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Hipertexto leitor
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Hipertexto leitor

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  • 1. HIPERTEXTO E RECEPÇÃO: HÁ UM NOVO LEITOR? Fabiana Móes Miranda A compreensão de uma nova e específica criação textual pode nos oferecer um novo direcionamento dentro da literatura, inserida no que convencionamos chamar de pós- modernidade. Cada nova forma textual não constitui apenas um gênero lingüístico a ser observado e registrado, mas, também, pode levantar e responder questões distintas dentro do convencional pensamento de literatura. O texto literário, se observado como a diferenciação de uma linguagem prática e uma linguagem estética, deixaria margens para uma imensa ocorrência de formas textuais que se apóiam mais na apropriação dos vários significados que estão contidos nas palavras ou em outros textos literários. Desta maneira, observar o texto literário como uma prática discursiva permitiria observarmos o contexto social, em que o texto é produzido, como também criador de suportes textuais, como afirma Maingueneau, “o conjunto material, tecnicamente determinado, dos suportes, relações e meios de transportes que lhe garantem, em cada época, sua existência social.”1 E isto reafirmaria a posição comunicativa dos textos, uma vez que as diferentes formas de enunciação estabelecem os parâmetros para os novos gêneros. Ainda mais abrangente é a perspectiva de Lévy, que observa o hipertexto como uma metáfora para “uma análise do processo sociotécnico” em que estão inseridos os discursos atuais. Em sua abordagem, o autor, também, insiste nas relações biológicas e cognitivas que surgem a partir a virtualização/atualização que ocorrem através dos computadores, do texto impresso, ou dos “métodos mnemotécnicos” das sociedades orais. Todas estas “antigas” tecnologias intelectuais tiveram, e têm ainda, um papel fundamental no estabelecimento dos referenciais intelectuais e espaço-temporais das sociedades humanas. Nenhum tipo de conhecimento, mesmo que apareça-nos tão natural, por exemplo, quanto a teoria, é independente do uso de tecnologias intelectuais. 2 Os textos escritos, na atualidade, utilizando-se dos suportes da hipermídia e inseridos na Internet, demonstram como ocorre tanto a recriação de gêneros textuais, como o aparecimento de novos gêneros – vinculados apenas ao ambiente virtual. Além de 1 MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 85. 2 LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na Era da Informática. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 2000, p.75 .
  • 2. ocorrer a recontextualização através de novo suporte e novo discurso, podemos observar o que trata Pinheiro3 sobre a relação entre gênero e texto midiático, quando afirma que para manter os “consumidores” do texto (no caso, televisivo) os produtores estão sempre renovando os velhos discursos: “os gêneros são formas de textos que conectam produtores, consumidores, tópicos, meio, maneira e ocasião, isto é, relacionam produção, recepção, texto e contexto”. A leitura e escritura no ciberespaço colocam-se como paradigmas para uma nova percepção dos textos contemporâneos – que seriam representados, principalmente com os hipertextos literários e os diários interativos ou blogs. Pois, segundo o lingüista Xavier4, estaríamos inseridos no surgimento de uma nova etapa dos processos comunicativos e cognitivos, seguindo a escrita e a imprensa, ou seja, o uso cada vez mais freqüente dos textos eletrônicos. Seres essencialmente que somos precisamos conhecer as características e peculiaridades do hipertexto, enquanto economia de escrita/leitura revolucionária, embora não usurpadora absoluta do lugar e da relevância do livro impresso, para destrinçarmos com alguma competência seus potenciais e reais benefícios aos coletivos sociais dos quais participamos.5 Chartier também demonstra que o texto no suporte virtual modifica a própria maneira de compreender a leitura, assim, A revolução do texto eletrônico é, de fato, ao mesmo tempo, uma revolução da técnica de produção dos textos, uma revolução do suporte escrito e uma revolução das práticas de leitura. São elas caracterizadas por três pontos fundamentais que transformam nossa relação com a escrita. Em primeiro lugar, a apresentação eletrônica do escrito modifica radicalmente a noção de contexto e, ainda, o próprio processo de construção do sentido. 6 O que tratarei são textos literários – embora aqui não seja levada em consideração uma “valoração” dos aspectos estilísticos destes textos – que são escritos por leitores no 3 PINHEIRO, Najara F. A noção de gênero para análise de textos midiáticos. In: MEURER, José Luiz; MOTTA-ROTH, Désirée (orgs.). Gêneros textuais e práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem. São Paulo: EDUSC, 2002, p. 275. 4 XAVIER, Antonio Carlos. Hipertexto: novo paradigma textual? Investigações: Lingüística e Teoria Literária. Vol.12 dez/2000 5 XAVIER, Antonio Carlos. Leitura, texto e hipertexto. In: Hipertextos e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido. orgs. Luiz Antônio Marcuschi e Antônio Carlos Xavier. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 171. 6 CHARTIER, Roger. Morte ou transfiguração do leitor? In: Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002, p. 113. 2
  • 3. ambiente virtual. Estes leitores/escritores se diferenciam (dos outros escritores no hipertexto, como os blogs, por exemplo), pois sua escrita ocorre a partir de uma obra literária que tenham lido, ou seja, é um texto escrito por um leitor que quer e precisa interagir com suas obras favoritas, escrevendo histórias paralelas à dos livros lidos. São textos que se apropriam dos mecanismos de organização da hipermídia que constituem um corpus de organização e distribuição de informações com funções e públicos distintos, ou seja, possui toda a condição objetiva para a produção e veiculação de textos, fazendo disto um padrão para a visibilidade de sua subjetividade na criação desses textos e refazendo outros. O que estes textos parecem oferecer é uma forma de solucionar um dos fatos que mais atormenta os leitores, ou seja, sua participação explícita dentro de um texto lido e apreciado. Embora, apreciado não deva ser visto apenas como a adesão total do leitor/autor à história lida, mas, muitas vezes, a sua sensação de vazio sobre determinado aspecto de um texto que o faz recriar partindo de suas expectativas, não querendo ser apenas um receptor passivo, muitas vezes se questionando: “mas não podia ser assim o final?” ou “não podia o herói ter sobrevivido?” “O que vem depois do: e foram felizes para sempre?” Esta vontade legítima de recontar o texto dentro da sua interpretação ou na sua vivência com o texto, não é meramente uma apreciação imanente da obra literária. Antes, é um reconhecimento desta como criadora de sentidos novos a cada leitura. Falarmos em hipertextos, e na maneira como o leitor pode atuar na reconstrução textual, é, de certa perspectiva, concretizar a idéia de mundos possíveis, já defendida por Eco7 ao tratar das fábulas narrativas. O autor colocava o mundo possível como o espaço em que as possibilidades interpretativas do leitor antecipavam os passos do autor na construção do texto literário. Mas, não apenas isto, as idéias dos leitores, após cada etapa de conclusão do autor na obra, permaneciam como outras formas de contar a narrativa, ou melhor, como um novo texto possível. Então, os espaços criados na Internet para que os leitores/escritores coloquem suas história, são recursos imediatos para verificarmos o processo de desenvolvimento destes mundos possíveis. Mas quem é o leitor/escritor típico na virtualidade do hipertexto digital? Não é uma pergunta simples de responder por uma razão intrínseca na própria hipermídia, que é o 7 ECO, Umberto. Leitura do texto literário: lector in fabula. Trad. Mário Brito.Lisboa, Ed. Presença:1976 3
  • 4. anonimato. Não podemos, assim, ter uma noção correta do perfil deste usuário de Internet e leitores. Poderíamos dizer, de forma geral, são leitores que lêem e se interessam por todos os gêneros literários, sem uma distinção técnica ou classificatória do que procuram como leitura e que se estimulam pela fruição do texto lido. Sobre esse tipo de leitor, Santaella comenta, Trata-se na verdade, de um leitor implodido cuja subjetividade se mescla na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópico tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão. Enfim, o que se tem aí é um universo novo que parece realizar o sonho ou alucinação borgiana da biblioteca de Babel, uma biblioteca virtual, mas que funciona como promessa eterna de se tornar real a cada “clique” do mouse. 8 Conhecendo alguns dos aspectos do espaço deste leitor/escritor nos recordamos da teoria do horizonte de expectativa do leitor, proposto por Jauss9, em que o texto literário obriga, de certa forma, o leitor a criar determinados vínculos significativos com a obra para depois destruí-los, ou seja, oferece ao leitor espaços vazios para que este o preencha com suas expectativas e depois o surpreende com a habilidade do autor em transformar seu texto. O novo horizonte de expectativa do leitor, agora, torna-se localizado no espaço oferecido pelo ciberespaço e através dos recursos de hipermídia e volta a ser o reconhecimento da leitura por novos códigos e pela experiência de vida do leitor, que passa a ter relevância e independência. Os leitores/escritores ganham em autonomia por criarem suas próprias perspectivas nos textos que escrevem, contando apenas com a opinião de leitores/fãs de interesses semelhantes aos seus. E ganham em autonomia em relação ao espaço da mídia, uma vez que são, ao contrário dos escritores, descomprometidos com a aceitação do público e do mercado para a edição de suas obras. Nestes textos não existe, na realidade, uma consciente verificação das formas de linguagens literárias - embora não sejam totalmente acrítico - eles antes estabelecem a sua 8 SANTAELLA, Lucia. Três tipos de leitores: o contemplativo, o movente e o imersivo/Matrix: corpo plugado e mente imersa. In: Navegar no ciberespaço. O perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004. 9 JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli.São Paulo. Ed. Ática, 1994. 4
  • 5. construção numa relação com uma forma preexistente, identificando-se, assim, tanto com as obras mercadológicas como com os cânones literários. A intenção deste leitor/autor, inicialmente, é fazer um questionamento pessoal que marque a sua posição diante da obra lida ou que revele algum desejo ou frustração sobre a mesma, o que aparece no momento da escrita de seu próprio texto. Sua estrutura formal está, ao mesmo tempo, voltada para a linguagem dos textos interativos da Internet. Estes textos estabelecem relações com as obras anteriores à existência ao ambiente do hipertexto, ou seja, obras clássicas na natureza de suas estruturas, e tem na relação sincrônica com outros textos surgidos e orientados numa mesma expectativa, sua condição imediata de produção. Em blogs e arquivos “públicos” são oferecidos espaços próprios para a divulgação na Internet destes textos. Nem todos estes espaços divulgam apenas textos que se baseiam em livros, alguns apresentam textos escritos a partir de filmes, atores, seriados de televisão, mangá e anime (quadrinhos e desenho animado japonês). É visível que a maioria destes textos se relacionam à cultura de massa e a mídia: os livros de best-sellers possuem milhares de leitores/escritores, mas também podemos encontrar histórias tiradas de livros clássicos como Homero, Shakespeare, Jane Austen, Lewis Carrroll, entre outros. O interesse subjacente ao leitor/escritor neste suporte também aparece na forma de suas preferências ao criarem seus textos. Assuntos como mitologia, psicologia, literatura, são inferidos muitas vezes. E isto não quer dizer que os leitores dominem qualquer destas áreas, o que ocorre é o uso constante do pouco que se conhece sobre cada assunto. E se por um lado, esta forma de conhecimento combinatório e diletante, que tanto ocorre na Internet, perca-se pelo grande volume de informações mal conduzidas. Devemos lembrar que em toda a literatura, o principal elo com o conhecimento se estabelece, primeiramente, pela fantasia. A obra literária não é simplesmente um texto pronto sem qualquer abertura para possíveis interferências por parte daqueles que a lêem. Podemos dizer que, ao contrário, a obra só existe a partir das possibilidades e variedades de leituras que permita. Esta idéia já proposta por Wolfgang Iser10 quando insiste numa estética do efeito, isto é, numa consideração critica sobre os efeitos que uma obra repercute em seus leitores e que os tornam virtuais reconstrutores de sentidos ao texto. 10 ISER, Wolfgang. O ato da Leitura. Vol, 1. trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed.34.1996 5
  • 6. Iser11, que detalha este processo de leitura em seus aspectos intelectivos, mostra- nos como o leitor torna-se um criador e destruidor de ilusões a cada etapa de sua leitura. Estabelecendo assim a condição mental do leitor em suas mediações, utilizando sua própria vivência de mundo, lançada como possíveis interferências ao texto: retrocede e antecipa-se no texto para ir construindo uma significação que lhe seja, no mínimo, concreta. No hipertexto a idéia do concreto é a criação de novos textos partindo da primeira significação para seu leitor/escritor, a interferência passa a ser total e não parcial. O que interessa e estimula na criação dos textos, não é apenas a competência do leitor em alcançar o máximo de leituras possíveis da obra, mas o máximo de respostas particulares, mesmo com insubmissões ao objeto literário. Walter Benjamim12, de certa forma, antecipava a obra de arte como um objeto do desejo pessoal e da maneira como o aparecimento da imprensa modificou as perspectivas dos escritores, que foram confrontados com a maciça quantidade de informações e, mais uma vez, empreenderam modificações relacionadas às narrativas. Para quem lê e escreve no hipertexto digital, o significado estético do texto, que já foi experimentado com a leitura, não precisa estar assegurado no novo texto. O que buscamos de identificação entre o leitor/autor e o livro aparece num nível mais voltado ao conteúdo aparente do texto, por isso podemos justificar a subjetividade usual em cada nova história. Identificar-se, em uma recriação do texto literário, é no melhor uso da concepção da teoria do efeito perder, ou melhor, passar de uma qualidade estética para outra, pois como já vimos estes textos tem como objetivo readaptar a obra literária para um confessado gosto do seu autor. O motivo pelo qual há uma identificação maior entre estes leitores/escritores e os livros best-seller talvez seja que estes livros trabalham com uma quantidade maior de elementos previamente conhecidos - signos -, com respostas convencionadas, o que causa no leitor um reconhecimento imediato. No entanto, esta aparente simplificação e comodidade podem criar tanto uma adesão como uma repulsa, mas estas maneiras de perceber o livro não ocorrem para mudanças mais abrangentes de significação, isto é, mudanças que façam seus leitores/escritores buscarem outras formas de compreensão e reconhecimento. Apenas, localizam problemas interiores, que poderiam ser considerados superficiais dentro dos livros lidos. 11 ISER, Wolfgang. The Implied Reader. The Johns Hopkins University Press Ltd. Lodon: 1974 12 BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 7 ed. São Paulo, 1994 6
  • 7. Como referido na estética do efeito, o autor de literatura sabe como construir seus textos visando os interesses de seu público, que normalmente se integram, por muitos tipos de analogia, ao texto que desejam conhecer. É, segundo Iser13, a estrutura do texto literário que, transformada em comunicação, pode acordar no leitor as condições necessárias para a apreensão de sentidos na obra e em si mesmo. Boa parte dos textos, escritos para o ambiente virtual, esperam serem lido, e desta forma conta com os meios disponíveis e se coloca a disposição de críticas e sugestões. Entre estas formas de interação, uma das mais importantes é o review: quando se escreve na Internet, como nos blogs, sempre se espera um retorno sobre suas histórias – feedback. Em outras formas de textos, os autores, depois de escrever o texto eles colocam frases como: Então o que acharam? ou, Devo continuar? Esta parte na interação dos leitores/escritores é muito importante, uma vez que muitos só continuam a escrever os capítulos de suas histórias ou mesmo novas histórias se receberem este feedback. Uma das características oferecidas pelo hipertexto digital é que ele estimula a vontade de escrever. Uma grande quantidade de participantes dos grupos ou fóruns, no começo, apenas leitores, acaba se convertendo em escritores também. E todos podem sentir um pouco do prazer do escritor tendo seus textos lidos e comentados. Os hipertextos, com participação de leitores no papel de autores, não propõem uma desintegração do autor e da obra, ao contrário do que se poderia imaginar, ocorre uma afirmação maior da autoria e uma sugestão maior ao livro. Nos sites especializados em textos baseados em obras literárias como em sites pessoais existem sempre os disclaimer, ou seja, é um espaço em que o leitor/escritor menciona de onde tirou os elementos para seu texto, e faz um pequeno resumo da sua própria história. Muitas vezes, pedem desculpas ao autor/origem dizendo se tratar apenas de uma brincadeira e sem muitas ligações com a idéia original e assim por diante. E de maneira. Apesar de criar um novo texto, estes leitores/escritores renunciam os direitos já que partiram do mundo de outro texto. Não ocorre o plágio, pois não é uma cópia e não possui fins lucrativos. Outra questão é que há muitos textos escritos tendo por inspiração obras do domínio público. Neste sentido podemos, mais uma vez, utilizar a observação de Maingueneau14 “a partir do momento que a história contada é, em suas linhas gerais, já 13 ISER, Wolfgang. O ato da Leitura. Vol, 1. trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed.34.1996 14 MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 91. 7
  • 8. conhecida pelo público, que não é relacionável a uma fonte única e identificável, (...) não é possível encontrar uma “obra” e um “autor”. Mas, o autor é sempre citado, assim como os seus livros. E se um for usado mais de uma obra, o leitor/escritor cita todas e mostra que elementos encontrou para unir textos e escritores. Não há uma quebra na autoria de um livro, – nem dos novos textos - pois os leitores/escritores são cuidadosos e zelosos em manter seus nomes relacionados aos seus textos e isto apesar dos nicknames, que são os apelidos. Estes leitores são exigentes e, raramente apreciam textos originais de leitores/autores nestas comunidades especificas. Querem ver e observar opiniões e histórias sobre textos/obras já conhecidas. Desta forma, não temos nem um texto totalmente original nem um “simulacro”, e só poderíamos analisar estes textos, se os enquadrarmos no meio dos dois termos – é original a partir do momento de sua reestrutura e dos pontos de vista de seu novo escritor e é uma “cópia” uma vez que se apropria dos personagens, cenários e até tenta se assemelhar ao estilo do escritor de origem. Entretanto, não podemos antecipar se estes estilos são ou não artísticos. Nestes textos isto é sempre uma preocupação secundária. Enquanto alguns autores poderão trabalhar nos seus textos, compreendendo técnicas de escrita e procedimentos de linguagem artística, outros se contentarão em, simplesmente, verem transcritas as suas idéias. O que vale lembrar, quando falamos de escritor de origem, é como ocorrem as idéias sobre as genéticas textuais que procuram um texto matriz para todos os outros textos, recordando que um texto nunca é totalmente desprovido de apropriações de outros textos, como a idéia de um texto sempre escrito sobre um outro e sobre outro. Interessante é notar como partindo de um objeto - o livro - chegamos ao que Barthes inicia como uma relação “amorosa” com o texto para seguir com a proposta racional de “caçar” todos os elementos que possibilitam a feitura material e imaterial deste objeto. Pois, o leitor compromete-se não com a elaboração do livro, mas com o conteúdo que pode lhe revelar opções e experiências de relação com o mundo. Essas leituras de forma alguma superam a imaginação e a criatividade, mesmo que seja num domínio racional. Há, por exemplo, textos que são escrito apenas para um personagem em particular – geralmente aquele com que o leitor mais se identifica. Esta preferência ou empatia com um determinado personagem de um livro resulta na construção de um cenário onde o personagem possa preencher um lado visto pelo leitor partindo das possibilidades de sua 8
  • 9. interpretação. A assombrosa simpatia, ou o total desagrado por determinados personagens é causadora de muitas discussões em listas e fóruns na Internet. É possível que, quando não havia a simultaneidade da comunicação, esta resposta esperada pelo autor à sua obra não lhe chegasse a tempo de possíveis mudanças dentro de suas obras, hoje, os leitores podem opinar constantemente sobre os livros – os hipertextos literários contam com esta participação dos leitores. O que estes leitores procuram, na verdade, é não deixar escapar qualquer oportunidade dentro de um livro. Alguns leitores procuram detalhes ínfimos para recriar o personagem dentro dos textos que pretendem escrever, enquanto a maioria procura de uma forma lúdica apenas levar e acompanhar seus personagens favoritos a novos eventos possíveis em suas atribuídas significações. Nestes textos, para os leitores existem dois mundos distintos por onde determinada história se desenvolve: o cânon que é a história original, como o autor criou e o fanon que é a história como o leitor a imagina. E, de certa forma, é essa distinção que permite o aparecimento de tantos Alternative Universe. O Universo Alternativo é, particularmente, um repertório de todas as formas possíveis de intertextualidade. Pois, se uma obra literária já apresenta uma construção de um texto remetendo a outro, o leitor/escritor exacerba, de forma indiscriminada, levando suas histórias de um livro para outro, ou outros. Criando textos em vários mundos de livros diferentes, mostrando não apenas que um texto mantém sempre relação com outros textos, mas que como nas associações permitidas nos hipertextos, é o leitor quem justapõe dentro das suas escolhas a inter-relação de seus textos. Barthes, que é colocado como quem antecipou a idéia de hipertexto, pelo menos em literatura, via na interpretação uma nova forma de escrever os textos lidos. Sua idéia centrava-se na escritura como uma trama de significações. Assim, se desvenda o ser total da escritura: um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor é o espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura. 15 15 BARTHES, Roland. A morte do autor. In: O Rumor da Língua. trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988, p. 70. 9
  • 10. Os novos textos escritos pelos leitores, no ciberespaço, na forma de hipertextos digitais, revelam uma recepção participativa que deve ser considerada parte destas possibilidades de escolha, onde o conhecimento e a aprendizagem direcionam-se para um fim específico que é a construção de textos que poderão ser lidos, comentados e interpretados dentro dos grupos a que se vinculam, sejam por intelectuais, leitores não comprometidos, ou fãs – de livros. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. trad. Aurora Fornoni Bernardini e outros. São Paulo: HUCITEC, 1998. ________. Estética da criação verbal. trad. Maria Eumatina 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. BARTHES, Roland. S/Z. trad. Léa Novaes. Rio de Janeiro. Ed. Nova Fronteira: 1992. 10
  • 11. ______________. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1987. ______________. Lingüística e Literatura. trad. Isabel Gonçalves e Margarida Barahona. São Paulo, 1980. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 7 ed. São Paulo, 1994. ____________, Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. trad. Marcos Vinicius Mazzare. 4 ed. São Paulo: Summus, 1984. BRAUDILLARD, Jean. Cultura y Simulacro. Barcelona: Editorial Kairós, 1978. BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. BLOOM, Harold. Um mapa da Desleitura. Rio de Janeiro, Imago, 1995. __________. A angústia da influência – uma teoria da poesia. Rio de Janeiro: Imago, 1991. CHARTIER, Roger. Morte ou transfiguração do leitor? In: Os desafios da escrita. São Paulo: Unesp, 2002. ECO, Umberto. Leitura do texto literário: lector in fabula. Trad. Mário Brito.Lisboa, Ed. Presença:1976. __________. Interpretação e Superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 1993. FERREIRA, Ermelinda. “O leitor do texto e o leitor no texto”. In: Revista arte e comunicação. Recife:UFPE, n.8, ano 9, 2003. FISH, Stanley. “Como reconhecer um poema ao vê-lo”. In: Palavras, Revista do Deptº. de Letras da PUC – Rio. Rio de Janeiro, 1993, p. 156-165. GENETTE, Gerárd. Discurso da Narrativa. Ensaio de método. trad. Fernando Cabral Martins. Lisboa: Arcádia, 1979. ISER, Wolfgang. O ato da Leitura. Vol, 1. trad. Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed.34.1996. ___________ The Implied Reader. The Johns Hopkins University Press Ltd. Lodon: 1974 JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli.São Paulo. Ed. Ática, 1994. LABOV, William. The transformation of Experience in Narrative Syntax. In: Language in the inner Citty. Oxford: Basil Blackwell, 1972. p. 354 – 396. LEÃO, Lúcia. O Labirinto da Hipermídia: arquitetura e navegação no Ciberespaço. São Paulo: Iluminuras, 2001. 11
  • 12. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na Era da Informática. Trad. Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. LIMA, Luiz Costa. A literatura e o leitor. Rio Janeiro: Paz e Terra, 1979. LYOTARD, Jean-François. The Postmodern Condition: A Report on Knowledge. Minneapolis: University of Minnesopa Press, 1993. MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1995. MARTINS, M. H. O ato de ler. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense,1992. MEURER, J.Luiz e MOTTA-ROTH, Désirée. (orgs.) Gêneros Textuais e práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem. São Paulo: EDUSC, 2002. MÓES, Fabiana. “Quem conta um conto, aumenta um ponto”: Fanfic – uma recriação do texto literário. In: I ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO: desafios lingüísticos, literários e pedagógicos. Recife: Anais, 2005. ____________Fanfic e fanfiqueiros: leitores/fãs de livros/escritores. In: I ENCONTRO NACIONAL SOBRE HIPERTEXTO: desafios lingüísticos, literários e pedagógicos. Recife[s.c.p], 2005. CD-ROM. SANTAELLA, Lucia. Três tipos de leitores: o contemplativo, o movente e o imersivo/Matrix: corpo plugado e mente imersa. In: Navegar no ciberespaço. O perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004. XAVIER, Antônio Carlos. Hipertexto: Novo paradigma textual?: Investigações – Lingüística e Literatura. Vol. 12 – UFPE, Recife, 2000. ____________________. Leitura, texto e hipertexto. In: Hipertextos e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido. orgs. Luiz Antônio Marcuschi e Antônio Carlos Xavier. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p Sites: http://www.inf.ufsc.br/~jbosco/InternetPort.htm. http://www.textodigital.ufsc.br/ 12