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Salamanca do Jarau (Ensaio de Luiz Cosme)
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Salamanca do Jarau (Ensaio de Luiz Cosme)

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Ensaio publicado em: COSME, Luiz. Música, sempre música. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1959, p. 79-92.

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  • 1. SALAMANCA DO JARAU1 Inspirei-me na lenda Salamanca do Jarau, incorporada já ao folcloreriograndense e recolhida por J. Simões Lopes Neto, para a criação do bailado. É longo o roteiro desse colorido reconto popular — tecido das recuadastradições das furnas de Salamanca ou cuevas de San Cebrian, na Espanha, de onde setransferiu para o Rio Grande do Sul, mesclando-se, ali, a elementos locais de tipos,paisagem e língua, de tal modo que na versão desenvolvida por Simões Lopes Netonada resta do modelo original. Colocando de parte o andamento propriamente dito da narrativa, bem como avinculação de quadros e cenas dela constantes — apoiei-me, contudo, aos elementossubstanciais da lenda. A Salamanca do Jarau (Salamanca: furna encantada. Provém a denominação dacidade de Salamanca, na Espanha, onde existia, diz-se, uma célebre escola de magia notempo dos mouros. Jarau: (Serro do) Na coxilha geral de Sant’Ana, sobre a linhadivisória com a República do Uruguai) é uma caverna assombrada e fabulosa. Nela seacham presos por encantamento o Santão da Salamanca, que é um sacristão sacrílego, ea princesa Teiniaguá lagartixa. A teiniaguá encantada também é chamada: carbúnculo,farol, e trazia na cabeça uma “pedra preciosa” que cintilava como brasa e de cor derubi), por quem ele se perdeu. Toda a sorte dos dois espíritos enamorados e enfeitiçadosestava ligada àquele encantamento que só terminaria quando um mortal tivesse acoragem de entrar na furna e afrontar os perigos e pavores de sete provas. O destemidocampeiro Blau Nunes, indo no rastro do Boi Barroso (era vaga lembrança de um boiencantado que aparecia, porém nunca era encontrado por muito procurado que fosse; etambém denominação de uma antiga dança camponesa, cuja música era ornada deversos que eram cantados durante o folguedo) se propõe a desencantar a cavernaassombrada e salvar os dois amantes. O sentido inicial da lenda-bailado está resumido no Rastro do Boi Barroso;Blau, o gaúcho pobre, vê o vulto do Santão de face tristonha e branca e o medo lhe gelao coração calejado pela vida. Tudo é mistério nesse lugar ermo e sombrio da Salamanca, 1 Ensaio publicado em: COSME, Luiz. Música, sempre música. Rio de Janeiro: InstitutoNacional do Livro, 1959, p. 79-92.
  • 2. e no silêncio da noite o Santão conta o segredo da furna encantada. Teiniaguá é aprincesa moura, de corpo rijo e não tocado a quem Anhangá-Pitã (diabo vermelho)transformou em lagartixa verde com um carbúnculo brilhante na cabeça. O Santãocuidava dos altares e ajudava a missa na igreja de São Tomé. Um dia, vê um clarãovermelho como um sol de crepúsculo. Era a Teiniaguá, com a cabeça de pedra luzente.O sacristão toma de uma guampa (chifre de boi) e nela encerra a lagartixa. E quandomais tarde volta, trazendo mel para sustentá-la, vê... em lugar da lagartixa, a figura damoura. A princesa, com o fascínio de seus encantos, começa a tentar o pobre sacristão.Por instantes ele tateia o rosário, agarra a Cruz do Salvador e vai levantando oCrucificado... bem em frente da moura... na altura do seu coração... da sua garganta... daboca... na altura dos... E aí parou, porque olhos de amor, tão soberanos e cativos, em milvidas de homens outros se não viram!. “No rastro do boi barroso, a introdução do bailado, é de um poder sugestivoadmirável. Apenas alguns compassos — cinco contrabaixos em harmônicos, harpa,celeste e fagotes — e eis-me em pleno ambiente de lenda. Há qualquer coisa de mágico,de primitivo, de estranho mesmo, nestes acordes iniciais. Mas, logo, figuras familiaresrepontam. ~. Primeiro as trompas, depois o corno inglês, as trombetas e as cordascantam fragmentos melódicos do Meu boi barroso, leitmotiv de toda a obra. Alternandocom rápidas figurações das flautas, oboés e clarinetas, que tanto brilho e fluidezemprestam à orquestra, células ritmo-melódicas desta canção são expostas pelasvariados timbres. Mas, nota-se, não se trata apenas de citação textual. Não é o temapopular que é exposto, mas idéias musicais nele originadas. O compositor apropriou-seda motivação temática para, mediante transformações múltiplas, plasmar obra artísticasignificativa. Disseminados por toda a partitura, como parte principal às vezes, vezesoutras modelando a estrutura das vozes secundárias, tais motivos asseguram a perfeitaunidade da obra”. 2 Aqui termina, como prólogo, a narração do Santão que convida Blau a entrar nafurna e passar por sete provas duras. Deixarei com o próprio Simões Lopes Neto anarrativa das sete provas, que constituem, após a introdução, as diferentes partes dobailado: “Blau Nunes foi andando” — diz Simões Lopes Neto3:2 GUEDES, Paulo. Salamanca do Jarau. In: Província de São Pedro, n.o 3, dezembro de 1945, pág. 92.3 Nas páginas seguintes, o texto de Paulo Guedes será citado em itálico, com deslocamento à direita,enquanto o texto de Simões Lopes Neto será citado em tipo normal sem deslocamento.
  • 3. “Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da enrediçada ramaria que se cruzava nela; pra o fundo era tudo escuro. Andou mais, num corredor dumas braças; mais, ainda; sete corredores nasciamdeste. Blau Nunes foi andando. Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu. Sempreescuro. Sempre silêncio. Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro. Numa cruzada de carreiros, sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir demuitas espadas, seu conhecido. Por então o escuro ia já mudando num luzir de vaga-lume. Grupos de sombras com feitio de homens peleavam de morte; nem pragas nemfuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando umas nasoutras, no silêncio. Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de facebranca e tristonha — Alma forte, coração sereno... E meteu o peito por entre o espinheiro das espadas, sentiu o corte delas, o finodas pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos lados, num entono,escutando porém choros e gemidos dos peleadores. Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas”. “Uma segunda idéia de relevante importância musical, surge pouco após otrecho seguinte — Assombração — é o tema da Teiniaguá. Exposto pelas trompas, apouco e pouco se delineia, toma - culto, transforma-se em idéia musical completa, parase afirmar em esplêndido fortíssimo executado pelos metais. E Teiniaguá cresce,subjuga toda a orquestra, em imitações múltiplas, para desaparecer, cedendo oprimeiro plano às várias provas por que Blau Nunes tem que passar”. “Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido doscabrestilhos das suas esporas. Blau Nunes foi andando. Andando numa luz macia, que não dava sombra. Enredada como os caminhosdum Cupim era a furna, dando corredores sem conta a todos os rumos; e ao desembocardo em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe aos quatro lados jaguares epumas, de goela aberta e bafo quente, patas levantadas mostrando as unhas, a colamosqueando, numa fúria...”
  • 4. “Vivo e Raivoso desenvolve-se Jaguares e Pumas, a terceira parte da obra. Emmeio de potente orquestração, expõem os trombones tema enérgico de caráter másculoe rude, enquanto violoncelos, contrabaixos, trompas e fagotes executam, uníssono,baixo ostinato que por aumentação, transforma-se no motivo do número seguinte”.4 “E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçarem-lhe ocorpo; i)assou sem pressa nem vagar, escutando os urros que pra trás iam ficando emorrendo sem eco.. As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas que, certo, oladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros, sem bem o empurrar, masatirando-o para adiante... adiante... A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela. Blau Nunes foi andando. Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado deossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos outros, muitosderreados, como numa preguiça; pelo chão caídas, partes deles, despencadas; caveirassoltas, dentes branqueando, tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passode dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado, outras emsaracoteio”. “Verdadeiros achados de orquestração contém esta parte. Lembro, entreinúmeros outros, aquele simples efeito dos acordes das clarinetas e oboés sobre ostaccato dos baixos ou a rara combinação das flautas, em flatterzungen, corno inglês,clarineta, triângulo pianíssimo, piano, um violino solo, dois segundos e as restantescordas tocando com a madeira do arco”.5 “Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal da cruz;...porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e passou entre as ossadas,sentindo o bafio que elas soltavam das suas juntas bolorentas. As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros... Blau Nunes foi andando. O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar arespiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de passar por uma como porta dele, eaí dentro era um jogo de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha denhanduvai; e repuxos d’água, saídos das paredes, batiam nele e referviam, chiando,4 Ibid., págs. 92 e 93.5 Ibid.
  • 5. fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era umatemeridade cortar aquele turbilhão”. “Admirável também a liberdade, a ousada liberdade rítmica e harmônica deLínguas de fogo, onde fragmentos do Boi Barroso alternam com tema próprio, derivadodo baixo ostinato da terceira parte, agora executado em rápido andamento para formarcontraste com Boicininga, trecho seguinte”. 6 “Outra vez ele meteu peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas. Asmãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer — muito bem! Blau Nunes foi andando. Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio comoque um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém, já se lhe assentara nos olhos etanto, que viu adiante, em sua frente e caminho, um corpo enroscado, sarapintado egrosso, batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu. Era a boicininga, guarda desta passagem, que levantava a cabeça flechosa,lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no vivente a escama dos olhos,luzindo, preto como botões de veludo... Das duas presas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de sobreano,pingava uma goma escura, que era a peçonha sobrante por muito jejum de mortandade,lá fora. A boicininga — a cascavel amaldiçoada toda se meneava, chocalhando osguizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como por prova... Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o peito epassou, vendo, sem olhar, a boicininga altear-se e descair, chata e tremente.. . e passou,ouvindo o chocalho da que não perdoa, o sibilo da que não esquece...” “Após dois compassos de introdução dos violoncelos e contrabaixos, pianíssimoexpõem os violinos a idéia principal do trecho que, passando pelos diversos naipesorquestrais, em diferentes aspectos rítmicos, dinâmicos e de tonalidade”.7 “E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera sem temer —de alma forte e coração sereno — logo então as mãos voantes anediaram-lhe o cabelo,palmearam-lhe mais chegadas os ombros. Blau Nunes foi andando.6 Ibid.7 lbid.
  • 6. Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce que elenão conhecia; em toda a volta árvores enfloradas e estadeando frutos; passarinhada depenas vivas e cantoria alegre; veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo,que recreava os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta desamambaias, um olho-d’água, que saía em toalha e logo corria em riachinho, pipocandoo quanto-quanto sobre areão solto, palhetado de malacachetas brancas, como umafarinha de prata... E logo uma ronda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda alegresaiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele, Blau, gaúcho pobre, que sómulheres de anáguas resvalonas conhecia.. Vestiam-se umas em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas, outrasna própria cabeleira solta. . . ; estas chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos,cheios de bebida recendente e fumegando entre vidros frios, como de geada; dançavamoutras num requebro marcado como por musica... outras lã acenavam-lhe para a lindezados seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite aberto e ardiloso”. “Ronda de moças, verdadeiro scherzo onde aparecem dois dos mais belos temasmelódicos do autor. Embora de livre composição, em ambos — notadamente fins doprimeiro e último do segundo, derivado do tema de Teiniaguá — reminiscênciasregionais transparecem. É Blau Nunes “alma forte e coração sereno”, vencendo a maisdura prova por que deve passar”.8 “Porém ele meteu o peito e passou, com as fontes golpeando, por motivo do armalicioso que o seu bofe respirava... Blau Nunes foi andando. Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões, cambaios ecabeçudos, cada qual melhor para a galhofa, e todos em piruetas e mesuras,fandangueiros e volantins, pulando como aranhões, armando lutas, fazendo caretasimpossíveis para rosto de gente. Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar de riso nocanto dos olhos”. “Depois da Tropa de Anões, Teiniaguá se desencanta pela bravura do gaúcho”.9 “E com este, que era o último, contou os sete passos das provas”. 108 Ibid.9 Ibid.
  • 7. Blau Nunes encontra-se, no Desencantamento, em frente a uma velha bruxa quese propõe, como prêmio de sua coragem, satisfazer sete desejos seus, sugerindo-lhe asorte no jôgo de cartas; nos amores... Mas Blau — só deseja uma coisa que não sabeexprimir por palavras — ele deseja a princesa moura, a Teiniaguá encantada. E, comopermanece mudo, a bruxa desaparece e Blau volta, evocando saudoso, as imagens damoura e do sacristão que, redimidos de suas penas e transformados numa linda tapuia enum guasca desempenado, vão devagarinho, ao encontro do seu destino. [Segue a análise musical de Paulo Guedes:] “Desencantamento Este trecho eu não hesito em considerá-lo o mais belo detoda a obra. Construído sobre motivos do Boi barroso, entrelaçados por vezes com otema de Teiniaguá, é de um sentimento poético admirável. Aliás é este, a meu ver, oclima predominante da partitura. Transparece logo nas primeiras páginas. Dele estáimpregnado todo o último movimento. E nos últimos acordes, ainda, é de infinita poesiao canto das clarinetas, como um adeus, rememorando os compassos iniciais”. 11 Termina, assim, a lenda bailado em pianíssimo suave e evocador. 10 LOPES NETO, J. Simões. Contos Gauchescos e Lendas do Sul. Porto Alegre: Livraria doGlobo, 1949, p. 309-312.11 Ibid.