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Espiritualidade fundamental / [Aldir Crocoli]
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Espiritualidade fundamental / [Aldir Crocoli]

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Disponível em http://www.estef.edu.br/arno/wp-content/uploads/2011/04/Espiritualidade-fundamental-Crocoli.pdf acesso em 20110727

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  • 1. Espiritualidade Fundamental Introdução Entrando na sala da espiritualidade, logo nos damos conta de que nosencontramos em piso movediço, não tão seguro quanto desejaríamos. Neste momentohistórico em que as ciências estão “dispensando” Deus, porquanto o homem poderesolver todos os desafios antes atributos exclusivos dele, até os sociólogos constatamum acentuado “retorno ao sagrado”, um “novo despertar da espiritualidade” nas massashumanas, em todas as religiões, ao lado de uma desorientação generalizada daspessoas neste campo. Observam-se ainda atitudes de “volta ao passado”, aotradicional, ao arcaico, ao ritualismo secular, ao mesmo tempo em que se ouvemdepoimentos de “desconforto”, porque o modo de viver a espiritualidade (mesmo setratando de uma espiritualidade renovada), já não reponde às necessidades profundasdas pessoas, sobretudo, as mais engajadas na transformação social e aquelas quepleiteiam uma proposta de vida mais integrada e integradora, onde todas as dimensõesda vida estejam contempladas, superando a compartimentação da existência ou aexclusão de algumas dimensões. Não bastasse isso, apela-se muitas vezes parasincretismos (cristianismo e religiões africanas ou orientais) ou ainda para purosesoterismos. Cresce em muitos a concepção de que a espiritualidade cristã é tãosomente uma espiritualidade entre outras igualmente válidas. Deduz-se, então, que sãomuitos os desafios a serem abordados. 1 – A espiritualidade no quadro dos conhecimentos teológicos Esta disciplina teológica é relativamente recente. Ela não existia, antes doséculo XX, porque todo o estudo era feito a partir da Bíblia e da tradição cristã, tendo emvista a vivência da fé. Ao longo da história predominava a compreensão do “intelligo utcredam”, (entender para crer), compreender para melhor viver. São Boaventura dizia,neste sentido, que todo o estudo da teologia tem por finalidade “tornar-nos melhores” (utboni fieri). No entanto, o avanço ininterrupto dos aspectos científico-racionais, aliado àpreocupação talvez bastante exagerada do cientificismo, (nos séculos XVIII e XIXocorreu um forte predomínio da ideologia racionalista e do desenvolvimento das ciênciasexperimentais), foi gerando uma teologia sempre mais compartimentada e com fortetendência a distanciar-se da vida real, mormente da grande massa. Esta possibilitouindubitavelmente maior avanço dos conhecimentos, mas carregou consigo o risco deuma abordagem da teologia como mais em vista do conhecimento do que propriamenteda vivência ou prática do amor. Lentamente, o grito para não descuidar desta dimensãosuscitado pelo Espírito Santo, acabou sendo acolhido dentro dos estudos teológicos. Em1931, o Papa Pio XI autorizou pela primeira vez na história a Universidade Gregoriana aintroduzir esta cadeira com o objetivo de que auxiliasse a todos quantos se dedicam àteologia encontrarem resposta à pergunta: Como acessar à experiência da fé? Comovivenciar a riqueza de dons que o Senhor sempre de novo entrega? Como percorrer umcaminho comprovado para uma vida de comunhão com Deus? E desde então estadisciplina foi se consolidando rapidamente em todas as faculdades teológicas. Atualmente vivemos uma profunda interrogação a respeito do tipo e relação que a“Espiritualidade” deve sustentar em relação às disciplinas dogmáticas (até o momento
  • 2. Espiritualidade Fundamental 2apenas vista como maneira de traduzir para a prática) e às bíblicas. Alguns autoresdefendem uma sempre maior autonomia da “Espiritualidade” 1, porquanto ela lida maiscom a antropologia religiosa e num horizonte muito maior que o ambiente cristão oucatólico, do que propriamente com conteúdos teológicos e bíblicos, embora nunca devaperder a comunhão com essas disciplinas, com risco de desvirtuar-se completamente. Qual é o seu campo específico? Costumeiramente se diz que há três grupos dedisciplinas teológicas: a) Disciplinas Fontes: são as matérias que têm, prioritariamente,um objeto preciso ou “dados concretos” a aprofundar. Pertencem a este grupo: a históriada Igreja, a Patrística, a exegese bíblica (subdivididas em muitas matérias), o direitocanônico; b) Disciplinas sistemáticas: São as disciplinas que, embora tenham uma oumais disciplinas fontes como ponto de partida, seu objetivo prioritário é aprofundar oconteúdo da fé e traduzi-la para o novo contexto: a teologia fundamental, a Revelação, aCristologia, a Trindade, a Eclesiologia, os Sacramentos, a Mariologia, a Protologia e aEscatologia, a Graça etc. c) Disciplinas prático-pastorais: Sua atenção prioritária estávoltada para a vivência prática atual da fé. Podem-se citar aqui a Catequese, a Liturgia,a Pastoral, a Missiologia, a Espiritualidade e outras. Assim sendo, esta nossa disciplina de Espiritualidade quer, acima de tudo,auxiliar o(a) jovem teólogo(a) a passar para a vivência toda a riqueza de aspectos quedescobre ao estudar o mistério de Deus. Neste sentido, a espiritualidade tem um papelimprescindível. Sua ausência ou deficiência pode acarretar danos irreparáveis à vida deum agente de pastoral ou de um cristão. Nosso esforço, por isso, será ajudar aentender, a dinâmica do Espírito. Buscaremos encontrar caminhos para traduzir para aprática os dados da fé. Abriremos perspectivas de como avançar, deserto adentro,(onde Deus fala ao coração Os 2,16)), em direção ao Horeb (lugar por excelência damanifestação do coração de Deus (Ex 3,1: 1 Reis, 19,8), de como a tirar as sandáliasdiante da sarça ardente (Ex 3,5), de como cair de joelhos e proclamar “Meu Senhor emeu Deus” (Jo 20,28). Então, ainda que se aborde nesta disciplina aspectos bíblicos,históricos... o enfoque será sempre vivencial, prático. 2 – Compreensão terminológica Por vezes, mesmo entre nós que lidamos com o sagrado, o termo espiritualidadeé facilmente intercambiado com oração. Dizemos, por exemplo, “vamos fazer cincominutos de espiritualidade”, na suposição de que ambos são sinônimos. Todavia, aindaque estejam profundamente relacionados não se equivalem. Há pessoas que, na práticadedicam muito tempo à oração(?) e no entanto demonstram pouca espiritualidade,enquanto que outras, aparentemente rezando menos, revelam possuir maior grandezade espírito, ou melhor, uma Espírito mais semelhante ao Espírito de Deus. A espiritualidade não se vê, nem se toca, mas é facilmente comprovada. Assimcomo a água na grama: se a água faltar, logo seca a grama, compara Segundo Galilea.Quando o conjunto das ações de alguém produz vida, paz, alegria, dignidade... é sinalque esta pessoa vive espiritualidade, isto é, tem dentro de si um “espírito” identificadocom o Espírito de Deus que gera vida, redime, resgata, restaura, renova, promove. Aí háespiritualidade! Neste sentido, a espiritualidade pode ser entendida como “aorganização do tempo, interesses, engajamentos, práticas e dimensões do viver de umapessoa, de um grupo ou de um povo de tal forma que, a exemplo do Espírito de Deus,promovam a vida”. Jesus é o exemplo máximo de homem com espiritualidade. Ele1 C. A. BERNARD. Teologia Spirituale. Torino: San Paolo, 17-20.
  • 3. Espiritualidade Fundamental 3gerou vida ao redor de si porque sua vida estava voltada para a construção do Reino. Econfessou claramente que o Espírito o conduzia (Lc 4, 1.14.18). Foi gerado por obra doEspírito Santo (Lc 1,35). Prometeu enviar o Espírito (Jo 15,26). No alto da cruz entregouo Espírito (Lc 23,46), assim como na tarde da Páscoa (Jo 20,22) e em Pentecostes (At2,1-11). Neste sentido a espiritualidade pode ser descrita como vivência do Espírito (noseguimento de Jesus de Nazaré). Paulo (Gl 5, 18-25) descreve os diversos frutos doEspírito e os frutos da carne, opostos ao Espírito. O Espírito de Deus vai comprometendo sempre mais a pessoa. Esse processo setorna uma espécie de “caminho sem retorno”2, não por forças exteriores, mas pelaprópria dinâmica interna fruto da mais genuína liberdade no amor. É o que se podededuzir do “quando eras jovem tu te cingias e ias para onde querias, mas quandoestiveres mais adentrado no mistério outros te cingirão e te conduzirão para onde tu nãoqueres (cruz, martírio, responsabilidades, renúncias...) Jo 21,18 e também de 1 Cor9,163. De fato, o Espírito de Deus desencadeia na pessoa as potencialidades do amor,da generosidade, da alegria, da “parresia” (coragem profética), da entrega total econfiante, ao ponto de chegar ao martírio, dando a vida para salvar os outros, defendera comunhão com Cristo (e salvar-se) e, parecendo, de certa maneira, um dopado, um“bêbado” (At 2,13), um fanático... de tanta efusão e vitalidade. Todas as pessoas, independentemente de religião, fé ou cultura podem “ter”espiritualidade. Os frutos se constituem em critério último de discernimento: “Pelosfrutos os conhecereis” (Mt 7,16). Pedro Casaldáliga e José María Vigil4 dizem que adiferença entre um cristão e um ateu engajado em favor da vida se situa somente nocampo da consciência, do conhecimento da força que os move. Enquanto o cristão sabeque nele atua o Espírito de Deus, levando-o a dedicar-se e comprometer-se com osirmãos menores, o ateu realiza a mesma ação sem esta consciência, o que oempobrece existencialmente. É por isso que Ronaldo Mugnóz 5 disse que os ditadorestemem muito mais alguém que luta por causa de um Deus comprometido do quesimplesmente quem luta por decisão própria, pois no primeiro caso terão de lutartambém contra Deus. Isto permite aceitar o fato de que todos os povos, religiões,culturas podem ser movidos pelo Espírito de Deus. O que pode impedi-Lo de atuar serátão somente o pecado, quer dizer, a ofensa à vida, qualquer forma de vida e qualquertipo de ofensa, exatamente porque a dinâmica do Espírito é contrária à do pecado. Tenha-se claro que o que se contrapõe a espiritualidade não é a materialidade oua carnalidade como por muitos séculos de história, influenciada pelo platonismo e porcorrentes religiosas dualistas como os diversos ramos do maniqueísmo, sustentavam epropunham. No lado oposto da espiritualidade está a morte, o espírito de morte. Se oEspírito (dinamismo, energia) de Deus é vida, sua ausência e tudo quanto impede,oprime, ofende, deturpa, denigre a vida é o espírito (dinamismo, energia) da morte, o2 Este fator deixa muitas pessoas com forte receio de enveredar por uma espiritualidade mais intensa, pela sensaçãoinfundada de “perder a liberdade” quando não a própria identidade. São João da Cruz chama esta sensação de“abismo do infinito” que causa vertigem e faz que muitos recuem e emperrem. Urge abandonar-se e confiar n’Elepara ultrapassar esta barreira bastante comum e natural, criada pelo falso conceito de liberdade e de espiritualidade.3 “Anunciar o Evangelho é uma obrigação que se me impõe...” Também Paulo Apóstolo sentindo-se tão agraciadode favores divinos passou a sentir-se “obrigado” a prosseguir o trabalho da evangelização para não ser ingrato e nãocontradizer o Espírito de Deus que o inabitava.4 Confira um belo esclarecimento sobre este assunto na introdução de sua obra A Espiritualidade da LibertaçãoPetrópolis, Vozes, 1993. 32-35.5 Video “El Dios de los pobres”.
  • 4. Espiritualidade Fundamental 4pecado, o oposto de espiritualidade. A pessoa humana será sempre uma carneespiritualizada ou um espírito encarnado6. Aliás as próprias estruturas de vida podemestar configuradas por qualquer um dos dois espíritos. A espiritualidade é, pois, viver o Espírito de Deus, ou viver segundo o Espírito deDeus. É deixar Deus ser Deus na vida da gente e ajudar para que ele seja Deus nasociedade, como Jesus que não queria fazer outra coisa a não ser a vontade do Pai:“Não vim fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”(Jo,5,30).“Eisque venho para fazer vossa vontade”, diz também Hebreus 10,7 falando de Jesus. É serum ramo alimentado pela mesma seiva que alimenta o tronco (Deus – Jo 15,1s). Esse“permitir deixar Deus ser Deus” leva a ponderar dois aspectos importantes: a) Um esforço para deixar espaço para Ele, assim como a mãe cria espaço,primeiramente no seu corpo e, depois, no tempo, nas preocupações e nos cuidadospara o filho que vai crescendo em meio a muitos riscos e desafios. É muito mais quealgo simplesmente passivo. Esse espaço para Deus se consegue dar ao cabo de muitaatenção, busca e disponibilidade continuadas. Caminhar para Deus (“Ver Deus”, Jo14,8) deveria ser assumido como objetivo máximo da vida, a opção fundamental de umapessoa, envolvendo todas as dimensões da existência em latitude e longitude, no tempoe no espaço. Apenas essa possibilitará dar passos de transformação global. b) Mas é bom lembrar que isso geralmente pode gerar medo nas pessoas. Medode que Deus tire a liberdade e não se possa mais fazer o que se fazia antes (cf Jo21,18; Jr 20, 7s). Medo de que o ciúme de Deus tolha nossa grandeza. Ou ainda asensação de vertigem de que falam os místicos. Daí a necessidade de entregar-se,confiar-se inúmeras vezes a Ele a fim de que lentamente nossa vontade consiga, defato, aderir a Ele. Somos feitos para viver essa relação de comunhão-entrega com Deus,como dizia o grande santo Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e nosso coraçãoestá inquieto enquanto em ti não descansar”. É a vocação primeira de toda a pessoa.Temos uma raiz contemplativa em nós, diz Galilea, e não nos realizaremosprofundamente sem desenvolvê-la7 3 – Dimensões básicas da espiritualidade A tradição cristã da Igreja sempre considerou duas dimensões básicas daespiritualidade que também poderiam ser chamadas de enfoques: o da ascese e o damística. Cada um dos dois abrangendo toda a realidade ou mesmo como duas partes damesma realidade. Alguns manuais de espiritualidade tinham como título “Tratado deascética e mística”. Mas a teologia da libertação trouxe à luz outra dimensão, a daprática, ou melhor, da práxis, como veremos abaixo. Tentemos compreendê-las: 3.1 - A Mística: É a dimensão de comunhão com Deus, é o encontro de corações,a comunhão de vida. Os mestres de espiritualidade chamam a isso de “mística”, palavragrega (Mistikós, de mystes, donde também se origina mistério) que significa “realidadeinesgotável, secreta, escondida”(e não incompreensível). Quanto mais alguém viveunido a Deus, mais profundidade de encontro terá, maior comunhão e maior satisfaçãoexperimentará. Vai sentir-se plenificado(a) por Deus. Acontece mediante um processode enamoramento e apaixonamento por Deus e sua Causa ou, melhor dito, mediante6 Esclarecedoras as páginas 62-83 de G. GUTIÉRREZ. Beber no próprio poço. Itinerário espiritual de um povo.Petrópolis: Vozes, 1985.7 “O homem apresenta uma raiz contemplativa que não deve ser sufocada nem frustrada, sob pena da desumanizaçãoou da mutilação de sua realização humana”. S. GALILEA, O caminho da Espiritualidade, 160.
  • 5. Espiritualidade Fundamental 5um deixar-se cativar ou seduzir por Deus (cf Jr 20,7: Gl 2,20), pois é Ele quem toma ainiciativa. A mística, por sua vez, também abrange três sub-aspectos concomitantes: a) Ocultivo do enamoramento, da oração contemplativa e afetiva, feita com a totalidade doser e não apenas com palavras e com a cabeça (O coração tem razões que a razãodesconhece). b) A busca da compreensão (estudo) das coisas de Deus. Sem umconhecimento adequado de Deus, de Jesus Cristo, da Igreja, da Bíblia, dossacramentos, da missão... será difícil viver um relacionamento qualificado com Deus.Daí a enorme importância do estudo da fé. c) A realização de experiências fortes: retirosprolongados, momentos profundos de oração, devoção nos sacramentos, participaçãoem lutas sociais, etc. A experiência entra em nossa vida, rompendo muitas barreiras...Participar de experiências fortes contribui muito para a caminhada na espiritualidade. 3.2 – A Ascese. Essa palavra significa exercício (militar e esportivo - provém doverbo grego askeo, treinar). Quando aplicado à espiritualidade significa mortificação dasmás tendências, penitência, cultivo das virtudes, esforço de convergência de todas asdimensões da vida no objetivo fundamental do viver humano.A dimensão ascética compreende todo o empenho que a pessoa precisa fazer para setornar um espaço acolhedor do Espírito de Deus. Esta tarefa não é tão simples como àprimeira vista parece. Implica em adequar-se ao seu jeito de ser. Implica deixar-semoldar, remodelar como um vaso de barro ao ser construído (Jr 18,4-6). É tudo quantose faz em função de algo significativo na vida. É uma verdade que está sendoredescoberta nestes nossos tempos. São inerentes à ascese várias realidades: a) a Mortificação: Sempre temosnecessidade de mortificar nossas tendências e propensões, pois estamos inseridos emuma ambiente existencial desregrado, marcado pelos desvios do pecado (“Eis que eunasci na culpa, minha mãe me concebeu no pecado”). (Sl 51,7). Combater toda a formade mal em nós e nos outros é uma urgência da espiritualidade: os vícios, as inclinações,as propensões, as insinuações dos outros, o instinto de impor-se aos outros pelopoder... São os “demônios” a expulsar. b) o Exercício das virtudes: as boas açõesprecisam ser repetidas inúmeras vezes para formar um hábito em nós, assim como seprecisa refazer sempre uma determinada ginástica para adquirir certa agilidade.Exercitar a humildade, a coragem, a doação, a acolhida, a paciência, etc. c) apredisposição: Trata-se de atitudes internas que criam espaço para o novo,antecedendo as pequenas decisões. Ex: viver o espírito de serviço à comunidade e aosmais humildes, predispor-se a acolher o novo que vem dos outros, abrindo mão de suasidéias, a perder tempo com os outros... Essas predisposições são o terreno onde podemcrescer as virtudes. 3.3 – A Prática: Nesse caso prática quer dizer uma atitude ou uma açãoconstante, duradoura em favor dos outros para “gerar vida”. É um tipo de atividadediferente da ascética, porquanto a “prática” aqui se refere à dimensão comunitário-sociale não a aspectos de conversão ou transformação pessoais. Trata-se, pois, dosengajamentos concretos de caráter predominantemente comunitário. Existem ao menostrês níveis desses engajamentos: a) Engajamentos comunitários: são práticas e serviçosno interno da comunidade cristã. Por exemplo: participar da equipe de liturgia, depromoções, da pastoral da criança, do clube de mães, ser catequista, etc. b)Engajamentos sociais: São os compromissos na sociedade, independente da religião,
  • 6. Espiritualidade Fundamental 6mas que nem por isso são menos dignos. Por exemplo: associação de moradores,sindicatos, cooperativas, movimentos ecológicos etc. c) E, por fim, Engajamentosexpressamente políticos: Tudo quanto visa uma organização da “pólis”, da sociedade. Ocristão é igualmente responsável pela criação de estruturas justas, de leis adequadasque levem à fraternidade, à partilha dos bens. Lembrar sempre que esta foi uma dascausas que mais pesou na condenação de Jesus. Não existe religião “a-política”, neutra. Nossa fé está profundamente articulada e relacionada com todas as dimensõesde nosso viver, não se restringindo de forma alguma a apenas um determinadocompartimento estanque em nossa vida. Somos uma totalidade de vida, e aespiritualidade há que permear todos os recantos do existir, por mais íntimos ou pormais externos que pareçam ser. Agora podemos passar a descrever algumascaracterísticas de nossa espiritualidade cristã 4 – Principais características da espiritualidade cristã Entre as características mais significativas da espiritualidade cristã podem serenumeradas as seguintes:a) Trinitária. O Deus cristão é um Deus trinitário, formado pelas pessoas do Pai, doFilho e do Espírito Santo, vivendo em perfeita comunhão de vida e missão, emigualdade plena e identidade exclusiva. Como a “melhor Comunidade” é a “utopia” detodo o grupo humano e de toda a forma de relação cósmica 8. Mantendo sua identidadediversa, as Três pessoas vivem tanta comunicação, tanta comunicação, tanta doação egenerosidade, interpenetração e reciprocidade, transparência e unidade de vontade eprojeto, de sentimentos de acolhida e atitudes de inclusão que formam um único emesmo Deus. Onde está um estão os três. Os três participam, de modo diferente, damesma missão, de modo que o que se diz de um se poderia, embora impropriamentedizer dos três. Do Pai se costuma dizer que é a nascividade; do Filho, a receptividade edo Espírito Santo a reciprocidade. Formam a pericórese, uma inter-retro-relação9. OFilho revela o rosto e o coração do Pai, cujo coração é constituído de entranhas demisericórdia, se parece com uma mãe (Os 11,1-11; Ex 3,1ss). Por sua vez, o EspíritoSanto se torna o intérprete do Filho, depois de sua partida, levando à frente a “obra deJesus”, recordando tudo o que Ele disse, amparando como “advogado” e “consolador”(Jo16)10. Este primeiro dado leva a concluir que a pessoa humana, porque criada àimagem e semelhança de Deus, é também fundamentalmente vocacionada àcomunhão, à comunicação, à partilha de vida, à doação total e irrestrita da vida, a8 A ciência atualmente defende que o mundo não é mais uma grande máquina composta de partes formando umaespécie de super engrenagem como pensava R. Déscartes. A teoria da física quântica revelou que os pósitrons e osquartz podem ser matéria e podem ser simplesmente onda energética e que tudo depende das combinações. Ouniverso não passaria de um “evento de relações” que se estabelecem segundo probabilidades (daí a lei darelatividade de Einstein). Veja-se, por exemplo, F. CAPRA. O Ponto de Mutação. S. Paulo: Cultrix, 1999, 19-91.9 Muito feliz nesta perspetiva é o ícone de André Rublev, mostrando as três pessoas divinas formando um círculo, natotal diferença e semelhança ao mesmo tempo. Ver: V. TEPE, Nós somos um. Petrópolis: Vozes, 19957.10 A Trindade é uma espécie de redescoberta da teologia hodierna. Até recentemente, a Trindade tinha poucasignificação porque se priorizava a explicação teológico-racional sempre árdua e insossa. Porém narrando-se os“feitos da Trindade econômica” o estudo se torna apaixonante. Vejam-se, por exemplo: L. BOFF. A Trindade é aMelhor Comunidade e A Trindade e a Sociedade. De Bruno FORTE. A Trindade na história e A Trindade paraAteus. R. MUGNOZ. O Deus dos Cristãos, etc.
  • 7. Espiritualidade Fundamental 7estabelecer reais laços de proximidade com todos os outros sem a ninguém excluir. Defato, a maior realização de alguém é sentida quando vivendo em profunda comunhão.O contrário é igualmente significativo: quanto mais isolamento ou exclusão alguém vive,maior experiência de frustração e de inferno.b) Bíblica. A Bíblia é o livro que recolhe os grandes e paradigmáticos testemunhos daexperiência de Deus, sempre pluriforme e polifônica. Pessoas e grupos humanos aolongo dos séculos foram descobrindo o “jeito de Deus ser e agir”. Melhor dito, ao longodos séculos, Deus foi se desvelando e mostrando seu rosto e coração ao povo que oprocurava. Estas experiências foram reunidas e tornadas “canônicas” pela comunidade.Constituiu-se assim no livro “sagrado” por excelência, referencial para todos quantosbuscam a face do Deus vivo e verdadeiro. Para além dos grandes gêneros literários(narrativas, orações, canções, reflexões sapienciais, escatologias...), através dosinúmeros testemunhos de pessoas, emerge claro o rosto de Javé, o Deus de JesusCristo e o seu projeto de salvação para todo o gênero humano e para o próprio planeta. Uma vez que se busca sorver, não tanto os detalhes ou os pequenos aspectosisoladamente, mas sim o grande fluido existencial qual sangue nas veias de umorganismo humano, a Bíblia se torna o referencial primeiro e insubstituível daespiritualidade de um cristão. Importa, sobretudo, dar-se conta da direção da grandecorrenteza de suas águas. Na Bíblia está manifesto o jeito de Deus ser e a maneira dapessoa e dos povos responder-lhe existencialmente. Esta Palavra é qual Pão de Vida. Uma espiritualidade em que predominam sobre a Bíblia as figuras (quando nãomistificadas e mitificadas) de santos e santas talvez se explique pela ausência de umasadia e correta presença e compreensão da Bíblia. Diz São Paulo que ninguém podepôr outro fundamento que “Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele é o Caminho, a Verdade e aVida (Jo14,6). Os santos são encarnações ou concreções do Evangelho, mas nunca aglobalidade e a profundidade do mesmo. Por isso a insubstituibilidade da palavra deDeus que testemunha, discerne, conduz à fonte da vida.c) Comunitária ou eclesial. O seguimento de Jesus Cristo não é feito individualmente.Sempre será uma caminhada comunitária, coletiva. O próprio Deus salva como povo(Lumen Gentium) e não individualmente, mesmo se valorizando a pessoa concreta. Sãoas comunidades nos seus diversos níveis que dão seguimento à prática de Jesus Cristo– assim testemunha a Bíblia. Da mesma forma que a obra da salvação é feitacomunitariamente pelo Deus-Comunidade, assim também a resposta a esta propostasalvífica deverá ser sempre dada comunitariamente. A espiritualidade cristã supõe que a pessoa participe do processo salvíficooperado pelas comunidades. É, pois, fundamental que a pessoa, no seu processo deseguimento de Jesus Cristo, esteja aberta ao sopro do Espírito que fala e age nacomunidade. Os apelos expressos pela comunidade-igreja (CNBB, CRB, Congregação,província, comunidade religiosa local, etc) precisam se tornar nossos apelos. Porém,importa aqui ter clareza de que o Espírito Santo, infelizmente, pode ser barrado no seuagir pela instituição e pelas pessoas que a representam e, portanto, que a verdadeiraobediência não se confunde com a mera submissão à instituição. Os Profetas, Jesus,Francisco de Assis, os mártires atuais são exemplos de pessoas subversivas. Quem vive a espiritualidade de modo individualista ou isolado deveria se
  • 8. Espiritualidade Fundamental 8questionar se vive a espiritualidade cristã, de Jesus Cristo. É insuficiente dizer “eu rezoem casa, sozinho...”d) Conflitiva. Outra característica da espiritualidade cristã é o de “ser conflitiva”.Exatamente na perspectiva do que se vinha dizendo acima. A fidelidade a Deus vaigerar oposição daqueles que não o acolhem. “A vida de Jesus foi uma pauleira donascimento à morte”, disse jocosamente Frei Betto. A proposta de Jesus desinstala, criainsegurança, questiona, revoluciona. No entanto, a maioria das pessoas não suportaviver nesta condição. Gostam de sombra e água fresca, de viver pacificamente.Mormente os poderosos passam a agir em forte oposição, com o apoio da opiniãopública pelo domínio que têm sobre ela. Como magistralmente disse D. Helder Câmara:“Quando dou pão aos pobres sou considerado santo; quanto pergunto porque os pobrestêm fome, sou chamado de comunista”. Muitos pensam que viver uma espiritualidade profunda signifique “viver numa pazabsoluta sem ser incomodado por ninguém nem por nada”. Ao contrário Jesus afirmouque quem o segue terá o cêntuplo de bens, mas com perseguições. A paz de Deus nãoé quietismo e sim a sensação de estar-em-casa, de estar no rumo certo, de viver umapresença que sustenta e encoraja. Se a espiritualidade pode ser até definida como“combate espiritual”, não pode de fato ser imaginada como uma tranqüilidadeimperturbável. Convém lembrar de que o seguidor de Jesus Cristo caminha nacontramão da história, nada contra a correnteza. E por isso o conflito se torna inerente.Diz Jesus: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem e, por causa de mim,disserem todo o tipo de injúria. Fiquem felizes e contentes...” (Mt 5,11-12). Quando Jesus fala na necessidade de tomar a cruz e seguí-lo (Mt 16,24) estáafirmando exatamente esta dimensão: assumir as contrariedade e oposições quesurgem da nova prática que, por vezes, podem custar o preço da vida. São João daCruz fala da noite da fé, pois nestes momentos o próprio Deus parece silenciar. A oitavabem-aventurança parece ser o critério da fidelidade a Deus: “Bem-aventurados vósquando fordes perseguidos e caluniados por causa do meu nome...” (Mt 5,11) Quem não vive conflitos por causa de sua fé em Jesus Cristo deveria sequestionar seriamente sobre a autenticidade de sua vivência espiritual.e) Libertadora. Esta é a boa notícia que a espiritualidade traz consigo. Deus vaielevando as pessoas e os povos. Nosso Deus é um “Go’el”, um padrinho que resgata daescravidão. E Ele o faz dando até o seu Filho (Jo 3,16). O povo bíblico fez a grandeexperiência de Deus no processo do Êxodo, “sentindo Javé o resgatando de todo poderopressor e conduzindo-o a uma terra onde corre leite e mel”. De fato, quando mais alguém avança e progride no caminho da espiritualidade,quanto mais consegue dar espaço para o Espírito agir, mais forte experimentará aliberdade, quer a nível interior (de seus conflitos internos) quer a nível comunitário esocial. O cêntuplo que é dado ao seguidor de Cristo também é vivido em forma deliberdade/libertação. A espiritualidade genuína leva a engajar-se no processo de darvida, de resgate da dignidade, de restabelecimento da justiça evangélica, de gerar vidaabundante para todos etc. A espiritualidade genuína rompe as situações injustas, desaliena as pessoas para
  • 9. Espiritualidade Fundamental 9que possam ser autônomas e livres, conduz a uma dignificação crescente. Portantouma espiritualidade que mantenha as pessoas nos sofrimentos e situações contrárias àplenitude de vida não é espiritualidade cristã. Jesus expulsava demônios, curava deenfermidades, reintegrava os marginalizados, propunha novos relacionamentos sociaise religiosos... Interessante observar que os maiores e melhores movimentosrevolucionários foram os realizados em nome de Deus, isto é, que tiveram a sabedoriade se deixar conduzir pelo Espírito de Deus. Uma espiritualidade de conformação às situações, que não leve a romper comtoda a forma de opressão e escravidão provavelmente não é genuinamente cristã.f) Contemplativa. Por fim, outra característica genuína da espiritualidade é o de sercontemplativa. Uma contemplação ativa, feita de profunda escuta dos mais levesgemidos inefáveis do Espírito. Feita de um “olhar” calmo e atento para o caminho apalmilhar. É uma contemplação que discerne os “sinais de Deus na história”. Ocontemplativo sabe que Deus se manifesta sempre no presente que todos os recursosde que dispomos (Bíblia, Igreja...) estão aí como auxiliares para descobrir a fala de Deusno hoje da vida. Jesus foi este contemplativo que se valia profundamente da Palavra daBíblia, mas, ao mesmo tempo, que a ultrapassava com liberdade, pois seu ouvidoestava acima de tudo colado à vida do povo. O mártir argentino D. Henrique Angellelidisse um dia, retomando Karl Barth: “O cristão precisa ter um ouvido na Bíblia e outro nojornal para entender a Deus”. Para favorecer a contemplação é fundamental tambémaprender a rezar de um modo não racional, com um mínimo de palavras, mais com oouvido, com o coração do que com a razão (esta, por vezes, pode se tornar umverdadeiro empecilho). O contemplativo se torna capaz de confrontar seu jeito de ser, de viver, detrabalhar, de rezar com o jeito de ser, de viver e de trabalhar daquele que veio inauguraro Reino neste mundo. É evidente que isso exigirá tempo e dedicação, certa priorizaçãono organizar o cotidiano, mas jamais separação ou negação do engajamento. QuandoK. Rahner disse que o cristão do século futuro “ou será místico ou não será cristão”certamente o pensava nesta perspectiva. Importa, pois, viver o seguimento de Jesus Cristo nestas múltiplas dimensões etensões. É tarefa exigente. “Só os violentos entrarão no Reino”. A “porta é estreita”.Devido ao dom da liberdade, o seguimento de Jesus Cristo, o viver sintonizado com oEspírito de Deus será sempre uma pro-posta a exigir uma res-posta dada livremente.Ela começa então com uma “de-cisão” clara, firme e corajosa. Ser cristão não é algoque se faça sem certa violência, pois o mundo que nos circunda segue direçãocontrária. Trata-se de estar “com Jesus na contramão”, como intitulou Frei CarlosMesters uma pequena obra sobre o seguimento de Jesus Cristo11. Porto Alegre, 11.04.04 – Páscoa do Senhor e, nela, nossa Páscoa!11 MESTERS, Carlos. Com Jesus na Contramão. São Paulo, Paulinas, 1995.