Juventude, Juventudes
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Juventude, Juventudes Juventude, Juventudes Document Transcript

  • NOTA INTRODUTÓRIA O Programa Mais Cultura Audiovisual realizou no período de 28 a 30 de outubro o Seminário Juventude e Teledramaturgia. O Seminário promoveu debates visando gerar subsídios para a formatação do Edital FICTV/MAIS CULTURA – Edital de seleção de projetos de desenvolvimento e produção de teledramaturgia seriada para TV’s Públicas. O ponto de partida deste Seminário foi a apresentação de estudos e pesquisas sobre a juventude das faixas C, D e E abordando o perfil, as demandas e o imaginário desses jovens brasileiros. Os consultores da área de pesquisa contratados pelo Programa Mais Cultura Audiovisual tendo como base os resultados dos debates e de suas participações no Seminário produziram 2 (dois) textos de referência para auxiliar os participantes do Edital FICTV/MAIS CULTURA. O Programa Mais Cultura Audiovisual optou por disponibilizar os textos para que os proponentes possam se apropriar do conjunto das discussões sobre o tema juventude e teledramaturgia, oferecendo subsídios sobre o universo sócio-cultural-psicológico do público alvo do Edital, a juventude das faixas C, D e E da população brasileira. O primeiro texto de referência é de autoria da antropóloga e consultora de pesquisa do Programa Mais Cultura Audiovisual, Regina Novaes. Este texto intitulado “Juventude, Juventudes - Jovens das classes C e D frente aos dilemas de sua geração” é uma compilação das principais e atuais pesquisas sobre juventude organizada pela pesquisadora e resulta na construção de um painel de referência sobre o público alvo do programa como base de orientação a todo o processo de produção de conteúdos. O segundo texto de referência é de autoria do cientista político e consultor de pesquisa do Programa Mais Cultura Audiovisual, Carlos Novaes. Este texto intitulado “Teledramaturgia em TV Pública para jovens brasileiros das classes C, D e E – entre 15 e 29 anos de idade” é uma contribuição à elaboração bem sucedida da teledramaturgia a ser encomendada, consubstanciada em um apanhado de idéias e informações que reúnem o aproveitamento, pelo autor, de elaborações e dados relativamente recentes sobre o tema juventude(s).
  • Juventude, juventudes. Jovens das “classes C, D e E” frente aos dilemas de sua geração. Subsídios para o Seminário Juventude e Teledramaturgia 1- Juv ent ude: Defi niçõe s, Mi tos e P rojeç ões 2- Ju ven tu de b rasilei ra: u m jo go de e spel hos 2.1 Espelho Retrovisor 2.2 Espelho Agigantador • “Medo de sobrar”: um lugar em um mercado de trabalho restritivo e mutante. • “Medo de morrer”: a realidade do narcotráfico, das armas de fogo e das polícias. • Inseguranças compartilhadas: sentimentos de desconexão em um mundo conectado: 2.3- Transições para a vida adulta: novos padrões e múltiplas trajetórias juvenis 3- Traje tórias ju ve nis: polít ica, reli gi ão e cult ura 3.1 Participação: mudanças na face social dos grupos que se mobilizam 3.2 Pertencimentos e valores religiosos: novas escolhas e combinações 3.3 Em tempos de cultura tecnológica: acessos, fruição e produção • NTICs: efeitos na cultura e na política. • Juventudes: acessos às artes, uso do tempo livre e circuitos de movimentação. 4- Not a fin al FICTV/MAIS CULTURA • 2
  • Juventude, juventudes. Jovens das “classes C, D e E” frente aos dilemas de sua geração. Regina Novaes Duas perguntas motivam este texto: • Como caracterizar a juventude brasileira atual sem desconsiderar a heterogeneidade de comportamentos de jovens que vivem condições sociais tão desiguais em termos de renda, cor, gênero, local de moradia e outros pertencimentos? • Como caracterizar – no âmbito do Programa Mais Cultura Audiovisual- o “público jovem” das “classes C, D e E” considerando-os como parte da geração juvenil contemporânea? Para tanto, em primeiro lugar, vamos tratar de questões que expressam dificuldades em definir “juventude”. Em seguida, trataremos de caracterizar como as juventudes brasileiras – com suas diferenças e desigualdades - refletem e revelam a sociedade brasileira. Por fim, reuniremos informações disponíveis sobre grupos de participação, escolhas religiosas e preferências de lazer e uso do tempo livre de jovens no Brasil de hoje Em todo este percurso trataremos de demarcar as questões que dizem respeito, especialmente, aos jovens considerados pertencentes às chamadas “classes C, D e E”. 1- Ju ve ntu de: D efini ções, M i tos e P rojeçõ es • Definições. Infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice: cada uma destas palavras designa um período diferente da vida. São palavras que nasceram no campo das ciências - sobretudo da biologia, medicina e psicologia – mas hoje habitam o vocabulário da vida cotidiana. Hoje a distinção entre cada uma destas fases passou a ser vista como natural, como se houvesse uma cronologia geral, oficial, definidora da “natureza humana”. Olhada como fase natural da vida, a “juventude” é tratada como um segmento populacional bem definido, suposto como universal. No entanto, os limites etários e as características de cada uma das “idades da vida” são produtos históricos, resultados de dinâmicas sociais mutantes e de constantes (re) invenções culturais. No entanto, em cada tempo e lugar, diferentes grupos e sociedades definem o que é “ser jovem” e o que esperar de suas juventudes. Na concepção das sociedades clássicas greco-romanas, a juventude se referia a uma idade entre os 22 e os 40 anos. Juvenis vem de aeoum, cujo significado etimológico é “aquele que está em plena força da idade”. Naquela cultura, a deusa grega Juventa era evocada justamente nas cerimônias do dia em que os mancebos (adolescentes) trocavam a roupa simples pela toga, tornando-se cidadãos de pleno direito. Na sociedade moderna, não há consenso em torno dos exatos limites de idade que devem vigorar para definir quem é jovem1, 1 O parâmetro mais usado é a faixa de 15 a 24 anos, definição da Organização Internacional da Juventude, mas no conjunto há países que antecipam ou prolongam esta faixa etária. No Brasil a lei 11129 de 30/06/2005 - que cria a Secretaria Nacional de Juventude, o Conselho Nacional de Juventude e o ProJovem -, estabelece a faixa etária de 15 a 29 anos. No Brasil, como se verá no decorrer deste texto, atualmente, há pesquisas que consideram de 15 a 24 anos e outras de 15 até 29 anos. FICTV/MAIS CULTURA • 3
  • mas a juventude é compreendida como um tempo de construção de identidades e de definição de projetos de futuro. É vista como tempo de “moratória social”, “etapa de transição”, em que os indivíduos processam sua inserção nas diversas dimensões da vida social: responsabilidade com família própria, inserção no mundo do trabalho, exercício de direitos e deveres de cidadania. Há quem diga que, desde a metade do século XX, de maneira geral, os jovens são disputados por forças antagônicas que resultam em tanto em críticas e quanto em adesões à chamada “sociedade de consumo”. Segundo Ribeiro (2004), o cineasta francês Jean Luc Godard , em seu filme Made in U.S.A., sintetizou muito bem essas duas vias ao chamar os jovens parisienses dos anos 60 “de filhos de Marx e da Coca-Cola”. Ou seja, uma parcela da juventude dos anos 60 evocou a idéia de revolução e aderiu aos ícones mais radicais como Guevara, Mao Tse- Tung, Ho Chi Minh. Mas, foi nesta mesma época que a juventude se tornou destinatária por excelência dos anúncios e propagandas indispensáveis na sociedade de consumo, da coca-cola. Entre os jovens contestadores do “sistema” sempre existiram diferentes vias políticas, artísticas e de estilos de vida. Sergio Balardini (2000) lembra que os jovens dos anos 60 e 70 navegaram entre a radicalização política e a contracultura, em suas próprias palavras “entre el Che y el ‘submarino amarillo’ dos Beatles. Os hippies, que pregavam “paz e amor” foram contemporâneos dos jovens que se envolveram em ações armadas para contestar as ditaduras latino americanas. Com todas estas possibilidades, o tema mobiliza razões e emoções. Determinados conceitos e preconceitos são sempre acionados – consciente ou inconscientemente – falar sobre a juventude2. Se as definições de juventude também são produtos culturais, elas também não estão isentas de contradições históricas. A rigor, os jovens são disputados pelas mesmas correntes de pensamentos e alternativas de vida presentes na sociedade como um todo. Mas, as generalizações fazem desaparecer diferenciações internas na juventude. Elas revelam projeções pessimistas ou otimistas em relação o futuro da sociedade. A partir daí, constroem-se os estereótipos. • Mitos Há alguns anos atrás, Cecília Braslavsky (1986)– estudiosa sobre as questões juvenis na Argentina – identificou os três mitos mais comuns que são acionados para definir a juventude que poderiam ser assim atualizados: • “o m ito d a ju ve ntu de do urad a ” – “Ser jovem” é ter tempo livre para lazer, gozar o ócio, cultivar o corpo, ser beneficiário de um período de “moratória social” sem angústia ou responsabilidades. Deste ponto de vista, todos os jovens seriam despreocupados ou só se mobilizariam em defesa de próprios seus privilégios. Esta visão é alimentada pelos os meios de comunicação que inculcam padrões estéticos e comercializam a “juvenização”. Através deste mito se identifica todos os jovens de hoje com a parcela dos jovens socialmente privilegiados. 2 Sobre o assunto ver, entre outros, Novaes e Vannuchi, 2004. FICTV/MAIS CULTURA • 4
  • • “o mi to da j uve nt ude ci n za ” – Deste ponto de vista, os jovens de hoje são desocupados, delinqüentes, apáticos. Seriam depositários de todos os males da sociedade. Seriam a mais perfeita expressão das leis da competitividade, da lógica do lucro, do cinismo da sociedade do espetáculo. Deste prisma seriam “a desgraça e a ressaca da sociedade”. Vistos como “suspeitos” (e se pobres e moradores de periferias violentas, são vistos como criminosos em potencial). Vistos como apáticos e o mais evidente reflexo da crise da representação política. Mais recentemente são vistos como seres “virtuais” que - sempre navegando - parecem estar cada vez mais se descolados do mundo real, alheios a seus problemas e injustiças. • “o mi to da ju vent ude branc a ”: Neste mito só os jovens aparecem como personagens maravilhosos e puros que podem salvar a humanidade. Olhados deste prisma, os jovens fariam o que seus pais não quiseram ou não puderam fazer. Indignados frente às desigualdades sociais, mas pertencentes a uma geração menos iluminista/racionalista, saberiam valorizar a diversidade cultural. Sua maior virtude seria aliar ética com estética, em contraposição com os vícios políticos das gerações anteriores. Superando visões limitadas de outras gerações, nesta juventude estaria toda a criatividade, inventividade e energia da sociedade. Menos antropocêntricos, buscam sustentabilidade sócio-ambiental não só para seu país, mas para todo o planeta. Superando visões limitadas de outras gerações, nesta juventude estaria toda a criatividade, inventividade e energia da sociedade. Certamente na descrição de cada um destes mitos aparecem aspectos que estão presentes nas experiências de vida dos jovens de hoje. Tais aspectos convivem na sociedade atual e também em suas juventudes douradas, cinzas, brancas, e de outras tantas cores.... Em cada tempo e lugar são muitas as juventudes entre elas sempre existem adesões ao estabelecido e territórios de resistências e de criatividade. • Projeções Contudo, um passado idealizado se manifesta quando falamos da “juventude de hoje”. De maneira geral, os jovens de hoje são vistos como mais alienados e desinteressados em questões sociais e políticas que as gerações anteriores. Não são apenas (ex-) militantes que – ao comentar pesquisas de opinião sobre percepções, valores e comportamentos eleitorais dos jovens – evocam a “geração 1968”. A nostalgia do passado conta com a cumplicidade de muitos profissionais dos meios de comunicação (e até de seus céticos editores). Talvez pelas dificuldades para comentar resultados de pesquisas quantitativas sobre juventude, que hoje se multiplicam, várias reportagens da imprensa lançam mão de comparações via registros históricos e de depoimentos da “geração 68”. Ou seja, como não há informações do mesmo tipo de pesquisa sobre gerações passadas, compara-se respostas de pesquisas obtidas por meio de amostras representativas com a memória social do movimento estudantil. Como se sabe, os bravos militantes do movimento estudantil não representavam estatisticamente os jovens daquela época, até mesmo porque o acesso à vida universitária era bastante restrito. FICTV/MAIS CULTURA • 5
  • Mas, por este caminho, se conclui pelo distanciamento dos jovens das questões sociais e da participação política. Compara-se, assim, uma minoria do passado com a totalidade dos jovens do presente. Por outro lado, nas interpretações de pesquisas em que se conclui que “os jovens de hoje não participam”, “não acreditam na política”, “são conservadores”, são “de direita”3 também não se faz uma comparação sistemática entre as respostas dos jovens com as respostas dadas às mesmas questões por outras faixas etárias. O que seria importante para precisar o quanto os fenômenos analisados são extensivos a toda à população ou são específicos a determinadas faixas da população. Como se sabe, a desqualificação da política e dos políticos feita pelos jovens está associada às percepções mais gerais que povoam a sociedade. Talvez entre os jovens haja uma descrença mais aguda. Mas, neste caso, só a comparação com as respostas dos adultos - de diferentes graus de escolaridade e níveis de renda – poderia revelar o quanto e como as mudanças gerais nas percepções da política repercutem em diferentes segmentos juvenis e em suas diferenciadas trajetórias de vida. No entanto, e contraditoriamente, não é exagero afirmar que a sociedade contemporânea é “juventudocêntrica”. Seu valor simbólico positivo se expressa através da valorização da beleza, da saúde, da coragem, da capacidade de indignação, como a expressão do bem. Por um lado, todos querem permanecer jovens. Fisicamente, procura-se adiar o envelhecimento. Mentalmente, busca-se permanecer “jovem de espírito”. Mas, por outro lado, a “juventude” também é vista como o lugar privilegiado para a expressão de todo mal estar social. Provoca inquietações e evoca “problemas sociais” tais como violência, ócio, desperdício e irresponsabilidade. No âmbito profissional ou no tocante à participação nos processos de tomada de decisão – inclusive nas esferas políticas – ser jovem é residir em um incômodo estado de devir, justificado socialmente como estágio de imaturidade, impulsividade e rebeldia exacerbada. Nos meios de comunicação, como sabemos, estas imagens convivem. Via de regra, em lugares diferentes da grade de programação. Na publicidade e nas novelas estão os belos e saudáveis, os alegres e despreocupados que oferecem um modelo de vida ao qual, na realidade, poucos têm acesso. Nos noticiários os jovens (principalmente das classes populares) aparecem sempre como desordeiros e violentos, envolvidos com comportamentos de riscos. Enfim, para compreender a juventude em sua diversidade é preciso ultrapassar tanto o entendimento de que a juventude é uma faixa-etária problemática (onde só se destacam aos “problemas da juventude de hoje”, enunciados em termos de gravidez precoce, as drogas e a violência.) quanto, também, evitar a idealização da juventude como a única protagonista de mudanças sociais, em uma nova interpretação heróica de seu papel mítico. 2- Ju ven tu de b rasilei ra: u m jo go de e spel hos A metáfora do jogo de espelhos foi utilizada inicialmente por Foracchi (1972) em um livro que trata especificamente do movimento estudantil da época. Podemos retomá-la hoje para compreender o jogo dinâmico 3 Pesquisa recente do Instituto Data Folha, foi anunciada na Folha de São Paulo (5 de julho de 2008) através da seguinte chamada: “Os jovens são de direita e só pensam em coisas materiais”, os comentários remetem à 68 e pouco falam sobre outros grupos etários que compõem a sociedade de hoje. Ver no site da Folha outras informações sobre a pesquisa. FICTV/MAIS CULTURA • 6
  • entre um espelho retrovisor (no qual diferentes segmentos juvenis espelham a sociedade brasileira com todas suas características), e um espelho agigantador (que evidencia as marcas geracionais que incidem sobre as trajetórias de vida dos jovens do século XXI). Vejamos. 2.1 E spel ho Ret rov iso r Segundo projeções do IBGE, em 2006, os jovens brasileiros entre 15 e 29 anos somavam 51,1 milhões de pessoas, o que correspondia a 27,4% da população total. Tomando este conjunto, á é lugar comum falar em “juventudes”, no plural. Entre os jovens vamos encontrar as contradições presentes na sociedade brasileira4. A condição juvenil é vivida de forma desigual e diversa em função da origem social; dos níveis de renda; das disparidades sócio-econômicas entre campo e cidade, entre regiões do mesmo país. Além disto, a vivência da condição juvenil é também diferenciada em função de desigualdades de gênero, de preconceitos e discriminações que atingem diversas etnias. Mas isto ainda não é tudo. Os jovens de hoje também se diferenciam em termos de orientação sexual, gosto musical, pertencimentos associativos, religiosos, políticos, de galeras, de turmas, de grupos e de torcidas organizadas. Estes últimos demarcadores de identidades podem aproximar jovens socialmente separados ou separar jovens socialmente próximos. Mas há ainda outras desigualdades que se expressam particularmente na vida urbana. No Brasil, e pelo mundo afora, existem hoje jovens que são vistos com preconceito por morarem em áreas pobres classificadas como violentas. Com diversos nomes, topografias e histórias, as periferias são - via de regra - marcadas pela presença das armas de fogo. São elas que sustentam tanto a tirania do narcotráfico quanto a truculência policial. A resposta à pergunta “onde você mora?” pode ser decisiva na trajetória de vida de um jovem. A “discriminação por endereço” restringe o acesso à educação, ao trabalho e ao lazer dos jovens que vivem nas favelas e comunidades caracterizadas pela precária presença (ou ausência) do poder público. Em resumo, podemos dizer que diferentes segmentos juvenis formam um complexo caleidoscópio no qual se entrelaçam indicadores sociais reveladores. Desigualdades sociais, retro alimentadas por determinados preconceitos e discriminações, produzem distintos graus de vulnerabilidade juvenil. 2.2 Espel ho a gi gan ta dor Porém, com todas estas diferenciações internas, o que haveria de comum entre os jovens de épocas diversas? Certamente a dimensão biológica (os hormônios, a adrenalina, o corpo jovem), favorece a predisposição para a aventura e as representações de força e vitalidade motivando a ousadia de arriscadas práticas juvenis. Mas, para além do aspecto biológico, e apesar dos abismos sociais existentes, “ser jovem” em um mesmo tempo histórico é viver uma experiência geracional comum5. Em tempos de exacerbada tensão entre o local e o global, aprofundam- 4 Ver Anexo 1 5 O conceito de geração remete ao momento histórico em que se foi e se é socializado. Remete ás marcas históricas e ao imaginário social dominante no momento em que se vive a juventude. FICTV/MAIS CULTURA • 7
  • se as transformações no mercado de trabalho e os fenômenos relacionados com a violência que atingem de maneira particular os jovens. • “Medo de sobrar”: um lugar em um mercado de trabalho restritivo e mutante. Vejamos informações recentes, divulgadas pela Organização Internacional do trabalho (OIT)6. • A taxa de desemprego entre 15 a 24 anos era de 17,8% e dos adultos, 5,6%. O desemprego de jovens tem maior incidência para o sexo feminino, para a etnia negra a população urbana. • O desemprego entre os homens jovens era de 13,8% e 23% entre as mulheres da mesma faixa etária. • Na área rural, o desemprego atingia 7,1% dos jovens trabalhadores. • Nas áreas urbanas não-metropolitanas o desemprego crescia para 17,5% e 24,8% nas áreas metropolitanas. Os jovens são, no Brasil, as principais vítimas da precariedade do mercado de trabalho informal. • Em 2006, 31,4% dos jovens ocupados eram empregados sem carteiras, contra 14,1% de adultos na mesma situação. • Do total das jovens ocupadas entre 15 e 24 anos, 14,8% eram trabalhadoras domésticas sem carteira assinada. E 11,6% das mulheres adultas trabalhavam na mesma situação. • A taxa de informalidade entre eles afeta 60,5% dos jovens trabalhadores ocupados. Embora as mulheres apresentem informalidade superior a dos homens, a maior desigualdade prevalece em termos de cor, raça e etnia e local de moradia. • De acordo com o mesmo relatório, a probabilidade de um jovem com até quatro anos de estudo estar no setor informal é o dobro daquela prevalecente para uma pessoa de 15 a 24 anos com 12 anos ou mais de estudo. Sem dúvida, são os jovens mais pobres que são os mais atingidos pelo processo de desestruturação/flexibilização/precarização das relações de trabalho. Porém, é preciso afirmar que não é tão simples dizer que os jovens trabalham apenas por necessidades materiais. Nesta fase da vida busca-se – também - condições para viver a condição juvenil, buscando emancipação. Na pesquisa IBASE/POLIS, indagados sobre os principais conceitos associados ao trabalho, em suas respostas (múltiplas) os jovens indicaram: necessidade (64%); independência (55%), crescimento (47%); auto -realização (29%). Ou seja, entrelaçam-se motivações para o trabalho juvenil. Sem desconhecer as diferenças em termos de econômicos, podemos dizer que uma das características deste nosso tempo é que os jovens de diferentes classes sociais partilhem alguns sentimentos e temores comuns em relação ao seu futuro profissional. Vivemos em um tempo de grandes mudanças tecnológicas. A cada dia se 6 Ver http://www.oit.org.pe/prejal FICTV/MAIS CULTURA • 8
  • sepultam velhas profissões e inventam novas. Frente a um mundo do trabalho restritivo e mutante, o desemprego, às rápidas mudanças tecnológicas dissemina-se o “medo de sob ra r”. • “Medo de morrer”: a realidade do narcotráfico, das armas de fogo e das polícias. As taxas de mortalidade da população brasileira - como um todo - vêm progressivamente decrescendo. Porém, entre os jovens não se observa o mesmo7. Segundo o Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Sistema único de Saúde (SUS): • As mortes por homicídio entre brasileiros de 15 a 29 anos passaram da média anual de 27.496 no período de 1999-2001 para 28.273 no período de 2003-2005. • Estas mortes vitimam mais homens (cerca de 93% das vítimas de homicídio), sobretudo concentrando-se no grupo de 18 a 24 anos. Um levantamento realizado pelo Ministério da Justiça com ocorrências registradas elas polícias civis dos estados indica que, em 2005: • O grupo de 18 a 24 anos foi a maior vítima de homicídios dolosos (47,41 das ocorrências por 100 mil habitantes); • O grupo de 18 a 24 anos também foi a maior vítima de: lesões corporais dolosas; tentativas de homicídio; extorsão mediante seqüestro, roubo a transeunte. • O grupo de 25 a 29 aparecem como as maiores vítimas de furtos a transeuntes e de roubo de veículos; • O grupo de jovens adolescente, até 17 anos, foram as maiores vítimas de estupro e atentado violento ao pudor. Outras informações demonstram que os jovens não figuram apenas como vítimas, mas também com autores da violência. Vários autores têm se dedicado a pensar a equação juventude e criminalidade. Algumas respostas explicam através da crescente exclusão social em uma sociedade de apelo consumista; outras enfatizam a busca de visibilidade e reconhecimento frente processos de segregação social. Questões de afirmação de poder e da masculinidade guerreira também aparecem como pistas para a compreensão do uso de armas, sobretudo pelos jovens moradores das periferias urbanas, ou das violências provocadas pelas torcidas organizadas de futebol. Nestas perspectivas, a violência juvenil deve ser vista em suas relações com a estrutura e os valores dominantes na sociedade em que vivem os jovens. Do nosso ponto de vista, a explicação deve ser buscada na inédita conjugação entre três fatores: a) a proliferação de armas de fogo que obedece aos interesses da indústria bélica nacional e internacional b) a existência de territórios dominados por traficantes de drogas locais que devem ser entendidos como pontos de 7 Segundo o DENATRAN em 2006, os jovens entre 18 e 29 anos 26,5% das vítimas fatais (contra 40,9% para o grupo de 30 a 59 anos). FICTV/MAIS CULTURA • 9
  • uma rede bem mais complexa que constitui hoje o narcotráfico internacional e c) a violência e corrupção das policias, despreparadas para lidar com a juventude. Os jovens sempre manifestam suas contradições com a polícia: se são de classe média reclamam que são “achacados”, se são pobres se dizem sempre suspeitos e sujeitos a vários tipos de humilhações. É na conjugação destes três fatores que os jovens convivem com a morte prematura de pares (irmãos, primos, vizinhos e amigos) e entre eles se espalha o “medo de morrer” prematuramente e de forma violenta. • Inseguranças compartilhadas: sentimento de desconexão em um mundo conectado No presente momento histórico a tensão local-global se manifesta no mundo de maneira contundente: nunca houve tanta integração globalizada e, ao mesmo tempo, nunca foram tão profundos os sentimentos de desconexão e agudos os processos de exclusão. Sem qualquer paralelo em relação a outras gerações, em um mundo sem fortes ideologias, os jovens de hoje se deparam com múltiplas evidencias da degradação sócio- ambiental e com o aumento dos abismos sociais. Como projetar o futuro tendo à frente a um elevado grau de incerteza sobre os caminhos para a inserção no mundo do trabalho? Medos (de sobrar e de morrer) somados a inseguranças advindas de processos de desterritorialização e novos fluxos migratórios e, ainda, às inseguranças advindas das questões ecológicas (traduzidas na expressão “aquecimento global”) produzem também entre os jovens desta geração um i néd ito se nti me nto d e des cone xã o em u m mun do tec nologi ca ment e co nect ado. O ineditismo de tais sentimentos fica evidente quando analisamos as mudanças nos padrões de transição para a vida adulta. 2.3- T ra nsiç ões pa ra a vi da ad ulta: novo s p ad rões e m últipl as t ra jetó ri as ju ven is. Como se sabe, a concepção moderna de juventude tornou a escolaridade uma etapa intrínseca da passagem para a maturidade. Já a partir das transformações do século XVIII e, sobretudo, após a segunda guerra mundial, “estar na escola” passou a definir a condição juvenil. Idealmente, o retardamento da entrada dos jovens no mundo do trabalho, garantiria melhor passagem para a vida adulta. Na prática, esta “passagem” não aconteceu no mesmo ritmo e modalidades em diferentes países e no interior de distintas classes sociais de um mesmo país. Amplos contingentes juvenis de famílias pobres deixam a escola e se incorporam prematura e precariamente no mercado de trabalho informal e/ou experimentam desocupação prolongada. Em outras palavras, pequenas minorias de jovens vivenciam a desejada “moratória social”, enquanto a grande maioria deles encurta a infância e, ao começar a trabalhar, antecipa a idade adulta. Contudo, de maneira geral, podemos dizer que este padrão linear e previsível – cada vez mais – tem sido questionado pela realidade dos jovens de hoje. Como vimos hoje jovens - de todas as classes e situações sociais - expressam insegurança e angústias ao falar das expectativas em relação ao futuro. Os jovens sabem que os certificados escolares são imprescindíveis. Mas sabem também que o diploma não é garantia de inserção produtiva condizente aos diferentes níveis de escolaridade atingida. FICTV/MAIS CULTURA • 10
  • Frente à globalização dos mercados, redesenha-se o mundo do trabalho. Como já foi dito acima, rápidas transformações econômicas e tecnológicas se refletem no mercado de trabalho precarizando relações, provocando mutações, modificando especializações e sepultando carreiras profissionais. O que coloca a constante necessidade de re- qualificação , e atualização profissional. No que diz respeito aos/às jovens das classes C, D e E, é importante destacar: eles e elas fazem parte de uma geração que convive com a imprevisibilidade, com situações intermediárias, reversíveis e coincidentes. Se no padrão anterior os jovens dos setores populares interrompiam os estudos e entravam “para sempre” no mercado de trabalho, hoje na trajetória de jovens de todas as classes sociais podem estar presentes várias entradas e saídas tanto no sistema educativo quanto no mercado de trabalho. Neste sentido, não se pode falar em um único padrão de transição e sim na convivência de várias modalidades de transição para a vida adulta (Camarano, 2006). Pensando nos/nas jovens pertencentes às classes C, D e E podemos falar em lógicas diversas, seqüências múltiplas e não lineares, novos estilos e maneiras de entrar na vida adulta. 3- Traje tórias ju ve nis: polít ica, reli gi ão e cult ura De maneira geral podemos dizer que os/as jovens de hoje enfrentam enormes dificuldades de ingresso e permanência no mercado de trabalho; representam o contingente populacional mais atingido pelas distintas formas de violência; têm acesso restrito aos bens culturais; não têm assegurado o direito a uma educação de qualidade e não recebem tratamento adequado no tocante às políticas públicas de saúde e lazer. Porém, entre jovens surgem novos territórios de resistência e criatividade. Em um tempo em que se coloca a necessidade de construir uma nova cultura em torno do trabalho, recuperando sua dimensão realizadora, jovens destacam-se em pequenos negócios, trabalho cooperativo e associativo, atuação remunerada em organizações do Terceiro Setor, ocupações sociais. Neste contexto, surge também uma (re)valorização da ocupação rural (agrícola ou não-agrícola) e de novas profissões que surgem nas áreas do turismo, esporte, arte e cultura. Em alguns espaços sociais o conceito de Economia Solidária é utilizado para revalorizar ocupações e criar novas alternativas de inserção produtiva distinguindo-as da lógica tradicional do mercado de trabalho assalariado. Em meio às inúmeras contradições atuais surgem novas pontes de comunicação entre jovens de distintas classes sociais. Maria Rita Kehl (2004) lembra que a imagem do jovem consumidor, difundida pela publicidade e pela televisão, se oferece à identificação de todas as classes sociais, mesmo que poucos sejam capazes de consumir todos os produtos. Por outro lado, lembra a mesma autora, no Brasil, em certos espaços, cresce, também, o número dos adolescentes críticos, de classe média, que adotam as roupas, a gíria, a música, a estética da favela, das periferias. A psicanalista aponta para o que há de positivo nesse “outro tipo de consumismo” que questiona distâncias sociais. Masa não podemos deixar de notar que surgem daí novas contradições. Kehl se indaga, até que ponto – para além da busca de justiça – a identificação dos meninos da elite com a estética dos excluídos resulta em identificação com a violência, com a estética da criminalidade, com a espetacularização do mal? Não há respostas fáceis para questões como esta. É preciso compreender melhor os efeitos da chamada “estética da periferia”. FICTV/MAIS CULTURA • 11
  • 3.1 -Pa rt ici paç ão: m ud anç as na f ace soci al dos gru pos que se mo bili zam A pesquisa do IBASE em parceria com o Instituto Polis (Juventude Brasileira e Democracia, 2005) mostra que a participação em grupos é uma experiência vivida por 28,1% dos jovens entrevistados. O aumento da idade parece apontar para a diminuição do potencial ou mesmo o aumento das dificuldades objetivas para a agregação juvenil, independentemente das motivações para a formação de grupos. Ainda segundo a pesquisa, os jovens de maior poder aquisitivo (classes A/B) participam mais de grupos (33,5%), seguidos pelos jovens da classe C (28,2%) e D/E (24,0%). Já o estudo Juventudes Brasileiras (2006) da UNESCO analisando os tipos de organização a qual os jovens declararam estar associados, aponta que 81,1% envolvem-se ou envolveram-se em associações de caráter religioso; 23,6% em associações do tipo organizacional (esportiva, ecológica, cultural, artística, assistencial); 18,7% de caráter corporativo (trabalhista, estudantil); e 3,3% em organizações partidárias. Segundo esta pesquisa, a primeira que entrevistou jovens de 15 a 29 anos, são 27,3% os jovens brasileiros que participam ou já participaram de alguma organização social, o que representa em termos absolutos aproximadamente 13 milhões de jovens. Com efeito, como lembra Helena Abramo (1997), não por acaso atualmente é muito mais diversificada a face social dos jovens que se mobilizam. Se até os anos 70 os atores juvenis estavam restritos aos jovens estudantes de classes médias, hoje, várias dessas formas de movimentação que vemos surgir se fazem entre jovens dos mais distintos setores sociais. Nos setores populares urbanos e rurais, proliferam hoje grupos e cológicos 8 . Neste cenário, antigas questões relacionadas ao lixo urbano ganham outra conotação por meio da chave de leitura ecológica que introduz a “reciclagem” no vocabulário político. Assim como, clássicas questões sobre os impasses da pequena produção agrícola frente a processos de concentração de terras ganham novas conotações frente a grupos de jovens em defesa da “sustentabilidade sócio-ambiental”, que flexibiliza as fronteiras entre as agendas de jovens rurais e urbanos. Nos gru pos rel igiosos também há novidades. As igrejas cristãs, principalmente a Igreja Católica e as evangélicas classificadas como progressistas, sempre foram no Brasil e em alguns outros países da América do sul, um celeiro de quadros políticos. Pode-se dizer que isto ainda existe. Mas, ao lado deste fenômeno, registram-se outras ligações entre religiosidade e participação social. A própria causa ecológica é produtora de uma peculiar espiritualidade que motiva a militância social entre jovens. Porém, diferentemente do que acontecia em outras gerações, cada vez é mais difícil generalizar sobre a equação pertencimento religioso x, y, z e atitude política x,y,z.. Por exemplo, o crescimento pentecostal entre os jovens moradores de áreas pobres e violentas não pode ser visto simplesmente como “a” causa de sua não participação política. Tal adesão precisa ser compreendida tanto no contexto de um campo religioso plural e competitivo, quanto no quadro da exclusão social e violência que engrendra pertencimentos religiosos com repercussões políticas. Enfim, nas “Campanhas pela Paz” tão atuais no século XXI, encontram-se jovens de diferentes pertencimentos religiosos e “jovens religiosos sem religião”, isto é que tem afirmam crenças e valores religiosos mas não tem pertencimento institucional . 8 Conferir Nações Unidas 2003 e Carvalho, 2004. FICTV/MAIS CULTURA • 12
  • Também vale a pena falar dos grup os de afi rm aç ão de ide nti dad es. Devedores de lutas sociais de outras gerações, grupos de jovens mulheres; de jovens indígenas (ou de povos originários como se diz na América Latina); de jovens negros/as; de jovens com deficiência, de jovens que se reúnem e torno da livre orientação sexual trazem suas demandas geracionais para dentro de seus próprios movimentos e para a sociedade. Jovens mulheres, por exemplo, falam em tripla jornada (trabalho fora/trabalho doméstico e estudo). Jovens indígenas demandam novas tecnologias de informação. Jovens de distintas orientações sexuais denunciam tratamento desigual no sistema preventivo de saúde. Por outro lado, grupos juvenis se aproximam das age nd as “co nt ra a global i zaç ão ” ou “po r uma out ra global izaç ão ” via conexões internacionais, expressas nos encontros de Seatle, Gênova e nas ações ‘contra- cúpulas’, o Fórum Social Mundial, a Ação Global dos Povos, os Encuentros Intergalácticos dos Zapatistas, etc... também pautam grupos de jovens. Em uma das vertentes conhecidas, estes temas geraram o conceito de “nova geração política” pensado como substituto do termo juventude que estaria desgastado tanto no mundo capitalista (consumo) como no da militância política (progressista) por sua dependência e atrelamento aos quadros partidários existentes9. Em uma outra vertente, podemos destacar os gru p os cultu ra is. São grupos que, por meio de ritmos, gestos, rituais e palavras, instituem sentidos, negociam significados, buscam visibilidade pública, disputam adesões de jovens. No Brasil, a literatura tem registrado grupos de jovens voltados para esportes, para rádios comunitárias, para o teatro, a dança e variados estilos musicais (rock, punk, heavy metal, reggae, hip hop, funk, entre outros). Inventam e reinventam estilos que se tornam formas de expressão e comunicação. Funcionam como articuladores de identidades e se tornam referências na elaboração de projetos individuais e coletivos. Independentes lançando mão de recursos materiais e simbólicos próprios ou incentivados por mediadores (das Igrejas, agências internacionais ou organizações não governamentais e fundações locais) suas ações imediatas visam transformar as chamadas “comunidades locais”. Como sabemos, nos anos 60 uma espécie de “arte engajada” se colocava à disposição das causas do movimento estudantil, das lutas sindicais e políticas, hoje os chamados “grupos culturais” levam suas expressões artísticas diretamente ao espaço público provocando repercussões políticas. Desta forma, novas combinações temáticas e de formas organizacionais têm se traduzido em disposições éticas e ações concretas em diferentes espaços dos quais participam jovens. Grupos ambientalistas, religiosos, identitários, culturais, questionadores do modelo atual de globalização cada vez mais,- por iniciativa própria o apoiados por projetos sociais governamentais e não governamentais - se articulam em espaços geograficamente mais amplos seja para realizar intercâmbios, seja para participar de articulações e mobilizações ligadas às suas específicas áreas de atuação; seja para participar de Campanhas e mobilizações ligadas a interesses/direitos mais amplos da sociedade em que vivem. Movimentam-se no espaço público, aqui compreendido como lugar onde se explicitam pontos de vista, posicionamentos políticos, projetos de sociedade. Lócus de encontro entre sociedade 9 Ver IBASE/POLIS, 2008, particularmente no que diz respeito à analise do Acampamento internacional da Juventude, durante várias edições do Fórum Social Mundial. FICTV/MAIS CULTURA • 13
  • civil e Estado, a idéia de espaço público pressupõe disputa e negociação cujos resultados incidem sobre instituições sociais e governos. De fato, diversificaram-se os grupos juvenis e as possibilidades de ação coletiva. Hoje o movimento estudantil não é mais o único e mais legítimo porta voz da juventude e nem a vida política se resume aos sindicatos e partidos. Mas isto significa que assistimos hoje decadência do movimento estudantil, das juventudes partidárias e dos departamentos juvenis das organizações sindicais? Uma vez mais, faltam estatísticas e séries históricas que permitam comprovar ou questionar qualquer comparação quantitativa sobre participação juvenil. No entanto, mesmo sem poder falar em quantidades, é importante atentar para o aspecto relacional e refletir sobre a atual configuração de atores juvenis. A despeito de todas as dificuldades inerentes às instituições hierárquicas - como Partidos e Centrais Sindicais- , observa-se uma crescente valorização dos departamentos juvenis. Estas organizações - que muitas vezes sofrem de problemas de distanciamento das bases, de representatividade e inovação na linguagem e formas de atuação-, tem esforçado para incorporar em sua agenda novos temas e formas de mobilização para se aproximar das questões dos jovens de hoje. Sem ter monopólios da representação juvenil, jovens estudantes, sindicalistas e de partidos políticos se engajam em Campanhas temáticas, na formação de Conselhos de Juventude e em outros espaços de expressão de interesses de jovens convivendo com grupos culturais, religiosos, esportivos, ambientalistas, de direitos humanos, de voluntariado, etc.... Sem dúvida, esta “convivência” nem sempre é pacífica. Em muitos momentos, há concorrências (não só ideológicas, mas também de finalidade e estilo) e desqualificações mútuas. Via de regra, no momento das disputas, os organizados são chamados de “manipuladores” e os jovens de grupos religiosos de “assistencialistas”, e de ONGs ou culturais são chamados de “despolitizados”. Porém, se atentamos para as histórias de vida dos jovens, percebemos que tais fronteiras hoje são bem menos rígidas. As passagens de um tipo de grupo para outro e participações simultâneas fazem parte das trajetórias de jovens brasileiros. Segundo registros de pesquisa por mim realizada, vejamos quatro trajetórias possíveis: (a) Maria é uma jovem de 19 anos, moradora de uma favela, que começou como beneficiária de um Projeto Governamental, voltado para questões de gênero, por aí se aproximou de uma “rede de gênero” e de uma ONG, hoje faz parte de um “coletivo de gênero” de um Partido político. (b) José é jovem, branco, de 21 anos que está na militância pela livre orientação sexual e que já participou de uma Ong ambientalista, de grupos de Igreja Católica, do Sindicato dos Bancários e já esteve próximo da juventude partidária. (c) Isaias jovem negro, de 24 anos, filiado ao PT, pertence à Assembléia de Deus, grupo evangélico pentecostal e, através de uma agência de cooperação internacional visitou Angola participando de uma rede de diáspora africana. (d) João, ou DJX, começou no Sindicalismo, hoje é visto como um jovem do movimento Hip hop que atua em Projetos voltados para Jovens apoiados por uma Fundação Social, ligada a uma importante empresa brasileira. Salada mista? Ou oportunidade para a renovação dos espaços tradicionais da política? Não há respostas fáceis para esta questão. Via de regra, as comparações entre a política, a juventude e a sociedade civil ideal (como as coisas deveriam ser) com a vida real (como as coisas são) não são muito reveladoras. É preciso encontrar instrumentos de pesquisa que revelem matizes e modulações. FICTV/MAIS CULTURA • 14
  • 3.2 Pe rte nci men tos e v alore s reli giosos: nov as escol has e co mbi naçõ es No Brasil, com a diminuição da transferência religiosa inter- geracional do catolicismo, amplia- se o número de famílias multi- religiosas e o número de jovens que fazem suas escolhas religiosas pessoais. População Jovem segundo Religião, Brasil, 2004. Religião N % Católica 31.649.346 66,2% Protestante 8.978.085 18,8% Espírita 683.244 1,4% Outras 678.482 1,4% É religioso, mas não segue nenhuma 3.798.506 7,9% Ateu, não tem religião 1.911.223 4,0% Não sabe/não opinou 133.785 0,3% Total 47.832.671 100,0% FONTE: Pesquisa “Juventudes Brasileiras”. UNESCO, 2004. Distribuição da População Jovem segundo a Religião, por Classe Socioeconômica, Brasil, 2004. Classe Socioeconômica Religião Total Classe A/B Classe C Classe D/E Católica 3697884 9536729 18414734 31.649.347 61,5% 63,1% 69,0% 66,2% 1103638 3072206 4802240 8.978.084 Protestante 18,3% 20,3% 18,0% 18,8% 257994 267557 157693 683.244 Espírita 4,3% 1,8% 0,6% 1,4% 114659 324912 238911 678.482 Outros 1,9% 2,1% 0,9 1,4% 506428 1294765 1997312 3.798.505 Sem religião 8,4% 8,6% 7,5 7,9% 324907 592395 993921 1.911.223 Ateu 5,4% 3,9% 3,7% 4,0% Não sabe/não 9553 23884 100348 133.785 opinou 0,2% 0,2% 0,4% 0,3% 6015063 15112448 26705159 47.832.671 Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% FONTE: Pesquisa “Juventudes Brasileiras”. UNESCO, 2004. Destaca-se a maior presença do espiritismo nas Classes A/B, onde 4,3% destes se definem como seguidores desta religião (no geral este percentual é de 1,4%) e 5,4% se definem como ateus (são 4,0% no geral). Num recorte ainda mais específico, observando-se apenas a Classe A, encontra-se a presença de 14,6% espíritas entre os jovens que compõem este grupo de maior nível de renda e de riqueza. Por outro lado, embora em proporções menores, nas classes D e E encontramos os mesmos indícios que apontam para processos de “escolha pessoal” de religião entre os/as jovens de hoje. FICTV/MAIS CULTURA • 15
  • Assim, mesmo considerando as diferenças e as desigualdades sociais entre jovens, a partir das pesquisas qualitativas disponíveis, podemos identificar o entrelaçamento de três tendências que se fazem presentes na experiência desta geração, a saber: • forte disposição para o trânsito religioso e para novas combinações sincréticas; • diminuição da transferência religiosa inter-geracional e ênfase na escolha individual (seja para declara-se ateu ou agnóstico; seja para mudar de religião e seja, até, para permanecer na religião dos pais); • ampliação das possibilidades para o desenvolvimento de religiosidade sem vínculos institucionais (como interregno entre pertencimentos religiosos ou como ponto de chegada). Sem dúvida, as chamadas “novas tecnologias de comunicação” foram incorporadas e contribuíram para a globalização do campo religioso. A despeito das desigualdades sociais e da chamada “exclusão digital”, as técnicas de comunicação e os avanços da tecnologia de ponta fazem parte das várias dimensões da vida dos jovens de hoje, inclusive a dimensão religiosa. Se é verdade que a linguagem e a presença da mídia, da internet e de outras tecnologias de informação mudaram as maneiras de “estar no mundo” elas mudaram também as formas das religiões se apresentarem ao mundo.Vejamos um exemplo: Meu nome é Thogum: Sérgio André Teixeira é carioca de Cavalcante, há 15 anos milita no rap, meio em que é conhecido como Thogun. A origem de seu nome artístico vem do candomblé. Segundo ele próprio revela em entrevistas, o nome Togun (ainda sem agá) lhe foi dado por uma velha mãe de santo durante um almoço. Ela, que sempre ria ao vê-lo, explicou que este era um escravo que traíra Xangô e roubara-lhe o reino. Ao recuperar o que era seu, Xangô foi benevolente e não cortou a cabeça de Togun. Depois de conhecer o movimento hip –hop paulista, tornou-se Thogun e participou da formação da primeira associação de hip hop do país, a Aticon (Associação Atitude Consciente). É conhecido como um rapper crítico e com compromisso social. Nos últimos dois anos, Thogun tem sido convidado para algumas palestras pelo Brasil afora: ganhou uma certa notoriedade, pois teve sua trajetória retratada no documentário “Fala tu”, de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery. O filme relata a luta de Thogun para “se fortalecer”, o ingresso na Faculdade de Comunicação, atualmente com matrícula trancada, e a venda de produtos esotéricos para sobreviver. O filme nos leva também até a casa de Thogun no subúrbio carioca. Lá o que mais chama a atenção é um caprichado altar budista. Tendo um mantra como música de fundo, no filme o personagem explica: “ Esta filosofia budista é baseada na linha de causa e efeito. Tudo que você faz de bom, você recebe de bom. Tudo que você faz de ruim, você recebe de ruim. E em vida. Então você tem sua vida para mudar seu meio.” Em matéria publicada pela imprensa, o jornalista Alfredo Boneff que relata como Thogun, aos 24 anos, se tornou budista: FICTV/MAIS CULTURA • 16
  • “Thogun já foi adepto do candomblé, mas converteu-se ao budismo há oito anos. A conversão veio por intermédio de um episódio marcante. Ele tinha uma entrevista de emprego marcada em uma grande empresa. Quando encaminhava-se para lá, percebeu um corpo na linha de trem, em Cavalcante. Ajudou a retirar o cadáver, crivado de balas, para que não fosse esfacelado. Depois, foi à casa da mãe do rapaz baleado, a quem já conhecia, e encontrou as pessoas recitando um mantra. “Tomei aquela massa de energia pelo meio da cara e decidi: quero isso aí também”, lembra. Perdeu a entrevista, mas ganhou um novo sentido de vida e mesmo uma influência para suas composições”. De fato, nos últimos anos, seja expressando vínculos velhos e novos institucionais ou apenas crenças mais difusas, a linguagem religiosa também se faz presente na área de arte e cultura. O Prêmio Hutus, hoje considerado o mais importante na área de Hip Hop da América Latina, é um bom exemplo. Além de instituir uma categoria específica, o Hip Hop Gospel, recebe uma anualmente músicas concorrentes cujas letras falam de Cristo, de Oxalá e citam salmos bíblicos. Já a Banda Afro Reggae traz para este cenário outro personagem divino: Shiva, da tradição hindu, o deus da transformação, da reconstrução. Um filme recente – Favela Rising, dirigido por Jeff Zimbalist e Matt Mochary, – retrata a realidade das favelas do Rio de Janeiro e destaca a trajetória de Anderson, um dos integrantes da banda AfroReggae. O documentário mostra como a morte rondou de perto a vida de Anderson. E mostra também como diferentes crenças e rituais se combinam em busca de esperança e reconstrução. Nesta luta pela vida, “sem pudores ou ocultações”, tornam-se aliados os santos católicos, mães de santo com suas oferendas e Shiva, que se tornou uma espécie de símbolo da banda. Em resumo: Para os jovens de hoje existem novas possibilidades de combinar elementos de diferentes espiritualidades em uma síntese “pessoal e intransferível” e assim se abrem novas possibilidades sincréticas. Expande-se o fenômeno de adesão simultânea a sistemas diversos de crenças, combinam-se práticas ocidentais e orientais, não apenas na dimensão estritamente religiosa, mas também como recurso terapêutico e medicinal. Tais escolhas, inseridas em feixes de relações sociais tem efeitos diversos na sociabilidade e nos vínculos societários dos jovens de hoje. Partilhando das possibilidades culturais de nossa época, os jovens desta geração estão sendo chamados a fazer suas escolhas em um campo religioso mais plural e competitivo. 3.3 – Em te mpos de cult ura te cnoló gic a: p rod uç ão, ac e ssos e f ru ição Via novas tecnologias, a propagação veloz de símbolos e valores permite que jovens, de diferentes locais do mundo, tenham um mesmo universo de referência. Aceleram-se os processos de contato e se ampliam as possibilidades de hibridismo cultural. Diversidades e identidades se manifestam em um mesmo país, entre países, regiões e continentes. Se é verdade que a cultura é o lócus de constante invenção e reinvenção de formas e canais de comunicação, as mudanças culturais que marcam diferentes gerações podem ser vistas como oportunidade de renovação do repertório político. Não há hoje participação social que não tenha algum grau de dependência das novas tecnologias de informação e comunicação. FICTV/MAIS CULTURA • 17
  • • NTICs: efeitos na cultura e na política. Determinadas características do mundo de hoje devem ser levadas em conta para que possamos compreender comportamentos e ações dos jovens de hoje. Uma destas características diz respeito às novas tecnologias. Distribuição dos jovens segundo uso do computador e conhecimento sobre informática por classe socioeconômica, Brasil, 2004. Classe Socioeconômica Conhecimento sobre informática Total Classe A/B Classe C Classe D/E 191.110 635.471 697.664 1.524.245 Começou a aprender agora 3,2% 4,2% 2,6% 3,2% 2.250.327 5.341.373 4.114.099 11.705.799 Sabe apenas o básico 37,4% 35,3% 15,4% 24,5% 2.818.785 2.646.815 1.175.318 6.640.918 Sabe usar diversos programas 46,9% 17,5% 4,4% 13,9% 754.841 6.479.240 20.660.734 27.894.815 Não sabe usar computador 12,5% 42,9% 77,4% 58,3% 0 9.549 57.346 66.895 Não lembra/ Não opinou 0,0% 0,1% 0,2% 0,1% 6.015.063 15.112.448 26.705.161 47.832.672 Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% FONTE: Pesquisa “Juventude e Juventudes: o que une e o que separa”. UNESCO, 2004. Solicitou-se ao jovem: “Como você definiria o seu conhecimento sobre informática? Você diria que:” Especificamente em relação aos jovens dados da pesquisa da UNESCO (Juventudes Brasileiras, 2006) mostram que a maior parte dos jovens brasileiros de 15 a 29 anos (58,3%) não sabe usar o computador. Destes os mais velhos são os mais afetados pelo “analfabetismo digital”, sendo 71% de 27 a 29 anos, 62,8% de 24 a 26, 55,6% de 21 a 23, 52% de 18 a 20 e, finalmente, 53,4% de 15 a 17 anos. Entre os que estão aprendendo a usar o computador agora, 5,7% estão na faixa dos 15 a 17 anos e somente 1,6% entre os 27 e os 29 anos. Isso corrobora a noção que o acesso e o domínio no uso dos computadores ocorrem mais freqüentemente entre os mais novos e em menor escala para os mais velhos. Sobre a finalidade do uso da internet os jovens declararam que os usos mais comuns são: ajuda nas tarefas escolares (37,5% dos respondentes), seguido por envio de e-mails (36,5%), acesso a páginas de interesse específico (31,8%), notícias (31,7%), fazer amizades (18,4%) e procura por emprego (15,7%) entre outras. É preciso reconhecer que mesmo em um cenário de aumento de desigualdades sociais - diferenças de renda, de gênero, de raça, etnia, local de moradia e de estilos pessoais - no dia-a-dia não é impossível que grupos de jovens socialmente distantes tenham acesso às mesmas informações sobre determinados assuntos. A despeito de todas as desigualdades de acesso e diferenças de uso, a existência da internet não pode ser desconsiderada na análise da participação juvenil. Sem dúvidas, estamos longe de uma “democracia de informações”. No entanto, as novas tecnologias se fazem presentes nos espaços agregação juvenil, nas “lan houses” que proliferam nas favelas e periferias. FICTV/MAIS CULTURA • 18
  • Comunicação e identidades culturais em rede: Em tempos de internet, as “redes juvenis” são meios para dinamizar o que já está constituído e, também, têm funcionado como ponto de partida para a construção de novos espaços de comunicação, identificação e ação. Um bom exemplo são os sites hip hop” que atravessam o mundo. Além de divulgar seus respectivos trabalhos artísticos (de rap, break e grafite), este expediente é visto como uma forma de afirmar a “cultura hip hop”, com seus símbolos, convicções e causas. Existem Portais mais abrangentes nos quais a mensagem da primeira página sempre relacionada à origem urbana e periférica do Hip Hop e seu poder de transformação social. Outros sites votados para grupos específicos que destacam sua origem e idéias “combativas”, com “atitude”, em geral, críticas à sociedade branca e excludente. Encontramos também sites de Projetos sociais voltados para jovens que utilizam o Hip Hop como metodologia de trabalho para intervir na sociedade. Em todos os casos, o meio digital é fundamental para a relação entre a experiência local e a identidade que a ultrapassa. Utopias e Tecnologias: Podemos dizer que, entre jovens, utopias igualitárias se combinam com tecnologias digitais. Não por acaso, na interface entre as desejadas melhorias do sistema escolar e a qualificação voltada para a inserção produtiva surge a demanda por inclusão digital. No âmbito da participação social de jovens, as NTICs se tornam instrumentos úteis para a circulação de informações e para alimentar pertencimentos. Este é o caso do envolvimento de grupos de jovens na defesa do software livre (programa de código aberto) que significa dar liberdade para os usuários (as) para executar, copiar, distribuir, estudar, modificar e aperfeiçoar o Programa. Por outro lado, é preciso sublinhar, que expedientes virtuais, vinculados às novas tecnologias de informação, também estão presentes no mundo da política. A recente pesquisa Juventude e Integração da América do Sul, coordenada pelo IBASE/POLIS 10, ouvindo cerca de 850 entrevistados em seis diferentes da América do Sul, destacou a usos recentes das novas tecnologias de informação e comunicação. Tais como: assembléias por Internet; blogs, fotologs, páginas pessoais, fóruns de discussão com temas específicos; torpedos de celular para comunicação entre participantes, celulares usados para registro de manifestações, entre outras. Instrumentos de organização, de registro de atividades, de disseminação das demandas e mobilização, tais tecnologias foram citados entre os(as) jovens organizados(as) que – em moldes contemporâneos – reinventam utopias (compreendidas como sonhos mobilizadores) por meio de inéditas conjugações entre demandas imediatas e questões mais gerais, via de regra amalgamadas por meio das idéias força como sustentabilidade socio-ambiental e direitos humanos. • Juventudes: acessos às artes, uso do tempo livre e circuitos de movimentação. As práticas de lazer e de ocupação do tempo livre vêm ocupando um lugar cada vez mais central no processo de construção das identidades coletivas e individuais dos jovens. Atividades de lazer e cultura tornam-se agencias de socialização convivendo com instituições sociais clássicas, como a família e a escola, no processo de formação das identidades juvenis (com suas aspirações, angustias e dilemas). As formas de ocupação do tempo livre com práticas de lazer e cultura articulam os jovens em torno de grupos. 10 Ver IBASE/POLIS , 2008, onde se apresentam seis demandas para a Construção de uma Agenda Comum. FICTV/MAIS CULTURA • 19
  • Com o florescimento de uma indústria cultural e de um mercado de consumo voltado especificamente para o segmento jovem da população, os jovens passaram a criar estilos próprios que se revestiram em modas, locais de lazer, músicas, revistas e formas variadas de entretenimento que ajudam a construir uma imagem particular de ser jovem. Atitudes e escolhas em termos de gênero de música que preferem ouvir, o tipo de programa televisivo que preferem assistir, os locais em que costumam ser reunir com os amigos, o que mais gostam de fazer, definem maneiras de ser jovem. Vejamos as informações oferecidas pela Pesquisa da UNESCO (Juventudes Brasileiras, 2006) • É no espaço doméstico que os jovens reservam boa parte do seu tempo livre para obter e processar as informações. É em casa que eles ouvem música, lêem livros, estudam, usam computador e, sobretudo, assistem televisão. Ainda que novas tecnologias, progressivamente, venham ocupando um maior espaço, a televisão aberta ainda é a mais importante fonte de lazer e de informação para a maioria dos jovens brasileiros. Para ocupar o tempo livre em casa, 35% deles preferem assistir televisão, 17,6% preferem ouvir música, 11,1% descansar e 7,4% ler livros. 6,3% afirmaram preferir fazer a limpeza da casa e 4,1% estudar. • Quando estão fora de casa, 15,3% dos jovens afirmaram que preferem reunir-se com os amigos na hora de ocupar seu tempo livre fora de casa; 12,3% afirmaram que preferem praticar esporte, 9,1% dançar, 8,9% ir a festas e 8,3% ir a bares. A rua ou o bairro é o local onde 35,1% dos jovens brasileiros costumam se reunir com os amigos. 30% costumam se reunir na casa de algum dos amigos, 24,2% em casa, 21,4% em algum bar, boteco ou discoteca e 20,8% na praça. 13,8% afirmaram que, habitualmente, reúnem-se com os amigos na escola, 10,9% na igreja e 7,8% em áreas esportivas. • Por volta de 3/4 dos jovens brasileiros costumam nunca ir a teatros ou museus. Quase a metade costuma nunca ir ao cinema, a bibliotecas ou estádios e ginásios esportivos. 39,1% costumam nunca ir a um clube, 27,6% a shows e 21,8% a bailes e festas. A porcentagem dos jovens que tem como hábito sempre freqüentar teatros ou museus é muito baixa (1,5% para teatros e 1,2% para museus); 10,1% costumam ir sempre ao cinema, 10,6% a bibliotecas, 11,9% a estádios e ginásios esportivos e 13,4% a clubes. Essa porcentagem se eleva ligeiramente chegando a 16,6% de jovens que vão sempre a shows, e atinge seu valor máximo com 25,3% de jovens que sempre freqüentam bailes e festas. • Entre os jovens, 21,4% nunca lêem livros, 22% nunca lêem revistas, 29,5% costumam nunca ler jornais e 49,2% costumam nunca ler revistas em quadrinhos. Por outro lado, 18,1% costumam sempre ler jornais, 7,7% costumam sempre ler revistas em quadrinhos, 19,6% ler revistas e 21,9% sempre lêem livros. A respeito da quantidade de livros lidos por aqueles que costumam ler, independentemente da freqüência que o fazem, 16,8% afirmaram que nos últimos 12 meses FICTV/MAIS CULTURA • 20
  • não leram nenhum livro. 14,3% afirmaram que leram apenas um livro nos últimos 12 meses, 16,5% leram 2 livros, 13,1% leram 3 livros e 12,4% leram 9 livros ou mais. • 95,7% dos jovens afirmaram que costuma assistir televisão e a grande maioria (81,1%) afirmou que assiste todos os dias. 4,6% afirmaram que assistem praticamente todos os dias (de 5 a 6 vezes por semana) e 3,3% afirmaram que raramente assistem televisão. Quase 1/3 dos jovens brasileiros apontaram como sendo as novelas o seu programa predileto. 19% preferem assistir filmes, 18,1% noticiários informativos (jornais) e 11,8% programas esportivos. Como podemos ver estas informações revelam questões de acesso Ainda são poucas as ofertas (cinema, teatro, música, cinema, dança, artes plásticas, novas mídias, etc.) e boa parte delas se localiza nas regiões centrais de grandes cidades, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Não é por acaso que a demanda por equipamentos culturais é uma das prioridades de grupos e movimentos juvenis. Em contrapartida a escola poderia ser vista também como um espaço de fruição cultural. Porém, há muito a ser aperfeiçoado no espaço escolar. O Conselho Nacional de Juventude assim se manifestou sobre o assunto: “Faz-se, muitas vezes, política pobre, para pobres: há quadras, mas não há bolas; as aulas de dança são ofertadas por voluntários, em chão esburacado; tem televisão, mas não tem vídeo nem DVD; não tem computador. Além disso, continua o mesmo documento, o uso das escolas nos finais de semana acaba explicitando uma dicotomia entre a escola aberta à comunidade e às suas manifestações culturais, nos fins de semana, e uma escola fechada (por portões e grades), durante a semana” (...) Essas realidades precisam dialogar entre si. A escola e seu currículo erudito pode e deve abrir espaço para as manifestações populares e dos jovens. Isso pode ampliar as possibilidades de aprendizagem e de incentivo a novas produções culturais”. (Conjuve 2006). Por outro lado, ainda não temos estatísticas sobre o que se passa em nosso país em termos da chamada “cultura de rua” e da produção cultural de jovens. Em seu livro, Jovens na Metrópole, a antropólogo Magnani reúne dez estudos etnográficos feitos entre rappers, skatistas, adeptos do hip-hop, pichadores e outras denominações juvenis. Os artigos indicam que periferia “há propostas de lazer muito interessantes e até baratas. Como o skatismo”. O autor destaca que na estação Conceição do metrô de São Paulo, seus alunos pesquisaram um fenômeno interessantíssimo: jovens descendentes de japoneses fazem street dance, dividindo espaço com jovens negros de periferia, que dançam break. Ali se encontram, se olham, se estranham e trocam experiências. Na Barra Funda, um bairro paulistano de classe média baixa, os pesquisadores verificaram o jeito que as crianças dos cortiços inventaram para ir, em relativa segurança, rumo a um decaído centro desportivo da região, onde fazem atividades: elas vão em bando, com uma educadora, cantando alto e chamando a atenção das pessoas, porque perceberam que assim a travessia é mais segura. Elas negociaram com a metrópole. FICTV/MAIS CULTURA • 21
  • Em entrevista ao Estado de São Paulo, Magnani afirma por que não gosta de utilizar o conceito de “tribo”. Segundo ele “trata-se de uma metáfora equivocada. Na etnologia indígena, tribo é a representação de uma grande aliança, ao passo que nos estudos de metrópole, o conceito tem sido usado de modo restritivo. Tribo vira algo menor, sinônimo de grupo fragmentado, com freqüência relacionado à violência. Para o autor, sempre é melhor falar em circuitos de jovens - e como é interessante analisar os mapas de sua movimentação! (...) Resta saber como estes novos fenômenos culturais se relacionam com as trajetórias juvenis no que diz respeito à sociabilidade e à inserção produtiva . Ou seja, do meu ponto de vista, quando falamos em juventude das classes C,D e E não basta sairmos da ênfase da violência para a ênfase da cultura. É preciso ir além. Falar em cultura é valorizar a diversidade das expressões artísticas, é promover de acessos à fruição e à produção cultural, mas é também enfrentar as disputas que dizem respeito a valores e sentidos de vida. Neste sentido, formuladores e gestores de políticas públicas deveriam estar atentos para ampliar a noção de cultura e ingressar na disputa de imagens sociais, de sentidos, de valores, de vínculos societários entre os jovens de hoje. Nota final: A juventude é a fase da vida mais marcada por ambivalências provocadas pela convivência contraditória entre a subordinação à família e à sociedade e as expectativas de emancipação, sempre em choque e negociação. Ser jovem hoje é estar imerso – por origem e/ou por opção – em uma multiplicidade de identidades, posições e vivências. Porém, para além das desigualdades e diversidades presentes entre os/as jovens, torna-se possível pensar juventudes, no plural, sem abrir mão de reconhecer sentimentos geracionais comuns, e assim buscar sua singularidade neste momento histórico. Neste sentido, é fundamental que os jovens das classes C e D sejam vistos a partir da ótica da geração a que pertencem. Isto é, como parte integrante de uma geração que está sendo desafiada a reinventar as formas e os sentidos de “estar no mundo”. Está em curso um processo que vem provocando questionamentos e modulações nas imagens dominantes que a sociedade constrói sobre os sujeitos jovens. E - como a linguagem não é apenas um veículo, mas é também construtora da realidade social- , podemos apostar que a cultura (em suas expressões artísticas e formas de comunicação) poderá jogar um papel ativo para o nascimento de novas percepções e experimentações sociais que respondam a necessidades e aspirações dos/das jovens de hoje. Para tanto, a cooperação inter-geracional é fundamental. Por isto é importante encontrar expedientes que desafiem jovens e adultos a promover transformações em trajetórias juvenis e na sociedade. Considerando o peso da teledramaturgia nos hábitos de entretenimento dos brasileiros e, também, considerando a (quase) ausência de programação televisiva com temas, enfoques e linguagem condizentes com este segmento juvenil, podemos apostar nesta via como um potencial mecanismo questionador de estereótipos e desencadeador de debate público. FICTV/MAIS CULTURA • 22
  • Referências Bibliográficas ABRAMO, Helena. “Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil”. Juventude e Contemporaneidade. RBPE nº 5 e nº 6, ANPED, 1997. BALARDINI, Sergio (compilador). “La Participación Social y Política de los Jóvenes en el Horizonte Del Nuevo Siglo”. Colección Grupos de Trabajo de CLACSO. Buenos Aires, 2000. CANCLINI, Nestor García. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995. CAMARANO, Ana Amélia (org) Transição para a vida adulta ou vida adulta em transição? IPEA, 2006 CARVALHO, ISABEL CRISTINA “Ambientalismo, Juventude e Esfera Pública” In: Juventude e Sociedade. Novaes, R e Vannuchi , P. (ORGS), Ed. Perseu Abramo, 2004. FORACHI, Maria Alice A juventude na sociedade moderna, Livraria Pioneira,1972. IBASE/INSTITUTO PÓLIS. Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas. Rio de Janeiro: IBASE, 2005. IBASE/POLIS/IDRC Seis Demandas para a construção de uma agenda comum. Relatório da Pesquisa Juventude e Integração Sul-Americana. Rio de Janeiro, fevereiro de 2008 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar. Rio de Janeiro, IBGE, 2005. KEHL, Maria Rita. “Juventude como sintoma da cultura” In: Juventude e Sociedade. Novaes R. e Vannuchi, P. (orgs), Fundação Perseu Abramo, 2005. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA. Juventudes Brasileiras. Brasilia: UNESCO, 2006. NOVAES, R e VANNUCHI, P. (orgs). Juventude e Sociedade Ed. Fundação Perseu Abramo, 2004. NAÇÔES UNIDAS PNUMA GEO JUVENIL para América Latina y el Caribe. Programa de las Naciones Unidas para el Medio Ambiente, 2003 RIBEIRO, Renato J. “Juventude e Política: o que fica da energia” In: Juventude e Sociedade. Novaes, R e Vannuchi, P. (orgs). Ed. Fundação Perseu Abramo, 2004. WAISELFISZ, JULIO JACOBO. Mapa da Violência IV. Brasília: UNESCO, 2004. FICTV/MAIS CULTURA • 23
  • ANEXO 1: Renda, Cor/ raça, trabalho e escolaridade: informações de diferentes pesquisas RENDA De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar - PNAD/IBGE, realizada em 2003, mostram que dos 34 milhões de jovens de 15 a 24 anos, 4,2 milhões (12,2%) viviam em famílias com renda per capita de até de salário mínimo; 6,8 milhões (20,1%) em famílias com renda per capita entre e salário mínimo; 9 milhões (26,4%) em famílias com renda per capita entre e 1 salário mínimo; e 4,1 milhões (41,3%) em famílias com renda per capita acima de 1 salário mínimo. COR/RAÇA Segundo dados da PNAD 2004, para a população jovem de 15 a 29 anos, 48,8% se declaram brancos, 44,6% pardos, 6% se declaram pretos, 0,3% amarelos e 0,2% se declaram indígenas. Cor ou raça N % Indígena 94.887 0,2 Branca 24.231.921 48,8 Preta 2.991.217 6 Amarela 172.404 0,3 Parda 2.2168.353 44,6 Sem declaração 3980 0 Total 49.662.762 100 Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar, 2004. Segundo dados de pesquisa recente – 2008 - da Organização Internacional do Trabalho (OIT)11: A juventude brasileira está concentrada, predominantemente, em áreas urbanas. Em 2006, do total de 34,7 milhões de jovens entre 15 e 24 anos, 28,9 milhões (83,3%) moravam em áreas urbanas e 5,8 milhões (16,7%) encontravam-se no campo. A desigualdade educacional também persiste entre esses jovens: apenas 1,4% dos jovens rurais tinha 12 anos de estudo ou mais. Esse percentual atingia 9,8 dos jovens das cidades. As desigualdades regionais também pesam. A taxa de analfabetismo entre os jovens era, em 2006, de 0,9% na região Sul e 5,3% no Nordeste. Enquanto 39,7% dos jovens negros tinham de cinco a oito anos de estudo, o número cai para 29,5% quando se trata de brancos com mesmo período de escolaridade. Mais de 13% dos brancos tinham 12 anos ou mais de estudo. Esse número cai para 3,7% entre os negros. O estudo considerou como população negra o total de pessoas pardas e pretas. 11 Ver http://www.oit.org.pe/prejal FICTV/MAIS CULTURA • 24
  • Seguem informações sobre: Distribuição de jovens segundo curso que freqüentam por faixas etárias, Brasil, 2004. Faixa etária Curso que freqüenta Total 15 a 17 18 a 24 25 a 29 3.710.748 1.212.830 215.471 5.139.049 Fundamental Regular 42,2% 15,7% 11,6% 27,9% 4.765.243 3.005.690 351.732 8.122.665 Médio Regular 54,2% 38,8% 19,0% 44,2% 181.966 236.164 137.750 555.880 Fundamental Supletivo 2,1% 3,0% 7,4% 3,0% 56.397 310.766 140.138 507.301 Médio Supletivo 0,6% 4,0% 7,6% 2,8% 39.439 2.522.755 793.818 3.356.012 Superior 0,4% 32,6% 42,9% 18,2% 16.568 55.018 68.234 139.820 Alfabetização de Adultos 0,2% 0,7% 3,7% 0,8% 26.426 366.656 48.588 441.670 Pré-Vestibular 0,3% 4,7% 2,6% 2,4% 0 34.980 95.796 130.776 Mestrado ou Doutorado 0,0% 0,5% 5,2% 0,7% 8.796.787 7.744.859 1.851.527 18.393.173 Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar, 2004. FICTV/MAIS CULTURA • 25