Concpçao do jogo segundo piaget

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Concpçao do jogo segundo piaget

  1. 1. LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS – Coordenador: Prof Marcos TeodoricoCONCEPÇÃO DO JOGO EM PIAGETPiaget diz que se o ato da inteligência desemboca em equilíbrio entre assimilação ea acomodação, uma vez que a imitação prolonga esta última por si mesma, épossível afirmar que o jogo é essencialmente assimilação, que prima sobre aacomodação. Para esse epistemólogo, com a socialização da criança o jogo adquireregras ou adapta a imaginação simbólica às necessidades da realidade, construçõesespontâneas que imitam o real; o símbolo de assimilação individual dá passagem àregra coletiva ou ao símbolo representativo ou objetivo, ou a ambos.A partir desse pressuposto teórico, o nascimento do jogo é analisado por Piagetcomo gênese da imitação. Esta não se sustenta sobre nenhuma técnica instintiva ouhereditária; isto é, a criança aprende a imitar, e como qualquer outra aprendizagemestas aquisições se encontram unidas a todos os problemas relativos à construçãosensório-motora e mental da criança. A aprendizagem para Piaget estárepresentada por um duplo processo: o de assimilação e o de acomodação. Ainteligência sensório-motora aparece como desenvolvimento de uma atividadeassimiladora que tende a incorporar e acomodar os objetos exteriores a seusesquemas, na medida em que se dá um equilíbrio estável entre a assimilação e aacomodação. Neste caso, pode-se falar de uma adaptação propriamente inteligente.Entretanto, à medida que a acomodação, e nesse sentido, deve-se compreender oestreito parentesco com o ato de inteligência.Contrariamente, quando a assimilação se produz antes da acomodação, a atividadedo indivíduo fica orientada por meio desta no sentido do jogo que, segundo Piaget,vem a se constituir em um eco da imitação. O autor analisa o jogo em sua gênesecomo um complemento da imitação. Em função de suas considerações sobre aimitação, faremos algumas referências relacionadas com suas contribuições. Aoestudar a imitação, Piaget reconhece seis estágios progressivos, cada um deles comcaracterísticas peculiares.1º Estágio – Preparação reflexa - A reprodução de um modelo estará relacionadacom os atos reflexos e, portanto, não é propriamente imitação (ausência deimitação neste estágio).2º Estágio – Imitação esporádica - Os esquemas reflexos começam a assimilarcertos elementos exteriores e a ampliar-se em função de uma experiênciaadquirida sob a forma de reações circulares “diferenciadas” .3º Estágio – Imitação sistemática - Aparecem novas reações circulares que exercemuma ação sobre as mesmas coisas; surgem a partir da coordenação de visão e dapreensão, aos quatro meses e meio, em média.De forma resumida, pode-se dizer que neste estágio a criança é capaz de imitartodos os movimentos que executa espontaneamente por si mesma, com exclusãodos movimentos imersos nas totalidades mais complexas e que seria necessáriadiferenciá-los como esquemas independentes para poder copiá-los.LABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS1
  2. 2. 4º Estágio – Imitação dos movimentos já executados pelo sujeito, mas de maneirainvisível para ele, Piaget descreve dois momentos distintos nesta fase da imitação:a) Imitação de movimentos já executados pelo sujeito, mas que ele não pode ver;este momento começa aos oito ou nove meses e se caracteriza pelacoordenação dos esquemas entre si.b) Início da imitação de novos modelos sonoros e visuais. Na medida que umacriança está capacitada a imitar os movimentos executados de forma visívelsobre o próprio corpo, procura copiar também os sons e os gestos novos. Estesfatos, na opinião de Piaget, parecem explicar os progressos da inteligência.5º Estágio – Imitação sistemática de modelos novos, inclusive os que correspondemaos movimentos invisíveis do próprio corpo – A imitação de modelos novos não sefaz de forma sistemática e precisa, mas no curso do quinto estágio e issoparalelamente com os progressos da mesma inteligência, faculdade da qual parecedepender diretamente a imitação.6º Estágio – Começo da imitação representativa e evolução posterior da imitação.No curso deste estágio, ocorre a construção da inteligência sensório-motora. Acoordenação dos esquemas se torna independente suficientemente da percepçãoimediata e da experiência empírica como para dar lugar a combinações mentais.Este estágio está caracterizado por dois momentos distintos:a) imitação dilatada, isto é, a primeira reprodução de um modelo não se faznecessariamente em sua presença, mas em sua ausência e depois de tempomais ou menos largo;b) evolução posterior à imitação, momento que se caracteriza pela análise daimitação depois de que aparece a linguagem, período compreendido entre dois esete anos.Piaget, neste estágio, faz referência a dois tipos de observação de ordem geral:uma que se refere às coisas móveis; e outra que é a técnica da imitação. Comrelação às coisas móveis, sustenta que a imitação não se constitui jamais em umaconduta que se satisfaça a si mesma: é o resultado de uma acomodação especialao modelo proposto. Essa acomodação imitativa se suscita na medida em que omodelo é assimilado, de perto ou de longe. A imitação é sempre uma prolongaçãoda inteligência, mas no sentido de uma diferenciação em função de modelos novos.Para Piaget, quando a criança imita um avião o faz porque compreende suasignificação e não se interessa por ele, mas sim pela relação que tem com suasatividades. Esse processo, segundo Piaget, evolui provocando uma delimitaçãoentre o interno e o externo, que logo nos leva ao problema da técnica, em que seanalisam as relações entre a imitação e a imagem mental. Piaget afirma que acaracterística propriamente representativa dos dois aos sete anos, por oposição àimitação sensório-motora, é a de que, desde que aparece, a representaçãoimaginada do modelo antecede a sua cópia. Ao analisar de forma pormenorizada asteorias da imitação, associando-as a suas observações, conclui dizendo que a“adaptação inteligente, a imitação e o jogo são as três possibilidades nascidas doequilíbrio estável entre a assimilação e a acomodação, ou da primazia de umadessas duas tendências sobre a outra.” Depois de descrever a evolução da imitaçãono desenvolvimento da criança, Piaget faz uma análise da evolução do jogo nessesmesmos estágios. Com relação ao primeiro estágio, opina que é difícil considerarcomo jogo os exercícios reflexos característicos dessa primeira fase, posto quesimplesmente prolongam o prazer de sucção. Para Piaget parece que nessa fase éimpossível fazer uma diferença entre a assimilação que intervém na montagemLABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS2
  3. 3. adaptativa hereditária e uma assimilação que estivesse além desse quadro, data afalta de elementos adquiridos de conduta. No segundo estágio, o jogo parece jáformar parte de condutas adaptativas, esboçando-se como uma ligeiradiferenciação da assimilação adaptativa. No curso do terceiro estágio, a ação sobreas coisas se transforma em jogo quando um novo fenômeno é compreendido pelacriança e já não alimenta a busca propriamente dita. Nesse momento, adiferenciação entre o jogo e a assimilação intelectual é um pouco mais acentuada.No quarto estágio, aparecem duas novidades relativas ao jogo:a) em primeiro lugar, a característica desse período é a aplicação dos esquemasadquiridos a situações novas. Isto ocorre pelo prazer de atuar sem esforço deadaptação e para alcançar um fim determinado;b) em segundo lugar, a mobilidade dos esquemas permite a formação deverdadeiras combinações lúdicas, e o sujeito passa de um esquema a outrosem ensaios sucessivos, de maneira simples, sem nenhum esforço deadaptação.No quinto estágio, as atividades lúdicas da criança parecem obedecer a um certoritual, que se acentua neste momento, posto que a ritualização tem seu início noestágio anterior. No sexto estágio, a característica principal é a aparição do símbololúdico, distinguindo-se do atual sob a forma de esquemas simbólicos, graças a umprogresso decisivo no sentido da representação. A atitude de levar a mão à boca,como se estivera comendo, sem ter nada na mão, caracteriza o jogo simbólico quetem como origem a ritualização progressiva que a criança experimenta nos estágiosanteriores. Piaget coloca as diferenças que existem entre o símbolo lúdico e osjogos motores. Para exemplificar seu ponto de vista se refere à seguinteobservação: uma criança de um ano e três meses faz como se estivesse pondoalguma coisa na boca, depois ri e diz “não”, com gestos da cabeça, e afasta oobjeto da boca.Esse comportamento se encontra ainda entre o ritual e o símbolo, mas esta mesmacriança, quando tem um ano e seis meses, faz como se estivera bebendo, utilizandouma caixa que põe contra a boca. Estes últimos símbolos são preparados por umaritualização progressiva que começou um ou dois meses antes, e cujas principaisetapas consistiram em divertir-se bebendo em copos vazios e depois repetir o atoimitando o ruído dos lábios e do paladar. Essa conduta constitui uma ficção, ousentimento de “como se”, e caracteriza o símbolo lúdico em oposição aos jogosmotores. No curso dos jogos motores a criança utiliza esquemas já conhecidos eritualizados, mas, antes em lugar de colocá-los em ação na presença de objetos quelhe são aplicados ordinariamente, assimila-os com novos objetivos; depois, seesquemas são utilizados com o único fim de permitir imitar ou evocar os sistemasem questão. A reunião dessas duas condições caracteriza o começo da ficção.Entende Piaget que quando existe imitação, pelo menos aparente, de alguma coisa,e assimilação lúdica ao mesmo tempo, estamos diante da característica principal dojogo simbólico, isto é, aquela que se revela como a principal diferença do jogopuramente motor. Piaget também fala de signo e de símbolo, dizendo que o signo éum significante arbitrário ou convencional, enquanto o símbolo é um significantemotivado. Nem a palavra, nem o contato com o outro acompanha necessariamentea formação de um simbolismo, já que o efeito mais característico do sistema designos verbais sobre o desenvolvimento da inteligência é permitir a transformaçãodos esquemas em conceitos.Portanto, a imitação e o jogo se elaboram no curso dos mesmos estágios e passampelas mesmas fases de construção, incluindo a fase representativa. Deve-serecordar que para Piaget todo esquema sempre ao mesmo tempo da assimilação eda acomodação, posto que cada um desses dois processos é necessariamenteLABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS3
  4. 4. indissociável do outro. Quanto à classificação dos jogos, Piaget opina que o jogoprocede por relaxação do esforço adaptativo, assim como por meio do exercício dasatividades, somente pelo prazer de dominá-las e de extrais delas um sentimento devirtuosidade ou potência. O autor, depois de analisar criticamente as classificaçõesdos jogos segundo Quérat, Stern e Bühler, propõe uma classificação com base nodesenvolvimento das estruturas mentais.Ao analisar de uma forma crítica a teoria da recapitulação proposta por StanleyHall, é necessário fazer uma distinção entre o conteúdo do jogo e sua estrutura. Oconteúdo são os interesses lúdicos particulares, ligados a este ou a aquele objeto( bonecos, animais, construções, máquinas etc.), e a estrutura é a forma deorganização mental que a criança utiliza quando joga. Com esses argumentos, istoé, analisando o jogo quanto à sua estrutura, Piaget classifica os jogos, em: deexercício (sensório-motores), simbólicos; e de regras, sem esquecer suasvariedades. Propõe uma variação de conteúdo segundo o meio físico e social dacriança e, neste aspecto, faz referência aos trabalhos de Lehmann e Witty (ThePsychology of Play Activities), que nesse sentido também estão de acordo. Essesdados são relevantes porque determinam a classificação dos jogos proposta porPiaget. Os jogos de exercícios se referem a atividade de prazer funcional e não derepresentação; os jogos simbólicos são a representação de um objeto ausente oude simulação funcional; e os jogos de regras emergem das relações sociais e/ ouinterindividuais. Mas sua classificação dos jogos não se esgota aí. Piaget inclui osjogos de construção como a transição entre os três tipos e as condutas adaptadas.Esse tipo de jogo não constitui uma categoria comparável às anteriores, mas umaespécie de fronteira que relaciona os jogos com as condutas lúdicas. Piaget afirmaainda que alguns jogos não superpõem o domínio de nenhuma técnica particular,considerando-os simples exercícios e, cuja única diferença marca a função quedesempenham.Por exemplo, uma criança, quando salta um pequeno riacho, pelo simples prazer desaltá-lo, e logo regressa ao ponto de partida para recomeçar, repetindo várias vezeste ato, executa, neste caso, os mesmos movimentos que quando salta pornecessidade, mas realiza este jogo tão-somente pelo gosto de fazer. Ao contrário,quando faz como se estivesse comendo uma folha verde que denomina deespinafre, existe, além do esboço sensório-motor na ação de comer, uma evocaçãosimbólica que caracteriza uma estrutura distinta da imagem representativaadaptada. O jogo de exercício é o primeiro a aparecer no comportamento dacriança, caracterizando os estágios do segundo ao quinto do desenvolvimento pré-verbal, por oposição ao sexto estágio, no decorrer do qual começa o jogo simbólico.Ao falar de jogo de exercício, Piaget afirma que a atividade lúdica da criançaprolonga quase todas as ações ampliando ainda mais a noção de exercício; isto é, ojogo de exercício pode ser tanto pós- exercício marginal como pré-exercício. Se ésensório-motor, interessa às funções superiores; portanto, o fato de colocarinterrogantes pelo simples prazer de perguntar, sem interesse pela resposta, nempelo problema que questiona, é característico também dos jogos de exercício. Outracontribuição relevante de Piaget é a afirmação de que o jogo de exercício nãorequer pensamento nem estrutura representativa especialmente lúdica, enquantoos jogos simbólicos implicam a representação de um objeto ausente. Os jogossimbólicos, segundo Piaget, só aparecem no decorrer do segundo ano dedesenvolvimento da criança e, como implicam representação, não existem nosanimais. Entretanto, entre o símbolo propriamente dito e o jogo de exercício existeum intermediário, que é o símbolo constituído de atos ou de movimentosdesprovidos de representação.Com exclusão das construções puramente imaginativas, a maior parte dos jogossimbólicos põe em ação movimentos ou atos complexos que são ao mesmo temposensório-motores e simbólicos; Piaget, prefere denominá-los simbólicos na medidaque o simbolismo integra outros elementos. Nos jogos simbólicos suas funções seLABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS4
  5. 5. distanciam cada vez mais dos simples exercícios, uma vez que a compensação, arealização dos desejos, a liquidação de conflitos etc. Se agregam ao puro prazer desubmeter-se à realidade. Por outro lado, não encontra mais que uma simplesdiferença de grau entre o jogo simbólico individual e o jogo simbólico coletivo,porque com frequência as crianças jogam umas frente às outras, e é difícil anotar,esse ponto de vista, o limite exato do jogo simbólico individual e coletivo.Entretanto, situa o começo do simbolismo nas condutas individuais que possibilitama interiorização da imitação e afirma que o simbolismo de vários não transforma aestrutura dos primeiros símbolos. Para Piaget, aos jogos simbólicos, no decorrer dodesenvolvimento, se superpõe uma terceira categoria: a das regras que implicamrelações sociais e individuais. A regra implica regularidade imposta pelo grupo, esua violação representa uma falta.O exercício, o símbolo e a regra parecem ser, para Piaget, do ponto de vista dasestruturas mentais, os três estágios sucessivos característicos das grandes classesde jogos. Finalmente, situa os jogos de construções ou criação propriamente ditos.No processo de análise desses jogos, entende que quando o jogo de papéis seconverte em criação, seja de uma cena de teatro ou de uma comédia, saímos doâmbito do jogo na direção da imitação e do trabalho. Conclui que, se consideradasa três níveis e como formas sucessivas (sensório-motora, representativa ereflexiva) da inteligência, é evidente que os jogos de construção ocupam umaposição intermediária, no segundo e sobretudo no terceiro nível, entre o jogo e otrabalho inteligente, ou entre o jogo e a imitação.Jogo de exercícioOs jogos de exercício, também denominados de jogos sensório-motores, aparecemno primeiro período do desenvolvimento da criança, isto é, no período da atividadesensório-motora. Não chegam a constituir sistemas lúdicos independentes econstrutivos, como é o caso dos jogos simbólicos de regras. Sua motivaçãocaracterística, segundo Piaget, é pelo simples prazer funcional, ou pelo prazerproduzido pela tomada de consciência de suas novas capacidades. Apesar de estesjogos aparecerem durante os dezoito primeiros meses de vida, reaparecem durantetoda a infância, e com frequência até na vida adulta. O jogo de exercíciodesaparece quando dá lugar a uma espécie de saturação, quando seu objetivo jámais oportuniza nenhuma aprendizagem. Piaget classifica os jogos de exercíciosensório-motor em duas categorias: puros e referentes ao pensamento. Subdivideos jogos sensório-motores puros em três tipos: de simples exercícios, decombinações sem finalidade e de combinações com finalidade. Os jogos de simplesexercícios se limitam a produzir uma conduta ordinariamente adaptada a um fimutilitário qualquer, aproveitamento elementos do contexto e repetindo com o únicoprazer de exercer seu poder. Consistem em jogos de caráter lúdico e cuja atividadeé muito simples, como lançar, retirar um fio de um pedaço de fazenda, encher eesvaziar um recipiente com areia ou água e, mais tarde, dividir um todo ereconstruí-lo. Os jogos de combinações sem finalidade se diferenciam dosanteriores porque os sujeitos não se limitam a exercer atividades já adquiridas,iguais ao plano de adaptação inteligente, mas a construir novas combinações quesão lúdicas desde do início.Essas combinações sem um fim prévio são extensões dos exercícios funcionaiscaracterísticos da primeira fase. Para Piaget, os jogos sensório-motores consistemem um movimento pelo movimento, em manipulações baseadas no prazer demanipular e cuja característica principal é sua instabilidade. Os jogos decombinações sem finalidade, na maioria dos casos, constituem tentativassimplesmente pelo prazer de atuar ou de encontrar situações novas ou divertidas e,como é mais fácil destruir que construir, o jogo se converte em destruição. Os jogosde combinações com finalidade já desde o início apresentam uma finalidade lúdica,existindo um projeto que deve ser realizado, apesar de que, como todos os jogos deLABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS5
  6. 6. exercício sensório-motor, não chegam a constituir sistemas lúdicos independentes econstrutivos, como ocorre nos jogos simbólicos e de regras. Quando os jogos deexercício sensório-motor se convertem em combinações propriamente ditastransformam-se nas seguintes situações:1. se foram acompanhados de imaginação representativa, derivam para o jogosimbólico;2. se socializam e se dirigem ao jogo de regras;3. se conduzem a adaptações reais, logo se afastam do domínio do jogo e entramno domínio da inteligência prática ou nos domínios intermediários entre os doisprimeiros.Os jogos referentes ao pensamento, nesta classificação, referem-se aqueles quenão são simbólicos e que consistem, simplesmente, em exercer algumas funções,como, por exemplo, combinações de palavras e perguntas feitas com a únicafinalidade de perguntar. Piaget dá um exemplo concreto: “Que é isto? – Um curral.– Porquê? – Por que existem vacas dentro, vês? – Por que são vacas? – Não vês?Tem guampas. Por que elas tem guampas?”, etc. Essas perguntas se fazem peloprazer de interrogar, assim como para verificar até onde pode chegar a resposta.Em princípio, do ponto de vista de Piaget, a diferença entre os jogos simbólicos e osde exercício intelectual consiste em que os primeiros se referem ao pensamento.Nos jogos de exercício intelectual as crianças não tem interesse pelo queperguntam ou pelo que afirmam; o que as diverte é fazer as perguntas ou inclusiveimaginá-las, enquanto no jogo simbólico o interesse está centrado nas realidadessimbolizadas, e o símbolo serve simplesmente para evocá-las.Da mesma forma que classifica os jogos e exercício, classifica os simbólicos, isto é,atendendo à estrutura dos símbolos, concebidos, como instrumentos de assimilaçãolúdica. Fala de esquema simbólicos ou reprodução de um esquema sensório-motorfora de seu contexto. Constitui-se em uma forma primitiva, pois a criançaunicamente realiza, fato que não se diferencia da execução de suas açõeshabituais. Não utiliza nenhum tipo de objeto no sentido real, mas sim outrosobjetos, para simbolizar que está dormindo ou lavando suas mãos, ou fazendoqualquer outra atividade. O esquema simbólico por si mesmo é suficiente paraassegurar a superioridade da representação sobre um ação pura; nesta, segundoPiaget, o jogo permite assimilar o mundo exterior ao “eu”, como meio infinitamentemais poderoso que o de simples exercício. Esta forma primitiva do jogo simbólicosurge antes da linguagem e serve para que a criança utilize livremente seuspoderes individuais, reproduzindo suas ações pelo prazer de dar o espetáculo parasi mesma e para os demais. No decorrer do segundo período do desenvolvimentoda criança, que para Piaget vai desde um ano e seis meses até os sete anos,aparece uma série de novas formas de símbolos lúdicos. No período da atividaderepresentativa egocêntrica (2-7 anos), que está caracterizada pelos estágios dopensamento pré-conceitual (2-4) e do pensamento intuitivo (4-7) podem-sedistinguir muito claramente os seguintes tipos de jogos simbólicos.1º Projeção de esquemas de imitação sobre objetos novos (1º estágio – tipo I). Osjogos, neste caso, se referem também a uma projeção de esquemas simbólicostomadas de alguns modelos imitados e, não diretamente da própria ação, como sãocaracterizados os jogos simbólicos iniciais.2º Assimilação simples de um objeto a outro (1º estágio – tipo II). Neste momento,um objeto poderá ter vários significados, ora um ora outro, reforçados pela palavra,como, por exemplo: uma concha poderá ser em um momento uma taça de café, emoutro um vaso, um chapéu, um recipiente de água.LABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS6
  7. 7. 3º No estágio, surgem os de tipo III. Uma vez constituído o símbolo em suageneralidade, desenvolve-se e evolui para combinações simbólicas variadas.As verdadeiras combinações simbólicas, com proliferação indefinida, caracterizamuma terceira etapa e não se manifestam antes dos três ou quatro anos. Ossimbolismos de tipo III caracterizam-se por diferentes tipos (A, B, C, D) queconstituem formas de complexidade crescente. Os jogos simbólicos de tipo A sãocaracterizados pela imitação dos animais conhecidos e ou imaginários. Pararepresentá-los, a criança utiliza ora seu próprio corpo, ora objetos variados. Nestaetapa também se observa o jogo símbolo denominado de “combinaçõescompensadoras” (tipo B), que consiste em “consertar” o real, como, por exemplo:uma ação proibida é executada ficticiamente. Ainda podemos encontrar jogossimbólicos do tipo de “combinações de liquidação” (tipo C), que consistem emvivências simbólicas em situações que na vida real dão certo medo executar e que acriança procura representar através do jogo, seja através da palavra, seja pelogesto. Um último tipo de jogo simbólico neste 1º estágio de tipo III é o denominado“combinações simbólicas antecipadoras” (tipo D). Consiste em aceitar uma ordemou um conselho, mas antecipado simbolicamente as consequências dadesobediência ou da imprudência que viriam no caso previsto. Assegura Piaget quetanto esses jogos como os precedentes procuram reproduzir o real, mas geralmentese constituem em uma antecipação exata, ou simplesmente exagerada, dasconsequências do ato reproduzido. A partir deste momento surge o 2º estágio, quecompreende a idade de quatro a sete anos. Neste caso, os jogos simbólicosanalisados anteriormente passam a desaparecer e dão passagem,progressivamente, para a simples representação imitativa da realidade. Nessemomento o símbolo começa a perder seu caráter deformante. Para Piaget, a partirdeste estágio (segundo) três novas características diferenciam os jogos simbólicos: Existe uma ordem relativa nas construções lúdicas, por oposição à incoerênciadas combinações de tipo III; Existe uma preocupação crescente no jogo pela exatidão da imitação darealidade. Neste período, o símbolo lúdico evolui no sentido de uma simplescópia do real e somente o tema geral da cena segue sendo simbólico, enquantoos detalhes tendem a uma acomodação precisa e a uma adaptaçãopropriamente inteligente; Começa a aparecer o simbolismo coletivo propriamente dito e, portanto,diferenciado e adequado aos papéis assumidos no jogo. A partir dos quatroanos, cada vez mais, os papéis se diferenciam e se fazem complementares nosjogos simbólicos.O processo de socialização acaba desembocando em uma transformação mais oumenos rápida no tocante à direção da imitação objetiva do real, e não no esforço dosimbolismo. Surge, então, o terceiro estágio, que se situa entre onze e doze anos, eque se caracteriza pela diminuição do simbolismo em detrimento dos jogos deregras ou de construções simbólicas, cada vez menos deformantes e cada vez maispróximas do trabalho contínuo e adaptado. Se compararmos os jogos simbólicosiniciais com as características desta fase, no princípio se observa que um pedaço demadeira é assimilado a um carro, que ainda pode ser evocado para imaginar umaviagem fictícia, enquanto no final da construção simbólica (casas, móveis, etc.) nãose constituem mais que uma reprodução imitativa direta da realidadecorrespondente, e esta não é evocada para servir de objeto ao esforço decompressão inteligente. Para Piaget o jogo simbólico tem seu apogeu entre os doise os quatro anos, iniciando, após esta idade, um processo de declinação. Em geral,e à medida que se adapta às realidades físicas e sociais, a criança se dedica cadavez menos às deformações e às transposições simbólicas, existindo três razõesessenciais que explicam o debilitamento do simbolismo lúdico com a idade:LABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS7
  8. 8.  A primeira se refere ao conteúdo do simbolismo, quando este testemunhanecessidades de expansão do eu, de compensação, de liquidação, decontinuação da vida real (bonecas etc.) A criança se interessa cada vez commais intensidade pela existência verdadeira e, portanto, assimilação simbólica efictícia é cada vez menos útil. A segunda centra sua atenção no fato de que o simbolismo coletivo podeengendrar a regra, isto é, os jogos de ficção se transformam em jogos deregras. A terceira explica a diminuição gradual do jogo em geral e não somente do jogosimbólico. Na medida em que a criança tenta submeter a realidade mais queassimilá-la, o símbolo deformativo se transforma em imagem imitativa, e aimitação mesma se incorpora à adaptação inteligente ou afetiva.Para Piaget, dos quatro aos sete anos as crianças querem fazer reproduções exatas,e seus símbolos se tornam cada vez mais imitativos; por esse motivo o jogosimbólico se integra ao exercício sensório-motor ou intelectual e se transforma, emparte, em jogos de construção.Jogos de RegrasPara Piaget, os jogos de regras não seguem o mesmo itinerário dos anteriores, poiscomeçam a aparecer na metade do segundo estágio, isto é, dos quatro ao seteanos, e principalmente no terceiro período, que está compreendido entre os sete eonze anos.Apenas surge o pensamento, o símbolo substitui o simples exercício, a regrasubstituíra o símbolo e enquadrará o exercício no momento em que se constituem,de forma incipiente, certas relações sociais. Para Piaget, a criança por si mesma nãose impõe regras, mas o faz por analogia com as que recebeu. Jamais comprovouregras espontâneas em uma criança, quando tem bolinhas de gude, constrói comelas símbolos (ovos de um ninho) ou joga de arremessá-las etc. (simplesexercícios), adquirindo costumes. Na regra, além da regularidade, existe uma idéiade obrigação que supõe a existência de dois indivíduos, pelo menos. Quando umacriança joga sozinha e diz “estou jogando para que as urtigas não me toquem”,podem ocorrer duas coisas: ou se trata de um simples jogo de exercício com ritualização; ou a criança se impõe regras porque conhece outras e, assim, interioriza umaconduta social. Com relações às regras, distingue dois tipos: transmitidas eespontâneas.As regras transmitidas se referem aos jogos institucionais, que se impõem porpressão das gerações anteriores. As espontâneas se referem aos jogos de naturezacontratual e momentânea, isto é, procedem da socialização dos jogos de simplesexercícios ou dos simbólicos. Piaget conclui dizendo que os jogos de regras são osde combinações sensório-motoras (corridas, lançamentos de bolinhas de gude) ouintelectuais (cartas, damas) de competência dos indivíduos e regulados por umcódigo transmitido de geração em geração, ou por acordos improvisados. Os jogosde simples exercício são os primeiros a aparecer, mas são também os que possuemmenor estabilidade, posto que são variáveis: surgem à margem de cada novaaquisição e desaparecem depois de sua saturação. De forma geral existe umaextinção gradual dos jogos de exercício em virtude das três transformações quesofrem:LABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS8
  9. 9.  a criança passa insensivelmente do simples exercício às combinações semobjetivo e logo às com finalidade (o jogo de exercício se converte em jogo deconstrução); simples exercício pode se transformar em simbolismo, ou agregar-se ao jogosimbólico; quando o jogo de exercício se torna coletivo, pode ser regular e converter-se,assim, em jogo de regras.Para Piaget somente os jogos de regras escapam a esta lei de involução,desenvolvendo-se com a idade e sendo os únicos que subsistem na idade adulta.Na opinião de Martinez Santos, Piaget vê no jogo um processo de ajuda aodesenvolvimento da criança; acompanha-a, sendo ao mesmo tempo uma atividadeconsequente do seu próprio crescimento.Fonte: Aprendizagem & Desenvolvimento Infantil: Simbolismo e Jogo.Autor: Airton Negrine. Editora Prodil. Porto Alegre, pág. 32 a 45, 1994.LABRINJO - LABORATÓRIO DE BRINQUEDOS E JOGOS9

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