Práticas corporais e deficiência visual: um estudo apartir da Escola Comunitária Nova Esperança, na cidade de Alagoinhas/Ba

4,014 views

Published on

Deise Rocha Santos

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
4,014
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
31
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Práticas corporais e deficiência visual: um estudo apartir da Escola Comunitária Nova Esperança, na cidade de Alagoinhas/Ba

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS II CURSO DE LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA DEISE ROCHA SANTOS PRÁTICAS CORPORAIS E DEFICIÊNCIA VISUAL:UM ESTUDO A APARTIR DA ESCOLA COMUNITÁRIANOVA ESPERANÇA, NA CIDADE DE ALAGOINHAS ALAGOINHAS 2012
  2. 2. DEISE ROCHA SANTOS PRÁTICAS CORPORAIS E DEFICIÊNCIA VISUAL:UM ESTUDO A APARTIR DA ESCOLA COMUNITÁRIANOVA ESPERANÇA, NA CIDADE DE ALAGOINHAS Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade do Estado da Bahia–UNEB, Campus II, Alagoinhas, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciada em Educação Física, sob orientação da Prof.ª Ms. Martha Benevides da Costa. ALAGOINHAS 2012
  3. 3. Dedico este trabalho a Deus, que me deu vidae razões para viver. E especialmente, a meuspais e amigos, que tanto me apoiaram.
  4. 4. AGRADECIMENTOS Agradecer a Deus pelo dom da vida, por nunca me abandonar nos momentostristes e felizes. Por se mostrar cada dia mais presente em minha vida. Obrigada,Senhor. A meus pais por me concederem a oportunidade de viver, pelo carinho, amore, claro a oportunidade de estudar. Hoje sou tudo que sou por ter os pais que tenho.A distância me mostrou o quanto são essências na minha vida. Amo vocês. A minha família: tios, primos, avós. Obrigada pelo amor de todos os dias, pormostrarem cada dia mais presente em minha vida, apoiando-me, guiando-me,mostrando que mesmo distante estou sempre com vocês, em pensamento e nasorações. Obrigada, Deus, pela família que tenho. As minhas companheiras de casa, Indiara e Juliana, por estarem sempre aomeu lado, mostrando-me que pra Deus nada é impossível e que tudo daria certo.Amor, carinho, algumas briguinhas de vez em quando, coisa normal,companheirismo de todo dia. Obrigada por tudo meninas. Sentirei saudades dosnossos momentos. Ao meu companheiro Diego, por estar sempre ao meu lado, mesmo quandonão agüentava mais me ver chorar por conta da monografia. Carinho, respeito emuito amor. Sei que estarás sempre comigo. Ao meu moreco Cintia, irmã de alma. Agradeço por tudo: amor, atenção,carinho, respeito, noites em claro me ajudando no TCC, enfim, momentos especiaise essenciais em minha vida. Te amo. A minha orientadora Martha Benevides por entender minha situação e mesmoassim me orientar.Obrigada por tudo. A Aline por todo tempo disponibilizado na construção da monografia, atençãoe carinho. Sempre me mostrando que seria possível e que no final tudo daria certo.Sou muito grata por tudo. A minha turma de Educação Física. Respeito, companheirismo, alegria,viagens e muito mais. A melhor turma da Uneb. Sentirei saudades dos nossos
  5. 5. momentos. Camila, Leonardo, Cris, Reinaldo, Selma, Silvana, Mauricio, amo todosvocês, tenham a certeza de que sempre estarão comigo. A Rafaela, mesmo distante sempre me apoiando, incentivando-me. Obrigadapor fazer parte da minha vida. Por todo amor e carinho que tens por mim. A Monalisa e Djane, pela paciência que sempre tiveram comigo, olha que jásão quase cinco anos! Sem vocês, o curso de Educação Física não seria nada.Valeu meninas! A todas aquelas pessoas que passaram por minha vida, algumas estãocomigo até hoje e sei que permanecerão sempre comigo. Obrigada por fazeremparte da minha vida. A todos vocês, meu muito obrigado. Amo todos vocês e saibam que estarãosempre comigo. Um verdadeiro casamento: na alegria, na tristeza, na saúde e nadoença, riqueza e pobreza até que a morte nos separe. Assim são as verdadeirasamizades.
  6. 6. RESUMO Práticas Corporais e Deficiência Visual: um estudo a partir da EscolaComunitária Nova Esperança, na cidade de Alagoinhas é o elemento constitutivodessa pesquisa. Esse trabalho teve como objeto de estudo identificar os efeitos daspráticas corporais nas atividades da vida diária em pessoas com deficiência visualda Escola Comunitária Nova Esperança, na cidade de Alagoinhas – BA. Discuto aolongo do trabalho sobre o processo histórico da pessoa com deficiência, reportandoem seguida o olhar para o sujeito com deficiência visual; posteriormente abordosobre o campo da Educação Física acerca da inclusão da pessoa com deficiência.Realizou-se uma pesquisa qualitativa, abordando um estudo de caso na EscolaComunitária Nova Esperança, localizada a 107 km da capital (Salvador). Para coletade dados utilizei-me de um roteiro de entrevista semi-estruturado com dois dosparticipantes das práticas corporais. Os resultados indicaram que a realizaçao depráticas corporais é inegavelmente eficaz no que concerne a efetividade das açõesque compreendem a dinâmica de vida do sujeito com deficiência, melhorando assim,à coordenação motora, a autonomia, libertando-o do próprio preconceito.Palavras - chave: Deficiência visual. Práticas corporais. Educação Física parapessoas com deficiência.
  7. 7. SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO 082. PROCESSO HISTÓRICOS: DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA AO 10 DEFICIENTE VISUAL3. A EDUCAÇÃO FÍSICA E O DEFICIENTE VISUAL: PROCESSOS 14 DE INCLUSÃO SOCIAL4. METODOLOGIA 245. RESULTADOS E DISCUSSÕES 266. CONSIDERAÇÕES FINAIS 35 REFERÊNCIAS 36 APÊNDICE A - Termo de Solicitação APÊNDICE B – Roteiro de Entrevistas – Deficientes Visuais APÊNDICE C – Fotos dos Deficientes Visuais realizando Práticas Corporaishftrstrfguhgyudoo
  8. 8. 81 INTRODUÇÃO "Posso admitir que o deficiente seja vítima do destino! Porém não posso admitir que seja vítima da indiferença!" John Kennedy A práticas corporais é prática imprescindível para a promoção de uma vidasaudável. Nesse sentido, essa pesquisa se propôs a identificar o efeito das práticascorporais nas atividades da vida diária em pessoas com deficiência visual. Paratanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa, no formato de estudo de caso, com umaestratégia metodológica do tipo descritiva, com portadores de deficiência visual daEscola Comunitária Nova Esperança, na cidade de Alagoinhas – BA. Conforme Munster, et. al.(2008, p.29) “a deficiência visual é caracterizadapela perda parcial ou total da capacidade visual, em ambos os olhos, levando oindivíduo a uma limitação em seu desempenho habitual”. É importante ressaltar,entretanto, que essa limitação não deve ser compreendida como inutilidade, demodo que não devemos reportar o nosso olhar a esses sujeitos com os olhos dopreconceito, ao contrário, devemos “olhar para esse indivíduo e enxergar suascapacidades, possibilidades e potencialidades de modo a assegura-lhes os direitoshumanos e sociais e contribuir para uma melhor qualidade de vida”. PEDRINELE,et.al. (2008, p.11) Destarte, vale ressaltar o valor que as práticas corporais tem, servindo comoimportante elemento de desenvolvimento geral, “aumentando o potencial deexperimentação corporal de situações de aprendizagem e de aquisição de conceitosbásicos. Desenvolve a autoconfiança, a autoiniciativa e a autoestima” (SOUZA,2007, p. 2). Partindo desse pressuposto, a finalidade desse trabalho surge danecessidade de despertar nos profissionais de Educação Física o desejo emtrabalhar com deficientes, uma vez que as atividades desenvolvidas pelo profissional
  9. 9. 9em questão podem proporcionar a esse sujeito maior autonomia na sociedade aqual está inserido, além de oferecer-lhe uma vida mais saudável. Este trabalho está estruturado em seis sessões. A Introdução aquiapresentada. Na segunda sessão, intitulada Processo histórico da pessoa com deficiênciaao deficiente visual, apresento e discuto como se deu o processo histórico do sujeitocom deficiência em todos os âmbitos, para posteriormente olhar, apenas, ao sujeitocom deficiência visual. A terceira sessão é denominada a educação física e o deficiente visual:processo de inclusão social, na qual discuto brevemente como se dá a inserção dosujeito com deficiência visual na Educação Básica para, então, abordar maisprofundamente o processo inclusivo desses sujeitos no campo da Educação Física. Na quarta sessão apresento a Metodologia. Na quinta sessão apresento Resultados e discussões. E finalmente a Conclusão na sexta sessão, traçando as considerações finais.
  10. 10. 102 PROCESSO HISTÓRICO: DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA AO DEFICIENTEVISUAL Para termos o real entendimento sobre deficiência é necessário um retorno aoprocesso histórico dos olhares e concepções para as pessoas com deficiência Na sociedade primitiva acreditava-se que as pessoas produziam uma luz queemanava através dos olhos e que estaria ligada a algo positivo. Sendo assim, aspessoas cegas por não serem capazes de produzir essa luz estariam ligadas a algofunesto (DALL‟ACQUA, 2002). Nesse sentido, os cegos quando não eram mortos,eram abandonados em locais inóspitos, sujeitos a todo tipo de infortúnios, poracreditarem que estariam possuídos por espíritos do mal, sendo vistos com certotemor (FRANCO; DIAS, 2005).Na era pré-cristã os deficientes não tinham nenhumatendimento e por não se saber lidar com o diferente, os mesmo eram eliminadospela sociedade. Na era cristã, o tido como diferente continuava abandonado. Ocatolicismo dizia ser o deficiente uma imagem que representava o pecado,colocando-os na fogueira da inquisição. (ZAVAREZE, 2009) De acordo com a dialética, indivíduo e sociedade são inseparáveis, e énessa perspectiva que Santos (2004) conta como determinados povos de culturasdiferentes lidam com a deficiência. O povo Azande, habitantes do sul do Sudão e oCongo, ao contrário de outras populações, tratavam o deficiente com carinho, não osviam como algo sobrenatural. Habitantes do sul de Gana, os Ashanti, usavam dodeficiente como arautos do rei e mensageiros em missões de guerra, além deexcelentes espiões e inspetores sanitários. Localizado em um país antigo da ÁfricaOcidental, o povo Dahomey tinha o deficiente como pessoa protegida por causassobrenaturais, trazendo sorte à tribo. Localizado na Malásia, os nativos da raçaSemang costumavam buscar os deficientes visuais e físicos para obteremconselhos, solicitando ainda que os mesmo tomassem decisões para o bomandamento da tribo. Ao leste da África, os nativos do Xangga ou Changgaacreditavam que a paz e a normalidade só aconteciam porque os maus espíritosapoderavam-se dos corpos dos deficientes, aquietando-se por ali mesmo. OsEsquimós deixavam os deficientes e idosos em lugares de fácil encontro dos ursos,animais considerados sagrados por eles, para que eles pudessem ser devorados,utilizando de sua pele como agasalhos para população.
  11. 11. 11 Relacionando a sociedade e indivíduos sobre os diferentes aspectosdirecionados a deficiência, Silva (2004) diz que os gregos aceitavam somente adeficiência adquirida. Todavia, diz o autor, as crianças com algum tipo dedeformidade deveriam ser eliminadas pelos pais. E, ainda, afirma que o atendimentoa essas pessoas que adquiriam alguma deficiência seria responsabilidade daCidade-estado. Foi, então, na Grécia que nasceram as instituições de atendimentoespecializado. Os romanos, por sua vez, não reconheciam o direito à vida decrianças prematuras ou deficientes, sendo as mesmas abandonadas. Vê-se, então, que desde a Antiguidade os deficientes são consideradosanormais, deformados, defeituosos, sendo condenados ao abandono. Os olharespara os deficientes segundo Amaral (1994), eram contraditórios, ora afirmando seralgo divino ou demoníaco e ora afirmando ser algo “da esfera do supra-humano oudo âmbito do infra-humano” (AMARAL, 1994, p.14). Na Idade Média, os deficientes eram vistos como demoníacos esobrenaturais. Afirma Silva (2004, p.8) que “na Idade Média o infanticídio eralargamente praticado, muito embora condenado pela Igreja. No entanto, essaatribuía as causas das deficiências ao sobrenatural e seus portadores eram vistoscomo seres possuídos por demônios”. O mesmo afirma Platt apud Rocha (2000, p.3): Na Idade Média, a questão da bruxaria/feitiçaria emergiria de forma mais contundente, haja visto o domínio absoluto da Igreja Católica nas questões da sociedade sob um amplo aspecto, não mais sob a alegação da vontade dos deuses, mas na presumida manifestação demoníaca em indivíduos que não se moldassem às vontades da corte e do clero. Especificamente a cegueira era vista como um castigo divino (GIL, 2000). Noentanto, após a ascenção do Cristianismo, o cego passou a ser visto e tratado deforma mais humana (BRASIL, 2001). Ainda neste período foi criado, pelo monarcafrancês, Luís XIII, a mais importante instituição destinada exclusivamente aoatendimento de pessoas cegas, no intuito de atender aos soldados franceses queperderam seus olhos nas Cruzadas. No Brasil, final do século XVII, a sociedade tinha um comportamentosemelhante ao adotado na Idade Média com relação aos deficientes, onde ascrianças que nasciam com alguma deficiência, física ou mental, eram abandonadas
  12. 12. 12nas sarjetas, ficando à mercê do destino e dos bichos que ali residiam, os quaismutilavam os corpos dessas crianças, chegando muitas vezes a matá-las(JANNUZZI, 2006). Ainda segundo Jannuzzi (2006), como forma de sanar esta situação, foramcriadas no início do século XVIII as chamadas rodas de expostos, onde eramdeixadas crianças que nasciam com alguma deficiência e/ou aquelas cujos pais nãotinham condição de criar. Após completarem 7 (sete) anos de idade, essas criançaseram encaminhadas para seminários específicos para gênero. Ainda no processo histórico, no que diz respeito às pessoas com deficiênciavisual, foco principal dessa pesquisa, estas também eram vítimas dos maisdiferentes preconceitos, sendo muitas vezes excluída da sociedade, assim comoacontecia com as demais deficiências. Durantes os séculos XVIII e XIX, no ano de 1784, “Valentin Haüy inaugurou,na França, o Instituto Real dos Jovens Cegos de Paris, a primeira escola do mundodestinada à educação de pessoas cegas e em 1829, Louis Braille, então alunodesse instituto, inventou o Sistema Braille”[…] (LOWENFELD, 1974; MECLOY,1974; HIGINO, 1986; ROCHA, 1987; CERQUEIRA & LEMOS, 1996; KIRK &GALLAGHER, 1996; MAZZOTTA, 1996; DALLACQUA, 1997 apud FRANCO eDIAS, 2005, p. 5). Ao inventar o Sistema Braille1, Louis Braille criou não apenas uma forma daspessoas com deficiência visual aprenderem a ler e escrever, mas possibilitou ainclusão destas na sociedade através do conhecimento adquirido por meio dasleituras. É como se essas pessoas passassem a “enxergar”. Em meados do século XIX, foi criado no Brasil o Imperial Instituto dosMeninos Cegos, que, posteriormente, passou a ser chamado de Instituto BenjaminConstant, onde as crianças, através do regime de internato, aprendiam conteúdosda Educação Básica, bem como educação moral e religiosa, música, trabalhosmanuais e técnicas de fabrico (JANNUZZI, 2006).1 Processo de leitura e escrita em relevo, com base em 64 (sessenta e quatro) símbolos resultantesda combinação de 6 (seis) pontos, dispostos em duas colunas de 3 (três) pontos. É tambémdenominado Código Braille. [Instituto Benjamin Constant. Portal Braille. Ministério da Educação.Disponível em: <http://www.ibc.gov.br/?catid=112&blogid=1&itemid=344> . Acesso em: 16 jul. 2011]
  13. 13. 13 Aos poucos o tratamento frente à deficiência foi sofrendo mudanças, poisdesde o século XVI que surgem novas idéias referentes a natureza orgânica dadeficiência, sendo esta compreendida como causa natural, e não atribuída à vontadedivina. No século XVII reforça ainda mais a compreensão da deficiência como causanatural graças ao avanço da medicina, pois através deste foram criados asilos,conventos e hospitais psiquiátricos os quais eram destinados ao confinamentodessas pessoas. A prática do confinamento tinha, também, a perspectiva de que apessoa com deficiência não era apta ao convívio com pessoas normais e estaassociada à vergonha das famílias de terem um deficinete. Trata-se, portanto, dealgo também pervesro. Sendo que apenas no século XX as pessoas com deficiênciapassaram a ter direitos e deveres frente à sociedade, consideradas, então, comocidadãs.
  14. 14. 143 A EDUCAÇÃO FÍSICA E O DEFICIENTE VISUAL: PROCESSO DE INCLUSÃOSOCIAL Percebe-se que ao longo da história os deficientes, de modo geral, sempreforam excluídos. Suas trajetórias de vida foram repletas de castrações epreconceitos. Contudo, no mundo contemporâneo, o olhar da sociedade em relaçãoa esses sujeitos foi se modificando no tocante a uma atenção maior às suasnecessidades e seus direitos enquanto cidadãos ativos e atuantes no contexto socialem que vivem. A ação de combate à exclusão, isto é, a inclusão social, fez-se imprescindívelpara o surgimento e promoção de mudanças, em todos os aspectos, na vida dodeficiente. É importante ressaltar, ainda, que a sociedade passou por diversas fasesaté chegar ao processo de inclusão social propriamente dito. Iniciou-se com o processo de exclusão, no qual a pessoa que nascia comalguma deficiência era abandonada, estando sujeita a todo tipo de infortúnio.Passando pelo período de segregação, no qual foram criados locais/ instituiçõesdestinadas única e exclusivamente ao atendimento dessas pessoas, onde eramdeixadas desde o seu nascimento. Perpassando pela prática de integração socialpara adotar posteriormente a inclusão social, que é a filosofia em desenvolvimentonos dias atuais, para transformar os sistemas sociais gerais (SASSAKI,1999). A inclusão social é um processo crescente e complexo, pois segundo Sassiki(1997, p. 41) a mesma se caracteriza como: [...] o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A inclusão social constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. Ainda sobre inclusão, Sassaki (1999, p.41) corrobora dizendo que a mesmacaminha sobre princípios norteadores, tais como: a aceitação das diferençasindividuais, a valorização de cada pessoa, a convivência dentro da diversidadehumana e a aprendizagem através da cooperação”.
  15. 15. 15 Na declaração de Salamanca (1994, p.3 e 4), diz-se que: 2.O direito de cada criança a educação é proclamado na Declaração Universal de Direitos Humanos e foi fortemente reconfirmado pela Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Qualquer pessoa portadora de deficiência tem o direito de expressar seus desejos com relação à sua educação, tanto quanto estes possam ser realizados. Pais possuem o direito inerente de serem consultados sobre a forma de educação mais apropriadas às necessidades, circunstâncias e aspirações de suas crianças. 4.[…]Educação Especial incorpora os mais do que comprovados princípios de uma forte pedagogia da qual todas as crianças possam se beneficiar. Ela assume que as diferenças humanas são normais e que, em consonância com a aprendizagem de ser adaptada às necessidades da criança, ao invés de se adaptar a criança às assunções pré-concebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem[…] Na prática, estas delimitações não são bem executadas como previstos naDeclaração de Direitos Humanos e na Declaração de Salamanca, assim, istosignifica que o que consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos, Art. 7ºem 1948, foi ignorado ou nem sequer respeitado. Trata-se, portanto, de mais umaproteção escrita que não se concretiza. Cabe questionar os motivos disto.Certamente, eles vão desde o preconceito historicamente dito, como já vimos, até ofato de vivermos numa sociedade baseada na rapidez, eficiência, produtividade, quevaloriza padrões de beleza. Muitas caracterísitcas de diversos tipos de deficiêncianão atendem a esses princípios de nossa sociedade. Esta mostra-se, portanto,incapaz de incluir efetivamente. A necessidade de inclusão de indivíduos cegos perpassa da simplescomposição de informações em braile na tampa de produtos de industrializados. Étodavia, uma questão mais ampla, onde esta se estabelece na família, naacessibilidade, nos direitos integrais que favorecem todo e qualquer cidadão, emespecial a educação, pois esta é fonte de formação e desenvolvimento intelectual ecognitivo, sendo imprescindível para a formação de cidadãos capazes de seestabelecerem numa vida o mais independente possível. Para isto as escolas devemcompor um espaço físico adequado, de profissionais qualificados para receber estesalunos e práticas de aperfeiçoamento e especialização continuada para estesprofissionais. Sobre a educação inclusiva Mazzota (2003, p. 11) acrescenta:
  16. 16. 16 É a modalidade de ensino que se caracteriza por um conjunto de recursos e serviços educacionais especiais organizados para apoiar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação formal dos educandos que apresentem necessidades educacionais muito diferentes das da maioria das crianças e jovens. Tais educandos, também denominados “excepcionais”, são justamente aqueles que hoje tem sido chamados de “alunos com necessidades educacionais especiais. Nessa perspectiva, o conceito de educação inclusiva busca em sua essênciauma resposta satisfatória das instituições escolares para com esses sujeitos comnecessidades educacionais especiais. Entretanto, como já dito, a educação inclusiva exige formação. Há que seconsiderar, então, que se tem um nó nesse ponto, pois a formação de educadores,efetivamente, não os tem preparado para fazer com competência técnica e teóricanem o básico que deles se espera. Some-se à formação precária, as más condiçõesde trabalho, os baixos salários e a desvalorização social. Vê-se que são muitos osobstáculos a vencer no sentido de, também, garantir a possibilidade de inclusão dapessoa com deficiência nos espaços e práticas educacionais. Considerando a pessoa cega, surge à necessidade de evidenciar, como estesentido (neste caso a visão), pode interferir na vida destes indivíduos, para refletir arespeito do seu desenvolvimento com o ambiente. A visão é tida como meio de integração com os outros sentidos, é o canal queliga o indivíduo com o mundo externo. Com a falta de seu sistema guia (visão), aspessoas com deficiência visual se veem obrigados a recorrer a outros sentidos(outros sistemas-guia) como o tato, a audição, o olfato, sentidos estes que permitemo deficiente entender e guardar as informações na memória, possibilitando assimsua interação social. A palavra deficiente tem um forte significado e é carregado de valores morais,como evidencia Gil (2000, p.5): Muitos consideram que a palavra „deficiente‟ tem um significado muito forte, carregado de valores morais, contrapondo-se a „eficiente‟. Levaria a supor que a pessoa deficiente não é capaz; e, sendo assim, então é preguiçosa, incompetente e sem inteligência. A ênfase recai no que falta, na limitação, no „defeito‟, gerando sentimentos como desprezo, indiferença, chacota, piedade ou pena.
  17. 17. 17 Ainda nesse contexto, Carmo apud Santos (2004, p.28) afirma que: “o termo “deficiente” representa alguma anormalidade ou diferenciação perante outros indivíduos no plano cognitivo, afetivo ou motor, levando muitos indivíduos ao desespero e conseqüentemente à tentativa ou até mesmo ao suicídio”. A Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes (2010, p.1), proclama emseu artigo primeiro que: o termo "pessoas deficientes" refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma deficiência, congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais. Esta resolução foi aprovada pela Assembléia Geral da Organização dasNações Unidas, em 09 de dezembro de 1975, no intuito de garantir às pessoas comdeficiência atuação nos variados campos de atividades, de modo que elas possamdesenvolver suas habilidades, promovendo tanto quanto possível sua integração navida normal. No entanto, percebemos que o referido termo tem outra conotação em nossasociedade, estando associado geralmente à incapacidade, não-eficientes, comoafirma Ribas (1986, p. 15) (…) na nossa sociedade, mesmo que a ONU e a OMS tenham tentado eliminar a incoerência dos “conceitos”, a palavra “deficiente” tem um significado muito forte. De certo modo, ela se opõe à palavra “eficiente”. Ser “deficiente”, antes de tudo, é não ser “capaz”. Pode até ser que, conhecendo melhor a pessoa, venhamos a perceber que ela não é tão “deficiente” assim. Mas, até lá, até segunda ordem, o “deficiente” é o não “eficiente”. [...] Assim sendo, em todas as sociedades a palavra “deficiente” adquire um valor cultural segundo padrões, regras e normas estabelecidas no bojo de suas relações sociais. Nesse sentido, é importante que consigamos perceber o sujeito para além desuas limitações, libertando-nos da carga pejorativa que o conceito “deficiente”recebe em nossa sociedade. Desse modo, torna-se possível enxergar esses sujeitossem os olhos do preconceito. Reportando o olhar à Educação Física, no que tange à Educação Básica(Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e
  18. 18. 18Adultos e Educação Especial), esta proclama insistentemente seu papel educativo,que reflete sobre o corpo em movimento, sobre toda uma cultura corporal construídahistoricamente, que constitui um acervo de forma representacional do mundo(MEDINA, 1995). Na atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Educação Física éposta como componente curricular obrigatório na Educação Básica e isto inclui osalunos com deficiência. (BRITO, 1997). Todavia, isto parece ser ainda um desafio eparece haver um distanciamento entre a legislação e a realidade, uma vez quepercebemos que […] os alunos com necessidades especiais ainda estão distantes do ambiente educacional. Os documentos oficiais, como a Lei de Diretrizes Básicas (LDB) e Declaração de Salamanca, são claros ao definirem a educação como direito a todas as crianças, e não apenas para aquelas com menores dificuldades que facilitam o trabalho pedagógico. (FERREIRA et, al 2004, p 21). É importante evidenciar que para que haja um trabalho eficaz nesse sentido,um trabalho de inclusão propriamente dito, é imprescindível que se perceba o realsentido desse conceito e que este possa ser trabalhado em sua plenitude,considerando todas as suas implicações. É a partir dessa necessidade que surge uma educação física adequada eadaptada, permitindo uma maior participação por parte dos deficientes em atividadesadequadas a suas especificidades. De acordo com Kyrillos (2005), a Educação Física é uma disciplina que deveestar inserida no currículo escolar. Para ele, a educação física tem que ir além deuma recreação ou de uma prática esportiva para selecionar apenas os melhores, eladeve e pode, através da sua prática, proporcionar inclusão a todos, com ou semnecessidades educativas especiais. Segundo Kyrillos (2005), a educação física adaptada surgiu na Inglaterra e nosEstados Unidos, tendo como objetivo a integração social e a normalização a partirda prática esportiva. A Educação física Adaptada tem sido valorizada e enfatizada como uma das condições para o desenvolvimento motor, intelectual, social e afetivo
  19. 19. 19 das pessoas, sendo considerada, de uma maneira geral, como: atividades adaptadas às capacidades de cada um, respeitando suas diferenças e limitações, proporcionando as pessoas com deficiência a melhora do desenvolvimento global, conseqüentemente, da qualidade de vida. Na Educação Física para deficientes o conteúdo não é diferente, mas sim adaptado para cada tipo de deficiência. (STRAPASSON; CARNIEL, 2007 p.11 e12) De acordo Souza (2007), a educação física através de atividades esportivas elúdicas, procura proporcionar um melhor desenvolvimento motor e domínio corporal,desenvolvendo através dessas atividades aspectos como autoconfiança, a auto-iniciativa e a auto-estima, aspectos estes que contribuem para a autonomia,independência, além da inclusão social. Especificamente em relação ao deficiente visual, é preciso apresentar suascaracterísticas para falar das atividades da educação física para estes indivíduos,pois a atividade proposta deve contemplar as potencialidades físicas, psíquicas e desociabilidade para todos os participantes e não atividades diferenciadas entre osalunos ao realizar a atividade de educação física. Os indivíduos cegos por conta doseu comprometimento visual tendem a apresentarem defasagens em seudesenvolvimento motor (equilíbrio, mobilidade, locomoção e alterações posturais),defasagens essas que influenciam na autonomia de atividades de vida diária. Outra questão interessante para a lentidão no desenvolvimento motor dodeficiente visual é a superproteção da família, o que surge da falta de informações e,muitas vezes, do sentimento de culpa e até da desestruturação psicológica ecomportamental que o nascimento que uma criança deficiente provoca em umafamília. Assim, quanto menos situações de aprendizagem o indivíduo vivencia, maisdificuldades terá de se relacionar com as pessoas e com o mundo, encontrandodificuldades para formação de conceitos básicos, de ética, relacionamento ecidadania, tornando-se uma presa do seu mundo particular. (CONDE, 1981) Com relação ao deficiente visual vários são os campos que sofremdefasagens, que vão desde o domínio sócio-afetivo, campo cognitivo e psicomotor,levando à insegurança, baixa-estima, problemas em se relacionar, dependência,entre outros. Diante das muitas concepções e terminologias acerca da deficiência visual, enuma tentativa de manter a transparência da discussão, faz-se pertinente, nessemomento, elucidar esse conceito através de autores que refletem sobre tal.
  20. 20. 20 A deficiência visual tradicionalmente é classificada de acordo com a acuidadevisual2. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2005) um indivíduoé considerado cego quando apresenta acuidade inferior a 3/60 metros e campovisual inferior a 10º, no melhor olho corrigido, sendo considerados com baixa-visãoou visão subnormal aqueles indivíduos com acuidade visual entre 3/60 e 6/18 metrosno olho com melhor acuidade visual. Segundo Sá, Campos e Silva (2007, p. 15) a cegueira é uma alteração grave ou total de uma ou mais das funções elementares da visão que afeta de modo irremediável a capacidade de perceber cor, tamanho, distância, forma, posição ou movimento em um campo mais ou menos abrangente. Pode ocorrer desde o nascimento (cegueira congênita), ou posteriormente (cegueira adventícia, usualmente conhecida como adquirida) em decorrência de causas orgânicas ou acidentais. “Dessa forma consideramos as pessoas com deficiência visual aquelas queapresentam um comprometimento severo da capacidade visual, mesmo com autilização de óculos ou lentes especiais para a sua correção”. (MATSUI, 2007, p.21) São diversas as patologias que causam a deficiência visual classificada comocongênita, ou seja, quando o indivíduo já nasce sem acuidade visual, as maisfreqüentes são retinopatia da prematuridade, graus III, IV ou V – (por imaturidade da retina em virtude de parto prematuro, ou por excesso de oxigênio na incubadora), corioretinite, por toxoplasmose na gestação, catarata congênita (rubéola, infecções na gestação ou hereditária), glaucoma congênito (hereditário ou por infecções), atrofia óptica por problema de parto (hipoxia, anoxia ou infecções perinatais), degenerações retinianas (Síndrome de Leber, doenças hereditárias ou diabetes) e deficiência visual cortical (encefalopatias, alterações de sistema nervoso central ou convulsões) (BRASIL, 2006, p.17) No entanto, as causas também podem ser tardias ou adquiridas, quando há umcomprometimento ou perda da acuidade visual em virtude de doenças como“diabetes, descolamento de retina, glaucoma, catarata, degeneração senil e traumasoculares” (BRASIL, 2006, p.18)2 “Função (visual) que exprime a capacidade discriminativa de formas”. (BICAS, H. E.A. Arquivo Brasileiro deOftalmologia. Vol. 65, p. 375-38, 2002)
  21. 21. 21 As implicações da deficiência visual no desenvolvimento físico e psicológicodos indivíduos dependem de fatores como o tipo da deficiência, as suas causas, areação e aceitação da família e da forma como cada um lida com a própriadeficiência. Segundo Gil (2000, p. 8) indivíduo que nasce com o sentido da visão, perdendo-o mais tarde, guarda memórias visuais, consegue se lembrar das imagens, luzes e cores que conheceu, e isso é muito útil para a sua readaptação. Quem nasce sem a capacidade da visão, por outro lado, jamais pode formar uma memória visual, possuir lembranças visuais. Apesar de não possuir lembranças visuais, a pessoa que nasce sem acapacidade visual pode construir sua própria representação de mundo distinguindo,através do tato e com o auxílio de descrições feitas por videntes, formas e texturas. No que diz respeito à autonomia das pessoas com deficiência visual, esta estádiretamente relacionada ao tipo da deficiência (cegueira ou visão subnormal).Indivíduos com visão subnormal conseguem se deslocar pelos espaços físicos esociais, realizando as atividades diárias sozinho e com mais facilidade. Contudo, ofato de não enxergar não impede os indivíduos de desenvolverem técnicas que lhespossibilitem realizar as atividades da vida diária e se locomoverem dentro e fora decasa. Para tanto, é fundamental que estes contem com o apoio e incentivo dos pais,professores e amigos para o êxito desse processo, o que muitas vezes não éobservado dificultando/impossibilitando o desenvolvimento motor e inclusão socialdos mesmos. A pessoa com deficiência visual por não possuir um dos principais sentidos, emuitas vezes, por medo do fracasso, tendem a não praticar práticas corporaiss,tornam-indivíduos sedentários. Transformando assim, a práticas corporais numalacuna na educação dos deficientes visuais. (SANTOS, 2009) Diante dessas dificuldades, impostas muitas vezes pelo próprio deficiente epela própria família e, também, pela sociedade, que os tem como incapazes, é que aeducação física adaptada intercede no dia a dia do indivíduo cego buscandotrabalhar o seu desenvolvimento, desde a área psicomotora chegando aos aspectoscognitivos, social-afetivo e sensoriais. Ela usa o corpo do indivíduo com deficiência
  22. 22. 22visual como instrumento, proporcionando uma maior interação e compreensãodaquilo que a cerca, e até mesmo o domínio do próprio corpo. (CONDE, 1981). A educação física pode e deve possibilitar oportunidades iguais tanto parapessoas com deficiência quanto para qualquer outro, participando assim do modelode inclusão, respeitando individualidades e diferenças. Para uma maior inserção de pessoas com deficiência visuais na sociedadefaz-se necessária uma primeira descoberta, conhecimento e domínio do seu própriocorpo, que contribui para formação do seu “EU” e interação com o ambiente e com osocial, possibilitando a construção de uma postura nova diante da realidade,superando os diferentes obstáculos. (SOUZA, 2007) E é nesse momento que, segundo Brasil (2006), a Educação Física adaptadatende a contribuir para evolução desses indivíduos, obtendo através da sua práticaaspectos como a autoconfiança, sentimento de mais valia, sentido de cooperação.Além de facilitar o caminhar e a independência social, dando-lhes condições desuperar obstáculos impostos pela sociedade. Desse modo, percebemos que aspráticas corporais na vida desses sujeitos, servem como importante elemento dedesenvolvimento geral. Nessa perspectiva, a atividade de educação física será mais um fator dedesenvolvimento no ambiente escolar quando praticada uma educação inclusiva dequalidade, onde para esta alguns facilitadores são considerados, tais como:acessibilidade arquitetônica, práticas sociais que integrem os alunos cegos com osnão cegos, dentre outros. Sobre isso Brasil (2006, p.164) acrescenta a educação física adaptada a criança cega trabalha abrangendo o seu desenvolvimento, não só na área psicomotora como também nos aspectos cognitivos, socioafetivos e sensoriais. Ela utiliza o corpo da criança cega como instrumento, como ferramenta maior. Partindo do conhecimento e domínio deste corpo, ela usa o movimento controlado como meio, o respeito absoluto a individualidade do aluno como estratégica básica, o prazer da descoberta de poder fazer como esforço, tendo como fins o alicerçamento geral, buscando propiciar condições favoráveis à sua trajetória acadêmica e, futuramente, à sua emancipação social. É imprescindível, também, evidenciar a necessidade de professoresqualificados para o trabalho com o deficiente visual. Nesse sentido, o professor seinsere nesse contexto não apenas como mediador, mas também como agente
  23. 23. 23catalisador e instigador do conhecimento, que despertará no sujeito em questão oreconhecimento de si, de seus limites e suas possibilidades, o que nos possibilitadizer que só assim a Educação Física cumprirá sua função de importante elemento facilitador no caminhar do indivíduo cego rumo à sua emancipação social, possibilitando-lhe condições básicas que capacitem-no futuramente a superar as barreiras, de diversos tipos, nuances e intensidades, que certamente lhe serão impostas (NEVES et al, p. 6) Assim, torna-se imprescindível que o professor reconheça a importância do seupapel social e haja com responsabilidade nesse processo.
  24. 24. 244 METODOLOGIA O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, quesegundo Neves (1996, p. 1), trata-se de “um conjunto de diferentes técnicasinterpretativas que visam a descrever e a decodificar os componentes de umsistema complexo de significados”. Complementando o texto acima, Lakatos (et al, 1986) ressalta que a pesquisaqualitativa possui como objetivo a interpretação dos fenômenos e a atribuição designificados. A mesma não se utiliza de métodos e técnicas estatísticas e opesquisador é o instrumento chave para a coleta de dados. Ainda sobre essadiscussão Godoy (1995a, p.62) destaca que há: diversidade entre os trabalhos qualitativos e enumera um conjunto de características essenciais capazes de identificar uma pesquisa desse tipo: o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; o caráter descritivo; o significado que as pessoas dão às coisas e a sua vida como preocupação do investigador e enfoque indutivo. Trata-se de um estudo de caso. Segundo Yin (2005, p.32), um estudo de casose caracteriza como “uma investigação empírica que analisa um fenômenocontemporâneo dentro de seu contexto real, quando os limites entre o fenômeno e ocontexto não estão claramente definidos”. Ainda sobre estudo de caso Yin (2001) dizque a mesma pode ser classificada como: exploratória, descritiva e explanatória.Esta pesquisa se caracteriza como descritiva porque atém-se para as atividadesrealizadas com os deficientes visuais. Ainda falando sobre estudo de caso, Fachin (2001) afirma que o mesmo trata-se de um estudo intensivo, onde seu objetivo principal é compreender o assuntoinvestigado em todos os seus aspectos. O mesmo afirma que dependendo daintensidade do estudo, algumas relações só seriam descobertas se utilizando domesmo. Foram efetuadas visitas regulares à Escola Comunitária Nova Esperança, nointuito de observar às intervenções pedagógicas realizadas pelos estudantes docurso de Licenciatura em Educação Física da UNEB com os alunos com deficiência
  25. 25. 25visual, realizadas sempre às sextas-feiras, entre os meses de abril/2010 adezembro/2010. A escola está situada na cidade de Alagoinhas, localizada no litoral norte, a 107km da capital (Salvador) e é o único local que oferece e desenvolve atividadesvoltadas para deficientes visuais na cidade de Alagoinhas. A classe para pessoascegas teve início em 2000, a pedido da CBM (Christian Blind Mission), uma ONGinternacional especializada no amparo a pessoas cegas. Já a classe para surdoscegos teve início a partir da descoberta de três crianças com essa deficiência emAlagoinhas, sendo que esta é a primeira escola no Nordeste brasileiro com classespara surdos cegos. Para a coleta de dados, foi utilizado como instrumento um roteiro de entrevistasemi-estruturada (APÊNDICE B) realizada com dois deficientes visuais da escola.(LS), 47 anos, tem 10 anos que é cego, desenvolveu a cegueira a partir dos 37anos. (VFSF), 50 anos, possui cegueira total, apresentando no olho direito(deslocamento de retina profunda) e no olho esquerdo (glaucoma). A estrutura da entrevista trazia seis perguntas abertas, as quais abordavamitens que incluem as atividades desenvolvidas, bem como o nível de interesse dosparticipantes e sua relação com as atividades realizadas. Para Minayo (1996, p. 109): O que torna a entrevista instrumento privilegiado de coleta de informações é a possibilidade de a fala ser reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos (sendo ela mesma um deles) e ao mesmo tempo ter a magia de transmitir, através de um porta-voz, as representações de grupos determinados, em condições históricas, sócio– econômicas e culturais específicas. Os dados foram extraídos das entrevistas e catalogados para análisequalitativa, a fim de construir um perfil que possibilite maior explicação dasexperiências vividas por estes deficientes visuais e a relação com a autonomia dosmesmos para as atividades da vida cotidiana.
  26. 26. 265 RESULTADOS E DISCUSSÕES Conforme foi evidenciado em diferentes segmentos do presente estudo, aproposta da pesquisa é descrever as atividades de educação física realizadas comindivíduos cegos da escola Nova Esperança em Alagoinhas-BA, com o propósito deevidenciar os efeitos de práticas corporais realizadas por indivíduos com deficiênciavisual e sua relação com a autonomia para as atividades da vida cotidiana. As atividades propostas foram elaboradas com o objetivo de proporcionar odesenvolvimento de práticas corporais, e maior interação durante atividades emgrupo, propiciando aos deficientes maior seguridade na elaboração de suasatividades e, com isso, a maior independência funcional. As mesmas foramdesenvolvidas da seguinte maneira: As aulas de dança visaram o aumento da coordenação motora, bem como nainteratividade com o parceiro durante as músicas que eram tocadas. Os professoresexplicavam aos alunos como seria a atividade proposta e em seguida eramformadas duplas com um vidente e um não vidente, para melhor facilitação duranteo ato de dançar. Andar de Tandem (duas bicicletas em uma) eram realizados passeios, e asduplas eram sempre um deficiente visual e o outro auditivo. Para facilitar acomunicação entre eles foram criados sinais de comando (Ex: um toque no braço =ir ao banheiro) que permitia entender as necessidades de cada, tanto do cego para osurdo, como surdo para o cego, proporcionando maior segurança durante a prática,além de melhorar o desempenho e autonomia, durante os passeios. O trajeto erasempre verificado, pois não poderia ser rotas de grande fluxo de automóveis,também as condições das ruas por onde o grupo iria passar, os horários tambémforam construídos a partir da disponibilidade de todos, sendo sempre realizados àstardes. O ato de andar e correr sozinho, que pode ser considerado algo normal paraindivíduos não cegos, para estas pessoas pode ser bastante difícil e requer muitahabilidade. A princípio, os alunos faziam o reconhecimento do ambiente, ondealguns utilizavam dispositivo de auxílio “bengala”, para depois realizarem estaatividade sozinha. Objetivo principal com esta atividade é que os alunos possam se
  27. 27. 27locomover com mais independência, para assim garantirem o seu direito eautonomia de ir e vir. No que se refere à ginástica e alongamento, os alunos eram orientados pelosprofessores a realizarem as atividades propostas. Durante a ginástica, eramensinados movimentos nos membros superiores e inferiores e sempre quenecessário os professores ensinavam o posicionamento adequado durante aginástica. O objetivo é desenvolver um aumento na capacidade de locomoção. Também foram realizadas caminhadas. E estas, por sua vez, eram feitas emlocalidades diferentes, propondo um desafio aos alunos, ao mesmo tempo quepropicia aos mesmos reconhecerem que são capazes de realizarem atividades queenvolvam autonomia e independência durante atividades simples como ir ao bancoou na casa de um familiar. Metodologicamente, os alunos conseguiam definir e reproduzir a maior partedos movimentos, sendo que para isto era necessária a intervenção do professor nosentido de explicar verbalmente ou auxiliando os movimentos do corpo dos alunospara facilitar sua compreensão no que eles tinham que fazer, além de incentivaremos mesmos a se sentirem capazes de realizar o que era proposto. Os alunos,durante as primeiras aulas, as quais já foram descritas acima, mostraram-se tímidose desestimulados. Com o passar das aulas, observou-se que o nível de empenho ede satisfação foi maior, isto com base nos relatos dos alunos e no convívio com osmesmos durante as aulas. Embora tivessem suas limitações, os alunos não se abstinham em realizar asatividades propostas, o que é um ponto positivo. As orientações durante asatividades foram cruciais para o sucesso das atividades. Independente das atividades propostas, as quais eram realizadas cominteresse e disposição, o que mais motivava os alunos era o fato desses encontrosproporcionarem a reunião deles, os quais conversavam e se divertiam muito duranteas aulas, num ambiente de amizade e descontração. Todos tinham consciência sobre a importância das práticas corporais, apesarde terem apenas uma aula na semana, até porque a orientação era passada demodo que os alunos reproduzissem os movimentos durante os outros dias.
  28. 28. 28 A partir daqui, serão descritas as informações coletadas a partir da entrevistasemi-estruturada com dois indivíduos da turma. Para manter em sigilo a identidadedos mesmos, faço uso de pseudônimos, mas há imagens no fim do trabalho. Embora se saiba que o resultado encontrado possa não demonstrar osaspectos vividos por todos os indivíduos acometidos por déficits visuais, em funçãode um número pequeno de participantes, esse resultado pode ser generalizado paraas situações semelhantes. Para nortear essa pesquisa e adentrar de maneira mais efetiva no universo dodeficiente visual, utilizei de algumas perguntas orientadoras. Segue assim análisedos relatos desses sujeitos No que diz respeito ao nível de interesse e de prática de algum tipo depráticas corporais desenvolvida pelos participantes antes de entrarem na escola,perguntou-se: Você já tinha praticado algum tipo de práticas corporais antes doinício das aulas com práticas corporais na Escola Nova Esperança? Qual (ais)? (...) completamente não. Porque a física que eu fazia era no trabalho, eu trabalhava e os movimentos era minha física, outras atividades nunca tinha feito, a não ser quando brincava de quadrilha no quintal de casa a muito tempo atrás. LS, 47 anos, tem 10 anos que é cego, desenvolveu a cegueira a partir dos 37 anos. (...) Sim. Eu brincava com os meninos na rua, eu gostava muito de musica de capoeira, colocava a musica e ficava brincando no quintal, questão de brincadeira mesmo. Depois eu entrei na Nova Esperança no grupo de um amigo, pedi pra brincar, mas o professor perguntou a ele como ia ensinar se eu não enxergava. Comecei a fazer práticas corporais de capoeira, eu já tinha um domínio no corpo, passando a fazer apresentações fora da escola e fora de Alagoinhas. Sendo divulgado que o cego fazia essas atividades como capoeira, continuei fazendo ate que chegou a idade e eu parei. Comecei também a fazer karate com um professor de um clube da cidade. Antes tinha práticas corporais na Nova Esperança, porém com o tempo acabou, pra fazer práticas corporais tinha que ir pra “tander”, porém não era toda semana que tinha atividade, só tinha no período do perfil de bicicleta da Bahia “tandertour”, só que agora parou de vez. (VFSF), Cegueira total, olho direito (deslocamento de retina profunda), olho esquerdo (glaucoma)
  29. 29. 29 Assim, podemos evidenciar que o quanto mais cedo o indivíduo cego tivercontato com as atividades de prática corporal, melhor será sua independência eautonomia. Como se pode observar, os participantes tiveram experiências normaisantes da deficiência visual e isto favoreceu o seu desempenho durante asatividades, visto a sua vasta importância. Este questionamento é muito relevante, pois delimita a eficácia da atividaderealizada pelo individuo, o seu grau de entendimento da prática e também se aatividade está adequada a sua capacidade física de desenvolve lá. Assim, foi feito oseguinte questionamento: Dentre as atividades desenvolvidas quais você sentiumais dificuldade para realizar? Por que? (...) Não. Porque houve uma preparação da professora antes das atividades, ai então eu já tava preparado para o que eu ia fazer, a professora dizia a gente vai dançar, então vamos dançar,(LS). (...) Senti mais facilidade para realizar, por exemplo, na capoeira, que o professor ensinava os movimentos antes da prática, se eu levantasse a perna direita ele fazia o movimento contrário (movimento de defesa), ele procurava se livrar dos meus movimentos e eu não eu dos movimentos dele. Tive dificuldade no Karate com os golpes, porque o professor não ensinava os movimentos antes de fazer, ai ele teve que ensinar os movimentos para depois executa-los, cada membro direcionado a um sentido. Ex: sentido da direita corresponderia à perna direita, e assim sequencialmente ia desenvolvendo os golpes, e só tive mais dificuldades pelo fato de não enxergar, e não pela falta de prática (VFSF). É possivel perceber que as práticas corporais obtiveram bons resultados notocante ao desenvolvimento das atividades propostas e quão fundamental é apreparação e qualificação do professor de educação física para que essas práticasocorram de maneira efetiva. Como foi abordado no presente estudo, vários foram os aspectos a seremvencidos no processo de inclusão social, no âmbito educacional, no que diz respeitoem especial à prática de educação física e de como estes indivíduo, podem
  30. 30. 30participar normalmente destas atividades, desta forma o grau de satisfação e deinteresse é imprescindível para que os cegos possam se sentir bem durante asatividades propostas, para ter essa resposta foi feita a seguinte pergunta: Em algummomento você pensou em desistir ou não realizar alguma atividade propostapor não se sentir capaz de fazer? Se “sim”, ao que ou a quem você atribuiisso? (...) Não, jamais. No começo eu fiquei com certo receio perguntando pra que fazer isso? Mas depois que começou a professora fazia junto com a gente, eu gostei e me incentivou a continua fazendo. (LS) (...) Não. Ate teve um desenvolvimento lá, agente participou muito de práticas corporais. Hoje tem cego lá que nenhum dança, às vezes pelo fato de não enxergar ou porque não sabe, e agente não ver as coisas, como agente aprende? E também não tem quem ensine. Então deveria ter um tipo de aula, tipo dança (forro), todos os cegos se sentiram incentivados, porque muitos não sabia, ficando contente com a prática, e com a boa vontade de quem ensinava, alguns já sabiam, porém eu sabia a 25 anos quando eu enxergava. Hoje em dia eu tenho vontade de aprender coreografia de pagode, porque às vezes você vai pra um lugar e o ritmo não é mais aquele de antigamente, tudo é incentivo. Há muito tempo que agente não fazia dessas atividades de dança, foi bom, mas durou pouco. (VFSF) Este poder de percepção também tem que ser compreendido pelo professorde educação física, uma vez que este vai buscar meios de estimular o cego a seperceber no espaço, e os seus gestos, para facilitar a sua coordenação motora a fimque o mesmo realize a atividade proposta. Fica clara na fala de VFSF a necessidadeda intervenção do professor e, portanto, a relevância da preocupação da EducaçãoFísica com a pessoa com deficiência, pois ele afirma que, às vezes, não tem acessoporque não tem quem ensine e que certas práticas são possíveis se houverestímulo, incentivo.
  31. 31. 31 Ainda em relação a pergunta anterior, teve alguma atividade que você,mesmo achando que não conseguiria realizar, se propôs a fazer e teve êxito?como foi essa experiência para você e o que isso significou para a sua vida? (...) teve sim, jogar bola, mas eu conseguir. Fiquei com medo de tomar testada, como aconteceu com um colega, mas assim mesmo eu joguei e tive êxito. Foi uma experiência maravilhosa, muito boa, se tivesse sempre eu queria fazer, com medo ou não de tomar testada, porque a gente não enxerga mesmo, pode ocorrer de bater com outra pessoa, qualquer hora que tiver eu vou. (SL) (...) Das posições de práticas corporais, por exemplo, abdominais. Tinha práticas corporais que era difícil devido eu não sei se pela idade e muito tempo parado, a perna não descia ate embaixo, dificuldades de se movimentar, movimentar os membros, às vezes com a repetição dos movimentos o corpo doía, depois fui fazendo em casa e foi estirando mais, tornou-se mais fácil. Nunca pensei em desistir, agente ver na TV e no rádio quanto mais o idoso faz práticas corporais, ou anda ou corre, mas ele se desenvolve, entao eu to chegando nessa fase, como já tenho 50 anos, pra mim é vantagem não desistir das atividades físicas. Pra mim foi uma motivação, porque hoje não temos nem nossa família pra fazer com a gente, não tem nenhum membro da família pra incentivar ou ate mesmo pra praticar junto. Muitos deficientes ficam presos em casa, só vai à rua da data de tirar o pagamento, já eu e outro não, agente saí sozinhos, tenho independência. Muitos se acomodam e não sabem que o prejuízo é pra eles mesmo, então o deficiente não pode ser visto só no dia da precisão, muitas famílias não saem na rua com o cego por vergonha, muitas mães o esconde dos próprios amigos so pelo fato de filho se cego. A família nos trata como prisioneiro, como bicho, eu tive sorte com minha família, é nota dez. A práticas corporais da disposição, você fica mais leve, mais motivado a sair, cria autonomia e independência, você passa a acreditar em si, se sente capaz, e não ser aquilo apenas que a família quer, muitos desenvolveram a coordenação motora com a prática.(VFSF) Percebe-se que sujeitos que se disponibilizam e são oportunizados àspráticas corporais sentem-se motivados para isto e sentem que tem autonomia paraoutras atividades. Isto já é uma superação das práticas comuns de esconder apessoa com deficiência e de entendê-la como sujeito de direitos, inclusive no que dizrespeito ao acesso às práticas corporais.
  32. 32. 32 Este questionamento nos permite evidenciar o grau de eficácia das condutasrealizadas, onde é sabido que os cegos que não são orientados para se deslocaremcom mais independência e segurança e que devem tomar as próprias decisõestornam-se vulneráveis a qualquer acidente, o que os obriga a estaremconstantemente solicitando ajuda, além de demorarem mais tempo na execução depercursos relativamente fáceis. E para isso foi perguntado: Foi observado algumavanço ou mudança positiva com relação aos aspectos físicos trabalhados aolongo das atividades desenvolvidas? (...) teve avanço sim, porque comecei a pratica de uma atividade a mais, melhorou o preparo físico com a repetição e com o costume de fazer sempre (SL). (...) O avanço que agente nota quando faz práticas corporais é a disposição ao acordar, você passa a praticar todos os dias, além de melhorar e muito a coordenação motora e o próprio andar (VFSF). Nesse momento, as falas confirmam aspectos que foram tratados noreferencial teórico: os benefícios das práticas corporais para a coordenação motoraque tem conseqüência em aspectos cotidianos da vida desses sujeitos. Ainda sobre práticas corporais, foi questionado da seguinte maneira: Vocêacha que a prática de práticas corporais pode trazer algum benefício para suavida? Qual? (...) Sim. Porque tem liberdade, tem muito cego que fica escondido por detrás das paredes pra ninguém vê, e agente não, a gente praticando uma práticas corporais que ajuda na nossa locomoção, ficando com uma melhor preparação e disposição (SL). (...) Sim, porque você sente mais disposição, chama a família pra fazer junto, eu me sinto ate capaz de dar aula a partir do que eu aprendi, então a prática teve beneficio, foi muito positivo pra mim,
  33. 33. 33 você sai da rotina, você se sente capaz de fazer outras atividades (VFSF).. Essas falas reafirmam algo que foi comum historicamente no trato social dapessoa com deficiência: “esconda-las atrás das paredes” e fingir que elas nãodemandam nenhuma ação social. Assim, durante muito tempo eles foramexterminados, excluídos e lutam nesse momento por uma efetiva inclusão. Esta, ficavisível na segunda fala, envolve, inclusive, o âmbito familiar. E, como posto noreferencial teórico, o estímulo e participação da família é fundamental para oprocesso de inclusão. Dessa maneira são múltiplas as possibilidades de inclusão social do individuocego junto numa aula de educação física, para isto basta um professor que possua oconhecimento e a percepção social e inclusiva para direcionar as aulas e atividadesde modo a facilitar a participação do cego nas atividades propostas pelosprofessores, uma vez que, esse profissional “assume um papel transformador comcompetência específica da área, sendo atores vivos que constroem, mantém ealteram significados sobre a área, sobre si próprio e sobre as atividades pelas quaisrespondem”. (BETTI, 1998; p.17 e 18). A prática da educação física permite também que esse sujeito se dispa dopreconceito em relação a si próprio. Assim, o indivíduo que antes tinha receio demostrar sua face, hoje se sente preparado para enfrentar as imposições dasociedade, passando de telespectador para protagonista de sua própria história. Através dos relatos dos sujeitos dessa pesquisa, foi possível constatar asignificativa contribuição da práticas corporais em suas vidas. Os mesmos afirmamque a realização dessa atividade oferece a eles uma sensação de liberdade, que vaidesde a locomoção à liberdade interior. Uma vez que esta, “tem sido valorizada eenfatizada como uma das condições para o desenvolvimento motor, intelectual,social e afetivo das pessoas” (STRAPASSON; CARNIEL, 2007 p.11 e 12). Dessemodo, a práticas corporais aparece para esses sujeitos como mais um dispositivo deincitação para uma autonomia social, proporciona-os uma sensação de motivação eindependêcia, isto é, após adentrarem o universo da práticas corporais, essesindividuos potencializaram suas capacidades e reiventaram seu cotidiano. É importante evidenciar também, que embora as escolas de ensino regularinsiram os alunos com deficiência nesse ambiente educacional, que é um direito de
  34. 34. 34todos, as mesmas precisam perceber as peculiaridades desses sujeitos,respeitando-os, pois como afirma Sanfelice apud Kassar, “não é possível, noprincípio de pedagogia formal, tratar igualmente toda a multiplicidade desubstantivas diferenças que as distintas clientelas incorporam por razões, culturais,sociais ou mesmo físico-mentais”(2007, p. 61) É importante ressaltar também que as escolas de ensino regular nãocorrespondem às expectativas desses alunos no que concerne a aspectosestruturais e professores qualificados, fatores predominantes para perpetualizaçãodas entidades especializadas, uma vez que essas atendem as necessidades dessessujeitos de modo mais efetivo. Sobre isso kassar (2007, p.63) expoem que : Ainda sob a bandeira da inclusão algumas crianças com diferencas orgânicas, tem sido matriculadas em classes comuns do ensino regular, muitas vezes sem qualquer cuidado por parte da escola com adequação de procedimentos didáticos, adptação de material e outros requisitos básicos. Diante de tudo isso é que se dá a existência de inúmeras escolasespecializadas, já que somente elas estão preparadas para acolher em todos osaspectos esses indivíduos com necessidades especiais, o que difere das escolas deensino regular, que como já foi exposto antes não tem suporte para atender aspeculiaridades desses sijeitos.
  35. 35. 356 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O presente trabalho se propôs identificar o efeito das práticas corporais naautonomia das atividades da vida diária em pessoas com deficiência visual. Osresultados indicaram que a realização de práticas corporais é inegavelmente eficazno que concerne à efetividade das ações que compreendem a dinâmica de vida dosujeito com deficiência. Nesse contexto, foi possível perceber que as atividades poreles realizadas eram significativamente representativas não só no aspecto físicocomo também psíquico, uma vez que além de melhorar o condicionamento físicomotor, melhorava também a autoconfiança, a autoestima, entre outros, o queampliava de modo considerável a maneira de cada um deles “enxergar” o mundo e asi próprio. É necessário destacar a importância do professor de educação física na vidadesses sujeitos cegos, pois estes são agentes catalisadores do processo de“encontro consigo” que a práticas corporais proporciona. Em um contexto mais amplo, a educação física não vai proporcionar somenteinteração com indivíduos não cegos, mas também uma gama de possibilidades queenvolvem a vida do indivíduo cego, elevando as suas potencialidades através daprática de esportes. Este trabalho é de suma importância, pois também caracteriza aexecução de direitos que são estabelecidos por lei a estas pessoas e que devem serexecutadas de forma segura, profissional e saudável.
  36. 36. 367 REFERÊNCIASAMARAL, L. A. Pensar a Diferença/ Deficiência. Brasília: CORDE. 1994BETTI, M. A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. Campinas,Papirus, 1998.BRASIL. Programa de Capacitação de Recursos Humanos do EnsinoFundamental: deficiência visual. Secretaria de Educação Especial. Ministério daEducação. Vol. 1. Brasília, 2001.BRASIL. Saberes e Práticas da Inclusão: desenvolvendo competências para oatendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e dealunos com baixa visão. Secretaria de Educação Especial. Ministério da Educação.Brasília, 2006.BRITO, A. R. P. LDB: da “Conciliação” possível à lei “proclamada”. Belém,Pará: Graphitte, 1997.CONDE, A. J. M. Atividades Físicas Adaptadas Ao Deficiente Visual. RevistaIntegração. Ministério da Educação. Ano 3. Vol.7 .Brasília, 1981DALL‟ACQUA, M. J. C. Intervenção no ambiente escolar: estimulação visual deuma criança com visão subnormal ou baixa visão. São Paulo: Editora UNESP, 2002.Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Secretaria de EducaçãoEspecial. Ministério da Educação. Disponível em:<http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/dec_def.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2010.DECLARAÇÃO SALAMANCA. Declaração de linhas de ação sobre necessidadeseducativas. Espanha, l994 .Trad. e Ed. CORDE, Brasília, 1994.KYRILLOS, M. H. M. O deficiente visual: considerações acerca da prática daeducação física escolar na educação inclusiva.Rio de Janeiro, 2005.FACHIN, O. Fundamentos de metodologia. 3. Ed. São Paulo: Saraiva, 2001.FERREIRA, M.C. e FERREIRA, J.R. Sobre inclusão, políticas públicas e práticaspedagógicas. In: GÓES, Maria Cecília Rafael; LAPLANE, Adriana Lia Friszman.Políticas e práticas de educação inclusiva. Campinas, SP: Autores Associados,2004. p.21-48.
  37. 37. 37FRANCO, J.R.; DIAS, T.R.S. A pessoa cega no processo histórico: um brevepercurso. Revista Instituto Benjamin Constant, Ano 11, nº 30, p. 3-9. Abril/2005.GIL, M. Deficiência visual. Caderno da TV Escola. MEC: Secretaria de Educação àdistância, 2000GODOY, A. S. Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades. InRevista de Administraçao de Empresas, v.35, n.2, Mar/Abr. 1995ª.JANNUZZI, G. S. M. A Educação do deficiente no Brasil: dos primórdios aoinício do século XXI. Revista Brasileira de Ciência do Esporte. 2ª edição. EditoraAutores Associados, Campinas 2006.KASSAR, M. C. M. Matrícula de Criança com Necessidades Educacionais Especiaisna Rede de Ensino Regular, In: GÓES, Maria Cecília Rafael de; LAPLANE, AdrianaLia Friszman de. Políticas e Práticas de Educação Inclusiva. 2.ed. Campinas, SP:Autores Associados, 2007.KYRILLOS, M. H. B. O Deficiente Visual: considerações acerca da prática daEducação Física Escolar na educação inclusiva. Monografia - UniversidadeCândido Mendes Pós-Graduação “lato sensu” projeto a vez do mestre. Rio deJaneiro, 2005.MATSUI, R. I° Jogos escolares brasileiros da confederação brasileira dedesportos para cegos : um estudo de caso. 2007. Dissertação de mestrado –Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas,2007.MAZZOTTA, M. J. S. Educação Especial no Brasil: História e Políticas Públicas.4 ed. São Paulo: Cortez, 2003.MEDINA, J. P. S. A Educação Física Cuida do Corpo...e “Mente”. ColeçãoKrisis,13ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1995 .MINAYO, M. C. S. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 6ª Edição.Petrópolis: Vozes, 1996.MUNSTER, M. A. V; ALMEIDA, J. J. G. Práticas corporais e Deficiência Visual, In:GORGATTI, Márcia Grecuol; COSTA, Roberto Fernandes da. Práticas corporaisAdaptada: Qualidade de Vida para Pessoas com Necessidades Especiais. SãoPaulo: Edt. Manole, 2008, Ed. 2, Cap. 2.NEVES, José L. Pesquisa Qualitativa – Características, Usos e Possibilidades.São Paulo: Artigo, FEA-USP,1996
  38. 38. 38PEDRINELLI, V. J; VERENGUER, R. C. G. Educação Física Adaptada: Introduçãoao Universo das Possibilidades, In: GORGATTI, Márcia Grecuol; COSTA, RobertoFernandes da. Práticas corporais Adaptada: Qualidade de Vida para Pessoascom Necessidades Especiais. São Paulo: Edt. Manole, 2008, Ed. 2, Cap. 1.RIBAS, J. B. C. O que são pessoa deficientes? São Paulo: Brasiliense, 1986.ROCHA, M. S. O processo de inclusão na percepção do docente do ensinoregular e especial. Londrina, 2000.SA, E. D.; CAMPOS, I. M.; SILVA, M. B. C. Atendimento EducacionalEspecializado: deficiência visual. Formação continuada à distância de professorespara o atendimento educacional especializado. Secretaria de Educação Especial.Secretaria de Educação à Distância. Ministério da Educação. Brasília, DF, 2007.SANTOS, A. Representação social de esportes sob a ótica de pessoas cegas.Tese (Doutorado em Educação) – Falcudade de Educação, Universidade Federal daBahia. Salvador, 2004.Santos, A. P. O papel da CBDC no desenvolvimento do esporte. Monografia -Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas,2009.SASSAKI, R. K. Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. 7ª edição. Riode Janeiro: Editora WVA, 1999.SASSAKI, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio deJaneiro: WVA, 1997.SILVA, R. F. A ação do professor de ensino superior na educação físicaadaptada: construção mediada pelos aspectos dos contextos históricos políticos esociais. Campinas, SP: [s.n.], 2004.SOUZA, M. P. Educação Física adaptada para pessoas portadoras denecessidades visuais especiais. Em Revista Digital. <http://www.efdeportes.com>.Buenos Aires, agosto 2007.STRAPASSON, A. M; CARNIEL, F. A Educação Física na Educação Especial. EmRevista Digital. <http://www.efdeportes.com>. Buenos Aires, janeiro 2007.WHO. State of the world´s sight: Vision 2020: the Right to sight 1995-2005.Hyderabad, Índia: Pragati Offset Pvt. Ltd., 2005.
  39. 39. 39YIN, R.K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 3. ed. Porto Alegre:Bookman, 2005.YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 2.ed. PortoAlegre:Bookman, 2001ZAVAREZE, T. E. A construção histórico cultural da deficiência e asdificuldades atuais na promoção da inclusão. O Portal dos Psicólogos. Disponívelem: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0478.pdf>. Acesso em: 15 mai. 2011.
  40. 40. 40APÊNDICE A - Termo de Solicitação
  41. 41. 41
  42. 42. 42APÊNDICE B – Roteiro de Entrevista com Deficientes Visuais.
  43. 43. 43 ROTEIRO DE ENTREVISTA1. Foi observado algum avanço ou mudança positiva com relação aos aspectosfísicos trabalhos ao longo das atividades desenvolvidas?2. Você já tinha praticado algum tipo de práticas corporais antes do início das aulascom práticas corporais na Escola Nova Esperança? Qual (ais)?3. Dentre as atividades desenvolvidas quais você sentiu mais dificuldade pararealizar? Por que?4. Em algum momento você pensou em desistir ou não realizar alguma atividadeproposta por não se sentir capaz de fazer? Se “sim”, ao que ou a quem você atribuiisso?5. De acordo com a pergunta anterior, teve alguma atividade que você, mesmoachando que não conseguiria realizar, se propôs a fazer e teve êxito? como foi essaexperiência para você e o que isso significou para a sua vida?6. Você acha que a prática de práticas corporais pode trazer algum benefício parasua vida? Qual?
  44. 44. 44APÊNDICE C – Fotos dos Deficientes Visuais realizando Práticas Corporais
  45. 45. 45
  46. 46. 46
  47. 47. 47

×