Carta a um Ministro (CtaM) Resumo Tese de Frei Inácio Dellazari.        Já sabemos que o caminho privilegiado para chegarm...
1.2. Os Capítulos. Característica fundamental do movimento franciscano, impressa por Fco, foi acondição de „itinerantes ne...
2.1. Fco diante de todas as pessoas. Nas „cartas circulares‟ percebe-se que, com a sua conversão, não seafastou do mundo o...
palavras mais duras de S. Francisco. Convém, no entanto, notar que Francisco começa fazendo uma confissãopública (vv.38-39...
No Testamento Fco deixa perceber que no processo de sua conversão passou por dois momentossignificativos. O primeiro consi...
possibilidade de escuta e a resposta encontrada da parte do ministro em Fco. Este deixa, assim, o ministrodispor dele. Na ...
pela mão de Deus. Ele foi educado e agora pode ser de ajuda (ex. Test 1-3). Francisco foi transformado porqueconsentiu que...
2.3. Em que caminho (via) Fco tenta colocar o Ministro?       Está claro que tanto para Fco como para o Ministro é de fund...
conseqüência é a perfeita obediência. Adm 8-9: amor, obediência, cruz, perfeita, verdadeira alegria.Quem dá sua vida? - Qu...
- misericórdia         - manter oculto - não difamar             - não envergonhar- não perturbar-se     - não enraivecer-...
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Carta ao ministro : resumo da tese de Inácio Dellazari

845

Published on

Carta ao ministro : resumo da tese de Inácio Dellazari

http://www.estef.edu.br/arno/wp-content/uploads/2011/07/Ora%C3%A7%C3%A3o-Crucifixo-Estef1.pdf em 20110803

Published in: Spiritual
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
845
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
4
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Carta ao ministro : resumo da tese de Inácio Dellazari

  1. 1. Carta a um Ministro (CtaM) Resumo Tese de Frei Inácio Dellazari. Já sabemos que o caminho privilegiado para chegarmos ao coração de Francisco são os seus Escritos.Através da CtaM vamos nos aproximar mais do coração de Francisco (Fco). E estudaremos a Carta através dajanela “Fraternidade”. A intenção central será a de colher a imagem de Fco como Guia humano e espiritual. Na verdade é umatentativa de chegar a Francisco, ao seu coração, através da CtaM. I: Contexto da carta a um Ministro (CtaM). 1. Contexto da Ordem á luz da CtaM. Através da própria carta é possível saber qundo foi escrita e traçar as características gerais da Ordem. 1.1. Origem e evolução do projeto evangélico revelado a Fco pelo Altíssimo. Na origem do movimento franciscano está a experiência de conversão de Fco de Assis. Onde está onascedouro da sua vida. Esta experiência foi compreendida por Fco como o resultado da iniciativa de Deus emsua vida: “Dominus ita dedit mihi fratri Francisco incipere faciendi poenitentiam”(Test 1). Esta experiênciade conversão Fco a fez, inicialmente, sozinho, diz: “o Senhor concedeu a mim!” Estamos nos anos 1204-1208. Depois desse período de mais ou menos 4 anos, no qual Fco se encontrava sozinho diante do chamado deDeus, sucedeu o segundo momento importante de sua vida que é a chegada dos irmãos. Assim o interpreta Fco:“E depois que o Senhor me deu irmãos” (Test 14). É a segunda vez que o Senhor concede a Fco. Assim Fcomesmo se coloca na origem como instrumento de uma obra de Deus e na origem de uma fraternidade tambémde Deus, Dom dele, do Senhor. Em torno de 1209, já com 11 irmãos, Fco escreve com „breves e simples palavras‟ o projeto inicial devida, composta de expressões do Evangelho (1Cel 32). Vão a Roma pedir ao Papa aprovação dessa vida. OPapa abençoa seu pedido e envia (1Cel 33). Desta maneira Fco confiou o projeto inspirado por Deus àaprovação do Papa, à Igreja. A Fraternidade desde o seu início vem marcada pela característica eclesial. Esta éa novidade e o elemento distintivo deste movimento de tantos outros existentes na mesma época. Diz Esser:“...a novidade que distanciou Fco e os seus frades de todos os fenômenos contemporâneos afins: a suafidelidade à ortodoxia e a sua devoção de matriz eclesial”( Il Test, 133). Fco está convencido que recebeu uma missão divina (Dominus dedit mihi – O Altíssimo me revelou) epede a confirmação do Papa para viver esse projeto. Retornando de Roma viveram como peregrinos e forasteiros, com o exemplo e com breves sermõesanunciavam a paz e penitência (Test 23; Rb 6,3; Rb 9,4). Quando interrogados de onde vinham e quem eramrespondiam: somos penitentes da cidade de Assis‟ (3C 37,7). No primeiro decênio de vida a Fraternidade cresceu rapidamente. Isto deveu-se principalmente à pessoade Fco. Eles, conforme Giacomo de Vitry, “imitam claramente a forma de vida da Igreja Primitiva e a vidados Apóstolos. São enviados dois a dois a pregar” (p. 1423.24.25). Aceitam todos os livres nas suas fileiras(Jacques de Vitry, p. 1425). Esta expansão aconteceu sem uma devida formação, pois ainda não haviaNoviciado, o qual foi introduzido só em 1220. O crescimento numérico dos frades exigiu uma nova organização da fraternidade. Essa é dividida emProvíncias (1217), tendo à frente um Ministro. Sua função é estabelecida na Rnb 4,1-6 e Rb 10,1-7. Estadivisão em Províncias é algo novo na época de Francisco. Mostra, assim, sua capacidade de adaptação asituações novas! Enquanto aumentava o número de frades, a legislação da fraternidade sofria transformações.Disto fala Fco na CtaM. O termo deste processo foi 1223, ano no qual foi aprovada a Regra definitiva (Soletannuere, 23.11.1223). A CtaM foi escrita quando a Ordem se encontrava nesse período histórico no qual já está dividida emProvíncias, Fco era guia dos Irmãos através dos Ministros, mas ainda não havia uma legislação definitiva. 1
  2. 2. 1.2. Os Capítulos. Característica fundamental do movimento franciscano, impressa por Fco, foi acondição de „itinerantes neste mundo‟. Fundamentado no seguimento de Cristo que „foi pobre e peregrino‟, Fcoenviava os frades dois a dois pelo mundo para anunciar a paz e a penitência para a remissão dos pecados (1Cel29; ainda: Rnb 9,13; 15,1; 14,1; 16,5). O Capítulo e a vocação itinerante devem ser compreendidos juntos. OCapítulo, na origem da Ordem, representou a instituição que reunia a Fraternidade itinerante. Dos Escritos de Fco a ctaM é aquele que mais contém referências à função dos capítulos. Na Rnb vemdito que o Capítulo é a ocasião para tratar das coisas que se referem ao serviço de Deus (18,1). Sobre osCapítulos nos fala Jacques de Vitry: “Uma vez por ano, os homens desta Ordem se encontram num lugarcombinado para se alegrar no Senhor e comer juntos: e é de grande proveito para todos. Valendo-se doauxílio de conselheiros corretos e virtuosos, redigem, promulgam e levam à aprovação do Senhor Papasantas instituições; em seguida, se separam novamente por um ano e se espalham através da Lombardia,Toscana, Apúlia e Sicília” (p. 1422). Também na LTC 57, 1-3; 1Cel 39, 2. O que estes textos nos dizem sobre o Capítulo? Numafraternidade itinerante eles representavam o elo de união e a ocasião, o novo e qualificado impulso da dispersãopelo mundo, dois a dois. Com alegria os irmãos retornavam aos Capítulos. Fco estabelecia laços espirituais eafetivos entre os frades. Isto os mantinha unidos espiritualmente. Assim, os Capítulos reuniam os fradesdispersos e, ao mesmo tempo, enviava-os pelo mundo, nas diferentes regiões. Eram ainda ocasião de reflexãosobre a práxis da fraternidade, experimentadas no dia-a-dia da missão. Confrontavam a prática com o idealproposto pela Regra; adaptações eram feitas, sempre de acordo com as necessidades reais das novas situaçõesda fraternidade. Ainda: representavam o momento do encontro com Fco. O Santo ouvia, encorajava eadmoestava os irmãos. Em suma, os capítulos eram a expressão da participação de todos no concretizar daRegra. Eram momentos onde a Fraternidade, animada por Fco, re-elaborava as normas de vida; juntos agiam naconcretização do ideal evangélico de vida. 1.3. Data da CtaM. Considerando o conteúdo da carta e o que foi dito acima, podemos dizer comsegurança que ela foi escrita entre os anos 1217 e 1223. Não antes de 1217, data que marca a divisão da Ordemem Províncias, nem depois de 1223, data da aprovação da Regra. 1.4. Origem da carta. O que motiva Fco a escrever esta carta é a situação real de um Ministro: vive emdificuldades no exercício de sua missão entre os irmãos. Dirige-se, por isso, a Fco. Este lhe responde refletindosobre os problemas que lhe afligem a alma e sobre os problemas pelos quais passa a Fraternidade. É uma cartaque nasce da realidade da vida dos frades e está orientada para esta mesma realidade: pretende ser a orientaçãodo Evangelho, que é a Regra e a vida, para a real situação de vida da Fraternidade. 2. A carta a um Ministro no contexto das Cartas de Fco. Fco foi guia também através de cartas. Não quis ser escritor. Considera-se “ignorans et idiota”(iletrado – CtaO 39). Escreve, por quê? “Sendo servo de todos, tenho por obrigação servir e ministrar atodos as odoríferas palavras de meu Senhor. Por isso, considerando em meu espírito que não posso visitar acada um pessoalmente por causa da enfermidade e fraqueza do meu corpo, resolvi transmitir-vos por meioda presente carta e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, e aspalavras do Espírito Santo, que são espírito e vida (Jo 6,64)” (2ctaF 2-3). Entre outros elementos, Fco fala dasua missão itinerante, e mostra que ele mesmo não se pertence. Internamente Fco se sente impelido a anunciar as palavras do Senhor, que na sua experiência, são comoum suave perfume. Dessa palavra Fco fez-se servo e transformou-se num apóstolo. Esse zelo apostólicomanifesta-se em Fco como uma obrigação. Este anúncio era feito nas suas andanças, na pregação itinerante. Adoença e a fraqueza impediram-no. O desejo de continuar anunciando as palavras e a vida do Senhor continuouvivo dentro de Fco (ardia dentro dele). Esta é a razão do escrever cartas. É o anúncio escrito. Com o objetivo de ampliar a compreensão da figura de Fco, a seguir veremos como Fco se relacionacom todas as pessoas, com os frades e seu modo de se relacionar com uma pessoa só. Isto, através das cartas (ofoco é o de buscar o ser e o agir de Fco). 2
  3. 3. 2.1. Fco diante de todas as pessoas. Nas „cartas circulares‟ percebe-se que, com a sua conversão, não seafastou do mundo ou das pessoas de seu tempo (ver 2ctaF,1; ctaGov,1). A forma e a ordem de Fco nomear as pessoas segundo sua condição social revelam um conhecimento daorganização social e um interesse por cada pessoa ou classe de pessoas. Isto transparece na Rnb 23,7. Fco vê apessoa concreta. Nada de anonimato (na 2Cel 89: ocupa-se com a situação de uma pessoa concreta! e 90 Fco éapresentado como resposta para todos, através da sua atitude). Esta relação é um dever e um direito missionáriopara Fco. A via ou a mística que Fco propõe e segue emergiu da sua experiência de fé, que ele viveuapaixonadamente (2ctaF, 54-56). Vê-se que não é um programa criado pela inteligência, mas experimentado apartir da fé. Fco entendeu o valor que cada pessoa tem para Deus. Deseja que todos façam a experiência doquanto o Senhor é suave (bom) (2ctaF, 16). O modo como Fco se apresenta é característica sua: como servo menor: “Frei Francisco, servo e súditode todos estes, com reverente submissão, deseja a verdadeira paz do céu e sincera caridade noSenhor”(2ctaF,1); “Frei Francisco, vosso pequenino e desprezível servo no Senhor, deseja saúde epaz”(ctaG,1). Esta sua atitude de menor aparece claramente quando ele se inclui nas exortações que faz. Usa habemus,faciamus, diligamus, debemus (Ex. Adm 6). Não é só anúncio para os outros, mas ele mesmo se inclui nosdestinatários. Contudo, quando se refere àqueles que não fazem penitência e que querem permanecer no pecado,não se inclui: “vede, ó cegos, ó iludidos pelos vossos inimigos” (ex.: 2CatF 69). 2.2. Fco diante dos Frades. Cartas à Ordem. Fco tinha uma capacidade singular de discernimento e umsentido das situações (cf. ex.: 2Cel 57). Diante de situações e compromissos diferentes, as exigências devemtambém ser diferentes: “Especialmente os religiosos, que renunciaram ao mundo, são obrigados a fazer maise maiores coisas, mas sem deixar (cf. Lc 11,42) estas” (2ctaF, 36 – ler 32-36). Diante dos Irmãos, Fco mantém a mesma sua atitude de menor e servo de todos (CtaO, 3 e 38-39).Nomeia cada frade segundo sua condição, mas com um detalhe significativo: acrescenta uma suaqualidade/virtude: “e a todos os ministros e custódios, aos humildes sacerdotes da mesma fraternidade emCristo e a todos os irmãos simples e obedientes, aos primeiros e aos últimos”(CtaO, 2). Este termo in Christohumilibus, considerando a compreensão de Fco da Eucaristia como prolongamento do mistério da Encarnaçãoque se atualiza sobre o altar nas mãos do sacerdote - mistério da humildade de Deus -, e como sacramento noqual Deus continua se humilhando na história, tem um significado muito profundo. De fato, é o que diz nos vv.23-29. Aqui Fco revela a sua capacidade de olhar em profundidade (olhar contemplativo) e perceber aquilo queé fundamental na vida de cada frade. Da mesma forma acontece quando nomeia “todos os irmãos simples eobedientes”. No Elogio das Virtudes “a pura e santa simplicidade” é apresentada como aquela virtude queconfunde toda a sabedoria da carne e a obediência, irmã da santa caridade (v. 3), que confunde todos os desejosdos sentidos e da carne (maquinações) e traz o corpo mortificado na sujeição ao espírito e na obediência ao seuirmão e faz o homem submisso a todos os homens deste mundo (EV 10.14-15; “Eu vim para servir e não paraser servido”!). Tanto a obediência como a simplicidade vem contrapostas ao espírito da carne, isto é, àtendência interna pecaminosa da pessoa, ao espírito que mantém a pessoa fechada egoisticamente a si mesma.Associando as virtudes da simplicidade e da obediência a todos os frades, Fco está se referindo à identidadefundamental do frade menor de obedecer à voz do Espírito do Senhor que santifica o coração da pessoa,mantendo-o unido às outras na obediência mútua. A partir dessa singular forma de Fco nomear irmãos sacerdotes e todos os outros frades, unindo aosprimeiros a virtude da humildade e a todos os outros as virtudes da simplicidade e da obediência, pode-secompreender o modo como Fco olhava para cada irmão. Ele os vê a partir da vocação divina, da condiçãofundamental de criaturas de Deus, que encontram na humildade, na obediência e na simplicidade de Cristo omodelo para responder ao chamado: seguir as pegadas de NSJC. Francisco que caracteriza-se pela sua forma humana e terna de relacionar-se, no final da CtaO assumeuma atitude enérgica, firme e decidida (v 44-46) Francisco está enfrentando uma situação da qual Jacques de Vitry se referia em na carta escrita no anode 1220. O número crescente dos irmãos, o problema de vagar pelo mundo de forma não evangélica, emresumo, uma vida em contradição com o ideal prometido. Esse texto da CtaO parece ser o texto que contém as 3
  4. 4. palavras mais duras de S. Francisco. Convém, no entanto, notar que Francisco começa fazendo uma confissãopública (vv.38-39); segue-se o pedido ao ministro geral que a Regra seja observada (v. 40-42); no seguinteFrancisco promete observar a Regra e cuidar que os que com ele estão também observem a Regra (43); segue omomento das palavras duras que dirige aos que não querem observar a disciplina da Regra (v. 44-46); segue asua atitude característica de reconhecer-se o menor de todos, “inútil e indigna criatura do Senhor Deus" (v. 47).Observando a seqüência Francisco termina na mesma atitude que começou, ou seja, o reconhecimento depecador e indigna criatura do Senhor. Entre dois momentos em que se reconhece indigno diante de Deus e dosirmãos, introduz uma admoestação dura contra os que não fazem “caso da disciplina da Regra". Francisco admoesta, mesmo com palavras duras, sem faltar com a caridade. Ele coloca-se como oprimeiro destinatário da própria admoestação, reconhecendo-se um dos irmãos, para num segundo momentodirigir também aos outros. Essa forma de agir foi em Francisco uma atitude de vida, atitude que lhe davaautoridade diante dos irmãos. 2.3. Fco diante de pessoas particulares. Estas cartas mostram a capacidade que o Santo tinha de manteruma relação interpessoal. Exemplo disso são a ctaL, a ctaM, a ctaA. Estas cartas mostram a sua relaçãofraterno-maternal: respeita a consciência individual, ouve com atenção as dificuldades e sabe entender asituação do confrade e sabe se colocar à sua disposição. II: Francisco guia humano e espiritual 1. Situação existencial do Ministro, que é a situação de toda Fraternidade. 1.1. O problema e a sua origem. O problema crucial que o Ministro vive é sintetizado por Fco pelo “impedimentum amare DominumDeum”: „coisas que te impedem de amar o Senhor Deus‟ (v. 2). Esse parece ser o problema fundamental quefez o Ministro escrever a Fco pedindo ajuda. É uma situação que o Ministro vive com muita intensidade, poispretende até abandonar a fraternidade e ir a um eremitério. A origem das dificuldades que o Ministro encontra no amor do Senhor se situa no contexto dafraternidade, da qual ele foi constituído ministro e, como servo, tem a obrigação de “animar e exortarespiritualmente os irmãos” e cuidar para que nenhum se perca “por sua culpa e mau exemplo” porque deverá“prestar contas no dia do juízo perante Nosso Senhor Jesus Cristo”(Rnb 4,6). Fco, radicalizando o problema, disse ao ministro: “Tudo deves ter como graça, até mesmo se teaçoitarem” e ainda “bem como aqueles que te opuserem obstáculo, irmãos ou outros” (v. 2). Dessas palavrasde Fco podemos concluir que a origem do problema do ministro se encontra no difícil relacionamento nafraternidade com alguns irmãos. Parece que houve um conflito que repercutiu negativamente na vida doministro. Ele vive numa situação de dificuldades de aceitar esses mesmos irmãos assim como são, pois diz Fco:“Não queiras da parte deles outra coisa, a não ser o quanto o Senhor te conceder” (6), como também “e nãoqueiras que sejam cristãos melhores” (v. 7). A proposta de solução que o ministro sugere a Fco é de salvar o seu relacionamento com Deusabandonando os irmãos e passar a viver num eremitério. Isto é fácil deduzir quando Fco diz:“E considera istomais do que um eremitério” (v. 8). 1.2. Significado do problema. Ao centralizar o problema na questão do «amor do Senhor», o ministrorevela ter consciência daquilo que é fundamental em sua vida, conforme s. Fco: “Mas na santa caridade que é Deus (cf. 1Jo 4,16), rogo a todos os irmãos, tanto aos ministros comoaos outros, que, removido todo impedimento e todo cuidado e postergada toda preocupação, do melhor modoque puderem, esforcem-se por servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus com o coração limpo e com amente pura, pois é isto que ele deseja acima de tudo” (Rnb 22, 26). O mesmo é dito em Rnb 23, 10 e 11. O ministro vive numa situação na qual encontra dificuldades „no amor do Senhor Deus‟ e aqui Fco pedepara remover tudo aquilo que impede de amar ao Senhor. Parece que o ministro tem uma consciência clara dasua missão e é exatamente por isso que entra em crise. É porque busca viver com sinceridade a vocação pessoalque entra num conflito existencial. 4
  5. 5. No Testamento Fco deixa perceber que no processo de sua conversão passou por dois momentossignificativos. O primeiro consiste na „graça de iniciar uma vida de penitência (“Dominus ita dedit mihi FratriFrancisco incipere faciendi poenitentiam”); o segundo momento aconteceu quando da chegada dos irmãos (“etpostquam Dominus dedit mihi de fratribus”). Por esta situação está passando o ministro. Ele recebeu umachamada pessoal divina e está sendo convidado a viver essa vocação no serviço aos irmãos, que também sãodons como o é a vocação pessoal inicial. O problema do ministro surge quando ele não mais consegue integraresses dois momentos numa única resposta. Fco consegue ajudar o ministro porque ele viveu essa poenitentiam concedida pelo Senhor. Ele tem todasas condições para ajudar o ministro a compreender a situação existencial-espiritual. Veja bem: concedida peloSenhor! Não somos nós, por nós, apoiados em nós, que somos capazes do amor, e do amor maior! 1.3. Textos que refletem situações semelhantes à do ministro. Estes textos nos dirão que a realidadevivida pelo ministro não era única na Ordem, mas que se insere no contexto da vida dos frades, contudo,guiados por Fco, buscavam viver o Evangelho de NSJC. Fco repetir-se-á nestes textos. Teremos umacompreensão mais ampla do pensamento do Santo e da sua maneira de agir com os irmãos. Veremos os textosmais significativos. a) “Pois, quem prefere sofrer perseguição a separar-se de seus irmãos permanece verdadeiramente naperfeita obediência, porque expõe a sua vida (cf. Jo 15,13) em favor dos seus irmãos” (Adm 3,9). Aqui Fco reflete sobre a relação súdito x superior e aplica o que na ctaM diz ao ministro. Para ambos aperfeita obediência consiste em permanecer junto com os irmãos, mesmo que custe sofrimento e perseguição.Nós, muitas vezes, quando a relação fica difícil... pedimos transferência! Fco não concorda. b) “E cuidem todos os irmãos, tanto os ministros e servos como os demais, para não se perturbaremou se irritarem por causa do pecado ou do mal do outro, porque o demônio quer, por causa do pecado de umsó, corromper a muitos, mas ajudem espiritualmente, como melhor puderem, aquele que pecou, porque nãosão os sadios que precisam de médico, mas os enfermos (cf. Mt 9,12; Mc 2,17)” (Rnb 5,7-8). Trata-se dos irmãos que pecam, que também é a realidade da ctaM. Fco repete a citação bíblica de Mt9,12. Na ctaM, no v. 15 Fco pede para „guardar o máximo de segredo‟, „não difamá-lo‟; aqui Fco pede para„não turbar-se ou irar-se‟ mas para „ajudar espiritualmente‟. c) Outros textos: Rnb 22,3-4; Adm 11,1-3; 9,2-3. A partir destes textos podemos perceber que asituação do ministro é uma questão para toda a fraternidade. A atitude de Fco em relação aos que pecam éidêntica. 2. Resposta humana de Fco. Quais são as características humanas de Fco enquanto guia, qual o seumodo de ser, como ele foi irmão. Aqui vamos procurar resgatar a figura histórica de Fco. Veremos como Fcofoi uma resposta humana diante do ministro na sua maneira de ser (qualidades na maneira de ser) e agir (refere-se à ação desenvolvida). 2.1. Características humanas da pessoa de Fco. a) Disponibilidade. Fco, no início da carta, oferece-se a si mesmo ao ministro: “Dico tibi, sicutpossum”. É uma expressão que por mais vezes se repete nos Escritos. É o jeito de Fco se dar e de querer sercorrespondido. Esta expressão é usada na ctaO, onde Fco fala das Palavras e objetos de culto, pede: “venerem-nos o melhor que possam (sicut possunt); na Rnb 5,8, referindo-se aos irmãos que pecaram, diz: “mas domelhor modo que possam -sicut melius possunt - ajudem espiritualmente aquele que pecou”; ainda na Rnb22,26: “removido todo impedimento e todo cuidado e postergada toda preocupação, do melhor modo quepossam - melius possunt - trabalhem por servir, amar, adorar e honrar ao Senhor Deus com coração limpo...”(cf. Rnb 22,27). O “sicut possum” revela como Fco se colocava totalmente à disposição das pessoas e, numa atitude detotal entrega, buscava responder aos apelos dos irmãos necessitados. Da mesma forma, Fco pede que os irmãosse entreguem totalmente, que removam todo impedimento e assim se disponham, sem reservas, às suassolicitações. Essa disposição inicial de Fco na ctaM representa a condição de abertura de um diálogo, a 5
  6. 6. possibilidade de escuta e a resposta encontrada da parte do ministro em Fco. Este deixa, assim, o ministrodispor dele. Na ctaL o santo usa a expressão “sicut mater”! b) Decisão e firmeza: Fco escreve: “E aceita-o por verdadeira obediência para com Deus e paracomigo, pois estou certo de que é essa a verdadeira obediência”. Na ctaL ele diz: “do modo que melhor teparecer agradar ao Senhor”, onde deixa a decisão a Leão. Aqui a solução é apresentada pronta e decidida.Adiante, no versículo 8 diz: “E isto te valha mais do que a vida em eremitério”. Fco é categórico e decide peloministro que viver entre os irmãos significa viver a obediência (= amar até dar-se!) e que andar num eremitérionão é a melhor solução. Esta firmeza aparece também em outros escritos: Test 14.20.25. Na Lp 113 e 114, CA 17 e 18: Quandoalguns irmãos sugerem seguir uma outra Regra, mostra que a Regra não é invenção dele, mas revelação deDeus! Defende, com firmeza e decisão, o projeto do Senhor. É um zelador pelo dom recebido. c) Compreensão e bondade, tanto para com o ministro como para com os irmãos que pecam. É bom ecompreensivo. É esta coerência de vida que lhe dá autoridade no falar e lhe permite ser severo em algunsmomentos sem ferir o interlocutor. Este clima subjaz toda a epístola. A intenção sincera de Fco é a de que oministro supere a crise assumindo a situação difícil. Fco não quer que um dos irmãos se perca por falta decompaixão e de misericórdia. d) Escuta e discernimento: a carta toda é fruto da capacidade de auscultar de Fco. A realidade doministro nos é conhecida porque Fco soube escutar o seu irmão, penetrar no íntimo dele e compreender o que alise passa, de que a alma está povoada. Através de Fco chegamos ao ministro e à sua situação. Esta mesma capacidade de escuta se estende a toda a Ordem. Os problemas que os ministrosenfrentavam nas suas províncias eram do conhecimento de Fco. Na nossa carta aparecem propostas de solução(vv. 13-20) a problemas. Fco manifesta sua capacidade de ouvir, refletir sobre problemas conhecidos a partirdo critério maior que é o Evangelho: faz discernimento, e de propor soluções. Fco foi capaz de ajudar o ministroa discernir e re-situar-se a partir da ótica da misericórdia porque ele mesmo passara por situações símiles:- passou por momentos de dúvida: viver num ermo ou na itinerância (1Cel 35,5)- antes de ouvir os outros ouvia os desígnios de Deus em si mesmo, a partir do plano amoroso do Pai (Test 1-3e tb 1Cel 35,6). e) Acolhimento e realismo. Na visão de Fco, a fraternidade nasce a partir do acolhimento do outro, que édom de Deus. O acolhimento consiste numa resposta positiva a uma ação inicial de Deus, que doa irmãos. Ooutro, pois, surge como epifania, como manifestação do amor de Deus. À pessoa compete a atitude dereconhecimento e gratidão, sem jamais querer se apropriar daquele que é propriedade de Deus. A tendência àapropriação daquilo que pertence a Deus foi uma preocupação constante de Fco (Adm 2). Isto é: querer sabercomo o irmão deve ser! Onde fica a Sagrada Caridade para com o Sagrado diferente querido por Deus? Fco acolhe o ministro como irmão e fala-lhe do melhor modo que pode. Pede que acolha os irmãos comosão, sem pretender que sejam mais do que o Senhor doou: “E não queiras da parte deles outra coisa, a não sero quanto o Senhor te conceder”(v. 6). Esta atitude vivida por Fco fez os jovens estarem à vontade junto dele efez a fraternidade se formar. Cuidava de todos. Cada um tinha o seu lugar e valia: saídos de Deus. Pessoas detodas as classes encontravam acolhida. Dessa compreensão nasce o respeito pela individualidade de cada um:dom de Deus concedido a mim, a nós. Este projeto-Evangelho de Fco constitui-se num ideal que nenhum grupo humano consegue esgotar. Fcotem consciência da grandeza de seu projeto, que é projeto de Deus. Tem também consciência da pequenezhumana diante deste ideal. Contudo, a pessoa deve persegui-lo, seguindo as pegadas de Cristo como „forasteiroe peregrino neste mundo‟. Fco crê que a pessoa possa se colocar neste caminho de perfeição. Acredita na pessoahumana, nas suas possibilidades. Acolhe os irmãos como são e não exige perfeição, que sejam cristãosmelhores. Crê na possibilidade de percorrer o caminho de perfeição. 2.2. Ação desenvolvida por Fco - sua pedagogia - modo de agir: Aqui Francisco emerge como alguém que ajuda, numa situação concreta, a praticar o ideal dafraternidade, que é o Evangelho. É importante salientar que Francisco tem consciência que foi ajudado e guiado 6
  7. 7. pela mão de Deus. Ele foi educado e agora pode ser de ajuda (ex. Test 1-3). Francisco foi transformado porqueconsentiu que Deus o conduzisse por um caminho diverso daquele escolhido por ele. Esta mudança exigiu muitoesforço e luta pessoal. Ele fala até em “amargo e doce”. Não foi sem sacrifícios. Conformar a sua vida com avontade de Deus, permitir ser guiado pelos caminhos do Senhor, exigiu que Francisco „fizesse violência‟consigo (cf. 1Cel 17). O Ministro também está querendo abandonar uma real situação existencial. Está em tensão. Francisconão pode concordar com ele, e começa a educá-lo. a) Aproveita situações educativas, formativas, que a CtaM nos ensina. Francisco faz o ministro ver quea sua atual situação o ajuda para descobrir se: - vive sem nada de próprio (Adm 2), - vive na obediência (Adm 12), - tem paciência e humildade (quanta possui): Adm 13 - situação de vida para saber se somos ou nãopacientes. Interessante: ele não diz o que é a paciência, mas que uma das características dos irmãos seja apaciência. Fco faz a gente se ouvir: quanta paciência você tem? E isto se experimenta na vida de fraternidade,no dia-a-dia, em particular com as pessoas que nos desafiam, cuja visita nem sempre é como eu esperava, - tem PAZ: Adm 15: como saber se tenho paz? Vou saber isso quando tiver que sofrer tribulações.Problemas de convivência ou tempos de guerra e perseguições. Quais são hoje pessoas de paz? Por amor de NSJC conservam a Paz na alma e no corpo. Promover a paz - deve-se amar muito, dar a vida. "Não violência ativa". Fco prepara para viver o difícil- para carregar a cruz. Fazer a experiência de amar, viver o Evangelho, dar a vida. Aprende-se nas situaçõesreais da vida. - é irmão: Adm 14: há uma desarmonia. O relacionamento com Deus deve refletir no dos irmãos. Fcotrabalha o irmão melhorando a vida fraterna. Por causa do Evangelho, e a partir dele, é possível ser irmão! Eiso anúncio = ser irmão. A relação com Deus se mostra, é anúncio na prática! Francisco provoca o Ministro: “E nisto quero reconhecer se tu amas o Senhor e a mim, servo dele eteu” (CtaM 9). Então, permanecendo entre os irmãos que lhe causam sofrimento é que demonstrará se ama aoSenhor e a Francisco. A situação que para o Ministro era um impedimento para amar ao Senhor, na visão deFrancisco é a situação de verificação se ama ou não o Senhor e a ele. b) Promove a participação - nada de só ficar assistindo e comentando a vida da outra pessoa. Ser mãe enão juiz. Promover e não condenar. Fazer crescer e não matar ou bitolar. É envolver o frade na solução de seuspróprios problemas e fazê-lo envolvendo-o na solução dos problemas dos demais. (A regra é de todos, CtaM13). Jacques de Vitry: p.1422. Francisco convida o Ministro para, a partir da sua concreta experiência, ajudartoda a Fraternidade, já no próximo Capítulo, na melhoria da Regra. Francisco quer submeter as suas idéias aoparecer dos irmãos (cf. 2Cel 140, 12-15). c) Promove a restauração do que estava destruído. (Aqui o artista deve ser respeitado, pois foi Ele quecriou a pessoa!). É muito difícil restaurar! Não esquecer do Théos! „Não querer que o outro seja diferente. OSenhor o fez e o deu!‟. Não imitar, mas que cada um seja ele mesmo e siga. Ouvir senão teremos boneco/as queimitam e fazem o que os outros pensam e sugerem. Caridade respeitosa pela sagrada diferença. Franciscoexperimentou em si a restauração que o Senhor foi operando. Não é de um momento para o outro. Acolhe aspessoas como são, dons de Deus, sem delas se apropriar. Fco pede que o Ministro respeite cada irmão na suaindividualidade. E a partir do que são, através do amor e da misericórdia restaurar a imagem de criaturas deDeus. Sua pedagogia consiste em colaborar com a obra de Deus, amando e respeitando os irmãos assim comoDeus os envia. Fco não rejeita e nem condena ninguém. Ele pretende reparar a imagem destruída ou em ruínas. d) Promove o „atrair‟ (Trahere): conquistar para o Senhor (CtaM 11 e PN 5). Amar para atrair. Que oMinistro pelo amor atraia os outros ao Senhor. Para atrair é preciso mostrar que algo é gostoso. Fco para atrairalguém até se fazia de palhaço: Ep 61. É não coagir, forçar. A liberdade do outro é respeitada, mas asexigências são muitas para aquele que deve atrair (Fco atraía, Jesus atraía...). Esta pedagogia é indicada porFco, inclusive em relação aos ladrões que roubavam e assaltavam (Ep 66). Atrair os irmãos ladrões ao amor deDeus. 7
  8. 8. 2.3. Em que caminho (via) Fco tenta colocar o Ministro? Está claro que tanto para Fco como para o Ministro é de fundamental importância “salvar o amor doSenhor Deus”. Fco afirma que o amor do Senhor deve ser vivido na Fraternidade. Emergem dois pontos: apresença dos irmãos na conversão de Fco e a dimensão fraterna da vida eremítica. O encontro com Deusimplica num encontro com os irmãos. Por fim, veremos que Fco pretende colocar o ministro na via daobediência segundo o modelo de Jesus Cristo. Considerações, a partir da vivência de Fco. 2.3.1. A presença do irmão na conversão de Fco: No Test, Fco divide a sua vida em dois momentos:quando lhe era amargo olhar para leprosos e quando a amargura já fora transformada em doçura da alma e docorpo. A pessoa do irmão leproso está colocada no centro do processo de conversão. A capacidade de olharpara o rosto de um irmão é que marca a linha divisória de um tempo e de outro na vida de Francisco. E, assim,começa como que um novo tempo, uma nova vida. A conversão de Francisco não significou uma separação dapessoa, mas um encontro com a pessoa humana, sobretudo com as que estavam à margem da história de Assis.Fco já tinha vivido encontros com pobres. Mas esse foi decisivo. O “exivi de saeculo” em Francisco correspondeu a uma mudança de comportamento em relação àspessoas. Primeiro os combatia através da guerra, agora, depois de um combate consigo mesmo, buscandoobedecer a Deus, Francisco vê na capacidade de acolher e olhar para o rosto de irmãos a resposta aos apelos dagraça, que conduz (conduxit) ao encontro das pessoas. “A trajetória seguida da graça na conversão deFrancisco não é uma exceção; mas segue o modo usual da economia da sa1vação (cfr. Is 58, 1-12). Andar aoencontro do/a irmão/ã, sobretudo do/a irmão/ã mais miserável, significa caminhar em direção de Deus. Cristonos espera sempre em cada pessoa que tenha necessidade de nós (Mt 25, 31-46). O plano de Deus revelou-se a Francisco também na chegada dos irmãos. Inicialmente Francisco apenasquer viver o Evangelho. Com a chegada dos irmãos Francisco é chamado por Deus a orientar a sua vida nãosegundo um projeto pessoal, mas segundo o mesmo projeto inicial de Deus, compreendido agora de uma formamais plena. O "E depois que o Senhor me deu irmãos" faz parte do "começar a fazer penitência”. Este processonão é revelado num só momento, mas progressivamente por Deus. E será com os irmãos e através dos irmãosque Deus continuará a revelar a Francisco o seu plano de amor, como o próprio Francisco continua dizendo:"ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que deveria viver segundo aforma do santo Evangelho” (Test 14-15). Com e através dos irmãos Fco deve continuar a ouvir o que Deusqueria dele e para os irmãos. Para S. Francisco, a vida de obediência ao Senhor implicou gradativamente uma profunda obediênciaaos irmãos. Acolher o plano de Deus significou acolher os irmãos que o Senhor lhe enviou, e na obediência dacaridade seguir as pegadas daquele que foi o modelo de obediência a Deus. Na ctaM o empenho de Francisco éo de colocar o ministro na via da obediência de Cristo, com a finalidade de resgatar as ovelhas perdidas,morrendo para si mesmo e assim ganhando a vida eterna. 2.3.2. Dimensão fraterna da vida eremítica. O ministro quer andar num eremitério e Franciscocompreende que é melhor para a alma do ministro permanecer entre os irmãos. A vida eremítica concebida porFrancisco é também vivida comunitariamente, na obediência recíproca. A forma da vida eremítica concebidapor Fco não se identifica com a dos anacoretas, mas supõe a vida fraterna-materna, inspirada em Lc 10, 38-42. O Ministro, mesmo vindo a abandonar a sua Fraternidade e indo para o eremitério, se encontrariadiante dos mesmos desafios evangélicos que enfrentava como ministro de uma província. Também ali noeremitério seria chamado a viver a obediência a Deus na obediência recíproca entre as Martas e Marias. Amesma vida que queria abandonar para amar a Deus encontraria no eremitério. 2.3.3. Obediência a Deus na via de Jesus Cristo. Veremos agora a via espiritual que Fco, como guiaespiritual, propõe ao Ministro. a) No caminho da verdadeira obediência. Fco pede que o Ministro permaneça na sua fraternidade,porque considera ser essa atitude a verdadeira obediência. Na Adm 3 reflete sobre isso. É a via percorrida porJesus: Jo 15,13. Tem maior amor aquele que é capaz de dar a sua vida pelos seus amigos (irmãos/ãs). Sua 8
  9. 9. conseqüência é a perfeita obediência. Adm 8-9: amor, obediência, cruz, perfeita, verdadeira alegria.Quem dá sua vida? - Quem tem amor maior. Obediência Perfeita = amor maior. Hoje existe o medo dodefinitivo, medo de amar. É a estrada da profunda comunhão com Deus e os irmãos. Esta proposta não é deFco. É de Jesus Cristo.Exigências do amor: doação, sacrifício, desprendimento, despojamento, perder-se, morte, cruz, martírio,sofrimento... É Obediência perfeita: dar a vida pelo irmão, como Jesus o fez. Este amor não era amado. É amor eterno: sempre tem tempo para doação, e oportunidades. É um sofrerconseqüências do Amor e não de injustiça. Não é um sofrer punição. É livre, por causa do Evangelho. QuandoFco pede para “obedecer ao Senhor e a mim” pede para amar. Sem amor não há obediência e não se é capaz defazer nada com alegria. Fco quer colocar o Ministro na estrada do amor. Este amor distingue! Engraçado: omais difícil é aquilo no qual não acho significado. É preciso treinar o amor. Exige autoviolência. É caminho da porta estreita. Aqui ganhamos ouperdemos nossa vida. Rnb 22, 2-4; Adm 6, 1-2: para isso é preciso ter muito amor. Amando aqueles que nosperseguem amamos do mesmo modo que Cristo amou. É a via da porta estreita (Mt 7,14; Rnb 11, 13). Istoexige esforço e luta consigo mesmo. Essa via foi percorrida por Fco que lutou consigo mesmo para transformaro amargo em doçura da alma e do corpo. Deixar-se conduzir por Deus implica abandonar o próprio caminho.Somente quem se dispõe a carregar a cruz no seguimento de Cristo conseguirá conformar o seu caminho com ode Cristo. É um esvaziamento de si e disponibilidade a Deus. b) Caritativa obediência: obediência da caridade (lPd 1,22). Consiste no sacrifício da própria vontade aDeus e no cumprimento do que o prelado ordena, agradando assim a Deus e ao próximo (Adm 3, 5-6).Fundamenta-se em Jesus no Horto: "Não a minha, mas a tua vontade". Jesus sacrifica a sua vontade. Esta podeser disciplinada. Fco diz ao Ministro: „fica entre os irmãos e sacrifica a tua vontade a favor de Deus e de mim,agradando assim a Deus e ao próximo‟. É um amor recíproco, onde ninguém é prior; um lava os pés do outro.Ninguém precisa ter vergonha dos seus limites. Todos são caminheiros e ajudantes na jornada. “E nenhumirmão faça mal a outro ou diga mal dele; muito pelo contrário, através da caridade do espírito, sirvam eobedeçam uns aos outros (Gl 5,13) de boa vontade” (Rnb 5, 13-14). c) Peregrinar na fraternidade: Fco diz: “Se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se quer obtermisericórdia” (10). A idéia é a de não esperar, mas de ir, movimentar-se ao encontro do irmão. Quem tem queter a iniciativa? Fco fez a experiência do Senhor que foi ao seu encontro, foi visitado pelo Senhor. O Senhor oenviou entre os leprosos. Ali começou a fazer e a ter misericórdia por eles. Envia os frades aos outros. Assim como o Senhor todos os dias vem ao nosso encontro em humilde aparência (Adm 1, 16-18), Fcose sente em missão para anunciar a vida do Filho. Os ministros, por sua vez, devem visitar (visitent) os frades espalhados nas províncias (Rnb 4, 1-2 e Rb10,1), e "admoestá-los espiritualmente”. A dimensão itinerante do projeto evangélico de Francisco deve servivido também dentro da fraternidade, na procura dos irmãos, na iniciativa em direção daquele que necessita demisericórdia. Sempre é tempo para ser fraterno e viver o Evangelho e de ajudar o outro a vivê-lo. Beneditinos - esperavam as pessoas. Frades - vão ao encontro do povo. É como o comércio, não tem estação. Vai. A roça tem a sua estação. d) Viver sine próprio: caminho da desapropriação. Não querer que sejam cristãos melhores, nãoperturbar-se, acolher o que o Senhor dá. Adm 11. O Ministro não permanece sereno diante do pecado do irmão.Perturbar-se significa querer mais do que o Senhor concede! É também não aceitar a pessoa como é, mas quererque seja de acordo com a minha própria vontade. Isso é apropriar-se; exigir que alguém seja aquilo que eudesejo que fosse. É a via do total despojamento. Cristo veio a nós! É preciso sair da superficialidade dos relacionamentos - isto até os pagãos fazem: dar para receber! Épreciso entrar no caminho de Deus que é cortês: faz chover, brilhar o sol: não consegue querer mal. É fonte debem. Devemos participar do bem que Deus é: 2ctaF 26-27. e) Resgatar os que estão perdidos. Mt 9,12: os doentes precisam de médico; Rnb 5,7-8. O que fazercom os que pecam? 9
  10. 10. - misericórdia - manter oculto - não difamar - não envergonhar- não perturbar-se - não enraivecer-se - ajudar espiritualmente. Francisco propõe que a missão de Jesus seja a missão da Fraternidade. A via na qual Francisco quercolocar o ministro é a via de Cristo que veio a este mundo para salvar os pecadores e não para condená-los.Tendo misericórdia dos irmãos que pecam o ministro segue as pegadas de Cristo que usou de misericórdia paracom os pecadores. Qual penitência dar ao que pecou? "Vai e não peques mais" (v. 20). Só dar esta penitência! Foi a únicaque Cristo deu à Adúltera! É a penitência mais dura que Jesus deu! f) Regra de ouro; Mt 7,12: ctaM 17. Para Fco é norma de relacionamento entre os irmãos. Rnb 4, 4;10,1; 6,2; Adm 18,1; 2ctaF 28-29. Assim, Fco transformou este versículo do Evangelho em norma de vida parao amor recíproco na Fraternidade: colocar-se sempre na situação e nas condições do outro e agir com lógicacristã. Fco fez assim. S. Francisco convida seus irmãos, através desse texto do Evangelho, a constantemente sair de simesmos e entrar no mundo do outro, fazendo suas as preocupações e necessidades dos irmãos. Significatransformar o outro em sujeito de minhas atenções, vivendo o preceito do amor fraterno. Pode-se novamenteperceber o quanto para Francisco o “exivi de saeculo” significou um profundo encontro com a realidade de vidados irmãos, dando a vida pelos outros, a exemplo de Cristo. Foi um sair da lógica do século, de Assis e umparticipar da lógica de Deus-Amor, revelado na pessoa de Jesus Cristo. g) Caminho da vida eterna: Rnb 22,1-4. Considerar tudo como graça. É o caminho das tribulações,pancadas, morte... Este caminho foi realizado na perfeita obediência de Jesus com o Pai por amor a nós: é ocaminho do amor, de Deus. Este caminho das tribulações injustas é o caminho que conduz à vida eterna (Rnb22, 3-4 e 2ctaF 11). A via das tribulações, do martírio, do sofrimento foi a via na qual Deus manifestou emJesus Cristo a plenitude do seu amor para com as pessoas, oferecendo-se “como sacrifício e hóstia no altar dacruz” (2ctaF 11). Jesus Cristo conformou sua vontade com a do Pai que o enviou. Isto Ele fez não para simesmo, mas pelos nossos pecados (2ctaF 12-13). A vida eterna será conseqüência da resposta ao amor deDeus. A vida eterna para Francisco é o próprio Deus: “Tu és nossa eterna vida” (LDA 6). O encontro comDeus se dá pela via da completa expropriação da pessoa de si mesma e no oferecimento do corpo para carregara cruz de Cristo Neste caminho se promove a vida, se restaura, se forma e se acompanha. E há ressurreição. Fco temautoridade porque assim viveu. PENSAR: se S. Fco quisesse me colocar neste caminho, como eu reagiria? E Francisco pede para amaro frade mais que a ele mesmo. Se o irmão que peca não tomar a iniciativa de pedir perdão o ministro não deve esperar passivamente,mas dirigir-se a ele e pedir se não quer o perdão. A prática do amor exige um movimento em direção ao outropara salvá-lo. III. Conteúdo espiritual teológico da CtaMa) Graça e tribulações. Aqui se pode ver como as tribulações são momentos de graça.b) Misericórdia e perdão: - Deus é misericórdia, que salva e perdoa; - A misericórdia e o perdão de Deus manifestados em Jesus Cristo - A Resposta humana: - procedimento do irmão que comete pecado - procedimento da fraternidade; - procedimento do Ministro. Revisto na Festa de São Boaventura 2011.Jim. 10

×