Cretenses

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Cretenses

  1. 1. Os Cretenses A civilização minóica – nome pelo qual também costumamos chamar o povocretense nos primeiros séculos de existência – desenvolveu-se de uma formaorganizada em cidades por volta de 3000 a.C. na ilha assinalada no mapa abaixo, àsportas do Mar Egeu e com posição destacada no Mar Mediterrâneo. Mas arqueólogosjá acharam diversos indícios que a ilha era habitada por povos neolíticos desde 6000a.C.. As primeiras peças de cerâmica encontradas em escavações na ilha datam de5700 a 5600 a.C. Os primeiros habitantes, provavelmente povos oriundos das cercanias doMediterrâneo e do Egeu, tinham na agricultura o principal sustento. Cultivavamprincipalmente oliveiras, vinhas e cereais como trigo e lentilhas, além de criar bois ecabras, tanto nas planícies da ilha como em volta dos primeiros assentamentospopulacionais, que mais tarde tornaram-se as primeiras cidades cretenses. Os cretenses também desenvolveram um forte artesanato e, por volta de3000 a.C. – portanto, já na Idade do Bronze – aprenderam a manusear metais epassaram a fabricar utensílios que eram vendidos em diversos pontos doMediterrâneo. Comercializavam muito com os egípcios e com os povos das ilhas doMar Egeu, além das regiões da Palestina e da Síria. Aproximadamente no ano de 1750 a.C. Creta passou por um sério problemaque desestruturou toda a organização social da ilha. Não se sabe ao certo se foi umgrande terremoto que destruiu muito do que existia, ou uma invasão de povos vindos
  2. 2. de outros pontos do Mediterrâneo que “desfigurou” a sociedade cretense. O que sesabe é que realmente houve um grande evento que abalou a sociedade minóica. Por volta de 1700 a.C., já no reinado do rei Cnossos, Creta voltou a seorganizar de forma mais consistente. Os cretenses instalaram vários portos ao longodo Egeu e do Mediterrâneo, o que garantiu o ressurgimento da economia marítima dailha. Cnossos também ficou conhecido por construir um palácio belíssimo, e grandeparte de suas ruínas estão de pé até hoje! Ruínas do Palácio de Cnossos. Em volta do palácio funcionavam mercados, casas de banho, oficinas e armazéns. Cnossos pode ser considerado uma cidade. E muitas obras de arte ainda estão intactas nas paredes das ruínas, entre outras que foram encontradas por arqueólogos e levadas para museus. No século XV a.C. o povo aqueu, originário do Mar Egeu, invadiu lentamentea ilha de Creta. Apesar da “invasão”, a fusão das duas culturas criou a sociedademicênica, que no futuro seria a base de formação da cultura grega. É bom citar quenesta época cidades cretenses influenciavam cidades gregas, que chegavam a pagartributos à Creta. No século XII a.C. invasões mais rápidas e violentas acabaram com asociedade micênica. A chegada dos eólios, os jônios e principalmente os dórios –vindos da região do Peloponeso – promoveram uma invasão realmente violenta.Grande parte da cultura da ilha foi assimilada ou simplesmente sumiu por volta de1380 a.C.. Alguns historiadores sustentam a tese de que a erupção de um vulcão porvolta de 1470 a.C. na ilha de Santorini, bem próximo a Creta e que causou um
  3. 3. maremoto – tsunami? – destruiu muitos dos grandes portos cretenses e que estadestruição abalou os moradores da ilha que, sem muito o que fazer e sem muitasmotivações para reconstruir tudo que foi destruído, teriam sucumbido aos dórios semmuita luta. Segundo Vinicius, historiador, os dois fatores – a invasão e o maremoto –foram fundamentais já que os cretenses, na época, deveriam ser bem maisdesenvolvidos que os dórios, até mesmo na parte militar. Mas vamos falar mais sobrealguns aspectos da sociedade cretense. ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DOS CRETENSES Creta foi uma talassocracia formada por cidades que eram parecidas com ascidades-estado gregas, governadas pelas elites locais mas, diferente da Grécia, ascidades estavam ligadas e eram dependentes de uma capital – neste caso, a capitalera a cidade de Cnossos. Também diferente da Grécia, as cidades cretenses nãolutavam entre si, o que dá uma noção de que havia uma unidade, uma idéia de povocomum entre os habitantes da ilha. O rei Minos – aquele dalenda do Minotauro – nunca teriaexistido na verdade. Pelo menos éo que concluem os arqueólogos ehistoriadores que se debruçamsobre o passado cretense. Aconclusão vem do fato de que atéhoje não foi encontrada em Cretaqualquer vestígio de que realmentetivesse existido qualquer rei comeste nome. O palácio de Minos, onde estaria o famoso labirinto na verdade é o palácio deCnossos. Os gregos é que acharam o palácio um verdadeiro labirinto e criaram alenda. Aliás, “lenda” e “Grécia” são duas palavras que geralmente andam juntas naAntiguidade…
  4. 4. RELIGIÃO E MITOLOGIA CRETENSE Deusa-Mãe cretense Neste ponto os cretenses eram diferentes de todos os povos antigos: elesadoravam exclusivamente divindades femininas, ou seja, tinham uma religiãomatriarcal. Homens participavam dos cultos na posição de sacerdotes, mas asdivindades cultuadas eram todas femininas. Eles não valorizavam só o SagradoFeminino, mas as mulheres também ocupavam posições de destaque na organizaçãopública. Enfim, e mulher era venerada pela sociedade cretense como deveria ser.Também veneravam o touro, animal encontrado em diversas gravuras juntamente comoutros elementos religiosos para os cretenses, como o martelo de dois gumes –também conhecido como labrys. Quanto à mitologia cretense os gregos – conforme comentado mais acima notexto – é que criaram toda uma mitologia usando a ilha como pano de fundo. Platão,ao falar sobre Atlântida, descreve a grande cidade como uma ilha desenvolvida epróspera que teria sido engolida pelo mar e sua população desapareceu. Ao ver fotosdas ruínas do palácio de Cnossos e saber que Creta alcançou um certodesenvolvimento social e econômico considerável para a época, de quem vocêsimaginam que Platão poderia estar falando?
  5. 5. - A lenda do Minotauro: Além da associação com Atlântida, Cnossosabrigou a lenda do Minotauro. O rei Minos teria pedido a Poseidon que mandasse umtouro branco como reconhecimento de seu reinado. Só que Poseidon queria que o reiMinos sacrificasse o animal, o que não foi atendido – Minos acabou sacrificando outroanimal no lugar deste. Afrodite então fez com que a mulher de Minos, Parsifae, se apaixonasse pelotouro. Parsifae então pediu para que o artesão Dédalo construísse uma vaca demadeira para que ela, uma vez escondida dentro da vaca, pudesse “se entregar” aoanimal. O resultado desta união é o Minotauro. Parsifae cuidou da criança, mas à medida que ela crescia ficava cada vezmais furiosa. A única coisa que aplacava a fome do Minotauro era a carne humana, eMinos mandou construir um grande labirinto para abrigar a criatura. Nesta época a cidade de Atenas era governada pelo rei Egeu. Uma versão dalenda diz que Androgeu, filho de Minos, teria sido morto por atenienses e que seu paideclarou guerra a Atenas e venceu, obrigando Egeu a enviar anualmente 14 jovens,sendo 7 homens e 7 mulheres, para servir de alimento para o Minotauro. No terceiro ano que teria que enviar os jovens, o filho de Egeu, Teseu, seofereceu para matar o Minotauro e seguiu junto com os outros jovens para Creta.Mesmo contrário à idéia, Egeu aceitou que o filho fosse até Creta mas pediu que, casoTeseu voltassecom vida, levantasse velas brancas no barco. Chegando à ilha, a filhade Minos, Ariadne, apaixonou-se por Teseu e deu a ele um novelo, no qual ele poderiase guiar no caminho de volta – uma versão diz que a própria Adriadne guiou Teseu atéonde estava o Minotauro. Teseu então lutou bravamente contra o monstro até matá-lo. Liderando outrosatenienses na fuga, conseguiu ainda destituir Minos do trono só que, ao voltar paracasa, esqueceu de hastear velas brancas no barco e Egeu, seu pai, ao ver velaspretas no horizonte, entrou em desespero – acreditando que o filho estava morto – ese jogou no mar, que acabou ganhando seu nome.
  6. 6. ARTE CRETENSE Como a civilização foi uma das “bases” para a cultura grega, existemsemelhanças entre a arte dos dois povos, mesmo em épocas de desenvolvimentodistintas. Segue abaixo algumas obras famosas dos cretenses: Afresco “As Damas de Azul”.
  7. 7. Vaso retratando um polvo, animal Máscara cretense feita em ouro.encontrado em diversas cerâmicas.
  8. 8. Afresco das “Mulheres Pugilistas” em Akrotiri. Quem já conheceu Creta sabe – e sempre comenta – que a ilha guardadiversas obras de arte de seu passado. Pesquisando para colocar as imagens aqui notexto eu pude constatar que além das obras de arte a ilha tem suas belezas naturais,além da sua importância histórica. O certo é que Creta é passagem obrigatória paratodos que querem conhecer um pouco mais sobre a civilização grega.
  9. 9. SURGIMENTO E DESENVOLVIMENTO DA CIVILIZAÇÃO CRETENSE Creta esteve habitada desde o Neolítico. No começo da Idade do Bronze, oscretenses criaram no 3° milénio a.C. uma grande civilização insular (cultura minóica).Aquela civilização construiu palácios em Cnossos, em Festos, em Maliá e em SantaTrindade – palácios cujas ruínas ainda são vistas. A partir da primeira metade do 2º milénio a.C. Creta chegou a ser o centrocultural e comercial (graças ao domínio que lhe dava a sua frota e às riquezasacumuladas pelo comércio de produtos como o vinho, o azeite, as cerâmicas, ostecidos e a joalharia impôs-se no Mar Mediterrâneo quer nos territórios vizinhos querem locais mais afastados, como a Sicília) nas regiões da Idade do Bronze noMediterrâneo Oriental (cultura do Egeu). O seu predomínio terminou c. 1400 a.C.,quando a ilha foi ocupada militarmente pelos aqueus. No século IV a.C. as cidades da ilha guerrearam entre si. No ano 67 a.C.,depois de entrarem em conflito com os romanos, estes conquistam a ilha comandadospor Quinto Cecílio Metelo. Quando o Império Romano se dividiu em 395, Cretaassumiu um papel importantíssimo pelo lugar central que ocupava e por estar incluídano Império Romano do Oriente, tendo sido um importante posto bizantino. Entre 823–961 a ilha foi ocupada pelos árabes, tendo sido conquistada porVeneza no decurso da Quarta Cruzada. Estes teriam que defender a ilha dasinvestidas dos turcos otomanos durante o século XV. Instalam-se na ilha em 1645 eacabam por conquistá-la totalmente em 1715, introduzindo o islamismo. Tornou-se um estado autónomo em 20 de março de 1898 e independente em6 de outubro de 1908. A 30 de maio de 1913 ficou a pertencer definitivamente àGrécia.Árvore genealógica das tribos dos helenos e seus ancestrais, baseada em Pseudo-Apolodoro:
  10. 10. OS JOGOS OLÍMPICOS O que hoje é um espetáculo esportivo com transmissão completa do eventopelos principais canais de comunicação do mundo, e ocorre de 4 em 4 anos em umacidade de um país diferente a cada edição, com atletas do mundo inteiro, um dia foiapenas um evento esportivo e religioso dos gregos antigos. Como começaram os Jogos Olímpicos? Segundo a lenda grega, os jogos foram criados por Hércules, que teria plantado a oliveira de onde saíam as folhas para confecção das coroas dadas aos vencedores. Como os gregos já faziam festas e celebrações em homenagem a Zeus desde antes de 2500 a.C., os historiadores acreditam que esta é a época aproximada em que começaram os jogos, que também aconteciam em honra a Zeus. Mas apenas a partir do ano 776 a.C. é que o nome dos vencedores começou a ser registrado. Assim, considera-se que este é o ano do primeiro torneio olímpico “oficial” da Grécia Antiga. Inclusive o nome do torneio deve-se ao acordo feito entre Ifitos, rei de Ilia, Licurgo, rei de Esparta e Clístenes, rei da Pissa. Este acordo foi selado no templo de Hera, no santuário de Olímpia, por isso o nome Olimpíada. CITIUS, ALTIUS, FORTIUS. Com este acordo firmado entre os monarcas, vários atletas do chamado“mundo grego” – Grécia continental e suas colônias espalhadas pelo Mediterrâneo –passaram a participar do torneio, que também exigia uma “Trégua Sagrada” casouma ou mais cidades-estado estivesse em guerra. A “Trégua Sagrada” era o períodoem que era proibido travar qualquer batalha contra qualquer inimigo, e as guerras jáem curso deveriam parar enquanto os jogos estivessem acontecendo. Este medidavisava a segurança dos atletas e dos espectadores nas estradas que levavam aosjogos. Inicialmente os atletas disputavam as seguintes modalidades – que nãocomeçaram todas exatamente em 776. Algumas passaram a ser disputadas depois,mas de um modo geral podemos considerar estas como as primeiras: a corridaequestre, a corrida pedestre, três tipos de lutas diferentes – luta, pugilato epancrácio – e o pentatlo, que consistia no lançamento de disco, lançamento de dardo,salto em comprimento, corrida no estádio e luta.
  11. 11. Obra de arte grega retratando o pancrácio, uma das lutas disputadas nos jogos antigos. As mulheres, os escravos e os “estrangeiros” – chamados de bárbaros pelosgregos – não podiam participar dos jogos, que eram exclusividade dos consideradoscidadãos gregos e eram disputados com os participantes completamente nus,peladões mesmo. As únicas mulheres que podiam assistir aos jogos eram assacerdotisas de Dêmetra – a deusa da fertilidade da terra. As outras mulheresdisputavam a Heraea, em homenagem à Hera, mulher de Zeus, em uma datadiferente dos jogos olímpicos. É interessante citar que durante os jogos antigos não aconteciam apenas ascompetições atléticas e as celebrações religiosas, mas os espectadores e atletas eramconvidados a participar de palestras de filósofos e historiadores. Por motivaçõespolíticas, principalmente as geradas pela Guerra do Peloponeso, os jogos antigostiveram seu declínio por volta do século V a.C. Eles aconteceriam até o ano de 393,mas sem a mesma força dos dois séculos iniciais, quando então o imperador romanoTeodósio proibiu os jogos, pois os considerou uma manifestação pagã.
  12. 12. OS JOGOS OLÍMPICOS DA ERA MODERNA. Idealizados pelo barão Pierre de Coubertin,os Jogos da Era Moderna aconteceram pela primeiravez em Atenas, no ano de 1896 e, assim como naGrécia Antiga, tem ocorrido de 4 em 4 anos, sóparando nos períodos da 1ª e 2ª Guerras. Ou seja:antigamente, existia a trégua na guerra para a práticado esporte, hoje o esporte é que dá uma trégua poisuma guerra está em andamento. Tempos modernos… Mas voltando ao assunto do texto, como eudisse no início, os jogos hoje são uma grandecelebração do esporte, e uma grande fonte de rendapara muitas pessoas movimentando centenas de milhões de dólares a cada edição, ecom audiência mundial estipulada em 2,5 bilhão de pessoas. Hoje em dia o esporte é um negócio muito rentável. Já vai o tempo em que osideais do Colbertin, de união dos povos e paz entre as nações é levadoexclusivamente em conta durante os jogos. O importante é competir… desde que vocêganhe. Ainda existe o tal do “espírito olímpico” em muitos atletas, mas ele está cadadia mais apagado.Usain Bolt: nascido para correr, moldado pelo treinador para humilhar os adversários.
  13. 13. MITOLOGIA GREGA È o estudo dos conjuntos de narrativas relacionadas aos mitos dos gregosantigos, de seus significados e da relação entre eles e os povos — consideradas, como advento do cristianismo, como meras ficções alegóricas. Para muitos estudiososmodernos, contudo, entender os mitos gregos é o mesmo que lançar luz sobre acompreensão da sociedade grega antiga e seu comportamento, bem como suaspráticas ritualísticas. O mito grego explica as origens do mundo e os pormenores dasvidas e aventuras de uma ampla variedade de deuses, deusas, heróis, heroínas eoutras criaturas mitológicas. Ao longo dos tempos, esses mitos foram expressos através de uma extensacoleção de narrativas que constituem a literatura grega e também na representação deoutras artes, como a pintura da Grécia Antiga e a pintura vermelha em cerâmicagrega.[3][4] Inicialmente divulgados em tradição oral-poética,[5] hoje esses mitos sãotratados apenas como parte da literatura grega.[6] Essa literatura abrange as maisconhecidas fontes literárias da Grécia Antiga: os poemas épicos Ilíada e Odisseia(ambos atribuídos a Homero e que focam sobre os acontecimentos em torno daGuerra de Troia, destacando a influência de deuses e de outros seres), e também aTeogonia e Os Trabalhos e os Dias, ambos produzidos por Hesíodo.[7] Os mitostambém estão preservados nos Hinos homéricos, em fragmentos de poemas do CicloÉpico, na poesia lírica, no âmbito dos trabalhos das tragédias do século V a.C., nosescritos de poetas e eruditos do Período Helenístico e em outros documentos depoetas do Império Romano, como Plutarco e Pausânias.[7] A principal fonte para apesquisa de detalhes sobre a mitologia grega são as evidências arqueológicas quedescobrem e descobriram decorações e outros artefatos, como desenhos geométricosem cerâmica, datados do século VIII a.C., que retratam cenas do ciclo troiano e dasaventuras de Hércules.[7] Sucedendo os períodos Arcaico, Clássico e Helenístico,Homero e várias outras personalidades aparecem para completar as provas dessasexistências literárias.[7] A mitologia grega tem exercido uma grande influência na cultura, nas artes ena literatura da civilização ocidental e permanece como parte da herança e dalinguagem do Ocidente.[8] Poetas e artistas desde os tempos antigos até o presentetêm se inspirado na mitologia grega e descoberto que os temas mitológicos lhes legamsignificado e relevância em seu contemporâneo.[9] Seu patrimônio também influi naciência, como no caso dos nomes dados aos planetas do Sistema Solar e em estudosteóricos, acadêmicos, psicanalíticos, antropológicos e muitos outros,[10][11][12][13] além denos dias de hoje tradições neopagãs como a Wicca serem influenciadas por ela e
  14. 14. outras como o dianismo, a Stregheria e principalmente o dodecateísmo (ouneopaganismo helênico) tenham tentado resgatar suas crenças. TERMO E COMPREENSÃO Num contexto acadêmico, a palavra "mito" significa basicamente qualquernarrativa sacra e tradicional, seja verdadeira ou falsa. O sufixo "-logia", derivado doradical grego "logo", representa um campo de estudo sobre um assunto em particular.Com a junção de ambos os termos, "mitologia grega" seria, basicamente, o estudo dosmitos gregos, ou seja, os que fazem parte da cultura da Grécia. Sendo assim, o termonão só alude ao estudo dos mitos como também aos próprios mitos. Como escreve oprofessor e escritor português Carlos Ceia, "termo de dupla significação, indica, porum lado, o conjunto dos mitos ou narrativas míticas relativas a seres sobrenaturais,fantásticos ou de valor super humano e, por outro lado, o estudo ou interpretação dosmitos." É um termo crítico moderno e, portanto, os próprios gregos e romanos antigosnão se referiam a suas crenças como "mitos" ou "mitologia", mas como religião (vercapítulo Interpretação), o que ainda hoje em dia ocorre com os neopaganistashelênicos, embora estes vivam um acontecimento moderno diferente de resgate epreservação e mesmo certos grupos de adeptos entendam o papel dos mitos comoarquétipos ou símbolos (ver seção Neopaganismo e resgate). Para mais informações sobre o histórico de interpretação dos mitos gregos,dirija-se até as sub-seções: Concepções greco-romanas e Interpretações modernas. Éimportante ressaltar que, nesse artigo, as palavras "mitologia" e "mito" são usadaspara as narrativas tradicionais e sagradas das culturas clássicas, sem qualquerimplicação de que esta ou aquela seja verdadeira ou falsa. MITO E RELIGIÃO As dafnefórias (1876), oléo sobre tela de Frederic Leighton: a dafnefória eraum festival dedicado a Apolo celebrado pelos gregos a cada nove anos, em Tebas,Beócia. A mitologia grega era assunto principal nas aprendizagens das crianças daGrécia Antiga, como meio de orientá-las no entendimento de fenômenos naturais e emoutros acontecimentos que ocorriam sem o intermédio dos homens. Os gregos antigosatribuíam a cada fenômeno natural uma criatura ou um deus diferente. Certosestudiosos modernos dizem que, quando passaram a inventar meios de calcular otempo e quando criaram mecanismos de datação como o calendário, seus mitos
  15. 15. declinaram (ver seção Declínio logo abaixo). Os poetas atribuíam esses estadostérmicos, como também as relações e as características humanas, aos deuses e aoutras histórias lendárias, e elas serviram durante um bom tempo como cultosritualísticos na sociedade da Grécia antiga. Mulher ajoelhada diante de um altar. Pintura vermelha em cerâmica, ca. 510-500 a.C. Antigo Museu Ágora de Atenas Além das crianças serem educadas através dos mitos, as famíliasaristocráticas da Grécia, assim como os reis, e também profissionais, como osmédicos, possuíam a tradição de se ligarem genealogicamente a antepassadosmíticos, geralmente divinos, ou até mesmo heróicos. Os comerciantes tambémcultuavam deuses, como Hermes, sempre em tentativa de deixá-lo satisfeito e assimconseguir bons resultados em suas vendas.[22] Além de serem habituados aossacrifícios de animais e às orações, os gregos antigos adotavam um deus particular ouum grupo deles para sua cidade, e os cidadãos construíam templos e o(s)venerava(m). Essas cidades não possuíam qualquer organização religiosa oficial, mashonravam os deuses em lugares determinados, como Apolo exclusivamente emDelfos. Muitos festivais religiosos eram realizados na Grécia antiga. Alguns eramespecificadamente dedicados a uma deidade particular ou cidade-estado. ALupercalia, por exemplo, era comemorada na Arcádia e dedicada à pastoral Pã.Existiam também os jogos que eram realizados anualmente em locais diferentes, eque culminaram nos Jogos Olímpicos da Antiguidade, realizados a quatro anos ededicados a Zeus. Os gregos, frequentemente, encontravam desígnios dos deuses emmuitas características da natureza. Os adivinhos, por exemplo, acreditavam havermensagens divinas contidas no vôo das aves e nos sonhos. Nas cidades, os oráculos— locais sagrados — eram usados por um sacerdote que, tomado por êxtase ouloucura divina, servia de intermédio entre o diálogo de um fiel e seu deus de adoração. Nas primeiras eras em que a recente filosofia vivia ao lado da tradicionalmitologia, para o povo grego a sabedoria plena e completa pertencia aos deuses, masos homens poderiam desejá-la e amá-la, tornando-se filósofos (philo= amizade, amorfraterno, respeito; sophia= sabedoria).
  16. 16. MITO E RELIGIÃO Cena de sacrifício grego em pintura vermelha em cerâmica do século V a.C..Museu Arqueológico de Espanha. É preciso haver um esclarecimento acerca da diferença entre mito e religião.Hoje, todas as mitologias de todos os povos são entendidas como um conjunto decrenças enraizadas em relatos modernamente tidos como fictícios e imaginados pelospoetas, enquanto a religião propõe-se a criar rituais ou práticas com a finalidade deestabelecer vínculos com a espiritualidade. "Mitologia" é um termo indiscutivelmentetécnico e moderno e nunca utilizado pelos próprios gregos ou romanos. Seus cultoscompreendiam uma religião politeísta da qual os especialistas de hoje agrupam no quese chama "mitologia grega", analisando as narrativas poéticas como legados daliteratura antiga, ao passo que os próprios gregos, sobretudo antes da fama dafilosofia, acreditavam serem reais. Pode-se dizer que "mito" é todo o conjunto que nóscompreendemos hoje o que em suas épocas os gregos chamavam "religião". Concepção de um templo grego, onde se reverenciavam os deuses: muitas dessas obras arquitetônicas da Grécia ainda estão preservadas no território do país. Para ficar mais claro, podemos dizer que os textos sacros dos gregos são oque chamamos agora de mitologia ou literatura da Grécia antiga. A Teogonia e OsTrabalhos e os Dias de Hesíodo, a Ilíada e a Odisseia de Homero e as Odes dePíndaro estão entre as obras que os gregos consideravam sacros. Estes são osprincipais textos que foram considerados inspirados pelos deuses e geralmenteincluem no prólogo uma invocação às Musas para que elas auxiliem o trabalho dopoeta. Os gregos faziam cultos os deuses do Olimpo, realizados em templos comunsou em altares e, também, culto aos heróis históricos, realizados em suas respectivastumbas. Dedicados a um deus ou a um herói, os templos, decorados com esculturas(de deuses ou heróis) em relevo entre o teto e o topo das colunas, eram constituídosde pedras nobres como o mármore, usadas no alto da acrópole. Os antigos teatros
  17. 17. gregos, também, eram construídos para determinada figura mitológica, deuses ouheróis, como o teatro de Dioniso no Santuário de Apolo em Delfos. Além da religião ter sido praticada através de festivais, nela se acreditava queos deuses interferiam diretamente nos assuntos humanos e que era necessárioacalmá-los por meio de sacrifícios.[24] Estes rituais de sacrifício desempenharam umpapel importante na formação da relação entre o homem e o divino. Um dos conceitosmais importantes quanto à moral para os gregos era o medo de cometer húbris(arrogância), o que constitui muitas coisas, do estupro à profanação de um cadáver.Classificação A gama de personagens, seres e ambientes que formam a mitologia gregapodem ser separados em três partes, sendo a última um apêndice para a literaturamitológica, de onde conseguimos grande parte das informações sobre os mitos: 1. Raças, divindades, criaturas; personagens em geral, que abrange os ventos, centauros, ctónicos, ciclopes, dragões, erínias, gigantes, górgonas, hecatônquiros, harpia, musas, moiras, mortais, ninfas, deuses olímpicos, deuses primordiais, sátiros e titãs. 1 a. Aqui também são incluídos os heróis Héracles, Aquiles, Odisseu, Jasão, Argonautas, Perseu, Édipo, Teseu e Triptolemos. 2. Lugares, que abrange os ambientes em que essas figuras, na imaginação dos gregos, viveram suas aventuras, que são Delfos, Delos, Olímpia, Hades (reino), Atlântida, Olimpo, Troia, e Temiscira. 3. Literatura mitológica clássica, inclui o estudo da literatura antiga grega, que contou com nomes como Homero, que incluía em sua narrativa a crença de deuses. FONTES A mitologia grega é conhecida nos dias de hoje através da literatura grega ede expressões artísticas visuais como a cerâmica grega que datam do PeríodoGeométrico em diante. O objetivo deste capítulo é entender como nós,contemporâneos, tivemos a oportunidade de arrecadar hoje em dia informações tãoantigas quanto são os mitos gregos.
  18. 18. FONTES LITERÁRIAS A narração mítica desempenhou um papel importante em quase todos osgêneros da literatura grega. No entanto, o único manual mitográfico que sobreviveu daGrécia Antiga foi a famosa Biblioteca Mitológica, do escritor denominado Pseudo-Apolodoro, que tenta conciliar os contos contraditórios dos poetas e fornece umresumo da mitologia grega e suas lendas históricas. O verdadeiro Apolodoro viveuentre c. 180-120 a.C., escreveu sobre muitos destes temas e seus escritos podem terformado a base para a coleção dessa obra, porém a Biblioteca aborda eventos queocorreram muito tempo após sua morte, daí o nome Pseudo-Apolodoro. Entre as fontes literárias da primeira era, destacam-se os dois poemas épicosde Homero–Ilíada e Odisseia. Completando esse ciclo épico, temos escritas de poetascujos documentos foram perdidos ao longo do tempo. Apesar da sua denominaçãotradicional, os Hinos homéricos, hinos em coral da primeira fase da então-denominadapoesia lírica, não possuem relação alguma com Homero. Hesíodo, possívelcontemporâneo de Homero, produziu Teogonia, o documento mais recente sobremitos gregos, que elabora uma genealogia dos deuses e explica a origem dos Titãs edos Gigantes. Os Trabalhos e os Dias, também de Hesíodo, é um poema didáticosobre a vida da agricultura que apresenta os mitos de Pandora e da Era dos Homens.O poeta dá conselhos sobre a melhor maneira de ter sucesso em um mundo perigosotornado ainda mais arriscado por esses deuses. Os Trabalhos e os Dias tambémapresenta o mito de Prometeu, que, mais tarde, constituiu na base de uma trilogia detragédias, possivelmente iniciada por Ésquilo, que são: Prometeu Acorrentado,Prometeu Desacorrentado e Prometeu, o Condutor do Fogo. Os poetas líricos direcionaram por vezes seus temas aos mitos, todavia essetratamento ficou cada vez menor, enquanto que sua alusões à narrativa cresceu. Ospoetas líricos gregos, como Píndaro e Simónides de Ceos, e os poetas bucólicos,incluindo Teócrito, forneceram incidentes mitológicos individuais. Além disso, o mito foitema central no drama Ateniense: os dramaturgos trágicos Eurípides, Sófocles eÉsquilo produziram seus enredos envolvendo a Era dos Heróis e a Guerra de Troia.Muitas das grandes históricas trágicas (ou seja, Agamemnon e seus filhos, Édipo,Jasão e Medeia, etc.) trouxeram em sua forma clássica estas peças trágicas. Os historiadores Heródoto e Diodoro Sículo, e os geógrafos Pausânias eEstrabão, que viajaram ao redor do mundo grego e anotaram as histórias que ouviram,forneceram numerosos mitos locais, apresentando diversas vezes versões alternativaspouco conhecidas dos mitos. Heródoto, especialmente, procurou as várias tradições
  19. 19. apresentando e encontrando as raízes históricas ou mitológicas no conflito entre aGrécia e o Oriente. Heródoto procurou conciliar as origens e a mistura de diferentesconceitos culturais. A poesia das eras Helenística e Romana, que embora tenha sido compostamais como literatura do que um exercício de culto aos mitos, contém muitos detalhesimportantes que de outra forma seriam perdidos. Essa categoria inclui: 1. Os poetas romanos Ovídio, Sêneca e Virgílio. 2. Os poetas gregos da Antiguidade tardia: Antonino Liberal e Quinto de Esmirna. 3. Os poetas gregos do Período Helenístico: Apolónio de Rodes, Calímaco, Eratóstenes e Partênio. 4. Antigos romances de gregos e romanos, como Apuleio, Petrônio e Heliodoro. Em contrapartida com o gênero lírico, a Fabulae e a Astronomica do escritorromano Higino são duas composições não-poéticas importantes sobre o mito. Asobras Imagens e Descrições, de Filóstrato e Calístrato (respectivamente), são doistrabalhos literários úteis para o estudo dos mitos gregos. Finalmente, o apologético cristão Arnóbio, citando práticas religiosas paradesacreditá-las, e vários outros escritores bizantinos proporcionam detalhesimportantes dos mitos, alguns deles procedentes de obras gregas perdidas durante osanos. Entre estes, inclui-se os léxicos de Hesíquio, a Suda, e os tratados de JoãoTzetzes e de Eustácio de Salônica. O ponto de vista moralizador cristão a respeito dosmitos gregos se resume no dito ἐν παντὶ μύθῳ καὶ τὸ Δαιδάλου μύσος (en panti muthōikai to Daidalou musos, "em todo mito está a profanação de Dédalo"), sobre o quedisse a Suda que alude o papel de Dédalo ao satisfazer a "luxúria antinatural" dePasífae pelo trono de Posídon: "Desde que a origem e a culpa desses males seatribuíram a Dédalo e foi odiado por eles, se converteu no objeto do provérbio."
  20. 20. FONTES ARQUEOLÓGICAS Aquiles mata um prisioneiro de Troia diante de Caronte, numa pintura-vermelha etrusca, realizada no fim do século IV e início do século III a.C.. A descoberta da civilização micênica pelo arqueólogo amador alemãoHeinrich Schliemann no século XIX, e a descoberta da civilização minóica em Cretapelo arqueólogo britânico Sir Arthur Evans no século XX, ajudaram a esclarecer muitasdúvidas a respeito dos épicos de Homero e outras questões da mitologia, como ascrenças em deuses e em heróis. A evidência sobre os mitos e os rituais nos sítiosarqueológicos das civilizações micênica e minóica é inteiramente monumental, umavez que a linear B (método de escrita antigo, encontrado em Creta e na Gréciacontinental) era usada principalmente para o registro de inventários, embora os nomesde deuses e de heróis tenham sido dificilmente revelados. Schliemann começou seutrabalho em 1870, com o intuito de averiguar se as histórias que ouvia de seu paiquando criança, a respeito dos épicos homéricos, eram verdadeiras; numamadrugada, juntamente com sua esposa, conseguiu encontrar dois diademas de ouro,4.066 plaquetas, 16 estatuetas, 24 colares de ouro, anéis, agulhas, pérolas (total de8.700 artefatos) e pesquisas posteriores deixaram certezas que a mítica cidade deTroia existiu no local há milênios. Existem desenhos geométricos em cerâmica datados do século VIII a.C. queretratam o Ciclo de Troia, como também as aventuras de Hércules. Por dois motivos,essas representações visuais dos mitos possuem enorme importância: em primeirolugar, muitos mitos gregos foram comprovados em desenhos de vaso antes do que naliteratura escrita–das doze elaborações sobre Hércules, por exemplo, somente aaventura de Cérbero é apresentada pela primeira vez em um texto literário–e, emsegundo lugar, as fontes visuais muitas vezes fornecem cenas míticas que não sãoapresentadas em quaisquer fontes literárias existentes. Em alguns casos, a primeirarepresentação conhecida de um mito na arte geométrica antecede, em questão demuitos anos e séculos, a sua primeira aparição conhecida na poesia arcaica. Nosperíodos Arcaico (750–c. 500 a.C), Clássico ( 480–323 a.C), e Helenístico, Homero evárias outras personalidades surgem para completar as evidências literárias daexistência da mitologia grega.
  21. 21. HISTÓRIA Descrição topográfica da Península Balcânica. A origem dos mitos da Grécia não deriva puramente da civilização grega, masde uma mistura entre a cultura dos indo-europeus, pré-gregos, e até mesmo dosasiáticos, egípcios e outros povos com as quais os gregos estabeleceram contato Um dos fatores de evolução da mitologia grega foi a grande transformaçãoque ela experimentou através dos tempos, e tal transformação serviu para enriquecersua própria cultura. Os primeiros habitantes da Península Balcânica, em grande parteagricultores, atribuíam a cada aspecto da natureza um espírito. Finalmente, estesespíritos vagos assumiram a forma humana e entraram na mitologia local comodeuses e deusas.[43] Quando as tribos do norte invadiram a Península Balcânica,trouxeram consigo um novo panteão de deuses e crenças, voltadas à conquista, àforça e à valentia, à batalha e ao heroísmo violento. Outras divindades mais antigasque povoavam a mente dos habitantes agrícolas se fundiram com aquelas dosinvasores mais poderosos, ou então desvaneceram-se na insignificância. A mais alta montanha da Grécia, o Monte Olimpo, em foto de 2005, onde os gregos antigos acreditavam ser a morada dos Doze Deuses.
  22. 22. A mais alta montanha da Grécia, o Monte Olimpo, em foto de 2005, onde osgregos antigos acreditavam ser a morada dos Doze Deuses. Após a metade do período arcaico, que possuía mitos sobre as relações entrehomens e deuses masculinos, os heróis tornaram-se cada vez mais aclamados,indicando o desenvolvimento paralelo da pederastia pedagógica, que pensa-se tersido introduzido por volta de 630 a.C. Nos finais do século V a.C, os poetas haviamatribuído pelo menos um eromenos a todos os deuses importantes, exceto Ares eoutras figuras lendárias. Outros mitos anteriormente existentes, como o de Aquiles e ode Pátroclo, foram reinterpretadas como mitologia homossexual. O sentido da poesia épica foi criar ciclos históricos, e resultar numdesenvolvimento de um senso da cronologia mitológica; assim, a mitologia gregadesdobra-se como uma etapa no desenvolvimento do mundo e do homem. As auto-contradições nas histórias fazem com que seja impossível montar um cronogramaabsoluto a respeito da Mitologia grega, mas podemos elaborar uma cronologiaconcordável. A história mitológica do mundo pode ser dividida em 3 ou 4 grandesperíodos: 1. Mito da origem ou da era dos deuses: é a teogonia, o nascimento dos deuses, os mitos sobre a origem do planeta, dos deuses e da raça humana. 2. Era em que os homens e os deuses se mesclam livremente: histórias das primeiras interações entre deuses, semi-deuses e mortais juntos. 3. Era dos heróis (era heróica), onde a atividade divina ficou mais limitada. As últimas e maiores lendas heróicas são da Guerra de Troia e suas consequências (consideradas por alguns investigadores como um quarto período separado). Embora a Era dos deuses tem sido frequentemente alvo de interesse pelosalunos contemporâneos da mitologia grega, os autores arcaicos e clássicos possuíamuma clara preferência pela Era dos heróis. As heróicas Ilíada e Odisseia, por exemplo,estavam e ainda se encontram atualmente sobre maior destaque que a Teogonia eque os hinos homéricos – e prevaleceram em popularidade e continuidade. Sob ainfluência de Homero, o culto heróico conduziu uma reestruturação na vida espiritual,expresso na separação entre o reino dos deuses do reino dos mortos (heróis), e dosdeuses olímpicos dos ctónicos. No O Trabalho e Os Dias, Hesíodo monta umesquema de quatro Era dos homens (ou Raças): de Ouro, de Prata, de Bronze e deFerro. Estas raças ou eras são criações separadas dos mitos dos deuses,correspondendo à Era Dourada ao reino de Cronos e sendo as seguintes raçascriações de Zeus. Hesíodo intercalou a Era (ou Raça) dos heróis pouco depois da
  23. 23. Idade do Bronze. A ultima idade foi a Idade do Ferro. Em Metamorfoses, Ovídio segueo conceito de Hesíodo e apresenta essas quatro idades. Era dos deuses Cosmogonia e cosmologia Ver artigo principal: Deuses primordiais e Genealogia dos deuses gregos Ἤτοι μὲν “ πρώτιστα Χάος γένετ· αὐτὰρ ἔπειτα Γαῖ εὐρύστερος, πάντων ἕδος ἀσφαλὲς αἰεὶ. Pois bem, no princípio nasceu Caos; depois, Gaia de amplo seio, a eterna base de tudo ” O Amor Conquista Tudo, representação do deus Eros, pelo pintor do barroco Caravaggio —Hesíodo, Teogonia, 116-7.[51] ."Mitos de origem" ou "mitos de criação", na mitologia grega, são termosalusivos à intenção de fazer com que o universo torne-se compreensível e com que aorigem do mundo seja explicada. Além de ser o mais famoso, o relato mais coerente emais bem estruturado sobre o começo das coisas, a Teogonia de Hesíodo também évisto como didático, onde tudo se inicia com o Caos: o vazio primitivo e escuro queprecede toda a existência. Dele, surge Gaia (a Terra), e outros seres divinosprimordiais: Eros (atração amorosa), Tártaro (escuridão primeva) e Érebo. Semintermédio masculino, Gaia deu à luz Urano, que então a fertilizou. Dessa união entreGaia e Urano, nasceram primeiramente os Titãs: seis homens e seis mulheres(Oceano, Céos, Créos, Hiperião, Jápeto, Teia e Reia, Têmis, Mnemosine, Febe, Tétis
  24. 24. e Cronos); e logo os Ciclopes de um só olho e os Hecatônquiros (ou Centimanos).Contudo, Urano, embora tenha gerado estas divindades poderosas, não as permitiu desair do interior de Gaia e elas permaneceram obedientes ao pai. Somente Cronos, "omais jovem, de pensamentos tortuosos e o mais terrível dos filhos", castrou o seu pai–com uma foice produzida das entranhas da mãe Gaia–e lançou seus genitais no mar,libertando, assim, todos os irmãos presos no interior da mãe. A situação final foi queUrano não procriou novamente, mas o esperma que caiu de seus genitais cortadosproduziu a deusa Afrodite, saída de uma espuma da água, ao mesmo tempo que osangue de sua ferida gerou as Ninfas Melíades, as Erínias e os Gigantes, quandoatingiu a terra. Sem a interferência do pai, Cronos tornou-se o rei dos titãs com suairmã e esposa Reia como cônjuge e os outros Titãs como sua corte. O pensamento antigo grego considerava a teogonia–que engloba acosmogonia e a cosmologia, temas desssa subseção–como o protótipo do gêneropoético e lhe atribuía poderes quase mágicos. Por exemplo: Orfeu, o poeta e músicoda mitologia grega, proclamava e cantava as teogonias com o intuito de acalmarondas e tormentas–como consta no poema épico Os Argonautas, de Apolónio deRodes–e também para acalmar os corações frios dos deuses do mundo inferior,quando descia à Hades. A importância da teogonia encontra-se também no HinoHomérico à Hermes, quando Hermes inventa a lira e a primeira coisa que faz com oinstrumento em mãos é cantar o nascimento dos deuses. Cronos Mutilando Urano, por Giorgio Vasari e Gherardi Christofano (séculoXVI). Palazzo Vecchio, Florença. Contudo, a Teogonia não é somente o único e mais completo tratado damitologia grega que se conservou até nossos dias, mas também o relato maiscompleto no que diz respeito a função arcaica dos poetas, com sua larga invocaçãopreliminar das Musas. Foi também tema de muitos poemas perdidos, incluindo osatribuídos à Orfeu, Museu, Epimênides, Ábaris e outros profetas legendários, cujosversos costumavam ser usados em rituais privados de purificação e em religião demistérios. Inclusive, há indícios de que Platão se familirizou com alguma versão dateogonia órfica. Poucos fragmentos dessas obras sobreviveram em citações defilósofos neoplatonistas e em fragmentos recentemente desenterrados, escritos empapiro. Um desses documentos, o papiro de Derveni, demonstra atualmente que pelomenos no século V a. C. existiu um poema teogônico-cosmogônico de Orfeu. Estepoema tentou superar a Teogonia de Hesíodo e a genealogia dos deuses se amplioucom o surgimento de Nix (a Noite), marcando um começo definitivo que havia surgidoantes dos seres Urano, Cronos e Zeus.
  25. 25. Deuses gregos Ver artigo principal: Deuses olímpicos e Monte Olimpo “ ἐμοὶ δὲ θαυμάσαι θεῶν τελεσάντων οὐδέν ποτε φαίνεται ἔμμεν ἄπιστον. Para mim, quando os deuses realizam maravilhas, nada parece inacreditável. ” —Píndaro, Pi, P. 10.48- 50.[59] Os Doze Deuses Gregos (Zeus no trono), por Nicolas-André Monsiau (1754-1837), finais do século XVIII. Quando Cronos tomou o lugar de Urano, tornou-se tão perverso quanto o pai.Com sua irmã Reia, procriou os primeiros deuses olímpicos (Héstia, Deméter, Hera,Hades, Posêidon e Zeus), mas logo os devorou enquanto nasciam, pelo medo de queum deles o destronasse. Mas Zeus, o filho mais novo, com a ajuda da mãe, conseguiuescapar do destino. A mãe, pegou uma pedra, enrolou-a em um tecido e deu aCronos, que comeu-a, pensando que fosse Zeus. O filho travou uma guerra contra seuprogenitor, cujo vencedor ganharia o trono dos deuses. Ao final, com a força dosCíclopes–a quem libertou do Tártaro–Zeus venceu e condenou Cronos e os outrosTitãs na prisão do Tártaro, depois de obrigar o pai a vomitar seus irmãos. Para a
  26. 26. mitologia clássica, depois dessa destituição dos Titãs, um novo panteão de deuses edeusas surgiu. Entre os principais deuses gregos estavam os olímpicos- cuja limitaçãode seu número para doze parece ter sido uma ideia moderna, e não antiga - queresidiam no Olimpo abaixo dos olhos de Zeus. Nesta fase, os olímpicos não eram osúnicos deuses que os gregos adoravam: existiam uma variedade de divindadesrupestres, como o deus-bode Pã, o deus da natureza e florestas, as ninfas— Náiades(que moravam nas nascentes), Dríades (espíritos das árvores) e as Nereidas (quehabitavam o mar) —, deuses de rios, Sátiros, meio homem, meio bode, e outrasdivindades que residiam em florestas, bosques e mares. Além dessas criaturas,existiam no imaginário grego seres como as Erínias (ou Fúrias) (que habitavam osubmundo), cuja função era perseguir os culpados de homicídio, má conduta familiar,heresia ou perjúrio. Para honrar o antigo panteão grego, compôs-se os famosos hinos homéricos(conjunto de 33 canções). Alguns estudiosos, como Gregory Nagy, consideram que oshinos homéricos são simples prelúdios, se comparado com a Teogonia, onde cadahino invoca um deus. No entanto, os deuses gregos, embora poderosos e dignos dehomenagens como as presentes nestes hinos, eram essencialmente humanos(praticavam violência, possuíam ciúme, coléra, ódio e inveja, tinham grandezas efraquezas humanas), embora fossem donos de corpos físicos ideais. De acordo com oestudioso Walter Burkert, a definição para essa característica do antropomorfismogrego é que "os deuses da Grécia são pessoas, e não abstrações, ideias ouconceitos".[64] Independentemente de suas formas humanas, os deuses gregos tinhammuitas habilidades fantásticas, sendo as mais importantes: ter a condição de serimúne a doenças, feridas e ao tempo; ter a capacidade de se tornar invisível; viajarlongas distâncias instantaneamente e falar através de seres humanos sem estessaberem. Os gregos consideravam a imortalidade — que era assegurada pelaalimentação constante de ambrosia e pela ingestão de néctar — como a característicadistintiva dos deuses. Cada deus descende de uma genealogia própria, prossegue interessespróprios, tem uma certa área de especialização, e é regido por uma personalidadesingular; no entanto, essas descrições surgem a partir de uma infinidade de locaisarcaicos variantes, que não coincidem sempre com elas. Quando esses deuses eramaludidos na poesia, na oração ou em cultos, essas práticas eram realizadas medianteuma combinação de seus nomes e epítetos, que os identificavam por essas distinçõesdo resto de suas próprias manifestações (e.x. Apolo Musageta era "Apolo, [como]chefe das Musas").
  27. 27. A maioria dos deuses foram associados a aspectos específicos de suasvidas: Afrodite, por exemplo, era deusa do amor e da beleza, Ares era deus da guerra,Hades o deus da morte e do inferno, e Atena a deusa da sabedoria, guerra e dacoragem.[66] Certos deuses, como Apolo (deus do sol) e Dioníso (deus da festa e dovinho), apresentam personalidades complexas e mais de uma função, enquantooutros, como Héstia e Hélios, revelam pequenas personificações. Os templos gregosmais impressionantes tendiam a estar dedicados a um número limitado de deuses,que foram o centro de grandes cultos panhelênicos.[66] De maneira interessante,muitas regiões dedicavam seus cultos a deuses menos conhecidos e muitas cidadestambém honravam os deuses mais conhecidos com ritos locais característicos e lhesassociavam mitos desconhecidos em outros lugares.[66] Durante a era heróica — queveremos na próxima sub-seção — o culto dos heróis (ou semi-deuses) complementoua dos deuses e ambas as criaturas se fundiram no imaginário da Grécia. Era dos deuses e dos mortais Ver artigo principal: Eras do homem Afrodite e Anquises, por Annibale Carracci: o relacionamento entre a deusa da beleza e um homem mortal, demonstra como ficou frequente as relações entre deuses e humanos no imaginário grego. Unindo a idade em que os deuses viviam sós e a idade em que a interferênciadivina nos assuntos humanos era limitada, havia uma era de transição em que osdeuses e os homens (mortais) se misturaram livremente. Estes foram os primeirosdias do mundo, quando os grupos se misturavam com mais liberdade do que fizeramdepois. A maior parte das crenças dessas histórias foram reveladas posteriormente naobra Metamorfoses de Ovídio, e frequentemente são divididas em dois grupostemáticos: histórias de amor e histórias de castigo.[67] Ambas histórias tratam doenvolvimento dos deuses com os humanos, seja de uma forma ou de outra:  Os contos de amor muitas vezes envolvem incesto, sedução ou violação de uma mulher mortal por parte de um deus, resultando em uma descendência histórica. Essas histórias sugerem geralmente que as relações entre deuses e mortais precisam ser evitadas, sendo que raramente esses envolvimentos possuem finais felizes.[68] Em poucos casos, uma divindade feminina procura um homem
  28. 28. mortal e vive com ele, como no Hino Homérico à Afrodite, onde a deusa se relaciona com o príncipe Anchises e acaba concebendo o chefe troiano Eneias O Casamento de Peleu e Tétis, por Hans Rottenhammer.  Os contos de castigo envolvem a apropriação ou invenção de algum artefato cultural importante, como quando Prometeu roubou o fogo dos deuses e quando ele ou Licaão inventou o sacríficio, quando Tântalo roubou o néctar e a ambrósia da mesa de Zeus e de seus súditos, revelando-lhes o segredo dos deuses, ou quando Deméter ensinou agricultura e os Mistérios de Elêusis a Triptolemos, ou quando Mársias inventou os aulos e, com ela, ingressou num concurso musical ao lado de Apolo. As aventuras de Prometeu marcam um ponto entre a história dos deuses e a dos homens Um fragmento de papiro anônimado, datado do século III a.C., retrata vividamente o castido que Dionísio aplicou à Lucurgo, rei de Trácia, cujo reconhecimento de novos deuses chegou demasiado tarde, ocasionando horrivéis penalidades que se estenderam por toda vida A história da chegada de Dionísio para estabelecer seu culto em Trácia foi também o tema de uma trilogia de peças dramáticas do poeta antigo Ésquilo: como em As Bacantes, onde o rei de Tébas, Penteu, é castigo por Dionísio por ter sido desrespeitoso com as Ménades, suas adoradoras. Ainda no assunto de relação entre deuses e mortais, há um conto antigobaseado em um tema folclórico, onde Deméter está procurando por sua filhaPerséfone, depois de ter tomado a forma de uma anciã chamada Doso e recebidohospitalidade de Celéu, o rei de Elêusis em Ática. Por causa de sua hospitalidade,Deméter planejou fazer imortal seu filho Demofonte, como um ato de agradecimento,mas não pôde completar o ritual porque a mãe de Demofonte, Metanira, entrou e viuseu filho rodeado de fogo, visão essa que lhe provocou, instantâneamente, um gritoagudo, que enfureceu Deméter, cuja lamentação veio depois, ao refletir o fato de queos "estúpidos mortais não entendem práticas divinas"
  29. 29. Era heróica “ “O fato de entre os homens e os deuses existir ainda uma terceira classe especial de heróis, que são denominados também "semi-deuses", é uma particularidade da mitologia e da religião gregas para a qual quase não existem paralelos” ” —Walter Burkert, 1993.[76] A idade em que os heróis viveram na mitologia grega é conhecida como Era(ou Idade) Heróica. A Era Heróica surgiu no Período Arcaico, quando os gregosimaginavam "heróis" (gr. ἥρωες; sg. ἥρως) como certos personagens de lendasépicas. Embora sujeitos à mortalidade, os heróis/semi-deuses se diferenciavam doshumanos pelo fato de serem capazes de façanhas impossíveis, talvez pelo fato deserem frutos de uma relação entre um mortal e um deus. Após a ascensão do culto heróico, os deuses e os heróis constituíram aesfera sagrada e são invocados juntos nos juramentos e nas orações que são dirigidasa eles. Em contraste com a era dos deuses, durante a heróica a lista de heróis nuncaé fixa e definitiva; já não nascem grandes deuses, mas sempre podem surgir novosheróis do exército dos mortos. Outra importante diferença entre o culto dos deuses e odos heróis é que o segundo dos dois se torna o centro da identidade do grupo local. Os eventos monumentais de Hércules são considerados o começo da era dosheróis. Também se anexam a eles três grandes sucessos militares: a expediçãoargonáutica e a Guerra de Troia, como também a Guerra de Tebas.Hércules e os Heráclidas Certos estudiosos acreditam que, por de trás das complexas histórias queenvolvem o mito de Hércules (ou Herácles), existiu um homem verdadeiro, talvez umsenhor de vassalos em Argos.[81] Outros sugerem que o mito de Hércules é umaalegoria da passagem anual do sol pelas doze constelações do zodíaco.[81] Existe umterceiro grupo que acredita que o mito deriva de outras culturas, revelando que ahistória de Hércules é uma adaptação regional de mitos heróicos já estabelecidosanteriormente. Embora a existência de todas essas e muitas outras especulações, atradição afirma que Hércules foi filho de Zeus com a mortal Alcmena, neta de Perseu.Suas fantásticas façanhas, que envolvem diversos temas folclóricos, proporcionarammuito material às lendas populares. É retratado como um sacrificador, um guerreirodotado de imenso vigor físico, com força e proezas maravilhosas, protegido por
  30. 30. armaduras e itens das quais utilizava com destreza, demonstrando superioridade àshabilidades do homem mortal comum. Quanto à iconografia, nas artes visuais — pelomenos no período arcaico — Hércules sempre fora apresentado com barba, pele deleão e clava nas mãos, com grandes músculos expostos nas pernas e nos braços. Jáno século IV, a popularidade do herói decresceu e, talvez um pouco por isso, suascaracterísticas humanas foram reforçadas mais do que as heróicas, e passou a serrepresentado sem barba e frequentemente sem armas de combate. Na literatura, Eurípedes escreveu a peça trágica Hércules (ou HérculesEnlouquecido, Hércules Furioso), onde explora o mito do herói, revelando suaconturbada existência, e sua vontade de cometer suicídio, mas que logo é encorajadoa viver pelo amigo e rei de Atenas, Teseu. Na peça As Traquinianas, Hércules apareceaqui através da escrita de Sófocles. Esses dois textos da Grécia antiga, resguardadosaté os dias atuais, nos conferiram detalhes preciosos acerca dos mitos sobre o heróimais popular e interessante da mitologia grega Hércules atingiu o mais alto prestígio social através de sua nomeação comoancestro oficial dos reis dóricos. Isto serviu provavelmente como legitimação para asinvasões dóricas no Peloponeso. Um exemplo disto é o herói mitológico Hilo, epônimode uma tribo dórica, que se converteu em Heráclida (nome que recebiam osnumerosos descendentes de Hércules, especialmente os descendentes de Hilo —outros Heráclidas existentes são Macária, Lamos, Manto, Tlepólemo e Télefo). EstesHeráclidas conquistaram os reinos peloponesos de Micenas, Esparta e Argos,alegando, segundo o mito, o direito de governá-los devido sua ascendência. Aascensão dos Heráclidas é muitas vezes denominada "Invasão Dórica" (ver artigo).Um fato interessante é que os reis lídios e, posteriormente, os reis macedôniso —como governantes de um mesmo reino — também passaram a ser Heráclidas. Embora Hércules tenha morrido, como é destino de todo mortal, por conta deseu lado humano (derivado da mãe Alcmena), alguns gregos — especialmentePíndaro, que o chamava de "herói-deus"] — acreditavam que, por conta de seu ladodivino (advindo da descendência de Zeus), ele subiu ao Olimpo e tornou-se um deus.Sua figura lendária, portanto, permeou durante algum tempo uma simbologia voltada àterra, aos heróis, ao homem mortal, mas também atencionada ao céu, aos deuses, aodivino, ao perfeito, ao ideal. Essa figura mista que Hércules apresenta, em que o ladomortal e o lado divino se confundem, era muito reforçada em diversos cultos esacrifícios realizados em Creta, onde os gregos ofereciam-lhe sacrifícios duplos,primeiramente como herói e, somente depois, como um ser divino. Além das façanhas heróicas de Hércules, outros membros dessa primeirageração de heróis, como Perseu, Teseu, Deucalião e Belerofonte, realizaram feitos
  31. 31. muito semelhantes a ele, sempre realizando-os solitariamente, sem nenhuma outraajuda, o que aconteceu quando enfrentaram monstros como Quimera e Medusa emmitos que beiram à contos de fadas (esses combates solitários só apresentam aindamais a capacidade sobrehumana dessas personagens). Enviar um herói a uma mortepresumida é um tema frequente nesta primeira tradição heróica, como acontece naslendas de Perseu e de Belerofonte.Argonautas Único épico helenístico conservado até os dias atuais, Argonautica, deApolônio de Rodes, narra o mito da jornada de Jasão e os Argonautas pararecuperarem o Velo de Ouro da mítica terra de Cólquida. Em Argonautica, Jasão éimpelido à sua busca pelo rei Pélias, que havia recebido uma profecia onde umhomem de sandálias se tornaria seu nêmesis. Jasão perde uma sandália em um rio daregião, chegando na corte de Pélias e iniciando, assim, a epopeia. Quase todos osmembros da seguinte geração de heróis, assim como Hércules, partiram com Jasãoao Argo para buscar o velo de ouro. Essa geração de heróis também inclui: o mito deTeseu, que partiu à Creta para enfrentar o Minotauro; Atalanta, a heroína feminina,Meleagro, que por sua vez tinha um ciclo épico que rivalizava com a Ilíada e aOdisseia, Idas, que lutou contra Apolo por Marpessa, os filhos de Boreas: Zeto eCalais, que desempenharam um importante papel na ilha de Fineu e na luta contra osCinocéfalos, Laerte, pai de Ulisses e também Peleu, pai de Aquiles. Píndaro, Apolônio e Apolodoro se esforçaram em dar listas detalhadas sobreos Argonautas. Embora Apolônio tenha escrito seu poema no século III a.C, a composição dahistória dos argonautas é anterior à Odisseia, que demonstra familiaridades com osenredos de Jasão. Em épocas antigas, a expedição mítica era considerada como umfato histórico, um incidente na abertura do Mar Negro ao comércio e à colonizaçãogrega.[92] Também tornou-se muito popular, cuja função vai desde a criação de novaslendas locais à inspiração de diversas tragédias gregas.[
  32. 32. Casa de Atreu e Ciclo Tebano Entre o Argo (capítulo anterior) e a Guerra de Troia (capítulo seguinte), houveuma geração conhecida por seus crimes. Isto inclui os feitos de Atreu e Tiestes emArgos. Atrás do mito da casa de Atreu (uma das principais dinastias heróicasjuntamente com a Casa de Lábdaco), está o problema da devolução do poder e aforma de ascensão do trono. Os gêmeos Atreu e Tiéstes com seus descendentesdesempenharam o papel de protagonistas na tragédia acerca da devolução de poderem Micenas. Cadmo Semeando Dentes do Dragão, por Maxfield Parrish, 1908. O Ciclo Tebano trata dos sucessos associados especialmente à Cadmo, ofundador da cidade de Tebas, e, posteriormente, com os feitos de Laio e Édipo namesma região; uma série de histórias que levaram ao saqueio final da cidade a mandodos Epigonis e dOs Sete Contra Tebas (não se sabe se estes figuraram no épicooriginal). Acerca de Édipo, os antigos relatos épicos têm seguido um padrão diferente(no qual ele continuou governando Tebas depois da revelação de que Jocasta era suamãe e também posteriormente ao seu casamento com uma mulher que se converteuem mãe de seus filhos) do que conhecemos graças às tragédias — especialmente amais famosa do assunto, Édipo Rei, de Sófocles — e aos relatos mitológicosposteriores a este texto antigo.]
  33. 33. Guerra de Troia e consequências Em A Fúria de Aquiles , de Tiepolo (1757, afresco, Villa Valmarana, Vicenza),Aquiles está enfurecido pela ameaça de Agamemnon tirar seu despojo da guerra,Briseis, e desembainha sua espada para acertá-lo. A súbita aparição de Minerva, queno afresco segura os cabelos de Aquiles, evita o assassinato. A mitologia grega culmina na Guerra de Troia, a famosa luta entre os gregose os troianos, incluindo suas causas e consequências. Nos trabalhos homéricos, asprincipais histórias já haviam tomado forma e substância, e os temas individuais foramelaborados mais tarde, especialmente dentro dos enredos dos dramas gregos. AGuerra de Troia adquiriu também um grande interesse para a cultura romana porconta das histórias de Enéas, herói troiano, cuja jornada à Troia levou a fundação dacidade que um dia se converteria em Roma, e é recontada por Vírgilio em Eneida (cujoLivro II contém o relato mais famoso do saqueio de Troia). O Ciclo da Guerra de Troia, uma coleção de poemas épicos, começa com ossucessos que levaram a guerra: Éris e a maçã de ouro, o julgamento de Páris, o raptode Helena, e o sacríficio de Ifigénia em Aulis. Para resgatar Helena, os gregosorganizaram uma grande expedição abaixo do mando do irmão de Menelau,Agamemnon, rei de Argos ou de Micenas, mas os troianos não quiseram libertá-la. AIlíada, que se desenrola no décimo ano da guerra, narra em uma de suas páginas ocombate entre Agamemnon com Aquiles, que era até então o melhor guerreiro daGrécia, e também narra as consequências da morte de Pátroclo (amigo de Aquiles) ede Heitor, filho mais velho de Príamo. Antes da morte, se uniram aos troianos doisexóticos aliados: Pentesileia e Memnon. Escultura atribuída a Agesandro, Polidoro e Atenodoro representando o Grupo de Laocoonte (Museu do Vaticano, Roma), personagens mortos por serpentes marinhas num espisódio da Guerra de Troia, retratado na Ilíada e na Eneida.
  34. 34. Aquiles matou ambos, até Páris atingir seu calcanhar mortalmente com umaflecha (daí a expressão Calcanhar de Aquiles; para mais informações, veja o artigo doguerreiro). Antes de tomar Troia, os gregos tiveram que roubar da cidadela a imagemde madeira de Palas Atenas. Finalmente, com a ajuda de Atenas, eles construíram oCavalo de Troia. Apesar das advertências de Cassandra (filha de Príamo), os gregosforam convencidos por Sinon — grego que, fingindo sua argumentação, conseguiulevar o gigantesco cavalo para dentro das muralhas de Atenas. O sacerdoteLaocoonte tentou destruir o cavalo, mas acabou sendo impedido por serpentesmarinhas que, com suas forças, o mataram. Ao anoitecer, a frota grega regressou e osguerreiros do cavalo abriram as portas da cidade. O Ciclo Troiano proporcionou uma variedade de temas e se converteu emfonte principal de inspiração para os antigos artistas gregos (por exemplo, as métopasde Partenon representando o saqueio de Troia). Essa preferência artística pelos temasprocedentes do ciclo troiano nos indica sua importância para a antiga civilizaçãogrega.[97] O mesmo ciclo mitológico, posteriormente, também inspirou uma série deobras literárias da Europa. Os escritores europeus medievais troianos,desconhecedores da obra de Homero, encontraram na lenda de Troia uma rica fontede histórias heróicas e românticas e um marco que encorajou seus próprios ideaiscortesãos e cavalarescos. Alguns autores do século XII, como Benoît de Sainte-Maure(em seu Poema de Troia) e José Iscano (em seu De bello troiano), descrevem aguerra simplesmente reescrevendo a versão padrão que encontraram em Dictis eDares, seguindo o conselho de Horácio e o exemplo de Virgílio: reescrever um poemade Troia com veracidade, em lugar de contar algo completamente novo DECLÍNIO A mitologia estava no coração da vida quotidiana na Grécia Antiga.[ Osgregos consideravam toda a gama de enredos e personagens que hoje denominamos"mitologia grega" parte de sua história. Usavam o mito para explicar fenômenosnaturais, variações de cultura, inimizades e amizades. Além disso, a mitologia serviucomo fonte de orgulho para se traçar ascendência de grandes líderes e heróismitológicos ou até mesmo deuses. Poucos eram os gregos que não criam nos relatosacerca da Guerra de Troia, da Ilíada e da Odisseia. De acordo com estudiosos comoVictor Davis Hanson e John Heath, o conhecimento profundo da obra homérica eraconsiderada pelos gregos a base de sua aculturação. Homero era a "educação daGrécia" (Ἑλλάδος παίδευσις) e sua poesia, "O Livro". Nas seções a seguir, veremoscomo gregos e romanos começaram a dar novas interpretações acerca das coisas, e
  35. 35. como começaram a desacreditar dos poetas e dos dramaturgos. A figura do poeta era,sobretudo nos primeiros anos da era alfabetizada, a autoridade máxima, embora jános tempos clássicos a sua posição tivesse mudado: "Não acredito que os deuses se induljam em relações profanas; e para pôr vínculos nas mãos, eu nunca pensei ser digno de crença, nem serei agora tão persuadido, não mais acreditarei que um só deus seja dono e senhor de outro. Para a divindade, se realmente ela é uma divindade, não há desejos; isso não passa de miseráveis contos escritos por poetas." (Hércules para Teseu. Eurípides, Héracles 1340). Concepção de um trirreme da Grécia Antiga: as explorações marítimas dosgregos, uma das primeiras do homem antigo, contribuíram para a decadência do mito. Embora o primeiro exemplo acima tenha sido dito por um personagemsobrehumano, Hércules, ao tentar aprofundar sua compreensão sobre os mitos gregoso próprio cidadão da Grécia antiga encontrou certas limitações e contradições nessashistórias, o que desencadeou em uma série de processos filosóficos. A filosofia surgejustamente para compreender a verdade, mas de uma outra forma. Para a intelectualbrasileira Marilena Chaui uma dessas contradições foi o fato de que os gregoscomeçaram a realizar certas viagens marítimas e explorar algumas regiões das quaisacreditavam serem habitadas por deuses, sendo que, quando a visitaram, puderamconstatar que era povoada por outros seres humanos. Outros estudiosos acreditam que os gregos, ao inventarem o calendário,conseguiram calcular o tempo como forma de prever e entender os estados térmicos etambém o Sol, a chuva e outros fatores climáticos (vistos, anteriormente, como feitosdivinos e incompreensíveis) e, assim, proporcionaram uma grande mudança na crençados mitos. De forma semelhante, a invenção da moeda como forma de trocasabstratas e a escrita alfabética como forma de materialização de textos outrorapropagados somente pela oratória, além da invenção da política para a exposição dasopiniões sociais, seriam marcos da sociedade grega que, com o início dessa vidaurbana e um tanto mais moderna, começou a tecer bases para o artesanato, ocomércio e outras criações que começaram a desprezar os mitos. Com essas mudanças, o homem veria em si mesmo uma necessidade deentendê-las e de desenvolvê-las, no que se criou a filosofia para suprir essaincompreensão. Pierre Grimal compartilha dessa ideia escrevendo:
  36. 36. "O mito se opõe ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que narra à palavra que demonstra. Logos e mito são as duas metades da linguagem, duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito. O logos sendo uma argumentação, pretende convencer. O logos é verdadeiro, no caso de ser justo e conforme à lógica; é falso quando dissimula alguma burla secreta (sofisma). Mas o mito tem por finalidade apenas a si mesmo. Acredita- se ou não nele, conforme a própria vontade, mediante um ato de fé, caso pareça belo ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. O mito, assim, atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento humano; por sua própria natureza, é aparentado à arte, em todas as suas criações." Há boa parcela de estudiosos modernos que crêem, portanto, que ashabilidades poderosas de mudança saíram das mãos dos deuses imaginários e foramassumidas pelos homens antigos (e se estendem até nossos dias atuais, onde, porexemplo, acreditamos que uma administração política adequada — realizada e levadaem frente pelos homens e não pelos deuses — pode resultar numa influência positivanas sociedades, assim como uma administração inadequada resulta em influênciasnegativas). Outros pensadores também atribuem à vinda do cristianismo o declínio domito grego. Antonio Salatino escreveu: "O cristianismo também representou o fim da mitologia, um processo que conduziu ao desenvolvimento do pensamento racional, favorecendo assim o desenvolvimento da ciência. Por seu turno, as conquistas científicas dos séculos 17 e 18 reforçaram a confiança na superioridade do ser humano e fortaleceram o suposto direito do homem, baseado em fundamentos religiosos, de domínio sobre a natureza. A sobrevalorização dos conhecimentos derivados da ciência e do mundo civilizado e a negação dos valores dos povos selvagens conquistados levaram à extinção das tradições e línguas de muitas nações nativas." A astrologia, que, após a morte de Alexandre, o Grande, foi introduzida pelaMesopotâmia e pelo Egito antigo no mundo grego, chegou a um período de ouro naRoma imperial e contribuiu para a preservação dos mitos durante a Idade Média.Contudo, na própria Grécia clássica, o surgimento e a popularidade do racionalismo eda filosofia criaram até mesmo um debate entre a ideia de que os corpos celesteseram mesmo divindades em oposição à ideia de que eram meras pedras vagando pelocéu:
  37. 37. "A posição no presente é, como eu já disse, exatamente o oposto daquilo que foi quando aqueles que examinavam esses objetos os consideravam sem alma. Entretanto, mesmo então constituíam objetos de admiração, e a convicção que é agora realmente sustentada já era motivo de suspeita de todos que os estudavam acuradamente, a saber, que se fossem sem alma, e por conseguinte destituídos de intelecto, jamais obedeceriam a cálculos de precisão tão maravilhosos. E até naquela época havia quem ousava arriscar-se a afirmar que a razão é a ordenadora de tudo que está no céu. Mas os mesmos pensadores, num equívoco quanto à natureza da alma e concebendo-a como posterior e não anterior ao corpo, transtornaram, por assim dizer, todo o universo e, acima de tudo, eles próprios." (Platão. Leis 967b et seq.). Concepções greco-romanas FILOSOFIA E MITO A filosofia nasce através do mito, mas a ele acaba se opondo.] Ela surge noinicío do século - VI em Mileto, e estudiosos escrevem que vários fatores favorecerameste nascimento: "efervescência comercial, prosperidade material, contato com outrasculturas avançadas, sistema de governo democrático e, finalmente, cidadãos comtempo livre para o estudo e a reflexão." De fato, ao passo que a filosofia nascia, apreocupação de seus primeiros homens (Tales, Anaximandro e Anaxímenes, osfilósofos pré-socráticos), além daquelas de ordem astronômica, era descobrir oumeramente indagar qual seria o elemento primordial do universo e da natureza, aqueleque deu origem ao mundo—célebre exemplo de quanto as concepções cosmológicasda mitologia grega estavam sendo postas de lado para serem substituídas por novosestudos acerca do assunto, dessa vez racionais. Nos finais do século V a.C., depoisdo auge da filosofia, da oratória, e da prosa, o destino e a veracidade dos mitos setornaram incertos e as genealogias mitológicas deram lugar a uma nova concepção daorigem das coisas, sendo que essa concepção tinha como prioridade a exclusão dosupernatural (isto se mostra claro nas histórias tacidianas). Enquanto os poetas edramaturgos elaboravam os mitos, os historiadores e os filósofos por vezesdesprezavam-os e criticavam-os.
  38. 38. O Platão de Rafael em A Escola de Atenas (provavelmente à semelhança de Leonardo da Vinci). O filósofo expulsou o estudo de Homero, das tragédias e das tradições relacionados aos mitos gregos de sua utópica A República. Certos filósofos radicais, como Xenófanes, começaram no século VI a. C. arotular os textos dos poetas como blasfêmias. Queixava-se de que Homero e Hesíodoatribuiam aos deuses "tudo o que é vergonhoso e escandaloso entre os homens, poisos deuses roubam, matam, cometem adultério, e enganam uns aos outros".[110] Essalinha de pensamento encontrou sua expressão mais dramática em A República(acerca da justiça, do universo e dos diversos tipos de governo) e em Leis (que tratada lei divina e natural, da educação e da relação entre filosofia, política e religião) dePlatão. Platão criou os seus próprios mitos alegóricos (como o mito da caverna e omito de Er em A República), atacando os contos tradicionais dos trucos, e tratando osfurtos e os adultérios como imorais, opondo-se ao papel central que vinham tomandona literatura grega. A crítica de Platão - que rotulava os mitos de "palavrões antigos" -foi o primeiro exercício e desafio sério à tradição mitológica homérica. Aristóteles, porsua vez, criticou o enfoque filosófico pré-socrático quase-mitológico e destacou que"Hesíodo e os escritores telógicos estavam preocupados unicamente com o que lhesparecia plausível e não tinham respeito pelos outros [...] Mas não merece a penatomar a sério os escritores que alardeiam o estilo mitológico; aqueles que procedem ademonstrar suas afirmações devem ser re-examinados". Mesmo no início do impérioda Roma, o livro Metamorfoses, do romano Ovídio, possui nos finais do poema umpseudo-discurso do filósofo e matemático grego Pitágoras que, reivindicando a vidaapós a morte, o vegetarianismo e a esperança, diz Porque temeis o Estige, as trevas eos nomes inexistentes, matéria para poetas [...],embora o discurso de Pitágoras escritopor Ovídio seja permeado por alusões a criaturas e deuses romanos como Juno,Lúcifer, Palante, Febo, Tíndaro, entre outros. As explicações filosóficas gregas que pretendiam revisar as mitológicascriaram consequências drásticas para os seus autores: Anaxágoras, por exemplo,partiu para um auto-exílio fora de Atenas, por duvidar que a lua fosse uma deusa
  39. 39. (explicação mitológica) e afirmar que, pelo contrário, vislumbrava em sua superfíciemares e montanhas. Aristóteles, que não aceitava a explicação de que o titã Atlascarregava a terra e o céu nas costas (afirmação que rotulou de "ignorância esuperstição do povo grego"), exilou-se por temer que terminasse como Sócrates, queobteve acusação de impiedade e morreu. Sócrates foi condenado com 71 anos,acusado, entre outras coisas, de ateísmo e de corromper os jovens gregos com seusensinamentos Meleto, poeta e um de seus acusadores, havia argumentado que"[...]Sócrates é culpado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos peloEstado e de introduzir divindades novas; ele é ainda culpado de corromper ajuventude. Castigo pedido: a morte".[117] Sócrates, após ficar preso a ferros durante 30dias, morreu num método de auto-envenenamento da prisão da época, ingerindocicuta mas, antes de falecer, segundo Platão, incutiu uma dúvida a seus acusadores:"E agora chegou a hora de nós irmos, eu para morrer, vós para viver; quem de nós ficacom a melhor parte ninguém sabe, exceto o Deus."[116] Essas perseguições se estenderam épocas depois, atingindo seu auge naIdade média (onde o cristianismo substituiu a filosofia) e declinando durante oRenascimento e principalmente no Iluminismo (onde a filosofia grega começava a serretomada e revisada). Todavia, Platão não cuidou de separar si mesmo e suasociedade da influência dos mitos: os estudiosos notam que sua própriacaracterização de Sócrates baseia-se nos patronos tradicionais trágicos e homéricos,usados pelo filósofo para louvar o curso de vida e morte do seu mestre. Em Apologiade Sócrates, Platão prescreve o discurso dado supostamente por Sócrates em seujulgamento: “ Mas talvez pudesse alguém dizer: "Não te envergonhas, Sócrates, de te aplicardes a tais ocupações, pelas quais agora está arriscado a morrer?" A isso, porei justo raciocínio, e é o seguinte: "não estás falando bem, meu caro, se acreditas que um homem, de qualquer utilidade, por menor que seja, deve fazer caso dos riscos de viver ou morrer, e, ao contrário, só deve considerar uma coisa: quando fizer o que quer que seja, deve considerar se faz coisa justa ou injusta, se está agindo como homem virtuoso ou desonesto. Porquanto, segundo a tua opinião, seriam desprezíveis todos aqueles semi- deuses que morreram em Troia. E, com eles, o filho de Tétis, o qual, para não sobreviver à vergonha, desprezou de tal modo o perigo que, desejoso de matar Heitor, não deu ouvido à predição de sua mãe, que era uma deusa, e a qual lhe deve ter dito mais ou menos isto: ”
  40. 40. “Filho, se vingares a morte de teu amigo Pátroclo e matares Heitor, tu mesmo morrerás, porque, imediatamente depois de Heitor, o teu destino estará terminado" (Hom. Il. 18.96) [...] Victor Davis Hanson e John Heath estimam que a rejeição de Platão acercada tradição homérica não obteve boa recepção pela base da civilização grega. Nestaetapa, os mitos mais antigos se mantiveram em cultos locais e seguiram influenciandoa poesia e constituindo o tema principal da pintura da Grécia antiga e da escultura daGrécia antiga. No teatro, de forma mais esportiva, Eurípedes elaboravaintertextualidades com as antigas tradições e, embora suas personagens zombassemdos mitos tradicionais e duvidassem de boa parte deles, o foco dessas peças sãocompletamente voltados aos mitos. A obra deste dramaturgo impugna principalmenteos mitos sobre os deuses e inicia sua crítica à mitologia com um argumento similiar aopreviamente expresso por Xenófanes: "os deuses, como são tradicionalmenterepresentados, são grosseiramente antropomórficos" RACIONALISMO HELENÍSTICO E ROMANO No Helenismo, a mitologia adquire o prestígio do conhecimento da elite queencontrava nos feitos de seus possessores algo pertencente a determinada classe. Aomesmo tempo, o giro cético da idade clássica tornou-se ainda mais defendida epronunciada. O mitógrafo grego Evêmero, por exemplo, estabeleceu uma tradição cujaprioridade era buscar uma base histórica real para seres e eventos míticos. Emborasua obra original (Sagradas Escrituras) esteja perdida, muito do que ele escreveusobre o assunto foi preservado por Diodoro Sículo e Lactâncio.
  41. 41. Cícero via-se como o defensor da ordem estabelecida, apesar de seuceticismo em relação aos mitos e sua inclinação de fazer concepções mais filosóficassobre as divindades. O racionalismo hermenêutico (relativo à Hermes) acerca do mito tornou-seainda mais popular sob o Império Romano, graças às teorias fisicalistas do estoicismoe graças à filosofia espicurista. Os estoicos apresentavam explicações dos deuses edos heróis como fenômenos físicos, enquanto que os evêmeristas compreendiam-oscomo figuras históricas. Contudo, os estoicos — assim como os neoplatonistas —promoviam os significados morais da tradição mitológica, frequentemente basendo-senas etimologias gregas. Mediante sua mensagem epicuriana, Lucrécio buscavaexpulsar os temores supersticiosos das mentes de seus vizinhos e cidadãos. Lívio,igualmente, é cético acerca da tradição mitológica e clama que não tinha comointenção ajuizar tais lendas. O desafio dos romanos com um forte sentido apologéticoda tradição religiosa era defender essa tradição enquanto concediam que isto erafrequentemente um terreno fértil para a superstição. O antiquário Varrão — queconsiderava a religião uma instituição romana de grande importância para apreservação do bem social — dedicou rigorosos anos de sua vida a estudar as origensdos cultos religiosos. Em sua Antiquitates Rerum Divinarum (que não sobreviveu aosnossos dias, embora De Civitate Dei, de Agostinho, conserva seu foco geral), Varrãoargumenta que, enquanto o homem supersticioso teme os deuses, a autênticapersona religiosa os venera como parentes de uma mesma família.Em sua obra, existiam três tipos de deuses: 1. Os deuses da natureza: personificações de fenômenos como a chuva e o fogo; 2. Os deuses dos poetas: inventados pelos bardos sem escrúpulos para incitar as paixões; 3. Os deuses da cidade: inventados pelos sábios legisladores para iluminar e acalmar a população. Cotta, um acadêmico romano, ridicularizou tanto a acepção literal dos mitoscomo a alegórica, declarando rotundamente que ambas não teriam lugar na filosofia.Cícero, por sua vez, desprezava os mitos, mas, como Varrão, era enfático em seuapoio para a religião e suas consecutivas instituições estatais. É difícil saber quãobaixo se estendia esse racionalismo na escala social. Cícero afirma que ninguém (nemmesmo velhos, mulheres ou crianças, ou qualquer outro tipo de coisa) é tolo a pontode crer nos terrores de Hades ou na existência de Cila, de centauros e de outras
  42. 42. criaturas compósitas,] todavia o orador queixa-se constantemente do carátersupersticioso e crédulo das pessoas. De natura deorum é o resumo mais exaustivodessa linha de pensamento fixada por ele. TENDÊNCIAS SINCRONATÓRIAS Na religião romana, o culto do deus grego Apolo (na imagem estátua romanade um original grego, no Musei Capitolini, Roma) foi sincronizado com o culto de SolInvicto. A adoração do sol como protetor do império permanceu como principal cultoimperial até ser substiuído pelo Cristianismo. Durante a época do auge romano, apareceu uma tendência popular desincronizar os múltiplos deuses gregos e estrangeiros em novos cultos estranhos equase irreconhecíveis. A sincronização ocorreu principalmente pelo fato dos romanosterem um conjunto/panteão de mitos muito precário, fazendo com que a tradição demitos gregos fossem misturadas com os principais deuses romanos (interligandoequivalentes das duas tradições). Os deuses Zeus e Júpiter são exemplos desseenvolvimento mitológico. Ainda nessa etapa de combinação entre duas tradiçõesmitológicas, tudo indica que a associação dos romanos com a religião oriental resultouem mais sincronizações. Um exemplo é o culto do sol, introduzido em Roma depoisdas campanhas de Aureliano na Síria. As divindades Mitra e Baal, ambas asiáticas,foram sincronizadas com o deus grego Apolo e com Hélio numa só figura, o Deus SolInvicto — que possuía (segundo a crença dos povos) atributos somados e, naspráticas de cultos, ritos conglomerados. Apolo podia ser cada vez mais identificado nareligião com Hélios ou incluso com Dionísio, mas os textos que recapitulavam seusmitos raramente refletiam essas metamorfoses. A literatura mitológica tradicionalestava cada vez mais disassociada das práticas religiosas reais. A coleção de Hinos Órficos e da Saturnália de Macróbio, conservadas desdeo século II, também estão influídas pelas teorias racionalistas e pelas tendênciassincronatórias. Os hinos órficos são um conjunto de composições poéticas pré-
  43. 43. clássicas, atribuídas à Orfeu. Na realidade, estes poemas foram provavelmentecompostos por vários poetas, e contém um rico conjunto de pistas sobre a mitologiapré-históricas da Europa. O objetivo da Saturnália é a de transmitir a cultura helênicaque havia obtido de suas leituras, apesar de seu tratamento dos deuses sercontaminado pela mitologia e pela teologia egípcia e norte-africana (que tambémacabam afetando as interpretações de Virgílio). Na Saturnália, reaparecem oscomentários mitográficos influídos pelos evemeristas, estoicos e pelos neoplatônicos. INTERPRETAÇÕES MODERNAS O alemão Johann Joachim Winckelmann, através dos trabalhos de estudiososcomo Gesner e Heyne, estabeleceu as primeiras distinções entre arte grega, greco-romana e romana. A gênesis da moderna compreensão da mitologia grega é considerada porcertos escolares como uma dupla reação dos finais do século XVIII contra "atradicional atitude da animosidade do cristianismo", onde a reinterpretação cristianados mitos como uma "mentira" ou "fábula" havia se conservado. Na Alemanha, emcerca de 1795, houve um crescente interesse por Homero e pela mitologia grega. EmGotinha, Johann Matthias Gesner começou a dar alma aos estudos gregos, enquantoseu sucessor, Christian Gottlob Heyne, trabalhou com Johann Joachim Winckelmann,e desenvolveu as bases para a pesquisa e investigação mitológica tanto na Alemanhacomo em outros lugares. Heyne abordou o mito como filólogo e moldou os alemãeseducados na concepção da antiguidade ao longo de quase meio século, durante oqual a Grécia antiga exerceu uma intensa influência na vida intelectual da Alemanha. A mitologia comparativa é a comparação dos mitos de diferentes culturas quepossui a intenção de identificar os temas e as características compartilhadas. Amitologia comparativa tem servido de uma variedade de fins acadêmicos. Porexemplo: os estudiosos têm utilizado as relações entre os diversos mitos para rastreara evolução das religiões e das culturas, para propor origens comuns de diferentesculturas, e para apoiar várias teorias psicológicas. Falando em psicologia, asmodernas interpretações do mito grego abriu espaço para uma abrangentecompreensão psicológica acerca deles. Alguns estudiosos propõem que mitos dediferentes culturas revelam a mesma, ou semelhante, força psicológica no trabalhodessas culturas. Assim, alguns pensadores freudianos têm identificado históriassemelhantes à história grega de Édipo em culturas diferentes. Eles argumentam queestas histórias refletem as diferentes expressões do Complexo de Édipo nessasculturas. De mesmo modo, pensadores junguianos têm identificado imagens, temas e
  44. 44. padrões que aparecem, do mesmo modo, nos mitos de muitas culturas diferentes.Eles acreditam que essas semelhanças são resultados de arquétipos presentes noinconsciente coletivo dos níveis mentais de cada pessoa.Enfoques comparativos e psicanalíticos Max Müller é considerado um dos fundadores da mitologia comparativa. Em seuMitologia Comparativa (1867), Müller analisa a "perturbadora" similaridade entre as mitologias de "raças selvagens" com as das primeiras europeias. O desenrolar da filologia comparativa no século XIX — junto com osdescobrimentos etnológicos do século XX — fundou a "ciência da mitologia". Desde oRomantismo, todo o estudo dos mitos era comparativo: Wilhelm Mannhardt, JamesFrazer e Stith Thompson ampliaram o foco comparativo para recoletar e classificar ostemas do folclore e da mitologia. Em 1871, Edward Burnett Tylor publicou seu PrimitiveCulture, onde aplicou o método comparativo com a intenção de explicar a origem e aevolução da religião. O procedimento de Taylor de agrupar o material mítico,ritualístico e cultural de culturas ampliamente separadas influenciou tanto Carl GustavJung como Joseph Campbell. Max Müller aplicou a nova ciência da mitologiacomparativa ao estudo dos mitos, no qual se detectou os restos distorcionados doculto à natureza ariana. Bronisław Malinowski enfatizou as formas nas quais os mitoscumpriam funções sociais comuns. Claude Lévi-Strauss e outros estruturalistascompararam as relações formais e paternas em mitos de todo o mundo.
  45. 45. Károly Kerényi foi um dos maiores estudiosos demitologia e línguas clássicas do século XX. Sigmund Freud, com a psicanálise, introduziu uma concepção transhistórica ebiológica do homem a uma visão do mito como expressão de ideias reprimidas.Através de mitos como o de Édipo, Freud estabeleceu concepções inovadoras arespeito da mente humana, criando teorias diferentes de tudo o que se tinha pensadoaté então, como o Complexo de Édipo e, fundamentalmente, a ideia de inconsciente.Essa sugestão encontraria um importante ponto de acercamento entre as visõesestruturalistas e psicoanalísticas dos mitos no pensamento de Freud. Carl GustavJung estendeu o enfoque transhistórico e psicológico com sua teoria do inconscientecoletivo e os arquétipos (patronos arcaicos herdados), às vezes codificiados nos mitos,que são derivados da mesma. Segundo Jung, "os elementos estruturais que formamos mitos devem ser apresentados na psique inconsciente". Comparando ametodologia de Jung com a teoria de Joseph Campbell, Robert A. Segal conclui que"para interpretar um mito, Campbell simplesmente identifica os arquétipos nele. Umainterpretação de A Odisseia, p. ex., mostraria como a vida de Odisseu se ajusta a umpatrono heróico. Jung, pelo contrário, considera a identificação de arquétiposmeramente no primeiro passo da interpretação de um mito". Károly Kerényi, um dosfundadores dos estudos modernos do mito grego, e um dos maiores estudiosos de talfolclore, abandonou seus primeiros pontos de vista sobre os mitos para aplicar asteorias de arquétipos de Jung à mitologia grega. Segundo Kerényi, a mitologia grega é"um conjunto de contos sobre deuses, deusas, batalhas heróicas e jornadas ao mundosubterrâneo, sendo contos famosos, mas já não tão propícios a possíveisreformulações.
  46. 46. TEORIAS DA ORIGEM Júpiter e Tétis (1811), quadro do francês neoclássico Dominique Ingres. Existem diversas teorias sobre a origem da mitologia grega. De acordo com aTeoria Escritural, todas as lendas mitológicas procedem de relatos dos textossagrados, no qual os feitos reais foram disfarçados e, posteriormente, alterados. ATeoria Histórica, por sua vez, defende a tese de que todas as personas mencionadasna mitologia foram uma vez seres humanos reais, e as lendas sobre elas são merasadições de épocas posteriores (assim, supõem-se que a história de Éolo surgiu do fatode que este era governante de algumas ilhas do Mar Tirreno). Já a Teoria Alegóricasupõe que todos os mitos antigos eram alegóricos e simbólicos, embora tivessem emseu contexto determinada verdade moral, religiosa ou filosófica ou um fato históricoque, com o passar do tempo, passaram a ser aceitas como verdade. Finalmente, aTeoria Física se adere à ideia de que os elementos como ar, fogo e água foramoriginalmente objetos de adoração religiosa, sendo que as principais deidadespassaram a ser personificações desses poderes da natureza. Max Müller tentoucompreender uma forma religiosa indo-europeia determinando sua manifestação"original": em 1891, ele afirmou que "o descobrimento mais importante que se tem feitono século XIX a respeito da história antiga da humanidade [...] foi essa simplesequação: Dyeus-pitar sânscrito = Zeus grego = Júpiter latino = Tyr nórdico." Em outroscasos, perto dos paralelos o cárater e a função sugerem uma herança comum, mas a
  47. 47. ausência de evidências linguísticas faz com que seja difícil prová-la, como nacomparação entre Urano e o Varuna sânscrito, ou entre as Moiras e as Nornas. A arqueologia e a mitografia, numa outra consideração, tem revelado que osgregos foram inspirados por algumas civilizações da Ásia Menor e do Oriente Próximo.Adônis parece ser o equivalente grego — mais claramente nos cultos do que em suashistórias míticas — de um "deus moribundo" do Oriente Próximo. Tudo indica queCíbele, por sua vez, tem suas raízes na cultura anatólica, enquanto grande parte daiconografia de Afrodite surge das deusas semíticas. Existem possíveis paralelismosentre as gerações divinas mais antigas (Caos e seus filhos) e Tiamat em Enuma Elish.Segundo o estudioso Meyer Reinhold, "os conceitos teogônicos do Oriente Próximo,incluindo a sucessão divina mediante a violência e os conflitos gerados pelo poder,encontraram seu caminho [...] na mitologia grega." Seguindo as origens indo-europeias e do Oriente Próximo, alguns investigadores especulam sobre asobrigações da mitologia grega com as sociedades pré-helênicas: Creta, Micenas,Pilos, Tebas e Orcómeno. Os historiadores da religião estavam fascinados por váriasconfigurações de mitos aparentemente antigos relacionados com Creta (o deus comotoro, Zeus e Europa, Pasífae que produz toro e dá a luz ao Minotauro; etc.). Oprofessor Martin P. Nilsson concluiu que todos os grandes mitos da Grécia antigaestavam atados aos centros micênicos e âncorados em épocas pré-históricas.[154]Todavia, de acordo com Walter Burkert, a iconografia do período do palácio cretentesepraticamente não tem dado confirmação alguma sobre a veracidade de todas estasteorias.Legado e importância Localizada na juntura da Europa, Ásia e África, a Grécia é o berço denascimento da democracia, da filosofia ocidental, dos Jogos Olímpicos, da Literaturaocidental e da historiografia, bem como da Ciência política, dos mais importantesprincípios matemáticos, e também o berço de nascimento do teatro ocidental, incluindoos gêneros do drama, tragédia e o da comédia. Apaixonados pelo debate e pelacontrovérsia,[159] os gregos criaram os primeiros ordenamentos políticos com cunhodemocrático, onde compartilhavam e defendiam argumentações. Esses princípiosfundamentais definiram o curso do mundo ocidental, e também divulgaram a mitologiagrega, que ainda se torna eficiente, segundo muitos autores, para a educaçãoacadêmica nas escolas de ensino fundamental e superior, como também para umentendimento mais profundo e filosófico do ser humano, como veremos a seguir:

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