A utilização da sala de aula como local de pesquisa
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A utilização da sala de aula como local de pesquisa Document Transcript

  • 1. FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ UNIVERSIDADE DE FORTALEZA – UNIFOR CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS PROGRAMA DE PÓS – GRADUAÇÃO EM DIREITO MESTRADO EM DIREITO CONSTITUCIONAL DIDÁTICA DO ENSINO SUPERIOR PROFESSOR: ROSENDOA UTILIZAÇÃO DA SALA DE AULA COMO LOCAL DE PESQUISA Francisco José Gomes da Silva Matrícula nº 0724518-1 Fortaleza - CE Junho, 2008
  • 2. SUMÁRIOIntrodução..................................................................................................................... 001 O educar para a Pesquisa............................................................................................ 002 A Humanização da Ação Pedagógica......................................................................... 003 A Superação da Educação Bancária............................................................................ 004 A Dialogicidade nos cursos de Direito....................................................................... 005 A Influência da Tecnologia na Educação Contemporânea......................................... 006 Metodologia ............................................................................................................... 00Conclusão....................................................................................................................... 00Referências..................................................................................................................... 00
  • 3. INTRODUÇÃO O trabalho ora me tela tem por escopo apresentar a nova realidade do aprendizado em salade aula. A modernidade atingiu de forma rápida os bancos escolares e acadêmicos deixandoultrapassado o sistema de ensino de outrora, que consistia apenas em ensinamentos orais entremestres e alunos. Atualmente, o desenvolvimento tecnológico oportunizou a melhoria do ensino com estudosvirtuais, debates on line, realização de experiências e observação de fenômenos em tempo real.Essas novas técnicas solucionam um problema deveras antigo, que era o marasmo das técnicas derepetição utilizadas em salas de aulas. Hodiernamente as discussões enriquecem de sobremaneirao entendimento dos alunos, pois é possível absorver opiniões de inúmeras pessoas sobre ummesmo fato, com observações e análises distintas, de acordo com o cotidiano de cada um, o queproporciona a disseminação da cultura e a aproximação dos conhecimentos da realidade que oscercam. Desse modo, pretende-se elaborar um estudo demonstrando a potencialidade da sala de aulacomo um espaço físico e material a ser aproveitado para pesquisas no ensino superior, emparticular, no ensino jurídico. A aprendizagem universitária pressupõe, por parte do aluno, a aquisição e o domínio deconhecimentos, métodos e técnicas científicas de forma crítica. Faz parte dessa aprendizagemadquirir progressiva autonomia na aquisição de conhecimentos, para que se tornem capazes derefletir, optar, comparar, pesquisar e emitir opiniões. Através da pesquisa, o aluno começa a se co-responsabilizar por buscar informações, aaprender a localizá-las, a analisá-las, a relacionar novos dados com os anteriores, a estabelecerparâmetros, registros, trabalhos com novos dados e a redigir conclusões a fim de solucionarproblemas. Nesta situação, a aprendizagem se torna cada vez mais significativa para o aprendiz. Onovo modelo de sala de aula, com disponibilização de recursos de multimídia, internet,audiovisual, dentre outras ferramentas que despertam o interesse do aluno, certamente capacitará
  • 4. de forma melhor os estudantes. Desta forma, a pesquisa levará ao diálogo crítico e criativo com arealidade, desenvolvendo a elaboração própria e a capacidade de intervenção. Pesquisar em educação é um princípio educativo-científico, exige competência. Pesquisanão é cópia. Ela deve ser encarada como produção através do que foi lido, refletido, comparado eselecionado. É fundamental que na sala de aula haja métodos que “ensinem” a pesquisar. AUniversidade é o campo do pesquisador, pois lá estão disponíveis as ferramentas para o alunobuscar o que lhe parecer de melhor para unir a teoria e a prática.
  • 5. 1 O EDUCAR PARA A PESQUISA Iniciaremos o presente tópico destacando os ensinamentos do professor Lucke et al (1991,p. __) no tocante a educação e pesquisa: A pesquisar não se restringe a seus aspectos sofisticados mais conhecidos, que supõe domínio de instrumentações pouco acessíveis. Também não significa apenas esforço teórico, mera descoberta de lógicas e sistemas, simples experimentações laboratoriais. Ainda, não se esgota em ritos tipicamente acadêmicos com se fosse atividades exclusivas. Em primeiro lugar, pesquisa significa diálogo crítico, criativo e dinâmico com a realidade,culminando na elaboração própria e na capacidade de intervenção. Em tese, pesquisa é a atitudedo “aprender a aprender” e, como tal, faz parte de todo o processo educativo e emancipatório quedeve ser estimulado desde o pré-escolar até os estudos mais profundos da pós–graduação. Quantoao estágio escolar inicial à pesquisa tem um caráter interativo, explora os questionamentos edesenvolve construções alternativas de conhecimento. O segundo estágio de estudo é maisavançado, vai além dos questionamentos e suposições; nessa seara de conhecimento deve-sebuscar apoio científico para fundamentar as novas descobertas. Podemos colocar isto mal ao insinuar que pesquisa pode ser “qualquer coisa”, recaindo nolado oposto da extrema sofisticação. Não é o caso, pois estamos nos movimentando no espaçotípico da qualidade formal e política, não de qualquer coisa. Pesquisa, tanto como princípiocientífico quanto educativo, exige profunda competência e renovação incessante. Em segundo lugar, a pesquisa fundamenta o ensino e evita que este seja um simples repassede cópias. Ensinar perpetua a função da escola e da universidade, mas não se pode mais tomarcomo ação auto-suficiente. Quem pesquisa tem o que ensinar; deve, pois, ensinar a produzir e nãoa copiar. Quem não pesquisa nada tem a ensinar, pois apenas ensina a copiar. Em terceiro lugar, a pesquisa aponta para a direção correta da aprendizagem, que deve serelevada a “aprender a aprender”. Aprender é uma necessidade vital, de ordem instrumental, mas aemancipação se processa pelo aprender a aprender. É fundamental, portanto, “ensinar” apesquisar, ou seja, superar a mera aprendizagem, sempre que possível. No fundo, só aprendequem aprende a aprender. Tanto a escola quanto a universidade não buscam o aprendiz, mas opesquisador ou o mestre capaz de produzir projetos próprios.
  • 6. Em quarto lugar, a pesquisa acolhe na mesma dignidade teoria e prática, desde que se tratede dialogar com a realidade. Cada processo concreto de pesquisa pode acentuar mais teoria ouprática; pode interessar-se mais pelo conhecimento ou pela intervenção; pode insistir mais emforma ou em política. Todavia, como processo completo, toda teoria precisa confrontar-se com aprática e toda prática precisa retornar a teoria. É preciso rever e repensar, portanto, os paradigmas que norteiam o atual ensino jurídicopátrio, sob pena de formação de profissionais sem a necessária competência. Despertar para esseproblema é evitar a vitória do descaso dentro das universidades brasileiras. O papel dos antigosprofessores e suas técnicas de repetição para proporcionar o aprendizado foi superado pelo tempoe, principalmente, pela omissão sobre o papel ético-jurídico que é chamado de um jurista. Deve ser feita uma maior conscientização dos estudantes sobre a importância do ensino,também é preciso que eles sejam avaliados por meio de pesquisas, trabalhos, debates e provas arespeito de suas descobertas e conhecimentos. O ensino-aprendizagem no campo jurídico é muitoamplo e prima facie supera o mero apego ao positivismo legal e ao estudo de suas lacunas. De outra forma, dentre tantas criações humanas, a argumentação e a hermenêutica, porexemplo, de longa data discursada por Aristóteles (cfe. Perelmann, Viehweg, Alexy, Dworkinetc…), que nos legou uma forma de pensar e refletir os problemas que, em suma, representa nãoapenas uma mera teoria, mas uma reflexão sobre a práxis e a "capacidade de um contatocompreensivo com os homens" (Gadamer), são tônicas que se coadunam com as ferramentasnaturais do ser humano e que deveriam retomar um lugar seguro nas grades curriculares.Infelizmente, ousamos apenas reproduzir o que já se encontra em outros programas aplicáveis aoutros ambientes e a outras propostas. A ciência humana em sua essência propicia oportunidades participativas e democráticassem desprezar os limites ou podar as contribuições de cada elemento do processo ensino-aprendizagem, torna possível compreender, refletir, pensar e respirar como um ser humano,biológica e afetivamente como um ser factível que é, sem desprezar o seu meio e o seu mundo.Daí poder dizer-se que o ensino–aprendizagem se torna cada vez mais interativo. O arbítrio ficarámais arejado, partindo-se de um ponto real e não de meras imposições teorias, “sorrisos irônicos eaté mordazes”, como adverte o doutrinador Reale (0000, p. 00), quando se refere à arte como
  • 7. requisito para a formação de um jurista, tornar-se-ão frutos apenas de preconceitos e insegurançasda ignorância. Com efeito, adicionados os ideais pautados no Princípio de Evitabilidade de Conflitos,volta-se para uma concepção de prevenção de conflitos, ou seja, para o desenvolvimentocientífico de “pré-soluções para inexistência de controvérsias” em eventuais questões sócio -jurídicas, embora possa parecer algo de inovador não o é. A composição, a autocomposição e amediação são técnicas aplicadas antes do nascimento da lide que já demonstraram a possibilidadede uma pré-solução de pré-conflitos, com finalidade maior de não se alcançar a “zona deconflitos”. Machiavel ensinou que: “Guerra existe, se existente o guerreiro com animus de guerrear.Paz, de outra banda, reinará se inexistente aquele sujeito com aquela vontade ou por puraconvivência entre pacíficos”. Dá para imaginar as conseqüências trágicas, quando, em caso deguerra, o guerreiro se utiliza de suas características enquanto ser pensante e elege seus ideais,pelos quais acredita para justificar a batalha, com intuito único de atingir o seu fim. Logo, contrariamente aos ensinamentos da atual vertente, parte-se hoje da mesma premissacom que se criam normas, porque se sabe que certamente alguém irá burlá-las ou pelo menos,num segundo momento, violá-la. De qualquer forma, surgirá um conflito e o operador do direitopreparado academicamente tão somente para este momento surge para resolvê-lo. Ademais, para incentivar ações e idéias antecipatórias não devemos esquecer a estampaeducacional das lições de Paulo Freire na relação docente-discente, in verbis: “não há educaçãosem amor. O amor implica luta contra o egoísmo. Quem não é capaz de amar os seres inacabadosnão pode educar. Não há educação imposta, como não há amor imposto. Quem não ama nãocompreende o próximo, não o respeita”. Assim, “humanizar o ensino jurídico” se impõe como uma necessidade. Os reflexos sãoinevitáveis. Banir a frieza das leis, a começar pelos próprios operadores do direito, não significadesprezar o sistema jus positivista (vigente em nosso meio), quer dizer atender aos verdadeirospreceitos ético-jurídicos, doravante e principalmente pelos novos juristas, que devem primar pelapaz social, fraternidade e justiça entre os homens.
  • 8. O direito é o sustentáculo da sociedade e seus operadores devem ter ciência de que oconhecimento resulta do estudo, sem o estudo não se aplicam as normas como se deve. Dessaforma, a justiça não é feita e a sociedade poderá vir a trocar sua organização pela anarquia,refugando a tão necessária figura do Estado Democrático de Direito. Por derradeiro, é sempre salutar rememorar as palavras do altissonante FrancescoCarnelutti: “se o pintor não ama seu modelo o retrato nada vale, e se o juiz não ama o indiciadoem vão pensa poder alcançar justiça”. Diante do exposto, resta demonstrado que urge nos cursos jurídicos em geral uma reformapara promover a valorização do ensino e uma nova postura para o estudante de direito. Este devedirecionar seus estudos com atenção aos princípios, às normas e, principalmente, às inovaçõeslegislativas, tudo para que haja dinâmica em sua aprendizagem e facilitação em sua atuação, oque proporcionará uma sociedade mais justa, fraterna e ética.2 A HUMANIZAÇÃO DA AÇÃO PEDAGÓGICA Paulo Freire, em sua obra Pedagogia do Oprimido, discutiu a questão da “vocação” e da“desumanização”. Para o professor a “vocação” humanitária individual no sentido do “eu” quebusca respostas para solucionar seus problemas visa alcançar a cidadania, a justiça, o “ser mais”e, por que não dizer, a própria felicidade, como realização pessoal e coletiva. A “desumanização”consiste no “ser menos”, como antítese do pensamento anteriormente descrito, no sentido deopressão e injustiça. A questão da “vocação” e da “desumanização” apresenta-se como uma dialética humanaverificada por Freud, na obra Mal-estar da Civilização, entre um “criar” e um “instinto dedestruição”, que prevalece nos caminhos da sociedade contemporânea belicista, apesar dosavanços consciências já obtidos. No ensino jurídico, tal dialética pode ser verificada em situações nas quais tanto discentescomo docentes se apresentam em posições opostas, ora humanizados, ora como desumanizados.
  • 9. A antítese é bem delimitada pelo processo de ensino que acaba por transformar vocações eideais em um discurso racional falsamente neutro, dogmático e tecnicista, cuja existênciasomente se justifica para a manutenção de privilégios e desigualdades sociais seculares. Dentro desse contexto, as faculdades, em sua maioria, passam a ser representantes de umpensamento unívoco de mercado, mantendo os perfis dos futuros profissionais dentro de ummodelo que reproduz os mesmos valores tradicionais surgidos no Liberalismo nos futurosdetentores da função de operacionalizar a Jurisdição. Verifica-se aí um ciclo vicioso a indicar o caminho enviesado a seguir: uma posturadogmática e tradicional dos docentes e uma formação direcionada aos discentes em favor de umcontexto excludente de mercado, díspar da realidade social. Uma possível resposta na tentativa de minimizar tais antagonismos está na instauração deuma pedagogia jurídica conscientizadora, que visa formar uma nova racionalidade tendente ainfluenciar a estrutura econômica da sociedade, partindo da premissa da tutela dos DireitosHumanos. Esse processo educativo pressupõe críticas teóricas, mas também efetiva interaçãocom a realidade. Isso se faz pela conjugação do ensino e da pesquisa com a extensão, cujo efeito maior é asaída do mundo das idéias dos bancos escolares em busca do enfrentamento da realidade,verificado na práxis do arrostamento de problemas sociais. Humanização ocasionada peloimpacto que a realidade produz como embasamento da teoria, fazendo a todos, docentes ediscentes, visualizarem-se como responsáveis pelo presente e futuro da sociedade. Desse modo, uma metodologia de intervenção deve gerar condições para uma mudançaindividual na percepção dos discursos da racionalidade jurídica em face de seus conflitos reaiscom a efetiva aplicabilidade dos Direitos Humanos. Daí se pensar nas possibilidades de atuaçãode um grupo de estudos capaz de formar operadores do Direito com “vocação” para asresponsabilidades e missões sociais, ou, ao menos, com a noção de que as salas de aula podemsignificar uma caricatura mal acabada da realidade social brasileira.3 A SUPERAÇÃO DA EDUCAÇÃO BANCÁRIA
  • 10. Paulo Freire caracteriza a “educação bancária” como o procedimento metodológico deensino que privilegia o ato de repetição e memorização do conteúdo ensinado. Assim, o docente,por meio de aulas expositivas, “deposita” na cabeça do aluno conceitos que serão exigidosposteriormente em avaliações, quando então obterá o “extrato” daquilo que foi “depositado”. A afirmação da predominância da “educação bancária” no ensino jurídico deve ser vistacom seriedade. Tal análise se faz a partir da constatação do excesso de teoria que circunda assalas de aula das Faculdades de Direito. Questionar, negar a legitimidade das estruturas jurídicasarcaicas não é algo possível na “educação bancária”, pois, pelo ensino tradicional, meramenteexpositivo, cabe ao aluno apenas assimilar a realidade teórica transmitida pelo professor.Memorizar e repetir são as saídas possíveis, já que serão essas as atividades mentais a seremexigidas nas avaliações, usualmente caracterizadas como “provas”. Mantida a prevalência das aulas expositivas como procedimento didático-pedagógico,muito pouco se pode fazer para alterar o atual estado das coisas em matéria de ensino jurídico,pois tais perfis de competências e habilidades são referenciais inadequados à formaçãoprofissional competente para atender às demandas sociais atuais. Segundo Paulo Freire, essa estrutura expositiva é capaz de reduzir o ensino a algoinsubsistente, muito aquém da possibilitar de uma efetividade do processo de ensino e daaprendizagem em face do mundo real. Nesse sentido, regras jurídicas potencialmente injustas ouaté tecnicamente incorretas (inconstitucionais), por vezes contrárias aos interesses da maioria dapopulação, têm sua racionalidade e aceitação reproduzida nos cenários das salas de aula atravésdos discursos recriados nas transmissões dos docentes. Como exemplo, o que dizer da validaçãojurídica das ditaduras? Criam-se, daí, como se pode pressupor, profissionais “bancários” do Direito, com atuaçõescentradas nas racionalidades jurídicas assimiladas na academia. A antítese a esse estado de coisas inicia-se com a exigência da presença de um docente comperfil de agente humanizador, apto a utilizar conteúdos e metodologias de ensino sensíveis àstransformações culturais e às novas demandas sociais existentes. Isso é necessário porque se deve
  • 11. levar em consideração que o docente de hoje nada mais é do que o aluno do ensino jurídico deontem, potencialmente educado mediante a utilização de aulas expositivas “bancárias”.4 A DIALOGICIDADE NOS CURSOS DE DIREITO Dialogicidade, segundo Paulo Freire, está em permitir aos alunos agir e refletir sobre a açãopedagógica realizada, diferente de um mero refletir exclusivo da mente do professor. Aí se chegaà práxis, ou a “teoria do fazer”, com ação e reflexão simultâneas e recíprocas. O diálogo ganha importância ao permitir a liberdade de expressão, ao conceder aosparticipantes do processo de ensino e aprendizagem o controle da ação. Dialogar para refletir,dizer para construir seu entendimento. Não há como questionar sem diálogo, pois monólogosignifica imposição do conhecimento. Dialogar significa expor-se em público, combater aimposição de conteúdos e ajustar coletivamente a compreensão dialética do conhecimentoproblematizado, por novas vias de esclarecimento. Dialogar no Ensino Jurídico é necessário e viável. Discutir teses doutrinárias; enfrentarjurisprudências conflitantes; questionar leis com base em princípios constitucionais ehumanitários; sugerir e investigar novas abordagens; é algo acessível ao professor do Direito.Não se trata de o próprio professor apresentar o questionamento e sua solução, trata-se depermitir ao aluno, individualmente ou em grupo, buscar a resolução do conflito, constituindocriativamente soluções. Em via adversa, a ação antidialógica dos professores restaria como paradigma da estruturatradicional imposta, no sentido de conduzir a aprendizagem dos alunos à repetição e àmemorização de conceitos preconcebidos sobre a realidade jurídica e social, a qual também lhefoi posta durante sua formação. A mudança para a ação docente dialógica está na adoção do lema cooperação em sala deaula, na qual o professor deixa o seu papel de propagandista de regras jurídicas e passa adesempenhar, lado a lado com seus alunos, uma parceria transformadora da sociedade, na revisãodo sentido de suas regras. Nesse processo, a interação e a cooperação entre professor e alunos sãofundamentais para o desenvolvimento das atividades de ensino dialógicas. Se na abordagem
  • 12. tradicional ou “educação bancária” o professor se coloca em um pedestal de autoridadeafastando-se do contado direto com os alunos, na abordagem pedagógica crítica esse contato nãopode mais ser evitado. Com essa mudança, o professor dialógico passa acompanhar o desenvolvimento da históriaeducacional dos alunos. Aqui surge o ponto de rompimento com a tradicional escola jurídica, dasaulas magistrais ou expositivas. O surgimento do processo pedagógico dialógico, senão novo, aomenos é mais democrático, no qual o professor não é o operador do direito, mas o educador defato. Ele tem o dever de garantir aos alunos o máximo de acesso eficaz e crítico ao conhecimentoproposto no conteúdo programático, alicerçado na realidade existencial do grupo e nos seuspontos fortes individualizados. Outra ação dialógica a ser adotada está na organização profissional da atividadepedagógica. A organização tem início com a preparação do conteúdo programático a serministrado no ano, semestre, bimestre, mês, aula, e finda com o feedback reprogramático dasavaliações realizadas. Caracteriza um processo cíclico de auto e heteroconhecimento, obtido pormeio de avaliações, capaz de orientar o professor a conhecer as aptidões de seus alunos. O início da ação dialógica organizadora se dá antes do contato entre professor e aluno, edepende da escolha de opções para o conteúdo programático a ser debatido com os alunos.Opções de conteúdo não devem só permitir aos alunos pensar criticamente sobre o estudo nosemestre ou ano letivo, mas também estar de acordo com sua percepção da realidade. Ou seja,eleger um conteúdo programático sob a forma de uma pedagogia crítica requer a dialogicidade dadialogicidade, na montagem cooperativa dos conteúdos a serem objeto de futuro diálogo em salade aula. Um exemplo bem sucedido de investigação para a elaboração de um conteúdoprogramático seria aquele em que se leva em consideração, por meio de questionários,entrevistas, dissertações, a realidade daquele determinado grupo de alunos, sempre focando aaprendizagem em tópicos correlacionados com a base vivencial em que estão situados. Quanto ao processo de avaliação na pedagogia crítica de Paulo Freire, a avaliação escolartem um significado diverso daquele verificado na "educação bancária" tradicional dos cursos de
  • 13. Direito. Aqui, a avaliação é diagnóstica e somativa, seus intuitos são de possibilitar ao professormedir o rendimento dos alunos com vistas na análise de seu próprio rendimento como educador.Nesse sentido, a avaliação não mais atua como um instrumento punitivo ou retributivo, mas comoum ato de constatação se a ação do professor possibilitou a seus alunos cumprir os objetivostraçados na programação das atividades. A partir da formulação dos conteúdos, passa-se à preparação central da metodologia detrabalho em sala de aula, tendo por base o processo de problematização dos conhecimentos emface da realidade. Problematizar a partir da própria realidade do aluno é permitir que ele possarefletir sobre sua situação social, percebendo-a no contexto histórico. A problematização é essencial no processo de ensino e aprendizagem dialógico, visto quepossibilita aos alunos assumir um papel questionador dos conteúdos. Permite também, instigar aheurística de alternativas jurídicas para a solução dos conflitos, ou seja, a criatividade necessáriapara inovar e melhorar a eficácia do sistema jurídico e jurisdicional. Como ressalta Paulo Freire, todo processo de mudança crítica deve respeitar em primeirolugar a estrutura tradicional cristalizada. Logo, a dialogicidade educacional não busca eliminar otradicional ("oprimir o opressor"), mas apenas contribuir para o seu aprimoramento constante.Desse modo, qualquer modificação para melhor, na busca do "ser mais", consiste em garantir atodos a liberdade de posicionamento, de expressão e de manutenção de sua práxis educacional. Em geral, isso representa um grande dilema existencial não só para o ensino jurídico, maspara a atividade educacional em todas as áreas do conhecimento, pois a busca por "ser mais"implica comparar e também permitir que o "ser mais" advenha do outro, cuja visão de mundoseja diversa e se mantenha. Daí o entendimento de Paulo Freire de que só há liberdade e libertação individual quandose entende a posição do outro e não lhe repete os atos na mesma oportunidade (exemplo do alunocrítico ao processo pedagógico, que depois assume a idêntica postura de professor tradicional).Evoluir é antes de tudo aprender a respeitar diferenças e agir com intencionalidadetransformadora, mas sem imposições, educando pelo auto-exemplo.
  • 14. Isso implica em buscar e demonstrar em suas ações aquilo que seja "melhor para todos"dentro de uma realidade em que sua ação possa ser vista, copiada, criticada e, até mesmo,aprimorada, representando um ciclo de aprendizagem onde todos evoluem continuamente.Contrariando os versos cantados por Elis Regina, "ainda somos os mesmos", porém não mais"vivemos como os nossos pais...". Comumente temos ouvido falar que a sociedade industrial está dando lugar à sociedade dainformação e da comunicação, que estamos vivendo na era do conhecimento e que os países paradesenvolverem-se economicamente precisam aplicar mais verbas na educação. Nessa novasociedade as fontes de riqueza e poder vão depender da capacidade de geração de conhecimento eprocessamento de informação. Vemos os setores da informação e da comunicação em francocrescimento e expansão. O que representa de fato essa grande importância atribuída à educação?Por que o desenvolvimento econômico de um país hoje depende do grau de conhecimento de suapopulação? Para Manuel Castells (1999) mede-se o nível de desenvolvimento de uma sociedade peloseu grau de conexão. Portanto a educação tem que estar voltada para a pedagogia dos multimeios,para a capacidade de manuseio de grande quantidade de informações, para a leitura e escrita dehipertextos, para indivíduos que saibam buscar, escolher e desfrutar este mundo. Precisamosrepensar nossos investimentos para que não apliquemos recursos em projetos vãos, pois odesperdício não pode mais acontecer, porque ele representa não só pouca riqueza, como tambémmá qualidade de vida. Lévy (2000) vai dizer que a interconexão dos computadores do planeta, a que ele chama deciberespaço, tende a tornar-se a principal infra-estrutura de produção, transação e gerenciamentoseconômicos. Para ele será em breve o principal equipamento coletivo internacional da memória,pensamento e comunicação. Daí a necessidade de uma educação voltada para o desenvolvimentocientífico, tecnológico e para a diminuição das diferenças sociais e culturais, através da melhoriada qualidade do ato pedagógico e em investimentos em recursos informacionais, tendo em vista aimportância econômica destas políticas. O importante é que as escolas estejam abertas para aincorporação de novos hábitos, comportamentos, percepções, demandas e tecnologias, cumprindoa sua função de contribuir para a formação de indivíduos capazes de exercer plenamente a suacidadania, participando dos processos de transformação e construção da realidade, produzindo
  • 15. mais e gerando mais riquezas. Não necessitamos mais de uma reserva de excluídos, como nocapitalismo arcaico, mas sim precisamos de pessoas produtivas, pois não há tecnologia de pontasem mão de obra qualificada. Figueiredo (1995) ressalta que a educação tem que se adaptar às necessidades dassociedades e que os desafios atuais são muitos tanto no campo social, cultural e econômico, antesmesmo que tecnológico. A escola precisa ser reinventada, deve mudar seu papel de ditadora deconteúdos. Sua preocupação atual precisa ser a de dar suporte para a autonomia do aluno, paraformar autodidatas. Uma educação interativa, colaborativa e cooperativa, numa construçãocoletiva do saber. Não podemos nos esquecer que a língua e a cultura são veículos extrafronteirospromotores da economia. Estamos habituados a ouvir os discursos oficiais apenas como discursos, sendo a práticabem outra, mas agora quando os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) apontam para anecessidade da educação se posicionar na luta de frente contra as exclusões, contribuindo para apromoção e integração social, como prática efetiva, é preciso levar a sério, porque quanto maisexcluídos tivermos, mais pobres seremos. Se nossos dirigentes não conseguirem compreendereste novo paradigma, não se efetivarão as políticas públicas voltadas para a área doconhecimento: reformas da infra-estrutura física das escolas, redirecionamento dos objetivoseducacionais e capacitação de professores/as (eventos que levem o professor e a professora areflexão, e não eventos com o objetivo de impingir a ideologia); e não haverá como o Brasilproduzir mais e com melhor qualidade, ficando à margem do mercado mundial. A educação precisa realmente, se for de interesse da população brasileira, sair deste estadode mendicância em que vivemos, de uma prática efetiva em seu dia a dia na luta de frente contraa exclusão, a favor da promoção e da integração social, porque um país sem excluídos produzmais e é mais rico. Pessoas conscientes e participativas produzem mais, melhor e geram maisriquezas para seu município, estado e país. Não é um pensamento romântico, é um pensamentorealista e racional. E se a escola cumpriu tão bem o seu papel na exclusão social, ela terá tambémcapacidade de promover a integração social. Para Litto, em primeiro lugar, “cada instituição educacional deve elaborar e executar a suaprópria proposta pedagógica. Cada grupo de professores que compõem o corpo docente de uma
  • 16. entidade educacional tem o direito e a obrigação de traçar o plano arquitetônico da aprendizagemde sua instituição”. A escola contemporânea oferta recursos físicos, didáticos e pedagógicos suficientes paraum bom desempenho no ensino-aprendizagem, por exemplo: refeitórios, que são espaços quepossibilitam encontros e trocas de experiências entre os elementos que compõem a comunidadeescolar; salas de aula aparelhadas com televisores e dvd’s; bibliotecas regularmente renovadascom livros atualizados, trabalhos acadêmicos e documentários, com variados e interessantesassuntos; esportes; e a informática. São recursos ricos que talvez, por culpa da instituição, da administração, dos professores,de todos juntos, ou da simples falta de hábito em trabalhar com a diversidade, não estão sendoexplorados como deveriam. A meu ver, nosso primeiro passo é o da consciência da importância da preservação física doprédio e de seus equipamentos. E o segundo passo é começarmos a pensar em como utilizar commais freqüência e de forma mais eficaz esses recursos que estão a nossa disposição. É preciso saber aproveitar a oportunidade da elaboração desse plano em nossa escola paraavançarmos em nossas questões pedagógicas, com vistas a solucionar problemas que nos afligem.Se não soubermos aproveitar esse momento, continuaremos com os mesmos tipos de problemaspor mais alguns anos. O autor elabora uma lista de características que considera importantes para um ambiente deaprendizagem, que segundo ele não é uma “receita” ou um conjunto de práticas capazes degarantir o sucesso. Cada instituição elege alguns itens da lista e os trabalha com maior ou menorintensidade. Esta lista foi feita a partir de observações do autor de escolas brasileiras e doexterior, de leitura especializada e de conclaves profissionais. É um ponto de partida para areflexão da escola de hoje. Desta forma, ele aduz sem ordem hierárquica alguma que é precisotraçar um plano arquitetônico para a aprendizagem, respeitar os estilos individuais deaprendizagem de cada um, sem tentativas de forçar alguém a ter o mesmo desempenho em todasas áreas de conhecimento. É preciso hoje encorajar a aprendizagem profunda, a capacidade de transferir conceitos deum domínio para o outro. Procurar desenvolver as competências necessárias para a sobrevivênciano mundo contemporâneo, identificando problemas, acessando informações e filtrando-as,
  • 17. tomando decisões e sabendo se comunicar com eficácia. Ter sempre no ensino-aprendizagemuma visão multidisciplinar do mundo, enxergando e compreendendo as inter-relações entre ascoisas e os fatos pela maneira de estudar as matérias. Saber desenvolver projetos viabilizando aparticipação através de levantamento de hipóteses e descobertas de novos conhecimentos. Fazeruso constante de textos impressos e da multimídia, com textos em forma visual e sonora.Enfatizar o trabalho realizado em colaboração com colegas locais e à distância. Criar ambientesde aprendizagem e de trabalho ricos em apoios tecnológicos de todos os tipos. Avaliar através deportfólios montados pelos alunos no decorrer do curso. José Manuel Moran é hoje no Brasil um dos mais renomados escritores que influencia umaeducação “inovadora” com uso de novas tecnologias, não só no ensino superior onde acontece asua experiência, mas também no ensino fundamental e médio, induzindo-nos a reflexões sobre osmodernos métodos e técnicas de ensino. É um profundo conhecedor da comunicação e daeducação. Atualmente exerce as funções de professor de Novas Tecnologias no Programa deEducação e Curriculum da PUC-SP, Assessor do Ministério de Educação para avaliação decursos à distância e Coordenador de Tecnologia da Faculdade Sumaré – SP. Este texto a que façoreferência será apresentado no próximo Congresso da ABED – Associação Brasileira deEducação a Distância, de 2 a 4 de setembro de 2002, em São Paulo. Moran nos fala de um ensino semipresencial que integra atividades docentes em sala deaula e outras em ambientes virtuais, integrando de forma equilibrada o processo ensino-aprendizagem presencial com o virtual, virtualizando o ensino presencial e presencializando oensino a distância. Os encontros em um mesmo espaço físico vão se combinar com encontrosvirtuais à distância através da Internet. E as conexões on-line, em tempo real, vão permitir queprofessores e alunos interajam e formem pequenas comunidades de aprendizagem, quecertamente favorecerão encontros que nos tiram do isolamento. Esses dizeres me provocam uma reflexão: não dá para se mover dentro de antigosparadigmas, é preciso se pensar em um novo paradigma, em novos métodos, novas técnicas,dentro dessa nova mentalidade de ensino. Para o autor, o objetivo tanto dos cursos presenciais como dos cursos virtuais é um só: queos alunos aprendam. “Podem mudar algumas formas de ensinar, de organizar a aprendizagem, asmídias, mas no conjunto os processos são semelhantes”. A comunicação on-line vai influenciar
  • 18. tanto na pedagogia dos cursos presenciais como na pedagogia dos cursos à distância. Estamosassistindo a uma convergência de métodos e técnicas de ensino-aprendizagem nestas duasmodalidades de ensino. Para Moran, tanto no ensino presencial como no ensino a distância vamos correr o risco defornecer diplomas a alunos sem saber se eles realmente aprenderam. Sabemos que aaprendizagem se dá de forma ampla em ambientes ricos de interação e de apoio: eventos,congressos, seminários, grupos de pesquisa, laboratórios, bibliotecas, restaurantes, entre outros. E a meu ver uma avaliação só pode ser “eficiente” se tiver cunho ideológico, se eu souberexatamente qual o resultado que quero do produto sem me preocupar com o desenvolvimentoindividual, com as qualidades de cada aluno. Se eu quero um tipo de indivíduo com tais e taiscaracterísticas, no final eu poderei avaliar se consegui ou não esse tipo de indivíduo; porém se oque eu quero é que cada um tenha o desenvolvimento dentro de suas próprias expectativas, aíentão me foge esse poder de avaliar. Há uma dimensão não avaliável dentro de todo o processoeducativo. E essa talvez seja a dimensão mais significativa. Daí a avaliação através de portfóliosser a mais adequada. Desta forma, novas questões básicas estão sendo colocadas na educação presencial e naeducação à distância: Como organizar o processo de aprendizagem alternando e integrando a aulafísica com a aula on-line?; Como organizar o processo de aprendizagem à distância de formamais participativa, envolvente e capaz de equilibrar o individual e o grupal? Temos que ter em vista que precisamos educar para o presencial, para o virtual e para apossibilidade de se continuar aprendendo em ambientes virtuais, acessando páginas da Internet,pesquisando textos, recebendo e enviando mensagens, discutindo questões em fóruns ou em salasde aula virtuais, divulgando pesquisas e projetos. A Internet vai nos possibilitar a flexibilização da forma de organização de momentos desala de aula e momentos de aprendizagem virtual de forma integrada e alternada. Precisamoscriar a cultura da educação on-line dentro das instituições educacionais, tanto para os professoresquanto para os alunos. A instituição precisa apoiar os professores mais familiarizados com astecnologias que dispõem para possibilitar a experimentação e a criação da cultura por meiovirtual.
  • 19. Sem dúvidas, a aprendizagem se dá mais pela experimentação do que só pela audição.Precisamos incentivar a pesquisa para que o aluno se mova, corra atrás, vivencie, entre emcontato, comunique os resultados e reflita, com o objetivo de fazer a aprendizagem acontecer deforma mais profunda. Somente envolvendo os alunos em processos participativos e afetivospoderemos conseguir a motivação tanto no campo presencial como no virtual. A autonomia e aorganização pessoal são dois aspectos indispensáveis para a aprendizagem à distância. Não podemos mais continuar com a mentalidade conteudista a que estamos habituados, aênfase agora deve ser no aluno individualmente considerado e na interação desse aluno com oprofessor sempre tendo em vista a construção do conhecimento, a busca por um equilíbrio doindividual com o grupal, num processo cooperativo, aproximando o pensar do viver. Somente podemos educar para a autonomia através de processos fundamentalmenteparticipativos, interativos e libertadores, respeitando as diferenças, incentivando, apoiando eorientando. As mudanças na educação dependem, mais do que de novas tecnologias, deeducadores, gestores e alunos intelectual e emocionalmente maduros. Pessoas curiosas,entusiasmadas, abertas e capazes de motivar e dialogar, focando a aprendizagem pelaexperiência, ação e reflexão, desenvolvendo projetos, buscando solucionar problemas,incentivando a pesquisa, a comunicação e a análise de significados, garantindo umaaprendizagem significativa através da integração do presencial com o virtual.5 A INFLUÊNCIA DA TECNOLOGIA NA EDUCAÇÃOCONTEMPORÂNEA Atualmente, os antigos métodos de diálogo e repetição vêm sendo gradativamentesubstituídos por inovadores recursos tecnológicos que desapertam o interesse e facilitam oaprendizado dos alunos. A evolução é marcante em todos os campos da vida humana. Hoje é possível receber eenviar informações, pagar contas, acompanhar fenômenos e acontecimentos importantes emtempo real, de várias partes do mundo. Esse turbilhão de informações deve ser adaptado, ficandosempre a serviço dos homens.
  • 20. Nessa seara, a sala de aula não poderia ficar para trás. A maioria das instituições de ensinojá deixa a dispor de seus estudantes aparelhos como computadores, dvd’s, televisões, dentreoutros facilitadores da aprendizagem. A evolução trouxe também a economia e a redução do esforço laboral dos professores, poisum profissional do ensino pode ministrar sua aula de uma sala aparelhada com retroprojetormultimídia e essa mesma aula pode ser repassada em tempo real para milhares de alunos. Essainteração aprendizado e tecnologia tem feito com que os profissionais da área de ensino sereciclem cada vez mais no intuito de acompanhar as novas tendências do ensino. Há uma década saber ligar um computador para muitos era sinônimo de sofrimento evergonha, atualmente tudo mudou, a informatização foi popularizada e desde os mais jovens atéos mais idosos já se familiarizaram com a figura do computador. A informática apareceu como uma ferramenta para facilitar e organizar o trabalho e aaprendizagem humana e é indispensável para o bom funcionamento do País. A figura do professor de dono absoluto do saber foi alterada para um facilitador deassimilação de conteúdo, que deve trabalhar em um ambiente que tenha disponível todos osrecursos tecnológicos para desapertar a atenção dos alunos para a importância e necessidade dedesenvolvimento do conhecimento. As histórias, tanto individuais quanto coletivas, a cidadania e a criatividade se fazemnecessárias para que o processo de educação seja preferencialmente delineado pelo desafioformativo ou educativo. Dessa forma, é preciso tornar a educação parceira da evolução para que crianças e jovens,que serão os adultos do futuro, cheguem à maturidade sabendo usar os benefícios da tecnologia aseu favor.6 METODOLOGIA Num primeiro momento é preciso nos conhecer, criar laços, mapear os grupos, as pessoas ereorganizar o processo de ensino-aprendizagem: a seqüência das leituras, as atividades, aspesquisas individuais e de grupo, o cronograma e a metodologia. Em um segundo momento,
  • 21. podemos passar para o campo virtual e aproveitar as suas vantagens: flexibilidade de tempo e delugar para acessar. Os grupos podem com facilidade criar seus espaços de comunicação paratrocar resultados. Em um terceiro momento, podemos voltar a nos encontrar fisicamente paraaprofundar os resultados obtidos no campo virtual, fazendo sínteses e partindo para uma novaetapa de aprendizagem, sempre envolvendo os alunos com práticas, leituras e reflexões. O curso deve ser planejado como um todo e estar aberto para incorporações que se fizeremnecessárias, visando valorizar as qualidades dos alunos. Nas primeiras aulas o importante émotivar os alunos para o curso, criar boas expectativas, estabelecer laços de confiança e organizaro processo de aprendizagem. Esses primeiros encontros devem ser agradáveis, interessantes ecativantes. E isso não depende somente do professor, mas de toda a instituição. Os alunos emconjunto com os professores precisam antes de tudo acreditar que vale a pena participar desseprocesso coletivo de aprendizagem. Podemos usar as novas tecnologias para uma boa apresentação do curso através doPowerPoint ou de outros recursos informáticos, inclusive a Internet. O importante é que se crieum clima de apoio, de incentivo e de afeto. Depois das primeiras aulas presenciais, podemosmarcar uma primeira leitura virtual de um texto e o início da primeira pesquisa. Os alunos lerão otexto e compartilharão suas observações com os demais membros do grupo. Após, volta-se aopresencial para aprofundar o debate sobre as questões em foco. O ritmo do presencial-virtualdependerá de cada professor e do grau de maturidade da turma. Equilibrando o presencial com ovirtual poderemos alcançar bons resultados a um custo menor de deslocamento, evitar perda detempo, além de flexibilizar um melhor gerenciamento da aprendizagem. O grande desafioeducacional hoje em todo o mundo é o aprender a ensinar e a aprender integrando ambientespresenciais e virtuais. Dentro desse contexto Moran adverte: É importante neste processo dinâmico de aprender pesquisando, utilizar todos os recursos, todas as técnicas possíveis por cada professor, por cada instituição, por cada classe: integrar as dinâmicas tradicionais com as inovadoras, a escrita com o audiovisual, o texto seqüencial com o hipertexto, o encontro presencial com o virtual. [...] Cada curso, cada professor vai fazer isso de forma semelhante e ao mesmo tempo diferente. Não podemos padronizar e impor um modelo único do
  • 22. presencial-virtual. Cada área do conhecimento precisa mais ou menos do presencial. É importante experimentar, avaliar e avançar até termos segurança do ponto de equilíbrio na gestão do virtual e do presencial. Creio que a área de humanas e a de exatas ou biológicos não podem, em princípio, seguir o mesmo esquema. O ponto de equilíbrio entre o presencial e o virtual pode ser diferente. A resistência dos professores às inovações e às mudanças ora se iniciadas pode ser vencidacom a intensificação de cursos, palestras, reuniões e atividades que envolvam o tema. É precisocontinuar chamando os alunos à participação. Participação como parte, com co-responsabilidade,proporcionando crescimento para a autonomia e não atitudes de libertinagem e amorais. Outro desafio importante é trabalhar as estruturas organizacionais das escolas. Vencer omedo do imprevisível talvez seja a maior dificuldade. O debate aberto com todos os envolvidosno processo educativo se torna fundamental. Pouco se tem feito neste aspecto, o que torna maiscomplexo este processo. O que não pode é deixá-lo de lado como se viesse a reboque de todas asoutras mudanças. É necessário intensificar os diálogos, expor as diferenças, ou seja, vivenciar intensamentecada etapa do processo, respeitando o momento de cada um em seu processo de desenvolvimentopara a autonomia, para a liberdade. Enfatizando este contexto, Benetti (1995, p. 31) anuncia o surgimento da sociedade doconhecimento: [...] não podemos mais pensar como se fazia antigamente, que bastava sair da escola com o diploma que, profissionalmente, estava resolvido o nosso problema. Agora quem não estudar continuamente vai, a médio prazo perder seu emprego ou ser colocado à margem do trabalho. E, infelizmente, precisamos de cada vez mais educação, porque a quantidade de avanços tecnológicos, hoje em dia é fantástica. Nada dura muito tempo. O conhecimento está se renovando muito rapidamente [...]. O autor afirma que a escola como agência detentora e promotora do saber, determinada edeterminante das relações sociais, formatada e formadora de valores e crenças sociais, precisa semodernizar e buscar trazer para si perspectivas de mudanças que atendam aos novos anseios deaprendizagem. Ou a escola se abre para as novas tecnologias, amplia as questões doconhecimento, procura redefinir os papéis e as relações daqueles nela atuam, ou continuará sendoum grande animal pré-histórico em plena era pós-moderna que não consegue se adaptar àsquestões emergentes de mudanças.
  • 23. De acordo com Garcia (1993), no mundo mecanicista, o trabalho do professor pode sercaracterizado por duas fases distintas: a seleção e a exposição. Na primeira fase, o professorseleciona o conteúdo, organiza, sistematiza didaticamente seu principal material de apoio: o livrodidático. Na segunda fase, há o contato direto com os alunos, o giz e a lousa são ferramentasbásicas das aulas expositivas, além da apresentação de conteúdo e realização de trabalhosindividuais. Os professores não levam em consideração fatores como: sucesso ou o fracasso daaprendizagem de seus alunos, a ampliação da cultura dos mesmos, participação dos pais ouresponsáveis, estrutura da escola, função dos administradores da escola e políticas educacionais. Por isso, a sociedade educacional exige um novo perfil para os profissionais do ensino, comcapacidade para traçar estratégias, compreender, analisar, criticar, captar e interpretar a realidadeem função do conhecimento disponível em suportes diversos, especialmente os virtuais. Na opinião de Frank Moretti, diretor do Centro de Novas Mídias para o Ensino deAprendizagem da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos o novo perfil do professordeve ser o de: “Aprender com os jovens, buscar oportunidades para enxergar adiante e ser, acimade tudo, humilde”. Essa afirmativa é justificada pela entrada maciça de novas tecnologias na salade aula, o que proporciona aos alunos o aprendizado das matérias por conta própria, diminuindoassim a previsão do professor nas respostas às perguntas que supostamente o aluno não conhece.O professor passa a ser um estrategista, um solucionador de problemas. Para Nevado (1997): “o uso pedagógico das novas tecnologias oferece a alunos eprofessores a chance de poder esclarecer suas duvidas promovendo o estudo em grupo comestudantes separados geograficamente, permitindo-lhes a discussão de temas do mesmointeresse”. Através de novas tecnologias, o aluno sairá de seu isolamento e enriquecerá seusconhecimentos de forma individual ou grupal. Poderá, ainda, fazer perguntas, manifestar idéias eopiniões, fazer leituras mais globais, assumir a palavra, confrontar idéias e pensamentos e,definitivamente, enxergar a sala de aula como algo diferente de um confinamento entre quatroparedes. Isto significa que o uso de novas tecnologias ajudará a criar uma nova dinâmicapedagógica interativa que por certo influenciará a construção da escola do futuro.
  • 24. Conforme amplamente demonstrado, cabe à escola e aos educadores utilizar edisponibilizar essas novas tecnologias educacionais para tornar os atos de aprendizagem maisinterativos, concretos e cooperativos. A pesquisa na área de informática educativa tem evoluído nos últimos anos, contudo talmercado ainda deixa um pouco a desejar. O uso do computador na educação brasileira, embora implantado de maneira gradual elenta, muito contribui para a educação em geral, desde a pré-escola até o ensino superior,inclusive para a educação especial destinada aos portadores de deficiência. Teixeira (1997) esclarece que: “No Brasil, chegamos tarde à sociedade industrial e se issose repetir agora amargaremos séculos de atraso social”. Não teremos outro jeito a não ser recitar otrágico epitáfio de Voltaire: “Quem não vive o espírito de seu tempo, vive apenas os males do seutempo”.
  • 25. CONCLUSÃO Destes breves apontamentos, depreendem-se a extraordinária necessidade de valorizar odocente enquanto elemento-chave na elaboração e consecução de ações teórico-reflexivas quedeverão ir além das regras, dos fatos, dos procedimentos e das teorias pré-estabelecidas pelainvestigação científica. Para tanto, é imprescindível que se busquem ferramentas que, segundo Vygotsky (1987),lhe possibilitem a reflexão na ação, no sentido de não somente aplicar técnicas já consagradas oumétodos de pesquisa estandardizados, mas aprender a elaborar novas estratégias para seu fazerpedagógico, novos rumos para a compreensão da realidade, enfim, novas perspectivas paraabordar, enfrentar e resolver problemas com que se depare. Não parece haver qualquer dúvida a respeito da cobrança que a sociedade faz em relação aoprofessor: do muito que lhe é exigido e do pouco que lhe é ofertado em contrapartida. Exige-sedo docente uma postura profissional irrepreensível, atitudes equilibradas e democráticas para comos alunos, coerência, segurança, conhecimentos abrangentes e habilidades pedagógicas ideais emtodo o contexto educativo, solicitando-se, taxativamente, maior cooperação e interação socialdentro e fora do âmbito escolar. Contudo, no mais das vezes, o docente tem que conviver em umespaço social conturbado, pouco receptivo e bastante hostil, frente à iminência de negar suaprópria pessoa e dissociar-se de suas contingências vitais no desempenho de sua tarefaeducacional. Pergunta-se: Poderá ele viver na corda-bamba por ter que diuturnamente enfrentarsituações tão divergentes e conflitantes? Como manter-se emocional e afetivamente equilibrado?Como fazer para conseguir tal objetivo? No entanto, felizmente, o desgaste e o estresse a que os docentes hodiernamente ainda sãosubmetidos não conseguiram afastá-los da convicção de que seus trabalhos são mais que umdever: são escolhas feitas a partir da certeza de que são instrumentos fundamentais e decisivos na
  • 26. modificação da sociedade e na construção de um presente e de um futuro melhores, através daformação de cidadãos mais conscientes e críticos. Sem dúvidas, ainda há extensos e difíceis percursos a serem trilhados para que oprofissional docente seja adequadamente valorizado e respeitado. Por outro lado, temos aconvicção de que a docência é uma das tarefas mais dignas do ser humano e de que nela se podeexpressar plenamente a geratividade e o constante enriquecimento do saber. A docência é,indubitavelmente, uma das mais completas e frutíferas formas de integração entre os indivíduos,com incalculáveis repercussões na construção da sociedade do futuro.
  • 27. REFERÊNCIASBAGNO, Marcos. Pesquisa na Escola: o que é, como se faz. 18. ed. São Paulo: Loyola, 2004.BEHRENS, Marilda Aparecida. Paradigma da complexidade. Petrópoles: Vozes, 2006.DEMO, Pedro. Certeza da incerteza: ambivalência do conhecimento e da vida. Brasília:Plano, 2000.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática educativa. 35. ed. SãoPaulo: Paz e Terra, 2007.HERNANDEZ, Ivane Calvo. ENRICONE, Delcia. GRILLO, Marlene. Ensino Revisão Crítica.Porto Alegre: Sagra, 1988.HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2000.HILTON, Japiassu. Nem Tudo é Relativo. A Questão da Verdade. São Paulo: Letras. & Letras,2000.HUSSERL, E. Idéias diretrizes. São Paulo, 1978.LADRIÈRE, J. Filosofia e práxis cientifica. Rio de Janeiro, 1978.LUCKMANN, Thomas; BERGER Peter L. A construção social da realidade. 26. ed. Rio deJaneiro: Vozes, 2006.ZILLES, Urbano. Teoria do Conhecimento. 5.ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2006.