Revista nepp 01

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Revista nepp 01

  1. 1. NEPP-NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISASEM PSICANÁLISEEmail: nepp@nepp.com.brSite: www.nepp.com.brProf.Sergio Costa
  2. 2. Núcleo de Estudos e Pesquisasem PsicanáliseAv.Cristiano Machado,640-Sl:1501Bairro Sagrada FamíliaBelo Horizonte – MGCEP.: 31.140-660Telefax: (31) 3241-2042www.nepp.com.brPublicação SemestralBelo Horizonte –MGMaio/Junho 2013Número 1
  3. 3. PSICANÁLISERevista do Núcleo de Estudose Pesquisas em PsicanáliseComissão EditorialIrani Adalgisa dos Santos AraújoRicardo Cunha FalcãoRosiane Cláudia da SilvaSérgio CostaApoioLivraria do PsicólogoPropaganda/MarketingRevisão de TextoGeraldo OliveiraElaine De PaoliRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  4. 4. O conteúdo dos artigos, aqui p ublicados, é d e inteiraresponsab ilid ade de seus autores.É proibid a qualquer m odalid ade d e reprodução destarevis ta, seja to tal ou p arcial, sob pena da lei.IndiceEditorialApresentaçãoMem ória e Elementos Sensoriais e não sensorialidadeadvindas dos desejos em análiseSérgio CostaPoema de ÉpocaSérgio CostaAdolescência, Violência Urbana e ResponsabilidadePsicossocialRicardo FalcãoCulto ao Corpo, Anabolizantes e AdolescênciaVa léria T rincheroFrágua-FreudianaSérgio CostaRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  5. 5. Introdução e Fundamentos de uma Sociedade de EspetáculosSérgio CostaPsicanálise e Direito de FamíliaSérgio CostaIrani AraújoMaira TeixeiraPoema: DepressãoSérgio CostaPacientes SomatizadoresDavid ZimermanNeurose Obsessiva: Neurose ou Transtorno?Transtorno de Personalidade BordelineIrani Adalgisa dos Santos AraujoEditorialUma Psicanálise genuinamente brasileira para brasileirosJá passou um século e a Psicanálise continua tão viva e intensa como nosanos 1886, quando foi criada. O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas emPsicanálise) vem refazendo o percurso de sua história e vem apresentar, coma 1a. Edição de sua revista, uma Psicanálise genuinamente brasileira parabrasileiros.Acredita que a criação humana não é obra de um único autor, mas de umacoletividade motivada por um pai carismático e por um objetivocompartilhado.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  6. 6. Todo desequilíbrio psíquico decorre das experiências e da imaginação de umpovo, de acordo com o espírito da época. Além disso, depara-se com forçascontraditórias que se alternam e entrelaçam incessantemente.Para atender a expectativa do eterno desejo do homem pela felicidade, oNEPP desenvolve uma Psicanálise a partir da realidade brasileira,acreditando que essa é una e em constante processo de mudanças, e que oshomens brasileiros de hoje não são os de ontem, e nem serão os de amanhã.Segundo o Diretor do NEPP, Dr Sérgio Costa, esta revista tem como metalevar o leitor a refletir sobre a nossa realidade, e sobre a necessidade deestar buscando força para sobreviver psiquicamente dentro dessacomunidade, que, atualmente, se encontra sem uma referência paterna, ouseja, diante de um Estado adoecido.Esta 1a. Edição traz temas reais, que são estudos e pesquisas relevantessobre o que há de mais atual no nosso cotidiano, e propõe chamar atençãopara a construção de um saber genuinamente brasileiro, atendendo asexigências dos tempos em que vivemos: a necessidade de uma Psicanálisepara todos.Alcebino de Souza SantanaApresentaçãoA Psicanálise é a ciência do inconsciente, criada por Sigmund Freud (1856-1939), neurologista, austríaco e judeu.É uma forma de terapia psicodinâmica baseada na idéia de que as neurosessão manifestações de traumas ocultos no inconsciente, e que ao rememorare analisar esse material é possível romper as barreiras prejudiciais. É umprocesso longo, pois parte do princípio de que o eu interior está preso a umaluta com mensagens conflitantes provenientes do ego, do id e do superego,em especial no tocante às questões da sexualidade controlada pela libido.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  7. 7. Presum e-se qu e a realidade representada pelos tem ores e desejosinconscientes, e não as impressões conscientes ou a realidade objetiva, é omais im portante fator determinante do com portamento e da au to-imagem dopaciente. Acredita-se que a capacidade hum ana diante do conflito psíquico éequilibrada por u ma postura de “síntese criativa”, que perm ite a adaptação ecura, através do processo da livre associação, interpretação de sonh os,análise dos atos falhos e da resistência.O NEPP (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicanálise) é um a associação,fundada em 02 de setembro de 2002, regida por um estatuto aprovado porAssembléia G eral, sem vinculação político-partidária ou religiosa, semdistinção de raça, cor, sexo ou nacionalidade.A su a sede administrativa é em Belo Horizonte-MG, onde atu a sem limitesou restrições, tanto geográficas com o políticas. Tem como exercício social,coincidente com o ano civil, e prazo inde terminado para o exercício de suasatividades. É administrada por u ma dire toria e um conselho fiscal.É constituído por psicanalistas clínicos voltados para o estudo con tínuo daPsicanálise.Tem a missão de contribuir e estimular o desenvolvim ento da Psicanálise, deacordo com as norm as e finalidades legais.Para tan to, oferece cursos, en contros científicos, estudos de casos clínicos,análises de film es, projetos voltados para a educação, a análise das cau sas eefeitos da violência social, as famílias etc. Oferece, ain da, um a biblioteca ricae uma videoteca para pesquisas e estudos.Procura formar psicanalistas e estudiosos, desenvolvendo a escu tapsicanalítica apoiada n a transferência, e o conhecim en to do sujeito e suasorganizações patológicas, associadas às demandas do m undocon tem porâneo.Além da transmissão da Psicanálise baseada nas obras freudianas, estuda-se outros autores. Apresenta como re qu isitos essen ciais à formação, asupervisão individu al do trabalho clínico, análises pessoais e didáticas,participação dos gru pos de estudos e a execu ção de trabalhos científicosmensais e conclu sivos.MEM ÓRIA E ELEM ENTOS SENSORIAIS E NÃOSENSORIALIDADE ADVINDAS DOS DESEJOS EM ANÁLISESérgio CostaRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  8. 8. RESUMO : As experiências vividas na infância até aadolescência são permeadas de elem entos fundamentais parao aprim oramento do ser humano n a fase adulta, porém presosa uma valorização mitológica da função da mãe. O indivíduo,insatisfeito com o m odelo aprendido na sua dinâmica fam iliar,busca um compan heiro para a constituição de um a família,on de se repete o modelo apreendido e produz umrelacionamento conturbado. Com o fracasso caem por terratodos valores e vários sintom as manifestam-se como umadepressão por um relacionam ento desgastado e destruído. Nabusca da Psicanálise acontece o recordar, reviver e elaborar, eisso só ocorre se houver uma neurose de transferência,possível desenvolver somente com um analista.PALAVRAS CHAVE: Infân cia – Mãe – Neurose deTransferênciaGostaria de começar o m eu artigo com trecho da letra do Gilberto Gil, “Se euquiser falar com Deus...”. Tal música me rem ete a uma fase de vida, que antea dificuldade da crian ça, saindo da primeira infância e tendo contato com ocon hecimento da morte, e já em estado de prontidão para a socialização, seperturba com tantas modificações psíquicas profundas. Sua mãe lhe ensinaa rezar ou até “conversar com Deus”, para não ter noites de sonhos deangústia.Estas observações nos remetem à aflição da pessoa “desejando não terdesejos”, ou não se esquecendo nunca, que não devem ter m emória.As crianças gostam de ver film es de terror e as mães perm item. Depois,morrem de medo ao dormir. Parece que essas crianças ficam à mercê domaterial imprimido no psiquismo: gostam e sentem excitação, e no medo deserem destruídas, devoradas, suas m ães as acalentam e pedem para nãopensarem e, ao mesm o tempo, pedirem a D eus a proteção para um bomson o.Neste jogo de prazer x desprazer, todo o material libidinal (EROS xTANATOS) impõe a sua luta para sobrepor o destino do sujeito na form açãoe no recalcamento do m aterial psíquico na vida adulta. Ora a m ãe estim ulaa pulsão de vida, ora permite o trânsito da pulsão de morte. Assim, o m ito seimpõe e, futuram ente, atuará como um elemento ansiogênico, e gerará umesforço para alcançar o equilíbrio, em con traposição a uma sugestãotranqüilizadora de um exercício e busca de disciplina do sujeito, ante osseus medos, cujos objetivos podem, talvez,Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  9. 9. nunca se realizarem, ou podem inúm eras vezes ser alcançados, perdidos erecuperados.O vento que sopra com força, faz tremer a janela e assovia. Passos que seescutam. Temores que alguém vai aparecer e destruir seu corpo, despedaçar,devorá-lo vivo. Aquilo que não se pode falar, aquilo que dá prazer geraemoções e sensações sexuais fortes. Talvez o gozo, ou próximo ao gozo damorte, o profano, o vampiro que suga o sangue, o psicótico que esfaqueia aspessoas, os hom ens que estupram as mulheres, as mulheres que seentregam aos homens, vão lhe fazer mal, m atar, comer e comer, esquartejar.Não sabem lidar com a presença do perigo, porque estão em estado de êxtasee se entregam ao mal, mas num clima e energia de sedução. Cria-se êxtase,prazer, pecado, punição. Jovens indefesas nas mãos de homenssanguinários. Cria-se, então, o “vazio” ou a “iluminação”, a “coisa”!?. Aquestão é transportarmos aos umbrais do místico, quando a sugestãoatravés dos sons que estão impregnando o nosso aparelho psíquico, é queestaríamos lidando com a essência irredutível a qualquer linguagem, e quese revela somente ao coração e à intuição. Seria algo do instinto...,sobrevivência..., primeiros contatos com o sobrenatural, com o profano,aquilo que não se pode falar, mas pode-se pedir ajuda à outra força, a dobem . A luta do bem x o m al.O grito de socorro pela mãe (...), a ajuda da mãe, a santificação da mãe (...).Não existe mulher no m undo melhor do que ela. Ela deixa de ser m ulherporque não pode ser a mulher do filho. Ela deixa de ser mulher porque afilha é uma mulher e seria a concorrente de ser possuída em seu lugar.Passa a ser, então, algo sagrado sem sexo, sem odores; uma santa que emseu nome somos capazes até de destruir quem dela falar mal. E ela passa ater um companheiro, que é o pai, m as que também tem que ser desprovidodo papel de hom em. Quando alguns sussurros são ouvidos, vindos doquarto do casal, m il fantasias rolam e persistem por muitos anos na cabeçados filhos: “Será que meu pai está machucando a minha mãe?” “Porque é quena manhã seguinte ela levanta tão feliz?” “O que eles estão fazendo de portafechada?” “Porque minha mãe briga com o meu pai por causa da secretária,da vizinha?” “Porque meu pai faz a minha mãe chorar tanto?” “Eu nãoentendo porque depois das brigas eles se sentem felizes e dóceis um com ooutro.”As experiências ou pseudoexperiências vividas na infância até a adolescência, dentro do lar,são a meu ver, componentes fundamentais para o aprimoramento do ser humano na faseadulta. Torna-se insatisfeito com o modelo aprendido no convívio do relacionamento edinâmica familiar, pois nessa fase é o namoro e a procura por um companheiro para aconstituição de uma família. Nós pensamos em fazer e sermos diferentes do modelo que nosfoi passado. Até mesmo, quando nos casamos procuramos, na repetição, um nível deinsatisfação própria, e criamos uma dinâmica conturbada de relacionamento. Só aí é que secaem porRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  10. 10. terra todos os nossos valores e a manifestação da ansiedade por causa dofracasso. Um complexo de Édipo, mal resolvido vai nos remeter à procura deuma psicoterapia, por várias maneiras de manifestações de sintomas, comouma depressão por um relacionamento destruído.Dentro da postura mística, agora perante a destruição de toda uma vidaidealizada na busca do parceiro perfeito (...), o sujeito analítico passa a“exigir” de si próprio, que trabalhe veja e reveja suas experiências ouaprenda com elas, o que lhe traz tantos conflitos e como manejá-los paraevitar tantas dores e dissabores. Atestando a proposta de liberdade de sua“alma” (psique), que ele faz segundo as suas próprias limitações, em funçãode suas angústias de defesa.Reduzindo os seus aspectos formais em análise, na transferência promoveaté o surgimento de expressões clássicas como: “não tenho contato” ou “nãodou conta de tais experiências”. Simplesmente não está sendo aprendido oparticular contato que aquela pessoa está podendo estabelecer, naqueledeterminado momento, ou mesmo, não participa da experiência. Algoimpossível para quem está vinculado a um ideal de ego, a um superegorígido, ou o ego presente ou ausente de contatos com o mundo real.O que me passa e parece ocorrer na sua vida, é que não está de formaalguma sendo compartilhado, ou melhor, participando da forma que o desejoquer satisfazer o seu eu. E a sua forma de atuação é desproporcional eatemporal aos seus verdadeiros motivos de inter-relacionamento com omundo.Qualquer estímulo leva o sujeito à atuação que não tem nada a ver com asua pessoa, agindo sob o mito de que é preciso experimentar. Viver naexperiência, algo inevitável, natural e espontâneo, que se processa de forapara dentro, onde o desejo não é consultado e nem permitido se manifestar.Destaco, que neste momento, o sujeito é tomado de uma regressão e o serdesejante fica substituído pelo “desejo de ser”, o alcançar o que se é, ésubstituído pelo alcançar o que se deve ser. Vira uma busca desesperadapela mãe da infância, que o salva dos vampiros e Fred Krugers.No passo seguinte ao sujeito na busca da sua redenção, a escolha do paranalítico é de grande importância para que haja a transferência. Assim, se secriar a transferência, cria-se uma região, um portal intermediário entre adoença e a vida real, através da qual se faz a transição de uma para a outra.A nova condição assume o comando de todas as características da doença;mas ela representa uma doença artificial que é, em todos os pontos,acessível à intervenção do analista.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  11. 11. Dou aqui, a ênfase na natureza artificial da neurose de transferência, de umtrabalho que só pode ser realizado por um analista. Cito a ConferênciaIntrodutória (1916-1917) para sustentar as bases e o desenrolar desensações presas num passado de valorização mitológica da função mãe,que só pode ser desmistificada através da transferência.Freud define a transferência, mas também enfatiza, energicamente, como aneurose de transferência concentra tudo num “ponto único”, a relação dopaciente com o analista. Nós já não estamos preocupados com a doençaanterior do paciente, mas com a neurose recém-criada e transformada quetomou o lugar da anterior.Assim, o analista faz com que todos os sintomas do paciente abandonem seusignificado original e assumam um novo sentido baseados numa relação coma transferência, ou só persistirão aqueles sintomas capazes de sofrer taltransformação.Mas o domínio dessa nova neurose artificial, aos poucos, vai debelando taissentimentos confusos e ansiogênicos no trato do sujeito com os seus desejospessoais. Suas sensações energéticas, capazes de sofrer tais transformações,se tornam possíveis com a realização da nossa tarefa terapêutica.Em “Além do Princípio do Prazer” (1920), Freud enfatizou a neurose detransferência com a essência e o concentrado da transferência, vista comouma repetição, “uma expressão da compulsão à repetição”, a serviço de evitaro recordar: o sujeito é obrigado a repetir o material reprimido como umaexperiência contemporânea (...), e estar sempre buscando o ideal de mulherque o salve de seu desejo de sugar e sorver a mulher desejosa por umvampiro, que lhe extraia a essência e preencha o vazio ou a iluminação dasua alma.Talvez o trecho que melhor nos explique o não dito, seria da música deBelchior “...eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno; viver adivina comédia humana, onde nada é eterno.”SUMMARYMEMORY AND SENSORIAL ELEMENTS AND NOTPERCEPTION THAT CAME FROM DESIRES INANALISYSThe experiences lived between childhood and adolescence are composed ofbasic elements to the human being improvement in the adult phase, howeverattached to aRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  12. 12. m y tho lo gical valuatio n o f the function o f the m o ther. Theindivid ual, u nsatisfied w ith th e m o del learned in h is/herfam ily, loo ks fo r a partner to con stitute a fam ily, w here them o del learned repeats itself and pro duces a confu sedrelatio nship. W ith the failu re every value falls ap art andseveral sy m pto m s reveal them selves as a dep ression of astressed an d destroy ed relatio nship. In th e qu est o fpsy ch oanaly sis, the “rem em ber, liv e ag ain an d ela bora te”happ ens and this o nly h ap pens if there is a neuro sis oftransference that only an analyst can develop .K E Y W O R D S: C hildho od – M o ther – Neuro sis of tran sferenceSobre o Au torS érg io C osta – Psican alista Did ata – D ire tor e pr ofe ssor d o N ú cle o d e Estu do se Pesq uisas Psic an alític as.Po em a d e ép ocaS érg io C os taO peito o prim id oC au sa rep ulsa no pensar e cala a bo ca no falar.Não ventila o cérebroE não deixa p ensar...A falta de se exp ressarLeva o ho m em a se acab ar.A fom e d eix a a vo ntade de viverPra lá.O s governantes ao nde estão?Q ue nesse m o m ento desap arecem co m o o s paisQ ue não m e deixam fazer o m eu ficar...D iante do m und o qu e não po de m e abrigar.O s governantes ao nde estão?Q ue neste m om ento desaparecem com o o s p aisE m e rem etem ao p assad o d a infância...Q ue não m e deixam fazer o m eu ficar...D iante do m und o qu e não po de m e abrigar.F ico diante d e um m undo que não p od e m e ab rigarE é no sinto m a que vou m e instalar.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  13. 13. ADOLESCÊNCIA, VIOLÊNCIAURBANAERESPONSABILIDADEPSICOSSOCIAL.RicardoFalcão“Violênciado desejo que se perpetuanarepetição, violênciado pai que se instalano superego,violênciadacastração que bloqueiao amor, violênciadaculturaque internalizao terror,violênciado conflito defensivo que incapacitao neurótico; violência, enfim, do próprio discursodo paciente, doverbo doanalista,darealidade que impõe seutributo e liquidaas ilusões. Aguerrae asmetáforasmilitares(...) setornamo referencial parapensar o homem, folhasoltanatempestade dassuas paixõese dos obstáculos que osoutroshomens se vêemforçados aerguer contraabestadesenfreadaque se agitapor trásdasuamáscaracivilizada.”.(Renato Mezan, Freud: Atrama dos Conceitos)RESUMO: O presente artigo traz reflexões acerca dosadolescentes e sua participação como protagonistasnocenário deviolência urbana da sociedademoderna.Através de algumas matrizes teóricas do pensamentopsicanalítico freudiano, tais como: Complexode Édipo,Ideal de Ego, Superego, serão feitas considerações arespeito do excesso de gozo e a ausência da lei quepermeia o nosso atual momento histórico e suasinfluênciasnoquetangeviolência.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  14. 14. U N ITE R M O S : V iolência U rban a –A dolescência -R espon sabilidad eP sicosoc ialAtu alm en te, som os co n fro n tad os ca d a v ez m a is com situa ções d e vio lên ciaurb an a q ue têm co m o p ro ta gon ista s p rin cipa is: o s ad olescen tes.As in stituiçõ es so cia is q u e con stituem a n o ssa so cieda d e d em on stra mcla ra m en te em sua s a titu des - o n ã o sa ber o q u e fa zer de form a co n creta ea rticula da fren te a esta realida de.Ta l a firm a çã o n ã o n ega q u e h a ja in cu rsões d a so cieda d e o rg an iza d a n aten tativa de reso lver esta situa çã o, a p en as po n dera q ue a in d a é p reciso um aa tua çã o m a is profun da sob re o gru po socia l a do lescen te.As a çõ es d evem ter com o a lvo à s ca usa s e n ã o os sin tom as, o rigo r m o ra lcom o ún ico in strum en to d e a tua ção n o co m p orta m en to vio len to do sa do lescen tes pro voca u m a lh eam en to d a dispo siçã o in stin tua l, resu lta n don o s fen ô m en o s rea tivo s de deso rd en s n eurótica s.A essência m ais pr ofunda d a natureza hum ana consiste em im pulsos instin tuais denatureza elem entar (...) E m si m esm os, esse s im p ulsos não são nem b ons nem m aus.Classific am os esses im pulsos seg und o sua relaç ão com as necessidades e asexigências da com unid ade hum ana.1Pa ra q u e realm en te possa m os a g ir efetiva m en te e em determ in ad o fen ôm en ode n atu rez a psico ssocia l, é d e sum a im po rtâ n cia a reflexã o p rofun d a de su a sca usa s, p a ra po steriorm en te in tervirm os n os sin to m a s a cu rto , m édio elon go pra zo .D e ve m os ter cl aro q u e qu e stõe s re la tiva s a sta tu s, c la sse soc ia l, be ns d ec on su m o, e sté tic a, é tic a , a rte , e sp o rte, p olític a , le i, e c on om ia ,e d u ca ç ã o, bio lo gia , p siqu e , m erc a d o d e tra ba lho , fa m íl ia , m íd ia ,história , re lig iã o, a fe tos, de sa fe tos, se xu a lid ad e e e sta d o a fe ta m avivê nc ia e a c o nstitu iç ã o1A D esilusão da G uerra, S.E., XIV , p.317.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  15. 15. afeto s, desafeto s, sex ualid ad e e estado afetam a vivência e a co nstituição d oser a d olescente.O s ad olescentes rep resentam um percentu al da so cied ade b rasileira quepo ssui form as específicas d e com p ortam ento, dem andando um apo io e um aatenção esp ecial, para o d irecio nam ento equ ilib rad o da transição d o sercriança-ado lescente-adu lto.O co nhecim ento desta fase pertinente a u m a etapa do desenvo lvim entohum ano está sujeito às variações histórico -culturais, po rém , não perde acriticid ad e quanto a d im en são d o conflito ex istencial p eculiar a u m p erío dode transição físico , p síqu ico e so cial.As transform açõ es do m und o glo baliz ad o d em andam do s ado lescentes u m avelo cid ade na adaptação às constantes m u danças da realid ade, ob rigand o-o sa fazer escolhas sob re su a cond uta d e vida. Po rém , ao m esm o tem po em queestas escolhas são feitas, os com p on en te s vulneráveis desta fase se to rnamevid entes e p assíveis d e m anip ulação social.A sociedade glob aliz ada, co m su as prerrogativas, cria um d esco m p asso d asaspiraçõ es d os ad olescentes frente às instituiçõ es so cializ ad oras, envo lvend oam b as as partes em conflito s qu e resultam na deso rientação , em busca devalo res e referenciais, o casionand o com po rtam ento s extrem os econ traditório s de co nvivência e o rg anização so cial.E sta m ud ança radical d os cód ig os d e co nvivência em que estam os im erso s ea inversão d e valores provo cam colapso s p síqu ico s em to da a coletividade.Nem se deve constituir surpresa que esse relaxamento de todos os laços m orais en treos ind ivíduos coletivos d a humanidade deva ter r epercussões sobre a mor alidade dosindivíd uo s.1Nesse sentid o, a vio lência urbana é u m ex em plo destes colapso s,representam inscriçõ es d e co nflito no im aginário ado lescente.É ex pressão econ seqü ência d e u m a p ato lo gia so cial, e através d e su a intensidad e,po dem os identificar a deso rd em da vida psicosso cial.E ste co ntexto dem and a a necessid ade d e se criar um esp aço, o nde o ssujeito s d a so cied ade encontrem um tem p o p ara o recolhim ento e a reflex ãoem p rofund id ade d e suas p ró prias exp eriências individ uais e coletivas noque diz respeito à ad olescência.1A Desilusão da G uerra, S.E ., X IV , p.312.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  16. 16. E ssa fo rm a de ag ir resultaria profícua, princip alm ente na p ro du ção d e novasperspectivas p ara lidar com a subjetividad e d os ado lescentes frente ao sparadigm as d a m od ernidad e.A P sicanálise sendo um a área d o conhecim ento, que b usca refletir eentender o co m po rtam ento hum ano , d eve prom over, a p artir d e su asm atriz es teó ricas, co nhecim ento s que visem m ino rar co nflitos e confro nto sque pro m o vam a d esag regação so cial.Para o criad or e fu ndado r da P sicanálise, F reu d, o “C om plex o d e Éd ip o” é aprincip al articulação estru tu rante do psiquism o hu m ano.N a sua infância, os seres hum an os não po ssuem sentid o de m o ral e neminterd itos em ocionais que sejam eficientes no controle d as d em and as d oId. Esta função é ex ercida inicialm ente pelas figu ras p arentais. N o decorrerde seu d esenvolvim ento psíquico oco rre a vivência d o co m plex o de É dipo ,fase em qu e se d á o pro cesso de identificação e as escolhas ob jetais.Se o pro cesso de identificação o correu de fo rm a satisfató ria, o Su peregocom o um a instância parental, tam b ém o fo i. Po steriorm ente, o Su perego seafasta das figuras p arentais p ara se ap ro x im ar e receb er influ ên cias d asfig uras cu lturais, que tam b ém contrib uem p ara a sua form ação.C o m a equ ilib rad a resolução d o com plexo d e É dipo , a criança tem inserid oem sua p siqu e a cu ltura. E la aband on a o princíp io d o prazer e aceita oprincíp io d a realidad e; garantind o a instauração do su perego com orepresentante da m oral, d as leis, d as norm as, d os aco rdo s tácitos criado s aolongo da vid a hum ana em so ciedad e.A c ivilização foi alcançada através da renúncia à satisfaç ão instintual, exigindo ela,por sua vez, a mesma renúnc ia de cad a recém -cheg ad o. No decorrer da vida de umindivíd uo há uma substitu ição constante d a com pulsão externa pela in terna.1A o rdem do sim b ólico é acessada, instru m ento de fund am ental im p ortân ciana criação do s cam in hos pelos quais percorrerão o s seus desejos.A so ciedad e m od ern a glob alizad a, infelizm ente, tem se caracterizad o po r u mam b iente dicotôm ico n eg ativo: falta (d e lei) e o excesso (go zo), criando u m apred ispo sição para rup tura do p acto edípico , p ro piciand o o ressu rgim ento dorecalcado .A p artir d este referencial, o ad olescente enco ntra-se em um a situaçãofertilizad ora d e traum as: a v ivência p lena d os d esejos sem orecon hecim ento d a d iferença e d a alterid ade.1A Desilusão da G uerra, S.E., XIV , p.319.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  17. 17. O d ique d o recalque rom pido libera um a g rand e e fo rte correnteza de pu lsõ escon tidas, p red isp ond o o surgim ento de co ndições intra e extrap síqu icas paraa instauração do com po rtam ento vio lento em so cied ade.O s im pulsos primitivos, selvagens e maus d a hum anidad e não desapareceram emqualquer de seus membros individuais, m as pe rsistem, num estad o reprim ido, noinconsciente e aguardam as oportunidades par a se tornarem ativos mais uma vez 1A nossa sociedade precisa garantir com equidade e alteridad e o s direito scivis, sociais e po lítico s, p ara oferecer u m a vid a d igna ao s sujeito s qu e acon stituem .Sem tal feito, à co esão e a integração d o tecido so cial não oco rrerá, p ois nãohaverá valo res d e co nsistência m o ral e é tica qu e estruturem o ideal d e egoda socied ade. N a ausência d este id eal de eg o, a referên cia de id entificaçãoentre o s sujeitos não se fará p ro m o vendo a d esag reg ação .A violência u rb ana é a fo rm a perversa d e protesto d os ad olescen tes à estasitu ação : o falecim ento e a usurpação d os d ireito s civis, so ciais e p olíticos.M esm o assim , as institu içõ es socializadoras têm qu e ser p reservadas. N ão sepo de som en te criticá-las sem ap re sentar alternativas institucion aiscon strutivas.E xistem muito mais hipócritas cultur ais do que homens verdad eiramente civilizados(...) a manutenção da civilização, mesmo numa base tão dúbia, for nece a perspec tivade, a cad a nova g eraç ão, preparar o c aminho para uma tr ansfor maç ão de maio ralcance do instinto, a q ual será veículo d e um a civilizaç ão m elhor.2Se nos in titulam os “So cied ad e O rg anizad a” d evem os tom ar consciência do sefeito s d estru id ores da om issão m oral em relação à fo rm ação p sico sso cialdo s nosso s ad olescentes, ou a errad icação da violência neste grup o será u mm ero pro cedim ento id eológico destinado a encob rir a n ossa resp on sab ilid adesocial.Para aqueles q ue ach am q ue esta realid ad e é n orm al, co m o p artein tegran te d o fruir evolutivo do s tem p os, só n os resta p arafrasearG ilberto G il: - quem sabe J A N O 3 venha n os restituir a p ru dência, a p az ea cap acid ade d e ver o futuro co m o co nseqüência d e um p assado . E ,com o1Carta a Frederik Van E eden, S.E., XIV, p. 340.2A desilusão da Guerra, S. E., XIV, p.323.3Deus grego, que recebeu de Saturno o dom da prudência e de ver o passado e o futuro, éaquele que preside os caminhos e traz a paz. CO MM ELIN, P. Nova Mitologia G rega eRom ana.Itatiaia Ltda.1997, Bhte, p.144.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  18. 18. um Deus benevolente, nos livre do continuum da repetição e recordação,elaborando de vez o rumo desta história.SUMMARYThis present article brings reflections respective aboutadolescents and their participation how main characters insetting urban violence of modern society. Through someteorics matrixes the psychoanalytic thought Freudian, such inthose cases: Oedipus Complex, Ego Ideal, Superego, will makeconsiderations respective enjoyment excess and the absenceof law that which our moment historic current and theirinfluences respect for violence.UNITERMS:Urban Violence –Adolescence - PsychosocialResponsibilityBIBLIOGRAFIAFREUD, Sigmund. A Dissecção da Personalidade Psíquica. Vol. XXII, EdiçãoStandard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.Imago, 1997.FREUD, Sigmund. Reflexões Para os Tempos de Guerra e Morte. Vol. XIV,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de SigmundFreud. Imago, 1997.FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo. Vol. XIX, EdiçãoStandard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.Imago, 1997Sobre o AutorRicardo Falcão – Sociólogo – Psicopedagogo – Sexólogo e Psicanalista (NEPP)Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  19. 19. Culto ao Corpo, Anabolizantes e AdolescênciaValéria TrincheroRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  20. 20. Resumo: Sabe-se que, quando ingeridos sem indicaçãomédica, os esteróides anabolizantes causam efeitosdeletérios graves e até mesmo fatais. A facilidade de obtençãodestas drogas, aliada a idealização do corpo existente emnossa sociedade, levou ao consumo de anabolizantes e pelafaixa de maior risco: a adolescência.O presente estudo procurou discutir algumas questões acercada estrutura psíquica dos usuários destas drogas, e buscar asmodificações estruturais necessárias para perm itir o auto-conhecimento e auto-aceitação, levando-os a com preensão deque a perfeição, im posta pelo mom ento social vigente,éilusória e inatingível.Unitermos: Adolescência – Anabolizantes - EstruturaHistérica - Culto ao Corpo.IntroduçãoPara a geração nascida entre as guerras, portadora de moral burguesa declasse média, a preocupação excessiva pela musculatura e pela formacorporal era vista com certo desdém, indício de um a inteligência escassa, oude um lamentável desinteresse por ocupações verdadeiramente importantes,pelos valores espirituais, intelectuais, econômicos ou profissionais.Porém, a vida sedentária e cômoda do homem moderno, seus vícios dealimentação tem m ostrado seus efeitos adversos. O exercício popularregularizado se converteu em necessidade, em um mecanismo de regulação ecom pensação homeostática de uma cultura voltada paradoxalmente para omínimo esforço corporal. Grande parte do progresso do século XX nos trouxeeconomia de movim entos. Por um lado, muito do desenvolvimento econôm icoe do avanço tecnológico e científico teve como meta maior com odidade, poroutro lado, os seres humanos se viram obrigados a inventar toda umacultura de novas ocupações e atividades que lhes permitam reativar ,emseus hem isférios cerebrais, todos os movimentos que sua capacidade deabstração havia economizado.É difícil, entretanto, processar a dupla mensagem de uma civilizaçãoesquizóide, que primeiro nos envolve e seduz com a magia de artefatos quereduzem ao m ínimo nossa atividade corporal, oferecendo um clim a desedentarismo e repouso, para logo nos obrigar a consumir freneticamentetoda esta energia que havíam os economizado.Em nossa sociedade, a aparência física, tem sido determinante no modocom o as pessoas são vistas em seu meio social. A escravização a padrõesRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  21. 21. de beleza impostos por uma sociedade esquizóide, tem sido um dos fatoresassociados ao aumento da incidência de transtornos dismórficos (anorexia,bulimia, vigorexia ) e conseqüentemente ao uso de drogas que possibilitemalcançar o corpo ideal – esteróides anabolizantes, anorexígenos,...A dissociação mente-corpo, que nos parecia superada, retorna com forçatotal se convertendo em obsessão pela perfeição das formas e doençaspsíquicas acompanhadas de grande ansiedade. A imposição maciça de umideal absoluto de perfeição do corpo tiraniza o sujeito e sua família, e conduzao empobrecimento da atividade psíquica, afetando o rendimento intelectualtão importante para o êxito no campo escolar, durante o período daadolescência. A sensação de músculos poderosos e tensos que lhespertencem, fazem cumprir, em seu interior, uma inefável sensação detotalidade existencial.O termo “Dismorfia Corporal” foi proposto em 1886, pelo italiano Morselli, esignifica um transtorno emocional, onde há sofrimento significativo, e umareiterada obsessão com alguma parte do corpo que impeça uma vida normal.Quando o quadro todo se fixa na questão muscular, o transtorno sedenomina vigorexia ou transtorno dismórfico muscular. Freud descreveu ocaso do “Homem Lobo”, uma pessoa que apesar de ter um excesso de pelospelo corpo, centrava sua excessiva preocupação na forma e tamanho de seunariz.Não é causalidade que o nome vigorexia rime com anorexia; as duas doençaspromovem a distorção da imagem que o paciente tem sobre si mesmo:oanoréxico nunca se acha suficientemente magro, o vigoréxico nunca se achasuficientemente musculoso.Ambas podem ser consideradas patologias do narcisismo, que secaracterizam pelas exigências arcaicas sobre o self, dependência desregradade aclamação por parte de outros e relações objetais más, ou deterioradas.Manifestam-se por um senso de ter direito a tudo, uma incansávelperseguição da auto perfeição e o prejuízo da capacidade de ter interesse,empatia e amor pelos outros.Os sintomas de vigorexia se evidenciam pela insatisfação com o corpo e pelaobsessão em tornar-se musculosos. Essas pessoas olham-se constantementeno espelho e, apesar de musculosos, podem ver-se enfraquecidos oudistantes de seus ideais. Para alcançar estes ideais o sujeito abandona suasatividades e se isola numa academia dia e noite. Temos então, o risco deusarem anabolizantes, mesmo quando alertados quanto aos graves efeitoscolaterais.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  22. 22. A Estrutura H istérica com o Fator Predisponente aos TranstornosDism órficosAtualmente o conceito de h isteria tornou-se anacrônico. O quadro foifracion ado em vários outros m ales – depressão, angústia, conversão,transtornos alimentares – nos quais não se reconhece um a unidade, o quegera um tratam ento m edicamentoso e sintomático, levando em consideraçãoapenas o sintom a dom inante.Nos dias de hoje, não vemos mais a histeria com a força diagnóstica deoutrora, talvez por sua plasticidade e sua capacidade de transformação, apatologia tenha derivado dos conh ecidos quadros clássicos paramanifestações “atípicas” que não são sequer reconh ecidas por nossoscolegas.A histeria sempre existiu e acom panha o homem desde o inicio dacivilização. Descrições de quadros histéricos são encontrados nos papirosegípcios que datam de 4 mil anos, como o de “kahun”. Ataques aparatosossão raros, restam hoje as “crises de nervos”, estados de angústia, de cólera eagitação, que se apresentam com o uma insatisfação generalizada com oviver.A religiosa dedicação ao exercício, a quantidade de pessoas que sesubmetem repetidamente a todo tipo de dietas, correm, fazem “aeróbica”,yoga, nadam , andam de bicicleta, nos leva a pensar numa possessão docorpo, tal qual os casos de histeria coletiva em épocas passadas, onde ocorpo forçava sua aparição através da possessão das Ménades, frenéticasseguidoras de Dionísio. O incessan te m ovimento de repetição reaparece nasacademias como forma de “esculpir” o corpo.Do ponto de vista social, pessoas com estrutura histérica são vistas comonorm ais e valorizadas como extremam ente sedutoras. Academ ias deginástica, consultórios de medicina estética e de cirurgia plástica estãoabarrotados de nossos adolescentes, tentando seguir um padrão impostopela mídia de perfeição das form as.Geralm en te nutrem uma intensa rejeição pelo próprio corpo, entrando emcon flito toda vez que se olham no espelho. A problemática fundam ental,assim como na histeria, é a má relação com o próprio corpo, com suasexualidade, com seus instin tos, enfim, com sua própria natureza. Paraseguir o modelo vigente na sociedade e alcançar as “graças” de um corpo“sarado”, tudo se torna lícito – anabolizantes, moderadores de apetite, dietasrestritivas,...Podem os pensar então num processo de estruturação patológica ideal deego/ego ideal afetando e redirecionando o fun cionam ento psíquico emRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  23. 23. torno da auto -imagem e da auto -estima, alterando o processo de aceitaçãodo próprio corpo pelo adolescente.Histórico dos AnabolizantesO uso de substâncias para melhorar o desempenho do atleta é descritodesde a antiguidade. Filistrato e Galeano referem, em sua época, que oscompetidores olímpicos ingeriam testículos de touro –ricos em testosterona-para melhorar suas marcas.Os esteróides anabolizantes são derivados da testosterona e foramsintetizados em 1935, para fins terapêuticos, tendo as seguintes indicaçõesmédicas:- Deficiência de testosterona- Câncer de mama- Anemia aplástica- Edema de origem indeterminado- Tratamento da Síndrome de Turner- Estímulo do crescimento em caso de puberdade tardia emhomens.O uso não terapêutico dos anabolizantes tem sido descrito desde 1950, poratletas profissionais e amadores, com objetivo de aumentar a massa e forçamuscular. Atualmente, este uso está sendo divulgado entre “não atletas”visando aumentar habilidade e atuação atléticas e, principalmente melhorara aparência física.No Brasil, a facilidade de obtenção dos anabolizantes favoreceu seu uso. Agrande atração, para o consumo destas drogas, se fundamenta nos seusefeitos visíveis e relativamente duradouros (cerca de nove meses após otérmino da ingestão). Estas duas características somadas ao apelo, aaparência física, existente em nossa sociedade, levou ao aumento doconsumo de esteróides pela faixa etária de maior risco : a adolescência.É importante ressaltar, que a aquisição destes produtos é feita dentro daspróprias academias, e que a indicação e a venda das drogas é feita pelospróprios instrutores, que se vangloriam do ganho de massa e força muscularde seus alunos.Numa tentativa de diminuir o uso de anabolizantes, em 1990, os EUAtornou-os “medicamentos controlados” o que gerou, na verdade, um grandemercado negro deste produto sem obter a redução de uso desejadaRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  24. 24. Definição de And rógenosOs testículos secretam vários hormônios sexuaismasculinos, coletivamente denominados andrógenos,incluindo a testosterona, diidrotestosterona eandrostenediona. Todavia, a testosterona pode serconsiderada como o hormônio testicular fundamental.A testosterona é responsável pelas características peculiares do corpomasculino, incluin do o crescimento do pênis e bolsa escrotal ,desenvolvimento da glândula prostática, vesículas seminais e ductos genitaismasculinos. Outras funções da testosterona são:- Estimular descida dos testículos para a bolsa escrotal;- Aum entar pêlos sobre o púbis, face e peito;- Dim inuir o crescim ento do cabelo no alto da cabeça gerando, àsvezes, calvície;- Hipertrofiar a mucosa da laringe e aumentar este órgãoocasionando, inicialm ente voz discordante e após a voz gravemasculina;- Aum entar a espessura da pele em todo o corpo;- Aum entar o índice de secreção das glândulas sebáceas,principalmente na face, resultando em acne;- Aum entar a espessura dos ossos;- Aum entar o índice metabólico basal;- Aum entar o número de hem ácias por m l de sangue;- Aum entar a reabsorção de sódio pelo rim.Muitos dos derivados da testosterona foram preparados e testados naprocura de com postos que pudessem prom over o crescim ento geral do corposem produzir efeitos m asculinizantes. Estes com postos são denominadosesteróides anabolizantes. O grau de dissociação dos efeitos androgênicos eanabolizantes dos vários compostos depende dos bioensaios utilizados e,com freqüência é assunto de discussão. A própria testosterona é um dosmais potentes esteróides anabolizantes e , atualmente, é im possível separartotalmente as duas funções.No entan to, seria muito desejável ter compostos anabolizan tes que nãofossem androgênicos, pois isto torn aria possível o seu uso em m ulheres seminduzir a masculinização, e em crianças sem causar efeitos indesejáveissobre o desenvolvimento sexual e crescimento ósseo.Mecanismo de Ação dos Esteróides AnabolizantesRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  25. 25. Os anabolizantes são conhecidos pelo seu potencial de m elhorar odesem penho do atleta, o que seria resultado de diferentes ações com binadas,nem todas conhecidas.As ações conhecidas atualmente são :- Efeito placebo : efeito a nível psicológico pelo fato de usar umadroga que “melhora” o seu desempenho;- Estimulação do sistema nervoso central : produz efeitoeufrorizante diminuindo a sensação de fadiga durante os treinos;- Efeito anti-catabolizante : diminuem a ação catabólica doscorticosteróides liberados durante o stress diminuindo a perda demassa muscular;- Aum entam a utilização da proteína ingerida.Efeitos ColateraisO uso de esteróides anabolizantes com fins estéticos éinjustificável devido aos seus inúmeros efeitos colaterais;são associados a várias alterações indesejáveis, clínicas epsíquicas. A ocorrência de efeitos colaterais fatais oupotencialmente letais é rara, apesar de existirem taisrelatos na literatura médica principalmente com as drogasde uso por via oral.Os efeitos colaterais, m ais comuns, tendem a serem reversíveis com ainterrupção de seu uso, com exceção para as mulheres e crianças incluindoos adolescentes.Pela variedade do padrão de uso dos anabolizantes e a escassez de estudossobre seu uso prolongado não há como assegurar a ausência de efeitoscolaterais, nem prever o aparecimento e gravidade destes.Efeitos sobre o sistema cardiovascularOs anabolizantes alteram o metabolismo do colesterol, dim inuindo alipoproteína de alta densidade (HDL), e aumentam a lipoproteína de baixadensidade (LDL) com conseqüente aumento do risco de doençascoronarianas.Alguns estudos referem aumento significativo da pressão arterial.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  26. 26. Efeitos sobre o sistema reprodutorAlteram-se os níveis de hormônios sexuais pela baixa de hormônio folículoestimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH). Nos homens pode ocorrer:hipertrofia prostática, atrofia testicular e esterilidade por diminuição daespermatogênese. Estas alterações são reversíveis com a interrupção do usodas drogas. A ginecomastia, que também ocorre em homens, nem sempre éreversível.Nas mulheres temos atrofia de tecido mamário, ciclos menstruaisirregulares, esterilidade, crescimento de pêlos com distribuição masculina,hipertrofia de clitóris, Os dois últimos efeitos descritos –efeitos androgênicos-são irreversíveis.Efeitos sobre as enzimas hepáticasLeva a alterações nos testes de função hepática, icterícia, peliose hepática etumores hepáticos. Em alguns casos, os efeitos são reversíveis com ainterrupção do uso dos anabolizantes.Efeito sobre as crianças e adolescentesNas crianças e adolescentes, os esteróides anabolizantes causam fechamentoprematuro das epífises ósseas, levando à maturação esquelética precoce e,conseqüentemente, baixa estatura, puberdade acelerada, levando também aum crescimento raquítico.Outros efeitos colateraisVários são os outros efeitos indesejáveis incluindo calvície, acne, policitemia, exacerbação daapnéia do sono e estrias. Temos maior tendência à lesões do aparelho locomotor, pois asarticulações não estão aptas para o aumento da força muscular. Além dos descritos acima,Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  27. 27. aqueles u su ários que injetam esteróides anabolizantes, ainda correm o riscode compartilhar seringas e contam inar-se com o vírus da A IDS ou hepatite,dentre ou tros.É sempre bom ter em mente, que a hipe rtrofia mu scular associada à acne,ginecom astia e estrias estão presentes em um terço dos usu ários deesteróides anabolizantes.Para minim izar os efeitos colaterais ou potencializar os efeitos dosanabolizantes, seus usu ários costumam lan çar m ão do u so de ou tras drogastambém preju diciais - analgésicos, horm ônio do crescim en to, insu lina,gonadotrofina coriônica.Efeitos sobre o psiquismoOs esteróides anabolizantes são drogas psicoativas que podem alterar opsiquismo de cada u suário de forma individual. Vários estudos têmdem onstrado que 83 a 85% dos usu ários tiveram algum tipo de alteração emseu psiquismo. A probabilidade desorde ns estruturais de ordem histérica,pela própria plasticidade da patologia histeria, levem ao u so destas drogasdeve ser sem pre considerada.De acordo com u ma pesquisa pu blicada na revista British Jou rnal of SportsMedicin e, o consumo de anabolizantes provoca distúrbios de personalidadesignificativos, com traços de paranóia, narcisismo e agressividade, entreoutros. Transtorno de personalidade é u m diagnóstico psiquiátrico que seaplica quando, por exemplo, a pessoa exam inada se mostra com capacidadediminuída de se adaptar ao meio. Apon tar a arm a contra a própria mãe,chutar com pu lsivam ente carros estacionados, foram dois comportam entosobservados neste estu do.O uso ilícito de anabolizantes tem sido associado a quadros de depressão,mania sintomas esquizofreniformes, agressividade marcante, suicídios ehomicídios. Algu ns dos quadros não regrediram mesmo após a interrupçãodo u so das drogas.Os resultados de outro estu do mostraram m aiorincidência de diagnósticos de psicose (12,2% ), mania (12,2% ) edepressão(12,2% ), durante os períodos de uso, incluindo os três primeirosmeses após a interrupção do uso, qu ando comparados com períodos de não-uso. Episódios depressivos típicos tendem a ocorrer mais nos três primeirosmeses de abstinência.Nu m estu do realizado na un iversidade de Cape Town, África do Sul, asalterações de personalidade são significativas, debilitando o fu ncionamentopessoal e social dessas pessoas; elas destroem o relacionam ento que essesusu ários tem com suas fam ílias. O traço de person alidade mais intenso era oparanóico. Traços de personalidade narcísica (preocu pação excessiva consigomesm o e falta de empatia comRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  28. 28. os outros) vieram em segundo lugar, e em terceiro os de personalidadepassivo-agressiva (desprezo pelas obrigações sociais, mas sem desafiá-las; aresistência a elas é de forma dissimulada).Potencial para causar dependênciaEm 1980, foi levantada pela primeira vez a possibilidade dos anabolizantescausarem dependência. Estudo recente mostrou que, todos os critériosutilizados pelo DSM-III-R para diagnóstico de dependência forampreenchidos, incluindo sintomas de abstinência, tolerância, perda decontrole do consum o e continuação do uso apesar do conhecim ento deconseqüências deletérias. Os sintom as de abstinência podem se apresentarcom o humor depressivo, fadiga, inquietação, perda do apetite, insônia,diminuição da libido e cefaléia. A prevalência da dependência varia de 14 a57% conform e população estudada. Um dos fatores aparentem enteassociados à dependência é a distorção da percepção da auto-im agem com aimpressão de que “ nunca se tem músculos o bastante.”Trabalhos mostram que, concom itantemente ao uso e abuso de esteróidesanabolizantes, há um consumo aumentado de outras drogas - álcool, tabaco,maconha, cocaína, anfetam inas - principalmente em adolescentes. A taxa deuso de drogas, entre amostras selecionadas de usuários de anabolizantes,varia de 14 a 30%. O abuso do álcool é o mais freqüente, seguido do uso damaconha.Perfil do UsuárioNo Brasil, não há estudos sobre incidência e prevalência do uso ilícito deesteróides anabolizantes, mas sabe-se que o consumidor preferencial estáentre 18 e 34 anos de idade e em geral é do sexo masculino.Nos EUA, foram realizadas algum as pesquisas com o objetivo de quantificaro uso indevido de anabolizantes e verificou-se que, entre estudantes desegundo grau 4 a 11% dos homens e 0,5 a 2,5% das mulheres já haviamutilizado este tipo de droga. Estudos prospectivos comparando a prevalênciado uso de anabolizantes, ao longo dos últimos cinco anos, mostram que aidade de início de consumo com objetivo de melhorar aparência edesem penho esportivo, se situa entre 15 e 18 anos, ou seja, estudantes desegundo grau.Numa pesquisa feita em Nebraska, em 1991, com objetivo de avaliar adistribuição dem ográfica, porcentagem de usuários e com portamento derisco para uso de esteróides entre os estudantes de segundo grau observou-se que:Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  29. 29. - A incidência do uso de esteróides é maior no sexo masculino queno feminin o;- Nos últim os 30 dias, 2,5% dos estudantes relataram ter usadoan abolizantes;- A maioria dos usuários são esportistas am adores;- As razões apontadas para o uso são : melhorar desem penhoesportivo e aparên cia física.Em 1994, nos EUA, foi estimado que mais de 1 milhão de jovens já teria mfeito uso de esteróides anabolizantes.ConclusãoOs efeitos adversos à saúde física e m ental da ingestão, semindicação m édica, de esteróides anabolizantes estão sendocada vez mais docum entados na literatura. Ao conhecermosa estrutura psíquica destes usuários, tornaremos possível aprevenção desta adicção através de mudanças estrutuais.Mudanças estruturais estão aqui conceituadas comomodificações dentro de cada um a das instâncias doaparelho psíquico, que reduziriam conflitos entre estasinstâncias, abrandando as pressões sobre o ego, que setornaria m enos vulnerável aos apelos atuais de seduçãoambiental. Vivenciamos, atualm ente, época de intensasedução ambiental, onde a busca por formas corporaisidealizadas é vista como normal e saudável, não importandoos meios utilizados ou seus efeitos deletérios para alcançartais objetivos.“Um indivíduo norm al, em um ambiente bom , tem um superego que o impulsione aviver bem, satisfazendo o id em seus objetos exteriores. Criam-se assim, condiçõesfavoráveis para que o ego possa realizar, sem contratempos, sua função executiva eharmonizadora de exigências psíquicas. Em condições distintas, o ego, sem podermodificar adequadam ente o am biente exterior, realizando o que se chama aloplastia,tem que modificar-se a si próprio e a sua personalidade, quer dizer, fazer umaau toplastia. Tem que enfrentar-se com a personalidade de que forma parte, ou seja,com seu id e seu superego, empregando contra si os chamados m ecanismo s de defesado ego”.SUMMARYW hen are in gests with out medical prescription the steroids cause harmfuleffects even fatal. The facility to get thisRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  30. 30. drugs with the idealization of body that exist in oursocietybring to consume of the teen agers.This study discuss some question s about psical structure ofthe users and get the changes necessaries to lead toknowledge h imself leading to comprehension that theperfection is illusory.UN ITERMS : Adolescen t - Anabolic Steroid – HystericalStructure – Body B uildReferências Bibliográficas1. Comitte on Sports and Fitness – Adolescentes and Anabolic Steroids : Asubject review – American Academy of Pediatrics (1997)2. C ooper, C. J; Naakes, T. D. ; D unne, t. ; Lambert, M. I. ; Ford, K.R. ; - AHigh prevalence of abnorm al personality traits in chronic use ofanabolic – androgenic steroids – British Journal of Sports Medicine.Vol. 30, N 3, 246-250pp. (1996)3. Gll, G. V. – Anabolic Steroids induced hypogonadism treated wthi h umanchorionic gonadotroph in – Post G raduate Medical J ournal. Vol. 74, 45-46pp. (1998)4. Evans, N. A. – Gym and Tonic: Aprofile of 100 rales steroids use – B ritishJournal of Sports Medicin e. Vol. 31,N.1, 54-58pp. (1997)5. Goodm an e Gilman – As Bases Farmacológicas da Terapêutica – 6 Edição.Vol.2, Cap.62, 1267-1282pp.6. Guyton, A. C . – Tratado de Fisiologia M édica 7 Edição, 761-763pp.7. Mac Indol, J. H .; Perry, P. J.; Yates, W . R.; H olman, T. L .; Ellingrad, V. L.;Scott, S.D.- Testosterone Suspension of the HTP Axis– Journal ofInvestigate Medicine Vol.45,441-447pp. (1997)8. Monografia apresentada no curso de .pós graduação de Hebiatria daFaculdade de Ciências Médicas de Minas G erais – Adolescentes eAnabolizantes : Uma Prática de Risco Parenton i,J. N.; Castro, S. S.;Trinchero, V. M. P.-(2000)9. Neto, W . M. G. – Musculação- Anabolismo total10. Schiwerin, M. J.; Corcoron, K. J.; Fisten, L.; Patersson, D.; Askew, W .;Olrich, T.; Shanks, S. – Social Physique Anxiety , Body Esteem, an dRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  31. 31. Social Anxiety in Bodybuilders an d Self-Reported Anabolic Steroids Users –Addictive Behavior,Vol21,N. 1, 1-8pp. (1996)11.Scott, D. R.; W agner, J. C.; Bonlow, T. W. – Anabolic SSteroids UseAmong Adolescents in Nebraska Schools – Am erican Journal of Health– System Pharmacy- Vol 53, N. 17,2068-2072pp. (1996)12.Scviletto, S .; Releiros, A. R.A.S. – Anabolizantes entre esportistas : Umapratica sem riscos ? – Revista ABP- APAL Vol16, N.4, 136-142pp.(1994)13.Wrobleviska, A. R. – Androgenic-Anabolic Steroids and Body Dismorfia inYoung Men – Journal of Psycosomatic Rexand Vlo.42 n .3 225-234pp.(1997)14.Yater,Rachel; Reed,Charles; Ulrich,Irm a; Monise,Anthony;Borach,Mark; - Resistance Traum ed Ath lets Using on Not UsingAnabolic Steroids Compored to Runners : Effects on CardiorespiratoryVariables, body Composition and Plasm a Lipids – Brithish Journal ofSports Medicine Vol. 30 N. 1 11-14pp. (1996)Sobre o AutorValéria Trinchero – M édica Pediatra – H ebiatra - Psicanalista (NEPP)Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  32. 32. FRÁGUA – FREUDIANAFrágua: do latim fábricaForja, fornalha.Oficina de ferreiro e outros; artífice.Fig. Autor, inventor.Sigmund Freud nos deixou um legado, que foi construído emuma fornalha e, hoje, após mais de um século, encontra-se maisatual que nunca.O NEPP propõe uma continuidade da FráguaFreudiana, no sentido de forja, que é uma oficina,onde Freud como artífice, criou Psicanálise.Mediante as transformações sociais, culturais eeconômicas, os códigos de valores são alterados,logo, essa instituição visa trabalhar dentro de umarealidade, apresentando uma Psicanálise debrasileiros para brasileiros, acompanhando avelocidade das mudanças, que é bastanteexpressiva.Sérgio CostaRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  33. 33. Introdução e Fundamentos de uma Sociedade de EspetáculosSérgio CostaO nosso temário propõe uma introdução sobre o que nos parecem ser os“fundamentos”, os pontos básicos do pensamento freudiano. No entanto, antesdos fundamentos freudianos sobre a neurose com pulsiva obsessiva, m e pareceútil colocar alguns conceitos próprios, para que se possa saber de que ponto devista falamos e acompan har a nossa contribuição.Referindo-se ao item Introdução, onde fala-se de pontos ideológicos, formas deleitura, objetivação e aplicação das teorias freudianas, a nossa equipe, quenasceu com o propósito de estudar Freud, na sua essência, vem ressaltar a suaprática, aliada ao nosso m entor Prof. Sérgio Costa: o idealismo de umaPsicanálise, sem perder o pilar central do nosso grande m estre Sigm und Freud,com uma leitura e uma ideologia própria elaborada por brasileiros para o povobrasileiro.Não queremos banalizar a estrutura psíquica do homem, n em tão pouco adescrição do “meio”, que por sua irracionalidade seria o principal fator etiológicoda neurose. No fundo, filiado ao determinism o que repousa sobre o indivíduoingênuo, por um lado, e a sociedade do outro, que o influencia de form as e grausvariados, ignorando que o indivíduo é, em si, um produto social, assim comoignora o próprio conflito indivíduo-sociedade.Quanto mais profundamente a Psicanálise sonda as zonas inconscientes dosujeito analítico, mais, nós psicanalistas, nos assustamos quando percebem oscom o os m ecanismos sociais produziram a individualidade. Sob um m anto deculpa que o encobre, esse sujeito se traduz em sintomas obsessivos que, aliás, oEstado estimula, mas em contrapartida, não consegue manter um a boa políticade saúde mental, para aplacá-los, contribuindo assim para o caos em quevivem os.Concluím os que quanto m aior a aplicação de categorias sociológicas epsicológicas, mais superficial se torna a interação entre o psiquismo e o social. Aestrutura contraditória da sociedade é vista em term os moralistas. A concorrênciaaparece como o prin cípio dominan te da esfera social, e dela derivam os con flitospsíquicos. Segundo H.Horney o narcisista se caracteriza por um asobrevalorização do ego, por uma espécie de inflação psíquica que, como ainflação econ ômica, oferece valores superiores aos que de fato existem .E não foi o que acon teceu neste último carnaval em BH? Nem o prefeito, nemtampouco o nosso governador se sensibilizaram com o fracasso do nossocarn aval, impedindo até o desfile da Banda Mole, evento que acontece (ouacontecia) há mais de 20 anos n a cidade sendo, portanto, tradicional. Soldadosda PM foram colocados nas ruas para impedir a livre expressão de alegria (aliás,bem pouca ultimamente) do povo belorizontino. Tudo em nom e da “boa família”Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  34. 34. mineira?! Mas, no entanto, nosso “pai totêm ico” expressou a sua alegria (e como!)desfilando na Sapucaí. Assistindo pela tv, lembrei-me daqueles pais, que tantasvezes deparo nos relatos de pacientes, os quais gastavam com a cerveja nas rodasde amigos, m as que nunca tinham dinheiro para um chocolate pro filho e, atémesm o, nem sequer lembravam ou se preocupavam.E é aqui que se encon tram os destinos do desejo: num a direção marcadamenteexibicionista e autocen trada, que tem como contrapartida o esvaziam ento dointersubjetivo e o desinvestim ento nas trocas inter-humanas. Esse é o trágicocenário para a im plosão e a explosão da violência que m arcam a atualidade.No que se refere aos fundamentos de uma sociedade de espetáculos, no seu bojonarcísico, o individualismo e o autocentram ento atingiram seu ponto m áximo,com o conseqüente apagamento da alteridade e da intersubjetividade ao lado deum en altecim ento exacerbado de si m esmo.A identificação da massa com o líder é obtida através da técnica de identificação,mesm o que parcialmente, do líder com a massa. A idealização é uma forma denarcisismo: o objeto idealizado é parte do próprio sujeito e, amá-lo significa amar-se a si mesmo. A relação entre a massa e o seu pai totêm ico segue o mesm opadrão.Estam os na terceira capital do Brasil, mas com uma população individualista eperdida...A relação indivíduo-líder é assim com o um jogo de espelhos: não se sabe o que éreal e o que é reflexo. E a identificação do indivíduo com o líder, que se torna paitotêmico, parece representar a outra face da identificação do líder com oindivíduo.O rito tem sua origem no prazer infantil com a repetição (fase anal) de sons e coma articulação de palavras, qualquer que seja o seu sentido e, principalmente, nasatitudes do pai. Neste estágio a criança descobre que não tem ego e tem quetentar lidar com isso.A indústria cultural põe a arte a serviço da vida, e isso implica o estím ulo dacapacidade criativa. Sua poética tende não somente à im itação do real, mas àfusão com o real.E o que tem sido estimulado, nos últimos tempos, é a pulsão de morte, repressãoe recalque como expressão da vida; é cada um pra si e por si; só se estimula “eupara eu mesmo”; o narcisismo acima de tudo; “eu posso tudo”, “eu sou omáxim o”.Freud distingue a projeção do patológico da projeção do norm al. A projeção donorm al permite ao sujeito diferenciar entre a própria contribuição e a do real, naestrutura do objeto percebido, num certo sentido, toda a percepção e projeção. Omundo dos objetos é constituído pela im pressão recebida pelos sentidos,Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  35. 35. acom panhado pelo trabalho de reflexão, no qual o sujeito elabora deste materialde descaso. De um a cidade que não tem o que fazer no carnaval, só pensa nosimpostos a pagar e em trabalhar...Na cultura do narcisism o e na sociedade do espetáculo, a fragm en tação dasubjetividade pelo paradoxo entre autocentramento e exterioridade, ocupaposição fundamental. Trata-se de uma nova forma de subjetivação, por m eio daqual são forjadas outras modalidades na atualidade, o que con stitui ofundamento da atual psicopatologia.A psicopatologia da pós-modernidade define-se, justamente, pelo fracasso demuitos sujeitos deprim idos, toxicômanos e pan icados, em realizar a glorificaçãodo eu e a estetização da existência. Essas patologias têm recebido maciçoinvestimento financeiro de grandes laboratórios farmacêuticos internacionais,para a realização de pesquisas, predom inantemente, de ordem biológica epsicofarmacológica. Deixa de olhar o m undo dos objetos, os sentidos humanos esuas implicações.Freud descreveu com o nom e de “W iederh olungrzway” a com pulsão de repetição:o processo incoercível pelo qual o sujeito repete, interminavelm ente, experiênciaspassadas sem se recordar do protótipo, com a im pressão de que percebe e age deacordo com elementos da situação presente.E nessa frágua freudiana, nós como membros do N EPP, pensamos numaPsicanálise para brasileiros, pois tem os uma cultura fundamentada em pequenosburgueses narcisistas, que só pensam em si próprios, e em uma forma de cadavez m ais humilhar e rechaçar àqueles que os elegeram. Afinal, não souberamvotar ou faltou-lhes um outro que pudesse honrar e zelar pelos seus filhos, jáadoecidos por um ethos social.Quero ressaltar que Freud busca o “sentido principal”das compulsões eproibições obsessivas, que passa por bom tempo despercebido com a ação domecanismo de deslocamento psíquico.Esse movimento de substituição de sentido, conforme o texto de Freud de 1907, éo que nos perm ite diferenciar, com a utilização da técnica psicanalítica deinvestigação do inconsciente, o ato obsessivo do ritual religioso. Será que é porisso que o chavão perm anece, “A família Tradicional Mineira”?Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  36. 36. Psicanálise e Direito de FamíliaSérgio CostaIrani AraújoMaira Teixeira“Para o psicanalista francês Jacques Lacan, a fam ília não se constitui apenas deum homem, uma mulher e filhos, ainda que casados solenemente. Ela é antes detudo, uma estruturação psíquica, onde cada um de seus mem bros ocupa umlugar definido. Lugar do pai, da m ãe e dos filhos sem, entretanto, estaremnecessariamente ligados.”Levando em consideração que a família é uma organização cultural, o lugar dopar parental é de extrema importância, não tendo por isso obrigatoriedade queessa ligação seja consangüínea .Sem a estrutura, onde o indivíduo possa existir com o cidadão e, onde há umlugar definido para cada mem bro, o indivíduo seria psicótico. Por relaçõesinadequadas ou insatisfatórias, podemos pensar nas patologias que apareceramem diversas fases do desenvolvim ento da criança e quando se tornar adulto. É aíque se estabelecem as leis psíquicas. Quando estas se ausentam, faz-senecessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio indivíduo e da sociedade.PSICANÁLISE E DIREITO DE FAM ÍLIADra Maira de Melo Teixeira, advogada e mem bro de NEPP (Núcleo de Estudos ePesquisas Psicanalíticas) relata:“Em m ais de vinte e sete anos de militância na área jurídica, em especial naárea de família, transcrevo aqui a minha experiência, que ao mesmo tempoem que muito ajuda nas lides familiares, tam bém nos angustia e oprim e, aovermos agressividade, imaturidade, e desam or entre os cônjuges. Por m aisque o advogado se esforce para que o processo de separação não seja umatarefa árdua, e para não se deixar atingir pelas ações que patrocina, oprofissional do direito lida com o sentim ento mais profundo das pessoas etorna-se inevitável tal envolvimento.O que se vê, na maioria das vezes, nas causas de família, em especial noscasos de ‘separação/divórcio’ são duas pessoas se agredindo, se ferindo,desrespeitando uma a outra. A partilha dos bens, a guarda dos filhos, umaverdadeira batalha jurídica e judicial, com cad a parte querendo levar m aisvantagem.Tanto o pai quanto a mãe, na verdade, ‘usam’ os filhos para agredir o outrogenitor. Não se lem bram que, com tais atitudes, podem causar nos filhos, dequalquer idade, recalques de difíceis e até impossíveis reparações.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  37. 37. Os progenitores, vítimas do avanço da causa feminista, perdem a afeição dosseus filhos pela ação conjugada das mães emancipadas e dos juízesimpregnados de estereótipos ultrapassados. Assim, o destino desses pais éinfeliz, pois foram ejetados, desestabilizados, desvalorizados, sob efeitosnefastos de sua exclusão da tríade parental sobre o desenvolvimento dosfilhos.O resultado do afastamento da figura paterna, do representante das leis naestrutura familiar:- filhos “perdidos”, drogaditos e entregues àmarginalidade.Cumpre ressaltar, que todos nós, profissionais do Direito, que militamosamiúde na área de família, podemos sim, e muito, contribuir para umamelhor solução das ações familiares, desde que aliados à Psicanálise,considerando que somos seres de desejo, e este não é legislável. Além doque, todas as relações são regidas, também, pelo inconscientes. Dessaforma, pra efetivarmos a lei e ‘afetivarmos’ o desejo, nosso trabalho deverábuscar sempre o interesse dos seres humanos, dotados de sentimentos eemoções, e uma equilibrada convivência futura da família, após aseparação/divórcio. Essas medidas têm que envolver os poderesconstituídos, especialmente a justiça e os profissionais que nela atuam.Que a separação conjugal possa dar lugar a uma vontade vital derenascimento e uma nova aliança entre os amantes desunidos. Tudo isto emprol dos pais excluídos, nos interesses de mães abandonadas, mas acima detudo no real interesse dos filhos ‘fragmentados’.”Além do exposto pela Dra Maira, acrescentaríamos que não podemos esquecerque a família sempre existiu. O que muda é a sua constituição, num conceitomais amplo. É preciso entendê-la acima da história:1. Hoje a família está diferente. Isso se deve a busca pelo espaço deliberdade;2. Os vínculos familiais não fogem da natureza humana: amamos eodiamos;3. As relações familiares são complexas e sujeitas as normas afetivas,sociais e jurídicas e, ainda, a elementos inconscientes.O que mais nos deparamos em consultório são com as conseqüências de todo oprocesso de uma separação, que ora atinge mais os filhos, ora mais osprogenitores.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  38. 38. O Dr Walter Soares Oliveira, advogado, especialista em Direito de Família, relatasobre as conseqüências afetivas proporcionadas pelo “Direito Disciplinador”, nosindivíduos envolvidos em processo de separação/divórcio:“Gostaria de ressaltar que o Direito não disciplina o comportamento humano,mas sim normatiza as conseqüências do comportamento humano no quetange às suas relações sociais, e cuida de dirimir as controvérsias deinteresses (quase sempre antagônicos) decorrentes do comportamento e dasrelações dos cidadãos.As conseqüências emocionais e afetivas têm uma diversidade muito grande,variando seus reflexos de pessoa para pessoa. Em geral o rompimento deuma relação conjugal é precedida de uma perda expressiva de energia, poiso clima tenso de uma relação em fase terminal provoca grandes tensões einseguranças.Esta perda de energia costuma ter longa duração porque ela acompanhatodo o processo, ou seja, desde quando uma relação começa a se deterioraraté o dia que se põe fim ao problema pelas vias judiciais, demora muito,porque costuma, via de regra, ocorrer uma longa espera e as pessoas nãotomam a providência necessária com brevidade, eis que há sempre umaesperança de normalizar a relação e há também o fator “sentimento deculpa” que envolve as partes, o que faz com que eles retardem uma tomadade posição mais incisiva.Neste momento as pessoas têm uma tendência a serem tomadas porsentimentos, ações e reações passionais, tornando a questão muitomelindrosa e, enfrentar os fatos e a realidade de frente é sempre bastantedesagradável; por isto as pessoas têm também uma tendência a seacomodar, deixando os acontecimentos irem determinando as providências, oque acaba gerando muita ansiedade, agressividade (ou o contrário, a pessoafica passiva e desmotivada), gerando, de qualquer forma, um sofrimentocontinuado. É como o autoflagelo.Os adiamentos se devem, principalmente, ao sentimento de perda, de medo ede insegurança. Perda de status, de patrimônio, porto, convívio; Medo deassumir a sua dificuldade, o seu erro, de recomeçar, etc.Neste processo de espera e de adiamentos, afora os danos causados aocasal propriamente, os efeitos nos filhos também são bastante danosos.Assim, procuramos sempre recomendar ao casal o diálogo racional,estimulando-os através da percepção dos efeitos positivos que isto poderátrazer, ou seja, a reconciliação ou a decisão definitiva da separação.Quando esta proposta é feita com critério e ética às partes, quase sempre háum bom começo, que pode ser do fim ou mesmo do reinício.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  39. 39. Ao longo de nossa experiência, percebemos que em muitos casos dedesentendimentos entre casais, os motivos estão ligados à competição entreeles.Entre as causas de competição, destaca-se o fato de um deles, geralmente amulher, após o casamento, continuar a manter relacionamento muito intensocom a família de origem e as partes não conseguem administrar os conflitosdaí advindos. Nesta situação, com nosso esforço de reconciliação, que fazparte de nossa atuação, a separação quase sempre não se efetiva, mas geraexcessivo desgaste da relação.Em casais com problemas de relacionamento, um dos primeiros sintomas quese percebe é uma brusca queda na auto-estima dos envolvidos, muitas vezesem razão da frustração e o sentimento de fracasso que a separação gera naspessoas.”Expressou, ainda, sua opinião sobre o Direito, com o ciência universalizadora dasquestões éticas sobre a legalidade, se esta ocupa o necessário com a afetividadedo indivíduo, quando se trata da separação de casais, principalmente no que dizrespeito aos filhos.“Nada, absolutamente nada. O excessivo volume de processos, faz com quetudo ande a toque de caixa. O aspecto social e humano fica relegado anenhuma importância. A lei é fria e os juizes se ocupam apenas do aspectoda legalidade e do processo. O Ministério Público que tem presença e atuaçãoobrigatória nos processo de direito de família, por sua vez, cuida apenas dafiscalização da aplicação da lei.As partes são tratadas apenas com um número de processo, com rarasexceções feitas para alguns juízes, que dotados de maior sensibilid ade com aquestão humana, dedicam alguma atenção a tal questão, mas isto acabasendo passageiro porque, com o tempo, ele também passa a se ocupar, tãosomente, do processo e não das partes envolvidas. É sistêmico.Até mesmo a importante tarefa da tentativa de reconciliação das partes que,segundo a lei processual, seria exercida pelo juiz, foi declinada outransferida para leigos; Ou seja, foi criado o Juízo de Conciliação Prévia, cujotrabalho de tentativa de conciliação é conduzido por estagiários do curso deDireito, os quais “data venia” não reúnem condições técnicas profissionaispara tal mister.Aliás, tal trabalho teria maior eficácia se exercido por profissionais ligados aárea da Psicanálise ou da psicologia, poderia até ser desenvolvido junto comum estagiário do direito, já que ele não reúne conhecimentos nemargumentos suficientes para um trabalho eficaz. Acreditamos que tal medida,além de estar colocando “cad a macaco no seu galho” ocasionaria um grandebeneficio social.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  40. 40. Assim, os juizes já não se ocupam da tarefa prevista em lei, de dedicartempo e esforço à reconciliação das partes e, a criação daquele Juízo Préviode Conciliação teve mais a finalidade de desafogar o excessivo número deprocessos e audiências, do que propriamente tentar a reconciliação daspartes.É oportuno destacar, que entendemos que aquele Juizado Prévio deConciliação, na forma que está funcionando é ilegal, em face do princípio dosegredo de justiça que envolve as questões ligadas ao direito de família.”O advogado fam iliarista encontra-se diante de questões que transcendem a lei.Tais problemas, na maioria das vezes, não são de ordem jurídica, por isso énecessário perceber o que há nas entrelinhas. Se aprimorar a escuta, perceberá oque se encontra além das norm as.Diante disto, Dr Walter argum enta sobre a adm issão de um ainterdisciplinaridade entre o Direito e a Psicanálise, principalmente no que tangeao processo de separação/divórcio.“Sem nenhuma dúvida. Conforme já falamos acima, muitas das vezes asolução não é a separação, e também muitas vezes as pessoas nãoconseguem ter este discernimento. É comum vermos pessoas que jápassaram por vários casamentos ou relações. O problema não é ocasamento, é a pessoa com toda sua história de vida e suas peculiaridades,que demandam atenção no campo psíquico.Na grande maioria dos casos, a solução passaria por um tratamentopsicanalítico do casal ou de um dos cônjuges.Há um outro fator que sempre será relevante, não obstante a cad a dia, aspessoas atribuírem menor relevância a ele: o amor, que traz consigo osentimento de compreensão, de ajuda, de solidariedade e porque não, detolerância e etc. Assim, se o modismo da facilidade da separação persistirante aos pequenos problemas ou dificuldades, ao contrário da vontade deacertar e corrigir, não há nenhum tratamento que possa ser efetivo.O advogado tem, até mesmo por força do código de ética e do rito processual,antes do processo litigioso ou amigável de separação, a obrigação de tentarconciliar ou reconciliar as partes e muitas vezes lhe falta subsídios para estatarefa. Diria até que, ante ao modismo da separação, esta função tem sidodesconsiderada ou relegada à importância secundária.Assim a interdisciplinaridade entre o Direito e Psicanálise não só ajudaria naminimização dos efeitos negativos que a má condução do processo deseparação/divórcio gera, mas também atuando no processo de reconciliaçãoentre as partes e na impossibilidade desta, na reconciliação do indivíduoconsigo próprio e com a sua vida que prosseguirá, separado ou divorciado.”Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  41. 41. Para Freud, a primeira identificação do sujeito está relacionada com o pai.Podemos considerá-la equivalente à incorporação do nome do Pai, porconseguinte o ideal do eu é sempre o ideal do outro, em geral o pai. É o produtoda identificação simbólica na condição de puro significante que, ao barrar a mãe,institui o desejo.É com base no ideal do outro, internalizado como ideal do eu, que as coordenadassimbólicas do desejo do sujeito se constituem.É dentro desta pesquisa e preocupação das crescentes demandas de violência edesestruturação familiar é que o NEPP se coloca.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  42. 42. Pacientes SomatizadoresManual de Técnicas Psicanalíticas, C ap. 31,David Zimerman, Artmed Editora S.A., Porto Alegre-RSQuando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto,Ele faz chorarem os outros órgãos.W. M otsloy (médico)Se você pensa positivamente, o seu sistema imunológicotambém responde positivamente.CONCEITUAÇÕOSempre houve um a tendência – tanto no cam po da filosofia quanto no daprimitiva ciência médica – de separar o corpo da mente. Mais especificam ente noque se refere à Psicanálise, ainda hoje muitos se perguntam se a doençapsicossomática é um campo de saber à parte dos princípios psicanalíticos ou seestes últim os representam uma extensão, um desenvolvimento e um novo cam pomais abrangente da Psicanálise, assim fa cilitando a com preensão e o manejo dospacientes somatizadores. O fato incontestável é que os psicanalistas têm sido osgrandes fomentadores do m ovimento psicossom ático, logo, de uma medicinaintegrada, holística e de um a visão hum anística da existência.O term o “psico-somático” (tal como está grafado, com um hífen nitidamenteseparador entre psique e soma) apareceu pela primeira vez na literatura m édicahá aproxim adamente 200 anos, em um texto de Heinroth, clínico e psiquiatraalem ão, no qual o autor buscava adjetivar um a forma particular de insônia. Essaconcepção pioneira foi fortemente atacada por grande parte do conservadorismocientífico da época, enquanto algumas outras vozes tímidas apontavam paraaquela concepção integradora. Um dos seguidores desta linha de pensamentomédico foi William Motsloy, que há m ais de 100 anos, em Fisiologia da mente,dem onstrando um alto grau de intuição, escreveu que quando o sofrimento nãopode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos. A partir do finalda década de 40, o term o “psicossom ático” passou a ser em pregado comosubstantivo, para designar, no cam po da m edicina, a decisiva influência dosfatores psicológicos na determinação das doenças orgânicas, já admitindo umainseparabilidade entre elas.Aliás, ninguém m ais contesta a inequívoca interação entre o psiquism odeterminando alterações somáticas e vice-versa, o que permitiria a ilustração comexem plos clínicos que vão desde os mais simples (a corriqueira evidência deestados de raiva ou medo produzindo palidez e taquicardia; vergonha levando aum enrubescim ento; um estado gripal desencadeando uma reação depressiva e,reciprocamente, um estado depressivo facilitando o surgimento de uma gripe,etc.), passando por situações relativam ente complexas. Assim, é conhecido o fatoRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  43. 43. bastante freqüente de mulheres que, embora desejosas de engravidar, mantém-seinférteis durante um longo período de anos até que, após a adoção de umacriança pelo casal, comecem a engravidar com facilidade. Igualmente aspsicossomatizações podem atingir níveis bastante mais com plexos e ain dainexplicáveis, conforme com provam os modern os estudos da psicoimunologia edados da observação clínica, como o da instalação de quadros cancerígenosdiante de perdas importantes, etc.Da m esm a forma, as correntes expressões populares, como “estou me cagando demedo”, “cego de ódio”, “estômago em brulhado de tanto nojo”, dentre tantos,atestam claram ente o quanto a sabedoria popular, de forma intuitiva, captou aexistência de uma estreita e incon testável relação entre os estados m entais e oscorporais. Os exemplos clínicos poderiam ser m ultiplicados ao infinito, sendo queesse fato, juntamente com a m ultiplicidade de vértices de abordagem e deinúmeros fatores etiológicos em jogo, evidencia a enorm e com plexidade dofenôm eno de psicossomatização. Para dar um único exem plo, somente oprestigioso Instituto de Psicossomática de Paris descreveu cinco tipos de“personalidade asmática”, cada uma delas privilegiando uma compreensão e umtratamento distinto do outro.O que importa é que a somatização com o resposta à dor mental é uma dasrespostas psíquicas mais comuns que o ser humano é capaz; no entanto, arecíproca também é verdadeira, isto é, o sofrimento orgânico, em alguma form a egrau, igualmente repercute no psiquismo. O melhor seria dizer que ambos, opsiquismo e o soma, são indissociáveis e estão em um a constante interação,influenciando-se reciprocam ente. Não obstante, creio ser necessário enfatizarque, por vezes, o fator predom inante no desencadeamento de uma reaçãopsicossomática é nitidamente de origem de alguma forma de conflito em ocional,enquanto em muitas outras situações, o fator desencadeante é, de longe, denatureza estritam ente orgânica (nesse últim o caso, talvez o nome mais adequadofosse o de fenômeno “som atopsíquico”).Aliás, entendo que, a rigor, tais denom inações diferenciadas, priorizando um ououtro fator – ora o orgânico, ora o psicológico –, não passam de um preciosism oinútil, pois se o critério for o de exatidão ter-se-ia que convir que unicamente obinômio corpo-mente é muito escasso para explicar toda a com plexidade quedem anda ficar m ais com pletada na tríade biopsicossocial, porquanto ninguémmais duvida da enorme influência que os fatores sociais, econômicos, políticos,culturais, familiares, espirituais, dentre tantos exercem na resposta do organismode toda e qualquer pessoa, como um todo.Seguindo essa linha de raciocínio de que existe um a perm anente interação entremúltiplas partes diferentes, em bora indissociadas entre si, agindo sobre ummesm o indivíduo, muitos advogam a idéia de abolir a terminologia de“psicossomatização” e seus term os derivados, com o argum ento de isto é um aredun dância, pois toda situação clínica, por definição, é sem pre psicossomática,de modo a simplesm ente usar a denominação am pla e geral de “medicina dapessoa”, conforme propõe Perestrello (1974).Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  44. 44. Meu posicionamento pessoal a este respeito é de continuar empregando aexpressão “paciente psicossomático”, já que esse n ome está consagrado, emborasaibamos que os fenôm enos expressados na mente, ou no corpo, ou em am boscon comitantem ente, não são tão simples e lineares como essa denominaçãoreducion ista pode fazer supor. Creio que o m ais adequado é considerar que todopaciente funciona como uma gestalt, isto é, um conjunto composto por uma“figura” (no caso, é a doença) e um “fundo” (a pessoa como um ser h umano),porém com a predominância, ou com o desencadeante, ora do orgânico, ora dopsíquico, ora do social.Entre 1930 e 1960, floresceu o movimento da “medicina psicossomática”, m aisnotadamente pelas contribuições de F. Alexander que, na Escola de Chicago,estudou e descreveu as “sete doenças psicossom áticas” (asm a brônquica, úlceragástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, neuroderm atose, tireotoxicose ehipertensão essen cial), atribuindo a cada uma delas um a especificidade docon flito psicogênico. Assim, segundo essa Escola, os indivíduos reagiriam deforma diferen te con forme predominasse neles uma hiperatividade do sistemasimpático (sistema do organismo que implica a predominância de reaçõesadrenalínicas, com tendências ativas e agressivas, porque esse “sistemasim pático” está embriologicamente determ inado a se defender contra perigosexternos) ou uma hipoatividade do “sistema parassimpático”, também conhecidocom o “vagal” (que alude ao sistem a responsável pela tendên cia aos estados derepouso e lentificação, com uma propensão à passividade, razão pela qual essesistema está determ inado a se defender contra os perigos internos, ou seja, aum a am eaça ao equilíbrio homeostático do organismo).ALGUNS INFORM ES SOBRE NEU RO CIÊNC IASAs últimas considerações representam os estudos introdutórios ao campo dasneurociências que, cada vez m ais, estão ganh ando um a crescente importância naPsicanálise em geral e nos fenômenos psicossomáticos, em particular. Asneurociências demonstram como as emoções se desenvolveram para aumentar asobrevivência e garantir a existência da espécie – em qualquer espécie animal -por propiciar e organizar soluções mais adaptativas aos problemas inerentes aosseres vivos, tal como é a busca de uma homeostasia corporal, a necessidade dealimentos e demais demandas pulsionais, a fuga de perigos, a reprodução, oscuidados com a prole e as relações sociais.Deste modo, as neurociências objetivam ilum inar os circuitos cerebrais dasemoções, assim comprovando o fato de que, por vias neuronais, através de partesdo cérebro com o tálam o, amígdala (funciona em nível subcortical, com respostasrápidas, curtas, em bloco), hipocampo (funciona em nível cortical, com respostasmais lentas e lon gas, porque ele registra a “memória do perigo”, o que lhepossibilita, pelo “m edo”, a prevenção em espaços e circunstâncias delimitadas, demaneira que, nos casos de lesão do hipocampo, o medo se generaliza), córtexocipital (m ais destin ada a reações impulsivas contra os supostos perigos) e córtexpré-frontal (responsável pela atenção dirigida e pela tomada de decisões, com um aescolha de respostas adequadas, baseadas em experiências prévias), juntamenteRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  45. 45. com a secreção de serotoninas, cortisol, entre outras, determinarão respostascorporais que são hormonais, viscerais e da musculatura esquelética.Por exemplo, um determinado estresse provocará uma excessiva excitação dosistema nervoso autônomo e, através do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal, esteúltimo elevará o nível de cortisol, o qual, por sua vez, promove prejuízos tanto nosistema imunológico (determinando quadros de cólon irritável, asma, úlcera...)quanto no sistema cognitivo (promovendo uma diminuição da memória,concentração, capacidade para pensar, agir com coerência, uma certa confusão edificuldade de usar as outras pessoas que, normalmente, por intermédio dafunção de “reconhecimento”, exercem o papel de auto-reguladores das emoções). Aausência dessa última condição favorece o surgimento de uma “alexitimia”, ouseja, de uma incapacidade para ler as emoções, enquanto o pensamento adquireuma natureza operatória, pois as fantasias, fazendo um curto-circuito, em vez deficarem conscientes, drenam através do corpo, assim alimentando um círculovicioso.Ainda dentro do campo das investigações que cercam as inter-relações entre osprocessos mentais e os orgânicos, impõem-se mencionar duas importantesfontes: uma é a provinda dos estudos dos norte-americanos Sifneos e Nemiah,que introduziram a noção da alexitimia, antes mencionada. Conforme designa aetimologia dessa palavra, que deriva dos étimos a (quer dizer: “privação de”) + lex(leitura) + timos (glândula que era considerada a responsável pelo humor), oconceito de alexitimia alude à dificuldade de os pacientes somatizadoresconseguirem “ler” as suas emoções e, por isso, elas se expressam pelo corpo,assim caracterizando uma dificuldade neurobiológica de simbolização. A segundafonte procede da Escola de Psicossomática de Paris, que aportou o conceito depensamento operatório, ou seja, o somatizador tem dificuldades de fantasiar, desorte que o ego não consegue processar, elaborar e representar as pulsões, doque resulta que ele superlibidinizar o corpo de forma concreta.Cabe consignar que alguns cientistas contemporâneos estão descrevendo oprincípio da auto-organização, segundo o qual existe um estado de “regulaçãomútua” entre duas pessoas, que é baseada em uma troca de informações pormeio dos sistemas perceptivo e afetivo (por exemplo, de que maneira e com qualtipo de afeto os pais significam para a criança determinadas experiências, como ade ela andar pela primeira vez de escorregador...) Assim, o bebê, a criançapequena, internaliza esse processo de regulação mútua, de sorte que desde cedoaprende a conhecer as formas de abordagem afetiva que são rejeitadas ou bem-aceitas pelos pais, enquanto as emoções despertadas, pela via dos circuitoscerebrais, conectam corpo e mente. A emoção processa-se no inconsciente,independentemente do consciente. Neste contexto não se está fazendo referênciaao inconsciente de Freud, mas, sim, ao inconsciente biológico, aquele que écomandado pela neurofisiologia. Especula-se também a possibilidade cientifica deque cada emoção tenha seu próprio circuito com características particulares. Asrespostas corporais são hormonais, viscerais e músculo-esqueléticas. Os medos,uma vez estabelecidos, ficam permanentes e requerem um recondicionamento.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  46. 46. Psicoimu nologiaDiretamente ligado aos processos estu dados pelas n eu rociências, o sistem aimunológico de toda pessoa sofre u ma sensível influ ência dos fatores emocionais,desem penhando u m importantíssim o papel n o corpo em geral e, m aisparticu larmente, nas doenças som áticas que são resu ltantes de ataqu es “auto-imunes”. O que não resta dúvida é o fato de que, conforme foi mencionado naepígrafe deste capítulo, quando o su jeito “pensa” positivamente, o seu sistemaimunológico responde também de forma positiva para a saúde, e a recíproca éverdadeira.UM A BREVE RESENHA DE PRINCIPAIS AUTORESDo ponto de vista psicanalítico, são muitos os au tores que têm contribuído comenfoqu es distintos, porém complem entares entre si. C itam-se algumas dasprincipais contribu ições desses au tores que, ao longo dos anos, estudaram – emu itos outros continuam estudando – o fenômeno das psicossomatizações.Comecemos por Freud. De forma esquem ática, pode-se sintetizar suascon tribuições, tanto as diretas quanto as indiretas, nos seguintes nove itens:1. O seu conceito de representação-coisa e de rep resentação-palavra. Aimportância disso no su jeito somatizador reside no fato de que osacontecimentos e os sentim entos das experiên cias afetivas vivenciadasno passado estão im pressos e representados no ego, porém , se estaspretéritas vivências emocionais ainda não passaram para o pré-conscien te e não foram simbolizadas e denom inadas como palavras, elasvão se expressar corporalm ente. Relativamente às representações docorpo no ego, creio ser ú til acrescentar que também as interações entrenosso corpo e o m undo inanimado – por exem plo, andar de bicicleta –fazem parte da representação do ego corporal.2. Complacência somática é o nom e que Freud deu ao fenôm en o de queuma determinada somatização não é específica de algum quadro clínicoespecial, m as, sim , existem órgãos particu larmente sensíveis – ou porrazões de constituição orgânica, ou por fatores psíqu icos, como os defantasias inconscien tes localizadas e fixadas em um certo órgão – que,então, fu ncionam com o caixa de ressonância do conflito.3. O fenômeno das conversões, que, como o nom e su gere, alude ao fato dequ e determinado conflito psíquico que não consegue ser sim bolizado,logo tampouco conhecido e pensado conscien tem ente, converte-se emuma m anifestação corporal, em algum órgão dos sentidos, ou emalgu ma zona de muscu latura volu ntária. N esse caso de fenômenoconversivo, os sintom as narram, sem palavras, uma históriainconsciente.Neuroses atuais, cuja causa, segundo Freud, era o bloqueio das excitaçõeslibidinais, conseqüentes tanto de uma privação de satisfação sexu al quanto deum excesso de estimulação, com o seria o caso de uma masturbação excessiva.Dizendo de outra form a, o conceito de neu roseRevista de Psicanalise-Maio/Junho 2013
  47. 47. 1. atual alude a um excesso de estimulação que o ego não consegueprocessar, de sorte que o corpo funciona como um dreno do excesso. Anoção de neurose atual implica a aceitação da teoria econômica dasenergias pulsionais, razão pela qual caiu em descrédito na Psicanálise,hibernando em um longo ostracismo, até que, na atualidade, elaressurge revigorada e com teorias mais sofisticadas.2. Processos primário e secundário. De forma reduzida, cabe afirmar que assomatizações correspondem às falhas dos processos de simbolização, osquais estão unicamente presentes no processo secundário depensamento. Nos casos em que haja falha do processo secundário, logoda abstração dos pensamentos, predominará a concretude dossintomas, próprias do processo primário.3. Ego corporal. A clássica afirmativa de Freud de que “o ego, antes detudo, é corporal” permite depreender, nos processos somatoformes, aimportância das representações do corpo “no ego” e de uma cenarizaçãodos conflitos do ego “no corpo”. Tais concepções adquirem capitalimportância na Psicanálise atual, tanto para o entendimento dostranstornos da imagem corporal quanto para a participação do corpocomo um cenário dos diversos “teatros” da mente.4. Identificações patôgenas. Freud, em Luto e melancolia, afirmou que asombra do objeto recai sobre o ego, isto é, forma-se uma identificação dosujeito com o objeto perdido, de duração transitória no caso de “luto”normal ou de forma definitiva nos casos de “melancolia”. Nesta últimasituação, deve ter havido uma relação de conflito com a pessoa que foiatacada e perdida, de sorte a forçar um tipo de identificação patológica,que venho propondo chamar de identificação com a vítima. Quando issoacontece, o sujeito sente-se como que obrigado a ser igual em tudo aoobjeto perdido, o que adquire uma especial importância nos processospsicossomáticos, pois tal identificação, com grande freqüência, faz-secom os sintomas clínicos da doença que acompanhou ou que vitimou apessoa que ambivalentemente ele amou e odiou.5. Para evidenciar a valorização que Freud sempre atribuiu às íntimasconexões que existem entre psique e o soma, cabe consignar a sua visãoprofética quando, em 1938, preconizou que o futuro poderá ensinar-nosa influir diretamente no psiquismo mediante substâncias químicasparticulares. Essa profecia de que substâncias químicas seriamutilizadas para compensar a patologia da química celular encontra plenaconfirmação na moderna psicofarmacologia, como são os excelentesresultados clínicos que os medicamentos propiciam em casos dedoenças afetivas ou nos de transtorno do pânico, por exemplo.6. Também vale consignar que coube a Freud o pioneirismo de assinalarque nem toda comunicação é unicamente verbal, e que, de algumaforma, o corpo também comunica, tal como se pode depreender destafrase, a propósito do “Caso Dora” (1905): “nenhum mortal pode guardarum segredo; se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas deseus dedos [...]”.Revista de Psicanalise-Maio/Junho 2013

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