Nosso Caderno de Receitas: Gente e Livros na Cozinha

6,595 views
6,220 views

Published on

Projeto de Extensão Universitária MAIS Gente e Livros: Caixinhas Viajantes no Mundo Fantástico da Literatura.

Published in: Education
0 Comments
2 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
6,595
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
463
Actions
Shares
0
Downloads
77
Comments
0
Likes
2
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Nosso Caderno de Receitas: Gente e Livros na Cozinha

  1. 1. NOSSO CADERNO DE RECEITAS
  2. 2. PROJETO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA MAIS Gente e Livros: Caixinhas Viajantes no Mundo Fantástico da Literatura NOSSO CADERNO DE RECEITAS: GENTE E LIVROS NA COZINHA Subprograma Apoio às Licenciaturas Programa de Extensão Universitária Universidade Sem Frontei-ras – USF Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior- SETI Setor de Educação Pró Reitoria de Graduação – PROGRAD e Pró Reitoria de Exten-são e Cultura – PROEC Programa de Extensão “Qualificação de Professores Alfabetiza-dores” Universidade Federal do Paraná – UFPR Curitiba, novembro de 2010
  3. 3. Ficha técnica Autores:Ana Luiza Suhr Reghelin, Andressa Machado Teixeira, Bruna FiallaAlves, Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves, Fabiana da CunhaMedeiros, Karla Fernanda Ribeiro Neves, Juliana Beltrão Leitoles, Jú-lio Cezar Marques da Silva, Liliane Machado Martins, Luciane Fabianedos Santos, Márcia Tarouco de Azevedo Rocha, Rosicler Alves dosSantos, Valéria Zimermann de Morais Ilustrações:Ana Luiza Suhr Reghelin Capa:Miriam Fialla Diagramação:Felipe Meyenberg Revisão:Bruna Fialla Alves Assistente de Organização:Bruna Fialla Alves Organização:Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves Prefácio:Carmen Sá Brito Sigwalt Apoio:SETIUFPR Tiragem:300 exemplares
  4. 4. Aos professores
  5. 5. Muito Obrigado! À Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior- SETI, À Universidade Federal do Paraná - UFPR, Às pessoas das comunidades atendidas, escolas e outras insti-tuições parceiras, Aos que se dedicam à literatura e à educação, Aos nossos amigos e familiares, Aos livros que lemos e às histórias que ouvimos contar.
  6. 6. ÍndicePrimeira ParteCapítulo 1 – MAIS escola 15Capítulo 2 – MAIS dos livros 20Capítulo 3 – MAIS gente 32Capítulo 4 – MAIS das histórias 37Capítulo 5 – MAIS viajantes 41Segunda ParteCapítulo 1: Matéria prima 47“Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”Listagem das “caixinhas viajantes” e do acervo do projeto; sobre os livrosem uso e as narrativas de histórias de vidaCapítulo 2 - Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não apa- 66rece, mas aparece na arte de fazer comidaQualidades do contador de história; reflexões autobiográficas de quemama literaturaCapítulo 3 - História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato 74Depoimentos de integrantes do projeto da Universidade e da Comunidade 89Capítulo 4 - Contar e (des) cansar é só começar: descascando em plenasala de aulaRecursos externos e outras maneiras de contar histórias
  7. 7. Capítulo 5 - A massa desandou... virou virado! 112Experiências com o inesperadoSituações-problema no projeto e o que se pode aprender com elasCapítulo 6 - Culinária exótica: literatura FORA da sala de aula 126Entrevistas com quem atua em hospital, brinquedoteca na clínica, brin-quedoteca escolar e livraria especializadaCapítulo 7 - Mestres-cuca e seus narizes hiperdesenvolvidos: o que eles 140nos contamMAIS entrevistas: contadora de histórias, escritor que ilustra e ilustradorque escreve.Capítulo 8 - Aprimorando o gosto: cozinheiros mirins 151Práticas criativas protagonizadas pelos jovens leitoresCapítulo 9 - Pesquisa: em busca de iguarias 163Sobre intertextualidade e auto-reconhecimentoCapítulo 10 - Em nossa cozinha 173Integrantes da equipe, parceiros e outros colaboradores do projeto; nú-meros e curiosidadesReferências 186Apêndice 196Receitas do nosso cardápio!Materiais confeccionados, testados e aprovadosAntes de recolher os pratos 210
  8. 8. Prefácio Carmen Sigwalt Acredito que é na infância que se desperta o gosto pela literatu-ra, mas para isso é necessário o incentivo de familiares e professores.Dentro desta perspectiva nasceu o “Projeto Gente e Livros: caixinhasviajantes no mundo fantástico da literatura”, que teve sua criaçãograças ao desenvolvimento de outro projeto, chamado “Os LivrosCriam Asas”, realizado no país africano São Tomé e Príncipe com oapoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e do Ministério deRelações Exteriores. Em parceria com o Ministério da Educação, oprojeto foi desenvolvido através de três universidades: UniversidadeFederal do Paraná, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande doSul e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Os participantes deste projeto foram responsáveis por implan-tar, orientar, acompanhar e avaliar cem turmas – composta de jovense adultos - em processo de alfabetização e letramento. Durante oprocesso de formação inicial e continuada dos professores foi prio-rizada uma concepção de língua que os levasse à adoção de umametodologia que contemplasse não apenas a dimensão gráfica doprocesso de alfabetização, mas também atendesse à necessidade degarantir um processo de letramento dos professores e alfabetizan-dos. Esta metodologia teve como ponto de partida o trabalho comtextos significativos - que possibilitassem a compreensão do proces-so de leitura e produção de texto, a função social do letramento eda escrita, o interesse pela aquisição dessas habilidades e o domíniosistemático do código da língua portuguesa. Durante a realização do projeto percebemos que o trabalho sóse complementaria com a criação de condições de leitura para osalunos e professores, por isso implementamos um projeto de litera-tura que disponibilizou um acervo com obras de autores brasileiros,portugueses e africanos. As caixinhas de literatura circularam pelopequeno país, e graças ao resultado altamente satisfatório desta ini-ciativa nasceu o desejo de criar um projeto semelhante no Brasil.
  9. 9. Com a criação do Programa Universidade Sem Fronteiras - pelaSecretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (SETI) – eu (professo-ra de Pedagogia da UFPR), Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçal-ves (recém formada em Pedagogia) e Martha Cristina Zimermannde Morais (aluna do mestrado) nos unimos para a elaboração do“Projeto Gente e Livros: caixinhas viajantes no mundo fantástico daliteratura”. Conhecimento, amor à literatura e o desejo de atuar nocontexto educacional nos uniram para concretizar esta idéia. Comisso foi possível tornar realidade o sonho de buscar incentivo à leitu-ra através da qualificação docente e de oficinas pedagógicas desen-volvidas com alunos de escolas públicas. Já no inicio do projeto foipossível ampliar a equipe com a seleção de novos alunos de gradua-ção - com perfil adequado ao projeto - e também com alunos recémformados, dentro das características exigidas. Realizamos as primeiras intervenções nos municípios do Valedo Ribeira, pois apresentavam um dos IDH’s (Índice de Desenvolvi-mento Humano) mais precários dentre todos os outros municípiosparanaenses; a questão educacional também aparecia como proble-mática. Posteriormente privilegiamos o município litorâneo de Gua-raqueçaba e a cidade de Piraquara - ambas apresentavam indicati-vos de desenvolvimento bastante limitados. A repercussão do projeto e o empenho da equipe em ampliara socialização desta iniciativa possibilitaram que fôssemos além doatendimento inicial previsto e pudéssemos atuar em escolas públicasde Curitiba, em um Centro Municipal de Educação Infantil, em umaescola particular de Educação Infantil e na Casa Amarela – espaçoda Funpar e, posteriormente, da UFPR para atendimento de criançasportadoras de necessidades especiais. O sucesso do projeto se deveao empenho de pessoas e instituições que acreditam na literatura. Foi necessária a desconstrução de todo o projeto para recons-truí-lo no formato de um livro. A obra - recheada com poemas, con-tos, canções, aperitivos, jogos, brincadeiras, receitas e depoimentospessoais - é resultado de todo o desenvolvimento do projeto. Osalunos e ex-alunos, percorrendo diferentes caminhos, destacam aimportância do incentivo à leitura. Com muita propriedade conheci-
  10. 10. mento e poeticidade, nos fazem percorrer uma história de sucessoe comprometimento. Uma história que nos mostra o quanto somoscapazes de contribuir para a construção de uma nova sociedade –a partir de uma escola séria, sem ser triste – em que a verdadeiraalegria está no acesso ao conhecimento; e na qual a leitura e a es-crita representam instrumentos básicos – ferramentas fundamentais– para uma sociedade letrada. Sinto muito orgulho “dos meus meninos e das minhas meninas”,autores desta obra.
  11. 11. Apresentação Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves Há quem diga que as pessoas buscam receitas. Há quem troquereceitas. E também aqueles que distinguem o que é essencial do queé ornamento; do que faz da refeição mais que um alimento, umaiguaria. Na terceira edição do projeto de extensão universitária “Gentee Livros”, a gente temperou um pouquinho MAIS. Além de promo-ver formação continuada de docentes, fazer intervenções nas salasde aula - com alunos e professores (e, vez ou outra, também comfamiliares) -, e entregar um kit de livros - as “caixinhas viajantes”- em cada escola municipal pelos municípios por onde já passou,o projeto “MAIS Gente e Livros” ousou desenvolver um jogo, umDVD e um livro que contemplassem um pouco do que já cozinhou,trocou e provou de literatura na escola e na comunidade. Tudo issopara contribuir com a formação de leitores desde as séries iniciais doensino fundamental, nas quais o ensino formal é direito e dever emnosso país. A primeira parte do livro traz produções da equipe, inspiradasnas experiências de mundo e de leitura que o projeto proporcio-nou. Na segunda parte, há escritos que variam muitíssimo em gê-nero, número e grau. Com o cuidado de oferecer uma variedade emnosso cardápio, oferecemos depoimentos sobre os encontros; dicassobre o uso da literatura em sala de aula; entrevistas com autores,ilustradores, contadores e com quem usa o livro em outros espaçosque não a sala de aula; preciosidades em relação à pesquisa e com-posição de textos; além de saborosas informações sobre os livros,as parcerias e a equipe. De sobremesa, materiais desenvolvidos eaprovados pelo projeto que podem ser úteis a outros cozinheiros decontações e criações de histórias. Tudo com o visual para favorecer,realizar e enriquecer a degustação. Seja porque as narrativas são alimento para a alma; seja pelaliberdade de gostar, desgostar e escolher que a literatura e a culiná-
  12. 12. ria compartilham; ou pelas incontáveis comparações que tanto nósquanto muitos autores (como Marta Morais da Costa e Jorge LarrosaBondía) já fizeram entre a comida e o leitor, NOSSO CADERNO DERECEITAS percorre os caminhos da literatura na cozinha. Pois sabe-mos que não há uma só receita na educação, mas há ingredientesessenciais. Para fazer bolo de chocolate é necessário chocolate; as-sim como para alfabetizar são necessários textos, letras, palavras.E, para formar leitores, gente, histórias e livros (muitos deles!) sãoigualmente fundamentais. Bom apetite.
  13. 13. Primeira Parte
  14. 14. Capítulo 1 - MAIS escola
  15. 15. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha ABANDONADA, EU Minha mãe não chega Meu pai também não, e saber que estou com fome Me dói o coração! Já é tarde... Estou há muito tempo na escola, Queria ir pra casa E tomar uma Coca-cola. Minha mãe diz que sou lenta Na hora da saída Mas na hora da saída, Não posso ser esquecida! Primeira poesia de Valeria Zimermann de Morais, 1997- 11 anos, espe-rando os pais na saída da escola. 16
  16. 16. MAIS escolaDa cara... o quê?(Pra cantar no embalo da cara preta)Pro-fes-so-raDa cara bravaTanto franziu a testaQue só ruga eu enxergavaNão adiantaEssa cara de espantoQuanto mais eu ousoMais dessa canção eu cantoPro-fes-sorDa cara amarradaNem quando eu crescerEu mato essa charadaNão adiantaEssa cara de tachoSe adulto é ser assimEu não cresço, eu me agacho!Meu a-mi-goDa cara traquinaSó de olhar pro outroÉ que a gente já combinaSim, adianta!Dar a cara a tapa!Pra encontrar princesaVai beijar de sapa em sapa! 17
  17. 17. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaMi-nha a-mi-gaDa cara sem-vergonhaPergunta o que quiserCom a resposta a gente sonhaSim, adianta!Essa cara-de-pau!Pó de pirilimpimpimpra encantar o lobo mau!Camila S G Acosta Gonçalves28/02/2010 18
  18. 18. MAIS escolaNau do professorAndressa Machado Teixeira(cantiga para ciranda)Quando ouviu o canto da sereiaminha turma se animouQuando ouviu o canto da sereiaminha turma se animouFoi a vela do barco pirataque o vento soprouFoi a vela do barco pirataque o vento soprouSe a maré subisse eu não olhavaqual o ponto que eu estouSe a maré subisse eu não olhavaqual o ponto que eu estouPego a bússola e boto no bolsopra qualquer canto eu vouPego a bússola e boto no bolsopra qualquer canto eu vouSe eu vejo todos de mãos dadas a giraré o balanço forte pro meu barco marejareu entendo muito de saudade e de amormas quando se forem não me esqueçampor favor... 19
  19. 19. Capítulo 2 - MAIS dos livros
  20. 20. MAIS dos livrosSe eu fosse uma vaca e soubesse voareu ia em sua janela pra você me mostrarpro seu pai, pra sua mãe, sua avó e professoraque nem aquela bruxaque tem uma vassouraAndressa Machado Teixeira 21
  21. 21. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaRepenti du Lobo(inspirado na “Verdadeira História dos Três Porquinhos”)Muito boa tarde, minha sinhoraBoa tarde, meu senhôE pra todas criancinhaQue são os anju do SenhôVim aqui contá uma históriaque foi é muito mar contadaFala sobre três porquinhoE umas casa derrubadaPois intão vô lhes dizêA verdadera versãoTenho nada pra escondêI o curpado fui eu nãoTava cuma gripe das bravaCuma fome de leãoFui pidi um bucad’i açúcraPruns vizinho di prantãoEu bati i eu chameiMas ninguém respondeu, nãoEu, gripado, ispirreiI a casa foi pru chãoO vizinho eu avisteiTava morto o Seo LeitãoMal passado eu o devoreiPra num morrê di inanição 22
  22. 22. MAIS dos livrosE os cumpadi qui mi ouvePois intendam muito bemTava doente e cum fomeE eu num matei ninguémFoi só uma devoraçãoEu vô dizê pra vocêVeja bem, juntô a fomeCô a vontadi di cumêE as cumadre qui mi iscutaJá falei, vô repetiEu, gripado, sem açúcraFui pr’otro vizinho pidi...Acredite se quiséEu sô um lobo di bemIspirrei, caiu a casaComi o otro vizinho tamém...Morto qui nem o primeroO segundo tava láE eu ainda sem açúcraPra modi tomá meu chá!Di um mal eu num padeçoEu vô dizê pra vocêNum suporto disperdícioPor isso tive qui comê!Foi meu pai qui m’insinôA num deixá nada no pratoMas di nada me adiantôIxpricá pru delegado... 23
  23. 23. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaPois é qui a minha famaTava ruim pra chuchu!Eu divia é tê deixadoOs porco pros urubu!Quando menos isperavaVi minha foto nu jornalMuito mi caluniavaMi chamand’i Lobo Mau!Criancinhas num si inganeIsso foi difamaçãoEu num sô um lobo infameEu num sô ninhum vilão!Essa é minha versãoNum tirei i nem ponheiÉ verdade verdadêraNum iscondi n’ixagerei!Eu aqui atrás das gradeIsso muito m’indiguinaSem açúcra, sem melado...Nessa xícra SeverinaVoismicê qui mi iscutaFaz favor di ispaiáTem história i tem nutíciaQui tem qui disconfiá!Pela iscuta eu agradeçoCada um tem qui jurgáMas di açúcr’indá pereçoPra modi tomá meu chááááá!Alexandre A. Lobo cantou pra Camila S G Acosta Gonçalves 24
  24. 24. MAIS dos livrosCARTILHA RAPIDOPOLINAFArofaFERraduraFIasco ouFORmosuraFUrou o esquema do felpudo orelha trêmula...FELPO FILVAFamoso escritorFicou de orelha em péFoi com as cartas da Charlô“XAropeCHEIra pum!CHINchilhosa”, ele pensou.CHOcado e quase azul comCHUmaço de cartas dessa fã...CHARLÔ PASPARTUSHOW de classe e destremidaCHAmusca o sentimentoX-salada a sua vida!FOmentando a relaçãoCHOcolate e açafrãoFIcam os dois a dialogarCHIMbalando se encontrarFUzuê com um postalCHUva faz o festivalFElizmente se enganouCHEga o Felpo até a CharlôFARroupilha estão os doisCHAmejante feijão com arrroz... 25
  25. 25. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCHarlote Felpote eFelpô Filvô CharlôFinalmente juntaramXícaras, pires e cobertor!CHamaram tia Filva,Família, avó, sobrinhasFirmaram matrimônioCHocalhando as ladainhas!Camila S G Acosta Gonçalves leu, foi à festa do casório e se inspirou. 26
  26. 26. MAIS dos livros Adaptação do livro O Sumiço do Pote de Mel – Milton Célio de OliveiraFilho e Mariana Massarani, São Paulo: Brinque-Book, 2003. Por Bruna FiallaAlves. O Sumiço do Pote de Mel (diálogo – teatro de sombra) (urso entra) Urso: Alguém me ajude, por favor! Alguém me ajude! (cachorro entra) Cachorro: Au-au, o que foi? O que foi? Urso: Fui tomar banho na lagoa e quando voltei pra casa meupote de mel tinha sumido. Você precisa me ajudar! Cachorro: Fique tranqüilo, eu tenho um bom faro e vou encon-trar o culpado! (urso sai) Cachorro: É melhor eu começar pela lagoa.. (entra o sapo) Cachorro: Olá Senhor Sapo, por acaso o senhor sabe quempode ter entrado na casa do senhor Urso e roubado seu pote demel? Sapo: Qualquer um, tanto o gato quanto o pato, mas eu des-confio mesmo é daquele rosado que passa a maior parte do temposujo de lama. (sapo sai) Cachorro: Sujo de lama? Mas só pode ser o... (porco entra) Porco: Sinto informar Senhor investigador, mas nesta históriaestou limpo. Para desvendar este mistério é só ir atrás de quem gos-ta de uma cenoura e é todo branquinho. (porco sai) Cachorro: Acho que já sei quem é! (coelho entra) Coelho: Ih, eu não peguei pote nenhum, não! No dia do sumiçoeu estava longe daqui. Mas fiquei sabendo que alguém cheio delistras andou rondando a casa do senhor Urso. (coelho sai) Cachorro: Animal listrado? Quem pode ser? 27
  27. 27. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha (zebra entra) Cachorro: Então Dona Zebra, o que a senhora fazia perto dacasa do urso? Zebra: Ora, eu estava apenas fazendo minha corrida matinal,não entrei na casa de ninguém. Mas enquanto estive por perto ouviuns miados... (zebra sai) Cachorro: Só tem um animal que mia, e é o... (gato entra) Gato: Miau! Eu estava perto do lago sim, mas estava atrás depeixe, não de pote. Mas vi outro felino andando por ali, ele era bemmaior que eu e tem uma juba bem grande. (gato sai) Cachorro: Algo me diz que só pode ser o dono da selva! Melhoreu ir investigar... (leão entra) Leão: Imagina senhor investigar, não fui eu. Passei o dia todo noalto da montanha. E de lá pude ver que tinha alguém andando pelaselva e não era animal, não. Cachorro: Não era animal? Leão: Não, era uma menina! (leão sai) (menina entra) Cachorro: Ah, te encontrei! Posso saber por que você pegou opote de mel do senhor urso? Menina: Eu só queria um pouquinho do mel, já ia devolver! Cachorro: Espere aí, vou avisar o senhor urso que achamos seupote de mel. (cachorro sai) Urso: Oh, quer dizer que acharam meu pote de mel? Menina: Ah senhor Urso, me desculpe. Eu juro que ia devolverseu pote de mel. Urso: Tudo bem, não tem problema. Dá próxima vez é só pediremprestado. FIM 28
  28. 28. MAIS dos livros Adaptação do livro O Caso das Bananas – Milton Célio de Oliveira Filhoe Mariana Massarani, São Paulo: Brinque-Book, 2003. Por Bruna Fialla Alves. O Caso das Bananas (diálogo – teatro de sombra) (macaco entra) Macaco: (acaba de acordar) Ai, que soninho bom! Que manhãlinda.. epa, mas cadê minhas bananas? Preciso de ajuda, alguém meajude! (coruja entra) Coruja: Epa, roubo é comigo mesmo.. me conte o que aconte-ceu? Estou pronta pra investigar! Macaco: Ah Dona Coruja, alguém roubou minhas bananas.. Eudeixei elas aqui ontem a noite e hoje de manhã.. Puf, tinha sumido! Coruja: Caro Macaco, para começar do começo, melhor ouvir avítima. Primeiro, me diga: Há um suspeito? Macaco: Dona Coruja, abomino o preconceito, mas.. Soube deum bicho estranho que veio de muito longe. Não é, pois, destasbandas. Não duvido que tenha escondido as bananas na bolsa quetrazia na barriga. (macaco sai) Coruja: Ah, bolsa na barriga, é? Tem caroço nesse angu. Vamos,então, ouvir... (canguru entra) Canguru: Essa história já conheço. Só por ser um estrangeirojá viro logo suspeito. Pois digo. Digo e repito: Nesta mata há umtipo ainda mais esquisito, com um rabo bem fornido, tal e qual umalagartixa multiplicada por quatro. (canguru sai) Coruja: Ora, rabo bem fornido? Lagartixa bem grande? Ah,agora eu desvendo esse mistério. Quero ter uma conversa com.. (lagarto entra) Lagarto: Dona Coruja, eu não tenha nada com o pato. Mas..tenho um palpite: Quem tapeou o macaco vive muito bem na mata,com seu porte de madame e seu casaco de pintas. 29
  29. 29. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha (lagarto sai) Coruja: Palpite não conta, mas não custa ir interrogar.. (entra onça) Onça: Dona Coruja, tenho cara de malvada, pois quando bra-va.. Viro mesmo uma onça, mas no fundo sou boa-praça. Não que-ro atirar pedras na vidraça do vizinho. Pense, pense um pouquinho:que bicho aqui desta mata poderia comer tantas bananas sem ficarengasgado? Só mesmo com pescoço comprido, comprido como umgargalo. Um gargalo de garrafa. (onça sai) Coruja: Mas quem se parece com um gargalo de garrafa é.. (girafa entra) Girafa: Das bananas eu nem sabia, juro! Mas o maroto que aslevou deve ser muito ladino com um rabo bem peludo e bigode nofocinho. (girafa sai) Coruja: Ora, ora! Não posso perder a pose. Quero uma conver-sa com esse sujeito de bigode agora mesmo.. (raposa entra) Raposa: Minha cara coruja, sou famosa pela astúcia. Mas meunegócio são galinhas, vez ou outra umas uvas. E vou lhe dar umadica: para mim o malandrão é o tal que ostenta juba e nunca perdea majestade. (raposa sai) Coruja: Juba? Majestade? Esse não me escapa! (leão entra) Leão: Só lambo o beiço por carne. Bananas? Credo. Nem degraça! Nós, os gatos – grandes ou pequenos – não nos damos comfruta. Para resolver este caso preste atenção na charada: Quem podesubir em árvores, embora não tenha patas? (leão sai) Coruja: Como é duro o ofício. Mãos a obra, vou correndo atrásda.. (cobra entra) Cobra: Dona Coruja, ouça: Tudo sobra para a cobra, em dobro. 30
  30. 30. MAIS dos livrosDizem que sou uma víbora, mas no caso das bananas, creia, souinocente. Sem querer ser venenosa, achar o larápio é fácil, só repararem sua roupa listrada. (cobra sai) Coruja: Listras? Só pode ser.. (zebra entra) Zebra: No dia dos fatos eu estava fora a visitar o cavalo, que émeu contraparente. Para mim está óbvio: quem mais poderia agarraro cacho de bananas sem ter uma grande tromba? (zebra sai) Coruja: Aham, agora eu desvendo o caso das bananas! (elefante entra) Elefante: Dona Coruja, pouco uso minha tromba de uns tem-pos para cá, pois ando resfriado. Se quiser saber de tudo consultequem tudo viu e quem tudo vê lá do alto. (elefante sai) Coruja: Acho que já sei quem vai me cantar esse mistério.. (passarinho entra) Passarinho: Vi sim, e vi muito bem o macaco acordar esfome-ado no meio da madrugada e comer uma, duas e até três bananasde uma única vez. Até acabar com o cacho todo. Mas o coitado nãosabia, pois, enquanto comia, roncava. (passarinho sai) Coruja: O mistério chega ao fim, sem muito pano pra manga. Omeu compadre guloso é... Sonâmbulo! FIM 31
  31. 31. Capítulo 3 - MAIS gente
  32. 32. MAIS genteMais GENTE e livrosMais uma vez por estradas tortuosasAndaram os viajantesImpulsionados por suas vontades virtuosasSaem em direção ao seu destino, mesmo em dias trovejantesGalopam por entre as estradasEscrevendo novas histórias a serem contadasNão imaginavam que nessas andançasTantas experiências vividasEnredariam no livro de suas vidas tantas mudançasE agora?Leva vento mais uma históriaInvade e explora cada canto da memóriaVai levando essas lembranças flutuantesRisos, alentos, esperanças cintilantesOuçam os gritos e os apelos de glóriaSaiam mais uma vez –personagens- dessas caixinhas viajantes...Júlio Cezar Marques da SilvaCuritiba (com a cabeça em Guaraqueçaba),21 de setembro de 2010 33
  33. 33. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaPOEMARESCamila Siqueira Gouvêa Acosta GonçalvesGuaraqueçaba, 30 e 31 de jan/2010Na conchaQuem vive que nem ostra acaba engolido vivo. (Lição de Biologia) Ave do mar é peixinho. Galope na água, cavalo-marinho. Peixe no ar, passarinho.MergulhoBem-me-querMal-me-quer.Bem-me-querMar-me-quer:Mar-me-quer-bem!-- TCHIBUM! – 34
  34. 34. MAIS genteAraraquáricas de Piraquara- trava-bico! –Sobrevoando ora oraPor Piraquara ara araPassei por uma torneiraQue não vaza água agoraAterrisando ora oraAli na praça ara araAvistei um’ outra araraQue me olhou naquela horaSem ponto e vírgul’ora oraÉ exclamada ara araSurpresa de PintassilgoQue poesia e voa emboraEstrada afora ora oraEscolarada ara araPassarinhada na leituraAve! nossa senhora!Ararizando ora oraEm cachoeira ara araÉ fonte que faz nascerTodo leitor que ri e chora! Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves Arara 35
  35. 35. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha No embalo Fofinho balanço Das asas de um anjo. Viola tocando E a gueixa dançando. Charmoso balanço Do rabo de um gato. Flauta sussurrando, Felino ronronando. Criação de poesia mediada por Camila S G A Gonçalves. Professorasparticipantes: Joselita Romualdo da Silva, Geniselia Maria Ribeiro dos Reis,Nutzi C. V. Kaisernan, Mariza Ap. Pires Polati, Marili Nunes Cardoso, LucianeVilar Possebom. Piraquara, 13 de novembro de 2010. 36
  36. 36. Capítulo 4 - MAIS das histórias
  37. 37. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCaça ao tesouroAndressa Machado Teixeira(estilo bate-mão ou jogos de mão, cantar cada vez mais rápido)Tinha uma cidade numa ilha a áTinha uma cidade numa ilha a áTinha uma ilha na floresta a áTinha uma ilha na floresta a áTinha uma floresta no ocean an anoTinha uma floresta no ocean an anoTinha um oceano num planeta a áTinha um oceano num planeta a áTinha um planeta e um cometa a áTinha um planeta e um cometa a áTinha um cometa e um ET e êTinha um cometa e um ET e êTinha um ET e uma pista a áTinha um ET e uma pista a áEra uma pista de corrida a áEra uma pista de corrida a áEra corrida de tartaruga a áEra corrida de tartaruga a áA tartaruga é muito esperta a áA tartaruga é muito esperta a á 38
  38. 38. MAIS das históriasA criança é mais esperta a áA criança é mais esperta a áTinha uma criança numa ilha a áTinha uma criança numa ilha a áEra ilha do pensamento to tôEra ilha do pensamento to tô 39
  39. 39. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Flores para a avó Camila S G Acosta Gonçalves Uma menina Lá na floresta Colhendo flores Pra dar pra sua avó... Mal ela sabia quem estava a espiar Um velho lobo já pensando no jantar A menina não seguiu o conselho “Não pare no caminho e nem fale com estranhos!”, Disse a mãe da Chapeuzinho Vermelho. O lobo um plano traçou Por chapeuzinho ele passou A vovó ele devorou e passando uma ladainha De sobremesa ele engoliu a netinha! (óóóóóóóóóóhhhhhh) Um caçador -- atento como ele só!— Enfrentou o terrível lobo E salvou a chapéu e sua avó! A vovó desesperada Quase não sabia de nada Ficou na barriga do lobo Com o que ele comeu na noite passada E ao ser resgatada Viu sua camisola toda usada! * essa é uma canção aditiva, na qual pode-se repetir os versos e acrescen-tar o verso seguinte à vontade. 40
  40. 40. Capítulo 5 - MAIS viajantes
  41. 41. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaLonge do querer dizer eEnquanto durar o ócioInventado entre umaTarefa e outra (agora ex-passadas),Uma valenteRapariga encontra novo mundoAo alcance dos dedos. Camila S G Acosta Gonçalves, 02/01/2010 42
  42. 42. MAIS viajantes Eternidade Era uma tarde de sol, numa rua tranquila. Estava sentada no fio de luz uma dupla de pardais, estavam ladoa lado. Realizavam longo diálogo, um deles aproximou-se um pouco,o outro recuou. Na eternidade de tempo dos passarinhos o primeiro arriscouaproximar-se um pouco mais. Tanto fez que conseguiu permanecer junto, bem juntinho aooutro por largo tempo... dentro da lógica dos pardais. Foi uma eternidade linda. E a conversa entre os dois continuava,até que o segundo novamente se esquivou, o diálogo entre os doisesquentava. O segundo, nervoso, lançou vôo e passou para o outro fio doposte de luz da rua tranquila numa tarde de sol. Agora, um poucodistante do primeiro pardal. E naquela eternidade pardaica apareceu outro pardal, um ter-ceiro (...) e sentou-se ao lado do segundo. Ficaram mais uma peque-na eternidade ali no outro fio, sabe-se lá o que falavam... O primeiro, isolado, não aguentou e foi ter com a nova dupla. O segundo, muito irritado, lançou vôo, desta vez rumo ao céu...será que volta? Os outros dois pássaros ficaram sentados no mesmo fio de luz,bem separados entre si, num profundo silêncio! Assim, durante um eterno tempo de pardal! Juliana Beltrão Leitoles 18/01/2010 43
  43. 43. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Histórias para Esquecer Ana Luiza Suhr Reghelin Há algum tempo carrego comigo este cesto, é por ele que pas-so os dias a falar com gente. Gente alta, gente baixa, gente rica,pobre, alegre e triste. Toda essa gente me ajuda, assim como ajudeialguém tempos atrás. Era uma viagem. Viagem que fazia só, ia de um lugar longepara um lugar distante. No meio deste caminho, quando o sol já iabaixo e as cores da noite se mostravam, encontrei um homem. Gentevelha. O ar cansado denunciava mais do que a sua idade, mostravao cansaço dos olhos e da alma. Parei e ofereci a metade do pão, dacarne e das uvas que trazia comigo. Alimentou-se sem dizer palavra. Seu olhar cansado fixou-se em mim e após um tempo sua falacansada disse: “Me ajude a esquecer!” “Esquecer?” [Pensei eu] “O que você quer esquecer?” Respondeu: “Tudo!” Aquilo soou forte e pensei ser grave alguém daquela idade que-rer livrar-se das lembranças de toda uma vida. Vida sofrida, conclui. - Me ajude a esquecer! Continuou o homem. Não consigo es-quecer, lembro de tudo, cada coisa, cada dia; isso me consome. Jánão posso com tudo isso. Mostrou-me então o cesto que estava aos seus pés. Era grandee estava cheio de lembranças e memórias. Disse que havia muitosdaqueles em sua casa e já não havia quase espaço para outros. Achando aquilo tudo muito simples, praguejei: “Jogue-os fora!Assim irá se livrar de todas essas coisas”. Com um riso irônico, respondeu: - Já fiz isso quando ainda era moço, fui até o rio mais fundo queconhecia e despejei todas, até não ver mais nenhuma. Quando volteipara casa lá estavam muitas outras... lembranças das lembranças.Era sempre assim, quando voltava de uma dia de trabalho ou de umbonito passeio, estavam lá cada carro que havia passado, a cor dosolhos de cada moça que havia admirado, a quantidade de passos 44
  44. 44. MAIS viajantesque havia andado, o som de cada palavra dita e ouvida. No inicio erabom, na escola eu era o melhor da turma, lembrava de cada fórmulamatemática e de todas as conjugações, sem hesitar. À medida quefui crescendo, as lembranças começaram a pesar e os cestos passa-ram a se multiplicar. Com a voz irritada e com um gesto forte, continuou: - É impossível viver sem esquecer! Novamente seu olhar fixou-se no meu: “Me ajude a esquecer!”,suplicou mais uma vez. Pensei um pouco, ajeitei minhas coisas, sentei ao seu lado ecomecei a esquecer... calmamente... “Esqueci que tinha uma flor e ela morreu sem água; esqueci damúsica que fiz para um amigo que tinha orelhas grandes; esquecimeu dedo na mira do martelo... doeu; esqueci que tive um amor eperdi, quando saí em busca de outro...” Falei por um tempo, até que olhei e vi que o meu velho dormia,estava com o ar mais sereno, me acomodei na coberta e adormecitambém. Acordei na outra manhã com a luz do sol. Totalmente desperto,olhei ao redor mas não encontrei meu velho, só vi seu cesto e eleestava menos cheio que na noite passada. Pensei que talvez o tivesseajudado de alguma forma, mas entendi também que ele ainda preci-sava da minha ajuda e levei o cesto comigo. Ainda hoje ofereço as lembranças do cesto para as gentes queencontro pelo caminho, dou uma ou duas aos mais esquecidos epeço que cada um esqueça uma lembrança e que ajude o meu velho. O cesto reaparece cheio a cada fim de tarde, assim continuosabendo que o meu velho ainda se lembra e de nada se esquece. 45
  45. 45. Segunda Parte
  46. 46. Capítulo 1 - Matéria prima “Pesquei um livro, colhi umahistória, plantei uma idéia...”Listagem das “caixinhas viajantes” e do acervo do projeto;sobre os livros em uso e as narrativas de histórias de vida
  47. 47. “Se você quiser conhecer alguém profundamente,preste atenção nas histórias que essa pessoa conta, lêou assiste na televisão ou no cinema. Nossas histórias preferidas sempre falam de nossos maiores segredos, das emoções mais verdadeiras de nossas vidas, dos nossos grandes sonhos e esperanças.” (prefácio de LÁ VEM HISTÓRIA OUTRA VEZ, de Heloisa Prieto) “Antes das sessões de fotos, eu conversava com as cri-anças, para conhecê-las melhor. Descobria como eram a família e os amigos, a escola e as brincadeiras, e oque fazia cada criança ser especial.” (fotógrafo do livro CRIANÇAS COMO VOCÊ)
  48. 48. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...” Das viagens em que não fui... Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves ... mas das quais ouço falar são muitas! Como uma das integrantes pioneiras do projeto, que participadesde 2007 e é, portanto, uma das mais antigas ( já condecoradacom cabelos brancos sem disfarce), estive em diversas viagens eposso dizer que nenhuma foi, é e nem será igual à outra. E guardosuspiros fortes para viagens em que não estive e afirmo piamenteque nenhuma foi, é, e nem mesmo será igual à outra. Dessas viagens eu degusto os restos, tal qual uma criança quelambe o que sobrou da massa do bolo na cuba da batedeira - mo-vida à mão ou à eletricidade. É a lambida na tampa do iogurte, oumesmo de um restinho afetuosamente guardado para mim pelaequipe caridosa, deliciando-me de palavras, movimentos, brilho nosolhos, expressões belíssimas ou inesperadas - inclusive amargas. Sa-bemos, ora pois, em especial os já de cabelo grisalho como eu, quenem tudo são flores, e até mesmo as mais belas das flores têm seusespinhos, como a “rosa vermelha do meu bem-querer” da cirandanordestina. E utilizo meus recursos imaginativos para construir essas via-gens na minha cabeça, encontros que não tive, mas que igualmentequero fazê-los presentes em minha bacia de memórias. Dessas em que não fui, quero deixar o relato de uma - MAIS ou-tra estratégia para não me fazer esquecer... se é que isso é possível,pois traz aroma tão forte, tão inefável que é séria candidata a estarguardada em meu baú das lembranças eternas de todos os tempos,incluindo os imemoráveis. Um dos livros da caixinha viajante 2008 é o Asa Branca, de LuizGonzaga. É, dele mesmo. Do “rei do baião”. Por esse livro foi paixãoà primeira vista, pois as ilustrações são belíssimas, colorindo a letrada canção de Gonzaga pelo talentosíssimo Maurício Pereira – livroeditado pela DCL. Como merecida, a canção vira música em uma 49
  49. 49. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhapartitura para instrumento harmônico (piano, violão) e canto ou ins-trumento melódico (flauta, clarinete, sax, violino...). A poesia é tra-tada com merecida seriedade: escrita timtim por timtim apossadade seu regionalismo, com os acentos dos falantes e cantantes lá dosertão: “quando oiei a terra ardeno...” Quando fiz a escolha desse livro para a caixinha, não tinha idéiado acontecimento que se desencadearia... Foi uma professora de Tunas do Paraná quem contou, nessaviagem em que não estive. Ela leu o livro para seus alunos, mostrouas figuras, cantou a música (será que tinha rádio para rodar o CDque lá deixamos com a canção? não sei, prefiro imaginar que elacantou bem bonito a cappella, e depois os alunos cantaram junto) eemprestou o livro ao aluno que havia lhe pedido. Seus alunos eram iniciantes leitores de letra, e mestres leitoresde mundo. Um pouco eles devem ter aprendido com ela. O outropouco, com os pais, os tios, os vizinhos, os cachorros, as galinhas, osporcos, os milhos, a terra. E com as outras crianças, é claro. O menino levou o livro para casa. Ele nem sabia que, antes dis-so, eu já havia me apaixonado pela mesma leitura, pela mesma tira-gem desse exemplar que jazia em suas mãos. Em sua casa, abriu o livro para o pai ler... o pai lia palavra ne-nhuma! (Será que ele fora “peão; sua mãe, solidão; seus irmãos (quase)perderam-se na vida à custa de aventuras?” isso eu também nãosei... sei que essa outra canção me dá um arrepio parecido com essahistória... arrepio quente que me faz marejar os olhos de lágrimas) O menino estava na escola tempo suficiente para conhecer daamargura do pai. Sabia bem como era isso. Um frio gelado na es-pinha, a boca seca tentando balbuciar algo. Algo que pudesse poracaso fazer sentido com aquilo que se esperava de um leitor de letra.Isso tudo vezes a idade do pai. O pai bebia uma tintura de boldo desentimento, somada à responsabilidade de pôr filho no mundo ecuidar dele, saber dele, ler... para ele. Entendendo o pai, o menino quebrou o silêncio silabando ocomeço do texto de letra. 50
  50. 50. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...” Felicidade é pouco pra dizer disso: o pai sorriu para o filho. Sor-riso com olhos molhados. Ele vivera o bastante para conhecer aquiloque não sabia iscrivinhado. Não só sabia da letra, mas também amelodia. E foi assim, cantando e lendo para e com o seu filho, que osdois passaram aquele final de tarde. Em preciosíssima descoberta eresgate: o filho descobriu o pai, leitor; o livro descobriu a fluência dequem já o conhecia desde antes de ele nascer. Como a um filho queresgata as origens de seus ascendentes desde seu ventre. O ventreda cultura. Foi então que de um leitor nasceram dois. De uma só letra nas-ceram múltiplas imagens. E da memória de uma canção nasceu re-conhecimento. E desse reconhecimento, o significado. Significadoque desbota meus cabelos só de ouvir falar. A experiência gera ocontraste das cores do cabelo, por meio das peculiaridades do vôode cada um de nós, três leitores, com Asa Branca. Das viagens em que não fui, mas das quais sempre tenho notí-cias, eu escrevi essa. Simples música para meus ouvidos. Que me fazem escutar ochoro baixinho de emoção do pai na escuridão da noite, quando asilustrações se fundiram com o breu do descanso. Esse pai que nem conheceu a gente. Mas que já conhecia o livro. 51
  51. 51. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha As muitas histórias Liliane Machado Martins Contar histórias pode ser uma sinfonia, desde que nessa sinfonia, or-questrada com palavras, entrem todos os instrumentos: do sopro da respi-ração ao metal da voz; do dedilhar do corpo ao ribombar do olhar (SISTO,2007, p. 39). Todos nós já contamos ou ouvimos alguma história, desdeaquelas narradas por nossos pais, as que nossos professores conta-vam na escola ou mesmo aquela que ouvimos dos nossos amigos. Enão estou falando apenas das histórias tiradas dos livros, falo tam-bém daquelas que a gente só tem na lembrança - dessas que vaipassando de geração pra geração. Comigo não foi diferente, vários momentos da minha vida fo-ram marcados pela contação de histórias. Uma história que me mar-cou muito foi contada durante uma viagem de barco na Lagoa daConceição, em Florianópolis/SC. Foi neste dia que escutei pela pri-meira vez a história do menino Yahoo, uma criança que acreditavaque poderia empurrar o céu para o alto, usando a força, a corageme a união de todas as crianças do mundo. Fiquei tão apaixonada poresta história que já a contei diversas vezes. Outra situação que eu lembro muito bem foi uma contação fei-ta pelo Vinicius, participante do projeto em 2008 e 2009. Ele leu olivro “Todo cuidado é pouco”, de Roger Mello. Fiquei encantada como modo que ele contou a história, envolvendo os ouvintes – a maio-ria criança – durante toda a contação. Nas histórias com fantoche, era maravilhoso perceber a curio-sidade das crianças. Elas já entravam em sala tentando adivinhar oque iria acontecer. Todo aquele momento antes da contação era en-cantador. Das várias atividades que fizemos pelo projeto, a maioria foidesenvolvida em conjunto. A criação era desafiadora, porém sempremuito empolgante. E ver o resultado final, construído com a ajuda detodos, era gratificante. 52
  52. 52. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...” Todo contato humano se dá por meio de uma leitura, em seusentido mais amplo: lê-se as histórias que possuem aquela criança,as histórias que ela deseja possuir, as histórias do professor que to-cam as da criança e, se esse momento for tratado com cuidado ecarinho, nascerá toda uma nova família de histórias, uma rede deli-cada cuja beleza poderá gerar fios que se entrelaçam infinitamente.(PRIETO, 1999, p. 33) Referências: PRIETO, H. Quer ouvir uma história? Lendas e mitos no mundoda criança. São Paulo: Angra, 1999 (Jovem Século 21) SISTO, Celso. Contar histórias, uma arte maior. In: MEDEIROS,Fábio Henrique Nunes & MORAES, Taiza Mara Rauen (orgs.). Me-morial do Proler: Joinville e resumos do Seminário de Estudos daLinguagem. Joinville, UNIVILLE, 2007. CIPIS, M. Era uma vez um livro. São Paulo: Cia das Letrinhas,2002. MELLO, R. Todo cuidado é pouco. São Paulo: Cia das Letrinhas,1999. 53
  53. 53. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha As” Caixinhas Viajantes” são o acervo de livros entregue emcada uma das escolas das séries iniciais da rede pública dos municí-pios participantes-- Adrianópolis, Bocaiúva do Sul e Tunas do Paraná(2008-2009); Guaraqueçaba e Piraquara (2010). O “Acervo Gente e Livros“ são os livros adquiridos (através decompra, troca ou doação) para a sede do projeto na universidade.Caixinhas Viajantes 2008 Editora Difusão Cultural do LivroA árvore generosa Dentro do espelhoShel Silverstein Luise WeissEditora Cosac Naify Editora Cosac & NaifyA árvore que dava sorvete Fada cisco quase nadaSergio Capparelli Sylvia OrthofEditora Projeto Editora Editora ÁticaA Festa das Palavras Fico à esperaKátia Canton Davide Cali e Serge BlochEditora Girafinha Editora CosacNaifyArmazém do Folclore Lá vem históriaRicardo Azevedo Heloisa PrietoEditora Ática Editora Companhia das Letri- nhasAsa BrancaLuiz Gonzaga No fundo do fundo-fundo LáEditora Difusão Cultural do Livro vai o tatu Raimundo Sylvia OrthofCacoete Editora Nova FronteiraEva FurnariEditora Ática O cabelo de Lelê Valéria BelémContos que brotam nas flo- Editora Companhia Editorarestas – Na trilha dos irmãos NacionalGrimmKátia Canton O Carteiro chegou 54
  54. 54. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”Janet e Allan Ahlberg David MilgrimEditora Companhia das Letri- Editora Brinque-Booknhas Zig ZagO Equilibrista Eva FurnariFernanda Lopes de Almeida e Editora GlobalFernando de Castro LopesEditora Ática Caixinhas Viajantes 2009O livro dos medos Zé PiãoVários Autores Ducarmo PaesEditora Companhia das Letri- Editora Noovha Americanhas Triângulos vermelhosO menino quadradinho Ângela-LagoZiraldo Editora RoccoEditora Melhoramentos O homem que amava caixasPinote, o fracote e Janjão, o Stephen Michael Kingfortão Editora Brinque-BookFernanda Lopes de Almeida eAlcy Linares O Caso das bananasEditora Ática Milton Célio de Oliveira e Maria- na MassaraniSob o sol, Sob a lua Editora Brinque-BookCynthia CruttendenEditora Cosac Naify Mania de Explicação Adriana FalcãoTodo cuidado é pouco! Editora SalamandraRoger MelloEditora Companhia das Letri- Histórias Fabulosasnhas Esopo e La Fontaine Editora Difusão Cultural do LivroTraquinagens e EstripuliasEva Furnari Guilherme Augusto AraújoEditora Global Fernandes Mem Fox e Julie VivasVacas não voam Editora Brinque-Book 55
  55. 55. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaCrianças como você Acervo Gente e LivrosUNICEFEditora Ática A árvore curiosa Didier LevyCaixinhas viajantes 2010 Editora GirafinhaFábrica de poesia A velhinha na janelaRoseana Murray Sônia JunqueiraEditora Scipione Editora AutênticaFelpo Filva A menina do FioEva Furnari Stela BarbieriEditora Moderna Editora GirafinhaLá vem história outra vez A rainha das coresHeloisa Prieto Jutta BauerEditora Cia das Letrinhas Editora Cosac NaifyO problema do Clóvis A verdadeira história de cha-Eva Furnari péuzinho vermelhoEditora Global Agnese Baruzzi e Sandro Nata- liniRabisco – Um cachorro per- Editora Brinque-BookfeitoMichele Iacocca A verdadeira história dos trêsEditora Ática porquinhos Jon Sciezka / Lane SmithRápido como um gafanhoto Editora Companhia das Letri-Audrey Wood / Don Wood nhasEditora Brinque-Book Alguns contos e fábulasUni Duni Tê La FontaineAngela Lago Editora PaulusEditora Moderna As narrativas preferidas de umVacas não voam contador de históriasDavid Milgrim Ilan BrenmanEditora Brinque-Book Editora Landy 56
  56. 56. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”Bisa Bia, Bisa Bel Contos de Morte MorridaAna Maria Machado Ernani SsóEditora Salamandra Editora Companhia das Letri- nhasBruxa, Bruxa – venha a minhafesta Da pequena toupeira queArden Druce / Pat Ludlow queria saber quem tinha feitoEditora Brinque-Book coco na cabeça dela Werner Holzwarth / Wolf Erl-Carta errante, Avó atrapalha- bruchda, Menina aniversariante Editora Companhia das Letri-Mirna Pinsky nhasEditora FTD De surpresa em surpresaChapeuzinho amarelo Fanny AbramovichChico Buarque Editora BragaEditora José Olympio Doze reis e a moça no labirin-Chuva de manga to do ventoJames Rumford Marina ColasantiEditora Brinque Book Editora GlobalClara manhã de quinta à noite Estão Batendo na PortaDon Wood / Audrey Wood Ricardo AzevedoEditora Ática Editora MelhoramentosConta uma história? Fadas no divã – Psicanálise nasAna Lucia Brandão histórias infantisEditora Paulinas Diana L. Corso e Mario Corso Editora ArtmedContos de enganar a morteRicardo Azevedo Histórias da PretaEditora Ática Heloisa Pires Lima Editora Companhia das Letri-Contos de Estimação nhasVários AutoresEditora Objetiva Histórias de fadas 57
  57. 57. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhaOscar Wilde NósEditora Nova Fronteira Eva Furnari Editora GlobalHistórias do CisneHans Christian Andersen Nossa rua tem um problemaEditora Companhia das Letri- Ricardo Azevedonhas Editora ÁticaLilás O caso do pote quebradoMary E. Whitcomb Milton Célio de OliveiraEditora Cosac Naify Editora Brinque-BookLimeriques da Cocanha O Circo da luaTatiana Belinky Eva FurnariEditora Companhia das Letri- Editora Aticanhas O Fantástico mistério de feiu-Marilu rinhaEva Furnari Pedro BandeiraEditora Martins Fontes Editora FTDMeus primeiros contos O gato e a meninaAntologia de Contistas Brasilei- Sônia Junqueiraros Editora AutênticaEditora Nova Fronteira O grande livro dos medosMeus Primeiros Versos Emily GravettAntologia de Poetas Brasileiros Editora SalamandraEditora Nova Fronteira O livro inclinadoMil pássaros pelos céus Peter NewellRuth Rocha Editora Cosac NaifyEditora Editora Ática O menino e a gaiolaNo dia em que você nasceu Sônia JunqueiraDebra Frasier Editora AutênticaEditora Augustus O menino marrom 58
  58. 58. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”Ziraldo Editora Martins EditoraEditora Melhoramentos Procura-se Lobo Ana Maria MachadoO outro lado Editora AticaIstvan BanyaiEditora Cosac Naify Quem viu o meu soninho? Alfredo GarciaO pequenino grão de areia Editora LêRicardo FilhoEditora Paulus Tem cavalo no chilique Sylvia OrthofO que os olhos não vêem Editora FTDRuth RochaEditora Salamandra Um garoto chamado Rorbeto Gabriel o PensadorO três mosqueteiros Editora Cosac NaifyAlexandre DumasEditora Melhoramentos Um zoológico de papel Tatiana BelinkyO Urubu e o Sapo e O Velho e Editora Noovha Americao tesouro do reiSilvio Romero Uma idéia toda azulEditora Paulus Marina Colasanti Editora GlobalOnde tem bruxa tem fadaBartolomeu Campos Queirós Uma professora muito malu-Editora Moderna quinha ZiraldoOs Cigarras e os Formigas Editora MelhoramentosMaria Clara MachadoEditora Nova Fronteira Zoo João Guimarães RosaPoemas para brincar Editora Nova FronteiraJosé Paulo PaesEditora ÁticaPoemas para criançasFernando Pessoa 59
  59. 59. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Brincando com narrativas na sala de aula: uma busca porlacunas preenchidas em livros de recordações Andressa Machado Teixeira Você já deve ter pensado muitas vezes que ser criança é umestado da gente que deixa saudades, não é mesmo? Pois bem. Seradulto tem responsabilidades agudas, mas, há coisas que podemosfazer que são mais divertidas do que pagar contas. Uma delas é po-der recordar e narrar, principalmente aos menores, coisas boas doamadurecer. Se nossas recordações fossem um livro, ele seria escri-to ao longo da vida inteira. Quanto mais percebemos a vida, maisnosso livro adquire características próprias. Alguns podem ser gros-sos volumes, outros ficam mais abertos do que fechados, uns sãoesquisitos, também existem versões de bolso, e alguns poucos sótem imagens. Há livros com conteúdos apagados, de páginas poucolidas e amareladas. Ou páginas e páginas de rabiscos tempestuososque quanto mais lidos, menos compreendidos. Mas há nesses livrospáginas bem conservadas que, ao lermos e relermos - para nós mes-mos e para os outros -, ganham uma linguagem mais madura e clarado que a própria recordação. É a diferença entre a espreguiçadeira ea rede. A recordação e a narrativa. Até que nossa adultência nos tome de assalto pelo meio do ca-minho, muitas lembranças permanecem como uma extensa lacuna aser completada no texto do pensamento. Vamos crescendo e inter-calando ao texto da nossa história lacunas de lembranças cheirosascomo o bolo da tia, chulezentas como primos reunidos, ardidas deum beliscão, relaxantes como um banho quente depois de brincarum dia todo, entre outras que não se pode escrever aqui, a não serna sua forma mais pura: ____________________. O que cabe a cada umde nós para preencher essa lacuna torna nossas memórias preciosas,enquanto as suas narrativas equivalem a uma verdadeira façanha degente grande! Criança ou adulto, todos temos o que contar. Talvez se conside-rarmos narrativas de cinco figuras cujos universos verbais são muito 60
  60. 60. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”distintos, algo surja na lacuna que temos sem preencher. Meu amigoEnzo, que já viveu seu considerável primeiro ano de vida, contou aminha irmã o seguinte episódio depois de uma trupicada: “Casi caí!”Ele ainda não fala muitas palavras da nossa língua então esse foi oprimeiro causo compreensível e inteiro que ouvimos dele. Já Juan tem oito anos. Sempre o encontro na casa de sua avó,dona Neide. Na maioria das vezes brincamos juntos, exceto pelo diaem que qualquer brincadeira seria imprópria diante dos dois riosde lágrimas que corriam pela face vermelha e inchada de Juan. Elesdesaguavam numa bocarra aberta que fazia ecoar pela casa gritoschorosos vindos das profundezas, de além da garganta. Segurei omonstrinho indesejável perto, demonstrei minha compaixão porsuas lamúrias desconhecidas e minha curiosidade em conhecê-las.A história foi mais chorada do que contada. Algo assim: Juan queriaa companhia de sua nova e única amiga, Meg, uma vira-lata encon-trada na porta de sua casa alguns dias atrás. Pelo grande apego delepela cadelinha a família concordou em adotá-la. Desde então, sepa-ravam-se apenas nos momentos inevitáveis - mas Juan achava queas visitas à casa da vó Neide não se incluía neles. Ao fim, legitimavao choro enquanto associava tudo isso a um plano maquiavélico desua mãe para separá-lo de Meg. Ele me contou como era linda a suapelagem, as coisas sapecas que aprontava e o choro foi soluçando, osoluço cessando... até a respiração normalizar. Numa certa noite meu pai lembrou-se, à toa, de um episódiocertamente inesquecível, passado no passado do interior de sua in-fância - interior de seus grandes medos. Foi a vez que o mandarambuscar, já de noitezinha, água no poço. Sem muita opção seguiu opequeno carregando um balde vazio e reluzente sob o luar. Apenaso som quieto do mato era audível, além de seus modos ofegantes.Tinha uma coragem muito cautelosa no seu caminhar que o manti-nha atento pelo instinto, pois não exergava abaixo dos joelhos ou aum palmo diante do nariz. De repente passa por ele um porco cor-rendo, que o faz largar o balde, gritar e dar no pé rapidinho.. tudoao mesmo tempo! Ainda deu para ouvir o balde trepidar rolandono mato enquanto voltava para a casa. Com toda a bambeira nas 61
  61. 61. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhapernas adentrou a porta, despertou o riso dos adultos e recebeuordens marotas para voltar e procurar o balde imediatamente! Oraveja, medo de porco! Thaise tem a minha idade, e é claro, também tem suas histó-rias. Uma vez, quando tinha apenas dois aninhos explorava inocen-temente o quintal e notou uma escada encostada na parede de suacasa. Perguntei o que ela pensou, mas não houve resposta. Imedia-tamente pensei naquela sensação de João ao observar o pé de feijãoemergindo continuamente para o alto. Continuando o causo, diantede meus olhos e ouvidos, Thaise, como boa aproveitadora da vida,simplesmente subiu a escada intercalando as mãozinhas e os pe-zinhos a cada ripa até alcançar a laje. Lá sentou-se na beirada e sepreocupou em contemplar a vista. Passados vinte anos a memórialhe permite ter essa vista novamente quando lhe aprouver, e casooutrem estivesse diante dela escutando, como eu estive, veria emseus olhos, não o reflexo de si mesmo, mas a vista da laje. Mas, con-tinuando, tranqüilidade de criança dura pouco. Foi então que algunsbarulhos, que vinham do chão, chamaram a atenção da pequena.Com cara de interrogação mirou em baixo e viu sua mãe aos berros,impotente. “E o que você sentiu?” – insisti. Outra vez a resposta veiocheia de silêncio. Thaise continuou, altiva e gigante, a encarar o mi-núsculo rosto da mamãe desesperada, até que a cabeça de seu paiveio à tona, ajeitando-se na escada para tomá-la nos braços e salvaro dia, mesmo com terrível medo de esborrachar-se com Thaise, es-cada e tudo. Seo Ceriaco, um menino falador de oitenta e três anos, brincacom sua linha do tempo e diz que faltava dinheiro para comprarbicicleta, mas tinha condições de fazer. Era a bicicleta de pau. Per-cebendo a minha curiosidade, ele explica passo a passo: “pegavauma tábua, levava na serraria. Segurava um compasso e passava umlápis que marcava a roda. Então, na serra fita, aquela que corta carneno açougue e faz xiiim xiiiiiim, exatamente em cima do risco, viravaaos poucos para sair a roda. Com uma pua de manivela furava nomeio onde se encaixava o eixo. Pua é uma broca. Não tinha furadei-ra elétrica, então o furo se fazia no muque. Depois apertava o eixo 62
  62. 62. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”com parafuso enquanto a roda de madeira ficava engatada. Passavaqualquer graxa que deixasse liso para deslizar o giro. Por fora daroda era só pregar uma tirinha de pneu mais curta com uma pontabem pertinho da outra. Depois, puxava o pneu com força e apertavaa roda bem ajustado. Sem pneu, a roda saia fazendo pó pó pó pópó pó. O celim era de pano, ou trapo. Punha a tábua na altura quequisesse pra sentar e cobria. Depois tinha cada corrida que Deus olivre! Toda a gurizada queria ser o melhor na bicicleta. Quem tivessea bicicleta mais rápida ganhava o prêmio! A nossa rua era uma desci-da e acabava numa curva lá em baixo. Não era fácil de fazer a curva.Às vezes a gente se arrebentava. Todo mundo fazia. Algumas guriasmeio atrevidas faziam também. Era divertido...” Vivendo, brincamos de criar histórias. Ouvindo histórias, brin-camos com a criatividade. Linguagem e imagens são coreografadasem nossos cenários mentais. Ao narrar, e ao escrever narrativas, cria-mos jogos lingüísticos. Jogos com regras possíveis e impossíveis. Ea vida é uma oportunidade constante para jogar com a linguagem.Cada ponto da linha do tempo de nossas vidas pode ser desvendadocom palavras. Futuro, presente e passado. A linguagem oferece aotempo aquele abraço de urso. Seo Ceriaco contava, setenta e seteanos depois, sobre como fazer uma bicicleta de pau – com detalhesfotográficos. Enquanto existir narrativa o garoto e o velho são ape-nas um e não é muito fácil distingui-los. Assim como a criança Thaiseque contempla a vista sobre o telhado com seus olhos de moça. Gra-ças a esses olhos, seus mirantes do passado, a narrativa desvela aslembranças tão bem narradas, mesmo que a vida passe. Elementossinestésicos são tesouros que guardamos nos baús do pensamento,e alguns deles transformamos em palavras ou imagens para publicarem nosso livro de recordações. Meu pai relembrou-se no mato e defato - nunca saberemos ao certo - ouviu com nitidez o balde tilintare rolar no chão quando foi lançado para o ar e caiu. As lembrançasnão permanecem intactas. Elas são ressignificadas. Quanto à matu-ridade de nossa essência verbal, eu pergunto: quem teria gritado ecorrido enquanto o balde se perdia? O garoto tão alerta que não erameu pai, ou o homem, ainda tão alerta? 63
  63. 63. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Nos três causos os “adultos” lançam-se em suas linhas do tem-po - complexos nas suas narrativas de diferentes fases da vida. En-quanto Juan, que pouco compreendia seu distanciamento com Meg,falou de um tempo recente - apenas uma semana antes; Enzo narroualgo muito repentino e muito próximo do momento de sua narrativa.O tempo entre sua narrativa “Casi caí!” e o acontecimento narradotem a distância do pensamento. Seria por que as narrativas infantisestão mais próximas de seu presente, de suas carências, emoções edesequilíbrios? Nos livros das narrativas infantis percebe-se mais osfatos do que a organização dos registros. O amadurecimento nosajuda a organizar as narrativas. Há lacunas em branco que surgempela vida e alguns de nossos textos mentais podem ter lacunas emenorme quantidade. Há palavras que pulam nessas lacunas sem sa-ber ao certo onde devem permanecer. Algumas delas passamos avida inteira sem saber onde se posicionar. Os critérios e regras paradar-lhes um bom contexto semântico variam de pessoa crescidapara adulto infante, e no geral, não há como montar um esquema. Ter disposição para ouvir e falar é um aprendizado tanto pessoalquanto cultural. Por meio do contato com as narrativas, preenchemosas lacunas e encontramos tesouros para o baú de sensações. Logo,existe uma contribuição verbal das histórias cheias de preciosidadesàs mentes cheias de lacunas. A escola é um espaço vital dessas expe-riências. Para estimular o desenvolvimento da linguagem verbal e ahabilidade de narrar, é possível oferecer possibilidades para compor,recriar, ouvir, perceber, restabelecer elementos que agucem nossavontade de contar o que vemos pelo mundo. Apresentar aos edu-candos (as) a diversidade das formas de falar, escrever, representar,seqüenciar, brincar com o tempo, descrever tempos, etc... mostrá-loslugares com infinitas opções de mobília para decorar seus cenáriosmentais. Levá-los em um mergulho ao chão do oceano onde há umbarco que afundou e conserva tesouros - não se sabe de onde vinha,não se sabe desde quando, mas se sabe que traz uma história quepodemos inventar. Uma boa viagem verbal requer bagagem volu-mosa, mas ao mesmo tempo singela. Como uma bagagem recheadade livros e recordações que, uma vez abertos, são braços aconche- 64
  64. 64. Matéria prima “Pesquei um livro, colhi uma história, plantei uma idéia...”gantes de escritores e ilustradores nos carregando no colo, ou em-balando nossa rede. Podemos viajar carregando um jogo de caça aotesouro na mala e muita disposição para esconder pistas. Podemosperguntar às crianças: que histórias tem ouvido? Que outras gos-tariam de contar? Mas não esqueça! Quando a resposta delas vier,mantenha os olhos e ouvidos abertos, mesmo que a resposta sejauma lacuna vazia. Pois ela pode se transformar em narrativa. Talvezdo tempo presente, talvez para trás, talvez para frente. 65
  65. 65. Capítulo 2 - Dentro do cozinheiro: anatomia funcional doque não aparece, mas aparece na arte de fazer comidaQualidades do contador de história; Reflexões autobiográ-ficas de quem ama literatura
  66. 66. “Sou barulhento como um leão, sou quieto como umaostra, sou corajoso como um tigre, sou medroso comoum camarão...” (RÁPIDO COMO UM GAFANHOTO, de Audrey Wood )
  67. 67. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Uma aventura na chácara: uma infância com uma pontinhade medo. Márcia T. Azevedo Rocha Essa é a história de uma menina que aos oito anos de idade foimorar com sua família em um sítio longe da cidade. O olhar dessamenina brilhou ao entrar em contato com a natureza. Ela se sentiaencantada por poder ficar próxima aos animais; brincar, pular e cor-rer em um campo enorme; andar de bicicleta e de balanço; colher asfrutas e verduras com seu pai, diretamente da plantação. Essas eramalgumas das diversões e distrações dessa menina. Um dia ela estavabrincando com suas bonecas e seu pai apareceu, dizendo: - Vamos passear na chácara? Ela ficou muito contente, pois seu pai sabia o quanto ela gostavade ir até aquela chácara. Esse lugar encantador possuía um grandelago; cada um dos animais tinha sua própria casa: os cavalos mora-vam num lindo celeiro, os porcos em um chiqueiro e as galinhas emum galinheiro. Era um lugar mágico em meio à beleza da natureza. E ela respondeu dando um pulo de alegria: - Já estou pronta! Chegando lá, a menina encontrou com os donos daquela chá-cara - eram os velhinhos mais queridos que ela já havia visto. En-quanto aquele humilde senhor cuidava dos animais, sua senhorafazia manteiga e queijo com o leite retirado da vaca. - Uhmmmm...que delícia! - exclamou a menina ao provar umdos deliciosos queijos fresquinhos. Enquanto ela esperava na cozinha, seu pai foi buscar um barcode madeira bem pequeno para levar sua filha pra passear no lago.Ela não esperava por isso, pois sempre foi uma menina muito me-drosa. Tinha tantos medos e o maior deles era justamente o de andarde barco. - E se ele virar? - perguntou ela ao seu pai. Ele disse para ela não sentir medo, pois não iria virar. E não éque virou?! 68
  68. 68. Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte de fazer comida Foi assim que aconteceu: estavam os dois no barco quando seupai, para impressioná-la, começou a balançar o barco pensando quea menina iria gostar daquela brincadeira. Só que o barco virou e elanão viu mais nada, somente água. Nesse momento, aquele pequenolago tornou-se uma imensidão para ela. Quando abriu os olhos, uma esperança nasceu ao ver uma dasmãos de seu pai resgatando-a do fundo do lago. A menina saiu da água muito assustada, chorando e respirandofundo. Ao voltar para casa, depois do grande susto, percebeu que, apartir daquele instante, não teria mais coragem para enfrentar umaaventura como essa. *** Vinte anos se passaram e essa menina cresceu. Hoje ela fazparte de um projeto de literatura infantil e passou por uma situaçãosemelhante quando precisou vencer o desafio de atravessar, destavez não mais um lago, mas um imenso mar. O que fez ela viajar esuperar o seu medo foi o enorme desejo de levar um pouquinhode literatura para crianças que moram em uma ilha. Foi com muitasuperação que se rompeu mais uma barreira em sua vida, dentremuitas, mas, com certeza, a MAIS prazerosa. Apesar de ter vivido umgrande medo em alto mar, ao desembarcar na ilha aquela meninapercebeu o entusiasmo dos alunos ao se depararem com algo queeles não estavam acostumados a vivenciar todo dia. Era uma escolapequena, mas com certeza agora com algum diferencial. A partir deum trabalho sério, ela acabou entrando em MAIS uma aventura, como intuito de brotar uma sementinha no coração de cada criança edespertar nelas uma fome de leitura e um desejo por histórias. Hoje ela continua contando com a esperança de que no futuropossa haver uma colheita embasada no amor pela leitura e pela lite-ratura. Ela acredita que as histórias infantis podem levar às criançasum prévio contato com situações imaginárias que serão vividas fu-turamente em um dado momento de suas vidas, como as própriashistórias de medo ou os contos de fadas. 69
  69. 69. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha O caso com a literatura! Ela lá, eu cá, ela andando pra cá eu indo pra lá Bum... encontro Quando criança eu sabia apenas que gostava de inventar... ah, como minhas bonecas sabiam disso... nem sempre era bom para elas, por vezes eram devoradas por incríveis monstros da clandesti-nidade mas em compensação eram imensamente amadas por heróis de algum reino escondido nas profundezas do meu quarto. Quando adolescente, eu sabia apenas que nem todas aquelashistorinhas me convenciam, mas bastava um belo versinho para me derreter toda, comouma floquinha de neve que se derrete ao se apaixonar pelo grandee quente sol. e assim eu fui crescendo entre fatos reais, realidades tristes e alegres fatos imaginários cheios de razão, imaginação e teimosia! e só depois de muito tempo eu fui entender que esta tal literatura que tanto falavam na escola tão escondida lááá na biblioteca estava dentro de mim o tempo todo!!!! 70
  70. 70. Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte de fazer comida e mais uma vez o tempo de uma experiência nem tão distante me mostrou que o conhecimento sensível mora mesmo dentro do meu peito! hoje eu conto histórias para não deixar o tempo em branco e sim colorir de sonhos, sons e gestos o gosto pelo contato com o próximo o gosto por conhecer o poder fantástico de um mundo que sempre surpreende: a vida! Juliana Leitoles 71
  71. 71. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Quando penso nos tempos de infância lembro de boneca, dearmazém, de ursinho de pelúcia, de pega-pega, de desenho na tele-visão, e de fazer João de Barro depois da chuva. Mas não me lembrodos meus pais contando estórias durante o dia, ou antes da hora dedormir; tão pouco me dando um livro com a estória do João Pé deFeijão envolto num embrulho de presente de Natal ou aniversário.Eles me davam brinquedos e roupas nas datas comemorativas por-que julgavam ser o mais importante para o meu bem estar - e euera pequena demais para saber quais necessidades de fato eu tinha. Como quem procura fotos antigas de família, aquelas que ficamescondidas nos lugares mais difíceis do guarda-roupa, fui buscarnas recordações de 1ª série algum momento em que a escola tenhame dado a oportunidade de levar um livro de literatura infantil paracasa; para minha tristeza, lembro-me das estórias contadas apenasem sala de aula pela professora. Ah, se ela soubesse o quanto eudesejava ter o prazer de pegar um livro e folhear as páginas comminhas próprias mãos, ler e reler a mesma estória, com o mesmoentusiasmo que ela parecia sentir quando lia. Mas eu era pequena etímida para expressar meu desejo de experimentar, sozinha, as aven-turas no mundo da leitura. Na 2ª e 3ª série as únicas estórias que tive o prazer de eu mes-ma ler, sem a leitura das professoras, estavam na cartilha ou em pe-quenos papéis que deveriam ser colados no caderno para a execu-ção de alguma tarefa. Mal eu sabia que os dias de pouco encanto efantasia estavam prestes a mudar. Certo dia na escola, na 4ª série, aprofessora disse que todos da turma poderiam ir à biblioteca parapegar livros emprestados. Lembro que entrei amedrontada na bi-blioteca pela primeira vez e avistei a prateleira de livros de literatu-ra infantil, rapidamente escolhi um e levei para a casa. A bibliotecanaquela época me causava arrepios, pois o silêncio reinava e até ospassos não deveriam fazer barulho. Eu não fazia idéia que depoisde ler o primeiro livro minha vida não seria mais a mesma. Pois asestórias me levaram a vários cantos do mundo - é um universo semfim! Depois do primeiro livro, a biblioteca se tornou o meu baú detesouro. A ansiedade de ler as estórias só aumentava, tanto que eu 72
  72. 72. Dentro do cozinheiro: anatomia funcional do que não aparece, mas aparece na arte de fazer comidanão aguentava esperar chegar em casa, já ia lendo no recreio. Esseperíodo marcou minhas lembranças, pois até hoje recordo de algunstítulos da Coleção Vaga-lume: Sozinha no mundo, A Ilha Perdida; Asaventuras do cachorrinho Samba, dentre outros. Depois que entrei no fantástico mundo encantado da litera-tura, nunca mais consegui sair. Luciane Fabiane dos Santos 73
  73. 73. Capítulo 3 - História encontra histórias ou Comendo nomesmo pratoDepoimentos de integrantes do projeto da Universidade eda Comunidade
  74. 74. “Eu quero agora: A mesa farta O canto alegre O riso de festa O odor de rosa.”(poesia De volta, em A ÁRVORE QUE DAVA SORVETE, de Sérgio Capparelli)“Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o seu pensamento reapresenta um capítulo.” (MANIA DE EXPLICAÇÃO, de Adriana Falcão)
  75. 75. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha Pedimos a todos que participam ou já participaram do(s)projeto(s) Gente e Livros (2007-2009) e MAIS Gente e Livros (2010)um breve relato de um encontro ou um depoimento de como foi oprojeto para cada um. Seguem os depoimentos dos que puderamnos atender. Os relatos da equipe se encontram com os relatos dosprofessores, comentando sobre os livros das caixinhas viajantes, agente, si mesmos, seus alunos e comunidade. Gente e Livros *** Depois das conversas iniciais, éramos designados para nossasmissões quase impossíveis, sempre desafiadoras e exaustivas. Dessavez já sabíamos o que iríamos enfrentar: depois de duas horas emeia até chegarmos à secretaria de educação, faríamos outra via-gem de cerca de duas horas por uma estrada de chão para chegar-mos ao nosso destino. Passamos por paisagens ainda mais belas.A estrada era cortada por riachos e quando a kombi passava pordentro era como se pudéssemos sentir o frescor da água em nossoespírito, aquele frio na barriga do barco em alto mar (acredito queseja assim, nunca estive em alto mar). Na escola havia certa expectativa. As crianças nos conheciam echegávamos, apesar do cansaço, com muita disposição - com cer-teza influenciada pela nossa líder atômica. Nos apresentávamos einteragíamos com as crianças ao mesmo tempo. O dia transcorriacheio de histórias, músicas e brincadeiras. A volta era animada pelas conversas sobre as impressões do diaou embalada pelas curvas (quando não pelo Dramin) que nos faziamadormecer. Jamais vou esquecer este dia maravilhoso. Abraços. Vinícius Rodrigues dos Santos, em sua primeira viagem às es-colas rurais de Adrianópolis. Equipe 2007/2008. 76
  76. 76. História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato *** Só tenho elogios aos nossos encontros. Em todos os encontrosaprendemos uma maneira diferente para trabalharmos com os nos-sos alunos. Professora de Adrianópolis *** Não tenho críticas, só elogios, ao trabalho tanto da parte damanhã quanto à tarde. Foi um verdadeiro aprendizado, nos deu umaorientação de como trabalhar com as crianças. Professores de Tunas do Paraná *** Tem uma cena que será difícil de esquecer. Foi um sábado decontação de estórias e brincadeiras divertidas com crianças – emmeio a árvores gigantes e montanhas cobertas de mata nativa - naComunidade Quilombola João Surá, em Adrianópolis, divisa dos es-tados Paraná e São Paulo. Essa região é um espetáculo da natureza! Quando eu e Liliane estávamos retornando pra casa, dentrodo carro com colegas de outro projeto, avistamos diversos animaispasseando pela estrada. Quando, de repente, avistamos uma cobraespessa e comprida logo à nossa frente. Ela atravessava a rua lenta-mente, exibindo sua elegância. Tudo que pudemos fazer foi desace-lerar o carro, admirá-la e esperá-la passar. Diferente dos filmes, ela sóestava passeando, tomando seu banho de final de tarde, sem inten-ção de nos perseguir, e nós, que nem éramos caçadores de bichospeçonhentos, estávamos voltando para a casa. O que nos restou foiguardá-la em nossas recordações para nossas futuras histórias. Luciane Fabiane dos Santos, Equipe 2007/2008/2009. *** “O trabalho com livros de literatura incentiva os alunos a ler eescrever cada vez melhor.” / “Essas histórias são muito interessantes.Agradeço pela oportunidade.” Professores de Tunas do Paraná 77
  77. 77. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinha *** “A linguagem de imagens do livro Traquinagens e Estripuliasdesperta o interesse e a imaginação, possibilitando uma interaçãoentre o leitor e a história, e permitindo que a criança crie suas pró-prias histórias.” “O livro Fico à espera retrata a vida humana em todas as suasfases de uma maneira simples, direta, criativa e, acima de tudo, emo-cionante. Com ilustrações e frases curtas, que permitem à criança acriação e a interpretação de acordo com a sua experiência de vida.Instiga a criança a descobrir a sua história genealógica, sua vivênciae cultura. Ela poderá notar que é igual a outras crianças (no cursoda vida) e ao mesmo tempo diferente (formação familiar e cultural,experiências)” Professoras de Bocaiúva do Sul *** Como esquecer a minha primeira viagem... foi para Tunas doParaná, no teatro da cidade. As crianças todas reunidas para ouviras histórias e músicas que o projeto havia preparado. Não foi umtrabalho muito fácil, prender a atenção das crianças num espaço tãogrande exigia muito empenho. Mas as histórias foram maravilhosas,criava-se um suspense, cantava-se uma música e até brincávamos(de montanha-russa, foi muito divertido). A ludicidade do momentoenvolvia as crianças nas atividades. E os circuitos realizados em algumas escolas... era muita lou-cura! Dividíamo-nos e montávamos diversas atividades: a sala demúsica, de histórias, de criação, de brincadeiras de pátio. Assim, asturmas - com uma média de 30 crianças cada pessoa do projeto- iam circulando pelas atividades, permanecendo em cada uma 30minutos. Uma verdadeira maratona. Nós nos cansávamos, mas, tam-bém, nos divertíamos. Liliane Machado Martins, Equipe 2008/2009. 78
  78. 78. História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato *** “O tempo foi pouco; mas o conteúdo, ótimo. Amei.” / “O cursocontribuiu bastante para o meu crescimento profissional, trazendonovas idéias e estimulando o prazer pela leitura.” Professoras de Adrianópolis *** “Foi de extrema importância o curso de hoje, pois vimos quepara ser criativo e dar uma aula gostosa e diferente não dependesomente de recursos financeiros, podemos usar materiais do dia-a--dia.” “O quê achei do curso? Muito proveitoso, aprendi muitas ati-vidades para fazer com meus alunos. Os professores foram muitoagradáveis, espero que voltem mais vezes (...) os alunos: dava paraver o brilho nos olhos deles de tanta felicidade por estar aprendendocoisas novas.” Professores de Tunas do Paraná *** Participar do Projeto Gente e Livros foi uma experiência ines-quecível e também – sem exageros! – a realização de um sonho, poissempre ansiei por um trabalho que envolvesse capacitação docentee literatura infantil. E foi ainda melhor do que eu poderia esperar, pois tive a opor-tunidade de sair de Curitiba – cidade onde moro e que em condições“normais” seria a única em que eu trabalharia –, conhecer a realidadeeducacional de três municípios pelos quais nunca tinha passado eajudar a modificá-la. Fabiana da Cunha Medeiros, Equipe 2008/2009. *** Quarta-feira, 14h. Aguço os ouvidos para ouvir mais uma his-tória... contos, cantos, versos, textos e contextos... palavras se agluti-nam ao vento enquanto viajo na narrativa da companheira ao lado... 79
  79. 79. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhamomento sublime de fantasia em meio ao caos do dia-a-dia. Amanhã tem viagem. Planejamento elaborado e reelaborado,materiais separados, carro confirmado (?), horário marcado. Lá, pes-soas nos aguardam (quase sempre)... Dia de festa... biscoitos na Van, conferência de responsabilida-des, curvas, sonos e risos e é chegada a hora. Na platéia, perguntaspipocam antes e depois da fala. Vozes e corpos se transvestem defiguras e palavras, dando vida ao Local de Informações Variadas Reu-tilizáveis e Ordenadas (L.I.V.R.O.), como diria o Millôr. No retorno, o cansaço superado pela alegria da missão cum-prida... comentários sobre os depoimentos que motivam a prepararmelhor o próximo encontro... mais curvas, mais sonos, mais risos... E na próxima quarta, renovada... aguço os ouvidos para ouvirmais uma história... Silvana Galvani Claudino, Equipe 2009. *** Gostaria que o projeto continuasse para melhorar o desenvol-vimento das crianças do nosso município. Essas histórias são muitointeressantes. Agradeço pela oportunidade. Professora de Tunas do Paraná *** Como sempre, o curso foi ótimo. Espero que possamos contarcom esse maravilhoso trabalho no próximo ano. Os livros sugeridose as propostas de trabalho proporcionam aulas e momentos muitoprazerosos para alunos e professoras. Enfim, parabéns e que Deus abençoe todos. Professora de Adrianópolis 80
  80. 80. História encontra histórias ou Comendo no mesmo prato MAIS Gente e Livros *** Primeiro a idéia. Depois a oportunidade. Aos poucos foi che-gando um, mais um e MAIS um e, de repente, já éramos muitíssimos! Muita gente para poucos livros. E a mesma coisa martelando na cabeça da Gente: ô de casa,vambora! Vamos fazer acontecer! Vamos pegar a estrada, o barco, beirando a encosta, o vale, orio, o mar, o mangue; vamos espalhar literatura por esse mundo afo-ra! e pra dentro da sala de aula também! Saudades das viagens que fiz e das que não fiz, dos encontrose dos desencontros, dos olhos nos olhos, das crianças e dos adultostornando-se meus mais novos velhos conhecidos, da torcida por dartudo certo, da acolhida dos educadores e parceiros das secretariasde educação - cada vez mais unidos nessa missão que ainda nãoacabou! Pois há muito MAIS histórias e livros a serem semeados. Nos lei-tores que nascem e naqueles que estão por nascer, e terão na escolaa nascente para conhecer como é a outra margem do rio - depoisdaquela queda d’água por onde uma vez passou o pai do seu pai doseu pai do seu pai... com a mãe da sua mãe da sua mãe da sua mãe...e outros com os quais eles se encontraram. Costumamos dizer que esse é um projeto despretensioso: sótemos o OBJETIVO de revolucionar o mundo por meio da literaturana educação! Certamente há o estopim para a revolução. A revolução damente, do meu pensamento, de meus conceitos. De ser e estar omais inteira possível por onde passo. Marcando em mim e nos ou-tros o precioso momento que nenhum livro pode eternizar, mas quepode provocar mudança nos momentos seguintes. Agradeço a todos que já estiveram no projeto (toda a Gente etodos os Livros), que incluíram a universidade em sua comunidade efizeram do encontro entre educação básica e educação universitáriaum sonho possível, não somente um projeto encarcerado nas pági- 81
  81. 81. nosso caderno de receitas: gente e livros na cozinhanas de um livro qualquer, cheio de “verdades” e fechado na estantede intelectuais com a cabeça nas nuvens e seus pés também. Para alguém que cursou pedagogia com o ideal de escreverpara crianças, Gente e Livros e MAIS Gente e Livros são um baitapresente! Foi aí que aprendi que “literatura infantil é aquela tambémapreciada por adultos”, como me ensinou Ana Maria Machado emminhas leituras e como comprovei, comprovo e comprovarei com-provando em minhas andanças. Camila Siqueira Gouvêa Acosta Gonçalves, Equipe 2007/2008/2009/2010. *** “A iniciativa do projeto é importante, pois contar histórias já nãoestava sendo muito freqüente nas escolas.” / “É muito boa, pois aleitura é pouco praticada em nossa comunidade.” / “É muito boa eajuda muito no trabalho pedagógico de nossa escola.” Professores de Guaraqueçaba *** O que me atrai na Educação é ver como ela pode mudar a vidadas pessoas. Ver alguém interessado em aprender e ensinar é algoque me encanta profundamente. Fazer parte do Projeto Gente e Livros me permitiu contemplaresta cena muitas vezes. Ver professores (nas cidades em que passa-mos) interessados em criar repertórios, buscar mais e novas manei-ras para o trabalho com as crianças, ouvir relatos de como colocaramem prática os ensinamentos que aprenderam. Ver a expressão dealegria e entusiasmo em seus rostos quando nos recebiam, só refor-çaram as minhas crenças de que a Educação no Brasil e no mundodá certo! Rosicler Alves dos Santos, equipe 2008/2009/2010. *** Gostei muito do trabalho realizado com as crianças, principal- 82

×