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Meus estudos de capoeira em Barra do Corda
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Meus estudos de capoeira em Barra do Corda

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  • 1.   2011 Meus Estudos de Capoeira em  Barra do Corda/MA Leonardo Delgado   29/10/2011 
  • 2. Sumário   UNIDADE I: CAPOEIRA NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR  Problema  Objetivo Geral  Conteúdos de Aprendizagem  Dimensão Conceitual  Dimensão Procedimental  Dimensão Atitudinal  Sugestões Metodológicas  Avaliação  UNIDADE II: HISTÓRIA DA CAPOEIRA   Origem da Capoeira  Capoeira das raízes africanas à origem brasileira  Capoeiristas Históricos  Cronologia  CAPOEIRA NO MARANHÃO  1° Mestre  Mestre Patinho  CAPOEIRA EM BARRA DO CORDA  Mestre Marreta  GABA (Grupo Angoleiros da Barra)  Irapuru Iru Pereira UNIDADE III: ESTILOS DE CAPOEIRA  Capoeira Angola   Mestre Pastinha  Capoeira Regional  Capoeira Contemporânea  Uniforme dos Angoleiros  Uniforme dos Capoeiras da Regional  Graduação  A ginga e alguns golpes de ataque e defesa  Roda de Capoeira  Curiosidade  UNIDADE IV: INSTRUMENTOS E MÚSICA NA CAPOEIRA  Instrumentos  Berimbau  Pandeiro  Atabaque  Agogô  Confecção dos Instrumentos  Vocabulário Básico da Capoeira REFERENCIAL   
  • 3. UNIDADE I: CAPOEIRA NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR   Leonardo Delgado      Este  material  tem  como  objetivo  analisar  e  discutir  a  proposta  da  utilização  do  tema  Capoeira  na  Educação  Física  Escolar  para  a  disciplina  de  Educação  Física  no  ensino  fundamental  no  município  de  Barra  do  Corda/MA.  A  partir  de  nossa  pesquisa  bibliográfica,  encontramos alguns pontos importantes a serem tratados nesse trabalho sobre a capoeira.      É  importante  salientar  que  a  Capoeira  inicialmente  foi  inserida  na  escola  como  uma  atividade  extracurricular,  ganhou  seu  espaço  nos  currículos  escolares  mediantes  publicações como a metodologia do ensino de educação (Coletivos de Autores) e através dos  parâmetros  curriculares  nacionais  da  educação  física  (PCN),  como  parte  dos  conteúdos  de  lutas presentes na Educação Física Escolar.      Nossa proposta ao trabalhar o conteúdo capoeira na educação física escolar vem Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  da  necessidade  de  estarmos  contribuindo  para  a  ampliação  dos  conhecimentos  dos  alunos,  partindo do pressuposto de que a capoeira não é apenas um saber que se traduz num saber  fazer,  num  realizar  "corporal",  sendo  a  Educação  Física  a  disciplina  que  estuda  pedagogicamente a  cultura corporal do movimento e suas manifestações, só isso já coloca a  capoeira como conteúdo obrigatório, pois não se pode negar que a capoeira e suas diferentes  modalidades fazem parte da cultura do Brasil.      A  capoeira  nasceu  nas  senzalas,  como  luta  de  libertação  da  classe  dominada  contra o regime de escravidão existente na época. Foi perseguida, e, no plano de resistência  ideológica,  agrediu,  por  muitos  anos,  os  códigos  das  culturas  dominantes.  Hoje,  encontra‐se  presente  em  diversos  segmentos  sociais  do  mundo,  sendo  realidade  sua  prática  no  ensino  fundamental,  médio  e  superior.  Entretanto,  trata‐se  de  um  conteúdo  pedagógico  pouco  estudado e fundamentado em sua estrutura técnica e cultural para o cotidiano escolar.      Com essa temática de pesquisa, junto ao problema proposto, buscamos legitimar  a importância de sua prática na escola, enquanto conteúdo da educação física e componente  da cultura corporal de movimento, por se tratar de um tema também presente nos PCNs da  educação física.      Soares    et    al.    (1992)    argumenta    que    a  Educação    Física    brasileira    precisa     resgatar    a  capoeira    enquanto    manifestação    cultural,    ou  seja,    trabalhar    a    sua   historicidade,  não desencarná‐la  do  movimento  cultural  e  político que  a  gerou.  Vamos ao  encontro, novamente, das novas metodologias, nas quais solicitam‐se novos conteúdos para a  Educação  Física  escolar,  conteúdos    estes    que    estejam    relacionados        ao  cotidiano    do   brasileiro  e  que  possuam significações histórico‐sociais.      Já  não  há  mais  dúvidas  de  que  a  capoeira  difundiu‐se  por  todas  as  camadas  e  classes sociais e também já não é um jogo exclusivamente de rua, levando milhões de pessoas  a praticá‐la em escolas, academias, ginásios e centros de Educação Física. Isso faz com que os  profissionais  que  ensinam  a  capoeira  tenham  o  máximo  cuidado  em  não  ensiná‐la  apenas  como luta, mostrando também os aspectos positivos que se pode conseguir com a sua prática,   
  • 4. e  isso  só  será  conseguido  com  professores  especializados  e  atualizados  com  os  avanços  da  sociedade.      A  capoeira  é  um  conteúdo  que  pode  ser  contemplado  na  escola  pelos  seus  múltiplos enfoques, que possibilitam, a luta, a dança e a arte, o folclore, o esporte, a educação,  o lazer e o jogo.       A mesma deve ser ensinada globalizadamente, deixando que o aluno identifique‐ se com os aspectos que mais lhe convier.       A  sua  prática  na  escola  possibilita  o  desenvolvimento  de  conteúdos  conceituais,  procedimentais e atitudinais, como autonomia, cooperação e participação social, postura não  preconceituosa, entendimento  do  cotidiano  pelo exercício da cidadania, historicidade etc. No  aspecto motor,  especificamente,  a  capoeira  deve  ser reconhecida    como  uma  alternativa   rica    para    o  desenvolvimento    das    estruturas    da    criança,    como  esquema  corporal,  lateralidade, equilíbrio, orientação espaço‐temporal,  coordenação motora etc.    Problema  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado    Quais os benefícios do ensino do conteúdo capoeira para a comunidade escolas?      ‐ A  Capoeira  resgata  o  processo  de  construção  da  formação  do  homem  brasileiro;   ‐ A Capoeira simboliza a resistência do homem negro, o qual entrincheirado nos  Quilombos resiste bravamente iniciando a fermentação do longo processo de  construção da cidadania no país.   ‐ A  Capoeira  representa  um  poderoso  instrumento  pedagógico  capaz  de  contribuir de forma efetiva para formação de um homem criativo, autônomo,  dotado de perspicácia e espírito de iniciativa;   ‐ As  aulas  de  Capoeira  estimulam  não  só  a  prática  corporal,  mas  também  o  gosto  pela  música  e  manipulação  de  instrumentos  musicais  tipicamente  brasileiros, contribuindo assim para a valorização da cultura brasileira;   ‐ Visto  a  Capoeira  estar  propagando‐se  nacionalmente,  ocupando  a  cada  dia  mais e mais a vida de milhares de brasileiros e com isso tendo um lugar tanto  na mídia televisiva, como nas revistas, jornais e outros meios de comunicação.  E  gerando  com  isso  a  necessidade  da  prática  da  Capoeira  com  profissionais  competentes.  Isto  para  que  a  essência  desta  dança  guerreira  não  seja  desvirtuada  e  não  possa  comprometer  o  bem  estar  dos  praticantes  e    da  sociedade.  Para  isso  deve‐se  buscar  essa  conscientização  nas  escolas  através  da Educação.   ‐ A Capoeira como prática desportiva, proporciona uma melhor saúde corporal,  conseqüentemente  ocorre  uma  melhora  em  termos  de  qualidade  de  vida,  agindo inclusive como método profilático.   ‐ Estimula  o  afetivo,  principalmente  a  auto‐estima,  além  de  integrar  os  seus  participantes, de modo que o indivíduo passa a se sentir aceito nesse grupo e   com  isso  a  respeitar  seus  semelhantes,  fator  fundamental  para  um  bom  convívio social.   ‐ Como  meio  de  recreação,  a  capoeira  auxilia  na  catarse,  ou  seja,  na  liberação  das  tensões  diárias.  Com  isso  vem  contribuir  para  diminuir  um  dos  focos  da  violência, que são as tensões e o estresse que estão sujeitos não só os adultos,  mas também as crianças.    
  • 5. ‐ Finalmente  podemos  dizer  que  capoeira  contribui  para  interação  do  ser  e  a  formação de um sentimento de amor e respeito a nossa cultura.    Objetivo Geral     Fazer  a  reflexão  teórico‐metodológica  sobre  a  Capoeira  enquanto  manifestação  da cultura corporal brasileira, seu histórico, desenvolvimento, seus rituais, seus fundamentos  de  jogo,  dança,  luta  e  ginástica,  suas  implicações  sociais  contemporâneas  e  seus  limites  e  possibilidades de ensino no contexto escolar.    Conteúdos de Aprendizagem     Coll  et.  al  (2000)  definem  conteúdos  como  uma  seleção  de  formas  ou  saberes  culturais,  conceitos,  explicações,  raciocínios,  habilidades,  linguagens,  valores,  crenças,  sentimentos,  atitudes,  interesses    modelos  de  conduta  etc.  cuja  assimilação  é  considerada  essencial para que se produzam um desenvolvimento e uma socialização adequados ao aluno.      Dessa forma, quando nos referimos a conteúdos, estamos englobando conceitos, Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  idéias, fatos, processos, princípios, leis científicas, regras, habilidades cognoscitivas, modos de  atividade, métodos de compreensão e aplicação, hábitos de estudos, de trabalho de lazer e de  convivência social, valores, convicções e atitudes.      É preciso levar em conta ás seguintes questões: o que se deve saber? (dimensão  conceitual),  o  que  se  deve  saber  fazer?  (dimensão  procedimental),  e  como  se  deve  ser?  (dimensão atitudinal), com a finalidade de alcançar os objetivos propostos.     Dimensão Conceitual - Conhecer  as  transformações  pelas  quais  passou  a  capoeira  em  relação  a  sociedade e relacioná‐las com o contexto histórico da época;  - Conhecer  as  mudanças  pelas  quais  passaram  a  capoeira  em  função  da  marginalização;  - Conhecer  os  estilos  de  capoeira  e  alguns  dos  vários  fundamentos  técnicos,  toques e músicas.    Dimensão Procedimental - Vivenciar e adquirir alguns fundamentos básicos da capoeira, golpes, musicas e  toques. Por exemplo, praticar a ginga e a roda da capoeira;  - Vivenciar  diferentes  ritmos  e  movimentos  relacionados  a  capoeira,  como  angola, regional e contemporânea;  - Vivenciar situações de brincadeiras e jogos.  Dimensão Atitudinal   - Valorizar  o  patrimônio  cultural  da  capoeira  em  seus  diferentes  contextos  e  estilos,  - Respeitar os adversários, os colegas e resolver os problemas com atitudes de  diálogo e não‐violência.  - Predispor‐se a participar de atividades em grupos, cooperando e interagindo;   
  • 6. - Reconhecer  e  valorizar  atitudes  não‐preconceituosas  relacionadas  a  habilidade, sexo, religião e outras.  - Adotar o hábito de praticar atividades físicas visando à inserção em um estilo  de vida ativo.      Com base nisso iremos abordar Na Unidade I: os fatores que justificam a presença  desse  conteúdo  na  escola;  Na  Unidade  II:  Os  elementos  que  deram  origem  a  capoeira,  no  Brasil, no Maranhão e em Barra do Corda; Na Unidade III: os estilos de capoeira, uniformes,  graduações, fundamentos, rodas e curiosidades; Na Unidade IV: será estudado a musicalidade  da capoeira, com seus instrumentos, toques e musicas    Sugestões Metodológicas   - Projeção de vídeos e filmes;  - Pesquisa e discussão dos resultados.  - O movimento de ginga, no ritmo de Angola.  - Exercícios específicos: aú, cocorinha e negativa (demonstração prática);  - Movimentos  de  ataque  e  defesa,  executando  golpes  individualmente  ou  em  duplas. Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  - Movimentos de golpes de defesa e contra ataque.  - Exercícios em duplas.    Utilização de vídeos     O vídeo ‐ filmes, documentários, reportagens especiais ‐ é um recurso importante  no ensino da educação física, desde que permita estabelecer relações com os temas que estão  sendo abordados em aula.      A  utilização  desse  suporte  exige,  entretanto,  alguns  cuidados  por  parte  do  professor:     - Primeiramente, é indispensável que assista ao vídeo com antecedência, para  destacar os aspectos a levantar na discussão do filme com a turma.  - Ao  assistir  ao  programa,  será  útil  que  elabore  um  roteiro  de  observações  e,  inclusive, selecione as passagens mais relevantes, que poderão ser re‐exibidas  durante o debate.  - Antes de iniciar a exibição do vídeo, ele deve conversar com os alunos sobre  as questões a serem observadas, facilitando, pela roteirização, a compreensão  dos objetivos da atividade e sua realização.    Coleta de Informações na Internet e na Mídia Impressa     As  práticas  da  cultura  corporal  podem  constituir‐se  em  objetos  de  estudo  e  pesquisa  sobre  o  homem  e  sua  produção  cultural.  Alem  de  proporcionar  fruição  corporal,  a  aula de educação física pode propiciar reflexão sobre o corpo, a sociedade, a ética, a estética e  as  relações  inter  e  intrapessoais.  Assim,  a  vivência  das  práticas  corporais  pode  ser  ampliada  pelo conhecimento sobre o que se pratica, buscando respostas mais complexas para questões  especificas.     
  • 7. Avaliação     Os alunos podem ser avaliados:  - De  forma  sistemática  por  meio  da  observarão  das  situações  de  vivência,  de  perguntas e respostas formuladas durante as aulas.  - De forma específica, em provas, pesquisas, relatórios, apresentações ele. Para  que os alunos com dificuldades em algumas formas de expressão não sejam  prejudicados  pelo  tipo  de  avaliação,  e  muito  importante  que  as  formas  de  verificação do conhecimento sejam as mais diversificadas possíveis.      O  emprego  da  observação  no  processo  de  avaliação  apresenta  uma  série  de  vantagens.  Ela  é,  por  exemplo,  diagnostica,  como  preconiza  Resende  (1995);  as  aulas  não  precisam  ser  interrompidas;  o  ambiente  continua  o  mesmo;  e,  finalmente,  ela  permite  a  avaliação do comportamento na sua totalidade.      A  avaliação  em  educação  física  deve  considerar  a  observação,  a  analise  e  a  conceituação  de  elementos  que  compõem  a  totalidade  da  conduta  humana,  ou  seja,  a  avaliação deve estar voltada para a aquisição de competências, habilidades, conhecimentos e  atitudes dos alunos. Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado      Ela  deve  abranger  as  dimensões  cognitiva  (competências  e  conhecimentos),  motora  (habilidades  motoras  e  capacidades  físicas)  e  atitudinal  (valores),  verificando  a  capacidade  de  o  aluno  expressar  sua  sistematização  dos  conhecimentos  relativos  à  cultura  corporal  em  diferentes  linguagens  ‐  corporal,  escrita  e  falada.  Embora  essas  três  dimensões  apareçam  integradas  no  processo  de  aprendizagem,  nos  momentos  de  formalização  a  avaliação  pode  enfatizar  uma  ou  outra  delas,  Esse  é  outro  motivo  para  a  diversificação  dos  instrumentos, de acordo com as situações e os objetivos do ensino.    Mãos à Obra     Agora  que  o leitor  já  conhece  um  pouco  de  nossa  concepção  da  educação  física  escolar, passamos a apresentar uma proposta de desenvolvimento do conteúdo Capoeira para  o  segundo  segmento  do  ensino  fundamental.  A  proposta  não  teve  como  preocupação  sistematizar  a  capoeira  de  forma  hierárquica  e  gradativa,  que  distribuiria  os  conteúdos  por  ciclos  e/ou  séries.  Essa  tarefa  fica  a  cargo  do  professor  que  poderá  se  pautar  em  nossas  sugestões  e  ir  além  delas.  No  momento  procuraremos  oferecer  aos  professores  sugestões  didático‐metodológicas  para  o  tratamento  dos  conteúdos,  por  meio  de  vivências,  leituras,  discussões  pesquisas  e  outras  estratégias  que  possibilitem  uma  re‐significação  da  cultura  da  capoeira nas aulas de educação física.           
  • 8. UNIDADE II: HISTÓRIA DA CAPOEIRA Leonardo Delgado    INTRODUÇÃO   A capoeira é um esporte, uma luta, uma dança,  um jogo. Afinal de contas, o que é a capoeira? Na verdade, é  um  pouco  de  tudo  isso.  A  capoeira  é  uma  manifestação  genuinamente  brasileira,  criada  pelos  escravos  africanos  trazidos para o país.      A  capoeira  é  uma  manifestação  da  cultura  brasileira e é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e  complexos,  utilizando  primariamente  chutes  e  rasteiras,  além  de  cabeçadas,  joelhadas,  cotoveladas,  acrobacias  em  solo  ou  aéreas  muito  peculiares:  trata‐se  de  um  misto  de  luta‐jogo‐dança  praticada  ao  som  de  instrumentos  musicais  (berimbau,  pandeiro  e  atabaque),  palmas  e  cânticos.  Outras  expressões  culturais,  como  o  maculelê  e  o  samba  de  roda,  são  muito  associadas  à  capoeira,  embora  tenham  origem  e  significados  diferentes.  Por  tudo  isso  a  capoeira  vem  obtendo  cada  vez  mais  espaço  nas Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado instituições educacionais como escolas de primeiro e segundo graus e universidades e sendo  cada vez mais reconhecida em todas as instâncias da sociedade brasileira.      A  palavra  capoeira  é  originária  do  tupi‐guarani,  refere‐se  às  áreas  de  mata  rasteira  do  interior  do Brasil.  Foi sugerido  que  a  capoeira  tenha  obtido  o  nome  a  partir  dos  locais  que  cercavam  as  grandes  propriedades  rurais  de  base  escravocrata.  Capoeiristas  fugitivos  da  escravidão  e  desconhecedores  do  ambiente  ao  seu  redor,  freqüentemente  usavam  a  vegetação  rasteira  para  se  esconderem  da  perseguição dos capitães‐do‐mato.      Há uma grande controvérsia em torno da história da capoeira, sobretudo no que  se refere ao período compreendido entre o seu surgimento ‐ provavelmente no século XVII e o  século  XIX,  quando  aparecem  registros  confiáveis,  com  descrições  mais  detalhadas  desta  manifestação.     ORIGEM DA CAPOEIRA     Uma  das  discussões  que  mais  envolveram  os  estudiosos  da  arte‐luta  brasileira  girou em torno da questão: a capoeira surgiu na África ou no Brasil? Atualmente considera‐se  uma questão já resolvida, pois a grande maioria dos autores que escrevem sobre a história da  capoeira  concordam  com  a  tese  de  que  ela  teria  sido  criada  no Brasil  pelos  negros  africanos  trazidos pelos portugueses a partir do início da colonização para o trabalho escravo na lavoura,  na pecuária, mineração e em atividades urbanas.       Não pretendemos aprofundar aqui o debate sobre o surgimento da capoeira, mas  convém  observar  que  a  questão  é  realmente  complexa.  Os  que  defendem  que  a  capoeira  surgiu  no  Brasil,  apoiavam‐se  no  argumento  de  não  existir  atualmente  (nem  há  registros  históricos conhecidos) qualquer forma de luta criada e desenvolvida pelos escravos nas outras  ex‐colônias do continente americano, que também receberam grandes quantidades de negros 
  • 9. africanos  vindos  das  mesmas  regiões,  em  alguns  casos,  daqueles  trazidos  para  o  Brasil.  Na  realidade,  esse  não  é  um  argumento  suficiente  para  provar  a  origem  brasileira  da  luta,  pois  várias  manifestações  culturais  bastante  próximas  da  capoeira,  reunindo  características  de  luta  e  dança,  já  foram  identificadas  em  outros  países  da  América  Latina.  A  idéia  de  que  a  capoeira  seria  uma  luta  africana,  trazida  pelos  cativos,  apoiava‐se no fato de que ainda hoje, no continente africano,  existem  danças  rituais  com  características  de  luta  (denominadas,  entre  outras,  Cujuinha,  Uianga, Cuissamba e Dança da Zebra)       Para alguns autores, a capoeira praticada em terras brasileiras seria simplesmente  uma  variação  dessas  danças,  que  teria  se  tornado  extremamente  útil  em  situações  de  luta  corporal  contra  o  branco  colonizador.  Assim,  de  acordo  com  a  organização  que  as  comunidades negras conseguiam constituir no Brasil nos primórdios da colonização (seja nos  quilombos, ou nas próprias senzalas, preparando os movimentos de rebeldia e as fugas) seriam  recuperados os elementos dessas danças‐lutas ancestrais.       Na  verdade,  a  controvérsia  se  justifica  pela  complexidade  da  questão  e  pela  dificuldade na obtenção de documentos que relatem a vida dos escravos durante os primeiros Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado séculos  de  escravidão  no  Brasil.  É  sabido  que  em  15  de  dezembro  de  1890  o  então  Ministro  das  Finanças  Ruy  Barbosa  mandou  incinerar,  no  âmbito  do  Ministério  da  Fazenda,  os  documentos  que  se  referiam  à  escravidão,  alegando  que  se  deveria  apagar  da  memória  brasileira  essa  lamentável  instituição.  Os  historiadores  atribuem  tal  ordem  a  uma  estratégia  que  procurava  evitar  que  os  ex‐proprietários  de  escravos  buscassem  junto  ao  governo  uma  compensação dos prejuízos que tiveram com a abolição da  escravatura,  em  1888.  Provavelmente  esses  documentos  nos trariam muitas informações sobre a vida dos escravos,  suas  fugas,  suas  formas  de  resistência  à  escravidão.  Mas  sua  destruição  não  pode  ser  tomada,  como  se  faz  habitualmente  nos  debates  sobre  a  capoeira,  como  obstáculo  intransponível  à  reconstituição  da  história  da  resistência à escravidão. A historiografia sobre o tema tem  nos mostrado isso constantemente.       Muito  embora  seja  suficientemente  esclarecido  que  a  capoeira,  como  a  conhecemos hoje, é uma luta surgida no Brasil, é preciso considerá‐la como parte da dinâmica  constante da cultura afro‐brasileira. Assim, a capoeira surgiu de um conjunto de aspectos pré‐ existentes nas culturas das comunidades africanas (rituais, danças, jogos, cultura musical etc.).  O  aparecimento  da  capoeira  deve  ser  pensado,  de  certa  forma,  como  as  próprias  artes  marciais  tradicionais  do  Oriente,  que  são  a  expressão  da  filosofia  de  seus  povos  criadores  e  que estão integradas às outras instâncias da vida social, como a religião e o trabalho. Sabe‐se,  por exemplo, que diversas armas utilizadas nessas artes marciais derivam de instrumentos de  trabalho agrícola, e algumas cerimônias ou simbologias se referem às tradições religiosas dos  orientais.       É  assim  que  devemos  compreender  a  questão:  a  capoeira  surgiu  no  Brasil  como  luta de resistência de uma comunidade que trazia uma imensa bagagem cultural de sua terra  de origem e que precisou desenvolver um conjunto de técnicas de ataque e defesa em virtude  da situação de opressão em que vivia durante a escravidão. Aliás, devemos considerar que a  capoeira  faz  parte  de  todo  um  processo  de  resistência  dos  negros  no  Brasil,  que  também  se  expressou na religião, na arte, na culinária etc. Em outras palavras: era necessário aos negros 
  • 10. não  só  permanecerem  vivos  e  lutarem  pela  sua  liberdade  era  preciso  também  preservar  aspectos de sua cultura ancestral.       Dessa  forma,  o  surgimento  da  capoeira  se  confunde  com  a  história  da  resistência  dos  negros  no  Brasil.  Eis  porque  a  maioria  dos  autores  que  escreveram  sobre  a  questão  associam  o  aparecimento  da  capoeira  ao  surgimento  dos  primeiros  quilombos  no  Brasil.  Alguns  chegam  a  se  referir  especificamente  ao  Quilombo  dos  Palmares  (que  foi  o  que  reuniu  um  número  maior  de  pessoas,  cerca  de  25  mil,  e  foi  destruído  em  1694)  como  sendo  o  berço  da  capoeira.  Já  em  1928,  Annibal  Burlamaqui,  no  livro  Gymnastica  Nacional  (Capoeiragem)  Methodizada  e  Regrada,  destaca  a  superioridade  do  quilombola  no  combate  com  os  capitães  do  mato,  devido  a  um  "jogo  estranho  de  braços,  pernas,  cabeça  e  tronco"  utilizado  pelos  fugitivos.  (Annibal  Burlamaqui  não indica a fonte dessa informação, o que a torna duvidosa).       Desta  primeira  publicação  até  hoje,  muitos  têm  repetido  a  afirmação  de  que  a  capoeira surgiu nos quilombos sem, no entanto, apresentar provas mais concretas. Do ponto  de vista científico, apenas se pode sustentar essa idéia como uma hipótese a ser comprovada Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado por estudos futuros. Porém, é verdade inquestionável que os quilombos representavam uma  atmosfera de liberdade, de recuperação dos rituais e danças africanas e de convívio social que,  somadas à situação de opressão podem ter dado origem à capoeira.       Os  estudos  históricos  sobre  o  Quilombo  dos  Palmares  desenvolvidos  por  pesquisadores renomados como Édison Carneiro, Clóvis Moura, Décio Freitas e Joel Rufino dos  Santos,  embora  não  se  refiram  especificamente  à  capoeira,  descrevem  detalhadamente  (e  sobre isso há vasta documentação) as violentas guerras travadas ao longo de quase cem anos  na Serra da Barriga (que à época se localizava em território da capitania de Pernambuco, atual  estado  de  Alagoas)  entre  os  fugitivos  e  as  tropas  enviadas  para  a  destruição  do  quilombo.  Dificilmente  terá  existido,  em  toda  a  história  do  Brasil,  um  ambiente  mais  propício  para  o  surgimento de uma modalidade de luta como a capoeira.       Um quadro de Johan Moritz Rugendas intitulado  "Jogar  Capoeira  ou  Danse  de  la  Guerre",  de  1835,  é  considerado  o  primeiro  registro  preciso  sobre  a  capoeira.  Neste  quadro  dois  negros  se  situam  em  posição  de  luta  enquanto um outro, sentado, toca um atabaque  que segura  com as pernas. Outros negros, homens e mulheres, assistem  à luta (ou jogo) que se realiza.       Ao  longo  do  século  XIX  a  capoeira  torna‐se  uma  nítida  expressão  da  situação  vivida  pelo  negro  no  Brasil.  As  mudanças  ocorridas  na  economia  e  na  política  do  Império  vinham gerando um intenso processo de desescravização. Lembremo‐nos de que a Lei Eusébio  de  Queirós,  de  1850,  já  havia  proibido  o  tráfico  negreiro  para  o  Brasil.  A  lógica  do  sistema  econômico mundial e brasileiro impunha a substituição do negro pelo trabalhador imigrante, e  isso gerava uma inevitável situação de marginalidade. A capoeira floresceu dessa forma, e são  inúmeros os relatos de jornais do século passado que narram as aventuras dos capoeiras (esse  nome, até meados deste século, era utilizado para designar o lutador; a luta era denominada  capoeiragem).    
  • 11.   Naquela época, a capoeira reunia não só ex‐escravos e seus filhos, mas também  figuras importantes da sociedade. Aos poucos a capoeira foi se envolvendo com a vida política  e chegou a ser amplamente utilizada como arma na luta entre as facções que se enfrentavam  nos  tempos  do  Império  e  nos  primórdios  da  República,  sobretudo  nas  cidades  do  Rio  de  Janeiro,  Salvador,  Recife  e  São  Paulo.  Os  capoeiras  eram  contratados  para  interferir  em  comícios,  tumultuar  eleições  e  fazer  a  segurança  de  figurões  da  política.  O  sociólogo  José  Murilo  de  Carvalho,  analisando  as  ocorrências  policiais  do  Rio  de  Janeiro  do  século  passado,  calcula  em  cerca  de  vinte  mil  o  número  de  capoeiras  cariocas  existentes  às  vésperas  da  Proclamação da República (1889), o que nos dá uma idéia da importância desse segmento na  sociedade da época.       Muito  tempo  se  passou  até  que  a  capoeira  superasse  esse  estigma  de  mazela  social. Pode‐se afirmar que a história da capoeira nos últimos cem anos tem sido a trajetória  de sua inserção e institucionalização na sociedade brasileira. Aos poucos foi sendo reconhecida  como  expressão  do  folclore  nacional,  como  técnica  eficiente  de  luta  e,  mais  recentemente,  como instrumento educativo importantíssimo para a consciência de nossa cultura.       Esse  processo  de  desenvolvimento  da  capoeira  teve  como  figura  chave  o  capoeirista baiano conhecido como Mestre Bimba, que merecerá nossa atenção especial mais  adiante. Mestre Bimba criou por volta de 1930 a Capoeira Regional, uma variação da capoeira Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado tradicional (conhecida como Capoeira Angola) que incluía uma série de inovações e métodos  de ensino.       O  desenvolvimento  técnico  da  capoeira  nas  últimas  décadas  foi  imenso,  e  não  pára de ocorrer. O contato com outras modalidades de luta e com os métodos científicos de  treinamento  desportivo  têm  exigido  dos  capoeiristas  um  intenso  esforço  de  atualização  e  sistematização de seus conhecimentos.     Capoeira das raízes africanas à origem brasileira      Várias sociedades africanas que falavam línguas semelhantes foram chamadas de  banto  pelos  europeus.  Acredita‐se  que  os  bantos  eram  da  atual  região  de  Camarões  e,  em  cerca de 1000 a.C, começaram a migrar para o sul. Essa migração se estendeu até os séculos III  e  IV  d.C,  levando  os  bantos  a  se  concentrar  no  centro‐sul  da  África,  nas  atuais  regiões  de  Angola,  Congo,  República  Democrática  do  Congo,  Uganda,  Namíbia,  Zâmbia,  Moçambique,  Botsuana      Nas  novas  regiões  que  ocuparam,  os  bantos  introduziram  a  metalurgia,  a  agricultura e a forma de governo centralizada. Formaram sociedades matrilineares, nas quais  as terras cultivadas eram consideradas dos antepassados, as florestas eram comunitárias e o  trabalho, individual.       Nos  primeiros  séculos  do  tráfico  de  escravos,  foram  trazidos  para  as  Américas,  escravizados,  muitos  negros  de  grupos  bantos.  Esses  grupos  foram  maioria  na  Bahia,  em  Alagoas,  Pernambuco, no Maranhão, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro e, em  muitos  momentos,  reproduziram  aqui  sua  organização  social  (especialmente  nos  quilombos),  sua  arte  e  sua  visão  de  mundo.  A  capoeira,  a  congada,  as  danças  e  cerimônias  cateretê,  caxambu,  batuque, samba, jongo, lundu, maracatu e coco de zambê são herança  banto. 
  • 12.     O candomblé de angola, com o qual a capoeira angola mantém ligações, também  é expressão de origem banto.      Capoeira é uma palavra de origem tupi que significa vegetação que nasce após a  derrubada  de  uma  floresta.  No  Brasil  Colônia,  esse  nome  foi  também  dado  ao  "jogo  de  angola",  que  apareceu  nas  fazendas  e  cidades  desde  que  os  primeiros  grupos  de  negros  de  origem banto foram escravizados e trazidos para cá.      A  capoeira  praticada  em  senzalas,  ruas  e  quilombos  foi  vista  como  uma  ameaça  pelos  governantes,  que,  em  1821,  estabeleceram  medidas  de  repressão  à  capoeiragem,  incluindo  castigos  físicos  e  prisão.  Essas  medidas  policiais  contra  a  capoeira  só  deixaram  de  vigorar  a  partir  da  década  de  1930,  mas  isso  não  significou  que  passasse  a  ser  plenamente  aceita e que seus praticantes tivessem a simpatia da sociedade brasileira.      O  "jogo  de  angola"  não  foi  aceito  como  uma  forma  de  expressão  corporal  de  indivíduos  e  grupos,  em  sua  maioria  negros,  organizados,  pensantes  e  vigorosos.  Foi  transformado em folclore, com a diminuição de seu significado grupal para os participantes e,  depois,  em  esporte  ou  arte  marcial.  Mas  a  forma  não  esportiva  da  capoeira  também  permaneceu, ligada a grupos de capoeira angola. Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado     Assim,  surgiram  dois  ramos  da  capoeira  nas  décadas  de  1930  e  1940,  que  se  distinguiram mais efetivamente a partir dos anos 70. Ocorreu, por um lado, a mobilização de  grupos  de  resistência  cultural  afro‐baiana,  que  perceberam  nos  poucos  grupos  angoleiros  a  manutenção  dos  elementos  da  capoeira  trazidos  pelos  negros  bantos,  e,  por  outro  lado,  a  organização da capoeira esportiva (capoeira regional) como arte marcial.    Capoeiristas Históricos   ‐ Besouro  Mangangá:  capoeirista  baiano  do  século  XIX,  imortalizado  nas  músicas da capoeira.    ‐ Manduca da Praia: temido capoeirista no Rio de Janeiro do século XIX.    ‐ Madame Satã:  polêmico capoeirista do Rio de Janeiro do século XX, sua vida  foi retratada em filme.    ‐ Mestre  Pastinha  (Vicente  Ferreira  Pastinha):  fundou  a  primeira  escola  de  capoeira legalizada pelo governo baiano.  ‐ Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado): criador da capoeira regional        Cronologia   ‐ 1548 – Iniciam a imigração forçada de escravos africanos para o Brasil.   ‐ 1712 ‐ Primeiro registro escrito do termo capoeira, no Vocabulário Português e  Latino,  do  Padre  D.  Rafael  Bluteau,  seu  significado,  contudo  não  se  refere  à  luta.   ‐ 25  de  Abril  de  1789  ‐  Primeira  menção  da  capoeira  em  registros  policias  na  prisão de Adão, pardo, escravo, acusado de ser "capoeira",. [Nireu Cavalcanti,  "O Capoeira", Jornal do Brasil, 15/11/1999, citando do códice 24, Tribunal da  Relação, livro 10, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro] 
  • 13. ‐ 1809 – D. João VI criou a Guarda Real de Polícia, para seu chefe foi nomeado o  major Nunes Vidigal. Persegidor notório de capoeristas, o major Vidigal era por  si só um exímio capoerista.   ‐ 1813 – Antonio de Moraes Silva acrescenta o termo capoeira no Diccionario da  Lingua Portugueza composto originalmente pelo Padre D. Rafael Bluteau.    ‐ 1821  –  Carta  da  Comissão  Militar  do  Rio  de  Janeiro  enviada  para  Carlos  Frederico  de  Paula,  Ministro  da  Guerra,  requisitando  o  retorno  dos  castigos  aos capoeiristas.   ‐ 1826 ‐ O artista francês Jean Baptiste Debret retrata um tocador de berimbau  em "Joueur dUruncungo".     ‐ 1828  –  Os  capoeiras  sempre  tidos  como  marginais  e  desordeiros  ajudando  a  conter a Revolta dos Mercenários.  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado ‐ 1835  –  Pela  primeira  vez  é  retratado  o  jogo  de  capoeira  pelo  alemão  Johann  Moritz  Rugendas  no  livro  Voyage  Pittoresque  dans  le  Brésil  com  as  gravuras  "JOGAR CAPOEIRA ou Danse de la guerre" e "SAN SALVADOR".   ‐ 13  de  Maio  de  1888  ‐  A  Princesa  Isabel  decreta  a  Lei  Áurea  abolindo  a  escravatura no Brasil.   ‐ 1890  ‐  Apesar  dos  capoeristas  terem  um  papel  heróico  na  Revolta  dos  Mercenários e na Guerra do Paraguai, o Governo Republicano instaurado em  1889 continuou a política de repressão à Capoeira do período Imperial, e em  1890 editou um decreto criminalizando a prática da Capoeira.   ‐ 1932 ‐ Mestre Bimba funda a primeira academia oficial de capoeira.   ‐ 1941 ‐ Mestre Pastinha funda a primeira academia oficial de Angola.   ‐ 1949 ‐ Mestre Bimba leva alguns alunos à São Paulo para competir com outras  lutas. Na década de 1950, Mestre Bimba viajou vários estados apresentando a  capoeira. Começa a expansão da capoeira baiana pelo território brasileiro.   ‐ 1953 ‐ Em Salvador, Mestre Bimba e seu alunos se apresentam no Palácio do  Governo  para  o  governador  da  Bahia  Juracy  Magalhães  e  o  presidente  da  República  Getúlio  Vargas.  Getúlio  teria  dito  então:  "a  única  colaboração  autenticamente  brasileira  à  educação  física,  devendo  ser  considerada  a  nossa luta nacional".   ‐ 1966 ‐ Mestre Pastinha leva uma comitiva de capoeiristas ao Premier Festival  International des Arts Nègres, em Dakar. A capoeira começa a expandir para o  mundo.   
  • 14. CAPOEIRA NO MARANHÃO   O 1º Mestre     O  Mestre  Firmino  Diniz  ‐  nascido  em  1929  ‐  que  é  considerado  o  mestre  mais  antigo de São Luís, teve os primeiros contatos com a capoeira na infância, através de seus tios  Zé Baianinho e Mané. Lembra ainda de outro capoeirista da época de sua infância, Caranguejo;  Mestre  Diniz  teve  suas  primeiras  lições  no  Rio  de  Janeiro  com  "Catumbi",  um  capoeira  alagoano. Diniz era o organizador das rodas de capoeira e foi um dos maiores incentivadores  dessa manifestação na cidade de São Luís, nos anos 30 e 40.        Segundo o professor Leopoldo Gil Dulcio Vaz1:     "A Capoeira no Maranhão tem seu inicio ‐ segundo os registros mais  antigos  encontrados  até  agora  ‐  em  1835!  De  acordo  com  depoimentos  dos  Mestres  atuais,  teve  um  recomeço  por  volta  dos  anos 60, com a vinda de um grupo ‐ do mestre Canjiquinha, Aberrê ‐  no  qual  veio  junto  Mestre  Sapo;  que  retorna  depois,  se  fixando  em Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado São  Luis.  Diz  a  lenda  que  fora  convidado  por  Sarney,  para  ser  seu  guarda  costas.  Ganhou  emprego  público,  para  ensinar  a  capoeira,  num período em que houve a revitalização do esporte no Maranhão,  comandado por Cláudio Vaz dos Santos; a capoeira foi incluída entre  os esportes que ganharam escolinha no Ginásio Costa Rodrigues, com  Sapo no comando. Naturalmente que a Capoeira tinha seus adeptos,  sendo  citado  como  o  mestre  principal,  ou  mais  importante  naquela  época  ‐  anterior  aos  anos  60  ‐  Roberval  Serejo.  No  depoimento  de  Mestre  Patinho  são  citados  alguns  dos  praticantes,  com  a  fundação  do primeiro grupo, do qual Roberval já participava".      Em  1966  ‐  Mestre  Canjiquinha(Washington  Bruno  da  Silva,  1925‐1994),  e  seu  Grupo Aberrê passaram pelo Maranhão, apresentando‐se na cidade de Bacabal, no teatro de  Arena Municipal.      E  em  São  Luís  do  Maranhão,  no  Palácio  do  Governador,  no  Jornal  Pequeno,  TV  Ribamar na Residência do Prefeito da capital e no Ginásio Costa Rodrigues.      Acompanhavam  Mestre  Canjiquinha,  o  Sapo  (Anselmo  Barnabé  Rodrigues  ainda  com 17 anos), O Mestre Brasília (Antônio Cardoso Andrade), e Vitor Careca, os três, na época,  todos eram menores de idade.      1968  ‐  Mestre  Sapo  retorna  ao  Maranhão,  diz  alguns  que  fora  convidado  por  Sarney,  para  ser  seu  guarda  costas.  Ganhou  emprego  público,  para  ensinar  a  capoeira,  num  período em que houve a revitalização do esporte no Maranhão, comandado por Cláudio Vaz  dos Santos, a capoeira foi incluída entre os esportes que ganharam escolinha no Ginásio Costa  Rodrigues, com Mestre Sapo no comando.    1   O  texto  é  de  LEOPOLDO  GIL  DULCIO  VAZ.  Capoeiragem  no  Maranhão,  publicado  em  18/04/2005,  disponível online via: http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/capoeiragem+no+maranhao 
  • 15.   A partir de 1970, Mestre Sapo começou a formar seu grupo de capoeira, passando  a ministrar aulas em uma academia de musculação, localizada na Rua Rio Branco, e no mesmo  ano  Roberval  Serejo  vem  a  falecer,  e  alguns  de  seus  alunos,  passam  a  treinar  com  Mestre  Sapo.  Que  logo  forma  um  grupo  com  muitos  alunos,  e  os  que  não  entraram  em  seu  grupo,  treinavam  paralelamente,  faziam  rodas,  coisas  que  o  Mestre  Sapo  não  gostava  e  por  muitas  vezes ele mesmo chamava a policia, pois a capoeira do maranhão, ainda vivia em repressão,  acredita‐se que tal atitude era, para ser o centro das atenções, já que era o único que tinha se  organizado, e tido o apoio do governo.      O Mestre Sapo em uma de suas viagens, no final dos anos 70, conheceu o Mestre  Zulú, em Brasília. Foi quem o graduou Mestre. A partir de então, Mestre Sapo implantou em  São Luís o sistema de graduação, através de cordel, seguindo as cores adotadas pelo Mestre  Zulú. Mas quem o iniciou na capoeira foi Natalício Neves da Silva, O Mestre Pelé de Salvador.      Desta  forma  o  Mestre  Sapo  se  tornou  a  maior  referência  da  capoeira  do  Maranhão. Mestre Sapo faleceu no ano de 1982, vítima de acidente de Transito. No Bairro da  Cohab.    Fonte: http://associaogrupokdecapoeira.blogspot.com/2009/07/capoeira‐do‐maranhao.html   Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado Mestre Patinho   2     ANTONIO JOSÉ DA CONCEIÇÃO RAMOS  –  Mestre  Patinho  –  nasceu  em  São  Luís,  em  14  de  setembro de 1953, no Bairro São Pantaleão; filho de  Djalma Estafanio Ramos e de Alaíde Mendonça Silva  Ramos;       Década de 60 ‐ Babalú, um apaixonado  pela  capoeira,  outro  amigo  que  era  marinheiro  da  marinha  de  Guerra,  também  aprendeu  com  o  mestre  Artur  Emídio  do  Rio,  Roberval  Serejo;  juntamos  Jessé,  Roberval  Serejo,  Babalú,  Artur  Emídio  e  eu  formamos  a  primeira  academia  de  capoeira,  Bantú,  e  estava  sem  perceber  fazendo parte da reaparição da capoeira no Maranhão. Também participaram Firmino Diniz e  seu  mestre  Catumbi,  preto  alto  descendente  de  escravo.  Firmino  foi  ao  Rio  e  aprendeu  a  capoeira com Navalha no estilo Palmilhada e com elástico, nos repassando.      1966  ‐  esteve  aqui  em  São  Luís  o  Quarteto  Aberrê  com  o  mestre  Canjiquinha  e  seus  discípulos:  Brasília,  hoje  Mestre  Brasília,  que  mora  em  São  Paulo;  e  o  nosso  querido  Mestre Sapo; Vitor Careca. Quando Vitor Careca e seus amigos chegaram aqui em São Luís não  foram  bem  sucedidos.  Por  sorte  do  grupo,  na  Praça  Deodoro,  na  apresentação,  estava  assistindo  o  Mestre  Tacinho,  que  era  marceneiro  e  trazia  gaiola.  Era  campeão  sul‐americano  de  boxe  no  estilo  médio  ligeiro  e  gostava  da  capoeira.  Vendo  que  o  grupo  tinha  um  total  domínio  da  capoeira,  apresentavam  modalidades  circenses,  mas  ligadas  a  capoeira,  como  navalha,  faca,  etc.  Tacinho  convidou‐os  para  uma  apresentação  no  Palácio  do  Governo,  pois  era  motorista  do  Palácio.  O  Governador  da  época  era  Sarney,  gostando  muito  da  apresentação,  convida  um  deles  para  ministrar  aula  de  capoeira  no  Maranhão,  pois  não  foi  possível porque eram de menor.  2   Mestre  Patinho,  publicado  em  27  de  fevereiro  de  2009.  Disponível  on  line  via:  http://sala‐prensa‐ internacional‐fica.blogspot.com/2009/02/antonio‐jose‐da‐conceicao‐ramos‐mestre.html 
  • 16.     1968  ‐  Mestre  Barnabé  (Mestre  Sapo),  Anselmo  Barnabé  Rodrigues,  volta  ao  Maranhão.    ‐  Está  tendo  uma  roda  de  capoeira  no  Olho  d´Água  com  o  Mestre  Sapo,  coincidentemente estando na praia, entrei na roda, conheci o Mestre Sapo e nos  tornamos amigos e comecei a estudar com eles. Através do Professor Dimas.  ‐  Como  a  capoeira  era  mal  vista  na  época  e  cheia  de  preconceito,  parti  para  a  Ginástica  Olímpica,  volto  para  a  capoeira  e  participo  com  o  Mestre  Sapo  do  primeiro e segundo Troféu Brasil e fomos campeões, eu no peso pluma e Sapo no  peso pesado. Me intensifiquei pela capoeira e fui para Pernambuco, Bahia e São  Paulo, estudar capoeira.      Eu recebi muita influência de Mestre Sapo, Artur Emídio do Rio,Catumbi e Djalma  Bandeira que todos foram alunos de Aberrê.    Fonte: RODRIGUES, Inara. Patinho: vida dedicada à capoeira. In O ESTADO DO MARANHÃO, São Luís, 14  de setembro de 2003, Domingo, p. 6. Caderno de Esportes    CAPOEIRA EM BARRA DO CORDAMeus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado   Mestre Marreta   3   No  dia  14  de  fevereiro  nasce  o  filho  de  José  Basílio  e  Maria  Firmina  de  Jesus.  Ele  não  sabia,  mas  a  vida  deste  menino  reservava  um  destino  muito  especial  voltado  a  uma  arte  presente  nas  raízes  brasileiras  desde  o  tempo  da  escravidão:  a  Capoeira.  Nasce  então,  Edvaldo  Jesus  dos  Santos que mais tarde se tornaria Mestre Marreta!!!      Ainda  criança,  Edvaldo  morou  no  Bairro  Periperi  na  cidade  de  Salvador  –  BA,  juntamente com seus pais e seis irmãos. Estudou e conclui o Ensino Fundamental e o Ensino  Médio na Escola Almirante Barroso. Aos 14 anos trabalhou numa oficina de pintura; três anos  depois, alistou‐se no exército, onde ficou de excesso contingente no período de um ano, tendo  recebido posse da carteira de reservista em 1982.      Ainda com 17 anos de idade, Edvaldo entrou no Grupo de Capoeira Obalafom (seu  primeiro  contato  com  o  mundo  da  capoeira),  tendo  como  professor  Djalma  Marinho  de  Sá,  que o treinava na Escola Castelo Branco em Salvador, no Bairro da Urbes às 2ª, 4ª e 6ª feiras.      Aos  18  anos,  pôde  exercer  a  função  de  pintor  de  auto.  No  período  de  1987  a  1990,  trabalhou  como  coordenador  de  eventos  no  Maritim  Club  Hotel,  uma  empresa  internacional,  possuindo  25  hotéis  espalhados  em  toda  a  Europa.  Lá,  ele  desenvolvia  um  trabalho  de  Capoeira,  uma  capoeira  show,  unicamente  para  apresentações  ao  público  turístico; onde havia danças, como Maculelê, Dança dos Cafezais, entre outras muitas danças  do  folclórico  baiano.  No  mesmo  ano,  viajou  para  Brasília  tendo  permanecido  por  três  anos,  onde  trabalhou  no  STJ  (Supremo  Tribunal  de  Justiça).  Em  1993  a  1996  voltou  para  Salvador  onde trabalhou como segurança de valores da Raimundo Santana S.A.    3  Disponivel On Line: http://www.flogao.com.br/capoeiraflecha/78944277 
  • 17.   Em, 1995, aos 32 anos casou‐se com Joelma Moreira da Silva, sendo que no dia 10  de  março  de  1997  nasce  Éderson  Silva  Santos,  seu  filho.  Edvaldo  ainda  trabalhou  como  segurança no Hotel Só Bahia Atlântico, nos anos de 1996 a 1999. Em julho de 99, recebeu de  um amigo a proposta de vir ao Maranhão com o objetivo de desenvolver um trabalho voltado  à  capoeira.  Em  8  de  agosto  do  mesmo  ano  ele  chegou  à  Barra  do  Corda.  Criou‐se,  então,  a  Escola de Capoeira Flecha, no dia 22 de agosto de 1999, onde pôde desenvolver um trabalho  voltado à Capoeira Regional juntamente com um pouco do folclórico baiano.      No  dia  19  de  junho  de  2000  e  2001,  foi  desenvolvido  o  Projeto  Ginga,  uma  parceria do governo municipal com o Grupo favorecendo 90 alunos da rede municipal de 1º a  8º  séries.  No  mesmo  ano  Escola  de  Capoeira  Flecha  juntamente  com  o  Projeto  Ginga,  participam  dos  Jogos  Escolares  Maranhenses  JEM’s,  onde  conquistaram  12  medalhas  para  município  de  Barra  do  Corda.  Em  junho  de  2001,  ao  trabalhar  15  dias  consecutivos  em  uma  barra  de  festejos  juninos,  exaustado,  Mestre  Edvaldo  sentou‐se  no  para‐peito  de  sua  casa,  onde sofreu uma terrível queda fraturando sua coluna cervical, tendo atingido a C.5 – C.6.      No  dia  seguinte  foi  contatado  que  o  Mestre  Marreta  havia  também  quebrado  o  pescoço.  Sendo  assim,  foi  transferido  para  São  Luis  e  submetido  a  duas  cirurgias,  tendo  passado 28 dias hospitalizado. Graças a Deus e a seu preparo físico, pela prática da capoeira,  Mestre Marreta recuperou‐se rapidamente (por milagre), pois o prazo mínimo que o médico Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado deu para que ele voltasse a praticar o esporte foi de 2 anos. Mas, com apenas quatro meses  após a sua saída do hospital, o mestre já estava treinado e dando aulas.      A  vida  nos  ensina  muitas  coisas,  e  esse  é  um  exemplo  que  todos  nós  devemos  seguir: não nos deixarmos abalar pelos obstáculos da vida!!!      Hoje,  além  de  continuar  dando  aulas  na  Escola  de  Capoeira  Flecha  e  no  Projeto  Ginga, Mestre Marreta ainda ensina a arte da capoeira regional em três outros projetos com a  parceria do governo municipal: Agente Jovem, Resgate e Cidadania e Cacooper (Copaíba). É a  capoeira  atravessando  fronteiras  e  mostrando  sua  história  à  sociedade,  tirando  os  jovens do  mundo das drogas, incentivando a educação e a inclusão social.    GABA (Grupo Angoleiros da Barra)   4   Fundado  em  outubro  de  2005,  o  Grupo Angoleiros da Barra, o GABA CAPOEIRA  ANGOLA,  nasceu  da  iniciativa  coletiva  de  vários  capoeiristas  cordinos  que  viram  na  Capoeira  Angola  importante  elemento  de  aproximação  e  compreensão  da  cultura  afro‐ brasileira. O GABA, de forma pioneira, vem ao  longo  de  seu  relativo  pouco  tempo  de  existência  se  dedicando  com  afinco  às  pesquisas e estudos sobre a Capoeira Angola, tanto em seus aspectos práticos quanto em seus  aspectos  teóricos,  e  ao  longo  dessa  caminhada  já  deu  várias  contribuições  para  o  desenvolvimento  da  Capoeira  Angola  em  nossa  cidade  através  da  realização  de  seminários,  fóruns, encontros e oficinas de Capoeira Angola com a participação de figuras expressivas da  Capoeira Angola do Maranhão, do Brasil e do mundo.    4  Fonte: http://www.barradocorda.ma.gov.br/cidade/gaba.php 
  • 18. Irapuru Iru Pereira5     Começou  a  praticar  Capoeira  com  mestre  Patinho  em  São  Luis‐MA,  com  quem  treinou  durante  alguns  anos.  Depois  foi  para  o  interior  do  Estado,  mais  precisamente  na  cidade  de  Barra  do  Corda‐MA,  onde  participou  de  1999  a  2005  do  Grupo  Flecha.  Atualmente  participa da organização do Grupo Angoleiros da  Barra, o  GABA CAPOEIRA, sendo tal responsabilidade desenvolvida  em parceria com SAMUEL BARROSO, um exímio Capoeira  da região.  Figura 1: Professor Irapuru, Vereadora   Nilda Barbalho e Mestre Patinho     Começou capoeira aos 11 anos de idade, na cidade de São Luis, sendo que o que  levou‐o à praticar foi um problema de saúde. Na época iniciou‐se com Mestre Patinho. Aos 14  anos de idade foi acometido por doença renal que entre outras restrições proibia‐o de praticar  atividades  físicas.  Depois  disso  teve  alguns,  segundo  suas  próprias  palavras,  retornos  inexpressivos.   Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado   Em 1999 mudou‐se à Barra do Corda‐MA, onde para manter a saúde (novamente  ela),  teria  impreterivelmente  que  se  tornar  um  atleta.  Retornou  à  Capoeira  através  de  um  grupo local cujo Mestre acabara de chegar de Salvador. Este foi à Barra do Corda para fazer um  trabalho com os índios (por lá são muitos duas etnias: Canelas e Guajajaras). O trabalho com  os  indígenas  não  vingou, mas  ele,  o  mestre,  fixou  uma  academia  de  Capoeira  "Regional"    na  cidade, onde Irapuru Iru Pereira passou a participar até meados do ano de 2005.      Em  paralelo  a  isso,  IRAPURU  estava  se  graduando  em  História  e  durante  todo  o  curso  a  Capoeira  se  mostrou  um  riquíssimo  objeto  de  pesquisa,  bem  como  um  poderoso  instrumento didático‐pedagógico. Tal aproximação com o mundo teórico da Capoeira, que ele  mesmo chama de "a  Capoeira jogada  fora da roda"  levou‐o a tentar  somar esses elementos,  principalmente os de caráter libertários e ideológicos,  ao trabalho da  Academia. Não deu em  outra,  por  se  tratar  de  uma  Capoeira  hierarquizada,  e  com  grandes  limitações  teóricas  e  acadêmicas,  passou  a    ser  alijado  e  teve  que  se  afastar  do    grupo,  que  a  essa  altura  já  introduzia agarrões do jiu‐jitsu nas rodas na academia. Irapuru até comenta:  nada contra o jiu‐ jitsu, mas tudo a favor da Capoeira pura, simples e completa.       Antes de Irapuru, vários outros capoeiras também já haviam se afastado do grupo  e não tinham para onde ir, sendo então convidado por eles para colaborar na construção de  uma alternativa  de Capoeira. Optaram por fazer um trabalho de Capoeira Angola, levando em  conta principalmente seus aspectos ideológicos e anárquicos.      A parada não foi ‐ não está sendo ‐ nada fácil, pois em Barra do Corda as pessoas  só conheciam a Capoeira Contemporânea e todo imaginário sobre Capoeira está relacionado  com  essa  expressão  da  nossa  luta‐dança‐luta.  Os  integrantes  do  GABA  desenvolvem  seus  trabalhos em uma forma gratificante de autogestão e exercício da democracia, onde todos do  grupo  procuram  de  alguma  forma  suprir  suas  carências.  O  GABA  foi  criado  em  outubro  de  2005,  e  seus  membros  não  tem  a  pretensão  de  fazermos  do  Trabalho  um  "negócio",  5   Breve  histórico  do  Grupo  Angoleiros  da  Barra  ‐  GABA‐,  em  Barra  do  Corda,  Maranhão  e  da  vida  capoeirística  de  IRAPURU  IRU  PEREIRA,  um  de  seus  idealizadores.  Disponível  on  line  via:  http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/angoleiros+da+barra 
  • 19. funcionamos através de oficinas de Capoeira  ministradas em escolas e agrupamos cerca de 40  Capoeiras.      Nessa caminhada já tiveram a colaboração do Nelsinho do Laborate e de Mestre  Patinho,  ambos  de  São  Luis.  Para  os  membros  do  GABA,  o  objetivo  do  "Grupo  não  é  para  ensinar Capoeira, mas sim para aprender Capoeira".  Com diz o próprio Irapuru,    "não temos pressa, como já sabemos: CAPOEIRA ANGOLA É DEVAGAR!!!!"       Como ensinar esse conteúdo para crianças     Para  dar  início  ao  tema  e  avaliar  o  conhecimento  que  os  alunos  já  possuam,  podemos começar fazendo algumas perguntas:    ‐ Alguém já assistiu a uma apresentação de capoeira? O que achou?  ‐ Quem já jogou ou brincou de jogar capoeira alguma vez? O que achou?  ‐ Vamos tentar montar uma lista com os elementos que vocês acham que fazem  parte de uma roda de capoeira? Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado     Nesse momento, é interessante pedir para que os alunos levantem a mão e, um a  um, citem os elementos que acham que fazem parte da capoeira. Peça para que um aluno vá  anotando tudo na lousa ou em um caderno e, ao final, leia os elementos, perguntando para a  turma se são realmente elementos da capoeira.     Discussão   Após a vivência da reconstrução da história da capoeira e a leitura do texto,  desenvolva com a turma uma reflexão sobre os conhecimentos apresentados. Sugestão de  questões para essa reflexão:    ‐ A história que a turma inventou tem alguma semelhança com a leitura?  ‐ Antes  da  leitura,  alguém  tinha  algum  conhecimento  a  respeito  da  origem  da  capoeira? Que conhecimento e onde o obteve?  ‐ O que são os bantos?  ‐ Quando  os  bantos  foram  trazidos  para  o  Brasil,  trouxeram  consigo  diversos  costumes, citem alguns deles e falem sobre como esses costumes fazem parte  da cultura; brasileira.  ‐ Qual a relação da escravidão com a origem da capoeira?  ‐ Por que motivos a capoeira chegou a ser proibida no Brasil?  ‐ Qual  seria  a  relação  entre  fugas  de  escravos,  capitães  do  mato,  quilombos  e  capoeira?  ‐ Quais os tipos de capoeira descritos no texto? Qual dos dois é mais antigo?  Tarefa para casa Para finalizar a discussão, pergunte se os alunos saberiam diferenciar a capoeira  angola  da  regional.  Após  refletirem  e  opinarem  sobre  o  tema,  proponha  que,  divididos  em  grupos  (de  três  ou  quatro  alunos),  pesquisem  o  tema  em  diferentes  fontes:  entrevista  com 
  • 20. algum praticante ou mestre de capoeira, pesquisa na internet, em livros, jornais ou revistas. As  fontes de pesquisa não são tão variadas, mas qualquer informação servirá para as discussões  das aulas seguintes.    Filmes   "Mestre  Bimba  –  A  Capoeira  Iluminada",  conta,  através  de  depoimentos  de  seus  antigos  alunos  e  de  imagens  inéditas  em  cinema,  a  história deste brasileiro, Manuel dos Reis Machado, o Mestre Bimba (1899 –  1974)  um  iletrado  que  recebeu,  post  morten,  o  título  de  Doutor  Honoris  Causa  de  uma  das  mais  prestigiadas  Universidades  do  Brasil.  De  origem  humilde,  ele  foi  um  grande  jogador  de  capoeira  mas  antes  de  tudo  um  educador,  que  dedicou  a  sua  vida  a  dar  dignidade  e  luz  à  capoeira.  Para  muitos historiadores foi um dos negros mais importantes do século XX, nas  Américas.  Seu  nome  é  a  primeira  referência  que  um  aluno  de  capoeira  aprende,  em  qualquer  país  que  esteja.  A  ele  são  dedicadas  milhares  e  milhares de músicas cantadas em todas as rodas de capoeira nos cinco continentes.    "Pastinha ‐ Uma Vida pela Capoeira", um filme do cineasta e Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado capoeirista Antônio Carlos Muricy é um documentário filmado no Rio  de Janeiro, em Salvador e em Nova Yorque, EUA. Ilustrado com fotos  de  David  Zingg  e  de  Pierre  Verger,  e  por  desenhos  e  pinturas  de  Capoeira  do  próprio  Pastinha,  representa  uma  rara  oportunidade  de  se conhecer os fundamentos e a história da lendária Capoeira Angola  e de seu maior mestre. Pastinha!      O documentário “Mandinga em Manhattan” conta como  a  capoeira  se  espalhou  pelo  mundo  e  hoje  se  encontra  em  mais  de  160  países,  em  todos  os  continentes.  Com  locações  no  Brasil  e  nos  EUA,  Mandinga  em  Manhattan  traz  depoimentos  de  antropólogos,  pesquisadores  e  dos  maiores  mestres  da  atualidade  ‐  os  verdadeiros  responsáveis pela divulgação mundial da capoeira. Mandinga em Manhattan é dividido em três  momentos: a história da capoeira, com relatos dos mestres antigos, entre eles João Grande e  João  Pequeno,  a  ida  dos  capoeiristas  para  o  exterior  e  o  retorno  da  capoeira  para  o  Brasil.  Mandinga  em  Manhattan  é  a  história  da  resistência  e  evolução  da  capoeira  no  mundo.  Que  tem começo, mais não tem fim.       
  • 21. UNIDADE III: ESTILOS DE CAPOEIRA Leonardo Delgado  Capoeira Angola     A Angola é o estilo mais próximo de como os  negros  escravos  jogavam  a  Capoeira.  Caracterizada  por  ser  mais  lenta,  porém  rápida,  movimentos  furtivos  executados perto do solo, como em cima, ela enfatiza as  tradições  da  Capoeira,  que  em  sua  raiz  está  ligada  aos  rituais  afro‐brasileiros,  caracterizado  pelo  Candomblé,  sua  música  é  cadenciada,  orgânica  e  ritualizada,  e  o  correto  é  estar  sempre  acompanhada  por  uma  bateria  completa de 08 instrumentos.       A designação "Angola" aparece com os negros que vinham para o Brasil oriundos  da África, embarcados no Porto de Luanda que, independente de sua origem, eram designados  na chegada ao Brasil de "Negros de Angola", vide ABC da Capoeira Angola escrito pelo Mestre Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  Noronha quando ele cita o Centro de Capoeira Angola Conceição da Praia, criado pela nata da  capoeiragem baiana no início dos anos 1920.       Mestre Pastinha (Vicente  Ferreira Pastinha) foi o grande ícone  do estilo. Grande  defensor da preservação da Capoeira Angola, inaugurou em 23 de fevereiro de 1941 o Centro  Esportivo de Capoeira Angola (CECA).       Dos  ensinamentos  do  Mestre  Pastinha  foram  formados    grandes    mestres    da   capoeiragem    Angola,    a  exemplo  dos  Mestres:  João  Pequeno,  João  Grande,  Valdomiro  Malvadeza, Albertino da Hora, Raimundo Natividade, Gaguinho Moreno, 45, Pessoa Bá‐Bá‐Bá,  Trovoada, Bola Sete, dentre outros que continuam transmitindo seus conhecimentos para os  novos angoleiros, como Mestre Morais.       É  comum  a  primeira  vista  ver  o  jogo  de  Angola  como  não  perigoso  ou  não  elaborado, contudo o jogo Angola se assemelha ao xadrez pela complexidade dos elementos  envolvidos.  Por  ter  uma  sistemática  estruturada  em  rituais  de  aprendizado  completamente  diferentes  da  Regional,  seu  domínio  é  muito  mais  complicado,  envolvendo  não  só  a  parte  mecânica do jogo, mas também características como sutileza, o subterfúgio,  a  dissimulação,   a  teatralização,  a  mandinga  e/ou  mesmo  a  brincadeira  para  superar  o oponente. Um jogo  de Angola pode ser tão ou mais perigoso do que um jogo de Regional.    Mestre Pastinha     Na  capoeira  angola,  vale  mais  a  astúcia  do  que  a  força  muscular.  O  método  de  Mestre Pastinha, ensinado regularmente desde 1910, consiste em golpes desferidos quase que  em câmera lenta. O capoeirista fica a maior parte do tempo com o corpo arqueado e sua ginga  é de braços soltos, relaxados, porque a tática é se fazer de fraco diante do oponente. Os golpes  não têm pressa de chegar, mas, quando chegam, têm forma harmoniosa. Muitas pessoas que  conhecem  a  capoeira  angola  acham  que  ela  é  menos  violenta,  pois  os  golpes  são  desferidos  em câmera lenta, mas, pode chegar a ser mais perigosa que a capoeira regional. Como Mestre  Pastinha dizia: "Capoeira angola é, antes de tudo, luta, e luta violenta".   
  • 22.     Vicente  Ferreira  Pastinha  nasceu  em  1889,  filho  do  espanhol José Senor Pastinha e de Maria Eugenia Ferreira. O pai era  comerciante, dono de um pequeno armazém no centro histórico de  Salvador, e a mãe, com a qual teve pouco contato, era uma negra  natural de Santo Amaro da Purificação, que vivia de vender acarajé  e lavar roupa para as famílias mais abastadas da capital baiana.      Ainda  menino,  com  apenas  8  anos,  Mestre  Pastinha  conheceu a arte da capoeira, quando um africano a quem chamava  carinhosamente  de  tio  Benedito,  ao  vê‐lo  pequeno  e  magrelo  apanhar  de  um  garoto  mais  velho,  resolveu  ensinar‐lhe  a  se  defender. Durante três anos, Mestre Pastinha passou tardes inteiras num velho sobrado da rua  do Tijolo, em Salvador, treinando golpes como meia‐lua, rasteira, rabo de arraia e outros. Ali,  aprendeu a jogar com a vida e a ser um vencedor. Viveu uma infância feliz, porém modesta.  Durante  as  manhãs,  freqüentava  aulas  no  Liceu  de  Artes  e  Ofícios,  onde  também  aprendeu  pintura.  A  tarde,  empinava  pipa  e  jogava  capoeira.  Aos  treze  anos,  era  o  menino  mais  respeitado  e  temido  do  bairro.  Mais  tarde,  foi  matriculado  na  Escola  de  Aprendizes  Marinheiros pelo pai, que não concordava com o que considerava vadiagem do filho. Mestre  Pastinha conheceu os segredos do mar e ensinou aos colegas as manhas da capoeira. Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado      Aos 21 anos, voltou para o centro histórico, deixando a Marinha para se dedicar à  pintura  profissionalmente.  Suas  horas  de  folga  eram  dedicadas  à  prática  da  capoeira,  cujos  treinos  eram  feitos  às  escondidas,  pois,  no  início  do  século,  essa  luta  era  crime  previsto  no  Código Penal da República.      Mestre  Pastinha  trabalhou  muito  em  prol  da  capoeira,  divulgou  a  arte  o  quanto  lhe foi possível e foi reconhecido por muitas pessoas famosas que se maravilhavam com suas  exibições. Aos 84 anos, muito debilitado fisicamente, deixou a antiga sede da academia para  morar num quartinho velho no Pelourinho, com sua segunda esposa, Maria Romélia. A única  renda  do  casal  era  a  da  venda  de  acarajé.  No  dia  12  de  abril  de  1981,  Mestre  Pastinha  participou do último jogo de sua vida. Dessa vez, com a própria morte. Ele, que tantas vezes  jogou com a vida, acabou derrotado pela doença e pela miséria. Morreu aos 92 anos, cego e  paralítico, vítima de uma parada cardíaca, no abrigo D. Pedro II, em Salvador.      Pequeno  e  notável  em  sua  arte,  Mestre  Pastinha  deixou  seus  ensinamentos  de  vida em muitas mensagens fortes e inesquecíveis como esta:      Ninguém  pode  mostrar  tudo  o  que  tem.  As  entregas  e  revelações  têm  que  ser  feitas aos poucos. Isso serve na capoeira, na família e na vida. Há momentos que não podem  ser  divididos  com  ninguém  e,  nesses  momentos,  existem  segredos  que  não  podem  ser  contados a todas as pessoas. (Mestre Pastinha, 10/10/1980)     A Capoeira Regional     O  jogo  que  Mestre  Bimba  criou  é  um  jogo  mais  rápido,  em  que  os  capoeiristas  jogam  de  pé.  Eles  não  jogam  tanto  no  chão  quanto  na  capoeira  angola,  os  golpes  são  mais  rápidos e precisos.      Em  23  de  novembro  de  1900,  no  bairro  de  Engenho  Velho,  freguesia  de  Brotas,  em  Salvador,  Bahia,  nascia  Manoel  dos  Reis  Machado,  o  Mestre  Bimba.  Esse  apelido,  ele   
  • 23. ganhou logo que nasceu, em virtude de uma aposta feita entre a mãe e  a parteira. A mãe, Maria Martinha do Bonfim, dizia que daria à luz uma  menina.  A  parteira  afirmava  que  seria  homem.  Apostaram  e  perdeu  Maria  e  o  filho,  Manoel,  que  ganhou  o  apelido  que  o  acompanharia  pela vida inteira: Bimba, nome popular para o órgão sexual masculino.  O  pai,  Luís  Cândido  Machado,  era  citado  nas  festas  de  largo  como  grande "batuqueiro", como campeão de "batuque", "a luta braba, com  quedas, em que o sujeito jogava o outro no chão".      De 1890 a 1937, como já afirmamos, a capoeira era crime  previsto  no  Código  Penal  da  República.  Simples  exercícios  nas  ruas  davam  até  seis  meses  de  prisão. Aos 12 anos, Bimba iniciou‐se na capoeira, na estrada das Boiadas, hoje o grande bairro  negro  Liberdade.  Seu  mestre  foi  o  africano  Bentinho,  capitão  da  Companhia  de  Navegação  Baiana. Naquele tempo, a capoeira ainda era bastante perseguida e Mestre Bimba conta:      Naquele  tempo,  capoeira  era  coisa  para  carroceiro,  trapicheiro,  estivador  e  malandro.  Eu  era  estivador,  mas  fui  um  pouco  de  tudo.  A  polícia  perseguia  um  capoeirista  como se persegue um cão danado. Imagine só que um dos castigos que davam a capoeiristas  que fossem pegos brigando era amarrar um punho num rabo de cavalo e o outro em cavalo Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  paralelo;  os  dois  cavalos  eram  soltos  e  postos  a  correr  em  disparada  até  o  quartel.  Comentavam até, por brincadeira, que era melhor brigar perto do quartel, pois houve muitos  casos  de  morte.  O  indivíduo  não  agüentava  ser  arrastado  em  disparada  pelo  chão  e  morria  antes de chegar ao seu destino: o quartel de polícia.       Naquela altura, Bimba começou a sentir que a capoeira que praticara e ensinara  por  um  bom  tempo  tinha  se  folclorizado,  assim  como  a Bahia,  que  se  degenerou  e  passou a  servir de "prato do dia" para "pseudocapoeiristas", que utilizavam a capoeira unicamente para  exibição em praças. Por terem sido eliminados seus movimentos fortes, mortais, essa capoeira  deixava  muito  a  desejar  como  luta.  A  "pantomima"  era  altamente  necessária  nesse  tipo  de  jogo "para inglês ver". O capoeirista se tornou folclórico em demasia, sem a verdadeira malícia  e  eficiência  técnica  que  uma  luta  como  a  capoeira  exigia.  Foi  para  reverter  esse  quadro  que  Mestre Bimba criou a capoeira regional, aproveitando‐se de golpes do "batuque", luta da qual  seu  pai  fora  campeão,  do  jiu‐jitsu  e  do  boxe,  e  criou  um  método  de  ensino.  Para  fugir  de  qualquer pista que lembrasse a origem marginalizada da capoeira, mudou alguns movimentos,  eliminou  a  malícia  da  postura  do  capoeirista,  colocando‐o  em  pé.  Criou  um  código  de  ética  rígido, que exigia até higiene, e  estabeleceu o uniforme branco e até se meteu na vida privada  dos alunos. Teve o cuidado de retirar a palavra capoeira do nome da academia que fundou em  1932 em Salvador, que passou a se chamar "Centro de Cultura Física e Luta Regional". Com  isso,  Mestre  Bimba  deu  ares  atléticos  ao  jogo  e  atraiu  as  mulheres,  até  então  excluídas  das  rodas.      O  resultado  foi  que,  a  partir  daí,  a  capoeira  começou  a  ganhar  alunos  da  classe  média branca e também, a se dividir.    Capoeira Contemporânea     Foi criada na década de 70 por rapazes do Rio de  Janeiro  que  certa  vez  viram   um  capoeirista brigando numa festa e ficaram fascinados. Tentaram então aprender a arte na  periferia carioca, único lugar onde poderiam encontrar capoeiristas, porém não foram aceitos  por serem de classe média. Decidiram, então, uma vez por ano, viajar para a Bahia e cada um  começou a treinar com um mestre diferente. Na volta passavam os conhecimentos adquiridos   
  • 24. uns  para  os  outros  e  criaram  um  novo  estilo  conhecido  como  Contemporâneo.  Os  rapazes  montaram  um  grupo  com  nome  de  Senzala  e  participaram  de  um  campeonato  com  vários  capoeiristas, vencendo‐o.     Uniforme dos Angoleiros     Mestre Pastinha instituiu o uniforme dos angoleiros com as cores do seu time de  coração, o Ypiranga, de Salvador. Para ele o capoeira devia jogar calçado.    Uniforme dos capoeiras da Regional     Mestre Bimba aboliu os sapatos no treino e instituiu o uniforme branco baseado  no costume da domingueira, a roupa elegante que o capoeirista vestia e que permanecia limpa  mesmo depois do jogo, provando sua competência.     Graduação     O sistema de graduação varia de grupo para grupo. Como um capoeirista se torna Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  um  mestre?  Depende,  se  for  regional  ou  angola.  Na  capoeira  regional,  o  capoeirista  começa  com  um  cordão  (a  cor  do  cordão  vai  depender  da  academia).  Com  o  passar  do  tempo,  vai  evoluindo e passa a ter outro cordão até obter o cordão de mestre. O chamado "batizado" de  capoeira é quando o aluno vai trocar de cordão e, na roda, joga com diversos alunos e com o  mestre, que aplica o golpe que batiza o aluno.      Na capoeira angola, a passagem de cordão não existe. O que existe é a graduação  de  contramestre,  uma  graduação  anterior  ao  mestre.  A  passagem  do  aluno  para  essa  graduação se faz somente pela vontade do mestre. Os critérios utilizados são diferentes entre  si, mas o que se sabe é que, normalmente, a experiência, o tempo e o procedimento de vida  são fatores determinantes para formar um mestre na capoeira angola.      Existem  várias  entidades  (Ligas,  Federações  e  Confederações)  que  tentam  organizar  a  graduação  na  capoeira.    Atualmente    a    Confederação    Brasileira    de    Capoeira   adota  o  sistema  de  graduação  feito  por cordões e seguindo as cores da bandeira brasileira.  Temos então a seguinte ordem do iniciante ao mestre:        Sistema oficial de graduação da Confederação Brasileira de Capoeira     A ‐ Graduação Infantil (até 14 anos)    ‐ 1º iniciante: sem corda ou sem cordão    ‐ 2º batizado infantil: cinza claro e verde    ‐ 3º graduado infantil: cinza claro e amarelo    ‐ 4º graduado infantil: cinza claro e azul    ‐ 5º intermediário infantil: cinza claro, verde e amarelo  ‐ 6º avançado infantil: cinza claro, verde e azul    ‐ 7º estagiário infantil: cinza claro, amarelo e azul    ‐ 8º Formado infantil:cinza claro,verde,amarelo e azul      B ‐ Graduação Adulta (a partir de 14 anos)    ‐ 9º iniciante: sem corda ou cordão    ‐ 10º batizado: verde     
  • 25. ‐ 11º graduado: amarelo    ‐ 12º graduado: azul    ‐ 13º intermediário: verde e amarelo    ‐ 14º avançado: verde e azul    ‐ 15º estagiário: amarelo e azul       C ‐ Docente de capoeira    ‐ 16º estágio ‐ Formado: verde, amarelo e azul    ‐ 17º estágio ‐ Monitor: verde e branco    ‐ 18º estágio ‐ Professor: amarelo e branco    ‐ 19º estágio ‐ Contra‐mestre: azul e branco    ‐ 20º estágio ‐ Mestre: branco      Obs.:  Após  a  8º  graduação  o  aluno  formado  infantil  passa  para  a  10º  graduação  que  é  a  primeira corda adulta, corda verde, em alguns casos (dependendo de seu desempenho) pode  pegar a 11º que é a corda amarela, segunda corda adulta.    A ginga e alguns golpes de ataque e defesa  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado    A ginga é o movimento básico da capoeira. E um movimento de pernas, no ritmo  do toque, que lembra uma dança. A movimentação de pés do capoeira, durante a ginga, segue  o traçado de um triângulo imaginário no chão.  Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Ginga.htm.      Antes de iniciar a vivência da ginga, forneça aos alunos estas dicas:    ‐ A ginga é a movimentação mais importante da capoeira, ela deve acompanhar  o ritmo dos instrumentos da roda de capoeira;  ‐ Lembre‐se sempre de olhar para o companheiro de jogo, nunca tire os olhos  dele;   ‐ Os braços e as pernas devem seguir uma certa seqüência na hora da ginga. Os  braços protegerão a parte da frente do tronco e a cabeça, enquanto as pernas  vão se alternar para as diagonais e para frente e para trás, como se fossem um  triângulo;   
  • 26. ‐ Lembre‐se sempre de alternar os braços e as pernas durante a ginga, ou seja,  quando a perna esquerda está apoiada à frente, o braço direito fica à frente do  corpo e vice‐versa;  ‐ A ginga da capoeira regional é realizada em pé e a ginga da capoeira angola, na  posição agachada.    Vivências     Como material, use músicas de capoeira. Você pode dividir os alunos em duplas  ou  trios.  No  caso  dos  trios,  enquanto  um  aluno  descansa  e  observa,  os  outros  realizam  a  vivência:  ‐ Solicite  que  ginguem  um  de  frente  para  o  outro,  procurando  ficarem  bem  próximos, mas sem se tocarem;  ‐ Depois de um tempo, aumente o número de pessoas no grupo (três, quatro,  cinco etc.) e diminua o espaço da atividade.    Golpes de ataque ‐ Armada  ‐  A  armada  é  um  movimento  de  capoeira  que  pode  ser  aplicado Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  pulando  com  as  duas  pernas  ou  apenas  com  uma.  É  uma  pernada  giratória,  aplicada com o tronco ereto. O capoeirista, partindo da ginga, executa um giro  de todo o corpo, aparentemente dando as costas ao adversário. Posicionando‐ se sobre a perna que se encontra à frente e arremessando a outra perna, em  um movimento que completa o giro do corpo, varre a horizontal, atingindo o  adversário com a parte lateral externa do pé.   Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Armada.htm.    ‐ Meia‐lua  de  compasso  —  E  um  golpe  praticado  nas  duas  modalidades  de  capoeira.  Neste  movimento,  o  capoeirista  sai  da  ginga,  abaixa‐se  até  o  solo,  onde  apóia  as  duas  mãos,  e  desfere  um  giro  com  a  perna  de  trás,  arremessando‐a  na  altura  do  tronco  ou  do  rosto  do  adversário,  acertando‐o  com o calcanhar. Esse giro é executado sobre a perna de base, como se fosse  um  compasso.  Durante  todo  o  movimento,  a  cabeça  se  encontra  entre  os  braços, os olhos atentos ao adversário.   Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Meia lua de compasso.htm.   ‐ Cabeçada  —  Golpe  de  ataque  da  capoeira  regional  e  da  angola.  Em  uma  posição semelhante à da esquiva, o capoeirista projeta o tronco para a frente,  sobre  uma  perna  flexionada  servindo  como  base,  busca  atingir  o  adversário  com a cabeça, sempre protegendo o rosto e a nuca com os braços. No caso da   
  • 27. cabeçada  rasteira,  não  se  protege  o  rosto  e  a  nuca,  pois  as  mãos  estão  no  chão.    Fonte: http://companero.tr.gg/Capoeira_Animasyonlar.htm.   ‐ Bênção ‐ A bênção é um movimento da capoeira que visa acertar o adversário  do abdome para cima. A perna de trás é esticada para a frente, em linha reta,  visando empurrar ou deslocar o adversário.     Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Bencao.htm.   Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  ‐ Chapa — Neste golpe, o capoeirista se apóia em um dos pés, lateralmente, e  executa uma abertura lateral da outra perna, com a qual atinge o adversário,  com a sola do pé, lateralmente, na horizontal (paralelo ao solo).   Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Chapa.htm.    ‐ Chapa  de  costas  ‐  Neste  movimento,  o  capoeirista  se  abaixa  até  o  solo,  contando  com  o  apoio  das  duas  mãos  no  solo  e,  aproveitando‐se  do  fato  de  estar de costas para o adversário, estende a perna como um "coice", atingindo  o oponente com a planta do pé.    Fonte: http://companero.tr.gg/Capoeira_Animasyonlar.htm.    ‐ Martelo ‐ O martelo é um golpe em que o capoeirista impulsiona a perna na  direção  da  cabeça  do  adversário.  É  mais  comum  na  capoeira  regional.  É  um  chute lateral, com a ponta ou o peito do pé.   Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Martelo.htm.    
  • 28. Vivências     Divida os alunos em duplas, para que experimentem praticar os golpes de ataque  da capoeira descritos. Antes de iniciar, oriente‐os para o cuidado com a segurança, pois existe  grande risco de acidentes com lesões. E interessante apresentar aos alunos a visão de que a  capoeira  pode  ser  tratada  como  uma  coreografia,  em  que  os  golpes  devem  manter  uma  sincronia, evitando o contato.      A  vivência  pode  ser  realizada  individualmente  ou  em  duplas.  Quando  os  alunos  estiverem  em  duplas,  lembre‐se  de  trocá‐las,  para  garantir  maior  integração  entre  todos  da  turma. Quando a atividade for individual e envolver o uso de cadeiras e bancos, solicite que os  alunos  tentem  não  tocar  nos  objetos  quando  aplicarem  os  golpes.  Lembre‐se  de  orientá‐los  para não executarem golpes com violência.      É  interessante  realizar  a  vivência  ao  som  de  um  CD  ou  fita  com  músicas  de  capoeira,  para  que  os  alunos  aprendam  a  executar  os  movimentos  de  forma  ritmada,  sincronizados com a ginga.    ‐ Armada ‐ Instrua os alunos a realizarem a armada passando o pé por cima de Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  uma  cadeira  ou  banco.  Eles  iniciam  gingando  de  frente  para  a  cadeira,  no  ritmo da música,‐ quando a perna direita ou esquerda estiver atrás, o aluno se  prepara para o golpe e passa a perna por cima da cadeira e volta para a ginga.  Lembre  os  alunos  de  sempre  gingar  antes  de  aplicar  o  golpe  e  alternar  as  pernas.  ‐ Meia‐lua  de  compasso  ‐  Instrua  os  alunos  a  gingarem  de  frente  para  a  cadeira, agachando, apoiando a mão direita no solo, próxima ao pé esquerdo,  e girando o corpo no sentido horário, tendo o pé esquerdo como pivô. Lança‐ se a perna direita estendida sobre a cadeira (mantendo uma distância segura  da  cadeira  para  evitar  acidentes).  Em  seguida,  solicite  que  executem  com  a  perna contrária, no sentido contrário.  ‐ Cabeçada  ‐  Solicite  aos  alunos  que  iniciem  a  ginga;  quando  o  colega  se  aproximar, gingando, um dos capoeiristas aplica a cabeçada, sem encostar no  outro.  Lembre  os  alunos  de  proteger  o  rosto  e  a  nuca.  Os  dois  membros  da  dupla realizam o movimento, um de cada vez.  ‐ Bênção  ‐  Gingando,  os  alunos  devem  apoiar  o  peso  do  corpo  na  perna  recuada e lançá‐la à frente, aplicando a bênção com a projeção da sola do pé  em direção à cadeira.  ‐ Chapa ‐ O aluno deve deixar o pé de apoio virado lateralmente, com a parte  interna voltada para a cadeira, e estender a perna contrária, projetando a sola  do pé, lateralmente, na horizontal, em direção à cadeira.  ‐ Chapa  de  costas  ‐  Solicite  que  os  alunos  fiquem  de  costas  para  a  cadeira,  a  uma distância em que a perna estendida não a toque. Olhando por baixo do  corpo,  apoiando  as  mãos  no  solo,  realizam  a  chapa  de  costas  em  direção  à  cadeira. Repetem com a outra perna.  ‐ Martelo  ‐  Solicite  que  os  alunos  coloquem  uma  cadeira  na  sua  frente  e  que  comecem  a  gingar.  Quando  uma  perna  estiver  atrás,  o  golpe  deve  ser  realizado pela extensão da outra e pelo movimento de chute, com o peito do  pé na horizontal, em direção à cadeira.     
  • 29. Golpes de defesa ‐ Au ‐ Movimento de deslocamento e fuga, realizado nas duas capoeiras. É um  golpe parecido com a estrela, só que, na estrela, as pernas ficam estendidas  para  cima.  No  au,  as  pernas  ficam  recolhidas,  protegendo  o  corpo.  Pode‐se  fazer com as pernas estendidas, mas é mais perigoso, pois expõe o corpo para  o oponente.     Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Au.htm.    ‐ Cocorinha  ‐  Este  movimento  é  característico  da  capoeira  regional.  É  um  movimento  de  defesa  ou  esquiva.  O  capoeirista  agacha  com  as  pernas  paralelas,‐ com um dos braços, vai proteger o rosto, colocando o antebraço à  frente; o abdome e o peitoral serão protegidos com os joelhos. A outra mão  será utilizada para apoiar no chão, se necessário, no caso de desequilíbrio.  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado    Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Cocorinha.htm.    ‐ Negativa  ‐  Movimento  de  defesa  no  qual  o  capoeirista  desce  sobre  uma  perna, que flexionará sob o peso do corpo, ao abaixar‐se. Com isso, temos o  corpo  sobre  uma  perna,  apoiado  no  calcanhar,  enquanto  a  ponta  do  pé  (flexionada)  firma  a  base  no  chão.  A  outra  perna  é  lançada  ao  lado  ou  à  frente,  estendida.  Os  braços  apóiam  as  mãos  ao  solo,  garantindo  ao  capoeirista  três  pontos  de  apoio  e  uma  posição  que  permite  locomoção  rápida.   Fonte: http://capoeira.kourou.free.fr/Page/Negativa.htm.    Vivências     Ao  som  de  músicas  de  capoeira,  divida  a  turma  em  duplas,  para  que  os  alunos  experimentem  praticar  os  golpes  de  defesa  descritos.  Lembre‐se  de,  mais  uma  vez,  advertir  quanto aos cuidados com a segurança. Instrua para que os alunos ginguem um de frente para  o  outro.  Após  a  ginga,  um  realiza  os  golpes  de  ataque,  enquanto  o  outro  membro  da  dupla  procura utilizar os golpes de defesa (au, cocorinha e negativas).   
  • 30.     Uma  outra  vivência  é  o  pega‐pega‐capoeira.  Escolha  dois  alunos  para  serem  os  capitães  do  mato  (pegadores).  Os  demais  alunos,  que  representam  os  escravos  fugitivos,  deverão  fugir  dos  capitães  e,  ao  serem  pegos,  ficarão  na  posição  de  cocorinha  ou  negativa.  Para  serem  salvos,  os  fugitivos  pegos  deverão  receber  algum  golpe  de  capoeira  dos  colegas  que não foram pegos. Comece combinando o golpe que salva e, depois, troque os golpes e os  pegadores também.    Roda de Capoeira     A  Roda  de  Capoeira  é  um  círculo  de  pessoas  onde  é  jogada  a  capoeira.  Os  capoeiristas  se perfilam na roda de capoeira batendo palma no  ritmo do berimbau e cantando a música enquanto  dois capoeiristas jogam capoeira. O jogo entre dois  capoeiristas  pode  terminar  ao  comando  do  capoeirista  no  berimbau  (normalmente  um  capoeirista  mais  experiente)  ou  quando  algum  capoeirista da roda entra entre os dois e inicia um novo jogo com um deles.    Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado    O  tamanho  da  roda  pode  variar  de  um  diâmetro  de  3  metros  até  diâmetros  superiores a 10 metros, ao mesmo tempo que pode ter meia dúzia de capoeristas até mais de  uma centena deles.      O jogo normalmente se inicia ao pé dos berimbaus. A roda de capoeira pode se  realizar em praticamente qualquer lugar, em ambientes fechados ou abertos, sobre o cimento,  a terra, a areia, o asfalto, na rua, numa praça, num descampado ou em uma academia.      Para que a roda seja realizada precisamos de uma orquestra de instrumentos. A  orquestra dos grupos de angola é normalmente configurada assim: ao centro da orquestra um  berimbau berra‐boi ou gunga (com a maior cabaça) que faz o som grave, do lado direito  um  berimbau  gunga  ou  médio  (com  a  cabaça  média)  que  faz  um  som  intermediário,  do  lado  esquerdo um berimbau viola (com a  cabaça menor) que faz o som agudo. Ao lado do gunga  vão  por  ordem  o  atabaque,  um  pandeiro  e  um  agogô,  já  ao  lado  do  viola  vão:  mais  um  pandeiro  e  um  reco‐reco  (instrumento  comumente  feito  do  bambu).  Na  capoeira  regional  temos: 1 berimbau(que podia ser o médio ou o viola) e 2 pandeiros      A  roda  de  capoeira  é  um  microcosmo  que  reflete  o  macrocosmo  da  vida  e  o  mundo que nos cerca. Vários elementos permeiam nossas relações com o mundo e no Jogo de   Capoeira  estes  elementos  aparecem  de  maneira  intensa.  Respeito,  malicia,  maldade,  responsabilidade,  provocação,  disputa,  liberdade,  brincadeira,  e  poder,  entre  outros,  estão  presentes em maior ou menor intensidade durante um jogo, e não há um jogo igual ao outro,  mesmo com um mesmo oponente.      Em  geral  a  capoeira  não  busca  destruir  o  oponente,  porém  contusões  devido  a  combates  mais  agressivos  não  são  raras.  Entretanto,  de  maneira  geral  o  capoerista  prefere  mostrar sua superioridade "marcando" o golpe no oponente sem, no entanto completá‐lo. Se  o seu oponente não pode evitar um ataque lento, não existe razão para utilizar um golpe mais  rápido.     
  • 31.   A ginga é o movimento básico da capoeira, é um movimento de pernas no ritmo  do  toque  que  lembra  uma  dança,  porém  capoeristas  experientes  raramente  ficam  gingando,  pois estão constantemente atacando, defendendo, e "floreando" (movimentos acrobáticos).       Além da ginga são muito comuns os chutes em rotação, rasteiras, golpes com as  mãos,  cabeçadas  (com  o  objetivo  principal  de  desequilibrar),  esquivas,  saltos,  mortais,  giros  apoiados  nas  mãos  e  na  cabeça,  movimentos  acrobáticos  e  de  grande  elasticidade  e  movimentos próximos ao solo.      O  jogo  de  capoeira  pode  durar  de  poucos  segundos,  quando  há  muitos  capoeiristas  se  revezando  dentro  da  roda,  até  alguns  minutos.  Combates  longos  assim  são  comuns quando dois capoeiristas resolvem confrontar suas habilidades ao máximo, ou mesmo  quando  os  dois  resolvem  suas  diferenças  na  roda.  Em  embates  longos  é  comum  a  volta  ao  mundo, que é quando um dos capoeiristas solicita uma pausa no jogo dando algumas voltas na  roda com o oponente o seguindo. Depois duas a três voltas os dois saem ao pé do berimbau  para continuar o jogo.      Cada  toque  requer  uma  forma  diferente  de  jogar  capoeira,  a  capoeira  Angola  pede um jogo mais lento perto do solo e com mais "mandinga" (matreiro, sutil, dissimulado),  São Bento Grande de Bimba um jogo rápido e de muitos chutes em rotação, Iúna um jogo com Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  muitos floreios (movimentos acrobáticos) e assim por diante.    Curiosidades ‐ As primeiras mestras de Capoeira Angola surgem somente no início do século   XXI,  sendo representadas pelas Mestras Janja e Paulinha, discípulas de Mestre  Morais,  Cobra  Mansa  e  João  Grande  e  atualmente  líderes  (junto  ao  Mestre  Poloca) do Grupo Nzinga de Capoeira Angola[2]    ‐ Mestre  Pastinha  começou  a  treinar  capoeira  por  intermédio  de  um  africano  que o viu apanhar de um rival em sua infância.    ‐ Mesmo depois de perder a visão mestre pastinha era temido por quem estava  jogando com ele.    ‐ Foi  mestre  Pastinha  que  falou  a  famosa  frase  "A  capoeira  é  Mandinga,  é  manha, é malícia, é tudo o que a boca come"    ‐ Dos 50 golpes bem aplicados da capoeira que Mestre Bimba ensinou, 22 eram  mortais.    ‐ Em 1930, o famoso caratê não era conhecido na Bahia.    ‐ Mestre Bimba foi o Capitão da Navegação Baiana.    ‐ Mestre  Bimba  teve  sua  primeira  escola  de  capoeira  Angola,  em  1918  com  apenas 18 anos, obtendo apenas em 1937 o alvará da Academia de Capoeira  Regional.    ‐ Segundo Mestre Noronha, o berimbau em seu tempo, era uma arma maligna e  mortal.  A  verga  (o  pau  do  berimbau),  era  usado  como  cassetete  e  a  varinha  servia para furar os olhos do adversário que tivesse má conduta. Na época em  que a capoeira era proibida.    ‐ Segundo  Luis  Edmundo,  nos  fins  do  século  XVIII,  no  Rio  de  Janeiro,  as  aventuras dos capoeiras eram de tal jeito que o governo, através da portaria  de 31 de outubro de 1821, estabeleceu castigos corporais e outras medidas de  repressão à prática de capoeira.    ‐ Na Bahia, de acordo com Manuel Querino, os capoeiristas se distinguiam dos  demais negros porque usavam uma argolinha de ouro na orelha, como insígnia  de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu à banda.     
  • 32. ‐ Os  capoeiristas  eram  contratados  pelos  políticos  para  bagunçar  no  dia  das  eleições.  Enquanto  as  pessoas  desviavam  a  atenção  para  a  confusão  dos  capoeiras um indivíduo colocava um maço de chapas na urna ou na linguagem  da época "emprenhava a urna". Vencia as eleições o candidato que dispunha  de maior n.º de capoeiras.    ‐ Milhares  de  capoeiristas  foram  para  a  Guerra  do  Paraguai,  pois  havia  sido  prometida  a  liberdade  no  final  do  conflito  àqueles  que  participassem  da  batalha.    ‐ Mestre Bimba é o mestre da capoeira regional.    ‐ Antes do arame, o "fio" do berimbau era feito de tripas de animais.     Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado   
  • 33. UNIDADE IV: INSTRUMENTOS E MUSICA NA CAPOEIRA Leonardo Delgado      A música é um componente fundamental da capoeira. Ela determina o ritmo e o  estilo do jogo que é jogado durante a roda de capoeira. A música é composta de instrumentos  e  de  canções,  podendo  o  ritmo  variar  de  acordo  com  o  Toque  de  Capoeira  de  bem  lento  (Angola) a bastante acelerado (São Bento Grande). Muitas canções são na forma de pequenas  estrofes  intercaladas  por  um  refrão,  enquanto  outras  vêm  na  forma  de  longas  narrativas  (ladainhas). As canções de capoeira têm assuntos dos mais variados.       Algumas canções são sobre histórias de capoeiristas famosos, outras podem falar  do cotidiano de uma lavadeira. Algumas canções são sobre o que está acontecendo na roda de  capoeira, outras sobre a vida ou um amor perdido, e outras ainda são alegres e falam de coisas  tolas,  cantadas  apenas  para  se  divertir.  Os  capoeiristas  mudam  o  estilo  das  canções  freqüentemente de acordo com o ritmo do berimbau. Desta maneira, é na verdade a música  que comanda a capoeira, e não só no ritmo mas também no conteúdo.  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado      O  toque  Cavalaria  era  usado  para  avisar  os  integrantes  da  roda  que  a  polícia  estava chegando; por sua vez, a letra é constantemente usada para passar mensagens para um  dos capoeiristas, na maioria das vezes de maneira velada e sutil.    INSTRUMENTOS     Os  instrumentos  são  tocados  numa  linha  chamada  bateria.  O  berimbau  é  o  principal instrumento da capoeira. Diz a lenda africana que uma menina saiu a passeio e, ao  atravessar  um  córrego,  abaixou‐se  para  beber  água  com  as  mãos.  No  momento  em  que  saciava  sua  sede,  um  homem  deu‐lhe  uma  pancada  na  nuca.  Ao  morrer,  seu  corpo  se  converteu  na  madeira,  seus  membros  na  corda,  sua  cabeça  na  caixa  de  ressonância  e  seu  espírito na música dolente e sentimental do berimbau.      Esse  é  talvez  um  dos  instrumentos  musicais  mais  primitivos  de  que  se  tem  informação. Considerado instrumento de corda e encontrado em várias culturas e lugares do  mundo, incluindo o Novo México (nos Estados Unidos), a Patagônia, a África Central, a África  do Sul e o Brasil. Ao Brasil, o berimbau chegou pelas mãos dos escravos africanos, por volta de  1538.     
  • 34. Berimbau     Os berimbaus criam uma corrente e uma vibração que, junto com as palmas, os  cantos,  o  pandeiro  e  o  atabaque,  influenciam  os  jogadores.  O  berimbau  varia  de  afinação,  podendo ser o berra boi (mais grave), viola (médio) e violinha (mais agudo). Existem três tipos Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  de berimbau:    ‐ GUNGA: de som mais grosso, faz o papel de contrabaixo: marca o ritmo;  ‐ BERIMBAU  MÉDIO  OU  DE  CENTRO  (BERIMBAU):  dobra  em  cima  do  ritmo  básico do gunga: é como se fosse o violão, ou guitarra de ritmo;  ‐ VIOLA OU VIOLJNHA: é o berimbau de som mais agudo; faz os "contra toques"  e improvisos: equivaleria ao violão ou guitarra‐solo.      O berimbau é feito com um arco de madeira (chamada biribá), e com um fio de  arame  preso  nas  duas  extremidades  desse  arco.  Uma  cabaça  com  uma  abertura  em  um  dos  lados  é  presa  à  parte  inferior  externa  do  arco,  aproximadamente  de  20  a  25  centímetros  da  ponta do instrumento, com um pedaço de corda. Essa corda é também amarrada em torno do  fio  de  arame,  e  quando  pressionada  ela  altera  o  som  do  mesmo.  Os  tons  do  berimbau  são  modificados  pela  aproximação  e  afastamento  da  cabaça  em  relação  ao  corpo  músico,  assim  abrindo ou fechando o buraco. Os outros 3 componentes: o dobrão, que é segurada contra o  arame, uma pequena vareta para tocar o fio (baqueta), e o caxixi.        ‐ Caxixi:  São  cestos  entrelaçados  enchidos  com  pequenas  contas,  conchas,           pedras,          feijões,          dentre          outras          coisas. Por serem feitos à  mão eles existem em vários formatos e tamanhos, usado como chocalho pelo  tocador  de  berimbau,  o  qual  segura  a  peça  com  a  mão  direita,  juntamente  com a Baqueta, executando o toque e marcando o ritmo.    
  • 35. ‐ Baqueta: É uma vareta de madeira de, aproximadamente 30 a 40 centímetros,  tendo  uma  extremidade  mais  grossa  que  a  outra.  A  vareta  é  normalmente  feita de biriba.  ‐ Dobrão: Usado para auxiliar as variações de toques do berimbau, geralmente  é uma pedra, mas também utilizam moeda.      Os  diferentes  ritmos  utilizados  na  capoeira,  como  tocados  no  berimbau,  são  conhecidos  como  toques.  Existem  diversos  tipos  de  toques  dentro  da  capoeira,  sendo  que  cada um é executado de acordo com a situação. São eles:      ‐ Toque de Angola: jogo lento, malicioso;   ‐ Toque  de  São  Bento  Pequeno:  jogo  médio,  embaixo  e  em  cima,  jogo  de  exibição técnica. Caracteriza‐se por ser um misto do sistema aeróbio(angola)  e anaeróbio(São Bento Grande);   ‐ Toque de São Bento Grande: jogo dentro, ligeiro, agressivo;   ‐ Toque Iúna: é o toque dos mestres e em alguns lugares os formados também  jogam. Pode ser caracterizado pelo jogo onde se usam os chamados "balões  cinturados"  da  regional.  Não  há  canto  nem  palmas.  Além  disso,  pode  ser  utilizado como toque fúnebre;   ‐ Toque de Amazonas: saudação, quando algum mestre chega na roda;  Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  ‐ Toque de Cavalaria: toque de aviso, para debandar quando a polícia montada  chegava, ou seja, a cavalaria;   ‐ Toque de Santa Maria: jogo de navalha, no pé ou na mão.   ‐ Toque  de  Benguela:  antigamente  era  jogo  de  porrete,  hoje  em  dia  é  usado  como  se  fosse  um  jogo  malicioso  de  capoeira  regional,  jogo  técnico,  para  acalmar os ânimos quando dois capoeiristas se estranhavam.   ‐ Toque de Idalina: jogo de faca ou facão.   ‐ Toque de Lamento: toque fúnebre.   ‐ Toque de Samba de Roda: original da roda de samba, geralmente feito ao final  da roda para descontrair.      Pandeiro       Instrumento  de  percussão,  de  origem  indiana  que  requer  considerável  técnica  para  ser  tocado.  Pandeiros  podem  ter  peies  de  couro  ou  de  plástico.  Eles  existem  em  diferentes tamanhos, com os de 10 e 12 polegadas sendo os mais comuns. As peles de couro  produzem  uma  qualidade  de  som  melhor,  mas  apresentam  problemas  de  afinação  causados  por  alterações  climáticas,  logo  as  peles  de  plástico  são  mais  encontradas.  O  pandeiro  é  segurado por uma das mãos, enquanto a ponta dos dedos, o polegar e a base da outra mão  são usados para tocar a pele do lado de cima. Os tons abertos e fechados podem ser obtidos  através  do  uso  do  polegar  ou  do  dedo  médio  da  mão  que  segura  o  instrumento.  O  polegar  pode abafar a pele do lado de cima, o dedo médio pode abafar o lado de baixo. Foi introduzido  no  Brasil  pelos  portugueses,  que  o  usavam  para  acompanhar  as  procissões  religiosas  que   
  • 36. faziam. É o som cadenciado do pandeiro que acompanha o som do caxixi do berimbau, dando  "molejo" ao som da roda. Ao tocador de pandeiro é permitido executar floreios e viradas para  enfeitar a musica.    Atabaque     Instrumento de origem árabe, que foi introduzido na África por mercadores que  entravam  no  continente  através  dos  países  do  norte,  como  o  Egito.  É  geralmente  feito  de Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  madeira de lei como o jacarandá, cedro ou mogno cortada em ripas largas e presas umas às  outras com arcos de ferro de diferentes diâmetros que, de baixo para cima dão ao instrumento  uma  forma  cônico‐cilíndrica,  na  parte  superior,  a  mais  larga,  são  colocadas  "travas"  que  prendem  um  pedaço  de  couro  de  boi  bem  curtido  e  muito  bem  esticado.  É  o  atabaque  que  marca o ritmo das batidas do jogo. Juntamente com o pandeiro é e!e que acompanha o solo  do berimbau.    Agogô     Instrumento  de  origem  africana  composto  de  um  pequeno  arco,  uma  alça  de  metal  com  um  cone  metálico  em  cada  uma  das  pontas,  estes  cones  são  de  tamanhos  diferentes, portanto produzindo sons diferentes que também são produzidos com o auxílio de  um  ferrinho  que  é  batido  nos  cones.  Também  faz  parte  da  "BATERIA"  da  roda  de  capoeira  Angola na Bahia        Pesquisa em grupo     Para pesquisar sobre outros instrumentos musicais utilizados na capoeira, divida a  turma em grupos e passe a seguinte tarefa:     
  • 37. ‐ Investigar  quais  são  os  instrumentos  mais  freqüentes  da  capoeira  na  região,‐  como  são  fabricados,  qual  o  material  de  que  são  feitos,  como  se  toca  cada  instrumento e qual seu papel na roda de capoeira;  ‐ Conseguir alguns dos instrumentos para apresentar aos colegas na aula;  ‐ Apresentar a pesquisa para o resto da turma.      Observação:  procurar  auxílio  do  professor  de  artes  para  realizar  algumas  dessas  atividades em conjunto.    Confecção dos instrumentos     Os  instrumentos  de  capoeira  têm  um  custo,  ainda  que,  hoje  em  dia,  sejam  facilmente  encontrados  no  comércio,  em  lojas  de  instrumentos  musicais,  de  produtos  de  capoeira, em casas de umbanda ou mesmo em lojas virtuais, nos sites de capoeira.      Caso  a  escola  não  tenha  acesso  aos  instrumentos  musicais  da  capoeira,  uma  alternativa é a confecção deles com materiais recicláveis.      Sugerimos  que  uma  das  atividades  da  aula  seja  confeccionar  qualquer  um  dos Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  instrumentos  utilizada  na  capoeira.  Esse  tipo  de  atividade,  além  de  fornecer  materiais  importantíssimos para o desenvolvimento das aulas de capoeira, dá aos alunos a oportunidade  de se tornarem agentes na construção do conhecimento, propiciando uma maior valorização  da capoeira como elemento da cultura corporal.    Reco-reco Material:  ‐ Uma garrafinha de água mineral de 500 ml, com sulcos no corpo; ou  ‐ Um cabo de vassoura de 20 a 25 cm de comprimento, com sulcos recortando o  corpo, de 5 mm em 5 mm (feitos com uma serrinha); ou  ‐ Um pedaço de cano de PVC, com sulcos feitos também com uma serrinha ou  queimando‐se o PVC com metal incandescente; ou  ‐ Um  gomo  de  bambu  grosso,  com  5  cm  a  10  cm  de  diâmetro,  sulcado  da  mesma maneira.      Como tocar: raspa‐se uma caneta ou baqueta na garrafa ou no cabo de vassoura,  por  exemplo,  com  movimentos  contínuos,  para  cima  e  para  baixo,  emitindo  um  som  que  realmente lembra a palavra reco‐reco.    Agogô Material:  ‐ Pequenas latas de achocolatado ou de leite em pó de 400 g;  ‐ Latas  menores  de  massa  de  tomate,  de  ervilha  ou  outras,  de  200  g,  ou  menores;  ‐ Cabo de vassoura;  ‐ Prego e parafusos pequenos.      O instrumento consiste em duas latas fixadas a um pedaço de cabo de vassoura  de 25 cm a 30 cm. A lata deverá estar aberta em um dos lados. Fura‐se o fundo com um prego  pequeno.   
  • 38.     Há  dois  tamanhos  de  agogô.  Para  o  maior  deles,  são  utilizadas  duas  latas  pequenas,  como,  por  exemplo,  lata  de  achocolatado  ou  de  leite  em  pó  de  400  g  e  uma  lata  menor, de massa de tomate de 200 g. Já para o outro agogô, menor, uma lata de 200 g e uma  lata menor, de 70 g ou 90 g. A lata deverá estar aberta em um dos lados. Fura‐se o fundo com  um prego pequeno.      O pedaço de cabo de vassoura de 25 cm serve para o agogô menor e o de 30 cm,  para o agogô maior. Aparafusam‐se com um parafuso pequeno (que não atravesse o diâmetro  completo  do  cabo  de  vassoura),  de  ponta  fina  e  pontiaguda,  as  latas  no  cabo  de  vassoura.  Entre  uma  lata  e  outra,  deve  haver  uma  pequena  distância  (de  aproximadamente  3  cm  a  5  cm).      Como tocar: utilizando‐se de uma baqueta, como a do reco‐reco, bate‐se com ela  nas laterais das duas latinhas, intercalando batidas em diferentes ritmos.    Atabaque Material:  ‐ Recipiente  de  plástico  ou  lata,  cilíndrico,  grande,  de  30  cm  a  100  cm,  como, Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  por  exemplo,  galões  de  material  para  construção  ou  de  alimento,  ou  um  recipiente grande e cilíndrico de papelão.      O  plástico  e  o  papelão  têm  o  som  mais  adequado  para  o  atabaque  alternativo.  Porém, caso seja difícil encontrar esses materiais, podem ser usados também latas ou latões  de  tinta.  Qualquer  que  seja  o  recipiente  utilizado,  ele  deverá  ter  um  dos  lados  fechado  e  o  outro aberto.      Outra  orientação  é  o  cuidado  com  a  limpeza.  Todo  recipiente  deve  ser  bem  lavado, até que não tenha mais nenhum odor nem resíduo do produto que continha.      Como tocar: acomoda‐se o atabaque no colo ou em algum apoio, de modo que a  extremidade  aberta  fique  livre  (sem  contato  com  o  chão),  e  bate‐se  com  as  mãos,  alternadamente, na extremidade fechada.    Pandeiro Material:  ‐ Tampinhas de garrafa,‐  ‐ Arame,‐  ‐ Recipientes de plástico ou metal, circulares, com diâmetro de 15 cm a 25 cm,  aproximadamente.      Um  recipiente  de  metal  poderia  ser  uma  lata  arredondada  de  goiabada,  por  exemplo. Latas de tinta também servem, porém, devem ser primeiramente bem lavadas, para  retirar o odor e todo o resíduo. É preciso também um cuidado especial com a borda, para que  não fique cortante. Para resolver esse problema, dobra‐se de 0,5 cm a 1 cm de borda para o  lado  de  dentro  da  lata.  No  caso  do  recipiente  de  plástico,  quando  for  cortado  e  ficar  com  rebarbas pontiagudas, pode‐se lixar o material, deixando‐o uniforme.      Feito  o  corte,  o  material  se  apresentará  como  uma  tampa  com  laterais.  Nessas  laterais, deverão ser realizados alguns cortes de aproximadamente 5 cm de comprimento, na   
  • 39. horizontal, e 2cm de altura, na vertical. Esses cortes deverão ficar a uma distância de 5 cm a 10  cm um do outro, em toda a volta do pandeiro.      As tampinhas deverão ser amassadas, de maneira que fiquem abertas, como uma  moeda. Em seguida, deverão ser furadas no centro, com um prego pequeno, para que se passe  um arame, com folga, nesse orifício.      Então, meça o meio da distância entre os cortes e 0,5 cm acima e 0,5 cm abaixo  deles, na parede do pandeiro, faça um pequeno furo, para que o arame seja amarrado. Antes  de  prender  as  duas  pontas,  coloque  duas  tampinhas  no  arame,  de  maneira  que  fiquem  nos  buracos  do  pandeiro.  Para  uma  variação  do  som,  também  podem  ser  colocadas  três  tampinhas. Cuidado para que as pontas do arame não fiquem muito grandes e nem expostas,  com perigo de furar a mão de quem manusear o instrumento. Uma fita, um pedaço de papelão  ou mesmo plástico deverá revestir essas pontas de arame, como acabamento.      Como  tocar:  segura‐se  o  pandeiro  com  uma  das  mãos  e  bate‐se  com  a  outra,  procurando  bater  em  diferentes  pontos,  para  obter  sons  variados.  Ê  possível  também  chacoalhar o pandeiro, para obter apenas o som do chocalho das tampinhas.    BerimbauMeus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  Material:  ‐ Bambu;  ‐ Lata de leite em pó ou achocolatado de 400 g, ou lata de ervilha de 200 g;  ‐ Casca de coco,‐  ‐ Barbante,‐  ‐ Pneu de carro.      O corpo do berimbau é composto pelo bambu, cortado entre 80 cm e 100 cm de  comprimento. A espessura não deverá ultrapassar a de um cabo de vassoura. Envergam‐se as  duas pontas do bambu, de maneira a formar um arco simétrico.      Para obter arame de boa qualidade e em quantidade suficiente, podemos utilizar  pneus  de  carro,  cujas  bordas  internas  contêm  uma  quantidade  enorme  de  arame.  Para  isso,  deve  ser  retirada  a  borracha,  até  que  o  arame  fique  exposto.  Depois  de  retirado  do  pneu,  o  arame deve ser limpo e tratado com uma lixa e palha de aço. O arame deve ter de 15 cm a 20  cm de comprimento além do tamanho do pau do berimbau.      Prende‐se  uma  das  pontas  do  arame  na  extremidade  inferior  do  bambu,  dando  uma ou duas voltas e fixando‐a bem forte. Em seguida, duas pessoas arqueiam o bambu, como  um  arco.  Enquanto  uma  das  pessoas  mantém  o  bambu  arqueado,  a  outra  prende  a  outra  extremidade  do  arame  na  extremidade  superior  do  bambu,  de  maneira  a  manter  o  bambu  arqueado.      É  hora  de  fixar  a  cabaça,  que  será  substituída  por  lata  ou  casca  de  coco.  Tanto  uma como outra deverão ter dois furos pequenos no fundo, feitos com um prego pequeno, no  caso da lata, ou com uma furadeira, no caso da casca de coco, para que não rache. Os furos  devem ser paralelos e ter uma distância de aproximadamente 1,5 cm a 3 cm entre si. Para fixar  a cabaça improvisada no arco do berimbau, deve‐se passar um barbante pelos furos da lata ou  da  casca  de  coco  e  em  volta  do  arame  do  berimbau,  de  maneira  que  o  fundo  da  lata  ou  da  casca de coco fique encostado no bambu e totalmente estabilizado.     
  • 40.   Como tocar: segura‐se o berimbau com uma das mãos pela extremidade inferior,  apoiando  a  cabaça  na  barriga.  Apóia  o  dedo  mínimo  abaixo  do  barbante,  para  sustentar  o  berimbau.  Os  dedos  anular  e  médio  envolvem  a  madeira  do  berimbau,  logo  acima  do  barbante,  dando  estabilidade.  Os  dedos  indicador  e  polegar  seguram  a  moeda  ou  pedra,  movimentando‐a  para  a  frente  e  para  trás,  encostando‐a  e  desencostando‐a  do  arame,  mudando  assim  a  nota  musical.  Na  outra  mão,  segura‐se  a  baqueta,  entre  o  polegar  e  o  indicador:  os  outros  dedos  envolvem  o  caxixi  (quando  houver  um  caxixi  com  alça,  como  o  convencional).    Caxixi Material:  ‐ Garrafas pequenas e grandes de refrigerante;  ‐ Fita adesiva ou durex;  ‐ Pedrinhas, feijão ou arroz;  ‐ Barbante ou grampos de grampeador.      Para  este  instrumento,  que  é  um  pequeno  chocalho  com  uma  alça,  existem  as  mais variadas formas de confecção. Mostre a figura do caxixi aos alunos e deixe que cada um  crie seu próprio caxixi, desde que fique parecido com o caxixi convencional. Para tocar com o Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado  berimbau,  deverá  ser  semelhante  no  tamanho  também,  mas  para  tocar  sem  o  acompanhamento do berimbau, o tamanho pode variar.      Como tocar: para se tocar o caxixi com o berimbau, basta dar uma chacoalhada  com  a  mão  que  o  segura,  juntamente  com  a  baqueta,  após  uma  sequência  de  batidas  da  baqueta  no  arame  do  berimbau.  Para  tocá‐lo  separadamente  do  berimbau,  basta  segurá‐lo  com uma das mãos e realizar movimentos de flexão e extensão do cotovelo, levando o caxixi  para a frente e para trás, fazendo com que os feijões, os grãos de arroz ou as pedrinhas do seu  interior façam som de chocalho.    Baqueta Material:  ‐ Caneta;  ‐ Bambu,‐  ‐ Espeto de bambu para churrasco.      Como baqueta de reco‐reco ou berimbau, podemos utilizar uma caneta usada, um  espeto de bambu para churrasco ou mesmo cortar várias varetas finas (não mais espessas do  que  um  lápis  ou  uma  caneta)  de  um  gomo  de  bambu  de  aproximadamente  30  cm  de  comprimento.    Vocabulário Básico da Capoeira    Abadá – Roupa branca usada pelos capoeiristas regionais.   Angola – Modalidade de capoeira codificado por Mestre Pastinha.   Angoleiro – Praticante da Capoeira de Angola.   Batizado – Cerimônia na qual o capoeira assume o seu papel de praticante da arte, recebendo  sua primeira graduação.   Berimbau – Principal instrumento da capoeira. O jogo começa e termina a seu pé. E dá o ritmo  ao jogo.   Batuque – Antigo método de combate, similar a Luta‐livre.    
  • 41. Bimba – Manoel dos Reis Machado, criador e Mestre da Capoeira Regional.   Pastinha – Vicente Ferreira Pastinha, Mestre da Capoeira Angola.   Camará – Amigo capoeirista.   Capoeira – Clareiras abertas na mata; lugares com mato baixo.   Chamada  de  Angola  –  É  um  passo  onde  um  jogador  abre  os  braços  em  cruz  e  “chamada”  o  outro para o combate.   Cordão – É trazido amarrado na cintura, as cores representa sua graduação.   Corrido – São versos ou palavras cantadas.   Iê – Termos utilizados nas cantigas para chamar a atenção dos capoeiristas.   Iuna  – Toque musical solene utilizado por Mestre Bimba, é característica da Capoeira Regional  (luta).   Ladainha  –  Uma  cantiga  parecida  com  uma  reza,  geralmente  cantada  pelo  mestre  ou  aluno  mais graduado, é utilizada para alcançar concentração no jogo.   Maculelê – Dança ritual, convertida pelos escravos em técnica de combate.   Malícia – Exclusiva da capoeira “manha”.   Regional – Modalidade criada pelo Mestre Bimba.   Tucum  –  Árvore  espinhosa  que  se  dizia  ter  poder  de  combater  magias,  era  usada  pelos  capoeiristas na forma de uma faca, feita com a sua madeira.   Meus estudos sobre capoeira ‐ Leonardo de Arruda Delgado   
  • 42. REFERENCIAL ALMEIDA, Raimundo Cesar Alves, A saga do Mestre Bimba. Salvador: Edição do Autor 1994..  ALMEIDA, Raimundo Cesar Alves, Bimba Perfil do Mestre. Salvador: Edição do Autor, 1982.  BARBIERI, Cesar Augustus S., Um jeito brasileiro de aprender a ser. Brasília: CIDOCA/DF. 1993.  CAMPOS, Helio, Capoeira na escola. Salvador: Presscolor, 1990.  CAMPOS, Helio, Capoeira, o método de ginástica brasileiro. Negaça. Salvador, 1992.  Ano I. (1): 46‐49.  DARIDO,  Suraya  Cristina  &  SOUZA  JR.,  Osmar  Moreira.  Para  ensinar  educação  física: possibilidades de intervenção na escola. Capinas, SP: Papirus, 2007.  FALCÃO, José Luiz Cirqueira, A escolarização da capoeira. Brasília: Editora Royal Court, 1996.  FALCÃO,  José  Luiz  Cirqueira,  Capoeira  e/na  educação  física,  Sprint  magazine,  Rio  de  Janeiro: 1995. Ano XIV ‐  (79):10‐14.  FILHO, Angelo A. Decanio, A herança de Mestre Bimba. Salvador: Edição do Autor, 1996  LOPES, Augusto José Fascio,  O maculelê. Revista Capoeira. São Paulo: 1998. Ano 1 (03): 40‐41.  LOPES, Augusto José Fascio, Curso de capoeira em 145 figuras. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1979.  MARINHO, Inezil Penna, A Ginástica brasileira. Brasília: Edição do Autor, 1982.  MOURA, Jair, Jornal o Município, Salvador, 1968. Ano II, (1): 4‐5,  MOURA, Jair, Cadernos de cultura, N.º 01, Salvador: Prefeitura Municipal do Salvador, 1979.  MOURA, Jair, Mestre Bimba ‐ A Crônica da capoeiragem. Salvador, Edição do Autor, 1993.  MUNIZ, Sodré, O Brasil simulado e o real. Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora, 1991,  p.17‐18.  NESTOR, Capoeira, Capoeira os fundamentos da malícia. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.  REGO, Waldeloir, Capoeira angola. Salvador: Editora Itapuã,1968.  SANTOS,  Luis  Silva,  Educação  ‐  educação  física  ‐  capoeira.  Maringá:  Fundação  Universidade Estadual de Maringá, 1990.  SENNA, Carlos, Capoeira Percurso. Salvador: Edição do Autor, 1990.  SILVA, Gladson de Oliveira, Capoeira do engenho à universidade. São Paulo: CEPEUSP 1995..  
  • 43. SILVA, Gladson de Oliveira, Novos status mas com tradição. Revista Capoeira. São Paulo: 1999. Ano II (04): 26‐27.  SOARES, Carlos Eugênio Líbano, A Negregada instituição. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994..  TUBINO, Manoel José Gome, Dimensões sociais do esporte. São Paulo: Editora Cortez.  VIEIRA, Luís Renato, O jogo de capoeira. Rio de Janeiro: Editora Sprint. 1995.  VIEIRA,  Luís  Renato,  Capoeira:  os  primeiros  momentos  de  sua  história.  Revista  Capoeira,  São Paulo: 1998. Ano 1 (01): 42‐44.  VIEIRA, Luís Renato, De prática marginal à arte marcial brasileira. Revista Capoeira, São Paulo: 1998. Ano 1 (03): 42‐43.  Wikipédia,  a  enciclopédia  livre.  Capoeira  (arte  marcial).  Disponível  on  line  via:< http://pt.wikipedia.org/wiki/Capoeira_%28artes_marciais%29>, Capturado em: 15 de outubro de 2011.   

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