Teologia Contemporânea

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Apostila de teologia contemporânea

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Teologia Contemporânea

  1. 1. Curso de Teologia ContemporâneaProfessor Pr. Josias Moura de MenezesSite: www.josiasmoura.wordpress.com Email: josiasmoura@hotmail.com
  2. 2. Pag. 2 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comÍndice da apostilaCurso de Teologia Contemporânea.................................................................................................................... 1Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS ............................................................................................... 41. Influências da teologia Contemporânea .................................................................................................. 42. MÍSTICA E TOMÍSTICA ................................................................................................................................ 53. A influência da reforma e contra reforma................................................................................................ 54. A reação católica a reforma....................................................................................................................... 55. Galileu e a inquisição ................................................................................................................................. 66. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéias ........................... 67. A atuação nociva do liberalismo teológico neste período ...................................................................... 68. O que é alta crítica? ................................................................................................................................... 7Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO .............................................................................................................. 8Parte 03: NOVO MODERNISMO ....................................................................................................................... 169. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?................................................................................................ 1610. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo? ..................................................................................... 18Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS ..................................................................................................... 1911. A TEOLOGIA DO MITO ......................................................................................................................... 1912. A teologia da esperança ...................................................................................................................... 2113. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA............................................ 23Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS ..................................................................................................................... 241. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja. .................................................... 242. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?........................................................................ 243. Grandes nomes do evangelho social ...................................................................................................... 244. O evangelho social na América do sul .................................................................................................... 255. Em que momento o evangelho social ganha destaque......................................................................... 256. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff..................................................... 257. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: ............................................................... 258. Nascimento da TDL no Brasil................................................................................................................... 269. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil ..................................................................... 26
  3. 3. Pag. 3 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com10. Características da TDL ......................................................................................................................... 2711. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? ......... 28Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS............................................................................................................................................................................ 29Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino............................................................................. 341. Introdução ................................................................................................................................................ 342. Genebra na Época de Calvino.................................................................................................................. 353. O Governo de Genebra ............................................................................................................................ 354. A Situação Social em Genebra................................................................................................................. 355. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra ................................................................................ 366. As reações as mudanças trazidas por Farel ............................................................................................ 367. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra ........................................................... 368. O Ensino de Calvino.................................................................................................................................. 379. A Responsabilidade Social da Igreja........................................................................................................ 3910. Conclusões ........................................................................................................................................... 45Parte 08: A teologia evolucionista ................................................................................................................... 4611. A TEOLOGIA EVOLUCIONISTA ............................................................................................................. 4612. O que foi publicado na revista isto é.................................................................................................. 47Parte 09: Teologia relacional- Um novo “deus” no mercado......................................................................... 471. Introdução ................................................................................................................................................ 472. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma: ................................................................. 483. A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximode nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologiatradicional. ......................................................................................................................................................... 49Parte 10: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE- UMA RESPOSTA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO? ..................... 511. Introdução ................................................................................................................................................ 512. A base doutrinária .................................................................................................................................... 523. UMA TEOLOGIA DE RICOS PARA OS POBRES: O CASO DA IURD........................................................... 544. A VISÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA................................................................................................................ 605. Considerações finais ................................................................................................................................ 646. Informações sobre o professor ............................................................................................................... 64
  4. 4. Pag. 4 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS1. Influências da teologia ContemporâneaA atual teologia contemporânea recebeu a influência de inúmeras manifestaçõesteológicas e filosóficas do passado.Para uma melhor compreensão da Teologia Contemporânea é imprescindívelconhecer as principais correntes ou tendências teológicas, desde os dias apostólicosque a influenciam:  A Teologia Bíblica: procura conhecer a Deus, seus atributos e sua vontade, através de uma reflexão a respeito dos temas presentes tanto no Antigo como no Novo Testamento, considerados como infalível Palavra de Deus  A Teologia Católica: por sua vez, que corresponde às teologias moral (orienta o comportamento humano em relação aos princípios religiosos), dogmática (estuda os elementos da fé, ou seja, as doutrinas), bíblica (estuda o caráter de Deus, seus atributos e sua vontade a nosso respeito, com base na Bíblia) e patrística (estuda a religião de acordo com a interpretação dos pais da Igreja, da tradição e do magistério);  A Teologia Protestante enfatiza o retorno às origens e à reinterpretação das Escrituras, tendo Cristo como única perspectiva. Seus temas principais são: somente a Escritura, somente Cristo, somente a fé, somente a graça;  A Teologia Natural ou Teodicéia, busca o conhecimento de Deus baseando-se na razão humana;  A Teologia Especulativa tem por fundamento o estudo sintético dos textos sagrados, apoiado nos conhecimentos filosóficos do homem. Nesta categoria pode ser classificada a teologia tomística, de Aquino. A Teologia Contemporânea origina-se diretamente do método especulativo, e desde a Reforma Protestante tem tomado várias direções, conforme as designações recebidas: Teologia modernista, teologia neomodernista, teologia da esperança, teologia do evangelho social, teologia do cristianismo sem religião, teologia da morte de Deus etc, conforme veremos no decorrer desse estudo;  A Teologia Mística fundamenta-se na experiência religiosa que permite ao iniciado supor-se imediatamente relacionado com a divindade, sendo sinais dessa união as visões, os êxtases, as profecias e os estigmas. Características da teologia mística: o A teologia mística não tem caráter reflexivo. o Não da prioridade ao uso da razão. o Evidência as experiências .
  5. 5. Pag. 5 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com o Da maior importância a sentimentos, emoções, do que ao uso do intelecto.2. MÍSTICA E TOMÍSTICAA filosofia grega ameaçou toda a estrutura do Cristianismo, tentando helenizar asdoutrinas apostólicas, ou seja, contextualizá-las à luz da cultura grega.As doutrinas passaram a ser examinadas a luz da razão e da lógica.A influência da teologia filosófica de Tomas de Aquino:Com Tomás de Aquino, no século XII, ressurge a teologia especulativa, mas comoutras vestes.Esse famoso doutor do catolicismo procurou explicar racionalmente os dogmascristãos, e acabou invertendo o princípio bíblico de que "pela fé entendemos", aoafirmar que o conhecimento conduz à fé.É o pai não apenas da teologia tomística, mas também da filosofia tomística, como jávimos.3. A influência da reforma e contra reformaCom o advento da Reforma Religiosa no século XVI, a tradição católica foi desafiadapelos reformadores.Os reformadores apegaram-se às Escrituras Sagradas e trouxeram à lume os grandesfundamentos da fé cristã, como: a autoridade suprema da Bíblia, a justificação pela fé,o verdadeiro significado dos sacramentos, o sacerdócio universal dos crentes, etc.As divisas protestantes tornaram-se célebres: Solus Cristus, Sola Scriptura, Sola fide,Sola gratia.4. A reação católica a reformaA Igreja Católica, ao ver-se ameaçada, organizou a sua contra reforma principalmenteatravés da convocação do concilio de Trento, que se reuniu durante 18 anos, de 1545 a1563.O que acontece neste concílio?Nesse célebre concilio ficaram confirmados pela Igreja Católica todos os dogmasanteriormente aceitos. A tradição foi considerada de valor igual ao da Bíblia, e aindajuntaram-se ao cânon do Antigo Testamento os livros e aditamentos apócrifos.
  6. 6. Pag. 6 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com5. Galileu e a inquisiçãoAcusado de perjúria e heresia pelos clericalistas, o grande físico, já com 70 anos, foicitado a comparecer perante o Tribunal da Inquisição, em Roma.Na manhã do dia 22 de junho de 1633, ajoelhado ante seus inimigos, Galileu, parasalvar a vida, abjura seus "erros e heresias" e "renega" todas as suas sensacionaisdescobertas.O decreto do Papa urbano VIII diante das novas descobertas científicasFoi nos dias de Galileu, quando mais se digladiavam teólogos que pretendiam sercientistas e cientistas que pretendiam ser teólogos, que o papa Urbano VIII, pontíficede 1632 a 1644, assinou o seu infalível (!!!) decreto: "Em nome e pela autoridade de Jesus Cristo, cuja plenitude reside em Seu vigário, o Papa, declaramos que a afirmação de que a terra não é o centro do mundo e de que ela se desloca com um movimento diurno é coisa absurda, filosoficamente falsa; e errônea, quanto à fé".Constatamos uma clara incapacidade da teologia católica de acompanhar e explicar osinúmeros avanços científicos que estavam acontecendo naquele período.6. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéiasA posição medievalista da Igreja Católica nos primeiros séculos da Idade Moderna, emrelação ao desenvolvimento da cultura, trouxe males sem conta a ela mesma,Porque à medida em que a ciência começou a provar os "absurdos" condenados pelareligião, esta começou a ser contestada por eminentes escritores, secularistas eirreverentes, a cujos olhos o romanismo não passava de um mal social e um entrave aoprogresso dos povos.7. A atuação nociva do liberalismo teológico neste períodoO que o liberalismo teológico não é? O liberalismo teológico não é uma religião ouuma organização ideológica possuidora de templos, funcionários ou sociedades.O que o liberalismo é? Ele é, simplesmente, uma tendência de ajustar o Cristianismoaos conceitos da *Alta Crítica da Bíblia, da ciência e das filosofias modernas. Estatendência apresenta-se hoje sob diversos outros títulos, como modernismo,racionalismo, nova teologia, etc.
  7. 7. Pag. 7 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com8. O que é alta crítica?Em exegese, Alta crítica é o nome dado aos estudos críticos da Bíblia. Sua abordagemtrata a Bíblia como literatura, utilizando-se do aparato crítico normalmente aplicado atextos literários semelhantes.Caracteriza-se, de uma forma geral, por não partir do dogma da inerrância bíblica paraefetuar suas análises.Em contraste com a Baixa crítica, seu foco está no estudo dos autores dos textosbíblicos, seu processo de formação editorial, sua transmissão histórica e o contexto deformação, denominado Sitz im Leben.Exemplo de atuação da alta CríticaOs fundamentos históricos dessa tendência remontam, de acordo com a maioria dosautores, ao ano de 1753, quando Jean Astruc (1684-1766), francês incrédulo eprofessor de medicina em Paris, publicou anonimamente, em Bruxelas, em francês, olivro Conjecturas Sobre as Memórias Originais que Parece Terem Sido Usadas porMoisés na Composição do Gênesis.Nesse livro Astruc, que foi médico do rei da Polônia e de Luís XV, da França, duvida daorigem mosaica dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento e aventa a hipótesede existirem duas fontes literárias — Jeovista e Eloísta — partindo-se dos nomesusados para se referirem a Deus.Antes dessa data, muito raramente alguém ousava criticar assim a Palavra de Deus,lançando dúvidas sobre a sua historicidade tradicionalmente aceita.Os mesmos métodos de desintegração aplicados ao Antigo Testamento foramtambém aplicados, de maneira violenta, ao Novo, lançando descrédito sobre o seuvalor histórico e resultando, em alguns casos, no completo desaparecimento dapessoa divina de Jesus Cristo, para instalar em seu lugar apenas um profetadestituído de todos os seus atributos sobrenaturais.O nascimento da teologia liberalDo emaranhado dessas teorias nasceu o movimento liberalista, hoje presente nasartes, na música, nos costumes sociais e, como vimos, na própria Teologia. É ele oprincipal responsável pelo relaxamento dos padrões éticos, em virtude da sua atitudeirreverente em relação à Divindade e das dúvidas acerca da inspiração das Escrituras,que lança nos corações.
  8. 8. Pag. 8 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comSem a poderosa influência moralizadora da Palavra de Deus, os homens seembrutecem, como descreve o apóstolo Paulo no capítulo 2 da sua Carta aosRomanos.Em 1780, o hebraísta alemão Eichrodt aceitou a hipótese de Astruc e afirmou que osreferidos documentos tinham características, estilos e expressões distintas um dooutro. Igen, em 1798, também alemão, julgou ter descoberto, dentro do documentoEloísta do Gênesis, diversas características de estilo e expressões. Por isso foi eleconsiderado o descobridor do segundo documento Eloísta.Na Escócia, o padre católico romano, Alexander Gaddas, anunciou ter encontrado noPentateuco diversos documentos (1798-1800). Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICOI. NOMES PRINCIPAISVejamos agora alguns nomes implicados no liberalismo teológico, responsáveis pelosnovos rumos tomados pelo protestantismo:A. Friedrich Schleiermacher (1768-1834)1. Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiõesfalsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm porobjetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas.2. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções de burguesia culta eliberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelosracionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora consideradoliberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth.B. Johann David Michalis (1717-1791)1. Teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiraçãoliteral das Escrituras Sagradas.C. Adoff Von Harnack (1851-1930)
  9. 9. Pag. 9 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com1. Teólogo protestante alemão, defende em sua obra principal História dos Dogmas: aevolução dos dogmas do cristianismo pela helenização progressiva da fé cristãprimitiva.Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie deconfiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia.D. Albrecht Ritschl (1822-1889)1. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear-se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.E. David Friedrich Strauss (1808-1874)1. Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não-teólogos e não-eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubingen comapenas 24 anos. Quatro anos mais tarde, em 1836, foi furiosamente afastado do cargoem virtude de sua obra, denominada Vida de Jesus, criticamente estudada.2. No ano de 1841 lançou, em dois volumes, sua Fé Crista - Seu DesenvolvimentoHistórico e seu Conflito com a Ciência Moderna. Nesta obra está negandocompletamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática.Em 1864 publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir oJesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Emsua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, adota a evolução darwiniana emcontraste com a fé bíblica.3. Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre umaobservação imparcial e o Cristo da fé.Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica,histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou enão procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença ea origem do mito nos evangelhos.4. Seu conceito do mundo é o de matérias subindo para formas cada vez mais altas.À pergunta: "Como ordenamos nossas vidas?" - responde: autodeterminação,seguindo a espécie.5. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos,contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao VelhoTestamento. Em resumo, Jesus é uma figura histórica. Da vida de Jesus nada sabemos,sendo tudo mito e lenda.6. Considerado o mais erudito entre os biógrafos infiéis de Jesus, Strauss encerra oúltimo capítulo da sua segunda Vida de Jesus com estas palavras: "...aparentemente
  10. 10. Pag. 10 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comaniquilaram a maior e mais importante parte daquilo que o cristão se acostumou a crerconcernente a Jesus; desarraigaram todos os encorajamentos que ele tem tirado desua fé e privaram-no de todas as suas consolações. Parece que se achamirremediavelmente solapados os inesgotáveis depósitos de verdade e vida que pordezoito séculos têm sido o alimento da humanidade; o mais sublime atirado ao pó,Deus despido de sua graça, o homem despojado de sua dignidade, e o laço entre o céue a terra rompido. Recua a piedade em horror diante de um ato tão temeroso deprofanação, e, forte como é na impregnável evidência própria de sua fé, ousadamenteconclui que - não importa se um criticismo audaz tentar o que lhe aprouver tudo o queas Escrituras declaram e a Igreja crê acerca de Cristo subsistirá como verdade eterna;nem sequer um jota ou um til será removido."7. Philip Schaff comenta que Strauss professa admitir a verdade abstrata dacristologia ortodoxa, "a união do divino e humano , mas perverte-a, emprestando-lheum sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas àgloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala.Destarte, ele substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade poruma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moralsobre o pecado e a morte por um mero passo na filosofia e em artes mecânicas; oculto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própriaadoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho deesperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento."F. Sorem Kierkegaard (1813-1855)1. Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidasreligiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de naturezapsicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou teologia na universidade deCopenhague, licenciando-se em 1841.2. Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-lamuito pouco cristã. Para o teólogo dinamarquês, entre as atitudes (fases) estética,ética e religiosa da vida, não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entreelas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética oudesta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-seinstantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa.3. Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendoo panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra omedo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, pornão ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveisentre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entreesta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.
  11. 11. Pag. 11 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com4. São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferençaentre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para averdadeira existência, etc.Eis alguns deles: a. No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletiva, faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; No estágio ético, o homem assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que não pode fazer; No estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que seja, e que só se alcança este estado proposto por Deus através de algo que vem de fora - o próprio Deus; b. o tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; a eternidade significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade, possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a eternidade intercepta o tempo; c. o objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, ao que ela chama "a verdade"; mas os fatos claramente aceitos jamais encerram a verdade; d. a essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física: liberdade versus tempo; e. o único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado; ignorante e conhecedor de tudo.5. S. Kierkegaard, redescoberto na Alemanha por volta de 1910, é considerado oprecursor da teologia transcendental, de que Karl Barth, no século XX, é o principalrepresentante.II. EXAME CRÍTICOA. Principais Doutrinas Liberais1. Foi a partir de meados do século XIX, como conseqüência da grande vitalidadeintelectual e reorientação do pensamento, que nasceu a teologia liberal. Foi esta umaépoca de renascimento religioso em geral e, em particular, de expansão doprotestantismo, institucional e geográfica mente, caracterizada pelas missões esurgimento das sociedades bíblicas.
  12. 12. Pag. 12 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com2. O liberalismo teológico, em sua essência, procura libertar as consciências cristãsdas suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão. Realça apessoa de Deus como a fonte de toda a verdade e enfatiza a necessidade de umacerteza sincera na busca da verdade, embora reconheça a impossibilidade do serhumano alcançar um conhecimento pleno da verdade absoluta.3. A maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável essa premissaliberalista de que o espírito humano não possa mover-se em regiões para além doalcance dos sentidos, além do raciocínio meramente racional. Para Platão, o intelectotem idéias supersensíveis, inexplicáveis à luz da razão, sendo que é neste reino queresidem os característicos principais e distintivos da alma humana. Modernamente, écada vez maior o número dos que conhecem uma área essencialmente metafísica,portanto fora do alcance dos meios físicos, na qual o espírito obedece às leis de suaprópria natureza.4. Segundo os teólogos liberais, o protestantismo precisa "incorporar à sua teologiaos valores básicos, as aspirações e as atitudes características da cultura moderna,ressaltando, dentre outros, o imperativo ético do Evangelho." (Enciclopédia Mirador).Dessa pregação nasceu o evangelho social, onde a mensagem de Cristo deixa de ser opoder de Deus para a salvação e regeneração do homem, para tornar-se apenas umafórmula social, impotente. "A Igreja transcende os métodos e as fórmulas humanas.Ela produz aquela vida plena de riqueza, que é o espírito livre e nobre em ação; pensaos melhores pensamentos; aceita os mais elevados ideais e os reveste de umalinguagem irresistível. Assim ela infunde um poder criador na sociedade de espíritoshumanos... Não há fórmula suficiente boa para tornar boa uma sociedade, se não forexecutada por homens bons. O cristianismo não elabora fórmulas, mas cria os homenscapazes de insuflar força moral em qualquer fórmula" (Lynn Harold Hough).5. O movimento liberalista não reivindicou apenas amplas liberdades para oexercício da razão, mas pregou a tolerância entre as denominações protestantes,aproximando-as, através da minimização das diferenças doutrinárias.6. O ressurgimento da intolerância religiosa no seio do catolicismo romano, nasprimeiras décadas do século passado, o que resultou na prisão e morte deprotestantes em diversos países, especialmente na Estônia, Lituânia, Letônia, Turquia,Pérsia, Portugual e Espanha, contribuiu também para aproximar entre si asdenominações evangélicas. A organização, em 1846, da Aliança Mundial Evangélica,em Londres, foi uma resposta ao estado de insegurança em que se achavam váriascorrentes do protestantismo. Essa Aliança muito fez pela liberdade de culto em todo omundo.7. Mas o espírito liberal reclama ainda respeito pela ciência e pelos métodoscientíficos de pesquisas, o que implica na aceitação franca do estudo, tanto do mundomaterial como da crítica bíblica e da história da Igreja. Foi, valendo-se desse estado de
  13. 13. Pag. 13 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comespírito favorável, que Darwin publicou a sua célebre obra As Origens das Espéciesatravés de meios de seleção natural,em 24 de novembro de 1859, que provocouviolentas e intermináveis polêmicas.8. O liberalismo teológico aceita também o princípio da continuidade, ou seja,considera mais importantes as semelhanças do que os contrastes, admitindo-se aidéia da evolução para superar os abismos existentes entre o natural e espiritual,entre o homem e seu Criador, enfatizando mais a imanência do que a transcendênciade Deus; o liberalismo prega ainda a confiança do homem no futuro, gerada pelasgrandes conquistas em todos os campos da ciência.9. Não há dúvida de que o sonho liberalista do século passado mostra a cada diamais impossibilidade de materializar-se. A teoria da evolução está hoje negada pelosprincipais cientistas, e as conquistas da ciência moderna têm trazido, ao lado do seuinegável progresso, resultados catastróficos. A confiança do homem no futurodesvanece-se hoje à luz dos fatos atuais e a exemplo de amargas experiênciasrecentes. Quanto à imanência de Deus, sugere esta ênfase que a Divindade estáidentificada com a totalidade das existências, afirmando, panteisticamente, que tudo éDeus e Deus é o tudo. Elimina-se, destarte, toda a concepção da personalidade divinae, em conseqüência, considera-se o homem um irresponsável. Quando se nega oconceito de Deus, como o Criador onipotente que está acima de todas as coisas quecriou, corre-se o risco de cair no fatalismo, característico dos cultos orientais e,infelizmente, em expansão no Ocidente. Sinais da presença do fatalismo em nossosdias são os horóscopos, o fetichismo e até mesmo os biorrítmos, rejeitados comoanticientíficos por grande número de médicos renomados.10. Ainda em relação à ênfase dada pelo liberalismo à imanência de Deus em tudo, háuma implicação séria, quando se trata do problema do pecado. Despersonalizando adivindade, é o homem colocado no centro de tudo, como a medida de tudo. Issosignifica que o fim do homem é estar satisfeito consigo mesmo, com seus horizontesetc. O Dr. John A. Mackay afirma que o pecado, como fator na existência humana, éterrivelmente real, e é coisa que os filósofos balconizados sempre trataram de fazerdesaparecer por meio de argumentos arrazoados. Com a expressão balconizados faziaele referência a Aristóteles e Renan, como símbolos daqueles para quem "a vida e ouniverso são objetos permanentes de estudo e contemplação". ()B. Outras Doutrinas Liberais1. Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno.2. A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus.3. A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte.
  14. 14. Pag. 14 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com4. As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razãohumana.5. A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homenspossuem um aspecto divino.6. 0 conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico.7. Os itens "4, "5" e "6" do parágrafo anterior sofreram influência do idealismoabsoluto de Hegel e Letze. Os demais itens justificam plenamente alguns dos títulos doliberalismo: modernismo e racionalismo.8. Como vimos, para o liberalismo Deus está presente em todas as fases da vida e nãoapenas em alguns eventos espetaculares. Assim, o método de Deus é o caminho damudança progressiva e da lei natural, e o nascimento virginal de Cristo não condiz coma realidade, pois Deus está presente em todos os nascimentos.9. Defendendo assim a imanência de Deus, o liberalismo podia aceitar a teoria daevolução, não negando a Deus, todavia, um ato criador, ou seja: Ele teria criado aprimeira célula viva, da qual vieram todos os seres viventes, inclusive o homem.10. O liberalismo reage contra um evangelho individualista, capaz de salvar o homemdo inferno e não da sociedade corrompida, e insiste em que o reino de Deus não éalém-túmulo e nem milênio, mas sim a sociedade ideal edificada pelo homem com oauxílio de Deus.11. Na busca duma "sociedade ideal" muitos teólogos se têm inclinado para umaespécie de socialismo cristão, envolvendo-se em movimentos subversivos poracreditarem que as doutrinas de Marx e Engels, se destituídas de seu ateísmo,estariam em melhores condições de atender aos reclamos dos povos pela justiça socialde que a própria mensagem evangélica.C. Sua atuação no Brasil1. A entrada do liberalismo no Brasil remonta ao segundo decênio deste século,quando a Imprensa Metodista editou Pontos Principais da Fé Cristã, livro que nega adoutrina da expiação. Depois surgiram inúmeras obras modernistas, inclusive ReligiãoCristã, traduzida do italiano pelos reverendos, Dr. Alexandre Orechia e MatatiasGomes dos Santos.2. As primeiras vítimas da teologia liberal em nossa pátria, segundo o falecidoreverendo Raphael Camacho, apareceram por volta de 1930, na Faculdade Evangélicade Teologia, no Rio de Janeiro. Muitos livros adotados nesse estabelecimento deensino religioso eram modernistas, como também o eram quase todos os seusprofessores.
  15. 15. Pag. 15 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com3. Segundo Raphael Camacho, o rev. Othoniel Motta, professor de Geografia Bíblica,costumava dizer em classe: "Eu sou o pai dos hereges... Eu oro pelos mortos." O rev.Epaminondas do Amaral, professor de exegese do Velho Testa mento, negava tudo oque há de sobrenatural na Bíblia. O rev. Bertolaze Stela escreveu no "Estandarte", em11/9/41, que todos os manuscritos da Bíblia foram contaminados por grandes modificações, e que não há esperança de se encontrar entre eles um texto que estejapróximo dos originais. Em "O Estandarte" de 15/9/53, este mesmo ministro escreveu:"Somente as palavras de Jesus constituem os ensinos e a religião de Cristo... a Bíbliacontém a palavra de Deus." e fez suas as palavras do rev. Miguel Rizzo Jr., em A NossaMística: "Para uns a suprema autoridade está na Igreja (Católica Romana); para outros,nos espíritos do além (espíritas); para outros nas Escrituras (evangélicos), mas para nósestá em Cristo." Eis aqui a heresia chamada cristicismo, que desassocia Cristo da Bíbliae afirma que somente as palavras ditas por Cristo é que são inspiradas.4. Em 1938 os modernistas se manifestaram mais publicamente, de modo especial noseio da Igreja Presbiteriana Independente, sendo então resistidos pelosfundamentalistas, liderados pelo rev. Camacho. Travou-se acirrada luta doutrinária,luta que levou o rev. Camacho a desligar-se dessa Igreja e a organizar, em 11 defevereiro de 1940, a Igreja Presbiteriana Conservadora.5. Também o ex-padre Humberto Rohden, escritor, conferencista e autor de umatradução do Novo Testamento em português, no seu livro Pelo Prestígio da Bíblia naEra Atômica, faz uma dura arremetida contra o evangelismo bíblico do Brasil e umaexposição das teorias modernistas do pastor batista norte-americano, Harry E. Fosdick.
  16. 16. Pag. 16 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 03: NOVO MODERNISMO9. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?Esta teologia é comumente conhecida por barthianismo, por ter como seu principalautor Karl Barth (1886-1968), considerado o maior teólogo do século XX.Este sistema possui ainda vários outros nomes: teologia dogmática, teologia da crise,neo-ortodoxia, teologia transcendental, modernismo-negativista e teologia de Lund.Alguns dados sobre Karl BarthKarl Barth nasceu na Suíça, lecionou teologia nas universidades de Gottingen, Muniquee Bonn, mas foi demitido deste último posto pelo governo hitlerista, em 1935. E, porresistir às tentativas do ditador de nazificar a Igreja Reformada da Alemanha, teve seusdiplomas de teologia anulados.Com a derrota do nazi-fascismo, recupera sua cátedra em Bonn, de onde mais tarde setransfere para Basiléia. Aposentou-se em 1961 e iniciou a elaboração da sua teologia.O pragmatismo e a teologia dialética de Karl BarthBarth abandonou o terreno firme da lógica e ingressou no mundo fabuloso dopragmatismo, doutrina que considera a ação superior ao pensamento e aceita o valorprático como critério da verdade.Hegel passou a aceitar que a presença da verdade está na verdade na síntese, quecorresponde ao grau intermediário entre a tese e a antítese.Barth, ao aplicar esta fórmula ao cristianismo histórico, considerou-o como a tese, omodernismo como a antítese e o novo modernismo como a síntese.Dentro de um esquema teológico dialético coexistem pacificamente doutrinasantagônicas: o certo e o errado, a verdade e a mentira.Daí a teologia de Barth ser também denominada de teologia dialética ou da crise.Violando dessa maneira as regras pelas quais se estabelece se uma tese é verdadeiraou não, o barthianismo acabou negando o caráter absoluto da verdade.A teologia de Karl Barth manteve alguns pontos de vista ortodoxosNão se pode deixar de reconhecer que, sob vários aspectos, a teologia de Barth foi umretorno, embora aparentemente, às várias doutrinas bíblicas desprezadas peloliberalismo, como a Trindade, o nascimento virginal de Cristo, as duas naturezas de
  17. 17. Pag. 17 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comCristo unidas numa só pessoa, conforme aceita pelo Concilio de Calcedônia (ano 451) epela Reforma Protestante, a salvação somente pela graça e a justificação unicamentepela fé.Em virtude destes pontos de vista, foi o barthianismo chamado também deneomodernismo e neo-ortodoxia.A respeito da pessoa de Jesus, é interessante ler o que Barth escreveu em1960, em um tempo de revisão da sua própria teologia: “Nesses anos tive que aprender que a doutrina cristã precisa ser exclusivamente e de forma conseqüente, em todos os seus enunciados, direta ou indiretamente, doutrina de Jesus Cristo como da palavra viva de Deus dita a nós, se é que ela deve fazer jus ao nome que tem bem como edificar a igreja cristã no mundo tal qual ela pretende ser edificada como igreja cristã. Olhando em retrospecto para os meus estágios anteriores, fico me perguntando como foi possível que não aprendi nem disse isso já muito antes. Quão lenta é a pessoa humana, justamente quando se trata das coisas mais importantes!” Portanto, observamos que na teologia de Karl Barth, procurou-se preservar a cristologia.ALGUMAS FALHAS DA TEOLOGIA DE BARTH  Mas a teologia de Barth possui falhas seríssimas: a Bíblia não é a Palavra de Deus, apenas a contém. Por isso pode ela ser criticada à vontade.  Estabelece um falso contraste entre a autoridade espiritual da Igreja, por ele aceita, e a sua autoridade legal, que rejeita. Assim, deixou a porta aberta à discussão acerca de doutrinas.  Segundo esta teologia transcendental, o mundo está cheio de contradições, inclusive na religião. Por isso os seguidores desta escola admitem sistemas que se excluem mutuamente.  Um dos seus líderes declarou: Em face do modernismo e da fé histórica, não se deve dizer um ou outro, mas um e outro. Isto eqüivale a aceitar a doutrina de que Jesus é o único mediador entre Deus e o homem e ao mesmo tempo admitir a mediação de Maria. Um transcendentalista, portanto, assemelha-se a um balconista que vende exatamente o produto que o freguês deseja, seja este freguês cristão histórico ou liberal.
  18. 18. Pag. 18 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comO desabafo de Francis A. SchaefferFrancis A. Schaeffer narra o desabafo de um ateu sueco, Dr. Hedeinus, professor deFilosofia da Universidade de Uppsala, que chamou os teólogos transcendentalistas de"ateus, disfarçados em bispos e pastores: “Se tal é o cristianismo, não o quero; os seus conceitos não são nem claramente definidos, nem mesmo definíveis; a posição dos seus defensores é mais vacilante do que a minha."10. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo?Emil Brunner (1889-1966). Teólogo suíço; exerceu grande influência no protestantismodos Estados Unidos, país onde proferiu diversas preleções. Suas obras foramtraduzidas para o inglês antes mesmo que as de Barth.Sintese do pensamento teológico de Brunner  A teologia de Brunner, também conhecida por "dialética" e "da crise", descreve a busca da verdade por meio de debates entre as posições contrárias.  Brunner acha que há alguma revelação fora da Bíblia, embora não acredite que a teologia natural inclua a teologia revelada, discordando nesse ponto do liberalismo de Barth.  Entende que a Bíblia é o único critério pelo qual podemos julgar a verdade e a suficiência do conhecimento acerca de Deus, que se encontra em outros lugares.  Diferentemente de Barth, Brunner admite que se pode achar verdade no filósofo, no ateu ou no adepto de seitas não cristãs, assim estabelecendo diálogo com eles, mas reconhecendo que eles não podem possuir suficiente e completo conhecimento verdadeiro de Deus.A teologia Brunniana e Jesus  Na teologia brunniana, o dogma de Jesus sem pecado é ato de fé e não base de fé. "Cremos que ele é sem pecado por crermos nele. Não é que cremos nele por causa de Ele ser sem pecado."  Brunner nega, além de outros, o nascimento virginal de Cristo, os 40 dias pós- ressurreição, e a ascensão física do Senhor.  As questões acima apresentam implicações seríssimas: ao admitir que Jesus Cristo pode ser conhecido historicamente, Brunner faz perder tudo.  Na teologia de Brunner, A relação do homem com Deus não pode ser expressa em termos racionais e lógicos, mas apenas em termos de mitos;  Qualquer tentativa para provar a revelação está errada;
  19. 19. Pag. 19 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com  Acerca do pecado, nega a herança de culpa de Adão, aceitando apenas a queda individual;  O cristão deve ser um eterno revolucionário, não se conformando com as reformas sociais, sempre imperfeitas;  O amor de Cristo revela o amor humano, que é possibilidade impossível;  A queda não modificou a natureza e estrutura essenciais do homem, assim como a cegueira não retira o olho do corpo;  No momento em que a pessoa se transcende, surge a memória da perfeição original. Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS11. A TEOLOGIA DO MITOA teologia do mito tem como um de seus principais criadores o teólogo alemão RudolfBultmann (1884-1976), que em 1941, numa conferência intitulada "O NovoTestamento e a Mitologia", disse que esta parte das Escrituras está cheia de mitos àluz dos quais se deveriam examinar a pessoa de Cristo e o comportamento da igrejaapostólica.A visão do Buultimann dos escritores do NTPara Bultmann, todos os escritores do Novo Testamento pensavam e escreviam tendoem vista uma visão global do mundo antigo, no qual havia três divisões: a superior ouinvisível, habitada pelos anjos, o mundo sobrenatural de Deus; o mundo inferior,escuro, habitado pelos demônios; e o nosso mundo, que fica entre os outros dois.Segue-se, portanto, que a revelação vem em símbolos que devem ser decodificados.Para usar o termo de Bultmann, devem ser desmitologizados.Numa de suas conferências, afirmou Bultmann que hoje "não se pode utilizar a luzelétrica e os aparelhos de rádio, apelar para medicamentos e clínicas modernasquando se está enfermo, e ao mesmo tempo crer nos milagres do Novo Testamento.“De acordo com essa visão, pode-se crer em Jesus Cristo e aceitá-lo como Deus eSalvador sem a necessidade de acreditar no nascimento virginal, na encarnação, notúmulo vazio, na ressurreição e na segunda vinda. Todos estes elementos seriamderivados da mitologia judaica e do gnosticismo helenístico.Segundo Bultmann, a desmitificação dos evangelhos não significa a eliminação domito, como procurou fazer a teologia liberal, mas a sua interpretação através de uma
  20. 20. Pag. 20 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comhermenêutica particular, sendo eles necessários por oferecerem ao homem condiçõesde perceber o enigmatismo do mundo.Assim, através da sua reinterpretação, o mito seria utilizado como instrumento auxiliarna compreensão da existência humana.O que é a desmitologização que Bultman propõe?Em seu questionamento sobre as escrituras, há a necessidade de extrair todo oelemento mitológico, que segundo ele, encobre o entendimento das sagradasescrituras para o homem moderno.Vê na demitologização, um instrumental importante para a atualização damensagem bíblica tornado-a compatível com o mundo tecnológico e cientificoque vivemos hoje.O homem/mulher moderno, embora seja um ser que viva em uma sociedade demuitos símbolos e sinais, precisa decodificar o significado desta vasta simbologia.Carece de um tradutor ,ou seja, necessita de uma ferramenta que atualize alinguagem mitológica das Sagradas Escrituras, vigentes à época, para o código delinguagem e a cultura dos nossos dias.Segundo Bultiman, o uso do processo da demitologização das Escrituras elucida,esclarece e traz nitidez ao leitor, acerca do que realmente a mensagem bíblica quernos dizer hoje em dia.Pois para o homem/mulher secularizado os elementos mitológicos das escrituras,fruto de uma cultura passada há quase dois mil e quinhentos anos não fazemnenhum sentido. Devem ser extraídos, sem a perda do conteúdo original, poissem uma decodificação e uma atualização do sentido, a mensagem não nos diz oporquê, ou pior ainda, pode levar a uma interpretação dúbia e incompreensível.A Escritura não explica a si mesma, conforme ensina a hermenêutica da ReformaProtestante, mas está sujeita aos métodos modernos da ciência autônoma e àspressuposições filosóficas;EXAME CRÍTICO DA TEOLOGIA DE BULTIMAN Bultmann rejeita, por considerá-los mitológicos: 1)Os conceitos neotestamentários de que o reino escatológico está prestes a irromper na história; 2)de que o mundo atual está governado por elementos demoníacos
  21. 21. Pag. 21 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com 3) e de que o sobrenatural intervém no mundo, manifestando-se através de milagres. Na sua reinterpretação do evangelho, elimina o sentido original dos termos encontrados no NT e os recria adotando uma nova significação. Ex. Segundo a visão tradicional, o problema do homem é o seu pecado, segundo o Evangelho, e a solução é o sacrifício de Cristo. Para Bultmann, tal problema é a sua finitude. O uso da filosofia contemporânea para formular a fé cristã pode distorcer o ensino cristão, introduzindo idéias estranhas ao Cristianismo através da reinterpretação da terminologia tradicional, e acomodar a fé cristã à filosofia tradicional; Ao ensinar que a teologia existencialista é antropocêntrica, concorda com Fenerbach de que a teologia tornou-se antropologia; Depois do programa de desmificação dos evangelhos, o Jesus que sobra é tão débil que jamais chamaria a atenção de alguém, e muito menos motivaria a sua lealdade. Um Jesus assim insignificante tem sido o tema de peças teatrais profanas e irreverentes, como a "Jesus Cristo Superstar", na qual Judas Iscariotes é o verdadeiro herói e Cristo não passa de uma figura covarde, que duvida a todo momento da sua missão; Bultmann ignora por completo o papel do Antigo Testamento na formação do Novo, ao considerar este eivado de mitos e influenciado pelo gnosticismo ou helenismo; A "Sola fide" de Bultmann nada tem de semelhante à de Lutero, que se baseava no testemunho bíblico.12. A teologia da esperançaEnquanto o Barthianismo era antiescatológico, a teologia da esperança procura levar asério a história e o futuro, reagindo assim ao existencialismo de Barth e Bultmann, queenfatiza o aqui e o agora.Principais representantes desta teologiaTrês líderes destacados do novo movimento são os teólogos alemães JürgenMoltmann (Reformado), Wolfhart Pannenberg (Luterano), e Johannes Metz (CatólicoRomano).A teologia da esperança tem sido articulada nos Estados Unidos por dois teólogosluteranos, Carl Braaten e Robert Jenson, cujas obras muita coisa têm feito parapopularizar o novo movimento.
  22. 22. Pag. 22 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comNo Brasil, Rubem A. Alves, com umas poucas revisões dele mesmo, muita coisa fezpara converter a teologia da esperança em programa de ação.Às vezes essa teologia era chamada de futurologia...Porque? Por ser um modo de encarar a teologia e as preocupações teológicas daperspectiva do futuro e não do passado ou do presente.O passado e o presente somente têm valor com referência ao futuro. A realidadeainda não é; está orientada para o futuro.A questão da existência de Deus pode ser respondida somente no futuro, pois Deusestá sujeito ao tempo enquanto este se esforça em direção ao futuro.A teologia da esperança é caracterizada...  Como uma reação ao desespero existencialista,  Pela fé no futuro e pelo otimismo,  A esperança baseia-se na promessa divina e o cristão suporta as contradições do presente porque vive na expectativa do futuro.  Não enxergar uma solução para seus dilemas presentes. Assim, a teologia da esperança acha que não podemos encontrar respostas para as nossas questões atuais na sociedade de hoje.  Abrange mais do que geralmente se reconhece tradicionalmente como sendo teologia, falando a rigor. Sua orientação secular permite que seja combinada com qualquer número de matérias, inclusive a política e a biologia.  A teologia da esperança vê um esboço para sua exposição nas temáticas escatológicas. Ela entende a realidade a partir de uma perspectiva escatológica. O movimento também é chamado de teologia futurista.  A teologia da esperança reage contra o subjetismo da neo-ordoxia, visto que sua abrangência vai além do universo pessoal e interior de individuo. Esta teologia se dirige ao mundo como mundo.  A teologia da esperança foi a resposta do público a teorias como a que Deus está morto, idéia que foi criada na década de 60. Os teólogos futuristas deixaram para trás o sepulcro criado para Deus. O humanismo dos teólogos de Deus-está-morto veio a ser a sementeira em que a teologia da esperança deitaria raízes.
  23. 23. Pag. 23 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com13. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo. Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais em Bremen. Suas especialidades foram: História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal, pela Universidade de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University - EUA (no caráter de professor visitante). “Depois de Karl Barth, Jürgen Moltmann é considerado o mais conhecido e influente teólogo reformado do século XX” (LEITH, 1997, p.234).
  24. 24. Pag. 24 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS1. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja.Portanto, nas teologias sociais, analisamos as seguintes questões: Qual é a realidade social na qual está inserida a igreja? Qual o papel da igreja junto aos problemas encontrados na sociedade? Como a Igreja pode ser um instrumento de transformação social?2. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais? Alguns teólogos, de perfil, fundamentalista, rejeitam por completo tal aproximação, Na prática, ocorre o contrário, pois qualquer teologia é feita num ambiente cultural e que a influência. Ao estabelecer um diálogo com as Ciências Sociais, o teólogo cristão terá, por sua vez, de renunciar sua posição cômoda de considerar sua religião um santuário protegido de críticas. Assim, “...as Ciências Sociais poderiam desempenhar um papel importante de autocompreensão crítica dentro da Teologia”, desde que tenhamos a consciência de que nem tudo pode ser explicado sociologicamente.3. Grandes nomes do evangelho social O evangelho social teve como o seu maior intérprete o pastor Batista Walter Rauschembusch (1861-1918), professor no seminário batista de Rochester, de 1897 até o seu falecimento. Um outro grande nome a lembrar é o do Pastor Martin Luther King, que lutou nos Estados contra o preconceito racial e a injustiça social contra os negros. Ele foi o responsável por disseminar a prática do protesto não violento, semelhantemente a Gandi. o Há uma frase de Martin Luter King: “Eu não me preocupo tanto com as palavras dos desonestos e as atitudes dos corruptos. Eu me preocupo muito mais, quando os bons fazem silêncio.”
  25. 25. Pag. 25 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com4. O evangelho social na América do sul Na América do Sul, esse movimento pode também ser identificado como a "teologia da libertação", com o propósito comum de estabelecer-se a "justiça social", até mesmo por meio de uma revolução. O sucesso da teologia da libertação na América do sul deve-se aos seguintes fatores: o Grandes índices de desemprego. o Diferenças sociais alarmantes. o Pobreza. o Diferenças Extremas entre classes sociais. o A ausência de uma teologia relevante ao contexto da América latina, que nascesse no berço dos países subdesenvolvidos.5. Em que momento o evangelho social ganha destaque A teologia do evangelho social alcançou maior sucesso nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial, pelo fato de se atribuir às injustiças sociais as causas da grande conflagração internacional que ceifou milhões de vidas. Precisamos entender que no evangelho social, a Igreja é o instrumento de libertação para uma sociedade que está inserida numa estrutura social injusta e corrupta.6. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff No Brasil, Leonardo Boff, que é um dos principais defensores da TDL, estabelece três passos básicos para a sua TDL: o Ver: Aqui observamos os problemas sociais existentes e nos tornamos conscientes de sua existência. o Pensar: Neste passo, teorizamos teologicamente as questões sociais que serão abordadas pela Igreja na sociedade. o Agir: este é o passo da práxis, da ação, onde os fiéis são convocados para promover mudanças e transformações nas estruturas sociais.7. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: Procurou levar a Igreja a empenhar-se em atividades mais amplas em favor dos menos favorecidos da sorte, Criticou os governos corruptos e os sistemas ideológicos injustos.
  26. 26. Pag. 26 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Foi uma resposta nova da ética cristã em uma nova situação histórica, pois, particularmente nos Estados Unidos, era grande o número de problemas decorrentes do rápido crescimento industrial. A consciência cristã, assim desafiada, converteu-se numa "consciência social".8. Nascimento da TDL no Brasil A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento: o O Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; o A Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; o A teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos EUA.9. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil Há uma série de eventos que precederam o nascimento da Teologia da Libertação: o 1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o Evangelho Social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos Rubem Alves e Jaime Wright; o 1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da Esperança; o 1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular; o 1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência Sobre a Teologia do Mundo; o O marco do nascedouro da Teologia da Libertação no Brasil, está na publicação de uma obra de Rubem Alves, criticando a teologia metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica. o A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. o Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.
  27. 27. Pag. 27 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com10. Características da TDL O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). o Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. o O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis e conceitos teológicos estranhas a ela. o A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. o Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino- americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa. Compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos. O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação. A teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40). Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. o A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. o Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação. A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera
  28. 28. Pag. 28 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. o Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. o Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão. A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.11. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? A grande discussão com os teólogos sociais gira em torno do que o homem mais precisa: Alimento para o corpo ou para a alma? Eles acham há uma falta mais da alimentação do corpo do que da alma, ou acha que as pessoas só estão sendo alimentadas bem espiritualmente. o Os teólogos sociais ensinaram que não adianta a Igreja alimentar espiritualmente sem dar o pão. O problema é que muitos preocuparam-se mais com o pão. As teologias sociais deram muita ênfase aos aspectos materialistas da existência humana. Sabemos que o materialismo sempre teve a tendência de favorecer as bases do ateísmo filosófico, e por isso foi rejeitado por muitas pessoas.
  29. 29. Pag. 29 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comParte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS(SUGESTÃO DE LEITURA: Leia este texto de forma crítica, detectando quais são ascompatibilidades e incompatibilidades entre as idéias expostas pelo autor e a nossavisão evangélica). Texto de Alexandre Marques CabralNão poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente antiquada emseus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã duranteséculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel deAristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticashistóricas que fatalmente orientavam a vida social do homem.É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados àsnuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho deHipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos?Certamente, não.O instrumental filosófico utilizado pela teologia cristãA teologia cristã configurou-se de forma retrógrada por muito tempo, devido aoinstrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Talinstrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formularconceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja,desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo.Conseqüências do uso deste instrumental filosófico na teologiaA conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidoscomo realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente,também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., comorealidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e faseshistóricas da humanidade.A reação da modernidade ao método tradicional adotado pela teologia cristã.Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento damodernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedraangular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade.Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencialdo homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o
  30. 30. Pag. 30 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.compensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se porisso mais imanentista. Isto influenciou fortemente a teologia.O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a serpensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se históricae culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história emsuas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio dahumanidade.Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém,valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além devalorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando,assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico noentendimento da relação homem – DEUS.O nascimento da teologia da libertação e seu contexto histórico.A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamentoocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e dadiversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é umateologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário deseus discursos.A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discursoteológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, aomesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta semanifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo.Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações queviabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversascircunstâncias sob as quais um povo está submetido.“A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãosque a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir paratornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Nestesentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas dahistória.Como surgiu o termo libertaçãoO termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica epolítica sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 doúltimo século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram alibertação como paradigma de todo fazer teológico.
  31. 31. Pag. 31 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comVejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia dalibertação: “O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...) O ambiente econômico e social está marcado pela miséria e pela marginalização da maior parte da população. Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de privilegiados. (...) No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e dos Estados Unidos. Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25- 26).O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador doconceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para aliberdade” (BOFF, 1980, p. 87).Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-seautonomamente.A America Latina sempre foi influenciada por ideologias externasO processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas aela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseramaos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc.Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade dacultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversasopressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norteem suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte.Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deveser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é aconseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheresempobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processoeconômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
  32. 32. Pag. 32 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comA teologia da libertação discursa sobre Deus a partir da ótica da realidade dosexcluídos.Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partirda ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos.O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olharpara o excluído.Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluídoidentifica onde há necessidade de libertação.Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todomovimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nosprocessos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológicaanunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação detoda opressão possível, na sociedade e no cosmos.Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, comopressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmentedas teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo aexperiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo osofrimento humano historicamente situado.Compreendendo o fenômeno da opressão e da exclusãoPara que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda osfenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através deuma mediação sócio – analítica, “Libertação é libertação do oprimido.Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condiçõesreais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996,p. 40).O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e daexclusão pela teologia da libertação, é o método histórico- dialético.A influência do marxismo na teologia da libertaçãoO marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pelateologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendofim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em simesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentidoúltimo da teologia não é Marx, mas Deus.Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a BíbliaSagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e
  33. 33. Pag. 33 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comsua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo eseu povo. Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, umaimbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada.Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia dalibertação.Na teologia da libertação a religião é vista como um fator de mobilizaçãoCom a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser umfator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102).A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte delibertação e de esperança para o homem.A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo sociale político; também não é mais fonte de discursos etéreos.A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação deum povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos.Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ deDeus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador doshumilhados da terra.Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda aluta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pelajustiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eusou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2).Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo daopressão, da servidão.O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Estecéu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que semanifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol dadignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justaentre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade.A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto oshomens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão,sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutarpela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nasrelações justas e fraternas entre todos os seres humanos.
  34. 34. Pag. 34 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino1. Introdução Muitos de nós, não conhecem o pensamento teológico social de Calvino, pelo fato dos modernos manuais de teologia não fazerem referencia a tudo o que reformador produziu nesta área especifica. Faremos uma síntese de tudo que Calvino produziu nesta área. A Reforma Protestante ocorrida no século XVI não foi somente um movimento espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais. Calvino, bem como os outros reformadores, deu atenção aos problemas sociais de sua época. Talvez pelo fato de ser da segunda geração de reformadores, Calvino podia ter uma visão mais ampla e amadurecida sobre o assunto. o Ele esforçou-se para entender qual deveria ser o papel da Igreja cristã na reconstrução de uma sociedade justa que refletisse a vontade de Deus em termos de justiça social. Essa questão era extremamente aguda para os reformadores, particularmente pelo fato de viverem numa época e numa situação de grandes problemas sociais. o Não é de se admirar que em suas Institutas da Religião Cristã, bem como em seus comentários Calvino freqüentemente trata de questões relacionadas com a responsabilidade social da Igreja e do Estado. Duas considerações importantes. o Primeiro. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da sua teologia. Calvino era acima de tudo um teólogo, um homem da Igreja. Ele não era um político, nem ativista social, mas essencialmente um pastor e um estudiosos das Escrituras. Seu pensamento social desenvolveu-se dentro da estrutura de seus pressupostos teológicos e bíblicos. Calvino construiu a sua teologia social a partir da sua convicção de que Cristo é Senhor de todos os aspectos da vida humana, e de que a Palavra de Deus deve regular todas as áreas da vida. o A segunda consideração. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da época em que ele viveu. Embora sua teologia social brotasse de princípios bíblicos válidos e atuais para todas as épocas, Calvino só poderia dar-lhes expressão dentro das circunstâncias históricas em que viveu e labutou. Naquela época, a Igreja Católica Romana era o grande poder econômico e político. Prevalecia naquela época o sistema econômico e social medieval e a monarquia como sistema de governo.
  35. 35. Pag. 35 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com2. Genebra na Época de Calvino A cidade de Genebra foi o local onde Calvino passou a maior parte de sua vida, pregando, pastoreando e ensinando. Ali passou momentos de grande popularidade e também de rejeição. Foi ali que sua teologia social amadureceu, à medida em que enfrentava os males sociais que oprimiam Genebra bem como as demais cidades da Europa medieval.3. O Governo de Genebra Genebra, antes da Reforma e da chegada de Calvino, era um bispado, uma importante cidade. Seu comando estava nas mãos de três autoridades: o O bispo, que era não somente o chefe espiritual da Igreja, o "príncipe de Genebra", como teoricamente, era o soberano da cidade, com poderes para cunhar moedas, comandar a cidade em tempo de guerra, julgar apelações, e perdoar crimes. o Depois vinha o magistrado, incumbido da defesa da cidade, da guarda, e da execução de prisioneiros. o E por fim, o Conselho de Genebra, composto de Conselheiros de entre os moradores da cidade, que julgavam as questões criminais concernentes aos leigos (os pecados dos sacerdotes era competência do bispo), cuidavam do abastecimento da cidade, das finanças da cidade, e mantinham a boa ordem durante a noite através da polícia. Este era o sistema adotado pela maioria das cidades européias católicas. Quando Genebra adotou oficialmente a Reforma (1536), o bispo foi despojado do seu poder, e os Conselheiros assumiram suas funções. Durante o período de bispado em Genebra, a Igreja Católica representada pelo bispo estivera acima do Estado. Com a expulsão do bispo, o Conselho assumiu suas funções, e agora o Estado estava acima da Igreja (agora Reformada). A Igreja permanecia ligada ao Estado, e estava debaixo do poder do Conselho de Genebra (cujos Conselheiros agora eram protestantes), que tinha em suas mãos o poder de disciplinar, designar os pastores, bem como a função de sustentá-los financeiramente.4. A Situação Social em Genebra Graves problemas sociais afligiam Genebra naquela época (bem como a Europa em geral). o Havia pobreza extrema, agravada por impostos pesados.
  36. 36. Pag. 36 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com o Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de trabalho. o Campeava o analfabetismo, e a ignorância; havia aguda falta de assistência social por parte do Estado; o Prevalecia a embriagues e a prostituição. o Destacava-se o vício do jogo de cartas, que levava o pouco dinheiro do povo. o As trevas espirituais características da Idade Média refletiam-se nas condições morais e sociais das massas. Essa era a situação que prevalecia em Genebra antes da chegada da Reforma espiritual, a qual deu lugar, em seguida, a reformas sociais, econômicas e políticas, mesmo antes de Calvino chegar à Genebra.5. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra Guilherme Farel foi o grande líder destas mudanças em Genebra. Sob sua influência, o Conselho da cidade cria o Hospital Geral no antigo Convento de Santa Clara, para dar atendimento médico aos pobres. O Conselho também passou a regulamentar a vida dos seus cidadãos: o Proíbem-se as danças de ruas, a polícia é mobilizada para manter a ordem nas ruas, são promulgadas leis que regulamentam o uso dos bares, que proíbem jogo de cartas, blasfemar o nome de Deus, e servir bebidas durante o horário do sermão. o Torna-se proibido vender pão e vinho a preços acima dos estipulados; são proibidos todos os dias santos, à exceção do domingo. Passa a ser obrigatório a todos os cidadãos de Genebra irem ouvir o sermão de domingo, sob pena de pesadas multas. E a instrução pública se torna obrigatória, pela primeira vez na Europa.6. As reações as mudanças trazidas por Farel Evidentemente, nem todos em Genebra estavam satisfeitos com as pesadas proibições impostas pelos Conselheiros, que por sua vez, seguiam a Farel. As leis, por demais severas, que excedem os limites do razoável, provocam insatisfação, mesmo entre crentes verdadeiros.7. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra Foi a esta altura que Calvino chegou a Genebra. Ele estava apenas de passagem pela cidade. Seus planos eram de prosseguir em frente e achar um local tranqüilo
  37. 37. Pag. 37 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com onde pudesse estudar e escrever. Tinha na época 27 anos de idade, e havia acabado de publicar a primeira edição das Institutas. Quando Farel soube que Calvino estava na cidade foi visitá-lo, e instou com o jovem teólogo a que ficasse ali em Genebra, para ajudá-lo no trabalho de reforma. É conhecida a história de como Calvino, após ter apresentado toda sorte de desculpas, finalmente rendeu-se, aterrorizado pela maldição que o velho reformador invocou sobre ele, em caso de recusa. Assim, ele ficou, para ajudar Farel a solidificar as reformas eclesiásticas e sociais em Genebra. Em breve, Genebra iria tornar-se o centro espiritual e social da Reforma protestante na Europa. Foi ali em Genebra, trabalhando como pregador, mestre e pastor na Igreja de Genebra, e lidando com as questões sociais mencionadas acima, que Calvino desenvolveu sua teologia social. No que se segue, procuraremos sintetizar seus pontos principais, concentrando-nos no que Calvino ensinou como sendo a responsabilidade social da Igreja de Cristo.8. O Ensino de CalvinoA causa dos males sociais Fundamental para entendermos o pensamento de Calvino nesta área é termos em mente que para ele as causas da pobreza, miséria e a opressão, bem como da perversão e da corrupção da sociedade humana, estavam enraizadas na natureza decaída do homem, que por sua vez, remonta-se à Queda no Éden. Este princípio é crucial no entendimento de Calvino. Para ele, o pecado do homem havia trazido toda sorte de transtorno à ordem social: Pela queda do homem foi demolida toda ordem social, e em Adão tudo foi amaldiçoado por Deus, como está escrito em Romanos 8.20-23, onde Paulo afirma que a criação de Deus está em cativeiro imposto pelo pecado do homem. A queda do homem introduziu perturbações profundas na sociedade humana, incluindo distúrbios na vida conjugal e familiar. Para Calvino, o caos econômico é causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de nos suprir as necessidades básicas, conforme Cristo nos promete em Mateus 6. Calvino denuncia neste contexto, pecados sociais como: Estocagem de alimentos (trigo), monopólios, e a especulação financeira, como tendo origem no egoísmo e na avareza do homem. Ele denunciava aqueles que preferiam deixar deteriorar-se o trigo em seus celeiros, para que ali fosse devorado por bichos, e apodrecesse, ao invés de ser vendido, quando a necessidade do povo se fazia sentir. Por identificar biblicamente a raiz dos transtornos sociais, Calvino estava em posição de elaborar uma solução que atingisse o problema em seus fundamentos.
  38. 38. Pag. 38 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.comO Senhorio de Cristo Um segundo princípio que norteava a teologia social de Calvino era que o Cristo vivo e exaltado é Senhor de todo o universo. Os milagres que Ele exerceu sobre a ordem natural (acalmar a tempestade, por exemplo; ou tirar uma moeda da boca do peixe) demonstram esta realidade, diz Calvino. Portanto, a obra de restauração realizada por Cristo não se limita apenas à nova vida dada ao indivíduo, mas abrange a restauração de todo o universo — o que inclui a ordem social e econômica. Desta forma, a atenção de Calvino como pastor e mestre, se estendeu para além das questões individuais e "espirituais". Se Cristo era o Senhor de toda a existência humana, era dever da Igreja dar atenção às questões sociais e políticas.A Restauração da Sociedade Para Calvino, a restauração inaugurada por Cristo ocorre inicialmente no seio da Igreja. É na Igreja que a ordem primitiva da sociedade, tal qual Deus havia estabelecido, tende a ser restaurada. Na Igreja, as diferenças exacerbadas entre as classes sociais, econômicas e raciais, bem como os preconceitos delas procedentes, desaparecem, pois Cristo de todos faz um único povo (Gl 3.28; Ef 2.14). Calvino não concebia a total abolição das classes sociais. Ele concebia a coexistência harmônica entre a Igreja e instituições como o Estado, a sociedade e a família, com as suas respectivas estruturas e funcionamento. É na Igreja, porém, que as relações sociais de trabalho sofrem profundas alterações, ensina o reformador. Os patrões continuam patrões, mas aprendem a exercer sua autoridade sem opressão, ao passo que os empregados (que continuam empregados) aprendem a serem subordinados sem recriminação. Na Igreja, diz Calvino, Jesus Cristo estabelece entre os cristãos a justa redistribuição dos bens destinados a todos. Isto se dava através da atividade diaconal, trazendo alívio para as necessidades dos pobres e oprimidos, com recursos vindos dos ricos e abastados. Quando Calvino falava em restauração social, ele tinha em mente uma sociedade civil governada por cristãos reformados, que aplicassem os princípios bíblicos às questões sociais, políticas e econômicas. Ou seja, um Estado que fosse orientado pela Igreja no exercício de suas funções.Para Calvino a reforma social não é perfeita, pois os efeitos do pecado não sãotodo eliminados. É também importante notar que para Calvino a reforma da sociedade não é completa nem perfeita, visto que os efeitos do pecado não são de todo eliminados na presente época. É uma restauração parcial, portanto. Ela não
  39. 39. Pag. 39 - Curso de Teologia Contemporânea. Site: www.josiasmoura.wordpress.com consegue estabelecer plenamente a justiça no mundo presente. Ao mesmo tempo, ela não abole determinados aspectos da ordem social: permanece a hierarquia determinada por Deus entre o homem e a mulher, o patrão e o empregado, os pais e seus filhos.Quando ocorrerá então a completa reforma da sociedade? A plena abolição dos distúrbios agora presentes da ordem social (as injustiças, a opressão, a corrupção, por exemplo) só se efetuará plenamente no Reino de Deus, no fim dos tempos, para o qual marcha toda a história dos homens e do universo. Sua vinda será precedida por convulsões cósmicas. Então, Jesus Cristo regressará em glória, e o príncipe deste mundo será aniquilado. Assim, será então estabelecido o novo céu e a nova terra, onde habitam plenamente a justiça (2 Pe 3.13; cf. Is 65.17; 66.22; Ap 21.1). Portanto, para Calvino, a Igreja é uma antecipação do reino de justiça a ser introduzido por Cristo em sua vinda. Como tal, ela funciona no presente como uma sociedade provisória, governada pelas leis de Cristo. Embora já refletindo estes ideais, a Igreja ainda não o faz de forma perfeita, o que ocorrerá apenas no fim dos tempos.9. A Responsabilidade Social da Igreja Quais as responsabilidades da Igreja nesta restauração provisória da sociedade? Podemos resumir o ensino de Calvino em três aspectos fundamentais. Segundo ele, a Igreja tinha um ministério didático, um político, e um social.Ministério Didático Esse ministério da Igreja era para ser exercido através dos seus pastores e mestres. Consistia na instrução pública e particular, através de sermões e orientação individual, quanto ao ensino bíblico sobre a administração dos bens outorgados por Deus ao Estado e ao indivíduo. Em outras palavras, Mordomia Cristã.A ênfase do ministério didático: a questão do trabalho e do descanso. Tomemos como exemplo a questão do trabalho e descanso. De acordo com Calvino, a Igreja deveria através do ministério regular de seus pastores, instruir seus membros no ensino das Escrituras sobre o assunto. Em suas Institutas Calvino escreveu o que possivelmente foi o seu ensino em Genebra sobre o trabalho: só Deus alimenta o homem — dele vem as forças e as condições para que o homem trabalhe, e com seu suor, compre seu pão.

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