Fernando pessoa o marinheiro

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Fernando pessoa o marinheiro

  1. 1. BibliotecaVirtualbooks OMarinheiro Fernando Pessoa
  2. 2. ********************************Edição especial para distribuição gratuita pela Internet,através da Virtualbooks.A VirtualBooks gostaria de receber suas críticas e sugestões sobre suas edições. Suaopinião é muito importante para o aprimoramento de nossas edições:Vbooks02@terra.com.br Estamos à espera do seu e-mail.Sobre os Direitos Autorais:Fazemos o possível para certificarmo-nos de que os materiais presentes no acervo sãode domínio público (70 anos após a morte do autor) ou de autoria do titular. Casocontrário, só publicamos material após a obtenção de autorização dos proprietários dosdireitos autorais. Se alguém suspeitar que algum material do acervo não obedeça a umadestas duas condições, pedimos: por favor, avise-nos pelo e-mail:vbooks03@terra.com.br para que possamos providenciar a regularização ou a retiradaimediata do material do site. www.virtualbooks.com.brCopyright© 2000/2003 VirtualbooksVirtual Books Online M&M Editores Ltda.Rua Benedito Valadares, 429 – centro35660-000 Pará de Minas - MGTodos os direitos reservados. All rights reserved. ******************************** 2
  3. 3. O MARINHEIRO Fernando PessoaDrama estático em um quadroFernando PessoaA Carlos FrancoUm quarto que é sem dúvida num castelo antigo. Do quarto vê-se que écircular. Ao centro ergue-se, sobre uma mesa, um caixão com uma donzela,de branco. Quatro tochas aos cantos.À direita, quase em frente a quem imagina o quarto, há uma única janela,alta e estreita, dando para onde só se vê, entre dois montes longínquos,um pequeno espaço de mar.Do lado da janela velam três donzelas. A primeira está sentada em frente àjanela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas estãosentadas uma de cada lado da janela. É noite e há como que um resto vagode luar.PRIMEIRA VELADORA — Ainda não deu hora nenhuma.SEGUNDA — Não se pode ouvir. Não há relógio aqui perto. Dentro em poucodeve ser dia.TERCEIRA — Não: o horizonte é negro.PRIMEIRA — Não desejais, minha irmã, que nos entretenhamos contando o que 3
  4. 4. fomos? É belo e é sempre falso...SEGUNDA — Não, não falemos nisso. De resto, fomos nós alguma cousa?PRIMEIRA — Talvez. Eu não sei. Mas, ainda assim, sempre é belo falar dopassado... As horas têm caído e nós temos guardado silêncio. Por mim,tenho estado a olhar para a chama daquela vela. Às vezes treme, outrastorna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu não sei por que é queisso se dá. Mas sabemos nós, minhas irmãs, por que se dá qualquercousa?...(uma pausa)A MESMA — Falar do passado — isso deve ser belo, porque é inútil e faztanta pena...SEGUNDA — Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.TERCEIRA — Não. Talvez o tivéssemos tido...PRIMEIRA — Não dizeis senão palavras. E tão triste falar! É um modo tãofalso de nos esquecermos! ... Se passeássemos?...TERCEIRA — Onde?PRIMEIRA — Aqui, de um lado para o outro. Às vezes isso vai buscar sonhos.TERCEIRA — De quê?PRIMEIRA — Não sei . Porque o havia eu de saber?(uma pausa)SEGUNDA — Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora eramenos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janeladava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu nãofiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Jánão tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a 4
  5. 5. única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras ébelo?SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemosdá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...(uma pausa)PRIMEIRA — Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado?SEGUNDA — Não, não dizíamos.TERCEIRA — Por que não haverá relógio neste quarto?SEGUNDA — Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado emisterioso. A noite pertence mais a si própria... Quem sabe se nóspoderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é?PRIMEIRA — Minha irmã, em mim tudo é triste. Passo Dezembros na alma...Estou procurando não olhar para a janela.. Sei que de lá se vêem, aolonge, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu erapequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mastirassem... Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade dechorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?...TERCEIRA — Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre,sempre,sempre...(uma pausa)SEGUNDA — Contemos contos umas às outras... Eu não sei contos nenhuns, masisso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nemaorla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, ecada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum,mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado — por quenão falamos nós dele?PRIMEIRA — Decidimos não o fazer... Breve raiará o dia earrepender-nos-emos... Com a luz os sonhos adormecem... O passado não ésenão um sonho... De resto, nem sei o que não é sonho. Se olho para o 5
  6. 6. presente com muita atenção, parece-me que ele já passou... O que équalquer cousa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como elapassa?... Ah, falemos, minhas irmãs falemos alto, falemos todas juntas...O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser cousa... Sinto-o envolver-mecomo uma névoa... Ah, falai, falai!...SEGUNDA — Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-meque entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a ideia de que vosposso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro,naquela parte que toca na alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveispassarem-me pelo cabelos — é o gesto com que falam das sereias... (Cruzaas mãos sobre os joelhos. Pausa). Ainda há pouco, quando eu não pensava emnada, estava pensando no meu passado.PRIMEIRA — Eu também devia ter estado a pensar no meu...TERCEIRA — Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outrostalvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé dacasa de minha mãe corria um riacho... Por que é que correria, e por que éque não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão paraqualquer cousa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e realcomo as minhas mãos?...SEGUNDA — As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios quehabitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medode Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elasmovem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesseresponder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agoraestar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minhaalma... Talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira-mar.Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece tercruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjopara que nunca mais ninguém olhasse...TERCEIRA — As vossas frases lembram-me a minha alma...SEGUNDA — É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo...Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando... Mas eudevo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma cousa ondeia, euamo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu 6
  7. 7. gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada,sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... Éimpossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo depedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eupudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha almaalguém em quem eu me sentisse feliz...PRIMEIRA — Por mim, amo os montes... Do lado de cá de todos os montes éque a vida é sempre feia... Do lado de lá, onde mora minha mãe,costumávamos sentarmo-nos à sombra dos tamarindos e falar de ir ver outrasterras... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma decada lado do caminho... A floresta não tinha outras clareiras senão osnossos pensamentos... E os nossos sonhos eram de que as árvoresprojetassem no chão outra calma que não as suas sombras... Foi decertoassim que ali vivemos, eu e não sei se mais alguém... Dizei-me que istofoi verdade para que eu não tenha de chorar...SEGUNDA — Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla da minhasaia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas... Eu era pequenae bárbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente parece-me quedurmo... Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ninguém... O mar eragrande de mais para fazer pensar nelas... Na vida aquece ser pequeno...Éreis feliz, minha irmã?PRIMEIRA — Começo neste momento a tê-lo sido outrora... De resto, tudoaquilo se passou na sombra... As árvores viveram-no mais do que eu...Nunca chegou nem eu mal esperava... E vós irmã, por que não falais?TERCEIRA — Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos voudizer. As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo aopassado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, epenso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente...Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chavede uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrário queestivesse com consciência de si próprio. É por isto que me apavora ir,como por uma floresta escura, através do mistério de falar... E, afinal,quem sabe se eu sou assim e se é isto sem dúvida que sinto?...PRIMEIRA — Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, 7
  8. 8. sem reparardes que existis... Não nos íeis dizer quem éreis?TERCEIRA — O que eu era outrora já não se lembra de quem sou... Pobre dafeliz que eu fui !... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minhaalma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca.Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quandosonhava de viver, as pontas tranqüilas dos meus dedos... Às vezes, à beirados lagos, debruçava-me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus denteseram misteriosos na água... Tinham um sorriso só deles, independente domeu... Era sempre sem razão que eu sorria... Falai-me da morte, do fim detudo, para que eu sinta uma razão para recordar...PRIMEIRA — Não falemos de nada, de nada... Está mais frio, mas por que éque está mais frio? Não há razão para estar mais frio. Não é bem mais frioque está... Para que é que havemos de falar?... É melhor cantar, não seiporquê... O canto, quando a gente canta de noite, é uma pessoa alegre esem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos... Eupodia cantar-vos uma canção que cantávamos em casa de meu passado. Por queé que não quereis que vo-la cante?TERCEIRA — Não vale a pena, minha irmã... quando alguém canta, eu nãoposso estar comigo. Tenho que não poder recordar-me. E depois todo o meupassado torna-se outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e quenão vivi nunca. É sempre tarde de mais para cantar, assim como é sempretarde de mais para não cantar...(uma pausa)PRIMEIRA — Breve será dia... Guardemos silêncio... A vida assim o quer. Aopé da minha casa natal havia um lago. Eu ia lá e assentava-me à beiradele, sobre um tronco de árvore que caíra quase dentro de água...Sentava-me na ponta e molhava na água os pés, esticando para baixo osdedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos pés, mas não erapara os ver. Não sei porquê, mas parece-me deste lago que ele nuncaexistiu... Lembrar-me dele é como não me poder lembrar de nada... Quemsabe por que é que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?...SEGUNDA — À beira-mar somos tristes quando sonhamos... Não podemos ser oque queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido nopassado... Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil 8
  9. 9. vozes mínimas a falar. A espuma só parece ser fresca a quem a julga uma...Tudo é muito e nós não sabemos nada... Quereis que vos conte o que eusonhava à beira-mar?PRIMEIRA — Podeis contá-lo, minha irmã; mas nada em nós tem necessidade deque no-lo conteis... Se é belo, tenho já pena de vir a tê-lo ouvido. E senão é belo, esperai..., contai-o só depois de o alterardes...SEGUNDA — Vou dizer-vo-lo. Não é inteiramente falso, porque sem dúvidanada é inteiramente falso. Deve ter sido assim... Um dia que eu dei pormim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido quetinha pai e mãe e que houvera em mim infância e outros dias — nesse dia viao longe, como uma coisa que eu só pensasse em ver, a passagem vaga de umavela. Depois ela cessou... Quando reparei para mim, vi que já tinha essemeu sonho... Não sei onde ele teve princípio.. . E nunca tornei a veroutra vela... Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto separece com aquela, mesmo quando é lua e os navios passam longe devagar...PRIMEIRA — Vejo pela janela um navio ao longe. É talvez aquele quevistes...SEGUNDA — Não, minha irmã; esse que vedes busca sem dúvida um portoqualquer... Não podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto...PRIMEIRA — Por que é que me respondestes?... Pode ser... Eu não vi navionenhum pela janela... Desejava ver um e falei-vos dele para não terpena... Contai-nos agora o que foi que sonhastes à beira-mar...SEGUNDA — Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilhalongínqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagaspassavam por elas... Não vi se alguma vez pousavam... Desde que,naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali... Como ele não tinha meiode voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se asonhar uma pátria que nunca tivesse tido: pôs-se a fazer ter sido sua umaoutra pátria, uma outra espécie de país com outras espécies de paisagens,e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debruçaremdas janelas... Cada hora ele construía em sonho esta falsa pátria, e elenunca deixava de sonhar, de dia à sombra curta das grandes palmeiras, quese recortava, orlada de bicos, no chão areento e quente; de noite,estendido na praia, de costas e não reparando nas estrelas. 9
  10. 10. PRIMEIRA — Não ter havido uma árvore que mosqueasse sobre as minhas mãosestendidas à sombra de um sonho como esse!...TERCEIRA — Deixai-a falar... Não a interrompais... Ela conhece palavrasque as sereias lhe ensinaram... Adormeço para a poder escutar... Dizei,minha irmã, dizei... Meu coração dói-me de não ter sido vós quandosonháveis à beira-mar...SEGUNDA — Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonhocontínuo a sua nova terra natal... Todos os dias punha uma pedra de sonhonesse edifício impossível... Breve ele ia tendo um país que já tantasvezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se já de ter passado aolongo de suas costas. Sabia de que cor soíam ser os crepúsculos numa baíado norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada nomurmúrio da água que o navio abria, num grande porto do sul onde elepassara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta...(uma pausa)PRIMEIRA — Minha irmã, por que é que vos calais?SEGUNDA — Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre...Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quandofalo de mais começo a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz comque me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenhoentão uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o poder embalar comoa um filho... Vede: o horizonte empalideceu... O dia não pode já tardar...Será preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?PRIMEIRA — Contai sempre, minha irmã, contai sempre... Não pareis decontar, nem repareis em que dias raiam... O dia nunca raia para quemencosta a cabeça no seio das horas sonhadas... Não torçais as mãos. Issofaz um ruído como o de uma serpente furtiva... Falai-nos muito mais dovosso sonho. Ele é tão verdadeiro que não tem sentido nenhum. Só pensar emouvir-vos me toca música na alma...SEGUNDA — Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. Àmedida que o vou contando, é a mim também que o conto... São três aescutar... (De repente, olhando para o caixão, e estremecendo). Três 10
  11. 11. não... Não sei... Não sei quantas...TERCEIRA — Não faleis assim... Contai depressa, contai outra vez... Nãofaleis em quantos podem ouvir... Nós nunca sabemos quantas coisasrealmente vivem e vêem e escutam... Voltai ao vosso sonho... O marinheiro.O que sonhava o marinheiro?SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) — Ao princípio ele criou aspaisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas,uma a uma, cinzelando-as na matéria da sua alma — uma a uma as ruas,bairro a bairro, até às muralhas dos cais de onde ele criou depois osportos... Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobreelas das janelas... Passou a conhecer certa gente, como quem a reconheceapenas... Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo istoera como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo... Depois viajava,recordando, através do país que criara... E assim foi construindo o seupassado... Breve tinha uma outra vida anterior... Tinha já, nessa novapátria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, osportos onde embarcara... Ia tendo tido os companheiros da infância edepois os amigos e inimigos da sua idade viril... Tudo era diferente decomo ele o tivera — nem o país, nem a gente, nem o seu passado próprio separeciam com o que haviam sido... Exigis que eu continue?... Causa-metanta pena falar disto!... Agora, porque vos falo disto, aprazia-me maisestar-vos falando de outros sonhos...TERCEIRA — Continuai, ainda que não saibais porquê... Quanto mais vosouço, mais me não pertenço...PRIMEIRA — Será bom realmente que continueis? Deve qualquer história terfim? Em todo o caso falai... Importa tão pouco o que dizemos ou nãodizemos... Velamos as horas que passam... O nosso mister é inútil como aVida...SEGUNDA — Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, omarinheiro cansou-se de sonhar... Quis então recordar a sua pátriaverdadeira..., mas viu que não se lembrava de nada, que ela não existiapara ele... Meninice de que se lembrasse, era a na sua pátria de sonho;adolescência que recordasse, era aquela que se criara... Toda a sua vidatinha sido a sua vida que sonhara... E ele viu que não podia ser que outravida tivesse existido... Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de 11
  12. 12. um gesto materno se lembrava... E da vida que lhe parecia ter sonhado,tudo era real e tinha sido... Nem sequer podia sonhar outro passado,conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer... Óminhas irmãs, minhas irmãs... Há qualquer coisa, que não sei o que é, quevos não disse... Qualquer coisa que explicaria isto tudo... A minha almaesfria-me... Mal sei se tenho estado a falar... Falai-me, gritai-me, paraque eu acorde, para que eu saiba que estou aqui! ante vós e que há coisasque são apenas sonhos...PRIMEIRA (numa voz muito baixa) — Não sei que vos diga... Não ouso olharpara as cousas... Esse sonho como continua?...SEGUNDA — Não sei como era o resto.... Mal sei como era o resto... Por quehaverá mais?...PRIMEIRA — E o que aconteceu depois?SEGUNDA — Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?... Veio um dia umbarco... Veio um dia um barco... — Sim sim... só podia ter sido assim... —Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá omarinheiro.TERCEIRA — Talvez tivesse regressado à pátria... Mas a qual?PRIMEIRA — Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabê-lo-iaalguém?SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Há resposta para alguma coisa?(uma pausa)TERCEIRA — Será absolutamente necessário, mesmo dentro do vosso sonho, quetenha havido esse marinheiro e essa ilha?SEGUNDA — Não, minha irmã; nada é absolutamente necessário.PRIMEIRA — Ao menos, como acabou o sonho?SEGUNDA — Não acabou... Não sei... Nenhum sonho acaba... Sei eu ao certose o não continuo sonhando, se o não sonho sem o saber, se o sonhá-lo não 12
  13. 13. é esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. Não me faleis mais...Principio a estar certa de qualquer coisa, que não sei o que é... Avançampara mim, por uma noite que não é esta, os passos de um horror quedesconheço... Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que voscontei?... Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meusonho... Ele é sem dúvida mais real do que Deus permite... Não estejaissilenciosas... Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu osaiba... Vede, começa a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real...Paremos... Não pensemos mais... Não tentemos seguir nesta aventurainterior... Quem sabe o que está no fim dela?.... Tudo isto, minhas irmãs,passou-se na noite... Não falemos mais disto, nem a nós próprios... Éhumano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.TERCEIRA — Foi-me tão belo escutar-vos... Não digais que não... Bem seique não valeu a pena... É por isso que o achei belo... Não foi por isso,mas deixai que eu o diga... De resto, a música da vossa voz, que escuteiainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez só por ser música,descontente...SEGUNDA — Tudo deixa descontente, minha irmã... Os homens que pensamcansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no,porque mudam com tudo... De eterno e belo há apenas o sonho... Por queestamos nós falando ainda?...PRIMEIRA — Não sei... (olhando para o caixão, em voz mais baixa) — Por queé que se morre?SEGUNDA — Talvez por não se sonhar bastante...PRIMEIRA — É possível... Não valeria então a pena fecharmo-nos no sonho eesquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?...SEGUNDA — Não, minha irmã, nada vale a pena...TERCEIRA — Minhas irmãs, é já dia... Vede, a linha dos montesmaravilha-se... Por que não choramos nós?... Aquela que finge estar aliera bela, e nova como nós, e sonhava também... Estou certa que o sonhodela era o mais belo de todos... Ela de que sonharia?...PRIMEIRA — Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e já sabe para que 13
  14. 14. servem os sonhos...(uma pausa)SEGUNDA — Talvez nada disto seja verdade... Todo este silêncio, e estamorta, e este dia que começa não são talvez senão um sonho... Olhai bempara tudo isto... Parece-vos que pertence à vida?...PRIMEIRA — Não sei. Não sei como se é da vida... Ah, como vós estaisparada! E os vossos olhos tão tristes, parece que o estão inutilmente...SEGUNDA — Não vale a pena estar triste de outra maneira... Não desejaisque nos calemos? É tão estranho estar a viver... Tudo o que acontece éinacreditável, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo... Vede, o céué já verde... O horizonte sorri ouro... Sinto que me ardem os olhos, de euter pensado em chorar...PRIMEIRA — Chorastes, com efeito, minha irmã.SEGUNDA — Talvez... Não importa... Que frio é isto?... Ah, é agora... éagora!... Dizei-me isto... Dizei-me uma coisa ainda... Por que não será aúnica coisa real nisto tudo o marinheiro, e nós e tudo isto aqui apenas umsonho dele?...PRIMEIRA — Não faleis mais, não faleis mais... Isso é tão estranho quedeve ser verdade. Não continueis... O que íeis dizer não sei o que é, masdeve ser de mais para a alma o poder ouvir... Tenho medo do que nãochegastes a dizer... Vede, vede, é dia já... Vede o dia... Fazei tudo porreparardes só no dia, no dia real, ali fora... Vede-o, vede-o... Eleconsola.. Não penseis, não olheis para o que pensais... Vede-o a vir, odia... Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvensarredondam-se à medida que se coloram.. Se nada existisse, minhasirmãs?... Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?...Porque olhastes assim?...(Não lhe respondem. E ninguém olhara de nenhuma maneira.)A MESMA — Que foi que dissestes e que me apavorou?... Senti-o tanto quemal vi o que era... Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segundavez, já não tenha tanto medo como dantes... Não, não... Não digais nada... 14
  15. 15. Não vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, parame não deixar pensar... Tenho medo de me poder lembrar do que foi... Masfoi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus... Devíamos játer acabado de falar... Há tempo já que a nossa conversa perdeu osentido... O que é entre nós que nos faz falar prolonga-sedemasiadamente... Há mais presenças aqui do que as nossas almas.. O diadevia ter já raiado.. Deviam já ter acordado... Tarda qualquer coisa...Tarda tudo... O que é que se está dando nas coisas de acordo com o nossohorror?... Ah, não me abandoneis... Falai comigo, falai comigo... Falai aomesmo tempo do que eu para não deixardes sozinha a minha voz... Tenhomenos medo à minha voz do que à idéia da minha voz, dentro de mim, se forreparar que estou falando...TERCEIRA — Que voz é essa com que falais?... É de outra... Vem de umaespécie de longe...PRIMEIRA — Não sei... Não me lembreis isso... Eu devia estar falando com avoz aguda e tremida do medo... Mas já não sei como é que se fala... Entremim e a minha voz abriu-se um abismo... Tudo isto, toda esta conversa eesta noite, e este medo — tudo isto devia ter acabado, devia ter acabadode repente, depois do horror que nos dissestes... Começo a sentir que oesqueço, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar deuma maneira nova para exprimir um horror de aqueles...TERCEIRA (para a SEGUNDA) — Minha irmã, não nos devíeis ter contado essahistória. Agora estranho-me viva com mais horror. Contáveis e eu tanto medistraía que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu somseparadamente. E parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do quedizíeis eram três entes diferentes, como três criaturas que falam e andam.SEGUNDA — São realmente três entes diferentes, com vida própria e real.Deus talvez saiba porquê... Ah, mas por que é que falamos? Quem é que nosfaz continuar falando? Por que falo eu sem querer falar? Por que é que jánão reparamos que é dia?...PRIMEIRA — Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me agritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para aminha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que alguémpossa bater àquela porta. Por que não bate alguém à porta? Seriaimpossível e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que é que 15
  16. 16. tenho medo... Que estranha que me sinto!... Parece-me já não ter a minhavoz... Parte de mim adormeceu e ficou a ver... O meu pavor cresceu mas eujá não sei senti-lo... Já não sei em que parte da alma é que se sente...Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo... Para quefoi que nos contastes a vossa história?SEGUNDA — Já não me lembro... Já mal me lembro que a contei... Parece tersido já há tanto tempo!... Que sono, que sono absorve o meu modo de olharpara as coisas!... O que é que nós queremos fazer? o que é que nós temosidéia de fazer? — já não sei se é falar ou não falar...PRIMEIRA — Não falemos mais. Por mim, cansa-me o esforço que fazeis parafalar... Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis... Aminha consciência bóia à tona da sonolência apavorada dos meus sentidospela minha pele... Não sei o que é isto, mas é o que sinto... Preciso dedizer frases confusas um pouco longas, que custem a dizer... Não sentistudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teianegra que nos prende?SEGUNDA — Não sinto nada... Sinto as minhas sensações como uma coisa quese sente... Quem é que eu estou sendo?... Quem é que está falando com aminha voz?... Ah, escutai...PRIMEIRA e TERCEIRA — Quem foi?SEGUNDA — Nada. Não ouvi nada... Quis fingir que ouvia para que vóssupusésseis que ouvíeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa aouvir... Oh, que horror, que horror íntimo nos desata a voz da alma, e assensações dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudoem nós pede silêncio e o dia e a inconsciência da vida... Quem é a quintapessoa neste quarto que estende o braço e nos interrompe sempre que vamosa sentir?PRIMEIRA — Para quê tentar apavorar-me? Não cabe mais terror dentro demim... Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodomorno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquercoisa que nos pega e nos vela. Pesam as pálpebras a todas as minhassensações. Prende-se a língua a todos os meus sentimentos. Um sono fundocola umas às outras as idéias de todos as meus gestos. Por que foi que 16
  17. 17. olhastes assim?...TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) — Ah, é agora, é agora... Sim,acordou alguém... Há gente que acorda... Quando entrar alguém tudo istoacabará... Até lá façamos crer que todo este horror foi um longo sono quefomos dormindo... É dia já. Vai acabar tudo... E de tudo isto fica, minhairmã, que só vós sois feliz, porque acreditais no sonho...SEGUNDA — Por que é que mo perguntais? Porque eu o disse? Não, nãoacredito...Um galo canta. A luz, como que subitamente, aumenta. As três veladorasquedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras.Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia. ******** 17
  18. 18. Sobre o autor e sua obra Fernando Antonio Nogueira Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa, partindo, após o falecimento do pai e o segundo casamento da mãe, para África do Sul. Freqüentou várias escolas, recebendo uma educação inglesa. Regressa a Portugal em 1905 fixando-se em Lisboa, onde inicia uma intensa atividade literária.Simpatizante da Renascença Portuguesa, corta com ela e em 1915, com Máriode Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros, esforça-se por renovar a literaturaportuguesa através da criação da revista Orpheu, veículo de novas idéias enovas estéticas.Cria vários heterônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis,Bernardo Soares, etc.), assinando as suas obras de acordo com a personalidadede cada heterônimo. Colabora em várias revistas, publica em livro os seuspoemas escritos em inglês e, em 1934, ganha o concurso literário promovidopelo Secretariado de Propaganda Nacional, categoria B, com a obra Mensagem,que publica no mesmo ano.Faleceu prematuramente em 1935, deixando grande parte da sua obra aindainédita. É considerado um dos maiores poetas portugueses.CRONOLOGIA1888 -A 13 de Junho nasce Fernando António Nogueira Pessoa no Largo de São Carlosnº 4, 4º Esq. em Lisboa.1893 -Morre com 43 anos o pai de Fernando Pessoa - Joaquim de Seabra Pessoa1895 -A mãe de Fernando Pessoa - Maria Madalena Pinheiro Nogueira Pessoa - casa,por procuração, com João Miguel Rosa - cônsul interino em Durban - África doSul. 18
  19. 19. A 26 de Julho escreve Fernando Pessoa a sua primeira quadra À minha queridamamã.1896 -A família parte para Durbam1896-1904 -Fernando Pessoa faz os seus estudos primários e secundários em Durbam1905 -Fernando Pessoa regressa sozinho a Lisboa, a bordo do navio alemão Herzog,para se matricular no Curso Superior de Letras que abandona um ano depois.1907 -Fernando Pessoa funda a Empresa Íbis - Tipografia Editora - Oficinas a Vapor -que durou escassos meses.1908 -Fernando Pessoa inicia a sua atividade como "correspondente estrangeiro"1912 -Colabora na revista A Águia.1913 -Conhece Mário de Sá-Carneiro e José de Almada Negreiros.Escreve a poesia Pauis.1914 -Primeiros poemas dos seus heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos eRicardo Reis.1915 -Publicação dos dois números da revista Orpheu.1916 -Mário de Sá Carneiro suicida-se em Paris.1917 -É publicado o único número da revista Portugal Futurista.1920 -Conhece Ofélia a quem são destinadas as suas "Cartas de Amor". 19
  20. 20. 1921 -Início da publicação da revista Contemporânea onde Fernando Pessoa colabora.1924-1925 -Publicação dos cinco números da revista Athena dirigida por Fernando Pessoa eRuy Vaz.1927 -Em Coimbra inicia-se a publicação da revista Presença onde Fernando Pessoacolaborará.1932 -Requer, em concurso documental, o lugar de conservador-bibliotecário doMuseu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, em Cascais, no qual não foiprovido.1934 -Publicação da Mensagem.A 31 de Dezembro a Mensagem recebe o prêmio da Secretaria da PropagandaNacional.1935 -A 30 de Novembro Fernando Pessoa morre no Hospital de S. Luís dos Francesesonde tinha sido internado na véspera com uma cólica hepática. Nota auto-biográfica de Fernando Pessoa Nota biográfica escrita por Fernando Pessoa em 30 de Março de 1935 e publicada, em parte, como introdução ao poema editado pela Editorial Império em 1940 e intitulado: "À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais" Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa. Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dosMártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Diretório) em 13 deJunho de 1888.Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria MadalenaPinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa,combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do 20
  21. 21. conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Diretor-Geral doMinistério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: mistode fidalgos e judeus.Estado: Solteiro.Profissão: A designação mais própria será "tradutor", a mais exata a de"correspondente estrangeiro em casas comerciais". O ser poeta e escritor nãoconstitui profissão, mas vocação.Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - CaixaPostal 147, Lisboa ).Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargospúblicos, ou funções de destaque, nenhumas.Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto,por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos,considera como válido, é o seguinte: "35 Sonnets" (em inglês), 1918; "EnglishPoems I-II" e "English Poems III" (em inglês também), 1922, e o livro"Mensagem", 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, nacategoria "Poema". O folheto "O Interregno", publicado em 1928, e constituídopor uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como nãoexistente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.Educação: Em virtude de falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul dePortugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prêmio Rainha Vitória deestilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame deadmissão, aos 15 anos.Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais própriopara uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmotempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver umplebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservadordo estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamenteanti-reacionário.Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas asIgrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que maisadiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimasrelações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essênciaoculta da Maçonaria. 21
  22. 22. Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nostrês graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolidatoda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismonovo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houvealguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pelaHumanidade; nada contra a Nação".Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai ditoacima.Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártirJacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda aparte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.Lisboa, 30 de Março de 1935 ****** 22

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