadas), segundo esta hipótese, Moawiya teria armado uma cilada para Hassan, nadita reunião, sendo assim, o soberano Omíada teria capturado o filho de Ali e, mais tardematado-o com veneno.De qualquer forma, com a abdicação de Hassan, Moawiya ficou sozinho para governar einiciou seu Califado em 661. Seu primeiro ato de governo foi tornar o Califa superior ao Shura,o conselho dos seis, criado por Omar para designar o sucessor do Califa. Desta forma, o Califanão só passava a responder sozinho pela administração Imperial, como também indicava emvida um de seus filhos como sendo seu sucessor. Este, ainda durante a vida do pai, passavapela aprovação (meramente formal, visto que o conselho era controlado pelo Califa) da Shurae, sendo assim, estava efetivado como herdeiro do trono. Dessa forma foi possível amanutenção do clã Omíada no poder.A transferência da capital do Império para Damasco não ocorreu meramente porque o Califaestava radicado nesta cidade, constituindo ela, sua fonte de poder. Ao contrário, foi umaquestão geopolítica e religiosa de extrema importância. Religiosa, porque em Medina, antigacapital do Império (antes de Ali se mudar para Kufa), estava radicada a elite sacerdotal doImpério, em outras palavras, era o centro de poder do antigo Estado Teocrático Árabe, Estadoeste que os Omíadas queriam derrubar. Porém, sob o ponto de vista geopolítico e tambémadministrativo, Damasco estava muito mais bem situada, localizando-se na Síria, a cidadeestava exatamente no núcleo do Império, de onde era possível ir facilmente para qualquer deseus pontos, e também proteger-se de ataques, visto que não se tratava de uma cidadecosteira.Do ponto de vista comercial, o governo de Moawiya também foi importantíssimo, pois com aconquista do antigo Império Persa, ele dominou as rotas comerciais do oriente e, sendo assim,o comércio Mediterrâneo (coisa que foi facilitada pelo poderio da marinha de guerra). Odomínio das rotas comerciais deu novo fôlego ao Império que havia percebido a falha de seusistema de tributação dos infiéis (sistema criado por Omar e que se esfacelou no final dogoverno de Uthman, com a conversão em massa das populações dominadas à fé Islâmica). Osistema de tributação perdurou, pois era interessante como forma de compelir, nãoviolentamente, os dominados à conversão, porém, já não era a responsável pela economia doImpério, que se apoiava agora no comércio oriental e Mediterrâneo.No tocante às dissensões religiosas, Moawiya encontrou duras ações dos Kharidjitas, porém,se mostrou hábil em contornar os ânimos dos Xiitas. Estes eram mais numerosos, mas menosagressivos e organizados que aqueles.Por fim, sobre o governo de Moawiya é interessante assinalar a importância da formação daMonarquia Nacional e Centralizada. Centralizada ela era devido ao poder supremo do Califa,
    • tanto no tocante às nomeações, quanto à administração, porém, o caráter Nacional era novo,visto que anteriormente, os Islâmicos eram considerados pertencentes cidadãos do Império,agora não mais, estes eram apenas os Árabes, ou seja, os nascidos (ou descendentes denascidos) na região que vai do Iêmen (no sul da península Arábica) até a Síria (onde se localizaDamasco). Dessa forma, mesmo que estes não fossem Islâmicos, seriam consideradoscidadãos.O governo de Moawiya, e a dinastia Omíada como um todo, se caracterizou peloprofissionalismo dos cargos públicos, era uma clara tentativa de combater os gravesproblemas que ocorreram no governo de Uthman (o primeiro Omíada), quando o critério deseleção para os cargos era o nepotismo. Agora, os altos cargos públicos só eram ocupados porpessoas comprovadamente competentes, mesmo que não fossem Muçulmanas (de fato,houve um grande número de Cristãos ocupando importantes cargos durante a dinastiaOmíada). O objetivo dos Califas Omíadas com essa atitude era, não só profissionalizar oEstado, como também fazer o Império prosperar pela competência administrativa(competência esta copiada, em muito, do Império Bizantino, daí os Cristãos no governo). Acolocação de não Muçulmanos em cargos públicos causava a revolta de alguns mais exaltados,mas é importante que se note que todos os Califas Omíadas, sem exceção, sempre foramMuçulmanos tradicionalistas (Sunitas) e grandes observadores da fé, do Alcorão e doscostumes Árabes (as Sunnas de Maomé, daí Sunitas).6.1.2 – Yazid (680 – 683):Em 680, Moawiya morreu, mas seu filho, Yazid, já estava homologado há muito tempo pelaShura, sendo assim, assumiu sem problemas.Porém, se por um lado não houve problemas legais na cúpula Imperial, por outro, Husayn,irmão de Hassan e filho de Ali, instalado em Meca e com o auxílio de Abdallah ibn al-Zubayr,recusa-se a reconhecer o novo Califa. Kufa, a cidade que Ali escolhera para ser sua capital,apóia Husayn e este se dirige para lá, em busca de homens para formar seu exército. Noentanto, no meio do caminho, é morto e decapitado (10 de outubro de 680). Para os Xiitas,que consideravam Husayn como seu segundo Imam, a morte de seu líder foi glorificada comoum ato de auto-sacrifício (em busca da salvação eterna ao lado de Allah), sendo assim, o localda morte do filho de Ali se tornou imediatamente um local de peregrinação Xiita.A morte do Imam, como já me referi anteriormente, incitou os Xiitas contra os Omíadas egerou os movimentou que ficaram conhecidos como: "A Revoluções Xiitas no Islã". Essemovimento foi mais forte durante a dinastia Omíada e, como veremos, contribuiu muito parasua derrobada, em 750. Porém, mesmo depois de 750, os Xiitas continuaram causandoproblemas aos Islâmicos de outras seitas, inclusive, em 1980, quando ocorreu a RevoluçãoXiita Iraniana, que derrubou o Xá Rezah Pahlavi, e instaurou no poder o Aiatolá Khomeini, opovo, nas ruas, portava estandartes nos quais estava escrito: "Xá = Yazid / Khomeini =Hussayn", numa clara alusão à idéia de que a deposição do Xá viria vingar o marte de Hussayn,operada por Yazid, em 680.Apesar da morte de Husayn, al-Zubayr atinge Kufa e consegue reunir sob seu comando tantoXiitas, como Kharidjitas (ambos unidos pelo ódio aos Omíadas), sendo assim, quando retornaao Hedjaz, faz eclodir uma revolução em Medina e Meca.Os Omíadas são expulsos da região e, temporariamente, esta passa a ser governada pelosrevoltosos. A reação Imperial não tarda, o general Muslim é enviado, em 682, à região e impõe
    • uma séria derrota aos revoltosos, na cidade Medina. Porém, em Meca, o general não tem amesma sorte, numa batalha sangrenta, Meca é incendiada, mas os exércitos do Califa,inclusive Muslim, perecem. No incêndio, a Caaba é destruída.Nova investida, sob o comando de Ibn Numayr, ia ser feita, em novembro de 683, mas o Califamorre e a expedição é cancelada.O filho de Yazid era Moawiya II, que, assim como ocorrera com o pai, já havia sido homologadocomo herdeiro durante seu governo. Porém, o novo Califa assume o trono e, quarenta diasdepois, falece, vítima de uma grave doença.A morte prematura de Moawiya II coloca o Império sob um breve período de Anarquia, umavez que Yazid tinha apenas 38 anos de idade e como tal, não podia ter um filho velho osuficiente para ter um herdeiro capaz de assumir o trono.Além das guerras ocorridas no breve governo de Yazid, houve uma expansão dos domínios nonorte da África, no entanto, esta expansão foi realizada de forma impensada, pelo generalOqba ibn Nafi e, sendo assim, apesar de ter atingido o Maghreb pela primeira vez, gerou umaguerra ferrenha contra os Berberes e pôs as conquistas em risco. Tanto que, em 681, o generalfoi morto e suas tropas desbaratadas, o que ocasionou o avanço dos Berberes e a conseqüenteevacuação de Trípoli pelos Árabes, ou seja, no norte da África o Império começava a recuar.6.1.3 – Mawan (684 – 685):A morte de Moawiya II finalizou o braço principal do clã Omíada, sendo assim, o mais velhomembro de um outro braço do clã, Marwan, foi nomeado Califa. Porém, ele estava numasituação difícil, pois além de já contar mais de 70 anos de idade (o que lhe dificultava alocomoção junto das tropas), a demora para sua escolha (mais de três meses se passaramentre a morte de Moawiya II e a posse de Marwan) possibilitou que al-Zubayr fosse eleitoCalifa na Arábia.O líder dos revoltosos tinha o apoio inconteste do Iraque e o Egito havia se aliado a ele, sendoassim, das cinco principais regiões do Império (Arábia, Síria, Egito, Iraque e Oriente (visto que aTripolitânia, região a oeste do Egito, havia sido perdida em 681)), três apoiavam al-Zubayr,uma apoiava Marwan e a outra, o Oriente (composto por regiões distantes como Kabul, naChina, certas regiões da Índia e do Turquestão (Mongólia)), estava há tão pouco tempoconquistada, que tendia mais a se separar do Império, do que a apoiar um dos doispretendentes ao trono.Para agravar ainda mais a situação de Marwan, começava a surgir na própria Síria, um fortepartido, os banu Qays, que apoiava al-Zubayr na sucessão Imperial. O próprio Marwan estava aponto de renunciar em favor do concorrente, mas um fato viria mudar o panorama políticoque estava em vias de se definir em prol dos revoltosos, cujo corpo era composto por Xiitas eKharidjitas. Discordâncias entre al-Zubayr e seus comandados fizeram com que, tanto Xiitas,quanto Kharidjitas, se declarassem independentes em relação a seu governo.Esse fato encoraja Marwan a encarar uma luta contra o opositor, na medida em que reduziubrutalmente suas fileiras. O Califa (chamarei à partir daqui Marwan e os Califas Omíadas, deCalifas e al-Zubayr, de Anticalifa) consegue colocar toda a Síria sob sua autoridade e entãomarcha rumo ao Egito. Lá, ele derrota o governador nomeado por al-Zubayr e reintegra aregião a seus domínios. No entanto, quando o velho Califa retorna a Damasco e começa a
    • preparar sua investida contra a península Arábia, morre, em conseqüência de sua avançadaidade.6.1.4 – Abd al-Malik (685 – 705):A morte de Marwan não se torna nenhum grande problema, pois, justamente por terassumido em idade avançada, o Califa havia pensado desde o princípio em homologar seusucessor. E este era seu filho, Abd al-Malik.Quando o novo Califa assume, o Império está dividido em dois: metade (Egito e Síria) sob seucontrole e a outra metade (Arábia e Iraque) sob o poder do Anticalifa de Meca. Além dosproblemas que isso acarretaria ao novo Califa, o Império Bizantino percebe que se trata deuma boa hora para reconquistar o que lhe fora tomado, sendo assim, inicia-se (pelo mar e pelonorte) uma forte investida Bizantina contra os domínios de al-Malik.Se por um lado o Califa passava por um período difícil, com os Bizantinos tendo lhe tomado aFenícia, penetrado na Armênia, reconquistado algumas regiões do norte da África e impostopesados tributos; por outro, o Anticalifa também tinha sérios problemas. A al-Zubayr sórestavam a Arábia e o Iraque, o ele residisse na primeira, entregou o governo da segunda a seuirmão, Musab.Musab teve de enfrentar, radicado numa província que não lhe era totalmente leal, durosembates com Xiitas e Kharidjitas. Para os primeiros, surge um líder importantíssimo, al-Muhtar, que altera as orientações teológicas da seita. Em 685, al-Muhtar e seu general, Ibn al-Astar, tomam Kufa e continuam avançando, dominando cidade após cidade. O irmão doAnticalifa, no entanto, consegue vencer os revoltosos e recuperar Kufa. Com a morte de al-Muhtar, o general Ibn al-Astar se submete a Musab, em 687.Enquanto o Anticalifa se fortalecia, ao vencer os revoltosos do Iraque, o Califa pensava numamaneira de interromper a seqüência de derrotas que lhe vinham sendo impostas. Decidiu,então, em 688, utilizar-se de uma "jogada de marketing" para combater o rival. Uma vez que éobrigação de todo Muçulmano peregrinar pelo menos uma vez na vida à Meca (estando livresapenas aqueles a quem faltam recursos), todos os que iam para Meca (capital do Anticalifa)podiam ser expostos à maquina de propaganda de al-Zubayr, sendo assim, o Califa proibiuseus súditos da Síria e do Egito de peregrinarem a Meca. Para compensa-los, utilizou-se daspróprias palavras de Maomé, que se dizia o terceiro profeta (sendo o primeiro Moisés e osegundo Jesus). Dessa forma, a cidade sagrada de Jesus (Jerusalém) também poderia sersagrada para Maomé e seus filhos, assim, o Califa construiu em Jerusalém, no local do antigotemplo hebraico (destruído pelos Romanos e cujas ruínas constituem, hoje, o Muro dasLamentações) a Mesquita de Omar, mais conhecida hoje como O Domo da Rocha, destinada aser o novo local de peregrinação Muçulmana, em substituição a Meca.Aliada à tática da propaganda, Abd al-Malik investe em seus exércitos e, em 690, conseguederrotar o governador do Iraque e retomar a província. Com a retomada do Iraque, asprovíncias orientais, sobre as quais a autoridade de um Califa não se fazia sentir desde Yazid,foram reintegradas.Cerca de um ano depois da retomada do Iraque, o general al-Hadjdjadj, aliado ao Califa,invadiu Meca e, matando o já idoso Anticalifa, reunificou o Império. A este general, comoprêmio, foi entregue o governo da maior província do Império, o Iraque, que contava agora emseu território com as províncias orientais. Apesar do poder que proporcionava governar
    • tamanha região, isto também constituía um problema, pois o Iraque, desde aquela época jáera um verdadeiro "barril de pólvora" (e olhem que a pólvora ainda nem tinha sido inventada).O governador teve de enfrentar diversas rebeliões de Xiitas e Kharidjitas. Porém, a pior detodas as revoltas foi a de um general seu, Ibn al-Asat, que fora enviado para derrotar um ReiTurco (lembrem-se que os Turcos dessa época não viviam na Turquia atual, mas noTurquestão, uma região situada nas atuais Mongólia e China), mas que se aliou com este paraderrotar o governador.Esta revolta foi dificilmente apaziguada, o que fez com que o governador tomasse medidasdrásticas: construiu uma nova capital para a província, muito mais fortificada do que Kufa, acidade de Wasit e obrigou os recém convertidos ao Islã a pagarem tributo, como forma deimpedir que conspiradores se convertessem só para se livrarem de impostos.No tocante ao ocidente, o Califa organizou a retomada das regiões perdidas, entregou ocomando das tropas daquela frente a Hassan al-Numan. O general avançou com muito êxito,com seu numeroso exército e, mesmo combatido pelos Berberes, conseguiu tomar Cartago,em 692.Boa parte dos habitantes da cidade se refugiaram na Sicília (região pertencente ao ImpérioBizantino), o que fez com que a notícia chegasse rapidamente e com forte impacto aConstantinopla. Uma grande esquadra Bizantina, com muitos homens, foi enviada a Cartago e,em 697, ela foi retomada pelos Bizantinos. Os Berberes auxiliaram os Bizantinos e impuseramgraves derrotas a al-Numan. Porém, o general não se deixou abater, reuniu novoscontingentes e partiu contra as regiões das quais havia sido expulso.Em 698, retomou Cartago, que foi inteiramente destruída, e Derrotou Kahena, a rainha dosBerberes. Esta região constituiria a província da Ifríqiya, e passaria a ser organizada peloconquistador. O general investiu no desenvolvimento de um pequeno povoado (ao que parecemuito antigo, de origem Fenícia), que existia nos arredores de Cartago. Este povoado sechamava Túnis e se tornaria a capital da província conquistada. Com o tempo, Túnis cresceu eocupou o território onde um dia existiu Cartago.Em 705, Abd al-Malik faleceu, mas deixou seu nome gravado para sempre na História, comosendo o homem que reconstruiu um Império que estava à beira do precipício, ou seja, comoum dos maiores estadistas de todos os tempos.6.1.5 – Al-Walid (705 – 715):
    • A morte de Abd al-Malik colocou no poder seu filho, Al-Walid, que, como rezava a tradição, já estava homologado como herdeiro antes da morte do pai. Seu governo foi marcado pelo apogeu militar da dinastia Omíada, nele, além dos Bizantinos terem sido definitivamente expulsos da Síria e da Armênia, as conquistas em sua frente tríplice foram retomadas a pleno vapor. No Iraque, depois de apaziguadas as revoltas que duraram tanto tempo, iniciou-se uma marcha para o oeste que, entre 709 e 715, faria com que o Império alcançasse sua maior extensão naquela região. Partes da China e da Índia foram anexadas aos domínios Omíadas e o Turquestão teve que se converter ao Islamismo, além de se tornar parte do Império, com suas principais cidades A Mesquita de Omayyad, na atual Síria, é a mais (Bukhara, Kabul e Samarkanda)antiga do mundo, tendo sido construída entre 705 conquistadas.e 715 sobre um templo grego do século I, que, 400 anos mais tarde foi transformado em igreja O Império Bizantino teve de renunciar às católica. investidas contra o outrora fragilizado Império Islâmico, pois precisava se defender das tropas veteranas que avançavam sobre ele. Por essa época, os Árabes tomaram Tiana, uma importante cidade do Império Bizantino.Porém, foi na expansão rumo a ocidente que as maiores marcas militares do governo de Al-Walid se fizeram sentir. Musa ibn Nuçair (dito Musa) foi quem substituiu Hassan al-Numan nogoverno da Ifríqiya. Ele estava disposto a realizar duas obras: converter os Berberes aoIslamismo; e atingir o oceano Atlântico.Em pouco tempo, entre 705 e 708, ambos os objetivos do governador estavam completados.Porém, apresentava-se agora, um terceiro objetivo, muito maior, muito mais difícil e, sendoassim, muito mais glorificante: dominar al-Andalus, a Espanha. Não narrarei aqui a conquistada Espanha, pois, dada a importância histórica de tal acontecimento, separei um itemespecífico só para ele.No que toca ao desenvolvimento sócio-cultural, o governo de Al-Walid também marca oapogeu da dinastia Omíada. Em outras palavras, podemos utilizar uma expressão clássica emHistória: Al-Walid "deitou na cama preparada por seu antecessor", Abd al-Malik. Em seugoverno foram construídas várias mesquitas, em especial em Meca, Medina e Damasco. Alémdisso, as já existentes foram ampliadas. É o caso, por exemplo, de Damasco, onde a chamadaMesquita dos Omíadas, a mesquita símbolo da dinastia, tomou sua forma final, a forma quenos é apresentada hoje, se bem que com algumas partes em ruínas.
    • Talvez o único erro do Califa tenha sido a tentativa de "Arabizar" a administração Estatal,sendo assim, todos os Judeus e Cristãos que ocupavam cargos público foram demitidos. Acurto prazo esta medida não acarretou grandes problemas, mas a longo prazo, os mais capazescomeçaram a ser preteridos por causa de sua religião e, sendo assim, o Estado se afundou naincompetência, que aliada a outras causas, ocasionou seu fim, trinta e cinco anos após a mortede Al-Waild, que ocorreu em 715.6.1.6 – Sulayman (715 – 717):Como Al-Walid não deixou descendentes, seu irmão, Sulayman, assumiu o trono para o qual jáestava homologado.O efêmero governo de Sulayman marca o início da decadência Omíada. Primeiramente,ocorreu a revolta de Kotaiba, general responsável por boa parte das conquistas efetivadas aoriente, sendo assim, este é morto pelas tropas Imperiais, em 715, mas esta frente se estagnae, muito mais, começa a regredir em tamanho.Em segundo lugar, podemos levar em consideração a verdadeira "caça às bruxas" operadapelo Califa com o objetivo de exterminar os funcionários nomeados por al-Hadjdjadj,governador do Iraque, que falecera recentemente. Esta "caça às bruxas" foi realizadaprovavelmente porque estes funcionários eram suspeitos de terem apoiado a revolta deKotaiba.Além desses feitos, nada enobrecedores e, sobretudo, prejudiciais ao futuro do Império, oCalifa realizou apenas um ataque mal sucedido a Constantinopla.Sulayman morreu, em 717, sem deixar filhos.6.1.7 – Omar II (717 – 720):Omar II era primo de Sulayman e for a por ele designado como herdeiro. Ele é o único dentretodos os Califas Omíadas cuja memória foi poupada pela propaganda negativa que osAbássidas (depois de conquistarem o poder, em 750) fizeram da dinastia. Este fato se deve,possivelmente, ao fato de o Califa se aproximar da figura do Rei-filósofo que caracterizou ossoberanos da dinastia Abássida.Omar II teve um governo humanitário, tanto que gerou desobediências internas. Defendia aIslamização pacífica, o fim dos praguejos contra a memória de Ali (que eram realizadosdiariamente nas orações nas mesquitas) e uma humanização fiscal, operada através daredução dos impostos pagos pelos recém-convertidos.O Califa defendia também o fim da expansão militar, isso porque alegava que o Estado nãodispunha de recursos para sustentar-se num tamanho tão grande e com combates constantes.O soberano chegou ao extremo de exigir a redução das fronteiras do Império, com adesocupação do Turquestão, nisso ele foi desobedecido, pois os Árabes que ocupavam aregião se negaram a abandona-la.O governo de Omar II agravou ainda mais a crise que começava a se abater sobre o ImpérioIslâmico. Isso porque se por um lado ele pensou em parar a expansão para não despenderrecursos e pessoal dos quais não dispunha, por outro, não compreendeu que, reduzindo osimpostos, colocaria o Império numa crise fiscal profunda, uma vez que mesmo com os
    • impostos antigos, ele já não estava conseguindo pagar o soldo de seus guerreiros e a pensãodos veteranos.6.1.8 – Yazid II (720 – 724):Quando Omar II morreu, também não deixou filho e, sendo assim, um outro filho de Abd al-Malik assumiu o governo. Era Yazid II.Em seu governo, o novo Califa teve que enfrentar uma revolta muito severa de todas asregiões sob a jurisdição da cidade de Basra. O Califa enviou tropas para a região com o intuitode arrasar os revoltosos, e cumpriu seu objetivo, no entanto, exagerou, fez com que asmulheres e filhos dos envolvidos (mesmo sendo Muçulmanos) fossem vendidos comoescravos. Esta atitude indignou a população do Império de um modo geral e os Iemenitas deum modo específico.Como se não bastassem todos esse problemas, o Califa ainda teve que suportar a forterepresália de Leão III, Basileu Bizantino (à partir de 716, o Império Bizantino passa a assumircada vez mais um caráter Grego, sendo assim, até mesmo o título de Imperador (claramenteRomano), é substituído pelo de Basileu, que na Grécia antiga significava Rei) que, barrou deuma forma quase definitiva os avanços Islâmicos rumo ao seu Império.6.1.9 – Hisham (724 – 743):Seu Califado, apesar de ser considerado por muitos historiadores como um dos maisimponentes da dinastia Omíada, na verdade foi responsável por mais um dos fatores (e umgrande fator) de sua queda. Mais um filho de Abd al-Malik, Hisham não soube contentar osBerberes, que haviam se tornado um dos principais braços militares do Império. Este, apesarde terem tido importância crucial nas conquistas realizadas a ocidente, eram obrigados a pagarimpostos, como se fossem cidadãos de segunda. Dessa forma, os opositores da dinastia, que jácomeçava a ganhar força, souberam manipular os Berberes para que se revoltassem ecolocassem Hisham em maus lençóis.A revolta dos Berberes, que não precisaria ter ocorrido, demorou dois longos anos para serabafada, mas no final das contas, acabou resultando em vitória do Califa. Porém, os Berberespermaneceram insatisfeitos com sua condição.No plano das conquistas, apesar da derrota de Acroïnon, na Síria, frente o Império Bizantino; eapesar da expansão rumo ao oriente ter se estagnado; rumo a ocidente as coisas continuavambem. A Espanha estava quase toda dominada (somente um pequeno número de Cristãos serefugiara no noroeste, região de Astúrias) e as tropas faziam avanços significativos em direçãoao Reino Franco onde a moribunda dinastia Merovíngia, apoiada em seus Prefeitos do Palácio(espécies de Primeiros Ministros) não conseguia se defender muito bem. (Mais detalhes sobrea expansão Árabe na França no item sobre a Batalha de Poitiers).6.1.10 – Al-Walid II (743 – 744):Na verdade, este não foi um anos em que governou apenas um Califa, foi um anos em quegovernaram três: Al-Walid II, que por desprezar os costumes da fé Islâmica, acabouassassinada; Yazid III, que teve o mesmo fim; e Ibrahim.
    • Este último tentou iniciar governo de um modo normal, porém, foi derrotado por um parente,que liderava os veteranos do exército que, insatisfeitos com sua situação, queria depor oCalifa.6.1.11 – Marwan II (744 – 750):Este sobrinho de Abd al-Malik, que na época estava com mais de setenta anos, assumiu opoder em uma época muito conturbada, de fato, todo o Império estava ruindo e o novo Califaprecisou reconquistar diversas das regiões.Logo no início de seu governo, Marwan II tem que pacificar a própria Síria, centro do Impérioe, por não se sentir seguro na capital, Damasco, transfere-a para Harran. Depois de pacificar aSíria, lança-se sobre o Iraque, na verdade, sobre toda a Mesopotâmia, sobretudo, sobre o Irã,que se via marginalizado no contexto do Império.É justamente do Irã que emerge a família Abássida, que extrai seu nome de um tio de Maomé,al-Abbas. A família busca legitimidade em todos os lados, pois ao mesmo tempo em quealegam descenderem do tio do profeta, o que agrada aos Muçulmanos em geral, tambémdizem serem herdeiros de Ali, o que agrada aos Xiitas em específico.Utilizando-se de Abu Muslim, um ardil orador, a família Abássida consegue reunir os crentessob a promessa do surgimento da figura de um Imam, ou Califa, que, carregando o estandartenegro de Maomé, livraria o Islã dos Omíadas. A máquina de propaganda Abássida obtémresultados impressionantes, em especial nas regiões orientais do Império, ou seja, no Iraque,Irã e em Khorassan, uma parte do Irã.O mais importante de toda esta mobilização é que, por ser motivada por um ódio nacionalconjunto aos Omíadas, ela pode ser articulada secretamente, ou seja, sem que o Califasuspeitasse.Em 747, Abu Muslim, empunhando o estandarte negro de Maomé (ou seja, encarnando em sia figura do salvador esperado) entra em Marw (antiga cidade do Império Persa, onde morreraYazdgard, último soberano Sassânida), onde é carregado em triunfo. À partir daí, a revoluçãotorna-se evidente, Marwan II ordena que Ibrahim (não é o mesmo Ibrahim que ele haviadeposto, mas sim, o chefe da família Abássida) seja preso. Este, no entanto, tem tempo paraavisar seus irmãos Abu al-Abbas e Gaffar, para que fujam.Ambos se refugiam em Kufa, onde também são aclamados. Enquanto isso, Abu Muslim fazavanços importantes, arrastando o povo por onde passa. Os avanços de Abu Muslim forçam astropas de Marwan II a recuar.Em Kufa, Abu al-Abbas se proclama Califa, em plena grande mesquita, além disso, ele tambémse proclama al-Saffah, ou seja, "aquele que derrama sangue"; uma nítida declaração de quenão iria poupar um só Omíada.Marwan II tentou atacar as tropas revolucionárias, assim, dirigiu-se para a confluência dosTigre e Zab al-Akbar, onde os exércitos travaram uma batalha memorável. As tropas deMarwan II foram derrotadas e este pôs-se a fugir. Perseguido de cidade em cidade, tal comohavia acontecido com o último soberano Persa, Marwan acabou morto no Egito. Abu al-Abbasassumiu o governo, sem oposições, estava acabada a dinastia Omíada.
    • Porém, uma promessa ainda precisava ser cumprida, a de exterminar os membros da famíliaOmíada. Para este fim, foi ordenado ao governador Abássida da Síria que convidasse todos osmembros do clã Omíada para um jantar em Damasco. O motivo do jantar seria um pacto deboas relações entre os membros da antiga dinastia e os da nova. No entanto, durante o jantar,os oitenta Omíadas presentes foram mortos.Um dos poucos sobreviventes do massacre foi Abd al-Rahman, que depois do ocorrido, fugiuem direção à península Ibérica, o al-Andalus e, antes que os Abássidas pudessem reorganizar oImpério, fundou na região uma dinastia própria, dinastia essa que ficou conhecida como: osOmíadas da Espanha.Depois do fim dos Omíadas, os Abássidas destruíram até mesmo a memória daquela dinastia,tendo vilipendiado o túmulo de quase todos os soberanos. É devido ao ódio que os Abássidasnutriam pelos Omíadas e ao fato de aqueles terem sido os responsáveis pela maior parte doque se sabe sobre o Império Islâmico que se tem a impressão de que os Omíadas foramrealmente terríveis, quando na verdade, foram muito mais mitificados como terríveis, pelosAbássidas.Apesar de tudo isso ter ocorrido quase sete séculos antes da vida de Maquiavel, pode-se dizerque os Abássidas deram um golpe perfeitamente Maquiavélico, pois em sua obra "o Príncipe",Maquiavel recomenda que a capital seja num lugar onde o soberano tem influência, ou numlugar de constantes revoltas, pois a presença firme do soberano no local inibirá os revoltosos(na verdade esta é apenas uma das recomendações de Maquiavel a esse respeito, ele tambémdiz que o ideal para uma nação é que sua capital seja seu governante, ou seja, que a capitalnão seja um lugar físico, mas sim, esteja associada à figura do governante), que no caso de umgolpe, a dinastia antiga seja totalmente extinta, para não oferecer perigos futuros e que, sepossível, se governe com o apoio do povo e dos poderosos, para isso deve-se iludir o povo eagradar os poderosos. Acredito que não é preciso explicar muitas coisas, pois os Abássidasagiram exatamente da maneira descrita, inclusive com a construção de um nova capital,Bagdad, que, por se localizar nas margens do Tigre (sendo assim, no Iraque), estava ao mesmopróxima ao Irã, local de influência primaz da dinastia, como também no Iraque, local cujasrevoltas constantes enfraqueceram a dinastia anterior. Dessa forma, os Abássidasrecompensavam tanto Iranianos, quanto Iraquianos, pela ajuda dada na Revolução; e aindapor cima, mantinham os perigosos Kharidjitas e Xiitas sob constante vigilância.6.2 – Djabal al-Tariq:Certamente, o nome de Djabal al-Tariq (também conhecido como Tarif abu Zara) deveria sermuito mais conhecido do que é. Isto porque, este general Árabe foi um dos maioresconquistadores de toda a Idade Média. Seu nome não chega a rivalizar com o de um CarlosMango, ou com o de um Justiniano, mas seus feitos retrataram bem o poderio militar Islâmicono primeiro quarto do século VIII.Mas o que fez este general de tão importante? Bem, para nos situarmos na História destehomem, devemos nos lembrar que no final do governo de Abd al-Malik (685 – 705), osBerberes foram finalmente submetidos e convertidos ao Islã. Assim sendo, no início dogoverno de Al-Walid (705 – 715), serviram de braços para Musa ibn Nuçair, governador daIfríqiya (região do norte da África, a oeste do Egito), em sua expansão rumo ao Maghreb(região onde hoje se situa o Marrocos). Entre 705 e 708, o governador realizou com sucessoesta expansão e, através dela, atingiu o oceano Atlântico.
    • O estreito de Gibraltar, que atualmente separa Europa e África, naquela época era conhecidopelo nome de Colunas de Hércules, pois, segundo a Mitologia Grega, o Semi-Deus teria, emsua passagem pela Espanha, separado os dois continentes que eram (segundo acreditavam osGregos) unidos por uma montanha. Pois bem, as Colunas de Hércules separavam a Espanha doMarrocos e as cidades Africanas que mais se aproximavam da Europa eram Tânger e Ceuta(localizadas na parte Africana do estreito).Com a chegada do Império Islâmico ao oceano Atlântico, estas cidades foram dominadas. Noentanto, a situação de Ceuta era singular. A cidade era uma província da Hispânia (nome peloqual os Romanos haviam batizado a península Ibérica), um Reino governado pelos Visigodos(um dos povos ditos bárbaros que, nos séculos IV e V, arrasaram o Império Romano); provínciaesta que estava em litígio com a coroa Espanhola devido à situação em que esta seencontrava. Façamos então uma breve explicação da situação da Espanha naquela época.A península Ibérica foi uma região há muito habitada, com uma população nativa que foidesde cedo submetida ao contato de povos estrangeiros, tais como Fenícios e, talvez, Celtas.Depois da Primeira Guerra Púnica, quando o Império de Cartago se enfraqueceu com a perdada Sicília, Córsega e Sardenha, os interesses da República Africana se voltaram para a região,sendo assim, foram fundadas cidades (como Cartagena), em especial na costa oriental dapenínsula. Depois da Segunda Guerra Púnica, os Romanos limitaram os domínios de Cartago àprópria cidade, sendo assim, conquistaram a península Ibérica. À partir daí, o que houve foiuma guerra sangrenta entre Roma e os habitantes nativos e descendentes de Fenícios, Celtas eCartagineses, que habitavam a península. Estes querendo manter-se livres de Roma, aqueles,querendo conquistar uma nova província. No início do século I a.C., a península Ibérica jáestava conquistada e dividida em três províncias: a Lusitânia (mais ou menos onde hoje éPortugal, região que alegava ter habitantes descendentes dos Fenícios), a Terra Conense (costaoeste e centro da península) e a Bética (região sul). Estas três regiões compunham a Hispâniados Romanos, da qual o célebre Marco Antônio foi governador (dito Propretor). Quandoiniciaram-se as invasões "bárbaras" no Império Romano, a Hispânia foi invadida por um sem-número de povos, dentre os quais contavam os Bascos, os Suevos e Godos (os GodosOcidentais, que ocuparam a Hispânia, receberam o nome de Visigodos, enquanto os GodosOrientais, que ocuparam a Itália, receberam o nome de Ostrogodos).Dessa forma, três povos, principalmente, ocupavam a região quando da queda do ImpérioRomano. Estes três lutaram entre si e, por volta do início do século VI, os Visigodos assumiramclara preponderância, apenas com uma pequena, mas imbatível, resistência dos Bascos nadivisa com a Gália (atual França). No século VI, mais precisamente em 554, o general Belisarius,enviado por Justiniano, conquistou todo o sul da Espanha (passarei a me referir assim a toda apenínsula, pelo fato de, na época, Portugal não existir). Essa ocupação, contudo, foi tãoduradoura quanto o governo do Imperador, ou seja, muito breve, em 565, quando Justinianomorreu, os Visigodos iniciaram a retomada da região (que foi concluída em 624) e mantiveramseu Reino de uma maneira unitária, como era tradicional nas monarquias Góticas (dos Godos).Depois desse breve resumo da História da Espanha, voltemos à época referida, ou seja,voltemos a 710 d.C.. Por essa época, a conquista do norte da África estava consolidada pelosÁrabes e o governador de Ceuta, Juliano, que outrora fora fiel ao monarca Visigodo haviacedido seu apoio aos Árabes (apesar de ser Cristão). Mas por quê?Bem, segundo consta, o Rei Witza, da Espanha, havia morrido e a seu filho, Áquila, não haviasido permitido assumir o trono; os nobres Visigóticos elegeram Rodrigo, um deles, para o
    • trono. Segundo Juliano disse aos Árabes, ele odiava Rodrigo, pois este havia desonrado suafilha (filha de Juliano), que vivia na Espanha, sendo assim, queria vê-lo derrotado e humilhado.Os Árabes, que já vinham atacando, por meio de navios, as costas da Espanha há muito tempo,viram nessa inimizade sua chance para invadir e anexar a região que eles conheciam como al-Andalus. Em junho de 711, Musa ibn Nuçair, o governador do norte da África, enviou àEspanha um exército composto por cem cavaleiros, quatrocentos guerreiros e sete milBerberes. Os navios para o ataque foram fornecidos por Juliano, governador Visigótico deCeuta.Rapidamente, os Muçulmanos tomaram a cidade de Algeciras e os rochedos da costa (hojeconhecidos como Rochedo de Gibraltar). Depois disso, marcharam para Córdoba (uma grandecidade da Espanha).O Rei da Espanha, Rodrigo, estava ocupado combatendo os Bascos, no norte, e demorou certotempo para conseguir mobilizar seus exércitos para combater os invasores. Enquanto as tropasReais não chegavam, Djabal al-Tariq assolava o sul da península.Enfim, em 19 de julho de 711, o Rei Rodrigo finalmente alcançou a região onde os Árabesestavam e a batalha iniciou-se. Esta iria durar sete dias, ou seja, até o dia 26 e ser decidida pelainteligência do general Árabe.Numericamente superiores e providos da motivação de defenderem seus domínios, osVisigodos estavam a ponto de derrotar os Árabes. Foi quando Tariq convidou dois irmãos doRei Witza (o Rei que havia morrido), e fez com eles um pacto: se estes desertassem com suastropas, seriam poupados e recompensados. Sendo assim, no dia 26, dia do combatederradeiro, as duas principais frentes da cavalaria Visigótica debandaram e os flancos doexército Espanhol ficaram desguarnecidos. Avisados de antemão que isso iria ocorrer, osMuçulmanos atacaram pelos flancos e trucidaram a infantaria Visigótica. Foi um massacre noqual tombou, inclusive, Rodrigo.Ficando sem um Rei, a Espanha não conseguiu se reagrupar para a defesa e, sendo assim, emdois meses, Tariq havia conquistado totalmente o sul da Espanha e se preparava para marcharem direção ao centro.Musa, na África, ao saber dos sucessos de seu general, reuniu um exército e desembarcou nacosta leste da Espanha, sendo assim, havia agora duas frentes de invasão Muçulmanaatacando a península. Os nobres Visigóticos que não haviam se deixado subornar pelosMouros (nome pelo qual os Europeus, em especial os Espanhóis, chamavam os Islâmicos),começaram a ser exterminados e, ao procurarem auxílio nas cidades, não eram bemrecebidos, pois os Judeus (que dominavam o comércio e, sendo assim, a vida urbana) estavamcansados das perseguições Cristãs impostas a eles pelos Visigodos e preferiam a liberdade deculto (mediante o pagamento de impostos) oferecida pelos conquistadores.Dessa forma, os partidários de Rodrigo, agora sob o comando de Pelágio, foram se isolar nasmontanhas do extremo norte da Espanha, onde, devido ao posicionamento estratégico,esperavam resistir ao extermínio da mesma maneira que os Bascos vinham fazendo contraeles. Formou-se assim, o primeiro dos Reinos Hispânicos pós-conquista Árabe: o Reino deAstúrias.
    • Entre 711 e 714, os dois generais Árabes conquistaram toda a Espanha, exceto o Reino eAstúrias, que devido à sua localização de difícil acesso, pode resistir e se tornar, mais tarde, noséculo IX, o berço da Reconquista da Espanha, reconquista esta que teve o apoio, militar efinanceiro, de Carlos Magno (pelo menos em sua fase embrionária).Quanto a Tariq, foi mais um dos conquistadores esquecidos de nossa História, só não foitotalmente esquecida porque, em homenagem a ele, foi erigida uma cidade (na parte Européiado estreito), e esta cidade foi batizada com seu nome, cujas corruptelas futuras tornaramGibraltar, o mesmo nome com o qual foram rebatizadas as Colunas de Hércules, pois, se nopassado o Semi-Deus havia afastado os perigosos Berberes da Europa por meio da separaçãodos dois continentes, agora, um general (que nada tinha de Semi-Deus) conseguia quebrar avontade dele e impor a sua, em outras palavras, o Islã ganhava terreno dentro da Cristandade.6.3 – A Batalha de Poitiers:A conquista da Espanha não foi o ponto final da expansão ocidental Islâmica, que foi, semdúvidas, a expansão que obteve os maiores êxitos, se bem que esses êxitos não perduraram,pelo menos em termos de religião, até os dias de hoje, como ocorreu com os das conquistasorientais.Após a tomada da Espanha, que caiu de assalto em apenas três anos (711 – 714), osMuçulmanos continuaram marchando em direção ao coração da Europa e, se não tivessemtido as crises políticas internas pelas quais a dinastia Omíada passou (e que, como vimos,levaram à sua derrocada, em 750), talvez tivessem atingido Constantinopla, ou seja, talveztivessem varrido a Europa assim como varreram o Império Persa e o norte da África.Muitos acreditam que a lendária (digo lendária não porque não tenha acontecido, mais simporque gerou muitos mitos em torno de si) Batalha de Poitiers, ocorrida em 732, próxima acidade Franca de Poitiers, tenha colocado um ponto final na expansão Árabe rumo aoocidente, mas tratasse de um ledo engano, isto porque, a Batalha nada mais foi do que ummarco de ânimo para a Cristandade como um todo e para um homem em específico.Falemos sobre este homem. Trata-se de Carlos Martel. Ele era o Prefeito do Palácio da França(ou Reino Franco, como é mais apropriado chamar a França antes de Hugo Capeto, queestabeleceu a cede da Monarquia em Paris e iniciou a dinastia Capetíngia) e, como deve-sesaber, a França da época não era um país unitário, não porque fosse dividido em feudos (umavez que o Feudalismo só se iniciou, realmente, depois de Carlos Magno, já que foi o monarcaque lançou boa parte de suas bases), mas porque, devido ao costume dos monarcasMerovíngios (primeira dinastia da França após a queda do Império Romano) de dividirem seuReino entre seus filhos vivos, havia três Reinos no território da atual França: a Borgonha, aNêustria e a Austrásia.Em cada um desses Reinos havia um Rei, porém, cada Rei escolhia um Prefeito do Palácio (algosemelhante a um Primeiro Ministro) para administrar sua região. Os Prefeitos do Paláciotinham poder total e a pesar de terem algumas restrições quanto a investidura de clérigos,eram os verdadeiros governantes do Reino Franco.O enorme poder dos Prefeitos do Palácio contrastando com a insignificância dos monarcasMerovíngios fez com que começassem a existir verdadeiras dinastias de Prefeitos do Palácio.No século VII, Pepino II, Prefeito do Palácio da Austrásia, enfrentou e venceu Ebroin, Prefeitodos Palácios da Nêustria e da Borganha. Com essa vitória, ele unificou o título de Prefeito do
    • Palácio e, sendo assim, entregou a seu filho Carlos (depois conhecido como Carlos Martel), otítulo de Prefeito do Palácio da França toda, o que correspondia ao poder absoluto no país.Em 732, depois de cansar de ver o Reino Franco ser devastado por reides Árabes, Carlos armouuma emboscada para os invasores. Esta ocorreu nas proximidades da cidade de Poitiers, umaimportante cidade da França Medieval. Lá, o Prefeito do Palácio saiu vitorioso, a primeiravitória significativa dos Francos contra os Árabes.À partir dessa vitória, Carlos soube fazer umapropaganda enorme, que lhe rendeu o apelido deMartel (ou seja, o Martelo que defende a França contraos invasores infiéis). Graças a seu apelido, Carlos Martelpassou a ser amado pela população e, sendo assim, seufilho, Pepino, o Breve, pode, como Prefeito do Palácio,depor os monarcas Merovíngios e se declarar (com oconsentimento do Papa e sob a promessa de que iria, aexemplo de seu pai, defender a Cristandade contra osÁrabes e, além disso, expulsar os Lombardos (povo"bárbaro") da Itália, pois este estavam ameaçando asoberania do Papa) Rei da França. Com Pepino, o Breve,se inicia a dinastia Carolíngia, que, ao contrário do quemuitos pensam, não deve seu nome a Carlos Magno(filho de Pepino, o Breve e, com certeza, um dosmaiores, senão o maior nome da História Medieval),mas sim a Carlos Martel, que possibilitou ofortalecimento de Pepino.Apesar da derrota fragorosa que sofreram em Poitiers,onde o próprio Abd al-Rahman al Gafiqi, governador deal-Andalus, morreu, os Islâmicos continuaram suasinvestidas contra o Reino Franco e, em 735, tomaramAvignon e Arles, de onde caminharam, tomando váriascidades, até Lyon, que ficou em seu domínio até 759,quando Pepino, o Breve, retomou as regiões ocupadaspelos Árabes na França e impediu novas incursõesdestes em seu Reino.É verdade que sobre os Abássidas, os Árabes Imagem espanhola de 1870,continuaram atacando a Europa e dominando regiões, representando a visão do europeualém de, como veremos, terem mantido sua presença sobre o árabe violentona Espanha até 1492.Porém, podemos arriscar dizer que sob os Omíadas os Árabes representaram para a França(em menor grau, é claro, principalmente devido ao tempo), aquilo que entre os séculos IX e XI,os Vikings representariam para a Inglaterra, ou seja, um enclave permanente em seu território.7 – A Revolução Abássida:Acredito que muitas coisas mudaram no Império Islâmico depois da ascensão dos Abássidas aopoder. Primeiramente, como pode-se perceber, até aqui o Império havia sido um ImpérioÁrabe e, porque não, um Império do Hedjaz e da Síria, sendo que os Muçulmanos das demais
    • regiões nunca haviam sido considerados como iguais pelas elites dominantes. Sendo assim, sónão chamo o Império construído pelos seguidores da religião de Maomé de Império Árabe,justamente porque sob os Abássidas, o Império perde esse caráter e, ao contrário, ganha, cadavez mais um caráter Persa.Sob a nova dinastia, ocorrem diversas transformações em diversos campos do Império.Primeiramente, deve-se notar que, enquanto os Omíadas laicizaram o Estado, os Abássidasretornaram à Teocracia orginal, aliás, a Teocracia Abássida era muito mais real do que a dosCalifas Ortodoxos. Os Califas dessa dinastia realmente se consideravam homens acima damédia, que haviam sido escolhidos por Allah para governar não só o Império, mas também avida de todos os Muçulmanos. Sendo assim, Esta dinastia retomou para o Califa o título deSumo Pontífice Islâmico.Justamente pelo fato de os Abássidas se considerarem os donos da verdade Islâmica é que asperseguições contra todos aqueles que não seguissem exatamente a Sunna do Profeta, ouseja, todos os não Sunitas, seriam perseguidos implacavelmente, tanto por meio de armas,quanto através da propaganda do Estado.Porém, os Abássidas não foram de todo ruim, eles tinham uma grande preocupação com ahumanidade, por isso, tentavam de todas as maneiras tornar todos os Muçulmanos iguais, aocontrário dos Omíadas, que não se preocupavam com o bem estar do povo. Foi sob estadinastia que foram produzidos os principais legados do mundo Árabe: obras literárias, como"As mil e uma noites"; Mesquitas gigantescas, túmulos igualmente majestosos; a tradução dasantigas obras Gregas (Platão, Aristóteles, Sófocles, Aristófanes, Tales, Arquimedes, Pitágoras,Homero...) que estavam perdidas na memória Européia, mas que foram resgatadas pelosÁrabes através da memória Persa, mantida devido à helenização da Ásia proporcionada porAlexandre, o Grande; dentre outras grandes façanhas.No campo da política, os Califas Abássidas criam um novo cargo: o Vizir. Este é, a exemplo doPrefeito do Palácio, do Reino Franco, uma espécie de Primeiro Ministro Islâmico que, à medidaque os Califas vão se ocupando mais e mais da cultura e da religião, tornam-se os responsáveispela administração política e militar do Império.A dinastia também é marcada pelo início da fragmentação do Império, com a criação de umgoverno (mais tarde Califado) Omíada na Espanha e, com a independência das tribos Berberesdo norte da África. Além disso, a capital do Império é mais uma vez alterada, inicialmente secentra em Kufa e depois, passa para Bagdad, uma cidade construída justamente com o intuitode ser a nova capital do mundo Islâmico, sendo a herdeira de Ctesifonte (antiga capital doImpério Persa (se bem que o Império Persa tinha quatro capitais: Ctesifonte, Pasárgada,Persépolis e Susa)) e da gloriosa, porém esquecida, Babilônia.7.1 – O refúgio Omíada na Espanha:Quando iniciou-se a dinastia Abássida, com o governo de Abu al-Abbas, os Omíadas, como jáfoi dito, foram perseguidos. Boa parte deles foi exterminada de uma só vez no fatídico jantarem Damasco. Porém, alguns membros da família resistiram ao massacre, mas perceberam quesua permanência dentro dos domínios do novo Califa (que se denominara o caçador do sangueOmíada) seria impossível.
    • Observando que, devido às conjunturas presentes no conturbado início da nova dinastia, osAbássidas não desfrutavam de um controle pleno sobre as províncias do ocidente; Abd el-Rahman, o último sobrevivente do clã Omíada, fugiu para al-Andalus (a Espanha), em 756.Lá, ele obteve boa receptividade das populações e, sendo assim, pode se instalar em Córdoba,onde se proclamou Emir (espécie de governador soberano, ou seja, muito superior aos merosgovernadores de província do Império, pois tinha total autoridade sobre a região na qualgovernava). Estava fundado o Emirado de Córdoba, uma região que, justamente por pertenceraos Omíadas, não aceitava o domínio Abássida e que constituiu o primeiro grande rachadentro do Império Islâmico.Abd el-Rahman fundou, assim, a dinastia Omíada da Espanha, um prolongamento da dinastiaque havia governado o Império Islâmico entre 661 e 750. O Emir contava não só com o apoiodas populações Espanholas convertidas ao Islamismo, mas também com o apoio dos Bascosque, apesar de Cristãos, preferiam manter boas relações com os Árabes do que sesubmeterem aos ataques dos demais Reinos Cristãos.Em 778, a Espanha foi atacada por Carlos Magno que, como parte de seu acordo com Harunal-Rachid (Califa Abássida que, como veremos, mantinha um pacto com o Rei Franco)pretendia exterminar os Omíadas da Espanha. Carlos Magno foi ajudado por Ibn el-Arabi,antigo governador de al-Andalus, que, quando os Omíadas chegaram, se refugiou emSaragoça, de onde pretendia reconquistar seus domínios, ajudado pelo soberano Franco.Com a ajuda dos Bascos, o Emir Omíada trucidou as tropas de Carlos Magno e, destruindo Ibnel-Arabi, obteve a hegemonia de toda a antiga Espanha Visigótica (exceto do Reino de Astúrias(onde haviam se refugiado os Visigodos) e da região dos Bascos (que por meio de um tratadono qual se comprometia a ajudar os Omíadas a defender suas fronteiras contra invasõesFrancas, permaneceu livre)).No entanto, para Carlos Magno, a expedição não foi um completo fracasso pois, apesar damorte de Rolando, o Marquês da Bretanha (região da França, não confundir com a Britânia, ouInglaterra), o Rei Franco conseguiu estabelecer uma Marca (região fronteiriça muito fortificadae sob a autoridade de um Marquês) na fronteira entre a França e a Espanha. Dessa forma,Carlos Magno não só preparara uma região militarizada pronta para desfechar um novoataque contra a Espanha Muçulmana, como também estabelecia uma zona tampão entre osMouros e seu Reino.Tudo corria muito bem para os Omíadas durante o governo de Abd el-Rahman, porém, depoisde sua morte, em 788, quando seu filho Hisham assumiu o poder, iniciou-se um conturbadoperíodo de guerras civis na Espanha, período esse que perduraria por quase um século e quepermitiria o fortalecimento dos Reinos Cristãos (Bascos e Reino de Astúrias) do norte, foi, defato, o início da Guerra de Reconquista.No conturbado período que se seguiu à morte de Abd el-Rahman, o Reino de Astúrias seexpandiu e, em 840, quando conquistou a cidade de Leão (León, em Espanhol), transformou-seno Reino de Leão. Em 860, ao redor da cidade de Pamplona, os Bascos estabeleceram umReino, o Reino de Navarra. Estes dois Reinos persistiriam durante muitos tempo até sefundirem (juntamente com outros que passariam a existir), no século XVI (mais precisamenteem 1516), para formar a monarquia Espanhola.
    • Com o tempo, foram surgindo outras regiões soberanas Cristãs, no norte, como por exemplo,o Condado de Castela, que se estabeleceu em 960, na cidade de Burgos (talvez a maisfortificada de toda a Espanha, por isso o nome do Condado). Barcelona, que outrora integraraa Marca de Carlos Magno, também se tornou um Condado independente e, apesar de estarquase sozinha no alto da costa leste (quase na divisa com a França), se manteve independentedos Islâmicos.No final do século IX, os Omíadas conseguiram pacificar e reunificar seus domínios, porémestes eram agora bem menores do que os originais (o norte estava quase todo nas mãos dosCristãos). Como nessa época, como veremos, o Império Islâmico já se encontrava em francadesintegração, os Omíadas, em 929, resolveram desfechar um duro golpe contra o CalifaAbássida. Abd el-Rahman III, proclamou-se Califa de al-Andalus, sendo assim, Nem mesmo otítulo de Califa era mais um privilégio da dinastia Abássida que, como veremos, não possuíamais muitos poderes políticos.O Califado Omíada da Espanha persiste até 1031, quando entra em colapso ao ser derrotadopelas tropas de Al-Mansur (um conquistador vindo do norte da África). À partir dessa data,com a quebra de uma autoridade Islâmica central na Espanha, surgem diversos EmiradosMuçulmanos (chamados Reinados de Taifas), que se afundam em guerras fratricidas por umamaior obtenção de territórios. Essas guerras entre os Mouros da Espanha faz com que osReinos Cristãos do norte se fortaleçam e, sendo assim, a Guerra de Reconquista ganha força.Muitos autores chegam a considerar que ela se inicia, de fato, em 1031. Porém, a essesautores jogo a seguinte pergunta: Reconquista não quer dizer reconquistar? Então, se osReinos Cristãos estabelecidos no extremo norte da península Ibérica iniciaram a reconquistade territórios ocupados pelos Muçulmanos por volta de 790, por quê dizer que a Guerra deReconquista só se inicia em 1031? Só porque os combates passam a ser mais favoráveis aosReinos Cristãos após essa data? Ou será que talvez seja para que a velha teoria sobre asCruzadas (de que seriam necessariamente, em todos os casos, uma forma de eliminar oexcedente populacional Cristão da Europa, excedente esse que começou a ser registrado coma crise feudal do século XI) não caia por terra?7.2 – Os Califas Abássidas e as transformações culturais:A dinastia Abássida foi, em termos de duração, muito maior do que a Omíada. Esta últimadurou de 661 a 750, enquanto a nova dinastia iria durar de 749 (pois foi estabelecida antesmesmo da derrocada final dos Omíadas) até 1258. Porém, apesar de terem se perpetuado por509 anos, contra apenas 89 dos Omíadas, os Abássidas só exerceram poder sobre o Impérioefetivamente falando, até 809, porque depois, como veremos, o Império entra num ritmo talde esfacelamento que se torna impossível dizer que ainda constitui um Império, sendo muitomais apenas mais um dos Reinos Islâmicos, Reino este cuja única importância residia no fatode que seu soberano se considerava e era considerado por muitos, como o Sumo Pontífice doIslamismo.Justamente por causa da fragmentação acelerada ocorrida à partir de 809 é que estudaremosapenas os cinco primeiros Califas da dinastia, pois como avisei na Introdução de meu trabalho,ele não se remete a estudar a colcha de retalhos que se tornou o mundo Islâmico depois docolapso da autoridade centralizada no Califa de Bagdad.7.2.1 – Abu al-Abbas al Saffah (749 – 754):
    • Abu al-Abbas, como vimos, foi o líder da revolução após a prisão de Ibrahim. Ele se declarou ocaçador do sangue dos Omíadas e seu ódio a essa dinastia foi tão grande que ele dedicou boaparte de seu governo a destruir os Omíadas sobreviventes. Justamente por causa disso, oCalifa não se deu conta de que perdera as regiões do norte da África, nem de que ogovernador de al-Andalus (Espanha) permanecera leal aos Omíadas e que, dessa forma, algunssobreviventes do massacre operado pelo Califa se dirigiram para a Espanha, onde, inacessíveis,puderam continuar sua dinastia.Apesar de odiar os Omíadas, al-Abbas retomou algumas práticas de Uthman, o primeiroOmíada, ou seja, retornou ao nepotismo. Na realidade, o novo Califa distribuiu cargos público,em especial governos de províncias, entre seus parentes, para poder enraizar definitivamentea dinastia que estava nascendo.Talvez a mais vil e desprezível atitude do Califa, no entanto, tenha sido caçar muitos daquelesque o haviam apoiado em sua ascensão ao poder. Por exemplo, os Xiitas, que foram defundamental importância na jornada militar contra as tropas Sírias de Mawan II, passaram aser perseguidos, visto que o próprio Califa era Sunita e, como tal, não permitia outrainterpretação do Alcorão que não fosse a oficial.7.2.2 – Abu Dja’far al-Mansur (754 – 775):Apesar de ter sido o segundo Califa da dinastia, al-Mansur é considerado por muitos como overdadeiro fundador dela, isto porque foi ele quem lançou as bases daquilo que acaracterizaria durante sua existência.O Califa, que iniciou seu governo na cidade de Hasimiyya, para onde al-Abbas havia transferidoa capital (que inicialmente era Kufa), logo percebeu que não estava seguro o suficiente e queprecisaria construir, de fato, uma nova capital. Dessa maneira, ordenou a construção, nasmargens do Tigre, de uma cidade que, quando ficou pronta, em 762, foi chamada de Bagdad(em Iraniano, Doada por Deus).Além da construção de Bagdad, o governo de al-Mansur foi marcado por uma duríssimarepressão a seus opositores, pela instituição do cargo de Vizir e pela adoção de muitasmedidas tanto Bizantinas, quanto Persas no sentido de modernizar o governo.No tocante à repressão às revoltas e aos que lhe podiam ameaçar a autoridade, o Califa foicruel. Ordenou a prisão e morte de Abu Muslim, o homem que possibilitou a vitória Abássida,além disso, assassinou seus dois tios que almejaram o Califado quando da morte de al-Abbas.A repressão aos cultos religiosos também impiedosa neste governo. Além dos Kharidjitas, quejá eram perseguidos naturalmente (e sob cujas atuações falarei ainda neste item), o Califaexterminou os Rawandiyya, uma seita que acreditava que ele próprio (o Califa al-Mansur)fosse o messias, sendo assim, queriam venera-lo.Os Kharidjitas incitaram uma revolta que tomou praticamente toda a África do norte (sobre aqual os Abássidas ainda não tinha voltado a atenção e que se mantinha levementeindependente, com os Berberes agindo por conta própria). Estes religiosos criaram na regiãoum Estado que foi destruído pela ação rápida do Califa, entre 770 e 771. Porém, a região alémdo Egito nunca mais esteve sob a autoridade inconteste dos Abássidas.Quanto às modernizações introduzidas pelo Califa, consistiam na adoção de algumasinstituições Bizantinas (modificadas ao bel prazer dos Muçulmanos) e na ressurreição do
    • sistema de correios do Império Persa, através do qual, o Califa esperava se manter informadorapidamente de tudo o que acontecia e, assim, evitar o que aconteceu a Marwan II.Finalmente, a criação do cargo de Vizir servir para retirar do Califa algumas obrigações que elenão estava interessado em ter. Para tal cargo, al-Mansur escolheu Barmak. Este cargo, que erapara ser apenas um apoio ao Califa e, dessa maneira, escolhido por cada novo Califa na horaem que desejasse, passou a constituir uma dinastia própria, pois todos os Vizires passaram aser escolhidos dentre os membros do clã Barmékida, o clã de Barmak.7.2.3 – Al-Mahdi (775 – 785):Depois da morte de al-Mansur, que morreu em peregrinação a Meca, seu filho Al-Mahdiassumiu o título de Califa. Na verdade, seu governo foi muito bom e também facilitado pelofato de seu pai o ter deixado a situação política estável e os cofres cheios.No tocante às revoltas, o novo Califa só precisa reprimir uma grande revolta de seguidores deAbu Muslim (depois da morte deste, surgiu um culto que cria em sua volta, pois ele eraconsiderado santo, uma vez que empunhou o estandarte de Maomé contra os Omíadas) que,em 778, tomaram a Transoxiana (região além do rio Oxo, que foi, durante muito tempo umabarreira natural à expansão Árabe, barreira esta só vencida em 705). No entanto, apesar dosreveses iniciais sofridos pelas tropas Imperiais, em 780, os revoltosos foram derrotados e seulíder, al-Muqanna (o profeta velado, pois nunca havia mostrado o rosto) se suicida.Foi no governo de al-Mahdi que Bagdad se consolidou como o verdadeiro "umbigo da Ásia",visto que não só era o centro do Império que governava a maior parte do continente, comotambém havia se tornado a mais importante cidade comercial do mundo, sendo o centro ondese encontravam as mercadorias vindas do ocidente e do oriente. Porém, a orientalização dacapital fez com que os assuntos do ocidentes fossem deixados cada vez mais em segundoplano.O Califa teve dois filhos, Musa e Harun, ambos com uma mesma escrava. O segundo era opreferido da mãe e, por isso, esta fez com que o Califa o nomeasse seu sucessor. Musa, o filhomais velho, não aceitou a decisão do pai e decidiu desafia-lo para um duelo. O Califa, que eraum exímio guerreiro, aceitou, mas acabou tombando diante de seu primogênito.7.2.4 – Musa al-Hadi (785 – 786):Depois de matar o pai, Musa assume o poder, porém, seu governo é tão efêmero quanto o dosúltimos Califas Omíadas. Passa-se menos de um ano até a morte do novo Califa, possivelmentepor envenenamento e, também possivelmente, a mando do irmão.7.2.5 – Harun al-Rachid (786 – 809):
    • A expansão Abássida do século VIII ao fim do IXEste é, com certeza, o mais famoso dentre todos os Califas do Império Árabe. Sua fama se devea sua exaltação na obra "As mil e uma noites". Nela, o Califa é retratado como um homembom e virtuoso, que passeia pelas ruas de Bagdad, disfarçado e em companhia de Jaffar, seuVizir. Ambos têm em mente observar as necessidades da população e assim, serem melhoresgovernantes.Na realidade, isto tudo não passa de estória, pois Harun al-Rachid foi, talvez, o mais tirânicodentre todos os Califas que já governaram o Império Islâmico. Seu Vizir (que não se chamavaJaffar, mas sim Yahya), era quem governava o Império realmente e o Califa só intervinhaquando estava tomado por ódio e, sendo assim, causava alguma destruição muito grande.Rachid passava a maior parte de seu tempo entre as mulheres de seu numeroso harém e asbebidas (nas quais era viciado). Quando se preocupava com assuntos políticos, geralmente setratava de reprimir alguma revolta, ou culto.No entanto, é no governo de Rachid que se pode encontrar indícios de maior contato Islâmicocom o mundo Europeu ocidental. Isso porque, segundo diversas fontes Européias, o Califa teriaenviado e recebido embaixadas (repletas de presentes) a Carlos Magno, Rei da França e, paraalguns, o fundador do Sacro Império Romano-Germânico. Essas embaixadas tinham razõespolíticas claras e úteis para ambos os monarcas, pois se por um lado Carlos Magno (que não seconsiderava Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (o qual estudarei futuramenteem um outro trabalho)), mas sim Imperador Romano (no que há uma grande diferença) e que,portanto, queria anexar aos seus domínios a parte oriental do Império Romano, ou seja, oImpério Bizantino. Em contrapartida, Harun al-Rachid que a ajuda do soberano Franco paraexterminar os Omíadas da Espanha, sendo assim, as relações diplomáticas entre ambos eram
    • boas, inclusive, talvez o início da Reconquista, que foi patrocinado por Carlos Magno, tenhasido realizado devido a algum pacto deste, com Harun al-Rachid.Por sua parte, o Califa também procurou manter o acordo, atacou constantemente o impérioBizantino, durante o governo da Imperatriz Irene. Neste período, conseguiu fundar umacolônia militar em plena Ásia Menor. Graças a essa colônia, Irene se sentia compelida a pagarvolumosos tributos ao Califa para que este não atacasse seus domínios.Consta que, quando Irene morreu, em 802, e foi substituída pelo Basileu Nicéforo I, este serecusou a continuar com os pagamentos, além de exigir a restituição do que havia sido pagopor Irene. A isso, Harun al-Rachid respondeu com a seguinte carta: "Bismillah, em nome deAllah, da parte de Harun, príncipe dos crentes, a Nicéforo, cão Romano. Li tua carta, ó filho demãe infiel. A resposta, teus ouvidos não ouvirão; teus olhos vê-la-ão". Deste dia em diante,Harun ordenou ataque constantes às possessões Bizantinas e, em pouco tempo, os Árabeshaviam conquistados Tiana, importante cidade da Ásia Menor e, estavam a caminho deCesaréia. Assim sendo, Nicéforo foi obrigado a pagar tributo a Harun por duas vezes, em 803 eem 806.No tocante à cultura, realmente o governo de Harun al-Rachid foi magnânimo, ao que parece,durante os anos em que governou, Bagdad foi repleta de poetas, pintores, escultores e outrosartistas. É muito possível que a figura de Rachid em "As mil e uma noites" tenha sidoconstruída propositalmente para homenagear o soberano que tanto fez pela arte. Pode-se,inclusive, considerar o governo de Rachid como sendo o apogeu cultural do Império Islâmico.Por fim, é interessante que se note que Yahya, o Vizir (que era pai de Jaffar, amigo pessoal deHarun, mas não o Vizir), não dispunha de poderes ilimitados, mas foi o grande responsávelpela manutenção dos domínios Islâmicos e pelas campanhas contra o Império Bizantino.Porém, talvez um dia Harun tenha se irritado com Jaffar, o fato é que este foi executado eretalhado em pedaços que foram expostas nas pontes de Bagdad, enquanto seu pai foi presonos calabouços do palácio do Califa. Isso demonstra muito bem o temperamento do Califa,que se exaltava facilmente e que era muito cruel quando o fazia.Porém, nem só de crueldades, cultura e glória viveu o governo deste Califa. Foi nele que oImpério Islâmico perdeu definitivamente o norte da África. O Califa, como forma deagradecimento pela reconquista da região, entregou, em 799, ao seu governador, Ibrahim bemal-Aghlab, o título de chefe hereditário da província de Ifríqiya, residência dos Berberes (osmelhores guerreiros do Império). A única coisa a qual estava obrigado o novo governante, eraa pagar tributo ao Califa.Com esse desmembramento, a África do norte saíra das mãos do Império, pois a Ifríqiyatornara-se independente (estabelecendo a dinastia dos Aglábidas) com esta doação e, noMaghreb (região banhada pelo oceano Atlântico), os Kharidjitas, após tantos anos derevoluções, haviam finalmente desenvolvido um Estado independente e, no Marrocos, osÁlidas (uma dissensão dos Xiitas) haviam fundado seu Estado autônomo. Só restara aoImpério, na África, o Egito.Apesar de toda a desintegração que estava ocorrendo, as coisas ainda ficaram piores quando oCalifa morreu e dividiu o Império entre três de seus filhos: al-Amin, al-Mamun e al-Qasim. Ostrês lutaram incessantemente até só restasse Al-Mamun, que governou o Império à partir nãode Bagdad, mas de Marw. Este tentou uma aproximação com os Xiitas, inclusive nomeandoseu Imam como seu sucessor no Califado. Porém, a morte do Imam fez com que desistisse da
    • aproximação. Data de seu governo a construções, em Bagdad (quando de seu retorno para lá)daquela que foi talvez a primeira Universidade Medieval (entenda-se que não se tratava deuma Universidade segundo os conceitos Europeus, ou seja, não era semelhante às que iriamsurgir na Europa do século XII), construída em 827.Se por um lado o governo de Al-Mamun representou o prolongamento do apogeu cultural,com a construção da Universidade de Bagdad, por outro caracterizou mais umdesmembramento do Império, pois no Khorassan, província de onde os Abássidas tiraram suaforça inicial, surgiu uma dinastia, os Tahíridas, muito semelhante, na formação, aos Aglábidasda Ifríqiya.Depois de sua morte, em 833, Al-Mamun foi sucedido por seu irmão, Al-Mutassim. Estegovernou com a ajuda de mercenários Turcos (Berberes e Eslavos também serviram comomercenários, mas os Turcos formavam o corpo da milícia) que, pelo menos inicialmente,demonstraram ser totalmente fiéis ao Califa. Porém, este optou, por segurança, em abandonarBagdad (para onde seu irmão havia retornado depois de tê-la abandonado) e, sendo assim,transferiu a capital para Samarra. A transferência da capital fez com que o povo retirasse dosAbássidas qualquer apoio que ainda lhes desse.Al-Mutassim foi sucedido, em 842, por seu filho al-Watiq e este, foi sucedido, em 861, por seuirmão al-Matawakkil. Este último além de não readquirir o apoio do povo, ainda fez pior,julgou o Mutazilismo (doutrina Islâmica à qual al-Mamun havia se convertido e tornado oficialdo Estado) como herético, em 849, sendo assim, perdeu o apoio dos Mutazilistas, quecompunham àquela época a elite do Império. Ainda por cima, este Califa acentuou asperseguições a Judeus e Cristãos obrigando-os a utilizar roupas com identificações, para queassim, pudessem ser humilhados por todos.Se por um lado a dinastia Abássida havia dado um golpe totalmente Maquiavélico (como jáexpliquei, Maquiavel ainda não havia existido, mas os preceitos que ele prega em "o Príncipe"podem ser notados em diferentes épocas da História anterior a sua existência, tanto que opróprio Maquiavel utiliza-se de fatos históricos ao longo de sua obra para justificar o que estadizendo, sendo assim, "o Príncipe" nada mais é do que uma análise crítica da HistóriaGeopolítica anterior a Maquiavel), por outro, havia se perdido e se afundado nos principaisproblemas que Maquiavel vê num governo; ou seja, havia não só perdido o apoio tanto dopovo, quanto dos poderosos (o que Maquiavel diz é que, se possível, deve-se governar com oapoio de ambos, o que a dinastia tinha no princípio, mas caso contrário, deve-se fortalecer olado que o apóia, ou seja, se os poderosos o apóiam, governe oprimindo o povo, e se o povo oapóia, demonstre isso aos poderosos a todo momento para que, temendo uma revolução, eleso respeitem), com também havia passado a recorrer a tropas mercenárias que, segundoMaquiavel, por não terem nenhum vínculo exceto o monetário, com o governante, nãohesitariam por um só momento em abandona-lo num momento crucial.E foi quase isso que aconteceu, os Turcos, passaram a ser as principais figuras do governoImperial, pois este dependia deles para se manter (uma vez que, era mantido agora, semapoio, única e exclusivamente através da força). Sendo assim, os Turcos começaram a se acharos donos do poder e, em 861, ajudados por um dos filhos do Califa, mataram-no. À morte doCalifa Al-Mutawakkil, segue-se um período de grande instabilidade que leva à desintegraçãototal do Império e ao surgimento de um número cada vez maior de regiões independentes.Aliás, em teoria, o Império continua existindo e o Califa a exercer certo poder, porém, àmedida que o tempo passa, os Turcos, sob o título de Vizires, se tornam os verdadeirosmandatários do Império que está esfacelado.
    • 7.3 – A Fragmentação do Império:A fragmentação do Império, ou seja, da autoridade central no mundo Islâmico, se iniciou como começo da dinastia Abássida. Essa dinastia parecia, no entanto, que reergueria as glóriasmilitares Islâmicas, alcançadas durante o ápice da dinastia Omíada. Porém, com vimos, não foibem isso o que aconteceu, após a morte de Harun al-Rachid, o maior dentre todos os Califas, oImpério entrou num período de esfacelamento muito rápido. Esse período foi marcado pelosurgimento de diversos Emirados, cada um dos quais com sua própria dinastia Reinante.Talvez a mais famosa dentre essas dinastias tenha sido a Fatímida, que seguiam uma tendênciaextremista do Xiismo, o Ismailismo. Estes fanáticos, depois de iniciarem sua expansão, em 893,estabeleceram um Califado (depois de aberta a porta pelos Omíadas da Espanha, os Fatímidastambém se atribuíram o título de Califa) no Egito, em 969, e este perdurou até 1171.Além dos Fatímidas, outras diversas dinastias estalaram em diversas partes do antigo Império,como os Qarmatas, na Arábia; os Rhaznévidas, no Irã; os Hamdânidas, na Armênia; osSulaihidas, no Iêmen; os Safáridas, no Irã; os Samânidas, próximos ao Turquestão; osTulúnidas, no Egito, antes dos Fatímidas. Além de muitas outras dinastias, como eu disse, omundo Islâmico se tornou, após o colapso do Califado Abássida, uma verdadeira colcha deretalhos e, o que é pior, em constantes alterações, tanto que se torna quase impossível dizerexatamente quando e onde se estabeleceu cada um dos Estados.Há, pois, uma crescente preponderância dos Turcos dentro do contexto do antigo Império. Elesemergem inicialmente como mercenários, mas em pouco tempo começam a mandar de fatono Império chegando mesmo a nomear Califa Abássidas (os quais faziam de fantoches) paralegitimar seu poder político. Como veremos no item "As Sombras do Império", os Turcos foramos que mais se aproximaram de ser os herdeiros do Império Islâmico e foram os responsáveisdiretos pela decisão do Papa Urbano II, em 1096, de pregar a Primeira Cruzada8 – O Islamismo:Como já fiz menção no início do trabalho, antes de Maomé iniciar sua pregação, os povosÁrabes (e nisto estão englobados não só os povos da península Arábica, mas também os Síriose os Mesopotâmicos) estavam entregues a diversas religiões. Algumas nos são até hojeconhecidas, tais como o Zoroastrismo (ou Mazdaíso, do Império Persa), o Judaísmo e o próprioCristianismo. Porém, além dessas religiões grandes; dentre as quais figurava também oManiqueísmo; e bem difundidas, havia também os adeptos de diversas seitas, religiões ecultos de menor expressão, por toda a Arábia.Uma característica comum a boa parte, senão a todos, desses cultos era o politeísmo.Acompanhava essa tendência politeísta, um fenômeno (provavelmente influência dos Judeusradicados na região) de intenso "profetismo", ou seja, a cada dia surgiam mais e mais profetasque pregavam alguma nova doutrina, ou mesmo a vinda de um messias.Como já fiz menção, os Coraixitas de Meca fizeram sua fortuna exatamente centralizando naCaaba as principais divindades de todas essas religiões. Divindades essas que tiveram suasimagens destruídas, em 630, por Maomé.
    • Convém, no entanto, que apresentemos algumas das principais divindades Árabes pré-Islâmicas para que, além de conhece-las, possamos perceber sua influência sobre Maomé, nacriação da nova fé.Os Beduínos cultuavam, principalmente, divindades animistas, ou seja, criam em elementos danatureza (tais como árvores, lagos...) como sendo divindades. Sua crença é perfeitamenteexplicável pela própria forma de vida dos Beduínos, uma vez que, como eram nômades, umoásis podia representar para eles a diferença entre a vida e a morte, sendo assim, seuselementos eram sagrados. Porém, além das divindades animistas (que fique claro que o termoanimista é nitidamente pejorativo, no entanto, fiz uso dele devido à falta de um termomelhor), eram também cultuadas as deusas Al-lat, Al-Uzza e Manat, filhas de um deus maisimportante, cujo nome referirei mais adiante.Em Palmyra e Petra, podia-se observar o culto de antigas divindades Fenícias, os Baal. A rigor,essa palavra quer dizer senhor, e na Fenícia, também designava aqueles que portavam altoscargos. Porém, existiam diversos Baal, dos quais, o mais célebre se tornou Baal-Zebbul, cujacorruptela do nome hoje nos dá o famoso Belzebu, ou seja, o Diabo. A associação da figura doDiabo Judaico-Cristão, com essa antiga divindade, dá-se pelo costume que seus adoradorestinham em montar os chamados poços de sacrifícios, onde eram sangrados e depoisarremessados toda a sorte de animais e, vez por outra, uma criança pequena.Nas outras regiões Árabes, eram adorados diversos deuses astrais, principalmente o Sol e a luaque, de forma antagônica ao culto que era feito na antiga Mesopotâmia (se bem que os nomesdessas divindades fossem praticamente os mesmos, o que caracteriza, necessariamente, umainfluência daquele culto nos cultos Árabes), os sexos das divindades era oposto, ou seja, naBabilônia, o Sol era masculino e a Lua feminina, enquanto que na Arábia, ocorria o inverso.Para os Babilônios, o planeta Vênus era feminino, enquanto para os Árabes, era masculino.É curioso notar que, em boa parte desses cultos (mesmo, talvez no culto aos Baal, visto queeste já não era mais o culto Fenício original, mas sim, havia se transformado ao longo dotempo) havia uma divindade comum que, em boa parte das vezes, se sobrepunha às demais.Essa divindade era Allah (o pai das três deusas Beduínas). Sendo assim, é perfeitamenteexplicável que Maomé, por influências Judaico-Cristãs, tenha aceitado o monoteísmo e, assimsendo, associou como figura divina, o nome do principal deus que conhecia, ou seja, Allah.Dessa forma, Allah não era para Maomé apenas mais um deus, mas sim, o Deus.Dado este primeiro passo, o profeta passou a assimilar a sua crença, diversos elementosJudaico-Cristãos, como a noção de inferno (a Gehenna dos Árabes), de paraíso e até mesmo asantidade de alguns homens, como Moisés, Abraão e o próprio Jesus.É interessante que os Muçulmanos aceitaram facilmente a santidade de Jesus, aceitaram atémesmo o fato deste ter (supostamente) nascido de uma mulher virgem. Porém, em nenhummomento consideraram-no como sendo o Cristo, ou seja, o ungido de Deus, o escolhido. Damesma forma que não criam que Jesus fosse o escolhido, pois para os Muçulmanos, Maomé éo profeta definitivo, abominavam ainda mais a idéia da Santíssima Trindade, na qual Pai (Deus,que para os Judeus e Cristãos tem o nome de Jeová, ou mesmo Javeh), Filho (Jesus) e EspíritoSanto estariam unidos numa única figura, ou seja, Jesus Cristo.Para eles, a idéia da Santíssima Trindade constitui uma enorme heresia, pois gera a crença emoutro ser supremo que não seja Allah e, sendo assim, o politeísmo.
    • Por todas as semelhanças entre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, muitos Historiadores(especialistas em religiões) não consideram as três como religiões diferentes, mas sim, comoramos distintos da mesma fé. Se nos aprofundarmos um pouco no estudo das religiões,veremos que o Cristianismo surgiu do Judaísmo e este, por sua vez, teria tido, em suas raízes,profundas influências do Zoroastrismo (influências prováveis devido às semelhanças entre eambas e devido ao fato da religião Persa ser mais antiga que a Judaica), datadas da época doÊxodo. Devido a todas essas semelhanças, podemos dizer duas coisas:1ª) De um ponto de vista racional, as três religiões; Judaísmo, Cristianismo e Islamismo; seriambraços dissidentes de uma mesma religião inicial: a religião Persa (que não era o Zoroastrismo,mas que foi reformada por Zoroastro, por volta de 700 a.C.). Levando-se em conta o fato deque o surgimento das religiões, segundo estudos antropológicos comprovam, foi devido àobservação dos fenômenos da natureza e, conseqüente tentativa de explicá-los. Pode-seconcluir que, na verdade, nenhuma dessas religiões está correta, visto que todas as religiõesque pressupõe uma divindade estão, necessariamente equivocadas, pois, à medida que aciência caminha e que mais mistérios são desvendados, torna-se cada vez mais provável queum dia tudo poderá ser explicado cientificamente e, dessa maneira, não serão maisnecessários deuses, pois todos eles estarão mortos. Assassinados pela ciência. Aliás, só paracompletar, talvez a própria cúpula das religiões já esteja convencida disso (e há muito tempo),pois isso explicaria claramente todos os entraves colocados, por exemplo, pela Igreja Católica,aos avanços da ciência (na Idade Média era pecado dizer que a Terra era redondo, hoje épecado fazer clonagem humana). Será que tudo isso não é apenas uma tentativa desesperadae inútil, por parte do clero, de manter as migalhas de poder que o mundo ainda lhe reserva?Será que a clonagem humana não seria a prova do homem para ele mesmo de que não foirealmente Deus quem o criou, como dizem as religiões? Reflita!2ª) De um ponto de vista crédulo, podemos dizer que Maomé estava realmente certo, pois, seacreditarmos nas palavras de todos os profetas das grandes religiões ocidentais (excluindoassim as religiões do Extremo Oriente), o Judaísmo teria sido criado a partir de novosensinamentos divinos, ensinamentos que, através dos Dez Mandamentos, reformulariam ascrenças Persas (os Semitas, como queiram) pré-existentes. Posteriormente, a vinda de JesusCristo e as conseqüentes lições de Amor que este deixou teriam reformado as crenças Judaicase, por fim, as revelações de Deus a Maomé, teriam completado (pelo menos por enquanto) alinha de revelações divinas. Sendo assim, o profeta fundador do Islamismo estaria certo emtodas as suas afirmações e o Islamismo seria, necessariamente, a mais perfeita manifestaçãoda vontade de Deus.Para tornar minha análise mais sucinta e específica, terminarei aqui as digressões pessoais eme aterei apenas a enumerar os principais dogmas do Islamismo, além fazer algumasreferências sobre passagens do Alcorão que retratam uma clara preocupação do profetaMaomé em unir o povo.Primeiramente, devo me remeter a explicar por o livro Alcorão tem este nome e tambémporque a religião se chama Islã, ou Islamismo.Responderei, em primeiro lugar, a segunda questão. Islã é uma palavra Árabe que significarendição, sendo assim, é Islâmico todo aquele que se rende à palavra e à vontade de Allah.Islamismo é o emprego da palavra Islã, com a terminação ocidental "ismo", que se remete adesignar algo semelhante à designação nipônica "do", ou seja, caminho, via; dessa forma,Islamismo é o caminho da rendição, caminho que todo o Muçulmano tem que percorrercorretamente para ser salvo por Allah e escapar da Gehenna (inferno), no final de sua vida.
    • Quanto à segunda questão, Alcorão vem do Árabe al Qur’ân, que quer dizer "A Leitura". Essenome remete-se ao sonho que Maomé teve com Allah, no qual o Deus lhe apresentou umpergaminho e ordenou: "Leia!", e o profeta leu mesmo sem saber ler.Muitos lingüistas defendem que o livro deveria se chamar, em português, Corão, visto que adesignação "al" quer dizer "o". Porém, outros refutam essa palavra com a seguinte afirmação.Existe uma tendência na língua portuguesa em "importar" as palavras Árabes segundo o seusom e não segundo o seu significado, sendo assim, palavras como Alfândega, Algodão,Alquimia, Almíscar, Álgebra, Alferes, Alambique, Alcaide e até mesmo Arroz e Açúcar; nãoforam traduzidas segundo seu significado, caso contrário, seriam algo como a Fândega, oGodão, a Quimia, o Míscar, a Gebra, o Feres, o Lambique, o Caide, o Roz e o Sucar. Como atendência que defende a forma Alcorão tem mais respaldo teórico (como os exemplosmostraram), é mais comumente encontrada a forma Alcorão, sendo que a forma Corão, apesarde não usual, não está errada. A vida e os costumes Árabes passaram, desde Maomé, a serem ditados pelo Alcorão. Porém, o próprio Maomé dizia que: "É uma blasfêmia atribuir este Alcorão a outro, que não Deus. Ele é a confirmação do que o procedeu e a elucidação do Livro incontestável do Senhor dos mundos". Segundo o Alcorão, todos os Muçulmanos têm cinco obrigações básicas: 1 – orar diariamente com a cabeça voltada para Meca; 2 – doar esmolas aos pobres; 3 – jejuar no mês do Ramadã (mês lunar, do calendário Árabe, sagrado); 4 – peregrinar a Meca pelo menos uma vez na vida (dessa obrigação estão livres aqueles que dispuserem de recursos; 5 – difundir a fé (essa obrigação deu origem à Jihad, ou Guerra Santa, pois se tratava da guerra, com a bênção divina, contra aquele que não aceitassem A Grande Mesquita de Meca, com a Caaba ao centro a fé Islâmica). Dentro dessas cinco obrigações, pode-se
    • constatar pelo menos duas que foram incluídas pelo profeta: jejuar no Ramadã e difundir a fé. A primeira é explicada devido ao fato deste mês ser o mês das secas e, conseqüentemente, da fome, dessa forma, se o Muçulmano estiver jejuando, ele não acreditará que está passando fome por condições que lhe são inatingíveis, mas sim por vontade própria. Já a difusão da fé é uma preocupação do profeta para que, com sua morte, a religião não se estagnasse. As outras três podem ser divididas da seguinte maneira: duas de caráter religioso real e uma de caráter altruístico. O caráter religioso é demonstrado na peregrinação à Meca e na oração diária. Já o caráter altruístico (de ajuda ao próximo, também pode ser dito, caráter humanitário) pode ser visto na obrigação de doar esmolas aos pobres. Peregrinos dão sete voltas ao redor da Caaba, que já foi reconstruída Além dessas obrigações, as principais, diversas inúmeras vezes outras obrigações menores compõem a complexa e rígida moral Islâmica.São obrigações nitidamente colocadas no livro por alguém (talvez Maomé, talvez Uthman,quando publicou o texto único do livro, exterminando as diversas versões concorrentes) queintentava regular a vida da população de uma forma indiscutível, ou seja, legitimando suasordens como sendo vontade de Deus. Dessas obrigações constam coisas como não comercarne de porco (algo que faz muito mal à saúde de quem vive em regiões áridas), ser asseado(para evitar doenças), além de punições divinas (respaldadas pelo Alcorão) a crimes humanos,como o roubo, o adultério, o assassinato... Todas essas punições, sempre podem ser evitadas,bastando que o criminoso se arrependa diante de Allah. O Muçulmano deve ser piedoso.A compilação das Sunnas (tradições) Árabes, no Alcorão, por Maomé, serviu para dar aospovos Árabes um caráter unitário e, dessa forma, por fim às dissensões internas. Depois damorte de Maomé, as Sunnas do Alcorão (referidas nele próprio como Sunnas de Allah),passaram cada vez mais a ser conhecidas como Sunnas de Maomé, ou Sunna de Maomé. Noentanto, esse conjunto de tradições se mostrou incompleto com o passar do tempo e,sobretudo, à medida que os Árabes se expandiam e assim, entravam em contato com povosnão Árabes. Justamente devido a essas lacunas do Alcorão, criou-se no mundo Islâmico atradição dos Hadith, ou seja, homens que ditavam a maneira mais adequada de se agir frenteàs situações sobre as quais o Alcorão nada mencionava. Esses Hadith eram verdadeirosOralistas e, sendo assim, estudavam o Alcorão a fundo e, baseados nesses estudos e nastradições orais passadas ao longo do tempo, davam seu parecer sobre como agir.8.1 – Um Império de Fé:Talvez este seja o item mais importante do trabalho, isto porque é nele que pretendo expormeu pensamento sobre o Islamismo. É simples, o Império Islâmico se iniciou com um objetivo
    • missionário pregado por Maomé. Em suas raízes (ainda na época de Maomé e depois, sob AbuBakr), ele uniu povos cujos interesses e cultura eram semelhantes, sendo assim, cuja uniãoseria facilmente conquistada apesar do histórico de independência dos povos Árabes.No entanto, a medida em que a expansão do Império foi caminhando, especialmente sobUthman, os povos abraçados por ele já não tinham mais os mesmos interesses dos Árabes doHedjaz, de Hadramaut, do Iêmen, da Síria e do Iraque (regiões que primeiro foramconquistadas e, sobre as quais me referi no início do trabalho como sendo habitadas por povosÁrabes), eram povos que já haviam estado sob a égide de outros Impérios e Reinos e que, porisso, se habituaram com certa facilidade a integrar o Império que surgia. É notório que osOmíadas desempenharam um papel fundamental no Império,aliás, não só para o Império, maspara o Islamismo em si.Hoje, as regiões onde o Islamismo é professado como religião oficial correspondemexatamente às regiões ocupadas pelos Omíadas e, em alguns casos, ao seu prolongamentonatural, como é o caso de regiões distantes da Ásia. É claro que não podemos deixar de levarem consideração a importante presença do Império Otomano (também chamdo de ImpérioTurco) que, durante séculos, dominou vastas regiões a leste da Europa. Porém, exceto naEspanha, onde os Reinos Cristãos foram vitoriosos e impuseram pela força das armas aeliminação do Islamismo, nas outras regiões Omíadas, esta ainda é a religião dominante. Não éa toa que o Islamismo conta hoje com mais de um bilhão de fiéis sendo, individualmente, amaior religião do planeta (o Cristianismo tem mais adeptos do que o Islamismo, porém, estesestão divididos entre o Catolicismo, a Igreja Cristã Ortodoxa, o Espiritismo e as seitas ditasEvangélicas ou Protestantes).O forte trabalho missionário dos conquistadores Islâmicos se fez possível porque juntamentecom a religião (que juntamente com o Cristianismo é a maior religião missionária do mundo),os conquistadores levavam sua língua, que se tornou a oficial e obrigatória em todo o Império,e sua tolerância aos cultos locais. A mesma coisa não acontecia com os povos Cristãos que seexpandiam, pois estes impunham sua fé de maneira compulsória aos povos dominados (quemnunca ouviu falar no massacre da Saxônia, operado por Carlos Magno, onde o Rei matou todosos Saxões que se recusaram a se converter ao Cristianismo? E olhem que Carlos Magno,juntamente com Luís IX, o São Luís, são considerados os dois maiores Reis Cristãos da IdadeMédia).Diga-se de passagem, a tolerância foi um dos principais trunfos dos Muçulmanos e, talvez, oque tenha tornado possível sua conquista, pois estes obrigavam os não Muçulmanos a pagarpesados impostos, mas não os matavam, como faziam os Cristãos. É curioso notar que osIslâmicos demonstravam maior intolerância contra os Muçulmanos não Sunitas (Kharidjitas,Xiitas e seguidores de outras seitas) do que contra os não Islâmicos, estes, só estavamobrigados à tributação, não eram considerados traidores, uma vez que nunca haviam juradofidelidade aos dogmas de Maomé. A tolerância proporcionava uma fácil aceitação do domínioIslâmico por parte das populações que possuíam recursos para pagar os tributos que lhesseriam cobrados (foi o caso dos Judeus das cidades Espanholas que, por serem perseguidospelos Visigodos Cristãos, demonstraram grande receptividade aos Muçulmanos, vistos comosalvadores).Fundamentalmente, o Império Islâmico não foi o Império de um povo, mas sim de uma religiãoe é apenas por isso que, até hoje, os povos Islâmicos possuem uma certa noção de interessescomuns, uma vez que, são ligados por uma mesma religião, religião esta que os incumbe depropagar sua fé a todo custo, sendo assim, em algumas ocasiões podemos ver povos de países
    • diferentes se unirem em torno de um objetivo comum, ligado à religião, como nas vezes emque, no século XX, uma Liga dos Povos Árabes foi reunida para combater Israel (um país Judeuincrustado no meio do Oriente Médio).9 – As Sombras do Império:As Sombras do Império foram, as diversas tentativas (não necessariamente conscientes) de sereunificar o Império Islâmico, além disso, também podem ser consideradas como a irradiaçãodo Islã por diversas outras regiões (até os Mongóis chegaram a se converter ao Islamismo, eeste finalmente invadiu a Europa através do Império Bizantino), o que caracterizou, maisainda, o final do caráter Árabe da religião de Maomé. De Árabe só restaria o idioma oficial.Dentro do que mais merece ser mencionado pode-se, com certeza, incluir os povos Turcos, ouseja, com origem no Turquestão. Os Turcos eram tão heterogêneos quanto os Árabes pré-Islâmicos, mas assim como esses, também detinham muitas características comuns que foramas responsáveis por sua consciência os considerar a todos Turcos.Como vimos, eles se tornaram mercenários dos Califas Abássidas e, dentro de pouco tempo,seu único sustentáculo. Sendo assim, os Turcos começaram a ocupar o cargo de Vizires e amandar, de fato, muito mais do que o próprio Califa. Em 932, os Buwayhidas, uma família Xiitado Irã, invadiu Bagdad e dominou-a, expulsando os Turcos, sendo assim, o Califa Abássidapassou a ser controlado pelos chefes dessa família, inclusive, o líder dos Buwayhidas foidesignado pelo Califa como sendo "O Chefe dos Emires" (Há que se compreender que, apesarda fragmentação, o Império Árabe ainda continuava inteiro, pelo menos em teoria, visto que oCalifa era seu líder máximo, o que acontecia era que os Emires, chefes regionais,desempenhavam políticas totalmente autônomas e só concediam ao Califa (no caso do Emirser Sunita) as honras de Sumo Pontífice do Islã), sendo assim, esse título implicava em que osBuwayhidas fossem os verdadeiros comandantes (pelo menos em teoria) político-militares doImpério (é sempre bom lembrar que, a presença dos Califados da Espanha e do Egitosignificava que, nessas regiões o Califa Abássida não era sequer considerado chefe religioso
    • pois, elas próprias constituíam-se em Teocracias. Na prática, a diferença entre um Emir e umCalifa é que o primeiro é apenas um governante temporal (político) e o segundo, além detambém poder ser um governante temporal, é, sobretudo, um governante espiritual). Quandoforam expulsos de Bagdad, os Vizires Turcos conquistaram a Síria e organizaram, em 935, adinastia dos Ikchiditas que, no entanto, só resistiu até 969.Essa situação perdurou até 1055, quando um grupo de Turcos nômades, os Seldjúcidas, atacouBagdad e derrotou os Buwayhidas. O líder dos Seldjúcidas, Toghrul-Beg, então, foi nomeadopelo Califa como Sultão, o que correspondia a uma separação definitiva entre os poderestemporal e religioso, ficando o primeiro a cargo do Sultão e o segundo nas mãos do Califa.Por serem Sunitas, os Seldjúcidas combateram o Xiismo, que havia se tornado dominante noperíodo de governo dos Buwayhidas, mas, no entanto, seu feito mais importante foi, semdúvida a vitória na Batalha de Manzikert.Esta batalha, travada na Ásia Menor, contra o Império Bizantino, constituiu no início do fimdeste. Aparentemente, foi apenas uma vitória heróica conquistada por um grupo, osSeldjúcidas, que apesar de estar em franca minoria, lutava de forma coesa e apaixonada, sobreum grupo enorme, o exército Bizantino, e heterogêneo, formado por mercenários de diversaspartes do Império que, na hora do combate, foram incapazes de obedecer corretamente umcomando central e, por isso, acabaram fragorosamente derrotados. Porém, foi muito mais doque isso, pois permitiu aos Turcos conquistarem as planícies da Anatólia (ou Ásia Menor), ouseja, a Armênia e a Capadócia, região vital para a sobrevivência do Império Bizantino, uma vezque era de lá que ele retirava a maior parte de seus gêneros agrícolas e também, os cavalospara seus cavaleiros. Sendo assim, sem a Anatólia, o Império Bizantino viu-se obrigado aimportar cavalos para poder manter uma cavalaria, o que encarecia este tipo de tropa,essencial nas guerras Medievais, e limitava o exército Bizantino, à partir de 1071, quandoocorreu a batalha, mais e mais a apenas infantarias e tropas de arqueiros, impotentes contraas cavalarias Muçulmanas.É importante notar a atuação dos Sultões Seldjúcidas, em especial Alp Arslan, filho do primeiroSultão. Eles, com efeito, sediados na cidade de Isaphan (próxima a Bagdad), recriaram oImpério Islâmico, porém, agora em três frentes diferentes e com um caráter primordialmenteTurco. As três frentes de expansão Seldjúcida eram respectivamente: a Anatólia; a Síria e o Irã.A Síria foi reconquistada aos Emires independentes que lá haviam se instalado, no Irã, ocorreuo mesmo e a Anatólia, por sua vez, depois da Batalha de Manzikert, foi pouco a pouco sendoocupada pelos Seldjúcidas até se tornar realmente o novo Turqustão (há que se notar que aTurquia de hoje nada mais é do que a própria Anatólia, ou Ásia Menor).A derrota do Basileu Romano IV na Batalha de Manzikert provocou profundo abalo no ImpérioBizantino. Inicialmente, foi a dinastia dos Ducas (a qual o Basileu pertencia) que caiu, em seulugar entrou Nicéforo III, que percebendo a situação delicada em que se encontrava, começoua pensar em uma reaproximação com o ocidente (digo reaproximação porque desde 1053,com o Cisma do Oriente (separação entre a Igreja Católica, com sede em Roma, e a IgrejaCristã Ortodoxa, com sede em Constantinopla), que as relações entre Constantinopla e o restoda Europa estavam estremecidas). Esta reaproximação foi executada, no entanto, quandoAleixo I, o Basileu que assumiu, em 1081, requisitou ao Papa Urbano II o envio de uma forçamilitar de apoio na guerra contra os Muçulmanos. O Papa aceitou o pedido (principalmenteporque sua condição, a reunificação das duas Igrejas, foi aceita pelo Basileu) e, em 1095, no
    • Concílio de Clermont, pregou a Cruzada com a desculpa de reconquistar Jerusalém, que se vianas mãos dos Muçulmanos.A Primeira Cruzada, realizada entre 1096 e 1099, foi realizada, portanto, com o intuito deauxiliar o Império Bizantino na medida em que abria uma nova frente de combate contra osTurcos. Porém, ela só obteve sucesso (reconquistou Jerusalém, Belém, Nazaré e outrascidades, além de estabelecer Reinos Cristãos na Palestina) devido a fragmentação política dosSeldjúcidas decorrente da morte do Sultão Malik-Chah, em 1095. Este dividiu seu Império emtrês partes: a Síria, a Anatólia e a Pérsia, ficando todas independentes umas das outras,constituindo as duas últimas, Sultanatos próprios e a primeira estando dividida em dois Reinos.Os Seldjúcidas entraram em decadência à medida que mergulharam na descentralização e suaqueda foi precipitada quando, em 1258, os Mongóis, liderados por Hulagu, tomaram Bagdad edepuseram o último Califa Abássida, al-Mustasim. Os reides Mongóis, que se haviam iniciadono final do século XII, destruíram o Sultanato da Pérsia (o Irã) e depois o centro do antigoImpério. Somente a Anatólia permaneceu sobre a autoridade Turca, porém não apenasSeldjúcida. O domínio Mongol, estabelecido ao longo de toda a Ásia através dos diversosCanados (forma de administração cujo líder máximo é um Khan, tal como Gengis Khan, umaespécie de Rei, mas que vive de forma militar), facilitou, no final do século XIII e início do XIV, aascensão, na Anatólia, de uma tribo Turca que tomaria o nome de seu fundador, Otaman (quegovernou seu povo entre 1299 e 1326). Este povo dito Otomano, iniciou a construção de umSultanato que, à partir de meados do século XIV já impressionava pela força e que, em 1453,depois de já estar irremediavelmente incrustado na península Balcânica, foi capaz de tomarConstantinopla pondo um ponto final ao Império Bizantino (que a esta época se resumia únicae exclusivamente à sua capital), renomeando-a como Istambul e, colocando assim um pontofinal naquilo que é conhecido como História Medieval.Os Otomanos continuariam sua expansão até o século XVI, e nela conquistariam todas asregiões costeiras entre a Grécia e o Marrocos, ou seja, a Anatólia, a Palestina, o Egito e todo onorte da África. À partir de meados do século XVI, as regiões mais distantes do ImpérioOtomano (que era governado por um Sultão) começam a agir de forma independente e, noinício do século XIX, quando Napoleão toma o Egito, a soberania dos Otomanos passa a ficarmuito restrita. Essa situação só se agravaria, com a perda, em meados do século XIX, daHungria. O Império resistiria ainda à Primeira Guerra Mundial, mas depois dela, se tornaria tãofragilizado que, em 1922, abdicaria de sua condição Imperial para formar a atual Turquia, umaRepública (a República foi proclamada em 1923), cuja capital é Ankara.9.1 – Legados Culturais:São incontáveis os legados dos povos Árabes Medievais para a humanidade, dessa forma, nãoseria possível para mim, que sou apenas um leigo, enumera-los ou tão pouco estuda-los todos.Cabe, no entanto, à responsabilidade a qual me incumbi, enumerar alguns dos legadosculturais mais importantes dessa "Civilização" (coloco o termo entre aspas pois não creio ser omais adequado para definir povos tão distintos que têm em comum apenas a religião, a línguae a arquitetura, mesmo essa última, com muitas variantes) magnífica.
    • A religião é incontestavelmente, o legadomais importante dos Muçulmanos, pois, nomundo, hoje, como me referi, mais de umbilhão de pessoas é adepta do Islamismo,religião que não só rege seus espíritos, masque também, por seu forte código de morale ética, rega suas vidas.Podemos citar a Matemática como ciênciarevolucionária do Islã, mas aliada a ela vêmtambém a Física, a Química (e por que não aAlquimia) e a Astronomia.No campo da Literatura, muitos poetasÁrabes adquiriram renome no mundo, mas Conjunto da Mesquita de Sherazade, construídanenhuma obra supera em grandiosidade entre 1544 e 1548, em Istambul. Exemplo de"As mil e um noites". Mesquita Otomana.Uma aliança entre a literatura, a Alquimia e cultos antigos fez com que florescessem no mundoIslâmico Medieval homens como o Persa Omar Khayyam (não confundir com o falso gurubrasileiro que, em 2000, enganou muitas pessoas sendo, inclusive, convidado a ministrarpalestras na conceituada Unicamp), astrônomo, matemático, poeta e, segundo consta, umaespécie de Mago, ou seja, um homem aprofundado nas ditas Ciências Ocultas.As artes Islâmicas tinham, em sua maioria, temas religiosos, mas havia também um pequenonúmero de obras profanas (não religiosas), de grande qualidade.A arquitetura Islâmica éimpressionante e, ao longodo tempo, foi seaprimorando. Hoje, daépoca Omíada nos restammuito poucas coisas, masas mais impressionantessão a Caaba (cuja últimareconstrução data de 696),a Mesquita dos Omíadas,em Damasco e o Domo daRocha, em Jerusalém. Jádo período Abássida, amais imponente obra é,sem sombra de dúvidas, aprópria cidade de Bagdad, Outro exemplo de Mesquita Otomana. Vista geral da Mesquitacidade que, terminada em Sumaimaniye, em Istambul, contruída entre 1550 e 1557762, marca o apogeucultural do mundoIslâmico Medieval.Não se pode esquecer da importância da compilação dos textos gregos de autores há muitoperdidos na Europa. Essas compilações foram possibilitadas devido ao contato com regiõesque fizeram parte dos antigos reinos helenísticos (estabelecidos após a morte de Alexandre, o
    • Grande). Elas tiveram participação direta e fundamental (inclusive, arrisco dizer que este nãoteria ocorrido sem a influência dessas obras resgatadas pelos Muçulmanos) no Renascimento,iniciado no século XIV, especialmente na Itália, e continuado nos séculos XV e XVI.Além desses grandes legados culturais, outros legados também devem ser levados em conta. Aexpansão Árabe, além de restaurar o comércio oriental com o ocidente, relembrou aosEuropeus que este existia. Com efeito, os Muçulmanos foram responsáveis pelo resgate doideal grego de que o mundo era redondo; esse ideal, por si, foi o inspirador de muitospensadores Europeus e, inclusive, do navegador Italiano Cristóvão Colombo que, em 1492,acreditando que o mundo era realmente redondo e que iria, saindo da Espanha, chegar àÍndia, descobriu a América.9.2 – Legados Tecnológicos:É claro que quando se lembra que os Árabes re-introduziram na Europa os textos Gregos hámuito esquecidos, pode-se pensar que isso seja um legado tecnológico Árabe, porém, não sepode conceber dessa maneira, pois os textos Gregos constituem muito mais legados culturaisdo que tecnológicos.Como legados tecnológicos (se é que tecnologia é a melhor palavra para o que irei descrever)do mundo Islâmico Medieval, podemos enumerar principalmente duas coisas: os algarismosarábicos e a pólvora.Os primeiros, revolucionaram a matemática e são, seguramente a forma mais perfeita derepresentação numérica já inventada. Além de contarem com a noção do zero, noçãoinexistente nos algarismos romanos utilizados até então, contavam com dez símbolos (0, 1, 2,3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9), proporcionando uma escrita muito mais simples dos números do que ossete símbolos romanos (I, V, X, L, C, D e M). É claro que a Matemática, por si só, é uma Filosofiae, como tal, deve ser incluída na seção de Legados Culturais, mas os algarismos são uma novatecnologia.A pólvora, talvez tenha sido a mais impressionante e importante contribuição tecnológica domundo Islâmico para o mundo. Aliás, se pensarmos sobre a importância da pólvora na Históriada Humanidade, veremos que, talvez, ao lado do fogo e da roda, ela seja a invenção maisrevolucionária de todos os tempos. A pólvora foi o veículo que possibilitou a queda doFeudalismo, uma vez que tornou os Castelos, símbolo de poder da nobreza feudal, obsoletos.A pólvora não foi inventada, em si, pelos Árabes, mas sim pelos Chineses. Estes a utilizavamdesde tempos muito remotos como fogos de artifício, mas os Árabes, ao compreenderem suaspropriedades foram os primeiros a pensar numa utilização bélica para ela. Isso deve terocorrido no final do século XIII, tanto que, em meados do século XIV, o Império Otomanoformava o primeiro corpo de Janízaros (soldados armados com arcabuzes, armas de fogorudimentares que, segundo consta disparavam de tudo, desde pedras até flechas. Ao queparece, o chumbo só passou a ser utilizado como munição por volta do século XV) da História.Os arcabuzes dos Janízaros Turcos, no entanto, não constituíam a mais importante utilizaçãoda pólvora na Idade Média, isso porque, esse arcabuzes eram lentos e muito perigosos para ossoldados que os empunhavam (na realidade, as armas manuais de fogo só passaram a ter umautilidade grande em campos de batalha quando, por volta do século XVII, os Inglesesdescobriram as linhas de tiro, ou seja, quando eles faziam três ou mais fileiras de soldados e,depois que a primeira fileira disparava, começava a recarregar as armas enquanto a segunda e
    • a terceira faziam seus disparos. Só então, a primeira fileira voltava a atirar, sendo assim, o fogoficava praticamente contínuo), sendo assim, a grande utilização da pólvora na Idade Média foi,sem sombra de dúvidas, nos canhões que, graças ao poderio das grandes pedras lançadas poreles, destruíram vários Castelos, tornando assim, sua existência quase inútil.Por fim, pode-se considerar a Bússola e o Astrolábio que, assim como a pólvora, não foraminvenções dos Árabes, mas dos Chineses. Estes foram transmitidos aos Europeus pelos Árabese revolucionaram a navegação. É verdade que o Astrolábio já havia sido inventado pelosGregos na Antiguidade, porém, foi, como outras coisas, esquecido e os Chineses, apesar deposteriormente, tiveram a mesma idéia que os Gregos antigos haviam tido e inventaram umaparelho semelhante, que foi passado aos Árabes. Estes, por sua vez, o aprimoraram etornaram-no indispensável à sua navegação.10 – Bibliografia: CHALLITA, Mansour (trad.). O Alcorão. GIORDANI, Mário Curtis. História da Antiguidade Oriental. GIORDANI, Mário Curtis. História da Ásia: Anterior aos descobrimentos. GIORDANI, Mário Curtis. História do Mundo Árabe Medieval. HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes. LOYN, H.R. (org.). Dicionário da Idade Média. MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. McEVEDY, Colin. Atlas da História Medieval. PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: Uma História Concisa. PIRENNE, Henry. História Econômica e Social da Idade Média. Vários. As mil e uma noites. Vários. Atlas de História Geral. Vários. Grande Enciclopédia Delta Larousse.