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FRANCO, Augusto - Fluzz e Partido
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FRANCO, Augusto - Fluzz e Partido

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  • 1. 1FFLLUUZZZZ &&PPAARRTTIIDDOOA U G U S T O D E F R A N C OExcertos do capítulo 7 do livro Fluzz: vida humana e convivênciasocial nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.São Paulo: Escola de Redes, 2011.FASCINANTE! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresashierárquicas: construímos tais instituições – que continuamreproduzindo o velho mundo; sim, são elas que fazem isso – comoartifícios para escapar da interação, para ficar do “lado de fora” doabismo, para nos proteger do caos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nosproteger das experiências da política (pública) feitas pelas pessoas noseu cotidiano. Os Estados tentam nos proteger das experiênciasglocais (de localismo cosmopolita). E as empresas (hierárquicas)tentam nos proteger da experiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, queviram religiões, que reproduzem igrejas, que se comportam comopartidos... Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios paraproteger as pessoas da experiência de fluzz! (Não é a toa que todasessas instituições hierárquicas exigem “monogamia” dos que querem
  • 2. 2manter capturados, como se dissessem: “- Você é meu! Nada detransar com estranhos”).Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos osscripts dos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas(e que, na verdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer.Com tal florescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estãosendo radicalmente alteradas neste momento, mas não porformidáveis revoluções épicas e grandes reformas conduzidas porextraordinários líderes heroicos, senão por pequenas experiências,singelas, líricas, vividas por pessoas comuns! Aquelas mesmasexperiências de interação das quais fomos poupados. É como se tudotivesse sido feito para que não experimentássemos padrões deinteração diferentes dos que deveriam ser replicados. Mas nóscomeçamos a experimentar. E “aqui estamos – como escreveu HakimBey (1984) em Caos – engatinhando pelas frestas entre as paredesda Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitosparanóicos”.Neste texto vamos examinar o Partido.Máquinas para privatizar a políticaOs partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapúblicaNO VELHO MUNDO FRACAMENTE CONECTADO as pessoas erigiamcorporações – grupos privados hierarquizados – para fazer valer seusinteresses. Simplesmente parecia ser a coisa “lógica” a ser feita emum mundo regido pela “lógica” da escassez. Assim também surgiramos partidos como um tipo especial de corporação: eles foramconstituídos para fazer prevalecer os interesses de um grupo sobre osinteresses de outros grupos e pessoas com base em (ou tomandocomo pretexto) um programa, um conjunto de ideias a partir das
  • 3. 3quais fosse possível conquistar e reter o poder para tornar legítimo oexercício (ilegítimo do ponto de vista social, quer dizer, do ponto devista das redes sociais distribuídas) de comandar e controlar osoutros.Partidos são organizações pro-estatais. Não é a toa que decalcam opadrão de organização piramidal do Estado. Mas, ao contrário do quese pensa, os partidos vieram antes do Estado e nesse sentido sãotambém organizações proto-estatais. Os primeiros partidos foramreligiosos: as castas sacerdotais que erigiram o Estado.Sim, o Estado é, geneticamente, um ente privado. Estado comoesfera pública só surgiu (isso deveria ser uma obviedade, conquantonão soe como tal) quando se constituiu uma esfera pública, com ainvenção da democracia. Antes disso – por três milênios ou mais – osEstados foram o resultado da privatização dos assuntos comuns dascidades pelos autocratas. E depois disso, por quase dois milênios, osEstados continuaram sendo organizações privadas (só nos últimosdois ou três séculos eles se constituíram, aqui e ali e, mesmo assim,em parte, como instâncias públicas, mais ou menos democratizadas;embora continuassem infestados por enclaves autocráticosprivatizantes).Os partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapública. São um modo político de nos proteger da experiência defluzz. Para tanto – em um regime de monopólio (nas ditaduras) ou deoligopólio (nas democracias formais) – eles privatizam a políticapública. Sua existência legal indica que as pessoas, como tais, nãoprecisam fazer política pública no seu cotidiano e na base dasociedade (nas suas comunidades): alguém fará tal política por elas!Mesmo nas democracias dos modernos entende-se que as pessoasnão devem fazer política pública, a menos que entrem em umpartido: uma espécie de agência de empregos estatais, umaorganização privada autorizada a disputar com outras organizaçõesprivadas congêneres o acesso às instituições estatais reconhecidaslegalmente como públicas e, portanto, encarregada comexclusividade de fazer política pública. Enxugando de toda literaturalegitimatória as teorias liberais sobre o papel dos partidos nademocracia, o que sobra é mais ou menos isso aí.
  • 4. 4Ora, por mais esforço que se faça para justificar esse acessodiferencial ao exercício da política pública, parece óbvio que o sistemade partidos privatiza a política. Ao se conferir aos partidos o condãode transformar politics em policy, as pessoas viram automaticamenteclientela do sistema.As teorias liberais da democracia, é claro, não concordam com isso.Mas as teorias liberais da democracia são próprias de um mundo debaixa conectividade social, em que somente eram concebíveis asformas políticas representativas de regulação de conflitos. Para osdefensores dessas teorias, só existem, basicamente, os indivíduos. Ea democracia é, via de regra, baseada em uma teoria das elites (maisPlatão, menos Protágoras). Sua análise é coerente com que elespensam. E eles pensam mais ou menos assim: é melhor o Estado-nação com todos seus enclaves autocráticos – e, inclusive, é melhor oimpério – garantindo a ordem, do que a barbárie da anarquia. Nofundo essa é mais uma variação, em linha direta, da visãohobbesiana. Abandonados à nossa própria sorte, sem sermosdomesticados por um poder acima de nós, nos engalfinharíamos emuma guerra de todos contra todos. Então o Estado tem, para eles, umpapel civilizador (assim como, para alguns, também tem esse papel areligião: pois se não houver um deus – dizem – tudo é permitido,tudo seria possível em termos morais). O que se requer, apenas, éque esse Estado seja legitimado pelos cidadãos em eleições limpas eperiódicas e que os governos eleitos respeitem as regras do direito(interpretadas também, é claro, pelas tais “elites civilizadoras”).Essa é a visão da democracia dos modernos na sua versão liberal,baseada no indivíduo. Mas tal visão não está mais adequada aosmundos altamente conectados que estão emergindo. Por muitasrazões (dentre as quais a principal é que o indivíduo é umaabstração) a democracia não pode ser o resultado de um pacto feito erefeito continuamente pelos indivíduos que se ilustraram e que secomprometeram a manter uma ordem capaz de garantir aos (e exigirdos) demais indivíduos que eles continuem a conformar sua liberdadeaos limites impostos pelos sistemas de poder que formalmentepermanecerem legitimados por eleições e respeitarem as leis. Isso, éclaro, deve ser garantido, mas não para ser reproduzidoindefinidamente como é e sim para possibilitar que os cidadãos
  • 5. 5continuem - com liberdade - inventando novas formas de regularseus conflitos.Em mundos altamente conectados essa forma representativo-político-formal da democracia (a democracia no sentido "fraco" do conceito:como sistema de governo ou modo político de administração doEstado) deverá dar lugar a novas formas mais substantivas einterativas (a democracia no sentido "forte" do conceito, das pessoasque se associam para conviver em suas comunidades de vizinhança,de prática, de aprendizagem ou de projeto).A democracia no sentido “forte” do conceito é uma democracia+democratizada, que recupera a linha da "tradição" democrática –uma imaginária linhagem-fluzz – que começa com o “think tank” dePéricles – do qual “participava”, entre vários outros, Protágoras –,passa por Althusius (1603), por Spinoza (1670-1677) e pelosreinventores da democracia dos modernos, por Rousseau (1754-1762), por Jefferson (1776) e por aquela “network da Filadélfia” queconectava os redatores americanos da Declaração de Independênciados Estados Unidos e pelos Federalistas (1787-1788), pelos autoreseuropeus (desconhecidos) da Declaração dos Direitos do Homem e doCidadão (1789), por Paine (1791), por Tocqueville (1835-1856), porThoreau (1849) e por Stuart Mill (1859-1861), até chegar às formasradicais antecipadas pela primeira vez por Dewey (1927-1939): ademocracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, ademocracia como expressão da vida comunitária (1). Esta última seráuma espécie de metabolismo das redes mais distribuídas do quecentralizadas, algo assim como uma pluriarquia.É claro que os chamados cientistas políticos, em boa parte, nãoacreditam nisso. O que não significa nada, de vez que não existe umaciência política. Se existisse uma ciência política, em qualquer medidapara além de uma ciência do estudo da política, não poderia haverdemocracia (pois neste caso os governantes deveriam ser oscientistas e decairíamos na república platônica dos sábios: umaautocracia). A despeito do que pensam os que foram ordenados nasacademias da modernidade para legitimar a política realmenteexistente, há um argumento fatal contra suas (des)crenças: se ademocracia não pudesse ser reinventada novamente (pois ela já o foi
  • 6. 6uma vez, pelos modernos) ela também não poderia ter sidoinventada (pela primeira vez, pelos atenienses).Autocratizando a democraciaÉ um absurdo pactuar que o acesso ao público só se dê a partir daguerra entre organizações privadasA DEMOCRACIA FOI A MAIS FORMIDÁVEL antecipação de uma época-fluzz que já ocorreu nos seis milênios considerados de “civilização”.Foi uma invenção fortuita e gratuita de pessoas que logrou abrir umafenda no firewall erigido para nos proteger do caos, para que nãocaíssemos no abismo.Na verdade as pessoas que inventaram a democracia não tinham amenor consciência das implicações e consequências do que estavamfazendo. Talvez tivessem motivos estéticos. Ou talvez quisessem,simplesmente, abrir uma janela para poder respirar melhor. Emconsequência, abriram uma janela para o simbionte social poderrespirar, sufocado que estava, há milênios, em sociedades depredadores (e de senhores). Como já foi mencionado aqui, não é poracaso que no primeiro escrito onde aparece a democracia (dosatenienses) – em Os Persas, de Ésquilo (427 a. E. C.) – ela tenhasido apresentada como uma realidade oposta à daqueles povos quetêm um senhor.Era tão improvável que isso acontecesse, na época que aconteceu,como foi o surgimento e a continuidade da vida neste planeta,perigosamente instável em virtude da composição atmosférica tãoimprovável que alcançou. Com efeito, um gás instável (comburente),corrosivo e extremamente venenoso como o oxigênio, que chegou aalcançar a impressionante concentração de 20%, é uma loucura emqualquer planeta: mas foi assim que o simbionte natural – essasurpreendente capa biosférica que envolve a Terra – conseguiurespirar.Do ponto de vista social, a democracia é um erro no script da Matrix.Não se explica de outra maneira. Não era necessária. Nem foi o
  • 7. 7resultado de qualquer “evolução” social. Não surgiu dos interessesprivatizantes de qualquer corporação. Surgiu em uma cidade nomesmo momento em que nela se conformou um espaço público.Isso significa que, geneticamente, a democracia é um projeto local enão nacional. O grupo de Péricles (às vezes chamado indevidamentede “partido democrático”) não foi constituído para tentar converter osespartanos ou qualquer outro povo da liga ateniense à democracia (enem para empalmar e reter indefinidamente o poder em suas mãos,como grupo privado) e sim para realizar a democracia na cidade, nabase da sociedade e no cotidiano do cidadão enquanto integrante dacomunidade (koinonia) política.Foram os modernos que tentaram transformar a democracia em umprojeto inter-nacional (ou seja, válido para um conjunto de nações-Estado). Mas ela só pode se materializar plenamente – comopercebeu com toda a clareza John Dewey (1927) – no local: é umprojeto vicinal, comunitário, que tem a ver com um modo-de-vidacompartilhado (2). E é mais o “metabolismo” de uma comunidade deprojeto do que o projeto de alguns interessados em conduzir umacomunidade para algum lugar segundo seus pontos de vistaparticulares ou para satisfazer seus interesses (outra definição departido).A democracia surgiu como uma experiência de redes de conversaçõesem um espaço público, quer dizer, não privatizado pelo Estado (nocaso, representado pelos autocratas que governaram Atenas). Nãoteria surgido sem a formação de uma rede local distribuída emAtenas e em outras cidades que experimentaram a democracia.Quando surge, a democracia já surge como movimento dedesconstituição de autocracia e não como modelo de sociedade ideal.As instituições democráticas foram criadas – casuisticamente mesmo– para afastar qualquer risco de retorno ao poder do tirano Psístratoe seus filhos a partir da experimentação de redes de conversaçõesem um espaço (que se tornou) público (3). Sim, público não é umdado, não é uma condição inicial que possa ser estabelecida oudecretada por alguma instância a partir ‘de cima’ (como uma normaexarada ex ante pelo Estado-nação). Público é o resultado de umprocesso. Só é público o que foi publicizado. Depois, é claro, pode-sepactuar politicamente o resultado que se estabeleceu a partir do
  • 8. 8processo social, gerando uma norma, sempre transitória, válida parao âmbito da instância de governança vigente.Mas não se pode pactuar que o acesso ao público só se dê a partir daguerra (ou da política como continuação da guerra por outros meios –o que é mesma coisa) entre organizações privadas. Um pactoabsurdo como esse – baseado na perversa fórmule inversa deClausewitz-Lenin (4) – é contraditório nos seus termos e investecontra o próprio sentido de público. Por isso, diga-se o que se quiserdizer, do ponto de vista da democracia (uma realidade coeva à daesfera pública), partidos são instituições contra-fluzz, regressivas namedida em que concorrem para autocratizar a democracia.Não é necessário argumentar muito para mostrar como tudo isso estáno contra-fluzz. Esse tipo de organização partidária e de regimepartidocrático a ela associado não tem muito a ver com a construçãode uma governança democrática e sim com a manutenção de umagovernabilidade autocrática, quer dizer, com a capacidade de manteras regras de uma luta, de um combate permanente entre gruposprivados, assegurando que o vencedor tenha o direito de privatizar aesfera pública de modo a prorrogar o seu poder sobre a sociedade(no fundo há sempre uma disputa pelo butim, na base do spoilsystem). Tal como o Estado-nação, partidos são instituiçõesguerreiras: ainda quando não se dediquem ao conflito violento,operam a política como arte da guerra, como uma continuação daguerra por outros meios. Nesta exata medida, são organizaçõesantidemocráticas. Só pessoas tontas – e pelo visto destas há muitas– podem acreditar que o resultado desse embate constante, dessainteração adversarial permanente, conseguirá constituir um sentidopúblico (5).Não-partidosRedes de interação política (pública) exercitando a democracia localna base da sociedade e no cotidiano dos cidadãosNADA DEVE IMPEDIR QUE PESSOAS se associem livremente parafazer política pública. Se houver algo impedindo isso, então estamos
  • 9. 9em uma autocracia ou em uma democracia formal de baixaintensidade, fortemente perturbada pela presença de instituiçõeshierárquicas que deformam o campo social. Partidos são, obviamente,uma dessas instituições, conquanto não consigam – na vigência deregimes democráticos formais – impedir totalmente que as pessoasexerçam a política; não, pelo menos, nos âmbitos de suas redes derelacionamento, nos círculos com graus de separação mais baixos.Dentro de certos limites – impostos pelo grau de autocratização dasdemocracias realmente existentes na atualidade – é possíveldemocratizar a política na base da sociedade, inventando eexperimentando novas formas de interação política realmenteinovadoras. Nas autocracias isso não é possível, razão pela qual asdemocracias formais – com suas conhecidas mazelas e limitações –são infinitamente preferíveis a todas as formas de regimesautoritários, por mais que se lhes tentem louvar as supostas virtudessociais. Essa nova política possível, entretanto, será necessariamenteuma política pública, não de grupos privados de interesses – ou nãoserá de fato nova. Se tentarmos reeditar a disputa adversarial deinteresses de grupos privados, decairemos fatalmente na velhapolítica (6).O simples fato de algumas pessoas já terem desistido dos partidos earregaçado as mangas para fazer o que acham que deve ser feito emsuas localidades – articulando redes de interação política (pública) eexercitando a democracia local na base da sociedade e no cotidianodos cidadãos – já é um sinal de que a dinâmica da sociosfera (em queconvivem) está sendo alterada.Nos Highly Connected Worlds as pessoas (que quiserem) poderãoconstituir não-partidos, comunidades políticas para tratar dos seusassuntos comuns, regulando seus conflitos de modo cada vez maisdemocrático ou pluriarquico. Isso significa que evitarão modos deregulação de conflitos que produzam artificialmente escassez (como avotação, a construção administrada de consenso, o rodízio e, atémesmo, o sorteio), guiando-se – cada vez mais – pela “lógica daabundância”. É claro que isso só se aplica em redes mais distribuídasdo que centralizadas e na medida do grau de distribuição econectividade (quer dizer, de interatividade) dessas redes.
  • 10. 10Dizendo a mesma coisa de outra maneira: se você não produzartificialmente escassez quando se põe a regular qualquer conflito,produz rede (distribuída); do contrário, produz hierarquia(centralização).Os problemas que se estabelecem a partir de divergências de opiniãosão – em grande parte – introduzidos artificialmente pelo modo-de-regulação. E somente em estruturas hierárquicas tais problemascostumam se agigantar a ponto de gerar conflitos realmente graves,capazes de ameaçar a convivência. Porque nessas estruturas o queestá em jogo não é a funcionalidade do organismo coletivo e sim opoder de mandar nos outros, quer dizer, a capacidade de exigirobediência ou de comandar e controlar os semelhantes.Quanto mais distribuída for uma rede, mais a regulação que nela seestabelece pode ser pluriarquica. Uma pessoa propõe uma coisa.Ótimo. Aderirão a essa proposta os que concordarem com ela. E osque não concordarem? Ora, os que não concordarem não devemaderir. E sempre podem propor outra coisa. Os que concordarem comessa outra coisa aderirão a ela. E assim por diante.Em redes distribuídas nunca se admite a votação como método deregular majoritariamente qualquer dilema da ação coletiva. E quandohouver discordâncias de opiniões, como faremos? Ora, não faremosnada! Por que deveríamos fazer alguma coisa? Viva a diversidade! Sevocê estabelece a prevalência de qualquer coisa a partir da votação(ou de outros mecanismos semelhantes de regulação de conflitos),cai em uma armadilha centralizadora ou hierarquizante. Produz “degraça” escassez onde não havia.Vamos imaginar que exista alguém que não esteja muito contentecom a maneira como as coisas estão acontecendo em umacomunidade. O que essa pessoa pode fazer, além de externar suaopinião e colocá-la em debate? Ora, no limite, essa pessoadescontente pode configurar uma nova rede, se inserir em outracomunidade, ir conviver em outro mundo. Como os mundos sãomúltiplos, ela não está mais aprisionada e não precisa ficarconstrangida a permanecer no mesmo emaranhado onde não sesente confortável.
  • 11. 11Evidentemente a pluriarquia não pode ser adotada em organizaçõescentralizadas, erigidas no contra-fluzz, como as escolas, as igrejas,os partidos e as corporações. Com mais razão ainda não pode vigirnos Estados e seus aparatos, que – mais do que organizaçõeshierárquicas – são troncos geradores de programas centralizadores.A despeito disso, porém, não-partidos tendem a florescer nos mundosaltamente conectados que estão emergindo. Ignorando solenementeas restritivas disposições estatais e as crenças religiosas (sim,religiosas, mesmo quando travestidas de científicas) em uma supostacompetitividade inerente ao ser humano difundidas pelas escolas eacademias, pessoas vão se conectando voluntariamente com pessoaspara tratar cooperativamente de seus assuntos comuns em todos oslugares, sobretudo nas vizinhanças – conjuntos habitacionais, ruas,bairros – e nas comunidades de prática, de aprendizagem e deprojeto que se formam nas cidades inovadoras que não querem maispermanecer eternamente na condição de instâncias subordinadas aoEstado-nação.Notas e referências(1) Para uma explicação abrangente dessa imaginária linhagem-fluzz da“tradição” democrática confira FRANCO, Augusto (2007-2010). Democracia:um programa autodidático de aprendizagem. Slideshare [1022 views em29/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/democracia-um-programa-autodidatico-de-aprendizagem>(2) Cf. DEWEY, John (1927). O público e seus problemas in (excertos)FRANCO, Augusto & POGREBINSCHI, Thamy (orgs.) (2008). Democraciacooperativa: escritos políticos escolhidos de John Dewey. Porto Alegre:CMDC / EdiPUCRS, 2008.(3) Cf. FRANCO, Augusto (2007-2010). Democracia: um programaautodidático de aprendizagem. Op. cit. Cf. também MATURANA, Humberto(1993). La democracia es una obra de arte: Ed. cit.(4) Chama-se de formule inversa de Clausewitz-Lenin (com base nasanotações marginais de leitura do segundo ao tratado Da Guerra, do
  • 12. 12primeiro) à inversão do postulado clausewitziano “a guerra é umacontinuação da política por outros meios”. Como, para Lenin, a luta declasses era uma espécie de guerra permanentemente presente, então eleavaliou que se poderia afirmar que, inclusive em tempos de paz, “a políticaé uma continuação da guerra por outros meios”.(5) De um ponto de vista político, não há problema com a competição entregrupos privados quando seus objetivos são privados. O problema surgequando se quer gerar um sentido público por meio da competição entregrupos privados (como os partidos). Foi assim que, decalcando aracionalidade do mercado, os modernos cometeram uma confusão brutalentre tipos diferentes de agenciamento que levou à irresponsávelidentificação entre democracia e capitalismo (e tão perdidos ficaram em suaconfusão que agora não sabem nem explicar direito a onda de capitalismoautoritário que nos atinge nos últimos anos, sobretudo a partir da China).Para acompanhar uma discussão inovadora sobre a questão do público cf. otópico “Sobre a questão do publico”:<http://escoladeredes.ning.com/group/redesnapoltica/forum/topics/sobre-a-questao-do-publico>(6) É por isso que têm se revelado vãs todas as tentativas de fundar umnovo partido para reformar a política, a partir de novas ideias e,supostamente, da inauguração de novas práticas. Em pouquíssimo tempoesse novo partido será capturado pelo oligopólio dos velhos partidos e secomportará como eles. Quando não há má intenção (e tudo então nãopassa de pretexto para construir uma nova caciquia ou para legalizar umanova quadrilha para assaltar o público), parece evidente que há falta deinteligência mesmo nos que vivem insistindo em percorrer essa via.

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