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Revista cerrado agroecologia

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  • 1. PrAGROECOLOGIA AGROECOLOGIACaminhos culinária caseira, o bordado e o artesanato. de Itapuranga produzem. O agricultor da mílias. Resultado de um processo histórico que se fazem ao andar Simples e “caprichosa”, Aldete Apa- Fazenda Laranjal 2, Ailton Freitas da Sil- de mobilização, a cooperativa foi fundada recida Pereira de Souza é uma das co- va, que conversou com a reportagem na no final da década de 1980 e atualmenteAgricultores familiares se desdobram para conquistar uma produção autônoma e sustentável de alimentos. Em Itapuranga, operadas que garantem parte da renda sede da Cooperafi em Itapuranga, diz ter está associada a 14 entidades locais, comorealizam transição agroecológica como forma de reparar danos ambientais e sociais provocados pelo agronegócio ao da família na cozinha. Tão logo recebeu sido um dos fundadores da feira que os pe- o Sindicato dos Trabalhadores Rurais delongo de décadas. A prática, em diálogo com a UFG, acompanha necessidades que se revelam no cotidiano a equipe de reportagem da UFG em sua quenos produtores fazem às quintas-feiras. Itapuranga (STRI). propriedade, já estendeu o forro da mesa Assim, ele rememora: “Antes, trazíamos o As condições de vida no Xixá pare- e ofereceu uma de suas “iguarias”: requei- que havia em casa. Hoje não conseguimos cem um privilégio. “Para se ter uma ideia, jão com doce de laranja. Ela demonstrou atender a toda a demanda”. aqui não tem latifúndio”, diz Augusta, Bertolino e Ridinalva Itapuranga (Cooperafi), Maria Pereira dos especial apreço ao afirmar que “vem gente A Cooperafi aponta ainda a possibili- com orgulho. Contudo, a trajetória des- fazem parte de uma Santos, conhecida como Augusta, produ- de longe” para provar suas ofertas. “Tem dade de escoar produtos por meio de ações ses agricultores é de luta e resistência. E o história de luta tora rural e também secretária de Agricul- mulher que arrecada até R$ 2,7 mil por de políticas públicas voltadas ao associa- histórico dos agricultores aponta para uma pela sobrevivência tura do município, e Selma Maria Gondim mês”, completou Selma Maria, reforçando tivismo e aos camponeses assentados e/ou caminhada muitas vezes tortuosa e incerta autônoma na terra, Cardoso Rodrigues, agricultora familiar. o entusiasmo da colega agricultora. tradicionais. Atualmente, servem como entre a dependência e a independência, protagonizada Na casa da família Souza, a sobrevi- Na propriedade de Aldete e seu mari- alicerces dessa dinâmica o Programa Na- por exemplo, do conhecimento científi- pelos moradores vência é retirada da produção de frutas do, Altair Souza, também se produz caju, cional de Alimentação Escolar (PNAE) co e da transferência de tecnologia. Daí a de Itapuranga. aliada à criação de bovinos e ao cultivo de cagaita, pequi, mexerica, morango, abó- e o Programa de Aquisição de Alimentos importância da participação e do envolvi- Atualmente, o casal hortaliças, leguminosas e outros gêneros bora, alface, entre outros. Quando aceitou (PAA), da Companhia Nacional de Abas- mento da comunidade universitária. preocupa-se em alimentícios. “É pouco, mas é diversifi- produzir sem degradar cado”, resume Bertolino, modestamente, Percurso social – Juntamente com o ex- o meio ambiente referindo-se às cerca de 90 variedades professor da EA, Joel Orlando Bevilacqua que crescem em seu terreno, incluindo Cooperafi Marin, pioneiro dos projetos em Itapu- acerola, abacaxi, cagaita, mangaba, caja- ranga e atualmente vinculado à Univer-Patrícia da Veiga O objetivo da visita a Itapuranga foi -manga, murici, manga, pequi, mandioca, sidade Federal de Santa Maria (UFMS),R conhecer o modo de vida dos agricultores cará, milho, quiabo etc. Glays Matos identificou em seu estudo,R idinalva Maria dos Santos Souza e Bertolino João de Souza vivem emuma propriedade de aproximadamente familiares, que nem sempre firmam-se em um sistema produtivo hegemônico, vincu- lado à estrutura do agronegócio, oposto, A mão-de-obra em sua propriedade é constituída basicamente por ele e por seu filho mais jovem. Uma vez por semana, publicado na revista científica Pesquisa Agropecuária Tropical (Goiânia, v. 39, n. 3, jul./set. 2009), três momentos distintossete hectares, no município de Itapuranga, portanto, às suas condições materiais e entretanto, a família contrata um diarista da trajetória das famílias do município.antigo povoado de Xixá, a 170 quilôme- para auxiliar no que for necessário: limpeza O primeiro remonta ao início do séculotros de Goiânia. Ele migrou de Minas Ge- do terreno, preparação do pasto, plantação XX, com as ocupações iniciais de umarais e chegou a trabalhar em fazendas da ou colheita. Ridinalva produz queijos, re- área que, por pelo menos dois séculos, foiredondeza, até conquistar esse terreno, em queijão, quitandas e doces, atividade que O trabalho coletivo e comunitário, em forma de mutirão, é uma das práticas adotadas pelos camponeses que passagem para a mineração. Do processo1987. Ela é da região, saiu de casa quando vem sendo estimulada pelo projeto Mu- participam da transição agroecológica inicial de ocupar terras devolutas e plan-se casou. Os três filhos do casal mantêm-se lheres Rurais do Xixá, desenvolvido pela tar para o consumo próprio, os campone-ainda no campo, mas, como parte de sua Cooperafi em parceria com o Ministério do andar por suas terras com a reportagem, Al- tecimento (Conab). ses passaram a comercializar o excedente,geração, estudaram na cidade, que está a Desenvolvimento Agrário (MDA). tair fez questão de mostrar sua plantação de O nível de organização da agricultura intercalando o uso do solo e produzindocerca de dez quilômetros de casa. Na com- Esse é um retrato comum entre os “açaí com banana”, combinação de cultivo familiar em Itapuranga envolve atualmen- a baixo custo. “A primeira lavoura a serposição do cenário em que se encontra a agricultores familiares do município de que resultou de um experimento de sistema te 105 famílias e 20 profissionais contrata- cultivada era a de arroz, realizada entrefamília Souza há uma residência arejada e Selma e Augusta, diretoras da Cooperafi, Itapuranga. De acordo com pesquisa rea- agroflorestal (SAF) realizado em conjunto dos pela Cooperafi, sendo dois deles filhos os tocos, e, na sequência, cultivavam-se ocom fachada de cor verde, quintal a per- mostram os frutos do seu trabalho lizada entre 2005 e 2007 pela analista da com a UFG e que é objeto de investigação de cooperados. Também efetua parceria milho e o feijão, por três ou quatro anos.der de vista, represa nos fundos, paiol, chi- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu- de estudantes do curso de Agronomia. À com diversas entidades públicas e priva- Neste lapso de tempo, os agricultores ro-queiro, pequenos pastos, lavouras esparsas às suas pequenas terras. Outra finalidade ária (Embrapa) Glays Rodrigues Matos, pergunta sobre o interesse pela diversifica- das. Em 2006, por exemplo, 25 proprie- çavam outro terreno, para prepará-lo parae uma vasta aglomeração de árvores típi- da viagem foi conhecer de que modo a no Programa de Pós-graduação em De- ção e, sobretudo, pelas frutas, o agricultor dades receberam fomento da Petrobras, um novo ciclo”, descrevem Glays e Joelcas do Cerrado. Por ali, conforme apresen- universidade, com seu arcabouço teórico senvolvimento Rural da UFG, desde a dé- respondeu, demonstrando disposição cons- por meio de um projeto de incentivo à no texto que assinam conjuntamente.ta Bertolino, “a terra é macia”. e sua experiência de pesquisa científica, cada de 1990, Itapuranga desponta como tante para observar a natureza e inovar: fruticultura. Em 2011, a renovação desse Assim que chegou ao lugar, a equipe vem acompanhando o desenvolvimen- polo de fruticultura em Goiás. – “Não sei. Só curiosidade mesmo. contrato envolveu 45 famílias. Ações de A agroidústria produz nove tipos de polpas parade reportagem da revista UFG Afirmati- to do lugar. Intermediaram esse contato Os camponeses das pequenas proprie- Já pensou ver uma planta durar 40 anos? mutirão, educação ambiental, atenção sucos. Entre elas, a do caja-mangava foi recebida pelo casal, dois cachorros Ricardo Camargo, engenheiro agrônomo dades, maioria na região, optaram ainda pelo Também, cansei de milho e arroz. Agri- aos conflitos de gênero e recuperação dee uma mesa farta posta com doces, quei- vinculado a um projeto de pesquisa da Es- uso diversificado da terra. Dos 2.020 estabe- cultor é assim mesmo, gosta de inventar”. matas ciliares, além da assistência técnicajo, pão de queijo, café e salada de frutas cola de Agronomia e Engenharia de Ali- lecimentos rurais do município, 1.800 alter- Todas as semanas, ao menos duas constante, também foram incorporadas àfrescas. Considerando os hábitos e os ali- mentos (EA/UFG) sobre o território rural nam sua produção dessa forma. Associada à feiras da região e mais uma agroindústria, agenda dos pequenos produtores, extrapo-mentos ali cultivados, não poderia haver Vale do Rio Vermelho, e duas diretoras da fruticultura está também a comercialização que produz nove tipos de polpas para su- lando questões econômicas e valorizandorecepção mais característica. Cooperativa de Agricultores Familiares de de hortaliças, leite e derivados, bem como a cos, são abastecidas com o que as famílias o sentimento de solidariedade entre as fa- Pág 38 - Afirmativa - Pá g 39
  • 2. AGROECOLOGIA AGROECOLOGIA A produção extensiva passou a ser am- Aos poucos, a atividade leiteira pas- ainda não foram superados plenamente “As experiências humanas não podem ser desperdiçadas ”pliada e incentivada pelo Estado a partir da sou a predominar, sendo considerada mais os problemas sobretudo ambientais, pro-década de 1960, marcando a segunda fase segura para a obtenção de financiamento vocados pela política agrária moderniza-das vivências camponesas. Com políticas e de resultados nos investimentos. As dora de outrora.de crédito que, em troca de financiamentos pastagens substituíram a arborização na- Altair Souza, quando levou a repor- experimentar outrapara o aumento das áreas cultiváveis, in- tural e, por outro lado, deu-se mais ênfase tagem da revista UFG Afirmativa para ‘pedagogia’, quecentivavam o desmatamento e ainda con- à horticultura, com o cultivo de “tomate, conhecer suas terras, demonstrou dúvidas implique a troca de Tatianedicionavam o lavrador ao uso de insumos, pimentão, pimenta, abóbora, pepino, me- de como plantar morangos, por exemplo, saberes e não a im- Cooperafi Ferraz, filhaas terras foram gradualmente submetidas ao lancia, repolho e folhosas”, até então um sem o uso de agrotóxicos. No entanto, posição de valores. de produtoresseu esgotamento, ao passo que respondiam complemento da renda das famílias. “Os ele não deixou de tentar. “Tenho receio Os próprios e estudantea um “novo ritmo de produção”. A mão-de- agricultores familiares redefiniram seus de que não funcione por muito tempo. agricultores de- de Ciências-obra local, por sua vez, foi substituída por sistemas de produção”, aponta Glays. Além disso, me informei em Heitoraí, monstram impa- Biológicas damáquinas, ainda que algumas atividades, A terceira etapa, nos anos 90, as- essa variedade serve somente para sucos”, ciência e cansaço UEG, integracomo a colheita, seguissem dependendo de sentou-se na troca de experiências com argumentou. A plantação de morangos é quando se fala em equipe dostrabalho manual. Além disso, o controle de agricultores familiares e cooperativas de seguida dos mamoeiros, que também cor- assistência técnica. projetos damercado por atacadistas e outros agentes outros municípios, como Araguari, em rem o risco de contaminação por produto “O técnico exige Cooperafi emurbanos tornara a mercadoria produzida Minas Gerais. Foi quando a fruticultura químico. “Se ficam feios, ninguém com- determinada postu- parceria com apelos agricultores familiares cada vez mais tornou-se um atrativo e revigorou a so- pra”, completou. ra dos agricultores, UFGbarata, acarretando agravante econômico brevivência desses camponeses. No en- A agricultura convencional, com a mas não nota quepara todo o município. tanto, no que tange ao modo de produzir, “revolução verde”, foi fortemente marca- muitas vezes nos da pelo modelo difusionista de transmis- falta recurso ou Altair e Aldete, da zona rural de Itapuranga, produzem frutas, hortaliças e leite são de conhecimento. Na época, essa foi mão-de-obra”, re- a ‘pedagogia’ (entendida aqui como for- clamou Altair Souza, no alpendre de sua humana organizada para produzir tecnolo- mação dos seres humanos para atuarem casa, quando Ricardo Camargo, o agrôno- gia e modos de produção no campo que, É chamada “revolução verde” a ação que complemen- política pública entre 1975 e 1979, com a segunda ver- com base em determinada visão de mun- mo que acompanhou a equipe de reporta- de forma gradual, considerem as bases da tava o pacote estadunidense de políticas públicas para a são do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). do) que acompanhou as vendas de adubos gem pela estrada, tocou no assunto. “De agroecologia, bem como as características América Latina, iniciado na década de 1950, que mecani- Guiava a República Federativa do Brasil, na ocasião, o químicos, agrotóxicos e maquinários. As- fato, não conseguimos fazer sempre o que ambientais locais e os saberes acumulados zou a produção agrícola e transformou latifúndios oligár- general Ernesto Geisel, que ensaiou uma terceira “Mar- sim, as técnicas oriundas de um processo os agrônomos querem”, opinou Selma Ma- pelos povos. Vale destacar que por tecno- quicos em grandes empresas exportadoras. Esse processo, cha para o Oeste” (depois de Getúlio Vargas e Juscelino de mecanização, até a década de 1960 es- ria, na mesma roda de conversa. De acordo logia se entende o resultado da interação “Revolução verde” no entanto, não foi pontual nem linear. Jacques Chon- Kubitschek), com incentivo à ocupação dos territórios tranhas aos agricultores familiares, pene- com Ricardo, os profissionais, em contra- entre os seres humanos e a natureza, que se chol, pensador chileno, delimita ter sido o auge da revo- “vazios” e “sem vida” no Cerrado e na Amazônia. traram bruscamente nas culturas diversas, partida, têm reconhecido a necessidade de desdobra em um “saber fazer” e/ou em uma lução verde o ano de 1975, dos países asiáticos e africanos Na ocasião, foi comum confrontar, a partir da te- muitas vezes com o apoio e o fomento do redimensionar sua prática. “O homem do ferramenta para esse “fazer”. aos latino-americanos. Esta década, no entanto, viveu a oria da dependência, o mundo rural e o urbano. Sen- próprio Estado. Com o tempo, costumes campo, em sua relação com a terra, já de- A partir dos anos 2000, por influên- consequência de um processo de “modernização” das prá- do este último uma suposta consequência do primeiro, “estrangeiros” passaram a ser incorpora- senvolve o seu saber. É necessário, assim, cia das convenções ambientalistas e de ticas camponesas que começou antes mesmo da eclosão da primitivo, que deveria receber toda a “luz” da ciência dos à visão de mundo dos camponeses, adotar uma metodologia de trabalho cons- um contexto global de rearranjo das bases Segunda Guerra Mundial, nos anos de 1930, na Europa, e toda a intervenção da vida moderna. Em outras pala- como por exemplo o uso de agrotóxicos, trutivista”, informou. capitalistas, a agroecologia passou a ser quando se constatou que uma parcela do mundo tinha o vras, o tratamento mecanicista dado ao campo foi con- mencionado por Altair. considerada alternativa de produção em problema de excedente de alimentos e outra, ainda maior, siderado um “avanço”. O Brasil é o país que mais consome todo o mundo. Novas teorias multidis- padecia com fome. No entanto, para as pessoas que vivem no campo, esse tipo de produto em todo o mundo ciplinares foram experimentadas e reco- O processo de “modernização” da agricultura brasi- a “modernização” trouxe várias formas de violência e e, conforme o Movimento dos Pequenos mendadas. No Brasil, a Política Nacional leira foi realizado sob o argumento do aumento da pro- miséria, desde a simbólica até a física, como comentou Agricultores (MPA), cada cidadão ingere, de Assistência Técnica e Extensão Rural dução e da oferta de trabalho. Era predominante a ideia José de Souza Martins em 2000, durante o encerramen- por ano, o equivalente a 5,2 kg de vene- (PNATER), proposta em 2003, reverbe- de que o caminho para o crescimento do país e para a to do X Congresso Mundial de Sociologia Rural: “Des- no, indiretamente, através dos alimentos. rou esse pensamento. distribuição igualitária de renda deveria passar pela in- de os anos 70, a modernização forçada do campo e o Iniciativas como a Campanha Permanen- No entanto, conforme alerta o professor dustrialização. Em busca de uma produtividade em larga desenvolvimento econômico tendencioso e excluden- te Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, da EA, Gabriel Medina, é preciso que a as- escala para o abastecimento do mercado de commodities te nos vêm mostrando que esse modelo imperante de encabeçada pela sociedade civil brasileira sistência técnica evite o risco de reproduzir o Ricardo Camargo acredita na possibilidade de (mercadoria em estado bruto), o país investiu, também, desenvolvimento acarretou um contradesenvolvimen- e lançada em 2011, sinalizam o rumo em difusionismo do passado. Sua sugestão é que, uma assistência técnica colaborativa em máquinas, sementes melhoradas e insumos. to social responsável por formas perversas de miséria que caminham as “tendências” do século no momento das orientações sobre como Essa transformação foi intensificada na forma de antes desconhecidas em muitas partes do mundo”. XXI. Combater os “pacotes” da agricultu- produzir, leve-se em conta o agricultor, sua ra moderna é consenso entre movimentos E é desta forma que a EA vem pronun- história, seu pensamento, suas práticas coti- sociais, associações, cooperativas e agricul- ciando a expressão “transição agroecológi- dianas e suas preferências. Até mesmo porque tores. No entanto, para que essa dependên- ca”. Grosso modo, a transição agroecológi- há questões relacionadas a mão-de-obra e fi- cia de insumos seja superada, é necessário ca pode ser compreendida como uma ação nanças que podem impedir, por mais que se Pág 40 - Afirmativa Afirmativa - Pá g 41
  • 3. AGROECOLOGIA AGROECOLOGIA Foto: Cooperafi queira, que a agroecologia vigore totalmente. a agricultura convencional, mais pratica- Por esse motivo, o professor Gabriel de Goiás (UEG) e integrante do projeto da so às fontes de água “Partimos da hipótese de que novas da, e a agroecologia, por muitos desejada. defende que a assistência deva ser ajusta- UFG em parceria com a Cooperafi, trata de corrente do terreno. práticas, mesmo as agroecológicas, terão Para tanto, conforme explicou o professor da. “Agora o projeto está selecionando as mantê-lo atualmente com mudas de abaca- De resto, adaptou- maior potencial de adoção e manutenção Gabriel, foram realizadas propostas de as- práticas que foram facilmente adotadas, te, graviola, cagaita, pitanga, açaí, cacau e -se bem às técnicas. quanto mais próximas forem das práticas sistência técnica que pudessem testar “sis- para concluir o desenho das propostas téc- cupuaçu. Já Bertolino optou por ampliar “Até ampliei minha convencionais e quanto mais gradual for temas de manejo do gado leiteiro, horticul- nicas adequadas a esse público”, conclui. sua área de SAF e reduzir a de hortaliças. área de pasto. Estou a mudança promovida”, escreveu o pro- tura agroecológica e arranjos de espécies “Não tinha muito tempo para me dedicar agora com três hec- Sistema agroflorestal – Em 2006, Berto- a tudo”, complementa. Em sua visão, o que tares e 13 piquetes”, lino João descobriu ter ideias similares às é plantado no SAF tem utilidade em todo completou. dos pesquisadores e estudantes da EA. “Há o restante de sua produção, podendo con- Conforme PRV sugere divisão de pastos para promover a recuperação do capim muito tempo queria produzir sem degradar a verter-se em medicamento para seu gado. pesquisa da EA, ape- Foto: Cooperafi natureza. As ideias coincidiram”, confirma. “Tenho uma receita que serve de vermífugo nas 7% das famílias Ele notava a dificuldade em lidar com pragas para as vacas: pego o caule do mamoeiro e Trata-se da maior fonte de energia do ani- lograram executar todo o sistema proposto. frequentes nas pequenas lavouras, além de trituro junto com a cana”, exemplifica. mal. “Quanto melhor a qualidade do pasto, Além da irrigação, outro fator de dificuldade plantas cada vez mais desnutridas. Também melhor o aproveitamento do animal, maior para os agricultores é a realização de análi- observava constante dificuldade em recupe- Manejo de pasto – A produção leiteira em a produção de leite por animal e menor o se do solo. Há, ainda, problemas técnicos, rar a vegetação nativa em áreas muito de- Itapuranga, assim como em todo o Vale do custo com ingredientes extras, como ração conforme exemplifica Tatiane, que acompa- vastadas, como margens de rios. Conforme Rio Vermelho, é altamente praticada pelos e silagem”, explicou Tatiane durante o se- nhou dez famílias: “O que também afetou o narrativa de Joel Marin, para combater tal agricultores. Em pesquisa recentemente re- minário “O Mundo da Agricultura Fami- sucesso do PRV foram as sementes, que não desequilíbrio e atender às frequentes de- alizada, a equipe coordenada pelo professor liar”, realizado na EA em junho de 2011. germinaram de acordo com o esperado. Em mandas de agricultores, como Bertolino, foi Gabriel entrevistou 144 famílias na região Em Itapuranga, como as propriedades algumas propriedades foi necessário fazer um proposto criar “unidades de experimentação e constatou que, dessas, 109 têm como úni- não dispõem de vastos espaços para pastos, segundo plantio”. sobre os processos de produção agroecológi- ca fonte de renda o gado, seis intercalam o trabalho feito entre camponeses e univer- O que mais gerou custos e, consequen- ca de frutíferas e hortaliças, sistemas agro- a produção de leite com a horticultura e 21 sidade partiu do loteamento de pequenas temente, resistência entre os agricultores florestais, resgate de sementes crioulas, co- (estando boa parte destas em Itapuranga) áreas, conhecidas como “piquetes”, dividi- foi a necessidade de mais mão-de-obra do berturas vegetais para recuperação do solo, investem também em fruticultura. “Apenas das na extensão de um hectare e separadas que no sistema convencional. Com base manejo racional de pastagens e técnicas de três agricultores têm sistemas de produção por cerca elétrica. O sistema implantado em dados apresentados pelo professor Ga- compostagem orgânica e biofertilizantes”. altamente diversificados, incluindo gado foi o pastoreio racional voisin (PRV), rea- briel, um hectare de pasto organizado con- A fruticultura passou por etapas de de leite, horticultura e fruticultura”, apon- lizando análise do solo, preparação do ter- forme o sistema voisin, em seu processo “adubação verde”, complementação de ta artigo do grupo a ser publicado no livro reno com adubação orgânica e alternância de implantação, exige aproximadamente nutrientes e formação de um pomar. A Agricultura Familiar em Goiás, editado pela do uso do pasto pelo animal entre um e três quatro diárias de trabalho a mais. Ao longo horticultura foi reforçada por uma aduba- UFG e pela Cooperafi (no prelo). dias. Conforme explica Ricardo Camargo, do ano, a diferença foi de 42 diárias, o queFeira livre realizada pelos trabalhadores rurais e pelos agricultores familiares de Itapuranga: variedade e fartura ção com biofertilizantes, além de promover Por essa razão, o manejo de pasto foram realizadas as seguintes etapas: “aná- levou os agricultores a trabalharem mais de rotação de culturas e substituir os venenos é uma técnica almejada pelo agricultor. lise de solos, calagem da área, gradeamen- oito horas diárias, já que em muitos casos por nim, pimenta, alho e calda bordale- to, plantio de capim houve dificuldade para arcar com os custos fessor para um trabalho apresentado no para a recuperação de margens de rios”. sa. Os sistemas agroflorestais (SAFs), por e leguminosas, ins- da contratação de diaristas. VIII Congresso Latino-Americano de So- A conclusão da pesquisa sinaliza para sua vez, consistiam em formar viveiros de talação dos piquetes Ainda assim, os agricultores aceitaram ciologia Rural, realizado em 2010. O an- uma construção conjunta de práticas de plantas que intercalassem leguminosas, dividindo o pasto, ir até o fim do processo, vislumbrando re- tecessor de Gabriel Medina, Joel Marin, transição, tendo em vista que não há ho- árvores nativas do Cerrado e frutíferas em instalação do siste- torno para o futuro. A expectativa calcula- demonstrou ter a mesma consideração mogeneidade na recepção das técnicas uma mesma área. Cada SAF foi montada ma elétrico e insta- da é que a remuneração por dia de trabalho quando, em 2009, escreveu em publicação agroecológicas. No que se refere à adu- conforme os interesses dos agricultores e, lação do sistema de no sistema convencional seja de R$ 18,42 e organizada pela Pró-reitoria de Extensão e bação do terreno para a horticultura, por para dar-lhes suporte, houve o momento de água”. que no PRV suba para R$ 41,41. Cultura (Revista UFG, dez/2009, ano XI, exemplo, 100% dos agricultores atendidos troca de sementes crioulas de milho, feijão, Bertolino João Para a equipe da UFG, os resultados n. 7) que “as experiências humanas não pela UFG demonstraram interesse em usar arroz, mandioca, batata–doce, pimentas, cumpriu quase todos foram compensatórios, tendo em vista que podem ser desperdiçadas”. como adubo composto orgânico e esterco abóbora, melancia, melão, cabaça etc. os passos, deixando houve melhoria na qualidade da alimen- Sob essa premissa, as famílias de Al- bovino, pelo fato de serem materiais dispo- A manutenção dos SAFs ficou a car- temporariamente tação do animal e no aproveitamento das dete e Altair, Ridinalva e Bertolino, bem níveis e de fácil preparo. No entanto, para go de cada agricultor, de acordo com suas o sistema de água. pastagens. Tatiane ressaltou ainda o be- como outras 30 famílias de agricultores, fo- controlar pragas aéreas, 30% das famílias possibilidades. Altair Souza, que teve seu “É muito caro”, co- nefício da independência: “os produtores ram acompanhadas por técnicos da UFG e não aceitaram usar a calda de pimenta, viveiro organizado pela própria filha, Ta- mentou, indicando trocaram informações entre si e, muitas da Cooperafi, entre 2006 e 2010, para que solução natural, alegando que um produto tiane Ferraz, estudante do curso de Ciên- que deixou apenas vezes, executaram as tarefas sem a presen- fosse detectada a “distância técnica” entre químico seria de mais fácil aplicação. cias Biológicas da Universidade Estadual corredores de aces- ça dos técnicos”. Harmonia entre o meio ambiente e o trabalho humano caracterizam as condições de vida no antigo povoado do Xixá Pág 42 - Afirmativa Afirmativa - Pá g 43

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