Fernando Pessoa e Heterônimos: Uma proposta intertextual para o Ensino Médio

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Fernando Pessoa e Heterônimos: Uma proposta intertextual para o Ensino Médio

  1. 1. UNIVERSIDADE DE MOGI DAS CRUZES FELIPE DE SOUZA COSTA MARIA CLAUDIA SANTANA DE AZEVEDOFERNANDO PESSOA E HETERÔNIMOS: UMA PROPOSTA INTERTEXTUAL PARA O ENSINO MÉDIO. Mogi das Cruzes, SP 2008 1
  2. 2. UNIVERSIDADE DE MOGI DAS CRUZES FELIPE DE SOUZA COSTA MARIA CLAUDIA SANTANA DE AZEVEDOFERNANDO PESSOA E HETERÔNIMOS: UMA PROPOSTA INTERTEXTUAL PARA O ENSINO MÉDIO. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Licenciatura em Letras - Português/Inglês e respectivas literaturas da Universidade de Mogi das Cruzes como parte dos requisitos para a conclusão do curso. Profº Orientador: Anderson da Cruz Zaneti Mogi das Cruzes, SP 2008 2
  3. 3. RESUMOEste trabalho apresenta uma proposta intertextual para o ensino de literatura,utilizando como ferramentas diálogos travados entre textos contemporâneos e ospoemas de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Tem comoobjetivo propiciar condições para que os alunos do Ensino Médio adquiram o hábitoprazeroso da leitura, através de uma análise crítica e reflexiva dos conteúdospropostos e, conseqüentemente, a sua conscientização como agente participativo nasociedade. Assume a relevância o fato de que a leitura de poemas tem sidosecundarizada no ensino da referida disciplina, o que não assegura ao aluno umdireito que lhe é garantido: apropriar-se totalmente do bem simbólico que é aliteratura. Foi desenvolvido por alunos do curso de Letras – Licenciatura Plena emPortuguês/Inglês e respectivas Literaturas, da Universidade de Mogi das Cruzes.Espera-se que os educandos, ao final desta Seqüência, consigam perceber asdiversas leituras que podem ser feitas de poesia e outros gêneros, bem comorelacioná-los de forma reflexiva. Palavras-chave: Ensino de literatura; Ensino dialógico de literatura; Literaturano Ensino Médio. 3
  4. 4. ABSTRACT This work presents an intertextual proposal to teach literature, using sometools like dialogs establishing relations with contemporary texts and poems ofFernando Pessoa, Alberto Caeiro and Álvaro de Campos. The aim is to createconditions to high school students acquire the pleasant habit of reading, through acritical and reflexive analysis of the proposed content and, consequently, theirawareness like a historical and participant agent in the society. It takes over therelevance because the reading of poems has been seen from many years assecondary importance, which doesn‘t guarantee a student‘s right: to appropriate of asymbolic right that is the literature. It has been developed by the students ofLanguage and Literature, tracks Portuguese and English and its literatures, from theUniversity of Mogi das Cruzes. We wish the students, in the end of this Sequence,can perceive the differents ways of reading that can be did with others genres, aswell as relate them reflexively. Key words: Literature teaching; Dialogic Literature Teaching ; Literature in thehigh school. 4
  5. 5. AGRADECIMENTOSAgradecemos, primeiramente, a Deus por nos sustentar e permitir que chegássemosaté aqui.Ao Programa Universidade para Todos (PROUNI) e seus idealizadores, já queambos somos bolsistas e foi por meio dele que alcançamos mais um degrau emnossa caminhada acadêmica.À Universidade de Mogi das Cruzes, por abraçar o referido programa com afinco eresponsabilidade.Ao nosso professor Orientador Anderson da Cruz Zaneti, pela compreensão e apoio.Aos nossos familiares, motivadores constantes e responsáveis pela formação. 5
  6. 6. ―Ao ler este texto, muitos educadores poderão perguntaronde está a literatura, a gramática, a produção do textoescrito, as normas. Os conteúdos tradicionais foramincorporados por uma perspectiva maior, que é alinguagem, entendida como espaço dialógico, em que oslocutores se comunicam.‖ (PCN, 2002, p. 144). 6
  7. 7. SUMÁRIOINTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1 Apresentação ......................................................................................................... 1 Justificativa ......................................................................................................... 2 Público-Alvo ...................................................................................................... 3 Objetivo Geral ................................................................................................... 3FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................... 4DISCUSSÃO........................................................................................................... 10CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 18REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 20ANEXOS ................................................................................................................ 22 7
  8. 8. INTRODUÇÃOApresentação O ensino de literatura tem passado por verdadeiras mudanças, metodologiasdiversas aplicadas em instituições de ensino têm buscado suprir uma necessidadehistórica do povo brasileiro: o hábito da leitura. É bem verdade que pensar emliteratura é muito mais do que tentar incutir nos educandos um ―hábito‖, ler é o pontode partida para a fruição de um prazer, que quando aproveitado de forma adequadae bem trabalhada reflete diretamente em mudanças de atitudes, quebra deparadigmas e rompimento do senso comum. Todas essas transformações contribuem para a formação de um cidadãoconsciente de seus direitos e deveres, tarefa difícil nos dias atuais. Haja vista que ascondições impostas à educação formal, verdadeiramente, dificultam esse processo. Pensando em poesia, a situação recebe um maior agravo. Por ser um gêneroaparentemente complexo, muitas pessoas desistem após a primeira leitura. Falta ainterpretação, o entendimento se torna esparso, dificultoso, nebuloso... Transportaressa competência para uma comunidade de poucos leitores é um desafio. Embora a obra de Fernando Pessoa propicie espaço suficiente para aintrodução dessa prática, requer daqueles que aceitam o desafio um trabalho árduo,de modo que se possa, ao mesmo tempo, sistematizá-lo e aproximá-lo de umarealidade muito distante. O universo musical e os diversos gêneros que circulam na sociedade serão aponte que ligará o processo poético à realidade dos alunos, auxiliará singularmente,para que eles possam se sentirem identificados e, a partir dela, chegar ao objetivoproposto nesta seqüência de aulas. Esta Seqüência tem por finalidade a prática e instrumentalização deferramentas que possibilitem aos professores em formação a aquisição deconhecimentos práticos aliados aos teóricos abordados nas aulas de LiteraturaPortuguesa do curso de Licenciatura Plena em Letras da Universidade de Mogi dasCruzes, objetivando a reflexão da prática da leitura de poemas no Ensino Médio. Tem como uma das principais fundamentações teóricas as OrientaçõesCurriculares Nacionais para o Ensino Médio, fazendo especial referência aodesenvolvimento da intertextualidade entre os poemas de Fernando Pessoa e, 8
  9. 9. principalmente, a música. Serão considerados aqui seus trabalhos produzidos noâmbito hortonímico e heteronímico. A presente Seqüência, por sua vez, tambémserá utilizada pelos seus autores como entrega parcial do Trabalho de Conclusão deCurso.Justificativa A presente Seqüência Didática justifica-se pela relevância temática queassume ao colocar em voga a situação da leitura de poemas nos dias atuais, emespecial no âmbito escolar, pois objetiva solucionar essa problemática nas aulas deliteratura do ensino médio. Partindo do pressuposto de que a aplicação destas se dará numa instituiçãode ensino público, podemos refletir acerca da importância social que ela abarca, poissabemos que a leitura deste gênero em locais menos favorecidos é quase nula,dada a sua necessidade de maior atenção e por que não dizer de conhecimentocultural erudito, com o qual muitas vezes está associado a leitura de poesia. Ainda meditando sobre essa questão podemos nos alicerçar no que asOrientações Curriculares Nacionais afirmam em torno desse mote: Cabe aqui um parêntese relativamente à leitura da poesia. Sabe-se que ela tem sido sistematicamente relegada a um plano secundário. Muito já se falou sobre a dificuldade de lidar com o abstrato, com o inacabado, com a ambigüidade, características intrínsecas do discurso poético, que tem tornado a leitura de poemas rarefeita nas mediações escolares com sua tradicional perspectiva centrada na resposta unívoca exemplar e na inequívoca intenção autoral. (MEC, 2006, p. 74) A justificativa poder-se-ia resumir no seguinte trecho: ―Sabe-se que ela [apoesia] tem sido sistematicamente relegada a um plano secundário‖, pois por ser umgênero mais complexo não podemos excluir do aluno o direito que lhe é garantido.Talvez, a secundarização ocorra pela precária formação dos profissionais daeducação, visto que por demandar maior critério, a poesia precisa ser maisanalisada, do que qualquer outro texto pronto dos livros didáticos. É conhecido de todos, também, que uma das principais preocupações dasinstituições educacionais é criar condições para que os educandos se tornem 9
  10. 10. cidadãos críticos, conscientes e sujeitos de sua própria história. Pode-se dizer que otrabalho com a poesia auxilia na reflexão, humanização e, conseqüentemente, aalcançar esse objetivo, pois ―Por extensão, podemos pensar em letramento literáriocomo estado ou condição de quem não apenas é capaz de ler poesia ou drama,mas dele se apropria efetivamente por meio da experiência estética, fruindo-o‖.(MEC, 2006, p.55) Percebemos que o público-alvo, a quem se destinam essas dez aulas, passapor uma carência na prática de leitura de poesia dentro e fora do âmbito escolar,reforçando dessa forma a responsabilidade da escola e daqueles que dela fazemparte. A literatura é um bem simbólico do qual o aluno deve se apropriar e, paratanto, faz-se necessário a adequação na escolha dos textos ao nível de escolaridadedos leitores em formação, e é justamente o que se propõe nesta Seqüência, pois aaproximação entre textos remotos com os atuais visa a uma leitura proficiente eprazerosa: Configurada como bem simbólico de que se deve apropriar, a Literatura como conteúdo curricular ganha contornos distintos conforme o nível de escolaridade dos leitores em formação. As diferenças decorrem de vários fatores ligados não somente à produção literária e à circulação de livros que orientam os modos de apropriação dos leitores, mas também à identidade do segmento da escolaridade construída historicamente e seus objetivos de formação. (MEC, 2006, p. 61) Retomando as afirmações expostas nesta justificativa, podemos concluir quea Seqüência de Aulas em questão está em consonância com as OrientaçõesNacionais e com importantes teóricos que propõem um ensino dialógico e sócio-interacionista de Linguagem e Literatura, pois proporciona possibilidades para que oaluno construa o conhecimento de modo social e assimilando canônicos comgêneros que circulam em seu contexto atual.Público-Alvo: 3ª Série do Ensino Médio.Objetivo Geral Criar condições para que os alunos do Ensino Médio adquiram o hábitoprazeroso, crítico, analítico e intertextual da leitura de poemas, visando sempre à 10
  11. 11. formação do leitor competente, para que através desta prática possa desenvolver,além dos conhecimentos acadêmico-científicos em Literatura, chegar,conseqüentemente, a um senso crítico, reflexivo e à conscientização de suaimportância como agente histórico na sociedade. É preciso, contudo, conduzi-los de forma eloqüente, buscando sempre situá-los numa posição em que sejam capazes de compreender o real sentido do prazerliterário: ―A poesia é indispensável. Se ao menos soubesse para quê...‖ (MEC, 2006,p. 52 apud FISCHER, 1966). Faz-se necessário mostrar aos educandos o ―por que‖se deve ler poesia. Não basta dar explicações inúmeras oriundas de um status quo,as quais eles estão cansados de ouvir. Deve-se agir, e as Orientações Curriculares,inclusive, apontam meios para isso: A escola não precisa cobrir todos os estilosliterários. O professor pode, por exemplo, recortar na história autores e obras que oucorresponderam com maestria à convenção ou estabeleceram rupturas; ambaspodem oferecer um conhecimento das mentalidades e das questões da época,assim como propiciar prazer estético. A partir desse recorte, ele pode planejar atividades de estudo das obras que devem ser conduzidas segundo os seus recursos crítico-teóricos, amparado pelo instrumental que acumulou ao longo de sua formação e também pelas leituras que segue fazendo a título de formação contínua. (MEC, 2006, p. 79). O recorte, do qual trata esta Seqüência de Aulas, dar-se-á através de umrecurso didático e, ao mesmo tempo, literário: a intertextualidade, visando aaproximar o proposto a uma realidade circunstancial dos alunos em formação. 11
  12. 12. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O projeto de ensino de literatura em questão tem como um de seus suportesteóricos as Orientações Curriculares Nacionais, dentro de inúmeras argumentaçõesexpostas neste documento. Tais orientações ressaltam o fato de que embora aliteratura seja um modo discursivo entre vários, o discurso literário difere-se dosoutros, porque de todos os modos discursivos é o menos pragmático, o que visa aaplicações práticas, garantindo ao participante da leitura literária o exercício daliberdade, favorecendo-lhe o desenvolvimento de um comportamento mais crítico emenos preconceituoso diante do mundo. Mais que propiciar o exercício da liberdade e a leitura proficiente, estaSeqüência Didática, através da observância das Orientações Nacionais, propõe epossibilita um dos principais objetivos do ensino de literatura que é o processo dehumanização do indivíduo e para melhor abordar esta questão consideramosnecessário citar palavras de Antônio Cândido no que se refere à literatura como fatorde humanização: Entendo aqui por humanização [...] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade e o semelhante. (CÂNDIDO, 1995, p. 249). De acordo com as Orientações Nacionais, para alcançar tais objetivos dentrodo ensino de literatura não se faz necessário sobrecarregar o educando cominformações sobre escolas literárias, épocas e estilos, o aluno deve ser levado paraalém da memorização de movimentos literários, sendo estimulado a ampliar earticular conhecimentos e competências. Para cumprir com esses objetivos, entretanto, não se deve sobrecarregar o aluno com informações sobre épocas, estilos, características de escolas 12
  13. 13. literárias, etc., como até hoje tem ocorrido, apesar de os PCN, principalmente o PCN+, alertarem para o caráter secundário de tais conteúdos... (MEC, 2006, p.54). Com base nesta explanação, o projeto em questão busca, por meio de suadidática, propiciar condições para que o aluno adquira experiência literária, ou seja,o contato efetivo com o texto, objetivando a sensação de ―estranhamento‖ emrelação aos temas propostos e posteriormente possibilidades de intertextualidadecom seu contexto, etapas necessárias para a ampliação dos conteúdos a seremministrados, dos já adquiridos e capacidade de reflexão crítica, elementosfundamentais para a aquisição do letramento literário. Tais experiências são vivenciadas nas atividades em que são consideradasas idéias e discussões dos alunos, possibilitando troca de impressões acerca dasintertextualidades, admitindo a perspectiva de que um texto sempre permite mais deuma interpretação e que cada leitor reage de forma diferente diante dele. Parece, portanto, necessário motivá-los à leitura com atividades que tenham para os jovens uma finalidade imediata e não necessariamente escolar (por exemplo, que o aluno se reconheça como leitor, ou que veja nisso prazer, que encontre espaço para compartilhar suas impressões de leitura com os colegas e com os professores)... Ele lerá então porque se sentirá motivado a fazer algo que deseja e, ao mesmo tempo, começará a construir um saber sobre o próprio gênero, a levantar hipóteses de leitura, a perceber a repetição e as limitações do que lê, os valores, as diferentes estratégias narrativas (MEC, 2006, p.70,71). A opção de utilizar músicas contemporâneas no desenvolvimento de algumasatividades surgiu a partir da observância de que na época medieval, os trovadorescompunham seus textos poéticos, ou seja, as cantigas, para serem cantadas eacompanhadas por instrumentos musicais. Porém com o advento de novas práticasbaseadas na estética humanista, os textos literários separaram-se da melodia,resultando em dois textos distintos: o poema, gênero literário, e a canção, o gêneroletra musical. Esta Seqüência referente ao ensino de literatura também objetivacomprovar a permanência da ―irmandade‖ entre poema e canção. As Orientações Nacionais para o Ensino de Literatura sugerem a utilização demúsicas, filmes contemporâneos e outras modalidades como instrumento didático 13
  14. 14. para o ensino desta. Encontram-se nos PCNs e OCNs explanações que ressaltam ofato dessas modalidades e tantos outros tipos de produção, em prosa ou em versoser de importância significativa para o ensino da referida disciplina, seja portransgredir, denunciar e principalmente por serem significativos dentro do contextodos alunos alertando para o fato de que as escolhas utilizadas pelos professoresdevem ter suporte, revelando a qualidade estética. Qualquer texto escrito, seja ele popular ou erudito, seja expressão de grupos majoritários ou de minorias, contenha denúncias ou reafirme o status quo, deve passar pelo mesmo crivo que se utiliza para os escritos canônicos: Há ou não intencionalidade artística? A realização correspondeu à intenção? Quais os recursos utilizados para tal? Qual seu significado histórico-social? Proporciona ele o estranhamento, o prazer estético? (MEC, 2006, p.57) Baseados nestas reflexões, a Seqüência Didática em questão visou àintersecção de filmes e músicas contemporâneas no desenvolvimento de atividadescom o intuito de aproximar os poemas à realidade e ao interesse dos alunos, pois aescolha de modalidades populares com relevante valor estético colabora naidentificação e empatia dos alunos em relação às obras eruditas, muitas vezesconsideradas inatingíveis para as classes menos favorecidas. Podem propiciar aos alunos momentos voluntários para que leiam coletivamente uma obra literária, assistam a um filme, leiam poemas de sua autoria de preferência fora do ambiente de sala de aula: no pátio. Na sala de vídeo, na biblioteca, no parque (PCN+, 2002, p.67). Na busca de inserir-se numa postura teórica mais abrangente, esta Seqüênciade Aulas baseia-se na idéia defendida por Bakhtin (2000), de língua como atividadesocial, histórica e cognitiva, e suas aplicações de ação e intervenção sobre o mundo.A partir dessa hipótese sócio-interativa da língua, pode-se inferir que todacomunicação verbal se realiza por meio de gêneros, fundamentando-se nesseprincípio básico, Marcuschi, que complementa e atualiza as idéias bakhtinianas,considera os gêneros textuais como fenômenos históricos vinculados aos fatossociais e culturais. 14
  15. 15. Em ―Ensino de Literatura: Uma proposta dialógica para o trabalho deLiteratura‖, o autor William Roberto Cereja apresenta aos leitores, após discorrersobre toda a problemática que envolve o ensino de literatura atualmente, trêspropostas didáticas para potencializar o ensino da referida disciplina. A primeira hipótese é ―organizar o curso em grandes unidades temáticas e, apartir de cada uma delas, abrir um amplo leque de leituras, confrontando autores egêneros que de, alguma forma, contribuíram para referendar a importância do temaem foco.‖ (CEREJA, p.162, 2005). Pensar nessa opção nos faz alavancar algumas suposições que, a priori,parecem se encaixar fidedignamente com a proposta desta Seqüência:intertextualizar os poemas de Fernando Pessoa e o gênero música, pois podemosentender a obra do poeta como uma “uma grande unidade temática”, haja vista queele por si só já dá conta de grande parte da literatura produzida em seu tempo. A segunda é ―a organização do curso em torno dos gêneros literários. Nessecaso, teríamos uma perspectiva evolutiva de gêneros da literatura, como o romance,a novela, a epopéia, a crônica, a fábula, a tragédia, o drama, etc., cuja origem,evolução e eventual extinção deveriam ser relacionadas com o contexto social ecultural de cada um‖ (CEREJA, p.163, 2005). Essa proposta, embora consistente econsiderável, não abriria espaço para inclusão do gênero música, por exemplo,como elemento norteador do trabalho em sala de aula, pois restringe a metodologiaaos ―gêneros literários‖, não podendo ser aceitos os ―gêneros do discurso‖. A terceira e última diz respeito ―à forma que parte da contemporaneidade parachegar às origens, tem a vantagem de se iniciar com textos cuja linguagem é familiarao aluno. Nesse caso, o aluno de 15 anos começaria a estudar literatura por textosde autores contemporâneos, com linguagem e temas atuais; os textos maisdistantes no tempo, como os do Trovadorismo ou de Camões, seriam estudados na3ª série do ensino médio, quando o aluno está mais preparado e amadurecidointelectualmente.‖ (CEREJA, p.164, 2005) O fator que nos impede de tomá-la comoponto de partida está justamente na não-concordância com o nosso público-alvo,pois não iniciaremos o trabalho na primeira série do ensino médio, no qual os 15
  16. 16. poemas de Fernando Pessoa, por fazer parte do Modernismo, teriam de ser um dosprimeiros a serem utilizados. A intertextualidade deve ser observada como suporte para que se chegue aum ponto determinado, nunca como substituinte daquilo que é priorizado: o textoliterário. Portanto, podemos encará-la como metodologia que nos auxiliará a criar umambiente favorável para a leitura de poemas. Partiremos de algo mais próximo davivência extra-escolar dos educandos para, então, encorajá-los, ambientá-los esuportá-los na leitura de um texto que demanda um pouco mais de reflexão eatenção, neste caso, os poemas de Fernando Pessoa. A fim de nos aprofundarmos acerca dessa questão e de como, diretamente,ela pode estar ligada ao ensino de literatura, encontramos em Kristeva aportesteórico-discursivos que nos remetem de maneira mais próxima ao que visa a estaseqüência de aulas, pois ela afirma que a linguagem poética, matéria-prima destetrabalho, nada mais é do que um diálogo entre textos, ampliando assim as idéiasdialógicas sugeridas por Bakhtin: A linguagem poética aparece como um diálogo de textos: toda seqüência se faz em relação a uma outra proveniente de um outro corpus, de maneira que toda seqüência está duplamente orientada: para o ato de reminiscência (evocação de uma outra escrita) e para o ato de intimação (a transformação dessa escritura). (KRISTEVA, Autores como Haroldo de Campos encaram esse processo de aproximaçãocomo fator determinante para o ensino de literatura, pois ―já defendia a necessidadede se criar uma ‗nova antologia da literatura brasileira sob o ponto de vistasincrônico e testar o corpus assim obtido no ensino de vários graus‘ (CEREJA, 2005,p. 149 apud, ROCCO, 1992). O poeta via, então, a literatura como um espaço desimultaneidades capaz de aproximar, por exemplo, Fernando Pessoa e Camões ouÁlvares de Azevedo e Drummond e, assim, nos fazer ver o passado naquilo que eletem de novo.‖ (CEREJA, p.165, 2005). Além de aproximar os poemas de Pessoa à música, propomos, também,nesta seqüência a aproximação de sua obra com autores de tempos remotos, paraser mais preciso, Camões. O que, de certa forma, acaba por abrir outros lequespossíveis para a construção de intertextualidade e novas leituras. 16
  17. 17. Desta maneira, assim como Bakhtin postula que ―todo discurso é umaresposta a outros discursos‖, concluímos que em literatura o processo não édiferente: Todo discurso artístico estabelece relações dialógicas com outros discursos, contemporâneos a ele ou fincados na tradição. Aproximações e contrastes de temas, gêneros e projetos literários; aproximação e contrastes de estilos de época e de estilo pessoal; aproximações e contrastes entre a literatura e outras artes e linguagens ou outras áreas do conhecimento, comparações interdiscursivas – eis alguns caminhos possíveis para o ensino de literatura na escola, ancorados no princípio bakhtiniano de dialogismo. (CEREJA, 2005, p. 178) DISCUSSÃO Pensado e encarado, em princípio, como um trabalho que envolveria poesia ea intertextualidade com a música, esta Seqüência didática, bem como asfundamentações que a acompanham, ganhou moldes, enveredou por novos 17
  18. 18. caminhos e tomou proporções diversas ao que pensávamos. O tímido projetoconseguiu focalizar um autor específico no grande universo deste gênero e o tomoucomo mote para apresentar uma proposta intertextual no ensino de literatura:Fernando Pessoa e três heterônimos seus de maior destaque, Alberto Caeiro, Álvarode Campos e Ricardo Reis. Como já foi explanado em nossa fundamentação teórica, tomamos por baseas Orientações Curriculares Nacionais e alguns teóricos importantes que nosfundamentaram, inclusive, na escolha da abordagem inicial. O foco é justamentetomar as produções deste importante autor da Literatura Portuguesa como um temacentral e, a partir delas, sugerir possíveis intertextualidades com outros gêneros quecirculam na sociedade, a fim de que se possa criar entre o texto literário e o alunouma aproximação importante e necessária para sua formação escolar e aquisição daproficiência literária. . Partindo desses pressupostos, iniciamos a elaboração da seqüência de aulaspor meio de uma pesquisa com a finalidade de reunir dados referentes ao autor eselecionar poemas, músicas, filmes, charges e ilustrações para que fossem travadosos diálogos entre os textos. O ―Manual do Aluno‖ possui, na primeira página, uma apresentação que oconvida a participar das aulas, esclarece o objetivo geral e os alerta acerca daatividade final, o Sarau. Esperamos que desde o início o educando possa serelacionar com o projeto de maneira harmoniosa e compreenda que a partir dali eleterá uma tarefa importante, a de não se portar como um mero ouvinte, mas sim umintegrante fundamental que atuará como sujeito real na construção doconhecimento. A linguagem utilizada durante todo o projeto visa a essaaproximação, pois a todo o momento utilizam-se vocativos construídos de maneiradescomplicada, pois acreditamos que facilitar o acesso do aluno ao texto é ocaminho ideal para alcançarmos o objetivo geral. As aulas I, II e III visam à conceituação dos gêneros poesia e canção e deintertextualidade. A primeira aula apresenta na Atividade 1 o poema ―Isto‖ deFernando Pessoa e um parágrafo de um texto de Kierkegaard falsamenteversificado. Espera-se que eles possam lê-los e em seguida discuti-los seguindo 18
  19. 19. algumas questões que são levantadas na Atividade 2. O ponto alto da discussãodeve centrar-se na última questão, em que se revela qual é o verdadeiro poema, naseqüência criou-se oportunidade para que eles pudessem discutir o que de fato fazum texto ser realmente literário e especificamente, possa ser classificado comopertencente ao gênero poesia. O professor, nesse momento, deve mediar adiscussão e deixar que eles alcancem uma resposta satisfatória e não simplesmenteconceituar o que é poesia, já que um profissional com boa formação literária saberáque essa não é uma tarefa fácil. A Aula II, Letra e Música começa, mesmo que de forma tímida, a inseriroutros gêneros discursivos para se alcançar o alvo, ou seja, a intertextualidade:apresentamos o gênero filme e junto com ele uma sinopse que descreverapidamente o enredo da trama e então são exibidos trechos do filme que devem serintercalados com comentários feitos pelo professor e questões que são dadas nopróprio escopo da aula. A idéia é que o professor não se prenda ao enredo e sim à mensagemintrínseca do filme, a qual nada mais é do que a união entre melodia e letra, e opapel que cada uma desempenha. A partir de então, deve-se entrar com umadiscussão mais abrangente, concentrada na segunda questão da Atividade, a qualrelaciona a irmandade existente entre poesia e música no tempo do Trovadorismo,levantando ainda uma questão maior: Todas as músicas são poemas? A Aula III, Conversa entre os Textos, objetiva a conceituação deintertextualidade e para tanto faz uso de dois gêneros, que já foram anteriormentediscutidos, a poesia e a música. A saber: o poema de Camões ―Amor é fogo quearde sem se ver‖ e a música de Renato Russo ―Monte Castelo‖. Os dois textos tratam do mesmo assunto e o segundo, inclusive, empregaparte do primeiro. É justamente neste momento que aparecerá uma atividade queserá aproveitada em outros momentos do trabalho: ―Pensar e Argumentar‖, nela oaluno deve refletir sobre as questões apresentadas e ainda se posicionar, sendo quepara tanto ele deverá utilizar, além dos seus conhecimentos prévios, os adquiridosnas duas aulas anteriores. 19
  20. 20. Após a conceituação de diálogo entre textos semelhantes, eles serãoconvidados a enxergar este processo em dois poemas que tratam de temasdivergentes, embora sejam do mesmo autor. Essa última atividade deve funcionarcomo uma espécie de pré-anúncio das aulas seguintes, pois os dois poemas são deautoria do Fernando Pessoa, o mesmo poeta que será trabalhado nas demais aulas. As aulas IV, V e VI, assim como as três precedentes, possuem um núcleocomum: apresentação da produção ortônima de Fernando Pessoa. A primeiraconsiste, inicialmente, na apresentação de dois pequenos vídeos, retirados do siteYoutube, os quais apresentam um breve relato biográfico da vida deFernando Pessoa, bem como do processo de heteronímia. Em seguida é sugerida aleitura de um texto retirado da Revista Cult, que tem também como tema central abiografia do autor e ainda acrescenta uma discussão acerca do processo de criaçãodos heterônimos, durante essa discussão faz-se necessário que o professor abra umespaço para que os alunos exponham suas dúvidas e impressões sobre o assunto.O objetivo é que se possam adquirir conhecimentos acerca da vida e obra destepoeta e, ao mesmo tempo, colocar os alunos em contato com outros gênerosdiscursivos: a biografia (apresentada por acadêmicos) e vídeos rápidos do Youtube,muito usuais atualmente. A Aula V visa a reunir os conhecimentos adquiridos ao longo das anteriores,de modo que o educando poderá colocar em prática e visualizar, por exemplo,intertextualidade dentro do próprio Fernando Pessoa. São apresentados, primeiramente, dois poemas do poeta: ―O menino da suamãe‖ e ―Dobrada à moda do Porto‖. Inicialmente será feita uma leitura e na atividade2 eles escutarão os mesmos textos acrescidos de melodia e interpretados na voz dedois artistas contemporâneos. Em seguida, a proposta de Atividade ―Pensar eArgumentar‖ reaparece, a fim de criar discussões que objetivam uma compreensãotemática como temas transversais e, ao mesmo tempo, retomar as que foramrealizadas em aulas anteriores. A sexta aula é considerada como ponto ápice deste ―núcleo‖, pois tratará deum assunto muito importante para a compreensão de Pessoa, pelo menos no quediz respeito à construção da obra ―Mensagem‖, o povo português e sua relação como Mar. 20
  21. 21. Os alunos serão convidados à leitura de dois textos que discutem estatemática, ambos circulantes na sociedade. Neste momento, enquanto ocorre aleitura, o professor poderá mediar a discussão acrescendo, mesmo que de formasuscinta, um pouco da história épica dos portugueses. Na Atividade 2 eles lerão o poema ―Mar Portuguez‖ de Fernando Pessoa etrechos específicos de ―Os Lusíadas‖,a fim de que possam entender a obra paralelade Fernando Pessoa em relação a Camôes. Após, escutarão a música ―O Rei doMar‖, de Djavan. O professor deverá estimulá-los a intertextualizar os três textos pormeio das questões que lhes são apresentadas. O objetivo é que eles consigampercebe o foco temático e, ao mesmo tempo, atentar-se ao possível diálogo com amúsica. A última atividade consiste numa proposta de redação, na qual pedimos paraque os alunos produzam um pequeno texto, explorando uma temática mais próximaà realidade atual: a conquista humana do espaço e sua possível comparação comas conquistas marítimas. O fim da aula dá-se com uma sugestão de leitura, o aluno também encontraráoutras sugestões como esta no decorrer da seqüência. O alvo é despertar acuriosidade do aluno em relação ao assunto e ampliar o seu conhecimento, fazendocom que eles possam continuar mantendo contato com literatura fora do âmbito doescolar. As aulas VII, VIII e IX são reservadas para apreciação e fruição da obra dosheterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Esperamos que elesadquiriram conhecimento da biografia pessoal de cada um e, também, possam terum contato direto com suas obras, fazendo relações diretas com asintertextualidades propostas. Iniciamos por Álvaro de Campos, a primeira atividade consiste na leitura deexcertos da cartas de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, apenas a parteem que se tem a descrição do heterônimo em questão. Após essa leitura inicial, apresentamos uma breve tabela que descrevealgumas características particulares da escrita de Álvaro de Campos, nestemomento não há necessidade de se prender a explicações longas e tradicionais.Espera-se que o professor acompanhe a leitura junto com o aluno e enquanto istoocorre, interfira ressaltando alguns pontos específicos sem, ainda, mostar o poema. 21
  22. 22. Pede-se que seja feita essa leitura colaborativa porque nesta aula será utilizadoapenas um poema, o qual, por ser extenso, norteará toda as demais ações. O processo da atividade ocorrerá de modo diferente, pois os alunosacompanharão a leitura de ―Cruzou por mim‖ musicado e interpretado na voz de JôSoares. Em seguida haverá uma ―Roda de Conversa‖, a fim de que sejamdiscutidas questões temáticas que estão intimamente ligadas ao texto, sabendo queuma leitura coletiva é um método eficaz na construção do conhecimento. A aula seguinte, destinada a Ricardo Reis, terá o mesmo início da anterior,apresentaremos a biografia do referido heterônimo e leremos um pequeno resumodas temáticas que ele costuma utilizar em suas obras. Como os poemas dele estãodiretamente ligados às odes, achamos por bem conceituá-la, apresentando umabreve definição de uma enciclopédia. Após ter o conhecimento de Ode, os educandos serão solicitados a escutar opoema ―Segue o Teu Destino‖, interpretada na voz de Nana Caymmi. O objetivo éque eles possam perceber a proximidade da ode com a música. Recorrendo à temática e aproveitando a questão da intertextualidade,selecionamos um quadro Renascentista de Andrea Mantegna e pedimos para queeles, partindo de conhecimento adquiridos de seu contato com a literatura, liguemalgumas características Neoclássicas, tema recorrente em Ricardo Reis, a estrofesde ―Segue o Teu Destino‖. A aula IX foi dedicada ao ―mestre‖, Alberto Caeiro. A atividade 1 propõe aleitura de dois poemas, o Fragmento V de ―O Guardador de Rebanhos‖ e―Liberdade‖, ambos também acompanhados pela voz de Jô Soares. Espera-se queesses acompanhamentos criem uma proximidade com os alunos, já que o intérpreteassume um sotaque português e incorpora ao poema, para além dos efeitos criadospela melodia, uma outra roupagem. A atividade 2 solicita aos alunos a discussão em grupo de dois fragmentosdos poemas já lidos. Embora sejam de ―autores diferentes‖, Fernando Pessoa eAlberto Caeiro, esperamos com esta discussão criar condições para que os alunospercebam a intertextualidade temática existente entre os dois poemas. As características formais e literárias do autor, são dadas por meio de umaatividade, na qual os alunos devem identificá-las por meio de leitura e reflexão noFragmento V de ―O Guardador de Rebanhos‖. A biografia do autor é apresentada 22
  23. 23. por último, pois como afirma o próprio Pessoa, este heterônimo era considerado omestre, portanto a fruição da leitura de sua obra é muito mais prazerosa do que oconhecimento biográfico em si. A última aula é dedicada inteiramente às apresentações programadas pelosalunos, porém fez-se necessária a apresentação de significado da palavra Sarau,pois sabemos que esse não é um evento usual nas escolas de hoje e que muitosdos alunos participantes podem nunca ter se envolvido em um projeto como esse,por isso também sugerimos o que pode ser feito e o alvo não é limitar, masenriquecer as idéias. Cada grupo terá sete minutos para se apresentar. Não podemos esquecertambém que durante todas as aulas o professor deve lembrar, empolgar, motivar ealertar os alunos para esse grande evento da última aula. O objetivo é fazer com que todo o conhecimento produzido durante as dezaulas seja compartilhado com os demais colegas da escola. Não há necessidade deser um mega evento, dado que o tempo não permite, as apresentações podem sersimples, sem deixar de conter, é claro, qualidade e conteúdo. O tema central dosarau deve ser pautado em Fernando Pessoa e heterônimos estudados. Após essa Seqüência, espera-se que os educandos envolvidos neste projetopossam estar aptos a compreender o gênero poesia e canção, sem esquecer dospossíveis diálogos que podem existir em qualquer texto e que estes, por sua vez,ajudam a compreender e, ao mesmo tempo, enriquecer qualquer construção deconhecimento, em especial o literário. 23
  24. 24. CONSIDERAÇÕES FINAIS A preocupação com a maneira que a Literatura tem sido abordada no âmbitoeducacional fez com que esse projeto fosse pensado e desenvolvido. Partindo dasreflexões citadas anteriormente, pudemos concluir que esta proposta contribui paraa formação de alunos do Ensino Médio, no que se refere à aquisição de habilidadesnecessárias para o desenvolvimento crítico de um cidadão. Todo o trabalho em si engloba uma série de elementos que auxiliam noaprendizado contextualizado e, ao mesmo tempo, consonante com as OrientaçõesCurriculares Nacionais. Foram confrontados textos contemporâneos com literários, afim de que se pudesse despertar o interesse do aluno, por meio de umaaproximação, a textos considerados inacessíveis e de difícil leitura. Os conceitos de fundamentação da Seqüência Didática surgiram a partir daanálise e reflexão de idéias de grandes teóricos que compreendem a literaturaatravés de uma visão dialógica, a qual nos instigou a transpô-la para um ambiente 24
  25. 25. extra-escolar, deixando de lado os métodos usuais que historicamente têm sepreocupado com o sentido tradicional do ensino: Ao ler este texto, muitos educadores poderão perguntar onde está a literatura, a gramática, a produção do texto escrito, as normas. Os conteúdos tradicionais foram incorporados por uma perspectiva maior, que é a linguagem, entendida como espaço dialógico, em que os locutores se comunicam. (PCN, 2002, p. 144). As atividades propostas foram idealizadas para que o aluno pudesse assumiruma posição ativa durante o processo de ensino-aprendizagem, criando condiçõespara que ele, desta forma, adotasse uma postura participativa e autônoma, refletindoas atitudes que a sociedade espera de um cidadão atuante. Entendemos que as dificuldades implícitas a qualquer educador que vê oensino de uma forma sócio-interacional são inúmeras, a primeira delas é pensar quesua aplicação demanda tempo, preparo, experimentações e condições mínimas paraum bom desenvolvimento das atividades. O professor que se deparar com a presente Seqüência Didática, com certeza,terá que transpor muitos obstáculos, pois, como já é sabido de todos, não existemanual que os impulsionem rumo ao êxito profissional. É preciso pensar que todasas experimentações estão suscetíveis a sucessos e fracassos, mas o que de fatodeverá nortear o seu trabalho é a reflexão que deve ser feita após cada tentativa,seja o seu resultado esperado ou não. Além de pensar naquele que futuramente poderá fazer uso deste projeto,podemos refletir na condição em que se encontram os autores deste trabalho:professores em formação. Muito se fala sobre a deficiência na formação deprofissionais da educação, contudo podemos entender que esse pré-preparo auxiliaem nossa atuação, de modo que no futuro, ao nos depararmos com situaçãoparecida, não nos sentiremos desambientados e estaremos, também, bemfundamentados, principalmente no que diz respeito às propostas correntes, oriundasde estudos científicos, os quais, a todo momento, têm buscado um caminho maisacertado para o cumprimento desse papel tão importante. Esperamos que essa Seqüência Didática seja uma ferramenta eficaz notrabalho docente e que possa cumprir de maneira satisfatória os objetivos propostos, 25
  26. 26. de modo que possíveis alterações ou sugestões possam enriquecer e aprimorarnossas expectativas, visando sempre à obtenção de resultados que privilegiem areflexão e a atuação na práxis do professor de Literatura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASA MÚSICA em Pessoa. Rio de Janeiro: Biscoito Fino Ltda, 2005. 1. disco compacto:digital, stereo.AS QUATRO Estações. São Paulo: Corações Perfeitos Edições Musicais Ltda –EMI, 2004. 1. disco compacto: digital, stereo.CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. 1. ed. Portugal: Europa-América, 2002CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos para amar o amor. 1. ed. Porto Alegre: L&PM,2007. 26
  27. 27. CEREJA, William Roberto. Ensino de Literatura: Uma proposta dialógica para otrabalho com literatura. 1. ed. São Paulo: Atual, 2005.CESANA, Nathalia. As diferentes pessoas em Pessoa. Revista Cult: EspecialBiografias, São Paulo, v. 3, p. 6 e 7. 2007.COUTINHO, Afrânio. O eu profundo e os outros eus. 1. ed. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 2006.D´ONOFRIO, Salvatore. Pequena enciclopédia da cultura ocidental. 1. Ed. SãoPaulo: Campus, 2005FALCÃO, Fernanda Scopel. O poema e a canção: Uma aproximação intergêneros.Disponível emhttp://www.ufes.br/~mlb/multiteorias/pdf/FernandaScope%20FalcaoOPemaEACancao.pdf. Acesso em 02/07/2008.YAMPOLSCHI, Roseane. Intertextualidade e estetismo na música pós-moderna.Disponível emhttp://www.anppom.com.br/anais/anaiscongresso_anppom_2006/CDROM/COM/04_Com_Musicologia/sessao05/04COM_MusHist_0503-. Acesso em 02/07/08.GREGORIM, Clovis Osvaldo. Michaelis língua portuguesa: Novo dicionárioescolar. 1. ed. São Paulo: Melhoramentos, 2008.KIERKEGAARD, Soren. O conceito de angústia. 1. ed. São Paulo: Hemus, 2007.LETRA E MÚSICA. Marc Lwarence. Estados Unidos: Warner, 1996. 1 DVD.PESSOA, Fernando. Poesia: 1918-1930. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras,2007.REMIX em Pessoa. São Paulo: Performance Music – Sony DADC Brasil, 2007. 1.disco compacto: digital, stereo. 27
  28. 28. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Linguagens, códigos e suastecnologias. 1. ed. Brasília: Ministério da Educação, 2006.<http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos. Acesso em 01/09/2008><http://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Reis. Acessado em 01/09/2008><http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Caeiro. Acessado em 01/09/2008><http://www.teiaportuguesa.com/lusografo/saudade.htm> Acesso em 01/09/2008><http://www.teiaportuguesa.com/lusografo/saudade.htm - Acesso em 01/09/2008> 28
  29. 29. ANEXOS – SEQÜÊNCIA DIDÁTICA
  30. 30. SEQÜÊNCIA FERNANDO PESSOA E HETERÔNIMOS: UMADIDÁTICA PROPOSTA INTERTEXTUAL PARA O ENSINO MÉDIO
  31. 31. SEQÜÊNCIA DIDÁTICA APRESENTAÇÃO Caro aluno, Esta seqüência de aulas foi criada especialmente para que você, aluno do Ensino Médio, possa conhecer melhor a obra de um grande escritor modernista da Língua Portuguesa, Fernando Pessoa e seus heterônimos. Por meio destas aulas você poderá seaprofundar em conhecimentos literários, referentes à complexidade e à apreciaçãodo gênero poesia, além de ser uma ferramenta de aprendizagem que visa a umafutura participação em vestibulares e, principalmente, a fruição literária. Estas aulas serão proveitosas para você que não dispensa um trabalhodiferente com a turma, que gosta de aprender, realizar projetos, ler, criticar,argumentar, debater e escrever. Esperamos que desta forma você possa aprimorarsua capacidade de interagir com as pessoas e com o mundo em que vive e, aomesmo tempo, adquirir a habilidade de viajar pela palavra através da poesia. Ao final desta seqüência, desejamos que você, juntamente com seus colegas,elabore uma apresentação para o sarau que se realizará na última aula. Aproveitetodos os conhecimentos construídos durante os dias que estudaremos este autorpara colocar sua criatividade em prática. Bons estudos, Os autores. 2
  32. 32. AULA I: O QUE É POESIA? Objetivo: Nesta aula, o objetivo é que você possa adquirir conhecimentos específicos acerca do gênero poesia, suas principais características e complexidade de conceituação.Atividade 1: Converse com seus colegas de turma e dividam-se em sete grupos.Lembre-se que este será o mesmo grupo utilizado para o sarau; a seguir leiam osdois poemas:ISTO O EU E O INFINITODizem que finjo ou minto O eu é a síntese consciente de infinitoTudo que escrevo. Não. E de finito em relação com ela própria;Eu simplesmente sinto Mas tornar-se si próprio é tornar-se concreto,Com a imaginação. coisa irrealizável no finito ou infinito.Não uso o coração. A evolução consiste em afastar-se de si próprio, numa infinitização. O eu que não se tornaTudo o que sonho ou passoO que me falha ou finda, ele próprio permanece desesperado;É como que um terraço o eu está em evolução a cada instanteSobre outra coisa ainda. da sua existência, e não sabe o queEssa coisa é que é linda. seráPor isso escrevo em meio (KIERKEGAARD, Soren. O conceito de angústia.Do que não está ao pé, São Paulo: Hemus, 2007.)Livre do meu enleio,Sério do que não é.Sentir? Sinta quem lê!(PESSOA, Fernando. Poesia: 1918-1930.SãoPaulo: Companhia das Letras, 2007.)Atividade 2: Agora que você já leu, discuta com seus colegas as questões que seseguem:  Em sua opinião, o que faz estes textos serem considerados poesia? 3
  33. 33.  Aponte neles algumas características em comum.  O que de mais importante caracteriza uma poesia, a forma ou o conteúdo?  Um destes dois textos não é um poema. Trata-se de um texto em prosa falsamente versificado, a fim de exemplificar a complexidade de conceituação de poesia. Você arriscaria apontar qual destes dois textos não é um poema? Justifique sua opinião. AULA II: LETRA E MÚSICA Objetivo: O objetivo da segunda aula é ampliar a discussão da aula anterior eacrescentar conhecimentos acerca do gênero canção, apontando suas afinidades com a poesia.Atividade 1: A seguir haverá exibição de fragmentos do filme ―Letra e música‖,objetivando a conceituação de letra e melodia, bem como suas semelhanças com apoesia. Antes de assistir, conheça mais sobre o filme: Sinopse: Alex Fletcher (Hugh Grant) é um decadente astro da música pop, que fez muito sucesso na década de 80, mas que agora apenas se apresenta no circuito nostálgico de feiras e parques de diversão. A chance de mais uma vez fazer sucesso bate à sua porta quando Cora Corman (Haley Bennet), a atual diva do pop, o convida para compor uma canção e gravá-la com ela, em dueto. O problema é que Alex há anos não compõe uma canção sequer, além de jamais ter escrito uma letra de música. Sua salvação é Sophie Fisher (Drew Barrymore), a encarregada de cuidar das plantas de Alex, cujo jeito com as palavras serve de inspiração para Alex. Inicialmente reticente em trabalhar com Alex devido ao término conturbado de um relacionamento e à fobia dele a compromisso, Sophie termina por aceitar a parceria. A partir dos comentários do professor em relação ao filme, reflita sobre as questões abaixo:  Em sua opinião, dentro de uma canção qual a função da letra e da melodia?  No trovadorismo, as poesias eram escritas para serem acompanhadas por instrumentos musicais. Você acredita que as músicas contemporâneas são uma ramificação deste período? Por quê? 4
  34. 34.  Você conhece poesias que foram utilizadas como letras de música? Exemplifique. AULA III: A CONVERSA ENTRE OS TEXTOSObjetivo: A construção da terceira aula objetiva favorecer identificação de diálogos existentes entre textos e oferecer-lhe a oportunidade de ouvir e expor argumentos relacionados ao tema em questão.Atividade 1: Organize-se com seus com os componentes de seu grupo e leia opoema a seguir: AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VERAmor é fogo que arde sem se ver, É querer estar preso por vontade;é ferida que dói, e não se sente; é servir a quem vence o vencedor;é um contentamento descontente, é ter com quem nos mata, lealdade.é dor que desatina sem doer. Mas como causar pode seu favorÉ um não querer mais que bem querer; nos corações humanos amizade,é um andar solitário entre a gente; se tão contrário a si é o mesmo Amor?é nunca contentar-se de contente;é um cuidar que ganha em se perder. (CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos para amar o amor. São Paulo: L&PM, 2007) 5
  35. 35. Atividade 2: Agora ouça e acompanhe a letra da música que será reproduzida: MONTE CASTELO É um não contentar-se De contenteAinda que eu falasse É cuidar que se ganhaA língua dos homens Em se perder...E falasse a língua dos anjosSem amor, eu nada seria... É um estar-se preso Por vontadeÉ só o amor, é só o amor É servir a quem venceQue conhece o que é verdade O vencedorO amor é bom, não quer o mal É um ter com quem nos mataNão sente inveja A lealdadeOu se envaidece... Tão contrário a si É o mesmo amor...O amor é o fogoQue arde sem se ver Estou acordadoÉ ferida que dói E todos dormem, todos dormemE não se sente Todos dormemÉ um contentamento Agora vejo em parteDescontente Mas então veremos face a faceÉ dor que desatina sem doer... É só o amor, é só o amor Que conhece o que é verdade...Ainda que eu falasseA língua dos homens Ainda que eu falasseE falasse a língua dos anjos A língua dos homensSem amor, eu nada seria... E falasse a língua dos anjos Sem amor, eu nada seria...É um não quererMais que bem querer (Renato Russo. Adaptação de “I Coríntios 13” eÉ solitário andar “Soneto 11” de Luís Vas de Camões. CoraçõesPor entre a gente Perfeitos Edições Musicais Ltda – EMI). 6
  36. 36. Atividade 3: Agora que você leu o poema e ouviu a música, posicione-se emrelação às seguintes questões:  O que existe em comum entre o poema de Camões e a letra da música interpretada do grupo Legião urbana?  Os textos discutem um mesmo tema. Qual é esse tema? Os autores expõem divergências ou concordâncias em relação a ele?  Destaque os fragmentos da poesia que foram utilizados na música.  Considerando os fragmentos em comum, podemos afirmar que há diálogo entre os textos. Aponte de que forma ele ocorre e comente as impressões do seu grupo com o restante da turma: a) Reprodução fiel do poema; b) Abordagem do mesmo assunto, valendo-se de uma opinião divergente; c) Reprodução criativa, valendo-se de excertos da poesia, a partir de outras perspectivas.Atividade 4: Baseando-se em noções adquiridas na atividade anterior, você pôdeperceber que os textos travam diálogos, os quais recebem uma definição deintertextualidade. Trabalhar a intertextualidade consiste em identificar semelhançase diferenças no registro e nos aspectos temáticos, estruturais e discursivos. Partindoda afirmação de que os textos também podem travar diálogos divergentes, leia osseguintes poemas e identifique exemplos: 7
  37. 37. ISTO AUTOPSICOGRAFIADizem que finjo ou minto O poeta é um fingidor.Tudo que escrevo. Não. Finge tão completamenteEu simplesmente sinto Que chega a fingir que é dorCom a imaginação. A dor que deveras sente.Não uso o coração. E os que lêem o que escreve,Tudo o que sonho ou passo, Na dor lida sentem bem,O que me falha ou finda, Não as duas que ele teve,É como que um terraço Mas só as que eles não têm.Sobre outra coisa ainda.Essa coisa que é linda. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão,Por isso escrevo em meio Esse comboio de cordaDo que não está ao pé, Que se chama coraçãoLivre do meu enleio,Sério do que não é. (COUTINHO, Afrânio. O eu profundo e osSentir? Sinta quem lê! outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006). AULA IV: VIDA E OBRA DE FERNANDO PESSOAObjetivo: Esperamos que nesta aula você possa adquirir conhecimentos sobre a vida e obra de Fernando Pessoa, bem como seus heterônimos.Atividade 1: Acompanhe os vídeos ―Fernando Pessoa‖ e ―Fernando Pessoa Vida eObra‖.Atividade 2: Após assistir aos vídeos, amplie seus conhecimentos sobre o referidopoeta, através da literatura cuidadosa do seguinte texto: 8
  38. 38. Fernando Pessoa - o poeta da inquietude e do desassossego A literatura pode ser um meio de vida. Para Fernando Pessoa, a vida foi um meio para a literatura se revelar, uma demonstração daquilo queoutro poeta, o mexicano Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura de 1990, definiacomo aspectos biográficos no métier da poesia: ―Os poetas não têm biografia; suabiografia é-lhes a obra... Nada há de surpreendente em sua vida, nada, a não seremos poemas...‖. Uma biografia de Pessoa pode ser uma impossibilidade, mas também a provade que uma vida é repleta de surpresas quando engajada de maneira incondicionalá criação literária. Segundo Marcos Siscar, poeta, tradutor e professor de Teoria da literatura daUniversidade Estadual Paulista (UNESP), em São Jose do Rio Preto, ―para que osheterônimos sejam o que são, isto é, diferentes de ‗pseudônimos‘, é precisoimaginar que eles não sejam apenas estratégia de uma consciência lírica central,mas uma maneira de dramatizar (de dar a sentir) a dispersão constitutiva daquiloque chamamos consciência. Ou seja, não se trata, por um lado, de ver osheterônimos apenas como parte do plano autoral de um poeta central chamadoFernando Pessoa, nem, por outro lado, de passar a tratar esses heterônimos comoautores contemporâneos do modernismo português. A heteronímia deveria serconcebida como um teatro, nesse caso cheio de notações de cena, mas semdiretor‖. Leyla Perrone-Moisés, no livro Fernando Pessoa-Aquém do eu, além dooutro, diz que ―o fenômeno da heteronímia não é decorrência uma riqueza, mas deuma falta. Os heterônimos não são frutos de uma rica imaginação tão somenteartística, ou a prova da versatilidade do poeta, mas o cobrimento de uma falha. Faltade ser e excesso de desejo faz implodir o sujeito que, ao tentar reunir diversos ―eus‖postiços num conjunto, precipita-se, pelo contrário, na experiência da dispersão semvolta‖. (Nathalia Cesana, Revista Cult-, volume 3: O poeta da inquietude e do desassossego) 9
  39. 39. Aula V: Intertextualidade em Pessoa Objetivo: A quinta aula visa à reflexão sobre o conteúdo da aula anterior e a possibilidade de intertextualizar as poesias de Fernando Pessoa e declamações adaptadas com melodias por artistas contemporâneos.Atividade 1: Em grupo, leia os seguintes poemas de Fernando Pessoa: O MENINO DE SUA MÃENo plaino abandonado Caiu-lhe da algibeiraQue a morna brisa aquece, A cigarreira breve.De balas trespassado Dera-lhe a mãe. Está inteira– Duas, de lado a lado –, E boa a cigarreira,Jaz morto, e arrefece. Ele é que já não serve.Raia-lhe a farda o sangue. De outra algibeira, aladaDe braços estendidos, Ponta a roçar o solo,Alvo, louro, exangue, A brancura embainhadaFita com olhar langue De um lenço... Deu-lho a criadaE cego os céus perdidos. Velha que o trouxe ao colo.Tão jovem! que jovem era! Lá longe, em casa, há a prece:(Agora que idade tem?) ―Que volte cedo, e bem!‖Filho único, a mãe lhe dera (Malhas que o Império tece!)Um nome e o mantivera: Jaz morto, e apodrece,―O menino da sua mãe‖. O menino da sua mãe. (PESSOA, Fernando. Poesia: 1918-1930.São Paulo: Companhia das Letras, 2007.) 10
  40. 40. DOBRADA À MODA DO PORTO Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo ...(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,Particular ou público, ou do vizinho.Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.E que a tristeza é de hoje).Sei isso muitas vezes,Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeramDobrada à moda do Porto fria?Não é prato que se possa comer frio,Mas trouxeram-mo frio.Não me queixei, mas estava frio,Nunca se pode comer frio, mas veio frio.(PESSOA, Fernando. Poesia: 1918-1930.São Paulo: Companhia das Letras, 2007.)Atividade 2: Ouça agora os mesmos poemas interpretados na voz de Jô Soares eMarília Pêra, acrescidos de melodia.Atividade 3: Após a leitura e escuta dos poemas, discuta com os colegas de gruposobre o conteúdo dos textos, atentando para o que se segue: 11
  41. 41.  Lembrando das aulas 1, 2 e 3, nas quais conceituamos poesia, música e intertextualidade, podemos afirmar que houve diálogo entre o que lemos e escutamos?  Que efeito a melodia e a voz dos artistas contemporâneos acrescentam à compreensão dos poemas?  Embora exista uma distância entre o tempo de produção da obra de Fernando Pessoa e a adaptação feita pelos artistas, o diálogo pode ser considerado como uma forma de atualização temática ou apenas uma recriação criativa?  De que forma podemos relacionar o amor que foi servido frio em ―Dobrada à moda do Porto‖ com a triste estória do poema ―O menino de sua mãe‖?  Em relação ao poema ―O menino de sua mãe‖, está correto afirmar que a miséria e a falta de horizontes a que estão sendo submetidos os jovens são a causa da violência que impera em nossa sociedade?Atividade 4: Organizem-se em círculo para iniciar uma roda de conversa referenteàs questões anteriores; em seguida escolham um representante do grupo paracompartilhar as discussões realizadas com o restante da classe, você podeacrescentar outras informações e conhecimentos que possui acerca do assunto,evitando manter-se restrito ao conteúdo dos textos. Aula VI – O povo português e o mar Objetivo: A proposta é fazer com que você adquira conhecimentos sobre a importância da figura do mar para o povo português e, conseqüentemente, relacioná-la com as obras literárias de Camões e Fernando Pessoa, ou seja, Os Lusíadas e Mensagem. 12
  42. 42. Atividade 1: Leia os textos abaixo : A saudade que sentem os portugueses pode eventualmente ser explicada geograficamente. Com efeito, Portugal é um país pequeno cercado pelo mar, quase como uma ilha, que predispõe os seushabitantes a deixarem o continente. Não é por isso, supreendente a vontade que osportugueses têm em se virarem para o mundo, lançando-se ao mar. Os portuguesesnão gostam de limites e, por isso, evitam-nos. Os portugueses gostam de desafios;ficam tristes quando falham, mas ficariam ainda mais tristes se não tivessemtentado. As descobertas portugueses situam-se, algures, no passado porque ascolónias já o foram. De todo o lado onde os portugueses chegaram, deixam e trazemlembranças da sua passagem. Da arquitectura à língua, de Marrocos à China, passando pela Índia, Japão e Timor. A saudade que sentem os portugueses pode eventualmente ser explicada geograficamente. Com efeito, Portugal é um país pequeno cercado pelo mar, quase como uma ilha, que predispõe os seus habitantes a deixarem o continente. Não é por isso, supreendente a vontade que os portugueses têm em se virarem para o mundo, lançando-se ao mar. Os portugueses não gostam de limitese, por isso, evitam-nos. Os portugueses gostam de desafios; ficam tristes quandofalham, mas ficariam ainda mais tristes se não tivessem tentado. As descobertasportugueses situam-se, algures, no passado porque as colónias já o foram. De todoo lado onde os portugueses chegaram, deixam e trazem lembranças da suapassagem. Da arquitectura à língua, de Marrocos à China, passando pela Índia,Japão e Timor.(Adaptado de http://www.teiaportuguesa.com/lusografo/saudade.htm - Acessado em01/09/2008) ―... Um exemplo disso é a relação de admiração e competição que Pessoamantém com Luís de Camões, autor de Os Lusíadas, ‗Ao escrever Mensagem 13
  43. 43. Pessoa procura corrigir os erros de visão do épico camoniano quanto ao destinoportuguês. Corrige, também a inadequação formal do poema épico, uma vez que,segundo ele, os poemas longos já não são possíveis hoje em dia, quando aaceleração da vida exige uma forma concentrada, mas ricamente alusiva esignificativa de expressão poética. É a tentativa de reescrever Os Lusíadas doséculo XX‘, conta Yara.‖(Nathalia Cesana, Revista Cult-, volume 3: O poeta da inquietude e dodesassossego). Atividade 2: Agora que você aprendeu sobre a relação do povo portuguêscom o mar e sobre a obra Mensagem de Fernando Pessoa, reúna-se com o seugrupo e leia os poemas ―Mar Portuguez‖, Fernando Pessoa e alguns trechos de OsLusíadas. Após a leitura, identifique intertextualidade com a música de Djavan: ―ORei do Mar‖. Levando em consideração as seguintes questões:  Os autores abordam o assunto do mar partindo de uma mesma perspectiva? Explique.  Por que podemos afirmar que há intertextualidade entre a música e os poemas?  Destaque alguns versos dos poemas e da música em que fique explícita a exaltação do povo português em relação à dominação do mar. MAR PORTUGUEZÓ mar salgado, quanto do teu salSão lágrimas de Portugal!Por te cruzarmos, quantas mães choraram,Quantos filhos em vão rezaram!Quantas noivas ficaram por casarPara que fosses nosso, ó mar!Valeu a pena? Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.Quem quere passar além do BojadorTem que passar além da dor.Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,Mas nelle é que espelhou o céu. 14
  44. 44. (COUTINHO, Afrânio. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006). TRECHOS DE ―OS LUSÍADAS‖ – CANTO IV 62 "Pelo mar alto Sículo navegam; Vão-se às praias de Rodes arenosas; E dali às ribeiras altas chegam, Que com morte de Magno são famosas; Vão a Mênfis e às terras, que se regam Das enchentes Nilóticas undosas; Sobem à Etiópia, sobre Egito, Que de Cristo lá guarda o santo rito. 63 "Passam também as ondas Eritreias, Que o povo de Israel sem nau passou; Ficam-lhe atrás as serras Nabateias, Que o filho de Ismael coo nome ornou. As costas odoríferas Sabeias, Que a mãe do belo Adónis tanto honrou, Cercam, com toda a Arábia descoberta Feliz , deixando a Pétrea e a Deserta. 90 "Qual vai dizendo: —" Ó filho, a quem eu tinha Só para refrigério, e doce amparo Desta cansada já velhice minha, Que em choro acabará, penoso e amaro, Por que me deixas, mísera e mesquinha? Por que de mim te vás, ó filho caro, A fazer o funéreo enterramento, Onde sejas de peixes mantimento!" — 91 15
  45. 45. "Qual em cabelo: —"Ó doce e amado esposo, Sem quem não quis Amor que viver possa, Por que is aventurar ao mar iroso Essa vida que é minha, e não é vossa? Como por um caminho duvidoso Vos esquece a afeição tão doce nossa? Nosso amor, nosso vão contentamento Quereis que com as velas leve o vento?" — (CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Portugal: Europa-América, 2002). O REI DO MARVou me perder O brilho dos faróisNo azul verde do mar Que me importaJunto da manhã O fundo, a calmaria e o temporalEm busca da vida Eu sou o reiVou remover Eu sou o reiLendas, tormentas, paixão Eu sou o reiLivre a navegar do marEm busca da vida Da minha cidade natalQue me importa (Djavan. 1975 BMG Music Publishing BrasilA brisa fria Ltda). Atividade 3: Agora , individualmente, redija um pequeno texto expondo sua opinião acerca do seguinte comentário: Em sua ânsia de exploração e conquista, o homem olha sempre para frente e para longe; está sempre em busca de uma nova aventura e descoberta. Atualmente o homem tem realizadoconquistas de planetas distantes como a Lua e Marte. Em sua opinião,os motivosque levaram o ser humano a empreender a conquista espacial são os mesmos quelevaram o povo português às conquistas marítimas? 16
  46. 46. Sugestão de Leitura: Poema - O homem; as viagens, de Carlos Drummond de Andrade. AULA VII – ÁLVARO DE CAMPOS, O POETA DA PROSA RITMADA E EMOTIVA.Objetivo: O objetivo é que você possa aprofundar conhecimentos sobre a vida eobra de Álvaro de Campos e identificar seu estilo poético, bem como a escolha de suas temáticas.Atividade 1: Conheça um pouco mais sobre a vida e obra de Álvaro de Campos: (Excertos da Carta de Fernando Pessoa para Adolfo Casais Monteiro - Escrita em Lisboa). 17
  47. 47. Fases da Escrita:1ª Fase – Decadentista Esta fase expressa-se como a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia, com preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.2ª Fase – Futurista/Sensacionista Esta fase foi bastante marcada pela influência de Walt Whitman e de Marinetti (Manifesto Futurista), nela, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”.3ª Fase – Intimista/Pessimista Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. Como temáticas destacam-se: a solidão interior, a incapacidade de amar, a descrença em relação a tudo, a nostalgia da infância, a dor de ser lúcido, a estranheza e a perplexidade, a oposição sonho/realidade – frustração. a dissolução do “eu”, a dor de pensar e o conflito entre a realidade e o poeta.(Adaptado de http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos. Acessado em01/09/2008) 18
  48. 48. Atividade 2: Ouça o poema ―Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da baixa‖,musicado na voz de Jô Soares:Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da BaixaAquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,E romantismo, sim, mas devagar...).Sinto uma simpatia por essa gente toda,Sobretudo quando não merece simpatia.Sim, eu sou também vadio e pedinte,E sou-o também por minha culpa.Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:E estar ao lado da escala social,E não ser adaptável às normas da vida,As normas reais ou sentimentais da vida -Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,Não ser pobre a valer, operário explorado,Não ser doente de uma doença incurável,Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistasQue se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.Não: tudo menos ter razão!Tudo menos importar-se com a humanidade!Tudo menos ceder ao humanitarismo!De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:E ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,E ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta genteQue nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, 19
  49. 49. E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.Coitado do Álvaro de Campos!Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes porprofissão.Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!E, sim, coitado dele!Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,Que são pedintes e pedem,Porque a alma humana é um abismo.Eu é que sei. Coitado dele!Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!Mas até nem parvo sou!Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!Já disse: sou lúcido.Nada de estéticas com coração: sou lúcido.Merda! Sou lúcido.(Jô Soares - Voz. Billy Forghieri – Arranjo. Remix em Pessoa: Performance Music – SonyDADC Brasil.)Atividade 3: Organizem-se em círculo para iniciar uma roda de conversa e discutaminicialmente sobre as seguintes questões:  Baseando-se no texto lido na atividade 1, sabemos que Álvaro de Campos tinha como uma de suas características enfatizar a emotividade. Em que momentos de ―Cruzou por mim‖ podemos encontrar essa característica? 20
  50. 50.  Em sua opinião, que sentimento o ―eu – lírico‖ tenta expressar no seguinte verso: ―Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!‖.  Em qual das três fases, citadas acima, se encaixa o poema ―Cruzou por mim‖?  Uma das características predominantes de Álvaro de Campos é a de prosador (narrador). Em ―Cruzou por mim‖, podemos fundamentar essa afirmação? Justifique sua resposta.  De acordo com o poema, qual opinião o ―eu – lírico‖ expressa sobre o que é ser ―vadio e pedinte‖? AULA VIII – RICARDO REIS, O POETA NEOCLÁSSICO.Objetivo: Possibilitar oportunidade para que você, aluno, construa conhecimentos sobre a vida e obra de Ricardo Reis, bem como bem como a escolha de suas temáticas.Atividade 1: Leia os textos a seguir: 21
  51. 51. (Excertos da Carta de Fernando Pessoa para Adolfo Casais Monteiro - Escrita em Lisboa, 13 de Janeiro de 1935). A poesia de Ricardo Reis é constituída com bases em idéias elevadas e odes,ou seja, na poesia de Reis é constante o Neoclassicismo. Para finalizar, podemosconcluir que através da intemporalidade das suas preocupações, a angústia dabrevidade da vida, a inevitável Morte e a interminável busca de estratégias delimitação do sofrimento que caracteriza a vida humana, Reis tenta iludir o sofrimentoresultante da consciência aguda da precariedade da vida. Temáticas:  Aceita a calma da ordem das coisas;  Sofre com as ameaças do Fatum, da velhice e da Morte;  Vê o rio como uma imagem da vida que passa – efemeridade;  Considera a infância a idade ideal;  Defende o ideal de uma vida passiva e silenciosa;  Preconiza a carência das ideias dogmáticas e filosóficas como meio de manter-se puro e sossegado;  Opõe o paganismo e ao cristianismo;(Adaptado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Reis. Acessado em 01/09/2008) O que é Ode? Poema lírico de forma complexa e variável. Surgiu na Grécia Antiga, onde era cantado com acompanhamento musical. A ode caracteriza-se pelo tom elevado e sublime com que trata determinado assunto. As literaturas ocidentais modernasaproveitaram sobretudo, do ponto de vista da forma, a ode composta por trêsunidades estróficas, correspondentes, no desenvolvimento da idéia do poema, àestrofe, à antístrofe (cantada pelo coro, originalmente) e ao epodo (conclusão dopoema). A ode comportava uma série de esquemas métricos e rítmicos, de acordocom os quais era classificada. 22
  52. 52. (D´ONOFRIO, Salvatore. Pequena Enciclopédia da Cultura Ocidental. São Paulo: Campus, 2005).Atividade 2: Ouça o poema ―Segue o teu destino‖, de Ricardo Reis, musicado navoz de Nana Caymmi: SEGUE O TEU DESTINOSegue o teu destinoRega as tuas plantasAma as tuas rosasO resto é a sombraDe árvores alheiasA realidadeSempre é mais ou menosDo que nós queremosSó nós somos sempreIguais a nós próprios.Suave é viver sóGrande e nobre é sempreViver simplesmenteDeixa a dor nas arasComo ex-voto aos deusesVê de longe a vidaNunca a interroguesEla nada podeDizer-te. A respostaEstá além dos deuses.Mas serenamenteImita o OlimpoNo teu coraçãoOs deuses são deusesPorque não se pensam 23
  53. 53. (Nana Caymmi – Voz: Dori Caymmi. A música em Pessoa. Biscoito Fino Ltda).Atividade 3: Observe o quadro abaixo atentando para o seguinte enunciado:  Você já estudou o Neoclassicismo, tanto o quadro como o poema têm características classicistas. Identifique-as, relacionando as duas obras. O Parnaso (séc. XV), de Andrea Mantegna, obra do Renascimento italiano.Atividade 4: Ligue as características (coluna 1) aos versos retirados do poema―Segue o teu destino‖ (coluna 2). Segue o teu destino Rega as tuas plantasDefende o ideal de uma vida Ama as tuas rosaspassiva e silenciosa O resto é a sombra De árvores alheias Suave é viver sóReferência à mitologia grega Grande e nobre é sempre Viver simplesmente Vê de longe a vidaSofre com as ameaças do Nunca a interroguesFatum, da velhice e da Morte Ela nada pode Dizer-te. Mas serenamenteBucolismo Imita o Olimpo No teu coração Os deuses são deuses Porque não se pensam 24
  54. 54. Sugestão de Leitura: Romance – “O ano da morte de Ricardo Reis”, de José Saramago. Sinopse: Neste romance, o heterônimo mais clássico do poeta português Fernando Pessoa, o horaciano Ricardo Reis, acha-se novamente em Lisboa, depois de uma temporada no Brasil, onde se auto-exilara. O ano é o de 1936. Médico, educado pelos jesuítas e monarquistas, ele é um sábio capaz de se contentar em assistir ao espetáculo do mundo, como diz numa das epígrafes do livro. Aqui, porém, ele se vê confrontado com os acontecimentos de 1936, em Portugal e fora dele; de um lado, a ditadura fascista de Salazar; de outro, a gestação da Segunda Guerra Mundial, a Frente Popular francesa, a Guerra Civil espanhola, a expansão nazista na Europa. Um confronto, enfim, com um mundo que decerto não era um espetáculo. AULA IX – ALBERTO CAEIRO, O MESTRE.Objetivo: Possibilitar oportunidade para que você, aluno, construa conhecimentossobre a vida e obra de Alberto Caeiro, bem como a escolha de suas temáticas. Atividade 1: Leia o seguinte trecho de ―O Guardador de Rebanhos‖, poema de Alberto Caeiro e ouça ―Liberdade‖, de Fernando Pessoa, musicado na voz de Jô Soares: FRAGMENTO V Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que idéia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma 25
  55. 55. E sobre a criação do Mundo?O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!O único mistério é haver quem pense no mistério. […]Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?A de serem verdes e copadas e de terem ramosE a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,A nós, que não sabemos dar por elas.Mas que melhor metafísica que a delas,Que é a de não saber para que vivemNem saber que o não sabem?―Constituição íntima das cousas‖…―Sentido íntimo do Universo‖…Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. […]Pensar no sentido íntimo das cousasÉ acrescentado, como pensar na saúdeOu levar um copo à água das fontes.O único sentido íntimo das cousasÉ elas não terem sentido íntimo nenhum.(COUTINHO, Afrânio. O eu profundo e os outros eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006).LIBERDADE(Fernando Pessoa)Ai que prazerNão cumprir um dever.Ter um livro para lerE não o fazer!Ler é maçada,Estudar é nada.O sol doira sem literatura.O rio corre bem ou mal,Sem edição original.E a brisa, essa, de tão naturalmente matinalComo tem tempo, não tem pressa… 26
  56. 56. Livros são papéis pintados com tinta.Estudar é uma coisa em que está indistintaA distinção entre nada e coisa nenhuma.Quanto melhor é quando há bruma.Esperar por D. Sebastião,Quer venha ou não!Grande é a poesia, a bondade e as danças…Mas o melhor do mundo são as crianças,Flores, música, o luar, e o sol que pecaSó quando, em vez de criar, seca.E mais do que istoÉ Jesus Cristo,Que não sabia nada de finanças,Nem consta que tivesse biblioteca…(Jô Soares - Voz. Billy Forghieri – Arranjo. Remix em Pessoa: Performance Music – SonyDADC Brasil.)Atividade 2: A partir da leitura realizada na atividade anterior, discuta com os seuscolegas de grupo o diálogo existentes entre esses dois fragmentos, retirados dosdois poemas acima:―Há metafísica bastante em não pensar em nada.‖(O Guardador de Rebanhos – Fragmentos V)―Estudar é uma coisa em que está indistintaA distinção entre nada e coisa nenhuma.‖(Liberdade)Atividade 3: Observe as seguintes características da escrita de Alberto Caeiro e apartir dessas informações identifique-as dentro do Fragmento V de ―O Guardador deRebanhos‖: 27
  57. 57.  Todo objeto é uma sensação nossa;  Toda a arte é a convenção de uma sensação em objeto;  Portanto, toda arte é a convenção de uma sensação numa outra sensação;  regressa a um primitivismo do conhecimento da natureza;  ensinou a filosofia do não filosofar;  linguagem espontânea, discursiva, e prosaica.(Adaptado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Alberto_Caeiro. Acessado em 01/09/2008) (Excertos da Carta de Fernando Pessoa para Adolfo Casais Monteiro - Escrita em Lisboa, 13 de Janeiro de 1935). 28

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