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Das charleswatson

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Entrevista com Charles Watson para a revista DAS Artes, 2009

Entrevista com Charles Watson para a revista DAS Artes, 2009


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  • 1. ENTREVISTA Foto: Ricardo Degani CHARLES POR L IEGE GONZ A L E Z C “Uma coisa é harles Watson é professor, mas “provocador” definiria melhor seu papel. Desde 1979, mi- nistra um curso sobre processo criativo, que é oferecido regularmente na Escola estar cheio de de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, e com o qual viaja o Brasil e o emoção pra fazer uma poesia, mundo. De acordo com o depoimento de ex-alunos, Charles tem o poder de “puxar do fundo da mente o potencial criativo adormecido” e “fazer ver arte em tudo o que enxergamos”. Por sua tutela, já pas- outra é ler e saram artistas como Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, entre muitos outros. acreditar que Em 1992, Charles criou o programa Dy- namic Encounters, que promove viagens a destinos nacionais e internacionais, ela sobrevive em verdadeiras imersões em arte e criação. Os destinos são os mais variados, desde meio a outras São Paulo e Nova Iorque até a Antártida. É formado em Literatura e Artes pela poesias.” Bath Academy of Art, na Inglaterra, e tem como hobby a construção de bar- cos a vela. Charles recebeu a equipe da Dasartes em sua casa/oficina, no Rio de Janeiro. Ele pode ser contatado pelo e-mail wats352@attglobal.net. 26 FEV 2009 27
  • 2. ENTREVISTA Quais os cursos que você ministra atualmente? Dou aula sobre a teoria da arte, mas mi- nha principal atuação é na área que eu chamo de “O Processo Criativo” – uma análise deste processo. São cursos inter- disciplinares, baseados em exemplos do mundo das artes, mas também da ciência, da física,... Para esta análise, tem algo de especialmente interessante na atividade da arte: ela não tem finalidade nenhuma. Tem consequências, mas consequências e finalidades não são a mesma coisa. Não são a mesma coisa? Não, a finalidade é um fruto almejado daquilo que fazemos, um objetivo; a con- sequência é um resultado que decorre das nossas ações, independentemente do nos- so desejo. É lógico que tem muito artista que só trabalha com a finalidade de fazer CHARLES WATSON E IRVING SANDLER FALAM SOBRE TRABALHO DE MORRIS LOUIS CHARLES WATSON ABORDA TRABALHO DE SEAN SCULLY CHARLES ENTREVISTA TONY CRAGG uma exposição, mas não podemos achar que só por se chamar de artista que o indivíduo está realmente criando. Aí po- demos fazer uma analogia com o processo evolutivo, não é? A evolução também não se concentra no resultado se ausenta do pro- cesso, do qual o resultado tanto depende. “A moldura é “Por que a senhora anda com um ferro na bolsa?” E ela respondeu: “Ai, eu tenho um É possível ensinar a criar? Quão importante é o talento nato? Você é de origem britânica. Você vê muita diferença cultural entre os brasileiros e tem finalidade. Vamos pegar o exemplo de um bioquímico problema terrível, toda vez que eu saio de Existe algo paradoxal sobre o talento. Ele britânicos em relação à criatividade? ??? A ideia que temos da realidade é de que que descobre uma mudança na proteína do vírus da AIDS. Esta descoberta resulta importante casa eu acho que deixei o ferro ligado...” (risos). Isto tem características de uma so- é uma espécie de facilidade para fazer as coisas, certo? E o que acontece quando Claro. O Brasil e a Grã-Bretanha, de certa maneira, metaforizam dois polos opostos, tudo o que aconteceu até aqui resultou na gente, então, nós devemos ser a finalida- em um remédio que beneficia 13 milhões de africanos. Isto é uma consequência, porque, sem este lução criativa, porque resolve o problema, faz isto de uma maneira inédita e ainda temos muita facilidade para fazer algo? Talvez não valorizamos... um excessivo em subjetividade e outro excessivo em objetividade. Se ligamos o de. Mas a evolução é um processo inteira- Mais que isto, fazemos sem pensar. E noticiário no Brasil, não se passam cinco humilde artifício, o bioquímico não está fazendo isso por cria uma surpresa, que, em geral, acom- mente arbitrário, que tem consequências, causa dos 13 milhões, está fazendo isso panha os momentos criativos. Mas chamo criatividade sem ref lexão não existe. minutos sem que se fale de emoção. Emo- e nós somos uma consequência e não porque adora o que faz. Neste sentido, isto de processo criativo pequeno porque Não basta só fazer; é necessário olhar ção aqui, emoção ali, tudo é emoção. É uma finalidade. Mas o darwinismo não coloca a arte é interessante porque é uma das poucas atividades onde se investe muita você não sabe ela não está modificando nenhuma lingua- gem, não está fazendo contribuição para duramente para o que foi feito, pensar se tem valor. Uma coisa é estar cheio de fantástico, mas não é suficiente, é aí que deveria entrar a disciplina, a objetividade. a “sobrevivência da espécie” como uma finalidade? energia a troco de... não se sabe, não é? E isso é muito raro. onde o mundo o pensamento humano. No meu curso, uso o conceito do pesquisador americano emoção pra fazer uma poesia, outra é ler e acreditar que ela sobrevive em meio a Com os ingleses é o contrário. A palavra mais comum nos diálogos entre ingleses é Não, nunca, nunca, nunca. Não vou entrar Como você define o processo criativo? Csikszentmihaly, de criatividade com C outras poesias. Se não sobrevive, não é embarassed (envergonhado). O inglês está em detalhes porque seria outra discussão, mas pegue a palavra finalidade: implica um Penso que existem dois tipos de processo criativo. Um deles é o pequenininho, que termina e onde a maiúsculo, que envolve três pré-requisi- tos: a pré-existência de uma linguagem arte, é terapia. Voltando à pergunta, não sei se é possível ensinar uma pessoa a constantemente constrangido, inclusive pelo próprio entusiasmo, então finge indi- futuro previsto, um fim a ser alcançado. Darwin nunca falou sobre isto, pelo contrá- todos temos o tempo todo. Vou ilustrar com um exemplo: uma senhora parou mi- arte começa.” simbólica sobre o tema em questão, que o criador modifique de alguma forma esta ser criativa, mas é certo que você pode conscientizá-la dos impedimentos que ferença, é pão-duro emocionalmente. Em uma das vezes em que levei um grupo para rio. A analogia com a falta de finalidade na nha enteada na saída da escola e pergun- linguagem e, por último, que outros peritos ela mesma impõe à sua criatividade. Não Nova Iorque, convidamos o artista inglês criação se dá porque os criadores, as pes- tou: “Minha filha, você sabe onde eu acho sejam capazes de reconhecer o valor desta estou dizendo que talento não é impor- Martin Potts para um jantar com os alunos. soas que realmente fazem uma diferença o meu neto João?”. A menina conhecia modificação. Tem que ter um contexto. Por tante, estou dizendo que só vem a ser No dia seguinte, perguntei o que ele tinha em suas áreas, normalmente são pessoas muitos Joãos, então a velhinha disse que exemplo, quando Einstein lançou a teoria importante quando aliado a outros fatores. achado da experiência com brasileiros. Ele que chamamos de “intrinsecamente moti- iria procurar uma foto dele e começou a de relatividade, dizem que só três físicos Não vemos se sobressair os talentosos estava estarrecido com a espontaneidade vadas”. Elas se interessam pelo processo e tirar milhões de coisas de dentro da sua no mundo eram capazes de entender o que preguiçosos, não-curiosos, não-instiga- do grupo. Respondeu que nós, saxônicos, não pelo resultado. Justamente por isto, seu bolsa; e eis que tira um ferro de passar ele falava. Mas havia pelo menos três; o dos, não-convictos sobre a importância elaboramos uma ideia e depois usamos a resultado promete ser bom, enquanto quem roupa. Minha enteada, curiosa, perguntou: reconhecimento é necessário. do que fazem. língua pra expressar esta ideia. Os brasi- 28 FEV 2009 29
  • 3. ENTREVISTA Foto: Ricardo Degani leiros, parece que usam a língua para ela- viagens para a Alemanha, Chicago e Nova borar a ideia, vão falando para saber o que Iorque, visitamos alguns artistas impor- querem dizer. Isso é o máximo, não? Acho tantes, como Thomas Ruff, Candice Breitz, que isto é uma das coisas que faz com que Harun Farocki, Janine Antoni, Maya Lin, o processo de dar aula seja tão enriquece- Thomas Struth... dor para mim: me dá a oportunidade de Você tem planos para fazer um desenvolver minhas ideias enquanto as destes encontros na Antártida. explico para os alunos. Por que este destino? Em seu curso, você costuma citar o Uma coisa importante nestes encontros músico Frank Zappa, “o importante na é uma certa intensidade. E essa intensi- arte é a moldura”. O que isso quer dizer? dade tem a ver com o deslocamento, com A moldura é importante porque, sem este sair do contexto habitual. Nossa cabeça é humilde artifício, você não sabe onde o tão cheia que, para uma pessoa aprender mundo termina e onde a arte começa. alguma coisa, primeiro tem de haver uma Um exemplo: se o compositor minimalista espécie de “limpeza” cerebral, tirar ideias John Cage segura um microfone na gar- velhas para abrir espaço para as novas. ganta enquanto bebe um copo de suco e Nas viagens, a pessoa tem que aprender a declara que o som resultante é uma com- lidar com a língua diferente, a usar o trans- posição musical, desde que exista uma porte público, ajuda a abrir a cabeça. plateia que concorde, então assim é. Eu, Sobre a Antártida, a questão não é o que PLANO PARA CONSTRUÇÃO DE UM BARCO pessoalmente, não acho esta discussão tem na Antártida, e sim o que não tem. interessante, discutir se é ou não é arte. É pela ausência, pelo silêncio. Perante à Respeito, mas não dedico meu tempo. enormidade da paisagem, nos damos conta Vou fazer uma outra citação, que é do cientista Thomas Edison: de que somos insignificantes, lembramos que nossos probleminhas, nossa conta de Como se vai falar em definição técnica, antes de saber o que se quer definir? destas linguagens a ponto de perceber nuances, como um pintor que pintou a melhorar, vira um destes artistas que fa- zem uma única grande descoberta e ficam “Se você abre “O sucesso é 10% inspiração e 90% luz, o carro na oficina, tudo isto é muito Na verdade, esta questão é uma boa vida toda consegue perceber. repetindo a vida toda. Não existe cresci- transpiração”. Você concorda? Isso é óbvio. O grande problema no pro- pequeno, tão pequeno que acaba desapa- recendo da mente, um deslocamento mais entrada para uma das características da arte contemporânea. Antigamente, um Ainda sobre esta liberdade técnica, vemos muitos artistas que se lançam mento sem desconforto, é exatamente ele que garante que está se vivendo um mão da busca cesso criativo é achar um problema. É só para isto que você precisa de inspiração. intenso de contexto. Vamos conversar sobre arte e arte pintor era um pintor, então ele pintava coisas pintáveis. Hoje, ocorre o inverso: nas artes com pouco ou nenhum conhecimento técnico e teórico. processo de transformação. Última pergunta: (entrevistadora mostra eterna por contemporânea. Sua definição de arte? Você acha que o conhecimento uma imagem do vídeo Work # 547, do melhorar, vira Uma vez que você tem um problema, aí o artista pensa “eu tenho um problema as coisas começam a acontecer. Se eu Eu não tenho a menor ideia de como definir a abordar, qual seria a linguagem mais técnico e teórico se tornou obsoleto? inglês Martin Creed, vencedor do prêmio pudesse armazenar a energia que cada isto, até porque todo mundo que tentou se adequada?” Ou seja, o método vai ser Não. Absolutamente não. A questão aí não Turner do Museu Tate, que mostra uma aluno perde experimentando um pouco disso, um pouco daquilo, eu resolvia os ferrou. Arte é o que um artista chama de arte e alguns observadores concordam. definido de acordo com o que o artista quer expressar, e não o oposto, onde o é só a técnica, mas a necessidade de imer- são na linguagem que se quer trabalhar, mulher usando uma fantasia de cachorro, defecando no chão). Por que isto é arte? um destes problemas energéticos mundiais. Vamos passar então para seus O que eu vejo como muito mais interes- sante do que discutir o que é arte é dis- artista vai selecionar para expressar só aquilo que está dentro do formato que para poder compreender sua estrutura. Em geral, considera-se que, para que uma Martin Creed é um artista que navega em uma área cinzenta entre o fazer o e artistas que encontros, os Dynamic Encounters. cutir a lógica interna das obras, levando ele conhece. Recentemente, visitamos o pessoa, artista ou não, possa fazer uma não fazer. Todo o trabalho dele tem a ver Como surgiu a ideia? A ideia surgiu em 1992. Eu estava com em consideração sua eficácia ou não. Me postando com toda a disponibilidade em estúdio do artista Jeff Koons, em Nova Iorque. O estúdio é uma loucura, uma contribuição significativa para sua lingua- gem, ela necessita de pelo menos 10 anos com aspectos lúdicos desta questão. Ele acredita que, num mundo repleto de coi- faz uma saudade da minha cultura inglesa e em uma noite pensei: por que não convidar frente a uma obra, se ela for boa, ela incita um nível de reflexão. Algumas pessoas empresa com 50 assistentes, departa- mentos de computação, de moldagem, de imersão nesta linguagem. E não se trata de métodos artesanais. Tomando o exem- sas, adicionar mais uma pode ser um ato de redundância. Quando a gente pensa a única grande os alunos para um curso de um mês na Inglaterra? Na época, foi um sufoco, não dizem que não querem entender, querem apenas gostar ou não gostar, senão estra- de pintura... Isto tem uma vantagem, pois se o Jeff tem uma ideia para uma plo de Sol Le Witt, qual seria sua técnica, uma vez que ele nunca toca nas obras? obra de um artista, é importante lembrar algumas questões: que toda a obra vem descoberta e me dei conta da infraestrutura necessá- ga. Gosto é uma soma dos costumes e da determinada obra, que só funciona se E também, a evolução, o crescimento são de um desejo do artista de dizer algo, mas ria, da organização. Também, na ocasião, fui me dando conta de que sou limitado, cultura e acho que não vale para julgar se a arte é boa ou não. for em porcelana, ele não vai ficar a vida inteira aprendendo as técnicas da por- sempre acompanhados de desconforto, o desconforto de saber que estamos aquém. naturalmente transborda de outras obras já feitas por este artista e toca na historia ficam repetindo de que não posso fazer tudo, e então fui entrando em contato com amigos, curado- Ultimamente, com a introdução de novas mídias, novas formas de fazer arte, vídeos, celana: ele vai achar quem saiba fazer e contratar. A vantagem é que o artista Um dia, um aluno meu, muito ingênuo, me perguntou: “Charles, será que um dia eu da linguagem que ele trabalha. É ingênuo achar que se pode saber sobre uma obra a vida toda” res, artistas... Acabou sendo maravilhoso performances, etc., a arte ficou muito fica livre para criar, sem se limitar a uma vou chegar lá?” Ora, um dia você vai mor- sem saber sobre o artista, o contexto em para todos os envolvidos. Já fizemos 30, 32 mais diversificada, abrangente. Pode linguagem. A desvantagem, suponho, é rer, mas você nunca vai ter aonde chegar. que ele trabalha e o contexto cultural e viagens em 15 anos. No ano passado, em existir um limite técnico para a arte? que ele talvez não penetre em nenhuma Se você abre mão desta busca eterna por histórico em que ele se insere. 30 FEV 2009 31

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