Lesão Cavitária Pulmonar em paciente SIDA
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Lesão Cavitária Pulmonar em paciente SIDA Lesão Cavitária Pulmonar em paciente SIDA Document Transcript

  • Lesão pulmonar cavitária em paciente com SIDA Serviço de Moléstias Infecciosas (MI) do HSPE-SP Paolo Calvert Residente de infectologia Gisele Suzuki Residente de clínica médica Caio Rosenthal Infectologista assistente Serviço de Doenças do Aparelho Respiratório (DAR) do HSPE-SP Luciana dos Santos Andreata Residente de pneumologia Maria Inês Bueno de André Valery Pneumologista assistente Maria Raquel Soares Pneumologista assistente Carlos AC Pereira Diretor Relato do caso: Masculino, 55 anos, branco, investigador de polícia Admitido na enfermaria da infectologia do HSPE em 25/04/10, por queixa de diarréia líquida de dois meses de evolução e tosse seca acompanhada de dispnéia progressiva, febre elevada diária há 07 dias. Antecedentes pessoais: - Paciente é portador do vírus HIV há 18 anos, em uso de TARV (Lamivudina, Tenofovir, Raotegravir, Darunavir, Ritonavir) de resgate por má aderência e orientado por genotipagem. Em uso irregular de Bactrim e Azitromicina profiláticos - Última dosagem de CD4 = 6 células/µl e CV = 120.000/ml em 20/10/2009. - Antecedentes de citomegalovírus (CMV) ocular em 2006 e Herpes Zoster lombo-sacral em 2009. Ao exame físico: - Consciente, REG, desidratado +++/4, corado, anictérico, eupneico. - AR: Sons respiratórios normais, sem ruídos adventíceos, FR 24 irpm - ACV: RCR, 2BNF, sem sopros, PA 130/90 mmHg , FC 100 bpm - Abdome distendido, hipertimpânico e à palpação: esplenomegalia e hepatomegalia discretas. - MMII: Ausência de edema, pulsos presentes e simétricos, panturrilhas livres. Radiograma de tórax 26/04/10: abaixo.
  • Tomografia de tórax em 27/04/10: nódulos centrolobulares e lesão cavitária em lobo superior esquerdo. O mesmo estudo tomográfico de 27/04/10 foi estendido para o abdome, tendo mostrado: hepatoesplenomegalia discreta e pequenas linfonomegalias inespecíficas. EDA (28/04/10): monilíase esofagiana – introduzido Fluconazol 200 mg VO 1x/dia Colonoscopia (28/04/10): Dois pólipos, submetidos à biópsia, sem intercorrências.
  • Solicitado hemoculturas (HMC) para micobactérias, germes aeróbios e fungos, além de exame de fezes para pesquisa de agentes oportunistas, toxina de Clostridium, BAAR escarro e antigenemia para CMV Foi introduzido Bactrim, pela possibilidade de Pneumocistose, e prosseguida a investigação. Questão 1: Assinale dentre as abaixo as causas que devem ser consideradas em primeiro lugar em pacientes com lesão pulmonar cavitária em pacientes com HIV avançada: A) M avium e M kansasii B) CMV e P jirovecii C) M tuberculosis e Legionella D) Fungos, P aeruginosa e S aureus E) S pneumoniae e H influenzae Discussão: Nos pacientes infectados pelo HIV, a maioria das infecções oportunistas acometem primeiro os pulmões, porém a presença de lesões cavitárias pulmonares (LCP) é rara. Em uma revisão de 1986 sobre manifestações pulmonares na AIDS, de 106 casos somente dois apresentaram LCP. O diagnóstico diferencial é amplo e dado que a maioria das causas são infecções tratáveis, é essencial chegar-se a um diagnóstico definitivo. Rodriguez e cols (1998) publicaram os resultados de uma análise retrospectiva de pacientes internados na unidade de moléstias infecciosas de um hospital espanhol, com LCP e infecção pelo HIV de janeiro de 1989 a dezembro de 1994 e de uma análise prospectiva dos internados com essas características durante os anos de 1995 e 1996, na tentativa de identificar características úteis no diagnóstico e um possível fluxograma de investigação. Foram analisados dados tais como idade, sexo, fator de risco, profilaxia prévia para infecções oportunistas, número de linfócitos CD4, radiologia pulmonar, resultados microbiológicos, diagnóstico clínico realizado, tratamento e evolução. Durante um período de oito anos foram observados 78 casos de LPC em 73 pacientes infectados pelo HIV. Dos 73 pacientes, 61 eram homens e 12 mulheres. A mediana de idade foi 30 anos (variando entre 21 a 58 anos). A porcentagem de pacientes nessa série de casos, com antecedentes do uso de drogas endovenosas foi muito elevada. Por esse motivo, a freqüência de algumas infecções mais propriamente relacionadas com uso de drogas que com a infecção pelo HIV difere dos achados de outros autores. A primeira causa de LPC nessa série foi a pneumonia bacteriana, seguida pela TB, a pneumonia por P. joroveci, a endocardite com êmbolos cavitados, e as infecções fúngicas. Dentro das pneumonias bacterianas destacaram-se as produzidas por P. aeruginosa, sendo outras causas S. aureus, R. equi, S. enteritidis e as infecções produzidas por anaeróbios. Os autores teceram os seguintes comentários em relação aos resultados: - S. pneumoniae e Haemophilus influenzae, apesar de serem os microorganismos mais freqüentes das pneumonias em pacientes com HIV, raramente produzem LPC. - As infecções pulmonares por M. tuberculosis, que são uma causa frequente de LPC nos pacientes imunocompetentes, apresentam uma incidência muito menor de LPC nos pacientes com infecção pelo HIV. Segundo a literatura, ocorrem principalmente nas
  • fases iniciais da infecção pelo HIV. As cavitações produzidas por micobactérias não tuberculosas são raras e dentre elas a M. kansasii seria a mais frequente. - Há uma série de doenças que produzem LPC, claramente relacionadas à imunodeficiência, como as produzidas por P. carinii e C. neoformans, algumas muito características desses pacientes como as produzidas por R. equi e, mais recentemente as produzidas por P. aeruginosa. Em uma série publicada em 1996, nos casos de abscessos pulmonares em pacientes com AIDS, o primeiro agente foi P. aeruginosa. - R. equi é, de todas as infecções relacionadas ao HIV, a que mais freqüentemente cavita, e deve ser suspeitada em caso de LPC de evolução arrastada. - A LPC por P. carinii parece estar mais relacionada ao uso de profilaxia com pentamidina em aerosol , a formas atípicas de apresentação, em zonas apicais e têm maior tendência a produzirem pneumotórax espontâneo, com alta taxa de mortalidade por esta causa. - A criptococose pulmonar é a segunda forma de apresentação depois da neurológica nos pacientes com HIV, porém sua tendência para formar cavitação é baixa. - Nocardiose pulmonar freqüentemente se apresenta com lesão cavitária (82%) e por esse motivo deve ser levada em consideração também no diagnóstico diferencial de LPC no paciente infectado pelo HIV. Aviram e cols (2001), da universidade de Miami, avaliaram 25 pacientes HIV positivos com doença cavitária pulmonar na tomografia, dos quais 23 tinham diagnóstico de AIDS (18 homens e sete mulheres entre 26 e 66 anos). Em cinco pacientes o diagnóstico etiológico foi de presunção clínica associada a dados inespecíficos de exames complementares incluindo células inflamatórias em biópsia, alterações sugestivas de tuberculose, etc. Um caso ficou sem diagnóstico definido. A média de CD4 em pacientes com etiologia bacteriana exclusiva foi significativamente maior que em pacientes com etiologia não bacteriana (p<0,05). A tabela abaixo apresenta a etiologia dos 20 casos com diagnostico definido: todos infecciosos. Após conclusão do estudo, os autores acima também comparam seus achados com os já existentes na literatura e comentam:
  • - Na AIDS há uma maior frequência de infecções e neoplasias. Apesar do potencial de ambas as complicações se apresentarem como doença cavitária, em todos os casos foi identificada apenas etiologia infecciosa. 85% pacientes tiveram etiologia bacteriana sendo a grande maioria multibacteriana – o que é comum, sobretudo na AIDS avançada. - Na AIDS há também maior risco de pneumonia bacteriana, com risco aumentado conforme queda de CD4. Miller RF e cols (1994), numa revisão de 49 episódios de PAC em HIV observaram que 22% apresentaram como complicação lesão cavitária ou formação de abscesso, principalmente S. pneumoniae e H. influenzae. Já Afessa Bet e cols (1998) em achados de autopsia em 233 pacientes HIV positivos observaram que P. aeruginosa e S. aureus foram os agentes mais comuns de pneumonia bacteriana complicada com cavitação pulmonar. Entretanto, estavam em todos os casos associados a outros patógenos. Portanto não foi possível estabelecê-los como agentes causais definitivos. - Apesar de infecção por nocardia ser considerada incomum em AIDS, foi a etiologia de três casos. Uttamachandani e cols (1994) estudaram 22 pacientes HIV positivos com nocardiose e observaram que quatro de 22 (18%) tinham cavitação pulmonar. - Rhodococcus equi também é considerado incomum na AIDS. Muntaner L e cols (1997) estudando manifestações radiológicas desta zoonose em AIDS encontraram lesões cavitárias em 45 pacientes (77%). - Fishman JE e cols (1998) afirmaram que cavidade pulmonar é um achado radiológico infrequente de tuberculose (TB) em pacientes com AIDS avançada, exceto quando TB multi-resistente secundária ecorre de não aderência ao tratamento. Neste estudo, entretanto, os quatro pacientes com doença cavitária e Mycobacterium tuberculosis isolado tinham baixa contagem CD4 (2-102/mm3), levando a concluir que lesão cavitária pode ocorrer mesmo em imunodeficiência acentuada. - Mycobacterium avium e candida albicans: geralmente se manifestam como doenças disseminadas e doença pulmonar é incomum, apesar de frequentemente serem isolados em secreções respiratórias. Nos três casos isolados neste estudo estavam associados a outros patógenos, e, portanto não podem ser considerados isoladamente como etiológicos de cavitação pulmonar. - Pneumocistis: apesar da profilaxia continua sendo o agente oportunista mais comum no HIV. Ferré C e cols (1994) estudando 160 casos de pneumocistose em AIDS encontraram cavitação pulmonar somente em seis casos (4%). Os mesmos autores comentam que revisando outros 29 casos de lesões cavitárias e pneumocistose , em 10 deles o LBA foi negativo para pneumocystis. - Entre 3 casos de cytomegalovirus (CMV) isolado, 2 foram diagnosticados com lavado (LBA) – o que não necessariamente comprova vigência de infecção pulmonar. Um caso foi diagnosticado na autopsia. Relatos de series de autopsias mostram que o diagnóstico de infecção pulmonar por CMV é feito com sucesso antes do óbito em apenas 13-24% casos. Entre 21 pacientes com AIDS e evidência citopatológica de pneumonite por CMV, somente um tinha lesão cavitária. - Sarcoma Kaposi e Linfoma não Hodgkin são as neoplasias mais comuns na AIDS e somente dois relatos de caso de cada foi descrito por Gallant JE e cols (1998) com lesão cavitária. Neste estudo nenhum paciente apresentava neoplasia. Os autores comentam também que câncer de pulmão pode apresentar como cavitação na AIDS como em outras populações. Em outro trabalho retrospectivo com uma coorte grande de 1790 pacientes HIV, Lin e cols (2009) pesquisaram se haviam lesões cavitárias pulmonares presentes em radiografias. Foram encontrados 73 casos de lesões cavitárias. A média de CD4 foi de 25. Os patógenos mais envolvidos foram fungos (42%) seguido por bactérias (29,6%) e
  • micobactérias (25,9%). Das pneumonias por fungos, 55,9% foram causadas por Penicillium marneffei, 32,4% por Criptococos neoformans, 5,9% por Pneumocystis jirovecii e 5,9% por Aspergillus species. Resposta Correta: D Após discussão com a pneumologia, foi indicada broncoscopia com LBA, e foi introduzido esquema para tratamento de tuberculose, ganciclovir e claritromicina e aventada também hipótese de criptococose pulmonar. Broncoscopia: BTB = achados inespecíficos e LBA negativo para BAAR e pneumocistose. Três exames pesquisa direta de BAAR negativos no escarro Evoluiu com hipoxemia importante no terceiro dia de internação hospitalar (SaPO2= 88% em ar ambiente e 94% com oxigênio por cateter nasal a 2 L/min) Evoluiu com insuficiência respiratória franca, necessitou intubação e ventilação mecânica e foi transferido para a UTI. Na UTI paciente apresentou crise convulsiva generalizada e realizou tomografia de crânio: Sem sinais de hipertensão craniana e pequena imagem anelar sugestiva de neurocriptococose (vide foto do corte abaixo). Realizada punção liquórica Evolução longitudinal dos exames laboratoriais: Hemograma:
  • Bioquímica: Gasometria arterial/ lactato:
  • Outros resultados: Exames de líquor:
  • No dia 04/05/10 realizado nova dosagem de CD4 = 2 células/µl Quatro hemoculturas isolaram criptococos neoformans mesmo quando em vigência de anfoterecina B já por mais de 14 dias. Não houve crescimento bacteriano nas amostras. Após o diagnóstico de criptococose foi suspenso o esquema RIPE (LBA negativo), Claritromicina, Ganciclovir, Fluconazol e Bactrim (LBA negativo) Mantido Azitromicina e Bactrim profiláticos e esquema para pneumonia nosocomial com Vancomicina e Meropenem Paciente teve diagnóstico de infecção pulmonar nosocomial e de criptococose disseminada que, a princípio, não respondeu à antibioticoterapia e à terapia antifúngica, em choque séptico refratário e insuficiência respiratória grave. Evoluindo todo o tempo febril e com PCR aumentando progressivamente, no dia 14/05/10, foi suspenso Vancomicina e Meropenem e introduzido Polimixina B e 4 dias depois paciente iniciou desmame de drogas vasoativas e está atualmente em progressão para desmame de ventilação mecânica, melhorando quadro clínico e laboratorial. Questão 2: Assinale a alternativa INCORRETA em relação à criptococose: A) O criptococo mais prevalente no Brasil é o tipo A B) C gattii causa mais frequentemente massas pulmonares C) A pesquisa de antígenos criptocócicos no LBA tem baixa positividade D) Em HIV a criptococose pode resultar em insuficiência respiratória por quadro difuso semelhante ao observado na pneumocistose E) Na meningite criptocócica por HIV a pleocitose do líquor é ausente ou discreta Discussão Criptococose é a infecção causada pelo basidiomiceto encapsulado do gênero Cryptococcus. Com a epidemia da AIDS, a espécie C. neoformans tornou-se a infecção oportunista mais importante. Atualmente, Cryptococcus spp é classificado em cinco sorotipos capsulares e oito genótipos moleculares. A classificação do sorotipo é baseada nas reações de aglutinação dos antígenos dos polissacarídeos capsulares. As cepas com sorotipos A e D e o híbrido AD pertencem a C. neoformans, enquanto as cepas com sorotipos B e C têm sido classificadas como C. gattii. As cepas do sorotipo A foram nomeadas C. neoformans var. grubii, e as cepas do sorotipo D foram nomeadas C. neoformans var. neoformans. Essa classificação baseou- se nas diferenças das estruturas capsulares e de DNA, assim como na comparação completa do sequenciamento genômico entre as variedades desses dois sorotipos. A virulência do gênero Cryptococcus está associada à produção de oxidases e de proteases e às propriedades antifagocíticas do polissacarídeo capsular. Formas atípicas não-capsuladas apresentam menor patogenicidade. Um ambiente com concentrações abundantes de dióxido de carbono favorece a bioformação da cápsula. No ambiente, C. neoformans é encontrado associado a excretas de pombos e em ocos de árvores por todo mundo. Por anos, C. gattii foi encontrado em regiões tropicais e subtropicais. Foi associado primariamente com eucaliptos, que foram considerados seu nicho ambiental.
  • A infecção é pela inalação de leveduras encapsuladas ou basidiósporos levando a infecção pulmonar inicial, que pode ser clareada ou contida na forma de granuloma como infecção latente, ou pode disseminar, dependendo de fatores como resposta imune do hospedeiro ou numero e virulência dos organismos. Ou seja, o hospedeiro desenvolve um complexo linfonodal pulmonar primário. Na maioria dos casos, a inalação de Cryptococcus spp produz uma infecção pulmonar assintomática autolimitada, e as leveduras permanecem latentes dentro desse complexo, morrem ou, com um posterior evento de imunossupressão, são reativadas e causam doença. Essa infecção primária pode também causar sintomas pulmonares no hospedeiro, em caso de imunossupressão ou de um grande inóculo da levedura. A disseminação pulmonar a outros órgãos pode potencialmente ocorrer como resultado de uma infecção primária ou secundária. No estágio de disseminação da localização pulmonar, o cérebro torna-se o órgão com maior propensão a ser o sítio alvo da doença clínica. Por isso, a maioria dos dados é de manifestações da doença no pulmão ou no sistema nervoso central (SNC). Esse tropismo pelo SNC é atribuído à concentração ótima de nutrientes assimiláveis pelo fungo (tiamina, ácido glutâmico, glutamina, dopamina, carboidratos e minerais), existentes no líquor, à falta de atividade do sistema complemento no líquor e à fraca ou ausente atividade de resposta inflamatória do tecido cerebral. Antes da epidemia do HIV, a infecção criptocócica era uma infecção sistêmica incomum que ocorria em pacientes com outras causas de imunodepressão, geralmente associada ao uso de corticóides, diabete melito, doença de Hodgkin, lúpus eritematoso sistêmico ou a outro tratamento imunossupressor. Entretanto, durante as últimas duas décadas, a incidência da criptococose aumentou significativamente. A infecção por HIV está associada a mais de 80% de casos de criptococose em todo o mundo. Na era pré-terapia antiretroviral combinada (ARVc), a infecção criptocócica tornou-se a maior infecção oportunística e a maior causa de morte em pacientes infectados pelo HIV com CD4 < 100 células/µl. Após a potente terapia ARVc tornar-se disponível, a incidência da criptococose diminuiu significativamente, mas a incidência da infecção criptocócica em pacientes não-infectados pelo HIV não mudou durante esse período. Embora o aumento do uso de ARVc esteja associado à diminuição da incidência de casos de criptococose em países desenvolvidos, a incidência e a mortalidade por criptococose ainda é extremamente alta em países com epidemia de HIV incontrolada e acesso limitado aos medicamentos e aos cuidados de saúde. Entre os casos de criptococose humana, criptococos neoformans (sorotipo A) é a espécie mais comumente isolada em amostras clínicas por todo o mundo. Esse sorotipo totaliza mais de 95% dos casos de criptococose. No Brasil, estudos revelam que o sorotipo A é o mais prevalente. O SNC e o trato respiratório são os órgãos mais acometidos em infecções por criptococos neoformans, embora outros possam ser infectados, como pele, próstata, olhos, ossos, trato urinário e sangue. Na realidade, essa levedura pode causar doença em qualquer órgão do corpo humano, e a disseminação da criptococose pode ocorrer em múltiplos órgãos de pacientes gravemente imunossuprimidos. Anteriormente, considerava-se que infecções por criptococos neoformans e criptococos neoformans gattii causavam manifestações clínicas similares. Entretanto, evidências confirmam que diferentes manifestações clínicas podem ocorrer nessas duas espécies. Por exemplo, C. gattii causa doença em hospedeiros imunocompetentes que têm massas inflamatórias significativas (criptococomas) e comumente produzem sequela neurológica que requer cirurgia e terapia antifúngica prolongada. Por outro lado, C. neoformans acomete pacientes imunodeprimidos, causando pequenas lesões radiológicas pulmonares associadas à meningite e, devido a sua atividade proteolítica, apresenta criptococcemia e
  • criptococúria, manifestações raramente encontradas em infecções por C. gattii. HIV associado com a criptococose produz maior envolvimento extrapulmonar e do SNC, além de alta taxa de positividade nos exames com tinta da china (nigrosina), hemocultura positiva e poucas células inflamatórias no líquor. Esses resultados clínicos sugerem que pacientes infectados com HIV apresentam alta concentração de organismos e pouca reação inflamatória no sítio da infecção. Na criptococose pulmonar, a apresentação tem algumas diferenças entre pacientes infectados com HIV, comparados a não-infectados como apresentado paralelamente abaixo: HIV positivo HIV negativo - Mais comum em pacientes com profunda imunossupressão (CD4<100) e geralmente associado à doença disseminada - Pacientes com doença pulmonar localizada tendem a ter melhores contagens CD4. - Pode variar do assintomático a insuficiência respiratória aguda - Maioria apresenta tosse pouco produtiva, febre, dispnéia, dor pleurítica e, mais raramente, hemoptise- difícil diagnóstico diferencial com outras pneumonias dessa população - Visnegarwala e cols numa série de 29 pacientes com criptococose pulmonar grave e insuficiência respiratória aguda, observou que em19 casos a insuficiência respiratória foi atribuída somente ao criptococo. A apresentação clinica descrita foi praticamente indistinguível da pneumocistose, com media de 10 dias de sintomas pulmonares, rápida progressão e alta mortalidade - Pacientes em uso de terapia antiretroviral (TARV): considerar a síndrome inflamatória da reconstituição imune, na qual a recuperação da resposta imune contra criptococos viáveis ou mortos ou a antígenos pode levar à deterioração clinica paradoxal. Tem sido relatado que em 6- 30% pacientes com meningite criptocócica após inicio TARV apresentam complicações pulmonares como a pneumonia cavitária grave. Radiologicamente: - Apresentação clinica variável, refletindo diferentes graus de imunossupressão de base - Mais comum: tosse (61-83%), febre, dispnéia e dor torácica com relatos de insuficiência respiratória aguda, porém quase sempre sem necessidade de ventilação mecânica. - Geralmente localizada ao pulmão, manifestando-se como nódulo pulmonar isolado, que pode se resolver espontaneamente. No entanto, há casos há casos de meningite após criptococose pulmonar resolvida, não tratada - Há descrição de extenso envolvimento de parede torácica nos casos de doença disseminada e meningite criptocócica associada com criptococose pulmonar - Menores taxas de infecção disseminada se comparado a coorte de HIV positivos. Mas a historia natural da doença não tratada é ainda a provável causa de progressão/ disseminação. Radiologicamente: - Nódulos pulmonares (5-30mm) múltiplos ou solitários, de limites lisos ou mal-definidos; sem predileção lobar - Pode ter áreas de infiltrado ou consolidação (62%) - Pode apresentar derrame pleural, linfadenopatia intratorácica, lesões cavitárias e lesões reticulo-nodulares difusas.
  • - ampla variedade de anormalidades- menor proporção de nódulo pulmonar e maior incidência de doença disseminada, difusa - Difícil diagnóstico diferencial c/ outras doenças oportunistas (ex. pneumocistose) - Batungwanayo e cols descreveram infiltrado intersticial difuso em 76% HIV positivo com pneumonia criptococica numa serie africana de 37 casos. - Linfadenopatia, lesões cavitarias e derrame pleural também são descritos (Diagnóstico diferencial com TB) Diagnóstico da criptococose pulmonar: - Baseado no isolamento do criptococo em amostra pulmonar, associado a quadro clinico e achado radiológico e, idealmente, evidência histopatológica de invasão tecidual - Leveduras encapsuladas típicas podem ser vistas em microscopia de amostras respiratórias após cultivo adequado em meio agar seletivo, c/ crescimento ótimo a 30 graus e colônias se desenvolvendo em 2-5 dias - Fungo pode ser visto em amostras histológicas com colorações especiais. - Sorotipagem só é possível com o uso de kits comercializados de anticorpo monoclonal - Escarro é a amostra mais prontamente obtida. Entretanto, sua coloração e cultura têm limitações – pode ser confundidas com Candida em pacientes com HIV. - Métodos invasivos (broncoscopia, biópsia transbrônquica, biópsia percutânea ou aberta, toracocentese diagnóstica) podem ser necessários para melhor definição. - Broncoscopia + LBA tem maior rendimento diagnóstico. Estudo com 220 pacientes mostrou que teste com antígeno criptocócico no LBA foi mais efetivo considerando-se títulos significativos aqueles > 1:8 (S=100% / E=98%). - HIV avançado com doença pulmonar: Pesquisa de antígeno criptocócico (CRAG) positiva e hemocultura para fungos podem ser úteis e, se positivos, favorecem o diagnóstico de criptococose pulmonar, se não identificados outros patógenos - Importante fazer investigação adicional após isolamento respiratório de criptococo para investigar disseminação no liquor, CRAG sérico e hemocultura para fungo. - CRAG sérico (screening) – se positivo geralmente implica doença disseminada - Em pacientes com criptococo pulmonar isolado, outros diagnósticos associados são relativamente comuns. No HIV, considerar associação com outras doenças oportunistas (Wong e cols: 16,5% infecção respiratória concomitantes, mais comumente pneumocistose (52%), seguida de infecções por micobacterianas (42%) / Meyohas e cols: patologias adicionais em 1/3 casos foram pneumocistose (mais comum) seguido por S. Kaposi). Resposta correta: C
  • Assinale a alternativa correta em relação ao tratamento e profilaxia da criptococose: A) Itraconazol deve ser de escolha na presença de doença do SNC B) Anfotericina lipossomal resulta em menor toxicidade hepática C) C gattii é de tratamento mais simples do que C neoformans D) Profilaxia com fluconazol deve ser considerada quando os LTCD4+ situam-se abaixo de 50/ mm3 E) O itraconazol não deve ser utilizado na profilaxia em pacientes com HIV Tratamento: Quanto ao tratamento da criptococose pulmonar, é fundamental garantir que a doença não esteja disseminada, especialmente para o SNC, devido à necessidade de um tratamento mais agressivo para a neurocriptococose. A escolha do antifúngico depende do sítio de infecção e da imunidade do paciente. Os principais antifúngicos são anfotericina B (0,5-1,0 mg/kg/dia) e seus derivados lipídicos, fluconazol (400 mg/dia) e 5-flucitosina (100 mg/kg/dia, em combinação com anfotericina B devido ao frequente surgimento de resistência em monoterapia).Infelizmente, a 5-flucitosina não está disponível no Brasil. Em casos de criptococose pulmonar isolada, de gravidade leve a moderada, o tratamento pode ser realizado com fluconazol ou itraconazol (200-400 mg/dia) por 6-12 meses. Se houver disseminação ao SNC, o itraconazol não deve ser utilizado, por não apresentar boa penetração no líquor. O desoxicolato de anfotericina B tem sido administrado com sucesso terapêutico em casos de meningite criptocócica, por apresentar rápida depuração do Cryptococcus spp. Entretanto, essa droga pode ocasionar nefrotoxicidade importante. O uso de anfotericina B lipossomal tem a vantagem de reduzir essa toxicidade. O tratamento difere com a espécie de Cryptococcus spp. C. gattii requer maior dose de anfotericina B, tratamento mais prolongado e frequentemente demanda cirurgia. Da mesma forma, as sequelas são mais frequentes, e a mortalidade é maior. O uso apropriado dos agentes antifúngicos diminui a mortalidade significativamente, mas requer terapia continuada e prolongada para prevenir recidivas. Estudos clínicos prospectivos mostram que o uso de fluconazol e itraconazol pode reduzir a frequência da doença entre pacientes com AIDS. Entretanto, a profilaxia antifúngica não deve ser utilizada como rotina devido à infrequência da micose, ao pequeno efeito na sobrevida, à possibilidade de interações medicamentosas, ao desenvolvimento de resistência antifúngica e ao custo do tratamento. Contudo, a profilaxia deve ser considerada para pacientes com linfócito T CD4+ < 50 células/µl. Nesses casos, a droga de escolha é o fluconazol (100-200 mg/dia). O uso de profilaxia secundária em pacientes curados, previamente tratados, previne a recorrência da infecção. Essa deve ser mantida até que os níveis de linfócitos T CD4+ permaneçam por mais de seis meses acima de 200 células/µl. Como síntese, segue abaixo uma sugestão de tratamento para criptococose pulmonar de acordo com o estado imunológico do paciente traduzida de Jarvis JN e cols, 2008
  • Resposta Correta: D Referências: 1. Miller RF, Foley NM, Kessel D, Jeffrey AA. Community acquired lobar pneumonia in patients with HIV infection and AIDS. Thorax. 1994;49(4):367-8. 2. Afessa B, Green W, Chiao J, Frederick W. Pulmonary complications of HIV infection: autopsy findings. Chest. 1998;113(5):1225-9. 3. Uttamchandani RB, Daikos GL, Reyes RR, Fischl MA, Dickinson GM, Yamaguchi E, Kramer MR. Nocardiosis in 30 patients with advanced human immunodeficiency virus infection: clinical features and outcome. Clin Infect Dis. 1994;18(3):348-53. 4. Muntaner L, Leyes M, Payeras A, Herrera M, Gutierrez A. Radiologic features of Rhodococcus equi pneumonia in AIDS. Eur J Radiol. 1997;24(1):66-70. 5. Ferré C, Báguena F, Podzamczer D, Sánchez C, Viladrich PF, Garau J, Gudiol F. Lung cavitation associated with Pneumocystis carinii infection in the acquired immunodeficiency syndrome: a report of six cases and review of the literature. Eur Respir J. 1994;7(1):134-9. 6. McGuinness G, Scholes JV, Garay SM, Leitman BS, McCauley DI, Naidich DP.
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