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Confiança na política e na história

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Confiança na política e na história

  1. 1. Confiança na política e na históriaA confiança no poder salvador da política e no processo da história rumo a uma direção identificáveldesapareceu. A procura de uma vida coletiva isenta de pavores e de sofrimentos afastou-se dos projetospolíticos.Com o afastamento das perspectivas de salvação mediante a política, o ser humano está procurandooutros caminhos, estabelecendo ou restabelecendo diversas estratégias. Duas delas são as mais difusase significativas.A primeira é aquela de buscar, de novo e intensamente, a ausência de pavores e de sofrimentos em umoutro mundo, no céu, sentindo, porém que é ao mesmo tempo cidadão e estrangeiro nesta terra, na qualdeve eventualmente tomar conta, mas considerá-la apenas como uma etapa provisória da caminhadarumo à ausência plena de pavores e de sofrimentos.Diminui o “sentido histórico” e aumenta a necessidade do “absoluto”. Conseqüência da perda da crençaque o curso da história se orienta espontaneamente para o melhor. No passado, a primazia do sentido dahistória durou enquanto foi garantida pela confiança numa reserva áurea de “progresso” que se acumulouno decurso dos séculos.Todavia, é paradoxal, ao menos na aparência, o facto que hoje vem perdendo credibilidade a idéia deuma conspiração dos eventos rumando para um fim comum. Isto estaria acontecendo justamente nomomento em que o mercado mundial e o sistema das comunicações põem em contato rápida efacilmente todos os povos da terra, no momento em que a rede de interdependências globais se tornacada vez mais densa.Pela primeira vez o ser humano está virtualmente em condição de captar a história contemporânea comoum todo. Mesmo assim ele é obrigado a registrar uma espécie de “estrabismo perceptivo”, considerandoque, por um lado, assiste o avanço da “globalização” e, por outro lado, o fechamento das “culturas” em sipróprias e à sua vontade de evitar a homologação planetária.Hoje, pode-se afirmar que a queda do sentido histórico depende do facto que se perdeu de vista qualquerprocesso unitário da história sob a orientação de um protagonista bem identificado. Desapareceram oscritérios de seleção implícitos nos modelos que interpretavam o processo histórico como processo unitárioguiado por “macro-sujeitos”.A ausência de pavores e de sofrimentos é procurada na vontade renascida de resguardar-se da tirania docurso do mundo, no desejo por vezes de ignorar os contextos mais amplos em que se vive. Tal projeto,porém, resulta inviável, além de inútil. Jamais conseguiremos tornar-nos independentes do envolvimentocom os eventos “externos”.Por isso, as técnicas de isolamento que visam desvincular-nos totalmente dos condicionamentoshistóricos são tão funestas quanto aquelas que procuram mergulhar o ser humano nos eventos a pontode levá-lo a perder a autonomia individual.A segunda estratégia, ao contrário, consiste em mergulhar profundamente nas satisfações e nos prazeresda vida presente. Percebendo a vida como contingente e fugidia (onde tudo se acaba) o ser humano faztudo para se saciar aproveitando todas as ocasiões de prazer. Deixa que o desejo se torne o arbítrio paradecidir, vez por vez, o que achar mais vantajoso. Sua liberdade corre o risco de transformar-se emescravidão do instante.Infelizmente a ausência de pavores e de sofrimentos não chega por encomenda. O indivíduo não podedizer a si mesmo “seja livre de pavores e de sofrimentos!”, como não também dizer “seja espontâneo!”.Além disso, quando é que as contínuas satisfações dos desejos, numa espécie de corrida frenética contrao tempo, trazem a ausência de pavores e de sofrimentos?As duas referidas estratégias contêm a tentação de uma fuga da política, isto é, de uma busca individualda ausência de pavores e de sofrimentos, devido ao descrédito da dimensão pública. A política seapresenta, atualmente, mais como promessa de ausência de pavores e de sofrimentos privada do quecoletiva. As duas referidas estratégias têm um elemento em comum: a tentação de fugir tanto da política eda história, como também do projeto em comum, a favor, por um lado, de uma salvação da almaindividual ou, por outro lado, de uma busca desenfreada e privada de prazeres. De qualquer modo, aausência de pavores e de sofrimentos é considerada um bem à guisa de refúgio a que somente oindivíduo possa aceder, em áreas oportunamente protegidas.É preciso sair de si próprios, descobrir de novo o enorme espaço positivo da sociabilidade e de umapolítica que não se identifica com as tagarelices televisivas ou com a inevitável visão limitada da própriapolítica. Na verdade não é possível viver feliz em um leprosário: uma felicidade pessoal não arejada eoxigenada pela esfera pública acaba tendo cheiro de mofo ou declarando a própria natureza de recuo ede derrota.

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