00269 estranhas entranhas - psicanálise e depressão na gravidez

2,100 views
1,719 views

Published on

0 Comments
3 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
2,100
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
3
Actions
Shares
0
Downloads
0
Comments
0
Likes
3
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

00269 estranhas entranhas - psicanálise e depressão na gravidez

  1. 1. Estranhas Entranhas.Psicanálise e Depressão na GravidezMarcia Zucchi2000
  2. 2. iiZUCCHI, Marcia Aparecida“Estranhas Entranhas. Psicanálise e Depressão naGravidez.”1. Psicanálise. 2. Feminino. 3. Gestação 4. Maternidade. 5.Depressão. 6. Transtornos afetivos na gravidez.
  3. 3. iiiÀ Rita Leucci Zucchi,minha mãe,pelo amor da vida inteira
  4. 4. 1Indice1. Psicanálise e Depressão na Gravidez.Apresentação................................................................................................................22. As bordas do caminho.Considerações preliminares.........................................................................................16Porque uma descrição metapsicológica.......................................................................21Método da pesquisa.....................................................................................................243. Sobre um dos nomes da tristeza...A depressão no campo dos saberes.............................................................................27Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da depressão.........................28A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios: implicaçõesclínicas.........................................................................................................................32Os estudos sobre a depressão na gravidez...................................................................35Depressão como experiência afetiva...........................................................................384. A Metapsicologia da maternidade.Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidade.................42O complexo de Édipo feminino em Freud..................................................................45O estatuto do objeto filho...........................................................................................535. À procura da especificidade feminina.O debate de 20 e a produção de Helene Deutsch........................................................59As divergências com relação a Freud.........................................................................63O apoio da função reprodutiva para organização da sexualidade feminina................64O afeto deprimido na gravidez....................................................................................68Um narcisismo feminino.............................................................................................706. A metapsicologia da melancolia como modelo de compreensão do afetodeprimido.A teoria de Freud........................................................................................................76Amor e Melancolia: os domínios do objeto...............................................................82Uma concepção metapsicológica da depressão.........................................................87Algumas articulações com a depressão na gravidez..................................................91A dor psíquica, um trabalho de objeto.......................................................................947. Estranhas Entranhas.Um corpo estranho...................................................................................................102Estranhos afetos........................................................................................................108Estranhar, uma prática feminina...............................................................................1138. Considerações finais...........................................................................................1199. Bibliografia.........................................................................................................123
  5. 5. 2Psicanálise e Depressão na GravidezMulher, como te chamas? – Não sei.Quando nasceste, tua origem? – Não sei.Por que cavaste um buraco na terra? – Não sei.Há quanto tempo estas aqui escondida? – Não sei.Por que mordeste o meu anular? - Não sei.Sabes, não te faremos mal nenhum. – Não sei.De que lado estás? – Não sei.É tempo de guerra, tens de escolher. – Não sei.Existe ainda a tua aldeia? – Não sei.E estas crianças, são tuas? – Sim.Wislawa Szymborka11SZYMBORKA , “Vietnã”, publicado no Jornal do Brasil de 4 de outubro de 1996. A autora recebeu o PrêmioNobel da Literatura em 1996.
  6. 6. 3ApresentaçãoAo enunciar o tema deste livro – a depressão na gravidez – tanto noambiente acadêmico como fora dele a reação foi sempre de embaraço, como se aosmeus interlocutores tal tema desconcertasse. Importante ressaltar que esta reaçãofoi muito acentuada nas mulheres. Inicialmente reagiam manifestando um misto deespanto e curiosidade, para em seguida demonstrarem uma “familiaridade aliviada”.Este alívio parecia se dever à possibilidade de delineamento ou contorno de umaexperiência vivida, ainda que tal nomeação carecesse de precisão. Chamar dedepressão o entristecimento que ronda a gravidez, embora soasse estranho, seriamelhor do que o silêncio que, em geral, permeia esta experiência. Concluí que aligação entre depressão e gravidez despertava, então, algo simultaneamente familiare estranho - Unheimlich2- a associação dos termos sendo possivel, mas nãoperfeitamente cabívelCabe perguntar se tal estranheza se explicaria exclusivamente pelapressão cultural em direção a uma “felicidade na maternidade” como único modopossível da mulher viver a gravidez quando desejada. Modo esse que impediria nãosó a expressão, mas o próprio reconhecimento de qualquer sentimento oposto.Tomei esta hipótese como um fato pois, ainda que não universalizável, é um dadoconstatável ao nível do senso comum. Uma pesquisa com maior grau dedetalhamento quanto a esta questão seria pertinente ao campo sociológico, fugindoao âmbito deste livro. Além disso, não seria coerente com as suposiçõespsicanalíticas atribuir-se valor de determinação exclusiva a um fator externo àsubjetividade.Permanece, então, a questão: quais seriam os fatores subjetivosdeterminantes desse estranhamento vivenciado, muitas vezes, com o afeto datristeza, podendo chegar até a depressão? Na perspectiva das mulheres queengravidam desejando estas gravidezes, a estranheza estaria relacionada ao filhoou às proprias mulheres? Se a estas últimas, qual o eixo ou o núcleo da estranheza,a “identidade materna” ou a “identidade feminina”? A identificação ao papel maternoé uma via “normal” do feminino ou sua construção exige algum trabalho específico2Das Unheimliche, termo alemão utilizado por Freud no título de sua obra de 1919, referente à experiência deestranhamento, onde algo aparece simultanêamente como íntimo e profundamente estranho, por efeito derecalque.
  7. 7. 4do aparelho psíquico? Qual o estatuto do objeto filho, durante a gravidez? Comoeste é incluído, assimilado, “incorporado”, no eu da gestante?O encaminhamento de possíveis respostas a estas questões requer quese contextualize, de modo metapsicológico, tanto a maternidade – corolário psíquicoda gestação desejada -, quanto a depressão – nomeação sob a qual reuniu-se umconjunto de experiências subjetivas perpassadas pela tristeza.A maternidade tem um aspecto enigmático que ora a tem feito participardo sacro, ora a torna objeto de atenção científica, além de ser constantementeabordada pelas linguagens artísticas. Seja no âmbito do relato jornalístico, napoesia, na construção mítica, ou na ciência, a experiência humana da procriação,especialmente a vertente da relação entre a mulher e seu filho, é sempre descritacomo um precipitado extremo de paixões. Alguns exemplos permitem que se oconstate. O exemplo em epígrafe é um deles. Vivendo uma situação limite, aguerra, a mulher em questão perdeu todas suas referências identitárias. Sabe,apenas, de sua condição de mãe. Sabe, somente, que aqueles são seus filhos.Nada mais. Este é o único saber que a referencia. Há um apontamento, pela autorado poema, no sentido da perenidade e força deste vínculo, enquanto ancoradourosubjetivo para mulher.Roberto Pompeu de Toledo, num Ensaio escrito à revista Veja de 5 deagosto de 98, apresenta a confrontação de duas situações extremas, vividas pormulheres, onde, em cada uma delas, o leitor é tomado por uma fina e agudasensação de divisão entre o espanto e a amarga ternura. Compara as histórias deChristine Malèvre e Roberta Magnani, apresentadas pela imprensa em 98: aprimeira, autora de uma série de assassinatos a idosos em estado terminal; asegunda, uma mulher que após conseguir realizar o sonho de uma gravidez sedescobre com câncer e abre mão do tratamento e da vida para que a criança nasça.Histórias passadas em contextos culturais bastante diferentes, uma numa regiãopróxima a Paris, a outra no norte da Itália. Uma, a história de uma enfermeira, aoutra, a de uma funcionária pública. Ambas guardando uma relação de profundaintimidade com o extremo, com o limite, com a lei, mas também com um além dela.Ambas protagonizadas por mulheres.O estilo do autor, elegante, sensível, contribui muito para evocar ossentimentos descritos acima. Há, porém, algo que ultrapassa as questões estilísticas
  8. 8. 5e parece advir das realidades descritas. Não que sejam mártires ou heroínas, muitoao contrário, as condutas dessas mulheres não deixam de ter um aspecto“reacionário”, como lembra o autor, pois decidem, de modo solitário, sobre a vida e amorte de outrem, caracterizando um arbítrio, se não um certo “delírio” onipotente.Há, porém, algo de semelhante entre essas duas situações, talvez a pungência queevocam, a coragem que implicam, certamente o caráter afetivamente extremo queportam.As duas histórias têm a ver com sofrimento físico emorte. Uma delas tem a ver com nascimento. Na soma, cobremos dois extremos da vida, o nascimento e a morte. Não é poracaso que são protagonizadas por mulheres.(...)Roberta eChristine têm em comum, no entanto, algo de nobrementearquetípico. Suas histórias são histórias de mulheres emestado visceral, colocadas num extremo, muito delas, depaixão e compaixão. São histórias de mulheres. (TOLEDO,1998: 162).As produções acadêmicas de diferentes áreas retratam, também, apluralidade de aspectos que envolve a mulher e a maternidade.Num estudo relativo a representações mitológicas da maternidade,CHEVALIER e GHEERBRANT, apontam como as grandes deusas mãe, foramtambém deusas da fertilidade, simbolizando, entretanto, a ambivalência entre a vidae a morte: para os gregos, Gaia, Réia, Hera, Deméter, dentre outras; entre osegípcios e nas religiões helenísticas, Ísis; para os assírios-babilônicos, Istar; Astartpara os fenícios e Kali entre os hindus (1988: 580). Os autores discutem as váriasvertentes da figura simbólica da mãe tanto no cristianismo, como nas religiõescélticas, e em algumas religiões orientais. No caso do cristianismo, por exemplo,afirmam que a simultaneidade da condição da Virgem Maria de mãe e filha de Deus,atesta sua dupla vinculação, humana e divina. Além disso, o dogma em torno davirgindade de Maria reveste sua maternidade com um duplo contorno: factual(histórico) e simbólico. Já nas artes e religiões indianas as deusas são estritamentesímbolos, porém, também, com aspectos ambivalentes como no caso de Kali comsua aparência hedionda, considerada a Mãe Divina e representando, de modoconcomitante, a criação, a manutenção e a destruição. Ainda nas religiões célticas amulher desempenha simultaneamente o papel de “mensageira Outro Mundo”, e de“divindade guerreira” (1988: 581).
  9. 9. 6Em diferentes expressões simbólicas, especialmente naquelas oriundasdas culturas antigas, há uma associação entre a Mãe, a Terra e a Água, claramentevinculada aos enigmas em torno das origens e dos destinos, seja do homem, seja docosmo. Na modernidade, no entanto, as associações da identidade feminina aosfenômenos “naturais”, especialmente às ocorrências do corpo como a reprodução,têm sido duramente criticada pelos estudiosos das questões de gênero3, dado ocaráter de exclusão da subjetividade da mulher que uma concepção essencialista damaternidade pode sugerir.É sabido que o sentimento da maternidade é construído na história dacultura ocidental (BADINTER, 1981). Mesmo sendo a “chave do estatus feminino emcada época histórica, a maternidade não é um fato biológico inalterável cujaconsideração possa isolar-se das transformações sociais.” (IRIARTE, 1996: 77)4. Ossignificados sociais que a gravidez e a maternidade podem assumir, diferem notempo e espaço, caracterizando, assim, uma especificidade cultural. Mesmo o corpo,em sua complexidade biológica e subjetiva - mediatizada pela linguagem -, participade uma realidade historicizável. As manifestações humanas nas diferentesexpressões semióticas atestam a diversidade das concepções de corpo na históriada humanidade.Num interessante estudo antropológico acerca do papel e do valor damaternidade na democracia da Grécia antiga, IRIARTE (1996) busca demonstrar,através das personagens das tragédias gregas, o papel que a maternidade ocupana sustentação da organização social patrilinear. De algumas das tragédias, aautora deduz um desejo masculino de apropriação das funções reprodutivasfemininas e apoia aí sua tese de que o enaltecimento da reprodução nãocorresponde à valorização da mulher como cidadã. Em suas próprias palavras:Do ponto de vista do estatus feminino, a relevânciaque, em nome da paternidade, o discurso político dá à funçãoreprodutora, constitui uma faca de dois gumes, pois se aintervenção da mulher – concretamente, da mulher-mãe – sereconhece explicitamente como imprescindível para definir a3Esta não é uma posição hegemônica. Sobre isto ver, por exemplo, Camille PAGLIA (1992) emPersonasSexuais. Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson.3Tradução da autora.
  10. 10. 7empresa política, este reconhecimento implicará um maiorcontrole da esposa legítima. (IRIARTE, 1996: 78)5A autora demonstra que embora a maternidade fosse revestida de carátercívico pois gerava cidadãos para pólis, embora lhe fosse atribuído um estatutoheróico tanto pelos sofrimentos implicados no parto (as dores, o risco de morte),como pela entrega dos filhos à cidade e à guerra (em Esparta, por exemplo, amaternidade era equivalente à experiência bélica), estas representações tãovalorativas da maternidade não garantiam o direito civil das mulheres em relação aseus filhos. Este anseio feminino era vivido como ameaçador à ordem social epolítica na democracia patriarcal da Grécia antiga. Poder-se-ia considerar que frenteà potência natural da mulher, expressa em sua capacidade geradora, a organizaçãosocial (patrilinear) frespondia retirando-lhe o poder no campo da cidadania.Uma outra autora, Silvia FINZI (1996), em seu artigo sobre os mitos deorigem e suas relações com a construção da identidade feminina, aponta que ocaráter enigmático de potência geradora é ponto de enlace dos grandes saberes daantigüidade. Segundo Finzi, estas produções discursivas se orientam no sentido dedesvendar e exorcizar poder tão ameaçador. Sem consegui-lo, porém, “comodemonstra a persistência de um imaginário monstruoso acerca do corpo e dasfunções femininas e a reiteração de uma interrogação insistente”6( FINZI, 1996:129). A autora supõe a existência de figuras primordiais que participam tanto doimaginário da cultura como do imaginário individual. A mãe arcaica seria uma delas.Imagem pré-edípica, fantasma de origem que é suposto preceder a experiênciaindividual e humana. Suas representações permanecem enigmáticas tanto nasexpressões individuais como culturais por remeter a algo que escapa à possibilidadede transmissão pela linguagem, a linearidade do tempo das narrativas impedindoque se as circunscreva.Partindo da constatação freudiana de que as imagens gozam deprivilégios em relação às palavras quanto à censura, Finzi considera que aestatuária pode bem representar a força desta figura da mãe arcaica. Analisa, então,as Matres Matutae, um conjunto de estátuas encontradas em Santa María Capua5Tradução da autora.6Tradução da autora.
  11. 11. 8Vetere, região que foi ponto de ligação entre a antiga Etrúria e a Magna Grécia. Taisestátuas, provavelmente construídas entre os séculos VII e IIa.c., representam amaternidade em seus vários aspectos. As mais antigas apresentam uma imponênciafria e distante, aparentando algo de imemorial, atemporal: suas vestimentas sãoapenas esboçadas, o material é aspero, faltam expressões no rosto e gestos; osfilhos são pequenos e numerosos, também só esboçados. A autora, bem como osarqueólogos que a elas se dedicam, as descrevem como tendendo ao inorgânico,contendo vida mas sem estarem vivas. Estão esculpidas como se estivessem numtrono real, e o trono se confunde com seus corpos. Nas palavras da autora,“nenhuma mulher se identifica a elas porque representam a alteridade nelasmesmas, o radicalmente outro.”7(FINZI, 1996:142). Arqueólogos consideram queestas figuras representam as grandes deusas da fecundidade, amalgamando em sio corpo e a terra, a vida e a morte. Por outro lado, as estátuas construídas maisrecentemente parecem se humanizar. São menores e apresentam gestos eexpressões plenos de relação e afetividade, como na amamentação. A mulhermoderna já encontra elementos de identificação com estas imagens. A autoraressalta, porém, que estas últimas perdem um pouco de seu caráter enigmático, emrelação às anteriores.O conjunto destas estátuas parece visar um complexo de representaçõesda maternidade, indicando desde o aspecto impessoal e atemporal desta, enquantoorigem de vida, até sua expressão singularizada na relação entre uma mãe e seufilho. Segundo Finzi, a importância da análise da maternidade representada nosmitos, é destacar a questão da origem como vinculada à alteridade.A maioria dos estudos atuais, que enfatizam o caráter histórico damaternidade e sua procedência como resultado de operações simbólicas, visadesconstruir ideais identitários da mulher apoiados na ilusão de uma singularidadesustentada pela experiência da maternidade. Na fuga de uma naturalizaçãoopressiva da maternidade e do feminino, corre-se, às vezes, o risco daideologização do caráter cultural de ambas.7Tradução da autora.
  12. 12. 9A posição que se pretende manter neste livro é a de sustentar a tensãoentre os aspectos biológicos e subjetivos da maternidade. Na apresentação que faza Figuras de mãe, coletânea de textos antropológicos, sociológicos e psicanalíticosreferentes à maternidade, Silvia TUBERT descreve a concepção de maternidadesob a qual é construída aquela coletânea e que se aproxima bastante da que sequer como fundamento deste livro:(...) se é reducionista subsumir a feminilidade àcategoria da maternidade, também existe a possibilidade daredução oposta, que supõe a separação simples e irredutívelde ambas as categorias. O feminino e o maternal mantêmrelações lógicas complexas: nem coincidem totalmente nemsão completamente dissociáveis.Se a maternidade não se reduz à transmissão de umpatrimonio genético senão que se situa no plano datransmissão simbólica da cultura, tampouco se pode negar queo processo biológico da gestação se realiza segundo umaordem que escapa à vontade da mulher em cujo corpo temlugar.Se falamos de uma maternidade assumida pelamulher como sujeito desejante, não podemos ignorar que agestação requer a aceitação de uma posição de passividadefrente ao desenvolvimento embrionário e fetal. O exercício damaternidade supõe a articulação do corpo na cultura. Aautonomia do sujeito feminino se acha limitada em suasingularidade quando seu corpo passa a ser lugar de origem deoutro ser humano; o domínio sobre o próprio corpo – amaternidade voluntariamente escolhida -, se acha por sua vezlimitado por ter sido aquele construído como corpo significantepelas práticas e discursos dominantes na sociedade, atravésda linguagem e dos vínculos sociais.” 8(1996: 11)considera-se que as pressões modeladoras da maternidade, tantobiológicas quanto culturais, sofrerão as marcas distintivas do desejo inconsciente, asquais vão caracterizar a particularidade das experiências subjetivas de cada mulher.Pretende-se, no entanto, manter no horizonte um fio de indecidibilidade, onde essasrealidades se tocam.Camille PAGLIA (1992) num belíssimo ensaio denominado Sexo eViolência ou Natureza e Arte, analisa, dentre outras coisas, o extremodesenvolvimento da cultura ocidental, o qual considera o resultado da relação8Tradução da autora.
  13. 13. 10agonística entre o masculino e o feminino, e, ali, ao referir-se à relação da mulhercom seu corpo afirma:O corpo feminino é uma máquima ctônica,indiferente ao espírito que o habita. (...) O corpo da mulher éum mar sobre o qual atua o movimento lunar das ondas.Indolentes e adormecidos, seus tecidos adiposos encharcam-se de água, e depois se enxugam de repente na maré altahormonal. O edema é nossa recaída de mamífero no vegetal. Agravidez demonstra o caráter determinista da sexualidade damulher. Toda mulher grávida tem o corpo e o ego tomados poruma força ctônica além de seu controle. (1992: 21-22)Alguns reparos são cabíveis nesta concepção: a máquina ctônica9sofresim e também provoca efeitos no espírito que a habita, não lhe sendo, portanto,indiferente. Entretanto, na concepção do feminino que a autora apresenta, avalorização da mulher na cultura não se faz às expensas de sua natureza ctônica,mas numa dialética muito mais complexa entre masculino e feminino cujo resultadoé “a distorção da realidade”, distorção esta promovida pela ótica feminina dos fatos.A realidade “deve ser distorcida; quer dizer, corrigida pela imaginação”, segundoPAGLIA (1992: 23). Tal concepção se aproxima da concepção psicanalítica dofeminino que norteia este trabalho. A gravidez, parece ser um ponto de especialexemplificação deste entrincamento, na subjetividade da gestante, entre o ctônico eo cultural.O objeto cuja pesquisa resultou neste livro é a ocorrência de afetodeprimido em relação à gravidez, que por rigor conceitual e metodológico seráabordado dentro dos limites do campo psicanálitico. A posição aqui adotada estáem consonância com a concepção de que os efeitos subjetivos da gravidez seinscrevem no trajeto entre os valores imaginários e simbólicos que o filho podeassumir para a mulher. Acredita-se, no entanto, que o real do corpo,especificamente na gestação, seja um forte propulsor de trabalho psíquico emrelação à reconfiguração narcísica que a passagem à condição de mãe exige damulher, especialmente considerando-se que pode estar em jogo, alí, um possível9O têrmo ctônico é relativo às entranhas da terra . (PAGLIA,1992:17)
  14. 14. 11gozo feminino na maternidade, gozo este que pode ser experimentado como“estranho”.10Em seu conjunto, este livro se constitui do modo como se descreverá aseguir.O 2º capítulo trata de questões metodológicas gerais envolvidas notrabalho de pesquisa, especialmente psicanalítica.Discute-se o reducionismo necessário a toda abordagem teórica,especialmente em se tratando de objetos complexos como é o caso da depressãona gravidez. Neste segundo capítulo discute-se tanto os esforços de Freud paramanter sua obra no campo da cientificidade, quanto os limites desteempreendimento.A produção de testemunhas fidedignas que atestem a veracidade darealidade abordada – as manifestações do inconsciente – não se dá, na psicanálise,de um modo que satisfaça os critérios de cientificidade. Entretanto, sua produçãoconceitual, organizada num corpo metapsicológico, é o instrumento de abordagemdo real, que se dá no exercício clínico. Tal instrumento , quando renovadocriticamente, permite uma maior eficácia da psicanálise frente às novas realidadeclínicas. Além disso, por maiores que sejam as diferenças entre as escolaspsicanalíticas, a metapsicologia enquanto organização conceitual própria da(s)psicanálise(s), mantém a possibilidade de distinção entre este campo de saber e osoutros, possibilitando sua participação nas produções transdisciplinares.Através da revisão da literatura psicanalítica em torno dos diferentestemas que envolvem o objeto em pauta, busca-se descrever a depressão nagravidez em termos metapsicológicos, isto é: em termos de operações subjetivas, ouníveis de trabalho do aparelho psíquico, implicados no quadro clínico em questão.A partir de uma questão proveniente da clínica – como uma gravidezdesejada pode ser vivida com afetos depressivos? – analisa- se, no 3º capítulo, a10Imaginário, Real e Simbólico, são categorias destacadas por Lacan quanto à estruturação do aparato psíquico.Tais categorias definem os planos de operação da subjetividade e seus limites, representados por outra categoria,
  15. 15. 12propriedade do têrmo depressão para descrição deste evento clínico. Com este fim,avalia-se seu uso em alguns contextos teóricos subdivididos em duas grandes áreasde abordagem dos fenômenos mentais: as que tem como eixo uma concepçãoorgânica do mental e as que centralizam suas conceituações no aspecto simbólicodo aparato mental. Embora esta classificação possa correr o risco da imprecisãodada sua generalidade, ela parece útil para destacar algumas questõesepistemológicas que envolvem o problema da depressão do ponto de vistaconceitual, conforme o contexto de uso. Neste capítulo levanta-se, ainda, asprincipais diferenças entre os estudos epidemiológicos e os psicanalíticos quanto adepressão na gravidez.Passa-se, então, especificamente, ao campo psicanalítico. O 4º capítulotrata da metapsicologia da maternidade. Busca-se, ali, apresentar como amaternidade se localiza no contexto teórico freudiano. Percorre-se osdesenvolvimentos da teoria de Freud quanto à femininilidade, enfocando asparticularidades do complexo de Édipo feminino, em especial as retificaçõesposteriores a 1920. Destaca-se o fato da maternidade inscrever-se, na teoriafreudiana, no plano da identidade sexual, isto é, do “tornar-se mulher”, orientadapela lógica fálica. Procura-se salientar, também, os estatutos que assume o filhoenquanto objeto relativo à subjetividade da mãe.Como a teoria freudiana da sexualidade psíquica se construiu numa certaênfase de sua modalidade masculina, um efeito imediato, no campo teórico entãonascente, foi a busca da especificidade da sexualidade feminina. A década de 20caracterizou-se pela profusão de produções sobre este tema. No 5ocapítulo, toma-se as proposições de Helene Deutsch, autora deste período, que se dedicouintensamente ao estudo da sexualidade feminina. Outros autores como KarenHorney, Jones, Brunswick, Lampl de Groot, por exemplo, envolveram-se tambémcom esta temática. Porém, a inclusão de Deutsch nesta pesquisa se deve à ênfaseque a autora dá a aspectos como o narcisismo e a maternidade na subjetividadefeminina. Além disso, a revisão bibliográfica preliminar nos levou a esta autora comoprimeira referência à depressão na gravidez interpretada psicanaliticamente. Foi ema de Gozo. O valor de operadores destes conceitos no escopo deste trabalho se escalrecerá em capítulos
  16. 16. 13sua obra que se encontrou um aprofundamento de algumas indicações freudianasquanto ao lugar de ideal de eu que o filho pode ocupar para subjetividade da mãe.No 6º capítulo discute-se a teoria metapsicológica de Freud, sobre amelancolia, buscando-se extrair dela os elementos conceituais para compreensãodo afeto deprimido na gravidez. Parte-se do Rascunho G de 1895, passa-se por Lutoe Melancolia de 1915, indo até Inibição, Sintoma e Ansiedade [Angústia] de 1926,destacando-se as permanências e transformações da teoria freudiana sobre o tema.Alguns aspectos da teoria da melancolia são ressaltados, o primeiro deles é aquestão da chamada “identificação narcísica ao objeto perdido”, onde se buscacompreender como a relação entre o eu e o objeto pode ser de ordem a inibir adiversidade dos comparecimentos simbólicos.O segundo aspecto ressaltado é a dinâmica dos ideais como origem deestados melancólicos e depressivos. Parte-se da teorização sobre a melancolia,proposta por M.C. Lambotte, autora de orientação lacaniana, onde se destacam asproposições quanto ao estádio do espelho na abordagem da melancolia. A autoraextrai destas proposições uma particularidade no caso dos melancólicos, aidentificação do sujeito ao objeto, porém na sua vertente de resto, ficando o ideal deeu deslocado para os objetos. A ausência de um investimento materno desejantesobre a imagem do filho, responderia por esta identificação.A partir destes elementos teóricos busca-se estabelecer algumasrelações com o que ocorre entre a gestante e seu bebê, retomando a indicação deDeutsch quanto ao filho ocupar o lugar de ideal de eu da mãe.Neste ponto da pesquisa, a questão do objeto toma um valor pregnante.Considerando-se a precisão conceitual que Lacan oferece à questão do objeto,apresenta-se alguns tópicos de suas proposições.Passa-se, então para ao terceiro aspecto ressaltado, o problema da dorpsíquica envolvida nos processos de luto, patológico ou não. A questãometapsicológica da dor intrigou Freud durante todo seu trabalho com as diferentesformas de luto. A revisão bibliográfica, mais uma vez conduziu a um autor quededica um trabalho exclusivo a esta problemática, J.D.Nasio, cuja produção tambémsubsequentes.
  17. 17. 14é de orientação lacaniana. Nasio tratará da dor como objeto pulsional, não só naperspectiva de um masoquismo perverso, mas, especialmente, como indicador deuma quebra fantasística que deixa o eu convulsionado pela desorientação pulsional,indicador esse que se situa no limite entre o corpo e o psiquismo.Finalizando, no 7º capítulo, parte-se especialmente da experiênciacorporal da gestação para desenvolver o sentido de “estranho” que o filho podeassumir para subjetividade materna. Toma-se as relações estabelecidas por Freudna segunda tópica entre ego e corpo para dali deduzir a faceta de estranheza que ofilho como objeto pode assumir para o eu materno.O estranhamento é tratado em consonância com a abordagem freudianado tema, apresentada em seu artigo de 1919, O Estranho. Quanto à questão doobjeto, ela é aqui tratada conforme as proposições freudianas do Projeto...,especialmente no que se refere às diferentes formas de trabalho que o objetopromove no aparelho psíquico para seu reconhecimento (juízos). Aproxima-se,então, este trabalho àquele exigido à subjetividade materna para o reconhecimentodo filho enquanto objeto simultaneamento idêntico e estranho ao eu materno.Propõe-se ao final que o “estranhamento” seria uma prática peculiar aofeminino. A concepção de feminino formulada por Lacan parece oferecer elementospara essa proposição uma vez que ela contempla o ultrapassamento da lógica e dogozo fálicos. A dor que algumas experiências de estranhamento podem provocarestaria ligada à pressão por inscrição desse gozo na ordem fálica, ou no campo dosentido.No 8º capítulo é apresentado um breve mapeamento do caminhopercorrido, ressaltando-se tanto os pontos de corte, como os aspectos de ligaçãoque definem o território abordado por esta pesquisa.
  18. 18. 15As bordas do caminhoA porta da verdade estava aberta,mas só deixava passarmeia pessoa de cada vez.Assim não era possível atingir toda a verdade,porque a meia pessoa que entravasó trazia o perfil de meia verdade.E sua segunda metadevoltava igualmente com meio perfil.E os meios perfis não coincidiam.Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.Chegaram ao lugar luminosoonde a verdade esplendia seus fogos.Era dividida em metadesdiferentes uma da outra.Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.Nenhuma das duas era totalmente bela.E carecia optar. Cada um optou conformeseu capricho, sua ilusão, sua miopia.Carlos Drummond de Andrade11C. D. ANDRADE, (1984: 41-42). “Verdade”. In: Corpo.
  19. 19. 16Considerações preliminaresA explicitação dos referenciais norteadores de qualquer pesquisademarcam a posição do pesquisador no tocante às possibilidades de produção doconhecimento ou de abordagem do real. Isto implica não só o recorte do objeto,como a forma escolhida para essa abordagem (método em sua vertente de técnica)e, ainda, a finalidade deste conhecimento ou produção. Se, de um lado, umadeterminada concepção de conhecimento ou de ciência engendra concepçõesespecíficas de objeto, certos objetos empurram o pesquisador à utilização de eixosde compreensão diversos. De qualquer modo, sejam quais forem os referenciaisadotados, sempre se procederá a uma forma de redução2( ATLAN, 1991). Este é ocaso na presente pesquisa. Falar em depressão na gravidez é falar de um objetohíbrido3(LATOUR, 1994), impreciso em seus contornos e paralelamente complexoem suas articulações. Conforme indica MORIN:Pode dizer-se que o que é complexo releva de uma partedo mundo empírico, da incerteza, da incapacidade de estarseguro de tudo, de formular uma lei, de conceber uma ordemabsoluta. Releva de outra parte algo de lógico, quer dizer daincapacidade de evitar contradições...a complexidade édiferente da completude. Julga-se muitas vezes que osdefensores da complexidade pretendem ter visões completasdas coisas. Por que o pensariam eles? Porque é verdade quepensamos que não se pode isolar os objetos uns dos outros.No limite tudo é solidário. Se tendes o sentido da complexidadetendes o sentido da solidariedade. Além disso, tendes o sentidodo caráter multidimensional de qualquer realidade. (1991: 82-83).Em se tratando de um estudo acerca de processos subjetivos, mesmoque se os compreenda como efeitos complexos das articulações entre linguagem,2Atlan se refere ao valor pragmático do reducionismo, de circunscrever o domínio de legitimidade da ciência,indicando os limites do procedimento científico, ”o qual só pode progredir obrigando-se a ser reducionista,‘jogando o jogo’ reducionista, porém, ‘crer nele’ certamente testemunharia uma grande ingenuidade”(ATLAN, op. cit. : 83).3Híbrido esta sendo utilizado aqui, no sentido atribuído por Latour: relativo simultaneamente à natureza e àcultura.
  20. 20. 17biologia e relações sociais, será necessária alguma sorte de redução que permitaabordá-los. Nesta pesquisa tal redução se fez a partir do referencial psicanalítico.As origens da psicanálise estão assentadas no empirismo. O projetofreudiano de construção de uma psicologia profunda foi marcado, durante toda suaprodução, pelo anseio de incluí-lo no campo das ciências. É interessante notar comoas marcas do método de John Stuart Mill , filósofo da ciência empírica do séculoXIX, aparecem nos trabalhos psicanalíticos iniciais de Freud (este último foi,inclusive, tradutor das obras daquele, para língua alemã), onde busca respeitar asprincipais regras de uma produção empírica, os métodos da “concordância”, da“diferença”, “da variação concomitante” e dos “resíduos”, propostos por Mill,conforme descrito por CASTIEL (1996) num capítulo de sua obra Moléculas,Molestias e Metáforas... denominado “Freud e Mill: a histeria e a empiria”.Pode-se considerar ainda a adesão freudiana ao empirismo em função daprevalência dada à clínica como fundamento epistemológico da teoria. Em um deseus últimos trabalhos – Esboço de Psicanálise -, escrito em 1938, FREUD afirmanum curto prefácio:Os ensinamentos da psicanálise baseiam-se em umnúmero incalculável de observações e experiências, somentealguém que tenha repetido estas observações em si próprio eem outras pessoas acha-se em posição de chegar a umjulgamento próprio sobre ela. (1975: 168).Todavia, a concepção freudiana de ciência foi bem além do positivismo.Num dos principais textos metapsicológicos, Os instintos e suas vicissitudes,tratando da importância do conceito de pulsão para organização do aparato teóricoda psicanálise, Freud (1974c) dá absoluta prioridade à formulação do conceito comoinstrumento de abordagem do real, e portanto, como base da construção teórica(BOURGUIGNON, 1991). Em suas próprias palavras:O verdadeiro início da atividade científica consisteantes na descrição dos fenômenos, passando então a seuagrupamento, sua classificação e sua correlação. Mesmo nafase de descrição não é possível evitar que se apliquem certasidéias abstratas ao material manipulado (...) Tais idéias - quedepois se tornarão os conceitos básicos da ciência- são aindamais indispensáveis à medida que o material se torna maiselaborado. Devem, de início, possuir necessáriamente certograu de indefinição; (...) Enquanto permanecem nessa
  21. 21. 18condição, chegamos a uma compreensão acerca de seusignificado por meio de repetidas referências ao material deobservação do qual parecem ter provindo, mas ao qual de fatoforam impostas. Assim, rigorosamente falando, elas são danatureza das convenções – embora tudo dependa de nãoserem arbitrariamente escolhidas mas determinadas por teremrelações significativas com o material empírico, relações queparecemos sentir antes de podermos reconhecê-las edeterminá-las claramente. (1974c: 137).Este texto parece evidenciar a relação dinâmica entre observação econceituação, que permeia toda obra freudiana. A construção do saber psicanalíticose faz num processo dialético entre a clínica (que não é, exatamente, fonte deobservação empírica no sentido sensorial , porém é empírica no sentido deexperienciada) e a teorização, cuja finalidade é sempre o retorno à clínica, e assimsucessivamente... Conforme indica FREUD em seu artigo de 1926, A questão daAnálise Leiga:Na psicanálise tem existido desde o início um laçoinseparável entre cura e pesquisa. O conhecimento trouxe êxitoterapêutico. Era impossível tratar um paciente sem aprenderalgo de novo; foi impossível conseguir nova percepção semperceber seus resultados benéficos. Nosso método analítico éo único em que essa preciosa conjunção é assegurada.(1976m,: 291).L. CHERTOK, e I. STENGERS (1990), conjugando suas respectivasexperiências de psicanalista e epistemóloga, realizaram um interessante estudoacerca do projeto freudiano de cientificidade. Acompanham as origens dapsicanálise na hipnose, e o processo de sua construção como campo de saber emrelação às ciências modernas, a partir do abandono da técnica sugestiva pela daassociação livre e pelo processo elaborativo. Aí demonstram o meticuloso trabalhode Freud para garantir condições de produção de um testemunho fidedigno quepudesse fazer da psicanálise uma ciência de pleno direito. Comparam, então, aevolução da psicanálise à da química, comparação indicada pelo próprio FREUD emLinhas de Progresso na Terapia Psicanalítica (1976 a), onde apontam a passagemrealizada por Lavoisier estabelecendo o estatuto da química como técnicaexperimental ou ciência operatória (em oposição a seus antecessores que lhereservariam o estatuto de arte da experiência). A proposição de criação dos fatosquímicos e dos protocolos de abordagem destes, visava garantir seu
  22. 22. 19reconhecimento e sua reprodutibilidade por qualquer um que dispusesse destesinstrumentos.Chertok e Stengers julgam que, de modo semelhante, Freud buscouestabelecer a psicanálise como um campo de produção científica ao substituir ahipnose pelo trabalho de elaboração. A cena analítica viria a se transformar numaespécie de laboratório onde o objeto de experimentação seria a neurose detransferência.Tal como o químico do século XIX “criava seuobjeto”, em vez de tomá-lo no mundo natural, não maisestudando as matérias-primas não purificadas que o artesãotransformava, o analista “[instaurava] um estado que tem todosos aspectos de uma doença artificial”. E essa doença, namedida em que tinha por arena única o “campo circunscrito” dacena analítica, tornava-se acessível a suas intervenções.(CHERTOK e STENGERS, 1990: 76).Os autores concluem que o objetivo freudiano de fazer da psicanáliseuma técnica científica de abordagem do inconsciente onde a verdade e a sugestãofossem claramente distingüíveis, não se produziu. Afirmam que os textos finais daobra de Freud atestam o “fracasso da experiência” de produzir testemunhasfidedignas pela cura dos pacientes através da clínica psicanalítica (única a lhespermitir um verdadeiro acesso a sua verdade em oposição às técnicas sugestivas).Impossibilidade que se revelou freqüente em função das resistências e dacompulsão à repetição, que impediam os sujeitos de reconhecer e aceitar suaverdade inconsciente. Consideram, entretanto, que a posição freudiana frente a este“fracasso” foi de valorizar a teoria (o conceito) por esta ser capaz de explicar osfracassos da técnica. Os referidos autores pretendem destacar a insistência dopasso freudiano na busca do caráter científico da experiência analítica. Caberessaltar que a posição destes autores não é de elogio ao cientificismo, ao contrário,pretendem assinalar como o desprezo dos “testemunhos falsos” (como osproduzidos pela hipnose, por exemplo) pode ser empobrecedor do processo deconhecimento. Assinalam que tais testemunhos e fracassos experimentais deveriam,na perplexidade que evocam, convocar os cientistas a uma prática datransdisciplinariedade.
  23. 23. 20Ainda em outro trabalho, Quem Tem Medo da Ciência..., STENGERS(1990), referindo-se à esta mesma temática, afirma que o que se põe aospsicanalistas como questão é “quais são as práticas a serem produzidas, inventadaspara trabalhar juntos e transformar um fenômeno em ator de discussão, sem o idealjudiciário da testemunha fidedigna que concluirá a controvérsia, que dirá quem temrazão e quem está errado.”(1990: 139). Indica, ainda, que o fato dos psicanalistaslidarem com “seres que estão interessados na produção de saber operado a seusujeito”(1990: 140), aponta para necessidade de se ultrapassar a diferença entrefato e artefato4, uma vez que é inevitável (e não totalmente controlável) aparticipação do analista na produção dos efeitos da análise. Na neurose detransferência, a natureza do fato clínico é a de um artefato enquanto criação de umacerta realidade - a que implica analista e analisando -, realidade esta que mantêmestreitas relações com os fatos ou realidades psíquicas do sujeito em análise.STENGERS reafirma sua posição epistemológica de que fazer ciência éum processo coletivo, e parece indicar como caminho para a psicanálise aampliação do trabalho conjunto entre escolas e entre campos de saber, “produzindointrigas cada vez mais sutis (...) e ficções cada vez mais pertinentes, cada vez maisexigentes quanto aos múltiplos sentidos de seu conhecimento ‘patético’”(1990 : 141).É na perspectiva proposta por Stengers que este trabalho foi concebido.Buscar descrever um dado clínico – o surgimento de afetos de tristeza relacionadosà gravidez – em diferentes perspectivas da teoria psicanalítica, parece ser um modonão só de ampliar as possibilidades de compreensão deste dado, como, também, deexperimentar-se os limites do aparato conceitual.Considera-se, em princípio, que as realidades humanas, individuais esociais, só são compreendidas e/ou explicadas através de recortes teóricos dealcance específico e limitado, abarcando diferentes graus de complexidade do real,sem que haja diferença de valor entre eles. A pertinência das construções teóricaspode ser verificada na coerência interna de suas premissas e categorias - na lógicade sua racionalidade5-, no “interesse”6que geram entre os pares, bem como naeficácia da praxis7que produz.4O artefato é considerado um testemunho extorquido pelo experimentador, portanto cientificamente inválido.5Racionalidade é, segundo MORIN, “o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica(descrita, explicativa) e uma realidade empírica.”(1990: 121).
  24. 24. 21Porque uma descrição metapsicológica.A razão de estabelecer-se que o produto desta pesquisa deveria incluir-seno campo da metapsicologia, se deve ao fato de considerar-se que esta define ocampo onde se organizam os conceitos e as experiências relativas à psicanálise.A idéia de que o que Freud produzia era uma metapsicologia (têrmoformulado por equivalência a metafísica), está ligada ao campo onde emergem suaspesquisas. Voltado para sintomas mentais de origem enigmática, é além daconsciência que Freud vai buscar a razão destes. Em sua correspondência a Fliess(1977) , são vários os momentos em que se questiona, através de seu interlocutor,quanto à propriedade deste termo (metapsicologia) para suas construções teóricas.No período em torno de 1914/15, Freud realiza um trabalho de sistematização desuas proposição referentes ao aparelho psíquico, o qual nomeia explicitamenteMetapsicologia. Embora declare compor-se de um conjunto de 12 textos, parece terescrito somente 5: Os instintos [pulsões] e suas vicissitudes, Repressão [recalque],O inconsciente, Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos e Luto eMelancolia. Entretanto, há um certo consenso no campo quanto à pertinência dainclusão de outros textos neste conjunto, tais como O Projeto para uma psicologiacientífica, Capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos, Formulações sobre os doisprincípios do funcionamento mental, O Narcisismo. Uma introdução e O Ego e O Id.Como se pode perceber, são considerados metapsicológicos os trabalhos deorganização conceitual.Em 1915, quando escreve sua Metapsicologia, Freud adverte aos seusleitores que as descrições metapsicológicas devem envolver três modos dedescrição dos fenômenos. Uma descrição dinâmica explicando os conflitossubjacentes a eles, uma descrição econômica apresentando as vicissitudes dasforças ou quantidades de excitações que respondem pela formação de tal fenômenoe, finalmente, uma descrição topográfica, isto é, a localização das estruturaspsíquicas envolvidas na produção do fenômeno em questão.6Uma das hipóteses desenvolvidas por STENGERS (1992) em La Volonté de Faire Science. À propos de laPsychanalyse, é de que o “interesse” que desperta uma proposição científica é condição para que ela possa serconsiderada “ verdadeira”, no sentido de organizar forças e meios de prova em torno desta proposição.7O termo praxis é utilizado aqui, no sentido dado por Marx, de união entre teoria e prática. A praxis humanaconstituindo o fundamento de toda possível teorização ( FERRATER-MORA, 1986: 2661).
  25. 25. 22Não será descabido dar uma denominação especiala essa maneira global de considerar nosso tema, pois ela é aconsumação [vollendung] da pesquisa psicanalítica. Proponhoque, quando tivermos conseguido descrever um processopsíquico em seus aspectos dinâmico, topográfico e econômico,passemos a nos referir a isso como uma apresentaçãometapsicológica. (FREUD, 1974e: 208).8O termo ao qual se referiu Freud em 1915, para designar o que adescrição nestes tres níveis produz foi – vollendung – “acabamento”. A descriçãometapsicológica produziria, então, o acabamento, a conclusão conceitual explicativasobre um fenômeno psíquico assim abordado. Entretanto, a teorização psicanalíticaquando referida à prática clínica, se mostra freqüentemente arredia a estesacabamentos. Não só pelas dificuldades de reprodução experimental dosfenômenos inconscientes, nem também pela extrema implicação do observador nosfenômenos observados, mas pela própria riqueza e variabilidade das produções doinconsciente.Parece claro que o projeto de organização do campo teórico dapsicanálise nos termos de uma metapsicologia responde, dentre outras coisas, aosanseios freudianos de cientificidade. Conforme esclarece LE GAUFEY:Em sua preocupação de tornar a psicanálisereconhecida como ciência, Freud por vezes promoveu o idealde uma apresentação conceitual “completa” da psicanálise; esó seu respeito pelas imposições inerentes ao objeto de suadémarche o afastou constantemente deste ideal.(...) O projetometapsicológico talvez seja o melhor atestado desta tensãopresente na obra de Freud entre um acabamento conceitual,que permitiria à psicanálise alcançar um certo Olimpo dacientificidade, e um inacabamento conceitual que é prova deum traço fundamental de seu objeto, traço que nenhumconceito particular consegue subsumir e que no entanto seriafatal ignorar.(1996: 340).A tensão entre o fechamento e a abertura do campo conceitualpsicanalítico é o que parece caracteriza-lo. É nesse intervalo que a metapsicologia -essa “bruxa” como a caracterizou Freud em Análise Terminável e Interminável (19758Importante salientar que ao nomear-se alguns capítulos subseqüentes com o termo “metapsicologia”(metapsicologia da maternidade ou metapsicologia da melancolia), foi mantido o caráter descritivo apontado porFreud nesta citação.
  26. 26. 23a) -, pode fazer “surgir” respostas especulativas aos limites da clínica, empurrando-a,certamente, adiante.Daniel WIDLÖCHER (1994) num artigo denominado Metapsicologia eAuto-Análise, apresenta três concepções da metapsicologia. Na primeira, o quadroteórico é compreendido como o organizador dos dados clínicos, permitindo adescrição mais precisa possível dos processos que ali ocorrem. Na segundaconcepção a metapsicologia é um meio de explicar a vida mental. No primeiro casopropõe-se uma nova leitura dos fenômenos do mundo a partir do inconsciente; nosegundo, trata-se de articular a concepção do inconsciente às outras concepções deaparelho psíquico (as neurobiológicas, por exemplo). Segundo o autor, estasconcepções não se opõem. As divergências que produzem só aparecem quandoarticuladas a outros aparatos conceituais de explicação da vida mental. O autorressalta que a metapsicologia possibilita uma interdisciplinariedade. Ressalva,porém, os riscos de um reducionismo descaracterizante quando as assimilações sãofeitas de modo simplificador. Entretanto, “explicar o inconsciente” ou “explicar peloinconsciente” são ambas posições encontradas em Freud.Widlöcher apresenta, ainda, uma terceira concepção de metapsicologia.Partindo da articulação feita por Didier Anzieu quanto à relação entre a auto-análisede Freud e sua construção metapsicológica, o autor propõe que, assim como aanálise de seus próprios sonhos teria fornecido a Freud o complexo teórico básicoda psicanálise, assim também cada análise fornece uma teoria da vida mental doanalisante, a qual se constrói na transferência. Toda análise constitui-se, então,numa construção metapsicológica.SOUZA (1998), num artigo no qual discute uma certa tendência atual dasproduções psicanalíticas em direção a questões sociais, aponta o empobrecimentodo campo conceitual psicanálitico provocado pelo deslocamento do olhar dapsicopatologia dos sujeitos para psicopatologia do social. Através da análise dealguns textos freudianos, mostra a especificidade do modo pelo qual Freud aborda avinculação entre subjetividade e cultura com sua metapsicologia. Na obra freudiananão ocorre o deslocamento descrito acima, o que se observa é um movimentorecursivo entre as dimensões sociais e individuais de produção de subjetivação, “ascondições contemporâneas de subjetivação desempenham um papel etiológico
  27. 27. 24importante mas não absolutamente decisivo no espectro psicopatológico do qual opsicanalista se ocupa.”(1998:86). O autor propõe, então, que a metapsicologia possaexercer um papel moderador na avaliação dos psicanalistas quanto à incidência desuas práticas na cultura. A “renovação criativa dos conceitos metapsicológicos” é oque poderia oferecer aos psicanalistas saídas para os impasses que a clínicaapresenta, sejam eles movidos por transformações sociais ou não.Método da pesquisaO objeto desta pesquisa – o afeto deprimido durante a gravidez – foiresultado de questões sucitadas pela clínica. Embora esta não seja uma pesquisade campo, parece importante salientar que as elaborações conceituais aquiestabelecidas sofreram o balizamento desta experiência clínica.O objetivo geral da presente pesquisa foi buscar elementos teóricos quepermitissem a compreensão da ocorrência de afetos deprimidos durante a gravidez,a partir das teorias psicanalíticas.Para que tal objetivo fosse atingido procedeu-se uma pesquisa básica derevisão da literatura psicanalítica. Tal revisão se processou através de fontesprimárias - a obra freudiana - e secundárias, ou seja: artigos e livros de línguasinglesa, francesa, espanhola e portuguesa. O material foi coletado em bibliotecas eatravés de sistema eletrônico de pesquisa (ex.: sistema Medline). A pesquisa destematerial foi feita em torno de 3 núcleos temáticos9(Complexo de Édipo/Castração;Gravidez/Maternidade/Feminino e Depressão/Melancolia). Estes temas não seencontram isolados na teoria, porém foram destacados diferentemente nos váriosperíodos e pelas diversas escolas psicanalíticas. Foi necessário, então, que sebuscasse suas principais conceptualizações em Freud, bem como algumasreformulações teóricas, propostas por autores que tenham contribuído para ateorização destas temáticas.Alguns outros temas surgiram como contingências dos caminhospercorridos na pesquisa. O estudo do feminino e da maternidade conduziu aos
  28. 28. 25diferentes estatutos que o filho ocupa enquanto objeto na subjetividade da mãe. Apesquisa em torno da depressão conduziu à questão da formação do eu e seusideais. O anseio de encontrar uma explicação para os afetos deprimidos durante agravidez que não se restringisse a efeitos de uma estrutura neurótica ou psicótica,levou à análise do fenômeno do estranhamento, o qual se tornou, por fim, a linha decostura do tecido deste livro.9Tema é aqui compreendido no sentido descrito por Bardin como “a unidade de significação que se libertanaturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia de leitura.” (BARDINapud MINAYO, 1992: 208)
  29. 29. 26Sobre um dos nomes da tristeza“Quando me dei conta de que fora vencido peladoença, senti a necessidade de, entre outras coisas,registrar um protesto contra a palavra “depressão”.(...) “Melancolia” pode ainda ser adequada eevocativa para definir as formas mais graves dadoença, mas foi destronada por uma palavra deconotações mais brandas, sem ar professoral, usadaindiferentemente para descrever uma economia emdeclínio ou uma vala na estrada, uma palavrarealmente sem cor considerando uma doença dessaimportância. Talvez o cientista a quem geralmente éatribuida essa denominação, nos temposmodernos(...) – o psiquiatra nascido na Suiça, AdolfMeyer – não tivesse um ouvido capaz de captar osrítmos mais sensíveis da língua inglesa e por issonão percebeu que estava perpetrando um desastresemântico quando propôs a palavra “depressão”para descrever uma doença tão terrível. Seja comofor, por mais de setenta e cinco anos a palavra temdeslizado inocuamente através da língua como umalesma, deixando poucos sinais indicadores da suamalevolência e impedindo, devido à sua extremainsipidez, o conhecimento generalizado da terrívelintensidade da doença quando não é controlada”.William Styron11STYRON (1990: 43-44). Perto das Trevas
  30. 30. 27A depressão no campo dos saberes.O quadro clínico que deu origem a esta pesquisa emergiu da clínicapsicanalítica. Em alguns casos, mulheres que durante suas análises expressavamintenso desejo de engravidar, ao realizarem esse projeto foram acometidas de umestado de tristeza, com alterações de sono e apetite, num período que abrangia osprimeiros meses da gestação. Tal quadro pode ser aproximado àquele classificadopela psiquiatria moderna como episódio depressivo ( D.S.M. IV) (AMERICANPSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1995). O motivo deste estado de tristeza ou dorpsíquica que se está qualificando como depressão na gravidez não parecia ser obebê – este continuava sendo extremamente desejado, nos casos observados -mas algo relativo à própria subjetividade daquelas mulheres em vias de se tornaremmães. Cabe ressaltar que as mulheres em questão eram primíparas e não tinhamdiagnóstico de psicose. Chamar-se-á inicialmente este estado afetivo de depressãopor esta semelhança descritiva. Pretende-se, no entanto, discutir, ao longo dotrabalho, a adequação (ou não) da utilização desta nomenclatura.Embora se reconheça a existência de imensa literatura relativa àdepressão como quadro psiquiátrico, bem como a profusão de obras referentes àmelancolia como estrutura clínica, o que se busca, aqui, é poder recortar aexperiência do afeto deprimido durante a gravidez não como efeito de uma estruturasubjetiva melancólica ou deprimida, mas como efeito do processo de subjetivaçãofeminino em relação à maternidade.Uma primeira questão relativa à propriedade do uso do termo depressãopara qualificar uma ocorrência clínica deste tipo diz respeito a seu caráterdiagnóstico e à pertinência de seu uso na clínica psicanalítica. O termo depressãoaparece nas produções psicanalíticas desde seu início, sem que tenha o estatuto deum conceito teórico da psicanálise. Nas vezes em que Freud se utiliza deste termo,o faz com o caráter que lhe atribui a psiquiatria da época. Todavia, mesmo napsiquiatria, a definição do que seja a depressão e sua posição no campo dapatologia tem sido trabalhosa e permanentemente alterada.Seja como entidade nosográfica, seja como experiência fenomenológica,a depressão adquire interesse nesta pesquisa, tanto por seu “poder definidor” ou“poder explicativo” junto ao senso comum (o têrmo depressão é utilizado de forma a
  31. 31. 28representar quase toda sorte de estados de “dor psíquica”), como pela freqüênciacom que tem sido associada aos mais diversos quadros clínicos, complexificandosuas explicações etiológicas, bem como sua terapêutica.Sabe-se que os fenômenos depressivos são objeto de diferentes áreas dosaber cujos contornos são, por vezes, muito pouco definidos: as psicologias, aspsiquiatrias, as psicanálises, as ciências sociais, além da genética, da neurologia eoutras... (nenhuma delas hegêmonica no domínio do saber sobre o mental oupsíquico - este objeto pouco preciso, complexo ou pluriobjeto). Nesse sentido, sãoinevitáveis as intersecções e interfaces (ex.: psiquiatria psicanalítica,psiconeuroimunologia, psicobiologia, neuropsiquiatria, etc...) onde os conceitos seorganizam em sintaxes que se diferenciam tanto das fontes originais (uma psicologiaou uma psiquiatria específicas), quanto das possíveis combinações de saberes.Além da abundância de literatura científica, nas mais diversas tendências,acerca do tema depressão, há, também, uma profusa literatura não científica sobreeste tema. Ele é presença freqüente na imprensa escrita, falada ou televisiva,comparece nos discursos dos representantes de qualquer classe social (pelo menosnos países cuja cultura é ocidentalizada), é apresentado, inclusive, em home pagesde redes computacionais. Na última década, a circulação das informações científicastem se dado de forma ampla, independente da qualidade destas ou do quanto deincerteza escamoteiam..., e o senso comum vem se construindo sobre esta forteinfluência da divulgação dos saberes científicos (GRANGER, 1993: 16-19).Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da DepressãoTratar de aspectos epistemológicos é, antes de mais nada, tratar dalógica sob a qual um conhecimento se processa. Se o conhecimento só se faz pormediação, a razão é o mediador que caracteriza o conhecimento científico. MORINdescreve a razão como:(...) um método de conhecimento baseado nocálculo e na lógica (na origem, ratio quer dizer cálculo),empregado para resolver problemas postos ao espírito, emfunção dos dados que caracterizam uma situação ou um
  32. 32. 29fenômeno. A racionalidade é o estabelecimento de umaadequação entre uma coerência lógica (descrita, explicativa) euma realidade empírica. ( 1990: 121).Compreender os périplos da noção de depressão implica reconhecer aracionalidade do uso deste conceito em diferentes contextos teóricos.O estudo da depressão coloca o pesquisador - clínico ou teórico - emconfronto com problemas epistemológicos como o da multiplicidade de definições dedepressão conforme os referenciais teóricos utilizados. A escolha de tais referenciaistem implicações tanto no campo teórico como prático.Do ponto de vista epistemológico é importante se ressaltar a diferença derecorte do objeto mente ou psiquismo, sede da depressão. Conceber a depressãocomo ocorrência de um aparelho psíquico forjado no embate entre moçõespulsionais e as pressões culturais, é completamente diferente, por exemplo, decompreendê-la como efeito de processos bioquímicos num aparato neuronal. Paraas neurociências o mental se circunscreve nos processos de cognição e nasestruturas cerebrais (ex.: circuitos neuronais, bioquímica cerebral) (ANDREASEN,1997: 1586) enquanto nos saberes psicodinâmicos a ênfase do mental está nasubjetividade, portanto, na organização particular, simbólica, do que quer que seja omental (neurônios, gens, relações sociais ou traços de linguagem). Nesse sentido, acategoria ou conceito depressão, sofre os efeitos lógicos de estar vinculada a umaou outra concepção do mental. Não seria necessário demonstrar, portanto, asenormes diferenças na clínica da depressão conforme o modelo teórico que seutilize.Se é possível relacionar o mental orgânico, com o mental simbólico, comopretendem, especialmente, os pesquisadores das neurociências (ANDREASEN, op.cit.,1586), é necessário que antes se considere os ganhos e as perdas que taljunção pode trazer. Essas relações só se fazem através de reduções, que, porvezes, custam a perda do objeto em si (SAMAJA, 1992: 15). Por outro lado, afinalidade pode justificar esta tentativa. A clínica do mental (e suas dificuldades...) é,sem dúvida, um forte estimulante para criação destas interfaces. Porém, aquitambém (clínica do mental), há diferenças marcantes: umas caminhando no sentidoda eliminação ou controle dos sintomas e transtornos; outras, considerando ossintomas como discursos subjetivos cuja decisão sobre seu destino (eliminação ounão) não é devida, nem possível para o profissional que conduz a clínica.
  33. 33. 30Parece importante destacar-se a mudança de perspectiva de umfenômeno (a depressão, no caso) quando vinculado a um ou outro desses objetivos,de modo que se possa decidir sobre a propriedade de seu uso no contexto clínicoabordado por esta pesquisa. Tais objetivos, ou sentidos da intervenção clínica, têmsua determinação (ao menos em parte...) no privilégio à vertente subjetivante ouobjetivante da produção de conhecimento. O objetivismo poderia ser sintetizadocomo uma visão do mundo constituído de objetos com características epropriedades independentes dos seres que com eles se relacionam, possibilitando,assim, seu conhecimento verdadeiro, através de métodos e linguagem claros eobjetivos como pretendem ser o método e a linguagem científicos. Já o subjetivismocompreende o conhecimento dos objetos do mundo através das relações entre osseres e os objetos, enfatizando todas as formas de manifestação subjetiva.(LAKOFF& JOHNSON, 1980).Outra questão epistemológica relevante na análise de um conceito é adificuldade em se rastrear as semelhanças ou linhas de continuidade internas a umsaber, ou entre saberes diversos, no que tange ao uso desse conceito, em funçãodas mudanças de estatuto que este sofre no seu contexto de uso. A depressão, porexemplo, tem sido tratada ora de modo substantivo ora adjetivo. Conforme descrevePALMEIRA, em sua tese de mestrado acerca das relações entre psiquê e cancer:(...) em alguns casos a “depressão” éentendida como algo que o sujeito sofre, em outros éinterpretada como algo inerente à própria natureza do sujeito.(1994: 47) .Uma tentativa de neutralização deste problema tem sido feita pelaepidemiologia psiquiátrica com seus sistemas de classificação, nos quais estadoscomo os de depressão seriam sempre adjetivos, resultado de um somatório desinais.Na perspectiva mais estritamente neurobiológica, a depressão éassociada a fatores tais como alterações de processos cerebrais adaptativos(ANDREASEN, 1997:1588), ou intercorrências nos sistemas de transmissãonoradrenérgicos do sistema nervoso central (s.n.c.); ou processo de recaptação daserotonina ao nível sináptico do referido sistema (s.n.c.); ou ainda deficiência de
  34. 34. 31dopamina no sistema nigroestriatal ( SIMÕES et alii, 1996: 4-5). Outra vertente dapesquisa biomédica associa a depressão a fatores hormonais, como o estrogênio,por sua “ação direta e indireta sobre os neurônios do s.n.c.” (SIMÕES et alii, op.cit.:5), condição considerada como uma das prováveis responsáveis pela freqüênciade depressão, duas vezes maior, nas mulheres do que nos homens.(PAYKEL,1991). Fica evidenciado, aqui, que a depressão, independente da hipótese que aexplique, é compreendida como um fenômeno adjetivo, resultante de processosneurobiológicos ou genéticos. Os modelos de produção de conhecimento acerca dadepressão, nestas áreas, são objetivos. Seja o que for, a depressão é supostaexterior àquele que a pesquisa.A depressão como experiência vivida - subjetiva - é tratada pelossaberes psicodinâmicos (incluindo aqui os culturais). Seria temerário, entretanto,conceber qualquer universalidade nas formas de pensar a depressão, pelas diversascorrentes de saber que têm as experiências psíquicas como seus objetos.Para os saberes teóricos que descrevem a subjetividade e suasmanifestações (as psicanálises, as antropologias etc..) a depressão também tende aser vista de modo adjetivo, como resultante de processos - agora não maisbiológicos - mas psíquicos ou sociais. A pretensão do conhecimento objetivo acercadessa experiência é, no entanto, abandonada e substituida por uma racionalidadeque supõe encontrar a verdade do fenômeno depressivo intrinsecamente delineadano contexto particular , subjetivo, de sua manifestação.Referindo-se às diferenças de racionalidade do saber científico e dosaber filosófico (não positivista), ATLAN faz afirmações que podem ser úteis paraesclarecer a racionalidade dos saberes psicodiâmicos:Assim, contrariamente ao ideal das filosofiasneopositivistas, que procuravam imitar a física e a sua formalógico-mátemática, o papel da filosofia seria falar daquilo quenão pode ser formalizado, utilizar uma linguagem natural, comas suas metáforas, as suas analogias e a indefinição que asacompanha, sem, por isso, renunciar a continuar racional; epara tal, distinguir as boas das más analogias, as metáforasenriquecedoras das metáforas enganadoras, o pouco vago,que oculta o que deveria ser dito, do demasiado vago,potencial de criação. (1991: 101).
  35. 35. 32A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios:algumas implicações clínicas.Conforme apresentado no prefácio à edição brasileira da ClassificaçãoInternacional de Doenças - descrições clínicas e diretrizes diagnósticas - daOrganização Mundial de Saúde (O.M.S.) CID 10 (1993: XI), o esforço sistemático declassificação dos transtornos mentais, orientado por esta entidade, data da décadade 60 e vem se ampliando e se especificando desde então.Esta última versão de 1992, junto com o Diagnostic and StatisticalManual of Mental Disorders (DSM IV -AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION,1994), representam os resultados mais recentes desta tendência taxônomica quevem buscando instrumentos que permitam a comunicação entre os diferentesprofissionais envolvidos na clínica, na pesquisa e na educação em saúde mental.Estas classificações se caracterizam pela descrição de sinais esintomas, com um declarado abandono da noção de doença mental e a opção pelosconceitos de episódios e transtornos . Este último é definido como “um conjunto desintomas ou comportamentos, clinicamente reconhecível, associado, na maioria doscasos, a sofrimento e interferência com funções pessoais.” (O.M.S. - CID10, 1993:5).Outros dois eixos utilizados nas classificações são: a distribuição dos sinais esintomas no tempo (episódica ou recorrente) e sua intensidade (grave, moderada ouleve).Esta opção pelo modelo sindrômico em detrimento do modelonosológico se dá, especialmente, em função da ausência de certezas quanto àetiopatogenia dos transtornos mentais, e/ou, da complexidade que envolve acausalidade do psíquico. O objetivo apresentado para estas categorizações é:“melhorar o diagnóstico e a classificação dos transtornos mentais”, facilitando aclínica, a pesquisa e a comunicação entre profissionais da área de saúde mental (O.M.S. op.cit.: XI ). Por outro lado, dependendo da finalidade que se atribua a umdiagnóstico, este esforço classificatório será de maior ou menor valia.ZARIFIAN define um diagnóstico como um instrumento que “permitecomunicar acerca de um doente, (...) permite comparar grupos de pacientes entre si,(...), [não sendo necessário na clínica, entretanto] pois a abordagem éessencialmente intuitiva.” (1989: 45-47). Nesta mesma linha LAJEUNESSE afirma
  36. 36. 33que: “o interesse de um diagnóstico fiel e válido é condensar uma informação comvirtude prognóstica e, por conseguinte, condicionar a orientação terapêutica” (1989:72). Segundo este autor, tal “fidelidade” se obtém às custas da retirada dassintomatologias puramente subjetivas, quando da descrição das categorias.Procedimento que, segundo o próprio autor, não garante a objetividade e, ainda,acirra a dicotomia entre os praticantes da clínica do mental (subjetivistas eobjetivistas).O abandono da posição nosográfica, nos dois sistemas classificatórioscitados acima, se deve, também, a uma opção pela não utilização de qualquerreferencial teórico específico, no bojo, ainda, de um projeto de objetividade de taisclassificações. Se por um lado esta postura “suprateórica” gera a clareza dossintomas descritos, por outro os multiplica de forma progressiva, dificultando suautílização clínica como instrumento de projeto terapêutico (o capítulo dos transtornosmentais do CID 9 tinha 30 categorias, a atual versão - CID 10 - tem 100).Quanto à categoria depressão, os organizadores da CID. 10 advertem que aatual versão ainda é fonte de muita discordância entre psiquiatras. Supõem,entretanto, que tais discordâncias serão dirimidas com “medidas fisiológicas ebioquímicas, ao invés (...) de descrições clínicas de emoções e comportamentos.”(O.M.S., op.cit.: 13).Uma perspectiva nosológica implica modelos teóricos de interpretaçãodos eventos. A “costura” dos dados parece fundamental na própria caracterizaçãodos fenômenos. Esta ausência de organização teórica dos sintomas leva, por vezes,a situações bizarras, onde qualquer sujeito pode ser incluído sob certosdiagnósticos. O transtorno depressivo é um caso exemplar deste tipo. Naclassificação do DSM IV, a depressão é classificada como um transtorno afetivo dohumor envolvendo episódios depressivos, em um período mínimo de duas semanase mais, pelo menos quatro dos seguintes sintomas: queixas de tristeza,desesperança, perda de prazer generalizada, perda de apetite, perturbações dosono, alterações psicomotoras, diminuição de energia, sentimentos de desvalia ouculpa e pensamentos suicidas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1994).Seria quase impossível encontrar um adulto ocidental que não se enquadrassenestes critérios, especialmente aqueles que vivem nos grandes centros urbanos...
  37. 37. 34Em relação aos critérios fisiopatológicos, bioquímicos ou genéticoscomo fontes de especificação diagnóstica, é preciso que se destaque a subversãoque tal caminho pode criar na compreensão (e consequente abordagem) dosfenômenos mentais. Sobre isso ZARIFIAN afirma:Os psicotrópicos tiveram papel importante, enão inocente, na evolução dos conceitos diagnósticos.Responsável por isso é sobretudo o marketing farmacêutico.(...) Se bem que os psicotrópicos não sejam senão tratamentossintomáticos e não específicos de uma afecção mental, ocenário está armado. As classificações de psicotrópicosreforçam a situação. Há antipsicóticos, antidepressivos eansiolíticos: então há psicoses, depressões e ansiedade. (op.cit: 49-50).Poder-se-ia objetar que as versões atuais dos sistemas classificadoresminimizam este problema abrindo mão das grandes categorias nosográficas.Todavia, a intenção de objetivação através de critérios estritamente biológicospermanece, como foi mostrado alguns parágrafos acima. Conta-se, atualmente,com instrumentos poderosos para esses fins: além da fidedignidade da bioquímica ,desfruta-se agora da precisão e do rigor das imagens (tomografia de emissão depósitrons, por exemplo...). Mais ainda, corre-se o risco de identificar fenômenos deuma esfera (os afetos deprimidos, por exemplo), com achados de outra esfera (aspossíveis alterações de imagens tomográficas quando de estados afetivosdeprimidos), incorrendo em inevitável engano e confusão, com evidentesconseqüências clínicas.Outra fonte de dificuldades no estabelecimento e uso clínico de umsistema classificador são as diferenças culturais. Estas são reconhecidas, nos doissistemas a que estamos nos referindo (DSM.IV e CID.10), porém, dada adificuldade em transformá-las em variáveis indicáveis objetivamente , elas não sãoconsideradas. Mais uma vez isso não ocorre sem prejuízo clínico. A esse respeitoLUTZ afirma:Argumentarei, entretanto, que a distinção entre o oquê e o como da experiência depressiva (...) somente fazsentido no contexto cultural Euro-Americano dentro do qual foidesenvolvido(...) O que é mais notável na visão ocidental dadepressão é a afirmação implícita do carater de oposição àalegria, ou pelo menos aos afetos positivos, em relação a um
  38. 38. 35estado normal. (...) O que é particularmente desviante nosdeprimidos é sua desistência em buscar a felicidade ou o amorde si, considerados objetivos básicos e normais das pessoas.Estas metas aparentemente naturais são, de fato, moldadasculturalmente, em contraste com outras possiveis definições denormalidade nas quais, por exemplo, a ênfase pode ser postano cuidado de crianças ou parentes, ou em vivenciar emoçõesde caráter moral, corretas porém não prazeirosas... ( 1985: 63-70).Parece então que esta objetivação das classificações diagnósticas, setraz vantagens tais como a abertura de espaço para a consideração deconfigurações complexas, no interior de sistemas dinâmicos (BASTOS et al., 1994:108), traz também alguns riscos clínicos como o de se confundir “os signosrecolhidos com a realidade da doença” (CLAVREUL, 1983:202). O fato dos sistemasclassificadores terem abandonado a concepção de doença, não significa que aspessoas (o senso comum) a tenham abandonado também, muito pelo contrário...Prova disso são os serviços clínicos, cada dia mais lotados de autodenominados“doentes do pânico” ou “deprimidos”...BENETI (1997), em seu artigo DSM-IV: El “McDonald’s de la Psiquiatría”,faz notar o risco de inversão clínica quando à singularidade do paciente ésobreposta a universalidade do sistema diagnóstico. Parece possível supor que ocaráter de saber universalizador dos sistemas diagnósticos pode oferecer ao sensocomum o frágil conforto (no caso das afecções subjetivas) da pertinência a umgrupo, onde o diagnóstico (depressão, no caso) sutura, parcialmente, a pressãopela busca das razões individuais do sofrimento.Os estudos sobre Depressão na GravidezNuma revisão preliminar da literatura médica sobre o tema, foramencontrados estudos conjuntos nas áreas de obstetrícia, psiquiatria e psicologiademonstrando a ocorrência de estados depressivos durante a gravidez normal(SÉGUIN et alli, 1995; KONIAK-GRIFIN et alli 1996; KITAMURA et alli, 1996). Taisestudos poderiam ser subdivididos em dois grandes grupos:• aqueles que pesquisam os fatores de risco para depressão nagravidez.
  39. 39. 36• os que buscam associar a depressão como fator de risco para certosdesfechos obstétricos, tais como a prematuridade, o baixo peso aonascer, a irritabilidade do bebê (ZUCKERMAN et alii, 1990) ou mesmoa mortalidade neonatal (BUSTAN et al, 1994).Nestes trabalhos, a depressão é quase sempre ligada a situações comoestresse, falta de suporte social, baixa renda, enfim, fatores denominadospsicossociais. Em relação aos fatores de risco mais freqüentemente associados àdepressão na gravidez, encontram-se as dificuldades econômicas e a falta deparceiro ou de suporte familiar e social (MILLÁN, et alii, 1990; JADRESIC, et alii,1993; HOBFOLL, et alii 1995; SÉGUIN, et alii, 1995). Nesse sentido, a prevalênciada depressão na gravidez é maior em grupos de mulheres de baixa renda, negras,com baixos níveis de escolaridade (ZUCKERMAN, et alii, 1989; SÉGUIN, et alii,1995; ORR et al, 1995; COPPER, et al 1996). A depressão é ai descrita,predominantemente, como vinculada a condições de desequilíbrio ou desadaptaçãosocial. Estes estudos não tecem considerações sobre a dinâmica psíquicasubjacente à depressão na gravidez.No campo psicanalítico a consideração de qualquer fenômeno sofre osefeitos de “refração” da existência de diferentes escolas. A teoria psicanalítica não éunívoca, seu desenvolvimento tem se dado a partir do privilégio ou da ênfase deaspectos diferentes da teorização freudiana, estes ora mais, ora menos evidentes,na obra do fundador da psicanálise.Os artigos de orientação psicanalítica tendem a abordar estadosdepressivos em gestantes na perspectiva da reorganização psíquica imposta àmulher pelo estado gestacional (BIBRING et al, 1976; WELDON, 1991). Não foramencontrados, porém, trabalhos específicos acerca da depressão na gravidez , naliteratura psicanalítica. Alguns fatores parecem poder explicar tal ausência. Emprimeiro lugar, o fato da depressão não ser uma entidade nosográfica, nem mesmoum conceito, do campo psicanalítico. O transporte deste termo da psiquiatria parapsicanálise se fez através dos psicanalistas com formação psiquiátrica dita clássica,a qual se baseava na “observação cuidadosa”, no “dialógo sustentado e atento como doente” (MILLAS, 1997: 96), onde as entidades clínicas eram descritas de modo
  40. 40. 37minucioso e criterioso a partir da referência à psicopatologia fenomenológica(BENETI, 1997).É o estudo do quadro clínico da melancolia, realizado por Freud emdiferentes momentos de sua obra, que serve à psicanálise como modelo paracompreensão dos afetos deprimidos. A melancolia também é uma entidadenosográfica da psiquiatria (distinta da depressão), ora considerada uma afecçãomental em si, ora associada à psicose (especialmente à psicose maníaco-depressiva, atualmente denominada transtorno bipolar). Freud, porém, aborda oproblema da melancolia buscando descrevê-la nos termos de suas teorias,conforme se exporá mais adiante.Outra razão para a falta de trabalhos psicanalíticos específicos quanto adepressão na gravidez parece ser o fato de os trabalhos sobre a maternidadeestarem predominantemente centrados em duas grandes temáticas: a frigidez e ainfertilidade. A depressão é estudada , alí, numa relação mais específica a estesfenômenos.Na primeira metade do século a discussão em tôrno da infertilidade já secentrava nos aspectos da psicologia feminina. A inexistência, naquele momento, detécnicas de reprodução sofisticadas, permitiu o avanço das pesquisas em torno doschamados fatores psicogênicos. Se para a medicina tais fatores, embora comaspecto de caixa preta, serviam de escoadouro para o não-sabido emanado daclínica, para a psicanálise, era a possibilidade de expandir seus construtosexplicativos. As discussões sobre esta questão se fizeram em torno dodesenvolvimento da sexualidade feminina no complexo de Édipo. De modo geral, asteses falavam de um infantilismo quanto à sexualidade psíquica. Quer fosse porinveja do pênis como propôs Freud, ou por temor de um submetimento masoquista àmãe, como teorizou Deutsch, ou por ansiedade paranóide em relação às partes másdeste objeto mãe, como observou Klein, os conflitos eram, geralmente, referidos àdificuldade de identificação com a mãe. As angústias e depressões eram abordadasna perspectiva das dificuldades em tornar-se mulher.Como a maternidade foi tratada por Freud no contexto da organizaçãosexual feminina e considerada seu alvo evolutivo, alguns estudiosos das questõesde gênero, deduziram, por parte da psicanálise, uma proposição normativa, redutorada mulher à condição de mãe. Quanto a isso cabe lembrar que a questão centralsobre a qual Freud se debruçou foi a sexualidade no seu duplo intrincamento, o
  41. 41. 38indivíduo e a espécie, sendo a reprodução e a maternidade indissociáveis nesseplano de pesquisa.Na última década, a ênfase dos trabalhos psicanalíticos relativos àgravidez recai sobre as práticas de inseminação artificial. A tendência destadiscussão se faz em torno do desconhecimento da vertente inconsciente do desejodestas mulheres cuja infertilidade tem causa desconhecida ou “psicogênica”, e quese submetem às técnicas de reprodução assistida. A suposição subjacente a estestrabalhos é de que as práticas médicas sustentam, por vezes, estedesconhecimento, no atendimento da demanda de uma gestação. Se o filho éesperado no lugar de metáfora do que é ser mulher, a resposta a esta demandarepresentará a negação da castração2e a valorização de idealizações imagináriasquanto ao papel da maternidade na identificação da mulher ao feminino. Taistrabalhos buscam evidenciar, ainda, que a falta de um significante que especifique amulher no campo das diferenças sexuais psíquicas, diz respeito à pluralidade dassuas possibilidades representativas e não a qualquer sorte de carência real, quepossa ser resolvida pelo imaginário biológico. Nestes trabalhos o afeto deprimido éabordado, então, em relação ao fracasso que estas gravidezes assistidas podemrepresentar quanto ao sentido plurívoco do desejo das mulheres em questão.(CHATEL, 1995; TUBERT, 1996).Depressão como experiência afetivaA versão dicionarizada do vocábulo depressão - “ato de deprimir-se;abaixamento de nível resultante de pressão ou de peso; baixa de terreno;diminuição, redução; (...); psiq: distúrurbio mental caracterizado por adinamia,desânimo, sensação de cansaço(...); fig: abatimento moral ou físico, letargia.”(HOLLANDA, 1966: versão eletrônica) - parece evidenciar uma relação analógicaentre os movimentos mecânicos de pressão com efeito de diminuição ou reduçãonuma quantidade qualquer, e o que se observa nas descrições semiológicas dosquadros ditos depressivos. Sustentando esta relação analógica buscar-se-á2O têrmo Castração está sendo utilizado aqui numa das acepção propostas por Lacan, como condição estruturalda subjetividade, como ausência de um significante que possa circunscrever, em termos de saber, toda a verdadereferente ao sujeito e a seu desejo.
  42. 42. 39evidenciar que tipo de pressão e sob que aspectos da subjetividade da mulhergrávida, poderá resultar num rebaixamento de sua alegria.Como já sublinhado no início deste capítulo, esta pesquisa da depressãoassociada à gravidez não pretende enfocar um quadro nosográfico, mas umamanifestação subjetiva passível de ocorrer em mulheres de variadas estruturaspsíquicas. Parece, entretanto, que o tratamento metapsicológico que se pretendedar à questão pode autorizar sua extensão à clínica psicanalítica de quadros dedepressão na gravidez vínculados a estruturas melancólicas ou depressivas. Porém,a ocorrência de um período depressivo durante a gravidez não indica,necessariamente, uma estrutura subjetiva melancólica3: É possível a presença deafeto deprimido na gravidez de mulheres sem uma história pregressa deste tipo deepisódios.Poder-se-ia objetar que a utilização do termo depressão está aqui, então,sustentada apenas no afeto da tristeza, o que não caracterizaria uma depressão ouum quadro melancólico. A intenção de manter tal termo, todavia, se deve àassociação entre a tristeza e um sentimento de perda inefável, ocorrida ou porocorrer, desvinculada de qualquer perda objetiva, relatada nos casos que serviramde fonte para esta pesquisa. A semelhança com as situações de melancolia - e deluto, por decorrência - onde o afeto triste e a inibição generalizada dão o aspectodepressivo aos sujeitos por eles acometidos, determinou a manutenção do termo.A depressão será aqui considerada como uma ocorrência relativa aocampo do afeto, gerada na passagem da condição subjetiva de mulher à condiçãode mãe. Buscar-se-á discutir em capítulos subseqüentes a relação entre a angústiaa estranheza e o sentimento de depressão, na experiência da gravidez desejada .Parece necessário ressaltar que, se toda angústia se refere à fundaçãodo sujeito como desejante, então, as diferentes experiências que remetem o sujeito3A referência a uma estrutura melancólica visa estabelecer diferença entre uma posição subjetiva transitória eoutra prevalente. A idéia de que a melancolia poderia ser uma estrutura específica, independente das neuroses,das psicoses e das perversões, permeia atualmente a obra de alguns psicanalistas. Embora nesta pesquisa nãotenha sido encontrada referência explícita a essa posição, alguns indícios apontam nessa direção. Na obra deMarie-Claude LAMBOTTE (1997), por exemplo, a opção é por um discurso melancólico. Entretanto, tratando-se de autora com orientação lacaniana, sua referência ao discurso a aproxima da concepção de estrutura uma vezque para LACAN (1992) a noção de discurso diz respeito a posições estáveis na linguagem. De modosemelhante, o trabalho de PINHEIRO (1998) O estatuto do objeto na melancolia, embora não explicite aproposição de uma estrutura melancólica, refere-se a uma metapsicologia específica da melancolia, envolvendoum modo particular de vinculação da subjetividade ao objeto, que seria menos de desejo e mais de mimeseidentificatória.
  43. 43. 40a esta fundação são de extremo interesse na clínica psicanalítica. Supõe-se que agravidez seja uma delas.
  44. 44. 41A metapsicologia da maternidade“De acordo com sua natureza peculiar, apsicanálise não tenta descrever o que é a mulher -seria esta uma tarefa dificil de cumprir -, mas seempenha em indagar como é que a mulher se forma,como a mulher se desenvolve desde a criançadotada de disposição bissexual.”Sigmund Freud11S. FREUD (1976n). A FEMINILIDADE .p. 144
  45. 45. 42Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidadeEstudar a gravidez através da psicanálise implica fazê-lo mediante orecorte específico com que esta compreende o vivido humano, como experiênciascuja realidade é centralmente psíquica, essencialmente simbólica. As duas áreas dapsicanálise às quais a gestação se liga de modo mais imediato são a sexualidadefeminina e a maternidade. No propósito de teorizar a sexualidade, por concebê-lacomo constitutiva da subjetividade humana, Freud descreve sua organização,porém, com maior ênfase na vertente masculina. Esbarra, entretanto, nodesenvolvimento da sexualidade psíquica nas mulheres. O feminino entra napsicanálise desde os primórdios, como campo de enigmas, equívocos e muitafecundidade teórica.Quanto à gestação, seu principal tratamento no campo, tem se dadoatravés da perspectiva da maternidade. Esta, por sua vez, tem sido abordada,especialmente, sob dois prismas: como manifestação do desejo inconsciente de umsujeito mulher ou como função relativa à constituição simbólica da subjetividade (dofilho). Nesta última visada a função materna comparece no conjunto de operaçõespsíquicas que respondem, de modo mítico, pela origem do sujeito. Esta foi avertente sob a qual Freud abordou preferencialmente a questão da maternidade.O conjunto de operações que respondem pela sexuação psiquica é,segundo FREUD (1970), o Complexo de Édipo, processo que resulta noengajamento do sujeito na ordem social através de sua identificação a uma posiçãosexual, que lhe possibilita a participação na partilha dos objetos sexuais. É atravésdo complexo de Édipo que o sujeito se reconhece (como homem ou mulher) e podefazer vínculos de natureza sexual e social. Os fundamentos sobre os quais Freudconstrói a teoria edípica são: a bissexualidade constitucional, a falta de umdemarcador psíquico quanto à diferença sexual, e a necessidade de orientação dosujeito na ordem transgeracional .A idéia de uma lógica edípica subjacente aos processos subjetivosremonta aos primeiros trabalhos psicanalíticos de FREUD (1974a), produzidos entre1895 e 97. A teoria da sedução, de valor etiológico na estruturação das neuroses, jáindicava que os adultos que faziam parte da cena relatada pelos pacientes, cenas deexcitação sexual na infância, eram, freqüentemente, os próprios pais. A teoria dasedução é depois substituída pela teoria da fantasia, no entanto, o conteúdo sexual
  46. 46. 43envolvendo os pais ou seus representantes permanece. Freud passa,progressivamente, a atribuir valor determinante ao complexo de Édipo, não só naestruturação das neuroses, mas na estruturação psíquica mesma (FREUD, 1976g).A formalização da teoria edipiana da subjetivação não se desenvolveu deforma linear no que diz respeito aos homens e às mulheres. Embora a primazia dofalo na orientação do desenvolvimento psíquico da sexualidade estivesse assentadana teoria desde 1905 nos Três Ensaios Sobre a Sexualidade (FREUD: 1972a), osefeitos diversos desta primazia só foram teorizados nos artigos posteriores a 19202.Importante ressaltar que um dos reflexos da bissexualidade original (tese que dáfundamento à teoria do Édipo) é a presença universal, com forças individualmentevariáveis, de um complexo de Édipo completo - em sua forma direta ou positiva, eem sua forma invertida ou homossexual - em todos os indivíduos.O que está em questão no Complexo de Édipo é um jogo deinvestimentos e desinvestimentos libidinais, entre a criança e um dos pais (ou seurepresentante), acompanhado de identificações ao outro elemento do par parental.O resultado é a identificação a uma posição sexual (feminina ou masculina), quepossibilita a participação do sujeito nas trocas sociais, as quais são mediadas pelaposição sexual que caracteriza o modo de abordagem dos objetos. Essa trama sedá em torno da ausência e presença do pênis como representante do falo3. Numjogo dialético entre ser e ter o falo e seus correlatos (ter e perder, não ter e receber),constrói-se a posição sexual subjetiva bem como o ingresso na ordem social. O falotem função de indicador de haver diferença sexual. A presença do pênis nosmeninos em associação a sua ausência nas meninas (e somente nesta estritaassociação) conduz a criança a produzir hipóteses acêrca de seu próprio sexo, bemcomo do sexo oposto, uma vez que não há reconhecimento psíquico imediato, inato,da diferença sexual. A diferença corporal (ter pênis - não ter pênis) é um indicadorimaginário da diferença simbólica que se constroi em torno do falo (fálico –2Especialmente nos artigos A Organização Genital Infantil de 1923 (FREUD, 1976g), A Dissolução doComplexo de Édipo de 1924 (FREUD, 1976h), Algumas Consequências Psíquicas Da Diferença AnatômicaEntre os Sexos de 1925 (FREUD, 1976i) e nos trabalhos dedicados à sexualidade feminina SexualidadeFeminina FREUD (1974f) e a ConferênciaXXXIII Feminilidade (FREUD,1976n).3Em psicanálise o falo é o elemento simbólico por excelência. Seu uso esta ligado à função simbólicadesempenhada pelo pênis na dialética intra e inter-subjetiva. Estão referidas ao falo todas as significaçõessubjetivas. (LAPLANCHE & PONTALIS: 1986). LACAN (1993A), em sua repostulação do inconscientefreudiano enquanto estruturado como linguagem, atribuiu ao falo valor de significante fundador do espaço
  47. 47. 44castrado). A oposição presença / ausência marca uma diferença que faz trabalhar alinguagem, daí o valor simbólico do falo.A castração é o operador em torno do qual se desenvolve o complexo deÉdipo. A lógica subjacente ao complexo de castração é a da ameaça de perda dealgo valioso – o falo – como norteador das escolhas possíveis para o sujeito.FREUD (1972b) descreve este complexo pela primeira vez em 1908 quando doestudo do pequeno Hans. O temor da castração passa a ser descrito nos trabalhospsicanalíticos como relacionado, de modo especial, à clínica das neuroses. Depoisde 1920, com o aparecimento do texto freudiano A organização genital infantil (Umainterpolação na Teoria da Sexualidade) (FREUD, 1976g) a castração passa a serconsiderada a lógica prínceps sob a qual é abordada a diferença sexual e suasconseqüências: o posicionamento sexual psíquico e as escolhas identificatórias eobjetais. Como explicitado por LAPLANCHE & PONTALIS:É que o papel que a psicanálise atribui ao complexode castração não se compreende sem ser relacionado com atese fundamental – constante e progressivamente afirmada porFreud – do caráter núclear e estruturante do Édipo. (...) Ocomplexo de castração deve ser referido à ordem cultural emque o direito a um determinado uso é sempre correlativo deuma interdição. (1986: 114-115)Nesta teorização onde a consideração dos genitais femininos se dá apartir do pênis, a mulher está na condição de desprovida ou provida de forma falha(clitóris como um pênis pouco desenvolvido ou amputado). FREUD reconhece que oclitoris é a zona de atividade sexual genital para menina, porém sua comparaçãocom o pênis dos meninos estabelece uma lógica de inferioridade ou falta, do ladodas mulheres:Entre as zonas erógenas que formam parte do corpoda criança há uma que certamente não desempenha o primeiropapel e que não pode ser o veículo dos impulsos sexuaisulteriores mas que é destinada a grandes coisas no futuro.Tanto nos meninos quanto nas meninas ela é posta emconexão com a micção (na glande e clitóris)(...) (1972a: 192).A suposição de que todos os seres humanos têm amesma forma (masculina) de órgão genital é a primeira dasmuitas teorias sexuais notáveis e momentosas das crianças.Pouco adianta a uma criança que a ciência da biologiasubjetivo, significante este que, na interrelação aos outros significantes do campo da linguagem, promovesentido à subjetividade.

×