Your SlideShare is downloading. ×
0
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

CADERNO TV ESCOLA - DEFICIÊNCIA VISUAL

8,010

Published on

Além da família, a escola e a sociedade também podem (e devem) contribuir no sentido de ajudar a enfrentar os obstáculos colocados pela deficiência. A escola é uma …

Além da família, a escola e a sociedade também podem (e devem) contribuir no sentido de ajudar a enfrentar os obstáculos colocados pela deficiência. A escola é uma
das grandes aliadas na luta pela integração. Nesse espaço,as questões relacionadas a preconceitos, mitos e estigmas podem ser debatidas e analisadas por todos: professores, alunos e funcionários.

Published in: Education, Spiritual
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
8,010
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
158
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. C A D E R N O S D A Este Caderno complementa a série de vídeos da tv escola Deficiência Visual Marta Gil (Org.) MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA N. 1/2000
  • 2. Presidente da República Fernando Henrique Cardoso SUMÁRIO Ministro da Educação Paulo Renato Souza Secretário de Educação a Distância Pedro Paulo Poppovic Secretária de Educação Especial Marilene Ribeiro dos Santos Secretaria de Educação a Distância Cadernos da TV Escola Diretor de Produção e Divulgação José Roberto Neffa Sadek Coordenação Geral Vera Maria Arantes Projeto e Execução Editorial Elzira Arantes (texto) e Alex Furini (arte) Conversas sobre deficiência visual 5 Capa: Tratamento gráfico sobre alfabeto Braille O começo da vida: 0 a 3 anos 21 © 2000 Secretaria de Educação a Distância/MEC Tiragem: 110 mil exemplares Educação pré-escolar: 4 a 6 anos 33 Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou utilizada de qualquer forma ou por qualquer método, eletrônico ou mecânico, sem autorização, solicitada via carta ou fax. O ensino fundamental: 7a 11 anos 39 Ministério da Educação Secretaria de Educação a Distância Adolescência, tempo de Esplanada dos Ministérios, Bloco L, Sala 100 CEP 70047-900 Caixa Postal 9659 – CEP 70001-970 – Brasília, DF mudanças e de escolhas 55 Fax: (0XX61) 410 9158 – E-mail: seed@seed.mec.gov.br Internet: http://www.mec.gov.br/seed/tvescola Vida adulta: trabalho, casamento e responsabilidades 63 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Lembretes 69 Deficiência visual / Marta Gil (org.). – Brasília : MEC. Secretaria de Educação a Distância, 2000. Bibliografia 75 80 p. : il. - (Cadernos da TV Escola. 1. ISSN 1518-4692) 1.Deficiência visual 2.Integração escolar.3. Sexualidade. 4. Educação Especial. I. Secretaria de Educação a Distância. CDU 376.353
  • 3. Programa 1 5 CONVERSAS SOBRE DEFICIÊNCIA VISUAL uitos consideram que a palavra ‘deficiente’ tem M um significado muito forte, carregado de valo- res morais, contrapondo-se a ‘eficiente’. Levaria a supor que a pessoa deficiente não é capaz; e, sendo assim, então é preguiçosa, incompetente e sem inteligên- cia. A ênfase recai no que falta, na limitação, no ‘defeito’, gerando sentimentos como desprezo, indiferença, chaco- ta, piedade ou pena. Esses sentimentos, por sua vez, provocam atitudes carregadas de paternalismo e de assistencialismo, volta- das para uma pessoa considerada incapaz de estudar, de se relacionar com os demais, de trabalhar e de consti- tuir família. No entanto, à medida que vamos conhecendo uma pessoa com deficiência, e convivendo com ela, cons- tatamos que ela não é incapaz. Pode ter dificuldades para realizar algumas atividades mas, por outro lado, em geral tem extrema habilidade em outras. Exatamen- te como todos nós. Todos nós temos habilidades e ta- lentos característicos; nas pessoas com deficiência, essas manifestações são apenas mais visíveis e mais acentuadas. Diante disso, hoje em dia se recomenda o uso do termo ‘pessoa portadora de deficiência’, referindo-se, em primeiro lugar, a uma pessoa, um ser humano, que pos- sui entre suas características (magra, morena, brasileira
  • 4. 6 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 7 etc.) uma deficiência – mental, física (ou de locomo- Foram desenvolvidas técnicas para trabalhar o ção), auditiva ou visual. resíduo visual assim que é constatada a deficiência. Isso melhora significativamente a qualidade de vida, Deficiência visual: conceitos mesmo sem eliminar a deficiência. Usando auxílios ópticos (como óculos, lupas etc.), Os graus de visão abrangem um amplo espectro de a pessoa com baixa visão apenas distingue vultos, a possibilidades: desde a cegueira total, até a visão per- claridade, ou objetos a pouca distância. A visão se feita, também total. A expressão ‘deficiência visual’ se apresenta embaçada, diminuída, restrita em seu cam- refere ao espectro que vai da cegueira até a visão po visual ou prejudicada de algum modo. subnormal. Chama-se visão subnormal (ou baixa visão, como Recursos ou auxílios ópticos para visão subnormal são preferem alguns especialistas) à alteração da capaci- lentes especiais ou dispositivos formados por um con- dade funcional decorrente de fatores como rebaixa- junto de lentes, geralmente de alto poder, que se utili- mento significativo da acuidade visual, redução im- zam do princípio da magnificação da imagem, para que portante do campo visual e da sensibilidade aos con- possa ser reconhecida e discriminada pelo portador de baixa visão. Os auxílios ópticos estão divididos em trastes e limitação de outras capacidades. dois tipos, de acordo com sua finalidade: recursos Entre os dois extremos da capacidade visual es- ópticos para perto e recursos ópticos para longe. tão situadas patologias como miopia, estrabismo, (Braga, 1997, p. 12) astigmatismo, ambliopia, hipermetropia, que não constituem necessariamente deficiência visual, mas A importância da visão que na infância devem ser identificadas e tratadas o mais rapidamente possível, pois podem interferir no A visão é o canal mais importante de relacionamento processo de desenvolvimento e na aprendizagem. do indivíduo com o mundo exterior. Tal como a audi- Uma definição simples de visão subnormal é a ção, ela capta registros próximos ou distantes e per- incapacidade de enxergar com clareza suficiente para mite organizar, no nível cerebral, as informações contar os dedos da mão a uma distância de 3 metros, trazidas pelos outros órgãos dos sentidos. à luz do dia; em outras palavras, trata-se de uma pes- Estudos recentes revelam que enxergar não é soa que conserva resíduos de visão. uma habilidade inata, ou seja, ao nascer ainda não Até recentemente, não se levava em conta a exis- sabemos enxergar: é preciso aprender a ver. Não é tência de resíduos visuais; a pessoa era tratada como um processo consciente. Embora nem pensemos nis- se fosse cega, aprendendo a ler e escrever em braille, so, estamos ensinando um bebê a enxergar, ao movimentar-se com auxílio de bengala etc. Hoje em carregá-lo no colo e ir mostrando: Olha o gatinho; dia, oftalmologistas, terapeutas e educadores traba- Onde está seu irmão? lham no sentido de aproveitar esse potencial visual nas O desenvolvimento das funções visuais ocorre nos atividades educacionais, na vida cotidiana e no lazer. primeiros anos de vida. Graças a testes de acuidade
  • 5. 8 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 9 visual recentemente desenvolvidos, hoje é possível basta fechar os olhos e tentar reproduzir o comporta- fazer a avaliação funcional da visão de um recém-nas- mento de um cego pois, tendo memória visual, a pes- cido, ainda no berçário. soa tem consciência do que não está vendo. Nós todos temos diversos ‘sistemas-guia’, for- mas muito pessoais que usamos para nos orientar Causas dos defeitos de visão no espaço, em geral sem tomar consciência disso. As causas mais freqüentes de cegueira e visão Por exemplo: para aprender um caminho, há quem subnormal são: se oriente por uma casa diferente, um prédio, ou Retinopatia da prematuridade causada pela imaturi- outro marco de referência. Outros têm uma boa dade da retina, em decorrência de parto prematuro noção dos pontos cardeais (norte, sul), usando-a ou de excesso de oxigênio na incubadora. como orientação. A visão constitui um desses sistemas-guia – pro- Catarata congênita em conseqüência de rubéola ou vavelmente, o mais poderoso deles. Assim, os cegos de outras infecções na gestação. precisam recorrer a outros tipos de sistema-guia. Al- Glaucoma congênito que pode ser hereditário ou cau- guns, por exemplo, usam como referência o tipo de sado por infecções. calçamento das ruas (asfalto, paralelepípedos etc.), ou Atrofia óptica. as curvas e esquinas das ruas de seu trajeto. Outros Degenerações retinianas e alterações visuais recorrem a pistas olfativas (uma fábrica de bolachas, corticais. por exemplo), ou auditivas (ruídos de uma praça movimentada). A cegueira e a visão subnormal podem também re- sultar de doenças como diabetes, descolamento de O que significa a perda da visão? retina ou traumatismos oculares. A cegueira, ou perda total da visão, pode ser adqui- O impacto da deficiência visual (congênita ou ad- rida, ou congênita (desde o nascimento). O indiví- quirida) sobre o desenvolvimento individual e psi- duo que nasce com o sentido da visão, perdendo-o cológico varia muito entre os indivíduos. Depende mais tarde, guarda memórias visuais, consegue se da idade em que ocorre, do grau da deficiência, da lembrar das imagens, luzes e cores que conheceu, dinâmica geral da família, das intervenções que fo- e isso é muito útil para sua readaptação. Quem nasce rem tentadas, da personalidade da pessoa – enfim, sem a capacidade da visão, por outro lado, jamais de uma infinidade de fatores. pode formar uma memória visual, possuir lembran- Além da perda do sentido da visão, a cegueira ças visuais. adquirida acarreta também outras perdas: emocionais; Para quem enxerga, é impossível imaginar a vida das habilidades básicas (mobilidade, execução das sem qualquer forma visual ou sem cor, porque as ima- atividades diárias); da atividade profissional; da co- gens e as cores fazem parte de nosso pensamento. Não municação; e da personalidade como um todo. Trata-
  • 6. 10 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 11 se de uma experiência traumática, que exige acompa- ência visual já incorporam a seus programas um tra- nhamento terapêutico cuidadoso para a pessoa e para balho voltado para as atividades de vida diária e para sua família. a orientação e a mobilidade. Quando a deficiência visual acontece na infância, Desde cedo, as pessoas que enxergam vão apren- pode trazer prejuízos ao desenvolvimento dendo a lidar com as mais diversas situações corri- neuropsicomotor, com repercussões educacionais, queiras, observando o ambiente a seu redor e relacio- emocionais e sociais, que podem perdurar ao longo nando-se com as pessoas. É preciso possibilitar essa de toda a vida, se não houver um tratamento adequa- mesma relação com o meio à pessoa que não enxer- do, o mais cedo possível. ga, ou que enxerga pouco. Nos programas de atendimento a pessoas por- tadoras de deficiência visual esse aprendizado é Atividades da vida diária: caminho para a autonomia conhecido como ‘atividades da vida diária’, ou apenas ‘AVD’. Durante muitos anos, uma pessoa cega que falasse bem, tivesse desempenho acadêmico satisfatório e O Programa de Atividades da Vida Diária é uma pre- bom nível de informação e verbalização deslumbra- paração para a vida; capacita para o prazer da auto- va e maravilhava a todos. Nada mais se esperava suficiência, liberta da ajuda e da proteção excessivas dela, em termos de autonomia e de independência. e motiva para o crescimento pessoal, por meio de Assim, a educação de uma criança portadora de de- atitudes e valores positivos. ficiência visual se voltava basicamente para seus êxitos intelectuais. A independência alcançada graças a um bom Essa reação demonstrava a expectativa geral quan- programa de Atividades da Vida Diária vai muito to às possibilidades de uma pessoa deficiente visual: além das necessidades pessoais básicas, como hi- o preconceito impedia que ela fosse considerada ca- giene, alimentação, hábitos à mesa e etiqueta, cui- paz de executar toda a gama de atividades que faz dados com a casa e atividades sociais. Significa de- parte do cotidiano – deslocar-se com independência, senvolvimento da autoconfiança e valorização das cuidar-se e vestir-se com adequação, alimentar-se, próprias capacidades, aquisição de naturalidade, interagir socialmente de forma prática e adequada, eficiência e desenvoltura no universo social e uma competir no mercado de trabalho, casar-se, enfim, atitude que favorece a conscientização da socieda- exercer seu papel de cidadão que conta com o respeito de em relação às potencialidades do portador de de- da sociedade e é aceito. ficiência. Felizmente, as coisas estão mudando. Talvez não Há crianças que, além da deficiência visual, com a rapidez que seria desejável, mas muitos servi- apresentam outros comprometimentos – da fala, da ços de atendimento às crianças portadoras de defici- audição etc. Por isso, o primeiro passo em qual-
  • 7. 12 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 13 quer atendimento consiste em uma avaliação glo- bal, feita por uma equipe interdisciplinar compos- O desenvolvimento das habilidades de orientação e ta por oftalmologista, pedagogo, fonoaudiólogo e mobilidade, parte essencial do processo educacional outros profissionais, para decidir qual é o caminho de qualquer criança deficiente visual, precisa come- a seguir. çar desde cedo, em casa, com o apoio dos pais. De- A partir do diagnóstico, é elaborado um progra- pois, o treinamento continuará na escola, com o pro- ma de Educação Precoce, que inclui atividades fessor especializado. lúdicas de acordo com a idade. Sua aplicação depen- de, em primeiro lugar, da efetiva participação da fa- Nos programas de estimulação precoce, orien- mília. tação e mobilidade, há técnicas especializadas para Para as crianças com visão subnormal se desen- desenvolver o sentido de orientação usando o tato, volve um Programa de Estimulação Visual, também a audição e o olfato para se relacionar com os ob- baseado em jogos e brincadeiras, criados ou adapta- jetos significativos que estão no ambiente. Assim, dos para as mais diferentes ocasiões. Essas ativida- a criança vai aprendendo a usar seus outros siste- des se destinam a estimular a visão residual (quando mas-guia. há), e também os outros sentidos. O treinamento da orientação e da mobilidade per- mite que a pessoa se movimente e se oriente com Orientação e mobilidade segurança na escola, em casa, no trânsito, em locais públicos etc., de acordo com sua idade. A deficiência visual, em qualquer grau, comprome- te a capacidade da pessoa de se orientar e de se O papel da família movimentar no espaço com segurança e indepen- dência. À família, base do desenvolvimento do ser huma- Na idade pré-escolar, quando a criança está desen- no, cabe a tarefa de oferecer ao portador de defici- volvendo sua capacidade de socialização, isso preju- ência visual condições para seu crescimento como dica (ou até mesmo impede) o conhecimento do indivíduo, tornando-o capaz de ser feliz e produti- mundo a seu redor e seu relacionamento com outras vo, dentro de sua realidade, de suas potencialidades pessoas. É um momento em que ela gosta de ter ami- e de seus limites. gos, brincar junto e compartilhar os brinquedos. Se Embora nem sempre seja fácil, a família precisa estiver impossibilitada de desempenhar esses papéis, entender que o portador de deficiência é, antes de ficará insatisfeita e isolada, e isso trará prejuízos a sua mais nada e acima de tudo, uma pessoa total, evitan- aprendizagem. do focalizar a atenção na cegueira, ou na baixa capa- Para alguns autores, a limitação na orientação e cidade visual. na mobilidade pode ser considerada o efeito mais A primeira atitude importante consiste em acre- grave da cegueira. ditar nas potencialidades da criança, considerando-
  • 8. 14 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 15 a capaz de estudar, de ser independente, de traba- • idade em que aconteceu; lhar, praticar esportes e tantas outras coisas que • associação (ou não) com outras deficiências; seus amigos fazem. Para muitos portadores de de- • aspectos hereditários; ficiência, a maior dificuldade está na falta de opor- • aspectos ambientais; tunidades. • tratamento recebido. A troca de experiências, sentimentos e informações nos ajuda a compreender a necessidade que crianças A criança portadora de deficiência visual (cegueira ou ou adultos com deficiência, pais e profissionais, têm baixa visão) deve ser avaliada por profissionais da de um espaço para construir juntos novos valores e área da saúde e da educação, num trabalho conjunto, significados. para identificar suas necessidades específicas e sua potencialidade. No Brasil ainda predomina, em relação à deficiên- O sucesso de um programa de reabilitação de- cia, uma concepção assistencialista, permeada de bar- pende da atuação da equipe de profissionais jun- reiras sociais. Na maioria das vezes, o portador de to à criança e à família, desde o momento do diag- deficiência e sua família se sentem isolados, impoten- nóstico. tes, à espera de instituições, serviços médicos ou pro- Com freqüência são erroneamente consideradas fissionais que possam miraculosamente curar ou ‘con- deficientes mentais, por sua dificuldade em realizar sertar’ a deficiência. certas tarefas, crianças cuja deficiência visual não foi Muitas famílias prolongam seus momentos de diagnosticada. angústia, ansiedade, conflitos, negação, sublimação, A maioria das crianças com deficiência visual frustração e até mesmo desesperança por não dispor possui algum grau residual de visão: poucas são de informações e não encontrar interlocutores para totalmente cegas. Infelizmente, muitas das que discutir sua problemática e para se identificar. Eles têm algum grau de visão são consideradas cegas precisam contar com locais e pessoas com quem e tratadas como tal; dessa forma, perdem os be- possam conversar e compartilhar não só os sofri- nefícios que o uso da visão residual poderia tra- mentos, mas também os momentos de alegria, as zer a seu processo de desenvolvimento e à sua conquistas e vitórias. qualidade de vida. O desenvolvimento da criança Quanto antes as crianças com deficiência visual fo- portadora de deficiência visual rem encaminhadas a serviços de atendimento, maiores serão suas possibilidades de desenvolver Para entender e avaliar o que acontece com o proces- seu potencial. so de desenvolvimento da criança com deficiência visual é preciso considerar, entre outros fatores:
  • 9. 16 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 17 Qual é o papel da escola? necessário acompanhá-lo nesse trajeto percorrido E da sociedade? pelo seu corpo, prestando atenção ao referencial perceptual que ele irá revelar, que não é o da visão. Além da família, a escola e a sociedade também podem Partindo dos próprios caminhos perceptuais dos (e devem) contribuir no sentido de ajudar a enfrentar deficientes visuais, o educador pode oferecer-lhes os obstáculos colocados pela deficiência. A escola é uma oportunidades para entrarem em contato com novos das grandes aliadas na luta pela integração. Nesse es- objetos, pessoas e situações e, assim, saber (ou paço, as questões relacionadas a preconceitos, mitos e aprender). estigmas podem ser debatidas e analisadas por todos: professores, alunos e funcionários. Aprender é aqui entendido como a capacidade humana de receber, colaborar, organizar novas informações e, a Ao abrir suas portas igualmente para os que enxer- partir desse conhecimento transformado, agir de forma gam e os que não enxergam, a escola deixa de repro- diferente do que se fazia antes. Aprende-se numa relação duzir a separação entre deficientes e não-deficientes com o outro ser humano e/ou com as coisas a seu redor. que há na sociedade. (Masini, 1993) Os portadores de deficiência freqüentemente fi- O convívio com pessoas portadoras de deficiência (de cam segregados, escondidos, e a maioria das pessoas qualquer tipo) contribui para facilitar a quebra de ta- não entra em contato direto com eles. Por isso, ao bus e de estigmas, favorecendo a plena inclusão do encontrar uma pessoa com deficiência, esses indiví- portador de deficiência na sociedade e auxiliando a duos ficam inseguros, sem saber o que fazer, e às ve- família a lidar com essa deficiência. zes acabam tomando atitudes defensivas e preconceituosas. Todos os que rodeiam o deficiente visual precisam se Ao se tornar um espaço de inclusão, a escola pro- conscientizar de que suas relações interpessoais po- move trocas enriquecedoras para toda a equipe esco- dem ser saudáveis e baseadas na reciprocidade, pois lar, incluindo os alunos e suas famílias. ele é uma pessoa total e capaz. A fonte de informações mais importante para o educador traçar sua diretriz de ação junto ao edu- Porém, como bem lembra Renata Neves, profes- cando é saber como ele é (como percebe, age, pen- sora de dança e fonoaudióloga, é preciso tomar cui- sa, fala e sente). O deficiente visual percebe a reali- dado para não minimizar as potencialidades e a con- dade que está a sua volta por meio de seu corpo, na dição de ser do indivíduo. sua maneira própria de ter contato com o mundo A cooperação das famílias e a mobilização da co- que o cerca. munidade em busca de melhor qualidade de vida, Para conhecer o deficiente visual e seus significa- educação e participação social das pessoas com defi- dos (interesses e conhecimentos) e habilidades, é ciência anuncia novos tempos, de combate às atitu-
  • 10. 18 Programa 1 Conversas sobre deficiência visual 19 des discriminatórias, de disseminação do conhecimen- mundial, das potencialidades da pessoa com defici- to e, principalmente, com a criação de uma sociedade ência, da música produzida por Johann Sebastian mais acolhedora e solidária. Bach, da obra literária de Jorge Luis Borges, da músi- ca de Ray Charles, Stevie Wonder, Andréa Bocelli e Mitos, crendices e superstições muitos outros. A crescente participação de pessoas portadoras de Devido à ignorância de suas causas, a cegueira com deficiência na vida social, em escolas, clubes, empre- freqüência despertou medo e superstição nas pesso- sas ou igrejas, favorece a todos: a diversidade estimu- as, ao longo dos séculos. la e enriquece nossa percepção. Na antiga Grécia, a palavra ‘estigma’ se referia a sinais corporais, associados a uma condição moral As pessoas com deficiência são como você: têm os inferior; a pessoa marcada por um estigma devia ser mesmos direitos, sentimentos, sonhos e vontades. evitada, principalmente em locais públicos. A ceguei- Ter uma deficiência não torna a pessoa melhor ou ra, como outras deficiências, estava entre os estig- pior. O portador de deficiência não é um anjo, nem mas denunciadores de péssimo caráter – seus porta- um modelo de virtudes: é uma pessoa. dores eram marginalizados, excluídos do convívio social. Já na Idade Média, a cegueira era vista como Se você se relaciona com uma pessoa deficiente, um castigo divino. evite agir como se a deficiência não existisse, pois isso Por outro lado, houve sociedades em que o cego implicaria ignorar uma característica pessoal impor- era considerado um favorito dos deuses: com sua tante. Aja com naturalidade; se acontecer algo emba- ‘visão para dentro’, ele veria coisas que escapavam raçoso, uma dose de delicadeza, sinceridade e bom aos demais. Isso fazia dele um ser superior, um pri- humor nunca falha. vilegiado. À medida que a ciência foi identificando as cau- Quantos brasileiros sas e os mecanismos da perda de visão, essas concep- têm deficiência visual? ções fantasiosas foram mudando gradualmente. Porém, muitas pessoas ainda se perturbam dian- A Organização Mundial de Saúde estima que, nos te de uma pessoa com deficiência. De certa forma, é países em desenvolvimento, como o Brasil, de 1 a 1,5 natural que se sintam desconfortáveis diante do ‘di- por cento da população é portadora de deficiência ferente’. Mas esse desconforto diminui, ou até desa- visual. Assim, no Brasil haveria cerca de 1,6 milhão de parece, quando se abre a possibilidade de um conví- pessoas com algum tipo de deficiência visual, sendo vio mais freqüente com pessoas deficientes e de um a maioria delas com baixa visão. maior conhecimento da dimensão do problema. Calcula-se ainda que, a cada 3 mil crianças, uma A civilização moderna em muito se beneficia dos é cega, e que a cada quinhentas crianças, uma tem feitos de Helen Keller como divulgadora, em escala visão subnormal.
  • 11. 20 Programa 2 21 Pelos dados do Censo Escolar, em 1998 havia 337.326 alunos com necessidades especiais matricu- O COMEÇO DA VIDA: lados em escolas de todo o país. Destes, 15.473 (ou 0 A 3 ANOS 4,6 por cento) apresentavam deficiência visual; a maioria deles (9.907) cursava o ensino fundamental em escolas da rede pública estadual. Os especialistas estimam que os casos de deficiência visual poderiam ser reduzidos em até 50 por cento se ários autores identificam como ‘sensório-motor’ fossem adotadas medidas preventivas eficientes nas áreas de saúde e educação e se houvesse mais infor- V o período que vai do nascimento até os 3 anos de idade, pois é a fase da construção do siste- mação disponível. ma de significação, do desenvolvimento cognitivo e da interação com o meio ambiente. Cabe à sociedade oferecer oportunidades para que Nessa fase, tenham ou não deficiência visual, os as pessoas com limitações em seu relacionamento recém-nascidos desenvolvem todos os seus sentidos visual com o mundo possam desenvolver toda sua (olhando, cheirando, pegando e experimentando capacidade física e mental e usufruir dela. Há, ainda, tudo), e também seu sistema motor: aprendem a sus- muito a ser feito, mas é preciso reconhecer que já tentar a cabeça, rolar, engatinhar, andar, correr, pu- ocorreram muitas conquistas e avanços. lar, em um processo intenso e dinâmico. Nos primei- ros meses de vida eles captam fundamentalmente as sensações de calor, frio, dor, contato, pressão – for- mas simples de percepção tátil. É assim que a criança vai construindo seu conhe- cimento, interagindo com o meio, com as pessoas ao redor, comunicando-se e recebendo em troca informa- ções de todo tipo. A criança deficiente visual (cega ou com baixa vi- são) desde o início sofre limitações em suas possi- bilidades de apreensão do mundo externo e de adap- tação ao meio. Ela precisa contar com pessoas dis- poníveis para ajudá-la a explorar o mundo e a ela- borar suas próprias informações, usando os demais órgãos dos sentidos – audição, olfato, tato e paladar – para ganhar autoconfiança e senso de equilíbrio.
  • 12. 22 Programa 2 O começo da vida: 0 a 3 anos 23 Bebês com deficiência visual Assim sendo, os adultos devem se preocupar em desenvolver atividades variadas de estimulação, Todos nós utilizamos uma variedade de recursos para de forma gostosa, como brincadeiras, várias vezes nos orientar no espaço; a visão é um deles. O bebê por dia. que enxerga é dotado de um potencial biológico para compreender gradualmente o ambiente e se adaptar É importante observar o bebê, para perceber o mo- a ele, usando todos os sentidos. Já o bebê sem o sen- mento em que está pronto para experimentar no- tido da visão precisa integrar e sintetizar os dados e vos movimentos e posições, sem jamais forçar uma as informações captados no ambiente usando os ou- situação. tros canais de percepção sensorial. Quanto mais cedo forem iniciadas as atividades e É importante que o bebê deficiente visual apren- quanto mais interessantes elas forem, mais satisfeito da a usar seus outros sentidos o mais cedo possí- ficará o bebê e mais motivado para tentar novas po- vel, para se localizar e reconhecer seu espaço, evi- sições. Se desde cedo for mudado de posição freqüen- tando atrasos em atividades como engatinhar e temente (com a barriguinha para baixo, de lado e de andar. Trata-se de uma questão de aprendizado, costas), ele poderá se sentir confortável em qualquer pois ele possui o mesmo potencial dos bebês do- uma, gostando das mudanças. tados de visão. Um caso que merece atenção especial é o dos bebês cuja Sem poder reagir a estímulos visuais – um brin- deficiência visual resulta de retinopatia da quedo com cores fortes, o vestido da mãe, a lâmpada prematuridade, situação em que a retina não atinge o que se acende –, o bebê não tem motivações para amadurecimento completo devido ao parto prematuro, erguer a cabeça, rolar de lado, tentar alcançar alguma ou a um excesso de oxigênio na incubadora. Essa mes- coisa. Como se mexe pouco, seus músculos não se ma prematuridade provoca também o desenvolvimento desenvolvem e ele não se prepara para sentar, insuficiente da musculatura, que não amadurece comple- engatinhar e, depois, andar. tamente no útero, prejudicando a motricidade. Freqüentemente, os bebês com baixa visão prefe- rem ficar em um ambiente constante e familiar, te- Se não forem estimulados, os bebês com defici- mendo as mudanças – mesmo que seja apenas uma ência visual tendem a ficar ‘grudados’ no colchão, mudança de posição. Alguns, por exemplo, querem mantendo a maior parte possível do corpo em conta- permanecer de costas, escolhendo a estabilidade e a to com a superfície. Com isso, acabam fortalecendo os imobilidade para se proteger do desconhecido mun- músculos errados, o que bloqueia a capacidade de re- do ameaçador. Mas eles precisam aprender a aceitar laxamento e tensiona os músculos, dificultando, en- as mudanças. fim, o futuro desenvolvimento motor.
  • 13. 24 Programa 2 O começo da vida: 0 a 3 anos 25 Mãos: ferramentas preciosas ção preênsil (tirar, colocar, abrir, fechar, tampar, empilhar etc.). Há milhares de anos, quando o homem começou a Com as mãos, o bebê compreende que um obje- andar em posição ereta, libertou suas mãos da ta- to existe e pode entender para que serve. É a mão refa da locomoção. Assim, as mãos puderam evoluir que lhe dá as informações necessárias para locali- e se tornaram o principal instrumento para agir e zar, analisar e conhecer os brinquedos e outros ob- dominar o ambiente, além de ser um meio de ex- jetos. Com as mãos, ele descobre a forma e percebe pressão e de comunicação, e também um órgão de o calor do rosto da mãe, adquire conceitos espaciais, percepção. entende a relação entre os objetos, integra seu es- Se as mãos têm tamanha importância para o ser quema corporal etc. humano, é fácil imaginar seu papel na vida das pes- Durante toda a vida da pessoa com deficiência vi- soas com deficiência visual. As informações chegam sual, a mão é um recurso privilegiado de conhecimen- a elas por dois canais principais: a linguagem – pois to. Mas nos primeiros anos de vida, enquanto a lin- ouvem e falam – e a exploração tátil, que depende guagem está num estágio incipiente, ela desempenha especialmente das mãos. um papel ainda mais relevante. As mãos são os olhos das pessoas com deficiência visual. O uso das mãos como instrumento de percep- Estimulação precoce ção deve ser intensamente estimulado, incentivado Em um processo trabalhoso, mas também muito inte- e aprimorado. ressante, os adultos que acompanham a criança com deficiência visual têm a função de ajudá-la a utilizar as O adulto que nasceu deficiente visual, ou adquiriu mãos para descobrir o mundo e se interessar por ele. essa deficiência mais tarde, sempre pode aprender mui- Esse trabalho recebe o nome de estimulação precoce. to graças à linguagem oral e gestual, ao pensamento abs- trato, aos símbolos etc. Mas o bebê com deficiência vi- O conceito de estimulação precoce adotado pelo Mi- sual precisa percorrer um longo caminho antes de dis- nistério da Educação (Série Diretrizes no 3, Secretaria por desses recursos, que se desenvolvem com a idade. de Educação Especial, 1995) é o seguinte: Desde o nascimento, é preciso despertar na crian- ça cega o desejo de conhecer e aprender. Os pais de- Conjunto dinâmico de atividades e de recursos humanos e ambientais incentivadores, destinados a proporcionar vem conversar mais com um recém-nascido portador à criança, nos seus primeiros anos de vida, experiências de deficiência visual do que se faz geralmente com os significativas para alcançar pleno desenvolvimento no seu não-deficientes. processo evolutivo. Cada vez mais, a principal adaptação requerida pela cegueira consiste em transformar a mão em um A estimulação precoce é uma ação facilitadora para órgão também de percepção, sem perder sua fun- a construção do conhecimento, por meio da interação e
  • 14. 26 Programa 2 O começo da vida: 0 a 3 anos 27 da comunicação com o outro. Trata-se de um processo trabalham em ‘equipe’, o resultado final da pesquisa que procura despertar a curiosidade e o interesse pela se torna impossível. Exercícios como bater palmas, descoberta do mundo, estimulando a iniciativa e a au- segurar a mamadeira com as duas mãos, bater dois tonomia da criança com deficiência visual. objetos entre si horizontalmente, ou bater num pan- Cada atividade de estimulação pode envolver várias deiro são ótimos para desenvolver a coordenação funções ao mesmo tempo. Por exemplo: se jogamos bimanual. uma bola com guizos para a criança, estamos trabalhan- Inicialmente, o bebê cego não está interessado do a coordenação ouvido/mão, a exploração da forma em tatear os objetos; seu interesse se concentra em e da textura da bola, seu uso, sua função, a permanên- sensações de calor, na maciez do rosto das pesso- cia do objeto e a compreensão da organização espacial. as, em sua chupeta, no lençol do berço, no ato de O deficiente visual vivencia o mundo por meio do ser balançado. Brincar com essas sensações é um tato. Essa percepção permite à criança compreender bom começo. que existe algo fora de si mesma, um mundo exterior Cabe aos pais, ou a outras pessoas que convi- povoado de objetos e pessoas, cada um com seu vam com o bebê, aproximar os estímulos que estão nome, sua forma e sua função próprias. fora de seu campo de percepção, facilitando a ex- No entanto, para que o sentido do tato e seus prin- ploração e desenvolvendo seu interesse: orientar os cipais agentes, as mãos, se coloquem a serviço do movimentos para que a criança acaricie os objetos bebê cego, ou com visão residual, é preciso que ocor- com a palma da mão, com tempo para descobri-los ram duas adaptações: e conhecê-los. • A mão deve ser ‘educada’ para se transformar em É fundamental perceber as necessidades, interes- órgão de percepção, em instrumento de explo- ses e desejos da criança e brincar enquanto ela esti- ração e de conhecimento. ver disposta, deixando tempo para que descanse, coma, durma – e encerrando a atividade assim que • A coordenação bimanual (das duas mãos) e a observar sinais de cansaço. coordenação ouvido/mão precisam substituir a Uma intervenção invasiva ou excessiva pode tra- coordenação olho/mão estabelecida pelas crian- ças que enxergam. zer riscos. A receita é: estimular sem saturar, ajudar sem invadir. Encontrar o equilíbrio entre esses dois extremos depende da relação e da sintonia que esta- É nossa tarefa ajudar a criança deficiente visual a belecemos com o bebê. encontrar caminhos eficazes e alegres para alcançar essas adaptações. Brincar é a forma mais simples e Brincando com as mãos mais efetiva de interação com a criança. Entre 12 e 16 meses de idade ocorre uma mudança A coordenação de ambas as mãos é indispensá- significativa na forma de os bebês se aproximarem vel para a criança perceber as coisas; se as mãos não dos objetos. É o momento em que a criança cega
  • 15. 28 Programa 2 O começo da vida: 0 a 3 anos 29 começa a utilizar mais suas mãos, explorando cuida- • Colocar a criança sentada, com objetos entre suas dosamente os objetos para identificá-los e dar-lhes pernas, ou bem perto dela, na sua frente ou a um uso funcional. Mas, antes de usar as mãozinhas seu lado. para fazer uma exploração detalhada, o bebê brinca • Em um espaço aberto, incentivar a criança a com os objetos e gosta de colocá-los na boca. engatinhar, atraindo-a com objetos sonoros. Se retirarmos um objeto das mãos de um bebê cego de menos de 8 meses de idade, ele não vai ten- O tato e o mundo sonoro tar resgatá-lo. Para ele, as coisas aparecem e desa- parecem de seu campo tátil, sem que entenda a ra- O desenvolvimento psicológico do bebê deficiente zão, pois não vê o movimento do objeto, ao cair ou visual é especialmente vulnerável. Os recursos funda- ser retirado. mentais de que dispõe para ajudar a integrar as in- O único meio de o bebê compreender a existên- formações recolhidas no ambiente são a percepção cia de realidades exteriores fora de seu campo tátil e a sonora, além da afetividade. perceptivo táctil é a experimentação. Para tanto, o O tato permite analisar um objeto de forma par- adulto deve dirigir as mãos da criança para os obje- celada e gradual. A visão, ao contrário, é sintética e tos, levando-a a deduzir que as coisas permanecem globalizadora. Assim, as informações parciais por perto e poderão ser alcançadas, se ela quiser. Di- fornecidas pelo tato precisam ser integradas, para versas atividades colaboram nesse sentido: chegar a uma conclusão global. • Brincar com o rosto ou com as mãos dos pais. Quando se interessa por alguma coisa, o bebê Encostamos na criança e afastamo-nos um deficiente visual pode permanecer pesquisando du- pouquinho, de modo que o menor movimento rante longo tempo. Os adultos muitas vezes ficam dela permita o encontro. impacientes, sem entender que a demora equivale ao tempo necessário para conhecer o objeto, pois a crian- • Movimentar objetos, com a mão da criança ça está iniciando seu processo de abstração. apoiada sobre a nossa ou sobre algum de seus objetos favoritos. A tarefa de explorar e conhecer um objeto requer • Colocar objetos sobre o peito da criança, para grande esforço da criança portadora de deficiência que ela possa senti-los e procurá-los com as visual. Por isso, ela precisa contar com situações ade- mãozinhas. quadas de aprendizagem, sem precipitação nem im- • Colocar objetos junto ao corpo do bebê, em paciência. posições variadas. • Colocar objetos, de preferência sonoros, bem A percepção auditiva ajuda a criança portadora de perto de seus braços, para que sejam percebidos deficiência visual a compreender que existe uma rea- ao menor movimento. lidade exterior, separada dela. No entanto, ela ainda
  • 16. 30 Programa 2 O começo da vida: 0 a 3 anos 31 precisa aprender o significado dos sons. Por exemplo: A voz e o toque são as melhores formas de tran- ao ouvir a batida de uma porta, não sabe como é a qüilizar e confortar a criança. É importante desenvol- porta, para que serve, e nem que é feita de madeira. A ver quaisquer atividades de forma lenta e suave, por aquisição do significado do mundo dos sons é um pouco tempo de cada vez. Dedicar alguns minutos, processo lento. várias vezes ao dia, é a melhor forma de estimulá-la, Objetos sonoros em geral são bem aceitos por sem deixá-la cansada ou irritada. bebês com deficiência visual. Já a preferência por texturas varia muito: alguns não gostam do conta- O domínio do corpo to com a pelúcia; outros, rejeitam objetos de bor- racha. A mãe logo aprende as preferências de seu Muitas vezes, a criança deficiente visual demora mui- filho. to tempo para se sentir confiante e segura o suficien- te para andar sozinha. Afinal de contas, é assustador Desenvolvimento afetivo andar sem conseguir dominar a situação, sem ver o ambiente em que se desloca. O desenvolvimento afetivo é fundamental para garan- Mas os adultos não devem desanimar; vale a pena tir à criança cega o desenvolvimento normal de seus ser paciente e insistir. Se ela for aprendendo a andar conhecimentos e a formação de uma personalidade com apoio, vai chegar a hora em que possa andar harmônica. Embora isso seja verdadeiro para todas as sozinha. A prática aumenta sua competência e também crianças, com ou sem deficiência, é ainda mais impor- a confiança nela e nos adultos. tante para aquelas que possuem alguma deficiência. Por outro lado, essa criança não tarda a perceber Desde cedo, a criança com deficiência visual que está cercada por muitos perigos, e isso restringe manifesta uma forte preferência por pessoas, en- seus movimentos. E com freqüência os pais podem quanto seu interesse por objetos demora mais a se deixá-la ainda mais medrosa, insegura e sem iniciati- manifestar, em comparação com as crianças que en- va, ao impedir que se desenvolva como as outras cri- xergam. As pessoas de quem ela gosta são muito sig- anças – que caiam, ralem o joelho, se machuquem, nificativas e determinantes. Essa relação de víncu- mas aprendam a usar o corpo, a fortalecer os múscu- lo deve ir evoluindo, abrindo lugar para o interesse los e a descobrir o mundo. por objetos, por outras pessoas e pelo mundo exte- O trabalho feito para estimular o desenvolvimen- rior em geral. to motor deve promover experiências multissenso- riais, combinando movimentos com panos, bolas e Na relação com o bebê portador de deficiência vi- bambolês e estímulos sonoros, como músicas e ins- sual, é bom não esquecer estas palavras: conversar trumentos musicais, incentivando com brincadeiras e acariciar. o uso do corpo.
  • 17. 32 Programa 3 33 Família, escola e profissionais EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR: Na escola de educação infantil ocorre um movimento 4 A 6 ANOS de interação entre a criança e o ambiente que a ro- deia, um trabalho conjunto envolvendo a família e a comunidade (principalmente a comunidade escolar), para auxiliar a criança com deficiência visual a inter- pretar e assimilar o mundo. O papel da comunidade escolar consiste em apoiar, ntre os 4 e os 6 anos, toda criança aprende a cal- orientar e dar suporte à família, para que esta aprenda a lidar adequadamente com sua criança, pois é com ela E çar sapatos, se vestir, tomar banho e adquire várias outras habilidades, se encaminhando que se dá a maior convivência. para a autonomia. Ao mesmo tempo, constrói concei- Os programas de Intervenção Precoce, Educação tos e utiliza formas de expressão que serão funda- Infantil e Escolar, adotados em escolas públicas par- mentais para o futuro aprendizado da leitura e da ticulares e instituições especializadas, cuidam das escrita. Mas, para isso, ela precisa ser orientada e es- necessidades da criança, ouvem os pais e escutam timulada. A ausência de estímulos vindos da família suas prioridades e desejos, considerando o contexto e do grupo social e a limitação da aquisição de expe- social em que vivem. riências por meio da privação de um dos órgãos dos sentidos prejudica o desenvolvimento. O programa de Educação Precoce deve possibilitar a No caso da criança com deficiência visual, é mais im- integração da criança com deficiência visual na famí- portante ainda desenvolver os órgãos dos sentidos de que lia, na escola e na comunidade, pela interação com ela dispõe, já que lhe falta a visão, principal canal de apre- crianças e adultos. ensão do mundo exterior. Ela não pode ser superprotegida e ficar em uma redoma de vidro: deve ser incentivada a O ideal é realizar um trabalho conjunto, no qual pro- desenvolver seu potencial e sua curiosidade. Se levar tom- fissionais e famílias possam se reunir e trocar informa- bos, arranhões, ralar o joelho, ficar suja, isso deve ser vis- ções. Na prática, infelizmente, nem sempre é possível: em to com naturalidade – afinal, é uma criança! algumas localidades não há esse tipo de serviço; outras Nessa etapa da vida (de 4 a 6 anos), a aprendiza- vezes, a família não tem recursos para matricular o filho gem significativa e conceitual passa pelas vivências em escolas especializadas, ou mesmo ignora a existência corporais no espaço e no tempo; daí a importância de desses recursos, achando que nada há a fazer. brincadeiras e jogos que estimulem a imaginação, de atividades lúdicas e recreativas. A criança gosta de ouvir histórias e de ter amiguinhos, por isso as ativi- dades em grupo são muito mais enriquecedoras.
  • 18. 34 Programa 3 Educação pré-escolar: 4 a 6 anos 35 As atividades lúdicas e exploratórias, os jogos e as As situações de integração são variadas: algumas brincadeiras, ajudam a reconhecer as potencialidades escolas têm salas de apoio ou de recursos pedagógi- de cada um, a desenvolver o raciocínio, a usar os ges- cos, com professores especializados; outras recebem tos para exprimir idéias, pensamentos e emoções e a visita de professores itinerantes. Em outros casos, a permitem que a criança entre em contato com seu criança com deficiência freqüenta duas escolas: uma próprio corpo e com suas possibilidades de movimen- comum e outra especializada. E há famílias que pre- tação, desenvolvendo assim sua consciência corporal ferem pagar um professor particular. e seu autoconhecimento. Alguns municípios estão promovendo a inclusão de crianças com deficiência já na fase de creche, e os Ao acreditar em si mesma, a criança passa a resultados têm sido muito positivos: crianças que confiar mais nos outros e aprende a brincar e a convivem com a diversidade desde pequenas tendem atuar em grupo, trocando o isolamento por novas a crescer com menor carga de preconceitos e a acei- amizades. tar com naturalidade as diferenças. O processo de aceitação da criança com deficiên- cia depende do trabalho conjunto de profissionais O primeiro dia na pré-escola especializados e da equipe escolar, com a participa- Muitas crianças, com deficiência ou não, começam a fre- ção da família. qüentar a escola por volta dos 4 anos. Em geral, as difi- A adequação e a adaptação das atividades para culdades de adaptação são superadas com naturalida- incluir a criança com deficiência visual serão fei- de nas primeiras semanas, tanto pela criança quanto por tas, sempre que possível, de acordo com a seus pais. No entanto, quando a criança é portadora de estruturação e a organização do cotidiano da esco- uma deficiência, isso pode ser mais difícil, e às vezes la. Para isso, é indispensável que o professor de frustrante, para ela e para os pais. Assim, esse processo apoio e o professor da classe comum trabalhem em precisa ser seguido com atenção. conjunto. Desde que tenha condições mínimas de comuni- cação e de interação, de explorar o meio e de se orga- A integração escolar é um processo gradual e dinâmi- nizar para compreender o ambiente que a rodeia, a co, que assume diferentes formas segundo as neces- criança com deficiência visual pode e deve ser inte- sidades e as características de cada aluno e o contex- grada à pré-escola comum (ou seja, com crianças não- to da escola. deficientes). No Brasil, a integração de crianças com deficiên- Para colher resultados positivos do processo de cia visual e não-deficientes na pré-escola é recente e inclusão, é preciso que toda a equipe escolar esteja se manifesta em ações isoladas e assistemáticas, sen- preparada para acolher a criança portadora de de- do mais freqüente nas grandes cidades. ficiência, desde o porteiro até o diretor, passando pe-
  • 19. 36 Programa 3 Educação pré-escolar: 4 a 6 anos 37 los colegas de classe e pelas demais crianças. gicos, de novos métodos e técnicas, deve ser preo- Quando a escola desenvolve um processo de cupação de todos os que rodeiam a criança deficien- sensibilização e de acolhimento da criança com defi- te visual. ciência, os resultados costumam ser positivos, pois todos se beneficiam: as crianças aprendem a exercer A parceria família/escola a solidariedade e a conviver com o diferente; os pro- fessores desenvolvem novas técnicas de ensino e A participação da família é fundamental para todo o pesquisam novos materiais didáticos. processo de atendimento à criança portadora de de- ficiência visual. Os pais precisam entender as dificul- Aspectos positivos da integração dades do filho portador de deficiência, comunicando- se com ele em uma atitude positiva diante dos desa- O processo de integração pré-escolar, além de favo- fios impostos pela deficiência. recer o desenvolvimento integral – motor, intelectual O trabalho de integração na escola depende cen- e emocional – do aluno com deficiência visual, tam- tralmente da colaboração dos pais, aos quais cabe bém contribui para o desenvolvimento de uma auto- fornecer informações a respeito das condições visuais imagem positiva e para o enriquecimento e a amplia- (cegueira/visão subnormal) do aluno, do eventual ção de conhecimentos, graças às experiências parti- uso da visão residual, de aspectos de seu desenvolvi- lhadas com o grupo. mento global, da necessidade de adaptação do mate- rial, da utilização de recursos ópticos, não-ópticos e Requisitos da integração tecnológicos. • Reavaliar a prática pedagógica, levando em conta o Os colegas da classe também devem ser informa- potencial da criança portadora de deficiência visual, dos a respeito do colega portador de deficiência. O o fato de ela apresentar uma perda (a ausência da ideal é que o professor crie situações em que a parti- visão), e os fatores sociais e culturais do grupo a cipação e a cooperação ocorram espontaneamente – que ela pertence; por exemplo, no trabalho em grupo –, sem que a crian- • Utilizar os recursos específicos disponíveis (lentes ça com deficiência seja exposta a situações difíceis ou especiais, máquina de escrever braille, jogos adap- constrangedoras. tados, equipamentos de informática, softwares es- É preciso avaliar se as atividades propostas con- pecíficos etc.). tribuem de fato para criar relações de amizade, evi- tando a rejeição e/ou a superproteção. O professor A proposta pedagógica da pré-escola enfatiza as- pode propor um rodízio para os companheiros aju- pectos do desenvolvimento afetivo, cognitivo, social darem a criança com deficiência visual, quando ne- e físico, privilegiando o atendimento das necessida- cessário, dentro e fora da sala de aula. des da criança e envolvendo a família, sempre que É importante procurar dar oportunidades a todos possível. A procura constante de recursos pedagó- de exercer a solidariedade e de perder o medo dos
  • 20. 38 Programa 4 39 ‘diferentes’, que ocorre naturalmente entre as crianças. Com o tempo, os pais de todos os alunos perce- O ENSINO FUNDAMENTAL: berão que a inclusão de crianças com deficiência traz 7 A 11 ANOS um ganho para a classe. O professor, por sua vez, tam- bém enriquece seu trabalho, ao se ver diante da ne- cessidade de diversificar e tornar mais concretos os conceitos e o material didático utilizados. Defasagens no processo ntre os 7 e os 11 anos, mais ou menos, a principal de desenvolvimento Nessa faixa etária, é natural que a criança com defici- E atividade da criança consiste em estudar. A escola constitui o foco de seu mundo, local de aprendi- zagem e de socialização, determinante de toda a rotina e ência visual severa, ou cegueira, apresente defasagens do ritmo de sua vida. Ela aprende a ler e a escrever e vê de desenvolvimento em relação às videntes (que en- se abrirem novos horizontes. Tudo isso é verdadeiro para xergam). Ela começa a compensar as discrepâncias a todas as crianças, inclusive as portadoras de deficiência partir dos 6 ou 7 anos, com o estabelecimento da lin- – talvez até com mais ênfase para estas. guagem conceitual, que lhe torna possível verificar as A leitura e a escrita ocupam um papel central em hipóteses cognitivas. nossa sociedade, convertendo-se em habilidade in- dispensável, mesmo para quem não enxerga, mas dis- A escola pode tomar diversas medidas com o objeti- põe de técnicas diferentes, como o braille. vo de capacitar os professores e a comunidade esco- lar para lidar com as diferenças, como por exemplo: Diferentes processos • promover reuniões para discutir as dificuldades; de desenvolvimento • convidar especialistas para fazer palestras a pro- Mesmo antes de aprender a ler e a escrever, a criança fessores e alunos; vidente (que vê) incorpora muitas noções a respeito • distribuir literatura e exibir vídeos a respeito do da escrita: ela observa as embalagens, vê cartazes na assunto; rua, anúncios na televisão, folheia livros, revistas e • convidar pais de crianças portadoras de deficiên- jornais, vê as pessoas lendo e escrevendo. Sem per- cia, ou professores que já tiveram essa experiên- ceber, ela vai incorporando assistematicamente hábi- cia, para dar depoimentos. tos de leitura e escrita; mesmo as menores fingem ‘es- crever’: fazem rabiscos no papel, desenham, brincam de escolinha. Esse contato constante com a palavra escrita cria motivações para a alfabetização, pois a criança perce-
  • 21. 40 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 41 be o objetivo e o significado da leitura. A experiência e o aprendizado das crianças porta- Logo que o aluno chega à escola, o professor pro- doras de deficiência visual dependem muito de seus cura avaliar cuidadosamente seu desenvolvimento outros órgãos dos sentidos, já que não contam (total psicomotor e cognitivo, buscando também conhecer ou parcialmente) com a visão. A falta de estímulos e suas habilidades sensoriais (táteis, auditivas e vi- experiências que mobilizam os sentidos disponíveis suais), pois tudo isso é importantes para o processo pode prejudicar a compreensão das relações espaciais de alfabetização. e temporais e a aquisição de conceitos necessários ao A aprendizagem das técnicas de leitura e escrita processo de alfabetização. depende do desenvolvimento simbólico e conceitual Porém, não se pode deixar de considerar que cada do aluno, de sua maturidade mental, psicomotora e criança tem uma história de vida peculiar e, conse- emocional. Esse processo não acontece de forma es- qüentemente, desenvolve habilidades e características pontânea: resulta da orientação e do estímulo ofere- muito pessoais. Assim, o mais importante é que o cidos pelo professor, que escolhe um método e um professor procure conhecer e entender cada aluno de processo de alfabetização, bem como técnicas adequa- sua sala. das para desenvolver seu trabalho. Logo de início, o aluno com deficiência visual (seja Não há uma receita pronta e infalível para educar essa cegueira ou baixa visão) apresenta uma desvantagem ou aquela criança. O alfabetizador precisa conhecer básica: a perda (ou a redução) da visão. De modo o aluno que está sob seus cuidados. genérico, podemos destacar algumas características de seu processo de desenvolvimento: • ele precisa mais tempo para assimilar determina- Braille ou tipos ampliados? dos conceitos, especialmente os mais abstratos; O portador de visão subnormal deve utilizar auxílios • requer estimulação contínua; ópticos adequados e materiais adaptados a suas ne- • mostra dificuldade de interação, apreensão, ex- cessidades especiais, como por exemplo os textos com ploração e domínio do meio físico; letras ampliadas. Na sala de aula, o professor precisa • desenvolve mais lentamente a consciência cor- estar atento para planejar a melhor posição (localiza- poral. ção da carteira em relação à lousa, à janela etc.) do aluno, de forma a facilitar sua aprendizagem. São muitas as carências da criança portadora de Não há uma regra única: tudo vai depender do deficiência visual. É importante que o professor e grau de visão da criança e do tipo de patologia que a família levem em conta as inevitáveis diferenças ela tem. Dependendo do grau de visão, o aluno apren- em relação à criança que enxerga, evitando fazer derá o sistema braille, ou disporá de textos com le- comparações. tras escritas em tamanho maior que o comum (tipos ampliados) e com maior espaço entre as linhas.
  • 22. 42 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 43 Um pouco de história O sistema braille, inscrito em relevo, é explorado por meio do tato. Cada ‘cela’ é formada por um conjunto A primeira tentativa conhecida no sentido de desenvolver de seis pontos, permitindo 63 diferentes combinações um sistema de leitura para pessoas sem visão ocorreu em para obter todos os sinais necessários à escrita: letras 1580, quando letras do alfabeto romano foram gravadas do alfabeto, sinais de pontuação, maiúsculas e minús- em baixo-relevo, sobre pedacinhos de madeira. culas, símbolos de Matemática, Física, Química e no- Em 1825, Louis Braille inventou um eficiente sis- tação musical. tema de leitura e escrita para cegos, que leva seu nome Os seis pontos são dispostos em duas co- 1 4 e ainda hoje é usado no mundo inteiro. lunas, com três pontos em cada uma, forman- 2 5 do um retângulo, ou ‘cela’ de 6 milímetros de 3 6 O alfabeto braille altura por 2 de largura. Para facilitar sua iden- a b c d e tificação, os pontos são numerados. O sistema braille pode ser escrito com dois tipos de equipamento: o conjunto manual de reglete e punção e a máquina de datilografia (Perkins-Braille), f g h i j que começou a ser produzida no Brasil em 1999. Alfabetização da criança com deficiência visual k l m n o Ao contrário da criança que enxerga, a cega demora a conceber a idéia de leitura e escrita. Muitas vezes, só entra em contato com esse universo no período esco- lar, e isso inevitavelmente retarda seu processo de al- fabetização. p q r s t O material braille não é tão atraente ao tato como os livros coloridos são para a visão; por isso, não é tão fácil despertar o interesse da criança. Outro fator que interfere na motivação para a apren- u v x y z dizagem está no estímulo familiar. Bem poucas pes- soas conhecem o sistema braille. Assim, não só o acompanhamento em casa se torna mais complica- do, como também fica difícil para os adultos ava- liar e valorizar os esforços do estudante e os pro-
  • 23. 44 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 45 gressos que ele faz. Dificilmente um cego poderá O aluno que tem visão parcial suficiente para ler e ouvir frases de estímulo como: Que letra bonita você escrever com materiais comuns precisa ficar sentado tem!, ou: Deixe-me ver seu caderno?. perto do quadro negro e utilizar recursos ópticos (ócu- los com lentes próprias, lupas etc.). Dependendo do Cabe à escola abrir frentes de conhecimento, suprir grau de deficiência, ele precisará usar tipos amplia- lacunas e minimizar as carências. A educação precisa dos e escrever em cadernos especiais, com maior es- investir com vigor no desenvolvimento integral da paço entre as linhas. criança, utilizando técnicas e recursos específicos para promover a aprendizagem pelo sistema braille. Como é a leitura no sistema braille? As pessoas com deficiência visual nem sempre con- O aprendizado da leitura e da escrita em braille seguem ter suficiente velocidade de leitura para con- requer um elevado desenvolvimento das habilida- seguir ler de forma eficiente e prazerosa. A velocida- des motoras finas, além de flexibilidade nos punhos de da leitura em braille depende da idade em que a e agilidade nos dedos. Se possível, a escola deve pessoa aprendeu a ler, e também do grau de desen- oferecer treinamento para desenvolver tais habili- volvimento do tato: quanto maiores forem as oportu- dades, em situações concretas. Se a escola não dis- nidades para pesquisar e explorar o ambiente e quan- puser de meios para isso, a família precisará bus- to antes se iniciar o processo de alfabetização, melhor car auxílio especializado. será a qualidade da leitura. Se tiver um aluno cego em sua sala, o professor Para o cego, a atividade de leitura envolve dificul- precisa sempre: dades bem peculiares. Por exemplo: a pessoa vidente • falar em voz alta o que está escrito no quadro pode ler durante horas, sem parar; já a pessoa cega é negro; obrigada a interromper a leitura após algum tempo, • sempre que possível, passar para esse aluno es- pois os dedos indicadores (os mais utilizados para ler) pecial a mesma lição dada aos outros, em classe vão perdendo a sensibilidade e se torna difícil iden- ou para casa; tificar as palavras e as letras. • buscar apoio com o professor especializado (da Pesquisas comprovam que a leitura tátil é três vezes sala de recursos, de apoio pedagógico ou do en- mais fatigante que a leitura visual. sino itinerante), que ensinará à criança o siste- ma braille e acompanhará o processo de apren- Também são cansativos os movimentos das duas dizagem e de desenvolvimento do raciocínio; mãos e a posição em que se precisa manter os braços. A • a partir do momento em que a criança estiver temperatura ambiente é outro fator adverso; no tempo alfabetizada, orientá-la para que anote todas as frio, é comum a sensação de amortecimento nos dedos, tarefas. o que prejudica o tato.
  • 24. 46 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 47 Assim, o professor não precisa mudar seus procedi- Como facilitar a leitura em braille mentos quando tem um aluno portador de deficiência Algumas medidas simples contribuem para facilitar a visual em sua sala, mas apenas intensificar o uso de leitura em braille, como por exemplo: materiais concretos, para ajudar a abstrair os conceitos. • distribuir o texto de forma lógica no espaço do pa- O sorobã, ou ábaco, é fundamental para o ensino pel; se ele estiver ‘espalhado’, fica difícil a localiza- da Matemática. Seu manuseio é fácil e aprender a usá- ção pelo tato e, conseqüentemente, a leitura se tor- lo é útil mesmo para o professor de classe comum. na cansativa; Outra técnica complementar indispensável para o • um resumo colocado antes do texto completo des- aprendizado do aluno com deficiência visual é o cálculo perta o interesse e aumenta a segurança, pois a pes- mental, que precisa ser estimulado desde o início e será soa tem uma idéia do conteúdo. de grande valia, entre outras coisas, no estudo da álgebra. Resultados esperados A tecnologia na educação Ao final do processo de alfabetização, a criança deve- do aluno deficiente visual rá ter desenvolvido habilidades para: O enorme avanço na área da informática tem pro- • expressar seus pensamentos por escrito com cla- porcionado recursos valiosos para o processo de reza, espontaneidade e criatividade; ensino-aprendizagem do portador de deficiência • ler com fluidez, entonação e ritmo; visual. Há dois tipos de sistema de ampliação de letras • compreender e interpretar pequenos textos; para as pessoas com visão reduzida: • escrever orações e pequenos textos de estrutura sim- • softwares especiais, como o programa Lentepro, ples, com palavras de seu vocabulário cotidiano. desenvolvido pelo Núcleo de Computação Ele- trônica da Universidade Federal do Rio de Janei- O aprendizado da Matemática ro, entre outros; O aluno com deficiência visual tem as mesmas condições • sistemas que permitem a ampliação direta do de um vidente para aprender Matemática, acompanhan- texto, como os circuitos fechados de televisão. do idênticos conteúdos. No entanto, se faz necessário Para pessoas com cegueira, há softwares que, com um adaptar as representações gráficas e os recursos didáticos. sintetizador de voz, fazem a leitura do que aparece Com freqüência, ao criar recursos didáticos especiais escrito na tela do microcomputador. No Brasil, temos para o aprendizado de alunos com necessidades espe- alguns programas com essa tecnologia, como por ciais, o professor acaba beneficiando toda a classe, pois exemplo o Dosvox, desenvolvido pelo Núcleo de recorre a materiais concretos, facilitando para todos a Computação Eletrônica da Universidade Federal do compreensão dos conceitos. Rio de Janeiro; e o Virtual Vision, desenvolvido pela
  • 25. Sorobã 48 O sorobã, ou ábaco, é um instrumento usado tradicionalmente no Japão para fazer cálculos ma- temáticos (muito antes das maquininhas eletrônicas). Ele torna possível realizar as operações matemáticas (adição, subtração, multiplicação, divisão, radiciação e potenciação) com rapidez e eficiência. Além de tudo, é um objeto de baixo custo e grande durabilidade. No Brasil, o sorobã foi adaptado para o uso de deficientes visuais em 1949, e é hoje adotado em todo o país. 1 2 5 6 Programa 4 3 4 7 1. Moldura, assentada sobre suportes de borracha sete espaços. na base, para evitar o deslizamento. 5. Parte superior, com 1 conta em cada haste. 2. Régua, que divide as partes inferior e superior. 6. Parte inferior, com 4 contas em cada haste. 3. Eixos ou hastes, ao longo dos quais as contas 7. Borracha que se apóia na base da moldura do são movimentadas. sorobã, evitando que as contas deslizem livre- 4. Pontos salientes, que dividem a régua em mente, sem ser movidas pelo operador. Valores: • Na parte superior cada conta vale 5 unidades. espaço delimita o conjunto seguinte de hastes que • Na parte inferior cada conta vale 1 unidade. correspondem ao milhar: unidade, dezena e cen- O ensino fundamental: 7 a 11 anos • As três primeiras hastes formam a classe das uni- tena de milhar. E assim por diante. No sorobã é dades simples: unidades, dezenas e centenas. O possível registrar até quintilhões. Exemplo 1 Exemplo 2 - Representação de uma soma: 36 + 12. 1. Registrar a primeira parcela (36). 2. Adicionar 1 dezena (do número 12) às 3 de- zenas registradas e 2 unidades às 6 unidades já 2 2 3 2 2 registradas. Aqui o sorobã está registrando o nú- mero 22.322. 3. Total registrado: 48. quantidade registrada. 49 quantidade acrescentada.
  • 26. 50 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 51 MicroPower, empresa do município de São Caetano do • classe especial nas escolas comuns; Sul (SP). • centro de apoio pedagógico para atendimento a Existem também equipamentos para imprimir o pessoas com deficiência visual; texto em braille, tanto para uso individual quan- • escolas e centros especializados. to para a produção de grandes tiragens de livros e revistas. Em geral, os alunos com deficiência visual são alfa- Por enquanto, o microcomputador e a impressora betizados por professores especializados e em segui- são os equipamentos de informática mais freqüen- da integrados às classes comuns do ensino regular. A temente encontrados no Brasil. Porém, já há outros partir daí, freqüentam a classe comum em um turno e disponíveis, como por exemplo: reglete de mesa, ter- a sala de recursos, ou outro tipo de assessoria, em minal braille (display braille) e braille falado outro. (minicomputador). No entanto, a integração nas salas de aula de en- sino regular não deve ser uma imposição; deve-se A política nacional respeitar a vontade dos portadores de deficiência vi- de Educação Especial sual e de seus familiares. Só devem ser integrados na sala de aula comum os alunos com condições de Desde a década de 50 há salas de recursos para a acompanhar a proposta curricular e cuja família te- integração de crianças com deficiência visual nas es- nha feito essa opção. colas públicas do Brasil, fazendo de nosso país o pio- Para os alunos portadores de deficiência visual neiro nesse tipo de atendimento na América Latina. terem acesso ao currículo de disciplinas como Edu- cação física, Educação artística, Geografia, Matemáti- As diretrizes atuais do Ministério da Educação reco- ca etc. os professores dessas disciplinas precisam fa- mendam que se dê prioridade ao atendimento esco- zer algumas adaptações, em conjunto com os profes- lar integrado aos portadores de necessidades sores especializados. educativas especiais. O objetivo principal consiste em tornar mais con- cretos os conceitos que serão ensinados. Por exem- Em obediência a essas diretrizes, a rede pública plo: é mais fácil ensinar acidentes geográficos (ilha, oferece diversas modalidades de atendimento: rio, estuário etc.) utilizando um mapa em relevo ou • classe comum sem apoio da educação especial; um tabuleiro cheio de areia, no qual a professora • classe comum com apoio de serviços especiali- pode ir jogando água e ‘construindo’ o relevo. zados; • sala de recursos nas escolas comuns; Embora a atual política educacional esteja preocu- pada com a inclusão de crianças portadoras de de- • ensino itinerante; ficiência no sistema comum de ensino em classes re- • escolas integradoras/inclusivas; gulares, temos comprovado a falta de alternativas
  • 27. 52 Programa 4 O ensino fundamental: 7 a 11 anos 53 pedagógicas que facilitem essa integração. No caso específico de portadores de cegueira, uma das maio- Para que o processo de integração do aluno com ne- res limitações é a precariedade de suporte pedagó- cessidades especiais aconteça de modo positivo, toda gico quanto ao acesso a informações escritas, tex- tos literários, livros de literatura infantil, revistas e a comunidade escolar deve estar preparada: pais, pro- outros. A falta de materiais impressos é um fessores, técnicos, funcionários de apoio da escola e, dificultador da integração da criança no ensino re- especialmente, os alunos. gular e, até mesmo, de uma aprendizagem bem-su- cedida e, principalmente, prazerosa. Temos obser- O processo de integração na escola ajuda a per- vado que essas crianças ficam restritas a materiais ceber que as diferenças individuais são relativas – didáticos com pouco ou nenhum espaço para a ima- ginação, a criação e o aspecto lúdico da leitura. todos temos dificuldades e, ao mesmo tempo, quali- (Garcia, 1998, pp. 31 e 32) dades, o que nos dá direito à igualdade e à diferença. Assim, devemos centralizar nosso interesse na reso- lução, e não no problema; na qualidade de vida, e não Onde acontece a integração? na facilidade da segregação; na diversidade, e não na homogeneidade; na atenção às necessidades indivi- A integração da criança portadora de deficiência vi- duais, e não na simplificação da educação. sual não acontece apenas na sala de aula; é desejá- No contato com os adultos, a criança precisa sen- vel que ela aconteça na família, nos ambientes so- tir que as limitações enfrentadas não são dela, mas da ciais, religiosos e de lazer. Mesmo que não estude própria deficiência. Isso contribui para dar-lhe segu- em uma sala comum, a criança precisa estar integra- rança e para que aprenda a expressar sem medo suas da ao ambiente social em que vive – na praça, no dificuldades e pedir auxílio, saindo da passividade e parquinho, na festa de aniversário, na igreja, na lan- da acomodação que, em geral, levam a uma auto-ima- chonete… gem negativa. Antigamente, os educadores e profissionais espe- O verdadeiro trabalho de integração consiste em cializados enfatizavam apenas o diagnóstico e a rea- criar situações estruturadas, que favoreçam a vivência bilitação de aspectos específicos da deficiência. Nem de experiências significativas, fortalecendo a auto- sempre pensavam nas outras faces do desenvolvi- imagem e ensinando o aluno a lidar com seus pró- mento da criança – habilidades motoras, integração prios limites e frustrações. Assim, ele vai se sentindo social, vida emocional e afetiva etc. como um indivíduo atuante, capaz de compreender as Felizmente, hoje em dia o foco das atenções dos diferenças e as semelhanças e de se relacionar bem educadores está na recuperação da integridade do ser com as outras pessoas. humano. Compreende-se que somente pela reintegra- ção dos aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais será possível alcançar um desenvolvimento global e harmonioso.
  • 28. Programa 5 55 ADOLESCÊNCIA, TEMPO DE MUDANÇAS E DE ESCOLHAS Entreaberto botão, entrecerrada rosa... o ciclo vital humano, a adolescência correspon- N de à transição entre a infância e a idade adulta. Muitas são as questões e muitas as possibilida- des de mudança, entre as quais sobressaem o despertar da sexualidade e a escolha da profissão. Para alguns autores, a puberdade é a primeira fase da adolescência. Nos meninos, a voz muda, au- menta o tamanho do pênis e começa a produção de espermatozóides; aparecem pêlos, penugem e bar- ba. Nas meninas ocorre a menarca (primeira mens- truação); aparecem pêlos e seios, as formas se ar- redondam. Em ambos os sexos, os odores corporais mudam, espinhas e cravos são comuns. Todas essas mudanças são sinais evidentes do processo de amadurecimento sexual, com aumento da produção hormonal. De modo geral, as transformações hormonais, corporais e
  • 29. 56 Programa 5 Adolescência, tempo de mudanças e de escolhas 57 cognitivas são comuns a todos os jovens, mas, no pla- introspectivos, a sociabilidade fica comprometida. no psicológico, cada um tem sua vivência particular. Em uma sociedade como a nossa, que cultua o O processo de adolescência implica elaborar vá- corpo, a beleza e a perfeição, qualquer desvio desse pa- rias perdas: perda do corpo, do papel e da identidade drão parece intolerável ao adolescente. de criança. Nessa transição, o indivíduo já não reco- Embora não possa ver, o adolescente com defici- nhece seu ‘novo’ corpo e questiona sua ‘nova’ identi- ência visual também sabe quais são os padrões estéti- dade. Tudo é ambíguo: briga com os pais, mas preci- cos por intermédio das conversas com a família e com sa de sua atenção; ora se comporta como criança, ora os amigos e pelos meios de comunicação. Assim, as di- quer ser adulto. Os pais, por sua vez, também se sen- ficuldades dessa fase crítica ganham para ele propor- tem desnorteados diante desse ‘novo’ filho. ções muito maiores. Sem dúvida se trata de uma situação de crise, mas uma crise que pode ser muito criativa, pois o estado Para alguns autores, aprender a amar o próprio cor- anterior desaparece, dando lugar a uma nova condi- po – principalmente quando ele não corresponde ao ção. Superar essa fase difícil é uma condição de cres- modelo estético da sociedade – leva tempo e faz par- cimento interior. te de um processo mais amplo, de auto-aceitação e Em nossa sociedade, um dos sinais de passagem da amadurecimento. adolescência para a idade adulta na classe média, por exemplo, é o ato de se habilitar para dirigir um carro: Por outro lado, devido à existência de riscos re- representa liberdade, autonomia de movimentação e ais, a criança portadora de deficiência visual possibilidade de namoro. Imagine a situação do adoles- freqüentemente é superprotegida pela família, pelos cente com deficiência visual diante dessa limitação… amigos e demais pessoas de suas relações. Com isso, seu campo de sociabilidade acaba sendo naturalmen- Espelho, espelho meu… … te restringido. Quando chega a adolescência, ela pode se sentir insegura diante de novos relacionamentos e A imagem corporal é extremamente importante para de novos ambientes. O medo de se relacionar se tor- todo adolescente. Acne, obesidade, seios muito peque- na um sentimento constante e negativo, o adolescen- nos, ou muito grandes, excesso ou falta de pêlos, esta- te se sente ameaçado por tudo e por todos. Para al- tura baixa, ou alta demais, comparação com a aparên- guns psicólogos, é nessa fase da adolescência que cia dos colegas, tudo isso ganha dimensões importan- surge a raiva da própria deficiência. tes, levando o adolescente a se sentir infeliz e desvalo- rizado. Qualquer diferença individual em relação à maio- Adolescentes, ria dos colegas é olhada com temor e insegurança. deficiência visual e sexualidade Às vezes se desenvolve um quadro de depressão, o jovem se fecha, passa a comer demais, ou de me- Outro aspecto muito importante da adolescência se nos, manifesta comportamentos agressivos ou refere à educação sexual dada pela família. Segundo
  • 30. 58 Programa 5 Adolescência, tempo de mudanças e de escolhas 59 as pesquisas, essa educação não tem possibilitado aos dúvidas e receber em resposta informações claras e jovens – mesmo àqueles que enxergam – assumir com verdadeiras, para que consigam vivenciar sua sexua- responsabilidade suas relações afetivo-sexuais. Em lidade de forma tranqüila e responsável. geral as informações se restringem à sexualidade li- gada à genitália, pois ainda hoje os pais têm dificul- Ajustamento à sociedade dade de dialogar sobre esse tema. Mas, apesar da informação ser inexistente, fraca ou As expectativas da sociedade são diferentes para os que inadequada, os jovens não deixam de se iniciar na enxergam e os que não enxergam. Para atender a es- prática sexual, sem entender muito bem o que está sas expectativas, o adolescente com deficiência visual acontecendo com eles, como se fosse uma brincadei- procura atuar de forma similar a seu amigo que vê: ra de faz-de-conta. E, muitas vezes, com resultados quer descobrir o mundo, conhecer pessoas, namorar. inesperados, como um bebê não-planejado. A ausência da visão cria barreiras, pois interfere em seu Ora, se a educação sexual dos jovens videntes é senso de integridade física e em sua imagem corporal reconhecidamente inadequada, imagine o que de pessoa sexualmente aceitável, bem como em sua ca- acontece com jovens portadores de deficiência vi- pacidade de escolha do parceiro. sual, vítimas de superproteção por um lado e, por E, como todos os adolescentes, os jovens que não outro, de preconceitos e mitos – que projetam sua vêem também buscam desesperadamente definir sua imagem como assexuados, incapazes, dependentes identidade e seu lugar na sociedade. Além disso, que- e eternas crianças. Com freqüência, em seu próprio rem descobrir sua própria sexualidade e encontrar ambiente familiar ele é visto como pessoa ‘pura’ e meios adequados para expressar seus impulsos se- ‘ingênua’. xuais e vivenciar relacionamentos afetivos. O impacto da deficiência visual sobre o desen- O portador de deficiência visual é um ser humano volvimento individual e psicológico e sobre as res- igual aos demais, com impulsos sexuais e potencial ponsabilidades potenciais trazidas pela adolescên- para viver sua sexualidade. cia varia muito – depende da idade, do grau de per- da sensorial, da atitude dos pais e da dinâmica ge- Assim, se é complicado para os ral da família. jovens sem deficiência viver sua Quando os pais são superprotetores (e isso é sexualidade, supõe-se que, para muito comum), a transição da infância para a adoles- os adolescentes portadores de cência se torna mais difícil, ou mais demorada. Preo- cegueira ou de baixa visão, a cupados com a possibilidade de gravidez, com doen- descoberta da sexualidade é ças sexualmente transmissíveis e com o uso de dro- muito mais difícil. É funda- gas, e receosos de que seu filho seja rejeitado e ex- mental que tenham a oportuni- plorado, os pais com freqüência acabam complican- dade de expor abertamente suas do a situação. Além disso, bloqueados por seus temo-
  • 31. 60 Programa 5 Adolescência, tempo de mudanças e de escolhas 61 res, deixam os diálogos e os esclarecimentos apenas para um curso de nível superior. Todos sabemos como para a escola e os meios de comunicação, omitindo- a autonomia, a independência, a sociabilidade e a se desse processo. possibilidade de sair com a ‘turma’ são importantes A deficiência visual prejudica seriamente a atra- para qualquer adolescente. Para o portador de defi- ção física, pois a aparência desejável é o primeiro ciência visual, é ainda mais. requisito para um envolvimento afetivo e sexual. O É nesse momento que são mais valorizadas as ‘jogo do namoro’ também fica mais difícil para o ado- habilidades adquiridas por meio das técnicas de lescente cego, pois não há o contato visual, a paquera. orientação e mobilidade, que idealmente o jovem Ele depende de sinais mais perceptíveis (toques, pa- deve ter desenvolvido em seus primeiros anos esco- lavras) e, às vezes, seu desajeitamento e seu atropelo lares. O mesmo é verdade em relação às técnicas de inibem a aproximação. atividades da vida diária. O jovem com deficiência Por isso, muitas vezes ele procura um companhei- visual precisa ter aprendido a cuidar de sua aparên- ro (ou uma companheira) também deficiente, o que cia, a combinar as roupas e a se comportar em espa- lhe traz segurança. Por outro lado, ter um namorado ços sociais de forma adequada. (ou namorada) que enxerga lhe dá status, valorizan- do-o diante dos outros portadores de deficiência. Se o jovem (ou a jovem) for muito tímido, inseguro, e se tiver assimilado os preconceitos e a falta de infor- mação existentes em seu grupo social, ele pode ter pro- blemas até mesmo em seu desempenho sexual – não por dificuldades físicas (visto que a deficiência visual somente afeta a visão), mas por razões psicológicas. A adolescência, uma fase plena de descobertas e transformações, pode ser vivida com intensidade pelo Esse aprendizado é indispensável para que ele portador de deficiência visual, do ponto de vista possa começar a planejar sua integração no mercado afetivo e sexual. E a sexualidade, como parte da na- de trabalho e a escolha de sua vida profissional. tureza humana, contribui para inseri-lo no mundo. Nesse campo, o jovem portador de deficiência enfrenta as mesmas angústias e indecisões do jovem A difícil autonomia que enxerga, mas de forma mais acentuada. Suas es- colhas são mais restritas, é mais difícil comprovar sua Nessa fase, parte dos jovens se encaminha para o potencialidade para um possível empregador, a famí- mercado de trabalho; outros continuarão seus estu- lia superprotetora hesita em deixá-lo ‘sair do ninho’ dos, indo para o Ensino Médio e, posteriormente, e tentar voar com as próprias asas.
  • 32. 62 Programa 6 63 Dessa forma, a orientação vocacional assume um papel fundamental para ajudá-lo a se conhecer me- VIDA ADULTA: lhor e fazer sua opção profissional. TRABALHO, CASAMENTO A orientação vocacional é uma técnica pedagógi- E RESPONSABILIDADES ca que propõe desenvolver no aluno – com ou sem deficiência visual –comportamentos racionais em di- reção à escolha realista e responsável de uma profis- são. Existem escolas que oferecem oficinas ou aulas de informática, afinação de piano, trabalhos com ma- ara o ser humano, seja ou não portador de defi- deira, preparação de produtos de higiene pessoal, operador de telemarketing, cursos de massagem, P ciência visual, a vida adulta envolve a capacida- de de prover o próprio sustento e o da família. E acupuntura, artesanato – enfim, alternativas bem inclui também a responsabilidade de votar, participar de diversificadas. sindicatos, partidos, clubes, associações ou movimen- Alguns jovens conseguem definir rapidamente sua tos sociais, exercendo seu papel de cidadão. profissão; para outros, esses programas funcionam como uma sondagem de aptidões, contribuindo para desenvolver a criatividade, a memória, a acuidade auditiva etc. Se os profissionais e os familiares tiverem inves- tido no desenvolvimento de atitudes de responsabi- lidade, autonomia, adequação social, consciência de direitos e deveres, teremos um jovem pronto a enca- rar a passagem para a vida adulta e para o exercício Ao chegar à idade adulta, o portador de deficiência da cidadania. visual congênita em geral já passou por um processo de reabilitação, de escolarização, de orientação e mobilida- de, de aquisição de hábitos de higiene e cuidados pes- soais. Esse aprendizado pode ter ocorrido em escolas e instituições especializadas, ou em escolas integradas. Seja como for, a pessoa deve estar preparada para pro- curar seu lugar no mercado de trabalho, assumir respon- sabilidades e exercer seus direitos. A situação é bem diferente quando a perda da vi- são ocorre na idade adulta. Esse acontecimento é um golpe na vida de um ser humano, atingindo também
  • 33. 64 Programa 6 Vida adulta: trabalho, casamento e responsabilidades 65 seus familiares e amigos. E as perdas não se resumem Orientação e mobilidade: A pessoa que perdeu a ao prejuízo da visão: elas são emocionais, afetam as visão precisa aprender a se deslocar e a executar habilidades básicas, a ocupação profissional, a comu- as tarefas do dia-a-dia sem o estímulo visual. Para nicação e a personalidade como um todo. isso, é fundamental aprimorar os demais sentidos, Após a cegueira a pessoa se vê mutilada, fragmen- a capacidade de concentração e a atenção, para tada; ela se sente diferente do que era e também está conseguir caminhar em ambientes conhecidos e diferente dos demais. Algumas assumem o papel de desconhecidos. ‘coitadinhas’; perdem sua auto-estima e procuram ti- No Brasil, esse treinamento é feito em duplas rar partido de sua condição, exigindo comiseração. (um guia vidente e um deficiente visual), com a Deixam de trabalhar, esperando a boa vontade alheia. bengala longa de alumínio, que pode ser inteiriça Outras tentam negar sua nova condição de várias ou dobrável. O cão-guia, muito freqüente em ou- formas: percorrendo consultórios médicos sem parar, tros países, ainda não é comum entre nós, mas os sem aceitar o diagnóstico, recusando-se a desenvol- que existem têm sido utilizados com excelentes re- ver novas habilidades e a se adaptar à nova vida. sultados. Para superar o golpe e encarar sua nova condição, Existem pesquisas em andamento para desenvolver a primeira coisa é admitir com determinação a nova auxílios eletrônicos, baseados no sonar dos morcegos, realidade. Para isso, é muito importante o apoio de destinados a alertar para obstáculos no caminho. familiares e amigos, para fortalecer sua capacidade de Desenvolvimento de habilidades manuais: É necessá- luta e de superação de dificuldades e obstáculos. rio trabalhar o tato e as habilidades manuais (coor- denação motora fina), para que a pessoa possa apren- O processo de reabilitação do deficiente visual com der o braille e desempenhar com mais facilidade e cegueira adquirida começa quando ele mesmo aceita eficiência as atividades da vida diária. que deve buscar auxílio para enfrentar suas limitações. Aprendizado do sistema braille: A leitura e a escrita Após admitir a necessidade de um acompanhamen- em braille dependem da sensibilidade do tato, indis- to, o deficiente visual adulto deve procurar um centro de pensável para seu exercício. Seu aprendizado abre reabilitação que ofereça acompanhamento especializado, para o adulto cego uma ampla perspectiva de comu- com uma equipe multidisciplinar: médico oftalmologis- nicação. ta, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, assistente social, psicó- Atividades da vida diária: Esse treinamento tem por logo, professor especializado e terapeuta ocupacional. objetivo desenvolver (ou devolver) ao deficiente vi- Programa de reabilitação sual a independência nos cuidados pessoais, na ad- ministração do lar, em tarefas como alimentação, hi- Esse programa, preparado para adultos que perdem parcial giene e vestuário, para que ele possa agir adequada- ou totalmente a visão, inclui vários tipos de atendimento: mente em seu cotidiano.
  • 34. 66 Programa 6 Vida adulta: trabalho, casamento e responsabilidades 67 O mercado de trabalho pouco tempo, muitos deles compatíveis com a situa- e o deficiente visual adulto ção do deficiente visual. Quem poderia imaginar, há alguns anos, que um cego chegaria a analista de A situação de desemprego que hoje afeta um grande sistemas, por exemplo? número de brasileiros sem dúvida se estende também Existem alguns equipamentos que são utilizados para os portadores de deficiência visual. E, no caso igualmente por deficientes visuais e por pessoas que deles, se torna particularmente importante o investi- enxergam; para os primeiros, se instala um software mento na capacitação educacional e profissional, para especial, um sintetizador de voz, que ‘fala’ o que está que dominem novas tecnologias, e ampliem seu aces- na tela. Esse computador pode ser acoplado a uma so ao mercado de trabalho. impressora braille ou a uma impressora comum. Por outro lado, a escolha de um trabalho depen- de do conhecimento das opções existentes no merca- Escritório doméstico computadorizado do, e depende de saber quais delas podem ser Essa solução, mencionada por Romeu Sassaki (1997) exercidas pelo portador de deficiência visual, quais permite às pessoas com deficiência atuar de várias cursos e treinamentos existem para a capacitação e formas: como procurá-los. • como empregado: trabalhando em casa, longe da empresa que o contratou, mas conectado a ela por meio do computador; • como empresário: monitorando, de sua casa, uma empresa que fica em outro local, com a qual se conecta por meio do computador; • como empresário: trabalhando em casa, onde está Até recentemente, o portador de deficiência con- instalada sua empresa, comunicando-se com clien- tava com bem poucas opções de trabalho. Podia pro- tes e fornecedores por meio do computador. curar uma vaga no mercado formal de trabalho (embalador, controlador de qualidade, separador de Em qualquer dessas atividades, a pessoa precisa, peças, operador de câmara escura, telefonista etc.) em entre outras coisas, investir no desenvolvimento de empresas, fábricas, hospitais e outras instituições, ou habilidades de autogestão empresarial, de técnicas de fazer ‘bicos’, vendendo vassouras, bilhetes de loteria gerenciamento e de administração, adquirir noções ou algo semelhante. sobre legislação, organização e financiamento de O crescente desenvolvimento tecnológico, espe- microempresas e de cooperativas. cialmente nas áreas de microeletrônica e Embora ainda haja obstáculos a vencer, atualmen- informática, cria continuamente uma ampla varie- te há muitos deficientes visuais ocupando cargos em dade de profissões e empregos, inexistentes até há indústrias, escolas, clínicas, empresas e hospitais, com
  • 35. 68 69 desempenho equivalente ao da média dos videntes ou, em alguns casos, acima deles. LEMBRETES* Ao se habilitar para prover seu sustento e formar uma família, o portador de deficiência visual se torna um cidadão de primeira categoria, capaz de exercer seus direitos e seus deveres. Passa a estar incluído na sociedade e conquista o respeito de todos, por sua luta para chegar onde está. Cegueira não é o fim do mundo Procure não encarar a cegueira como desgraça. Não sinta pena do deficiente visual; a educação especial e a reabilitação permitem superar muitas dificuldades. Cegueira não ‘pega’ A cegueira é uma deficiência sensorial, não é uma doença. Você já viu alguém ‘pegar’ surdez? Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você É de extrema indelicadeza chamar um deficiente vi- sual de ‘cego’, ou ‘ceguinho’. Ninguém gosta de ser rotulado. Você gostaria de ser chamado de ‘gordo’, ou de ‘baixinho’? Cegos não são surdos Se a pessoa com deficiência visual estiver acompanha- da, não se limite a falar apenas com seu companheiro, para se comunicar com ela. Dirija-se diretamente a ela, identifique-se e faça um contato físico: toque ligeira- mente seu braço ou seu ombro, mostrando que está se dirigindo a ela. Também não é o caso de falar aos * Excerto da obra A cegueira trocada em miúdos, de Helena Flávia de Rezende Melo
  • 36. 70 Lembretes 71 berros. O fato de ela não retribuir seu olhar não signi- montadores de peças etc., profissões que exigem esco- fica que não possa manter uma conversação normal. laridade e treinamento equivalentes aos que se requer das demais pessoas. Não há palavras ‘tabu’ Às vezes as pessoas evitam usar palavras como ‘ver’, Não fale com as mãos ‘olhar’, ‘cegueira’ etc. quando conversam com pesso- Não gesticule nem aponte, pois isso não significa nada as com deficiência visual. Não há motivo para isso. para o portador de deficiência visual. Diga: “O cinzeiro está em sua frente”; “A cadeira está atrás de você”. Ao indicar Os cegos não são ‘puros’ direções, tome como referência a posição dele, e não a sua. Os portadores de deficiência visual não são criaturas puras, sem interesse pelas coisas deste mundo. Eles Tintim por tintim se interessam por tudo que interessa a você, desfru- Em ambientes desconhecidos, ou em situações novas, tando das coisas a seu modo. ofereça ao deficiente visual o maior número possível de informações, para que ele se oriente e se localize, Músicos extraordinários? sabendo o que está acontecendo. Evite que ele passe Não pense que todos os deficientes visuais têm dons momentos de tensão e desconforto. artísticos, em particular musicais. Muitos são tão mu- sicais quanto eu ou você: sabem tocar bem uma cam- Adivinhe quem eu sou painha! O deficiente visual não precisa adivinhar quem está fa- lando com ele; sua memória auditiva é boa, mas é im- O famoso ‘sexto sentido’ possível se lembrar de todas as vozes. Você também não Não pense que os cegos têm um sexto sentido ou al- se lembra do rosto de todos a quem foi apresentado. guma outra compensação pela perda da visão. Eles Identifique-se quando o encontrar e despeça-se dele apenas desenvolvem recursos latentes em todos nós. quando sair. Você, com o mesmo treinamento, será tão ‘extraordi- nário’ quanto eles! Dê uma mãozinha Se encontrar uma pessoa cega sozinha, pergunte se Nem todos são vendedores de vassouras ela quer ajuda e qual é a forma mais adequada. Mas, É preconceituoso achar que as pessoas com deficiên- não se ofenda se seu oferecimento for recusado: nem cia visual só podem desempenhar determinadas pro- sempre as pessoas com deficiência precisam de auxí- fissões. Atualmente, eles são analistas de sistemas, lio. Às vezes, uma determinada atividade pode ser digitadores, operadores de telemarketing, psicólogos, executada melhor sem assistência.
  • 37. 72 Lembretes 73 Um lugar para cada coisa, çada, não o puxe nem empurre, forçando-o a atraves- cada coisa em seu lugar sar a rua. Pergunte antes se ele quer. Mantenha o caminho por onde passa um deficiente visual limpo e desimpedido: objetos fora de lugar Seja um guia eficiente podem causar acidentes. Nunca puxe ou empurre a pessoa deficiente visual. Ofereça seu braço; pelo movimento de seu corpo, ela Para que complicar, se pode simplificar? vai perceber se você está virando à direita ou à es- Para mostrar onde está uma cadeira, basta colocar a querda etc. mão do deficiente visual no encosto da mesma: ele vai saber onde ela está e vai se sentar sem problemas. “Antes só que mal acompanhado” Não siga a pessoa portadora de deficiência visual, Não assuma o problema dele pensando em evitar problemas. O cego, quando está Um deficiente visual não é de responsabilidade exclu- sozinho, está alerta, com os outros sentidos aguçados; sivamente sua, mas de toda a sociedade. E, acima de ele pode perceber sua presença e se irritar com isso, tudo, deve ser responsável por si mesmo. Não faça perdendo a concentração. tudo por ele, como se fosse um bebê ou um incapaz. O cego não é deficiente físico “Do prato à boca, Em uma escada, coloque a mão dele sobre o corrimão, nem sempre se perde a sopa” se houver. Caso contrário, dê o braço a ele ou algu- Não é preciso dar comida na boca da pessoa com defici- mas dicas a respeito da estrutura da escada. ência visual. Descreva os alimentos servidos, faça o pra- to para ela e explique onde está a comida no prato. Ela Um usuário diferenciado pode falhar algumas vezes, mas se arranjará sozinha. Não empurre ou levante a pessoa com deficiência vi- sual para entrar no ônibus. Coloque sua mão sobre a Nos imprevistos, seja discreto alça externa vertical e ela subirá sozinha. Dentro do A pessoa cega pode não saber que há manchas, ras- ônibus, ela pode preferir ficar de pé. gos ou um pequeno desalinho em suas roupas ou sapatos. Avise-a, mas de modo discreto, evitando de- Não o deixe na mão sencadear comentários maldosos. Quando você estiver no ponto do ônibus e chegar um deficiente visual pedindo para avisar quando sua con- Cego não é nômade dução chegar, não se esqueça de fazê-lo. Caso seu Se você encontrar um deficiente visual parado na cal- ônibus chegue antes, avise outras pessoas; se não
  • 38. 74 75 houver mais ninguém, avise o portador de deficiên- BIBLIOGRAFIA cia, pois ele confiou em você. Dedos que valem ouro Quando uma pessoa portadora de deficiência visual for entrar ou sair de um carro, preste muita atenção antes de bater a porta, para não prender os dedos dela: eles são preciosos! ALMEIDA, Maria da Glória de Souza. Prontidão para alfabetização através do sistema braille. Apostila. Não dê esmolas sem olhar a quem Rio de Janeiro, Instituto Benjamin Constant, 1995. Nem todos os cegos são pessoas carentes. Não ofen- AMIRALIAN, Maria Lúcia de Toledo. Interação – con- da: só dê dinheiro se a pessoa for tão pobre que pre- dição básica para o trabalho do portador de defici- cise pedir ajuda. ência visual. Tendências e desafios da Educação Es- pecial. Brasília, SEEP, 1994. Melhor prevenir que remediar BATISTA, Cristina et al. Educação profissional e colo- Se você conhece pessoas portadoras de deficiência cação no trabalho. Brasília, Federação Nacional das APAEs, 1997. visual ou que tenham membros da família com essa deficiência e que estejam em idade reprodutiva, orien- BRAGA, Ana Paula. “Recursos ópticos para visão te-as para procurar um serviço de aconselhamento subnormal – seu uso pela criança e adolescente”. Re- genético. Essa é a única forma de saber se há possibi- vista Con-tato. São Paulo, Laramara, agosto de 1997. lidade de ter filhos com essa deficiência. BRUNO, Marilda. Intervenção precoce: momento de interação e comunicação. Perspectivas e reflexões. “É de pequenino que se torce o pepino” São Paulo, CENP/SEE, 1993. Se você conhece um bebê com problemas visuais, — —. O desenvolvimento integral do portador de defi- — oriente a família para levá-lo a uma clínica ou escola ciência visual. São Paulo, Laramara, 1993. especializada o mais cedo possível. Não se deve es- — —. Reflexão da prática pedagógica. São Paulo, — perar que ele cresça para receber tratamento adequa- Laramara, 1997. do. Quanto mais cedo for atendido, maiores chances terá de superar suas dificuldades. CARVALHO, Erenice Natália S. A educação especial: concepção de deficiência. Brasília, Secretaria de Educação Especial, Ministério da Educação, 1996. CARVALHO, Keila Miriam Monteiro et al. Visão subnormal – orientação ao professor do ensino re-
  • 39. 76 Bibliografia 77 gular. Campinas, Unicamp, 1994. RIBAS, João B. Cintra. O que são pessoas deficientes. Coleção Primeiros Passos. São Paulo, Brasiliense, CARVALHO, Rosita Edler. A nova LDB e a Educação Es- 1983. pecial. Rio de Janeiro, WVA, 1997. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma COLL, César Palacios J. Necessidades educativas espe- sociedade para todos. Rio de Janeiro, WVA, 1997. ciais e aprendizagem escolar. Vol. 3. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995. SIAULYS, Mara O.C. Papai e mamãe, vamos brincar? Laramara, São Paulo, 1997. FELIPPE, Vera Lúcia L.R. & ÁLVARO, João. Orientação e mobilidade. São Paulo, Laramara, 1997. TRINDADE, E. & BRUNS, M.T. Era isso o que EU que- ria? Um estudo da maternidade e da paternidade na GARCIA, Nely. “As implicações do sistema Braille na adolescência. Monografia (conclusão de bachare- vida escolar da criança portadora de cegueira”, in lado). Ribeirão Preto, Faculdade de Filosofia, Ci- Con-tato: conversas sobre deficiência visual. São ências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de Paulo, Laramara, n o 4, junho de 1998. São Paulo, 1995. MANTOAN, Maria Teresa Egler et al. A integração de WERNECK, Cláudia. Ninguém mais vai ser bonzinho na pessoas com deficiência. São Paulo, Memnon, 1997. sociedade inclusiva. Rio de Janeiro, WVA, 1997. MASINI, Elcie F. Salzano. “Conversas sobre deficiên- cia visual”. Revista Con-tato. São Paulo, Laramara, n o 3, p. 24, 1993. O Ministério da Educação tem publicações para orien- tar os professores, como adaptações curriculares, — —. O perceber e o relacionar-se do deficiente visual. — normas e instruções. Alguns exemplos: Coordenadoria Nacional para Integração da Pes- soa Portadora de Deficiência (Corde), Ministério Plano orientador das ações de educação especial nas da Justiça, Brasília, 1994. escolas públicas do DF. Brasília, Secretaria de Edu- cação do Distrito Federal, 1994. MELO, Helena Flávia de Rezende. A cegueira trocada Proposta curricular para deficientes visuais. Brasília, em miúdos. Campinas, Universidade Estadual de Secretaria de Educação Especial/MEC, 1979. Campinas, 2ª edição, 1988. O deficiente visual na classe comum. São Paulo, Secre- NABAIS, Márcia Lopes de Moraes et al. Estudo taria de Estado da Educação, Coordenadoria de profissiográfico para o encaminhamento da pessoa Estudos e Normas Pedagógicas, 1993. deficiente visual ao mercado de trabalho. Rio de Complementação curricular específica para a educação Janeiro, Instituto Benjamin Constant, 1996. do portador de deficiência da visão. Orientação e PARKER, Steve. Conviver com a cegueira. São Paulo, mobilidade. Brasília, Secretaria de Educação do Scipione, 1994. Distrito Federal, FEDF, 1994. PIMENTEL, Maria da Glória. O professor em constru- Propostas curriculares da Educação Infantil. Brasília, ção. Campinas, Papirus, 1996. Secretaria da Educação Fundamental/MEC, 1996.
  • 40. 78 Bibliografia 79 Publicações especializadas Revista Benjamin Constant Revista Distribuição gratuita. Entrar em contato com: CON-TATO – conversas sobre deficiência visual Instituto Benjamin Constant Publicação de Laramara – Associação Brasileira de Av. Pasteur, 350/368 – Urca Assistência ao Deficiente Visual Rio de Janeiro/RJ CEP: 22290-240 Preço do exemplar: R$ 5,00 Tel.: (0XX21) 543- 1174 Fazer depósito, com cheque nominal para: Fax: (0XX21) 275-3745 Laramara E-mail: ibc@infolink.com.br Banco Itaú – agência 1976 Posto Bancário Aché J ornal SuperAção Conta corrente 01800-0 Centro de Vida Independente (CVI) Enviar o comprovante de pagamento, via fax ou cor- Rua Marquês de S. Vicente 225 reio, para: Estacionamento da PUC – Gávea Central de Distribuição Laramara Rio de Janeiro/RJ – CEP 22451-041 Rua Conselheiro Brotero, 338 – Barra Funda E-mail: cvirj@cvi.puc-rio.br São Paulo/SP - CEP 01154-000 Tel.: (0XX11) 826-374 Fax: (0XX11) 826-9108 E-mail: laramara.brasil@mandic.com.br Internet Anexar os seguintes dados: www.mj.gov.br/corde/webcorde.htm Nome: www.mec.gov.br Rua/no www.saci.org.br Cidade Estado CEP Telefone Assinatura Revista Integração Distribuição gratuita. Entrar em contato com: MEC - Secretaria de Educação Especial Esplanada dos Ministérios – Bloco L – sala 600 Brasília/DF CEP: 70047-901 Tel.: (0XX61) 410-9115/410-9116 Fax: (0XX61) 321-9398 E-mail: seesp@seesp.med.gov.br

×