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Pesquisa qualitativa pedro demo
 

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    Pesquisa qualitativa pedro demo Pesquisa qualitativa pedro demo Document Transcript

    • Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 89 PESQUISA QUALITATIVA BUSCA DE EQUILÍBRIO ENTRE FORMA E CONTEÚDO Pedro Demo*DEMO, P. Pesquisa qualitativa. Busca de equilíbrio entre forma e conteúdo. Rev.latino-am.enfermagem, Ribeirão Preto, v. 6, n. 2, p. 89-104, abril 1998. Este artigo apresenta uma descrição da mudança de expectativa no que se refere à pesquisa qualitativa através daevolução da pós-modernidade. Enfoca a qualidade sob vários aspectos apontando os usos e abusos na pesquisa qualitativa.UNITERMOS: pesquisa, pesquisa qualitativa Algumas evoluções da pós-modernidade em ganhando terreno, à medida que os métodos matemáticosciência trouxeram certa mudança de expectativa com e naturais cedem às dificuldades notórias de captar 25,32respeito à pesquisa qualitativa . Podemos, a título de fenômenos mais qualitativos, geralmente visualizados sobsistematização preliminar, distinguir três fases da a ótica do caos estruturado, não-linearidade ediscussão: complexidade da realidade, não-equilíbrio, etc.a) na tradição positivista, pesquisa qualitativa não faziamuito sentido, pela própria exclusão da dialética comométodo importante da reconstrução do conhecimento; A INSTABILIZAÇÃO DA CIÊNCIAtomando as ciências exatas e naturais como modeloparadigmático, as ciências sociais teriam como desafio Para sermos justos, o fenômeno da instabilizaçãointrínseco absorver as mesmas regras; o próprio marxismo da ciência se deu no próprio seio do positivismo, tendoortodoxo não escapou disso, quando exagerou na dose como um dos precursores maiores, Hume, e expoentedo materialismo histórico e dialético, selecionando, na consagrado, Popper, com sua tese da falsificabilidade 29realidade, de preferência a manifestação material ; como critério de cientificidade. A ciência sempre se quisb) a introdução dos métodos qualitativos veio como como adversária da dúvida, mas só progride porque éreivindicação das ciências sociais e humanas, duvidosa. Sendo seu signo principal a capacidade deinconformadas com a “ditadura do método”, que assumia questionar persistentemente, o questionamento só fazcomo real apenas o que cabia no método, em vez de 29,73,75 sentido num contexto de dúvida e inovação .privilegiar a relação contrária: o método de captação da Um autor importante nesta história foi Habermas,realidade deve subordinar-se às marcas da realidade;também sob a influência de discussões acaloradas em quando definiu verdade como “pretensão de validade”,torno da fenomenologia e da hermenêutica, começou-se mesmo ligado, em grande parte ainda, à visãoa falar de método qualitativo, que, de princípio, não tinha transcendentalista de Kant, que admite verdadesnada de mais específico, a não ser a reação contra a independentes de espaço e tempo, inclusive no campo 46imposição quantitativista; com o tempo, surgiram da moral . A instabilização da ciência tem duas origenspropostas mais concretas, que passaram pela pesquisa mais claras:participante, pesquisa-ação, história oral, até a atual a) uma origem lógico-formal, com base naetnometodologia 17,20,90 ; impossibilidade de produzir uma argumentação final parac) atualmente, o debate segue outros rumos, além dos já qualquer discurso científico; este reconhecimento ficoualudidos, por conta de questionamentos radicais que a ainda mais estabelecido com o teorema de Gödel, emetodologia científica pós-moderna vem fazendo aos retratado com veemência e grande dose de ironia na teseparadigmas anteriores; pelo menos em certa medida, as pós-moderna de Lyotard, segundo a qual a ciência épretensões das ciências sociais e humanas estariam circular, porque fundada em metanarrativas que não* Professor Titular da Universidade de Brasília. PhD em Sociologia
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 90 57conseguem fundamentar-se a si mesmas ; com efeito, Com base em conhecimento - ou na mais-valia relativa, 89toda teoria supõe conceitos prévios, hermeneuticamente na linguagem marxista - é possível produzir melhor eválidos, ou seja, em qualquer definição somos obrigados mais barato, mesmo que às custas do emprego. Oa usar termos não definidos; desemprego estrutural é resultado direto do conhecimentob) uma origem política, porquanto toda pretensão de desconstrutivo e inovador.validade acaba valendo, se puder ser consensuada dentro O conhecimento inovador, de ponta, está fugindode um contexto de discussão aberta; em certa medida, da universidade, porque esta não sabe desconstruir-se,democracia do questionamento passa a fazer parte dos ou seja, inovar e educar a inovação. O mercado ficacritérios de cientificidade, mas em estreita combinação apenas com a qualidade formal, enquanto a universidadecom os lógicos; um discurso será tanto melhor deveria agregar a qualidade política, sobretudo porquequestionável, quanto mais bem elaborado for, em termos esta é o fim e a ética do conhecimento.formais. A instabilização da ciência obteve impulso da À diferença de Popper, que instabiliza a ciência interdisciplinaridade. Este teve também duas origenspor razões apenas lógicas - é impossível logicamente principais:buscar fundamentação última dedutiva, bem como toda a) uma origem no método, sobretudo na especializaçãoindução acarreta uma regressão ao infinito por não poder metodológica, que leva a saber cada vez mais de cadaobservar todos os casos concretos possíveis -, Habermas vez menos; ao final, temos o “idiota especializado”,acrescenta o argumento histórico, admitindo que a ciência tornando-se o mundo científico um circo ininteligível,é o produto da atividade dos cientistas, não algo por conta das linguagens particulares e asdesencarnado, embora deva sempre ter marcas formais compartimentalizações acadêmicas; não se trata apenasinequívocas. Usa em sua argumentação, buscada em Apel, da difícil compreensão dos discursos, mas sobretudo doa figura da “contradição performativa”, segundo a qual fechamento disciplinar, que produz uma espécie denão se pode desfazer, no discurso, a própria possibilidade “cegueira”, como quer Morin, à medida que, olhandodo discurso. Assim, se admitirmos que o questionamento somente para certa coisa, não consegue ver nada mais 67,68é a alma da ciência, não é viável imaginar um além disso ; 24questionamento inquestionável . b) uma origem na complexidade do real, reconhecendo Embora este argumento seja apenas relativo, que a realidade é mais complexa do que as simplificaçõesporque, como toda asserção lógica, não tem fundação metodológicas usadas em sua captação; isto levou aúltima ou incorre em contradições circulares, além de reclamar a organização interdisciplinar de grupos denegligenciar o contexto histórico, reforçou um princípio pesquisadores, buscando um meio termo entrefundamental da pós-modernidade, que é o ímpeto especialidade - sempre inevitável para ser a análisedesconstrutivo do conhecimento, razão maior de sua profunda - e compreensão de uma realidade que nunca évoracidade inovadora. Só pode ser científico, o que for especial, mas apenas complexa.questionável, formal e politicamente. Alguns bestsellers na esfera dos estudos da O conhecimento é tão inovador hoje, porque inteligência empurraram bastante a discussão, chamandoestabilizou sua instabilidade no plano do método. Ou seja, a atenção, por exemplo, para a importância da emoção einova porque saber inovar-se. Não é como, por do sentimento. Gardner defende as “inteligênciasexemplo, a universidade, que fala de inovação e até múltiplas” e combate o tipo de mensuração implicado nomesmo se define como instituição a ela dedicada, mas QI, que privilegia apenas o domínio formal-lógico donão sabe inovar-se, permanecendo a mesma velharia pensamento. Goleman e Damásio procuram ultrapassarsecular. Não há como inovar, permanecendo o mesmo. O o more geometrico de estilo cartesiano, incluindo na razãoímpeto desconstrutivo do conhecimento não significa, de também o que seria pelo menos tão característico do sermodo algum, coisa boa, pois agride a tessitura humano quanto a racionalidade, a emoção. Todos esteshermenêutica da história e do ser humano, culturalmente autores praticam uma pesquisa intensamenteplantado. Não podemos nos desfazer todo dia, para nos interdisciplinar, englobando a investigação biológicainventar de novo, como se não houvesse história. clássica ao lado de todas as implicações tipicamente 19,38,43Entretanto, não é viável inovar, sem nos desconstruirmos hermenêuticas das ciências humanas .pelo menos em certa medida. Este desafio a universidade As discussões mais acaloradas, entretanto,não está sabendo deglutir, e por isso vai se tornando uma provêm da física e da biologia, seja pela via das teoriasentidade de resistência, cada vez mais fora do tempo, do caos e da não-linearidade matemática, seja pela viaenquanto o mercado está se dando bem com o da reação construtiva nos seres vivos em geral. Tem realce 33,82conhecimento . A competitividade alimenta-se da Prigogine, que, entre outras novidades, passa a aceitarprodução e uso intensivo do conhecimento, residindo na matéria certa noção de tempo e irreversibilidade,nisso o diferencial de desenvolvimento entre os povos. concedendo que a criatividade - sempre vista como
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 91monopólio humano - também é componente da matéria, as manifestações mais facilmente formalizáveis, o quepelo menos em certas circunstâncias. O mundo está em já traz um prejuízo claro frente ao que costumamosformação. Logo, não é totalmente formalizável e sua chamar de qualidade. O legado formal é, assim, virtude eevolução não pode ser prevista matematicamente. Uma vício ao mesmo tempo.“teoria de tudo” é impraticável. O paradigma muda de É vício, por tender a distorcer a realidade, nadireção: em vez de explicar a desordem sobre um pano proporção em que compreende melhor o que éde fundo de ordem, a ciência precisa explicar como é sistematizável logicamente. É virtude, porque consegue 6,66,78possível a ordem no caos . captar com grande proficiência as faces formais. O Maturana inaugurou na biologia o conceito de progresso da ciência é algo inegável e fantástico.“autopoiesis” - autoformação - para indicar a Por conta disso, Prigogine fala de caoscaracterística de todo ser vivo de poder reagir, em seu “estruturado”, já que uma realidade propriamente caóticameio, de maneira reconstrutiva, e não apenas passiva, é inatingível pela ciência. Somente se compreende aquilocomo estaria dito no “reflexo condicionado”. Talvez tenha que puder ser minimamente sistematizado, ou seja, sesido esta a contribuição mais forte contra a tradição não houver no fenômeno nada que tenha perfil lógico,escolar do “treinamento”, em apoio às teses de Piaget, sistemático, recorrente, pelo menos regular, não pode serpor exemplo61,62. A aprendizagem passou a ser vista como abordado cientificamente. Por isso mesmo, a ciênciamarca eminente do ser vivo, sobretudo do ser humano, e trabalha melhor quantidades do que qualidades. Estasimplica sempre um esforço reconstrutivo. Muitas das estão definitivamente reconhecidas, e são, de novo, moda,críticas feitas hoje à aula meramente expositiva, à atitude mas são mais complicadas de serem manejadas pelaprofessoral de falar diante de um aluno que escuta, toma pesquisa científica.nota e faz prova, provêm dessa visão confirmada na Convém, desde logo, fazer uma distinçãobiologia. O aluno somente aprende se pesquisa e importante. A resistência que a pesquisa científicareconstrói conhecimento com mão própria, tendo no manifesta frente a realidades qualitativas não precisa serprofessor o exemplo de quem aprende bem, não de quem apenas tradicionalismo positivista. No fundo, é umaapenas dá aula. resistência natural, que advém de sua tessitura formal- lógica. Quando os novos pesquisadores da inteligência buscam, sofregamente, realçar a emoção, por exemplo, enfrentam dificuldades oriundas da formalidadeO LEGADO FORMAL científica, que, de virtude, pode virar defeito, ao amarrotar faces essenciais, mas menos formais, dos fenômenos. Toda esta discussão, entretanto, não destruiu o Mesmo assim, nos fenômenos mais voláteis, dispersos,legado formal da ciência, como se fosse possível fazê-la contraditórios, fragmentários etc., a ciência parte sempresem lógica. Apenas o colocou sob outra luz. para visualizar neles o que houver de formalizável, antes A primeira conclusão foi ter de aceitar que a de mais nada. Também por isso, a qualidade é captada naciência é apenas um olhar sobre a realidade, e nem sempre contra-luz de expressões quantitativas, ou na greta doso mais adequado. Boaventura dos Santos trabalhou esta 23 dados .perspectiva com base na ruptura epistemológica de Temos na história da ciência exemplos relevantes,Bachelard, mostrando uma artificialidade típica do sobretudo a descoberta de Freud de que os sonhos,conhecimento e pleiteando a volta do conhecimento para aparentemente caóticos e assim considerados por muitos,o bom senso e mesmo para o senso comum, que são, afinal são sistematizáveis, desde que se faça uma análise emde contas, o conhecimento que orienta as pessoas no profundidade. Assim, sonho não é um monte incoerente 84cotidiano . de coisas, mas um caos estruturado. A ciência não sabe o A segunda conclusão foi a de reconhecer que tal que fazer daquilo que é propriamente caótico, mas começaseletividade metodológica pode facilmente reinventar a a entender o caos, se descobrir nele alguma estrutura.“ditadura do método” sobre a realidade, considerando Marx também pode servir de exemplo, em seusreal apenas o que cabe no método de captação. Na prática, momentos mais ortodoxos, quando procurou secundarizara ciência se interessa pela face formalizável da realidade, a super-estrutura, composta de ideologias, vontades,expurgando tendencialmente as outras. Por isso mesmo, consciências, em favor da infra-estrutura material, e quequando quer “medir” a inteligência, seleciona nela 59 seria, por sinal, mais devassável cientificamente . Esteindicadores quantificáveis, de preferência a outros. vento “positivista” é inegável em obras da velhice e é à A terceira conclusão foi a de reconhecer ademais base dele que imaginava estar descobrindo “as leis daque o legado formal não poderia, pelo menos por história” e que, como diz no prefácio do 1º volume de Oenquanto, ser abandonado. A ciência abusou dele, mas Capital, seriam “férreas”, para sinalizar que determinamlhe é parte essencial. Neste sentido, destaca na realidade a história, como uma causa física determina um efeito
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 92físico. Nisto via sua cientificidade. Althusser inventou, à lógico. É mister combinar bem lógica e democracia, esombra dessa visão, o anti-humanismo de Marx, para não sacrificar uma à outra, conservando ademais que 72dizer que, ao analisar a realidade, não contava a qualidade política é fim, enquanto a formal é meio .consciência humana, mas a determinação materialobjetiva. E Lévi-Strauss sempre considerou Marx seuprecursor, porque deu maior importância à inconsciência, DEFININDO TENTATIVAMENTE QUALI-do que à consciência, e por, conseqüência, à intervenção DADE 29humana histórica . Este tipo de consideração parece decisivo, porque Buscamos aqui apenas definir preliminarmenteé preciso desfazer a banalização recorrente na pesquisa o conceito de qualidade, com o objetivo de ultrapassarmosqualitativa frente aos desafios da formalização científica. dois problemas:Por exemplo, é comum ouvir-se que método já não seria a) de um lado, a definição exclusivamente negativa, quemuito importante, até porque vai se inventando pelo somente diz o que qualidade não é (não é quantidade);caminho. A par da incoerência de não perceber que falta b) de outro, o ambiente de penumbra conceitual em quede método também é um deles, porque é inviável fazer comumente é tomado.sem um modo de fazer, perde-se de vista aquilo que a Com efeito, na maioria das vezes assumimosciência sabe propor melhor, ou seja, traduzir uma qualidade como aquela dimensão — essencialmente vagarealidade em suas formalidades possíveis. — que representaria o contrário de quantidade, ou que Dentro desse contexto, também já não cabe estaria além da quantidade. Outras vezes, toma-se ocombater a quantidade, porque é parte constituinte de conceito como evidente, sobretudo após o modismo daqualquer qualidade, e vice-versa. Dito de outra forma, 41,42 “qualidade total” . De nossa parte, consideramostoda qualidade, por mais volátil que seja, admite alguma complexo definir adequadamente o conceito de qualidade,formalização, e é isto que a ciência poderá oferecer de não só porque nenhum conceito é evidente, mas sobretudoútil. Na pesquisa qualitativa também é mister saber definir porque assinala dimensões da realidade que são tãotermos, precisar a hipótese de trabalho** como roteiro essenciais, quanto imprecisas. Ninguém duvida quereconstrutivo abertamente direcionado, construir bases qualidade existe, tanto porque o horizonte material nuncateóricas, selecionar relevâncias, e assim por diante, todasatividades no fundo lógico-formais. Caso contrário, é tudo, embora muitos julguem ser o principal, quantovendemos a pesquisa qualitativa como diletantismo e, na porque fazem parte da experiência comum horizontes queprática, incompetência metodológica. desbordam o mundo quantitativo, como felicidade, ética, Dito isto, cabe destacar a intenção própria da compromisso político, etc. Todavia, é muito difícil dizerpesquisa qualitativa, que é perseguir faces menos - positivamente - o que, afinal, é qualidade.formalizáveis dos fenômenos, às quais damos o nome de Por outra, não faz sentido apostar na dicotomiaqualidade. Um dos problemas mais agudos dessa questão entre quantidade e qualidade, pela razão simples de queé a indefinição de qualidade, já que nela cabe tudo e nada, não é real. Pode-se, no máximo, priorizar uma ou outra,ao sabor de qualquer coisa, tornando as pesquisas por qualquer motivo, mas nunca para insinuar que umaqualitativas experimentos excessivamente tópicos e se faria às expensas da outra, ou contra a outra. Todoinconclusivos. O “fim das certezas”, como quer Prigogine, fenômeno qualitativo, pelo fato de ser histórico, existeou as “ciências do impreciso”, como quer Moles, não em contexto também material, temporal, espacial. E todolançam sobre o conhecimento um “vale-tudo”, como se fenômeno histórico quantitativo, se envolver o serqualquer discurso pudesse, agora, tornar-se científico por humano, também contém a dimensão qualitativa. Assim,auto-decreto. Ao contrário, isto torna o métier científico o reino da pura quantidade ou da pura qualidade é ficçãotanto mais árduo, por conta da fragilidade intrínseca de conceitual. A própria “qualidade total” está enredadasua argumentação. Se foi um ganho enorme o nesta trama complicada. É comum bastar-se comreconhecimento de que a verdade também é processo quantidades insatisfatórias, como cursos que não vão alémhistórico de construção e desconstrução humana, continua de treinamentos, por vezes relâmpago. Como é comumde pé que não é factível o argumento bem posto sem perfil aceitar qualidade como certas “lavagens cerebrais”, que** A prevenção comum entre pesquisadores qualitativos contra “hipótese de trabalho” como se fosse ardil positivista, já denota aunilateralidade de posição. Hipótese de trabalho é componente útil de todo processo de pesquisa, quantitativa ou qualitativa, eindica apenas um lançamento prévio e sempre aberto de roteiro de trabalho. De modo algum está necessariamente implicadopositivismo em quem usa este conceito, como também não está implicada posição revolucionária em quem usa a dialética. Naprática, a maioria dos que se dizem dialéticos não saberia definir o que é dialética e sobretudo de que dialética se trata
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 93cultivam encontros muito emocionalizados, cujo socialismo representa aquela sociedade perfeita que, porresultado principal é o adesismo. “Fazer a cabeça”, por definição, não pode acontecer; entretanto, é por contaexemplo, será competência de quem se impõe, mas é desta perfeição impossível que podemos criticar e superarsempre incompetência de quem aceita. todos os socialismos reais, na certeza de que nenhum deles esgota a utopia do socialismo. Por isso, diz-se que, quemA) Aproximações categoriais não tem utopia, morreu, já que se contenta com o que tem, ou com o que a história conseguiu realizar. Num primeiro passo, podemos apelar para a Qualidade representaria a utopia da história, noetimologia latina: em latim, qualitas significa a essência. sentido daquilo que de melhor o ser humano nela poderiaAssim, qualidade designa a parte essencial das coisas, realizar. Olhando a história concreta, não seria difícilaquilo que lhe seria mais importante e determinante. Se apontar que participação será um desses fenômenos que 5,34olhássemos ainda para o legado filosófico aristotélico, a representaria esta utopia . Pode ser traduzida comodistinção entre matéria e forma destaca, na forma, aquela comunidade, democracia, associativismo, irmandade,dimensão imaterial dos seres e que, nos seres humanos, solidariedade, etc., fenômenos marcados pela igualdadeseria imortal. A forma é a definição central, enquanto a das pessoas, ou pela equalização das oportunidades, ou 36matéria seria algo circunstancial, temporal, provisório . pela inclusão de todos. A história conhecida jamais Neste sentido, qualidade aponta para a marca realizou uma sociedade dotada desta perfeição, e mesmocentral das coisas e dos seres, aquilo que não se consome assim persiste, de modo teimoso e insistente, a utopia dano tempo, que fica para sempre, que decide o que algo é igualdade, por exemplo. Muitos diriam que adefinitivamente. Esta visão ainda é certamente vaga, desigualdade social é algo histórico-estrutural, porque 54porque é muito complicado decifrar o que “algo é faz parte estrutural da história . Como estrutura, aparecedefinitivamente”. Quando se fala em essência, temos em toda história. Como história, pode ser mudada emtalvez a certeza de que se trata de coisa muito relevante, cada história. Exatamente este dinamismo dialético faz a 29mas, ao mesmo tempo, não sabemos muito bem o que é. história como unidade de contrários . Num segundo passo, qualidade aponta para a Ao mesmo tempo, falando de perfeição, existeperfeição historicamente possível sobretudo do ser sempre o outro lado, da imperfeição. Haveria, pois, umahumano ou da história. Nesta maneira de ver, já maneira de realizar as coisas de modo mais e menosabandonamos a aplicação do conceito a tudo, reservando- perfeito, o que poderia ajudar a localizar melhor o queo para o fenômeno histórico, e sobretudo ao fenômeno seria qualidade. Assim, existe educação com e semhumano. Ao mesmo tempo, não sendo perfeição apenas qualidade, designando, no lado negativo, maneirasalgo dado, mas principalmente construído na história, indesejáveis, inaceitáveis, imperfeitas de educar, e, notrata-se de apanhar aqueles fenômenos que representariam lado positivo, maneiras consideradas adequadas, criativas,conquistas históricas consideradas desejáveis ou que convincentes. No lado negativo, teríamos “deseducação”expressam realização humana relevante. a título de educação, como é o caso do baixíssimo Tratando-se de história, não há perfeição, já que rendimento escolar no Brasil. No lado positivo, teríamosnão tem história o que é perfeito. Condição para ser a realização mais convincente daquilo que seria a essênciahistórico, é ser perfectível. Neste sentido, quando falamos da educação, como a emancipação, a formação da 25,27,28de perfeição, assinalamos basicamente o esforço histórico competência humana na história, a cidadania .para realizar uma história sempre mais perfeita, desejável, Num terceiro passo, qualidade sinaliza osolidária, participativa, etc. Neste sentido, qualidade é horizonte da intensidade, para além da extensão.sobretudo participação, se aceitarmos que a história Significa outra dimensão fundamental de fenômenosparticipativa seja aquela que mais próximo chega da qualitativos que é sua busca de profundidade e plenitude.sociedade desejável. Talvez pudéssemos até aventar que Corre-se, certamente, o risco também de, de novo, 21participação poderia ser sinônimo de qualidade . inventar uma dicotomia entre os dois termos, o que não é 12,44,45,65 Tal contexto nos permitiria trabalhar também real . Se tomarmos o problema dialeticamente,com o conceito de utopia, no sentido de construção quando dizemos que algo é o contrário, estamos ipso factohumana negativa que faz parte da realidade. Como o apontando para um todo com duas faces. Não se trata depróprio termo indica, utopia não se realiza. Utopia coisas contraditórias, ou seja, que não admitem dinâmicarealizada já não é. Entretanto, faz parte da realidade como entre elas. Trata-se exatamente do oposto: somente coisasdialética do contrário, ou seja, como fonte perene da contrárias são dinâmicas, porque existem na polarização.crítica contra aquilo que se tornou real. Frente às Assim, se dizemos que intensidade é o contrário deesperanças absolutas da utopia, o que a história oferece é extensão, não estamos dizendo que uma exclui a outra,sempre pouco e, por conseqüência, cabe sempre a mas que há entre elas uma dinâmica contrária, de teor 22,29revolução. Tomando um exemplo concreto: a utopia do tipicamente dialético .
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 94 Por conta disso, pode-se armar com os dois dois momentos marcantes de sua intensidade: a passagemtermos um quadro bem representativo da realidade pelo clímax — intenso e efêmero — e a seguir o recomeçohistórica, na medida que intensidade denota dimensões da nova fase. Por isso o momento profundo é o autênticotais como: processo, como processo de recomeço, onde a passagema) fenômenos que não se esgotam no superficial, mas não se pulveriza na insignificância, mas se eterniza namarcam-se pela profundidade, como o amor; violência da intensidade. Qualidade não é sólida; éb) fenômenos que reagem à rotina extensa e, por isso, frágil. Não tem resistência dura daquilo que se petrifica.buscam renovar-se sempre, como a felicidade; É passageira, para retornar. Recriar é seu signo. Só sec) fenômenos que primam pela dinâmica do recria, o que passa. O melhor é sempre mais passageiro.compromisso, como é o engajamento político, ou a A vida tem sua sabedoria no equilíbrio contráriomilitância; entre desejos infinitos e realizações parciais. O prazerd) fenômenos que indicam a plenitude da realização sexual é um exemplo: por mais forte que seja o desejo,humana, como é a santidade; também satura. Mesmo divertir-se pode ser cansativo. Ée) fenômenos que valorizam participação humana, mais fundamental variar. Todavia, a surpresa não pode serque a mera presença física ou quantitativa, como é o diária, pois já não surpreenderia, mas é essencial. Oenvolvimento comunitário, a democracia, a cidadania; orgasmo é por definição passageiro, pois é gestof) fenômenos que apontam para dimensões valorativas fisicamente limitado. Na sua passagem pode ser intenso, 1do ser humano , como a dedicação, a ética, a abnegação, profundo, totalizante. Mas não é factível sua continuidadeo envolvimento, a prestatividade, a solidariedade, etc. extensa, tanto por impossibilidade física, como sobretudo A intensidade aponta para a dimensão do melhor, porque quebraria seu encanto. É lei da vida: após o clímaxenquanto a extensão se volta para o maior. Ter mais ou vem inevitavelmente a calma. Esta é que dura, o outroser melhor por vezes representam uma disjuntiva, que, passa. É possível inventar modos e jeitos para prolongarna prática, deveria ser um todo: quantidade a serviço da o prazer, mas é sobretudo importante poder recriá-lo.qualidade, ou como condição material de qualidade. A Passagem criativa, que passa, não para desaparecer, massabedoria da felicidade está em transformar o passamento para reviver. Esta é a eternidade que interessa; a outra 9,14,16,49extenso em passagem intensa. Pois nenhuma solução é aborrece .total, e o homem como problema não tem solução, pois Diante dos desejos infinitos, não há soluçãonão é defeito, mas modo de ser. Nisto precisamente é cabal. Há propriamente pactos. Porquanto, toda soluçãodesafio, pretensão, ânsia, afã. A história é passageira, mas reencontra novos problemas e toda fase propicia aem cada fase não acaba; ao contrário, continua. Continua seguinte. Esta cisão é fundamental para se compreendersempre, não porém como continuidade contínua, mas o ser dialético. Tem a constituição de problema estrutural.como eterno recomeço. No plano formal, algo Assim, em parte não é problema, pois, sendo problemacontraditório. Na história real, apenas contrário. Toda na estrutura, não é problema histórico, mas condição dada.superação é também recomeço. Não há solução final e A limitação histórica não é limite, porque taldefinitiva, pelo que não se pode imaginar felicidade incompleição não é falta, mas marca. A unidade deeterna, que já seria extensão da monotonia. contrários está na sua alma. Não é acidente, descuido, Ao se vencer um desafio, vem o próximo; ao se nem degeneração, mas modo melhor de ser. Emrealizar um ideal, surgem outros. Continuidade extensa conseqüência, não pode haver receita definitiva daé a morte. A morte é a extensão mais monótona que a felicidade, por mais que nela se reconheçam lógicas.história conhece. Se toda revolução, de um lado, Felicidade é arte, criatividade. É sabedoria, que provémenvelhece, a partir de dentro, como regra da vida, por sobretudo da prática irrepetível. Se é variação, passagem, 60,76outro, aí mesmo elabora seu recomeço . Pois todo seria contraditório querer receita da qualidade, porquantoclímax é passageiro, por mais que o desejemos eterno. teríamos que inventar a receita da não-receita. ComoEternidade não vem compreendida como continuidade garantir a continuidade invariante do que é essencialmenteda mesmice, na horizontalidade estável, mas como auge provisório? Não se pode, a rigor, programar o improviso.da intensidade. Verticalmente eterno é o momento total, A intensidade também se alimenta da surpresa.não por durar sempre, mas por buscar esgotar a A felicidade tem a lógica da flor: não há comoprofundeza da intensidade no momento da passagem. É separar sua beleza da fragilidade e do fenecimento.o momento que vale tudo, tão intenso que é possível Entretanto, o fenecimento não é apenas a destruição de“morrer de felicidade”. A vida toda vale este “instante sua beleza, mas condição de recomeço. Assim, deve-setotal”. Na história, não interessa a eternidade como linha aceitar que a flor é bonita porque fenece. Flor que ficareta, sempre a mesma, formal e fria, mas a curva dinâmica sempre é de papel, artificial. É cópia. A flor viva vive aem busca do ápex. Este é apenas o momento mais alto — contrariedade da vida: desgasta-se, passa. A seguir, brotaum só —, mas define seu alcance. A felicidade realiza os de novo. A felicidade possui o frenesi do desejo eterno
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 95na sua estrutura, mas realiza-se na passagem intensa de bem e para o mal, a solidariedade atrai menos que aum momento na sua história. Ser feliz é multiplicar influência, a ética não comparece como dada, mas apenasmomentos felizes. Ou: saber deglutir a infelicidade, que como dura e frágil conquista, há sempre uma distânciaé diária, para saborear melhor a felicidade, sempre que marcante entre o que cada sociedade promete ser e o quefor possível. Felicidade, não se passa por ela. É ela na é de fato, e assim por diante;passagem. A maior infelicidade é querer a felicidade total, d) todo ser humano é uma potencialidade, por ser umtoda hora. Todo amor acaba traído. Dói. Mas fenômeno intrinsecamente político; ele é o artífice centralrecomeça 8,11,18,39,40,48,56,83,85,87,88 . de sua própria obra história, mas não está sozinho no Olhar a qualidade a partir da ótica da felicidade mundo; para desabrochar, é mister ainda que existampode induzir a restringir o desafio ao plano pessoal ou circunstâncias dadas favoráveis, bem como um ambientepsicossocial. Para nossos fins aqui, o realce maior estará humano receptivo; politicamente falando, a lógicaligado ao horizonte político do ser humano, no qual o dialética do poder propende a privilegiar o mais forte, orepto central não é ter mais, mas ser melhor. Trata-se de mais rico, o mais sagaz, do que o mais humano;visualizar a história como obra coletiva, na qual, e) são fenômenos marcantes da qualidade humana asprincipalmente sob o horizonte da cultura e da identidade expressões da arte, da estética, da sensibilidade, dacultural, o ser humano comprova que é capaz de fazê-la, cultura, mais do que os resultados ditos civilizatórios,ou seja, de fazer e fazer-se oportunidade. Certamente, que refletem o progresso como imposição e como espaçonão podemos destruir o contexto dialético da história, material; ao mesmo tempo, representa arte humana crucial saber transformar o progresso em bem comum, realizandoquer dizer, qualidade política não expressa apenas o lado um dos traços mais profundos do que podemos chamarbom, não só porque este não está sozinho, mas sobretudo de competência humana;porque tende a ser minoritário. A história conhecida f) para resumir, qualidade essencial é a competência depropende muito mais a ser um ato de afirmação tornar cada vez mais humana a história do ser humano.excludente, do que de solidariedade ilimitada. Assim, nacultura de cada povo não está escrito apenas a B) Qualidade Humanacomprovação histórica de sua competência em identificar-se, sobreviver e fazer uma sociedade, mas igualmente de Os três passos anteriores levam a admitir, desdeconquistar espaço próprio e de se impor. Por isso, quando logo, algumas características da qualidade, sobretudofalamos de competência história, a tendência é interpretá- quando assumida como qualidade humana. A ONUla como conquista que se impõe. Ao dizermos, entretanto, acabou admitindo a idéia de “desenvolvimento“competência humana”, buscamos ressaltar a história humano”, sinalizando que as outras adjetivações (social,solidária. econômico, ecológico, etc.), seriam melhor representadas O realce do horizonte político da qualidade nos pela marca humana. Com isto ficou também superado,leva a enfocar expressões histórico-culturais marcadas pelo menos até certo ponto, o conceito de “qualidade denão só pelo progresso técnico e econômico, mas sobretudo vida”, que muitas vezes não consegue explicitar-se depor sua humanização, como desafio eterno de uma obra modo suficiente, seja porque denota quase apenaspor definição inacabada. Podemos ressaltar: horizontes quantitativos (salário, moradia, condiçõesa) fenômenos históricos relevantes são conquistas como sanitárias, transporte urbano, etc.), seja porque descambaa democracia, a cidadania, os direitos humanos, a facilmente em dicotomias contra a “quantidade de vida”.participação, a comunidade organizada, etc.; expressam Pode-se usar o termo, assim mesmo, mas pareceo tipo mais qualitativo de cada sociedade, porque não só claro que o conceito de desenvolvimento humano, mesmoapontam para a competência de se organizar, mas provindo de ambiente neoliberal, é muito mais rico,sobretudo para a competência de participar, dentro do sobretudo porque expressa a construção e a conquista dadesafio de construir uma sociedade cada vez menos competência histórica humana. Não é dada. Édesigual; tipicamente conquista. Ou, como diz a ONU, éb) ao mesmo tempo, tais fenômenos marcam-se pela “oportunidade”. Pode ser feita, melhorada, conquistada,fragilidade histórica: são tão bonitos, quanto fugazes; bem como obstaculizada, destruída, esquecida. Afacilmente viram no contrário (democracia como tática qualidade humana essencial seria aquela que expressa ade acumular privilégios, cidadania corporativista, competência histórica em dois momentos de conquistacomunidades beligerantes, etc.); é difícil construí-los, e substancial: fazer-se sujeito, deixando a condição demais ainda mantê-los; a expressões mais qualitativas, objeto ou de massa de manobra, e, a partir daí, fazercomo profundidade, intensidade, envolvência, história alternativa, marcada pela eqüidade e pelaparticipação, são, por definição e história, passageiras; ética26,72.c) a ambiência naturalmente ideológica revela, por sua Diante disso, podemos assinalar algunsvez, a marca dialética mais íntima: pode servir para o horizontes que caracterizam a qualidade.
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 961. Qualidade é atributo humano na rotina, que a tudo mata, porque não deixa passar; a coisa mais histórica que a história conhece é o desgaste Somente o ser humano é capaz de qualidade, pois no tempo; qualidade é a capacidade de se confrontar comtrata-se de um fenômeno histórico-dialético. A matéria este desgaste, impondo ao tempo, no momento, anão teria qualidade, a não ser aquela que fosse dada, ou intensidade que a extensão nega; 2,53,63,64,91tomada como algo dado . Poder-se-ia dizer que c) a criatividade é uma dinâmica provisória, não umaum diamante tem mais ou menos qualidade, dependendo situação definitiva; a criação mais profunda do serde sua pureza. Há aqui uma questão de perfeição, mas humano não é uma sociedade acabada, mas por se fazer;que não é conquista humana histórica. toda instituição envelhece; por isso, viver é, Por ser atributo humano, qualidade é função essencialmente, renovar-se; quem se renova não deixaprecipuamente da educação, já que educação é o caminho de envelhecer — isto é implacável para um ser históricocrucial da competência histórica. Para o ser humano ter — mas impõe à extensão temporal momentos deoportunidade e sobretudo ser oportunidade, necessita criatividade intensa***;construir a competência mais radical que existe, que é a d) utopia é o afrontamento dos limites, dentro dosde fazer-se sujeito. Não é à-toa que a ONU, ao classificar limites; buscamos a perfeição, sabendo que nenhumaos países de acordo com o desenvolvimento humano, história é perfeita; a perfeição da história é a oportunidadecoloca, entre os três indicadores usados, a educação em possível de aperfeiçoá-la; só pode ser momentânea aprimeiro lugar. O que melhor trabalha o horizonte das sensação de plenitude, dentro de uma história que nãooportunidades e principalmente torna o ser humano pode jamais ser plena; qualidade é essencialmente umaoportunidade é o processo educativo, desde que seja esperança, que vale sobretudo pela capacidade de 50,58,86emancipatório . A seguir vem o indicador da mobilizar, fazer fé, comprometer, envolver;expectativa de vida, que mistura sabiamente traços e) realizar-se é saber ceder; toda convivênciaquantitativos (anos de vida) com qualitativos (desfrute participativa, se, de um lado, enriquece a pessoa, porqueda vida). E por fim aparece o indicador material ninguém se realiza sozinho, de outro, estar juntos é estarpropriamente dito, que é o poder de compra. Está cercado de limites; na comunidade, somos melhor, masassinalado aqui que o desenvolvimento humano é temos menos.basicamente questão de qualidade, não só de quantidade. Tomando o exemplo da felicidade, pareceOu seja, é sobretudo questão de ser, não de ter, por mais evidente que seja um fenômeno dialético típico, cabendo-que entre ambos não se possam inventar dicotomias. lhe as qualificações acima arroladas. Os próprios poetas Com isto já se aposta numa direção clara: quando repetem sempre que “felicidade são momentos felizes”,se busca qualidade em qualquer instituição, o que temos ou que o amor é eterno, enquanto dura. O ser humanode trabalhar melhor são os seres humanos envolvidos, corre todo dia atrás da felicidade, mas a realiza aosou como se diz na qualidade total, os “recursos pedaços, se tanto. É momento e pode ser forte, por ser 47,77,79,80,81humanos” . O que faz a qualidade de uma escola momento. Se esticarmos, entra na extensão, vira rotina.não são a parabólica, ou a videoteca, ou os computadores, Este é o drama do amor. Começa intenso, e vai decaindomas o naipe de profissionais nela engajados. na extensão. Assim sucede no fenômeno participativo. No início, todos ou muitos prometem participar, por2. Qualidade é dialética exemplo, num sindicato, numa associação, num partido, numa comunidade eclesial de base. Com o tempo, esfria A dialética humana é da unidade de contrários, o envolvimento e cada vez menos gente aparece.encontrando aí sua dinâmica histórica própria. Faz parte Freqüentemente, acontece que ninguém mais comparece,desta lógica polarizada, entre outras coisas: ficando os chefes sozinhos. Nossas assembléias gerais,a) tudo que é profundo, é passageiro; a intensidade como regra, são um panorama desolador: alguns “gatostransforma-se em extensão, se perdurar; vira rotina; a pingados” sustentam o fenômeno participativo, e porprofundidade tem a lógica do momento, e no momento vezes também se aproveitam disso para manipular ospode ser avassaladora, total, plena, não na extensão presentes.esticada; ser passageiro denota, ao mesmo tempo, a A provisoriedade da intensidade é marca dialéticafugacidade da vida, mas sobretudo sua maneira própria natural, onde se comprova fenômeno histórico nade ser; passar não é vicissitude, é essência; essência: sua forma de ser é passar, não é ficarb) o que é bom, acaba; o bom extenso, enjoa, satura, indefinidamente. Temos a propensão de esperar daenoja; acabar é condição de qualidade, para não se esvair história a extensão esticada, mas que não passa de rotina.*** Não segue destas considerações que criatividade seja mera “inspiração”. Segue apenas que inspiração não pode ser cotidiana
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 97Na verdade, esta é necessária, porque não se pode viver, rigor, ser o mesmo todo dia. Poderá voltar a ser mais outodo dia, de criação total, invenção de tudo de novo. menos o mesmo, mas depois da baixa. Se for resgatado.“Nada como um dia após o outro”. Mas tudo isto é Na prática, não é viável um programa permanentemediocridade. A história que nos interessa é aquela que, de qualidade permanente, porque a qualidade permanentesendo inevitavelmente extensa, é sacudida de maneira já não é qualitativa, ao virar qualidade rotineira, extensa.reiterada, teimosa, persistente pelo ímpeto de renovação. O que deve ser permanente é o esforço permanente de aRenovar a rotina não desfaz a rotina, porque a própria renovar. A qualidade total vive profundamente esterenovação pode tornar-se rotineira. Mas é na utopia da drama, dentro do contexto da educação voltada para orenovação que nos realizamos historicamente, porque é mercado: é muito importante o envolvimento dinâmico,assim que não nos vemos apenas como desgaste participativo dos recursos humanos; os “treinamentos”implacável, mas como competência de criar. buscam, entre outras coisas, agitar o envolvimento de Para afrontar limites é preciso saber deles e todos, fazem dinâmica de grupo, estimulam ambiente desobretudo que somente os afrontamos limitadamente. Esta convivência positiva, etc.; mas todos sabem o quanto éteimosia é que faz a dignidade histórica do ser humano, difícil manter este espírito. Qualidade total não é umque não aceita ser apenas resto histórico, mas sujeito produto que se tem ou se guarda, mas sobretudo umadinâmico dela. Aí está a diferença qualitativa: história conquista constantemente renovada.como mero desgaste, ou história como desgaste Neste contexto, seria possível aduzir que o termoatormentado pela teimosia de criar. “qualidade total” é profundamente enganoso, porque desconhece ou escamoteia a dialética histórica. “Total”3. Qualidade é difícil de gerar, e é muito mais difícil acaba restringindo-se ao esforço obsessivo para provocarde renovar e manter a adesão dos recursos humanos aos fins da empresa. Ao mesmo tempo, ao reconhecer-se a Trata-se de perceber o desafio crucial de não só necessidade de atualização permanente dos recursosgerar fenômeno qualitativo, como é a participação, mas humanos, é incongruente imaginar que isto se torne algosobretudo de manter a chama acesa do envolvimento “total”, ocultando exatamente o desgaste inevitável dopolítico. Uma coisa é um partido grande, outra é um tempo. Assim, a qualidade total implica propagandagrande partido. Este não é necessariamente grande em enganosa!número, mas em qualidade participativa, em militância,em decisão política efetiva. 4. Qualidade é decisiva, mas não mecânica Assim, de um lado aparece o repto histórico defazer uma história marcada pela intensidade e não só pela Tem, neste sentido, a lógica do conhecimento.extensão, pela mediocridade, pela reprodução. São, pois, Este expressa uma das qualidades humanas maisessenciais os fenômenos da democracia, do significativas, tendo sido tomado, na história da filosofia,associativismo, do sindicalismo, da emancipação coletiva, como a marca mais central do ser humana (animalporque é neles que emerge a competência histórica de rationale). Hoje, apostamos muito na força dofazer e fazer-se oportunidade. Mas, de outro lado, aparece conhecimento, tomando-o até mesmo como o “capital”o desgaste histórico implacável, porque, na história, o decisivo da própria economia moderna. As famílias, porque fica, é a rotina. Não existe nenhuma condição de sua vez, zelam pelo estudo dos filhos, acreditando quequalquer fenômeno humano não se desgastar seja a melhor maneira de lhes garantir um futuro melhor.historicamente. A morte não contradiz a vida, pois é Mesmo assim, cabe reconhecer — para serapenas seu contrário. Não é vida o que não morre. coerente com a própria lógica do conhecimento Esta marca dialética faz da qualidade um desafio questionador — que ele é, na essência, potencialidade,de resgate permanente, de tal sorte que o permanente não disposição, prontidão. Como diz a crítica devastadora pós-será mais uma situação definitiva, institucional acabada, moderna, o conhecimento não sabe garantir-se, porquemas a persistência da renovação. Ser competente é sua presença não implica necessária ou mecanicamente,essencialmente saber renovar-se. É difícil, sem dúvida, que seja efetivo. Um decisor pode dispor dopor exemplo, gerar uma proposta qualitativa na escola, conhecimento mais atualizado possível, e, mesmo assimcomprometida com a aprendizagem do aluno, com um ou à revelia, tomar uma decisão pelo avesso. Um educadorprojeto emancipatório ou com a participação de todos, pode ter doutorado em educação e, mesmo assim, ou atéinclusive da comunidade. Mas é ainda muito mais difícil por causa disso, educar muito mal seus próprios filhos.manter o envolvimento sempre aceso. Na verdade, é Esta marca está contida na própria vervehistoricamente impossível manter sempre aceso, porque questionadora, porque mais facilmente desconstrói, dotodo fogo, é fogo, porque apaga. Tudo que queima, que constrói. Tudo que o conhecimento constrói, emtambém vira cinzas. Assim, o envolvimento não pode, a seguida desconstrói, por questionamento permanente e
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 98por impulso de inovar sempre. Somente inova, o d) usando linguagem da lógica clássica, qualidadeconhecimento que não só questiona, mas sobretudo se humana é condição necessária, mas não suficiente de umaquestiona. Assim, o que o torna permanentemente história humana; dialeticamente falando, não existeminovador é a capacidade de questionar e se questionar condições suficientes na história, por não seremsempre. Quer dizer, sua força está na fragilidade dialética, propriamente históricas; história é precisamente oexpressando tipicamente a dialética da potencialidade. horizonte das possibilidades inesgotáveis, não umO que é potencial, só o pode ser na medida da amplidão tabuleiro de carta marcada.infinita de maneiras possíveis de vir-a-ser, mas, por contadisso, pode ser qualquer coisa, inclusive não ser. É como 5. A história da qualidade é sobretudo de sua traiçãoo “berço”, aludindo-se à qualidade humana de alguémque teria sido “bem-educado”: é decisivo, mas facilmente Traição vem compreendida no duplo sentidose perde. dialético: de um lado, daquilo que, sendo intensamente Assim, qualidade humana representa o que há bom, degenera no extensamente ruim; de outro, dade mais intenso, profundo, perfeito que o ser humano infidelidade ao cotidiano, para ser criativa. O cotidianopode construir, mas daí não seguem efeitos automáticos chora, como se diz em antropologia, porquanto é feitoou mecânicos, precisamente porque estes não são, em si, sobretudo de tristeza, mesmice, repetição, mediocridade.“humanos”. Sem um naipe qualitativo de professores, não Tal qual o bom menino, que é considerado bom porquehá aprendizagem adequada dos alunos. Isto é certo, talvez nada inventa. Perfeitamente medíocre.o que haveria de mais certo. Entretanto, é possível que O cotidiano pode ser visto como a traição de cadauma professora mal preparada alfabetize melhor as dia da utopia da vida, onde viver já é quase só vegetar,crianças do que uma especialista mundialmente apenas passar pela vida, ser espectador, ou mero objeto.reconhecida, assim como parece ser o caso no Brasil de Por outra, para confrontar-se com o cotidiano, é misterum desempenho mais convincente da normalista, saber traí-lo. A criatividade é sempre um ato decomparado ao licenciado, embora este, por deter mais infidelidade, como é a ciência crítica. Para inovar, é misteranos de estudo, devesse “educar” melhor. desconstruir, desfazer, recomeçar. Destruir uma rotina que No plano político, esta problemática é por vezes a tudo destrói, é o desafio maior da qualidade, que precisamuito evidente, por exemplo, quando se defende que, para trair o cotidiano, para não ser sempre traída. A estratégiaser Presidente da República, não se exigem títulos da qualidade é principalmente a vigilância obsessivaacadêmicos, a não ser certo limite de idade e alguma contra a mesmice institucional, que faz tudo repetir-seescolaridade mínima, além de requisitos de para ficar na mesma.comportamento público. Não caberia defender que o A vida em sociedade é sobretudo uma estratégiaPresidente devesse ter doutorado em administração de acomodação, de tal sorte que cada dia é o mesmo dia.pública, como estaríamos dispostos a defender que o Lula Predomina, de longe, a pressão pela conformidade, sobrepode ser Presidente, mas não professor. Na verdade, o esforço de criatividade. Todos esperam que cada qualestamos procurando no Presidente principalmente uma cumpra com seu dever, ou seja, não invente moda, nãoqualidade política, que não se expressa necessariamente pretenda ser diferente, não discrepe. Mediocridade geralpor externalidades, como anos de estudo ou montante de é a sina da convivência humana. A fidelidade às normasriqueza. Do que se trata?: e valores, levada a extremos, decreta a descaracterizaçãoa) é mister distinguir entre instrumentações formais e de um ser humano criativo.materiais da qualidade, da qualidade política como tal; Assim como a morte é a traição da vida, a vidaesta necessita daquelas, mas a elas não se restringe; assim, como mera repetição é a traição da felicidade. Por isso, aum doutor em educação não é automaticamente um bom maneira de esticar a felicidade não é prolongá-laeducador; extensamente, mas interrompê-la estrategicamente.b) como qualquer potencialidade, sua direção histórica Ressuscita melhor o que sabe morrer. Não pode ser vidanão está predeterminada, mas efetivada de acordo com o o prolongamento da agonia. O amor vira rotina,envolvimento ideológico e ético em jogo; assim, invariavelmente, não tanto como defeito, mas como marcaprofessores bem preparados formalmente podem histórica natural. Qualidade é a luta, por vezesapresentar um desempenho, em termos de aprendizagem desesperada, de retomar uma intensidade que teima emdos alunos, pior que outros tidos por mal preparados; transformar-se em extensão. Não há receita para estac) toda qualidade humana paga o preço da liberdade e do retomada, mas parece certo que é mister trair. Bemrisco histórico; ou seja, sendo dialética potencial, é dúbia, entendido, trair no sentido de surrupiar do cotidiano chatofrágil, em grande parte imprevisível; é tudo que podemos momentos felizes. Até porque a fidelidade pode serdesejar, mas nunca é tudo que podemos fazer, além de apenas extensa, sempre que decair no relacionamentogastar-se com extrema velocidade; repetido, mecânico, formal. É neste sentido que se deve
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 99dizer: todo projeto criativo, continuará criativo, se é sempre excludente e nisto afoga o questionamento.encontrar traidores. O traidor pode ser aquele que apenas Esta característica levou a reconhecer quese opõe ao projeto. Mas o traidor aqui procurado é quem conhecimento perdeu seu valor de uso. Somente oé infielmente fiel à criatividade. conhecimento que se renova vale a pena e serve para renovar. Guardar conhecimento, estocar, armazenar,C) Qualidade formal e política apropriar-se dele, adquirir, são expectativas arcaicas, que, na prática, desfazem a virtude inovadora do No campo educativo, convém distinguir duas conhecimento. O que interessa é a reconstrução dodimensões da qualidade, que, na prática, aparecem conhecimento, porque conhecer é substancialmente 7,10,37,69globalizadas: o lado formal e o lado político. reconstruir conhecimento . O que mais inova é também o que mais envelhece. O que mais e melhor traz1. Qualidade Formal novidades na história, é também aquilo que a torna tanto mais provisória. A velocidade das grandes mudanças se Por qualidade formal compreendemos a perfeição acelera cada vez mais. O que se via em mil anos, hojedos meios, dos instrumentos, dos procedimentos, e se pode ser vivenciado numa geração.refere substancialmente ao conhecimento. Este é o Aí temos, pois, um caminho da qualidadeinstrumento mais efetivo de inovação histórica, ou seja, essencial para a educação. Se quiser manejar a capacidadeé a arma mais potente de renovação de uma história que de inovar a história, de intervir nela como sujeito que a 51,52,55teima sempre em se desgastar . faz, de fazer e fazer-se oportunidade, o ser humano precisa Entretanto, o próprio conhecimento representa, manejar conhecimento. Em termos instrumentais, eis onele mesmo, a provisoriedade de uma história renovada. instrumento maior e melhor. Espera-se, por isso, que aSendo, na essência, uma estratégia de questionamento, criança aprenda de fato na escola, ou seja, construatem sua virtude principal no método, mais do que na formação básica capaz de saber pensar para melhorfabricação de conteúdos. Estes sempre envelhecem, por intervir. Esta habilidade propedêutica é crucial para darserem históricos. O que não envelhece é a capacidade de conta dos desafios da modernidade e, como veremos,se opor permanentemente ao envelhecimento. Esta sobretudo para educar a modernidade. Ler a realidadecompetência de sempre se renovar é a competência com competência é a forma mais efetiva de nela intervir 15,31humana mais típica e relevante. alternativamente . O exemplo dos computadores é paradigmático. Supera-se com isto a tradição do mero repasseTodo modelo novo é feito para ser superado. Não é viável de conhecimento. O aluno não vai à escola para adquirirum computador definitivo. O que faz dele uma máquina conhecimento, ou apropriar-se dele, ou para assimilá-lo,interessante é que implica, nela mesma, a necessidade de mas estritamente para reconstruí-lo. O que o tornaincessante renovação. Este exemplo é interessante oportunidade histórica, em termos instrumentais, étambém porque denota uma face preocupante da principalmente esta habilidade. De apenas escutar, tomarrenovação, ligada à dinâmica do mercado. Renova-se nota e fazer prova, ninguém fica competente. Aotanto a informática, porque é essencial à produtividade contrário, é a rota clássica da subalternidade. É ser restomoderna, não principalmente porque é importante para a do outro mundo que sabe reconstruir conhecimento.história humana. O que é crucial para a humanização da Assim, enquanto o Primeiro Mundo pesquisa, o Terceirohistória renova-se menos do que o que é essencial para o dá aula!mercado. Isto quer dizer que nossa história conhecidarepresenta, diante do mercado, uma subalternidade que 2. Qualidade Política 13,35deveríamos, com o tempo, saber também superar . Mas isto não desfaz o desafio de atualização Todo instrumento encontra sentido na finalidadepermanente, tão típico do conhecimento moderno. A a que serve. Conhecimento não vale por si nem em si,própria marca do questionamento leva a isto, tanto por mas como meio para realizar os fins e os valores sociais,uma necessidade lógica, quanto por uma necessidade em termos do bem comum. Qualidade política tem a ver 24,27,46democrática . O conhecimento, que funciona pela principalmente com a ética do conhecimento, da história, 3,4,70via do questionamento, somente é coerente consigo das intervenções .mesmo se souber sobretudo se questionar. A lógica do É sempre possível reconstruir o melhorquestionamento é a mesma do auto-questionamento, conhecimento possível para imbecilizar, torturar, destruir.porquanto a competência da crítica está na autocrítica. Esta preocupação é forte hoje em muitos críticos daPor outra, questionar implica reconhecer o direito de todos ciência, porque, ao lado da instrumentalidade fantásticade falar, seja porque qualquer consenso somente subsiste que coloca à disposição do ser humano, representase for democrático, seja porque a reserva de conhecimento também risco forte de exclusão. A ciência costuma crescer
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 100tanto mais por força do mercado ou servindo aos em fenômenos específicos, como o da participação, 51,52,57,84poderosos, não pela ética do bem comum . educação, democracia, comunidade, etc. Pode-se também Aqui entra em cena a necessária ética do ser apontar caminhos concretos de como se gesta e resgatahumano que não só sabe inovar, mas sobretudo sabe qualidade, em termos formais e políticos, dentro dohumanizar a inovação. Sabe fazer uma história humana, contexto do manejo instrumental do conhecimento e decom base na competência humana. Para tanto, necessita sua implicação ética.do conhecimento, porque é o meio mais efetivo. Não pode Ao mesmo tempo, pode-se evitar o discursohaver um sujeito histórico competente que não saiba perdido e lunático em torno da qualidade, comum amanejar conhecimento. Mas esta competência não é tudo. educadores que não ultrapassam o nível persistente dasÉ apenas instrumental. Há ainda que incutir a devida ética. “considerações gerais”. Qualidade não pode ser apenas Trata-se, pois, da cidadania, compreendida como problema teórico. É sobretudo desafio prático. “Sabera competência de tomar, pela consciência crítica, a fazer e refazer qualidade” — eis a questão. Pelo fato dehistória nas mãos e torná-la bem comum. E esta é a meta educação, por mais intensa que seja sua qualidade, nãocentral do processo educativo, ou seja, de gestar sujeitos produzir efeitos mecânicos e automáticos, disto nãohistóricos devidamente instrumentados no conhecimento, decorre que seja algo intangível. A intensidade quepara intervir melhor na história. Intervir melhor significa melhor se pode ver, é aquela que também melhor seprecisamente não permanecer apenas na intervenção, mas define.fazer dela bem comum. Esta definição mais acurada de qualidade pode colaborar em especificar melhor os objetivos pretendidos A definição de qualidade pode parecer um jogo em educação, bem como em avaliar com profundidadeteórico. Entretanto, como nada é melhor para a prática mais convincente a intensidade de fenômenosdo que uma boa teoria, será o caso perceber que nenhuma considerados estratégicos, como a formação básica. Nãoprática da qualidade é qualitativa se não souber definir- cabe, por exemplo, permanecer apenas em expressõesse conceitualmente. Acaba tornando-se “qualquer coisa”. quantitativas, como meros anos de estudo, bem assim Um exemplo disso está nos treinamentos comuns em expressões apenas formais de testes, como rendimentona “qualidade total”. Por não usar conceitos adequados escolar mensurado por testes de conhecimento. Seráde qualidade, passa-se a admitir que a competência possível perseguir melhor dimensões mais substanciaishumana provenha de meros treinamentos, que tratam a como o saber pensar para melhor intervir e inovar,pessoa humana como objeto de ensino. Estritamente, compondo qualidade formal e política. Quando criticamosrepassa-se conhecimento, esperando que os recursos didáticas reprodutivas, acenamos para o desafiohumanos o absorvam, internalizem, transformem em reconstrutivo, que se compõe melhor com processosconduta, de fora para dentro. Nada é mais contraditório emancipatórios do sujeito e da formação histórica decom a condição de sujeito ou de qualidade humana do sociedades alternativas. Se é dificílimo avaliar qualidadeque ser objeto. política, podemos pelo menos orientar avaliações da A qualidade total, freqüentemente, esvai-se em qualidade formal na esteira de instrumentações datáticas de adesismo, através da qual busca-se envolver qualidade política.os trabalhadores na dinâmica da empresa. Esta precisa A qualificação do cidadão e do trabalhador nãode conhecimento renovador e sobretudo de gente que se esgota em treinamentos estereotipados, mas precisasaiba manejar conhecimento renovador. Mas, com base evoluir para a idéia de alimentação constante daem noção truncada de cidadania, privilegia-se e por vezes empregabilidade e da atuação política organizada. Aoexclusiviza-se a relação com o mercado. Aumenta-se a mesmo tempo que podemos mostrar, estatisticamente, queoportunidade de lucro e produtividade, mas dificilmente é o fator preponderante do acesso à renda, seria aindamelhora-se a condição do trabalhador. mais importante revelar que é o apoio mais decisivo de Treinamento é uma iniciativa incapaz de gestar uma cidadania capaz de redistribuí-la. Não basta, assim,autêntica formação básica, compreendida esta como a preocupar-se só com salário e treinamento doscapacidade de saber pensar para melhor intervir, na professores, porque é sobretudo fundamental garantir ainterseção entre qualidade formal e política. Fica-se relação intrínseca com a aprendizagem adequada dosapenas com a qualidade formal, se tanto. Treinamento alunos. Olhando assim, podemos logo concluir quenem isto faz, porque permanece com a cópia do treinamento nunca faz isto, e que salário pode não terconhecimento, não impulsionando sua reconstrução. nada, mas pode ter tudo a ver com a aprendizagem dosEvita-se a qualidade política, que somente é factível no alunos. Porquanto, se o professor não for a prova viva daberço da educação emancipatória. cidadania, ou seja, a prova de que educação leva à Uma definição mais acurada supera a noção de cidadania, incluindo-se aí obviamente a dignidadequalidade como fumaça esgarçada num horizonte salarial, não tem como contribuir para a formação daimpreciso, permitindo inclusive localizá-la concretamente cidadania do aluno.
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 101PESQUISA QUALITATIVA - USOS E ABUSOS qualidade está em primeiro lugar, seja pelas quimeras da qualidade total, seja pela saturação dos métodos Fizemos no capítulo anterior um esforço de excessivamente formalizantes e nisso empobrecedoressistematização do conceito de qualidade, dentro da da realidade, seja porque precisamos avançar emcoerência científica formalizante. Enquanto qualidade for horizontes tão intensos, quanto difíceis de devassar. Asqualquer coisa, pesquisa qualitativa também o será. Como ciências físicas e biológicas acenam com umase viu, é dificílimo traçar relevos da qualidade e mesmo aproximação sem precedentes. Todavia, não vai valer aassim é essencial defini-la em termos lógico-formais. Tais pena trocar um exagero, por outro.definições devem ser vistas como instrumento Por fim, algo intrigante: grandes autores voltadosmetodológico, não como aprisionamento formal. Vale para realidades mais qualitativas, como Habermas e asaqui a regra clássica da hermenêutica: muitas vezes é dimensões de seu “mundo da vida”, ou os pesquisadoresmais relevante o que está oculto, o que não se diz, o que da inteligência, ou os biólogos e físicos que buscamse esconde. perscrutar a “capacidade de aprendizagem da matéria” e Pesquisa qualitativa significa, na esteira de nossa de todo ser vivo, não recorrem aos ditos “métodosargumentação, o esforço jeitoso de formalização qualitativos” que os cientistas sociais valorizam.perante uma realidade também jeitosa. Trata-se de uma Chomsky, por exemplo, reconhecido hoje como um dosconsciência crítica da propensão formalizante da ciência, autores mais sensíveis à qualidade democrática dossabendo indigitar suas virtudes e vazios. Portanto, o que Estados e governos, não usa tais metodologias. Muitas vezes se assacou contra pesquisadores latino-americanosse ganha e se perde com cada método. Ao mesmo tempo, que gostam de pesquisa qualitativa a acusação de queuma pesquisa qualitativa dedica-se mais a aspectos seria “coisa do Terceiro Mundo”. De fato, o mundoqualitativos da realidade, ou seja, olha prioritariamente desenvolvido a maneja apenas marginalmente. A própriapara eles, sem desprezar os aspectos também ONU em seus Relatórios sobre Desenvolvimentoquantitativos. E vice-versa. Humano, expressamente voltados para a qualidade Se tomássemos o exemplo de uma análise do humana da população, faz tudo isso com indicadoresdiscurso, o que buscamos é sobretudo suas implicações clássicos, embora reconstruídos sob outros horizontes.hermenêuticas, que facilmente nos escapam ou são Inclusive faz-se um índice de desenvolvimento humano,invisíveis/imperceptíveis, quando não agem exatamente que, a rigor, não pode ser medido.pela ausência ou pelo silêncio. Esta realidade tão forte Sucede, a nosso ver, que tais pesquisadores nuncaquanto arredia pode ser nosso objeto de análise. abandonaram as vantagens da formalização científica,Entretanto, para chegarmos lá, é mister antes catalogar o quando feita com juízo. O índice de desenvolvimentodiscurso, fazer uma exegese de frases e palavras, humano expressa muito menos uma “medida”, do quequantificar recorrências, vocábulos, expressões mais um composto de traços qualitativos numericamentefreqüentes, não para ficarmos aí, mas vermos melhor a construídos. Neles exala-se menos a extensão, do que apartir daí. Assim, quem sistematiza melhor, pode ter intensidade do bem-estar. No fundo, temos o mesmo casovantagem. Um questionário aberto pode ser a porta de nas notas que damos aos alunos. Alguns querem umaentrada para um mundo de representações sociais mais “menção”, porque seria menos agressiva, ao não parecersubjetivas, e por isso mais profundas e determinantes, à “medida”. Na prática é medida, com todas as letras. Emedida que permite a fala descontraída, realista e natural, quando necessitamos de médias, reduzimos menções aa não-linearidade de respostas sobre realidades notas. Achar que “sem rendimento” ofende menos quetipicamente não-lineares. Mas, ainda assim ou “zero”, é um prurido tolo, razão pela qual menção e notaprecisamente por isso, precisa ser bem organizado e são perfeitamente sinônimos. O que buscamos com agarantir, entre outras coisas, que em cada novo menção é o mesmo que com a nota: uma expressãoquestionário se trata do mesmo tema, da mesma pesquisa, numérica, para fins de avaliação, de um composto deda mesma análise, ou seja, deve existir um contexto qualidades que um aluno tem. A expressão é posta emsistemático e lógico, até mesmo para podermos comparar termos numéricos para tornar-se mais visível e talveze inferir. É erro crasso imaginar que de conversas soltas, compreensível30.amadoramente conduzidas ou mal conduzidas, se possa Não faria mal se os pesquisadores sociais, porextrair alguma análise mais profunda, ou que de algumas reconhecimento aos bons ventos que sopram do “ladopessoas indagadas se possa inferir conclusões que abalem oposto”, também valorizassem mais as habilidadeso universo. Ademais, se no dado empírico, quantitativo formalizantes da metodologia científica. Muitas vezes,ou pretensamente quantitativo, a manipulação corre solta, adotamos certos modismos metodológicos, porqueque dizer de dados qualitativos desprovidos de um desconhecemos o cardápio variado disponível orientadomínimo de sistematização... para realidades qualitativas, como hermenêutica e Hoje podemos dizer - de boca cheia - que a fenomenologia, já tradicionais.
    • Pesquisa qualitativa... Rev.latino-am.enfermagem - v. 6 - n. 2 - p. 89-104 - abril 1998 102 QUALITATIVE RESEARCH SEARCH FOR EQUILIBRIUM BETWEEN FORM AND CONTENT The present study describes the change of expectation regarding qualitative research through post modernity evolution.The author focus on quality under several aspects, pointing out the practices and abuses in qualitative research.KEY WORDS: research, qualitative research PESQUISA CUALITATIVA BUSCA DE EQUILÍBRIO ENTRE FORMA E CONTEÚDO Este artículo presenta una descripción del cámbio de espectativa en lo que se refiere a la investigación cualitativa através de la evolución de la post-modernidad. Enfoca la calidad sobre vários aspectos, apontando hacia los usos y abusos en lainvestigación cualitativa.TÉRMINOS CLAVES: investigación, investigación cualitativaREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 14. BUENO, E.F.; PRADO, J.S.A. Educação emocional - a arte de unir-se. São Paulo: Cortez, 1989.01. ALBERONI, F.; VECA, S. O altruísmo e a moral. 15. CARRAHER, T.N. (Org.). Aprender pensando - Rocco: Rio de Janeiro, 1990. contribuições da psicologia cognitiva para a02. ANDRADE, H.G. Morte, renascimento, evolução: educação. Petrópolis: Vozes, 1988. uma biologia transcendental. São Paulo: 16. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano - artes de Pensamento, 1983. fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.03. APEL, K.O. Diskurs und Verantwortung - Das 17. COULON, A. Etnometodologia e educação. Problem des Übergangs zur Petrópolis: Vozes, 1995a. Postkonventionellen Moral. Suhrkamp, 18. CSIKSZENTMIHALYI, M. A psicologia da Frankfurt: Suhrkamp, 1988. felicidade. São Paulo: Saraiva, 1992.04. APEL, K.O. Estudos de moral moderna. Petrópolis: 19. DAMÁSIO, A.R. O erro de descartes - emoção, Vozes, 1994. razão e o cérebro humano. São Paulo:05. BACHELARD, G. O direito de sonhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. DIFEL, 1986. 20. DEMO, P. Investigación participante - mito y06. BARROW, J.D. Teorias de tudo - a busca da realidad. Buenos Aires: Kapelusz, 1985. explicação final. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 21. DEMO, P. Ciencias sociales y Ccalidad. Madrid: 1994. Narcea, 1988.07. BASTOS, C.; KELLER, V. Aprendendo a aprender 22. DEMO, P. Dialética e qualidade política. In: Haguette, - introdução à metodologia científica. T.M.F. (Org.). Dialética Hoje, Petrópolis: Vozes, Petrópolis: Vozes, 1992. 1990, p. 116 ss.08. BAUDRILLARD, J. 1992. Da sedução. apud. 23. DEMO, P. Cidadania menor - algumas indicações BATAILLE, G. O erotismo. São Paulo: L & M, quantitativas de nossa pobreza política. 1987. Petrópolis: Vozes, 1992.09. BOHM, D.; PEAT, F.D. Ciência, ordem e 24. DEMO, P. Pesquisa e construção do conhecimento criatividade. Lisboa: Gradiva, 1989. - metodologia científica no caminho de10. BOMBASSARO, L.C. As fronteiras da habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, epistemologia - como se produz o 1994. conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1992. 25. DEMO, P. ABC - Iniciação à competência11. BROWN, R. Analisando o amor. Campinas: Papirus, reconstrutiva do professor básico. Campinas: 1990. Papirus, 1995a.12. BRUHNS, H.T. O corpo parceiro e o corpo 26. DEMO, P. Cidadania tutelada e cidadania assistida. adversário. Campinas: Papirus, 1993. Campinas: Autores Associados, 1995b.13. BRUNHOFF, S. A hora do mercado - crítica do 27. DEMO, P. Desafios modernos da educação. liberalismo. São Paulo: Editora UNESP, 1991. Petrópolis: Vozes, 1995c.
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