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Patrimônio e Memória da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaus

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Dissertação de mestrado defendida em 2003, no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, UFAM - Universidade Federal do Amazonas.

Dissertação de mestrado defendida em 2003, no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, UFAM - Universidade Federal do Amazonas.

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  • 1. Universidade Federal do Amazonas Instituto de Ciências Humanas e LetrasPrograma de Pós-Graduação “Sociedade e Cultura na Amazônia” Patrimônio e Memória da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaus Maria Evany do Nascimento Orientação: Luiz Balkar Sá Peixoto Manaus Agosto de 2003Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 1
  • 2. Introdução A cidade é uma teia de significações e (re) significações de uma complexidadetamanha que para decodifica-la é necessário um olhar multidisciplinar. Este tipo deabordagem é muito comum hoje em debates, encontros, seminários e publicações sobre otema. Compreender a cidade a partir de um único ponto de vista não é mais possível, eprofissionais de vários setores são chamados a lançar seu olhar sobre a urbis para traçar-lheum mapa mais completo. Psicólogos, arquitetos, médicos, engenheiros, artistas, poetas,todos têm uma contribuição para dar ao estudo sobre a cidade contemporânea. Dentro dessateia, este trabalho se propõe a apresentar um enfoque temático pontual e atual em setratando da cidade de Manaus: memória, patrimônio e monumento. Discussão que permeiaencontros e debates sobre as mudanças e adaptações da sociedade moderna em todas ascidades. Memória e Patrimônio da Cidade: Monumentos do Centro Histórico de Manaustrata-se de um trabalho cuja trajetória se iniciou com o Programa Institucional de Bolsas deIniciação Científica – PIBIC, em 1997, na Universidade Federal do Amazonas. O projetointitulado Inventário e Catalogação de Obras de Arte em Logradouros Públicos do CentroHistórico de Manaus, objetivava fazer um mapeamento das obras escultóricas localizadasna área do Centro Histórico da Cidade, com o levantamento de alguns dados históricossobre as peças. O trabalho agradou e obteve o 1o lugar na Área de Ciências Humanas daUFAM, em 1998, participando ainda neste ano do VI Seminário de Iniciação Científica daUniversidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. Em uma segunda etapa, a pesquisafoi ampliada, com enfoque sobre questões como a cidade e a preservação de suas obras dosespaços públicos. Obras de Arte em Logradouros Públicos do Centro Histórico de Manausfoi monografia de final de curso da Especialização em História e Crítica da Arte. Partedesta monografia encontra-se na Editora Valer aguardando publicação com o títuloMonumentos Urbanos de Manaus, com previsão de lançamento para este ano de 2003. Com nova reestruturação e enfoque mais pontual sobre memória e patrimônio opresente trabalho se apresenta em três capítulos. No primeiro, sentiu-se a necessidade delocalizar o objeto de pesquisa, revisando as principais modificações no traçado urbano dacidade de Manaus desde sua construção. Procurou-se registrar as ideologias que Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 2
  • 3. conferiram à cidade o traçado, as obras, a imagem e os conflitos da modernidade. Buscou-se a partir de Argan e Munford compreender, em Manaus, as mudanças de sistema quesubstituíram a cidade como obra para a cidade considerada produto e o espaço públicosofrendo essas transformações. No segundo capítulo o enfoque versou sobre questões dememória e patrimônio, com pequeno histórico sobre cada tema e a importância destasdiscussões para a cidade com a inclusão da memória e da história dos logradouros públicosdo Centro Histórico. Utilizando-se alguns dos principais teóricos sobre o assuntopretendeu-se articular as idéias centrais destes, com a realidade da cidade de Manaus noque se refere ao tema estudado: a memória e o patrimônio da cidade. Verificou-se alegislação vigente sobre a proteção e conservação dos bens artísticos e culturais da cidade ea atuação das entidades competentes. O terceiro capítulo apresenta os quatro monumentosselecionados e estudados. Consta de histórico, condições atuais de conservação epreservação, valor histórico e valor artístico de cada obra e a relação da sociedade comestes bens. Aproveitando-se das idéias de Argan, Françoise Choay e Cristina Freire, traçou-se a participação dos monumentos selecionados na vida do cidadão amazonense, de queforma ele interage e se apropria desses bens, que significados possui estes monumentos, deque forma a memória registrada nas obras chega à população e que importância esta lheconfere. Nos comentários finais um olhar particular sobre como o poder público e ossetores governamentais competentes tratam o patrimônio da cidade, as políticasdesenvolvidas e a atuação conferida à proteção e conservação da memória e patrimônio, noque se refere ao Centro Histórico. A partir deste estudo aponta-se possibilidades de sepotencializar o conhecimento e a valorização do patrimônio da cidade de Manaus para quese resguarde a cultura, a memória e a história da cidade. Em documento anexo, encontram-se imagens das obras escultóricas localizadas nas praças do Centro de Manaus com ummapa do seu histórico e suas condições atuais de conservação. Não se trata de uma pesquisa concluída, mesmo porque no que se refere à cidade,nenhum estudo está acabado, pois a cidade está sempre em transformação. Mas externauma preocupação com a memória e a história da cidade de Manaus que aos poucos está seperdendo com a descaracterização de seus registros cristalizados em monumentosespalhados pelas praças do Centro, um bairro que abriga o centro comercial cuja política desobrevivência é a valorização do produto novo. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 3
  • 4. Capítulo 1 - Manaus: concepção e organização do espaço públicoCidade de Manaus: suas origens e transformações ao longo da história Manaus foi um povoado que nasceu ao redor de uma fortaleza, fato comum emmuitas cidades, transformou-se em vila, passou de vila à cidade. Não foi planejadainicialmente. O forte foi construído para proteger a região de expedições invasoras. Depois da fundação da cidade de Belém (a partir do Forte do Presépio, em 1616), asterras do Rio Negro passaram a ser alvo de expedições que traziam soldados e missionários.Estas expedições procuravam garantir as terras que ficavam além dos limites do Tratado deTordesilhas e também aprisionar índios, não só para serem usados como escravos emBelém, mas para serem levados para os aldeamentos indígenas (agrupamentos formadosinicialmente pelos jesuítas para catequizar os índios, ensinando-lhes uma nova cultura).Este trabalho dos jesuítas funcionava como um equilíbrio entre as prisões e o povoamentoefetivo da região, uma vez que os soldados regressariam com os índios capturados e osjesuítas ficariam instalados em aldeamentos. Mas, por volta de 1661, os jesuítas começam aser expulsos da região. Neste mesmo período, os holandeses começavam a atacar peloOrinoco e os espanhóis pelo Solimões. O Governo do Estado do Grão-Pará, mandou entãoconstruir uma fortaleza para defender o rio Negro e o Solimões.Manaus: de aldeia à capital da Província (1669-1852)Da fortaleza o primeiro nome da cidade O forte que deu origem à cidade de Manaus, foi construído em 1669 e recebeu onome de: forte de São José da Barra do Rio Negro. Ao seu redor reuniram-se índios devários grupos; índios e militares deram início à aldeia que passou a se chamar Lugar daBarra. A construção do forte marca também a chegada da "civilização", de uma cultura quese impõe e que, tempos depois determinará os costumes da cidade. O professor Otoni Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 4
  • 5. Mesquita1, citando o historiador José Ribamar Bessa Freire, fala sobre o aspecto simbólicoda construção do forte: ...o historiador José Ribamar Bessa Freire afirma que a fortaleza foi construída sobre um cemitério indígena e interpreta esse ato como "um fato sugestivo carregado de simbolismo que, como imagem, sintetiza por si todo o processo colonial". Sem dúvida, a imagem é bastante forte e pode ser interpretada como a real intenção dos portugueses em relação às manifestações nativas. Quanto aos aspectos formais tratava-se de uma construção muito simples, emrelação às outras fortalezas construídas em outras cidades brasileiras. No entanto, como dizo professor Otoni2: Apesar da simplicidade da obra, essa edificação assumiu grande importância, por ser a primeira construção de vulto na região, tornando-se um marco do domínio português na área do Rio Negro e a instalação de uma arquitetura européia. Em 1783, após a instalação da capitania de São José do Rio Negro, em 1757 e sem operigo das ameaças dos holandeses e espanhóis, o forte da Barra foi desativado. A artilhariafoi transferida para Mariuá por ser a capital e por estar próxima aos limites da áreadisputada pelas coroas portuguesa e espanhola. O que nos resta do forte hoje, é uma placaindicativa do lugar de sua construção, em uma área pouco visitada da cidade, poispertencente à administração do Porto de Manaus.O Lugar da Barra A partir de 1695, os padres carmelitas vieram substituir os jesuítas e construíram aprimeira capela de Nossa Senhora da Conceição. A presença dos missionários serviu paralegalizar a mestiçagem através dos casamentos entre portugueses e índios. No períodocolonial, a igreja não desempenhava apenas um papel religioso: "Uma das funções urbanasmais importantes no período colonial foi a função religiosa, sendo a Igreja não somente ocentro das práticas religiosas como da sociabilidade e da vida cultural."31 MESQUITA, Otoni. Manaus: História e Arquitetura (1852-1910). Manaus: Editora Valer, 1999, p. 24.2 Idem, p. 26.3 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Grijalbo,1977, p. 184. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 5
  • 6. O professor Mário Ypiranga4 fala do trabalho dos jesuítas nesse período: Ali estavam, diligentes, os missionários e oficiais, assistindo e disciplinando o gentio. E ao abrigo dessas duas forças díspares desenvolveu-se, no terreno adjacente ao forte, o povoado da Barra, simples arraial mal organizado a que os teupares transmitiam impressão bárbara de promiscuidade. Ao falar das ruas, as palavras de Ypiranga5 lembram Munford, quando se refere aoplanejamento das primeiras cidades. Nada mais natural, a cidade está se organizando. No período colonial a rua é apenas o caminho sem expressão, desvestido do tônus estético, aberto à revelia dos pés caminheiros nas manchas verdes do mato, por necessidade urgente ou por comodidade, não raro para abreviar distâncias. O Lugar da Barra modifica-se lentamente neste período provincial. Mas algunsmelhoramentos urbanos são executados, como a abertura de ruas e praças e a construção depontes. De acordo com Mário Ypiranga6, a praça como logradouro público surge nesseperíodo. Continuando, afirma que as ruas e becos recebiam o nome do morador emevidência ou do acontecimento mais marcante. As mudanças políticas ocorridas em 1833,promovem o lugar à categoria de vila, que passa a se chamar então Vila de Manáos,permanecendo como capital da nova comarca.7 Por esse período a vila já possuía casas deestilo europeu, segundo relatos de viajantes, e onze ruas e uma praça, possivelmente aPraça Dom Pedro II. A partir de 1848, quando a vila é elevada à categoria de cidade, com onome de Cidade da Barra do Rio Negro, e com a elevação do Amazonas à categoria deProvíncia, em 1850, a região passa a receber inúmeros estrangeiros: ... a região passou a despertar um crescente interesse internacional, atraindo grande número de viajantes: pesquisadores, cronistas, cientistas e aventureiros que eventualmente divulgavam os relatos de suas investigações e observações sobre vários aspectos da cidade.8 Percebe-se pelas falas dos visitantes que aqui desembarcaram e que vinham comuma visão burquesa-européia, o preconceito externado em relação ao comportamento das4 MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. Manaus, 1948, p. 33.5 Idem, p. 51.6 Idem, p. 55.7 MESQUITA, op. cit, p. 28.8 Idem, p. 29. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 6
  • 7. pessoas. A partir desses relatos, começa-se a se formar a imagem do homem amazônicocomo de "costumes decadentes", preguiçoso. Isso porque, segundo Otoni9: Os acidentes geográficos, a topografia e os hábitos regionais faziam do lugar um exótico aglomerado urbano, que misturava elementos ocidentais aos traços nativos e em muito pouco se assemelhava ao padrão europeu surpreendendo e impressionando os viajantes estrangeiros, cuja formação cultural e hábitos eram completamente diferentes. Manaus era uma cidade com características que em nada deveria assemelhar-se aos aglomerados europeus, que naquela época já usufruíam alguns benefícios introduzidos pela indústria e pelas modernas noções de higiene. O traçado da capital da Província do Amazonas obedecia praticamente aos ditames da natureza: era desenhada por vários igarapés, seu relevo era bastante acidentado, com morros e ladeiras; além disso, era comum nas construções residenciais o uso de materiais da região, tais como a madeira, a palha e o barro. Em relação ao espaço urbano ocupado nesse período, sabe-se que: À época da instalação da Província do Amazonas (1852) o sítio urbano de Manaus compreendia seis bairros (São Vicente, Campina, Costa dÁfrica, Espírito Santos, República e Remédios) e estava restrito nos espaços compreendidos entre dois grandes igarapés, o da Cachoeira Grande e o da Cachoeirinha, segundo informações deixadas por Bento Aranha que também esboçou um croqui da cidade naquele período.10 O primeiro presidente da Província, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha,ao chegar em 1852 e instalar definitivamente a Província, descreveu em seu relatório ascondições do lugar e a falta de melhoramentos urbanos, principalmente em relação aosprédios públicos, que se encontravam em ruínas. A partir da autonomia da Província,Manaus começa a receber melhoramentos e enfrenta as dificuldades da falta de material emão-de-obra. A cidade começa a mudar sua aparência e as pessoas, os hábitos. As ruas vão sendo alargadas, arejadas pela própria necessidade das edificações, do trânsito de pedestres, de carroças de condução ou de transporte de água à domicílio. Praças são abertas com o feitio de uma cidade orgânica e para que em futuro remoto fossem aterradas, pois algumas delas ficavam colocadas em covões, outras em bôca-de-lobos.119 Idem, p. 36.10 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 28.11 MONTEIRO, Ypiranga. Op. cit., p. 62. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 7
  • 8. O professor Ypiranga12 fala ainda sobre o "Arruador", que seria um substituto doengenheiro ou técnico urbanista, profissional que atuava desde, pelo menos, o período daVila de Manaus. A ele competia marcar os limites dos bairros e alinhamentos das casas.Manaus: as transformações urbanas na capital da Província (1852-1890)Obras públicas no período imperial A partir da elevação do Amazonas à categoria de Província, fato ocorrido em 1850,mas efetivado em 1852, com a chegada do então presidente João Baptista de FigueiredoTenreiro Aranha, a cidade começa a sofrer transformações relevantes. As informaçõessobre as obras públicas deste período foram tiradas da obra de Antônio Loureiro13, "OAmazonas na época Imperial". Obras Públicas: 1852-1860 No início do Período Imperial, a cidade sofreu muito com a falta de mão-de-obraespecializada, de materiais e ferramentas. Não existiam pedreiras,olarÒÂæ@Ê@æÊääÂäÒÂæ@àÂäÂ@ÂàäÞìÊÒèÂä@Â@àÊÈäÂX@Þ@ÄÂääÞ@Ê@Â@ÚÂÈÊÒäÂ@âêÊ@ÐÂìÒÂ@ÊÚ@ÂÄêÜÉÄÜÆÒÂX@ÜÞ@ÊæèÂÈÞ@ÜÂèêäÂØ@¨ÊØÐÂæ@Ê@èÒÔÞØÞæ@ÊäÂÚ@èäÂôÒÈÞæ@ÈÞ@ ÂåÂ@Ê@æÊê@àäËÎÞ@ÂêÚÊÜèÂìÂ@ÚêÒèÞ@ÆÞÚ@Þ@ÌäÊèÊ@Ê@Âæ@àÊäÈÂæ@ÈêäÂÜèÊ@Â@ìÒÂÎÊÚ@‚àÊæÂä@ÈÊææÊæ@àäÞÄØÊÚÂæX@ÚêÒèÞ@ÌÞÒ@ÒÜìÊæèÒÈÞ@ÜÊæèÊ@àÊåÚÞÈÞX@Âæ@àäÒÜÆÒàÂÒæ@ÞÄäÂæ@äÊÂØÒôÂÈÂæ@ÌÞäÂÚt@Â@ÆÞÜÆØêçÆÞ@ÈÞ@ÊÈÒÍÚÆÒÞ@ÈÞæ@ŠÈêÆÂÜÈÞæ@‚äéÚÌÒÆÊæX@ÊÚ@bpjnv@Þ@ÆÊÚÒéÒäÒÞ@ÈÞæ@¤ÊÛÒÈÒÞæX@ÂÄÊäèÞ@ÊÚ@bpjhX@Ê@ÊÜÆÊääÂÈÞX@ÊÚ@bpjlX@ÈÊìÒÈÞ@Â@ÊàÒÈÊÚÒÂ@ÈÊ@ÌÊÄäÊ@ÂÚÂäÊØÂv@Þ@ÆÊÚÒéÒäÒÞ@ÈÊ@§ÆÞ@”ÞçÒX@ÂÄÊäèÞ@ÊÚ@bpjlv@o início da construção da atual Matriz; a contratação da iluminação agasogênio, num total de 26 lampiões.12 Idem, p. 130/131.13 LOUREIRO, Antonio José Souto. O Amazonas na época imperial. Edição Comemorativa 45º aniversáriode T. Loureiro Ltda. Manaus, 1989. Informações retiradas do capítulo "Obras Públicas". Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 8
  • 9. Obras públicas: 1860-1870 Neste período foi dado prosseguimento às obras do período anterior e iniciadasoutras novas como: a abertura da estrada Epaminondas, em 1865, e o aterro e calçamentoda praça Tamandaré e algumas ruas. Em 1867, era aberta a praça de São Sebastião e umarua a seu lado, a rua do Progresso, hoje 10 de Julho. Em março de 1868 foram divulgadasalgumas medidas em relação ao urbanismo, como: a proibição do corte de árvores, varas earbustos de mais de cinco palmos, nos riachos e igarapés, sob pena de multa. Também foiproibido fazer escavações, revolver lama, deitar paus, lixo, material orgânico apodrecido ouqualquer matéria que pudesse afetar a pureza das águas. Ficou proibido a lavagem de roupae animais nos igarapés da Cachoeira grande e Pequena. Essas determinações foram tomadasporque toda a população usava a água dos igarapés para beber e cozinhar alimentos. Mastambém, porque queria-se imprimir práticas e comportamentos "civilizados" à populaçãoque era constituída em sua maioria de índios e mestiços. Em relação a energia, em 1869, foicontratada a iluminação por 60 lampiões a querosene, em postes de madeira, de 20 palmosde altura, e a cidade voltou a ser iluminada a noite, o que não ocorria desde 1863. Oslampiões seriam acesos meia hora após o pôr do sol e até as cinco horas da manhã, e, nasnoites de luar, meia hora após a saída da lua. Essa realidade era comum em muitas cidadesdo interior do Brasil, como atesta Emília Viotti14: Nas cidades do interior os únicos edifícios dignos de registro eram as igrejas e conventos, e mais raramente os edifícios da Câmara e da cadeia. O abastecimento de água era precário, ficando os moradores na dependência de poços e chafarizes. Dada a falta de esgotos, os dejetos eram despejados nos ribeirões ou no mar (quando a cidade era litorânea), escorregando, freqüentemente, pelo meio das ruas. A iluminação era precária, prevalecendo o óleo de peixe. Nas noites de luar a cidade ficava às escuras, iluminada apenas pela luz da lua. Obras públicas: 1870-187914 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editora Grijalbo,1977, p. 186. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 9
  • 10. Em 1871, foram calçadas as ruas Marcílio Dias e Flores (atual Guilherme Moreira).No ano seguinte estava sendo feito o desaterro da Praça 28 de Setembro (hoje PraçaHeliodoro Balbi, ou Praça da Polícia), nesta obra foram empregados 35 índios. Em 1875 chegaram os sinos da Matriz, que em agosto de 1877 já estava concluída,mas só foi benta e inaugurada a 15 de agosto de 1878. Neste ano, a praça da Matriz foidesaterrada e outras praças e ruas foram melhoradas, com o trabalho dos cearenses. Ailuminação a querosene foi substituída por gás globe, pela Lei n.º 411, de 7 de abril de1879. A professora Luiza Ugarte15, complementa: As intervenções iniciais do poder público no sentido do "aformoseamento" urbano ocorreram por volta da década de 1870 na praça da Imperatriz, onde também havia sido construído o primeiro cais da cidade, chamado de "Cais da Imperatriz". Obras públicas: 1880-1889 Este foi o período mais fértil de obras públicas de todo o Império, devido aoaumento da produção da borracha. Antônio Loureiro16 descreve bem esse crescimento: A cidade de Manaus dobrou de tamanho e de população, crescendo, a partir da praça Pedro II, ao longo da estrada Epaminondas, até a praça da Saudade; pela atual 7 de Setembro, rumo à praça 28 de Setembro; para os Remédios, com a inauguração da nova ponte de ferro, sobre o igarapé do Aterro, e para a praça de São Sebastião; além do início do povoamento da estrada Correa de Miranda, a atual Joaquim Nabuco. E, 1883, a iluminação pública ainda era feita com gás globe, e estava sendoampliada com a encomenda de 182 colunas de ferro, das quais 39 já haviam chegado. Noano seguinte, o contrato foi rescindido para a instalação da luz elétrica. Quanto ao serviço de águas, só foi providenciado a partir de 1880, antes, apopulação apanhava a água no igarapé de Manaus, onde se lavava roupa, limpava-seanimais e tomava-se banho (sem roupa). Esses banhos foram considerados imorais eproibidos em 1880, também por uma questão de implementação de novos comportamentose costumes à população local. A partir desse período começaram a ser idealizados projetos15 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 29.16 Op. cit., p. 170. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 10
  • 11. para a construção de reservatórios. Inicialmente foram descartados o reservatório do Mocóe da Castelhana, pela necessidade de represamento e bombas a vapor para a elevação daágua. Foi escolhido então o igarapé da Cachoeira Grande, que possuía a 3 quilômetros dafoz, uma cachoeira, além de ter água limpa, sem matérias orgânicas ou ferrosas. A represaficou construída em 1884, um ano antes, todo o material para a distribuição da água jáhavia sido contratado, inclusive várias fontes, para a população que não receberia a águadiretamente. Durante os anos seguintes, as obras foram paralisadas por diversas vezes; até 1887,nada havia sido entregue e já se chegava à conclusão de que o abastecimento não atenderiaa toda a população. O serviço começou a funcionar, após algumas experiências, emdezembro de 1888. No ano seguinte, o abastecimento atendia diretamente a poucos prédiospúblicos, tendo a população que pegar a água das fontes e bicas espalhadas pela cidade. Agnello Bittencourt17 registra uma passagem interessante: De certa feita, passava eu numa esquina, onde fora instalada uma bica dágua para o público, quando uns seis ou sete garotos brincavam de abrir a torneira e jogar água uns nos outros. Eis que surge a cavalo o Governador [Eduardo Ribeiro] acompanhado de um cavalariano e, rebenque em punho, põe a correr a meninada, aos gritos de - "Moleques! Esta água é para as lavadeiras!" Além do melhoramento dos serviços básicos, começaram a ser projetados econstruídos grandes edifícios, como o Teatro Amazonas, cuja construção foi autorizadapela Lei n.º 546, de 14 de janeiro de 1881, e iniciada em 1884, no governo de TeodoretoSouto; seguiu-se a construção da Igreja de São Sebastião, cuja pedra fundamental foilançada em 1879; continuou-se as obras do Palacete provincial (hoje Quartel da Polícia, naPraça da Polícia); o chalet de ferro da praça Dom Pedro II começou a ser colocado a 9 demaio de 1887 e foi concluído em fevereiro de 1888.Manaus: a borracha e a modernização do espaço urbano (1890-1920)17 Op. cit. p. 39. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 11
  • 12. A fase áurea da borracha, compreendida entre os anos de 1890 e 1910, não foi aúnica razão para a total mudança estrutural e cultural da cidade de Manaus, embora essamudança já viesse sendo efetivada. Outros fatores colaboraram para isso: a Proclamação daRepública; a imigração nordestina por conta da seca no nordeste e da oferta de emprego nosseringais; a abertura dos portos do Amazonas às nações amigas, que possibilitou a entradade produtos e empresas estrangeiras, e com eles costumes e hábitos de outras culturas; odesenvolvimento da indústria automobilística que exigia grande quantidade de gomaelástica; e a administração do governador Eduardo Ribeiro, responsável pela reformulaçãoestrutural da cidade, seguindo os padrões mais modernos ditados pela França. Por volta da Proclamação da República (1889), Manaus possuía 10.000 habitantes,enquanto Belém, possuía 60.000 e era uma das grandes cidades brasileiras desse tempo. Oque favoreceu, sem precedentes, as mudanças acontecidas na cidade de Manaus foi aeconomia da borracha e toda a estrutura que se formou por ela e para ela. No período de1890 a 1920, a população passou de 10.000 para 75.000 habitantes. Antes mesmo que todaessa população chegasse à cidade, sua estrutura já estava modificada pela importantefunção comercial e portuária que a cidade possuía. Seu crescimento rápido é comparado aocrescimento da cidade de São Paulo, que no mesmo período cresceu devido a produção decafé. No entanto, enquanto São Paulo controlou a expansão ferroviária, a imigraçãoestrangeira e a indústria; Manaus com sua economia de coleta extensiva, dependia daimigração interna e do comércio pelos rios, além do fato de não estar sozinha, pois Belémtambém produzia borracha e era a maior cidade do norte do país, deixando Manaus emsegundo lugar. No limiar da década de 1890, estava desenhada no cenário, uma nova cidade, com calçamento, coreto na praça, obediente ao figurino francês, percebido nos muitos chalets e palacetes com compoteiras ou subordinados ao modelo inglês de parques e jardins, com seus indefectíveis chafarizes de ferro fundido.18 Estruturalmente Manaus foi modificada seguindo os padrões modernos ditados pelaFrança e seguidos por todas as cidades que queriam fazer parte deste mundo moderno. NoBrasil, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, entre outras, tinham o18 MARTINS, Ana Luiza. A invenção e/ou eleição dos símbolos urbanos: história e memória da cidadepaulista. In Imagens da Cidade - Séculos XIX e XX. São Paulo: ANPUH/São Paulo - Marco Zero -FAPESP, 1993, p. 186. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 12
  • 13. mesmo cenário urbano. Foram abertas largas avenidas; urbanizadas as praças, quereceberam monumentos e diversas obras decorativas; foram aterrados os igarapés;construído o porto (na época, o maior porto fluvial do país), o mercado e o TeatroAmazonas. De 1892 a 1896, o Estado viveu o seu período mais próspero em receitas, peloimposto cobrado da saída da borracha (nesse período, a Amazônia era a única exportadoramundial de borracha). E como a exportação só crescia, os cofres do Estado estavam fartos.Foi o período da administração de Eduardo Ribeiro, que muito investiu no melhoramentourbano. Os costumes da elite manauara eram os mesmos europeus, com as devidasadaptações. O comércio estava abarrotado de produtos importados, os mais raros, caros einacessíveis. Neste período, as opções de lazer não deixavam nada a desejar à qualquercidade européia. As inúmeras apresentações teatrais, óperas, concertos, ou mesmoencontros nos cafés, eram boas opções para este público, pequeno mas muito exigente erico. Quanto aos mais pobres ou os pequenos comerciantes, chegavam a trabalhar 14 horaspor dia. Somente a partir de 1908, com a determinação do fechamento do comércio às 6 datarde, as pessoas podiam se dedicar ao lazer ou a cursos de artes e mesmo de primeirasletras, antes impossível pela rotina de trabalho. A cidade, na administração de Eduardo Ribeiro, passou por uma reformulação eplanejamento urbano; todas as praças foram arborizadas e foram construídos os maisimponentes prédios de Manaus (alguns dos quais, passam hoje por uma restauração). Os prédios construídos nesse período são adaptações de estilos europeus, comoportuguês, francês, inglês e italiano. Correspondem aos estilos muito difundidos nessespaíses no final do século XIX. Entre as principais construções encontram-se: O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896; erguido no topo de uma colina, pode servisto de quase todos as partes do centro. Suas características são predominantemente artnouveau, fachadas neoclássicas; além dos detalhes venezianos com os mármores, espelhose candelabros importados de Veneza. O Palácio da Justiça em estilo neoclássico. O Palácio Rio Negro (hoje CentroCultural), possui elementos que identificam o gosto francês do início do século, oneoclássico e o art nouveau. Foi construído pelo comerciante alemão Ernesto Scholtz, e Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 13
  • 14. vendido ao Estado em 1917. A Cervejaria Miranda Corrêa, à margem do Rio Negro é umareprodução da arquitetura alemã do gênero. O prédio da Alfândega veio da Inglaterra empeças, de arquitetura eclética, é reprodução de prédio inglês comum nas ruas de Londres de1900. O mercado Adolfo Lisboa, em alguns aspectos arquitetônicos, é uma miniatura domercado de Paris. O professor Otoni Mesquita19, em sua obra Manaus: História e Arquitetura,descreve e analisa esses e outros prédios importantes do período e conclui que a arquiteturade Manaus é uma arquitetura eclética. Além desses marcos, podemos encontrar ainda namaioria das ruas do centro, os inúmeros palacetes (que correspondem às mansões de hoje) eque pertencia à elite manauara que enriqueceu com a borracha. A população adquiriugostos europeus e se acostumou com a presença constante de empresas européias, comomenciona a professora Luiza Ugarte20: ... na Manaus do início do século, praticamente todos os serviços urbanos estavam, por concessão, nas mãos de firmas inglesas que passaram a agenciar melhoramentos ou mesmo criar serviços até então insistentes na cidade. Empresas como a Manáos Markets, Manaus Tramways and Light, Manáos Improvements, Amazon Engineering, Amazon Telegraph, Booth Line e Amazon River começaram a fazer parte do cotidiano da população manauara. A esse conjunto de transformações Otoni Mesquita21 chama de vitrine: Como resultado das mudanças ocorridas no final do XIX, surgia com o novo século uma outra cidade, que pode ser interpretada como a imagem da vitrine instalada, resultado de uma série de transformações. Todo processo de mudanças, com suas obras públicas, a introdução de novos costumes e a adoção de modernos serviços públicos podem ser simbolicamente compreendidos como um “rito de passagem” do processo de branqueamento através do qual a cultura local despia- se das tradições de origem indígena e vestia-se com características ocidentais. Esse "processo de branqueamento" ao qual se refere o professor Otoni, começa comas normas determinantes da mudança de hábitos na população, como os decretos queproibiam os banhos nos igarapés. As primeiras construções de estilo europeu ainda noperíodo colonial e as impressões pré-conceituosas deixadas pelos viajantes marcam a19 Op. cit.20 Op. Cit., p. 38.21 MESQUITA, Otoni. Manaus: história e arquitetura (1852-1910). Manaus: Editora Valer, 1999, p. 147. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 14
  • 15. necessidade dessa vitrine para esconder as tradições indígenas, que eram consideradas sinalde atraso. Mas por traz desta vitrine, a população mais pobre via este crescimento mas nãousufruía dele. A cidade não se modernizava para todos, apenas para uma parcela dapopulação. Sobre esta época de luxo tem-se vasta bibliografia, mas sobre os contrastesexistentes, pouco se tem registrado. De acordo com a professora Luiza Ugarte Pinheiro, Essa memória de uma Manaus enquanto "cidade criada pela borracha” ganhou força nas palavras de Eduardo Ribeiro, que ao entregar o cargo de governador, orgulhava-se de ter recebido uma aldeia e ter deixado em seu lugar uma cidade moderna, o que acabou por cristalizar-se na produção historiográfica sobre o tema.22 No período da borracha, dois espaços se apresentavam contrastantes para ahistoriografia regional: de um lado tinha-se o seringal, um lugar de morte, um verdadeiroinferno; do outro, a cidade, um lugar de prazeres e riqueza. A professora Luiza Ugarte 23argumenta sobre a origem dessa historiografia de caráter saudosista, que vê nesse período,apenas a cidade próspera e moderna, negligenciando suas desigualdades e conflitosinternos. Segundo ela, os escritores que ajudaram a cristalizar a imagem da cidade como"Paris das Selvas", pertencem a gerações que presenciaram o declínio da economiagomífera e que se voltam à "ilusão do fausto", pela sensação de perda vivenciada nos anos40. A professora Francisca Deusa24 também comenta sobre as duas realidades queconviviam no mesmo espaço urbano neste período: Parafraseando Giulio Carlo Argan, a Manaus ideal e a Manaus real, existiram concomitantemente. O trabalhador e outros segmentos populares habitavam o centro - lugar de ostentação do luxo - e os limites do perímetro urbano. Eles aí se mantiveram em maioria, segregados não do espaço físico, mas da visibilidade pública. as reformas que deram novo visual à cidade por meio de desapropriações, demolições, e a renovação do parque arquitetônico ou os bens culturais, objetivaram suplantar a imagem do atraso e do antiprogresso ligado à pobreza.22 PINHEIRO, M ª Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no Porto de Manaus -1889-1925. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 25.23 Op. cit.24 COSTA, Francisca Deusa Sena da. Quando viver ameaça a ordem urbana. In Cidades. São Paulo:Programa de História PUC-SP / Editora Olho dÁgua, 1999, p. 86. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 15
  • 16. As mudanças puderam ser observadas principalmente no centro da cidade, onde ossistemas mais modernos eram instalados, como bondes, energia elétrica, teatros, praçasarborizadas e ornamentadas com esculturas e monumentos. Deusa Sena25 explica o porquêdas mudanças nesta área: A principal área de investimentos durante as décadas de 1890 e 1910 foi o centro da cidade. Sua valorização se deu por fatores conhecidos: transporte, arruamento e pavimentação, iluminação pública, água encanada, esgotos etc. enfim, serviços urbanos que, somados à proximidade do local de trabalho, faziam desse espaço o lugar preferencial para a população da cidade. Em relação às praças comenta: As praças, o ajardinamento, as grandes avenidastinham como função social trazer para dimensão pública um setor elitizado dapopulação.26 A função das praças era levar a público a riqueza de uma minoria. Os passeiosde bondes aos domingos era uma diversão de muitas famílias. Dos bondes se via a Manausglamourosa, seus prédios requintados, praças ornamentadas.27 Mas as classes mais pobresinsistiam em usar o espaço e as praças eram palco para manifestações e comemorações pós-conquistas, até esse "privilégio" também ser negado, pois o poder público se aliava aosinteresses da elite, ou melhor, esta classe impunha determinações ao poder público. Durantea greve geral de 1919, conta-nos a professora Luiza Ugarte28, vários setores reivindicavamo cumprimento das 8 horas de trabalho, após uma trégua solicitada pelo governo, esteaplica uma punhalada aos trabalhadores, tirando-lhe o direito de se reunirem nas praçaspara se organizarem em protesto aos empresários, a maioria ingleses. Foi construída umacidade para um grupo específico, para atender ao gosto reinante da época; buscando-secom isso, apagar a imagem de povoado indígena. Desapropriou-se do uso do espaço,grande parte da população.25 Idem, p. 98.26 COSTA, Deusa. Op. cit, p. 94.27 COSTA, Selda Vale da. Eldorado das ilusões: Cinema e Sociedade: Manaus (1897-1935). Manaus:Editora da Universidade do Amazonas, 1996, p. 7.28 Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 16
  • 17. Mas o ciclo ostentoso chega ao fim imprimindo drásticas mudanças, segundoAgnello Bittencourt29 que presenciou este período: Durante os anos da Guerra de 1914-1918 e no período seguinte, com a depressão econômica mundial, Manaus entrou em crise. Mais de um milhar de prédios residenciais desalugados. Era comum pedir-se por favor que alguém ocupasse uma casa, a título gratuito, ao menos para conservá-la. Nesse período, é claro, praticamente nada se construiu. Apenas o Governador Pedro d Alcântara Bacelar adquiriu o Palacete Scholz, hoje Palácio Rio Negro, para sede própria (a primeira!) do Governo Estadual, em 1918, por duzentos contos de réis.Manaus depois da crise da borracha (1920-1967) O período entre 1920 a 1967, é considerado por muitos historiadores como operíodo da cidade em crise. Manaus estava vivendo o fim do ciclo da borracha, no períodoanterior à instalação da Zona Franca. Mas para o professor José Aldemir30, este é naverdade um período de festa. O professor José Vicente31, em seu trabalho Manaus: praça,café, colégio e cinema nos anos 50 e 60, também segue esse pensamento e apresenta a vidapública pulsante neste período. Com a expansão da borracha, toda a cidade teve de se adaptar e modificar suaestrutura para esse momento. As pessoas também tiveram seus modos e costumesadaptados à riqueza do período. No entanto, nem todos participavam disso igualmente, agrande maioria vivia das migalhas e era afastada das transformações que a cidade pudesselhe oferecer. Nesse período, tentou-se construir uma paisagem homogênea, rica eglamourosa, afastando os pobres desse cenário. Isso pode ser observado nos textos quetratam do período da borracha e principalmente nas fotografias e postais da época. Vê-seuma cidade organizada e planejada, fruto de um urbanismo técnico e racional, que para29 BITTENCOURT, Agnello. Fundação de Manaus: pródromos e seqüências. Manaus: Governo do Estadodo Amazonas/Secretaria de Estado da Cultura e Turismo/Editora da Universidade do Amazonas, 1999, p. 46.30 OLIVEIRA, José Aldemir de. Cidade de Manaus: a homogeneidade do conjunto e a fragmentação dodetalhe. Texto extraído da Tese de Concurso Titular do autor apresentado no ICHL em 1999.31 AGUIAR, José Vicente de Souza. Manaus: praça, café, colégio e cinema nos anos 50 e 60. Manaus:Editora Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2002. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 17
  • 18. abrir as grandes avenidas, construir palacetes, cafés e teatros, varre para fora da cidade rica,a parte pobre da população. Com o declínio da borracha, essa cidade dos ricos dá lugar à cidade dos pobres, evieram à tona os contrastes e conflitos antes abafados. A cidade em crise para os ricos é afesta dos pobres pelo acesso, pelo direito à cidade. Esse acesso era facilitado pelas catraias,pelos bondes, depois os ônibus, pelas balsas e pequenas embarcações. Até os anos quarenta,as catraias eram o único meio de transporte coletivo para os bairros de Educandos e de SãoRaimundo. Nos anos cinqüenta, eram o transporte alternativo 50% mais barato que osônibus. Quanto aos bondes, mais que transporte, era estilo de vida, diversão, ponto deencontro. Entre as diversões estava o “Morcegar”, pegar o bonde em movimento e saltarem seguida, e fazer “cerol”, colocando vidro nos trilhos para os bondes transformarem empó. Depois dos bondes vieram os ônibus, e a primeira empresa privada de transportecoletivo de Manaus foi a Ana Cássia, na avenida Waupés, no bairro da Cachoeirinha. O porto, na escadaria dos Remédios, era o ponto de chegada de muitas pessoas dointerior para a capital. Na década de cinqüenta, os barcos ancoravam na cidade flutuante,que para quem chegava, dava a impressão de passageiro, improvisado, feio. Os igarapés que antes funcionavam como lazer para a elite extrativista,consolidaram-se como locais de encontro e festa para grande parte da população. Nesseespaço e nesse tempo todos pareciam iguais. As pessoas divertiam-se mais porque eraexigido menos tempo para o trabalho. Foi um período de proliferação de clubes por toda acidade, que ofereciam festas aos adultos (com recomendação de elegância para os homens eboa conduta para as mulheres), e manhãs de sol aos jovens, das 10:00 às 12:00, aosdomingos e com entrada franca. Na área esportiva, além do futebol (que até a década de sessenta era amador), havia,no bairro da Cachoeirinha (no quarteirão formado pelas ruas Santa Izabel, Urucará eSilves), o Velódromo. Era um amplo estádio com pistas de patinação e quadras para váriosesportes. Nele aconteciam corridas ciclísticas e de motocicletas, das quais participavamcorredores de todo o Brasil e do exterior. O Velódromo foi construído no final do séculoXIX e funcionou até a década de cinqüenta. A partir de 1957, começou a acontecer o Festival Folclórico do Amazonas,realizado inicialmente na Praça General Osório (hoje campo do Colégio Militar), passando Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 18
  • 19. depois para a Praça da Bola da Suframa. As festas religiosas também encontraram maisespaço. Além das festas católicas, outras aconteciam fora da área da igreja. Um dos marcosfoi o Centro Umbandista de Joana Galante “situado na subida da estrada de São Jorge, queteve papel importante na expansão da cidade, pois foi a partir do terreiro, que se iniciou aocupação da parte noroeste da cidade, culminando com a construção da ponte sobre oigarapé da Cachoeira Grande e a abertura da estrada para a Ponta Negra”. Na área cultural o que marcou esse período foi o Clube da Madrugada, surgido a 22de novembro de 1954. Os integrantes (intelectuais, músicos, escritores) se propunham acompensar meio século de atraso na área da literatura e das artes na cidade. Outro eventofoi o cinema, inicialmente exibido para a elite no Teatro Amazonas e Polytheama eposteriormente popularizando-se em locais mais acessíveis e também nas praças públicas. Quanto às obras públicas, o professor Agnello Bittencourt32 comenta: ... o Dr. Araújo Lima, quando Prefeito (1926-1930), promoveu o embelezamento dos jardins da Capital, com a realização de algumas obras públicas, como o Relógio da Avenida Eduardo Ribeiro, próximo ao edifício dos Correios, além da demolição de muitos cortiços existentes no perímetro urbano, vários cobertos de palha. Diante desses fatos podemos ter um outro pensamento: que a Manaus da crise éuma cidade com espaço mais socializável; que o tempo da crise é um tempo de menostrabalho e mais diversão; que as pessoas varridas para fora da cidade, nesse período fazemparte dela e são usuárias de uma estrutura que antes lhes era negada.Manaus: cidade-comércio Manaus, antes mesmo de se constituir cidade, já despontava como entrepostocomercial, devido a sua localização, um ponto estratégico na confluência dos rios Negro eSolimões. Otoni33 registra que: Elizabeth Agassiz (ao passar por Manaus em 1865) ressaltou que a situação da cidade, na junção dos rios Negro e Amazonas, fora uma das mais felizes32 Op. cit., p. 46.33 MSQUITA, Otoni. Op. cit., p. 40. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 19
  • 20. escolhas, pois apesar de "insignificante" naquela época, mais tarde seria, sem dúvida, "um grande centro de comércio e navegação". O comércio em Manaus já havia sido desenvolvido no período da borracha, noentanto, a criação da Zona Franca implementa um comércio mais intensivo e transforma aestrutura urbana da cidade.A Zona Franca: os progressos e problemas causados em Manaus Criada pela Lei 3173, de 6 de junho de 1957, a partir do projeto do DeputadoFederal Francisco Pereira da Silva, a Zona Franca de Manaus só foi regulamentada em1960 e começou a funcionar em agosto de 1967. Tinha o objetivo de promover odesenvolvimento do interior da Amazônia, de acordo com a política desenvolvimentista dogoverno militar e funcionaria por 30 anos. A partir de seu funcionamento, a vida em Manaus foi modificada radicalmente.Como uma avalanche foram surgindo novas casas comerciais e novamente a cidade seencheu de gente nova em busca de enriquecimento rápido. Novamente a estrutura urbana deManaus teve de se adaptar às necessidades do comércio livre: houve um desenvolvimentodos meios de transporte (navios de longo curso e aviões), começam a ser realizados vôosdiários; também há um crescimento dos meios de comunicação, como a TV (havia quatroestações, uma educativa montada pelo Governo do Estado e três particulares e em cores);canais de telefonia (com a instalação de uma delegacia da EMBRATEL). Tambémexpandiram o turismo (pelas belezas naturais e pela facilidade da compra de produtosestrangeiros) e o setor imobiliário, inclusive com edifícios. A receita tributária domunicípio aumentou e o poder aquisitivo das pessoas também. Com isso, era alto oconsumo de gêneros alimentícios importados. Como uma segunda fase desse projeto dedesenvolvimento, foi construído um distrito industrial com infra-estrutura própria(urbanização, serviços de água e iluminação). Como esse pólo necessitava também de mão-de-obra qualificada, instituiu-se como apoio a Universidade Tecnológica do Amazonas(UTAM). Sendo a cidade um produto artístico, Argan34 declara que é natural que a mudançado sistema de produção tenha transformado o que era um produto artístico, em produto34 ARGAN, G. C. op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 20
  • 21. industrial. E que essa mudança acarretou grandes infortúnios à ordem urbana, como osacontecidos em Manaus. Em meio ao desenvolvimento vieram os problemas causados pelaimplantação da Zona Franca como: o deslocamento em massa da população do interior,causando um esvaziamento nesses municípios e vilarejos e um inchaço em Manaus,resultando na formação de muitas favelas; o comércio ilegal de mercadorias; oaparecimento de falsas indústrias, que se estabeleciam e algum tempo depois desapareciamdeixando o prejuízo ao Estado; o aumento da prostituição feminina e masculina,principalmente na área central; o prejuízo ecológico causado pelos desmatamentos para aconstrução de conjuntos habitacionais e a poluição dos igarapés e balneários; também umadiminuição na produção de alimentos. Aos poucos, nas praças e ruas de Manaus, foidestacando-se mais o valor de troca que o valor de uso. A busca pelo novo modificou apaisagem do antigo centro, as casas tornaram-se lojas de departamentos, novas vitrinesmodernas. Nesse período muitas praças cederam seu espaço a estacionamentos e novasconstruções como o terminal de integração da Matriz. Muitas esculturas e monumentos queornamentavam estas praças foram removidos ou destruídos, enfim, a paisagem urbana foinovamente renovada visando esquecer o período da crise. Mas o declínio de muitas empresas da Zona Franca fez crescer nas ruas um grandenúmero de vendedores autônomos que se apropriaram das praças e ruas, tornando-asespaços de troca. Hoje a área central da cidade é um espaço onde reina o comércio emtodos os sentidos. Não existe mais a perspectiva de construir a cidade para o futuro;constrói-se para o aqui e agora. O fascínio pelo novo impede a valorização de monumentose construções antigas. E a falta desse olhar cuidadoso para o passado nos impede decristalizar as memórias presentes nas obras, nos impede de construir nossa própriaidentidade. Manaus foi perdendo as características de aldeia e foi transformada, no período daborracha, em uma cidade cosmopolita, com uma estrutura urbana seguindo padrõeseuropeus. O centro da cidade foi projetado para a elite. Com o declínio da produçãogomífera, o espaço urbano recebeu novos usos, as praças principalmente, se transformaramem ambiente coletivo. Nova adaptação acontece quando da implantação da Zona Franca,onde a estrutura precisa se adequar aos novos padrões comerciais, à era dos arranha-céus. Ocentro histórico se transforma em centro comercial e com o declínio de algumas empresas, Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 21
  • 22. passa a ser palco do comércio informal. O centro sofre grandes degradações, é reinventadoe repossuído pela população. Hoje, a área do Centro Histórico passa por algumas intervenções. São projetos comoBelle époque, que está restaurando alguns prédios antigos e conferindo-lhes uso; as praçastambém estão sendo recuperadas, mas esse processo muitas vezes não é cuidadoso e, naintenção de melhorar, descaracteriza-se os lugares e obras. A própria seleção do querestaurar é um ato arbitrário, pois prevê a conservação de alguns marcos enquanto outros,de igual importância são fadados ao desaparecimento. As intervenções operadas no tecidourbano não seguem um pensamento contínuo, mas idéias individuais de seusadministradores.De cidade-obra para cidade-produto: as mudanças da modernidade Cada período da história pede transformações, as necessidades se modificam, ohomem evolui. Com isso, transforma tudo à sua volta e a cidade é o reflexo de todas essasmudanças. E como ela vai assimilando essas transformações, podemos usar bem as palavrasde Argan ... nenhuma cidade jamais nasceu da invenção de um gênio, a cidade é o produtode toda uma história que se cristaliza e manifesta35. Os vários períodos históricos da cidadede Manaus, estão cristalizados nas obras. Complementando, podemos usar Munford, queassim a descreve: Em verdade, a partir de suas origens, a cidade pode ser descrita como uma estrutura especialmente equipada para armazenar e transmitir os bens da civilização e suficientemente condensada para admitir a quantidade máxima de facilidades num mínimo de espaço, mas também capaz de um alargamento estrutural que lhe permite encontrar um lugar que sirva de abrigo às necessidades mutáveis e às formas mais complexas de uma sociedade crescente e de sua herança acumulada. 36 Com o objetivo de concentrar facilidades num único espaço, a cidade organizouuma força de trabalho mais qualificada, concentrou a distribuição de renda e operou umadistinção entre seus moradores e os moradores de núcleos vizinhos, tirando-lhes a condição35 ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p.244.36 MUNFORD, Lewis. p. 38/39. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 22
  • 23. de igualdade e reduzindo-os a súditos. E eis que surge a cidade: a partir do domínio detécnicas agrícolas, da produção do excedente e da divisão de classes. Embora sendouniversal, a cidade é concebida a partir das particularidades de cada cultura, de acordo comos utensílios, conhecimento, economia, sociedade e política. E essas formas sãomodificadas com o tempo. Entre outras necessidades, o homem busca a cidade para viver bem, nesse sentido éa cidade grega que vai estabelecer inicialmente padrões estéticos e artísticos, como modelopara o viver bem na cidade. A sociedade grega é quem estabelece os padrões culturais paratodo o ocidente, é o modelo de organização em todos os aspectos. Munford37 conta-nos queo cidadão grego não vivia confortavelmente, mas que a beleza que encantava-lhe os olhos eouvidos, o mantinha satisfeito. Contudo, os avanços tecnológicos que, procuravammelhorar a vida cotidiana, lhe tiravam a criatividade. O moderno urbanismo helenísticoproduziu uma cidade de fachadas. O comércio e o crescente número de pessoas aumentou acirculação. Na arquitetura, esse efeito se deu na padronização de prédios e fachadas. Osmonumentos eram vistos de vários ângulos, mas o edifício público helenístico deveria servisto por uma avenida principal. Tal princípio também fundamentou o processo deurbanização adotado no século XIX, no qual se inspirou Eduardo Ribeiro, ao projetar oPalácio do Governo ao final da grande avenida (hoje Av. Eduardo Ribeiro), cujos prédiostinham fachadas padronizadas.As ruas largas, a arquitetura, monumentos e obras de arte, fizeram da cidade helenística acidade do espetáculo, um recipiente de espectadores. E esse papel de espectador unia atodos, pobres e ricos, nobres e humildes. O Império Romano também deixou suas marcasna história da cidade. Os espaços abertos das cidades romanas, não sofreram mudançasradicais até o século XVII. As cidades gregas e romanas serviam de museu a céu aberto, efuncionaram assim até a institucionalização destes, no século XVIII. A beleza era usadacomo um bálsamo para curar a perda da liberdade política e a criatividade cultural dascidades gregas. Arquitetos e planejadores da era helenística, trabalhavam para alcançarefeitos estéticos. O imperador Augusto orgulhava-se de ter encontrado uma cidade emtijolos e ter deixado-a em mármore (a Eduardo Ribeiro costumou-se empregar que eleencontrou uma aldeia e a transformou em cidade). Toda essa ostentação e vaidade, apego37 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 23
  • 24. ao materialismo e às riquezas na cidade grega, segundo Munford, deu origem às religiõesque exaltavam o espírito, em detrimento dos bens materiais. Foi uma revolta contra o nívelque atingira a civilização e sua sede por poder e riqueza. Mas se a beleza produzida emRoma juntava pobres e ricos, em Manaus a classe mais pobre não se apropriava dela, não avivenciava como sua, não se sentiam parte dela. Na concepção de cidade antiga, o uso dos espaços públicos e dos monumentosmerecia destaque. As plantas obedeciam o caminhar, o traçado natural, eram plantasorgânicas. Durante a Antigüidade Clássica, Idade Média e Renascença, havia umapreocupação artística em harmonizar prédios públicos, praças e monumentos. A cidade eraconstruída como uma obra, privilegiando o caminhar e o deliciar-se com fontes, esculturase monumentos. As ruas tortuosas possibilitavam o descobrir belezas. Havia umapreocupação estética, uma necessidade de beleza. A cidade barroca primou pela organização, e a avenida foi o fator principal. Passoua ser um lugar para reunir espectadores; estes contemplavam o que se passava à sua frentesem lhes pedir licença. Esse passar sem pedir licença era colocado em prática peloengenheiro militar italiano, que idealizava um plano para a cidade e o executava, ainda quepara isso tivesse que destruir habitações, monumentos, lojas, igrejas. É interessante notar asemelhança de funções entre o engenheiro militar barroco e o engenheiro militar do séculoXX. Eduardo Ribeiro era engenheiro militar e, inspirado nas mudanças promovidas pelobarão Haussmann, implementou modificações significativas no tecido urbano da cidade,abrindo avenidas e aterrando igarapés. Munford, critica a ação do barão, pois ao abriravenidas, abriu também feridas nas relações sociais e na história do lugar. Esse mesmopensamento pôs em prática o prefeito Jorge Teixeira, que em 1975, a fim dedescongestionar a cidade, abriu inúmeras avenidas e construiu pontes. Por outro lado,passou por cima de praças e monumentos do Centro Histórico da Cidade. Essa visão que presa pela geometria, pelo progresso, pela necessidade demodernidade, é chamada de planejamento progressista, é ele que rege as modificaçõesoperadas em Manaus. Em oposição a essa concepção de cidade, o século XIX tambémdiscute o urbanismo culturalista, que toma como modelo a cidade antiga. Camillo Sitte38, éconsiderado o iniciador do urbanismo culturalista, era arquiteto e historiador da arte.38 SITTE, Camillo. Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 24
  • 25. Defende os padrões da cidade antiga em detrimento aos da cidade moderna. Seu livro AConstrução das Cidades Segundo seus Princípios Artísticos, defende essa tese de modeloideal da cidade baseada na antiga concepção de organização urbana: espaços fechados,praças cercadas por prédios públicos e adornadas por esculturas. Quanto aos espaços abertos, a praça não desapareceu na cidade barroca, apenasganhou uma nova finalidade urbana. Até então não havia sido utilizada para finsresidenciais. No barroco, a praça servia para aglomerar pessoas do mesmo ofício e posição,ou melhor. As novas praças, na verdade, atendiam a uma nova necessidade da classe superior, ou melhor, a toda uma série de necessidades. Eram originariamente construídas para famílias aristocráticas ou de mercadores, com o mesmo padrão de vida, os mesmos hábitos. Se as fachadas uniformes da praça ocultavam diferenças de opinião política e fé religiosa, havia talvez, no século XVII, necessidade extra justamente deste tipo de arbítrio manto de classe, ocultar suas disparidades, rivalidades e inimizades emergentes: gente nobre mostrava uma frente comum de classe, que polidamente ocultava suas diferenças ideológicas e de partido. Aqueles que residiam numa praça tinham, por esse simples fato, alcançado uma distinção extra; e presumivelmente, poderia ter uma carruagem e cavalos... Os espaços abertos da praça não eram concebidos, na verdade, como lugares para caminhar e relaxar os músculos ao ar livre, como são usados hoje em dia; constituíam, antes, locais de estacionamentos para veículos... Aquelas praças abertas, ademais, podiam-se conduzir os convidados para uma grande festa, em carruagens, sem causar exagerado congestionamento.39 No século XVIII, as praças tornaram-se jardins comuns, sem a visível barreirasocial. Após três revoluções: inglesa, americana e francesa, que derrubaram o podercentralizado, o Estado pode tomar o poder de novo. O novo traçado urbano deveriafavorecer o poder do Estado, o que pode ser observado na construção de Washington, paraa qual foi chamado, segundo Munford, o francês Pierre – Charles L‟Efant. L’Efant acreditava, em suas próprias palavras, que o “modo de tomar posse de um distrito inteiro e melhorá-lo deve a princípio deixar à posteridade uma grande idéia do interesse patriótico que o promoveu”: assim, até mesmo suas praças deveriam ser transformadas em santuários com figuras esculpidas, “para39 MUNFORD, Lews. Op. cit. p. 429. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 25
  • 26. convidar a Juventude de gerações sucessivas a passar pelos caminhos daqueles sábios ou heróis que seu país julgava conveniente celebrar”.40 As praças e ruas de Manaus, à época da República, ganharam elementos(monumentos, nomes, esculturas), referentes a figuras importantes do momento político.Assim como em todo o Brasil, ganhou obras para celebrar a República. Da industrialização resulta a urbanização, o uso do espaço como mercadoria. Ondepredomina a troca pelas possibilidades de uso, embora toda mercadoria tenha seu valormonetário e de uso. A forma da cidade é modificada. As ruas tornam-se retas e largas e nãohá mais a preocupação com a harmonização de prédios, praças e monumentos. Inicia-se umperíodo de velocidade no olhar e no caminhar. Sobre esse caminhar na cidade moderna,James Hillman41 diz que: Caminhar hoje é principalmente um caminhar com os olhos. Não queremos labirintos, nem surpresas. Sacrificamos os pés pelos olhos. Cidades mais antigas quase sempre cresciam em torno dos rastros dos pés: trilhas, esquinas, caminhos, entroncamentos. Essas cidades seguiam os padrões inerentes aos pés, em vez de plantas desenhadas pelos olhos. Há grande nostalgia nas palavras de Camillo Sitte, apaixonado pela cidade-obra-de-arte, ao dizer que: As transformações em nossa vida pública foram tantas e tão irreparáveisque muitas das antigas formas de construção perderam seu sentido – e quanto a isso nadapodemos fazer42. E uma das grandes mudanças foi a nova concepção de praça. Sitte43estabelece a diferença entre as praças da cidade antiga e as praças da cidade moderna.Nestas, as obras, de caráter monumental para produzir efeito, são colocadas ao centro,ocupando assim todo o espaço; enquanto que naquelas, as obras eram dispostas ao longo dapraça, permitindo a colocação de várias obras e deixando o centro livre. Podemos visualizarestas definições com a Praça São Sebastião, com um único monumento ao centro e a PraçaHeliodoro Balbi, um jardim onde várias obras estão dispostas.40 Idem, p. 437.41 HILLMAN, James. Cidade e Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.42 SITTE, Camillo. A Construção das Cidades Segundo Seus Princípios Artísticos. São Paulo: Ática, 1992,p. 112.43 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 26
  • 27. Mas tudo isto são características da sociedade moderna pós Revolução Industrial,quando a cidade, antes obra, passou a ser considerada produto. Antes da industrialização, aestrutura da cidade correspondia a: centros de vida social e política, onde se acumulam nãoapenas as riquezas como também os conhecimentos, as técnicas e as obras (obras de arte,monumentos)44. Os investimentos aconteciam na cidade porque ela representava umpatrimônio, por isso eram construídas as obras de arte. Mas a cidade como obra, na visãodo período industrial, era muito dispendiosa e não oferecia vantagem econômica. Arealidade era outra, o capitalismo comercial e bancário tornou móvel a riqueza epossibilitou a transferência; e a cidade tornou-se produto. Nesse contexto, os núcleos urbanos transformaram-se para continuar existindo nacidade tomada pela indústria; os centros antigos então, passaram a desempenhar doispapéis: tornaram-se ao mesmo tempo lugar de consumo e consumo do lugar, tornaram-secentros de consumo. E quanto ao centro comercial, ressurgiu, mas apenas como lembrançado que foi a cidade antiga45. Este é o caso de Manaus e das suas praças que ganharam novafunção: lugar de consumo, sem perder a função de consumo do lugar.Arte urbana e espaço público A arte pública só se torna necessária quando tem uma função, quando é necessária para alguém. Claudia Büttner46 Na obra História da Arte como História da Cidade47, Giulio Carlo Argan, fala doespaço urbano como espaço de objetos. Estes objetos, por sua vez, constituirão equalificarão a imagem da cidade, sendo o monumento a auto-representação da cidade e desua história. Cita que: O que a produz [a obra de arte] é a necessidade, para quem vive eopera no espaço, de representar para si de uma forma autêntica ou distorcida a situaçãoespacial em que opera.4844 LEFEBVRE, Henry. O Direito à Cidade. São Paulo; Editora Moraes, 1991, p. 4.45 Idem, p. 12/13.46 BÜTTNER, Claudia. Projetos artísticos nos espaços não institucionais de hoje. In Cidade e Cultura:esfera pública e transformação urbana. Vera M. Pallamin (org). São Paulo: Estação Liberdade, 2002, p. 88.47 ARGAN, J. C. História da Arte como História da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1998. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 27
  • 28. Vera Pallamin49 também fala do significado da arte urbana e sua relação com oespaço público e a sociedade: Sendo partícipe na produção simbólica do espaço urbano, a arte urbana - compreendida no plano das relações sociais e não reduzida a uma sua dimensão estetizada - repercute as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem. Nesse registro específico de sua tematização, associa-se direta e indiretamente à natureza constituinte do espaço público, a questões de identidade social e urbana, de gênero e expressões culturais que possam ou não nele vir a ocorrer, às condições de cidadania e democracia. Em relação às representações sociais que a arte nos espaços públicos tem para asociedade, Vera complementa: Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Sendo um campo de indeterminação, a arte urbana adentra a camada das construções simbólicas dos espaços públicos urbanos, intervindo nos modos diferenciais da produção de seus valores de uso, sua validade ou legitimação, assim como de discursos e formas sedimentadas de representação cultural ali expostas. Pode criar situações de visibilidade e presença inéditas, apontar ausências notáveis no domínio público ou resistências às exclusões aí promovidas, desestabilizar expectativas e criar novas convivências, abrindo-se a uma miríade de motivações.50 As manifestações artísticas efetivadas em locais públicos da área urbana, dizemrespeito à sociedade que a manifesta e usufruiu. Certamente estão embutidas nela, o poder eas características peculiares do momento histórico. Hoje, especialmente, as formas de arteapresentadas em locais públicos precisam inserir a população, ou melhor, precisam darespaço para que as pessoas se sintam parte dessas obras, precisam dar-lhe oportunidade deinteragir. Cláudia Büttner comenta a respeito: Uma forma de arte a ser assimilada em público e que representa sobretudo o próprio cidadão no espaço público parece ser uma das funções mais importantes da arte pública numa democracia. Vivemos num tempo em que funções importantes do ambiente público, como, por exemplo, a de ver e ser visto, desapareceram das praças para serem49 PALLAMIN, Vera M. Arte urbana como prática crítica. In Cidade e Cultura. Op. cit, p. 106.50 Idem, p. 108. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 28
  • 29. substituídas - de modo insatisfatório - por aqueles quinze minutos de fama nos talk shows da TV a que, segundo Warshol, todos têm direito.51 Claudia acrescenta que por causa dessa necessidade, os artistas procuram inserir onome das pessoas nos espaços públicos, para que estas sintam atendidas as suasnecessidades de se destacarem no anonimato que as grandes cidades causam. E ainda que,representar os moradores e incentivar a comunicação entre as pessoas, deveriam ser osobjetivos da arte pública. Como possibilidade de comunicação, Claudia defende a função da arte comotransformadora da sociedade: ... é justamente a arte que oferece a possibilidade de dar forma aos processos de comunicação. Enquanto na sociedade não existir um consenso sobre conteúdo, tipo e função de monumentos, a falta de capacidade para o discurso político exigirá uma arte que se estenda como uma oportunidade de comunicação ou catalisadora de participação ativa e debate discursivo. A arte é uma linguagem altamente desenvolvida, que criou estratégias e processos diversos para transmitir conteúdos e atitudes. Já que ela foi capaz de explicar realidades complexas em séculos passados, poderia passar a ver hoje a sua missão mais nobre na tarefa de transformar indivíduos apolíticos e associais em cidadão comunicativos e responsáveis.52 Observando os espaços públicos do Centro de Manaus e suas obras, percebemos oinverso às tendências atuais da arte pública, mesmo porque há muito não se empreendeobjetos artísticos nos locais públicos. As obras encontradas dizem respeito a um outrotempo que não encontra significado para a maioria das pessoas porque estas desconhecemsua própria história. As transformações urbanas, tão inevitáveis, acabam por destruir asreferências que as pessoas tentam formar dos lugares. Sobre esse processo detransformação urbana que provoca incessante transformação na sociedade, Ana Fanicomenta: A vida das pessoas se modifica com a mesma rapidez com que se reproduz a cidade. O lugar da festa, do encontro quase desaparecem; o número de brincadeiras infantis nas ruas diminui - as crianças quase não são vistas; os51 BÜTTNER, Claudia. Op. cit, p. 85.52 Idem, p. 79. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 29
  • 30. pedaços da cidade são vendidos, no mercado, como mercadorias; árvores são destruídas, praças transformadas em concreto... Por outro lado, os habitantes parecem perderem na cidade suas próprias referências. A imagem de uma grande cidade hoje é tão mutante que se assemelha à de um grande guindaste, aliás, a presença maciça destes, das britadeiras, das betoneiras nos dão o limite do processo de transformação diária ao qual está submetida a cidade.53 A esse respeito, Nicolau Sevcenko fala que, no momento em que a sociedade atingeseu mais alto nível de tecnologia e crescimento econômico, enfrentamos uma crise devalores morais. E essa crise se dá pelo imediatismo reinante, ou seja, por uma "prática éticado presentismo", que valoriza apenas o "presente imediatamente definido", e esquece opassado.54 Sem a atenção ao passado, destrói-se os lugares e a vida reinante neles,comprometendo as referências das pessoas e a própria história e memória destes lugares.Essas transformações têm ainda outra razão de ser: ... o espaço da cidade é o instrumento ideal de exteriorização do poder. Aos governantes, não bastam marcos edificados, obeliscos de vitórias, edificações alusivas de suas gestões. Importa interferir na imagem da cidade, pois registram nela, indelével, a marca de sua perpetuidade.55 Essa marca hoje se faz com a interferência, por vezes inescrupulosa, nos lugarespúblicos e em suas obras. A retirada e colocação de objetos de um lugar para outro é umacaracterística não só da nossa cidade, mas da cidade que se moderniza e prima pelopresente imediato. A falta de cuidados com as obras e monumentos reflete o descuido coma história e a memória da cidade.53 CARLOS, Ana Fani A. A Cidade. São Paulo: Contexto, 2001, p. 19.54 SEVCENKO, Nicolau. O desafio das tecnologias à cultura democrática. In Cidade e Cultura. Op. cit., p.39.55 MARTINS, Luiza. Op. cit, p.189. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 30
  • 31. Capítulo 2 - Memória e PatrimônioMemória: conceitos e classificaçõesIntrodução aos conceitos de memória A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.56 No século XVIII, o Século das Luzes, a história declara independência da religião.Há uma necessidade de reescrever uma história racional, universal, sem os infortúnios dascrenças. Segundo Edgar Salvadori57: ... o campo da memória, entendido como o lugar da transmissão dos valores e das crenças, deveria ser investigado incansavelmente, por métodos adequados para que se pudesse extrair desse universo de erros e equívocos a própria verdade histórica. A memória torna-se objeto da história que a transforma em dicionários eenciclopédias. É a lógica do período, todo o conhecimento é disposto de forma ordenada;conhecer é classificar. Por isso, "o dicionário e a enciclopédia tornaram-se o conhecimentodo mundo por meio do uso do método racional".58 Mas esta iniciativa não é inovadora, as civilizações antigas, segundo Le Goff 59, apartir da escrita passaram a criar listas, glossários e tratados, para eles nomear tambémsignificava conhecer. E acrescenta que "A memorização pelo inventário, pela lista56 LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Fundação Editorada UNESP, 1998, p, 476.57 DECCA, Edgar Salvadori de. As desavenças da história com a memória. In: SILVA, Zélia Lopes da (Org.).Cultura Histórica em Debate. São Paulo: Editora Unesp, 1995.58 Idem.59 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1992, p. 435. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 31
  • 32. hierarquizada não é unicamente uma atividade nova de organização do saber, mas umaspecto da organização de um poder novo".60 A instalação desta “historiografia profana”, que se opunha aos mitos, lendas esuperstições, "comprometeu sensivelmente o campo da memória coletiva e também aspercepções sobre a memória e seu lugar no campo do conhecimento”61. “Com odesenvolvimento da escrita estas “memórias vivas” transformam-se em arquivistas.”62 O passado deveria ser sistematizado, para tanto, a memória no século XVIII, ... deveria ser objeto de uma nova definição, para que ela pudesse servir de fonte para a crítica racionalista e ao mesmo tempo ser reinventada como um novo lugar possível de acumulação e ampliação de conhecimentos. Não mais um lugar onde imperasse as superstições e as crenças religiosas, mas o espaço material de transmissão do conhecimento racional por meio de enciclopédias e dicionários e de organização documental sistemática pela constituição de arquivos do passado.63 No século XIX, diz Le Goff, levanta-se uma civilização da inscrição, valorizandomonumentos, placas comemorativas, ... o movimento científico, destinado a fornecer à memória coletiva das nações os monumentos de lembrança, acelera-se. Entre as manifestações importantes ou significativas da memória coletiva, encontra-se o aparecimento, no século XIX e no início do século XX, de dois fenômenos. O primeiro, em seguida a Primeira Guerra Mundial, é a construção de monumentos aos mortos. (...)64 O segundo é a fotografia, que revoluciona a memória: multiplica-a e democratiza-a, dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica.65 Em relação aos monumentos aos mortos, Françoise Choay66 os classifica de"comemorativos", e exemplifica com algumas "relíquias" das guerras transformadas em60 Idem, p. 436.61 DECCA, Edgar Salvadori de. Op. cit.62 LE GOFF, Jacques. Op. cit., p. 437.63 Idem.64 LE GOFF, op. cit., p. 464.65 Idem, p. 465 e 466.66 CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: editora UNESP, 2001,p.23/24. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 32
  • 33. monumentos. Os quais não precisam da mão do artista para edificá-lo e que, por seu carátertrágico e simbólico para a sociedade, produzem tanto efeito. No século XIX, Manaus passa por um grande processo de modernização eembelezamento das praças, com a importação de obras monumentais e artísticas, efeito dasrecentes transformações pelas quais passava a Europa. A lembrança deste período estápresente nos logradouros e prédios erguidos à essa época e são fontes constantes para aretomada da história da cidade nesse período. É o que Michael Pollak67 menciona comodispositivos da memória, pontos de referência para a memória coletiva, e o que PierreNora68 denominou de lugares de memória.Memória individual - Memória coletiva - Memória histórica Maurice Halbwachs69 escreveu depois da II Guerra Mundial, publicou seulivro sobre as memórias coletivas em 1950, no momento em que se começava a ternoção do papel do indivíduo; quando se constitui as ciências sociais e estastransformam a memória coletiva. Colaboram a sociologia, a psicologia social, aantropologia, aliados ao medo de uma perda de memória; é nesse período então,diz Le Goff, que a memória torna-se objeto da sociedade de consumo. Halbwachsdefiniu esses três conceitos de memória: memória individual, memória coletiva ememória histórica. Segundo ele, a memória individual precisa da coletiva, embora não se confundacom ela e o indivíduo participa dessas duas espécies de memória. Não está totalmentefechada, isolada, precisa emprestar palavras e idéias do seu meio. E como somos produtodo meio, a memória individual é construída a partir da memória coletiva. Halbwachstrabalha com duas categorias: tempo e lugar.67 POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Rio de Janeiro: Estudos históricos, vol. 2.1989.68 NORA, Pierre, op. cit.69 HALBWACHS, Maurice. Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 33
  • 34. Memória oficial Como memória oficial, compreende-se aquela registrada e ensinada nas escolas.Escrita por quem está no poder. Cristalizada nas denominações oficiais de ruas e praças ena construção de monumentos. Caracteriza-se também por criar heróis simbólicos, datas efestas comemorativas de interesse do Estado. Os monumentos analisados neste trabalho,dizem respeito à este tipo de iniciativa, são classificados como monumentoscomemorativos, implantados para a construção de uma memória histórica e coletiva. Memória subterrânea Quem trabalha o conceito de memória subterrânea é Michael Pollak70, no seu artigo“Memória, Esquecimento, Silêncio”, onde estabelece também o conceito de memória emdisputa: ... Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem à “memória oficial”, no caso a memória nacional. (...) essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa. Os objetos de pesquisa são escolhidos de preferência onde existe conflito e competição entre memórias concorrentes71. Ainda sobre a memória subterrânea, Pollak acrescenta: A fronteira entre o dizível e o indizível, o confessável e o inconfessável, separa, em nossos exemplos, uma memória coletiva subterrânea da sociedade civil dominada ou de grupos específicos, de uma memória coletiva organizada que resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor.7270 POLLAK, Michael, op. cit.71 Idem, p. 4.72 Idem, p. 8. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 34
  • 35. A cidade de Manaus, hoje se depara com a imersão em alguns pontos, de elementosque estão trazendo à tona a memória subterrânea. São os artefatos indígenas que estãosendo encontrados e que revelam uma cidade subterrânea com história e memória diferenteda cidade construída. A cidade construída no período da borracha, visava passar umaimagem de modernidade por uma necessidade de fazer parte do mundo moderno,enterrando e escondendo qualquer resquício de atraso, representado não só pela culturaindígena, mas por vários grupos que foram excluídos. Essa visão surge hoje, com algunstrabalhos acadêmicos que colocam em disputa essa memória da cidade moderna com amemória subterrânea, vivida por essa sociedade esquecida. A análise que se pretende comeste trabalho, busca localizar entre essas memórias, a importância dos monumentosconstruídos, como reflexo da modernização, da necessidade de construir uma memóriacoletiva, de guardar datas, mas também de materializar momentos históricos importantespara a cidade. Porque, como afirma Pierre Nora73, as memórias não são espontâneas, énecessário que se mantenham os "lugares de memória" e esses monumentos incorporamessa função. Outro fator importante, é o de que não há um passado uníssono, bem como nãoexistem lugares sem conflito, daí surgem as memórias em disputa. Logo, cada monumentoanalisado, cada espaço da cidade guarda diferentes memórias e histórias.O lugar como cristalização da memória Pierre Nora74 discute a questão dos lugares como cristalização da memória e sualocalização entre a memória e a história. Declara o fim das sociedades–memória, dasideologias-memória e por isso a necessidade desses lugares de memória. Esse estudo doslugares, segundo ele, está entre dois movimentos, um estritamente historiográfico e outrohistórico, que declara o fim da memória. Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma memória refugiada sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada mais faz do73 NORA, Pierre, op. cit.74 Idem. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 35
  • 36. que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória. Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria. São bastões sobre os quais se escora. Mas se o que eles defendem não estivesse ameaçado, não se teria, tampouco, a necessidade de construí-los. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É este vai-e-vem que os constitui: momentos de história arrancados do movimento da história, mas que lhe são devolvidos. Não mais inteiramente a vida, nem mais inteiramente a morte, como as conchas na praia quando o mar se retira da memória viva.75 Além dos monumentos, objeto desta pesquisa, algumas construções do entorno daPraça Dom Pedro II, constituem lugares de memória, como o Palácio Rio Branco, o prédioda antiga Prefeitura, o Arquivo Público e o Hotel Cassina. Valem aqui algumas reflexõessobre eles. O Palácio Rio Branco, também conhecido como “prédio da AssembléiaLegislativa”, de acordo com Wanderley Martins76, teve sua construção iniciada em 1905,mas as obras passaram longo período paralisadas, retornando apenas em 1934. O prédio foiinaugurado em 7 de setembro de 1938. Em 1993 sofreu reforma. É um ícone daarquitetura da belle époque, um símbolo do poder do Estado, principalmente pelo seu uso, aAssembléia Legislativa. Atualmente no seu hall de entrada, funciona um museu. À suaentrada fica um guarda que orienta quem procura os parlamentares e apresenta asexposições. Como toda a praça está fechada para reforma, eventualmente este prédio podesofrer algumas interferências, além das adaptações feitas em sua estrutura. Quanto ao prédio da antiga Prefeitura, Conhecido como “Paço Municipal”, seu verdadeiro nome é “Paço da Liberdade”, sua construção foi iniciada em 1874. Em 1879 ele passa a abrigar a sede do Governo Provincial e, posteriormente, com a Proclamação da República, passa a ser utilizado como Administração do Governo Republicano. Novamente, em 1917, começa a sediar o Governo Municipal, quando o Governo do Estado instala- se no Palácio Rio Negro.77 Sobre ele Leandro Tocantins escreveu:75 Idem, p. 13.76 SANTOS, Wanderley Martins dos. AMAZONAS. Assembléia Legislativa. Sinopse Histórica: 1852-1994. Manaus: Imprensa Oficial, 1994.77 CAMINHANDO por Manaus. P. 61. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 36
  • 37. E se há referência a formas gregas, é justo logo salientar o prédio da Prefeitura Municipal, antigo palácio dos Presidentes de província, na Praça Pedro II, construído dentro das linhas do neoclassicismo brasileiro de Grandjean de Montigny. Seu tranqüilo pórtico de colunas gregas e frontão reto empresta-lhe majestade imperial. É o mais harmonioso edifício da capital. 78 “O mais harmonioso edifício da capital”, encontra-se há um ano, desativado ecercado por compensados com a intenção de deter a ação de vândalos, o que, segundo aspessoas na praça, não acontece. O prédio que é o mais antigo da cidade e que foi erguidodurante o período imperial para servir ao Presidente da Província, está abandonado, aguardareforma e nova adaptação que o tornará um museu, possivelmente. No canto da praça, vê-se a estrutura em ruínas do antigo Hotel Cassina, De propriedade do comerciante italiano Andréa Cassina, foi construído em 1899 e durante anos foi hotel de 1º classe, que hospedava ricos comerciantes e atores teatrais famosos, de passagem por Manaus, vindos do sul do país ou do exterior. (...) A Prefeitura de Manaus planeja restaurá-lo para devolvê-lo à comunidade em toda a sua beleza do início do século, mas pertence ainda, a uma família local. A história do Amazonas da época da borracha está muito ligada ao jogo e ao Hotel Cassina, (...) Com a crise dos anos 20 e 30 e o conseqüente empobrecimento das populações o hotel pouco-a-pouco transformou-se em pensão e cabaré. Havia dança no térreo e jogo no 1º andar. Nos anos 40 decai mais ainda tornando-se lugar de prostituição e encerra as suas atividades nos anos 50. Desde então abandonado, hoje ainda é conhecido como Cabaré Chinelo, em decorrência da decadência que caracterizou seus últimos anos de boêmia.79 Este prédio representa hoje, um retrato vivo da decadência da borracha. Mas está depé, na sua função de lugar de memória, como a "imortalizar a morte". O prédio onde fica localizado o Arquivo Público, já é um lugar de memória pela suaidealização, além do seu significado histórico e arquitetônico: ... o prédio onde funciona o Arquivo Público do Estado do Amazonas, [foi] criado em 1852 e regulamentado em 1897, que possui vasto acervo, inclusive com manuscritos da época da Província, e documentos oriundos da administração78 TOCANTINS, Leandro. O rio comanda a vida. Manaus: Editora Valer/Edições Governo do Estado, 2000,p. 229.79 CAMINHANDO por Manaus, p. 59, 60, 61. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 37
  • 38. pública estadual. A edificação perdeu sua originalidade em decorrência das muitas transformações sofridas.80 Esse significado se torna maior pelos documentos que guarda. É uma casa damemória, como falou a professora Socorro Jatobá, em uma palestra intitulada “O museu: acasa da memória”, proferida no Museu Amazônico, no dia 5 de fevereiro de 2002. Naocasião ela explicou que o museu foi criado na Antigüidade por Ptolomeu II, emhomenagem ao personagem mítico Orfeu, que prestava serviço às musas. Era um espaçopara reflexão, nele se reuniam pessoas para falar sobre arte, ler poemas. E essa iniciativadurou quase 7 séculos. Lembrou que os antigos não tinham as noções de acervo,patrimônio, obras de arte que temos hoje. Falou da importância do museu hoje, em quevivemos uma supervalorização do presente. O museu realizaria, através de seus objetos, umexercício de memória; seria uma força de resistência à manipulação da memória. O museuteria o papel de educar o olhar. Além dos museus seriam casas de memória os arquivos,bibliotecas, galerias de arte. No Arquivo Público da praça Pedro II estão guardados registros antigos da históriada cidade. Alguns ainda podem ser consultados, outros não. Quem precisar ir ao Arquivovai se surpreender com as condições do lugar e de seu acervo. Há apenas uma bibliotecáriaque é a Diretora; poucos documentos estão organizados em ordem cronológica; não há arcondicionado, apenas um ventilador na sala do acervo; no espaço destinado a consultas,cadeiras sem estofamento, uma mesa e as janelas abertas para iluminar o ambiente pois aslâmpadas estão queimadas. Os próprios funcionários parecem não saber do valor queaquele ambiente e as obras que ali se encontram, tem para a história e a memória da cidade. Em relação a guardar a memória em arquivos, fato preponderante em nosso século,Pierre Nora comenta: Menos a memória é vivida no interior, mais ela tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através delas. Daí a obsessão pelo arquivo que marca o contemporâneo e que afeta, ao mesmo tempo, a preservação integral de todo o presente e a preservação integral de todo o passado.81 (...)80 CAMINHANDO por Manaus. p. 61.81 NORA, Pierre, op. cit. p. 14. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 38
  • 39. A lembrança é passado completo em sua reconstituição a mais minuciosa. É uma memória registradora, que delega ao arquivo o cuidado de se lembrar por ela e desacelera os sinais onde ela se deposita, como a serpente sua pele morta. (...) O que nós chamamos de memória e, de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar, repertório insondável daquilo que poderíamos ter necessidade de nos lembrar. (...) À medida em que desaparece a memória tradicional, nós nos sentimos obrigados a acumular religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis do que foi, como se esse dossiê cada vez mais prolífero devesse se tornar prova em não se sabe que tribunal da história. (...) Assim, a materialização da memória, em poucos anos, dilatou-se prodigiosamente, desacelerou-se, descentralizou-se, democratizou-se.82 Esse processo é causado pelo efeito globalização, pelos meios de comunicação quelançam muitas informações com pouco tempo para assimilá-las, então para não esquecer énecessário registrar, guardar em arquivos. No Globo Repórter, exibido pela Rede Globo em22 de março de 2002, uma psicóloga comenta a “curta memória” dos jovens, ao estudar osmecanismos pelos quais os mais velhos conseguiram guardar informações históricas elembrar de personalidades e datas marcantes da história do mundo e da história do Brasil.Para ela, na época lembrada pelos idosos, não havia tanta informação para ser assimilada ehavia tempo para esse processo de fixação; enquanto que hoje, tudo acontece muito rápido,a realidade é on line, a mente não está preparada para memorizar tantos dados. Outro dado importante é que não se tem a necessidade de armazenar estes dados namemória, pois eles estão escritos nos jornais, transmitidos na televisão, saem em revistas,são publicados em livros, podem ser arquivados no computador, em disquetes. A memóriaestá à mão, sempre. É o que diz Nora: “Produzir arquivo, é o imperativo da época.”83Françoise Choay84, refere-se às novas formas de memória citando Victor Hugo, que previua morte do monumento depois da invenção da imprensa. Ela diz: Sua intuição visionária foi confirmada pela criação e pelo aperfeiçoamento de novas formas de conservação do passado: memória das técnicas de gravação da imagem e do som, que aprisionam e restituem o passado sob uma forma mais concreta, porque se dirigem diretamente aos sentidos e à82 Idem, p. 15.83 Idem, p. 16.84 CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: editora UNESP, 2001,p.21. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 39
  • 40. sensibilidade, "memórias" dos sistemas eletrônicos mais abstratos e incorpóreos. As imagens são meios de transmissão da memória social, são usadas para construire ajudar a reter e transmitir memórias. Estão diretamente relacionadas ao poder,principalmente os monumentos públicos. A esse respeito, Peter Burke85 diz que: Historiadores dos séculos XIX e XX, em particular, vêm dedicando um interesse cada vez maior aos monumentos públicos nos últimos anos, precisamente porque esses monumentos ao mesmo tempo expressavam e formavam a memória nacional. Em relação às obras artísticas existentes nas praças de Manaus, é notório que agrande maioria foi importada e pertencem a um período característico da história da cidadee das modernas concepções de cidade e espaço público. São ícones da memória nacional,pois existem obras semelhantes às nossas em outros estados brasileiros. Tambémrepresentam, como atestam alguns historiadores, uma imposição, um recurso para umaespécie de branqueamento da população, para que esta esquecesse sua identidade indígena.O prof. Otoni Mesquita86, analisando a arquitetura de Manaus da belle époque, diz que: Todo processo de mudanças, com suas obras públicas, a introdução de novos costumes e a adoção de modernos serviços públicos podem ser simbolicamente compreendidos como um “rito de passagem” do processo de branqueamento através do qual a cultura local despia-se das tradições de origem indígena e vestia-se com características ocidentais. A prof. Bernardete Andrade, em palestra proferida na UA, em janeiro deste ano,apresentou sua tese de mestrado que trata da memória indígena, ou melhor, da inexistênciade uma memória indígena em Manaus. Falou que a presença indígena em nossa cidadeencontra-se no subterrâneo, nos achados arqueológicos, que a paisagem da cidade não falados índios. A professora busca a memória soterrada embaixo da cidade e das obraseuropéias, busca a memória subterrânea a que se refere Michael Pollak.8785 BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p. 75.86 MESQUITA, Otoni. Manaus: história e arquitetura (1852-1910). Manaus: Editora Valer, 1999, p. 147.87 Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 40
  • 41. Realmente apresentamos uma recusa em nos identificarmos com os índios, nenhumapraça tem nome indígena, não há esculturas de índios ou mesmo do caboclo seringueirodecorando os logradouros públicos. Estas imagens estão dispostas em museus e casas deartesanato onde a maioria da população que visita, é estrangeira. Neste sentido, as obras colocadas pelo poder público, refletem a imposição damemória oficial sobre a memória coletiva e individual, o que acabou por gerar esta nossamemória subterrânea, a que se refere a professora Bernardete. E o patrimônio construído naárea do Centro Histórico reflete esse processo de modernização que foi vivenciado pormuitas cidades em vários países, na passagem do século XIX para o século XX.PatrimônioConceitos e significados Jacques Le Goff88 chama o século XIX de “século patrimonial”, pela preocupaçãosistematizada com o futuro das cidades. Isto porque no período barroco (século XVI), ascoleções existentes eram de propriedade dos reis, estavam na moda e significavam poder.Posteriormente esses acervos passam a constituir os museus nacionais e tornam-seacessíveis a todos. Mas, a partir de 1830, coube ao Estado a responsabilidade de identificar,reconhecer e registrar os objetos que constituem patrimônio. Com isso, o Estado obtevegrande poder de manipulação simbólica e criou seus monumentos e os colocou em locaispúblicos. Porque a visibilidade do objeto no espaço público, potencializa sua forçasimbólica. Isto foi um fator de importância para a instauração de um novo regime político,a República. E em Manaus nós temos os nossos monumentos que exaltam o idealrepublicano. No século XX, na década de 1970, começou-se a questionar as finalidades dopatrimônio histórico e discutir o conceito de patrimônio aliado ao de memória: preservaçãoda produção material como preservação da memória das sociedades. O patrimônio históricocomo fator de continuidade histórica, identidade e segurança para as sociedades88 LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: Fundação Editorada UNESP, 1998. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 41
  • 42. contemporâneas. Porque vivenciamos a cultura da eletrônica, que criou uma nova dimensãode espaço e de tempo, tão rápida que não conseguimos assimilar as informações e nosadaptarmos às novas situações. Com essa universalização, torna-se ainda mais necessária areferência, o direito à memória, à diferença, à cidadania. E a fragmentação dos espaçospúblicos e a destruição e alteração de suas obras, nos privam desse sentimento de pertença ecausam estranhamento, o que contribui para a neurose coletiva, que por sua vez vai seexprimir em atos de vandalismo e depredações contra esses mesmos lugares e obras. Carlos A. C. Lemos89, em seu livro O que é Patrimônio Histórico, fazesclarecimentos gerais sobre o tema. Segundo ele, o que se chama hoje de PatrimônioArtístico é uma parte do Patrimônio Cultural. O autor enfoca que o professor francêsHugues de Varine-Boham (acessor internacional da UNESCO), trouxe essa discussão deforma mais abrangente. Dividiu o Patrimônio Cultural em três categorias:1. Elementos pertencentes à natureza, ao meio ambiente;2. Conhecimento, técnicas, elementos do saber;3. Bens culturais, os artefatos. Carlos Lemos ressalta que a preocupação em preservar bens no Brasil é nova. Mashouve uma iniciativa isolada e sem conseqüências em 1742, por parte do Conde deGalveias, ao escrever ao governador de Pernambuco, Luís Pereira Freire de Andrade, queresguardasse uma construção do período do Conde de Nassau. Depois desse acontecimento, o debate só vai ser retomado na década de 20, e apartir daí, reconstrói a trajetória da proteção ao Patrimônio no Brasil. Na década de 20houve um projeto de Lei que visava a proteção do Patrimônio de partes de construções quepudessem ser retiradas e servir a outras, um fato comum naquele período. Em 1923, odeputado Luiz Cedro, apresentava um projeto de preservação do Patrimônio, que sugeria acriação de uma "Inspetoria dos Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil, parao fim de conservar os imóveis públicos ou particulares, que no ponto de vista da história ouda arte revistam um interesse nacional." Uma lei de janeiro de 1937, reorganizou o Ministério da Educação, chefiado porGustavo Capanema, criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. ODecreto-lei n º 25, de 30 de novembro, definiu o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional89 LEMOS, Carlos A. C. O que é Patrimônio Histórico. São Paulo: Brasiliense, 1982. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 42
  • 43. como "o conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja deinteresse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história da Brasil, querpor seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico"90. A instituição do SPHAN, segundo Déa Fenelon91, foi um ato autoritário paraestabelecer uma identidade nacional. Posto que mesmo com as pesquisas feitas no interiordo país, as experiências e os valores dos diversos segmentos da população não foramlevados em conta. E elegeu-se um grupo de elementos que simbolizasse a cultura brasileirade forma unificadora e autoritária. No entanto, sempre é preciso reconhecer e afirmar o significado deste patrimônio que o SPHAN e outros órgãos do patrimônio histórico conseguiram preservar ao identificar, restaurar e conservar bens culturais de inegável valor histórico e artístico - sobretudo o legado barroco, como testemunho das condições da presença portuguesa ao longo dos séculos de colonização. O que se quer destaca, entretanto, é a política cultural que orientou esta preservação: ao tentar apresentar somente estes registros e acervos, carregando nas tintas do seu significado como fator de unidade nacional, atuou como fator de solvência das contradições reais e retirou da memória o significado de luta social que ela possui. A preocupação em consagrar um patrimônio que acentuava apenas a presença do Estado, das instituições estabelecidas e classes sociais dirigentes, apagou marcas importantes do cotidiano e da experiência social vivenciada por grandes contingentes da população, alijada da reflexão para constituir-se em cultura.92 Podemos também dizer que a instituição do SPHAN trata-se do discurso criado peloEstado em relação ao patrimônio. Pois segundo Reginaldo Gonçalves93, "Os "patrimôniosculturais" são constituídos concomitantemente à formação dos Estados nacionais, quefazem uso dessas narrativas para construir memórias, tradições e identidades". Em relaçãoao uso dos bens culturais e sua função "civilizadora", Reginaldo acrescenta: "os cidadãosdevem ser educados, civilizados, e, nesse processo, o patrimônio (definido em termosmonumentais) tem um papel crucial, na medida em que é por seu intermédio que osindivíduos entram em contato com a nação e sua "tradição".90 LEMOS, Carlos. Op. cit., p. 43.91 FENELON, Déa Ribeiro. Políticas Culturais e o Patrimônio Histórico. In O Direito à Memória:Patrimônio Histórico e Cidadania. São Paulo: DPH, 1992.92 FENELON, Déa. Op. cit., p. 30.93 GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Monumentalidade e cotidiano: os patrimônios culturais comogênero de discurso. In Cidade: história e desafios. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 43
  • 44. Até a década de 60 procurou-se vincular em todo o Brasil, uma imagem querepresentaria a nação. Os modernistas que estavam empenhados em "construir uma feiçãobrasileira para marcar uma civilização nacional" encontraram nos centros históricos deMinas Geras, o "abrasileiramento" da cultura européia. Adotou-se como modelo para aseleção e valorização do patrimônio a arquitetura colonial. Nesse sentido: O investimento maior do Iphan nos centros históricos se dava no controle das fachadas do casario, mantendo-se o cenário colonial como valor patrimonial unicamente por suas características estilísticas. Tratava-se do critério "fachadista", cujo valor de patrimônio era atribuído a partir de seus elementos visuais de comunicação mais mediata. Envolvendo trabalhos nas fachadas, a instalação de focos de iluminação nos monumentos e a demolição de prédios novos ou "feios", e incentivando o uso comercial ligado ao turismo, apropriam-se dos sítios urbanos como matéria-prima para a construção da imagem, preparando-os para o consumo ou como cenários de atração para o consumo. 94 Semelhante política se aplica em Manaus, com os projetos de restauração de parteda arquitetura antiga do Centro e a nova função de alguns prédios. Essas propostas quevisam a apropriação do patrimônio para o consumo: ... desconsideram os sítios como referências de uma população heterogênea e diversificada, capaz de reconhecer neles elementos de sua história e identidade, seja como parte da nação, da cidade, como lugar de sua vivência afetiva ou como participante da construção do local. São projetos que se utilizam do patrimônio sem, no entanto, contribuir para sua transformação em fonte de conhecimento, referência da história, da memória e da identidade, fundamentais ao exercício da cidadania.95 Com a apropriação do patrimônio para o consumo, exclui-se parte da população deseu convívio, pois à apenas uma parcela da sociedade é possível o acesso aos benspatrimoniais através das viagens, negado principalmente pela dificuldade nos transportes.Contudo, o IPHAN propõe mudanças: Finalmente, as mudanças adotadas pelo IPHAN partir dos anos 80 irão incorporar outros elementos, sobretudo os bens de origem popular, os seus fazeres e, bem mais recentemente, o patrimônio imaterial, como as festas, as danças, as94 MOTTA, Lia. Cidades mineiras e o IPHAN. In Cidade: história e desafios. Rio de Janeiro: Editora FGV,2002.95 Idem, p. 137. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 44
  • 45. procissões, a gastronomia, etc. de alguma forma quebrou-se a hegemonia do patrimônio de "pedra e cal" e da presença exclusiva de arquitetos para a definição dos bens patrimoniais.96 A legislação e a prática em relação aos bens patrimoniais, o que considerar comopatrimônio e como preservar são discussões que permeiam vários segmentos da sociedade.Trata-se hoje de um debate do qual participam diversos setores e profissionais,transformou-se em uma questão multidisciplinar e complexa. Versa-se sobre questõessimbólicas, valor histórico e artístico, valor afetivo, diferentes memórias e grupos sociais,busca-se soluções diferenciadas para diferentes bens patrimoniais. Cada caso precisa sertratado cuidadosamente, pois existe uma teia de complicações em jogo. Certa ocasião, contemplando o Teatro Amazonas, em Manaus, me interroguei se os índios, em Manaus, gostariam dele. Eles deveriam pensar, talvez: "Nossos antepassados foram escravizados para construir esse delírio do homem branco, que decidiu levantar uma cidade no meio da mata e, ainda, construir um teatro ali, para se deleitar com espetáculos de ópera que nada tinham a ver com a nossa cultura. O que esse teatro pode representar como memória de nosso povo? Que relação podem os índios, portanto, ter com o Teatro Amazonas? Uma relação atávica de negação ou desprezo, ou de alheamento, eu imagino. Portanto, é muito difícil estabelecer o que é ou não significativo para a memória de diferentes segmentos humanos, principalmente nas grandes cidades, carregadas de heterogeneidade.97 Em Manaus não se tem definida uma política de preservação e conservação do querepresente o patrimônio histórico e artístico da cidade. Os projetos de restauração recaemhoje sobre a arquitetura construída na belle époque e sobre as praças do Centro Histórico deManaus, embora haja uma legislação municipal referente ao patrimônio, tombamento,conservação e proteção. A Lei Orgânica do Município de Manaus, prevê a proteção dos bens que constituemo patrimônio municipal. Observemos o que diz a Lei n.º 2044 de 18 de outubro de 1989,publicada no Diário Oficial, no dia 30 de outubro de 1989, na administração de ArthurVirgílio Neto:96 CAMARGO, Haroldo L. Patrimônio Histórico e Cultural. São Paulo: Aleph, 2002, p. 91/92.97 PINHEIRO, Augusto I. F. Aprendendo com o patrimônio. In Cidade: história e desafios. Rio de Janeiro:Editora FGV, 2002, p. 154. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 45
  • 46. LEI N.º 2044 DE 18 DE OUTUBRO DE 1989 DISPÕE sobre a proteção do patrimônio histórico, artístico, paisagístico e cultural do Município de Manaus e da outras providências. Art. 1º - Constituem patrimônio histórico, artístico, paisagístico e cultural do Município de Manaus, a partir do respectivo tombamento, na forma desta Lei, os bens públicos e particulares situados no território municipal, na forma abaixo: I – construções e obras de arte de notável qualidade estética ou particularmente representativas de determinada época ou estilo; II – prédios, monumentos e documentos intimamente ligados a fato memorável da história local ou a pessoa de excepcional notoriedade; III – monumentos naturais, praças, sítios e paisagens, inclusive os agenciados pela indústria humana, que possuam especial atrativo ou sirvam de “habitat” a espécimes interessantes da flora ou da fauna local; Art. 3º - Os bens que integrem o inciso I e o inciso III do artigo 1º só poderão ser objeto de tombamento após 10 (dez) anos de existência. Art. 4º - Far-se-á o tombamento pela inscrição do bem no livro próprio com a inteira discriminação das suas características de modo que seja individualizado. Parágrafo segundo – A inscrição em livro de Tombo será determinada em despacho expresso do Secretário Municipal de Cultura. Art. 5º - A proposta de tombamento será apresentada pelo Secretário Municipal de Cultura em processo dirigido ao Prefeito Municipal ao qual compete por via de Decreto, tombar o bem, mandando inscrevê-lo em livro próprio, conforme a sua especificidade. Art. 6º - Sem prejuízo de ato municipal, ainda que cumulativo, serão os bens tombados como patrimônio federal ou estadual, situados no território do Município de Manaus, inscritos no respectivo livro, mediante despacho do Secretário Municipal de Cultura. Art. 11 – Verificada a necessidade de obras de conservação e restauração do bem tombado, a Secretaria Municipal de cultura notificará o proprietário ou possuidor a efetivá-las em prazo razoável, ou de 180 dias; se o proprietário não o fizer, poderá o município realizá-las, cobrando depois o custo respectivo. Art. 13 – Os bens tombados ou qualquer de seus componentes não poderão ser demolidos, nem modificados, restaurados, pintados ou removidos, sem prévia autorização expressa da Secretaria Municipal de Cultura, e nos termos em que ela for concedida. Art. 14 – Igual autorização será exigida para qualquer ato que altere a aparência do bem.Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 46
  • 47. Art. 15 – Sem autorização expressa não se afixará placas, letreiros, anúncios ou cartazes de qualquer natureza no bem tombado, nem se instalará atividade comercial ou industrial. Observa-se que a Lei determina proteção a partir do tombamento para os bens commais de 10 anos de existência e também prevê sua conservação e restauração, bem comodispõe de punições para quem atentar contra a aparência do bem tombado. A Secretaria deCultura deveria cuidar da fiscalização e do cumprimento desta Lei. Por que não o faz? APrefeitura deveria cuidar da conservação e preservação dos bens tombados. Por que aspraças encontram-se abandonadas e as obras alteradas em reformas constantes? Em 1990, o Decreto n.º 6.978, de 26 de Março, publicado em Diário Oficial em 5 deabril do mesmo ano, regulamenta a Lei acima citada e complementa as orientações sobre oprocesso de tombamento. DECRETO N.º 6.978 DE 26 DE MARÇO DE 1990 REGULAMENTA a Lei n.º 2.044, de 18 de outubro de 1989, que “DISPÕE sobre a proteção do patrimônio histórico, artístico, paisagístico e cultural do Município de Manaus e dá outras providências. Art. 1º - O tombamento, de que trata a lei n.º 2.044/89, será proposto pela autoridade competente, ao Prefeito Municipal a quem cabe, através de Decreto, tombar o bem, ordenando que o mesmo seja inscrito em livro próprio. Art. 2º - Depois de publicado o Decreto no Diário Oficial, a autoridade competente, através de despacho fundamentado em autos do processo de tombamento, ordenará a inscrição imediata do bem no livro respectivo para que o tombamento possa produzir todos os seus efeitos legais. Art. 3º - Para cada espécie de bem tombado, haverá um livro respectivo, observando-se o disposto nos incisos I a VI do artigo 1º , da Lei n.º 2.044/89. Art. 4º - Nos livros de tombo, o bem, conforme sua espécie, será identificado pela sua exata localização e pela área construída total. Parágrafo Único – Constarão ainda do registro de tombamento, o estado de conservação em que se encontrava o bem quando da inscrição do livro, a data do tombamento, a data da conclusão da construção do bem tombado, exceto nos casos de monumentos naturais e paisagens, o motivo do tombamento, de acordo com o Decreto que o ordenou. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 47
  • 48. Durante as pesquisas, não foram localizados os livros de Tombo a que se referem oDecreto e a Lei acima citados. A Secretaria de Cultura não forneceu uma relação completados bens tombados ou dos registros devidos em livro de Tombo. Se estes livros existem,onde estão? Na prática, de quem é a responsabilidade de efetuar o tombamento? Pois amaioria das obras escultóricas presentes nas praças, já ultrapassaram os dez anos deexistência. Em Diário Oficial, foram localizados os Decretos que efetuam o tombamento dealguns imóveis do Centro Histórico, mas as obras das praças não têm tratamento individual.Na verdade não há, de forma sistematizada, uma relação completa com as esculturas,monumentos e obras artísticas encontradas nas praças do Centro Histórico, a relação maiscompleta que se tem data de 192298 e nela constam apenas algumas praças. Talvez porqueestas obras façam parte do Centro Antigo, também chamado de Centro Histórico, que foitombado como um todo, de acordo com a Lei Orgânica, como se observa na Subseção II –Do Patrimônio Cultural, Art. 342: Art. 342 – Fica tombado, para fins de proteção, acautelamento e programação especial, a partir da data da promulgação desta Lei, o Centro Antigo da cidade, compreendido entre a Rua Leonardo Malcher e a orla fluvial, limitado esse espaço, à direita, pelo igarapé de São Raimundo e, à esquerda, pelo igarapé de Educandos, tendo como referência a Ponte Benjamim Constant. Partindo-se desta informação, já que toda a área do Centro Histórico foi tombada, as obras nãodeveriam receber os cuidados previstos em Lei? Por que isto ainda não acontece? Será que, na verdade,estas leis têm apenas autoridade de veto e, não se tem definida uma política de preservação econservação destes bens? Por que as reformas no traçado urbano alteram diretamente as peças e asestruturas das praças quando, por estarem tombadas, as praças deveriam receber um tratamento maiscauteloso?Centro Histórico de Manaus Compreendido entre a rua Leonardo Malcher, a avenida Joaquim Nabuco e a orlafluvial, o Centro Histórico de Manaus, também denominado Centro Antigo trata-se dotecido urbano originário da cidade. Está protegido pela Lei Orgânica do Município, embora98 Relatório apresentado à Intendência Municipal de Manáos, em sessão de 1º de outubro de 1922 – peloSuperintendente Dr. Basílio Torreão Franco de Sá. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 48
  • 49. esta proteção não seja exercida pelo poder público e as referências arquitetônicas dos váriosperíodos da história da cidade estejam desaparecendo ou recebendo modificações queatentam contra a sua forma e função. Quanto ao traçado das praças, estes mudam a cadaadministração, ganhando calçamento, palmeiras, pinturas, gradeamento, mudando-se delugar seus objetos ou mesmo substituindo-os. Esta área é um marco da cultura visual da cidade e guarda valiosos lugares dememória, importantes para a retomada e a interpretação das várias fases da história dacidade. Uma história que se cristaliza em cada prédio, fachada alterada, praça remodelada,escultura substituída, monumento deslocado. Além da questão do patrimônio construídoespecialmente no Centro Histórico, as muitas adaptações deste espaço o tornaram tambémum centro comercial, e a partir daí a conservação em meio a necessidade do novoreivindicada pelo comércio, dificulta a execução e propostas de projetos de conservação. Os Centro Históricos são, em síntese, lugares de vida e trabalho, espaços de atividades produtivas e de serviços vinculados a outros bairros da cidade e da região. São também, áreas culturais, nas quais se concentram a maioria dos melhores exemplos arquitetônicos e dos espaços urbanos da cidade herdados do passado, importantes testemunhos da sua história social e econômica.99 Jorge Hardoy100 é taxativo ao afirmar que a maior concentração de cortiços epensões em cada cidade encontra-se nos Centros Históricos e nos bairros que orodeiam.101 Em Manaus é muito fácil constatar esta afirmativa, pois o Centro é cercado pela periferia. Esta realidade acontece desde a construção do projeto urbanístico durante o período da borracha, quando para se definir a cidade moderna, o perímetro urbano do centro foi se modelando tendo como limites uma área bem mais pobre e pouco cuidada, compreendida pela parte da sociedade que era lançada às margens da modernidade. Devido a proximidade para o trabalho, as pessoas insistem em morar nas proximidades do Centro, ainda que em condições precárias. Hardoy também complementa dizendo que a conservação e recuperação do patrimônio urbano edificado, deveriam ser complementos da reabilitação de vilas miseráveis que são a primeira prioridade.102 Mas a cada governo mudam-se interesses e projetos e muita coisa fica inacabada ou nem chega a começar. A “passagem” entre um período histórico e outro não se resolveu, em nossos tempos, no âmbito da cidade.10399 HARDOY, Jorged. A Cidade Latino-Americana: a vigência dos centros históricos. IN Revista doPatrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nº 21. Ano 1986. P, 130.100 Idem.101 HARDOY, Jorge. Op. cit. p. 132.102 Idem.103 CAMPELLO, Glauco. Patrimônio e cidade, cidade e patrimônio. In Revista do Patrimônio Histórico eArtístico Nacional. Ano. 1994. P. 118. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 49
  • 50. A questão é como ligar o novo ao antigo e retomar um processo de continuidade.104 Percebe-se claramente a preocupação manifestada por Glauco Campello quanto arelação do antigo com o novo. Em nossa cidade, como em tantas outras, as administraçõesperpetuam a falta de solução para este problema. Enquanto isso, as obras vão se perdendoem intervenções inadequadas, fruto desta falta de planejamento definido. "Restaura-se umlogradouro público, dotando-o de gradeamento de proteção para os seus jardinsreplantados, mas não se define um tratamento adequado para o grupo de comerciantesinformais que trabalham no local. A crise que abala hoje em dia a cidade (e a cidade como um todo, não apenas aquele que, com termo teoricamente absurdo, chama-se centro histórico) é relacionada por Argan à crise da historicidade intrínseca, congênita à cidade; em conseqüência não se pode admitir uma política de salvaguarda para a parte antiga separada de uma política urbanística que considere globalmente todos os problemas da cidade.105 Para Argan não pode haver política diferente para uma parte da cidade, chamadade centro histórico, sem estendê-la à toda a cidade, porque o antigo e o novo dividem omesmo espaço urbano. E relembrando Vera Bosi106, toda e qualquer atitude relacionadaà obra, deverá ser estendida às ruas, praças e população, para que dessa forma sejarealmente preservado o Patrimônio. Para entender melhor as intervenções operadas na região tombada do centrohistórico, especialmente em seus logradouros públicos, segue-se uma síntese da históriadestes lugares.Os Logradouros Públicos do Centro Histórico de Manaus As praças presentes hoje no Centro Histórico de Manaus, são a prova viva dasmodificações urbanas, da história da cidade e da memória cristalizada nos lugares.104 Idem. P. 119.105 ARGAN, G. C., op. Cit. p. 5.106 Op. Cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 50
  • 51. Refletem o poder da memória coletiva no que se refere ao nome desses lugares. Cada umadelas tem seu nome oficial (atual) mas é conhecida por uma outra denominação, a que setornou popular, a que resiste às mudanças sofridas pelo próprio espaço urbano. Não sepretende aqui, reconstituir detalhadamente a história desses lugares, as informaçõeshistóricas são necessárias enquanto elementos indispensáveis para a compreensão dasmodificações do espaço público e da permanência de elementos como memória e registrohistórico da cidade. Também não é de interesse deste trabalho participar da visão saudosistade uma cidade idealizada e recriada nos livros e registros sobre o período da borracha. Oenfoque será entender essas transformações como um processo natural da cidade e de seuslugares, a capacidade de adaptação da cidade às necessidades atuais, a relação que se tementre o antigo e o novo e, discutir a necessidade da preservação dos lugares enquantopatrimônio.Praça Dom Bosco Pequenas praças como a Dom Bosco, localizada entre as ruas Epaminondas e daInstalação, contribuem com a história da cidade. Construída em 1905 pelo SuperintendenteAdolpho Lisboa, ela foi chamada de Praça Uruguayana e, de acordo com documentosoficiais107, ocupava uma área de 1.200m2 e era atravessada por uma linha de bonde. Aospoucos foi perdendo o seu espaço e hoje ela está quase encoberta, por entre os grandesprédios, e seu pequeno espaço ainda é ocupado por uma lanchonete e uma banca de revista(e antes da última reforma também possuía uma central de rádio táxi). Algumas árvoresajudavam a compor o ambiente de praça, com bancos e postes de iluminação. Os bancosforam trocados e os postes de iluminação modificados. No centro, onde antes se via, sobum alto pedestal, o busto em bronze de Dom Bosco, vê-se agora uma escultura de corpointeiro, em cimento branco. A praça foi fechada para as reformas no primeiro semestre de2002 e a estátua substituída na primeira quinzena de agosto do mesmo ano. Depois dareforma, a praça conta com 8 bancos, três pequenos postes com duas lâmpadas, quatrodepósitos de lixo, sete palmeiras, a banca de revista e a lanchonete. Como marca do107 Relatório apresentado à Intendência Municipal de Manáos, em sessão de 1º de Outubro de 1922 – peloSuperintendente Dr. Basílio Torreão Franco de Sá. Este foi um dos relatórios mais completos encontradosdurante esta pesquisa. Nele encontram-se praças e monumentos com número de tombo e algumas informaçõesde extrema importância. Esta praça, possui o número de tombo 27. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 51
  • 52. "presentismo" e da necessidade do novo e das autoridades deixarem o registro de seusfeitos para a posteridade, em dois dos lados do pedestal (que foi recortado), lê-se as placas:(1 ª ) Encerrando a celebração dos 80 anos do Colégio Dom Bosco, a associação de ex-alunos entrega à comunidade amazonense a nova estátua de D. Bosco, recordando o aniversário natalício (16.08.1815) do pai e amigo dos jovens. Manaus, 16 de agosto de 2002 É interessante ressaltar que o busto que havia, também foi uma homenagem dosalunos do Colégio Dom Bosco, segundo informações do Pe. Atílio108, provavelmente aturma de 1934.(2 ª ) Prefeitura Municipal de Manaus Prefeito Municipal de Manaus Alfredo Nascimento Empresa Municipal de Urbanização M ª Auxiliadora Dias Carvalho Secretaria Municipal De Obras, Saneamento Básico e Serviço Público Paulo Herban Maciel Jacob Filho Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano José Roque N. Marques Presidente Rest.: agosto/2002 Eu Amo Manaus Essas modificações feitas na Praça Dom Bosco fazem parte deste projeto "Eu AmoManaus". E nesta placa estão registrados todos os administradores responsáveis pelasalterações.Praça Adalberto Vale Está localizada entre as ruas Theodoreto Souto, Guilherme Moreira, Marcílio Dias eAv. Floriano Peixoto. Recebeu anteriormente os nomes de Praça Tamandaré e PraçaTenreiro Aranha, no período em que ali foi colocado o monumento do fundador daProvíncia, que hoje se encontra na Praça da Saudade. Atualmente a praça constitui-se noespaço da feira de artesanato regional, onde podem ser encontrados uma série de artefatos eobjetos decorativos que remetem às origens indígenas da cidade. Entre as barracas,108 Em entrevista concedida em 22 de outubro de 1997, da qual também participou o Pe. Augusto. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 52
  • 53. procurando, pode-se encontrar o busto de Adalberto Vale que também ocupou outroslugares dentro da mesma praça. Esta obra é de autoria de Luiz Morrone, um conceituadoescultor que está presente na maioria dos logradouros públicos de São Paulo entre outrosEstados. Foi feito em São Paulo e data de 1969. Os prédios ao redor também forammodificados, alterando a paisagem do lugar. O prédio do Hotel Amazonas, por exemplo,não mais ostenta a seqüência de letras na vertical, formando um harmonioso conjunto; hápouco tempo passou a ser suporte para a divulgação de uma empresa de telefonia, que sedestaca mais que o prédio. São as necessidades da modernidade, ou melhor, são oselementos urbanos que começam a surgir na virada do século XIX para o século XX. Naspalavras de José Geraldo109: Nas ruas, os instrumentos de sedução para o consumo se multiplicavam através de luminosos, belos cartazes de rua, fotografias, grandes vitrines envidraçadas e propagandas nos magazines. Esses elementos urbanos destinados à propaganda cada vez mais se modernizam einvadem os lugares públicos alterando as paisagens da cidade. A Praça Adalberto Vale não dispõe de bancos para que as pessoas possamacomodar-se. Trata-se apenas de um lugar de passagem e que serve para fazer compras.Praça dos Remédios Ainda hoje é chamada de Praça dos Remédios, embora tenha mudado de nomeoficialmente em 1897110. Localizada em frente à Igreja dos Remédios, entre as ruas Cel.Sérgio Pessoa, Miranda Leão, Leovegildo Coelho e rua dos Barés, também tem sua áreacomprometida pelo comércio, muito intenso ao redor. Em 1906 possuía um chafariz de109 MORAES, José Geraldo Vinci. Cidade e cultura urbana na primeira República. São Paulo: Atual,1994, 19.110 No Relatório apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Fileto Pires Ferreira, Governador do Estado, pelo Secretáriodos Negócios do Interior, em 5 de Janeiro de 1898, lê-se o seguinte trecho: Dos actos da Intendência destaCapital promulgados nas diversas sessões do anno passado constam as seguintes resoluções: Resolução de 23de novembro, dando à praça dos Remédios o nome de Torquato Tapajós, como homenagem à memória dodistincto Amazonense que teve este nome. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 53
  • 54. ferro fundido111, hoje tem uma escultura sagrada, a figura de Cristo de braços abertos, sobum imenso pedestal, algumas árvores e bancos. A Praça Torquato Tapajós é extensa em comprimento e pouco larga. Camillo Sitte aclassificaria como praça de profundidade. A parte central possui algumas pequenas árvores,as maiores encontram-se nos arredores. Existem alguns bancos e o público freqüentador éformado pelas pessoas que trabalham nas proximidades ou que usam a praça como local detrabalho, como os lavadores de carro. A arquitetura ao redor marca principalmente atomada do centro pelo comércio e a adaptação de sua arquitetura à nova necessidade. AIgreja dos Remédios ainda se mantém em funcionamento.Praça do Congresso A Praça do Congresso, ou praça do IEA (Instituto de Educação do Amazonas) comoalguns chamam, já foi a Praça Antônio Bittencourt e Praça da Saúde. Localizada no alto daAv. Eduardo Ribeiro e entre as ruas Ramos Ferreira e Monsenhor Coutinho, recebeu onome atual em 31 de maio de 1942, quando aconteceu o Congresso Eucarístico Diocesano,comemorando os 50 anos de criação do bispado. Como parte dos festejos, registrou-se aprocissão fluvial de Belém a Manaus, subindo o rio Amazonas e a substituição do nome dapraça com a colocação do Monumento a N. S. da Conceição 112, este uma dos objetos destapesquisa. Além deste monumento, há o busto de Eduardo Ribeiro. Em 2000, durante ascomemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, foi colocado o relógio da RedeGlobo. A instalação do Relógio quebrou com a harmonia da praça e a visão que se tinha aosubir uma das principais avenidas do Centro de Manaus, a Av. Eduardo Ribeiro, impedindoa visão das obras e da fachada do Colégio, que fica ao fundo da Praça. Mas, tratando-se deuma obra descartável como os produtos da modernidade, após cumprir seu papel foiretirado. É um local muito freqüentado por estudantes, das escolas ao redor; hippies, queaproveitam para praticar o seu comércio informal; skatistas, que transformam as bordas dos111 Op. cit. Nº de tombo 25.112 CAMINHANDO por Manaus: Cinco Roteiros Históricos da Cidade. Manaus: Fumtur, 1996. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 54
  • 55. canteiros e bancos em plataforma para suas manobras e organizações políticas e estudantis,que têm na praça um ponto referencial para manifestações e atos públicos. A Praça do Congresso possui muitas árvores e plantas, distribuídas nos várioscanteiros, por entre bancos que a circundam. Assim como as anteriores, possui uma bancade revistas.Praça Dom Pedro II ... se é verdade que a razão fundamental de ser um lugar de memória é parar otempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar amorte, materializar o imaterial para – o ouro é a única memória do dinheiro – prender omáximo de sentido num mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: queos lugares de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessanteressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações.113 A praça Dom Pedro II é um dos lugares mais antigos da cidade e contém todas estasobservações de Pierre Nora. Não só o espaço público, mas os prédios que a cercampassaram por metamorfoses e adaptações para continuar existindo. O próprio Hotel Cassinaestá de pé, como a “imortalizar a morte” não só de seu próprio glamour, mas de uma épocade riquezas e extravagâncias. Quanto ao espaço da praça, foi a única organizada de acordocom padrões urbanísticos antigos, que tratam a cidade como uma obra de arte. Seu espaçoé cercado por edifícios importantes e imponentes e seu traçado original pouco foimodificado. Há registros de sua existência antes dos anos de 1800, quando era então chamada dePraça do Pelourinho114. Isso se deve porque neste lugar foi erguido este instrumento detortura. Sobre isso Mário Ypiranga115 escreve: Não temos notícia de quando foi chantado o pelourinho em Manaus, embora a ata da solenidade do de Barcelos seja conhecida. Como a capital passou de lá para Manaus, não haveria necessidade de nova solenidade: apenas a presença do instrumento da justiça. O que vale ressaltar é que esse instrumento da justiça só pôde ter sido doado quando da predicação de vila. E todavia não aparecem nas atas da Câmara Municipal de Manaus referências ao ato de113 NORA, Pierre, op. cit. p. 22.114 MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fundação de Manaus. Guanabara: Conquista, s/d. p. 44.115 Idem, p. 108/109. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 55
  • 56. concessão. Aliás a plantação do pelourinho era um ato que se revestia da maior solenidade pública, sendo obrigado o bando e o pregão pelas ruas. O instrumento de tortura era doado em nome do rei ao lugar, pelo próprio Ouvidor em correição, ao qual para tanto lavrava o têrmo de entrega, como se verifica dos atos dos pelourinhos entregues às vilas de Ega, lugar de Nogueira, etc. no pelourinho eram supliciados os criminosos de penas leves: açoites, exprobação pública. O lugar da barra possuiu dois, e anteriormente a 1800 já estava aquêle símbolo da justiça erguido no largo ou praça vulgarmente conhecida pelo nome de Pelourinho, hoje praça Dom Pedro II. Ypiranga acrescenta que o pelourinho foi derrubado no dia 6 de setembro de 1857 eque em 1855 tinha apenas valor histórico, não funcionando mais como símbolo de justiça. Recebeu melhoramentos na administração de Lôbo d‟Almada; e a partir dainstalação da Província, não só esta como outras praças e ruas ganharam características delogradouros públicos. Diz Mário Ypiranga que “A praça ainda possuía uma funçãoimprodutiva, no antes provincial: é onde está chantado o pelourinho, detestado símbolo dajustiça do rei.”116 Também registra que “Diz o padre dr. José Maria Coelho, vigário dabarra, que em 1821 ela [ a cidade] possuía onze pequenas ruas e uma praça quadrada com“edifícios nobres” e outros cobertos de telha.”117 Estava ele se referindo à praça Pedro II. No ano de 1892, encontra-se nos arquivos de Ofícios de Obras Públicas, referências,nos últimos meses do ano, de contrato para reformar a praça, ou melhor para obras deembelezamento. O lugar denomina-se na época, praça da República. No ano seguinte, sãocolocadas nove palmeiras e encomendados 48 bancos, uma fonte monumental e um kioskpara o guarda, o que pode indicar uma preocupação em vigiar o local, cuidar do bempúblico, além disso muitos reparos foram feitos. Em 1894, fala-se que o gradil existente foimodificado e que foram fornecidos objetos para a praça. Em 1896, há registros indicandoque a iluminação da praça era feita a base de querosene, neste ano também foram feitosreparos e mudanças significativas como: mudança do passeio de cimento para legedo depedra de Lisboa; recolocação de uma bordadura; mudança do calçamento de paralelepípedode madeira para paralelepípedo de granito; além do concerto de dois bancos, colocação deum mictório e uma bacia syphoidal, entre outros. Neste mesmo ano, no relatório dospróprios do município lê-se: um dito terreo de pedra e cal situado a praça da República116 Idem, p. 55.117 Idem, p. 96. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 56
  • 57. que serve de cadeia. Esta foi a única referência encontrada sobre uma cadeia nesta praça.Em 1897, novos reparos. O ex-prefeito de Manaus (1909-1910) Agnello Bittencourt118,escreveu um depoimento sobre esta praça: Da atual Praça D. Pedro II, antigo Largo do Quartel, já remodelada pelo Pensador, assisti, em 1897, à partida das tropas amazonenses para Canudos, ocasião em que lhes foi ofertada pelas senhoras da Capital uma bandeira de seda, bordada a ouro, ainda hoje existente no museu da Polícia militar. Em 1900, o jornal A Federação anuncia que os bancos da praça deverão serpintados. E no ano seguinte, o mesmo jornal informa que as bandas de música não estãotocando no chalet da praça da República, por falta de iluminação, bancos e calçamento,estando a Banda de Música a se apresentar na praça General Ozório. Já em 1903, a praçavolta a receber apresentações musicais, é o que anuncia o jornal O Debate. O Jornal doComércio, em 1906, informa que o gradil que circunda a praça vai ser retirado eaproveitado em outro lugar. Em Relatório de 1918, registrou-se que o jardim da praça foracompletamente reformada. O Relatório de 1922, de Basílio Torreão Franco de Sá, apresentadocumento registrando os bens tombados pela municipalidade, é o documento maiscompleto que se tem sobre esse assunto. Em relação à praça lê-se: N.º 20 Jardim da Praça da Republica Construído pelo Governo do Estado na Praça que lhe dá o nome, occupa uma área de 2.610m2,00, contem um pavilhão de ferro para musica, um chafariz de ferro fundido com bacia de alvenaria e uma fonte armada com pedra e cimento. Sua entrega ao Município foi feita em virtude do documento abaixo: “Gabinete do Chefe do Departamento do Interior, em Manáos, 10 de Maio de 1897. N.º 239. Ao Sr. Superintendente Municipal da Capital. Cientifico-vos que o Snr. Dr. Governador do Estado mandou passar a Intendencia deste Municipio o Jardim da Praça da República, devendo ser custeada pela mesma Intendencia. Saude e Fraternidade (a) Pedro Freire Autorisado pela lei n.º 66, de 18 de Maio de 1897 o Superintendente Municipal Snr. Dr. Justiniano Serpa manda proceder neste logradouro publico os reparos necessários. Em 1900 o Superintendente Snr. Dr. Arthur Cesar Moreira de Araujo, manda remodelar este jardim e collocar um tanque para água sobre colunas de alvenaria. Em 1907 o Superintendente interino, Coronel José da Costa Monteiro Tapajós, manda retirar o muro, gradil e portões de ferro que fechavam este logradouro publico.118 BITTENCOURT, Agello. Fundação de Manaus: pródromos e sequências. Manaus: EDUA, 1999. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 57
  • 58. Em 1911 o Superintendente Snr. Dr. Jorge de Moraes manda reparar o coreto e o chafariz, dar nova instalação eletrica e rever o ajardinamento. Em 1920 o Superintendente Snr. Dr. Basilio Torreão Franco de Sá manda proceder a restauração deste proprio e dotal-o com bancos. Pelos registros, nota-se quantas modificações e adaptações o lugar sofreu. Percebe-se que anualmente eram feitas intervenções e que a estratégia de cercar o jardim públicocom gradil - adotada há poucos anos para o monumento da praça São Sebastião e maisrecentemente para toda a praça da Matriz – já fora utilizada há muito tempo, retirada ecolocada algumas vezes. No livro Caminhando por Manaus, citado anteriormente, lê-se ainda uma passagemsobre a praça: A Praça Dom Pedro II (recomenda-se a visita durante o dia, somente), hoje um local sossegado, onde os aposentados reúnem-se para jogar dominó, foi outrora palco de eletrizantes acontecimentos. Era exatamente ao seu redor que concentravam-se os teatros, bares, cabarés, cafés e edifícios públicos, tão assiduamente frequentados pelas pessoas mais ricas e importantes da cidade.119 O professor Márcio Páscoa120 comenta sobre a existência do Éden Theatro e sobre amovimentação na praça. Há muito que o público interessado em funções teatrais havia aumentado, e bastante. Foi então que o proprietário do Hotel do Commercio, o português Benjamin Lucas, construiu o Éden Theatro, em um terreno contíguo ao seu hotel, que situava-se naquela que viria a se chamar Praça da República. o Éden Theatro foi inaugurado em 3 de maio de 1888, pela Companhia Dramática e de operetas de Eduardo Álvares, empresa esta contratada exclusivamente por Benjamin Lucas para vir trabalhar em Manaus. (p, 126). Em 1904, foi comprado pela firma Metello & Soares, que já mantinha outros estabelecimentos do gênero em outras capitais, e passou a se chamar Teatro El Dorado. (p, 166). Ignora-se também se o estabelecimento foi vendido e/ou mudou de nome após essa data. [1907] ... Sua localização, uma das melhores da capital amazonense, àquela época, era ao lado do Hotel do Commercio, em frente ao Hotel Cassina, na mesma praça onde se localizava a sede do governo. Esta região, aliás, era uma das de maior movimentação noturna em Manaus, repleta de cafés-119 CAMINHANDO por Manaus, p. 59.120 PÁSCOA, Márcio. A vida musical em Manaus na época da borracha. Manaus: Imprensa Oficial doEstado do Amazonas, 1997. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 58
  • 59. concerto, pequenos teatros e music-halls, que iniciavam as atividades desde bem cedo. (p, 167). As colocações acima nos fazem imaginar quanta vida havia neste lugar e como étriste olhá-lo agora, sabendo o que já fora há tempos atrás. É uma tristeza pela falta decuidados com um lugar importante e não saudosismo da época de glamour. Evoco maisuma vez Pierre Nora121: Para a história–memória de antigamente, a verdadeira percepção do passado consistia em considerar que ele não era verdadeiramente passado. Um esforço de lembrança poderia ressuscitá-lo; o presente tornando-se ele próprio, à sua maneira, um passado reconduzido, atualizado, conjurado enquanto presente por essa solda e por essa ancoragem. Sem dúvida, para que haja um sentimento do passado, é necessário que ocorra uma brecha entre o presente e o passado, que apareça um “antes” e um “depois”. As palavras de Márcio Páscoa revelam o “antes” da praça e as declarações a seguir,o “depois”, ou o atual. No final de fevereiro de 2002, foram feitas entrevistas com cinco pessoas na praçaDom Pedro II. Não foram entrevistas sistematizadas, mas conversas informais, mas muitoreveladoras. Um senhor (Maurício) que estacionava o carro na praça e disse trabalhar naAssembléia, contou que o lugar é local de prostituição, os meninos que lavam carro e asmulheres se drogam. Falou que deveria haver um trabalho social na praça para tirar asmulheres de lá, ou conscientizá-las do perigo que correm. Mas admitiu, não claramente,que também se utiliza dos serviços dessas mulheres, “são tão fáceis”, disse ele. Quanto àpraça, passa por ela todos os dias e às vezes à noite. Uma outra entrevistada foi uma prostituta chamada Dulce, que estava na praça emfrente ao Arquivo Público e respondeu com muita educação as perguntas e falou sem receiosobre sua vida. Quando perguntada sobre o que significava a praça pra ela, foi logo dizendoque aquilo era apenas um “quebra-galho”, que não fazia ponto diariamente, apenas quandoestava precisando de dinheiro. Que era „casada‟ e que o marido desconfiava mas não tinhacerteza desse seu trabalho. Contou que está na praça desde o tempo do cruzeiro e que criouas duas filhas (uma de 14 anos) “nos bregas”. Falou também que existem mulheres que121 NORA, Pierre. Op. cit. p, 18, 19. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 59
  • 60. estão lá porque gostam, não precisam, tem estancias e dinheiro no banco, mas continuamindo à praça. Disse que não viu ainda reforma na praça como acontece nas outras, apenaspequenas limpezas são feitas e quanto ao prédio da Prefeitura, apesar da cerca decompensados, está sendo depredado. O senhor Assis, que vende tucumã ao lado do prédio da Assembléia, falou que o quetorna o lugar mal visto são as mulheres, e disse isso com um certo desdém. Comentoutambém sobre o crescimento das barracas de lanche e vendedores na praça, que estes erampessoas que de alguma forma já trabalhavam ali, mas apenas agora conseguiram melhorar.Lamentou o estado triste do prédio da Prefeitura e disse que poderia transformar-se emescola, que seria muito útil. O senhor Damião, vendedor de bombons e vários outros pequenos produtos, temsua barraca em frente ao prédio da Assembléia. Falou que a praça é um meio de vida, nãosó pra ele, mas pra muita gente ali. Acha que uma reforma deixaria a praça mais bonita emelhoraria as vendas. Disse ainda que as pessoas que trabalham na Assembléia nãocompram na barraquinha, na verdade estão começando agora. Todos são unânimes em afirmar que as pessoas que moram nos arredores da praçaapenas passam por ela; não a freqüentam para jogar, como mencionado no livroCaminhando por Manaus, mesmo porque esse livro foi publicado em 1996 e para turistas,embora prevenindo contra visitas noturnas, não coloca a realidade do lugar, que desde adécada de 40 é centro de prostituição. E ainda que a desativação do prédio da Prefeituramudou consideravelmente o lugar. Antes era muito mais movimentado, agora, segundoeles, o público da praça diminuiu muito. Em relação às obras artísticas encontradas napraça, desconhecem sua história e seu valor estético; sabem apenas que estão sujas e que ochalet ou “casinha”, como chamam, serve para os desocupados fazerem barulho e osmendigos dormirem à noite. É interessante colocar que mesmo não conhecendo a história anterior da praça e deseus objetos de arte, essas pessoas têm com o lugar uma relação muito estreita e qualquermudança que seja feita na praça as atinge diretamente, como o fechamento da Prefeitura, ouo possível fechamento da praça para reforma. Quanto às prostitutas, já fazem parte dahistória e da memória da praça. E quanto à praça é depositária de todos os momentos dahistória da cidade, da força do poder público provincial e republicano, da magnitude e Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 60
  • 61. decadência da borracha, da Zona Franca e da Manaus atual, que vive a polêmica entre oantigo e o novo, entre o que deve ser restaurado e o que continuará esquecido por maistempo. A praça Pedro II ao longo de sua história foi recebendo denominações esignificações de acordo com os prédios e suas respectivas funções. Nos primeiros registrosé mencionada como Largo do Pelourinho, porque é nela que se localiza este instrumento detortura, e o lugar tem outro significado para a população. Imagino as pessoas seencaminhando em direção à praça (apenas um lugar aberto), para assistir às punições“leves”, dos importunadores da ordem. E lembro-me de leituras feitas sobre o Coliseu,quando este tinha como função ser palco de lutas entre animais e gladiadores ou pessoascomuns; e o público delirava da arquibancada. Os jogos gladiatórios foram introduzidos em Roma pela primeira vez em 264 a. C., pelo cônsul Décimo Júnio Bruto, por ocasião do enterro de seu pai; mas os romanos deram-lhes um encaminhamento mais utilitário, empregando as competições mortais como meios populares de castigo público de criminosos – a princípio, presumivelmente, tanto um exemplo admonitório quanto uma diversão.122 Assim como o Coliseu tem hoje outro significado, é um marco na história daarquitetura, monumento histórico, patrimônio da humanidade; também a praça foi revestidade outras significações, foram construídas outras memórias. Quando o pelourinho foiretirado, a praça passou a se chamar Largo do Quartel. E de lá, como contou AgnelloBitencourt, saíram os soldados para a guerra de Canudos. A praça era então palco da saídade heróis, heróis nacionais. No período do Império, a praça recebeu o nome de Pedro II, e assim é mencionadana administração de Eduardo Ribeiro, quando da colocação do chalet. Neste período, olugar é um jardim, muito arborizado, com bancos e obras de arte, cercado por toda amovimentação de bares, teatros e cassinos. A partir de 1892 a praça passa a se chamarpraça da República. o chalet é palco para apresentações de música da banda militar. Não foram encontrados registros mais precisos que determinassem o período emque a praça tenha voltado a ser chamada de praça Pedro II; mas pelo que se tem, foi uma122 MUNFORD, Lews. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo:Martins Fontes, 1998. p. 256. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 61
  • 62. mudança relativamente recente, posto que até 1969 ainda se chamava Praça da República.No entanto, hoje, a população continua a atribuir o nome de acordo com a função de algunsprédios e grupos que se instalaram no lugar. A praça não é conhecida pela população comopraça Pedro II; é mais conhecida como “praça da Prefeitura”, como o prédio da Prefeiturafoi desativado as pessoas se referem a ela como “praça da antiga Prefeitura”; ou “praçapróxima à Assembléia”; ou ainda como “praça das prostitutas”. Este nome praça Pedro II, não tem significado para as pessoas que passam hojepelo lugar. Da mesma forma que chamam a praça Heliodoro Balbi, de praça da Polícia,devido ao Quartel da Polícia; a praça Torquato Tapajós, de praça dos Remédios, por causada Igreja dos Remédios; a praça 5 de Setembro, chamam ainda de praça da Saudade.Oficialmente outros nomes são dados pelo poder público, mas esses nomes nem sempre sãoaceitos pela população que se apropria do lugar e a ele dá nomes de acordo com osignificado que tem para elas. A identidade do lugar é dada pelos grupos e pela populaçãoem geral que usa a praça, independente da denominação dada pelo poder público. Istomostra a força das “memórias não-oficiais” tão presentes nos logradouros públicos de nossacidade. Vê-se o que Michael Pollak chamou de disputas de memória: a memória oficial e amemória coletiva. Buscou-se utilizar-se de ambas para traçar um roteiro histórico maiscompleto do lugar. E os lugares de memória sintetizam a história e a memória. Os lugares eos tempos revelam memórias distintas. Estou certa que ainda há muitas memórias soltas e que darão a este trabalho umoutro significado, mas por enquanto sirvo-me das palavras de Jacques Le Goff: "Amemória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado paraservir o presente e o futuro"123. E os lugares de memória, sejam eles monumentos arquitetônicos, obras de arte, oudocumentos perpassam esses tempos da história. Estão sempre se transformando, seadaptando, mas persistindo e existindo, como diz Pierre Nora: “os lugares de memória sóvivem de sua aptidão para a metamorfose”.Praça da Polícia123 Op. cit. p. 477. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 62
  • 63. A Praça Heliodoro Balbi, mais conhecida como Praça da Polícia, está localizadanuma área de grande confluência comercial: na Av. Sete de Setembro com a JoséParanaguá, estando ligada ainda às ruas Dr. Moreira e Marcílio Dias, local onde seencontram muitas lojas de importações. Foi a praça que mais nomes recebeu durante suahistória: Praça 28 de Setembro, Largo do Palacete, Praça da Constituição, Praça GonçalvesLedo, Praça João Pessoa, Largo do Liceu e Praça Roosevelt124. As primeiras notícias de arborização que se tem datam de 1873/1874125, mas adisposição atual foi feita durante a administração de Adolpho Lisboa, em 1906126. Asesculturas foram trazidas da França e o jardim parece ter uma temática predominante, umaalusão à caça, tendo como figura central, a Diana Caçadora. Pertencem a este jardim: umcoreto de ferro, uma pérgula, uma pequena fonte, uma cabeça em homenagem a JoséFerreira de Castro, uma herma de D. Pedro II, a Diana Caçadora, um cachorro e um javaliem posição de luta, uma ninfa, o Hermes, uma máscara de Bento Bruno de Menezes, umsoldado francês e um zuavo. É o logradouro público que concentra o maior número deobjetos decorativos e a disposição destas obras obedece ao padrão antigo: estão distribuídasao longo da praça, entre canteiros, árvores, pontes e lagos. Entre tantas obras importadas, aseringueira está presente como símbolo do que ajudou a construir o lugar. O público nestapraça é muito freqüente, pois o lugar oferece atrativos como: alguns bancos em cimentosob as grandes árvores – que também marcam aspectos da história da nossa cidade, como aárvore sob a qual se reuniam os membros do Clube da Madrugada; o coreto e a pérgulaajudam a proteger contra o sol e a chuva e servem como ponto de encontro, como as pontesde cimento que imitam troncos de árvores. Seu espaço é utilizado com freqüência tambémpara exposições e eventos culturais. Este jardim, aconchegante principalmente nos fins de tarde e em dias em que acorreria do comércio e o barulho dos carros não interferem muito, é palco de um temamitológico contado por suas esculturas francesas.124 MESQUITA, Otoni Moreira de. Manaus: História e Arquitetura – 1852-1920. Manaus: Valer, 1999. P.282.125 FALLA dirigida à Assembléia Provincial do Amazonas na Primeira Sessão da 12 a Legislatura, em 25 deMarço de 1874, pelo Presidente da Província Bacharel Domingos Monteiro Peixoto. In Relatórios daProvíncia do Amazonas, vol. V. 1874-1877.126 Relatório do Superintendente Franco de Sá. Op. cit. Nº de tombo da praça 23.12. FREIRE, Cristina. Além dos Mapas: os monumentos no imaginário urbano contemporâneo. SãoPaulo: SESC: Annablume, 1997, p. 178/179. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 63
  • 64. Construindo memórias no Jardim do Édem O significado da praça para quem a usa hoje é totalmente diferente de outrostempos. O olhar dos mais velhos é diferente do olhar dos mais moços. Mas esses maismoços estão construindo ainda as suas memórias do lugar. Busquei captar essas memóriasatravés de depoimentos de jovens estudantes, professores127 e usuários da praça. E emalguns relatos, românticos e nostálgicos, nem parece que se trata de jovens que estãoconstruindo suas mais significativas lembranças. Tanto que o resultado foi uma colcha de(re)significações de uma riqueza tão grande. A Praça é mais do que eu percebia. O coreto e a ponte são os lugares preferidos dos namorados que marcam encontros,tiram fotos e lá se sentam para conversar. A partir deles têm-se uma visão privilegiada dapraça. Nos bancos, as pessoas jogam dominó (tem inclusive uma dama desenhada em umdos bancos) e até deitam para descansar. As pessoas ainda levam seus filhos para passear etambém gostam de comprar as bijuterias dos hippies. O espaço é usado por grupos deestudantes de escolas e cursos próximos para pequenas comemorações. Também é o espaçousado há alguns anos para a apuração das Escolas de Samba, após o desfile. De lá saem emcarreata os vitoriosos pela Av. Eduardo Ribeiro. Alguns eventos como feiras e exposições foram mencionados, como a “Feira doMel”, onde as pessoas observavam como era feito e os benefícios trazidos à saúde. Mas oacontecimento atual é o pagode que acontece às sextas-feiras; apesar do som não ser dequalidade, os jovens afirmam que é um ótimo lugar para beber, namorar, paquerar,conversar, etc. Por volta de 1986, conta uma professora em um dos depoimentos, que levava suaturma de crianças para brincarem e fazer piqueniques uma vez por mês; porque a praça eraum lugar com muitas árvores. Depois disso os “cheira-cola” passaram a representar perigopara as crianças e a atividade foi suspensa. Também a professora parou de trabalhar comcrianças. As lembranças mais atuais contam de encontros e desencontros, surpresasagradáveis ou não na praça. Como esta saudade de um jovem de aproximadamente 20 anos:127 Os estudantes e professores consultados são da Escola Estadual Francisco das Chagas Albuquerque, doturno noturno no qual trabalho, localizada na Av. Joaquim Nabuco, em frente ao Cine Chaplin; portanto,próxima à praça. Os depoimentos foram colhidos de forma escrita, no período de 20 a 24 de agosto. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 64
  • 65. Dos 13 aos 16 anos, ao tocar em fanfarra, ensaiávamos na Praça da Polícia, em frente ao Comando Geral, das 17:00 às 19:00 horas. Recordo-me que era muito bom o clima e ao mesmo tempo agradávamos o público que passava e parava para observar nossos ensaios. Me sentia muito satisfeito por tocar ali. Na maioria dos relatos, principalmente das meninas, a praça ainda é o lugar dosnamorados: Antes de me casar eu sempre arranjava uns namorados por lá. Era legal ficar passeando... Não sei se ainda tem uma pequena “ponte” que passava em cima de um laguinho. Ali eu conheci vários garotos e uma amiga. Eu fui muitas vezes com a minha namorada passear. Às vezes nós até gasetávamos aula para ir pra praça namorar, ficar junto. Sentávamos nos bancos e começávamos a conversar sobre tudo o que acontecia sobre nós. Naquela praça eu passei momentos muito bons. Fui pro carnaval durante dois anos seguidos com a minha namorada e foram momentos inesquecíveis, dancei, pulei, namorei, etc. Quando conheci meu primeiro namorado a gente gostava muito de passear e nesses passeios incluíamos a Praça da polícia, onde a gente tirava muitas fotos, sentávamos nos bancos para comer pipoca, ver os passarinhos voando de uma árvore para outra atrás de alimento. Admiramos também os peixes que há embaixo da ponte, em alguns dias tem orquestra. É uma pena que a gente não pode ir todos os dias, mas vamos sempre que temos tempo. É muito legal passar o fim de tarde na Praça da Polícia, sem nada pra fazer, só ficar pensando na vida, se distrair com o vai e vem de pessoas. Esses namorados às vezes são surpreendidos pelos pombos e guardam também essalembrança não muito agradável. O fim de tarde na praça é lembrado como um dos momentos mais agradáveis: Acho muito interessante também às seis horas, quando os pássaros estão procurando lugar para dormir; o céu fica cheio de passarinhos pra lá e pra cá. Adoro ficar olhando aquele cenário lindo. Às vezes levo minha sobrinha para brincar de patinete. Ah!, não perco todos os anos a Banda do Pina, me divirto muito embaixo do trio com minhas amigas na época do carnaval. Ah, já ia esquecendo daquele tacacá gostoso que adoro tomar com meu namorado. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 65
  • 66. Algumas cenas causam admiração a quem passa, como a mulher que tem quase todoo corpo atrofiado e que desenha e pinta com a boca. Outras chocam o visitante, como osmendigos que tomam banho no lago. Há quem afirme que a área é também local deprostituição e consumo de drogas e outros reclamam principalmente da sujeira e dosbêbados. Há ainda quem tenha um olhar atento sobre o lugar: Também gosto de observar os peixes que existem lá, acho divertido ficar olhando como se movem. São tranqüilos e não se assustam com a presença das pessoas, pois não procuram se esconder, estão sempre visíveis. A Praça da Polícia, como afirmaram alguns, tem de tudo um pouco: serve paranamorar, conversar, relaxar, jogar; durante o dia há o comércio dos hippies e de várioscarros lanche e no final da tarde surgem as barracas de tacacá. O movimento maioracontece na sexta-feira com o pagode e outros ritmos, que está atraindo um grande númerode pessoas, principalmente estudantes. É ponto de várias tribos: patricinhas e mauricinhos,pichadores, roqueiros, estudantes, meninos de rua, cheira-cola, mendigos, bêbados,lavadores de carro, garotas de programa. É um jardim onde a presença da natureza alivia o stress e ajuda a purificar o corpo ea alma. Onde a fonte (ainda que inoperante) e os seus lagos cheios de peixes, parecem atrairpara um novo recomeçar. Onde o vento balançando as árvores no final de tarde, sussurre noouvido que ali pode-se respirar a paz. Onde os romances começados indiquem uma apossibilidade de uma vida feliz. Mas nesse Édem, por entre as árvores esconde-se aserpente tentadora, e a maçã está prestes a ser mordida. É um lugar que também atrai pelaspossibilidades do pecado, do escuro entre as árvores, da bebida livre, das mulheres fáceis. Éo Éden nos seus limites do bem e do mal. Sensibilidade, percepção e memória São inúmeras as possibilidades de uso do espaço da Praça da Polícia. É um lugarpara o uso da sensibilidade, onde as pessoas às vezes se permitem serem sensíveis ànatureza e à outras pessoas. É um lugar de memória: onde as esculturas falam de um tempode riqueza. No coreto toca-se talvez a mesma música, para um público cada vez mais Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 66
  • 67. diversificado. É um lugar de comércio como todo o centro. É como parte da cidademoderna, é um lugar de consumo, onde as pessoas vão pelos prazeres da bebida, do cigarro,da festa e do lazer... Mas é também consumo do lugar, onde as pessoas se apropriam doespaço e constroem memórias. Lembro-me que descobri esta praça na década de oitenta, quando ia com uma amigadepois do cinema, para conversar. Lembro-me que ia sozinha no fim de tarde para escreverpoemas. Sentava-me em uma das pedras em frente ao lago artificial, que na época estavalimpo e não tinha o gradil de proteção. Sentava-me e ouvia o barulho da água, o vento nasárvores, as árvores tão lindas... Eu queria escrever, não sabia sobre o que gostaria deescrever, mas sabia que assim que descobrisse, a praça seria o lugar ideal. Queria pintar asárvores, o lago, a ponte. Algum tempo depois uma pintura do Monet (O tanque deNenúfares), me lembrou essa ponte. A pintura reflete em cores, a sensação daquelemomento. Naquela época, não me recordo das esculturas, só a natureza, ainda queconstruída artificialmente, me chamava a atenção. Nos anos noventa, trabalhava no centro e sempre passava pela praça, que já não eraa mesma. Parecia estar sempre cheia e era barulhenta, suja. Eu passava apressada e nãoolhava mais. Descobri todas as obras da praça em 1997 com a pesquisa Inventário eCatalogação de Obras Públicas em Logradouros Públicos do Centro Histórico de Manaus.No entanto, esses depoimentos colhidos, me fizeram perceber a dimensão maior da praça,do coletivo de significações que ela possui, da incrível colcha de pessoas e momentos queestão costuradas a ela. São olhares diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. É o imaginárioindividual que passou ao coletivo. São (re) significações que fazem o lugar resistir. Que fazcom que essas memórias de consumo do lugar sejam construídas dentro do lugar deconsumo. Sensibilidade, percepção e memória construídas e vivenciadas em uma praça deuma cidade moderna.Praça da Matriz A Praça da Matriz (antigo Largo da Matriz), com jardins distribuídos na frente, àesquerda e à direita da Catedral, apesar de ter perdido também parte de sua área (para oterminal de coletivos, por exemplo), constitui-se ainda num dos lugares mais arborizadosdo centro. Sofreu inúmeras intervenções, teve suas obras removidas de lugar, depredadas e Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 67
  • 68. descaracterizadas. Hoje, está tomada pelo comércio informal e por menores infratores, oque torna o trânsito de pedestres tumultuado e o lugar perigoso para a população. No finalde 2002 sofreu novas intervenções, toda a praça recebeu gradeamento.Praça da Saudade Entre as grandes praças está a Praça 5 de Setembro, ainda hoje conhecida comoPraça da Saudade, devido sua localização, à época da abertura, próxima ao Cemitério SãoJosé onde hoje se encontra o Atlético Rio Negro Clube. Sua abertura aconteceu na décadade 1860128 , a partir desta data o espaço passou por modificações que tornaram o traçadoirregular e criaram ambientes disformes e descontextualizados dentro da praça, como oprédio da Suhab e o parque de diversões permanente. As mudanças mais recentesaconteceram em janeiro de 2000, quando o lago artificial, onde se encontram as duasesculturas (Homem Pré-Histórico e Homem Moderno), passou por uma reforma que orestaurou e ainda o dotou de peixes regionais, tudo isso cercado por um gradil de proteção.Diante disso, pode ser notado que há a presença de duas praças dentro de uma: a partebaixa, onde fica o Monumento a Tenreiro Aranha (um dos maiores da cidade), o parque e opalco; e a parte alta, onde ficam as árvores, alguns bancos e o lago artificial. Contudo,muitos grupos reúnem-se nela: os surdo-mudo tem ali seu ponto de encontro, além demembros de igrejas protestantes, que são os que mais usam o espaço para seus encontros eshows. Algumas festas ainda são realizadas no espaço da praça, mas não com tantafreqüência, o perigo decorrente da permanência de menores infratores, assusta a população.O lago artificial, recentemente restaurado, com o Homem Pré-Histórico e o HomemModerno, tornou-se a atração da praça, chamando a atenção, principalmente das criançasque procuram pelos “peixinhos”. A parte alta da praça é ajardinada e possui bancos. A partebaixa possui o monumento, o parque de diversões, o palco e o prédio, uma combinaçãopouco agradável.Praça São Sebastião Este é o logradouro público mais visitado pelos turistas que vem à Manaus, porquenele está situado o Teatro Amazonas, que é o cartão postal da cidade. Esta praça foi aberta128 MESQUITA, O. M. op. cit. p. 288. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 68
  • 69. em 1867129. Neste mesmo ano, no dia 7 de setembro, foi levantada a Coluna comemorativaà Abertura dos Portos, fato ocorrido no ano anterior130. Durante a construção do Teatro, apraça serviu como depósito de alguns materiais. Em 1922, foram colocados 18 bancosjuntamente com os reparos feitos no calçamento131, colocado entre 1902/1906. Em 1900,foi inaugurado o Monumento à Abertura dos Portos, em substituição à coluna. A praça tem seu traçado cercado por árvores e bancos. E a Igreja de São Sebastião,ali localizada, também utiliza seu espaço para realizar seus festejos. Em 1989, o logradouroe o seu monumento, foram restaurados com o patrocínio da Dismac, empresa do DistritoIndustrial. A disposição de um único monumento ao centro da praça é a forma moderna deorganização desses lugares. Com o centro ocupado, não sobra mais espaço para outra obra ea praça torna-se de uma obra só, mas está muito bem ocupada pelo grandioso e ricomonumento. O calçadão da praça é um dos elementos que a diferencia e destaca das outras doCentro, possui ondas em negro e branco, semelhantes às encontradas em Copacabana. Ocontorno é feito com árvores e bancos, que por serem poucos, são disputados pelosfreqüentadores nos fins de tarde.129 Discurso com que o Exmo. Sr. 1º Vice-Presidente da Província, Tenente Coronel Sebastião José BasílioPyrrho abrio a Assembléia Legislativa Provincial do Amazonas no dia 15 de maio de 1867. In Relatórios daProvíncia do Amazonas, vl. III, 1863-1870.130 MONTEIRO, Mário Ypiranga. História do Monumento da praça São Sebastião. Manaus: PrefeituraMunicipal, 1990.131 Relatório do Superintendente Franco de Sá. Op. cit. Lê-se neste mesmo parágrafo, que foi colocado umfoco elétrico no alto do monumento. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 69
  • 70. Capítulo 3 - Monumentos do Centro Histórico de ManausConsiderações sobre o monumento Na Enciclopédia Einaudi132 encontra-se uma breve definição de monumento, no quese refere à origem da palavra, sua função, classificação e suas principais características.Mas é Françoise Choay133, quem esclarece outros aspectos de significação, valor e funçãodo monumento: “O sentido original do termo é do latim monumentum, que por sua vez deriva de monere (“advertir”, “lembrar”), aquilo que traz à lembrança alguma coisa. A natureza afetiva do seu propósito é essencial: não se trata de apresentar, de dar uma informação neutra, mas de tocar, pela emoção, uma memória viva. Nesse sentido primeiro, chamar-se-á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. Não apenas ele a trabalha e a mobiliza pela mediação da afetividade, de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente. Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um132 “A palavra latina monuentum remete para a raiz indo-europeia men, que exprime uma das funçõesessenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo monere significa „fazer recordar‟, donde „avisar‟,„iluminar‟, „instruir‟. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, omonumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação... Mas desde a Antiguidaderomana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitecturaou de escultura: arco do triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado aperpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte. Omonumentum tem como características o ligar-se ai poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, dassociedades históricas (é um legado à memória colectiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcelamínima são testemunhos escritos.” ENCICLOPÉDIA Einaudi. 1. Memória – História. Imprensa Nacional –Casa da Moeda. Porto – Portugal, 1997, p. 95.133 CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade: Editora UNESP, 2001, p.17/18. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 70
  • 71. passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional, tribal ou familiar. Para aqueles que edificam, assim como para os destinatários das lembranças que veiculam, o monumento é uma defesa contra o traumatismo da existência, um dispositivo de segurança. O monumento assegura, acalma, tranqüiliza, conjurando o ser do tempo. Ele constitui uma garantia das origens e dissipa a inquietação gerada pela incerteza dos começos. Desafio à entropia, à ação dissolvente que o tempo exerce sobre todas as coisas naturais e artificiais, ele tenta combater a angústia da morte e do aniquilamento.“ Etmologicamente, o monumento está ligado à memória, ao fazer lembrar, ao tornarpresente, de alguma forma, um acontecimento, uma lembrança do passado. Com opropósito de chamar a atenção pela emoção segundo Choay, pode-se chamar demonumento as construções que objetivam rememorar um acontecimento. Estes marcos sãovitais para a preservação da identidade de um lugar, de uma comunidade. E atuam comosegurança contra o esquecimento. Hoje, esta função assume largas proporções e constituigrandes debates. Para a sociedade contemporânea (urbana) lembrar é uma atividade poucousual, as informações podem ser armazenadas, o presentismo é o marco atual. Osmonumentos que encontram-se na área urbana, nos locais públicos tornaram-se invisíveis,estão perdendo a referência espacial diante das constantes modificações que o espaço e elepróprio vem sofrendo ao longo dos anos. Se não são percebidos, perdem a referênciatemporal, perdem sua finalidade, sua essência que é fazer lembrar, rememorar umacontecimento. O que culmina para o esquecimento, a desvalorização da obra e a perda dahistória, comprometendo assim a identidade do lugar. Os monumentos aqui tratados constituem referência a fatos históricos de relevantesignificado não só para a cidade de Manaus, mas para o Estado, para o Brasil e outrospaíses. Têm, portanto, a função de fazer com que novas gerações rememorem estesacontecimentos. Embora esta função necessite ser reavivada, as obras encontram-se aindaerguidas prontas para fazer lembrar a quem dela se aproxime. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 71
  • 72. A própria Choay coloca que o monumento aos poucos foi tendo o seu ideal dememória substituído pelo ideal de beleza e explica dois motivos. O primeiro devido àvalorização do significado estético da arte, da busca pela perfeição e na riqueza empregadana obra. O segundo, o surgimento da imprensa, que confinou a memória à escrita, aoslivros, à enciclopédia. Dos quatro monumentos analisados dois possuem riqueza estética,mas também referem-se a fatos de grande relevância para a região (a criação da Provínciado Amazonas e a abertura dos portos do Estado a outras nações). Um outro que representa aelevação da vila de Manaus à categoria de cidade, é uma obra muito simples. Mas todosapresentam um valor histórico, constituem-se monumentos por permanecerem inseridos nacidade mutante e sofrendo intervenções. Para uma compreensão dos significados dosmonumentos no centro histórico de Manaus, é necessário estuda-los individualmente.Foram selecionados quatro monumentos: Monumento à Tenreiro Aranha, Monumento àAbertura dos Portos, Monumento à Nossa Senhora da Conceição e Obelisco, emhomenagem à elevação da vila à categoria de cidade.Monumento à Tenreiro Aranha Esta obra, uma das mais belas e monumentais da cidade, foi feita na Itália porEnrico Quattrini. A escultura é de bronze, 2,00m de altura, aproximadamente. O pedestal de6,30m, granito rosa lavrado. A base do pedestal também é de granito. O monumentoapresenta quatro placas de identificação, uma em bronze, onde a tintura verde dificulta aleitura das inscrições. Esta obra clássica é uma homenagem à Elevação do Amazonas àCategoria de Província e a seu fundador João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha 134. Foi134 João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, nasceu em Belém a 23 de junho de 1798. Filho do poetaBento de Figueiredo Tenreiro Aranha e D. Rosalina Espinosa Solkman Tenreiro Aranha. Aos 14 anos, jádespertava admiração no campo da matemática. Começou a trabalhar cedo. Estava no esquadrão de Cavalariaquando aconteceu a proclamação da nova Constituição, abandonou o cargo e se uniu à esquadra. Foiperseguido por causa de suas idéias em favor ao Brasil, publicadas no “Periódico Paraense” e por participarde movimentos tendentes a reconhecer a independência e aclamação de D. Pedro I, no Pará. Durante suacarreira política, foi eleito deputado provincial de 1840 a 1849, ininterruptamente. Nas legislaturas de 1848 e1849, serviu na Assembléia Geral, como deputado pelo Pará, que então, compreendia o Amazonas. Nesseperíodo se deu a elevação do Amazonas à Categoria de Província. Em sessão de 7 de novembro de 1849,apresentou a seguinte declaração: “Indico que se dirija uma representação à Assembléia Geral Legislativa,para que a Comarca do Alto Amazonas seja elevada à sua antiga categoria de Província”. Em 1850, sendocriada a Província do Amazonas, é nomeado seu primeiro presidente, conforme decreto imperial de 7 dejunho de 1851. “A escolha de Tenreiro Aranha – diz Arthur Reis - para a presidência da nova Província nãopodia ser mais acertada. Dados os seus conhecimentos das necessidades vitais da região, o ardor de suasatitudes sempre claras e a atividade desinteressada que revelara na obtenção da grande medida pleiteada pelo Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 72
  • 73. colocada primeiramente na antiga praça Tamandaré, hoje Adalberto Vale, montada porSilvio Centofanti (assistente de Domenico De Angelis135) e Raffaelis Marchesi, em 1907.Em 1932 foi retirada daí e colocada na Praça 5 de Setembro 136. As pessoas acomodam-sena base do pedestal e a própria escultura já foi usada como suporte para enfeite da praçadurante a copa do mundo de futebol de 1998. É espantoso como se consegue chegar aopescoço da escultura, amarrar-lhe os enfeites sem que nenhuma providência contrária sejatomada. A peça que encima o monumento é ricamente detalhada, na expressão da figura, emsua roupa e principalmente no panejamento que cobre o suporte onde a figura se apóia.Nota-se também a presença dos pombos, responsáveis por parte da sujeira que encobre osmonumentos. As duas crianças, guardiãs do brasão dos Estados Unidos do Brasil,representam simplicidade, inocência, mas principalmente começo e plenitude depossibilidades, para uma província recém criada. Ypiranga Monteiro137 cita em sua obra, os conflitos em torno do monumento. Oprimeiro deles diz respeito à data, posto que existem documentos que atestam o lançamentoda pedra fundamental em 5 de setembro de 1883, sendo que o monumento foi inaugurado a5 de setembro de 1907. Outra dúvida é a que ou a quem o monumento homenageia. Noprojeto consta a intenção de homenagear a data da inauguração da Província, pois já haviaum monumento em homenagem à abertura dos portos (outro fato importante para a históriado Estado). Este monumento deveria ter um busto de Tenreiro Aranha, como umagradecimento aos serviços prestados ao Amazonas. Este projeto foi apresentado em 11 demaio de 1883 e em 5 de junho do mesmo ano, Bento Aranha (filho do homenageado)encaminhou modificações que foram: um aumento na verba para a construção e asubstituição do busto por uma estátua. O projeto ficou parado até o governo de Eduardo Ribeiro, que autorizou e elevou asverbas para a construção do monumento, que só foi inaugurado em 5 de setembro de 1907,povo da comarca, ninguém, no momento, com melhores credenciais para o alto cargo. Estava naturalmenteindicado”. Durante sua curta estada no cargo, deu início a várias obras na nova província. Faleceu em 19 dejaneiro de 1861, vítima de incêndio, em Belém. (Fonte: BITTENCOURT, Agnelo. Dicionário Amazonensede Biografias. Vultos do Passado. Rio de Janeiro: Editora Conquista, 1973.)135 Domenico De Angelis veio para executar a decoração do Salão Nobre do Teatro Amazonas, sendotambém o mentor do projeto do Monumento à Abertura dos Portos, da Praça São Sebastião.136 MESQUITA, O. M. op. cit. p. 290/292.137 MONTEIRO, M. Ypiranga. História do Monumento à Província. Manaus: EDUA Editora daUniversidade do Amazonas, 1999. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 73
  • 74. na antiga praça Tamandaré (atual Adalberto Vale). Sendo transferido desta, em 1932, para apraça 5 de setembro, para a qual foi concebido. Monteiro138 narra um fato curioso: omonumento teve seu pedestal danificado por um raio no dia 25 de janeiro de 1958, que foireparado dias depois. Em imagens antigas, vê-se o monumento ao centro com todas as „trilhas‟da praçaconvergindo para ele. Com as modificações ocorridas no traçado deste espaço público, omonumento ficou deslocado do centro e com uma vista que não o valoriza tanto. Ummonumento que registra a memória da criação da Província do Amazonas, o marco daindependência política do Estado, merece mais atenção. Como as placas estão deterioradas,dificultam a identificação das informações contidas nelas. No pedestal, face frontal, podemos ler: TENREIRO ARANHA 1798 – 1861 FUNDADOR DA PROVÍNCIA DA AMAZONAS Na face lateral esquerda vemos: OFERTA DA MUNICIPALIDADE DE MANÁOS POR INICIATIVA DO SUPERINTENDENTE CORONEL ADOUPHO GUILme DE MIRANDA LISBOA MCMVII Na face direita: ERGUIDO NO GOVERNO DO CORONEL DR. ANTONIO CONSTANTINO NERY Na parte de trás, as inscrições não são mais tão visíveis, mas Ypiranga Monteiro139as transcreveu: LEI No 502 DE 5 DE SETEMBRO DE 1850 ELEVA A COMARCA DO ALTO AMAZONAS NA PROVÍNCIA DO GRÃO PARÁ À CATEGORIA DE PROVÍNCIA COM A DENOMINAÇÃO DE PROVÍNCIA DO AMAZONAS.138 Idem.139 MONTEIRO, Ypiranga. Op. Cit p. 35/36. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 74
  • 75. Dom Pedro, por graça de Deus e Unânime Aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e defensor perpétuo do Brasil; Fazemos saber a todos os nossos Súbditos que a Assembléia geral decretou, e Nós Queremos a Lei seguinte: Art. 1o – A Comarca do Alto Amazonas na Província do Grão Pará, fica elevada a categoria de Província, com a denominação de Província do Amazonas. A sua extensão e limites são os mesmos da Antiga Comarca do Rio Negro. Art. 2o – A Nova Província terá por capital a Vila da Barra do Rio Negro, enquanto a Assembléia respectiva não decretar a sua mudança. O monumento a Tenreiro Aranha é um marco do Brasil império presenteprincipalmente nas informações acima citadas. Como uma obra encomendada pelo Estado,objetivava imprimir na sociedade lembranças de um Imperador “defensor perpétuo doBrasil”, que concede a independência do Amazonas, da Província do Grão Pará, tornando-otambém província. Hoje sabemos que isto não correspondeu à realidade, mas não é por issoque vamos desconsiderar o monumento. Ele é importante justamente por ser um registrodesse momento histórico, dos ideais, dos pensamentos daquela época, das intenções oficiaisdo Estado. É importante para que se pesquise sobre a história extra-oficial e o monumentoestá presente para ser confrontado, para ser usado como prova, como testemunha histórica,por isso não pode ser alterado. Todos os conflitos em torno de sua construção ainda nãoestão de todo resolvidos e a história da elevação do Amazonas à categoria de Província geraainda grandes discussões. Sabe-se que Tenreiro Aranha foi denominado 1o presidente darecém criada província em 1850, mas só chegou a assumir em 1852 e por pouco tempo.Sabe-se que atuou na criação da lei, embora o desenrolar do processo tenha contato comoutros heróis anônimos. Merecia ele encimar o monumento? Mas ele está erguidoesperando que se questione todos os fatos a que ele tem a função de não deixar esquecer.Monumento à Abertura dos Portos Este grandioso monumento foi erguido em 1900, por iniciativa do Governo doEstado. Foi construído na Itália, projetado por Domenico de Angelis (o decorador do SalãoNobre do Teatro Amazonas) e executado por Enrico Quatrini. Este monumento apresenta notável valor histórico e artístico. Histórico por marcarum acontecimento de grande relevância política, econômica e cultural do nosso Estado.Artístico pela escolha do artista, a composição temática, o rico material utilizado (a peçaem bronze e o pedestal em granito rosa lavrado) e a monumentalidade da obra. Apresenta Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 75
  • 76. características como a multiplicidade do barroco, com a preocupação em ocupar os espaçoscom detalhes (âncoras, cabeças, serpentes, brasões) e o tratamento dos panos do grupo embronze. Observa-se também características maneiristas, como as múltiplas faces que ganhaeste grupo, devido ao envolvimento entre a figura principal e a figura representativa dodeus do comércio. Desta forma, é necessário andar ao redor da obra para apreciá-la na suatotalidade. Na restauração de 1989, o monumento ganhou o gradil de proteção. Infelizmentenão há proteção contra os pombos que sujam a peça inteira, principalmente em locais dedifícil acesso. O Monumento dedicado à Abertura dos Portos, juntamente com o Teatro Amazonasconstitui um dos cartões postais da cidade. É um dos pontos turísticos mais visitados. Cada nave representa um continente, a que representa o continente americano, trazna embarcação o padrão de uma nave escandinava. O continente europeu vem caracterizadopor uma nave romana que traz à frente um pássaro. A criança segura o globo terrestre eacena de forma simpática. A barca que representa a África tem o estilo de nave fenícia, trazuma cabeça humana e sobre ela a criança com os dentes de marfim, como uma menção àriqueza do continente. A barca da Ásia é uma nave turca com uma cabeça de leão, a criançasobre ela carrega uma espécie de vaso. Próximo às barcas podem ser vistas as âncorasdecoradas. As figuras que encimam o monumento ajudam a compor as múltiplas faces da peça:a figura central e sua esvoaçante vestimenta, o Deus do comércio e as crianças que brincamcom os potes. Nele a beleza e riqueza do material juntamente com o trabalho artísticocompletam o rico e expressivo monumento.Monumento à Nossa Senhora da Conceição Este monumento é rodeado por quatro placas de mármore com informações sobreseu significado. Como pode ser lido na placa da face frontal, trata-se de uma homenagem aFrancisco Orellana, que navegou por todo o Rio Amazonas em 1542. Na parte posterior ahomenagem é ao 1o Congresso Eucarístico realizado em Manaus, que comemorou os 50anos de criação do bispado. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 76
  • 77. No pedestal face frontal: EM PREITO DE GRATIDÃO A DOM FRANCISCO DE ORELLANA E AOS SEUS COMPANHEIROS NO QUARTO CENTENÁRIO DO DESCOBRIMENTO DO RIO NEGRO AS ADMINISTRAÇÕES DO ESTADO DO AMAZONAS E DA PREFEITURA DE MANAUS MANDARAM CONSTRUIR ÊSTE MONUMENTO. 3.6.1542 3.6.1942 Na placa da face posterior: PARA LEMBRAR AOS POSTEIROS O 1o CONGRESSO EUCARÍSTICO DIOCESANO DE MANAUS OMEMORATIVO DO CINCOENCETENÁRIO DA CRIAÇÃO DO BISPADO A PREFEITURA MUNICIPAL ERGUEU, SOB AS BÊNÇÃOS DO POVO, ESTE MARCO À NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, PADROEIRA DO AMAZONAS. 5 – 5 – 1892 4 – 6 – 1942 Na placa da face lateral direita lê-se: MANAUS AGRADECIDA AO SEU 1o BISPO DOM JOSÉ LOURENÇO DE AGUIAR O ORGANIZADOR DA DIOCESE. Na lateral esquerda: MANAUS DE JOELHOS DIANTE DE LEÃO XIII PAPA DOS OPERÁRIOS E CRIADOR DA DIOCESE. Como atestam as placas, o monumento foi inaugurado em junho de 1942, poriniciativa do Estado e da Prefeitura de Manaus, em decorrência do 1o Congresso EucarísticoDiocesano de Manaus que comemorou os 50 anos de criação do bispado na cidade. Comoparte das comemorações houve uma procissão fluvial de Belém a Manaus, subindo o rioAmazonas. O nome da praça foi modificado de Praça Antônio Bittencourt para Praça doCongresso140. A escultura que encima o monumento, originalmente uma peça em mármorebranco, foi modificada recebendo uma pintura na intervenção feita na praça em 2001.Apresenta similares do estilo barroco como a vestimenta e as formas de anjos aos seus pés.Está sobre uma base de cimento que não faz uma composição harmoniosa com a peça,posto que é desproporcional a ela e o material e as cores utilizadas o torna um componente140 Manaus ontem e hoje. Manaus: Prefeitura Municipal, 1996. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 77
  • 78. alheio à própria peça, como se fossem duas obras distintas. A desproporção do pedestal emrelação à peça artística, talvez na intenção de valorizar o monumento obteve, na verdade,um resultado oposto. A obra fica alta demais, o que impede a observação de seus detalhes eacaba por comprometê-la. Um outro fator é a sua colocação junto a um cenário muitograndioso para a peça, que tem ao fundo o prédio do Instituto de Educação do Amazonas,também com o intuito de dar-lhe um lugar de destaque acabou-se por minimizar a obra. É chamado de monumento porque prevê a memorização da realização do 1oCongresso Eucarístico, sendo que na ocasião o bispado comemorava 50 anos de criação eeste ano (2003) completa 101 anos; e também por registrar a viagem feita por todo o RioAmazonas em 1542, pelos espanhóis. É uma obra negligenciada pela Igreja posto que nãose realizam eventos religiosos em suas proximidades, muito menos é levado emconsideração sua homenagem a Francisco Orellana. No entanto, é conhecida pelosestudantes e freqüentadores da praça que empregam ao monumento outra função, a desuporte para cartazes e avisos. O monumento necessita freqüentemente de limpeza, para aretirada destes cartazes e das marcas da pichação. Quem freqüenta a praça não lê as placasde mármore que explicam o significado da obra.Obelisco O obelisco, de aproximadamente 4m de altura, fica em frente à entrada do Portode Manaus, no limite da Av. Eduardo Ribeiro. É um monumento em comemoração ao 1ºCentenário da Elevação da Vila da Barra do Rio Negro à Categoria de Cidade (1848-1948), conforme informações na própria peça. Tais informações também esclarecem quesob projeto de Branco e Silva141, o monumento foi construído por Tupinambá Nogueira e141 Branco e Silva nasceu em Manaus em 1896 e foi registrado como Leovegildo Ferreira da Silva. Estudouno Liceu de Artes de Lisboa, Portugal. Dentre suas inúmeras obras destacam-se: Presépio Maravilha,premiada em vários congressos eucarísticos e detentora de duas Menções Honrosas e um Diploma doVaticano, como 1o lugar em Arte Sacra, na II Feira Nacional da Indústria, São Paulo – 1949; Santa Ceia, outraobra de arte sacra, com esculturas em tamanho natural, numa fiel reprodução da versão de Delin Frères, deParis, autorizada pelo Vaticano e colocada em exposição no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo horizonte eRecife; Lendas e Fatos Amazônicos, esculturas em tamanho natural, evidenciando o Belo e Horrível dasprincipais lendas e fatos amazônicos, tendo sido colocada em exposição no Rio de Janeiro, São Paulo eManaus, com relevante sucesso. Como pintor de retratos, alcançou fama nacional com o quadro de corpointeiro do então Presidente Getúlio Vargas, que se encontra no Museu da República. Como artista plástico, Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 78
  • 79. as placas de mármore colocadas pela “A Reformadora Marmoraria”. Formalmenteapresenta três faces lisas e na face frontal, parte superior, as datas referentes aocentenário. O pedestal de cimento pintado de vermelho possui arabescos na parte inferiore superior. Nas quatro faces do pedestal encontram-se placas de mármore, onde estãodiscriminados os nomes que compunham, na época, o Governo do Estado, o Tribunal deJustiça, a Assembléia Legislativa, bem como a Representação Federal. Na face frontal do pedestal, parte superior lê-se as datas de 1848 e 1948 e na parteinferior: 1o CENTENÁRIO DA ELEVAÇÃO DA VILA DA BRARRA DO RIO NEGRO À CATEGORIA DE CIDADE Na placa de mármore, face frontal: GOVERNO DO ESTADO Governador – Leopoldo Neves Secretário Geral – Péricles Moraes Chefe De Polícia – José A. T. Borborema Polícia Militar – Cel. Antonio Bitencourt Fazenda Pública – Almachio Braule Pinto Imprensa Oficial – Mithridades Correa Educação E Cultura – Fueth Paulo Mourão Saúde – Alberto Carreira Fomento – Ademar Thury Estatística – Manoel Alexandre Fo Serviços Técnicos – Jatir Paui Economia Agrícola – Paulo Almeida Águas – Antonio Oliveira Rodovias – Vilar Câmara Na face lateral direita:fiel e autêntico acadêmico, jamais se distanciou do que denominava realismo, não aceitando imposições damoda, mas respeitando as tendências e valores dos “transformistas”. A maioria de suas telas expressa anatureza amazônica, segundo a sua própria ótica, ou seja, “Sublime e Cruel”. Branco e Silva foi o restauradordas obras de Capranesi e Domenico D‟Angelis. (Fonte: Centro de Artes – Chaminé – Catálogo. Manaus,Imprensa Oficial do Estado, 1993).Na praça da Matriz, o busto de Floriano Peixoto também leva sua assinatura e data de 1966. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 79
  • 80. TRIBUNAL DE JUSTIÇA REPRESENTAÇÃO FEDERAL Presidente Desembargador Senadores Marcílio D. de Vasconcelos Álvaro Maia Desembargadores Severino Nunes Artur Virgílio Waldemar Pedrosa Stanislau Afonso Deputados Jorge Carvalhal Alexandre Carvalho Leal Raimundo Pessoa Antonio Maia Sadoc Pereira Antovila Vieira André Araújo Cosme Ferreira João Corrêa Francisco Pereira da Silva João Machado Leopoldo Peres Felismino Soares Manoel Anunciação Procurador Geral Vivaldo Lima Leôncio de Salignac Na face lateral esquerda: ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA Presidente – Menandro Tapajós Deputados Plínio Ramos Coelho Abdul de Sá Peixoto Thomaz Meirelles Alexandre Montoril Areal Santo Artur Virgílio Fo Áureo Melo Danilo Corrêa Homero de Miranda Leão Jaime Araújo João Fábio de Araújo Josué Cláudio de Souza Mendonça Jr. Nobre da Silva Paulo Jobim Raymundo N. da Silva Anderson de Meneses Almeron Caminha Aristophano Anthony Augusto Montenegro Carlos Melo Gama e Silva Jackson Cabral João Veiga José Negreiros Júlio de Carvalho Fo Ney Rayol Paulo Pinto NeryPatrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 80
  • 81. Valdemar Machado e Silva No pedestal, face posterior: PREFEITURA MUNICIPAL Prefeito Raimundo Chaves Ribeiro Secretário Oscar Rayol Câmara Municipal Presidente Adriano Jorge Vereadores Paulo Gonçalves Oséas Martins Raimundo Coqueiro Mendes Rodolfo Vale Sérgio Pessoa Neto Walter Rayol E em um canto do monumento a placa: Projeto do Obelisco Branco Silva Construção Tupinambá Nogueira O obelisco é um pilar de pedra alto e agulhado com estrutura quadrangular e ápicepiramidal. Por estar apontando para o alto, no Egito era símbolo de culto ao deus-sol;significa também a ligação entre a terra e o céu. Seu caráter de apontar para o alto, elevar,talvez justifique a escolha da peça para simbolizar este acontecimento de grandeimportância para o Estado, embora na execução não se tenha levado em conta a estética. De acordo com o Jornal do Comércio, na data de sua inauguração, toda asociedade esteve presente: “E não resta dúvida que o ponto mais alto das comemorações foi o ato inaugural do belo obelisco erguido à entrada da cidade, assinalando a primeira centúria de Manáus. Ali, a população confraternizou, rendendo tributo de homenagem a seus dirigentes, que tão fielmente interpretaram seus sentimentos, Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 81
  • 82. demorando-se todos na admiração do monumento magnífico, que guardará para as gerações vindouras a lembrança dêste instante glorioso da nossa história”.142 Na face frontal do obelisco, parte superior vê-se as datas, emolduradas por ramosde louro e abaixo, os dizeres referente a elas. As placas de mármore encontram-se sujas,pichadas e com algumas bordas rachadas.Valor estético e valor histórico Segundo Argan, podemos tratar a obra de arte de duas maneiras diferentes: “Uma vez que as obras de arte são coisas às quais está relacionado um valor, há duas maneiras de trata-las. Pode-se ter preocupação pelas coisas: procura-las, identifica-las, classifica-las, conserva-las, restaura-las, exibi-las, compra-las, vende-las; ou, então, pode-se ter em mente o valor: pesquisar em que ele consiste, como se gera e se transmite, se conhece e se usufruiu.”142 Jornal do Comércio. Número avulso. 26 de outubro de 1948. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 82
  • 83. (Capítulo 4) Considerações finaisManaus: Memória e Patrimônio na sociedade contemporânea Argan explica que nas grandes cidades o homem já perdeu o seu poder de pensar, conceber e, compreender sua realidade. A própria metrópole o sufoca, fazendo-o dominar ou suportar o domínio. A corrida angustiante por um emprego ou por melhores salários e reconhecimento profissional, torna a realidade do homem objeto de um sucesso ou de um fracasso143 . Tudo precisa acontecer num espaço mínimo de tempo. Não se faz mais projetos a longo prazo, os resultados precisam ser imediatos. A humanidade já viveu um momento histórico com essa mesma angústia. Noperíodo barroco, as pessoas sofreram com a conscientização da brevidade da vida, docaráter passageiro das coisas, do tempo implacável e contínuo, diante disso tudo estava ohomem, sendo consumido pelo tempo ou pela angústia daquilo que não volta. Hoje,percebemos, com tantas pesquisas, a luta do homem para deter, controlar o tempo; sejacom medicamentos para prolongar a vida de quem foi acometido por doenças, outroraincuráveis, ou mesmo pela oportunidade de produzir a vida além dos processos naturais;seja pela louca corrida atrás da eterna juventude, não mais apenas com cosméticos ouacademias, mas com o uso de cirurgias que dão um resultado mais rápido; pela corridapor negócios (ou um casamento) que enriqueçam mais rapidamente, sem muitos esforços.Tudo se quer de uma forma muito imediata porque a comunicação nos mostra novidadesa todo instante e nos incita a consumir. Esta é a nossa sociedade atual, que precisa possuir riquezas o mais rápido possívelpara acompanhar as tendências da moda que mudam, não mais a cada estação, mas a cadanovela, programa ou celebridade que aparece na TV. Com essa mobilidade louca dotempo presente, falta-nos tempo para entender tanta correria, e as transformações que estemomento está operando nas nossas vidas e na cidade, que está em crise. Argan144 fala da crise da cidade como crise da arte e do objeto. O objeto comoproduto industrializado está cada vez menos „simpático‟. O fascínio pelas máquinas étanto que a produção de aparelhos „robotizados‟, com luzes e sons que lembram as navesde extra-terrestres dos filmes de ficção científica, aumenta a cada dia. Novos modelos,com design ainda mais avançado surgem a todo momento. A corrida por produtosmodernos, um referencial da nossa sociedade de consumo, é o que alimenta esta produção143 ARGAN, G.C. op. cit. p. 7.144 Op. cit. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 83
  • 84. excessiva. Na verdade é um círculo vicioso em que estamos mergulhados: compra-semuito porque há sempre novos produtos e produz-se mais porque o consumidor exigentevai em busca de novidade. Mumford145, assim como Argan coloca que o homem contemporâneo ou pós-histórico, à medida do que vai acontecendo, pode perder progressivamente o seusentimento, emoção, audácia criadora e até mesmo sua própria consciência. E quanto àcidade, esta será desintegrada, ficando apenas um centro subterrâneo de controle146. Movidos pelo consumo, precisamos cada vez mais de espaço para as novidadesque são produzidas. Diante disso, todo espaço precisa ser convertido, remodelado,reestruturado para as novas necessidades. Por causa disso nossas praças vão aos poucosperdendo sua função, beleza e identidade. Sendo transformadas de acordo com o novoprojeto do mais novo administrador. Atendendo assim a uma exigência que já se sabe quepouco vai durar, porque as coisas hoje são feitas para a brevidade e para seremreaproveitadas. O espaço do Centro Histórico de Manaus, além de ser um bairro, abriga o centro comercial, a área de maior movimento da cidade. Passou por inúmeras mudanças, algumas atendendo ao Centro Histórico, outras atendendo ao centro comercial. Essas mudanças, produziram disformidades, desigualdades de formas entre dois momentos históricos da cidade que parecem competir pela sobrevivência, ganhando claramente a área comercial, que dividida entre a formal e a informal, também compete entre si. Essa competição produz uma poluição cada vez maior. ... a metrópole não é mais cidade, mas um sistema de circuitos de informação e de comunicação; o objeto é substituído pela imagem, pela escrita luminosa. A arte, que produz objetos-que-têm-valor, é substiuída por uma experiência estética, cuja finalidade não pode ser outra que a criação de imagens-choque, de sinais, de notícias – elementos urbanísticos.147 Sobre este comentário, fica mais claro entender a poluição visual do centro. Trata-se dos chamados “elementos urbanísticos”, as placas luminosas, out door e faixas que encobrem as fachadas dos prédios antigos e transformam os objetos artísticos em peças que, sem brilho, passam despercebidas na correria do centro. É uma característica da nossa época, o excesso de som e de imagens. Uma sociedade capitalista e consumista pede e produz apelo visual muito forte. Desta forma, o centro de Manaus, por exemplo, já deixou de ser um conjunto. Está fragmentado visualmente, cada loja apresenta placas com tamanhos, cores, formatos e brilho diferente, com o objetivo de chamar mais a atenção dos consumidores. Assim, nossos olhos bombardeados com tanta informação visual, já não conseguem captar com interesse as imagens de esculturas e monumentos de outras épocas, cujo material como ferro, bronze e mármore, tornam-se opacos diante dos vários „neons‟ do urbanismo contemporâneo. Diante de tudo isso nos perguntamos: para que serve o Patrimônio hoje? O que fazer para preservá-lo? Glauco Campelo nos dá uma dica: Se, por um lado, para atender o significado mais amplo do patrimônio cultural urbano, teríamos, antes de mais nada, de conhecer a cidade, vemos, por outro, que a memória histórica e afetiva, selecionada pela visão de seus habitantes, desempenha um papel fundamental para o resguardo de sua unidade e continuidade.148 Primeiramente é necessário que a sociedade saiba do valor histórico e artístico de seu patrimônio e se sinta presente no processo histórico de sua cidade. As escolas precisam trabalhar mais a História Cultural do Amazonas e da Cidade de Manaus em sala de aula. Esta é uma disciplina quase extinta. Não se pode conscientizar a população de sua história se não atingirmos as escolas.145 Op. cit.146 Idem, p. 10.147 ARGAN, G.C. op. cit. p. 08.148 Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Op. cit. p. 125. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 84
  • 85. É na sala de aula que o indivíduo começa a conhecer o mundo e a enraizar em seu caráter valores que o acompanharão por toda a vida. Se trabalharmos com crianças e jovens o conhecimento e a valorização do nosso patrimônio estaremos criando condições de preservação e conservação de nossos valores culturais e artísticos. Argan vai além, dizendo que Não é apenas genericamente cultural, mas especificamente científico o problema da restauração dos monumentos e das velhas casas dos centros históricos. Porém, é bom nunca esquecer que as cidades são “bens culturais” em seu conjunto e que, portanto, é inútil sanear bairros antigos se não se cuida, ao mesmo tempo, de lhes restituir uma função que não seja artificiosa. Os critérios de restauração rigorosa e, ao mesmo tempo, de conservação da população que tradicionalmente habitava os centros históricos deram, em certos casos, um bom resultado, que, porém, seria muito difícil conseguir na cidade, onde não se conserva a antiga tradição artesanal e as pessoas tendem a abandonar os velhos centros para irem viver em horríveis periferias que consideram mais cômodas e modernas. Um grande problema cultural da arquitetura moderna, portanto, é a reanimação dos centros históricos, que não se podem condenar a uma existência puramente de museu. É claro, todavia, que tal reanimação só é concebível no âmbito de uma revisão e reforma de todo o complexo urbano: se os centros históricos podem morrer esmagados sob o peso das periferias, não é possível imaginar a recuperação do centro histórico sem o beneficiamento das periferias.149 Diante dessas palavras vemos o nosso Centro Histórico, cercado por palafitas, feiras mal estruturadas, pedintes e menores infratores. Este conjunto constitui o espaço urbano que precisa ser reorganizado para que o Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural seja revitalizado. Um segundo passo seria a divulgação deste patrimônio. Com uma populaçãosatisfeita, sendo atendidas as suas necessidades básicas e participando diretamente dapreservação de seus bens, estaríamos prontos para a atrair turistas para a nossa cidade.Precisaríamos de placas de identificação em nossas ruas, edifícios e monumentos. Osprédios estariam prontos para serem visitados, contendo panfletos sobre seu histórico.Temos muito o que mostrar em Manaus: os belos prédios, registro de uma arquiteturabem projetada, o famoso Teatro Amazonas; as casas antigas e seus diversos estilos; osmonumentos e esculturas trazidos da Europa, entre outras coisas. O governo está investindo em turismo e todo esse investimento pode retornar ao Estado, se empregado corretamente. Uma cidade limpa, bonita e com uma população saudável e feliz, certamente atrairia multidões de visitantes e milhões em dinheiro. Os próprios órgãos que zelam ou, deveriam zelar, pelo patrimônio, o perdem e o destroem. Mas isso não acontece apenas em nossa cidade, é uma realidade brasileira. As cidades citadas neste texto mais Salvador, são as que se conhece que tem política séria em relação ao patrimônio. E ainda se fala tanto em turismo. Mas é necessário muito investimento em nossas cidades para que se possa atrair turistas. Ora, se colocarmos nosso patrimônio em evidência e com uma plaqueta indicando que é nosso, as pessoas virão e o dinheiro para mantê-lo também. Com isso, não precisaríamos derrubar nossos prédios antigos. A cidade antiga seria atração dentro da nova, que continuaria a existir com seu comércio. Ambas seriam evidenciadas por apresentarem períodos diferentes da nossa história. E assim teríamos a continuação da nossa vida moderna, sem perdermos nossa memória e identidade. As palavras de Camillo Sitte podem finalizar estas considerações: A vida moderna e a moderna técnica de construção não mais comportam uma imitação fiel dos complexos urbanos antigos – e não aceitar essa conclusão significa entregar-se a um devaneio infrutífero. As magníficas obras antigas, verdadeiros legados pelos mestres do passado, devem permanecer vivas entre nós de outro modo que não através da imitação insensata; e apenas quando aprendermos sua essência e conseguirmos aplicá-la com sensatez às circunstâncias149 Op. cit. p. 249. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 85
  • 86. modernas é que será possível obter ainda uma colheita florida de uma terra que se tornou estéril.150150 Op. cit. p. 117. Patrimônio e Memória da Cidade – Evany Nascimento / Luiz Balkar Peixoto 86