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Senhor, dá-me bom senso / [Arno Frelich?]
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Senhor, dá-me bom senso / [Arno Frelich?]

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Polígrafo sobre a Oração do Crucifixo de São Francisco de Assis: …

Polígrafo sobre a Oração do Crucifixo de São Francisco de Assis:
http://www.estef.edu.br/arno/wp-content/uploads/2011/07/Ora%C3%A7%C3%A3o-Crucifixo-Estef1.pdf

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  • 1. Senhor, dá-me bom senso Introduzindo a leitura O modo de ler um texto sem preocupação alguma com a época histórica de seusurgimento, com seus múltiplos aspectos sociais, econômicos, políticos e ideológicos,e também com seu autor, pode ser considerado método “fundamentalista”. Estecarrega em seu bojo, indiscutivelmente, um risco enorme de fazer o texto dizer aquiloque já se tem na cabeça. Na prática, este jeito de ler é uma inversão do verdadeiroprocesso de leitura, pois, ao invés de “recolher” o sentido presente no texto, injeta neleum conteúdo pré-existente na mente do leitor. Pode-se dizer que gera uma profundatraição ao autor do texto. Quantos erros históricos já foram cometidos pela ausênciadessa precaução que deveria ser parte inerente do hábito de leitura1. A exegese bíblica e a hermenêutica têm dado contribuições significativas nestecampo. Há mais de século que elas vêm ensaiando métodos de leitura histórico-críticae, mais recentemente, de leitura sociológica, na sua pluralidade de suas formas.Partem de um pressuposto simples: “nada cai do céu fortuitamente”. Tudo participado processo de “causa e efeito”. Tudo é resultado de forças e elementos históricos queinteragem entre si. E mais, como os seres humanos históricos, isto é, seres que agem einteragem num determinado “espaço e tempo”, qualquer ação deve ser considerada,simultaneamente, “re-ação” (direta ou indireta, consciente ou não) a algum estímulo.Quanto mais forte foi uma ação (escrever um texto, por exemplo) mais forças(inter)agiram para gerá-la. A história é isso mesmo: não “uma sucessão sucessiva desucessos sucedidos no tempo” de forma linear, mas antes a convergência de múltiplasenergias que agem dialeticamente como as energias que movem o mundo. Uma delasprevalece e produz determinado fruto (= texto, decisão, ação histórica...), mas nuncaestá só. Por isso, um texto somente poderá ser mais adequadamente “lido” sepreviamente o leitor se fizer perguntas como (além, é obvio, da pergunta pelo que o1 Etimologicamente, a palavra leitura deriva de “legere” que em latim também significa “ajuntar, recolher”.Tanto que se pode encontrar na literatura latina frases como “légere triticum” para entender “recolher o trigo”.De fato, a leitura é o ato de recolher o significado dos sinais. Acontece que os sinais nunca são puramenteobjetivos. São produção humana, sempre contextualizada. Cada pessoa geralmente encontra um sentidodiferente para os mesmos sinais (texto), dependendo de sua capacidade de compreensão e de seu contextopessoal e social. Entende-se assim porque cada época histórica e cada contexto social privilegiem determinadascompreensões relegando outras a segundo plano. Além disso, a compreensão é, de per si, sempre uma interpretação. Esta requer certa distância entreleitor e texto e, sobretudo, consciência dos diferentes contextos entre leitor e escritor para uma leitura maisfidedigna e menos projetiva. Daí a importância também de tomar “consciência do lugar desde onde se lê”, paranão iludir-se com a pura objetividade. Além do mais, tenha-se presente que em todas as ciências humanas,mesmo na física, é consenso que não existe neutralidade de leitura e compreensão. Daí a importância de tomarconsciência do lugar “desde onde” se lê.
  • 2. Oração da Conversão 2texto diz diretamente): Quem é seu autor ou autores? Quando viveu (viveram)? O queacontecia naquela época em ambiente social (cidade, país, mundo)? E ele(s),pessoalmente, o que estava(m) sentindo ou porque dificuldades e êxitos estava(m)passando? Que opções o(s) autor(es) vivia(m), quer dizer, em que “lado do campo deforças ou em que partido combatia(m)”? A leitura é, pois, sempre um verdadeirodiálogo entre escritor e leitor, bem como entre os seus respectivos contextos históricos.Nada de estranhar, então, que para responder a estas perguntas se faça necessário, àsvezes, pesquisar demoradamente, sobretudo em se tratando de um texto antigo, muitodiverso do nosso, como são os textos de Francisco. Trataremos de levar isso a sérionesta leitura da oração de Francisco da qual pretendemos “recolher o sentido”. Este nosso ensaio de leitura será desenvolvido em duas partes. Na primeirafaremos a descrição do contexto existencial no qual brotou a oração. Essa análise docontexto oferecerá melhor compreensão do seu conteúdo. Depois, num segundomomento, nos ateremos propriamente ao significado das palavras empregadas porFrancisco na oração. Teremos, então, condições de também perceber a propriedade(fidelidade) da tradução, que é sempre um grande desafio. 1 – Contextuando a “Oração diante do crucifixo” A opinião tradicional era de que esta oração teria sido elaborada após a fala doCrucificado de São Damião, entre setembro e dezembro de 12052. A posição doeminente franciscanólogo K. Esser e outros é de que Francisco já vinha fazendo estaoração antes da “fala” do crucificado de São Damião”, talvez há um ano ou mais. Ocrucificado lhe forneceu a resposta à sua pergunta existencial sobre onde investir suasenergias, como abrir um novo caminho de vida. É interessante observar que as fonteshistóricas do fato não mencionem o conteúdo da oração em si, menos ainda areportam. Os códices, porém, que a oferecem são bastante próximos ao tempo, poucoposteriores a 1250, o que não deixa também de ser dado muito significativo para aautenticidade. Quatro fontes medievais relatam o fato do crucificado de estilo oriental (daescola siríaco-bizantina) ter falado para Francisco: A Legenda dos Três Companheiros13, 6-10(1240), 2Celano 10 (1248), 3Celano 2 e Legenda Maior de S. Boaventura2,1, de 1263. Das quatro fontes, indiscutivelmente, aquela que tem maior riqueza dedetalhes e que segue pormenorizadamente o desenvolvimento histórico é a Legendados Três Companheiros (LTC), escrita por um assisiense anônimo (um frade,provavelmente). É ainda, cronologicamente, a primeira delas. Quanto aos detalhes, àscircunstâncias e à leitura do fato em si ainda não há consenso sobre o que há de2 Na versão brasileira anterior se acrescentava no final: “que na verdade acabais de dar-me”.
  • 3. Oração da Conversão 3realmente de histórico ou de “experiência mística”. Cristo realmente mexeu os lábios efalou (2Cel 10), ou Francisco teve a sensação interior de que Cristo tenha falado, poisele vinha com essa busca intensa de uma resposta de Deus há muito tempo?Existencialmente, as duas modalidades têm o mesmo valor. E com certeza teria faladoapenas uma vez e não três vezes como Boaventura (LM 2,1,3), muito devoto àTrindade quer forçar. Mas para nosso objetivo esses aspectos não são relevantes 3. Por ser um texto que reflete a situação pessoal de Francisco, não se faz tãonecessário alongar-se no contexto social mais amplo. Interessa mais ter presente comclareza o contexto histórico-existencial. Tenha-se presente que eram dois a três anosque Francisco vivia nas trevas, impelido pela pergunta “Senhor, que queres que eufaça?” (AP 6,6), como São Paulo quando perseguia os cristãos no afã de fidelidadetotal a Deus. Quais realidades povoavam seu interior nesta época da vida? Tentaremosfazer memória de algumas. 1.1 – Os dois grandes conflitos que atormentavam Francisco Afinal de contas, um santo como Francisco vivia conflitos? E esses podiam sertão sérios a ponto de escurecer o horizonte de sua vida? Celano reconhece queFrancisco no tempo de sua conversão “suportava grandíssimo padecimento de espíritoe, enquanto não realizasse o que concebera no coração, não podia descansar;alternavam-se nele pensamentos vários, e a importunação deles perturbava-oduramente”(1 Cel. 6,10). Misturavam-se nele o “temor e o terror”. O psiquismo (odemônio) reage despertando os medos. Na prática, via-se refletido “numa mulhercorcunda e de aspecto horrível de Assis” (LTC 12, 4-5; 2 Cel 9, 4-5) (medo de ser malvisto e rejeitado) da qual todos fugiam. Na verdade, por que e quais seriam essesmedos e conflitos?a) O conflito dos projetos existenciais familiares (todos nós os temos. São projeções eexpectativas sobre nós – o que fizeram de nós). Ao nascer a mãe lhe põe o nome de João (LTC 2,1; 2Cel 3,1), em homenagema João Batista. Na visão bíblica dar nome é atribuir uma missão. Dona Pica (daPicardie, região da França ao norte de Paris), uma mulher que, segundo informações3 Vários estudiosos como Jean de Schampheleer (El crucifijo de San Damian yFrancisco de Asís, em SelFranc16(1984) p.341-405) acham pouco provável a versão de 2 Celano 10, e mais ainda 3 Celano 2, a respeito dasconseqüências desta manifestação do crucifixo, para quem a “fala” o teria feito apaixonar-se pela paixão doSenhor. É pouco provável que tenha originado em Francisco essa “enorme compaixão pelo crucificado,gravando em seu coração os estigmas da paixão”, neste momento da vida. Sem dúvida alguma, há aqui umanacronismo de Celano que escreve num momento em que os estigmas eram fortemente contestados, tambémpelos confrades dominicanos. Ademais, a fonte mais próxima e mais credível historicamente afirmaexplicitamente a grande alegria que vivia naqueles dias precedentes (LTC 13, 1-2) e que após a “fala” “ficourepleto de tanto júbilo e iluminado de tanta luz”. Ademais esta é a imagem de um crucifixo glorioso, segundo ateologia joanina, para quem a crucificação é uma exaltação, uma glorificação, uma elevação.
  • 4. Oração da Conversão 4 4ainda insuficientes, era muito piedosa e talvez tenha sido ao menos simpatizante dosmovimentos populares de penitentes (pobres de Lião?). Ela desejava profundamenteque o filho seguisse por essa estrada5. O pai, ao retornar da viagem, vendo o recémnascido, mudou seu nome para Francisco, porque desejava que este primogênito fosseseu continuador no seu sucesso econômico que provinha basicamente da França.Francisco (= pequena França) assim se chamaria, então, em homenagem à França.Colocava neste primogênito seu projeto pessoal: alcançar igualmente o status denobreza para sua descendência, além do progresso econômico. Fatos futuros da juventude de Francisco devem levar em conta esses projetosconflitantes do pai e da mãe que ele, pequeno, absorveu, como veremos mais abaixo.A mãe entendia suas extravagâncias, sua liberalidade com os pobres 6. O pai, ao invés,se concorda com as extravagâncias de festas e comidas pelas quais se fazia apresentarcomo líder social, ficava furioso quando o filho passou a ser liberal com os pobres e sealiou aos excluídos (LTC 16, 7-8; 19,1). Enclausurou-o na prisão domiciliar7, oameaçou severamente e, por fim, o processou judicialmente, deserdando-o, isto é,privando-o dos direitos de filho e de cidadania de Assis. Francisco viveu um profundoconflito entre estes dois projetos contrapostos. Mas que agora precisava optar 8 por um,já que os dois eram antagônicos (não se pode servir a Deus e a mamona). E que opção difícil! Para Francisco esta decisão lhe custou suor de sangue, poisse tratava de romper, ao mesmo tempo, com a mentalidade geral de vida, da qual o paiera fiel participante. Com certeza, a grande maioria de seus contemporâneos não seperguntaria absolutamente nada a respeito. Mas para Francisco, sempre desejoso de sermuito verdadeiro consigo mesmo, esta escolha se constituía em momento crucial, poisdeterminaria o norte de sua vida. Em Assis, todos os nobres e todos os burgueses eram4 Bernardo de Bessa diz que era “honestíssima” (LL 1,2). Quase nos mesmos termos se expressa Celano na suasegunda biografia (de modo totalmente contrário à primeira versão): “Esta mulher, amiga de toda a honestidadetrazia nos costumes insigne virtude, alegrando-se por algum privilégio pela semelhança com Santa Isabel, tantopela imposição do nome ao filho quanto pelo seu espírito profético” (2Cel 3,2).5 É interessante ler atentamente com esta ótica II Cel 3, 6-8, observando a mística e expectativa da mãe. A certaaltura Celano diz que o “nome de João convinha à obra do ministério que recebeu”.6 “A mãe que o amava mais que todos os outros filhos, permitia-lhe que assim agisse, observando tudo o quefazia e muito se admirando em seu coração acerca de todos os seus atos” (LTC 9, 1-3).7 1Cel 12,4; Jul 8,1; LTC 17,9; LM 2,2,7.8 Jean-Marc CHARRON, psicólogo, escreveu em 1992, “De Narcise a Jésus. La quête de l’identité chezFrançois d’Assise”, onde faz uma leitura aprofundada da elaboração que Francisco teve de fazer,psicologicamente falando, desta situação. O projeto do pai, calcado na dinâmica egocêntrica (força centrípeta),tem como a razão última do viver o engrandecimento do EU, ao passo que o projeto evangélico, assumido pelamãe, é in-formado pela dinâmica do amor que leva para fora (força centrífuga), em forma de doação e entrega. Aconversão deveria consistir, então, em passar de um projeto a outro, de uma dinâmica a outra. A primeiravisibilização histórica teria sido a passagem para o meio dos excluídos como ele reconhece no Testamento (1-3).A segunda seu processo de deserdação no final do qual pôde exclamar: “Agora posso dizer: Pai Nosso que estaisno céu, não pai Pedro Bernardone” (LTC 20,3). Porém, segundo esse estudioso, a terceira e mais decisiva teriaocorrido no Monte Alverne, por ocasião dos estigmas, em 1224, onde Francisco assumiu sua grande “derrotahistórica”, como Jesus Cristo na Cruz.
  • 5. Oração da Conversão 5cristãos e católicos sem conflito algum, como, por exemplo, seu pai e os familiares deClara de Favarone. Porém, Francisco, na esteira de sua mãe, provavelmente, dava-seconta que não se consegue servir, verdadeira e simultaneamente, a Deus e ao dinheiro(Cf Mt 6,24). Estes trilhos se distanciam progressivamente e é impossível ficar comum pé em cada um. Francisco não pode ser católico como os Assisienses!b) Que imagem de Cristo seguir? Por detrás de cada maneira de viver a fé se esconde sempre uma determinadaimagem de Jesus Cristo que justifica o procedimento adotado. Para Francisco foirelativamente fácil perceber este problema das “imagens de Jesus Cristo”, pois, desdesua prisão e aproximação dos pobres e leprosos, tornou-se clara a grande diferença, eaté contradição entre os diferentes modos de viver a religião. Por isso, este se tornououtro grande conflito. Francisco tinha diante de si ao menos duas propostas devivência da fé e duas cristologias: Em primeiro lugar, surge o Cristo pantocrátor, rei cósmico e glorioso, Mestreabsoluto, representado quer doutrinalmente pelos dogmas e anátemas apregoados pelateologia e magistério oficial, quer mediante a prática de uma Igreja detentora degrandes posses, em disputa do poder político e militar. Se ele ingressasse na hierarquiaou se fizesse monge beneditino viveria iluminado por esta compreensão cristológica,que imperava na Igreja institucional desde o século VII. Resquícios desta cristologianós encontramos ainda nas invocações freqüentes na missa “Deus todo-poderoso”...Nesta cristologia cabe tranqüilamente um “nobre cristão”, como eram seu pai ou o paide Clara, sua amiga, isto é, pessoas que vivem em função de seu projeto econômico-político, mesmo que sejam generosos em ofertas e fiéis na obediência à Igrejainstitucional, mas que não se deixam interpelar profundamente pelos valoresevangélicos. São cristãos que adaptam o evangelho a si, ao invés de eles seconverterem ao dinamismo evangélico. De outro lado, encontramos a imagem de um Cristo humano e sofredor,geralmente proposto pelos movimentos penitenciais. Esses movimentos insistiam nacoerência entre fé-vida. Pregavam, com veemência, que apenas um seguimento napobreza poderia conferir credibilidade aos sacramentos e à pregação (cátaros). Pareciaa Francisco ser este mais próximo aos Evangelhos. E irá chamá-lo, mais tarde, de“pobre, humilde e crucificado”. Mas a Igreja institucional, de modo geral, condenavaos grupos que defendiam essa cristologia. A qual Jesus Cristo deveria ele seguir nacondição atual de um simples leigo que era, sem o domínio dos grandesconhecimentos teológicos? A quem dar ouvido? Se seguisse (como todo o mundo fazia) a primeira proposta, a oficial, estariatranqüilo porque contaria com o amparo da instituição Igreja. Todavia, caso optasse
  • 6. Oração da Conversão 6pelo Cristo “pobre, humilde e crucificado”, aquele anunciado pelos movimentospenitenciais, não estaria enveredando pelo caminho da heresia que sempre circundavaestes grupos de cristãos, por mais sinceros que desejassem ser? A Igreja oficialafirmava exatamente isso. Por isso sente a necessidade de suplicar insistentemente:“Senhor, que queres que eu faça”. De fato, “che faça lo tuo santo e veracecommandamento” (que eu faça tua santa e veraz vontade) e não outra coisa. Nãohaveria um meio alternativo e igualmente fiel ao evangelho? “Illumina le tenebre!”(Desfaz as trevas, Senhor). Francisco tateia os novos caminhos, movido pelos fatos e pela força do Espíritoque age no íntimo das pessoas, imperceptivelmente. Assume, imerso neles, essesconflitos existenciais e busca com toda a intensidade e seriedade uma resposta, demuitos modos. 1.2 As buscas de Francisco Convém agora dar-se conta das buscas já em andamento em Francisco, quandoda experiência com o crucificado de São Damião9. Eis as tentativas de busca que ele jácultivava: a) A luta para sustentar o ideal impossível de ser nobre. Assis expulsara o conde de Verslingen em 1198, para se proclamar “Comuna” etambém afugentara os apoiadores do Conde, quer dizer, as cerca de vinte famílias denobres (entre as quais a família de Clara). Com parte das pedras da Rocca Maggiore,residência-fortaleza do Conde e sua guarda, os moradores de Assis, liderados pelosburgueses, construíram os muros da cidade. Francisco, então com 16 anos, líder dajuventude e próspero comerciante, estava, com toda a certeza, nesta empreitada deconstrução dos muros. Talvez até tenha aprendido os rudimentos da arte de pedreironeste momento da vida, o que lhe servirá para depois reconstruir as igrejas. De todo omodo, esta movimentação em torno do ideal da autonomia e independência de suacidade o agradava muito, bem como a seu pai. Sentia-se importante e isso parecia virao encontro à sua ânsia de grandeza que o pai incutira pela convivência. Na batalha de revanche dos nobres assisienses, apoiados pelos peruginos, emCollestrada, perto da ponte de São João, Francisco é aprisionado e permanece um anopreso nas masmorras de Perúgia, em condições subumanas. Um ano numa situaçãodessas fez o jovem Francisco, cheio de ideais de futuro, refletir muito sobre a vida e9 Não queremos colocar em dúvida o fato, mas é bom ter presente que Francisco nunca lhe faz menção alguma ealgumas das fontes mais antigas também não o mencionam (1 Celano, Juliano de Espira, Anônimo Perusino).Mesmo se o fato existiu (o que é bem possível) é consenso hoje que não se lhe pode atribuir todo o peso queCelano e Boaventura costumam dar.
  • 7. Oração da Conversão 7cair na real. Que é a pessoa humana? Onde está sua verdadeira grandeza? Como levaradiante o projeto de grandeza (o projeto paterno)? Será que ele é o melhor? Ao mesmotempo, o valor do projeto materno (o evangélico) começa a emergir com maiorintensidade. As poucas informações sobre seu comportamento na prisão já mostramque era uma personalidade10 capaz de misericórdia. Mas adoece gravemente na prisão,acometido pela malária11. É resgatado pela família, a fim de não morrer 12. Profundoabalo o deve ter dominado, quando soube da doença de que estava acometido. Quepoderia ele esperar de si mesmo, ainda que sobrevivesse ao primeiro e mais perigosoataque da malária? Ser cavaleiro? Como, com uma saúde em constante perigo?Quantos anos teria ele pela frente? De fato, este projeto de fama e grandeza estavadefinitivamente arruinado! Mas ele não queria se convencer disso, assim como muitaspessoas fazem ao serem informadas de doenças incuráveis. Celano diz que depois derefeito da crise da doença saiu à rua e começou a observar com curiosidade a regiãoque o cercava: “Mas nem a beleza dos campos, nem o encanto das vinhas, nem coisanenhuma que é agradável de se ver conseguia satisfazê-lo.“Admirava-se pela súbitatransformação de si mesmo e julgava estultíssimos os que amam as preditas coisas‟” (1Cel 3,5) O revés da guerra contra Perúgia e a doença não mataram completamentesua paixão pela nobreza. Ao se apresentar outra oportunidade de obter o título denobre, quando já refeito parcialmente da doença, se inscreve imediatamente. Querparticipar da guerra nas Apúlias, em 1204 ou 1205, ao lado do Conde Gentil. Aliás,qualquer pessoa carrega este dinamismo, em si, sadio, dessa forma. É um dadoantropológico estrutural. J.M. Charron se pergunta se é tão somente o desejo de ser cavaleiro ou tambémo de refazer-se do fracasso de mau soldado experimentado na guerra contra Perúgiaque o leva a inscrever-se na guerra das Apúlias. Ou ambas as hipóteses? Franciscotenta enfrentar o desafio, de novo. Arma-se ricamente como se fora cavaleiro. Navéspera da partida, porém, muito estranhamente, dá sua armadura a um soldado pobre(LTC 6). Por quê? Não será talvez porque não tem certeza se deve ir? E na noite dapartida tem um sonho (projeção) de um palácio magnífico e espaçoso, repleto deapetrechos militares e escudos resplendentes... “Tudo isso, inclusive o palácio, seriadele” (LTC 5,6). Francisco sente-se alegre, diz a todos: “Hei de me tornar um grande10 LTC 4, 2-4: Mostrava-se alegre, não abatido. Francisco reintegrou um companheiro isolado pelo grupo. Mas,ao mesmo tempo, seguia alimentando o sonho de grandeza: “ainda serei venerado pelo mundo inteiro”11 Veja-se os estudos de médicos coordenados pelo Pe. Octaviano Schmuki sobre as doenças de Francisco,publicados na Revista Laurentianum. O principal argumento dos médicos que ajudaram este estudioso a deduzirque se trata de malária e não tuberculose é o fato das repetidas crises de febre que Francisco tem ao longo davida e das doenças que o atacam no final da vida: baço, fígado, estômago e hidrópico, exatamente conseqüênciasda malária. O tracoma tinha outra causa.12 Aqui é de estranhar que a Legenda dos Três Companheiros, com toda sua riqueza de detalhes históricos,desconheça a doença da prisão e o resgate pago para tirá-lo de lá.
  • 8. Oração da Conversão 8príncipe”. É a leitura superficial (1Cel 5,7; LTC 5,7; LM 1,3,3) que faz, ou em outraspalavras: não quer aceitar sua outra realidade. Por isso segue com o conde Gentil parajuntar-se a Gualtério de Brienne, comandante supremo do exército do papa, ao sul daItália, nas Apúlias. Mas, depois de menos de um dia de viagem, em Espoleto, começou a adoecerlevemente, à noite. Preocupado com a viagem, febril (febre quarentena da malária!),teve um outro sonho. “Meio dormindo”, ouviu uma voz lhe dizer: “Francisco, quem tepode fazer melhor ou maior: o senhor ou o servo? Francisco respondeu: “O Senhor”.“Por que então deixas o Senhor pelo servo e o príncipe pelo vassalo? Volta à tua terrae te será dito o que haverás de fazer” (LTC 6,2-8). Continua a fonte biográfica dizendo que, desta vez, “recolheu-se todo em seuinterior, admirando e considerando tão diligentemente a significação dela, quenaquela noite não pôde mais dormir” (LTC 6,12). Hoje já se pensa que estando aliFrancisco provavelmente recebeu a notícia que o exército do papa havia se desfeitocom a morte de Gualtério de Brienne, o que permite entender que realmente foi umareflexão, mais do que uma visão ou sonho. Mera coincidência desses fatos oumanifestação de Deus?b) O distanciamento dos colegas. Depois disso em Assis, (já sem muito prestígio) Francisco ainda continua comseu costume de “jovem farrista” e a portar-se como líder juvenil. Mas não conseguemais se auto-iludir. Começa a bater em retirada também dos amigos de farra. “Oscompanheiros repararam, espantados, que ele se transformava, por assim dizer, emoutro homem: “Em que estás pensando? Por que não nos segues? Por acaso pensas emcasar-te? (...) Sim, eu estava pensando em escolher uma esposa, a mais nobre, a maisrica e mais bela que jamais vistes”. Os outros zombavam dele (LTC 7). “E assim, apartir daquela hora, começou a desvalorizar-se a si mesmo e a desprezar as coisasque antes amara, contudo, não ainda plenamente, pois ainda não estavacompletamente desligado da vaidade do mundo” (LTC 8,1). Boaventura também contaque Francisco “passou a se afastar da vida agitada dos seus negócios e rogar à divinaprovidência para que o iluminasse a respeito de sua vocação” (LM 1,4,1). c) As buscas na oração. A Legenda dos Três Companheiros menciona que, nesta época, Francisco“muitas vezes e quase diariamente saía em segredo para rezar” (8,2). Tomás deCelano fala que “preferia os lugares solitários para rezar” (2 Cel 9,1), ondefreqüentemente era visitado pelo Espírito. Boaventura comenta as buscas na oraçãodesse modo: “Procurava lugares solitários, propícios à lamentação, nos quais,enquanto se dedicava a gemidos inenarráveis, depois de longa insistência das preces,
  • 9. Oração da Conversão 9mereceu ser atendido” (LM I,5,6). A um companheiro e confidente começa a dizerque encontrara “um grande e precioso tesouro” (LTC 12,1). Francisco levava o amigomuitas vezes a uma caverna perto de Assis e nela, entrando sozinho, deixava do ladode fora o companheiro (LTC 12,2; 1Cel 6,7). Conta a LTC que, certo dia, estando ali aorar, ouviu a seguinte resposta: “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade,deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depoisque começares a fazer assim, as coisas que antes te pareciam suaves e doces, serãopara ti insuportáveis e amargas, e, de outra parte, das que te causavam horror,poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa” (LTC 11, 1-2). d) A aproximação dos excluídos. Francisco exercitava a vivência dos novos valores, “embora atormentado poruma grande ansiedade de espírito” (LTC 12,7; 1Cel 6,10). Desde que retomou otrabalho de comerciante na loja após se haver recuperado da doença e, sobretudo,depois do retorno da fracassada expedição às Apúlias, “conquanto já fosse há algumtempo benfeitor dos pobres, no entanto, a partir de então, propôs mais firmemente emseu coração não negar doravante a nenhum pobre que lhe pedisse esmola por amor deDeus, mas dar-lhe esmolas mais generosa e profusamente do que de costume” (LTC8,4). Se não tinha dinheiro, dava o gorro ou o cinturão ou a camisa. Compravautensílios para as igrejas e os enviava secretamente aos sacerdotes pobres (LTC 8,6).Enchia a mesa de pães (com a aprovação da mãe) para depois dá-los aos pobres (LTC9, 1-2). “Agora seu coração estava todo voltado para ver e ouvir os pobres, aos quaisdava esmolas” (LTC 9,5). Francisco não se limita a se aproximar dos pobres e dar-lhes o necessário.Começa a fazer experiências de ser pobre. A primeira foi, longe dos conhecidos efamiliares, na peregrinação a Roma, ainda no ano de 1204 ou início de 1205. Ir aRoma em peregrinação fazia parte das atividades de todos os que desejavam alcançaralguma graça especial de Deus. Era tradição popular proceder assim, nos conta R.Manselli13. Que graça pedia Francisco? A iniciativa pode dizê-lo por si: “Depois (dehaver dado todo o dinheiro que tinha no túmulo do apóstolo Pedro, escandalizado coma estreiteza do desprendimento das pessoas) saiu às portas da igreja, onde havia muitosmendigos pedindo esmolas. Trocou secretamente os farrapos com um dos mais pobrese os vestiu, tirando as suas vestes. Colocou-se nos degraus da igreja a pedir esmolacom os outros pobres em francês, pois gostava de falar esse idioma, embora não oconhecesse perfeitamente” (LTC 10, 5-6). Boaventura ao contar o mesmo fatoacrescenta um detalhe: “Cheio de uma alegria que ainda não experimentara” (LM1,6)14.13 R. MANSELLI. Francesco e i suoi compagni. Roma: Istituto Storito dei Cappuccini,1995, p.163-181.14 Observe-se, no entanto, que apenas a LTC narra que Francisco trocou de roupa e pediu esmolas em francês, afim de não ser reconhecido por eventuais assisienses que por lá passassem. Celano (2Cel 8,3) e Boaventura (LM
  • 10. Oração da Conversão 10 Retornou para casa mudado interiormente. Não muito tempo depois lheacontece o inesperado: encontrar-se com um leproso. Não o vê mais como antes.Moveu-se de compaixão, “desceu do cavalo”, deu esmola, beijou a mão do leproso edeixou-se beijar por ele15. Poucos dias depois voltava ao leprosário, dá esmolas atodos e beija a mão de todos... “Tornou-se tão familiar e amigo dos leprosos que,como está declarado em seu Testamento, permanecia entre eles e humildemente osservia” (LTC 11,11)16. Essa foi uma experiência decisiva para Francisco. O amargovirou doce, e o doce, amargo. A partir da descoberta dos leprosos, sua vida recebeu uma dimensão nova.Começaram suas “loucuras” que o indispuseram sempre mais com o pai que alegadilapidação do capital de sua família. Neste ponto o filho estava tocando na feridamais doída do pai (o capital e a honra social – lembrar que estamos numa sociedadeainda muito estratificada). Então o prende na prisão domiciliar, comum em todas asfamílias de status. A mãe, na ausência do pai, o liberta. Pode-se perceber o enormeconflito familiar que Francisco teve de enfrentar. Mas ele não desistiu. Ao contrário,“vencido” pela nova visão cometeu outra extravagância ainda maior: carregou umcavalo de tecidos finos, vai a Foligno, vende tudo, inclusive o cavalo (cujo valorequivalia ao preço de um carro popular de hoje), e na volta dá todo o dinheiro ao padreda igrejinha de São Damião17. Inclusive pede para morar com ele como “converso”. A fala do crucificado acontece neste momento de trama de sua vida. Como sepercebe, ela foi preparada longamente, de múltiplas formas. Pode-se dizer mais: eradesejada. Era impossível Deus não se manifestar de alguma forma, depois de tantabusca e tateio, vividos com tamanha coragem. De outro lado, o conteúdo da oraçãoque ele faz e é objeto de nossa análise, reflete toda esta trama histórica, todas estas1,6,7), que escrevem depois, apenas referem que Francisco deu a roupa (trocou) e conviveu com eles, sentindomuita alegria, não necessariamente pedindo esmolas.15 É interessante que para Francisco, como narra no seu Testamento (1-3), o encontro com os leprosos foi o fatomais decisivo de todo o seu processo de conversão. No entanto, na primeira biografia oficial, Celano nem sequero menciona e constrói toda a cronologia da vida a partir do processo de deserdação (despojamento diante dobispo). É isso que Manselli (São Francisco de Assis. Petrópolis: Vozes, 1997, p 44) chama de “visãopauperística” da vida de Francisco, ao invés de vê-la a partir da passagem para o lado dos excluídos, isto é, aopção pela fraternidade.16 Tanto para Celano (2 Cel 9,12) como para Boaventura (LM l,5,4) o leproso, depois do abraço, “some”, talvezpara dizer que o leproso foi uma aparição de Cristo ou para significar que foi mais uma experiência mística queum dado real. A nosso aviso, eles procedem assim, porque escrevem dentro de um gênero literário chamado“hagiografia”, muito comum entre os eruditos. Este gênero ressalta o miraculoso, espiritualizando os pequenosfatos. Mas é certo que o leproso não desapareceu, como confirma a LTC 11, 3-5). Pode-se entender que omiraculoso não foi o desaparecimento do leproso, mas sim a identificação que Francisco fez do leproso comCristo, o que determinou profundamente a visão cristológica de Jesus Cristo em Francisco.17 A nosso aviso, parece ser mais verossímil a versão do Anônimo Perusino (AP 7), para quem Francisco nãoteria ido à feira de Foligno com o cavalo carregado de tecidos da casa paterna, mas sim, teria vendido aí o cavaloe a armadura quando do regresso de Espoleto, após o sonho onde a voz lhe pedia para retornar para casa eaguardar a manifestação de Deus. Vendeu o cavalo, mostrando estar decidido a mudar o rumo da vida.
  • 11. Oração da Conversão 11experiências, todas estas buscas e tentativas. Deste chão da vida brotou esta precemuito encarnada. E é deste chão que devemos entender seu conteúdo e até buscar oscritérios para a escolha das palavras precisas para traduzir. Resumindo a “luta violenta” de Francisco durante todo esse processo deconversão, pode-se dizer que ela se desdobrava ao menos em três grandes dimensõesou direções:- Em primeiro lugar, como busca de “fazer-se próximo dos excluídos”, começandopelos pobres esmoleres e chegando aos mais marginalizados de todos que eram osleprosos.- A outra frente era a busca intensa de luz através da oração, como se poderá ver naprópria oração. Para isso fez peregrinação, freqüentava grutas e lugares solitáriosquase “diariamente”, etc.- E, por fim, a outra luta (nem sempre percebida adequadamente) foi a de ir nacontramão da mentalidade hegemônica. Aceitou passar por “louco e demente”, servisto como quem perdeu o juízo, ser a vergonha da família e, depois, de Assis (foideserdado). 2 – Descrição do conteúdo da oração A súplica de Francisco diante do Crucifixo de São Damião é o primeiro escritoconhecido, cronologicamente falando. É, como se observou acima, a resposta de todauma caminhada que vinha fazendo e, ao mesmo tempo, expressão desse longopercurso. Agora tentaremos penetrar no seu conteúdo, dissecando frase por frase: “Altíssimo e glorioso Deus, O alto e glorioso Dio, Ilumina as trevas do meu coração. Illumina le tenebre del core mio, Dá-me uma fé reta, e damme fede dirittaa, uma esperança certa, speranza certa e cariade perfetta, uma caridade perfeita. senno e cognoscimento, Signore, che io Dá-me bom senso e inteligência, ó Senhor, faccia lo tuo santo e veracecommandamento18. a fim de que eu cumpra, Senhor, tua santa e verdadeira vontade”19.2.1 - “Altíssimo e glorioso Deus”: Deus é um mistério inabarcável que exige“submissão e abandono, acolhida e confiança” da criatura. Ele não é manipulável,pois é altíssimo. Deus é glorioso! É uma pessoa cuja densidade de amor18 Texto crítico, conforme Kajetan Esses, 452.19 Embora o tradutor brasileiro tenha optado pela segunda pessoa do plural nesta oração, nós preferimos mantê-laconforme o seu original, que aliás, a torna muito mais direta e familiar. As demais diferenças de tradução(sensibilidade, conhecimento, mandamento) receberão a justificativa no seu devido momento.
  • 12. Oração da Conversão 12misericordioso ultrapassa infinitamente nossa capacidade de compreensão e perantequem a atitude mais correta é a reverência obediente, o temor do Senhor. Nossacriaturalidade requer que nos dobremos ante a majestade divina. A tentação constanteé de querer também nos transformar em “deuses”, como a serpente sugeriu a Adão eEva. Todavia esse “Deus glorioso” foi visto e descoberto por Francisco através dalente dos leprosos, dos pobres, da sua fragilidade. A onipotência de Deus se manifestamediante a misericórdia, o perdão, a força de se tornar homem, assumindo sempre denovo nossa “carne de fragilidade” (2Fi 4). Francisco não o vê como o “pantocrator”(em grego: „aquele que tem poder sobre tudo”, ou „Aquele que tudo criou‟ ou „ OOnipotente‟), mas como o Deus-crucificado, como diria o teólogo Jörgen Moltmann.2.2 - “Ilumina as trevas do meu coração”. Francisco se sente na dependência deDeus assim como o dia precisa do brilho do sol para espantar as trevas. Deus é o sol,mas suas trevas eram realmente espessas: não conseguia divisar claramente os“vestigia Iesu” (as pegadas, o caminho de Jesus), naquela obscuridade, fruto da suaconfusão interna e externa. Que caminho seguir para viver com fidelidade oevangelho? Qual das propostas de seguimento que podia observar estaria maispróximo à fidelidade às pegadas de Jesus? No final da vida vai confessar que“ninguém lhe mostrou o que devia fazer!” (Test 14) para confessar que não encontrouum modo de viver o Evangelho que o satisfizesse realmente. Quer dizer, nenhumamaneira de viver o cristianismo em prática nos caminhos oficiais lhe satisfazia aexpectativa. Por isso, suplicava a iluminação das trevas do “coração”, quer dizer, domais profundo do seu ser, não somente da inteligência e da razão. Ao dizer “coração”,deixa entender que a escuridão era global e o atingia profundamente, sem deixar deser, ao mesmo tempo, a noite das trevas da fé. Expressando-se assim abarcava aconvivência, a profissão, a fé, a opção vocacional, tudo enfim.2.3 - “Dá-me uma fé “dricta”. Francisco usa aqui o adjetivo “dricta”, direta e não“vera”, palavra que ele também conhecia muito bem. A nosso ver, tratar-se-ia de umafé que não utiliza mil justificativas para dar a impressão de fidelidade, mas que acabarealizando apenas o projeto humano! Certamente por detrás deste pedido de “fé reta”estava também uma compreensão cristológica. Em quais sendas Jesus Cristo, de fato,deixara suas pegadas? Com quem esteve Ele caminhando lado a lado? Teria Ele dadoas mãos à hierarquia da religião institucional, aos nobres e aos burgueses ou antes teriase abaixado a ponto de quase não ser reconhecido sequer como pessoa humana nospobres e leprosos, como Paulo expressa na Carta aos Filipenses (2,5-11)? E qual seriaou deveria ser o papel da Igreja: promover cruzadas e guerras, mesmo se commotivação aparentemente religiosa? Excomungar? Ameaçar e conduzir pelo medo?Tecer razões teológicas para justificar a divisão de classes, como alguns teólogos
  • 13. Oração da Conversão 13faziam? Declarar, mediante um cerimonial que os leprosos eram mortos-vivos?20Afinal, a Igreja institucional, de um modo geral, não estava vivendo o evangelho dopoder ao invés de viver o poder do evangelho? Como, pois, viver uma fé “dricta”,genuína, transparente, verdadeira, de modo que quem se aproximasse pudessereconhecer, de fato, o jeito de Deus ser e amar? Que nele o jeito de Deus ser e amarpudesse ser transparente. Daí o veemente pedido de uma fé “dricta”.2.4 - “Dá-me esperança firme”. Esperança nas promessas de Deus que faz relativizartodas as demais promessas humanas. “Tanto é o bem que se espera que todo osofrimento é alegria”. Que a gente não se iluda com as promessas fáceis e falazes dopríncipe das trevas deste século! Francisco tinha consciência das falsas esperançasapresentadas pelo seu tempo. Nem aceitava pôr a esperança em esquemas racionais dejustificação do “status quo” como era moda. Nem queria se deixar iludir por umegoísmo coletivo inconsciente que busca salvar a própria pele. Seriam esperançasfalazes, não firmes! Anseia por uma utopia que ultrapasse a história, mas sem sedesvincular dela. Por isso, Francisco pede uma esperança “firme”, sólida e alicerçadaem Deus. Pede para poder olhar para além de si mesmo 21.2.5 - “Dá-me caridade perfeita”. Francisco suplica por um amor radical, total. Senteque meias-medidas não combinam com o projeto de Deus e nem com coração humano.“Quando eras jovem tu te cingias e ias onde querias; quando fores mais experimentadono amor, outros te cingirão e irás para onde não queres” (Jo 21,18). Entrar na dinâmicada gratuidade e misericórdia do Pai torna a pessoa uma oferta total para os outros, semmais propriedade sobre si mesma e integralmente voltada para o bem dos outros, comconseqüências imprevisíveis. Ele mesmo havia feito pequenas experiências de“caridade perfeita” para com os leprosos, passando a visitá-los com muita freqüência.A caridade perfeita faz o eixo da vida se deslocar do próprio “umbigo” para a “casa dooutro”. O que distingue um seguidor de Cristo é o amor: a vida é resposta pessoal aotu: ao Tu de Deus e do próximo. Sua vida é uma resposta ao amor. Nada por vanglória.“Nisto conhecerão que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35), disse Jesus no contexto do lava-pés. Também o critério último de julgamento é oamor, real, concreto (Mt 25,31s). O amor “sine glosa”, sem comentários quejustificam comodismos. Francisco está pedindo, com força, a Deus o dom mais fundamental e maisnecessário: o amor. Se, de fato, ele enveredou por um caminho novo, deixando um20 Tenha-se presente que na Idade Média, quando um familiar era identificado com lepra, o sacerdote ia à suacasa e fazia uma cerimônia parecida com as exéquias e logo em seguida a pessoa era conduzida a um leprosáriodonde não podia mais sair. Por isso era considerado morto-vivo. Além disso, essa pessoa perdia todos osdireitos, como se realmente tivesse morrido.21 Cf. L.Lehmann, La preghiera francescana, 20.
  • 14. Oração da Conversão 14exemplo luminoso, também se deve ao fato de que pediu insistentemente esse dom doamor. E de modo ousado: um amor perfeito! Não qualquer amor; o amor perfeito. Esseconsiste em amar do jeito de Deus. Jesus insiste que devemos ser perfeitos como o Paido céu.2.6 - “Dá-me, Senhor, bom senso e inteligência”. Esta frase, talvez, seja a maisreveladora da trama existencial presente nesta prece e que se tentou mostrar naprimeira parte deste texto. Queria ele fugir, ao mesmo tempo, da mediocridade, daheresia, da auto-suficiência. E queria, acima de tudo, viver o Evangelho de JesusCristo, “sine glosa” (sem aqueles tipos de comentários que levam a distorcer aproposta original de Jesus com sutis argumentos teológicos). Tal propósito significavaandar na contramão da sociedade e da própria Igreja 22: “ninguém me mostrou o que eudevia fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma dosanto Evangelho” (Test. 14), confessará no final da vida. Ao mesmo tempo estepedido supõe o desejo de querer penetrar no âmago da proposta evangélica. Sabe-se, porém, que a linha divisória entre a radicalidade evangélica e a“loucura”, a insensatez, a heresia, a auto-suficiência... é muito tênue. Por isso, suplica“juízo” e “inteligência”. Nossa tradução brasileira atual usa o termo “sensibilidade”.Talvez não seja tanto incorreto, quanto, a nosso ver, insuficiente, para dizer o quantose esconde por trás destas palavras. “Perder o juízo, é muito mais forte do que sentir demodo errôneo ou ter pouca sensibilidade. E a palavra “senno” em italiano significajuízo, a capacidade de avaliar objetivamente as coisas, as pessoas e os fatos, omomento histórico. Quando alguém, em italiano, ainda hoje, diz: “Lei ha perso ilsenno” ele quer dizer: “você perdeu o juízo” e não apenas que você sentiu ou pensouerrado. A nosso aviso, nessa tradução há um eufemismo de linguagem, exatamenteporque não se leva em conta o contexto existencial de Francisco. Ele durante esteperíodo de conversão era chamado e tratado por “louco, insano ou demente” muitas emuitas vezes, por muitas pessoas, especialmente as mais próximas 23. Isso tudo doíanele e lhe levantava a suspeita de que talvez estivesse se enganando. Não é de duvidarque este seja o pedido mais significativo e intenso nesta altura da vida! Observe-seainda, que de todos os textos-orações de Francisco, esse é o único no qual ele é ocentro das atenções24, o que denota seu estado de grande fragilidade (de trevas) e suaainda pequena envergadura espiritual.22 Aqui, entendo a Igreja Instituição. Francisco tinha fé “in ecclesiis”: no mistério confiado por Nosso Senhor àIgreja (Test 4).23 Cf 1 Cel 11,2; LTC 17,4; LM 2,2,5; AP 9,4; Jul 7,7. E 10 anos mais tarde ele reconhece publicamente queDeus quis fazer dele um “novo louco” no mundo (CA 18,6 - LP 114).24 Compare-se, por exemplo, esta oração com o Cântico do Irmão Sol, com os Louvores ao Deus Altíssimo ondeFrancisco desaparece completamente e o centro da atenção é única e exclusivamente Deus.
  • 15. Oração da Conversão 15 Francisco pede também “connoscemento” que nossa tradução atual mantémliteralmente. Ainda que tecnicamente exata, preferimos empregar o termo“inteligência”, pois conhecimento para nós significa geralmente saber dados, ter asinformações. Ao passo que a palavra inteligência está mais relacionada à capacidadede compreensão, como o termo latino (intus+legere) deixa a entender. Esta estariamais ligada ao discernimento, à compreensão profunda dos fatos. Era isso queFrancisco buscava, e não informações novas. A capacidade de avaliar devidamente o valor das coisas e das ações estádiretamente relacionada com a capacidade de compreender profundamente os fatos eas circunstâncias de vida, em nosso caso, com os critérios evangélicos. Esta é a cruzque Francisco carregava neste momento da vida com muita coragem. Assumiu-a comgarra. Quando tal acontece conosco, vamos, geralmente, contemporizando, deixamosesfriar a inquietação que poderia nos levar a picos mais altos de fidelidade. Francisco,ao contrário, a assumiu! Vamos fazer aqui uma pequena digressão que nos parece oportuna a respeitodas alternativas de vivência da fé que Francisco encontrava ao seu redor: a) A primeira proposta, a mais provável em suas circunstâncias familiares esociais, era a de se tornar um leigo “normal”: seguir o caminho do “cristão burguês”.Embora não sofresse nenhuma crítica da igreja institucional, o próprio Franciscoexperimentara que, no fundo, aquele era um caminho de busca da própria honra eglória. Via sua grande fragilidade, mesmo se tranqüilamente aceito pela Igrejainstitucional e até considerada benemérita, devido às esmolas que essa classe faziapara as instituições eclesiásticas. Mas como diz o Evangelho de João: “Como poderíeiscrer, vós que vos glorificais uns aos outros e não procurais a glória que vem de Deussomente” (Jo 5, 44). Quando a visão da vida se concentra no umbigo, desaparece ohorizonte (Francisco vivia o que entendia. Parece que hoje gostamos mais de aplaudirquem bonito fala!). b) A segunda alternativa podia ter sido a de pertencer à estrutura oficial daIgreja como clérigo ou monge. Ainda que eles formassem a classe dos “eleitos”, dosque “tinham garantia de salvação eterna” (assim definia o direito canônico de então),era fácil perceber suas inconsistências internas e incongruências sociais. O projeto deJesus estava embutido e sufocado no projeto humano social de busca de riqueza, depoder, de bem-estar, de estrutura de segurança, ainda que disfarçadas. Achando-se os“bons”, afastavam-se sempre mais do povo, mormente do povo pobre e ignorante. Jánão eram capazes, desde sua situação de poder, de se fazerem irmãos dos maisexcluídos.
  • 16. Oração da Conversão 16 c) O terceiro caminho seria, por exemplo, viver como converso (leigosconsagrados que dedicavam sua vida a uma igreja, mosteiro ou obra social), empobreza total e doação irrestrita. Ou ainda, já que pululavam às dezenas nos últimos100 anos antes de seu nascimento, ingressar num dos movimentos laicais depenitência como os valdenses, os humilhados, os pobres católicos, os albigenses, osflaggellanti, os cátaros etc. Contudo, estes estavam na mira condenatória da hierarquiae carregavam o estigma de heresia, isto é, eram vistos como traidores da fé, da igreja,da religião, embora demonstrassem sinceridade e radicalidade no viver os valoresevangélicos. Diante deste quadro, por onde enveredar? “Ilumina as trevas docoração...”. Quando três anos mais tarde, depois de haver reformado as igrejas de SãoDamião, São Pedro e de Nossa Senhora dos Anjos25, convivido com pobres e leprosos,ouve o evangelho do “envio missionário” na igreja da Porciúncula (Lc 10 ou Mt 10),ao ser confirmado na compreensão pelo sacerdote que celebrara a missa, Franciscoexclama: “É isso que eu quero (= vontade), é isso que eu procuro (= inteligência), éisso que eu desejo (= afetividade) fazer de todo o coração” (1Cel 22). Estaexclamação impressiona, aparece como resposta a uma pergunta longamenteacalentada, bem no fundo do coração. Durante o processo de conversão andara com o coração enredado nas trevas.Nada mais natural, então, que suplicar por “Senhor, dá-me muita luz”. E guarda minhacabeça no lugar. Não falte sal nos meus miolos, nem se afrouxem os parafusos. Dá-me“senno e conoscemento” para cumprir tua vontade (não a minha, nem a de quem podeme desviar do caminho verdadeiro), a vontade de Deus, manifestada em Jesus Cristoque, por sua vez, a imprimiu nas pegadas, na sua prática. O que ele intuía pela frenteera muito arriscado. Abrir caminho novo é muito exigente!2.7 - “A fim de que possa cumprir o teu santo e verdadeiro querer”. A palavra“commandamento” em italiano geralmente significa uma ordem concreta e precisa,emanada de uma autoridade. Porém às vezes pode ser usada como sinônimo de“vontade”, da qual os mandamentos seriam uma expressão específica. Pode-se, assim,falar dos mandamentos de Deus ou da sua vontade como sinônimos26. Esta alternativapermitiria perceber que Francisco rezava há mais tempo esta oração e nãonecessariamente tê-la inventado no dia em que o crucificado lhe falou, como deixavaentender a tradução anterior.25 Os estudiosos, sobretudo Miccoli e Merlo, hoje cada vez mais apontam para o fato de que , na prática,Francisco reformou apenas a igreja de São Damião. A contagem de três deve-se à simbologia da fundação dastrês ordens, mas não tem consistência histórica.26 Carlos Mesters, (Estudo Bíblico Mt 5-9 CEBI-Sul, 1989, p. 10-11) junto com uma equipe de exegetas, aoanalisar o Pai Nosso (Mt 6), quando tratam de “seja feita a vossa vontade...”, buscam a revelação do código daaliança, os dez mandamentos para dizer que ali está a manifestação da vontade de Deus.
  • 17. Oração da Conversão 17 Francisco suplica poder realizar, no reto uso da razão, o desígnio de Deus paracom ele. Na prática, este não é um novo pedido. Está embutido nos pedidos anteriores,pois quem cumpre a vontade de Deus tem fé genuína, esperança firme e caridadeperfeita, tem bom senso e é perspicaz (inteligente). Quase no final da vida Franciscodirá que: “Agora, porém, depois que abandonamos o mundo, nada mais temos a fazer,a não ser seguir a vontade do senhor e agradar-lhe” (Rnb 22,9). Segundo G.G Merlo,F. Accrocca, Liliana Cavani e outros, no final da sua vida, os estigmas e o Cântico doIrmão Sol seriam dois sinais recebidos por Francisco que lhe confirmaram ter seguidoo trilho correto, não obstante sua insegurança humana. Importa sempre ter presente que Francisco está querendo iniciar uma novacaminhada de vida, a vida que lhe é sugerida por Deus, percebida nas pegadas de JesusCristo. Francisco quer deixar-se conduzir inteiramente por Deus. Lança-se naincógnita caminhada para o absoluto. Não aceita mais seguranças telúricas dequalquer natureza. Não se contenta com metas humanas. Quer alçar vôo para oinfinito de Deus. Quer apostar absolutamente tudo em Deus, ainda que para seusconterrâneos seja uma loucura, uma insanidade, a perda do são juízo, uma demência. Conclusão Gostaríamos aqui de tecer uma breve consideração para concluir esta análise.Francisco, nesta oração começa suplicando pelas três virtudes que nós chamamos“cardeais”, isto é, aquelas que fornecem a orientação básica da vida e moldam,destarte, todas as nossas relações, comDeus, com as pessoas, conosco mesmos e com a natureza. Aspira que estas relaçõessejam transparentes e genuínas, ao máximo. Ele foi beber na fonte, no olho da fontecomo dizem os caipiras. Não seria essa uma lição importante para nós, geralmente,preocupados com pequenas ninharias? Se ele voou alto, não foi por puro impulsodivino; ele colaborou buscando com muita intensidade e coragem. De outro ponto de vista, pode-se dizer que Francisco oferece, com o conteúdodesta oração, uma bela lição de vida ainda no início de sua caminhada espiritual: nãoquer muita mochila, desfaz-se de todas as seguranças, às vezes mais perniciosas quemuitos bens. Quer estar livre e desimpedido. Quer ter as mãos livres para abraçar, parasaudar, para tatear. Quer sentir os ombros descarregados de fardos que os encurvam efazem olhar para a terra, perdendo os horizontes. Quer ter as pernas adestradas para acorrida. Quer que os limites do horizonte, demarcados pelo modo estreito de pensar ede julgar da sociedade hegemônica, sejam ampliados pela presença do “altíssimo eglorioso Deus”. Numa palavra, Francisco entra na pista, qual atleta, com o mínimo deroupa para que nada o atrapalhe na luta. Quer lutar nu (como faziam os atletas
  • 18. Oração da Conversão 18antigamente) com o inimigo para que este não o possa agarrar e prender de formaalguma, pensamento este muito conhecido no seu tempo (Nudus nudum sequi). Também inicia a caminhada confiado à Providência. Quer ter fé verdadeira(reta), esperança firme e caridade perfeita, provenientes unicamente de Deus. Àmáxima exigência de sua generosidade une a presença energizante e vigorosa de Deus,fonte de todo o Bem. “Canta, caminha, busca e espera, e Deus te encontrará”, canta acanção do Pe. Loacir Luvison. Eis a postura correta para encetar uma caminhada queserve de plataforma de lançamento para cada qual de nós, hoje. No início de sua vida de conversão, Fco rezava pedindo a Deus que iluminasseas trevas do seu coração. No final de sua conversão, fez outra oração, os Louvores aDeus. Descobre que o que pedia no início era uma característica do ser de Deus: “Tués a esperança, Tu és a nossa fé, Tu és o nosso amor”. Servi-me do estudo de Frei Aldir Croccoli. Acresci pouco.