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O corpo modelado: um estudo sobre a identidade corporal feminina entre as mulheres frequentadoras da academia municipal de Pojuca - BA

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Izandra Pereira da Silva

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  • 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CAMPUS II – ALAGOINHAS CURSO DE LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO FÍSICA IZANDRA PEREIRA DA SILVAO CORPO MODELADO: UM ESTUDO SOBRE IDENTIDADECORPORAL FEMININA ENTRE AS MULHERES FREQUENTADORASDA ACADEMIA MUNICIPAL DE POJUCA - BA Alagoinhas-BA 2012
  • 2. IZANDRA PEREIRA DA SILVAO CORPO MODELADO: UM ESTUDO SOBRE IDENTIDADECORPORAL FEMININA ENTRE AS MULHERES FREQUENTADORASDA ACADEMIA MUNICIPAL DE POJUCA - BA Monografia apresentada ao curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus II, Alagoinhas, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciada em Educação Física. Orientadora: Prof. Drª. Mônica Benfica Marinho. Alagoinhas-BA 2012
  • 3. A minha amada mãe.
  • 4. AGRADECIMENTOSA Deus por ter me dado a dádiva da vida.A minha família, em especial à minha mãe Maria de Lourdes, pelo carinho e pelaformação que me proporcionou.Aos meus sobrinhos, que sempre me ajudaram e incentivaram a minha jornadaacadêmica.Aos amigos pelo companheirismo e amizade em especial a Ariane, Angela Maria,Arissandra, Érica Paula, Juliana Correia, Janilma, Milena, Shirlei, Silas, Rita deCássia e Tatiane.À minha paciente orientadora Mônica Benfica Marinho, pelo incentivo, confiança ededicação que foram fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa.Aos demais professores que contribuíram para o meu crescimento profissional epessoal.Às mulheres frequentadoras da Academia Municipal de Pojuca que se dispuseram aparticipar da pesquisa, e que foram fundamentais para o desenvolvimento damesma.
  • 5. RESUMOEste trabalho tem como objeto o estudo da relação exercícios físicos e a construçãoda identidade corporal entre as mulheres frequentadoras da Academia Municipal dePojuca-BA. O objetivo é analisar a relação gênero e prática de exercícios físicosmaterializada em uma identidade corporal. Parte do pressuposto de que essa práticaé fundamental na construção de uma identidade corporal feminina, sendo saúde ebeleza elementos constitutivos dessa identidade. Discute a centralidade do corpo nacontemporaneidade e a crescente prática de atividade física relacionada a ela. Deforma específica, a crescente busca por parte das mulheres pela prática dosexercícios físicos. A pesquisa caracteriza-se por uma abordagem qualitativa.Delimita como universo de investigação um grupo de mulheres frequentadoras daAcademia Municipal de Pojuca localizada na cidade de Pojuca-BA e tem comométodo de investigação o Estudo de Caso Observacional. Utiliza como técnica decoleta de dados a observação participante e como instrumentos o registro de campo,a entrevista semi-estruturada, e o questionário fechado. A análise mostra que paraas mulheres pesquisadas o exercício físico, especialmente a musculação, éfundamental no alcance de um corpo percebido como ideal onde saúde e belezaaparecem como elementos conformadores, e que se assemelha aos corposmidiáticos das dançarinas de funk e de pagode. No entanto elas reconhecem alimitação do próprio corpo, e da condição socioeconômica de acesso às práticastransformadoras da aparência. As mulheres vivenciam essa limitação como um dadode realidade, e buscam se acomodar a ela procurando modelar o corpo de acordocom as condições estruturais que se lhes apresentam.Palavras-chave: Corpo. Gênero. Exercícios físicos. Identidade Corporal.
  • 6. ABSTRACTThis work has as its object the study of the relationship exercise body and identityconstruction among women attending the Municipal Academy of Pojuca-BA. Theobjective is to analyze the relationship gender and physical exercise materialized in abody identity. It assumes that this practice is crucial in building an identity femalebody, health and beauty are the constituent elements of this identity. It discusses thecentrality of the body in contemporary and increasing physical activity related to it.Specifically, the growing demand by women for the practice of physical exercises.The research is characterized by a qualitative approach. Defines the universe as aresearch group of women attending the Municipal Academy of Pojuca located inPojuca-BA and its research method observational case study.Used as a technique ofdata collection instruments such as participant observation and the recording field,the semi-structured and closed questionnaire. The analysis shows that for womensurveyed exercise, especially weight training, is essential in achieving a bodyperceived as ideal where health and beauty appear as conforming elements, and thatmedia is similar to the bodies of the dancers of funk and pagode. However theyrecognize the limitations of the body, and socioeconomic status on access topractices that transform appearance. Women experience this limitation as a matter offact, and seek to accommodate it looking shape the body according to the structuralconditions that present themselves.Keywords: Body. Genre. Exercise. Corporal Identity.
  • 7. LISTA DE GRÁFICOSGráfico 1 - Indica a faixa etária de todas as mulheres .................................................. 52Gráfico 2 - Indica a distribuição das mulheres quanto o grau de instrução .................. 54Gráfico 3 - Indica a distribuição das mulheres quanto o estado civil ............................ 55Gráfico 4 - Indica há quanto tempo às mulheres frequentam a academia .................... 56Gráfico 5 - Indica os principais motivos que levaram as mulheres a academia ............ 57Gráfico 6 - Indica a primeira parte do corpo que as mulheres gostam de treinar ......... 60Gráfico 7 - Indica a segunda parte do corpo que as mulheres gostam de treinar......... 61Gráfico 8 - Indica a terceira parte do corpo que as mulheres gostam de treinar .......... 62Gráfico 9 - Indica a quarta parte do corpo que as mulheres gostam de treinar ............ 63Gráfico 10 - Indica a quinta parte do corpo que as mulheres gostam de treinar........... 64
  • 8. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 102 O CORPO NA SOCIEDADE OCIDENTAL ....................................................... 122.1 O CORPO DA MODA O CORPO NA MÍDIA .................................................. 142.1.1 O Corpo da moda ...................................................................................... 152.1.2 O corpo propagado na imprensa feminina ............................................. 182.1.3 O corpo propagado na fotografia e no cinema ....................................... 212.1.4 O corpo propagado na televisão e na publicidade ................................. 223 O CORPO DA MULHER: A INTERSEÇÃO ENTRE BELEZA E SAÚDE......... 273.1 AS TRANSFORMAÇÕES DA BELEZA .......................................................... 273.1 SAÚDE E BELEZA NO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XX ....................... 314 O PERCURSO DO CORPO FEMININO PARA A AUTONOMIA: O ESPORTE, OMERCADO DE TRABALHO E O MOVIMENTO FEMINISTA ............................. 344.1 AS MULHERES E AS PRÁTICAS ESPORTIVAS .......................................... 344.2 AS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO E A HERANÇA DOMOVIMENTO FEMINISTA ................................................................................... 355 MODELANDO O CORPO FEMININO: DO ESPARTILHO ÀS PRÁTICASCORPORAIS........................................................................................................ 385.1 A INSTITUIÇÃO DAS PRÁTICAS DE EXERCÍCIOS PARA AS MULHERES SOBO OLHAR HIGIENSITA ........................................................................................ 395.2 AS TECNOLOGIAS DE MODELAGEM DO CORPO ..................................... 415.3 AS ACADEMIAS DE GINÁSTICA E A PRÁTICA DA MUSCULAÇÃO ........... 456 EXERCÍCIOS FÍSICOS E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CORPORALFEMININA: O PERCURSO METODOLÓGICO ................................................... 48
  • 9. 6.1 A ACADEMIA MUNICIPAL DE POJUCA ....................................................... 486.2 A COLETA DE DADOS: A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE, O QUESTIONÁRIO,A ENTREVISTA ................................................................................................... 496.3 CARACTERIZANDO AS MULHERES FREQUENTADORAS DA ACADEMIAMUNICIPAL DE POJUCA .................................................................................... 506.4 AS NARRATIVAS SOBRE IDENTIDADE CORPORAL.................................. 666.4.1 O corpo saudável e belo o corpo belo e saudável ................................. 677 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 80REFERÊNCIAS .................................................................................................... 81APÊNDICE -TERMODE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ............. 83
  • 10. O corpo é uma espécie de escrita viva no qual as forçasimprimem “vibrações”, ressonâncias e cavam “caminhos”. Osentido nele se desdobra e nele se perde como num labirinto onde o próprio corpo traça os caminhos. Daniel Lins
  • 11. 101 INTRODUÇÃO A presente pesquisa se inspira em uma tendência da Educação Físicade aproximação e diálogo com distintos âmbitos acadêmicos, especialmente aantropologia e a sociologia. Esse intercâmbio encontra um espaço privilegiadonos estudos sobre o corpo que trabalham na perspectiva de suadesnaturalização enquanto fenômeno biológico, e o concebem enquanto umaconstrução cultural. Isso significa que “[...] o que define o corpo é o seusignificado, o fato de ele ser produto da cultura, ser construído diferentementepor cada sociedade, e não as suas semelhanças biológicas universais”.(DAOLIO, 1995, p.41). E o corpo sendo uma construção histórica e culturaladquire diferentes significações em diferentes tempos e espaços. No âmbito daidentidade Giddens (2002, p.95) é inspirador ao afirmar que “[...] sua imersãoprática nas interações da vida cotidiana é uma parte essencial da manutençãode um sentido coerente de autoidentidade”. Diante das inúmeras possibilidades de uma reflexão sobre o corpo façoum recorte elegendo o significado das práticas corporais—tema de estudo nalinha de pesquisa da Educação Física Corpo e Cultura— mais especificamenteos exercícios físicos, para as mulheres frequentadoras da Academia Municipalde Pojuca-BA. Busco relacionar a prática de exercícios físicos e a construçãode uma identidade corporal feminina, identidade que pressuponho tenha comoelementos constitutivos a saúde e beleza. Daí emerge a seguinte questão:Qual o significado da prática de exercícios físicos na constituição de umaidentidade corporal feminina entre essas mulheres? Questão que tentoresponder com a elaboração de seis capítulos, dividido em seções, queapresento na sequência e brevemente a seguir. O capítulo intitulado O Corpo na Sociedade Ocidental discorre deforma panorâmica a respeito de como o corpo, em especial o feminino, foiconcebido desde a Antiguidade até o século XXI no Ocidente. Abordo asmudanças ocorridas na forma de conceber o corpo; como tais transformaçõesinfluenciaram a forma como o imaginamos na atualidade, e de que maneira amoda e a mídia participaram desse processo.
  • 12. 11 O capítulo nomeado O Corpo da Mulher: Interseção entre Beleza eSaúde faz uma relação mais estreita entre corpo e gênero. Discorrebrevemente a respeito da concepção de ‘beleza’ e ‘saúde’ na história, e comoesses elementos se tornaram constitutivos da identidade corporal femininaenfocando referências sobre o Brasil. O capítulo O Percurso do Corpo Feminino para a Autonomia: oEsporte, O Mercado de Trabalho e o Movimento Feminista enfatiza o papelda mulher na sociedade ocidental, quando e como este sofre mudanças com aparticipação feminina nos esportes, no mercado de trabalho, com as lutas domovimento feminista que contribuíram para a participação ativa da mulher navida pública. Busca discutir como todos esses fatos afetaram o corpo feminino. O capítulo que tem como título Modelando o Corpo Feminino: doespartilho às práticas corporais aborda a modelagem do corpo através dasdiferentes formas de intervenções que vão do uso do espartilho a pratica deatividades físicas. Destaca a instituição das práticas de exercícios físicos paraas mulheres sob o domínio Higienista. Relata como os avanços científicosproporcionados pela tecnologia proporcionaram a invenção e aperfeiçoamentode equipamentos voltados para a modelagem do corpo. Traz um brevehistórico da prática de exercícios físicos, o surgimento e expansão dasacademias de ginásticas e da musculação mostrando como na atualidade esseespaço, antes marcadamente masculino, tornou-se território de livre acessopara as mulheres. Finalmente, o capítulo Exercícios físicos e a construção daidentidade corporal feminina: o percurso metodológico. Disponibiliza oPercurso metodológico descrevendo o caminho percorrido pela pesquisarealizada entre as mulheres frequentadoras da Academia Municipal de Pojuca.Apresenta os dados coletados que são problematizados com base nasdiscussões teóricas, conteúdo dos capítulos anteriores.
  • 13. 122 O CORPO NA SOCIEDADE OCIDENTAL O corpo como fenômeno social foi concebido de diferentes formas adepender da época e cultura em questão. Em relação à sua centralidade nasociedade contemporânea Le Goff e Truong explicam que [...] o lugar central atribuído ao corpo não é novidade no ocidente. Basta lembrar o culto de que ele foi objeto na Grécia Antiga, por exemplo, quando seu arrebatamento e sua estetização ultrapassaram amplamente a cultura do corpo praticada na Idade Média pelos cavaleiros nas guerras e nos torneios, ou pelos camponeses nos jogos rústicos. Mas, ainda que se assista na Idade Média a uma derrocada das práticas corporais, assim como a supressão ou ainda ao confinamento dos lugares do corpo da Antiguidade, o corpo se torna paradoxalmente o coração da sociedade medieval. (LE GOFF; TRUONG, 2006, p. 31). O corpo na Idade Média viveu um paradoxo: por um lado, o cristianismoreprimia-o constantemente por considerar o corpo perigoso, lugar de tentação.Por outro, era glorificado, pois, quando bem governado, poderia se tornar meioe lugar de salvação. Para a igreja o corpo também era sagrado, morada daalma, não poderia ser violado, profanado. Essa concepção de corpo diretamente associada à religião ao sagradoexpressa, segundo Le Goff e Truong (2006, p. 11). A dinâmica da sociedade e da civilização medievais que resulta de tensões entre Deus e o homem, entre o homem e a mulher, entre a cidade e o campo, entre o alto e o baixo, entre a riqueza e a pobreza entre a razão e a fé, entre a violência e a paz. O corpo estando aprisionado à experiência religiosa praticamente quasetudo relacionado a ele era considerado heresia, pecado. “O corpo cristãomedieval é em parte atravessado por uma tensão, esse vaivém, essa oscilaçãoentre a repressão e a exaltação, a humilhação e a veneração”. (LE GOFF;TRUONG, 2006, p.13). Se na Grécia Antiga a valorização do corpo, o masculino, estavarelacionada à exibição de um corpo forte, exercitado, de acordo com os
  • 14. 13padrões da época; a Idade Média, ao contrário, esconderia o corpo atrás demisticismos, mitos religiosos, superstições. E a Igreja reprimiria o corpo,controlando-o de todas as formas. Principalmente o corpo feminino que eraassociado aos pecados como vaidade, infidelidade, desobediência e luxúria. A mulher perigosa por sua beleza, por sua sexualidade, por sua associação com a natureza, inspirava toda a sorte de preocupações dos pregadores católicos. Não foram poucos os que fustigaram o corpo feminino, associando-o, conforme a teologia cristã, com um instrumento do pecado e das forças. (DEL PRIORE, 2000, p.8). Já no Período Renascentista, a concepção de corpo, ao mesmo tempoglorificado e humilhado, muda drasticamente, pois começa haver umapreocupação com a autonomia do sujeito. De acordo com Le Goff e Truong(2006, p.12). “As revoluções do artesanato aproximam-se do nascimento daindústria: o ofício de tecelão se aperfeiçoa, a fabricação de tecidos sedesenvolve e a realização terrena passa a ser valorizada”. E nesse processode transformações passa a ser valorizado o pensamento científico juntamentecom o estudo do corpo pela medicina. Um período, segundo os autores,marcado por uma racionalidade científica. Além disso, as artes aparecem comouma instância de valorização do corpo. Le Men fala de uma [...] redescoberta do corpo, principalmente, no que diz respeito às artes. No salão de 1831, Delacroix expôs um grande quadro que causou, ao mesmo tempo, admiração e escândalo, La Liberté guidant le peuple (A Liberdade guiando o povo);escalando uma barricada, sob a qual jazem os cadáveres de um homem semi nu, de um guarda suíço e de um soldado da guarda real. (2008, p.141). Na Idade Moderna, a fé é substituída pela razão e pela ciência, e adominação do corpo pelo cristianismo se fragmenta, os indivíduos passam adissociar o corpo do espírito. O fato é que as representações históricas docorpo humano tiveram diferentes concepções no decorrer da história dassociedades. Ainda como afirma Le Goff e Truong “[...] a concepção do corpo,seu lugar na sociedade, sua presença no imaginário e na realidade, na vida
  • 15. 14cotidiana e nos momentos excepcionais sofreram modificações em todas associedades históricas”. (2006, p. 1). Tem-se que considerar que a concepção do corpo foi sendo influenciadapor vários fatores como a religião, a filosofia, a ciência, a educação, a política eas artes e esses mecanismos sempre estiveram presentes, de diversas formasno pensamento e na cultura de um modo geral contribuindo diretamente noprocesso de subjetivação do corpo. Segundo Del Priore (2000) contemporaneamente compartilhamos umdiscurso de apologia ao corpo, glorificado em sua força e beleza. Evivenciamos a tríade beleza, juventude e saúde. A associação entre juventude,beleza e saúde, modelo das sociedades ocidentais, aliada às práticas deaperfeiçoamento do corpo, intensificou-se principalmente no século XXI.Portanto, na atualidade o corpo, em especial o feminino, deve ser desenhadopara e sob o olhar do outro. E deve estar compatível com os desejos de umpadrão corporal dito ideal. Visto que estamos vivendo um período em que ocorpo tem que ser completamente compacto, firme, enxuto, recheado porformas metrificadas, com musculatura definida, jovem e sem marcas para serum corpo bonito. E a mídia tem mostrado que entre as mulheres contemporâneas emergea necessidade de cuidarem de seus corpos, não só para ficarem saudáveis,mas principalmente para serem bonitas e jovens eternamente. Sendo assim,modelar o corpo é a exigência atual, seja através de práticas esportivas,através de cirurgias plásticas, ou do uso de determinadas roupas quedisfarçam as formas indomáveis de algumas mulheres, ou o uso de produtos etécnicas de embelezamento e rejuvenescimento. Le Breton (2003, p.28) afirmaque: “Para muitos contemporâneos, o corpo tornou-se uma representaçãoprovisória, um gadget, um lugar ideal de encenação de ‘efeitos especiais’”. Nosdia de hoje, a tal promessa do corpo ideal conquistou um espaço inédito namídia e uma banalização importante no cotidiano. Cirurgias, implantes desilicones, esteróides anabolizantes compõem um arsenal contemporâneodiversificado, que está redimensionando o corpo numa velocidade curiosa.
  • 16. 152.1 O CORPO DA MODA O CORPO NA MÍDIA2.1.1 O corpo da moda O século XX assistiu a uma mudança radical do corpo e principalmenteda silhueta feminina e a magreza ativa passou a ser sinônimo de corpo jovem ebelo. Os corpos das mulheres e as formas se alongaram, as linhas do corpoganharam autonomia e liberdade. Foi instituído um corpo magro e alongadocomo um corpo saudável. Lipovetsky explica esse fato da seguinte maneira:“[...] o que vemos exprime antes de tudo o apogeu de uma dinâmica ligada àsmetamorfoses da cultura de massa, da moda e dos lazeres nas sociedadesmodernas de cem anos para cá”. (LIPOVETSKY, 2000, p.137). Na Europa, de onde vinham todas as modas, a entrada da mulher nomundo do exercício sobre bicicletas, nas quadras de tênis, nas piscinas epraias, trouxe também a aprovação de corpos esbeltos, leves e delicados. Umoutro modelo de corpo se impõe e tem início a moda da mulher magra. (DELPRIORE, 2000, p.66). “Deixando para trás o ideário de mulher, da época daRenascença, em que o corpo feminino era farto, com seios grandes, ancaslargas”. E surge o padrão corporal de beleza que acompanhou as mulheres doséculo XX e acompanham as mulheres da atualidade: corpos magros e semexageros que simbolizam a elegância e o poder. “A ideia de beleza varia. Elaagora reside na esterilidade de mulheres alongadas, donas de flancospequenos”. (DEL PRIORE, p.68). Assim, encontrar-se atenta às medidas e aopeso, tornou-se indispensável para a vida das mulheres. Sem deixar deesquecer que esse padrão do corpo magro e sem excessos não perseguesomente as mulheres, mas os homens também. Evidentemente, as mulheres são muito mais “tiranizadas” do que os homens, muito mais atingidas do que eles pelo ideal do corpo sem gordura. Mas também é verdade que estes, em nossas sociedades, querem igualmente emagrecer, vigiam seu peso e sua alimentação, fazem exercícios físicos para manter a linha e a forma. (LIPOVETSKY, 2000, p.136). Com a modificação dos corpos femininos uma série de objetos, produtose utensílios passam a povoar o imaginário das mulheres. “No decorrer doséculo XX a mulher se despiu”. (DEL PRIORE, 2000, p.11). E para cobrir o
  • 17. 16corpo a mulher passa então a utilizar outros métodos. A solução foi cobri-lo decremes, vitaminas, silicones e colágenos. “A pele tonificada, alisada, limpa,apresenta-se idealmente como uma nova forma de vestimenta, que não enruganem “amassa” jamais”. (DEL PRIORE, 2000, p.11). Segundo Sant’Anna (2005,p.137) “a maquiagem mais perfeita de toda mulher se torna a sua própria pele,diariamente submetida aos tratamentos embelezadores”. Portanto, a mulher querendo ser moderna muda literalmente a sua formade ver e sentir o próprio corpo: os cabelos curtos, as pernas finas, os seiospequenos eram percebidos por muitos homens como uma negação dafeminilidade. O movimento, contudo, estava lançado. Regime e musculação“[...] começavam a modelar as compleições longilíneas e móveis que passarama caracterizar a mulher moderna, desembaraçada do espartilho e ao mesmotempo, de sua gordura decorativa”. (DEL PRIORE, 2000, p.68). “As carnudas estrelas dos anos 50, como Marilyn Monroe, Sophia Lorenou Anita Ekberg, foram substituídas, nos anos 60, por criaturas esquálidas”.(DEL PRIORE, 2000, p.89). “[...] nascendo o novo modelo corporal de mulheresque são: Kate Moss, Claudia Schiffer, entre outras”. (DEL PRIORE, 2000,p.89). Mulheres estas que são extremamente magras. “Tornar-se um saco deossos parece o ideal da mulher contemporânea”. (DEL PRIORE, p.91). Nos anos 70 “[...] desembarcam no Brasil, junto com as bonecas Barbienumerosas máquinas e técnicas do corpo, instrumentos de um verdadeiromarketing de vivências corporais: o boby business”. (DEL PRIORE, 2000,p.91). Sendo que o Brasil desde que era colônia de Portugal já importavamodelos, que na maioria das vezes não tinha nada a ver com a nossarealidade. As mulheres brasileiras mergulharam em um universo depossibilidades em produtos e serviços destinados ao melhoramento e cuidadosdo corpo. O corpo numa sociedade de abundância industrial tinha uma novatarefa: ser um corpo consumidor em cada uma das suas partes individualizadase cuidadas. Para as unhas, esmaltes e lixas. Para os cabelos, xampus, tinturas, secadores. Para o corpo, bronzeadores, hidratantes, sabonetes cremosos e desodorantes. Difundindo padrões de beleza, as imagens publicitárias de produtos nunca dantes
  • 18. 17 vistos refletem-se no público feminino. (DEL PRIORE, 2000, p.91). E atualmente as mulheres brasileiras querendo obter resultados rápidose sem esforços passaram a aderir às cirurgias plásticas. Segundo a SociedadeBrasileira de Cirurgia plástica, [...] o brasileiro, especialmente a mulher brasileira, tornou-se, logo após o norte-americano, o povo que mais faz plástica no mundo. As mulheres são a esmagadora maioria. (GOLDENBERG, 2007, p.25). No Brasil nos dias atuais, nos deparamos com a valorização de umdado padrão de beleza, aquele do corpo belo, jovem e sempre em forma a serconquistado a partir de múltiplas possibilidades de intervenção: dietas,cosméticos, cirurgias plásticas, ginásticas, medicamentos. Outra técnica muitodifundida no país na atualidade é o implante de silicone. “Nos últimos 12 anos,a cirurgia de implante de prótese de silicone cresceu 360% no Brasil”.(GOLDENBERG, 2007, p.26). As mulheres brasileiras estetizam o próprio corpo, tanto pela roupa,quanto pela maquiagem e adereços, exercícios físicos, dietas e recursostecnológicos. Determinado modelo de corpo, no Brasil de hoje, é um valor, um corpo distinto, um corpo aprisionado e domesticado para atingir a “boa forma”, um corpo que distingue como superior aquele que o possui, um corpo conquistado por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício. (GOLDENBERG, 2007, p.29). E hoje mais do que nunca. No caso brasileiro, [...] as mulheres imitáveis, as mulheres de prestígio, são, atualmente, as modelos, atrizes, cantoras e apresentadoras de televisão, todas elas tendo o corpo como o seu principal capital, ou uma de suas mais importantes riquezas [...]. (GOLDENBERG, 2007, p.23). Observa-se hoje no Brasil principalmente a valorização de um padrãocorporal em que o corpo é totalmente esculpido por exercícios físicos e
  • 19. 18cirurgias estéticas. Um grande exemplo disso são as mulheres “frutas” 1 e ascantoras de funk com seus corpos turbinados e siliconados que fazem grandesucesso no país. Figura 1- Suellen Aline Mendes Silva- Mulher Pera Diante disso, as singularidades e diferentes modelos corporais sãodesconsiderados, em virtude da divulgação de um único modelo de corpo.2.1.2 O Corpo Propagado na imprensa feminina No século XX, a mídia assumiu o posto, anteriormente ocupado pelosartistas do passado, de divulgadores do modelo ideal de beleza corporal1 “Mulheres-fruta é a designação dada a um fenômeno do funk carioca surgido na primeiradécada do século XX, quando uma série de dançarinas começou a ganhar destaque no cenáriodo funk brasileiro. O sucesso logo se espalhou para outras mídias, sendo citadas desde apágina da Academia Brasileira de Letras” (WIKIPÉDIA, 2012).
  • 20. 19feminino. “Desde a Antiguidade, a beleza feminina é celebrada pelos artistas[...]”. (LIPOVETSKY, 2000, p.169). Esses artistas pintavam em seus quadrosimagens de mulheres que na época idealizavam a beleza feminina, pois para operíodo o único recurso disponível para propagar as imagens era através daspinturas. Os grandes pintores do período – pensemos, por exemplo, em Veronese, o veneziano – preferiam mulheres de cabelos claros, ondulados ou anelados, com rosto e colo leitoso como pérola, bochechas largas, fronte alta, sobrancelhas finas e bem separadas. O corpo devia ser “entre o magro e o gordo, carnudo e cheio de suco”. (DEL PRIORE, 2000, p. 18). Para Del Priore (2000), no século XVI, o corpo feminino para ser belotinha que obedecer aos critérios de beleza que o artista Veronese retratou emsua obra a bela Nani. Que ficou sendo o ideal de beleza feminina doRenascimento. Consequentemente o padrão corporal feminino estabelecido nasociedade do período. Eram corpos volumosos e rotundos. Nessa época agordura era um sinônimo de saúde, beleza e sedução. Figura 2- La Bella Nani de Veronese Em 1450, com a invenção da imprensa por Gutenberg, ocorremmudanças relacionadas à divulgação e propagação de informações. Com isso,um século depois, em 1554, é publicada uma revista destinada ao públicofeminino. Que “[...] começa a circular em Veneza com o nome Il libro della belladonna, de F. Luigi”. (DEL PRIORE, 2000, p.100). A partir de então, o fenômenoda revista feminina, desde os seus primórdios, de modo crescente manteve
  • 21. 20conquistando seu espaço na vida das mulheres. “Nas últimas décadas doséculo XIX a imprensa feminina torna-se uma imprensa de grande difusão.”(LIPOVETSKY, 2000, p.155). E entre 1900 e 1930, as revistas e os jornais ficaram responsáveis pelarepresentação e divulgação da beleza e do padrão corporal feminino. Ainda deacordo com Lipovetsky (2000, p.154). Com a imprensa feminina moderna, a difusão social dos modelos estéticos mudou de escala, pouco a pouco as representações e as mensagens ligadas à beleza feminina deixaram de ser signos raros, invadiram a vida cotidiana das mulheres de todas as condições. As revistas voltadas para o público feminino davam ênfase nesseperíodo ao discurso dos médicos e higienistas, que na época propagavam aideia de que para as mulheres se tornarem belas era preciso mudar os seushábitos de vida: Vejamos o conselho da Revista Feminina, de outubro de 1920: As feias [...] não devem fingir-se belas. Contentem-se em ser feias, tratem de educar seu espírito, de viver higienicamente para adquirir saúde, de nutrir-se convenientemente, de ser simples, bem-educadas e meigas. A vida higiênica, a boa nutrição, os esportes garantir-lhes-ão a saúde, a boa pele, os bons dentes, a harmonia das formas, o desembaraço dos gestos e a graça das atitudes; a leitura sã, o cultivo do espírito, dar-lhes-ão inteligência e a fronte; a bondade, a simplicidade, a meiguice torná-las-ão perturbadoramente simpáticas. Deixarão, pois, de ser feias; ou, se continuam feias, valerão mais do que as belas, terão mais prestígio pessoal, impor-se-ão às simpatias gerais. (DEL PRIORE, 2000, p.72). Em períodos anteriores, os segredos de beleza eram assim transmitidossegundo Lipovetsky (2000, p.158): “[...] tradicionalmente, as mulherestransmitiam suas receitas de beleza entre amigas ou entre mães e filhas [...]”. Eainda de acordo com o mesmo autor tinham obras que traziam o nome desegredos dirigidos a um público restrito, propunham receitas de perfumes e demaquiagens a serem confeccionados em casa. “[...] foi essa culturaconfidencial e “mágica” que a imprensa feminina destruiu”. Aos “[...] truquescochichados entre mulheres sucederam as seções “beleza higiene saúde” [...]”.(LIPOVETSKY, 2000, p. 158).
  • 22. 21 É nas últimas décadas do século XIX que a imprensa feminina torna-seuma imprensa de grande difusão, mas é, sobretudo a partir da década de 1930que ela exalta o uso dos produtos cosméticos, e encoraja as mulheres dequalquer condição a realçar por todos os meios possíveis a beleza do rosto edo corpo. [...] a imprensa feminina se impôs como agente de democratização do papel estético da mulher, como uma das grandes instituidoras da beleza feminina moderna, ao lado das estrelas do cinema. (LIPOVETSKY, 2000, p.157). Nas revistas femininas dos anos 60 do século 20, os especialistasdissertavam sobre cuidados com o corpo em diferentes abordagens:alimentação, dietas, sexualidade, moda, beleza e exercícios físicos. As revistase manuais, de beleza também se tornaram mais adeptos à suavidade e aoprazer do embelezamento. Os manuais de beleza começam a ser escritos cada vez mais pelos novos profissionais de beleza: modelos, esteticistas, esportistas, etc. Eles se preocupam menos em reforçar os laços entre a dignidade moral e a beleza e, cada vez mais, em detalhar as regras de embelezamento. Ao invés de fazer o elogio dos antigos modelos de beleza, eles preferem visar o potencial das leitoras, apreendidas a partir de suas especificidades físicas e psíquicas. Emancipados do domínio médico e higienista, os cuidados de beleza se tornam tão sedutores quanto a bela aparência das modelos e artistas que os recomendam. (SANT’ANNA, 2005, p.135). Ao longo do século XX, a imprensa feminina adquiriu um imenso poderde influência sobre as mulheres. Generalizou a paixão pela moda, favoreceu aexpansão social dos produtos de beleza, “[...] contribuiu para fazer daaparência uma dimensão essencial da identidade feminina para o maiornúmero de mulheres”. (LIPOVETSKY, 2000, p.164). Embora a mídia feminina tenha contribuído para a configuração estéticadas leitoras não se pode negar que, segundo Lipovetsky (2000, p.168). [...] folheando as páginas ilustradas das revistas, as mulheres selecionam tal tipo de maquiagem, tal modelo de penteado ou de traje, escolhem, eliminam, retêm o que corresponde à sua personalidade, às suas expectativas, aos seus gostos. Consumidoras de imagens, nem por isso as mulheres são menos protagonistas, fazendo um uso pessoal e “criativo” dos modelos propostos em grande número. Evitemos diabolizar a
  • 23. 22 mídia feminina: é preciso interpretar sua ação ao mesmo tempo como um meio de direção coletiva dos gostos e como um vetor de personalização e de apropriação estética de si. Evidentemente, as mulheres imitam modelos, mas, aqueles queacreditam possíveis de tomar para si, e de acordo com a sua autoimagem.2.1.3 O corpo propagado na fotografia e no cinema Além das revistas, a fotografia e o cinema participam da constituição,nas sociedades da época, de um novo padrão corporal feminino. [...] a fotografia, o cinema e a imprensa divulgavam padrões que deviam ser seguidos, excluindo aqueles que deles não se aproximassem. Tipos femininos criados por Clara Bow, Alice White, Collen Moore incentivavam imagens sobre “garotas modernas”, misto de alegria, mocidade, jazz e coktails. (DEL PRIORE, 2000, p.72). A partir do entre guerras os padrões de beleza e o imaginário acerca docorpo feminino sofreu uma grande influência da indústria do cinema. A fábricade sonhos hollywoodiana criava e recriava mundos, temas, hábitos, heróis,valores, conceitos, criava novas referências e difundia cultura. Outros padrõesde beleza feminina foram estabelecidos na sociedade da época, novosprodutos cosméticos e novos modismos foram criados a partir de um mercadoeditorial que se fortaleceu e expandiu no mundo levando as novas tendências adiferentes lugares. Graças ao cinema americano, novas imagens femininas começam a multiplicar-se. A moda foi uma das principais articuladoras do novo ideal estético imposto pela indústria cinematográfica americana. Não era mais Paris quem a ditava, mas os estúdios de Hollywood. Nas páginas de revistas como Cinearte podiam encontrar-se às dezenas, artigos com títulos sugestivos: ‘ O que as estrelas vestem’, “Cabelos curtos ou cumpridos”? [...]. (DEL PRIORE, 2000, p.74). E segundo Vigarello apud Ferreira (2010), o cinema brincava com oscorpos, com a luz, com a tela, com os sentidos do espectador, deslocando-o noespaço e no tempo, criando novos gêneros de beleza, modelando os corpos eajustando-os aos novos estilos. O padrão corporal das estrelas passava a serbuscado, trabalhado e construído arduamente através de exercícios queenvolviam disciplina, cultura física e regime. Um grande sonho social é criado apartir desse novo padrão de beleza. Cria-se uma pedagogia de massa que
  • 24. 23pretendia promover a beleza a partir do próprio público. Ele agora éresponsável por seu próprio corpo e por sua própria beleza, ele não pode senegligenciar, pois um anônimo pode se transformar e a partir de seu própriomérito se tornar uma estrela admirável.2.1.4 O corpo propagado na televisão e na publicidade Com a expansão e aprimoramento de um dos mais revolucionáriosmeios de comunicação, de informação e entretenimento de massa, a televisão,um novo padrão corporal de beleza feminina passa a ser mais acessível adiferentes classes sociais. Ao contrário do jornal, da revista e do cinema elaconsegue abranger um maior número de pessoas e informar como ele deve secomportar, como consumir os produtos, ideias, comportamentos e moda. Comodeve fazer para ter um corpo belo, jovem e saudável. A reprodução e divulgação do padrão corporal feminino deixaram deficar somente na responsabilidade dos artistas de outrora e passoudefinitivamente na atualidade a ser responsabilidade dos meios decomunicação como: jornal, revistas, fotografia, cinema e televisão. Assim, os meios de comunicação divulgam e reproduzem o ideal debeleza corporal que está sendo valorizado na sociedade que serve de modelo: O conjunto de hábitos, costumes crenças e tradições que caracteriza uma cultura também se referem ao corpo. Assim, há uma construção cultural do corpo, com uma valorização de certos atributos e comportamentos em detrimentos de outros, fazendo com que haja um corpo típico para cada sociedade. Esse corpo, que pode variar de acordo com o contexto histórico e cultural, é adquirido pelos membros da sociedade por meio da “imitação prestigiosa”: os indivíduos imitam atos, comportamentos e corpos que obtiveram êxito e que viram ser bem-sucedidos. (MAUSS apud GOLDENBERG, 2005, p.35). E no século XX, a publicidade foi mais um desses mecanismos queinfluenciou o ideal de beleza feminina modificando conceitos e regrasreferentes ao corpo e a beleza feminina. “[...] as regras de beleza prescritaspelos médicos e moralistas das décadas anteriores se tornam insuficientes,austeras e ultrapassadas”. (SANT´ANNA, 2005, p.128). Isto porque apublicidade também passou a ditar os ideais de beleza e aparência feminina. Eestando a publicidade vinculada à indústria da beleza não demorou muito para
  • 25. 24que os produtos de beleza se associassem a publicidade. Até porque apublicidade estava intrinsecamente ligada aos conceitos e modelos de beleza,que começavam a propagar nos discursos publicitários. A publicidade passa,então, a ditar também as novas regras de beleza feminina. [...] a publicidade anterior aos anos 50 não hesita em descrever detalhadamente os sofrimentos resultantes da falta de beleza. Vítima do acaso, uma “coitada, alvo de todo tipo de chacota, a mulher considerada feia é uma figura extremamente importante para as didáticas ilustrações publicitárias do passado. Nelas, a imagem da feia serve como um contraexemplo, como aquilo que é antes do uso do produto anunciado. (SANT’ ANNA, 2005, p.127e128). Na imagem do corpo feminino, a beleza transmitida na publicidade e osprodutos associados a ela passaram por transformações ao longo dos anosdevido às conquistas que as mulheres alcançaram na sociedade e asmudanças de hábitos e comportamentos: [...] os produtos de beleza foram se adaptando para a nova mulher que vinha surgindo. Diante da suavidade e da transparência dos novos cremes de beleza, os cremes brancos e espessos se tornam grosseiros e antiquados, pois eles não permitem que a mulher possa utilizá-los fora de casa e durante todo dia. Da embalagem ao conteúdo, os produtos de beleza serão cada vez mais solidários à mulher que passa o dia fora de casa, mais adequados ao transporte em bolsas e ao uso rápido e constante. Produtos que aplicados sobre a pele tornam-se invisíveis, uma segunda pele imperceptível. (SANT´ANNA, 2005, p.135). Mas, foi no século XXI que a mídia assumiu definitivamente o posto dedifusora e representante do ideal de beleza corporal feminina.com umapresença cada vez maior na vida cotidiana. Sem deixar de esquecer que asimagens de corpos veiculadas dentro de uma sociedade, é construída pelaforma como os seus integrantes percebem, lidam e vivem com seus corpos eos corpos dos outros. Enfim, percebe-se que muitos fatores influenciaram einfluenciam o universo feminino com relação ao corpo e a beleza. Entretanto,essa transformação na concepção de beleza e no desejo das mulheres emobter um corpo belo e uma aparência ideal acompanha as necessidades epossibilidades das mulheres de cada época, sendo influenciadas por diversosfatores.
  • 26. 25 Autoras como Sant’Anna (2005) e Del Priore (2000) consideram que naatualidade os meios de comunicação e a publicidade deram onipresença aocorpo feminino que com isso adquiriu aspectos cada vez mais evidentes e maisparadoxais. Pois, vive em meio à inflação de imagens mostrando atrozes sofrimentos físicos, também ficam diariamente incitadas a ver silhuetas magnificamente bem cuidadas, expressões vitoriosas de saúde e alegria, incessantemente difundidas pela publicidade. (SANT´ANNA, 2005, p.67). Para Del Priore (2000), a mídia vem colaborando para que uma grandeparcela das mulheres tenha uma preocupação excessiva com a imagem,valorizando a beleza, magreza, juventude e vigor. Sendo forçadas a se colocara serviço dos seus próprios corpos. Essa sendo, sem dúvida, uma outra forma de subordinação. Subordinação, diga-se, pior do que a que se sofria antes, pois diferentemente do passado, quando quem mandava era o marido, hoje, o algoz não tem rosto. É a mídia. São os cartazes da rua. O bombardeio de imagens na televisão. (DEL PRIORE, 2000, p.15). Ainda para a autora, existe uma radicalização compulsiva e ansiosa queempurrou as mulheres nos últimos dez anos, e a segue empurrando para atríade abençoada pela mídia: ser bela, ser jovem, ser saudável. Que graças àsupremacia das imagens, exibidas na mídia instaurou-se a tirania da perfeiçãofísica. Hoje, quase todas as mulheres querem ser magras, leves, turbinadas.Parecem querer participar da sinfonia do corpo magnífico. Pois, o corpofeminino belo está constantemente presente na televisão, no rádio, nas mídiasimpressas, no cinema e atualmente na internet. Por outro lado Marinho (2006, p. 06) ao se reportar a Lipovetsky chamaa atenção para o fato de que [...] de todos os lados jorram críticas contra a tiranização da mídia como meio de propagação social das normas do corpo esbelto e da eterna juventude. No entanto, para Lipovetsky, (2000) a mídia, e de forma mais específica, a imprensa feminina, representariam muito mais um pluralismo estético do que a erradicação das diferenças e a homogeneização da beleza. Antes de tudo, sua influência se exerceria apenas com base numa demanda feminina de beleza que as mídias, evidentemente, não criaram. O autor não nega o poder de
  • 27. 26 conformação estética da mídia feminina, mas lembra que as leitoras de revistas não se assemelham sistematicamente a seres passivos, conformistas e desvalorizados na imagem que têm de si pelo brilho das fotografias de moda. Estas funcionam ainda como sugestões positivas, fontes de idéias que permitem mudar o look, valorizar-se, tirar melhor partido de seus triunfos. Lembra ainda que para Lipovetsky (2000). Não se trata de deixar de considerar as atribuições da mídia na propagação de uma certa maneira de fazer, um modo de se comportar em função de sua força e vigência na cultura ocidental como um todo. O autor reconhece sua presença no processo de instauração e solidificação do regime capitalista das sociedades modernas, bem como na cultura contemporânea. [...] para o autor é preciso interpretar sua ação ao mesmo tempo como um meio de direção coletiva dos gostos e como um vetor de personalização e de apropriação estética de si. (MARINHO, 2006, p. 06). Mas adiante apresento algumas considerações sobre o comportamentode um grupo de mulheres pesquisadas em relação à propagação de ummodelo de corpo pela mídia e volto a esta questão.
  • 28. 273 O CORPO DA MULHER: A INTERSEÇÃO ENTRE BELEZA E SAÚDE3.1 AS TRANSFORMAÇÕES DA BELEZA Como um dos elementos constitutivos da significação do corpo a belezaenquanto fenômeno social vai ser experenciada de diferentes formas emdiferentes tempos e espaços. Segundo Lipovetsky apud Marinho (2006), abeleza feminina encontrava-se na antiguidade, restrita às condições de classe;e também, se deparava com a resistência por parte de uma culturapederástica, que privilegiava a beleza dos homens, e de uma misoginia queassemelhava a beleza feminina a uma armadilha maléfica. Na Grécia , assimcomo nas outras civilizações antigas, a beleza feminina está sempre carregadade ressonâncias negativas. Foi de “Pandorra que saiu a corja maldita dasmulheres e é a beleza de Helena que serve de pretexto à guerra contra Tróia”.(LIPOVETSKY apud MARINHO, 2006, p. 11). Esta hostilidade e suspeita emrelação à aparência feminina prolongou-se por toda a Idade Média. Essa percepção da beleza estava associada à condição de submissãoda mulher atravessando o tempo desde a antiguidade. A mulher eraconsiderada um ser mais frágil e incapaz para assumir a direção e chefia dogrupo familiar. Segundo Lipovetsky (2000, p.106). Na sociedade primitiva, a divisão sexual das tarefas se organiza de tal sorte que se afirma por toda parte a supremacia do homem. As atividades nobres e valorizadas são as exercidas pelos homens; as funções subalternas e desprezadas, ao contrário, cabem as mulheres. Mas segundo Del Priore (2000, p.14) “na outra ponta dessa submissão,a mulher era senhora de beleza e sensualidade”. No entanto, para a autora abeleza é percebida como atributo perigoso, pois capaz de perverter os homens.Sensualidade mortal, pois se comparava a vagina a um poço sem fundo, noqual o sexo oposto naufragava.
  • 29. 28 A partir do século XVI temos a descoberta da beleza feminina como umabeleza espiritualizada2 e que, de acordo com Lipovetsky apud Marinho (2006,p.11), até o século XVIII dominou uma concepção tradicional da beleza quetem por característica fundamental não separar a beleza física das virtudesmorais. Mas, a beleza feminina ainda também denotava medo e desconfiança.“A esposa bela demais pode permanecer honesta?” (LIPOVETSKY, 2000,p.171). A mulher bonita não era digna de confiança. Del Priore (2000) mostra como o corpo da mulher era retratado de formadesvalorizada e posto em segundo plano na sociedade ocidental. A mulher erasinônimo de sexo belo ou sexo frágil que era vinculado às imagens de belezaou de saúde. “[...] no passado, o corpo da mulher, era visto com as marcas daexclusão e da inferioridade. Cristalizada pelas formas de pensar de umasociedade masculina [...]”. (DEL PRIORE, 2000, p.14). O argumento da diferença biológica entre homens e mulheres favoreceua construção de um discurso justificador das desigualdades sociais. Nestediscurso, as diferenças decorreriam das distinções biológicas entre os sexos, eprevaleceu durante muitos séculos na sociedade ocidental. “Segundo osmédicos setecentistas, o corpo feminino era menor, seus ossos pequenos,suas carnes moles e esponjosas, seu caráter, débil”. (DEL PRIORE, 2000,p.14). Não diferente das mulheres das outras sociedades e culturas, a mulherno Brasil colônia tinha a sua formação toda voltada para o casamento, semdireitos de mandos e opiniões, viviam submissas aos seus maridos e trancadasem seus lares. Segundo Del Priore (2000, p.50). “[...] as mulheres poucosaíam, pouco caminhavam [...]”. As mulheres viviam dominadas pelos pais,maridos, invisíveis em um mundo em quem mandava eram os homens e elassimplesmente obedeciam. Gilberto Freire (2003, p.208) registrou que:2 O humanismo da renascença foi acompanhado de uma nova significação da beleza feminina,em ruptura com sua diabolização tradicional. “[...] Longe de ser pura aparência sensível, abeleza é apresentada como ‘esplendor da face divina’, manifestação de sua perfeição e de suasabedoria. Ganhando uma dimensão metafísica” (LIPOVETSKY, 2000, P.115).
  • 30. 29 [...] a extrema diferenciação e especialização do sexo feminino em “belo sexo” e “sexo frágil”, fez da mulher de senhor de engenho e de fazenda e mesmo da Iaiá de sobrado, no Brasil, um ser artificial, mórbido. Uma “doente, deformada no corpo para ser a serva do homem e a boneca de carne do marido”. As mulheres mesmo trancadas em suas casas, uma rede de objetos,matérias, cores e odores buscava transformar o corpo feminino. “Dissimular,apagar, substituir as imperfeições graças ao uso de pós, perucas, unguentos,espartilhos e tecidos volumosos era comum”. (DEL PRIORE, 2000, p.14). Para Sant’Anna (2005, p.67) “[...] a ideia de que a beleza está para ofeminino assim como a força está para o masculino, atravessa os séculos e asculturas”. “E lá no século XVI entre as mulheres, já circulavam livros de receitas– os segredos – de beleza”. (DEL PRIORE, 2000, p. 23). Nessa época a belezafeminina começava a ganhar um novo aliado os cosméticos, e novos hábitosque até então eram ignorados. A depilação das sobrancelhas, a pintura dos olhos e dos lábios, a coloração das maçãs do rosto, o relevo dado à fronte atestavam uma nova representação da mulher. Preparações variadas desdobravam-se em maquilagens pesadas, muito parecidas a máscaras. (DEL PRIORE, 2000, p.23). Para que a beleza e a preocupação feminina com relação ao corpo secristalizassem na sociedade ocidental foi necessário que ocorressemmudanças na estrutura econômica e social nas sociedades ocidentais. Deacordo com Lypovetsky (2000, p.107). Para que adviesse a idolatria do belo sexo, foi preciso – condição necessária, mas, por certo, não suficiente – que surgisse a divisão social entre classes laboriosas, tendo como correlato uma categoria de mulheres isentas do trabalho. E essas novas condições sociais permitiram relacionar mais estreitamente feminidade e práticas de beleza: nas longas horas de ociosidade de que dispõem as mulheres das classes superiores, elas passam a se dedicar a maquiar-se, enfeitar-se, fazer-se belas para se distrair e agradar ao marido. No século XVII, a preocupação maior com o embelezamento femininoera com o rosto “[...] o investimento maior concentrava-se no rosto, locus porexcelência da beleza. As outras partes do corpo eram menos valorizadas”.
  • 31. 30(DEL PRIORE, 2000, p.29). Até porque ficavam cobertas pelas roupascompridas. Roupas que demonstravam status social3. Dentro desse contexto referente à beleza feminina, o uso de cosméticospelas mulheres estava sob o olhar sempre condenatório de maridos, padres emédicos. “A crítica regular do uso excessivo de tintas, besuntos, cremes eunguentos acumulava-se. Perseguia-se a possibilidade de ver a mulherassemelhar-se às cortesãs ou prostitutas”. (DEL PRIORE, 2000, p. 30). Mas ouso de cosméticos pelas mulheres da época era meio contraditório. “O curiosoé que o limite entre a cosmética saudável, aquela capaz de sanar males edoenças, e a cosmética para “embelezar” era estreito”. (DEL PRIORE, 2000, p.30). Naquele período a cosmética estava fortemente vinculada aos cuidadosmédicos. “[...] a ideia fundamental consistia em esconder os males de maneiraartificial”. (DEL PRIORE, 2000, p.29). Outro elemento bastante valorizado no contexto social e culturalreferente à beleza feminina era os cabelos compridos. Algo que “[...] marca oideal de beleza feminina também aqui no Brasil no inicio do século XVIII. Eramcabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável”; como aindaressalta Del Priore (2000, p.26). Ainda de acordo com a autora “[...] numa época em que o dimorfismosexual era lei, a figura feminina era marcada, nas partes baixas do corpo, pelascurvas, e no rosto pelos signos da feminilidade”. Del Priore (2000, p.24). Osvalores sexuais com relação ao corpo feminino ainda continuavam forte aqui noBrasil colônia. Pode-se dizer que até a primeira metade do século XIX o valor damulher estava muito mais ligado à sua capacidade reprodutiva do que à beleza.3 A roupa, na sua forma, cor e substância, significou durante o Antigo Regime, ou seja, entre osséculos XVI e XVII, uma condição, uma qualidade, um estado. Não havia dúvidas quanto aisso. Instrumento de regulação política, social e econômica, as “leis suntuárias” existiam paramanter visíveis os níveis sociais de quem se vestia. O luxo de tecidos e bordados era apanágioda aristocracia. A seus membros não podiam ser confundidos com os das camadasemergentes. (DEL PRIORE, 2000, p.32).
  • 32. 31No século XX ocorre definitivamente a desconstrução do paradigma queassociava a beleza feminina ao mal. De acordo com Lipovetsky (2000, p.174). Desde os anos 40 e 50, as imagens do feminino se libertaram do referencial secular da beleza demoníaca em benefício de um sexy moderno, lúdico e despreocupado, de jovens mulheres de pernas afiladas, de silhueta esbelta e maleável, de ar ingênuo e provocante. As formas de problematizar as aparências, os modos de conceber e deproduzir o embelezamento, não cessaram de ser modificados. E compreenderessas mudanças implica perceber a coerência das representações que, aolongo do tempo, acentuam a repulsa pelas aparências consideradas feias.Nesse sentido, o embelezamento feminino tem uma história. Da medicina ao esporte, passando pela higiene e pela moda, esta história é heterogênea, pouco explorada, embora ela trate de uma preocupação ao mesmo tempo antiga e contemporânea [...] Sendo importante salientar que a insistente preocupação com o embelezamento feminino faz parte de uma história que contém tanto de supérfluo quanto de indispensável”. (SANT’ANNA, 2005, p.121). Cada sociedade, classe, cultura e época possuem seus corpos, ou seja,padrões definidos de belo. Ocorrendo uma definição e uma representaçãodifundida para as pessoas de beleza, que se instituem como maneiras própriasde ver o corpo; pois o que para nós atualmente é considerado feioesteticamente, em outros tempos são traços e padrões indiscutíveis de beleza,ou seja, o corpo e o belo modificam, são (re) criados.3.2 SAÚDE E BELEZA NO BRASIL NO INÍCIO DO SÉCULO XX No início do século XX, a beleza feminina principalmente no Brasiltornou-se sinônimo de saúde. Percebe-se esse acontecimento nos anúncios depublicidade da época em que os problemas de saúde se confundem com os debeleza. [...] o composto vegetal souviroff é o unico remedio no mundo que tira o pello sem ser “depilatorio” e sem uso da electricidade; assim como cura as sardas, manchas, rugas e todas as doenças da cutis. O composto vegetal souviroff foi aprovado nesta capital pela diretoria geral de saude publica.” (SANT’ANNA, 2005, p.122).
  • 33. 32 Os anúncios publicitários solidificavam o discurso de que beleza seconseguia com o uso de produtos químicos. De acordo com Sant’Anna (2005,p.122). Entre os anos de 1900 e 1930, dezenas de publicidades concorrem no combate dos mais diversos “defeitos” da aparência feminina. As pomadas para “afinar a cintura”, ”branquear a pele”, “tirar pelos” ou “escurecer os cabelos brancos”, são comumente chamadas de remédio. Raramente se utiliza o termo cosmético. O conceito de beleza estava intrinsecamente ligado à saúde “[...]traduzida em termos de doença, merece o exame médico e o tratamento comremédios”. (SANT’ANNA, 2005, p.123). E as principais mídias da época noBrasil, ao lado dos jornais reproduziam esses valores. Segundo DeniseSant’Anna (2005, p. 123). O prazer de se embelezar, por meio do banho ou do uso de cremes para a pele, era visto com reservas: No “consultório da mulher”, da Revista da Semana, os conselhos de beleza se preocupam menos em sublinhar as possíveis sensações agradáveis resultantes do uso dos remédios de beleza neles recomendados, do quem afirmar, de modo imperativo, o quanto eles são eficazes nas curas dos mais diversos males: “inflamações do couro cabeludo”, “peito caído”, “estômagos sujos”, “gases fétidos”, “manchas”, “azedumes”, “catarros no útero”, “constipações”, “comichões”, “vermelhidões”, “anemia do rosto”, a lista é longa e a linguagem é crua. Nela, os problemas de beleza se submetem aos de saúde, o vocabulário popular se mistura ao nome de médicos considerados “renomados”, as justificativas científicas prolongam e atualizam as crenças religiosas. Segundo a autora era frequente “[...] mulheres belas aconselhandooutras mulheres, de modo informal e didático, como é bom, fácil e importantese fazer bela, dia após dia.” (2005, p.128): A partir dos anos 60, uma imagem se tornou frequente em revistas femininas brasileiras: uma mulher sob uma ducha, seminua, de olhos fechados, mãos e braços envolvendo o corpo, sugerindo prazer de estar consigo. Esses modelos de beleza muitas vezes anônimos parecem não necessitar mais da aprovação alheia. São mulheres sempre jovens, que se querem “iguais a todo mundo” e que sugerem um contentamento único e solitário: aquele de cuidar do próprio corpo. (SANT’ANNA, 2005, p.133).
  • 34. 33 Para fortalecer o discurso dirigido à mulher, conselhos de belezainsistem que é preciso conhecer, explorar, tocar o próprio corpo para torná-lomais autêntico e natural. Doenças e higiene estavam constantemente presentes nas relaçõesestabelecidas entre a beleza e a saúde na vida das mulheres. Nesse períodoos médicos, apresentavam concepções de saúde e de beleza advindos dopensamento médico-higienista e, ao tratarem sobre questões ligadas ao corpofeminino, seu principal objetivo era sempre associar beleza à saúde. A beleza feminina ligada ao discurso médico no Brasil do início doséculo XX se alia também às regras de uma moral católica, amplamentepresente nos manuais e nas revistas femininas. Segundo esta moral, “[...] amulher de mais má pinta é a que mais a cara pinta”. (SANT’ANNA, 2005,p.125). Esse pensamento era fartamente difundido pela imprensa brasileira daépoca. Sant’Anna (2005) mostra que nesse período, a mulher deveria, segundoos padrões, se contentar com o uso de jóias; chapéus e luvas. Fora deste usoe para além das prescrições médicas, que incluem a higiene do corpo e acultura física, o embelezamento corre o risco de denotar uma moral duvidosa.Pois, apesar dos apelos publicitários em torno da cura dos problemas debeleza, apesar da diversidade de remédios existentes para embelezar a mulhercomo num passe de mágica, prevalece a convicção de que a verdadeira belezaé fornecida por Deus. Ou seja, a beleza é considerada um dom, muito mais doque uma conquista individual. Observa-se, então, que no Brasil em plenoséculo XX as mulheres ainda tinham seus corpos controlados e reprimidos pelacensura religiosa.
  • 35. 344 O PERCURSO DO CORPO FEMININO PARA A AUTONOMIA: OESPORTE, O MERCADO DE TRABALHO E O MOVIMENTO FEMINISTA4.1 AS MULHERES E AS PRÁTICAS ESPORTIVAS O corpo feminino foi por muito tempo controlado pela rigidez dos valoresmorais na sociedade ocidental, sendo duramente criticado e humilhado pelasnormas sociais e pelo pensamento religioso, que nele inscreveram todas asregras, e todos os valores elaborados pela concepção teológica e filosófica queperdurou durante muitos séculos na nossa sociedade. Não sendo diferentecom relação a inserção da mulher na prática de atividades físicas. Uma provadisto foi a exclusão das mulheres dos jogos no século XVII. As exclusões se impõem além das imprecações moralistas e vagamente formais que recomendam às mulheres “não jogar, a não ser raramente, e sempre com muita circunspecção e indiferença”. A soule, e a péla e os jogos de bolas eram julgados inconvenientes a uma mulher ou moça. Pela agitação que provocam são quase exclusivamente jogos masculinos. (VIGARELLO, 2008, p.361). E as mulheres também eram excluídas dos esportes. Segundo AntônioSimões et al (2009), nos Jogos Olímpicos da Modernidade em 1894, (recriadopelo Barão de Coubertin), elas não podiam participar, pois “segundo o Barãoo papel que cabia as mulheres no esporte era somente coroar os vencedores”.As mulheres só começaram a participar dos esportes em 1925 quando oComitê Olímpico Internacional, (COI), no seu Congresso Pedagógico realizadoneste mesmo ano aprovou a participação feminina nos esportes, mas tendo asua participação limitada a algumas modalidades e provas. Para o pensamento vigente da época as mulheres só podiam realizaratividades físicas que não exigissem força, destreza ou velocidade,privilegiando como femininas as atividades que demandassem movimentosleves, delicados, graciosos e ritmados, mais condizentes com o papel de sexofrágil atribuído a elas. “[...] deve evitar todo exercício “rude” para as mulheres,e só evoca como convenientes a elas a dança, o canto ou a prática deinstrumentos musicais”. (VIGARELLO, 2003, p. 361).
  • 36. 35 As mulheres percorreram um espinhoso e discriminatório caminho atéconseguirem carta de alforria para a prática de atividades físicas e para odesporto. Mas esta mulher frágil e submissa começou a partir das décadas de40 e 50 do século XX, a ocupar diferentes posições sociais e usufruir suasconquistas. Passando a aderir a prática de exercícios físicos, a ter cuidado coma aparência, a mudar de atitude, a desnudarem os seus corpos e a usaremartifícios estéticos para modificar. Atualmente “[...] as mulheres fazem cada vezmais atividades físicas e de treinamento; na França, 50% dos praticantes deesporte são mulheres”. (LIPOVETSKY, 2000, p.133).4.2 AS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO E A HERANÇA DOMOVIMENTO FEMINISTA As mulheres lutaram durante séculos com muito esforço, atéconseguirem demarcar o seu espaço dentro da sociedade. A exigência daentrada no mercado de trabalho possibilitou que as mulheres saíssem doslares e se promovessem como seres capazes de guiar e controlar as rédeasdas suas vidas. Deixaram para trás a função de esposas zelosas, mãesdedicadas, representantes da honra familiar, com características de docilidadee submissão, pois a condição feminina se caracterizava pela exclusão social epolítica, condicionada à dependência masculina e sem autonomia. O papel da mulher na sociedade ocidental já havia começado a mudargradativamente a partir da revolução Francesa em 1789, quando as mulherespassaram a atuar de forma significativa na sociedade. Entretanto, a vida desubmissão, exclusão e prisão das mulheres dentro dos lares começou a mudarde forma mais drástica a partir do século XVIII, com a Revolução Industrial e oavanço da sociedade capitalista. Assim, o corpo da mulher ganhou outroscontornos estabelecendo, a partir de então, uma nova configuração de corpoem que a mulher torna-se objeto dos processos de produção, se tornandoindependente e dona de si. [...] Ao arrancar do lar, do berço, milhares de mulheres, o capitalismo converte essas mulheres submissas e passivas, escravas obedientes dos maridos, num exército que luta pelos seus próprios direitos e interesses da comunidade humana. Desperta o espírito de protesto e educa a vontade. Tudo isso
  • 37. 36 contribui para que se desenvolva e fortaleça a individualidade da mulher. (KOLONTAI, 2005, p. 21). Sendo que, o simples fato de as mulheres saírem de seus lares àprocura de trabalho nas fábricas em crescimento constante contribuiu para quedessem passos primordiais para uma conquista, até então consideradaimpossível. Mesmo assim, a ideia da mulher como propriedade do homem e arelação de submissão entre os sexos perdurou fortemente até meados doséculo XX, mas mudaram significantemente com o surgimento das lutas e domovimento feminista durante as décadas de 1960 e 1970 a queima dos sutiãse o advento da pílula anticoncepcional. “[...] a pílula anticoncepcional permitiu-lhe fazer do sexo não mais uma questão moral, mas de bem-estar e prazer”.(DEL PRIORE, 2000, p.11). Ficando livre da submissão das múltiplasgestações. “[...] a mulher passa a conquistar uma nova posição na sociedade”.(DEL PRIORE, 2000, p. 12). “Ocupando cada vez mais os postos de trabalho[...]”. E inicia a caminhada contra o sistema patriarcal. Embora as mulheresainda estejam vivendo em uma sociedade machista e os preconceitos erepressões ainda estejam longe de ter fim, no final do século XX e nestaprimeira década do século XXI mais do que nunca as mulheres estão a cadadia conquistando espaços que eram dominados pelos homens. No viés dessasconquistas ocorreram vitórias, mais também derrotas. O diagnóstico das revoluções femininas até o século XX é, por assim dizer, ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da sexualidade e do trabalho houve conquistas, mas também frustrações. A revolução sexual eclipsou-se frente aos riscos da Aids. A profissionalização se trouxe independência, trouxe também estresse, fadiga e exaustão. (DEL PRIORE, 2000, p.13). Infelizmente, apesar de todas as conquistas, as mulheres ainda têmmuitos caminhos a desbravar, pois elas ainda enfrentam barreiras, ocupam oslugares menos privilegiados na economia, ganham menos do que os homens,têm condições de trabalho mais precárias. Tem mais responsabilidade porpossuírem dupla jornada de trabalho. Mas segundo Lipovetsky (2000, p.152).
  • 38. 37 “As mulheres agora reivindicam posições de poder na esfera política eao mesmo tempo, todas as pesquisas mostram que os homens aprovam achegada das mulheres ao poder”. Não deixando de salientar que o paradigma da beleza, a fragilidade e ainterioridade relacionados às mulheres ainda favorecem para que elas soframpreconceitos.
  • 39. 385 MODELANDO O CORPO FEMININO: DO ESPARTILHO ÀS PRÁTICASCORPORAIS O espartilho é um artefato de modelagem do corpo que surge no períodoModerno, lá no século XVI, e era usado tanto por mulheres quanto por meninoscomo mostra Vigarello: Colocar este instrumento sobre bustos jovens, como quer o costume para as crianças nobres ou burguesas no século XVII, afirmar que ele é feito para “garantir o porte correto”, e dar mais lugar a uma modelação do corpo obtida por alguma dinâmica interior; é privilegiar a força do aparelho em vez da força do músculo. Crença profunda, pode se dizer, partilhada por Madame de Maintenon, aconselhando seus alunos a não ficar jamais sem corpo [espartilho] e fugir de todos os excessos que são comuns atualmente; partilhada por Madame de Sévigné que sugere o uso do espartilho de barbatanas de baleia para seu neto cujo corpo lhe parece bem fraco e bem disposto a vacilar [...]. (VIGARELLO, 2003, p.375). No século XIX, o uso do espartilho pelas mulheres começou a serquestionado, e foi duramente criticado pelos higienistas no final do século porcausar deformações nos corpos femininos. Essa percepção está ancorada nasmudanças históricas do conceito de corpo, sob a intervenção da medicina, doesporte, dos higienistas e da moda, que possibilitaram a emergência, ao longodo século XX, de novas práticas cotidianas voltadas para garantir aos corposforça física, vigor, robustez, dinamicidade, saúde e energia. No Brasil do século XIX, o corpo bonito era ainda o corpo modelado peloespartilho. No século XIX, belas eram, portanto, as elegantes, possuidoras de um corpo ampulheta, verdadeiras construções trabalhadas por espartilhos e anquinhas capazes de comprimir ventres e costas, projetando seios e nádegas. A couraça vestimentar deveria servir para protegê-las, simbolicamente, do desejo masculino. Desejo alimentado pela voluptuosidade da espera, do mistério, do jogo de esconde-esconde que as mulheres traduziam com seus corpos. (DEL PRIORE, 2000, p.59). Gilberto freire, ao tratar da imitação de um modelo de corpo europeu porparte das mulheres brasileiras no século XIX destaca o uso do espartilho. Elenos narra que:
  • 40. 39 Com a generalização das modas européias mais requintadamente burguesas e a urbanização dos estilos de vida, outrora rusticamente patriarcais, as deficiências ou os excessos de formas do corpo que não correspondessem à moda de Paris e de Londres foram sendo corrigidos por meio de ungüentos, cosméticos, dentes e cabelos postiços, ancas, tinturas para barbas e cabelos, espartilhos. Espartilhos de que, desde a primeira metade do século XIX, aparecem nos numerosos anúncios nos jornais brasileiros. (FREIRE, 2003, p.220). Chama a atenção do autor que a cintura da mulher se deformouexageradamente com o uso do espartilho.5.1 A INSTITUIÇÃO DAS PRÁTICAS DE EXERCÍCIOS PARA AS MULHERESSOB O OLHAR HIGIENSITA Com o apoio do discurso médico, diante do respeito que apresenta aoorientar as pessoas com o objetivo de garantir a saúde, as mulheres passarama ser incentivadas a prática de exercícios. Segundo Del Priore (2000, p.62)desde o início do século XIX na “[...] Europa multiplicavam-se os ginásios, osprofessores de ginástica, os manuais de medicina que chamavam a atençãopara as vantagens físicas e morais dos exercícios [...]”, sendo que, nos finaisdo século, mulheres começam a pedalar ou a jogar tênis na Europa, atividadesestas que, ao longo do século XX, foi sendo enunciada como moda e sinônimode saúde e bem estar. Mas não faltou quem achasse a novidade imoral, uma degenerescênciae até mesmo um pecado. “Perseguia-se tudo o que pudesse macular o papelde mãe dedicada exclusivamente ao lar. Era como se as mulheres estivessemse apropriando de exercícios musculares próprios à atividade masculina”. (DELPRIORE, 2000, p. 62). Algumas vozes, todavia, se levantaram contra essasatanização da mulher esportista. “Médicos e higienistas faziam a ligação entre histeria e melancolia - asgrandes vilãs do final do século – e a falta de exercícios. Confinadas em casa,diziam, as mulheres só podiam fenecer, estiolar, murchar”. (DEL PRIORE,2000, p. 62).
  • 41. 40 Temos, então, por parte dos higienistas e médicos, a propagação dodiscurso da beleza e saúde associada à prática dos esportes. O discursohigienista, tão ativo entre os anos 20 e 30 do século 20, estimula a vida dasmulheres ao ar livre, menos cobertas e mais fortificadas. O hábito dos esportes,a fundação de clubes, a ênfase na dança estimulada pela recém – inventadaindústria fonográfica, instigam a exposição dos corpos. Instala-se a busca daaparência sã. A medicina começa a sublinhar a “[...] importância de exercíciose vida saudável, para preservar, não somente a saúde, mas também a frescurada tez, a pele saudável, o corpo firme e jovem”. (DEL PRIORE, 2000, p.72). A prática de exercícios físicos4 passa a ser justificada pelo seu carátereducativo, terapêutico e pelo desenvolvimento da força e da beleza. Ele passoua ser associado à saúde, qualidade de vida, longevidade e beleza. Era preciso“[...] oxigenar as carnes, e alegrar-se graças ao equilíbrio saudável doorganismo. A elegância feminina começou a rimar com saúde”. (DEL PRIORE,2000, p. 63). É importante lembrar que a inserção das mulheres nas atividades físicasaconteceu em meio a avanços e recuos. Del Priore (2000, p.65). Destaca queos exercícios físicos eram associados aos homens por receio de que suaprática levasse “[...] à masculinização da mulher, sendo comuns preconceitoscom as praticantes”. O discurso de que as mulheres devido ao risco de semasculinizarem ou prejudicarem suas “funções” ainda é recorrente no discursohigienista dominante nas décadas de 1930 e 1940 do século 20, e apossibilidades de atividades físicas femininas deveriam ficar restritas ao balé,ginástica ou dança feminina moderna. Na verdade a prática da ginástica eradefendida para homens e mulheres, com a distinção de exercícios de acordocom “a sábia natureza dos sexos”.4 Exercício físico é compreendido neste trabalho como “[...] a atividade repetitiva, planejada eestruturada, que tem como objetivo a manutenção e melhoria de um ou mais componentes daaptidão física”. (PITANGA, 2003, P.16).
  • 42. 41 Como já foi abordado em capítulos anteriores, ao longo do século XX, asmulheres vão deixando de estarem restrita a esfera privada, e passando aparticipar da esfera pública. Ficando mais exposta e desnuda. Ainda no século XX, ocorreram três momentos fundamentais para o entendimento do culto ao corpo no mundo contemporâneo: os anos 50,60 e 80. Férias remuneradas e popularização do acesso às praias e proliferação de campings, contribuem, a partir da segunda metade dos anos 50, para a revolução de veraneio, que imporá um novo conceito de férias de verão, em que a exposição do corpo ocupa espaço central. (CASTRO, 2004, p.3). Então as mulheres vão, cada vez mais, aderindo à prática de exercíciosfísicos. Tem-se, assim, no final do século XX, a instituição de uma nova moralatrelada ao corpo: a chamada “boa forma”. Segundo Lipovetsky (2000, p.137). È preciso sublinhar a esse respeito o importante papel desempenhado pela promoção das atividades de praia e de lazer, o desenvolvimento dos esportes, o desnudamento do corpo (short, biquíni, monoquíni), as transformações da moda dos anos 20 e, depois, dos anos 60: vestidos retos uso de calça, saias curtas descobrindo as pernas e as coxas, roupas justas. Todas essas mudanças têm em comum o fato de terem contribuído para valorizar o corpo móvel, magro e jovem. Enfim, o século XX assistiu a uma crescente valorização do corpoprincipalmente o feminino e uma revolução de valores relativos à beleza,saúde, higiene, lazer, alimentação e atividades físicas. Naturalizou-se a ideia da boa forma, da prática de exercícios físicoscomo conquista e manutenção da qualidade de vida. Todas essas mudanças têm em comum o fato de terem contribuído para valorizar o corpo móvel, magro e jovem; elas desqualificaram as marcas da inércia, do sedentarismo feminino, de que a corpulência era uma das expressões. (LIPOVETSKY, 2000, p.137). E na atualidade não raro muitas mulheres praticam algum tipo deatividade física. Seja para emagrecer, engordar, diminuir o colesterol, aumentara massa muscular, controlar a pressão arterial ou com fins estéticos.
  • 43. 425.2 AS TECNOLOGIAS DE MODELAGEM DO CORPO Vivemos atualmente rodeados pelos avanços científicos e odesenvolvimento de tecnologia. Ficamos maravilhados com as possibilidades ecomodidade que ela nos proporciona em todas as esferas da nossa vida. Nãosendo diferente com relação ao corpo um sem-número de produtos etecnologias para modelação, transformação e adequação corporal são postosno mercado todos os dias. Uma gama de aparelhos, utensílios, produtos etécnicas de intervenções são ofertadas. “Não há dúvida de que o fenômenodeva ser relacionado às políticas industrial e mercantil de investimento nocorpo como um novo mercado com incontáveis ramificações”. (LIPOVETSKY,2000, p.135). Nesse cenário de possibilidades de reconstrução e embelezamento docorpo, as cirúrgicas plásticas vieram nos últimos tempos tornando-secorriqueiras e naturalizadas, pois, possibilitam modificações no corpo em curtoespaço de tempo e sem sacrifícios. E nesse leque de produtos destinados atransformação e manutenção do corpo surgiram e se aperfeiçoaram osaparelhos que proporcionam benefícios físicos e psicológicos que vêm cadavez mais sendo ofertados e o seu uso facilitado. E todos os dias surgem novas técnicas, novos medicamentos parasaciar a fome, estimuladores elétricos que prometem proporcionar umamusculatura definida sem sacrifícios. E uma série de aparelhos voltados paraas atividades físicas5 são fabricados e postos no mercado com a finalidade demodelar e modificar o corpo. A preocupação com a aparência do corpo sempre esteve apoiada numdiscurso ora voltada à questão estética, ora à preocupação com a saúde comomostrei em capítulo anterior. Uma prova disto era a utilização de aparelhoscorretores. Antes do século XVII os aparelhos corretores eram utilizados como5 Atividade Física é definida como qualquer movimento corporal produzido pela musculaturaesquelética que resulte em gasto energético. (PITANGA, 2008, p. 16).
  • 44. 43instrumentos pelos médicos ortopedistas para corrigir as anatomiasconsideradas defeituosas. O aparelho que corrige é, primeiramente, instrumento corretor possui somente virtudes – de “aliviar” e de “ajustar” – funcionando no sentido de prolongar o gesto que ajuda a restituir alguma estética perdida. Ele remete a uma tática corolária de sua sutileza: dispositivo encarregado de retificar ou de sustentar estruturas disformes, ele supõe uma referência normativa. (VIGARELLO, 2005, p.22). Mas o que era tentativa casual de retificação e de anulação de umadeformidade transformou-se abertamente numa abrupta imposição da norma.O corpo tornou-se receptáculo passivo de desenhos impostos exteriormente.Evidenciam-se aí as bases de um poder pedagógico sobre o corpo. O corpopoderia então, ser um espaço possível de manipulação direta e concreta. Era oestímulo de fora para dentro proporcionado pelo uso dos aparelhos corretores. Assim, no “dinamismo” preventivo e formador, trazido pelo tutor que corrige, materializa-se o velho sonho de um trabalho completo, o de uma dominação sem reserva, para os quais o aparelho corretor é ao mesmo tempo a mediação e o símbolo. (VIGARELLO, 2005, p. 27). É então, nesse momento que a medicina deixa de conceber o corpocomo uma entidade e passa a concebê-lo como um processo, sobre o qual sepodia intervir para adequá-lo, abria-se, então, a possibilidade para aremodelação e reconstrução do corpo através dos aparelhos corretores.“Tarefa banal para uma medicina preocupada não apenas com ofuncionamento dos corpos, mas também com sua aparência”. (VIGARELLO,2005). É nesse período que “[...] o novo pensamento mecanicista emprega suafecundidade sobre um corpo transformado ele próprio em máquina”.(VIGARELLO 2005, p.22). Ocorrendo então, essa alternância de estímulos quepossibilitaram aos aparelhos corretores se apresentarem nesse período.Favorecendo manifestações e mudanças nas técnicas de intervenção médica,nas técnicas de trabalho e nos espaços corporais. O arsenal terapêutico expande-se bruscamente com engenhos que, apesar de suas concepções rudes e primitivas, visam
  • 45. 44 endireitar. Foi preciso banalizar o espaço corporal e generalizar o mecanicismo para que tais proposições pudessem surgir. Nesse caso, as rodas, as lâminas e as alavancas que corrigem, são percebidas como de natureza idêntica às próprias partes corrigidas. Casualidades tornadas homogêneas trocam suas eficiências. (VIGARELLO, 2005, p.22). Na segunda metade do século XVIII, uma mudança passou a guiar ediferenciar os desvios de origem exclusivamente muscular. Sendo desejadoagora o trabalho, o movimento no lugar da imobilidade imposta pelo uso dosaparelhos. Vale a compensação atlética e não o encerramento do corpo nosmoldes ou sua sustentação pelo tutor. A cura dos desvios não mais seria entregue ao trabalho de bloqueio feito pelos aparelhos fixadores, mas sim aos deslocamentos variados de movimentos declaradamente reforçadores. Desde então, não é mais o corpo que sofre uma pressão por aparelhos, mas é ele que agora exerce sua força sobre máquinas dotadas de manivelas e polias, que surgem ao fim do século XVIII e início do século XIX. (VIGARELLO, 2005, p.28). No início do século XIX emergem as máquinas para a prática deexercícios físicos tem a função de modelar o corpo. Que agem de dentro parafora fazendo com que o corpo passe então a não ser mais exibido comomáquinas. Racionalizando as forças físicas e formalizando os deslocamentos. Nessa pedagogia de rigor e concisão, constituiu-se um material encarregado de normalizar o trabalho: bastões, pesos, sistemas de sustentações ou de apoios, utensílios especializados, supostamente capazes tanto de promover quanto de guiar as forças - até o ponto em que o próprio corpo passa a ser o instrumento, segundo séries de exercícios que o século XIX formalizará. (VIGARELLO, 2005, p. 31). Desse modo, o século XIX inaugura o princípio do treinamento físicometiculoso, sistematizado em tarefas parceladas e mecanizadas.Desencadeando mecanismos metabólicos e fisiológicos. O corpo passa entãoa se movimentar. E agora no século XXI a atenção se volta para os vigoresfísicos. Os corpos passaram a ser explorados com a perspectiva de rendimentodas forças e de medir os vigores. O corpo que se limitava ao espetáculo foisubstituído por corpos cuja formação supõe planificação de trabalho eacumulação de exercícios é o corpo musculoso que está em evidência.
  • 46. 45 Tudo isso graças à ciência e todo seu aparato técnico, que veio e vemoferecendo um arsenal de possibilidades dentre eles: produtos cosméticos,intervenções cirúrgicas, aparelhos para a prática de atividades física etratamentos necessários para que o corpo principalmente o feminino sejacontrolado, que toda flacidez, gordura e imperfeição seja corrigida, os defeitose desordens eliminados.5.3 AS ACADEMIAS DE GINÁSTICA E A PRÁTICA DA MUSCULAÇÃO A prática de exercícios físicos é antiga e como espaços de prática deexercícios físicos surgiram às academias de ginástica. Segundo Capinussú;Costa (1989), Platão criou em 387 a.C uma escola em homenagem ao heróiateniense Academus, onde havia o ensino de práticas esportivas e lúdicasentre outras, e esse local recebeu o nome de Akademia. E as academias,conhecidas como ginásios de esportes, existem desde o século 19 quando oalemão, professor Attila, montou em 1867, em Bruxelas, uma instituiçãodestinada ao ensino da cultura física com aparelhos. Novos estabelecimentos,onde se praticava atividades físicas em salas fechadas foram surgindoprogressivamente na França e, posteriormente, nos Estados Unidos ondemarcaram época, principalmente com a atividade de halterofilismo. Com o desenvolvimento do ramo, nos Estados Unidos, as academias deginástica começaram a se solidificar. Posteriormente elas foram se espalhandonaquele país oferecendo diversas atividades, entre elas ginástica (e suasvariações) e musculação (halterofilismo). (CAPINUSSÚ; COSTA, 1989,COSTA; PALAFOX, 1993). Os primeiros registros conhecidos, querepresentam o homem realizando exercícios para desenvolver força muscularforam encontrados no antigo Egito e datam de 2.500 a.C. Portanto, a origem dotreino com cargas adicionais (pesos livres, peso do próprio corpo, máquinas demusculação, etc.), com o objetivo de desenvolver os níveis de força e deresistência muscular perde-se ao longo dos tempos.
  • 47. 46 A prática da musculação6 começou a se solidificar na sociedadeocidental após a Segunda Guerra Mundial, sendo que, a maior credibilidade damusculação deve ser concedida a dois médicos do hospital de Massachussets:Thomas Delorme, que era treinador e praticante de pesos e halteres, e ArthurWatkins. Estes utilizaram para reabilitar soldados feridos na guerra, seusprogramas de musculação fizeram um grande sucesso. Os resultados dos seustratamentos começaram a despertar o interesse da sociedade americana paraas reais potencialidades deste tipo de exercício físico, uma vez que, além demelhorar os níveis de força, propiciava benefícios para a saúde daspopulações. Mas, foi “[...] DeLorme (1945), quem pela primeira vez, sugeriu autilização do princípio da carga progressiva para o treino em musculação”.(CORREIA, 2006, p.67). Foi necessário um longo período para que as práticas corporaispassassem a ser realizadas em academias de ginásticas, ou seja, em espaçosdestinados para a prática de atividades físicas. Os principais locais onde sepraticava atividades físicas eram nos clubes esportivos e nas escolas. Foiapenas a partir da década de 60 que as academias nos Estados Unidoscomeçaram a ser uma boa opção para a prática de atividade física e terimportância, tanto nas capitais dos estados como nas principais cidades dointerior. Além das atividades tradicionais como halterofilismo, culturismo(musculação), surge vários tipos de ginástica, balé, dança e artes marciais.(CAPINUSSÚ; COSTA, 1989). As academias de ginástica surgiram no Brasil aproximadamente em1914, em Belém surgiu a primeira academia em moldes comerciais, com aatividade de jiu-jitsu ensinada pelo japonês Conde Koma. Em 1925, no Rio deJaneiro, o português Enéas Campello montou um ginásio onde eram oferecidoshalterofilismo (levantamento de peso e culturismo) e ginástica olímpica.(ANTUNES, 2008). As primeiras academias necessitaram de um período de6 A musculação, também é conhecida como exercício resistido. Os exercícios realizados comutilização de sobrecarga externa - como aparelhos, halteres, caneleiras, bastões ou o peso dopróprio corpo. (SANTARÉM, 2003).
  • 48. 47adaptação e maturação entre a década de 30 e 80 do século 20, quandocomeçou a se expandir por todo o Brasil. Nesse período havia tambémginásios destinados à prática de ginásticas e lutas. A partir da década de 40 domesmo século, delineou-se o modelo eclético de academia que hojepredomina. Até o início dos anos 70, academia era frequentada por homens e aatividade oferecida era quase sempre a musculação que só passou aincorporar o nome musculação naquela década. A nomenclatura serviu paraquebrar o preconceito que existia em relação ao halterofilismo, e ao mesmotempo atrair as mulheres para essa atividade. Nessa época, academia erasinônimo de homem forte, não sendo um espaço para as mulheres. “[...] amusculação foi por muito tempo um meio de treino para os homens queutilizavam a força em desempenhos profissionais”. (CORREIA, 2006, p.70). E nos anos 80 ocorre o boom das academias de ginástica. Abrindoacademias em todos os lugares, e passa a ser um empreendimento lucrativo. Eas academias de ginástica então, começam a criar novas aulas, novos espaçose principalmente aquisição de equipamentos cada vez mais modernos paraatrair mais alunos. Na atualidade, esse espaço se tornou um território de livreacesso tanto para homens quanto para as mulheres que vêm aderindo aprática de atividades físicas nesses ambientes por diversos motivos entre eles:a busca de melhoria da condição física e da saúde, estética corporal;socialização entre outros.
  • 49. 486 EXERCÍCIOS FÍSICOS E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CORPORALFEMININA: O PERCURSO METODOLÓGICO O objetivo da presente pesquisa é analisar a relação da prática deexercícios físicos e a construção de uma identidade corporal feminina entre umgrupo de mulheres frequentadoras da Academia municipal de Pojuca. No quediz respeito aos procedimentos metodológicos definiu como método deinvestigação O Estudo de Caso Observacional junto a um grupo de mulheresfrequentadoras da Academia Municipal da cidade de Pojuca-BA . Utilizou atécnica da observação participante, descrevendo de forma detalhada eminuciosa o ambiente e as pessoas pesquisadas. Tomou como instrumentosde coleta de dados junto às mulheres entrevistas semi-estruturadas e oquestionário fechado. Os dados obtidos foram problematizados com base nasdiscussões teóricas, conteúdo dos capítulos anteriores.6.1 A ACADEMIA MUNICIPAL DE POJUCA A academia Municipal de Pojuca está localizada no Parque AquáticoJoão Antônio de Siqueira, inaugurado em 29 de julho de 2003, pela PrefeituraMunicipal de Pojuca. O parque é um espaço gratuito de lazer e prática deatividades físicas, destinado aos moradores da cidade. Dentro do parque temuma entrada com um módulo onde fica o guarda municipal responsável pelavigilância do espaço, cinco piscinas de acesso livre para os moradorestomarem banhos nos finais de semana, e durante a semana são oferecidasaulas de hidroginástica. Têm duas quadras poliesportivas uma praça, umaacademia, um parque infantil e um espaço para a realização de eventos. A academia Municipal de Pojuca funciona em um prédio térreo bemventilado com vista para o parque infantil. Ocupa uma única sala grande eespaçosa. Possui duas portas de acesso, dois vestiários, um feminino e o outromasculino; dois espelhos nas paredes, um maior ao fundo e um menor naparede lateral esquerda. Os aparelhos ficam distribuídos de forma que osquatro aparelhos ergométricos e os cinco aparelhos de musculação quetrabalham os membros inferiores ficam do lado esquerdo de quem entra e oscinco aparelhos para exercícios de musculação que trabalham os membros
  • 50. 49superiores do lado direito. As duas estantes com cinquenta e dois halteres eoito anilhas ficam no canto direito da sala. Os nove pares de caneleiras ficamguardados dentro do vestiário feminino Os alunos não pagam mensalidade, visto que a academia é mantidapela Prefeitura Municipal de Pojuca e administrada pelo Departamento deEsportes, Cultura e lazer (DECLA). O número de alunos matriculados queconsta nos registros do DECLA é de 67 alunos. Desse total, 27 são mulheres,mas a academia tem um fluxo bem diversificado, pois nem todos os alunosmatriculados frequentam a academia, portanto há pessoas que não sãomatriculadas, entretanto frequentam o espaço. As matrículas dos alunos sãofeitas no DECLA, que tem uma sala e um funcionário destinado paraadministrar e matricular os alunos que são encaminhados pelos instrutores quetrabalham na academia. O horário de funcionamento é das 6: 00h às 10: 00hno período matutino, das 14:00h às 17: 00h no período vespertino, edas18:00h às 19:00h no período noturno. A academia conta com dois instrutores: um homem e uma mulher(ambos estudantes do Curso de Licenciatura em Educação Física). Eles fazemo acompanhamento dos alunos e envia para o DECLA, junto com as fichas depresença dos alunos matriculados. Aqueles que não estão matriculados sãoorientados pelos instrutores a fazerem a matrícula no DECLA, no entanto, nãoficam impossibilitados de frequentarem a academia. Só que as suas fichas deacompanhamento e de presença é que ficam com os instrutores, não vão paraa administração da academia. Depois que os alunos fazem a matrícula, osinstrutores passam a enviar a sua ficha de presença e de acompanhamento.Na academia são oferecidos exercícios de musculação e exercícios aeróbicos.6.2 A COLETA DE DADOS: A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE, OQUESTIONÁRIO, A ENTREVISTA Em uma primeira etapa da pesquisa foi realizada uma observação emsessões de 01 (uma) ou 02 (duas) horas, em cinco dias da semana de julho adezembro de 2011. As observações, devidamente registradas em meu cadernode campo, foram fundamentais para que eu tivesse acesso à lógica do espaço,a interação entre os sujeitos, e a interação entre sujeitos e espaço. Dados que
  • 51. 50são fugidios quando acessados de forma mais objetiva, através doquestionário, ou mesmo das entrevistas. Minha intenção é que as observaçõessirvam de contraponto aos resultados estatísticos obtido com os questionários,e às narrativas das mulheres entrevistadas. 6.3 CARACTERIZANDO AS MULHERES FREQUENTADORAS DAACADEMIA MUNICIPAL DE POJUCA Na academia Municipal de Pojuca frequentam e são matriculadas 27(vinte e sete) mulheres. Em um segundo momento da pesquisa, foramaplicados questionários a 21 (vinte e uma) mulheres todas praticantes do treinoaeróbico e de musculação. As outras 6 ( seis) mulheres que só fazem o treinoaeróbico ficaram de fora da amostra, já que a presente pesquisa definiu comouniverso as mulheres que pratica o treino aeróbico e o treino de musculação. Ouso do questionário fechado em uma abordagem qualitativa pode levantaralguma dúvida quanto à clareza de nosso procedimento metodológico. Éimportante, então, destacar a ideia de Triviños (2007) de que o questionáriofechado, de emprego usual no trabalho positivista, também pode ser utilizadona pesquisa qualitativa. Ele lembra que o pesquisador de uma linha de estudoqualitativo pode precisar caracterizar um grupo de acordo com seus traçosgerais, como atividades ocupacionais que exercem na comunidade, nível deescolaridade, estado civil etc. Para o autor, “[...] a escala de opinião surgida deuma sondagem realizada junto aos sujeitos também a podemos usar comoinstrumento auxiliar na busca de informações”. (TRIVIÑOS, 2007, p.137).Portanto, o objetivo do questionário é apresentar algumas características maisgerais do grupo investigado, além de sondar entre outras questões, asmotivações em relação à frequência na academia, à preferência em relação àprática do exercício aeróbico e da musculação, a opinião sobre corpo ideal esobre seu próprio corpo, levantar as atitudes frente às cirurgias estéticas. Estasquestões serão aprofundadas mais adiante através de entrevistas semi-estruturadas. O questionário fechado foi composto de 31 questões (trinta e umaquestões), das quais as 29 (vinte e nove) questões apresentavam-se sob aforma de alternativas a serem assinaladas, e 2 (duas) questões ofereciam
  • 52. 51espaço de uma linha para que as mulheres pesquisadas indicassem, porexemplo, dados como idade e ocupação. A própria diagramação doquestionário visava respostas breves, já que o seu objetivo era fornecer àpesquisadora dados passiveis de serem convertidos em gráficos. Osquestionários foram aplicados pela própria pesquisadora na academia. Os dados, obtidos pelos questionários fechados foram tabulados ecalcularam-se as porcentagens relativas e totais frente a cada uma dasperguntas. O sistema utilizado foi o de lançar os dados em planilhas do sistemaExcel e aplicar as fórmulas que permitiam ao sistema efetuar o cálculo dasporcentagens. A partir do cálculo das porcentagens, o programa Excel gerougráficos, dando maior visibilidade aos dados. Foram confeccionados 10 (dez)gráficos, inseridos e analisados ao longo do texto. Como mostra o gráfico abaixo, a faixa de idade mais representativa (quecorresponde a 39%) das mulheres que responderam ao questionário tem idadeentre 31 a 35 anos, estas mulheres têm no máximo um filho. São as que nasua maioria vão à academia acompanhada com uma amiga e ajudam-se nosexercícios. Dado constatado no período das observações. E frequentam aacademia na sua maioria no período da manhã. 77 Relato registrado em diário de campo
  • 53. 52Gráfico 1 – Indica a distribuição das mulheres, segundo a faixa etária. 20 - 25 anos 9% 26 - 30 anos 4% 31 - 35 anos 28% 40 - 45 anos 50 - 55 anos 39% 20%Fonte: Primária Em segundo lugar, aparece a faixa que vai de 20 a 25 anos com 28%.No cruzamento dos dados verificou-se que estas mulheres vão à academiapela manhã ou à tarde não tendo uma regularidade de horários. E são as quepassam mais tempo na academia. E em terceiro lugar, aparece a faixa que vaide 26 a 30 anos com 20%. Estas mulheres tendem também a se concentrar naacademia especialmente no período da manhã depois de deixarem os filhos naescola, antes de irem para o trabalho e de fazerem as atividades domésticas8. Em quarto lugar, aparecem as mulheres que estão com idades entre 50e 55 anos com 9%. E em quinto lugar, aparecem as mulheres com idades entre40 e 45 anos com 4%. Nestas duas faixas de idade, encontramos mulheresque são mães, e tem um maior número de filhos. A grande maioria das mulheres que frequentam a academia tem idadesentre 20 e 35 anos. Atualmente, como as mulheres podem decidir se e quandoengravidar o número de mulheres que tem filhos vem diminuindo8 Relato registrado em diário de campo.
  • 54. 53gradativamente. Isso vem ocorrendo porque segundo Lipovetsky (2000, p.138e 139). O desenvolvimento dos métodos contraceptivos e o novo compromisso profissional das mulheres transformaram radicalmente não apenas as condições de vida feminina, mas também, no mesmo passo, sua relação com a aparência. O impulso dos valores individualistas, a legitimidade do trabalho assalariado feminino, o controle dos nascimentos fizeram a maternidade perder sua antiga posição na vida social e individual. No presente, ter filhos e criá-los não constitui mais o objetivo exclusivo da existência feminina; e já não é essencialmente através da função materna que se constrói a identidade feminina. Entre as mulheres frequentadoras da academia Municipal de Pojucaexiste um porcentual grande de mulheres que não trabalham 57%,comprovando assim que a inserção dessas mulheres no mercado de trabalhovem sendo restrita, visto que só 43% das mulheres que frequentam a academiatrabalham. Conforme os dados 43% das mulheres que trabalham ou sãopensionistas tem renda de 1 a 2 salários mínimos. Do total de mulheres 38% não tem renda e 19% tem renda mensal demenos de um salário. Estas mulheres com renda inferior a um salário mínimona sua maioria recebem o benefício do governo o Bolsa Família. 9 De acordo com os autores Hoffmann e Troncoso (2004), isso ocorreporque o aumento dos postos de trabalho para mulheres nas últimas décadasno Brasil não foi suficiente para absorver a totalidade do crescimento daPopulação Economicamente Ativa (PEA) Feminina, e no caso das mulherespesquisadas é também o baixo nível de escolaridade e falta de qualificaçãoprofissional, como mostra o gráfico abaixo, que contribuem para tal situação.9 Em conversas informais registradas em caderno de campo consta que algumas mulheresrecebem auxílio do governo.
  • 55. 54Gráfico 2 - Indica a distribuição das mulheres quanto o grau de instrução. 14% 20% Ensino Fundamental Incompleto Ensino Médio Incompleto 10% Ensino Médio Completo Ensino Superior Incompleto 56%Fonte: Primária Quanto ao estado civil foi constatado que 57% das mulheres disseramser solteiras (ver gráfico). Apesar de que algumas mulheres que vivemmaritalmente, se consideram solteiras por não serem casadas no civil 10.10 Dado registrado em diário de campo
  • 56. 55Gráfico 3 - Indica a distribuição das mulheres quanto o estado civil. 5% 24% Solteira Casada Tem Companheiro 57% Outros 14%Fonte: Primária Com 14% aparecem às mulheres que são casadas oficialmente; 24% asque têm companheiro, assumindo que vivem uma relação estável. Partesignificativa das mulheres do século XXI saiu do recolhimento da vida privada edoméstica para a exposição ativa na esfera pública. Portanto, trabalhar,praticar esportes, fazer atividades físicas e frequentar uma academia faz parteda rotina de uma grande parcela das mulheres na atualidade. Entre as mulheres que frequentam a academia 28% responderam quefrequentam de 1 a 3 anos; 28% que frequentam de 4 a 7 anos; 20% de 1 a 3meses; 14% de 4 a 7 meses; 5% de 8 a 11 meses; 5% 8 anos.
  • 57. 56Gráfico 4 - Indica há quanto tempo, as mulheres frequentam a academia Municipal. 5% 20% 1 a 3 meses 28% 4 a 7 meses 8 a 11 meses 14% 1 a 3 anos 4 a 7 anos 8 anos 5% 28% Fonte: Primária Quase todas afirmaram que durante esses períodos pararam por algumtempo por causa do trabalho, dos filhos, para fazerem cursos ou por preguiça.No entanto, a maioria falou que frequentam a academia todos os dias dasemana 76%, mas nas minhas observações constatei que elas costumam ir àacademia três dias por semana, pois às segundas e sextas feiras elas não vão.Quando aparecem vêm em pequeno número. Elas frequentam em maiornúmero de terça a quinta. Lipovestsky (2000, p.147) chama atenção para o fatode que: [...] sabe-se que cada vez as mulheres praticam atividades físicas e esportivas: o jogging, o tênis, o esqui, a ginástica tornaram-se atividades femininas de massa. Mas estas são mais intermitentes que regulares; para a maioria, as praticas ocasionais prevalecem sobre o treinamento metódico. O perfil das mulheres que frequentam a academia se distancia daperspectiva generalizante de Vanderley Codo e Wilson Senne, a qual segundoeles as mulheres buscam de forma compulsiva e obsessiva a prática deatividades físicas e que por isso: “Um novo dia basta para que se inaugureoutra academia de ginástica, alongamento, musculação”. (2004, p.9).
  • 58. 57 Na pesquisa, 62% das mulheres afirmaram que o principal motivo que aslevaram para a academia foi à saúde. Ver gráfico.Gráfico 5 - Indica os motivos que levaram as mulheres a academia municipal. 38% Saúde Beleza 62%Fonte: Primária Segundo Vigarello (2008, p. 367). “No século XVII a prática deexercícios físicos estava associada ao cuidar da saúde”. Até hoje écomprovado que a prática de exercícios físicos traz benefícios para a saúde, defato. Como destaca Pitanga (2008, p.38). “[...] o estilo de vida sedentário estáassociado ao aumento no risco de infarto agudo do miocárdio e à morte pordoenças cardíacas coronarianas”. Apesar de afirmarem uma preocupação com a saúde, muitas mulheresnão têm cuidado com a alimentação. Em um estudo, Del Priore (2000) constataque o que deveria ser uma preferência juvenil, ou seja, cachorro-quente, batatafrita, sorvetes e chocolates, é hoje o cardápio dominante entre o sexo feminino.Muitas mulheres não vão ao médico com frequência e nem fazem exames derotina. Como é o caso das mulheres da amostra. Talvez essa associação direta entre prática de exercícios físicos esaúde, considerada como o primeiro motivo que leva as mulheres pesquisadas
  • 59. 58a frequentarem a academia, deva ser visto com cautela. Minhas observaçõesmostram que a estética é uma preocupação dominante entre o grupo em quesó 38% afirma ser a beleza um dos motivos que as levaram a academia. “[...] a beleza é uma qualidade que se projeta principalmente, e desde onascimento, nas meninas: de imediato, são descritas pelos pais como bonitas,gentis, graciosas”. (LIPOVETSKY, 2000, p. 190). Sendo que “[...] nem a dinâmica da igualdade, nem os progressos daautonomia individual, nem o desenvolvimento do mercado da beleza semostram capazes de vencer a preeminência feminina da aparência”.(LIPOVETSKY, 2000, p.199). Quando questionadas o que as estimulou para que viessem a frequentara academia elas foram enfáticas em responder: “vontade própria”, aparecendoem primeiro lugar com 67%, em segundo lugar aparece “indicação de amigos,”com 19%; em terceiro lugar “indicação médica”; e em quarto lugar “programasda televisão, rádio” com 5%. Este último dado contraria um certo consenso quea mídia impõe ás mulheres adesão às prática de atividades físicas emacademias de ginástica, e dita regras de beleza e de conduta. É importante ressaltar que apesar, de que, como destaca Darido (2002,p.2) “revistas, jornais, tv, internet, enfim, toda a mídia, percebendo aimportância da cultura corporal, despendem cada vez mais tempo cominformações e notícias sobre esporte e atividade física” a mídia, no que dizrespeito ao grupo investigado, exerce um papel secundário na decisão eescolhas do grupo relacionado à incorporação do exercício físico nas práticascotidianas. Até porque é difícil “medir” a influência das mídias nas ações dossujeitos, pois a sociedade é um contexto complexo, onde numerosascomunicações, de diferentes níveis se entrelaçam. Para 76% da amostra, a prática da musculação não se constitui umsacrifício e 24% acham que só às vezes. Em relação a um modelo de corpo ideal, 76% da amostra afirma queexiste um modelo de corpo Ideal e 24% que não. Percebe-se que no Brasil háuma valorização de um padrão corporal em que o corpo é totalmente esculpidopor exercícios físicos e por cirurgias estéticas. Uma prova desse gosto popularpor mulheres turbinadas é que os corpos das mulheres, que frequentam a
  • 60. 59academia consideram como corpo ideal é os das dançarinas de funk e depagode que aparece com 53%. Na pesquisa, o corpo das atrizes aparece com14% e das modelos de passarela também com 14%, como o modelo de corpoideal almejado pelas mulheres da academia. As concepções do que é belo e do que é feio acompanham astransformações sociais, e hoje, o corpo ideal admirado pelas mulheresfrequentadoras da academia municipal são corpos volumosos, cintura fina,“bunda grande”, pernas grossas, cabelos longos e lisos e seios fartos. Asmulheres são negras, morenas ou brancas. Em relação à imitação de um modelo de corpo propagado pela mídiaLipovetsky (2000, p.168), mesmo reconhecendo o poder de conformaçãoestética da mídia feminina traz a seguinte consideração: [...] nunca é demais insistir no fato de que leitoras de revistas não se assemelham sistematicamente a seres passivos, conformistas e desvalorizados na imagem que têm de si pelo brilho das fotografias de moda. Estas funcionam também como sugestões positivas, fontes de ideias que permitem mudar de look, valorizar-se, tirar melhor partido de seus triunfos. Evidentemente, as mulheres imitam modelos, mas, cada vez mais, apenas aqueles que consideram passíveis de apropriação, e de acordo com a sua autoimagem. A primeira parte do corpo que as mulheres gostam mais de treinar naacademia Municipal são as pernas, ficando com 90%, mas essa preferência éencontrada entre as mulheres mais jovens, as mulheres mais velhas enfatizamoutras partes do corpo como braços e peito.
  • 61. 60Gráfico 6 - Indica a primeira parte do corpo que as mulheres preferem treinar emprimeiro lugar. 5% 5% Braços Pernas Abdômen 90%Fonte: Primária Em uma pesquisa realizada por Mirian Goldenberg (1998) na cidade doRio de Janeiro, constatou-se que dentre as respostas dos homens, quandoquestionados sobre o que mais o atrai em uma mulher, eles responderam abunda, os seios, as pernas e os olhos. Segundo Marcel Mauss apudGoldenberg, (2007, p.23). “[...] há uma construção cultural do corpo, com umavalorização de certos atributos e comportamentos em detrimento de outros,fazendo com que haja um corpo típico para cada sociedade”. Um fator preponderante que pode contribuir para que as mulherestenham a preferência em trabalhar certas partes do corpo é a moda. [...] depois, dos anos 60: vestidos retos, uso da calça, saias curtas descobrindo as pernas e as coxas, roupas justas. Todas essas mudanças têm em comum o fato de terem contribuído para valorizar o corpo. (LIPOVETSKY, 2000, p.137).
  • 62. 61 Em relação às partes do corpo que ficam em segundo lugar napreferência das mulheres para serem exercitados os glúteos aparecem com62%.Gráfico 7 - Indica as partes do corpo que as mulheres preferem treinar em segundolugar. 5% 5% Glúteos 9% Braços Abdômen Peito Pernas 19% 62%Fonte: Primária No Brasil no jogo da sedução segundo Goldenberg (2005, p.39) “abunda” é o que mais atrai sexualmente os homens. E a terceira parte do corpoque as mulheres gostam de trabalhar na academia é o abdômen 52%. No Brasil atual, a ideologia do gênero, associada ao corpo, pareceampliar, um pouco mais, a distância anatômica entre homens e mulheres. Essaestetização de ideologia de gênero isola o corpo em duas partes: as partessuperiores (braços, ombros, peitorais), associadas aos atributos de virilidade,enquanto as partes inferiores (quadris, nádegas e pernas) representam osatributos da feminilidade.
  • 63. 62Gráfico 8 - Indica as partes do corpo que as mulheres preferem treinar em terceirolugar. 5% 5% Abdômen 24% Peito Glúteos 52% Pernas Braços 14%Fonte: Primária A quarta parte do corpo que as mulheres gostam de treinar na academiaé o peito com 43%. Já entre as mulheres mais velhas essa preferência sedestaca.
  • 64. 63Gráfico 9 - Indica as partes do corpo que as mulheres preferem treinar em quartolugar.. 10% Peito Abdômen 43% Braços Glúteos 33% 14%Fonte: Primária Os braços aparecem com 43% como a quinta parte do corpo que asmulheres gostam de trabalhar, também se destacando como preferência dasfrequentadoras mais velhas.
  • 65. 64Gráfico 10 - Indica as partes do corpo que as mulheres preferem treinar em quintolugar. 10% Peito Abdômen 43% Braços Glúteos 33% 14%Fonte: Primária A preocupação em trabalhar preferencialmente certas partes do corpocomo pernas, bunda, abdômen, braços identifica uma forma da mulher serelacionar com ela de forma harmoniosa tentando se enquadrar em um corpoque ela acha que seja ideal para a faixa de idade que ela está. Quandoquestionadas se elas estão satisfeitas com o corpo, 52% afirmou que não estãosatisfeitas. Interpreta-se esse dado à luz de uma reflexão de Lypovetskyaparece aí um paradoxo: Paradoxalmente, o desenvolvimento do individualismo feminino e a intensificação das pressões sociais das normas do corpo andam juntos. De um lado, o corpo feminino se emancipou amplamente de suas antigas servidões, sejam sexuais, procriadoras ou indumentárias; do outro, ei-lo submetido a coerções estéticas mais regulares, mais imperativas, mais geradoras de ansiedade do que antigamente. (LIPOVETSKY, 2000, p.135). Uma parcela significativa da amostra afirmou estar satisfeita com ocorpo 48%. No entanto, quando questionadas se elas gostariam de modificar o
  • 66. 65corpo 76% delas disseram que sim e 24% que não. É fato que atualmentevivemos em meio a inúmeras possibilidades de modificar o corpo, e ele estáconstantemente sendo modificado, modulado e transformado. Os psicotrópicos cinzelam o humor, a cirurgia estética ou a plástica modifica as formas corporais ou o sexo, os hormônios ou a dietética aumentam a massa muscular, os regimes alimentares mantêm a silhueta, os piercings ou as tatuagens dispensam os sinais de identidade sobre a pele ou dentro dela, a body art leva ao auge essa lógica que transforma abertamente no material de um indivíduo que reivindica remanejá-lo à vontade e revelar modos inéditos de criação. Alguns sonham em agir diretamente sobre a fórmula genética do sujeito para modelar sua forma e até seus comportamentos (LE BRETON, 2003, p. 28). Como nos mostra essa referência à Le Breton, não é estranho nemanormal que a maioria das mulheres sonhe com a possibilidade de modificaremo corpo. De fato, todas vivem rodeadas dessas possibilidades. “[...] é precisoconstruir um corpo firme, musculoso e tônico, livre de qualquer marca derelaxamento ou de moleza”. (LIPOVETSKY, 2000, p.133). E as cirurgiasestéticas surgiram como a possibilidade mais rápida e eficaz de modificar aaparência sem ser necessário fazer muito esforço: Microcâmaras que entram no corpo, cânulas que sugam gentilmente camadas de gordura de uma região do corpo para outra, substâncias sintéticas que funcionam como massa de modelar, tudo isso permite a mulher “fazer-se mais bela”. (DEL PRIORE, 2000, p.83). Quando questionadas se faria alguma cirurgia estética, 62% dasmulheres disseram que sim, visto que “[...] outrora tabu, a cirurgia estéticaaparece cada vez mais como uma técnica desdramatizada, um meio legítimode rejuvenescimento e de embelezamento”. (LIPOVETSKY, 2000, p.134).Sendo que essas mulheres que querem fazer cirurgias estéticas não pensamde modo simplificado ou banal como se pode inicialmente supor, mas visamtambém, além do bem estar e o aumento da autoestima – como alegam – aconcretização das aspirações por diferenciação, distinção e mobilidade social.E para Le Breton (2000, p.28). O corpo não é mais apenas, em nossas sociedades contemporâneas, a determinação de uma identidade intangível,
  • 67. 66 a encarnação irredutível do sujeito, o ser-no-mundo, mas uma construção, uma instância de conexão, um terminal, um objeto transitório e manipulável suscetível de muitos emparelhamentos. Deixou de ser identidade de si, destino da pessoa, para se tornar um kit, uma soma de partes eventualmente destacáveis à disposição de um individuo apreendido em uma manipulação de si e para quem justamente o corpo é a peça principal da afirmação pessoal. Hoje o corpo constitui um alter ego, um duplo, um outro si mesmo, mas disponível a todas as modificações, prova radical e modulável da existência pessoal e exibição de uma identidade escolhida provisória ou duravelmente. O corpo sempre sofreu modificações nas mais distintas culturas, todaviana atualidade, existe uma maior liberdade de modificá-lo. [...] querer modificar-se, querer colocar o próprio corpo em relação com o próprio self, não é nem uma doença, nem algo de que se deva ter vergonha. Mas algo a se reivindicar abertamente à luz do dia com orgulho. Um hino a liberdade. (LE BRETON, 2000, p.29). De imediato talvez às considerações de Lipovetsky e Le Breton nãodigam respeito a uma parcela significativa do grupo (38%) que afirma nãodesejar fazer uma cirurgia estética. No entanto, as observações de campomostram que muitas mulheres dizem que não gostariam de fazer uma cirurgiaestética, mas ao contrário tem o desejo, mas tem vergonha de explicitá-lo. Paraessas mulheres uma cirurgia estética envolve tantos riscos quanto qualqueroutro procedimento cirúrgico. Ou seja, para essa parcela do grupo este tipo decirurgia ainda é tabu.6.4 AS NARRATIVAS SOBRE IDENTIDADE CORPORAL Este momento da pesquisa se dedica a apresentar e discutir o sentidoque as mulheres dão à prática dos exercícios físicos realizados na academia, ecomo estes participam da construção da identidade corporal dessas mulheres.Pressupõe-se, aqui, que saúde e beleza sejam elementos constitutivos destaidentidade. Tive acesso às subjetividades das mulheres através de suasnarrativas coletadas através de entrevistas semi-estruturadas. Para as entrevistas foram selecionadas 5 (cinco) mulheres, com idadesentre 22 e 55 anos dentre as 21 (vinte e uma) mulheres que responderam oquestionário. Os critérios para a seleção dessas mulheres foram: tempodedicado à prática dos exercícios aeróbicos e de musculação na academia, a
  • 68. 67assiduidade, a visibilidade no ambiente da academia, participação epreocupação com o corpo. As entrevistas seguiram um roteiro pré-planejado, baseado nasperguntas do já referido questionário fechado. As mulheres puderam seexpressar livremente e as respostas apareciam de forma espontânea nas falas,antes mesmo que as perguntas fossem formuladas. Quase todas as entrevistasocorreram na casa das mulheres em função do barulho do ambiente daacademia. Somente uma foi realizada na academia Municipal de Pojuca. Asquais duraram em média 20 minutos e posteriormente todas foram transcritasna íntegra. Todas as entrevistas citadas dispõem da permissão dos sujeitos dapesquisa, por meio do termo de compromisso. Registrado por escrito. Foramrespeitados as expressões e o modo de falar. E seus nomes foram substituídospor nomes fictícios para preservar a identidade das mesmas.6.4.1 Corpo saudável e belo corpo belo e saudável Atualmente a prática de atividade física entre as mulheres vemaumentando gradativamente elevando consideravelmente o número deadeptas com as mais diversas faixas etárias. [...] mas, sobretudo, as mulheres fazem cada vez mais atividades físicas e de treinamento. Por toda parte em nossas sociedades, multiplicam-se as atividades modeladoras, as ginásticas, tônicas ou suaves, o jogging, os exercícios de musculação e de fortalecimento dos tecidos. (LIPOVETSKY, 2000, p.133). Uma das modalidades mais procuradas nas academias de ginástica é amusculação, que é caracterizada por ser um tipo de exercício físico, que utilizamáquinas ou aparelhos com carga, permitindo a execução de movimentos emgrupos musculares específicos. E a prática da musculação pelas mulheres temsido vista como um instrumento eficaz na conquista da boa forma e da beleza.Como já foi sendo evidenciada neste trabalho. “[...], todavia, no seio destapermanência, as formas de problematizar as aparências, os modos deconceder e de produzir o embelezamento, não cessam de ser modificados”.(SANT’ANNA, 2005, p.121).
  • 69. 68 Dentro de um leque de possibilidades de intervenções, procedimentos etécnicas utilizados na aquisição de um corpo belo e saudável a musculaçãosurge como uma possibilidade real de mudanças no corpo das mulheres. Todas as cinco mulheres entrevistadas afirmaram ser o treino demusculação o que mais as atrai para a frequência na academia Municipal dePojuca. Como mostra suas falas: Izandra: Dos dois treinos que você faz na academia Municipal qual deles te atrai mais é o treino de musculação ou o treino aeróbico? Carla: O de musculação. Porque o aeróbico é assim, para queimar calorias e o de musculação é para ganhar massa. Eu acho o aeróbico aquele negócio chato e o de musculação é melhor. (Informação verbal).11 Fernanda: O treino de musculação. Porque eu gosto de fazer o treino de musculação mais do que o treino aeróbico. (Informação verbal).12 Luciana: O treino de musculação. Porque define mais o corpo, fica com mais massa. (Informação verbal).13 Paula: O treino de musculação. Eu gosto. (Informação Verbal).14 Ana: De musculação. Porque as carnes ficam mais duras. (Informação verbal).1511 Entrevista gravada no dia 30 de dezembro de 2011.12 Entrevista gravada no dia 09 de janeiro de 2012.13 Entrevista gravada no dia 10 de janeiro de 2012.14 Entrevista gravada no dia 10 de janeiro de 2012.15 Entrevista gravada no dia 12 de janeiro de 2012.
  • 70. 69 A musculação aparece como fundamental para elas. Uma dasentrevistadas fala como a musculação aparece na sua rotina de exercícios: Carla: A musculação é fundamental para mim. Só fazer o aeróbico não é legal. E o aeróbico eu faço dia de terça e quinta. E faço meia hora de esteira. Segunda, quarta e sexta faço só perna e o aeróbico eu faço na esteira dez minutos. E quando a academia está cheia eu não faço o treino aeróbico para não atrapalhar e também não faço questão. Para quatro das cinco mulheres entrevistadas além de promover saúde,beleza e bem estar, a prática da musculação é mais eficiente que o treinoaeróbico. Izandra- O treino de musculação é mais eficiente? Ana: Acho que sim. Fernanda: Eu acho mais rápido o resultado. Luciana: Sim, com certeza. Carla: Eu creio que sim. Nos sentidos atribuídos a musculação encontra-se entrelaçados a saúdee a beleza, se confundindo e embaralhando um remetendo ao outro. Dasentrevistadas só uma enfatiza o treino da musculação associado somente àbeleza: Izandra- Você considera que o treino de musculação está associado a saúde ou a beleza? Ana: A saúde e a beleza. Fernanda: Aos dois, a beleza e a saúde. Luciana: A saúde e também a beleza. Paula: A beleza. Carla: Os dois. Mas a musculação esta associada mais a beleza. Podemos dizer que esta associação entre beleza e saúde, como foiabordado no capítulo três deste trabalho, está presente no imaginário socialbrasileiro desde o início do século XX, quando a beleza feminina tornou-sesinônimo de saúde. Discutimos como as concepções de saúde e de beleza,advindos do pensamento médico-higienista, ao tratarem das questões ligadasao corpo feminino, estavam sempre relacionados com uma concepção de
  • 71. 70beleza associado à saúde. Isto além do que o discurso médico no Brasil doinício do século XX se alia também às regras de uma moral católica.Expressando bem essa concepção Lipovetsky (2000, p.170) destaca: Encarnando o mal, o corpo da mulher, assim como tudo que o embeleza, toaletes, maquiagens, jóias, é posto no pelourinho; cascatas de invectivas oprimem sem descanso a sedução feminina e seus artifícios mentirosos como abismo de perdição. Lembro ainda que nos dados do questionário analisados anteriormente,as mulheres investigadas relutam em afirmar que a estética é o motivo que asleva a frequentarem a academia. Já o treino aeróbico entre as mulheres está associado só à saúde. Essaassociação entre exercícios físicos e saúde é antiga, como mostrei em capítuloanterior, pois no passado no século XVII já se acreditava que com o movimentodos membros, assim como com as sangrias, se evacuam os fluxos e o acúmulodestes era visto como maléfico. Todavia, deviam ser evitados os exercíciosexagerados, que também não eram percebidos como saudáveis. “O exercíciohigiênico deve ser simples, cotidiano: uma caminhada, algum trajeto. Daí suaaplicação sempre possível, sua versão comumente acessível.” (VIGARELLO,2008, p. 374). Para Zanon (2012), os exercícios aeróbicos trazem vários benefíciospara a saúde de quem os pratica dentre eles: aumento do HDL (colesterolbom); redução do risco de doenças cardíacas e derrame; diminuição do peso epercentual de gordura corporal; aumento da resistência cardiorrespiratória;melhora o controle da pressão arterial; previne o desenvolvimento do diabetestipo 2; diminuição da frequência cardíaca de repouso; aumento daautoconfiança e diminuição da depressão. Já o exercício de musculaçãomelhora a postura corporal; melhora da coordenação motora; manutenção damassa muscular; aumento do volume muscular; fortalecimento dos ossos(manutenção da densidade mineral óssea); aumento dos níveis de força;melhora da resistência muscular; melhora da amplitude de movimento; melhorada estabilidade articular; prevenção de lesões.
  • 72. 71 O que se pode afirmar é que no cenário contemporâneo brasileiro amusculação está sendo uma modalidade muito praticada pelas mulheres quebuscam modelar o corpo, mantê-lo saudável, ou os dois. Como vimos, as mulheres entrevistadas associam a prática damusculação a saúde e beleza, mas que beleza é essa? Ana: [...] É os braços ficarem durinhos, eu ficar mais nova. Fernanda: É ficar com o corpo bonito. Luciana: É endurecer as carnes, ficar musculosa. Paula: A beleza do corpo... Definição... (Risos), ai, muitas coisas. Carla: É ficar com o corpo bonito, dividido, toda dividida. [...] Não podemos deixar de ressaltar que as mulheres atualmente têm queajustar os seus corpos a demanda atual, pois as exigências do mercado e damoda face à manutenção da forma física e da aparência existem e estasmulheres não podem fingir que não se importam com isso, apesar deafirmarem serem donas de suas escolhas perante a sociedade. A associação entre beleza e saúde permanece quando falam sobre oque as motiva a permanecer na academia. Izandra: O que faz ou motiva você a permanecer na academia? Ana: É a saúde, como eu sou hipertensa, é bom que controla o colesterol, melhora a circulação do sangue. Passa na televisão que é bom para isso tudo. Fernanda: É querer está sempre em forma. E também pela saúde, mas ficar em forma é em primeiro lugar o principal motivo que me leva a permanecer na academia. Paula: Bem estar, saúde e beleza. Luciana: A saúde e a vaidade. Carla: Eu fico bem. Quando eu vou para a academia e faço o treinamento físico, fico bem melhor. [...] O entrelaçamento entre saúde e beleza não é algo recente, se manifestaatravés de diferentes discursos e intervenções ao longo da tradição ocidental e
  • 73. 72revelam rupturas e continuidades. Del Priore chama atenção para o fato de que“[...] “malhar” está associado à saúde; porém o conceito de saúde refere-se, elemesmo, às melhorias estéticas”. (2000, p.96). E Goldenberg (2005, p.42)evidencia que a preocupação feminina com a dimensão estética do corpo [...] demonstra que o corpo tem um peso importante nos relacionamentos afetivo-sexuais e também em determinados comportamentos que podem ser interpretados como frutos de uma cultura que valoriza excessivamente a aparência, a juventude e a forma física. (GOLDENBERG, 2005, p.42). Em uma perspectiva mais relativizadora, Margareth Rago nos traz umainteressante reflexão: [...] apesar de todas essas críticas aos modos hegemônicos de sujeição e subjetivação no mundo contemporâneo, também se pode afirmar que nem todos sucumbiram a essa moral do espetáculo, nem caíram dentro da “bolha narcísica”. Sabemos, ademais, que cuidar de si pode ser uma maneira de facilitar a relação com o outro. E, aliás, hoje conhecemos melhor nosso corpo, damos maior atenção à saúde, cuidamos melhor de nós mesmos, sem necessariamente nos alienarmos, aliás, faz parte da civilidade o cuidado de si, da aparência e a higiene pessoal. (2007, p.61). Todas as cinco mulheres entrevistadas acreditam que a prática damusculação pode modificar seus corpos. E elas veem na musculação umaforma mais prazerosa e acessível de alcançar essa modificação. Izandra: Você acha que a musculação pode modificar o seu corpo? Carla: Eu acho que sim. A musculação já modificou muita coisa no meu corpo, porque o meu corpo não era assim já modificou bastante, mas infelizmente eu não me conformo e quero sempre mais. Paula: Pode (Risos). Luciana: Sim Fernanda: Sim Ana: Sim Das cinco mulheres entrevistadas só Paula disse que modificaria ocorpo de outra forma que não fosse com a musculação.
  • 74. 73 Izandra: Você modificaria o seu corpo de outra forma que não fosse com a musculação? Ana: Não. Eu gosto mesmo é de fazer exercícios é de malhar. Fernanda: Não Luciana: Não Carla: Não. Eu tenho medo de cirurgia. Paula: Sim E para quatro das cinco mulheres entrevistadas, os resultados obtidoscom a frequência à academia de ginástica e com a prática da musculaçãoatendem às necessidades de mudanças que elas desejam para a modelagemdo corpo. Mas quando questionadas se fariam uma cirurgia estética para modificaro corpo três das cinco mulheres entrevistadas apresentam as seguintesnarrativas: Fernanda: Sim. Colocaria um pouco de peito. Porque eu acho os meus peitos muito pequenos. Paula: Faria. Porque tem gordura que é difícil de sair e eu queria aumentar os meus seios eles são muito pequenos (Risos). Carla: Eu tenho vontade. Mas não tenho coragem. Certa ambiguidade aparece, pois das cinco mulheres entrevistadas sóuma afirmou que modificaria o corpo de outra forma que não fosse com amusculação, entretanto, quando questionadas se fariam uma cirurgia estéticapara modificar o corpo das cinco mulheres entrevistadas três afirmaram quefariam. Essa ambiguidade, que aparece também nos dados do questionário, efoi discutida com base nas observações de campo. Segundo Goldenberg (2007, p.26) “[...] em uma pesquisa realizada noBrasil constatou-se que oitenta e nove por cento das brasileiras querem mudaralgo no corpo”. O comportamento das mulheres expressa uma tendência naatualidade que é a conquista do direito de cuidar do próprio corpo. Sant`Anna,(2007) lembra que esse cuidado vem acompanhado das exigências em matéria
  • 75. 74de beleza que complicaram-se e ampliaram-se: ganharam novos produtos econtam com técnicas e profissionais outrora raros ou inexistentes. As narrativas das mulheres apontam para uma certa autonomia nadecisão de frequentar a academia. Izandra: Querer cuidar do corpo foi uma decisão sua ou você se sente obrigada? Fernanda: Foi uma decisão minha. Ana: Foi uma decisão minha mesmo. Luciana: Não, foi minha mesmo. Paula: Foi uma decisão minha. Carla: [...] Foi, foi uma decisão minha. As falas acima apontam para escolhas pessoais, mas não dá paraignorar que essas escolhas são direcionadas para a conquista de um corpoideal. Mas também não podemos deixar de considerar que na perspectiva deGiddens o poder: [...] as transformações introduzidas pelas instituições modernas se entrelaçam de maneira direta com a vida individual, e, portanto, com o eu. Uma das características distintivas da modernidade, de fato, é a crescente interconexão entre os dois extremos da extensão e da intencionalidade: influências globalizantes de um lado e disposições pessoais de outro. (GIDDENS, 2002, p. 9). Portanto, as mulheres vão agir dentro das possibilidades que lhes sãooferecidas, incluindo as possibilidades de seu próprio corpo mesmoconsiderando a existência de um corpo padrão difundido pela mídia e desejadodo por elas. Vamos ver que padrão é este: Izandra: Qual o seu modelo de corpo ideal? Ana: Meu modelo de corpo ideal é um corpo não muito gordo nem muito magro é um corpo normal. Fernanda: Um corpo malhado, que não tenha silicone, um corpo natural. Eu acho que Sabrina Sato não tem silicone o corpo dela é natural.
  • 76. 75 Luciana: Que não seja muito malhado, nem muito alto e nem muito baixo. Carla: Malhado demais não gosto, definido demais é ridículo, todo definido parecendo homem (Risos) não gosto, gosto de um corpo feminino. Paula: Tem umas atrizes, sendo que eu acho bonitas aquelas mulheres com cintura fina, pernas e bunda, agora aquelas mulheres muito magra eu não acho bonita não. E a Viviane Araujo está muito monstra tá feia. Eu acho bonito é o corpo da Sabrina Sato é um corpo malhado, mas normal. O corpo ideal almejado pelas mulheres entrevistadas malhado,submetido voluntariamente a exercícios físicos, mas sem exageros, um “corpofeminino”, um corpo natural. Corpo este que três das cinco mulheresentrevistadas acreditam alcançar ou se aproximar com a prática damusculação. Izandra: Você acha que a musculação pode te ajudar a alcançar ou se aproximar desse corpo ideal? Ana: Sim, mas vai demorar muito até porque eu pego pouco peso e não faço os exercícios necessários para modificar o corpo e alcançar esse corpo ideal. Luciana: Pode (Risos). Carla: Eu acho que sim. A musculação já modificou muita coisa no meu corpo, porque o meu corpo não era assim já modificou bastante, mas infelizmente eu não me conformo e quero sempre mais. Já foi discutido ao longo deste trabalho que cada sociedade, gruposocioeconômico e cultura possuem padrões definidos de belo e ideal. Umadefinição e uma representação difundida para as pessoas de beleza queinstituem como maneiras próprias de ver o corpo. As mulheres falam sobre asatisfação como o próprio corpo. Carla: É o seguinte eu não gosto do meu corpo, eu não gosto do meu corpo. Eu já tive um corpo bonito quando eu era magrinha, porque eu não era aquela magrinha chulada, tinha uma bundinha, mas o meu problema é o culote, se tirasse esse culote estava tudo certo (Risos), e se afinasse a cintura. Mas a verdade é que eu não gosto do meu corpo. Se você me
  • 77. 76 perguntar qual a parte do meu corpo que eu gosto eu vou ser sincera eu não gosto de nenhuma parte, eu não gosto de nada. Paula: (Risos) Eu me sinto bem com meu corpo, mas precisa melhorar um pouco, só um pouquinho, mas eu tenho que controlar a alimentação (Risos) e fazer treino aeróbico que ele é tudo (Risos). Ana: Que o meu corpo está legal, que eu gosto dele não tenho a barriga grande como muitas mulheres que eu conheço, meu bumbum era muito grande e diminuiu um pouco, pois bumbum muito grande é feio e eu perdi 10 quilos, pois pesava 73 Kg e hoje peso 63 Kg. Estou feliz. Fabiana: O que eu penso sobre o meu corpo é que eu não estou satisfeita com ele, até porque quando a gente começa a malhar nada está bom. Eu mesma me olho no espelho e acho que as minhas pernas não estão grossas, sendo que as outras pessoas veem e falam que o meu corpo está bem, mas eu nunca acho e quero sempre modificar. Luciana: Eu queria emagrecer mais, as pernas eu acho que estão bem e a barriga eu queria diminuir mais. As mulheres disseram ter preferência em trabalhar certas partes docorpo com a musculação. Mas essa preferência em trabalhar certas partes docorpo é determinada pela idade. Como mostrou os dados do questionário. Ana: Os braços e as pernas. (55 anos). Fabiana: As pernas e os glúteos. (26 anos). Luciana: Peito. (33 anos). Paula: Pernas e glúteos. (22 anos). Carla: As pernas sem dúvidas, pernas e glúteos. (26). Como não poderia deixar de ser para as entrevistadas a mídia constituicomo uma fonte de informações de questões relativas a saúde e beleza. Izandra: Aonde você busca informações sobre saúde e beleza? Ana: Na televisão é aonde eu sempre vejo falar de saúde e beleza. E a televisão está sempre mostrando as mulheres malhando para ficarem em forma. Fernanda: Na televisão. È aonde sempre fala sobre beleza e saúde e é onde eu busco informações. Paula: Na internet e nas revistas. Carla: Eu assisto muito o bem estar é ótimo. Têm também as revistas, internet eu não vou dizer que acesso porque eu estou
  • 78. 77 mentindo. Também assisto Ana Maria Braga. E no programa da Ana Maria semana passada passou uma mulher que utilizava elástico feito de pneu de bicicleta para fazer exercícios foi muito legal. Luciana: Na televisão. É inegável que a mídia tornou-se, importante forma de divulgação ecapitalização do chamado corpo ideal- comportamento estimulado pelaindústria da beleza. Nas revistas femininas contemporâneas, os especialistasdissertam sobre cuidados com o corpo em diferentes abordagens:alimentação/dietas, sexualidade, moda, “beleza” e exercícios físicos. ParaGiddens [...] hoje em dia, o eu é para todos um projeto reflexivo – uma interrogação mais ou menos contínua do passado, do presente e do futuro. É um projeto conduzido em meio a uma profusão de recursos reflexivos: terapia e manuais de auto-ajuda de todos os tipos, programas de televisão e artigos de revistas. (1993, p.41). Quando questionadas sobre um modelo de corpo na televisão elasfalam: Izandra: Você em algum momento da sua vida já viu um corpo bonito na televisão e quis ter um igual? Luciana: Igual não, mas que se aproximasse. Fernanda: Sim, o corpo de Sabrina Sato. Ana: Já vi vários corpos de mulheres bonitos na televisão e já quis ter o corpo igual ao delas. Carla: Já. Mas para lembrar assim eu não lembro até porque eu assisto muita novela das seis as nove e vejo muitas mulheres bonitas. Ah! Lembrei aquela morena do Big Brother que começou essa semana a Kelly ela tem o corpo lindo. Paula: Não. Para três das cinco mulheres entrevistadas a academia Municipal seconstitui como um espaço de socialização, pois elas disseram que nãogostariam de malhar em casa, sozinhas. Paula: É chato. Carla: É muito chato eu não gosto não. Eu faço algumas séries em casa quando eu não vou para a academia. Abdominais eu
  • 79. 78 também faço em casa, agora malhar no geral eu acho muito chato. Eu não gostaria de malhar em casa sozinha, não. Luciana: Não porque é horrível. E a academia Municipal é o único espaço destinado à prática deexercícios físicos que elas podem frequentar. Izandra: Você teria condições de frequentar outra academia? Carla: Não. Ah! Quem me dera se eu tivesse condições de malhar naquelas academias cheias de equipamentos eu iria me desgraçar em malhar pernas. Ana: Eu acho que não até porque antes da academia daqui do bairro eu tinha vontade de ir para a academia do centro da cidade, mas nunca dava certo. Eu não sabia os horários eu não sabia o preço. Fernanda: Teria se tivesse aqui no bairro, porque ir a uma academia lá no centro e ter que pagar a mensalidade e ainda o transporte sai muito caro. Fernanda e Carla reclamam da estrutura da academia, pois para elascom a falta de aparelhos elas não conseguem alcançar o corpo desejado. Fernanda: Nessa academia daqui do bairro não, tem poucos aparelhos não dá para alcançar o corpo que eu quero só faz melhorar um pouco o corpo. Carla: [...] mas não no caso dessa academia se fosse em outra com mais aparelhos. Essa tem poucos recursos para chegar ao meu objetivo. Pelo fato da academia Municipal ser um espaço público sofre muitovandalismo tendo constantemente os seus aparelhos danificados ou roubados. Os dados até aqui apontam para o fato de que não podemos negar queexista um modelo de corpo ideal para o grupo investigado. E que é essemodelo de “corpo ideal” conformado muito mais por uma estética do que pelasaúde, leva as entrevistadas a frequentarem a Academia Municipal de Pojuca.Considero que esta ação seja parte da construção da identidade corporaldessas mulheres onde podem colocar em prática um desejo de ter um corpoque possa ser identificado com um modelo valorizado por elas. No entanto, talconformação encontra os limites do próprio corpo, e até do acesso a melhores
  • 80. 79recursos que outras academias podem oferecer. No que diz respeito ao grupoinvestigado esse limite é acomodado e vivenciado como dado de realidade.
  • 81. 807 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta investigação evidenciou como o corpo torna-se um objeto que podeser moldado, e como esta posição permite várias intervenções sobre ele.Destacou como nos dias atuais ocorre uma enorme modelagem do corpoatravés das cirurgias estéticas, do uso de medicamentos e das atividadesfísicas, e como isto, por sua vez, possui relação como a forma pela qual asmulheres passaram a se relacionar com o próprio corpo sedimentando umaidentidade corporal. A associação entre saúde e beleza discutida nos capítulos teóricospermanece nos resultados obtidos na investigação do grupo de mulheresfrequentadoras da Academia Municipal de Pojuca. Para esse grupo osexercícios físicos, especialmente a musculação, aparecem como técnicaseficazes na construção de uma identidade corporal feminina que, por sua vez,tem naqueles dois fenômenos seus elementos configuradores. Verificou-se que um modelo de corpo serve de referência para asmulheres investigadas, mas o seu alcance se depara com um terreno depossibilidade socioeconômica, quanto do limite do próprio corpo. A mídiaaparece como propagadora desse modelo, mas é percebida na perspectiva deas mídias se constituem espaços de objetivação que expressam e renovam umsentido social dominante dos fenômenos sociais. Finalmente, a presente pesquisa espera poder contribuir com o curso deLicenciatura em Educação Física da UNEB-Campus II trazendo essa discussãosobre corpo, gênero, exercícios físicos e identidade corporal abordado pordiferentes áreas do conhecimento, visto que hoje a Educação Física tembuscado estabelecer vínculos com diferentes disciplinas frente à complexidadeque vem sendo atribuída a ela.
  • 82. 81 REFERÊNCIASANTUNES, Alfredo. Academias de Ginástica e Musculação. (2008).Disponível em: < http://:www.webartigos.com>. Acesso em: 21 de abr. de 2011.ANZAI, Koiti. O Corpo Enquanto Objeto de Consumo. Revista Brasileira deCiências do Esporte, Vitória, v. 21, n. 2 e 3, jan./maio 2000.CAPINUSSÚ, José M de; COSTA, Lamartine P. da. Administração eMarketing nas Academias de Ginástica e Musculação. São Paulo: EditoraIbrasa, 1989.CASTRO, Ana Lúcia. Culto ao Corpo: Identidades e Estilos de Vida. 2004.Disponível em:< http://www.COS.UC.pt/LAB2004.com>. Acesso em: 15 de fev.de 2011.CODO, Wanderley et al. O que é Corpo(latria). São Paulo: Editora Brasiliense,2004.CORREIA, Célia Maria. Corpo, Jovens e Prática de Musculação: um estudoem Frequentadores de Academia na Região do Grande Porto. (2006). InDissertação de Mestrado, Universidade do Porto; Faculdade de Desporto.Disponível em:< http://www.sigarra.up.pt/fadeup/pubspesquisa.show-publ-file.com>. Acesso em: 2 de mai. de 2011.DEL PRIORE, Mary. Corpo a Corpo com a Mulher: Pequena História dasTransformações do Corpo Feminino no Brasil. São Paulo: Editora SENAC,(Série Ponto Futuro; 2), 2000.DAOLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. São Paulo: Papirus, 1995.FERREIRA, Francisco Romão. Corpo Feminino e Beleza no Século XX.(2010). < Disponível em: http://www.revistaalceu.com.puc-rio.br>. Acesso em:15 jul. de 2011.FREIRE, Gilberto Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural edesenvolvimento do urbano. São Paulo: Global, 2003.GHORAYEB, Nabil et al. O Exercício: preparação Fisiológica, AvaliaçãoMédica, Aspectos Especiais e Preventivos. São Paulo: Editora Atheneu, 1999.GIDDENS, Anthony. A transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor eErotismo nas Sociedades Modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1993.______. Modernidade e Identidade. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2002.GOLDENBERG, Mirian. De Perto Ninguém é Normal. 2ª ed. Rio de Janeiro:Editora Record, 2005.KOLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual. 3 ed. São Paulo:Editora Expressão Popular, Revisão: Ana Corbisier e Joseline Almeida, 2005.
  • 83. 82LE BRETON, David. Adeus ao Corpo: Antropologia e Sociedade. São Paulo:Campinas, Editora Papirus, 2003.LE GOFF, Jacques; TRUONG, Nicolas. Uma História do Corpo na IdadeMédia. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2006.LYPOVETSKY, GILLES. A Terceira Mulher: Permanência e Revolução doFeminino. São Paulo: Editora Companhia das Letras, Tradução Maria LúciaMachado, 2000.MARINHO, Mônica Benfica. Uma Pedagogia do Corpo na Tv: O ProgramaBem star. (2006). Disponível em: http://www.cbcetempsite.ws/congresso.com>.Acesso em: 21 de mar. de 2012.PITANGA, Francisco José. Testes, Medidas e Avaliação em EducaçãoFísica e Esportes - 5.ed. São Paulo: Editora Phorte, 2008.SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de Cuidados de si e embelezamento feminino:fragmentos para uma história do corpo.In: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de(ORG) Políticas do Corpo: Elementos para uma História das PráticasCorporais. 2ª ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2005.SANTARÉM, José Maria. Promoção da Saúde do Idoso: a Importância daAtividade Física. (2003). Disponível em: <http://www.fisiocilturismo.com.br>.Acesso em: 09 de dez. de 2011.SIMÕES, Antônio Carlos et al. O Ser Mulher no Esporte de Competição: AMulher e a busca dos Limites no esporte de Rendimento. (2009). Disponívelem:< http://www.educacaofisica>. Acesso em: 20 de dez. de 2011.RAGO, Margareth. Cultura do narcisismo, política e cuidado de si. IN:SOARES, Carmem. (ORG) Pesquisa sobre o Corpo: Ciências Humanas eEducação. São Paulo: Campinas, Autores Associados, 2007.SOARES, Carmem. (ORG) Pesquisa sobre o Corpo: Ciências Humanas eEducação. São Paulo: Campinas, Autores Associados, 2007.TRIVIÑOS, N. S. AUGUSTO. Introdução à pesquisa em ciências sociais: apesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 2007.VIGARELLO, Georges. Panóplias corretoras: balizas para uma história. In: In:SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de (ORG) Políticas do Corpo: Elementos parauma História das Práticas Corporais. 2ª ed. São Paulo: Estação Liberdade,2005.___________________O corpo trabalhado: Ginastas e esportistas no século XIX. IN:CORBIN, Alain; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges. Históriado Corpo: da Revolução à Grande Guerra. Rio de Janeiro: Petrópolis, EditoraVozes, 2008.
  • 84. 83APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDOTítulo da Monografia: O Corpo modelado: um estudo sobre identidadecorporal feminina entre as mulheres frequentadoras da academia municipal dePojuca – BA - Como requisito para obtenção do grau de Licenciada emEducação Física da Universidade do Estado da Bahia, campus II, Alagoinhas.Pesquisadoras Responsáveis: Professora Doutora Mônica Benfica Marinho(orientadora) e Izandra Pereira da Silva (graduanda do Curso de Licenciaturaem Educação Física da Universidade do Estado da Bahia). Este estudo tem como objetivo geral analisar a relação gênero e práticade exercícios físicos objetivada em uma identidade corporal com base em umainvestigação de um grupo de mulheres praticantes frequentadoras daAcademia Municipal da cidade de Pojuca/ BA. Esta proposta fundamenta-se nas seguintes questões: a centralidade docorpo na contemporaneidade e a crescente prática de atividade físicarelacionada a esta centralidade; e de forma mais específica, a crescente práticada musculação por parte de mulheres. Tendo como objetivos específicos: Discutir os processos derepresentação do corpo entre as mulheres; mapear a academia Municipal dacidade de Pojuca; verificar a ocupação da sala de musculação e a lógica querege tal ocupação; descrever a composição dos praticantes de exercíciosfísicos; Identificar o modelo de corpo perseguido pelas mulheresfrequentadoras da academia Municipal; Levantar o perfil das mulheresfrequentadoras da Academia Municipal da cidade de Pojuca. Para que o objetivo deste estudo seja alcançado, será necessária arealização de perguntas referentes a informações pessoais, sociais e físicas. Éde grande importância que as questões sejam respondidas respeitando oenunciado de cada uma e que não deixe de responder a nenhuma questão. Inicialmente, a participante responderá a um questionário composto por31 (trinta e uma) questões fechadas, onde suas respostas ajudarão no alcancedos objetivos.
  • 85. 84 Considerando a simplicidade dos métodos acima dos procedimentos,somado ao fato de que esse procedimento não apresenta riscos a saúde eintegridade física da participante e será usado exclusivamente para fins depesquisa. Os resultados da pesquisa serão divulgados. Entretanto, a identidadedos participantes será preservada. Após ler e receber explicações sobre a pesquisa, e ter meus direitos de:1. Receber resposta a qualquer pergunta e esclarecimento sobre osprocedimentos, riscos, benefícios e outros relacionados à pesquisa;2. Retirar o consentimento a qualquer momento e deixar de participar doestudo;3. Não ser identificado e ser mantido o caráter confidencial das informaçõesrelacionadas à privacidade;4. Tendo recebido as informações acima e ciente dos meus direitos, concordoem participar voluntariamente da pesquisa.Pojuca, de de 2011._______________________________ Assinatura da participante Assinatura da pesquisadoraEndereço do pesquisador: Rua Hercílio Correia Lima, S/Nº, Retiro – Pojuca – BAE-mail para contato: izandra27@hotmail.comTelefone para contato: (71) 3645-4368 - (71) 96136927