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Cultura, Água e Meio ambiente

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  • 1. XIII ENGEMA – Encontro Nacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente ENGEMA + 20 Inovação e Sustentabilidade: as novas fronteiras da gestão empresarial São Paulo, 5,6,7 de dezembro de 2011 CULTURA, ÁGUA E MEIO AMBIENTE Fernanda Matos1RESUMO:Este artigo apresenta uma reflexão sobre a interação entre o ambiente e a cultura, e o uso daágua como fator cultural. A partir de uma revisão bibliográfica, observa-se a culturadetermina seu meio ambiente, e, também é determinada pelo ambiente, nesse sentido, oambiente geográfico pode influenciar a cultura. Considerando que a água é um recurso doqual o homem não pode prescindir, e seu uso possui dimensões conflitivas e políticas.Abordando ainda, a necessidade de uma abordagem integrada da água, gerenciamento derecursos e desenvolvimento, visando proporcionar maior capacidade de subsistência aoshabitantes.Palavras-chave: antropologia; natureza; simbolismo; recursos hídricosABSTRACT:This article presents a reflection on the interaction between environment and culture, and theuse of water as a cultural factor. From a literature review, there is culture determines itsenvironment, and is also dictated by the environment, in this sense, the geographicalenvironment can influence the culture. Considering that water is a resource which man cannot do without, and its use has dimensions and conflicting policies. It also addresses the needforan integrated approach to water resource management and development, aiming toprovide greater capacity for subsistence to the inhabitants.Key words: anthropology; nature; symbolism; water resourcesINTRODUÇÃOA interferência cada vez maior do homem na natureza na busca de recursos para suasobrevivência e bem estar vem provocando degradação no meio ambiente, especialmente nasúltimas décadas. A relação entre cultura e meio ambiente tem sido abordada de diferentes1 Administradora, pós graduada em Gestão Estratégica de Marketing e Mestre em Turismo e Meio Ambiente.
  • 2. maneiras através de debates relevantes da Antropologia e da História, ampliando-se, com opassar do tempo, a outras áreas de estudo. A discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensarsobre a realidade social e, sobretudo, sobre as questões relacionadas ao meio ambiente, bemcomo o uso da água.A Declaração de Paris (Conferência Internacional sobre Água e DesenvolvimentoSustentável, 1998) afirma que água doce é essencial ao desenvolvimento sustentável, bemcomo é essencial a vida. E que a água ainda possui valores sociais, econômicos e ambientaisque estão interligados e são dependentes entre si.Diegues (2009) ressalta que a água é necessidade básica de todos os seres humanos, mas aforma com que essa necessidade é entendida depende da cultura, bem como o atendimentodessa necessidade (água para beber, irrigar, lavar, etc). A água é um recurso do qual o homemnão pode prescindir. Desempenhando um leque de funções, a água é utilizada para cultivo eprodução de alimentos, como símbolo político e cultural, bem como um local paraentretimento, dentre outras possibilidades. Considerando seu valor, as tentativas de gerenciara água, ou seja, cuidar para que os usuários a tenham na quantidade certa, com boa qualidadee disponibilidade no momento apropriado, têm atraído a atenção das sociedades há muito(HUITEMA; MEIJERINK, 2007).Este artigo apresenta uma reflexão sobre a interação entre o ambiente e a cultura, e o uso daágua como fator cultural. A partir de uma revisão bibliográfica, observa-se a culturadetermina seu meio ambiente, e, também é determinada pelo ambiente, nesse sentido, oambiente geográfico pode influenciar a cultura. Considerando que a água é um recurso doqual o homem não pode prescindir, e seu uso possui dimensões conflitivas e políticas.Abordando ainda, a necessidade de uma abordagem integrada da água, gerenciamento derecursos e desenvolvimento, visando proporcionar maior capacidade de subsistência aoshabitantes.CULTURANo final do século XVIII e no princípio do seguinte, conforme Laraia (2001) o termogermânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de umacomunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizaçõesmateriais de um povo. Os termos foram posteriormente sintetizados por Tylor, definindo quea cultura contempla conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outracapacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.Segundo o dicionário Aurélio o termo Cultura pode ser definido como sendo um conjunto decaracterísticas humanas que não são inatas, e que se criam e se preservam ou aprimoramatravés da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade, associada a umacapacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva. A parte ou o aspecto da vidacoletiva, relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual eartística. O processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação,que resulta do aprimoramento de seus valores, instituições, criações, etc.; O conjuntocomplexo dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal comose desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico, e que se manifestam em praticamente 2
  • 3. todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de comportamento, crenças,instituições, valores espirituais, criações materiais, etc.Para Santos (1994), a Cultura diz respeito à humanidade como um todo e ao mesmo tempo acada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos. Onde cada cultura é o resultado deevolução histórica e suas relações com outras culturas.De acordo com Sachs (2000), cultura é uma “palavra polissêmica”, e possui pelo menos trêssignificados distintos. No primeiro, cultura é todo o entendimento do meio em que se vive,sendo também mediadora entre a sociedade e a natureza. O autor destaca que os recursos sãoa parcela do meio que é utilizada para uma finalidade, considerada útil. E, sua utilidade estaligada aos fatores culturais e históricos, sendo passível de modificação. Ou seja, algo queesteja em uso na atualidade, pode não ter sido utilizado à algumas décadas atrás.Cultura também é o conjunto dos valores, dos usos e das instituições, aquilo que, segundoSachs (2000), os antropólogos conhecem e evidentemente está profundamente ligado comproblemas dos postulados éticos. E, também esta ligada ao jogo de harmonização do social,do ecológico e do econômico, que é o estilo de vida. As diferenças culturais, os valores, ahistoria, o peso do passado, tudo isso influi para que haja estilos de vida diferentes. “Agora avariável estilo de vida é uma variável crucial. Porque é ela que determina, em ultima instânciaa demanda, o padrão da demanda.” O terceiro sentido de cultura, apresentado por Sachs, étudo que diz respeito à atividade estética, no sentido amplo da palavra.No entendimento de Santos (1994), cultura apresenta duas concepções básicas. A primeira dizrespeito a tudo que caracteriza a existência social e identificação de um povo ou nação. Asegunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às idéias e crenças. Segundo Laraia(2001) foi a cultura que permitiu à humanidade o distanciamento do mundo animal, passandoa ser considerado um ser que está acima de suas limitações orgânicas. Para Lévi-Strauss, acultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra, a primeiranorma, e que o homem é ao mesmo tempo um ser biológico e um individuo social.A diversidade cultural, no entendimento de Santos (1994), reflete a variedade da históriahumana, expressando as possibilidades de vida social estabelecida e registrando os graus eformas distintos de “domínio humano sobre a natureza”.A cultura é o meio de adaptação do homem aos diferentes ambientes. Existem dois tipos demudança cultural: interna, resulta da dinâmica do próprio sistema cultural. Esta mudança élenta; porém, o ritmo pode ser alterado por eventos históricos, como catástrofe ou uma grandeinovação tecnológica. A mudança externa é resultado do contato de um sistema cultural comoutro. Esta mudança é mais rápida e brusca. (LARAIA, 2001)Segundo Santos (1994) é importante considerar a diversidade cultural interna da sociedade;para compreender melhor o país em que se vive. A diversidade não é constituída apenas deidéias, ela esta relacionada também as maneiras de atuar na vida social, sendo um elementoque faz parte das relações sociais. Segundo o autor, a diversidade evidencia-se pelas maneirasdistintas de viver, e sua compreensão auxilia a eliminação de “preconceitos e perseguições”de que são alvo alguns grupos sociais.Para Geertz (2002), o conceito de cultura é essencialmente semiótico, que vai de encontrocom o pensamento de Max Weber "que o homem é um animal amarrado a teias de 3
  • 4. significados que ele mesmo teceu". Geertz concebe a cultura como uma "teia de significados"que o homem tece ao seu redor e que o amarra. Busca-se apreender os seus significados (suadensidade simbólica).Um dos métodos utilizados para entender a cultura é etnografia. A interpretação doantropólogo, segundo Geertz (2002), consiste em enfrentar uma multiplicidade de estruturasconceituais complexas, estranhas e irregulares, a fim de compreendê-las para depoistranscrevê-las. Fazer etnografia seria, para o autor, como tentar ler um manuscrito estranho,desbotado, cheio de incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos.A antropologia cultural, ramo da antropologia que estuda a cultura, apóia-se na etnografia(descrição), na etnologia (comparação), na etnolinguística (formas de linguagem, de evoluçãoda língua, influências lingüísticas...) e na pré-história (vestígios do passado).Geertz (2002) declara que a etnografia é, antes de tudo, um esforço intelectual voltado parauma descrição densa; fazer etnografia é descrever densamente. E, praticá-la não é apenasestabelecer relações, selecionar informantes transcrever textos, levantar genealogias, mapearcampos, manter um diário, o que define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: umrisco elaborado para uma "descrição densa" dos significados da sociedade estudada.Segundo Dias (2010), a cultura se manifesta por meio de tudo aquilo que produz o serhumano para satisfazer às suas necessidades e viver sociedade. A fim de satisfazer asnecessidades de alimentação, criam-se animais domésticos, plantam-se sementes, produzem-se utensílios (garfo, faca, prato); a necessidade de abrigo traduz-se a produção de vestimentas,casas, etc.Cada realidade cultural, segundo Santos (1994), possui uma lógica interna, e é precisoconhecê-la para que suas práticas, costumes, hábitos e concepções façam sentido, bem comoas transformações pelas quais passaram. Nesse sentido, compreender a relaçãoCULTURA, ÁGUA E MEIO AMBIENTEAs relações entre a natureza e a cultura, desde a antiguidade clássica, vêm sendo conferidaspor intermédio de uma série de diferenciações que, em última instância, buscam celebrar assingularidades do prodígio humano frente aos desígnios da natureza. Apesar de permeadas porinterpretações que, de certa forma, tendem a tratar essas duas acepções como categoriasantagônicas, as concepções de natureza adquiriram um sentido particular no engendramentoda sociedade humana.De acordo com Keesing (1972), até “os sábios da Grécia Clássica” especularam sobre ainfluência do habitat e a cultura, mais precisamente, a influencia do clima e da alimentação nofísico e nos costumes da população. A cultura age seletivamente sobre o seu meio ambiente,explorando determinadas possibilidades e ignorando outras. E, que o meio ambiente é passivoas possibilidades e limites ao desenvolvimento (SAHLINS, 1966).As sociedades humanas foram ampliando seu controle sobre o meio ambiente natural, pormeio da criação e da consolidação de um meio ambiente cultural, que se manteve transmitidode geração para geração. Sendo a cultura, tudo o que foi idealizado e construído pelo homem 4
  • 5. ao longo de sua existência, tanto pelo aspecto material quanto pelo não material, responsávelpela sobrevivência dos seres humanos e sua permanência como espécie dominante (DIAS,2010).Mello (1987) afirma que toda a cultura é fortemente influenciada por seu ambiente, e quealguns elementos culturais não se desenvolveriam em determinados ambientes, enquantooutros prosperariam plenamente. Afirma ainda, que as condições geográficas influenciamtoda a cultura de seus habitantes. E, que um ambiente rico permite um leque mais amplo dealternativas no encaminhamento da cultura. Em contrapartida um ambiente pobre limitam detal forma a vida de seus habitantes, que é possível prever alguns comportamentos sociais.Neste sentido, no entendimento de Shalins (1966), há um intercâmbio entre a cultura e o meioambiente. Onde a cultura determina seu meio ambiente, e, também é determinada peloambiente, adaptando às condições externas importantes a fim de elevar a qualidade de vida. E,que as sociedades estão colocadas, tipicamente, em campos de influencia cultural, bem comode influencia natural, sofrendo modificações provindas tanto de uns como de outros.Mais diretamente relacionada a influência da água, Fracalanza (2009) acrescenta que anecessidade de uso da água vai além do sentido de utilização para fins econômicos, ou seja,de apropriação da água. Pode ser também utilizada em decorrência de aspectos culturais ouespirituais. Como exemplos, a autora destaca a importância de contemplação de um lago, deum rio ou de exercício físico em um ambiente aquático, sendo estes frutos de necessidadesque os homens têm em relação à água.Huitema e Meijerink (2007) corroboram, afirmando a importância água como sendo umrecurso do qual o homem não pode prescindir. Desempenhando um leque de funções, a água éutilizada para cultivo e produção de alimentos, como símbolo político e cultural, bem comoum local para entretimento (FIG1), dentre outras possibilidades (FIG2). Para os povosindígenas e comunidades tradicionais, segundo Diegues (2010) a água é um dos elementoscentrais da reprodução não somente material, mas também simbólica, estando presente eminúmeros mitos.Figura 1: Prática de Rapel Figura 2: LavadeiraFonte: Bendita – Conteúdo & imagem Fonte: Bendita – Conteúdo & imagemDe acordo com Maçaneiros (2009), desde que Empédocles propôs a água, o fogo, a terra e oar como princípios da realidade natural, o Ocidente se habituou à chamada “cultura dos quatro 5
  • 6. elementos, sendo na água que todas as coisas encontram sua origem e a chance de seremrenovadas.Conforme Keesing (1972), o habitat, ou seja, as condições externas do homem, desempenhamimportante papel no desenvolvimento e distribuição da cultura. Condições estas queinfluenciam o comportamento cultural e são por eles influenciadas. Para o autor cada grupotem necessidade de criar um estilo de vida que se adapte ao mundo externo imediato paragarantir a sobrevivência física.Segundo Franca (2009) a água foi, através dos séculos, fonte de inspiração e fator primordialnas civilizações, estando presente nas tradições afro-brasileiras (Iemanjá - a rainha do mar;Oxum – Orixá que reina sobre a água doce dos rios), nas artes, na arquitetura, estandopresente no paisagismo, valorizando a paisagem nos lagos urbanos, tendo como exemplo aLagoa da Pampulha em Belo Horizonte e o Lago no Parque Municipal (FIG3).A cultura compreende a totalidade das criações humanas, o que inclui, valores, manifestaçõesartísticas, crenças, instrumentos de trabalho, tipos de vestuários, alimentação, construções,animais domésticos, plantas desenvolvidas e cultivadas pelo homem (DIAS, 2010). Nestesentido, ao percorrer as cidades, pode-se perceber a incorporação do elemento natural aoambiente natural, que pode ser compreendido como sendo o ambiente construído pelohomem. Como por exemplo, as obras publicas de infra-estrutura e no patrimônio construído,como fontes (FIG4), pontes, aquedutos, barragens, dentre outros que são partes do patrimôniocultural.Figura 3: Parque Municipal Américo Renné Gianntti Figura 4: Praça da LiberdadeFonte: Prefeitura de Belo Horizonte Fonte: Prefeitura de Belo HorizonteO simbolismo da água como fonte de vida é mencionado em quase todas as cosmogonias,desde o Gênesis, na Bíblia, até o Alcorão, ou mesmo em escritos pagãos, como os do filósofogrego Aristóteles, que cita Thales de Mileto (624-546 a.C) ao afirmar que a água seria oelemento original ou o princípio de todas as coisas (FORTES, 2007)Segundo Dias (2010), a religião influencia na percepção que uma cultura possui sobre a vida,seu significado e seu conceito. As tradições religiosas podem inibir o desenvolvimento dedeterminadas estruturas organizacionais. A religião também influencia o desempenho dospapeis sociais, o desenvolvimento de instituições e o rituais que cercam os mais importantesmomentos da vida. 6
  • 7. Nas religiões, o uso ritual da água segue um ritmo de envolvimento crescente que vai desde asimples aspersão, até a total imersão. Para se livrarem do ciclo de reencarnações, os hindusmergulham no Ganges, Yamuna e Godavàri, considerados rios sagrados. Os judeus sepurificam pelo banho ritual. Os muçulmanos lavam os pés, os braços e o rosto antes daoração. Neste sentido, o cristianismo incorporou, no sacramento do batismo, o simbolismo deregeneração que a água irradia (MAÇANEIROS, 2009).Na mitologia, segundo Fortes (2007) os personagens mais conhecidos relacionados à água sãoPoseidon (ou Neturno) tido como o senhor da ilha de Atlântida e responsável pelosmaremotos, terremotos e tempestades; Narciso e a personagem Ophelia, de Shakespeare. E,ainda a deusa Sarasvàti dos hindus, a Serpente Alada dos mexicas, as Sereias e a Yara dostupi-guaranis (MAÇANEIROS, 2009).As representações culturais das águas variam segundo as culturas, as religiões, o habitat emque se desenvolveram, sua maior ou menor disponibilidade e sazonalidade. As comunidadesribeirinhas amazônicas e pantaneiras vivem ao sabor das cheias e vazantes, expandindo suavida social durante o período de estiagem e restringindo a durante a subida das águas.(DIEGUES, 2009)Mello (1987) esclarece que ambiente não determina o tipo e/ou o grau de cultura dos povos,mas limita ou favorece o desenvolvimento de uma cultura. E quanto mais uso eaproveitamento uma cultura faz do meio geográfico, tanto mais dependente ela fica. Ou seja,o domínio do homem sobre a natureza o torna cada vez mais dependente desses recursos.Em reconhecimento da importância da água, o Capítulo 18 da Agenda 21, adotada naConferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro,em 1992, enfatizou a necessidade de uma abordagem integrada da água, gerenciamento derecursos e desenvolvimento, que reconhecesse as múltiplas demandas conflitantes sobrerecursos de água doce.O uso da água tem dimensões conflitivas e políticas, afetando de forma distinta as sociedadesurbano-industriais e as tradicionais. A construção de barragens e sistemas de irrigação,segundo Diegues (2009) são exemplos de atividades geradoras de conflitos, alterando oshábitos migratórios de peixes, afetando as comunidades ribeirinhas que dependem da pesca.O Relatório de Desenvolvimento da ONU de 2006, cujo tema principal foi a crise da água,segundo Jacobi e Sinisgalli (2009) mostrou a importância deste recurso escasso; frente àsnecessidades de conservação dos ecossistemas e suporte às várias formas de vida. Asmudanças ocorridas no ultimo século como o aumento da população, urbanização, produçãode alimentos, atividades industriais, dentre outras, levaram também ao aumento danecessidade de uso da água, gerando competição e conflitos por esse recurso limitado.De acordo com Franca e Ribeiro (2010), em muitos casos, essas tensões possuem um fortecomponente cultural, resultante de percepções diferentes sobre o valor da água, que variam deacordo com os contextos socioculturais. Para poder resolver esses conflitos, é necessário umamelhor compreensão das implicações culturais e sociais da água em cada sociedade ecivilização. As antigas causas dos conflitos, os erros do passado e do presente bem como oscasos de sucesso referentes à gestão das águas devem ser conhecidos e estudados de forma aque possamos extrair lições para o futuro. Assim, a consideração da dimensão cultural deve 7
  • 8. estar associada às dimensões políticas, econômicas e científicas para a prevenção e/ou aresolução dos problemas relacionados ao uso e gestão das águas.A disponibilidade de recursos hídricos se tornou nas últimas décadas objeto de preocupaçãopor parte da sociedade com um todo. Essa apreensão resultou no desenvolvimento de umagrande quantidade de estudos (Relatório de Mudanças Climáticas) e conferências (Rio 92).Estudos e encontros que tiveram como objetivo a identificação e busca de alternativas para ouso racional dos recursos naturais e, dentre eles a água, seja na captação ou como depósito deefluentes (GARCIA et al., 2009).Para Franca e Ribeiro (2010) conhecer e, principalmente, respeitar os aspectos culturaisrelacionados ao uso e gestão das águas em cada região e em cada sociedade, é fundamental.Com o objetivo de não impor projetos ou políticas que possam gerar conflitos, facilmenteevitados ou contornados pelo simples conhecimento e respeito a esses aspectos culturais,sociais e econômicos.De acordo com estudos, as mudanças climáticas, de acordo com Jabobi e Sinisgalli (2009),indicam alterações no comportamento histórico das chuvas, além da redução da quantidade equalidade. Considerando essas alterações e o aumento da demanda por água, pode gerarsituações de tensão entre os atores sociais e econômicos, expressos muitas vezes através dosusos e ocupação dos solos, aumentando a necessidade de buscarem formas cooperativas.Neste sentido, a gestão dos recursos naturais e, consequentemente, dos recursos hídricosganha espaço nas decisões de políticas públicas. O mesmo se percebe no setor privado, comimplantação de estratégias como estabelecimento de barreiras comerciais associadas àprodução sustentável em termos sócio-ambiental dos processos industriais (GARCIA et al.,2009).O Brasil possui 12% de água doce do mundo, no entanto, essa disponibilidade variaconsideravelmente, tanto em termos geográficos, quanto de sazonalidade, havendo vários osregistros de problemas de abastecimento para usos diversos. Neste contexto, um dos maioresdesafios da gestão dos recursos hídricos, como aponta Cardoso (2008) está relacionado àampliação do abastecimento em regiões com baixa disponibilidade de bacias hidrográficas emelhoria da qualidade através da redução da poluição domestica e industrial.Entre os usos múltiplos da água, o turismo depende de forma direta da existência depatrimônio hídrico com potencial cênico e paisagístico. No Brasil, parte significativa daslocalidades com atividades turísticas ou com potencial turístico relaciona-se à água, comoatrativo. Nesse contexto, é relevante a articulação da gestão de recursos hídricos com a gestãodo patrimônio cultural. (FRANCA; RIBEIRO, 2003).Segundo Bernauer, 1997 (apud Souza, 2003 p.), mesmo antes do século XVIII, ocompartilhamento de águas entre países já freqüentava a pauta de negociações. Tendo emvista o uso compartilhado e a necessidade de cooperação entre os países, tanto à montante,quanto à jusante, gerando acordos para disciplinar seu uso e conservação.A estrutura institucional para a gestão da água na Holanda tem uma história longa. Já nosséculos 11 e 12, comunidades locais começaram organizar-se para gerir os sistemas de água,especialmente para defender se contra as inundações do mar e dos rios. Nos 13 século, aprimeira água juntas distritais democrática foi estabelecida. Van Leussen et al. (2007) 8
  • 9. Segundo Souza (2003), no Séc. XIX registrou-se a regulamentação do despejo de dejetosproduzidos pela indústria na fabricação de sabão, vidro e têxteis. A desertificação ocasionadaem várias áreas foi motivo de luta parlamentar na Inglaterra, resultando em 1863, naaprovação da Lei dos Álcalis.No Brasil, a adoção, em 1934, do Código das Águas, do Código da Mineração e do CódigoFlorestal, e também a criação, em 1937, do Parque Nacional de Itatiaia marcam o inicio dasações governamentais no campo das políticas ambientais. O Código das Águas, define osdireitos de propriedade de uso dos recursos hídricos para o abastecimento, a irrigação, anavegação, os usos industriais e a produção de energia, e as normas para a proteção daqualidade das águas territoriais (decreto nº 24.643, de 10/07/34, Lei nº 4.904, de 17/12/1965,decreto nº 58.076, de 24/03/66, Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000 – Dispõe sobre a criaçãoda Agência Nacional de Água – ANA). (Almeida et al., 2004)Conforme Ribeiro (2009) analisar uma bacia hidrográfica remete necessariamente ao uso dosolo de sua área, incluindo subsolo, relevo fauna, flora, que tem nos leitos fluviais seuelemento integrador. E, que deve ser avaliado à luz da capacidade de reposição hídrica. Comoo uso do solo é socialmente definido não há como fugir à dimensão política (FRACALANZA,2009).Portanto, gestão da bacia hidrográfica exige a cooperação dentro de sua abrangência de todasas partes interessadas. Quanto maior sua extensão, maior se torna a complexidade desteprocesso de cooperação, tendo em vista divergências culturais, políticas, diferençasinstitucionais, além de diferenças de pontos de vista sobre o uso da água (VAN LEUSSEN etal., 2007)CONSIDERAÇÕES FINAISO uso da água possui dimensões conflitivas e políticas, afetando de forma distinta associedades urbano-industriais e as tradicionais. No entanto, a origem dos conflitos e a formade solucioná-los são distintas em ambas as sociedades. Nas sociedades tradicionais, as águassão classificadas segundo diversos critérios, ganhando atribuições virtuosas e defeitos ligadosa um simbolismo polissêmico. Nestas sociedades simbologias e ciência se misturam, de formadistinta, as sociedades modernas também possuem símbolos e mitos relacionados com aságuas, bem como formas de classificação das águas e rios.Pode se constatar que o ambiente é uma condição indispensável para que haja cultura. E, queo ambiente geográfico pode influenciar a cultura, pois é dele que os habitantes retiram suasubsistência. Assim como, as condições climáticas exigirão mais ou menos proteção contra asvariações do tempo.Segundo Mello (1987), a união de uma cultura eficiente (tecnologia avançada) com umambiente geográfico rico proporcionará uma capacidade maior de subsistência aos habitantes,poder econômico, político e orgulho. Portanto, conhecer e, principalmente, respeitar osaspectos culturais relacionados ao uso do meio ambiente, sobretudo a gestão das águas emcada região e em cada sociedade, é fundamental. Com o objetivo de não impor projetos ou 9
  • 10. políticas que possam gerar conflitos, facilmente evitados ou contornados pelo simplesconhecimento e respeito a esses aspectos culturais, sociais e econômicos.REFERÊNCIASALMEIDA, Josimar Ribeiro; CAVALVANTI, Yara; MELLO, Claudia dos Santos. Gestãoambiental: planejamento, avaliação, implantação, operação e verificação. 2. ed., ver. eatualizada. Rio Janeiro: Thex Ed., 2004.BEGOSSI, Alpina. Ecologia Humana: um enfoque das relações homem-ambiente.Interciencia 18(1): 121-132, 1993. URL: http://www.interciencia.org.veCARDOSO, Manfredo Pires. La Gobernanza y la Garantía del Derecho al Agua – Laexperiencia en Brasil y los retos a superar. Exposición Internacional "Agua y DesarrolloSostenible". Disponível em: www.expozaragoza2008.es. Acesso em agosto de 2010.DIAS, Reinaldo. Introdução à sociologia. 2ª ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010.DIEGUES, A. C. Água e Cultura nas populações tradicionais brasileiras. IN: RIBEIRO,Wagner Costa, Org. Governança da água no Brasil: uma visão interdisciplinar. São Paulo:Annablume; Fapesp; CNPq, 2009.EVANS-PRITCHARD, E.E. Os Nuer 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1993.FORTES, Hugo. Água: significados e simbologias na arte contemporânea. II Colóquio dePsicologia da Arte. realizado nos dias 7 e 8 de junho de 2007. Instituto de Psicologia da USPFRACALANZA, Ana Paula. Gestão das águas no Brasil: rumo à governança da água? IN:RIBEIRO, Wagner Costa, Org. Governança da água no Brasil: uma visão interdisciplinar. SãoPaulo: Annablume; Fapesp; CNPq, 2009.FRANCA, D. T. Água e Cultura – Revista Conviver, DNOCS, Edição Especial, outubro de2009.FRANCA, D. T. ; RIBEIRO, M. A. Patrimônio Cultural e Proteção dos RecursosHídricos. 1º Colóquio Ibero-Americano Paisagem Cultural, Patrimônio e Projeto– Desafios ePerspectivas, em Belo Horizonte (MG). Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura eAgronomia de Minas Gerais, de 09 a 12 de agosto de 2010.GARCIA, Junior; ROMEIRO, Ademar; QUILONDRÁN, Oscar. Meio Ambiente eprodução de celulose Kraft na bacia hidrográfica do BíoBío, Chile. In: JACOBI, PedroRoberto (Org); SINISGALLI, Paulo de Almeida (Org). Governança da água na AméricaLatina e Europa: atores sociais, conflitos e territorialidade. São Paulo: Annablume, 2009(Coleção Cidadania e Meio Ambiente)GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. LTB, São Paulo, 2002 10
  • 11. HUITEMA, Dave; MEIJERINK, Sander. Understanding and managing water transitions:a policy science perspective. International Conference on Adaptive e Integrated WaterManagement (CAIWA 2007). Disponível em: http/www.newater.uos.de/caiwa/papers.htm.Acesso em: 06 de setembro de 2010KEESING, Felix. Antropologia cultural: a ciência dos costumes. 2ª Ed. Editora Fundo deCultura. Rio de Janeiro, 1972.JACOBI, P. R. ; SINISGALLI, P. A.Apresentação. In: JACOBI, Pedro Roberto (Org);SINISGALLI, Paulo de Almeida (Org). Governança da água na América Latina e Europa:atores sociais, conflitos e territorialidade. São Paulo: Annablume, 2009 (Coleção Cidadania eMeio Ambiente) p.p. 7-9.LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14.ed. Rio de Janeiro: JorgeZahar Ed., 2001LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis/RJ: Vozes,2000.MAÇANEIRO, Marcial. A água nas Religiões. 2009. Disponível em: www.gper.com.br.Acesso em 08 de fevereiro de 2011.MELLO, Luis Gonzaga de. Antropologia cultural: iniciação, teoria e temas. Petrópolis,Vozes, 1987.RIBEIRO, Wagner Costa. Impasses da governança da água no Brasil. IN: RIBEIRO,Wagner Costa, Org. Governança da água no Brasil: uma visão interdisciplinar. São Paulo:Annablume; Fapesp; CNPq, 2009.SACHS, Ignacy. Palestra: Sociedade, Cultura e Meio Ambiente. Revista Mundo & Vida.Niterói, v. 2 (1). p. 7-13.SAHLINS, Marshall. “A cultura e o meio-ambiente” em Panorama da Antropologia. Ed.Fundo de Cultura, 1966.SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. 14 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994 – (Coleçãoprimeiros passos)Van Leussen, Wim van; Slobbe, Erik van; Meiners, Georg. Transboundary Governanceand the Problem of Scale for the Implementation of the European Water FrameworkDirective at the Dutch-German Border. International Conference on Adaptive e IntegratedWater Management (CAIWA 2007). Disponível em:http/www.newater.uos.de/caiwa/papers.htm. Acesso em: 06 de setembro de 2010 11

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