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Abrace o-cristo-pobre

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    Abrace o-cristo-pobre Abrace o-cristo-pobre Document Transcript

    • 1. O “Ponto de partida” Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortaçãopremente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11). Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em contaque essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inêssobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para quetivesse propriedades. Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer terpropriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromissode amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papaGregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se oseu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e possodispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meuSenhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza,mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que nãose achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até serencontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2). Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos daespiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguiros passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre? São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Franciscodiz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizerque “Deus é o Amor”. Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada.Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nuncavamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nestaterra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer apessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai eFilho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se darinteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porquehumana – que não sobra nada. Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco eClara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre. Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres.Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos 1
    • Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não éamoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade. Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o DeusAmor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando oAmor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade,quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras:usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é. Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nosensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres. Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco nãoentendia a obediência como um cumprir ordens, mas como umcorresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Franciscoquiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto maiseles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-semais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus. Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuorelacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta deJesus Cristo. *** Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somossedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em quevivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal –com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar. Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar. Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seuspais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido edistribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como umavirgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês dePraga, que fora agraciada pela mesma vocação. Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos deque para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade eraentendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como seela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro demim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre comouma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido oponto de partida. 2
    • Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança” (2CtIn 12). A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logoadiante: “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 14,17-18). De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera poucoantes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9). Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua“espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoalcada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo.Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo”(2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5),exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais beloentre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos,desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio dasangústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus,irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é seruma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nasSagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que aprecederam, como vamos ver. “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinhadorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudoaprofundado que queremos fazer. 3
    • Para isso, devemos recordar alguns pontos: Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 emorreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordemposteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, queesteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas estásendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final doséculo XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneirasucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri-tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre seconheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios.Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidadedo movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis-clariana. Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua-lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais. 1.1. Espiritualidade A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro,vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dosesponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor. Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa-mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele erao Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: narevelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficarconosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma funçãoque tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e oFilho. Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão queoutras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força queperpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” atéquando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au-têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, acarmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va-mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dosesponsais. 4
    • Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminhoe ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aqueleque disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir osvestígios de Jesus crucificado e pobre”. 1.2. Esponsais Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele-bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a uniãomais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente parafalar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu-manidade e com cada um de nós. Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, játinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em temposmais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como sequisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Nãoé isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa,é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoasconsagradas” no batismo, também nós somos esposos. Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo doPovo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povoe como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. Oimportante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder aDeus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco éde amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foisempre envolvido de afeto e de carinho. A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e detoda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque“Deus vai ser tudo em todos”. 1.3. Linguagem simbólica Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagemsimbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamentoentre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usandolinguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símboloque Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico-demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisseexpressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes. 5
    • A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática ena química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinalpara reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Porisso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re-solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela nãoconsegue explicar. O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente detodos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seumundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando.Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal.Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o quepensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá paraexpressar: são inefáveis. 1.4. Sol e Lua Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossarelação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. Éhistórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-semuitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério.Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulherem segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão épositiva: dela nasce vida. Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre serhomem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: nãosomos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é paranos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algomasculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram omasculino de Sol, e o feminino de Lua. Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua(palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbriosolar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamentehumana. Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol(palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbriolunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamentehumano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente 6
    • humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, umcasamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior. O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante dooutro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposiçãopolar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula.São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, masnão podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidadeinteira a partir de seu sexo. Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em umrelacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus. 1.5. Mística Diante do mistério que o transborda, o homem expressa suaincapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidadessecretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar osolhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncioé saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nosmovemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem nãodescobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, ohomem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quandoo mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor ede que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E ofato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumasexplicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamosnos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais queviveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara deAssis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re-lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento.Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai sernada”. 1.6. A Trindade e o ser humano Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem-pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas, 7
    • nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (oPai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo). O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convitepara se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para otranscendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em todarelação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eternoe infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que aprópria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema decomunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam emDeus, a quem buscam juntos e amam juntos. Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amorentre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação deDeus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vidana perspectiva da espiritualidade dos esponsais. Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamentodesde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Formade Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, istoé, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É umaproposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramosoutros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que elecolocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis. Os textos são os seguintes: a). Forma de Vida “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,3-4). b). Antífona de Nossa Senhora “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu- lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, Amém!” 8
    • c). Carta aos Fiéis “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50). Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13). *** Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou osdiversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez emquando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos serhumanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar oCristo pobre como uma virgem pobre. 1.7. Um cântico de Amor A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numaintensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico. Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco. Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhefalaram do Cântico dos Cânticos. Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres. Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia. Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo, Vestiu-se de Sol, Coroou-se de estrelas, Apoiou-se na Lua, E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem! Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação. 9
    • A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição.Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos.Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos paracelebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade. Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa parasempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado. 10
    • 2. Santa Clara e o Cristo Esposo Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o MovimentoFranciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nosensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar umaperspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que,em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em JesusCristo. Vamos considerar três perspectivas: 1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo. 2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo. 3). Clara celebrou o Cristo Esposo. 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidadedos esponsais 1. Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavrasEsposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões comque ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo. Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês: “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7). Também chama Inês de esposa duas vezes: 1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância daHungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusiveao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros ecortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, quechegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel daHungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que haviaum hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com granderepercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerempessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade. Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre JesusCristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em umavirgindade cada vez maior. 11
    • “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12). “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24). Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes:A primeira: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20). E a segunda: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). E também chama Inês de esposa de Jesus: “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza” (2CtIn 1-2). Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembradacomo sua esposa: “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se referenecessariamente a Inês: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 30). Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes: “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a 12
    • minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...” (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17). Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadastreze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposoe esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida queJesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outrasexpressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta: “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7). Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludidoao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possívelcasamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazeruma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas,especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falarde Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento daespiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nessesesponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico,patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade.Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos. 2.2. Clara Esposa de Cristo As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara comoEsposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logode início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clarapensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveramantes que ela entrasse na Ordem: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem” (LSC 5,5-6). 2 Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210. 13
    • Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre issoporque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentesjá achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava oparticular amor que ela tinha por Jesus Cristo: “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se, desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já pudera provar...” (LgV 5 214). Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logodepois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” emque dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”,como ela recorda em sua Regra: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona doOfício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressõesidênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha eserva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nossoJesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2). O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandouabrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa edecidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nemdemorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, masimediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suascoisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seuEsposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente,com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lheespecialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e ovoto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3). O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial,para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, apertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e porfora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve,filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai,porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2). 14
    • E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida aviver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejadosabraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4). Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar daMãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santapenitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasseCristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8). Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completadacom solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quandoClara estava no final de sua carreira: “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras... que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado” (LSC 46). O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo ofundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs:“Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável,deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável norodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha ocorpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20). Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe-chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC10). Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amordo Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra,regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre oseu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a quebeijava” (LSC 19). Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo,Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam delauma mestra de espiritualidade: “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa- drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu 15
    • desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais eternos” (LSC 6). Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião,algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todosos mosteiros das Damianitas: “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial” (CcNm). E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de SãoFrancisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente,o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs deClara, destacando, entre outras, com a maior admiração: “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da vida passada...” (1Cel 19). Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa deCristo, escreveu: “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38). Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tantoque desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa: “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24). “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm). O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsaiscom Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara àesposa do Cântico dos Cânticos 2,5: 16
    • ...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos, enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs, apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367). Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa: “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial” (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga. 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde sedescobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar umexemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nosmeios de comunicação. Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriuser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável.Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é umarealidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nemuma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável deonde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de quevenha a faltar. Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suasIrmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano.Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deusfeito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desseconhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para elamesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade. Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensarque tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papaGregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que nãoqueria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza erapara ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar naprimeira Carta a Inês de Praga. Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de CristoEsposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveucartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada 17
    • frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente aodescobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nosmísticos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisõesmuito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinhaescolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com oque ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossoshorizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e defelicidade. A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sidoincapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre JesusCristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos sãonumerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode serplenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14). Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmode um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o CristoEsposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesmadescoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico decelebração. Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe-ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Pragao que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro epé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante ealegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e“abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é,cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8),tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior. Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo comouma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co-mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em 18
    • vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal comDeus na pessoa de Jesus Cristo. Proponho algumas reflexões: 1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca algumareação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel,mesmo que seja só para o seu uso particular? 2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa deJesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não,você acha que isso não faz falta? Ou está buscando? 3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca algumavontade de cantar? 19
    • 3. Francisco, figura do Esposo Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial:fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocaçãoúnica e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres-ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos.Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essabusca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa deDeus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com oque o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”. 3.1. Francisco, o amigo do Esposo “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheirosdo noivo na celebração do casamento. O principal deles era quemorganizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio doReino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. NaLegenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus (Cf. LSC 5-6, passim)”. A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo apalavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego esignificava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nosesponsais. Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque semprerejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor daunião com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin-cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, aconhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de 20
    • maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajudados Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento. Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri-tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceuque Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es-ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade deDeus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra-ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mastambém para crescer nela: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14). Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre asIrmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que elaouviu e haveria de seguir para sempre: “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem- aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou” (TestCl 15-17). E também: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele-mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dosFrades Menores. Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta omistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidadepara chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e servado Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo 21
    • seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM).Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do EspíritoSanto”. Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco oseu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens doseu Testamento. “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl 6-7). “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”. Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santaPobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”.Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda(plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposadoo Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que oPoverello escreveu na Carta aos Fiéis: Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo (1CtFi 8). 3.2. Eles viveram uma profunda amizade Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender SãoFrancisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhorSanta Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois 22
    • se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelopapa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas: “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela, imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes Clarianas, págs. 397-398). Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos aimpressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observadoentre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendaspopulares antigas apresentam os dois como namorados. Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain-da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san-tidade. Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre eFrancisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quandonão tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis.Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vidaconsagrada havia diversos anos. João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” deJesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre aamizade espiritual. 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”(Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Ossábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizadecomo algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entreo homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveupáginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e 23
    • Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre aamizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinhoe em Santo Tomás de Aquino. Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred deRievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, nãomuito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livrossobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegriada vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são aprópria essência do mundo que há de vir. De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiroamor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus dizque seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso éleve está falando do amor fraterno. Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas tambémo remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós aimagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações eadvertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar averdadeira amizade. Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveuantes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas oumais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nashumanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizeracolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que nãoexiste amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal. Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritualsempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada umdescobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e amamelhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi ditopelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler. É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordaçõesde Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual. 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual ecarismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fezeco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a 24
    • amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mastambém como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e daIgreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temosque falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de umcarisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhãoque não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu paraacolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom docompanheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em queencontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, equal é o nosso último destino. Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriramque estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estavacomeçando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que elesforam vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro epuderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas háoito séculos. Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram queeram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, emque Deus vai ser tudo em todos. A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com umaamizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só aoAltíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que seesvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma-namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar?No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizadeentre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com umcoração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso-lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientesreligiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito decontradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou demenos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra-ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não“contra” eles. Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suasvidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nósuma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor,onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Elesmostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira 25
    • muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudoe, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outroacreditasse nesse caminho. Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional dapertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus emcontraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração eao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga,a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém,possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meucoração, que pertence totalmente ao Senhor. Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso noscompreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelounão soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentrodele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer quesomos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade comDeus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionadacom o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial. Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizadeum lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é oespelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e noqual descansam eternamente unidos. Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós comolar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas,como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação,que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que aprofundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário. 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo,descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porqueera um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deuscontinuaria a chamar. Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitaçõesque sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. Eescreveu em seu Testamento: 26
    • “Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39). Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasiãoe que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brechaque a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhorlhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 aaprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e paramulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco,a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textosfundamentais que Francisco lhe dera: A “Forma de Vida”, que já vimos acima: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RgCl 6,3-4). E a sua “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9). E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras: “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou- nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a 27
    • bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor” (TestC 18-22). Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan-temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor desua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de SantaClara Virgem: “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda... (LSC 45). Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel deFrancisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi-ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento: “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44). Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a suaLegenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”. 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os quefazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessanteobservar que ele não está falando de nossas “penitências” como asentendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá osentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazempenitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazempenitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não obuscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos 28
    • ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer umaconfusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha osignificado de “agüentar a pena” 3. Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na suabusca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca doSanto Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo.Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para oque Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Elesprecisavam do Esposo. Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saberhumilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do quedesejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suaspretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca ummomento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível quearranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vidaem transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência comtudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmoe se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta noprestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado adescobrir Deus como seu Tudo. Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse: “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa”. Ele diria no fim da vida: “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo” (Test 3). A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho damissão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio doEspírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro,é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Sófaltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto,uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o 3 Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586. 29
    • que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro.E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez. Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casano domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconheciao que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixalevar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES-tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban-donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terranova, a prometida? Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve umprocesso de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda-deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de umaforma de vida que era uma notável novidade. Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado domovimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, etambém não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o dasbeguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheresreclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço. Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás-tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca-minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vidacontemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintoniacom as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seucarisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dospossíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com avida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lovivendo-o. Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria suavocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es-peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências.Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam abuscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação paraFrancisco. Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham quechegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoandoo que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, quedefine o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fimde todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de 30
    • Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço porchegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que secomeçou a caminhar. Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem: “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50). É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre emenor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram paraencontrar a concreta vontade de Deus... O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs teremescolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começaa forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito.Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme edelicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüênciade uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Essessão os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessalembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre oEspírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexofundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa deFrancisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus.Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador deDeus em sua vida: Francisco. Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve quediscernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é,na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para osprimeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do quesignifica buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesseitinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara eClara para Francisco serão mediação recíproca. Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “sevia toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão domesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto doPoverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração oanimaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está 4 Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10. 31
    • indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois écomplementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo. “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di-mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, comotestemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez,sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquantotrabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonhaem realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5. 3.4. Os Cânticos de São Francisco No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da-mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteirode Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecidoCântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó-brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs. Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céucomo a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectosnotáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebraJesus Cristo com Clara: Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: odos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. OSol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ouFrei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs:Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara,sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. Ecada Frate forma um par com uma Sora. Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também seruma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem temnome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor esuportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a“perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outraspalavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria eserão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. Omesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse 5 Chiara Augusta Lainatti 32
    • cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação aoEsposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5): “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”. 33
    • 4. Clara e os Místicos do seu tempo Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe-riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto departida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livree crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me-dievais. Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o quedissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos. Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa-cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do gregoμυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É abusca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamadade Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva. Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbogrego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para nãorevelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala-vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecerimpreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada deforça e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas domistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas nãofoge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor ede que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fatode muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumasexplicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamosnos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais queviveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara deAssis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor érelação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda-mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ounão vai ser nada”. Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Forammuitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foimarcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro- 34
    • fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dosautores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério quesempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. Aterminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova-dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amorrecíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal-conjugal. Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII?Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservadoe estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a serconsiderado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges,ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval. Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzidano Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Osmísticos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân-tico da Bíblia. Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicasmedievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister-cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, namaioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podemajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumasmulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in-fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possívelque Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bonspregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seuProcesso de Canonização. 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”,e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram asprotagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem. Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor deDeus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e osAutores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dosCânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisarreivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pelaarrogância e agressividade de alguns eclesiásticos. 35
    • A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensãode Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era umcaminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver ede partilhar o que nelas e para elas significava Deus. Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério:uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e oslevou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se dequalquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina(Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva noMistério, usando uma simbologia nupcial 6. A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor edas bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência doDeus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, asatividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens,intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer. A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da línguaà gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha demulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar apalavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momentocultural e religioso de especial importância: a conjunção entre opensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração. Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de SantaClara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentaralgumas personalidades que se destacaram: 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duascorrentes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Háuma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor. É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimentoa amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e deRievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde queesta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve 6 A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER –D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile. 36
    • os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muitosensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade daamizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo comJesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração. Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara aFrancisco e Clara a Inês de Praga. Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver suaposição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Sevenmanieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta umanarração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá umasíntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis inDeum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne. O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à suaimagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interiordo amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IVcomeça a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau Vtornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam naverdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta uniãoamorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimentodo gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhumainteligência pode compreender. Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede avida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deusverdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestraexperimentada nos problemas mais árduos da teologia mística. A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi-nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida etransformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nasmulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidadeesponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara. 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294) É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerárioespiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por voltade 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos.Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com umprogressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica. 37
    • Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht derGottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos emduas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro deHelfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano. Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontradomais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igrejaenferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência doclero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura eáspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas setransforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desseseclesiásticos. Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência dafluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seucanto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essasimagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processoespiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da“metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch eMargarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vinculaas quatro. Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios dadivindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vidaíntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a místicavisionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo. 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou aconsagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aospobres e aos enfermos. Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração demulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode tersofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos debeguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada noséculo XX. Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor.Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural emetafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmandotambém que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade 38
    • humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Paraisso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si eem plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversosaspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino emflamengo e em alemão). Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijchcomo uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor. As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiênciaspara-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbriamaturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor,experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: teracesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele.Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e aalma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela. 4.2. Os cistercienses No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foio herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deuforma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários aoCântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, narelação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova aohomem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da ReformaGregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção àhumanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo issocomo uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva.Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos,principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamosdestacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx. 4.2.1. São Bernardo4.2.1.1. A centralidade do amor Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro detudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com oCriador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é 7 Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar olivro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo, 39
    • necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom deDeus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor queestá em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo.Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus nohomem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medodo Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus. A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade deJesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação doEspírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu umaautêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidadefrancisclariana.4.2.1.1.2. O processo Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou umprocesso que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatrodegraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo: 1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. 2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça 3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade da alma se amplia. 4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os Esponsais.4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dosCânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontosfundamentais: “O semelhante busca o seu semelhante” Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes aDeus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal sefundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe-Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren,Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. BuenosAires 1981. 40
    • fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhançaperfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne. A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos-trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri-cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amouprimeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni-dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não ànatureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas comesperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deusacompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. OVerbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem quetrabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni-tude, ao matrimônio espiritual. “O Beijo da tua boca” São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva aomistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1).Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com adoutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação. O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT paraque o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos deMoisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem osde Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dosprofetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo parao qual nascemos. O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus seencarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele. No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessanatureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador.Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem. O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade doVerbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todossouberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab eHerodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade doVerbo na humanidade. Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam aomesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardoapresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos 41
    • Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. Oamor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do EspíritoSanto é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou eque representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho. A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender comsabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi-dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder aquem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende. Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprousobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é oEspírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação navida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar-nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade. A “Unidade do espírito” Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo tambémlembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito comEle”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência dacomunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a sera pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. Oamor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação napessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-laem um ato de nova criação, de um novo nascimento. “A casa espiritual” No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde-jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são onosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelasatitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todobem. Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegarà união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma-esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus,mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessarelação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu-sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus. 42
    • 4.2.2. Guilherme de Saint-Thierry Guilherme de Saint-Thierry tem uma visão serena sobre o corpo e sobrea condição humana do amor 8. É uma visão benévola do simplesmentehumano como suporte e lugar em que o discurso amoroso sobre Deus tomacorpo. Uma amostra está no começo de seu comentário ao Cântico, ondefala do beijo esponsal como perfume do Amado, um símbolo da união entreo Esposo divino e a esposa mística. Quando os corpos se beijam unidosamorosamente, apertam os lábios e unem a respiração (o spiritum) numasíntese que indica a pessoa inteira. A arte de amar é a arte das artes, mas será preciso fazer um caminho deaproximação e de conversão para a caridade: a vida amorosa com Deus. Oamor é um sentimento natural inato no homem. Criado por Deus, eledeveria continuar a ser como no início da criação, sem precisar de quealguém o ensinasse a quem e como deve amar. Mas perdeu isso pelo PE-cado, e a realidade não é tão inocente: houve um desvio em nossos senti-mentos. A alma sente-se atraída por seu destino, que é a bem-aventurança,mas perdeu o caminho e não o encontrará se alguém não o ensinar de novo.É necessária uma reeducação do amor. Ele via o mosteiro como uma “Escola de Amor”: os instrutores eram: omestre de noviços, o prior ou o abade. Opunha-se às escolas em que seensinava a literatura e a doutrina do amor profano, usando o De arteamatoria de Ovídio. O mosteiro seria a única verdadeira escola de vida,envolvendo almas e corpos e transformando a comunidade monástica numavida social similar à dos santos no céu. O pensamento deve dar lugar aoamor, e a ciência à sabedoria. Quando pensamos nas coisas de Deus e avontade progride até se transformar em amor, o Espírito Santo se infunde evivifica tudo. Guilherme vê o Esposo Cristo diante de uma esposa ao mesmo tempoperfeita e aperfeiçoável: é a esposa das bodas messiânicas que já goza daalegria de ter sido escolhida pelo Esposo, mas ainda precisa de conversão.Trata-se do realismo antropológico de toda biografia espiritual, devedora dagraça e condicionada pelo pecado, chamada à unidade do espírito, masreconhecendo-se limitada e pecadora para gozar dessa união transformantee transformada. 8 Uma boa apresentação acessível de Guilherme de Sint-Thierry está em J. M. DECHANET, Lettre auxfrères du Mont Dieu (Lettre d’Or), Sources Chrètienes Paris, 1985. 43
    • O pensamento teológico e místico de Guilherme é uma narração dahistória da semelhança divina: dada por Deus na criação, desfigurada nopecado, restaurada na redenção. Há uma progressiva ascensão, não umavolta ao paraíso perdido, mas a penetração numa novidade não suspeitadanem merecida: a semelhança com Deus que nos abriu para a encarnação,morte e ressurreição do Filho de Deus. Deus é caridade, quem o amar ecrescer no amor será semelhante a ele. Nesse processo há uma intervenção do Espírito Santo: assim como eleefetua a unidade do espírito no seio da Trindade, significando e sendo acomunhão amorosa do Pai e do Filho, também realiza no homem que seabre a sua ação salvífica essa mesma comunhão filial com Deus: o que ohomem não consegue entender nem explicar – mas que em Deus é natureza– lhe é dado de graça. Já estamos diante da unidade de semelhança, e deuma unidade de espírito. Os amantes são levados a ser uma só coisa. O homem precisa irremediavelmente de Deus, porque sem Ele não podeentender a si mesmo. As experiências de paz e silêncio, gozo e liberdade,inteligência e amor, são energias dinâmicas da Trindade dentro de quem ésua imagem, a pessoa humana. 4.2.3. Aelredo de Rievaulx Aelredo achava possível transformar a abadia numa família de amigos: aamizade é um tipo particular do Amor, sua rara e perfeita culminação.Aelredo começa recordando sua juventude: “nada me parecia mais doce,nada mais saboroso nem mais útil que ser amado e amar”. Ele construiuuma doutrina sólida sobre o amor e a amizade 9. Tem o mérito de propor um caminho de santificação através do amorhumano. Seguiu bastante o “Diálogo da Amizade”, de Cícero e, como ele,ensinou que a amizade é um dom natural, uma “inclinação da alma”. Masintroduziu uma novidade: a amizade acontece entre três: os dois amigos eCristo: “começa em Cristo, nele se conserva e a ele se dirige”. Se um amigose une a outro no espírito de Cristo vem a ser um só coração e uma só almacom Ele, e se ascender assim do amor à amizade com Cristo, será com eleum só espírito e um só beijo. Sua obra se estrutura em três diálogos. No primeiro trata da essência eda origem da amizade; no segundo, trabalha a excelência e os limites da 9 Ver E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual, em Caridad, Amistad. Buenos Aires1981. 44
    • amizade. No terceiro visa a prática: depois de fundamentar o amor e aamizade em Deus, ensina os passos a seguir na verdadeira amizade: aescolha, a prova, a admissão e o consenso. Em Aelredo temos uma configuração espiritual ou mística do tema daamizade. No final de sua obra declara a importância de toda amizadehumana como sacramento e antecipação da amizade eterna e divina: ...do santo amor com que abraçamos o amigo, somos elevados a aquele amor com que abraçamos Cristo, saboreando com prazer o fruto da amizade espiritual, cuja plenitude nós esperamos na eternidade, quando desaparecer o temor que agora sentimos uns pelos outros... Essa amizade – que aqui só podemos admitir para poucos – vai transbordar para todos e de todos se voltará para Deus, para que Deus seja tudo em todos”. É claro que esse conhecimento dos místicos medievais teria levadoClara de Assis a descobrir um sentido novo na Palavra de Deus. Ela leu oCristo-Esposo à luz do Cântico dos Cânticos, certamente ajudada pelospregadores, porque é difícil pensar que ela tivesse uma Bíblia inteira emSão Damião. Por isso, nós vamos nos encontrar com o Santos Padres quemais chamaram a atenção para o Deus Esposo. E, depois, vamos beber naspróprias fontes bíblicas – no Cântico e nos Profetas – como Deus quis equer vir ao nosso encontro para uma união eterna. 45
    • 5. A Aliança Esponsal nos Santos Padres Os místicos medievais beberam nos Santos Padres os fundamentos dosseus comentários ao Cântico dos Cânticos. Pelo menos os monges tiveramampla possibilidade de estudar toda a riqueza da Patrística em suasbibliotecas. E partilharam os seus conhecimentos através das citações queapresentaram. Pessoas sem recursos para ter uma biblioteca, como Clara,podem não ter tido acesso direto aos Padres, pelo menos aos gregos – quemelhor trataram o tema dos esponsais – mas podem ter sido inspiradas a lercom outra visão os textos bíblicos: além do Cântico, os profetas da Aliança. A Espiritualidade dos esponsais, que encontramos no escritos de SantaClara, está fundamentada nos Santos Padres, porque foram eles quemostraram como Jesus era o verdadeiro esposo sonhado e prometido peloAntigo Testamento e também abriram para a visão de que Deus não éapenas o Esposo do Povo Bíblico mas da alma de cada fiel. Há diversos testemunhos de que Clara convidava para falar em SãoDamião bons pregadores: “A testemunha também disse que dona Clara gostava muito de ouvir a palavra de Deus. E, embora não tivesse estudado letras, ouvia de boa vontade as pregações letradas” (ProcC 10,8). “Não tinha formação literária, mas gostava de ouvir os sermões dos letrados, sabendo que na casca das palavras ocultava-se o miolo que tinha a sutileza de alcançar e o gosto de saborear. De qualquer sermão, conseguia tirar proveito para a alma, pois sabia que não vale menos poder recolher de vez em quando uma flor de um áspero espinheiro que comer o fruto de uma árvore de qualidade” (LSC 37). A Bíblia é a revelação do Deus-Amor não criado, que quer partilharcom os homens a sua infinita felicidade. A história da espiritualidade é ahistória dos homens na busca do Amor de Deus, e dos meios que usarampara isso. A partir dos Santos Padres da Igreja – cristãos ricos da culturagrega e romana dos primeiros séculos – a Igreja foi estudando o que tinhasido revelado por Jesus e construindo a sua doutrina e a sua espiritualidade. A Carta aos Hebreus diz que não haverá mais revelação porque o Filhoé a manifestação definitiva de Deus. Sua missão redentora está sendocontinuada pelo Espírito Santo. Pentecostes é o tempo da Igreja, em que oEspírito vai suscitando testemunhas do Ressuscitado que em diferentes 46
    • situações, desafios e dificuldades narraram as maravilhas de Deus, a salva-ção recebida para sempre em Jesus Cristo. O período dos “Padres” é a pri-meira etapa dessa caminhada Os “Pais da Igreja”, com suas pregações e escritos, foram decisivos nodesenvolvimento da doutrina e da vida cristã. O seu período, logo em se-guida ao dos apóstolos, viveu intensamente a organização das comuni-dades, da vida litúrgica, da promoção do pensamento cristão. Foram os Santos Padres que nos ensinaram a ler a Sagrada Escritura “noEspírito”, isto é, obter uma “inteligência espiritual” dela. Nessa dimensãoreligiosa da Escritura há um sentido misterioso, interior, que não é umaverdade abstrata ou banal, mas um dinamismo que afeta toda a existência. Eles mostraram dois sentidos na Bíblia: o literal e o espiritual: a letracorrespondia ao AT e o espírito ao NT, identificando-se com a pessoa deJesus. Por isso, tudo que se contava na Antiga Aliança era interpretado dapessoa de Jesus. Isso dá uma importância especial aos diversos comentáriosdos Padres sobre o Cântico dos Cânticos, onde estão os primeiros pontos deuma teologia e de uma espiritualidade esponsais. Deus é o amante fiel daesposa infiel, sedenta de seu abraço divino. Não é uma simples alegoria emum povo que entende a palavra de Deus à letra: é o descobrimento de queDeus se apaixonou “literalmente” pelo homem, tanto na Igreja como emcada alma cristã: o eco desse cântico profético vai ressoar na alegria dosamigos do Esposo que está com eles numa festa que vai chegar à plenitudena “terra nova”, quando a comunidade estiver preparada para o Esposo. Neste nosso trabalho, vamos apresentar apenas Orígenes e São Gregóriode Nissa, os dois santos Padres que trataram explicitamente da Espiri-tualidade dos Esponsais. Ressaltamos os pontos principais de cada um. Elespodem nos ajudar a entender melhor a espiritualidade de Santa Clara. 5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade Orígenes é uma das pessoas mais geniais e influentes do Cristianismo.Foi um ponto alto na espiritualidade e na teologia mística. Por volta do ano200, a literatura eclesiástica cresceu e teve uma nova orientação. Antes,condicionada pela tensão entre a Igreja e seus perseguidores, produziuescritos apologéticos e anti-heréticos. Mas abriu o caminho para um estudocientífico da revelação. No contexto em que viveu Orígenes, a Igreja sentiaque precisava de um sistema de pensamento. Daí surgiu a Escola deAlexandria, em que Orígenes se destacou. Em Alexandria tinha nascido o 47
    • helenismo, fusão das culturas oriental, egípcia e grega, que originou umanova civilização, e nela se estabeleceu no fim do século I a cultura judaico-cristã. O tema dos esponsais está principalmente nos escritos exegéticos deOrígenes. Ele insistiu mais no sentido místico da Escritura do que no literal,usando com freqüência o método alegórico. Nisso foi levado a cometeralguns erros de interpretação, mas mostrou que teve em alto grau o dom dapenetração espiritual. A idéia dos esponsais divinos não é uma novidade cristã. O mundopagão conheceu deuses e deusas que se casavam. Já o judeu Fílon deAlexandria falava de como Deus se unia à alma humana, que recebia umasemente das virtudes. Para alguns cristãos, a morte tinha um significadoesponsal. A expressão “matrimônio espiritual” aparece pela primeira vez naliteratura cristã entre os adversários de Santo Irineu, e falava sobre Cristoesposo da Igreja. Hipólito, autor do primeiro comentário cristão ao Cântico dos Cânticos,usou a simbologia esponsal entre Deus e a Igreja, dentro da tradiçãohebraica dos esponsais entre Javé e Israel e da leitura paulina dos esponsaisCristo-Igreja. Quem começou a chamar as virgens cristãs de esposas deCristo foi Tertuliano, que também falou dos esponsais entre Deus a alma.Mas quem tratou mesmo esse tema foi Orígenes, que escreveu no prólogoao seu comentário sobre o Cântico dos Cânticos: “estas palavras do Esposomagnífico e perfeito dirigem-se à alma unida a ele ou à Igreja”. A alma fielé esposa porque faz parte da Igreja que é esposa. São Jerônimo disse:“Orígenes, que em alguns livros superou a todos, no Cântico dos Cânticossuperou a si mesmo”. Orígenes sabia unir devoção, capacidade especulativa e paciência ana-lítica. Teve influências platônicas. Lembrou, ao falar da simbologia espon-sal, que Platão falou sobre o amor espiritual no “Banquete”. Mas ele mes-mo falou a partir de uma profunda experiência espiritual. Escreveu na primeira Homilia sobre o Cântico: “Freqüentemente – Deusé testemunha – eu senti o Esposo chegar a mim e ficar comigo; de repenteEle se afastou e não consegui mais encontrar o que buscava; apareceu outravez e eu o segurei, mas ele escapou de novo, e eu continuo a buscá-lo. Elefaz isso freqüentemente, até que eu o possua de verdade, e suba apoiada emmeu Amado (Ct 8,5)”. Tudo que Orígenes escreve sobre a relação esponsal entre Deus e a almatem um tom de autobiografia espiritual. É uma experiência mística em que 48
    • outros autores contaram que, para chegar à união com Deus, sofriam tantosua “ausência” quanto sua “presença”. É uma experiência que descobrimostambém em Santa Clara, nas suas Cartas a Inês de Praga, Na primeira homilia, Orígenes se pergunta sobre o beijo do Cântico dosCânticos e sobre o abraço do livro dos Provérbios: Até quando meu Esposovai me mandar beijos através de Moisés e dos profetas? Eu quero tocar suaboca... Existe um abraço espiritual, e queira o Céu que um abraço maisforte do Esposo aconteça também com a minha alma, a Esposa, para eutambém poder dizer o que está escrito neste livro: sua esquerda está sob aminha cabeça, e sua direita me abraçará. 5.1.1. Três temas na mística origineana5.1.1.1. A história como cenário esponsal Orígenes concebeu a história como um drama amoroso em que sedesenvolve o casamento entre Cristo e a Igreja, entre Cristo e a alma. Elefaz uma reconstrução histórico-salvífica do caminho que levará outra vezaos esponsais perdidos pelo pecado. Então, o Antigo Testamento foi onoivado entre Israel e Deus, em que a noiva recebeu a visita dos “amigosdo Esposo” (patriarcas e profetas), e mais esporadicamente a visita dopróprio Esposo (nas teofanias vetero-testamentárias como figuras humanasou angélicas). O Novo Testamento começa com a Encarnação do Esposo,que assume um corpo de carne imaculado para poder encontrar a Esposa,prostrada em um corpo de carne maculado. Mas a união só será perfeita navisão-encontro celeste, quando se realizar a parábola dos convidados paraas bodas e o Rei unir definitivamente seu Filho com a humanidade glori-ficada. Mas o drama tem um lado negativo: junto ao itinerário matrimonial emque Cristo-Esposo toma a iniciativa, há um itinerário adúltero feito pelaIgreja/alma-Esposa. Se a união a Cristo é um matrimônio, cada pecado éuma infidelidade a esse Esposo legítimo e, portanto, um adultério comSatanás.5.1.1.2. A ferida de amor A literatura esponsal cristã explorou bastante a expressão: “estou feridade amor” (Ct 2,5), que foi vinculada a um texto do profeta Isaias: “Fez minhaboca como uma espada afiada; na sombra de sua mão me escondeu; fez-me 49
    • como seta aguda, em sua aljava me guardou” (Is 49,2). A ferida corresponde àflecha, e as duas são de amor. Orígenes desenvolveu amplamente esse temaem várias de suas obras. Há um Arqueiro, que pode ser o Pai ou o Filho. A Flecha é sempre oFilho, mas ele também pode ser representado pela Ferida que produz naalma fiel. Mas a Esposa ferida é sempre a alma, nunca a Igreja. Há umavariante “eclesial” da flecha, que pode ser representada por aqueles a quemCristo confiou serem portadores de sua Palavra: Moisés, os profetas, osapóstolos, os pregadores do Evangelho.5.1.1.3. A fecundidade do esponsal com Cristo O tema de conceber e de gerar espiritualmente está em São Paulo e emalguns Padres precedentes. E também não estaria longe do tema tão queridono corpus paulino e no corpus joânico da in-habitação de Cristo ou daprópria Trindade na alma do crente. Maria é o modelo nessa ação de gerar o Verbo, com uma atitude tipi-camente materna: toda alma virgem e incorrupta, concebendo do EspíritoSanto para fazer a vontade do Pai, é Mãe de Jesus. Esse nascimento de Cristo na alma do crente está vinculadoessencialmente ao acolhimento da Palavra e, em certo sentido assim nasceJesus continuamente nas almas. Não se trata de ser um “outro filho” deMaria, mas de ser o único filho que ela gerou, isto é: de se transformar emJesus. Isso tudo só é viável se tivermos, como João, a mente de Cristo. É essevínculo que Orígenes faz com outro texto paulino: “Nós não recebemos oespírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecer asgraças que Deus nos deu [...]. Porque “quem conheceu a mente do Senhorpara instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Cor 2,12, Jo 1,23). Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido demodo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boasações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, emque poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o pontoalto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformaçãonaquele a quem amamos. Mas, ensina Orígenes, nem tudo é concepção de Cristo na alma, porquetambém há uma espécie de assassínio quando se comete um pecado. Jesus 50
    • não pode estar na alma, porque o pecado reduz o espaço. Isso é o queacontece nas almas tíbias; nas outras ele cresce. Por último, Orígenes indica um espaço interior em que Deus põe suamorada, a palavra usada por São João para indicar o recinto sagrado ondehabita o Senhor, a tenda do encontro que acompanhou Israel, que agora é ocoração do homem. Para ele, o coração é justamente esse centro vital ondeCristo nasce, cresce e é feliz. Ele usa uma série de imagens que explicitamessa presença de Deus quando alguém lhe oferece um espaço no santuáriode seu coração: então Jesus passa pelo meio deles e aí repousa com toda aTrindade. São esses os caracteres da teologia esponsal de Orígenes, que descrevemum processo, um drama em que a liberdade da pessoa se joga comoresposta amorosa a uma proposta de amor: Deus que inicia e conduz umahistória nupcial de salvação, que fere aos que ama com um dardo de amoraté levá-los à plenitude fecunda dos esponsais místicos. São uma língua-gem e uma experiência que reconheceremos na literatura mística posterior eaté como elementos descritivos de uma forma de vida contemplativa claus-tral, como a do projeto evangélico de Clara de Assis. 5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União Gregório de Nissa continua a perspectiva da mística esponsal. Sua con-tribuição para a espiritualidade esponsal comporta o conceito de itinerário eo conceito de união. São elementos que encontramos principalmente emsuas obras exegéticas, onde ele mais manifesta sua admiração por Orígenes:na De vita Moysis, e nas quinze homilias In Canticum Canticorum. Cremosque a chave esponsal da doutrina do nisseno gira em torno da idéia deprogressão, que permite ao crente ir percorrendo um caminho de conver-são, de assimilação divina, até chegar à união 10. 5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”: a progressão para a semelhança divina O chamado para uma estreita comunhão com Deus, para a vivênciaíntima e amorosa com Ele, não é algo natural, ou que se obtém de modoimprovisado e impessoal. É preciso fazer um caminho para chegar ao cume 10 Não podemos deixar de chamar a atenção, neste ponto, para o “Itinerário da mente a Deus” escritopor São Boaventura. Ele trás uma perspectiva “seráfica”, na tentativa de entender o misticismo de SãoFrancisco. Mas recordamos que esse livro foi escrito depois da morte de Santa Clara. 51
    • da vida espiritual; Gregório de Nissa pensou nisso a partir do tema daimagem como o ponto de partida de toda investigação sobre a mística. Defato, sendo o cristianismo imitação da natureza divina, indagar sobre omomento inicial do homem leva a conhecer o projeto de Deus, que sedesenvolve em todo momento de relação do homem com Deus, até o maispleno, que é o místico. A questão básica é saber como é a imagem do homem à luz de seuarquétipo primordial, Deus Criador. Esse é o fundamento de sua doutrina,não só sobre a intuição de Deus, mas também sobre a ascensão mística dohomem. Coroamento de toda a obra da criação, o homem, um microcosmo,exibe a mesma ordem e harmonia que admiramos no macrocosmo, em todaa criação. Gregório não faz a distinção típica dos alexandrinos entre ima-gem e semelhança, como quem entende por semelhança o esforço ético dohomem sobre a imagem; porque as considera sinônimos, indicando assim acondição de pureza originária do homem. Graças a esta semelhança, ohomem se apresenta como superior a todas as criaturas, pois nenhuma delasfoi feita à semelhança de seu Criador. Para ele, “imagem” é uma expressãoadequada dos dons divinos com que o homem foi dotado, de sua condiçãooriginal de perfeição. A condição do homem depois do pecado pode ser aperfeiçoada, podecomeçar de novo. O simbolismo da água do batismo é simplesmente oinício da nova vida em Cristo, que precisa crescer até a união total, comuma decidida morte mística que leve o homem à verdadeira ressurreição.Esse percurso é bem estudado em seu De vita Moysis, um tratado místicoem que ele delineia o seu itinerarium mentis in Deum pessoal, baseando-sena apresentação do êxodo existencial de Moisés. O livro tem duas partes. Na primeira há uma síntese biográfica deMoisés. Na segunda parte, a principal, faz uma interpretação alegórica deMoisés, vendo em seu itinerário um paradigma da subida do homem atéDeus. Essa itinerância purificadora, que o crente percorre em sua ascensão,leva-o à fonte de sua imagem, que é Deus, em colaboração com a graçadivina para eliminar paulatinamente toda imperfeição. Nessa aberturaamorosa para a beleza infinita de Deus, a mudança e o devir que mostram afinitude de todo espírito criado adquire um significado novo, pois, comodiz Gregório, o que pode parecer temível são asas adequadas para o vôo;seria um dano se não pudéssemos transformar-nos em seres melhores, pois 52
    • a verdadeira perfeição consiste nisto: nosso crescimento nunca acaba sempode ser circunscrito. Não se trata de uma luta contra a limitação, mas de colaborar em tudocom a graça divina. Podemos situar aqui a imagem da sarça ardente e datenda, que passariam mais tarde a significar espaços da vida contemplativa.A sarça ardente é compreendida por Gregório de Nissa como a atitude queo peregrino para Deus deve ter diante da luz de sua presença. Há escuridãona alma, mas também existe a luz que se fez alcançável e visível em umgesto de condescendência divina. O caminho do crente implica uma espéciede estupor diante dessa luz imerecidamente concedida; um estupor que seconverterá em adoração de Deus e em purificação de tudo que puderestorvar. A tenda do encontro é outra imagem importante do itinerarium. Sãoduas tendas, a celeste e a terrena, que simbolizam as duas naturezas deCristo. É evidente a alusão à tenda encarnada do prólogo do Evangelho deSão João: o Cristo eterno e incriado, quando se fez histórico e criado,acampou no meio de nós. Gregório diz: “Entre todos, existe um único serque existia antes dos tempos e que foi criado nos últimos tempos, mesmonão tendo necessidade de ser criado no tempo. Como teria necessidade deum nascimento temporal quem já existia antes dos tempos e dos séculos?Por nós, que por desconsideração tínhamos sido corrompidos no ser, eleaceitou ser criado como nós, para levar de volta ao ser o que estava fora doser. Este é o Deus unigênito, que em si abraça o universo, e montou suatenda entre nós”. A perfeição que se busca através de todo o itinerário coincide com aque Moisés obteve: a amizade de Deus, a contemplação participada de suabeleza: “esses conselhos sobre a perfeição da vida virtuosa te sugerem, óhomem de Deus, este nosso breve discurso, descrevendo-te a vida dogrande Moisés como modelo de beleza, pelo que cada um de nós, imitandosua maneira de viver, reproduza em si a marca da beleza que nos foimostrada [...]. Está na hora de olhares o modelo, meu caro, aplicando emtua vida tudo que consideramos com a interpretação espiritual dos fatoshistóricos, e te faças conhecer por Deus e chegues a ser seu amigo”. 53
    • 5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua imagem Na Vida de Moisés, Gregório usa um termo adequado para expressar oencontro entre Deus e o homem, entre o Amor infinito e o amor criado: ainsaciabilidade. O caminho não tem fim, é inesgotável como Deus. Há, então, um progressivo encontro com a Beleza, que é Deus 11. Mas,como essa ascensão pressupõe uma paulatina assimilação da imagem deDeus, não pode parar, porque isso significaria ter alcançado o limite deDeus. E nisso consiste a bem-aventurança. É principalmente em suas homilias sobre o Cântico que ele trata dagradualidade dessa subida para a contemplação da Beleza. A linha é amesma de Orígenes, falando da esposa-Igreja e da esposa-alma. Orígenestinha determinado três momentos na subida da alma até Deus: a ética, afísica e a teoria, que fazia corresponder aos Provérbios, ao Eclesiastes e aoCântico dos Cânticos. Na primeira de suas Homilias sobre o Cântico dosCânticos, Gregório retoma essa divisão e relaciona os três livros com asidades espirituais: a infância – incipientes – (Provérbios); a juventude –proficientes – (Eclesiastes) – e a maturidade – perfeitos – (Cântico dosCânticos). A fase dos incipientes se caracteriza pela purificação; é a passagem daescuridão para a luz, entendida como o desapego dos conceitos errôneossobre Deus e o esforço por imitar totalmente a Cristo. Essa fase purifi-catória termina na apáteia (a despreocupação pelas coisas vãs) e naparresia (a liberdade sem temor), frutos da confiança em Deus. Com os proficientes há uma maior fidelidade na reprodução da imagemde Cristo na alma, há uma manifestação de Deus de modo misterioso eobscuro, e se tem uma clara experiência de sua presença. Quanto mais seavança nesse caminho de perfeição, mais são refletidos na alma os traços deCristo, até chegar a reproduzi-los de tal maneira em si mesma que quasenão se distingue da Beleza original. Utiliza a imagem do espelho, de tantainfluência na literatura mística. Essa escalada ascensional é um movimento de caridade, pelo qual osensível vai sendo substituído pouco a pouco pelo espiritual, sem voltar àsujeira que se deixou para entrar na presença de Deus. Abrir-se a Deus queentra, é, conseqüentemente, ver como se afasta o que não é Deus na alma. 11 No Processo de Canonização, as Irmãs recordam que Santa Clara saía da oração com o rostotransfigurado. Como Moisés quando descia do Sinai. A LSC confirma. Cf. ProcC 1,9; 6,3; LSC 20. 54
    • Finalmente, a última fase corresponde aos perfeitos, cuja maturidadeconsiste em ver dentro deles a imagem buscada do esposo amado. Não éuma visão de Deus, mas um sentimento de presença na realidade da graça.Essa presença poderia aplacar a sede imensa do Esposo suspirado, mas, narealidade, gera um novo êxodo. É a doce-ferida do amante e do místico de que nos falam tantas páginasamorosas da história humana, tanto por Deus como por uma pessoahumana. Gregório usa a metáfora do vinho e do lagar na Homilia 4: nofundo, Deus é um Esposo que se transforma ao mesmo tempo na sede quequeima e no vinho que sacia. O conhecimento de Deus no espelho da almaexige a sua purificação até chegar à semelhança de Deus perdida nopecado. É esse objetivo que estrutura todo o caminho das obras místicas deGregório. Na última etapa, a dos perfeitos ou maduros, se caracteriza pelacontemplação unitiva de Deus como Esposo da alma esposa. A idéia de que a contemplação transforma na imagem do Esposotambém está em Santa Clara (2CtIn 12) como vamos ver Np cap. 9, sobre acontemplação. Poderia haver alguma influência de São Gregório de Nissa.Acreditamos que pelo menos indireta houve, pelas suas reflexões a partirdas pregações de cistercienses. 55
    • 6. O Esposo na Aliança Bíblica Através dos místicos, Clara foi levada ao Cântico dos Cânticos e aosSantos Padres. Através dos Santos Padres passou do Cântico para a Aliançae redescobriu em uma profundidade maior o Esposo Jesus Cristo. Com oJesus Esposo ela “saiu do século” e foi para a plenitude: ser “com a VirgemMaria coroada”, como tinha dito São Francisco. Vamos dividir este capítulo em três grandes seções: O Cântico dos Cânticos A Aliança e os Profetas Jesus é o Esposo 6.1. O Cântico dos Cânticos Pelas mãos dos santos Padres somos levados – numa leitura do AntigoTestamento à luz do Novo – ao coração da Bíblia, em que o Cântico dosCânticos nos fala da mais profunda união ao Deus infinito que nos ama. Aointroduzir o seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, Orígenes escreveu: “Para mim, Salomão escreveu em forma de drama este epitalâmio, isto é, um cântico de casamento, e o cantou como se fosse o de uma noiva que vai se casar e está inflamada de amor celeste por seu esposo, que é o Verbo de Deus” 12. Santa Clara chega a usar essa mesma expressão “inflamada de amorceleste” certamente porque conheceu o Comentário de Orígenes sobre a“chama de amor”, pelo menos através de São Bernardo. É surpreendente encontrar na Bíblia um livro como o Cântico dosCânticos, com seu forte apelo erótico. Mas é bom lembrar o que disse orabi Aquibá (+135 dC), defendendo o valor e a pureza desse livro: “Que ninguém em Israel diga que o Cântico dos Cânticos torna as mãos impuras, pois o mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel”. Na visão dos sucessivos pactos com Noé, Abraão e Moisés, e dosesponsais com o Povo, ele é um livro central: comunica que é Deus quem 12 ORÍGENES, Comentário ao Cântico dos Cânticos, I,1. 56
    • toma a iniciativa de vir como esposo ao encontro da esposa, o Povo. Vamosdestacar dois pontos. 6.1.1. O amor é caminho divino do homem Lemos nos Provérbios: “Há três coisas que me ultrapassam, e umaquarta que não compreendo: o caminho da águia no ar, o caminho daserpente na pedra, o caminho da nave no mar, o caminho do homem nadonzela” (Pr 30,18-19). O amor entre um homem e uma mulher é um“caminho”, como caminhos são três grandes elementos naturais: o ar, aterra e a água. Então, podemos pensar que é o quarto elemento: o fogo. O amor humano aqui exaltado é uma porta para penetrar no amordivino. A Bíblia apresenta os traços de Deus em linguagem humana, etambém descreve o homem de acordo com um plano divino: faz umaantropologia de Deus e uma teologia do homem. Seus textos têm leiturasdiversas de acordo com os alegoristas ou com os literalistas Para nós, a interpretação simbólica capta o melhor do que foi indicadopor uns e outros, buscando uma harmonia propriamente “simbólica”.Porque a interpretação literal (erótica ou romântica) é incapaz de acolher oque a tradição judeu-cristã viu no sinal nupcial, por não deixar um espaçotranscendente para além do amor. E interpretação espiritual peca por nãolevar a sério a realidade do texto: o universo amoroso, reduzindo-o a umamoral para evitar que o espiritual seja “manchado” pelo carnal. 6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum “Grava-me como um selo em teu coração. Como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; e seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir” (Ct 8,6-7). O amor humano do Cântico dos Cânticos abre-se até vir a ser o símbolomais eloqüente para falar de Deus. Sem deixar de ser plenamente humano,o amor adquire um valor místico que o torna adequado para representar oamor de Deus. O Cântico dos Cânticos não quer testemunhar apenas umamor humano, mesmo com toda a sua beleza: ele evoca continuamente algomais além no próprio mistério do amor. O livro não enfrenta umdesenvolvimento “religioso” do tema. Apenas sugere, a não ser quando falada “chama de Javé”. 57
    • Seria inadequada uma interpretação literal-erótica, mas os elementoscorpóreos, sexuais e sexuados do livro são importantes. O amor que brotatransparente de um coração apaixonado já é uma realidade divina. O amorsempre é limpo; não precisa de água benta. Se houver pecados serãoinjustiças ou abusos contra a pessoa, como pode acontecer com qualqueroutra coisa sagrada. Se as primeiras palavras humanas da Bíblia são o canto admirado dohomem diante daquela que lhe foi dada como ajuda semelhante: “Esta sim,é osso de meus ossos e carne de minha carne”, o Cântico dos Cânticos seriauma prolongação desse mesmo êxtase amoroso, celebrado por ele e por ela. Nesta concelebração extasiada no jardim do amor, são convocadastambém as criaturas: aqui brilharão o sol e a lua; o amanhecer e o anoitecertrarão a luz ou o mistério; estarão presentes os perfumes e aromas... e tudoque pode expressar a embriaguez e a doçura do amor. Todo o poemaamoroso leva a uma expressão característica do amor esponsal: a recíprocapertença. Diante de Javé, a amada diz: “Meu amado é meu e eu sou dele”.O Cântico é uma grandiosa e gloriosa benção de Deus sobre o amorhumano, sobre o matrimônio, sobre a ternura. A história de amor narradaneste livro é uma história precisamente esponsal, cercada e enriquecida defascínio apaixonado até uma total consumação transformadora, comosugere a expressão “chama de Javé”. A tradição cristã que se expressa na liturgia e na exegese através dosséculos leu o Cântico identificando a esposa com a comunidade eclesial ecom cada alma cristã. O maior número de comentários foi no séc. XII. Masos comentaristas cristãos, quase sempre monges, nem sempre souberamrespeitar o realismo humano do Cântico. Em vez de lê-lo como símbolo,converteram-no em alegoria intelectual, que se alimenta do cadáver daimagem. Esmiuçaram quadros e cenas, para traduzir cada detalhe a umconceito ou idéia espiritual. Não é esse o caminho. Para entrar na espiritualidade de Santa Clara, estamos considerando queela – como a esposa do Cântico dos Cânticos – festejou o amor do Esposoem tudo que escreveu para Inês de Praga, especialmente no “Hino àPobreza”, de sua primeira carta, e no “Feliz é você”, da sua quarta Carta. Eque Francisco, o seu companheiro humano da aventura esponsal, tambémse arrebatou no “Cântico de Frei Sol” e no cântico “Ouvi pobrezinhas”.Mas de uma maneira toda especial nos Salmos que criou para o Ofício daPaixão e em quase todas as suas orações. Eles entraram na torrente doscânticos bíblicos. 58
    • 6.2. A Aliança e os Profetas O Deus da Bíblia sempre quis estar ligado ao seu Povo por alianças. Naprimeira vez, ao salvar a família de Noé, fez com ele um pacto de Aliança,e colocou no céu o arco-íris, como símbolo desse pacto (cf Gn 9). Na segundavez, fez um pacto de Aliança com Abraão e sua descendência (cf Gn 15-22).Na terceira vez, levando o Povo para fora do Egito, concluiu com ele maisum pacto de Aliança com Moisés no Sinai, e lhe deu as tábuas da Lei (cf Ex19-24). Houve uma história antes desta grande Aliança, e também depois,como podemos acompanhar nos profetas. Os profetas foram mensageiros mandados por Deus ao seu Povo cadavez que a Aliança era esquecida. Mas, no fundo, a Aliança era sempre umamensagem de amor. Deus tinha estabelecido a Aliança por seu amor todoespecial, a Hesed, que falava de ternura, compaixão, algo do que se tentoutraduzir com a palavra grega Éleos ou com a palavra latina Misericórdia. Originariamente (como nos casos de Abraão e de Moisés) a aliançatinha um aspecto jurídico: um pacto entre Javé e seu povo. Os profetascarregaram-na de afeto. A idéia de aliança dá lugar à formação do povo daaliança, que permite elaborar o pensamento e as instituições que dão umafisionomia particular à sociedade bíblica. O sentimento da presença divinacaracteriza a sociedade hebraica. E esse sentimento corresponde à aliança:Deus está com Israel. O pecado de Israel foi ter reduzido a aliança a umprivilégio diante dos outros povos, sem penetrar no conhecimento de Deuse numa existência histórica de acordo com esse conhecimento. E tambémter aproveitado a segurança dessa aliança para adotar os deuses de outrospovos, como Baal, deus da fertilidade em Canaã. Por causa dessa infidelidade apareceu o ministério profético: para in-quietar um Israel esquecido e submetido a povos e divindades estranhas;admoestar um Israel inclinado à corrupção social contra as classes maisdesfavorecidas; e lutar com Deus em favor de seu povo pecador. Por issohá um encontro dramático entre os profetas e o povo. Eles deram outraorientação à aliança: mais que um pacto, é um dom gratuito de Deus; e estáfundada mais na promessa do que no compromisso. É, cada vez mais, umarelação de amor. 59
    • Daí nasceu a simbologia esponsal e, conseqüentemente, a exigência dafidelidade, uma fidelidade que podia resistir às separações que tivessemacontecido. Por isso, também foi importante no relacionamento entre osprofetas e o Povo o conceito de história, na qual se desenvolvia umverdadeiro drama. O Deus de Israel era esposo do povo, não de sua terra: oamor que os une tem uma história; as atenções gratuitas de Deus e o triunfode sua misericórdia sobre a infidelidade de seu povo são temas proféticos.E a pregação profética nunca considerou a hipótese de uma ruptura fatal,com o divórcio ou o repúdio entre Deus-Esposo e Israel-esposa. Vamoschamar a atenção para quatro profetas principais: Oséias, Isaias, Jeremias eEzequiel.6.2.1. Oséias Foi profeta entre 750-725 AC. Nasceu e cresceu num dos poucostempos de esplendor de Israel, mas também enfrentou uma dascircunstâncias mais duras. Corrupção, abusos econômicos e ambigüidadesmilitares foram destruindo tanto o estado de direito como o relacionamentoentre o Povo e seu Deus. Por isso, Oséias foi duro contra os governantes.Mas também enfrentou o período mais crítico da idolatria no culto a Baal. O estabelecimento na Terra Prometida tinha levado muitos israelitas,antes pastores, a serem agricultores. Por isso, passaram a pensar que umDeus de pastores não servia para suas atividades agrícolas e precisavam deum deus que os ajudasse a cultivar a terra. Foram passando para Baal e paraseus cultos. Javé continuou a ser o Deus do povo, mas quem satisfazia asnecessidades primárias era Baal. Era ele quem dava o pão e a água, a lã elinho, o vinho e o azeite. Mas Javé era ciumento e não admitia compe-tições. Oséias não comunicou algo revelado: sua vida se fez revelação, Deusfalou no que ele viveu. A eterna fidelidade de Deus torna-se palavra vivano drama da infidelidade sofrida por Oséias. O profeta foi um esposoprofundamente apaixonado e depois traído, que sofreu cruelmente as infi-delidades da esposa, a tortura de um coração que experimentou na escu-ridão as claridades fulgurantes do amor de Deus. À luz dessa experiência, Oséias contemplou um Deus que manifesta aternura de um esposo cheio de carinho e, ao mesmo tempo, toda a dor deum amante enganado. É um Deus que suplica, se lamenta, exorta, ameaça,castiga, se afasta para despertar o desejo de uma volta sincera. Preocupa-se,duvida se deve castigar e sente a dor de ter tido essa dúvida, cheio de 60
    • ternura e compaixão. E no fim se acalma, prometendo uma reconciliaçãodefinitiva. Até então, Deus não tinha falado ao homem dessa maneira.6.2.2. Isaias O Primeiro Isaias (1-39) faz uma denúncia da desilusão de Deus, com umponto alto no “Poema da vinha”. Supõe uma relação nupcial entre o Senhore sua vinha, símbolo de Israel, uma relação cheia de ternura, indicada pelaexpressão dodî (meu amado). O profeta se apresenta como o “amigo doesposo”. A ternura apaixonada de Deus por sua “plantação preferida” serevela nessa seqüência de iniciativas de amor: “ele a escavou, preparou eplantou boas cepas; construiu uma torre e cavou um lagar...”. Mas sofreuuma rejeição, infiel e injusta, que o profeta amigo-do-esposo teve queregistrar com amargura. Amor e desilusão são a base desta leitura simbólico-nupcial da históriade Israel e Judá diante um Deus esposo. Quando João retoma essa imagem,há duas mudanças importantes: a) a vinha já não é o povo, mas o Filhoenviado por Deus, em quem se enxertam os homens; b) em vez de “justiça”fala em “amor”, que engloba e radicaliza a justiça. O Segundo Isaias (40-55) acontece numa situação diferente. Israel estádesterrado na Babilônia e a palavra profética adota um tom de misericórdia.É o grande poema da volta do desterro. Este autor anônimo do séc. VI ACdefine todos os matizes do amor em um tema nupcial de finíssima lírica.Descreve Israel antes da aliança com Deus como uma mulher estéril, semmarido, sem filhos. Mas o Senhor apareceu, e foi capaz de superar todo tipode esterilidade, capaz de fazer da estéril uma mãe feliz. Israel precisouampliar a tenda de sua família. O Terceiro Isaias (55-66) se apresenta no meio da pobreza e do desânimodos repatriados no período pós-exílio. O canto nupcial deste Isaias está nocapítulo 62. Uma breve antecipação introduz o poema da nova Jerusalém:o Senhor reveste Israel com o manto nupcial e entra com ele na cena,solene e gloriosamente: “eu me alegro com meu Deus: porque me vestiuum traje de gala e me envolveu em um manto de triunfo, como noivo quese coroa ou noiva que se adorna com suas jóias”. Toda esta parábola nupcial se encerra na alegria transbordante de umDeus-jovem-esposo, que toma por esposa aquela que ele fez com suasmãos: “Como um jovem se casa com uma donzela, assim te desposa aqueleque te construiu” (Is 62,5). 61
    • A voz do esposo rompe o silêncio antes de aparecer a estrela da manhã.Jerusalém se transforma numa esposa impaciente, intensamente dedicadaaos preparativos da festa. O esposo aparece como o sol brilhante: a cidade étomada pela luz solar e se vê como uma resplandecente coroa de ouro. Acidade é a própria coroa que o esposo coloca na cabeça da princesa que vaireceber o “nome novo”: “Já não te chamarão ‘a Abandonada’ nem à tuaterra ‘a Devastada’. Vão te chamar ‘Minha Preferida’ e à tua terra ‘aDesposada’”.6.2.3. Jeremias Também usou a simbologia esponsal. Ele nasceu em Anatot, da tribo deBenjamim, em meados do séc. VII AC. Podemos seguir seu itineráriotrágico e comovente. Jeremias percorreu-o apaixonadamente, perdido entreas saudades dos oráculos de promessa e a presença dos oráculos de ameaçaque Deus lhe impôs; entre a obediência à missão divina e a solidariedadecom seu povo sofredor. Com olhos lúcidos, iluminados por Deus, tem queir assistindo ao fracasso sistemático de toda sua vida e atividade. A temática esponsal como simbologia aparece nos capítulos 2-3 de seulivro. O amor de Deus é mostrado em um solilóquio divino dentro de umgrande apelo de Javé a seu povo: amor e fidelidade são indissociáveis, eatentar contra a fidelidade é tornar sacrílego o próprio amor. O termo hesedna linguagem bíblica é a virtude da aliança por excelência, e expressatambém a atmosfera de fidelidade amorosa que vincula os namorados,como Deus não se cansa de mostrar através de Jeremias, porque é umprofeta da ameaça e do castigo, mas também da consolação e da esperança.6.2.4. Ezequiel Ezequiel vivia serenamente seu casamento, e estava apaixonado por suaesposa, que chamava de “o encanto de meus olhos”. Ela morreu de repente,e a dor ajudou o profeta a entender o que o esposo-Deus sofria diante doabandono da esposa-Israel. Israel era como uma jovenzinha selvagem eabandonada. Deus passou e, com gestos tipicamente esponsais nasimbologia bíblica, apresentou-a como resgatada e engalanada. Ela cor-respondeu prostituindo-se com toda espécie de traições e abominações. A resposta de Deus-esposo é a surpreendente novidade de quem acolhesempre numa incansável misericórdia, sem permitir que a história acabe emtraição. Diante dessa atuação amorosa do Deus-esposo, Israel-esposa vol- 62
    • tará e pedirá perdão a Deus, abrindo um novo e definitivo horizonte deamor e de fidelidade. Essa seria, em resumo, a mensagem profética emrelação ao tema que nos ocupa. 6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo 6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo A história da salvação chega à meta na revelação de Jesus, Palavradefinitiva de Deus, que vem recapitular o que tinha sido dito no AntigoTestamento através de tantos mediadores e mensageiros a cada geraçãohistórica. Na Pessoa de Jesus, Deus abraça o homem (Filho de Deus) e ohomem abraça Deus (Filho do homem). Sua natureza divino-humanaapresenta-nos uma união excepcional, porque na humanidade de Jesusrealiza-se com perfeição tudo que a humanidade histórica (povo e cadaindivíduo) está chamada a viver com seu Criador. Jesus Cristo-Deus é oEsposo que vem ao encontro da humanidade e, ao mesmo tempo, JesusCristo-homem é essa humanidade esponsal encontrada por seu Criador, aCabeça de um corpo que constitui a humanidade nova desposada com aTrindade. Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-11), João apresentou uma cena carregada desimbolismo esponsal, que culmina numa declaração em que está a chavesimbólica de todo o relato e de sua significação cristológica esponsal:“Todo mundo serve primeiro o vinho melhor, e quando os convidados jáestão um tanto bêbados, vem com o pior. Tu guardaste até agora o vinhomelhor”. Em Caná fala-se três vezes do vinho e não se diz o nome dosnoivos: o vinho estava associado na literatura profética ao anúncio dostempos da restauração messiânica quando Deus desposará seu povo nafidelidade e no amor. As palavras ditas ao noivo são aplicadas a Jesus:Jesus fez seu primeiro sinal. Tudo consiste na presença do esposo quecomeça a se manifestar. 6.3.2. O amigo do Esposo O comportamento de João Batista em relação a Jesus é explicado poruma figura semítica dos casamentos: o amigo do esposo. Sua missão eraacompanhar o esposo e contribuir para o esplendor da festa. Por isso, o amigo “tinha que diminuir para o esposo crescer”. Nocontexto nupcial “crescer” alude à benção dada por Deus ao homem em Gn 63
    • 1,28: “Crescei e multiplicai-vos”, indicando a fecundidade da aliançadefinitiva inaugurada pelo Messias. João é o amigo do esposo. Com achegada de Jesus-Esposo, começa o tempo messiânico e se celebram asBodas entre Deus e seu povo. Paulo também reivindicou um lugar de amigo do esposo: “tenho ciúmesde vós, ciúmes de Deus, porque vos prometi a um só marido paraapresentar-vos a Cristo como virgem intacta” (2Cor 11,1-3). 6.3.3. A esposa ouve o Esposo A alegria de escutar a voz do Esposo não foi privilégio do Batista: éparte do discipulado cristão escutar aos pés do mestre, como no modelorabínico. Essa é uma nota interessante da vocação cristã contemplativa,prefigurada em Maria de Betânia, mas que tem seu ponto alto em Maria deNazaré. Uma longa tradição viu em Nossa Senhora o elo entre os doisTestamentos. Ela foi muitas vezes invocada como a filha de Sião, em quemse cumpriram as profecias messiânicas do Antigo Testamento. Nos evangelhos de Lucas e de João, Maria inaugura e antecipa a novaSalvação. Ela seria a Virgem, a Mãe e a Esposa. O mistério nupcial daVirgem Mãe se entende especialmente em relação com Aquele que, dentrodo mistério de Deus, é a nupcialidade eterna do Pai e do Filho, e naeconomia da salvação é o artífice da aliança esponsal entre Deus e seupovo. Na figura da Esposa condensa-se o dom acolhido pela Virgem erealizado na Mãe: o céu desce para a terra e firma suas raízes; a terrasaboreia o amanhã de Deus que lhe foi dado e prometido. Dentro da aliança esponsal protagonizada na história salvífica por Deuse seu povo, Deus e cada pessoa humana, Maria esposa do Paráclito indicacom sua própria vida o mistério nupcial que o Espírito constrói. Podemosdizer que há uma analogia entre o que o Espírito faz em Maria e o que fazna Trindade e na história da Igreja, e por isso a esponsalidade da Virgem seprolonga na história cristã na relação pessoal que cada crente e todo o Povode Deus têm com o Espírito Santo: entrega incondicional (fiat), acolhendo aPalavra, meditando-a no coração, vivendo-a cada dia e dando-a à luz pelotestemunho da existência. Pavel Evdokimov disse que Maria, pela força doEspírito Santo, gerou Deus na terra e o homem no céu. 64
    • 6.3.4. A Igreja, Esposa do Verbo A Igreja é a “esposa” por excelência, como Jesus é o “esposo”. Mariafaz parte da Igreja e, como tal, participa dessa esponsalidade eclesial. Mariarepresenta a parte da Igreja que conseguiu viver fielmente a vocaçãoesponsal. O Senhor quer ver sua Igreja como Esposa bela, digna dele.Maria é aquela subjetividade capaz de corresponder plenamente, em suamaneira feminina e conceptiva, à subjetividade masculina de Cristo, pelagraça de Deus. Ela é o espaço eclesial em que Deus se vê correspondidoesponsal-mente. Mas Maria não esgota todo o Povo de Deus. É à Igreja quecorresponde o título de esposa. O ponto messiânico mais alto coincide com o cumprimento de todas asprofecias e promessas em torno à figura do Esperado, que aparece como oEsposo. O tempo cristão com referência à comunidade messiânica –considerada biblicamente como “Esposa” – é definido como o “tempo doEsposo”. Na carta aos Efésios (Ef 5,21-33), o amor esponsal de Cristo gira em tornode um texto que costuma ser chamado de “mesa doméstica” porque temindicações para a vida de família: os cônjuges, os filhos, os escravos.Fiquemos com o que diz a respeito dos cônjuges: “Maridos, amai vossasmulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para purificá-lacom o banho da água e da palavra, e consagrá-la, para apresentar umaIgreja esplêndida, sem mancha nem ruga ou nada semelhante, mas santa eimaculada”. Podemos ler paralelamente 2Cor 11, em que se diferencia o período donoivado e o casamento: a comunidade de Corinto era só a “noiva” de Jesus-Esposo; o casamento estava marcado para o dia final. É sempre umprocesso. Neste período, Cristo se dá à Igreja, renova sua oferta e seu amorpor ela, santifica-a com os sacramentos, dirige-a pessoalmente para quechegue a ser sem mancha nem ruga. Cristo é o Esposo, a Igreja é a Esposa,mas a esponsalidade ainda não é plena. A Igreja é como a jovem que foidesposada; já está consagrada ao Esposo-Cristo, por quem já entrou noestado jurídico de casada, mas quando for introduzida na casa do Esposoestará definitivamente com ele, participando plenamente de sua glóriadivina. Na mesma linha, podemos encontrar no Apocalipse uma descrição darelação esponsal entre Cristo e a Igreja. O Apocalipse tem uma visãodramática e integral da história como um campo de batalha. Nesse campo 65
    • se apresenta o tempo do Messias-Esposo, que entra na história humana paraencontrar e redimir a Esposa-Igreja infiel, e o tempo do Esposo é, aomesmo tempo, o tempo dos ciúmes de Deus em seus dois aspectos de amorcolérico e salvador, sem que isso implique volta a uma imagem de Deusmais própria do Antigo Testamento. O Apocalipse trata disso em dois tempos: primeiro, o amor jovem evolúvel, generoso e frágil; segundo, a comunhão plena e eterna do Esposo eda Esposa.6.3.4.1. O “amor primeiro”, entre a generosidade e a fragilidade Cristo-Esposo está sempre presente na vida da comunidade e de cadacristão: as chamadas cartas às sete igrejas são testemunho dessa solicitudede Cristo que conhece e acompanha sua Igreja. Vamos ver duas dessasigrejas: a de Êfeso e a de Laodicéia. A carta à comunidade de Êfeso começa com uma descrição elogiosa das“virtudes” conquistadas por esta igreja. Os cristãos de Êfeso têm umcompromisso real, um amor sincero por Jesus ressuscitado que justifica ascoisas boas que estão fazendo, a ponto de enfrentar provas e dificuldades. Mas depois disso há uma quebra, e a comunidade corre o risco dearruinar suas luzes (será excluída do candelabro, na comunhão das igrejas),pois esqueceu o primeiro amor. Recordam-se os ciúmes de Deus como umeco de Oséias, quando Javé também recriminava a infidelidade da esposaaludindo ao amor da juventude, ao período do deserto. Mas o mensageiro de Deus propõe a volta ao primeiro amor usando trêsimperativos: lembra-te, converte-te, faz: três atitudes basilares da históriade Israel: recordar. Na carta à comunidade de Laodicéia há outro exemplo de como o Res-suscitado adota um tom exortativo-ameaçador para expressar seus ciúmesesponsais pela Igreja concreta. Denuncia apaixonadamente o que não écorrespondência amorosa por parte de quem dele tinha recebido tudo. Odelito de Laodicéia não está na falta de amor, mas na tibieza de sua entrega.Essa situação de indiferença merece a tremenda admoestação: porque ésmorno, vou te vomitar de minha boca. Mas a “cólera divina” pertence aoestilo dos ciúmes de Javé, que é sempre misericordioso.6.3.4.2. As núpcias últimas e definitivas Depois de toda uma história grávida de verdade e de fragilidade na re-lação da Igreja com Deus, vem o momento escatológico em que se cele- 66
    • brarão para sempre as Bodas de Cristo-Esposo e da Igreja-Esposa (incluin-do cada pessoa). O Apocalipse apresenta duas notas sobre essa realidadefinal. Em primeiro lugar, no capítulo 19, depois de descrever a queda da BA-bilônia, celebra-se a relação esponsal entre o Cordeiro e a Igreja. A Igrejadeve fazer e vestir um traje especial para o casamento. O linho puroresplandecente consiste nas “boas obras dos santos”, imagem fundamen-tada no conceito paulino da relação entre graça e boas obras, que lhepermite entrar na ceia nupcial Em segundo lugar, há uma insistência na dimensão eclesial dessasnúpcias. São núpcias com a cidade santa, a Jerusalém nova, adornada comonoiva para seu noivo. Nenhum cristão é isolado. A comunidade de pessoas,a comunhão dos santos, supõe uma partilha real da vida como moradasolidária de Deus no meio deles. 6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus O ser humano, esponsal por natureza, é imagem e semelhança de Deusque se revelou como comunhão de amor e esponsalidade trinitária. Falando de aliança, vimos que nela está a chave para entender aproposta de Deus de devolver ao homem sua vocação original: viver emcomunhão humana a partir do fiel reflexo da comunhão divina. O êxodopara a nova aliança vai ser marcado por essa pertença recíproca, afetiva eefetiva, magnificamente expressa em: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis omeu povo” (Ex 6,7). Fala-se da Aliança desde o começo: Deus caminhou na direção do povo,e o povo na direção de Deus. Deus e cada um de seus filhos foramconcordando. Os gestos e as palavras, os dramas e as esperanças, ascertezas e os temores dos homens foram a ocasião para Deus entrar comsuas obras e ditos, como pudemos ver em Abraão, Moisés, Oséias, Isaias,Jeremias, Ezequiel e no Cântico dos Cânticos. A encarnação do Filho de Deus foi o ponto alto dessa mútua pertença,quando na Pessoa de Jesus uniram-se Deus e o homem. A nova huma-nidade inaugurada com Cristo não se esgota nele, que é a cabeça de umcorpo formado por todos e cada um de nós. Deus se revelou aos poucos,constituiu a Igreja como interlocutora esponsal, mas há dois momentos: umhistórico e outro escatológico. O primeiro é para ir amadurecendo e aumen- 67
    • tando a pertença esponsal do homem diante de Deus. O segundo será nofim da história como vimos em São Paulo e no Apocalipse. Todo esse percurso termina com uma síntese: “O Espírito e a noivadizem: Vem!” (Ap 22,17). Aí está escrito noiva (nynfe) e não esposa. Aexperiência complexa que os ouvintes do Apocalipse escutaram na primeiraparte do livro, aprendendo devagar o amor a Cristo, leva-os a colaborarpara sua vinda na história. Aqui se inscrevem os três gemidos de que Paulo fala na carta aosRomanos: o gemido da criação, o gemido de cada homem e mulher, ogemido do próprio Espírito de Deus. Geme-se porque já se saboreia o finaldefinitivo, mas ao mesmo tempo se tem a vivência cotidiana do inacabado,do imperfeito, do que inda não chegou. A Igreja recebeu como noiva asprimícias do Espírito, mas aguarda o momento oportuno. Não estamos diante de uma questão abstrata sobre Deus, mas diante desua revelação cristológica. A pergunta foi ele quem fez: “quem dizem queeu sou?... e vós, quem dizeis que eu sou?”. Responder a essa perguntareconhecendo em Jesus esse rosto esponsal de Deus foi o que ocupou tantoscristãos nas melhores páginas místicas, nas maiores obras missionárias, noscaminhos mais insuspeitos do seguimento do Senhor e do serviço aosirmãos em quem Ele está presente. O encontro com Jesus no claro-escuro da história pessoal e social é ogrande desafio de cada geração. Da disponibilidade da pessoa vai depender,ao menos em parte, que esse “abismo luminoso” que é Cristo continue a serdolorosamente abismático ou se torne um lar pessoal, cuja contemplaçãonós já não possamos deixar, por mais que a luz cegue e a profundidadedesassossegue. O encontro com Cristo não é uma meta à que se chega, éum caminho em que alguém se coloca. Desse encontro com Cristo Esposo, contemplado e testemunhado porcada geração, fala-nos a história da Igreja em todos seus lances vocacionaisdos diferentes caminhos em diferentes carismas. Na história da Igrejapodemos ouvir o contínuo convite do Espírito à Noiva: Vem! Os quecorresponderam a esse chamado geraram uma vida, uma espiritualidade euma cultura (arte, literatura, música...) que se integram no horizonteesponsal da auto-revelação de Deus. Ainda vamos continuar nossas reflexões, mas eu proponho desde já queolhemos para Clara de Assis como uma mulher que – seguindo os passosde Maria – assumiu ser a Esposa mãe e virgem e até mesmo a Esposa-Igreja por sua intercessão pela cidade de Assis e pela consciência de ser 68
    • “auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes do seucorpo inefável” (3CtIn 8), integrada “à Igreja triunfante e mesmo à militante”(TestC 75). É aguda a perspectiva de Francisco que, no cântico “Ouvipobrezinhas!” viu Clara e suas Irmãs “no céu coroadas como a VirgemMaria”. Vestida de sol, com a coroa das doze estrelas das tribos do Povo ecom a lua debaixo dos pés. 69
    • 7. Clara saiu para estar com Ele 7.1. O “não-lugar” Santa Clara não saiu de casa para ir a algum lugar determinado: ela saiupara estar com o Esposo. Na noite de um Domingo de Ramos, abandonousua casa. Na Porciúncula, foi consagrada pelo corte dos cabelos. Nemdormiu lá: esteve uma semana em um mosteiro de beneditinas. Mastambém não ficou lá. Esteve uns poucos meses em Santo Ângelo de Panço,com um grupo de leigas, que também estavam na busca de Deus. Passou oresto da vida – quarenta anos – em São Damião. Mas nunca achou quefosse lá a sua morada permanente. Era “peregrina e forasteira”. Queriaapenas estar com o Esposo, onde Ele estivesse, enquanto Ele estivesse.Mais tarde, ela escreveria: “As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade... (RSC 8, 1-2). Quando São Francisco foi levado para o meio dos leprosos e teve aexperiência de “usar de misericórdia” com eles, disse que, depois, sedemorou pouco e “saiu do século”. Encontrar-se com Deus, viver a mise-ricórdia, que é a Hesed hahamin (o Amor que é próprio de Deus, na Bi-blia), levou-o a “sair do século”. Que quer dizer isso? Para nós, hoje, a palavra século significa um período de cem anos. Nalíngua latina saeculum referia-se ao tempo que os gregos chamavam deCrónos = o tempo que pode ser medido. Nossos cronômetros e cronologiasmarcam as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos... A ele se opunhaa palavra grega Aión, com uma versão latina que era Aevum, um tempo quenão se mede, sem começo nem fim. Em grego, a palavra Aión é parente deAéi, o Sempre. Quando São Francisco disse que “saiu do século” quis significar que aexperiência de Deus o levara a sair do tempo dos homens e passar para otempo de Deus. Sair do tempo cronológico e passar para o Sempre. É interessante que os anacoretas e monges antigos tinham cunhado aexpressão “fuga do mundo”, para expressar sua entrada na vida religiosa.São Francisco – em um novo estilo de vida religiosa –, não fugiu do mundodos homens para uma abadia em algum lugar afastado, nem para uma 70
    • ermida: ele ficou em Assis. Mas ficou em Assis de outro jeito: já não eramais um homem movido pelos sonhos dos seus contemporâneos e conci-dadãos: queria ser um “peregrino e forasteiro”, um cidadão do céu. Nãotinha nesta terra morada permanente; sua casa era a Jerusalém do alto, adefinitiva. Ele era um homem que vivia a comunhão com o Deus Esposo eque queria fazê-lo presente no mundo que não permanece, que passa. Mas ele não podia sair do tempo dos homens sem sair do lugar doshomens. Ficou em Assis e na Itália do século XIII, mas, na realidade, eraum homem do “não-tempo” e do “não-lugar”, quer dizer: do tempo e dolugar de Deus. E aprendeu a viver outro tipo de tempo, que a Bíblia ensinae que era conhecido na cultura grega: o Kairós. Diferentemente do Crónos,que vai contando o tempo que passa, o Kairós é aquele tempo fugidio, quepassa em um momento e não permanece; é um encontro oportuno e únicoentre o tempo de Deus e o tempo dos homens. Santo Tomás More, um franciscano secular, deve ter entendido issoquando criou a palavra Utopia. Formada com o grego “u” (= não) e “topos”(= lugar) é uma palavra que quer dizer exatamente “não-lugar”. Quemdescobre Deus vê que não tem lugar no “mundo dos homens”, tendo sidoenviado como Jesus e com Jesus para estar nesse lugar. Descobre-se em umnão-lugar. Para sermos completos, descobre-se também no tempo de Deusou, diante das outras pessoas, em um “não-tempo”. Não está mais no lugare no tempo em que os homens que se esqueceram de Deus estão cons-truindo o seu próprio mundo. Tomás More não era um alienado. A Utopia, nome do livro que eleescreveu – e uma palavra tão usada até hoje – não era algo impossível,como muita gente parece pensar. Era um sonho possível: ele deu o nome deUtopia a um país longínquo, para mostrar que a Inglaterra do seu tempo,cheia de problemas, podia ser reconstruída com princípios diferentes. Equem estuda o livro Utopia e conhece melhor Tomás More percebe comoele se apoiou no “saí do século” de São Francisco. A santidade sempre comporta uma “fuga mundi” mesmo quando oindivíduo – por ter desposado Deus em Jesus Cristo – não sai do meio dasoutras pessoas, como aconteceu com Francisco de Assis. Mas também osque entraram no “não-lugar” e no “não-tempo” abriram o espaço interiorpara Deus, acolheram o Deus que é Liberdade e que é Amor, começaram aenxergar o mundo com os olhos de Deus e, como Jesus Cristo, são envia-dos de novo ao mundo de todos os homens e mulheres. Não para se 71
    • identificarem com ele: para o transformarem. “Estão no mundo sem ser domundo”. Talvez seja mais compreensível, hoje, não falar em “fuga”, mas emmudança de perspectiva. No “lugar”, amar é possuir ou é responder a umanecessidade; no “não-lugar” ama-se a partir de Deus, depois de ter acolhidoDeus no espaço interior. Aliás, o “não-lugar” é o jeito de criar o “espaço deDeus dentro do coração”. É uma outra perspectiva para o amor. A pessoa éacolhida como parte da presença de Deus e recebe o nosso amor no mesmoato em que estamos amando a Deus. Para um amor verdadeiro, é precisoestar no “não-lugar” e no “não-tempo” de Deus. Quando conheceu Jesus Cristo através de São Francisco, Clara teveconsciência nítida de que não tinha mesmo lugar no mundo de seusparentes e de sua cidade. Digo consciência nítida, porque ela já conheciaJesus Cristo numa intimidade muito grande e, desde criança, já estavadando demonstrações de que era uma pessoa “diferente”. Na medida emque foi passando para Jesus Cristo, foi ficando em um “não-lugar”. Sim,porque não se tratava simplesmente de mudar de lugar: todos os lugaresconhecidos eram “lugares dos homens”, não eram o “lugar de Deus”. Haviaaté presença de Deus no mundo dos homens, mas o “lugar de Deus” pareciamesmo ser outra coisa. A saída da casa paterna teve para Clara um alto valor simbólico: foi omomento em que deixou o lugar que não era dela e começou a viver de fatono “não-lugar” de Deus. São Paulo das Abadessas, Santo Ângelo de Panço,São Damião... nenhum desses lugares era importante em si mesmo. Eleseram apenas tentativas de mostrar para Deus, para si mesma e para todas aspessoas que ela estava saindo do lugar de todo mundo. Nem o mosteiro enem mesmo o grupo de Irmãs foram para ela um “lugar” em que podiaestar no mundo. Foram o “não-lugar” de Deus. O que não a impediu, pelocontrário, levou-a a ser uma amiga da sua cidade. O “não-lugar” dela não foi exatamente São Damião, mas o mundo dacontemplação de Jesus Cristo. São Damião, como as outras casas das IrmãsPobres era um abrigo simbólico, como já tinha sido o deserto para oseremitas, como já tinha sido o mosteiro para os monges. A única coisaimportante era que, ao atravessar a porta daquela casa, uma mulher vivia osacramento de estar saindo de todos os lugares para entrar no “não-lugar”de Deus. É provável que Francisco, que também se sentira “sem-lugar”quando se desvaneceram seus sonhos de riqueza e glória e quando conviveucom os leprosos, também tenha tido a primeira experiência concreta de 72
    • “entrar” no não-lugar de Deus ao passar a porta de São Damião e dar decara com aquele Crucificado. 7.2. Uma situação liminar Já ouvimos, muitas vezes, falar de “ritos de passagem”. São ascelebrações que se fazem, por exemplo: para comemorar os quinze anos deuma garota, a coroação de um rei... Chá de cozinha e despedida de solteirosão ritos de passagem. Qualquer festa de aniversário é um rito de passagem.São comemorações em que festejamos uma mudança de situação na vida deuma pessoa. Ora, por trás de todo rito de passagem, há uma situação liminar. Vale apena refletir sobre isso. E vai nos ajudar e pensar no que seja um “não-lugar”, ou um “não-tempo”. “Liminar” é um adjetivo da palavra limiar. Limiar é aquela linha quesepara o fora do dentro nas portas. E nós vivemos passando por portas. Considere uma casa, com a sua porta: nós podemos estar dentro da casa,fora da casa, ou passando pela porta. Podemos ficar lá dentro, podemosficar lá fora. Mas porta não é lugar de ficar, é lugar de passar. Vamos pensar em um exemplo: o casamento. A pessoa pode estar fora eser solteira; pode estar dentro e ser casada. Também pode estar na linha daporta: é noiva. Ser solteira ou casada são situações permanentes; ser noiva éuma situação transitória, liminar. Outro exemplo: uma jovem quis ser religiosa e foi acolhida no “novi-ciado”. A família pode até dizer: “Minha filha ficou freira”, mas as reli-giosas vão dizer: “Não, ela só vai ser freira quando professar no fim donoviciado”. De fato, ela não é mais uma pessoa “leiga” e ainda não é umapessoa consagrada, “religiosa”. De certa forma, é uma pessoa “penduradano ar”. Está em uma situação liminar. Clara, como Francisco, teve uma compreensão bem aguda dessa situa-ção. Foi por isso que os dois citaram a expressão de São Pedro: “peregrinose forasteiros”. Eles não tinham nesta terra sua habitação permanente: eramcidadãos do céu, mesmo que ainda não houvessem chegado lá. Nos ritos mais significativos de passagem costuma-se usar roupas espe-ciais: roupa de noiva, roupa de rei, roupa de bispo. Servem para simbolizaro seguinte: na situação liminar, a pessoa despe a roupa da vida anterior, dolado de fora, para vestir a roupa da vida nova, do lado de dentro. Há um 73
    • momento em que é extremamente frágil, porque está sem nenhuma roupa.É uma situação de extrema pobreza, representada pela nudez. Quem está no não-lugar, deixou de estar no lugar dos homens e aindanão se situou totalmente no lugar de Deus. É um “peregrino e forasteiro”,caminha por este mundo “sem bolsa nem calçado”... suspira por chegar àsua casa definitiva, mas tem que se soltar totalmente nas mãos de Deus. 7.3. Companhia no “Não-Lugar” Clara teve companheiras porque “Deus lhe deu Irmãs” como tinha feitocom Francisco. Aliás, uma das primeiras revelações do não-lugar simbo-lizado em São Damião fora justamente essa: Deus queria encher aquele“não-lugar” de mulheres que renovariam a Igreja e o mundo. Outras um-lheres também quiseram estar com Jesus Cristo mesmo perdendo o seulugar neste mundo. É verdade que, com o tempo, também entraram pessoas que simples-mente queriam estar ao abrigo de um mundo que lhes parecia difícil ouhostil, sem nunca vir a ter consciência de que o importante era sair para o“não-lugar”. Clara lutou com todas as forças para manter-se no não-lugar de Deus.Por isso, com ajuda de Francisco, criou um eremitério ou espaço de reco-lhimento em São Damião. Quando lhe deu uma “forma de vida” – que,aliás, foi crescendo com a experiência – quis deixar concreto como é que sevivia no “não-lugar”. Creio que é nessa perspectiva que devemos entendertudo que ela escreveu. Era a perspectiva da “Forma de Vida” dada porFrancisco em 1212, tão igual a sua “Antífona de Nossa Senhora”: o lugardeles era a Trindade, o tempo deles era a Trindade 13. Creio que o cardeal Hugolino pode ser considerado um amigo apesar detambém ter sido um dos que não conseguiram entender o “não-lugar” deDeus, mesmo compreendendo muitas das propostas de Francisco e Clara.Talvez tenha até querido ajudar sinceramente quando protegeu o seu “não-lugar” com uma clausura no estilo que ele entendia. Era o que cabia em suacabeça de homem do mundo (o mundo eclesiástico, inserido no mundosocial e político dos homens, era decididamente um lugar dos homens). 13 Nos escritos de Clara podemos perceber como ela foi vivendo cada vez mais no não-lugar e no nãotempo de Deus. Para dar um exemplo, estou colocando algumas citações de Clara no fim deste capítulo.Faço isso para que a reflexão sobre o nosso tema possa ser ágil. 74
    • 7.4. Orar no “Não-lugar” Viver a contemplação de Jesus é viver sem cessar no não-lugar. Mas aspessoas que olham com olhos materiais entendem a contemplação comomais um tipo de oração (ou de reza): como espaços de tempo ou de lugardestinados à oração. Tentam determinar e cercar esses espaços porque nãovêem outro jeito de distinguir o “não-lugar” do “lugar”. Mas a pessoa que sai para o “não-lugar” está apenas saindo para Deus.Deixa o “século” como um lugar do mundo construído pelos homens quenão tem lugar para Deus. Mas não vai para outro planeta. Por isso, mesmovivendo no mundo de Deus (o “não-lugar”), continua a estar no mundo doshomens que perderam a liberdade (por não estar caminhando decidida-mente para Deus), ainda que nunca o considere esse o “seu lugar”. Enxergar com os “olhos do espírito” é ver as coisas a partir do “não-lugar” deste mundo ou, em outras palavras, a partir do lugar de Deus. Foinessa perspectiva de um “não-lugar” para as outras pessoas, mas de umverdadeiro “lugar” de Deus, que Francisco enxergou diferentemente ossarracenos, os pobres, os ladrões, o lobo de Gúbio. Vamos ver alguns exemplos de como, mesmo sem tomar Deus em con-sideração, muitas vezes nós nos sentimos fora do lugar. Quando chegamosa um país estrangeiro, olhamos tudo com um olhar diferente, enxergamosde uma forma que não é a das pessoas que já nasceram e sempre viveramlá: tudo nos parece estranho, mas os outros nem desconfiam que no meiodeles está alguém que vê tudo diferente. Não sou dali, aquele não é o meulugar. Estou em um “não-lugar”. Outro exemplo acontece quando nosvemos em um ambiente de trabalho ou de vida que nos faz sentir como “umpeixe fora da água”. Naturalmente, esses exemplos são pálidas alusões:estar no não lugar de Deus é incomparável. Francisco e Clara usam a expressão “peregrinos e forasteiros” (cf 1Pd 2,11)justamente para falar no “não-lugar”. Por isso não se deve estranhar queClara, que nunca saiu de São Damião, também se considere uma “peregrinae forasteira”: ela é do lugar de Deus e por isso está sempre no “não-lugar”enquanto vive no mundo dos homens. O aspecto fundamental da itinerância – um ponto chave da espiritua-lidade franciscana – não é exatamente ficar mudando de lugar, mas viverem qualquer lugar sabendo que lugar nenhum é o meu, porque o meu lugaré o lugar de Deus. 75
    • Talvez se possa pensar alguma coisa semelhante quanto aos tempos deoração. Não é questão de eu ter um tempo cortado do tempo dos homenspara me entregar a Deus, ainda que isso possa constituir um bom “exer-cício”. O contemplativo é uma pessoa que vive sempre “no tempo deDeus”, de alguma forma vive o “aion” (o eterno, o tempo não medido) nomeio do “crónos” (o tempo humano, que pode ser calculado). Talvez sejajustamente por isso que consegue perceber alguns “kairói” especiais: mo-mentos em que o tempo de Deus e o tempo dos homens coincidem e emque, por isso mesmo, a gente consegue fazer passagens do mundo de Deuspara o dos homens. A Eucaristia é o grande kairós do tempo de Deus no tempo dos homens.Evidentemente, só para quem vive o tempo de Deus e está fora do tempodos homens, pelo menos de certa forma. Essa “certa forma” quer dizer: Estou dentro do “tempo dos homens”porque nasci neste mundo e nele vou permanecer enquanto não chegar aminha morte. Também estou dentro do tempo dos homens porque convivocom eles e tento trazê-los para o tempo de Deus. Mas, enquanto a maioriavive o curto tempo que passa, eu já estou vivendo o eterno. RecordemosSão João: Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o estilo de vida orgulhoso - não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também as suas concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2,15-17). E este é o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o Filho também não tem a vida (1Jo 5,11-12). 7.5. O Reino do “Não-Lugar” Quando veio anunciar o seu Reino, Jesus quis estabelecer dentro dolugar e do tempo dos homens uma situação nova em que todos pudéssemosir aprendendo a viver o lugar e o tempo de Deus. Ao pé da letra, uma“igreja” (do grego ekklesía = conjunto dos convocados para uma assem-bléia) seria um grupo de pessoas que aceitaram o convite de Jesus e pás-saram a constituir um lugar de Deus no meio dos homens. Os homens defora podem não entender isso, mas as pessoas que estão dentro só podemser consideradas “chamadas” (de kaléo) se tiverem a consciência de viverem um “não-lugar” no meio do mundo. Construir o “Reino de Deus é isso”. 76
    • E Jesus advertiu que o Reino de Deus está entre nós ou dentro de nós, semse apresentar com fanfarras. Nessa perspectiva, como poderemos falar em “não-lugar” de Deus, em“não-tempo” de Deus? Parece que os que nunca conseguiram entender nadadisso só podem falar em aspectos pequenos, como “clausura”, “temposfortes de oração” ou “horas de contemplação”. E não vão ser as nossasexplicações que vão poder deixar essas coisas claras, porque isso nãodepende de compreensão, depende da graça. Francisco e Clara se tornaram outros Cristos justamente por isso:entraram no “não-lugar” e no “não tempo” de Jesus Cristo. Para quem estáno não-lugar e no não-tempo de Jesus Cristo, que valor têm as conquistas,as riquezas, as vantagens do mundo dos homens? São como areia, sãomenos do que pó. Eles gostavam de lembrar isso. Os contemplativos não são pessoas que fogem do mundo. Verdadeiros“contemplativos”, quer vivam em mosteiros quer estejam no meio domundo, são pessoas do “não-lugar” e do “não-tempo” que nos fazem viverdesde já a eternidade e a liberdade de Deus. 7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara a exorta a não perderde vista o seu ponto de partida: ela tinha deixado tudo para seguir JesusCristo e, por isso mesmo, devia abraçar o Cristo pobre como uma virgempobre. O texto é muito bonito e diz: “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cf. Ct 3,4), mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança... Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 11-13,17- 18). 7.7. Algumas considerações A proposta que estamos fazendo neste capítulo pode ser bastantesurpreendente e nova para muitas pessoas. Como é ampla, e o nosso espaçoé restrito, coloco mais alguns pontos soltos para serem considerados. 77
    • 1. “Os que fazem penitência”, a que São Francisco se refere na Cartaaos Fiéis, são os que passam para o lugar e o tempo de Deus. Da mesmaforma, “os que não fazem penitência” são os que constroem castelos naareia do mundo dos homens. 2. O “não-lugar” de Deus é o mundo da interioridade. Somos levados anos afirmar natural ou culturalmente no mundo exterior, que é o “mundodos homens”. Mas quando conseguimos entrar no mundo interior,perdemos o pé (ou o interesse) no mundo exterior. Quem perde o interessepelo “mundo exterior” deixa de possuir, deixa de mandar, deixa de serimportante: sente-se feliz de ser pequeno e pobre. Continua nesse mundo,mas para prestar serviço. 3. Quem fica pobre (e se sente pequeno) abre espaços na interioridade.São os espaços de Deus. Então Deus entra com toda a sua liberdade e noslibera para o não-lugar. Daí nasce a oração interior, o olhar contemplativo,com os olhos do espírito, para o mundo exterior, do “lugar”. Como esseolhar parte da Liberdade, que é Deus, é o verdadeiro olhar de entrega. Daínasce o verdadeiro Amor. 4. É um pequeno exemplo, mas talvez ajude a pensar: No meio doasfalto ou do concreto, que são construções do “mundo dos homens”, àsvezes abre-se uma rachadura por onde brotam sementes que o vento levou– o mundo de Deus está continuamente misturando o não-lugar com olugar, o não-tempo com o nosso tempo. Contemplar é saber perceber isso. 5. Quando experimenta a pobreza, a pequenez e a solidão interior do ser,o homem abre os olhos do espírito: volta-se para fora, retorna ao lugar e aotempo “dos homens” para transformá-los em lugar e tempo de Deus. Omundo é transformado pela liberdade do amor. Para finalizar, coloco algumas citações dos escritos de Clara em que sepode sentir sua consciência de estar no “não-lugar” e no “não-tempo” quenos colocam em Deus sem nos tirar do mundo dos homens.... para recordar que ela também saiu do século: TestC 8 – não só depois de nossa conversão mas também quando estávamos na miserável vaidade do século.... para reforçar que Francisco saiu do século: 78
    • TestC 10 – estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o século,... nenhum lugar era o seu lugar: TestC 52 – Se em algum tempo acontecer que as Irmãs tenham que deixar este lugar para se estabelecer em outro, sejam obrigadas, em qualquer lugar em que estiverem depois da minha morte, a observar a referida forma de pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco.... no itinerário, e o que importa é a situação definitiva TestC 73 – Mas felizes são aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar até o fim (cfr. Sl 118,1; Mt 10,22). TestC 74 – Tomemos cuidado, portanto, para que, se entramos pelo caminho do Senhor, de maneira alguma nos afastemos dele em algum tempo por nossa culpa e ignorância,Inês passou para o tempo e o lugar de Deus 1CtIn 5-7 – Porque, embora pudésseis gozar, mais do que outros, das pompas e honras deste mundo, desposando legitimamente, com a maior glória, o ilustre imperador, como teria sido conveniente à vossa excelência e à dele, rejeitastes tudo isso e preferistes a santíssima pobreza e as privações corporais, com toda a alma e com todo o afeto do coração, tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta.Já começou a viver no aion 1CtIn 10 – Já estais tomada pelos abraços daquele que ornou vosso peito com pedras preciosas e colocou em vossas orelhas pérolas inestimáveis. 1CtIn 22 pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras, preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar tesouros no céu que na terra,Só quando se chega a ser vazio se chega a ter lugar para Deus 1CtIn 25-16 – Creio firmemente que sabeis que o reino dos céus não é prometido e dado pelo Senhor senão aos pobres (cf. Mt 5,3), porque, quando se ama uma coisa temporal, perde-se o fruto da caridade. Sabeis que não se pode servir a Deus e às riquezas, porque ou se ama a um e se odeia às outras, ou serve-se a Deus e desprezam-se as riquezas (cfr. Mt 6,24). 1CtIn 28 – Sabeis que não dá para ser glorioso no mundo e lá reinar com Cristo, e que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico subir ao reino do céu (cf. Mat 19,24). 79
    • 1CtIn 30 – Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais pelas eternas, merecer os bens celestes em vez dos terrestres, receber cem por um e possuir a vida (cf. Mt 19,29) feliz para sempre! 2CtIn 19 – Veja como por você ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo. 2CtIn 23 – Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecedores, e viverá pelos séculos dos séculos. 3CtIn 4 – Ouvi dizer e estou convencida de que você completa maravilhosamente o que falta em mim e nas outras Irmãs para seguir os passos de Jesus Cristo pobre e humilde. 3CtIn 15 Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor,O não-lugar de Deus cabe em qualquer lugar 3CtIn 18-19 – Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter (cf. 3Re 8,27), mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.O aion e a glória cabem em nós 3CtIn 20-22 – Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que, pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do que o céu? Pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a alma do homem fiel, é maior do que o céu. Pois os céus, com as outras criaturas, não podem conter (cf. 2Par 2,6; 3Rs 8,27) o Criador: só a alma fiel é sua mansão e sede. 3CtIn 23 – como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei (Jo 14,21), e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23).Está sempre pensando no céu. Claro que os olhos dela são os olhos do espírito. Deus está nos santos enos anjos... 4CtIn 8-11 – Pois, como Inês, a outra virgem santa, você desposou de modo maravilhoso o Cordeiro imaculado (1Pd 1,19) que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), deixando todas as vaidades desta terra. Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia,...Ela está correndo para o tempo, lugar e o abraço do encontro com o Infinito: 80
    • 4 CtIn 31-32 – Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), 32 até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace (Ct 2,6) toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1). 4CtIn 30 – Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! 2CtIn 10-13 – Mas, como uma só coisa é necessária (Lc 10,42), é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa (cfr. Rm 12,1) e agradável. Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cfr. Ct 3,4) mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança.O que importa é o não-tempo CtEr 5 – Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra.Deixar as roupas seculares era sair do século RSC 2,12 – Depois, cortados os cabelos em círculo e depostas as roupas seculares, dêem-lhe três túnicas e um manto.Peregrinas e forasteiras, estão no não-tempo RSC 8,1-2 – As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras (cf. Sl 38,13; 1Pd 2,11) neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade... RSC 8,5-6 – Seja esta a vossa porção, que vos conduz à terra dos vivos (cf. Sl 141,6).Aderindo totalmente a ela, queridas Irmãs, nada mais queirais possuir em perpétuo abaixo do céu, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe. 81
    • 8. As Irmãs-Esposas Quando escreveu a primeira Legenda de São Francisco, Tomás deCelano destacou entre as qualidades das “Senhoras Pobres” de São Damiãoo fato de viverem todas como esposas de Jesus: “...Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lem- brança da vida passada...” (1Cel 19). 14 O Papa Inocêncio também as via como Esposas de Jesus , porqueescreveu no seu Privilégio da Pobreza o seguinte: “Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez pobre, caminho, verdade e vida; e desse propósito não as faz fugir nem a privação das coisas; pois a esquerda do esposo celeste está sob a vossa cabeça para sustentar a fraqueza de vosso corpo, que submetestes à lei do espírito em caridade perfeita. Afinal, aquele que dá de comer às aves do céu e veste os lírios do campo não vos há de faltar tanto para a alimentação como para a roupa, até que, passando, não vos venha servir na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude de sua visão” (PrivIn 2-3). Gregório IX, ao conceder o seu Privilégio da Pobreza insistiu na mesmaalusão ao Cântico dos Cânticos: “Naturalmente, aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios do campo não vos faltará para o alimento e a roupa, até que Ele mesmo, 14 Chamo a atenção para um fato importante, que não poderei tratar melhor aqui por falta de espaçopara comparar os textos: De maneira geral, os papas e alguns outros escritores parecem entender que asIrmãs eram “noivas” de Jesus, que só passariam a ser “esposas” na vida eterna. Ao contrário, Claraparece falar sempre de esposas já neste mundo. Observo que a palavra latina “sponsa”, que deu a nossapalavra “esposa” = a mulher casada, em latim significava apenas a “comprometida”, ou a noiva. Amulher casada era chamada “uxor” pelos romanos. Era a “ungidora”, que no cerimônia do casamentoungia a soleira da porta da casa onde seria sacerdotisa. Dessa palavra só sobrou em português a palavra“uxoricídio”, o crime de quem mata a esposa. Em grego, noiva é claramente “nynfe”, enquanto esposapodia ser “gyné” (mulher) a companheira do “anér” (varão), ou “ákoitis”, a companheira do “akóites”.Essas duas últimas palavras lembram os que dormiam juntos na “kóite”, a cama. 82
    • passando, vos sirva na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude da visão” (PrivH 1). Depois da morte de Santa Clara, também o ministro geral SãoBoaventura, escrevendo às Clarissas, viu-as como Esposas de Jesus: “Vigiai de tal maneira, com afetos incessantes, fervorosas no espírito da devoção, que, quando se ouvir o clamor e chegar o Esposo, possais ir fielmente ao seu encontro com as lâmpadas cheias do óleo do amor e da alegria, prontas para entrar com ele nas bodas da felicidade eterna, com exclusão das virgens loucas. Lá Cristo vai acomodar suas esposas com os anjos e os eleitos, e passará para servir-lhes o pão da vida, a carne do Cordeiro imolado, o peixe assado na cruz, cozido no fogo do amor em que vos amou fervorosamente” (BoCc 5). Aliás, é notável o Doutor da Igreja dizer que Jesus vai servir às suasesposas “o peixe assado na cruz”, numa evidente alusão à lenda do ReiPescador, que faz parte do ciclo do Santo Graal. Mas foi São Franciscoquem explicou, de maneira bem original e no que para ele era o cerne davida franciscana, o que é sermos esposos: “Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo” (1CtFi 8). E é a essa luz que devemos entender a Forma de Vida que ele deu aClara e suas Irmãs logo que elas entraram na Ordem: “Desde que por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim mesmo e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,4-6). O fato de as damianitas viverem como esposas de Cristo é maissignificativo do que pode parecer a uma primeira vista. O amor de Clarapelo Cristo Esposo levou-a a criar um “grupo de virgens” (collegiumvirginum, dizem as Fontes) original em comparação com outros mosteiros.Elas eram irmãs de uma maneira nova. Por isso, e por serem franciscanas epobres, elas sempre relutaram em aceitar as Regras religiosas de Hugolinoe de Inocêncio IV, ainda que – depois da morte de Clara – a maior parte dosmosteiros tivesse por fim aceitado a de Alexandre IV até o século XX.Depois de muitos esforços e de algumas pequenas vitórias, chegaram aabraçar, em nosso tempo, a Regra de Santa Clara. 83
    • Vamos desenvolver três pontos sobre as Irmãs-Esposas: a). Como é asua vida entre irmãs; b). Qual a sua contribuição para a Igreja; c) sentidoespecial de sua clausura. 8.1. A vida das clarissas como Irmãs Creio que podemos aplicar a todas as Senhoras Pobres – as “Da-mianitas”, ou as mulheres franciscanas do tempo da Santa – tudo que elaescreveu para Inês de Praga. Parece claro que ela tenha procurado formaressa irmã longínqua no mesmo espírito que transmitia habitualmente às quemoravam com ela. Então vamos ver nas Cartas a Inês alguns pontos quepodemos identificar na formação das Irmãs-Esposas de São Damião e deoutros mosteiros: 1). As clarissas são irmãs porque são Esposas; 2). Elas refletem umas para as outras o Cristo Espelho; 3). A Forma de Vida de Santa Clara é para esposas que são irmãs. 8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, destacada pelo esplendor do estandarte da inviolável virgindade e da santíssima pobreza, ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente” (1CtIn 12-13)... e merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai altíssimo e da gloriosa Virgem” (1CtIn 24). Esses três relacionamentos são os mesmos apontados por São Franciscona Carta a todos os Fiéis quando fala da relação do fiel cristão com aSantíssima Trindade: “E são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a Jesus Cristo. Somos certamente irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está no céu; mães, quando o levamos no coração e em nosso corpo pelo amor e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo” (1CtFi 7-10). Mesmo que Santa Clara tenha aprendido isso com Francisco, soubefazer suas essas palavras e as aplicou de diversas formas no trato com asIrmãs, na sua sensibilidade materna para com elas, dando um sentido maior 84
    • ao oficio de abadessa, a partir dessa identidade esponsal que se sente notestemunho de seus Escritos. Quando diz que Inês é mãe e irmã do Senhor Jesus, é evidente que estárecordando a passagem do evangelho em que Jesus disse que eram “meuirmão, minha irmã e minha mãe... os que põem em prática a palavra deDeus” (Mt 12,50). Mas quando consideramos as três atribuições juntas nãopodemos deixar de pensar na “Forma de Vida” que Francisco tinha dado aClara e a suas irmãs, onde recalca o relacionamento delas com cada Pessoada Trindade. Vejamos os principais textos nas Cartas de Santa Clara: “Vossa recompensa será enorme nos céus, e merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem” (1CtIn 23-24). “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras, eu, Clara, serva indigna de Cristo e inútil servidora das suas servas que vivem no mosteiro de São Damião em Assis, desejo saúde e que possa cantar o cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, juntamente com as outras santas virgens, e seguir o Cordeiro onde quer que ele vá” (4CtIn 1-3). A Legenda de Santa Clara e o Processo de Canonização apresentaminúmeros exemplos de como Clara cuidava de suas Irmãs. E a Bula deCanonização diz que ela fazia isso justamente por ser esposa do Senhor: “Alegre-se, então, a Mãe Igreja, que gerou e educou essa filha que, como progenitora fecunda de virtudes, produziu com seus exemplos muitas discípulas da religião, formando-as para o serviço perfeito de Cristo com perfeição. Alegre-se também a alegre multidão dos fiéis, porque o Rei e Senhor dos céus levou com glória para o seu alto e preclaro palácio a sua irmã e companheira, que Ele havia escolhido como esposa. Porque também as fileiras dos santos estão festejando juntas, pois, em suas habitações celestes, celebram-se as núpcias da noiva real” (cf. Fontes Clarianas pág. 276). Clara é mãe como filha da Igreja; sua maternidade é imagem da MãeIgreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É irmã para todos oscrentes, companheira na vocação comum, companheira de viagem e apoio. 85
    • Assim se indica a idéia da comunidade, da “solidariedade” e da suplência.É esposa do Senhor e, por isso, motivo de alegria, sinal irradiante deesperança para a humanidade. Pela “Forma de Vida” de São Francisco, todas as Irmãs decidiram seresposas do Espírito Santo. E todas são filhas do Pai Eterno. Portanto, irmãs.Se não fosse pelas Irmãs, “que Deus lhe deu”, Clara poderia ter sido umaeremita, mesmo em São Damião. Se não fosse pelas Irmãs, não serianecessária uma Forma de Vida original em tantos pontos.8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho A vida em São Damião supunha um testemunho mútuo das Irmãs queviviam ali dentro, um testemunho que inflamasse umas às outras e a todosque pudessem conhecê-las: “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou as coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros” (TestC 19-21). Elas deviam ser um “espetáculo da santidade”. De fato, ser espelho éuma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como pó-demos encontrar em São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e nasmísticas da “Brautmystik”. Nas Cartas e no Testamento de Santa Clara, asocorrências são muitas. E, sempre, o espelho é Jesus: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória” (3CtIn 12). “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15). “Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar... Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio”. (4CtIn 18-19). “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem- aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano” (4CtIn 22). 86
    • “E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa; assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar” (4CtIn 23-24). Podemos perguntar-nos: por que usavam tantas vezes a simbologia doespelho? Parece que era sempre para indicar algo profundo, que expressavaalguma coisa além da realidade palpável. Era um sinal eficaz como umsacramento: tornava alguém presente melhor do que em uma fotografia:Cristo, Francisco, as Irmãs: todos eram sacramentos vivos em que Clara seespelhava ou para quem era espelho. E, como o espelho reflete, mostra nãosó a figura de outra pessoa, mas também a minha, abre-nos para umainfinita multiplicação da presença de Deus. E podemos encontrar em todosos espelhos o rosto do Esposo, de Cristo. E nele nos reconhece. Dando-nosconta de tudo que é semelhante, e de tudo que está precisando sertransformado. 8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs Hugolino e Inocêncio IV deram a Clara e suas Irmãs uma “Forma deVida” que era uma regra jurídica para “monjas”. As damianitas – e,certamente, a sua fundadora – nunca as aceitaram de boa vontade. A“Forma de Vida” de Santa Clara é muito diferente dessas regras e daposterior que foi imposta por Alexandre IV: ela faz uma proposta de vida airmãs muito amadas que se descobriam e se encontravam no amor do únicoEsposo. Por sua experiência esponsal, Clara enxergava e criava na suafraternidade de São Damião as “doçuras” e “delícias” que – segundo o seutestemunho – eram gozados pelas que amavam a Deus de verdade (Cf. 3CtIn14). Podemos perceber isso quando confrontamos alguns dos numerosospontos em que, com muita sabedoria, Clara se afasta do que lhe tinhamdado Hugolino e Inocêncio: – dá mais responsabilidade às Irmãs – trata-as como adultas: “Pelo menos uma vez por semana, a abadessa tenha que convocar suas Irmãs para um capítulo... E tratem aí, de acordo com todas as Irmãs, o que for necessário para a utilidade e o bem do mosteiro, porque muitas vezes o Senhor revela à menor o que é melhor” (RSC 4,15-18). “Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs” (RSC 2,1). “Se algo for enviado a alguém por parentes ou por outros, faça a abadessa que isso lhe 87
    • seja dado. Se tiver necessidade, ela mesma poderá usá-lo; se não, que o dê com caridade a uma Irmã que precise. Mas se lhe for mandado algum dinheiro, a abadessa, com o conselho das discretas, faça provê-la do que tiver necessidade” (RSC 8,9-11). – Abre mais a clausura, admitindo possibilidades de saídas se houver: “...um motivo útil, razoável, manifesto e aprovado” (RSC 2,13). – Não impõe um hábito estrito, como faziam as Regras de Hugolino eInocêncio IV. Limita-se a dizer: “E, por amor do santíssimo e queridíssimo Menino deitado no presépio envolto em panos pobrezinhos (cf. Lc 2,7.12), e de sua santíssima Mãe, admoesto, peço e exorto minhas Irmãs a se vestirem sempre de roupas vis” (RSC 2,25). – Deixa mais livre o silêncio, que devia ser total e perpétuo nas outrasRegras, e chega a considerar casos em que as Irmãs possam falar compessoas de fora: “As Irmãs, com exceção das que servem fora do mosteiro, observem o silêncio desde a hora de Completas até a Terça. Calem-se também continuamente na igreja e no dormitório; no refeitório, só enquanto comem; com exceção da enfermaria, em que as Irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas. Mas podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa... E isso só se faça muito raramente na grade, e de maneira nenhuma na porta. Por dentro dessa grade ponha-se um pano, que não será removido a não ser quando se prega a palavra de Deus ou quando alguma Irmã falar a alguém” (RSC 5, 1-4, 9-10). Os testemunhos das Irmãs no Processo de Canonização comprovamessas liberdades. Da mesma forma, ela também não se importa com muitosdetalhes disciplinares das Regras que tinham sido dadas pelos papas, comotudo que se referia aos clérigos que podiam entrar na clausura. Essa atitude de mãe e irmã foi tão inefável quanto a sua vivênciaesponsal: não há palavras para expressar o afeto profundo, puro everdadeiro, no que se refere ao Esposo Cristo ou no que se refere às pessoasque se amam nele, como Clara descreve a Inês em um texto de“inefabilidade” (cale-se a língua da carne) depois de ter descrito em traçosapaixonados e totalmente pessoais o que supõe o amor esponsal por Cristo: “Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o 88
    • afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 35-37). 8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas para a Ordem e para a Igreja Clara contribuiu pessoalmente – e ainda contribui através de suas Irmãs– para a vida do mundo, da Igreja e de todo o movimento franciscanoporque sua contemplação esponsal leva-as a se espelhar em Cristo Espelhode Deus até serem transformadas nele. A partir daí se aproximam do homem concreto e da Igreja viva dando-lhes oportunidade de reconhecer a ternura e a bondade de Deus, um DeusEsposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e escuridões quepode haver nos membros desse grande corpo que representa a humanidadee a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com ela, Clara foiespelho e exemplo, ícone vivo do que Deus quer de todos seus filhos. O Cardeal Hugolino, que foi decididamente um homem de Igreja echegou a ser papa, sentiu a força desse reflexo de Deus mesmo em umaClara que ainda não tinha passado dos trinta anos de idade e, já quaseoctogenário escreveu-lhe: “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguirá do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de tanta devoção e abundância de lágrimas”. Mesmo depois de já ter assumido o papado e o nome de Gregório IX,sentindo a gravidade de seus problemas, voltou a encontrar em Clara e nasIrmãs consolo e apoio, vistos na missão intercessora da contemplaçãoesponsal clariana: “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo, como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como confiamos, vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas 89
    • orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu, suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para os que foram confiados ao nosso governo”. Pouco tempo depois, aos 18 de agosto de 1228, fez com que o CardealReinaldo de Segni, seu sobrinho, enviasse uma carta circular para comu-nicar a nomeação de um novo visitador e assistente das damianitas, FreiFilipe Longo. Chamamos a atenção para este texto: “Ele (Deus) fez seu vigário na terra aquele que era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste da diminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno e conveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanho universal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescentes em cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo”. Por muitos, São Francisco é considerado um grande reformador e reju-venescedor do mundo e da Igreja. Mas podemos dizer que todo o seuexemplar Movimento Franciscano começou justamente com essas senhorasde São Damião, como escreveu Clara em seu Testamento: “Pois, quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou companheiros, estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde. Pois, nessa ocasião, subindo ao muro da igreja, ele disse em voz alta e em francês para uns pobres que moravam ali perto: Venham me ajudar na obra do mosteiro de São Damião, porque nele ainda haverão de morar umas senhoras cuja vida famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial em toda a sua santa Igreja” (TestC 9-14). Clara ensina Inês e todas as Irmãs a serem esposas. A esposa é espelhode Jesus. A esposa contempla Jesus. São esposas-irmãs que precisam secomunicar porque vivem o mesmo Esposo. Cabe às Clarissas de hoje, atodas as numerosas Irmãs Franciscanas da TOR – e a todo o MovimentoFranciscano – manter atualizado esse serviço à Igreja e ao mundo. Demaneira especial, cabe a elas ajudar os homens do movimento franciscano aentenderam essa dimensão de um amor pessoal pelo Cristo pessoa. 90
    • 8.3. A clausura das Irmãs de Santa Clara As clarissas são as franciscanas de clausura. As clarissas atuais atéfazem voto de clausura. Observo que a palavra clausura é da raiz do verbo“claudo” = fechar, aparentada com a palavra chave (em latim clauis). Emlatim, é um particípio futuro, significando um lugar que vai ser fechado.Outra palavra aparentada é claustro, que lembra mais um ambiente fechado.As Regras de São Bento, de Hugolino e de Inocêncio IV, bem como a deSanta Clara, não usam a palavra clausura. Nas FONTES CLARIANAS só aencontramos na procuração dada por Clara e as Irmãs para vender umterreno, que é chamado de clausura, palavra que indicava que ainda nãotinham feito nenhuma cerca. Clara só usa a palavra claustro para lembrarque Nossa Senhora recebeu Jesus no “claustro do seu santo seio” (3CtIn 19). Em nossos dias, estamos encontrando sérias críticas à clausura dasclarissas, mesmo por parte de franciscanos e franciscanas. Há quem digaque esse tipo de vida não tem mais sentido e também quem o atribua aomachismo da Igreja, que sempre teria demonstrado desconfiança emrelação às mulheres religiosas. Muita gente diz que Santa Clara ficou naclausura por imposição, uma vez que no tempo dela não se entendia outrotipo de vida religiosa para as mulheres. É certo que se podem citar alguns fatos históricos para corroboraralgumas dessas afirmações, mas há muito preconceito. Não é possível fazergeneralizações. Não vamos tratar extensamente desse assunto aqui, porque estamosestudando apenas a espiritualidade de Santa Clara. Vou apresentarsucintamente a visão de dois autores atuais dos mais abalizados. E concluircom a minha visão sobre a clausura das clarissas dentro da suaespiritualidade própria. Uma primeira visão muito bem fundamentada é a da estudiosa CLARAAUGUSTA LAINATI, da ordem das clarissas. Para ela, a clausura é umaexpressão do mistério pascoal, é uma kénosis para uma comunhão: umamorte para uma vida. É fundamental um artigo que ela publicou na revistadas clarissas Forma Sororum em 1983 15. 15 La Clausura: non “mezzo di contemplazione”, ma modo tipico delle Clarisse di esprimere ilmistero pasquale. Una kénosi per una comunione: una morte per una vita, en Forma Sororum 20 (1983)pp. 201-203. 91
    • Ela começa afirmando que a clausura das clarissas não é um meio paraaprofundar a contemplação, pois existem muitos outros meios eficazes paraisso. Para ela, a clausura é um modo típico de Santa Clara para aprofundara kénosis (o esvaziamento, cf. Fl 3,5ss) do Senhor Jesus Cristo. Ela vê umvalor na clausura que limita a pessoa no espaço, empobrece suaspossibilidades de ação e movimentação para mergulhar no “vazio” dacriatura com o Cristo crucificado, com o Cristo que fica sozinho namontanha mas aberto para a contemplação do Pai. Cita São Francisco nasua Regra para os Eremitérios, onde diz: “No claustro onde moram nãopermitam que entre nenhuma pessoa (REr 7). Outra visão muito importante é a do estudioso franciscano Jesús SANZMONTES, autor de diversas obras fundamentais sobre Santa Clara e asclarissas 16. Para ele, Santa Clara encontrou na clausura de São Damião o “lugarcarismático” para sua opção do seguimento esponsal de Cristo. Ele lembra que nem toda vida contemplativa exige a clausura, nem todaclausura expressa e desenvolve a vida contemplativa, mas pode haver umaforma de existência cristã em que, por vocação carismática, por divinainspiração, unam-se as duas realidades. Lembra também que o próprio SãoFrancisco deu um primeiro passo para a clausura de Clara fundamentado nasua opção pelo Esposo: “...e como se a serva humilde tivesse desposado Cristo diante do leito nupcial dessa Virgem, São Francisco mudou-a imediatamente para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa” (LSC 8). Santa Clara escolheria um caminho que implicava ser monástico,claustral e franciscano, correspondentes à sua vocação para a fraternidade,a contemplação e a pobreza. A genialidade de Clara está justamente em suacapacidade de ter unido as duas figuras de Marta e Maria, vivendo suavocação claustral aberta ao mundo e ao serviço dos pobres. Sobre a escolhade vida claustral como modalidade de serviço à Igreja, Clara estava emsintonia com Francisco e Hugolino. No hortus conclusus, na cella vinaria, do São Damião de Clara de Assis, desenvolveu-se essa história de seguimento esponsal de Jesus Cristo, como um espaço que representava o locus charismaticus de sua vocação eclesial, 16 Proponho que se leia especialmente o livro “Illum totaliter diligas – La simbología esponsal comoclave hermenéutica del carisma de Santa Clara de Asís, Roma 2000. 92
    • em uma progressiva identificação kenótico-pascoal com Cristo Esposo. Definitivamente, Ele é o grande “Tu” por quem Clara iniciou todos os seus êxodos, por quem fez todas as suas opções e por quem pacientemente aguardou todas as suas esperas, para que fosse brotando uma forma vitae que harmonizava todos esses fatores já indicados, e que faziam de seu caminho uma novitas capaz de catalizar aquele dilatado movimento feminino que se reconheceu no carisma de Francisco de Assis. Para concluir, proponho que essas abalizadas opiniões desse doisautores sejam lidas à luz do que falamos sobre a vida de Clara e suas Irmãsno não-lugar e no não-tempo. Creio que de fato, a opção das clarissas pelaclausura tem uma luz própria, diferente da “clausura” das “contemplativas”.Elas estão no seu lugar de esposas de Cristo que se descobrem como irmãs. 93
    • 9. Contemplando o Esposo Uma das maiores contribuições de Santa Clara para a espiritualidadefranciscana é certamente a de ser mestra de contemplação. Nossa palavra “contemplação” vem do latim cum+templare e recordaque, no tempo dos romanos, os sacerdotes se colocavam dentro do templo,numa situação de envolvimento com (cum) o seu ambiente, para descobrir avontade dos deuses nos seus auspícios ou augúrios, relacionados com o vôodos pássaros (auis, mais tarde lido avis) que conseguiam observar pelaabertura no teto do templo. Isso pressupunha e favorecia um olharconcentrado e uma busca do sentido divino. Até hoje usamos contemplarpara significar um olhar concentrado, por exemplo, na observação de umaflor. E dizemos, também, por exemplo, que um regulamento “contempla”determinada situação, isto é, concentra-se nela, ou a considera. Considerarvem de observar o conjunto (cum) dos astros (sídera) para descobrir umadireção. O sentido mais estrito de contemplação refere-se a um olhar atento quedescobre Deus na presença de suas ações e de suas obras. Ao pé da letra, contemplar não é orar (de os, oris = boca), nem rezar (derecitare: ler alto ou repetir um texto escrito), mas é um relacionamento ex-celente com Deus, a quem nós ficamos observando, descobrindo, sabo-reando. Podemos fazer exercícios de contemplação, mas viver a contem-plação é ter essa inclinação para “ver Deus” nos seres e nos acon-tecimentos. São Francisco, cujo desejo ardente e apaixonado era ver Deus, a quemdescobria em Jesus Cristo, parece ter sido um dos maiores contemplativosda história da humanidade. Aliás, é bom lembrar que todo ser humano tempor natureza o desejo de ver se Deus existe mesmo, de observar onde Ele seencontra ou como Ele vem a nós, ou como podemos nos encontrar com Ele.Mas São Francisco não nos deixou nenhum texto ensinando-nos acontemplar. Clara fez isso. Foi através da contemplação que Santa Clara se encontrou com o CristoEsposo e se transformou nele. Foi um “processo de cristificação”, queprecisamos entender melhor. Para isso, é bom considerarmos cada vez quea santa usou a palavra contemplar. 94
    • Ela fala seis vezes em contemplação, usando sete vezes esse termo.Estão todas nas Cartas dirigidas a Inês de Praga. Vamos ver melhor: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3) feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribulação vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos (Sl 109,3). E seu nome, glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida (Sl 109,3). Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecíveis, e viverá pelos séculos dos séculos” (2CtIn 20-23). Ela já condiciona a contemplação a um desejo de imitar Jesus, de segui-lo. Mas já o trata como um esposo querido e manda considerar o amor queEle demonstrou quando sofreu por nós. E mostra que essa contemplaçãovai trazer uma mudança muito grande à nossa vida, com conseqüênciaspara os tempos sem fim. Nesse trecho, ela fala do que acontece com quem chega à união comJesus. Para ela, aí está a importância da contemplação do Cristo kenótico ede uma transformação trabalhada nele. Como já vimos falando da clausura, esse seguimento de Cristo kenótico= esvaziado a ponto de ser encontrado como um servo – é um elementoimportante para explicar porque Clara e suas Irmãs quiseram ficar em SãoDamião presas, pobremente vestidas, sem nenhum poder e sem nenhumaimportância. O trecho seguinte pode ser considerado o mais importante de SantaClara sobre a contemplação. Aliás, não sei se outra pessoa escreveu algomais claro e positivo sobre o que é contemplar: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade. Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim. Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto (3CtIn 12-17)”. 95
    • Neste texto, aparece uma das maiores originalidades da contemplaçãode Santa Clara: a contemplação transforma, transforma na imagem daDivindade, em um outro Cristo. Quem transforma é Deus, mas contemplaré expor-se à transformação ao olhar de maneira concentrada para Deus (aeternidade, a glória, a substância divina) através de Jesus que põe Deus aonosso alcance sendo um espelho, um esplendor, uma figura da Divindade.É por causa da transformação – afinal das contas, no único Cristo, porquenão há mais do que um – que a contempladora saboreia a doçura escondida.O núcleo do olhar contemplativo de Clara está em se colocar inteira diantede Cristo Esposo até ser transformada nele. É importante observar que acontemplação une ao Esposo, leva ao prazer de partilhar a visão e o amorcom o Esposo. Na quarta carta, Clara tem um texto magnífico – aliás, impossível de sertraduzido na sua riqueza mais profunda. O que traduzimos por “banquete”também poderia ser traduzido por “convivência, partilha de vida”, e o amorapaixonado de Clara nos faz entrever pelo menos um pouco de todo oprazer que ela já tinha provado saboreando a união com o Esposo: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (4CtIn 9-14)”. Neste trecho, aparece outro ponto original da contemplação de SantaClara: é uma contemplação que transborda de gratidão, a gratidão porchegar a ser unida a Deus, que nos encanta, nos apaixona, restaura, sacia,dá vida, justamente em Jesus, que é seu espelho. No texto seguinte, Clara desenvolve o que tinha dito no anterior: Jesus éo espelho. Mas ela se espelha nele, ela pode perceber o que falta para sercomo ele, é arrastada pelas virtudes pessoais de Jesus. E usando umalinguagem própria do Cântico dos Cânticos, mostra como se revestir deCristo, do Homem novo. “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. Pois nesse 96
    • espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça de Deus. Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4CtIn 15-23)”. Ao considerar os momentos mais importantes da vida de Jesus na carne– do presépio até a cruz –, Clara insiste em outro ponto original: suacontemplação é um processo constante, em que a pessoa trabalha comalegria para ser semelhante a Cristo, ou para amar a semelhança que Elerealiza em nós. Na parte final desse mesmo texto, usando apaixonadamente diversasalusões do Cântico dos Cânticos, Clara chega a pedir “o beijo mais feliz detua boca”, aquele que, como ensinou São Bernardo, é o próprio EspíritoSanto passando entre o beijo dela e o beijo de Jesus como o Espírito Santoé o beijo de amor entre o Pai e o Filho: “Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz (Ct 2,6), e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1) (4CtIn 28-32)”. É claro que o importante nem é fazer exercícios de contemplação: éestar unido ao Esposo, é ter descoberto e realizado todas as sedes do nossoser humano. É já ser a esposa que clama com o Espírito, que ela jáincorporou totalmente: “Vem, Senhor Jesus, vem!” Na despedida dessa última carta, ela sublinha o aspecto fundamental daamizade e do amor entre as Irmãs, entre nós todos: nós nos encontramos emprofundidade quando nos perdemos na mesma contemplação, na mesmabusca de Jesus. “Posta nessa contemplação, lembre-se de sua mãe pobrezinha, sabendo que eu gravei sua feliz recordação de maneira indelével no meu coração porque você, para mim, é a mais querida de todas” (4CtIn 33-34). 97
    • Quem se une ao Esposo na contemplação está construindo sua uniãocom todas as demais pessoas. E a contemplação do Esposo se expressa nacapacidade de enxergá-lo nas outras pessoas. E cada pessoa é tanto maisquerida quanto mais for possível encontrá-la unida ao Esposo. Por isso,Francisco e Inês de Praga são os maiores amores de Clara. Características – A contemplação de Santa Clara – na perspectivaesponsal – é de caráter afetivo. Mas, é preciso sublinhar alguns pontos bemespecíficos: a). é dominada pela gratidão. b). segue um processo defidelidade. c). transforma na imagem viva de Deus. d). abre-se para afraternidade e para a Igreja. 9.1. Contemplação dominada pela gratidão Seu Testamento começa: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestC 2-3). E o Benefício que dá sentido a todos os outros é o próprio Jesus Cristo. A gratidão é a admiração sem limites por descobrir-se amada por Deus,por um Deus Esposo, que se dirige a ela de um modo pessoal. Ela quer“pagar” o amor com amor. É a dimensão agradecida da graça. Clara ampliao que Francisco dizia: “Nada de vós retenhais para vós mesmos para que osreceba inteiros aquele que inteiro se entrega a vós” (CtOr 29). Ela tambémescreveu: “ame totalmente aquele que se entregou inteiro por seu amor”(3CtIn 15). 9.2. O processo é de fidelidade crescente. Na segunda Carta, ela escreveu: “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou” (2CtIn 11-14). 98
    • Ela comunica uma experiência vivida na luta pela fidelidade, pois sofreunão poucas vezes obstáculos que poderiam ter ameaçado sua adesão ao queprometera a Cristo Esposo. A segunda Carta foi redigida durante o gene-ralato de Frei Elias, no meio dos problemas por que estava passando a Pri-meira Ordem. Foi dentro disso que Clara observou o processo de fidelidadecom todas as suas conseqüências e riscos, convidando Inês a uma adesãoesponsal diante de qualquer insinuação a sugestão inoportuna: “Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 17-18). Não era uma fidelidade à norma, mas ao seguimento Jesus pobre edesprezível: “Veja como por você Ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo” (2CtIn 19). Pois concluiu, explicitando melhor a contem- plação: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). Essa fidelidade a inflamava: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 27-30). 9.3. contemplação transformante Quando ensinou o que era contemplação, Clara propôs uma verdadeiratransformação da pessoa amante na pessoa amada: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória, ponha o coração na figura da substância divina, e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade” (3CtIn 12). É o olhar atento, deliciado, constante, aberto e disponível para aqueleque é o espelho, o esplendor, a figura e a imagem da Divindade que nosabsorve. Muitos místicos disseram algo semelhante: contemplar o ícone atéser em ícone transformado, como sabemos que foi e é vivido pelos monges 99
    • do Monte Atos, na Grécia, dedicados à confecção de ícones. Eles seembebem nos ícones e se iluminam no Sol de Deus, acabando eles mesmosícones vivos iluminados por essa Luz. Como Francisco, que pediu luz interior ao Crucificado de São Damião,Clara também se tornou luminosa. Seu o olhar de Clara não era exterior oupassivo; era criador porque ela bebia a luz de Deus. Por isso, foi uma vivaexpressão do processo interior que transforma o contemplativo em imagemdaquele a quem contempla com amor. Clara fez de sua vida a busca desse “Santo Graal”: a “doçura escon-dida”, reservada por Cristo para os que o amam. Na quarta carta, no lugarde doçura ela fala em delícia. A contemplação clariana, delicadamenteesponsal, “é um olhar da alma e do coração para o objeto amado, até ficarembebidos por seu próprio amor e “aderindo a Ele com todas as fibras daalma” em que a esposa é passiva sob a ação do Esposo (4CtIn). Tanto o olharamoroso inicial como a experiência receptiva em que culmina, são parasanta Clara simplesmente “contemplação”. 9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja O Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, chamou Santa Clara de “animaecclesiastica, esposa de Cristo” (FormSor 4-5 1990, 239). A contemplaçãoclariana, que leva à transformação esponsal não é uma piedade espiritualque foge do mundo e de seus desafios. Ela evoca a Beleza e o Amor deJesus para todos, tem uma missão eclesial. Na mesma carta em que deu a Inês de Praga o ensinamento fundamentaldo que era contemplação, Clara escreveu este texto notável: “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável” (3CtIn 8). Sua fonte, o Apóstolo, é São Paulo, que também disse que era um“espelho da glória do Senhor”, e que de fato se espelhou em Cristo até sernele também transformado. E também disse que completava e supria o quefaltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversascomunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo (cf Rm 16,3;16,9; 16,21; 1Cor 3,9; 2Cor 8,23; Fp 2,25; 4,3; 1Ts 3,2). Sua contemplação não a afastava da Igreja: levava-a a entrar emcomunhão missionária com todos os “gemidos da humanidade e da Igreja,nos membros que “vacilam e caem”. Numa passagem de seu Testamento, 100
    • falando com as Irmãs, Clara diz outra coisa muito significativa para suavisão de Igreja: “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo” (TestC 19-20). Clara é mãe de suas irmãs como filha da Igreja; sua maternidade éimagem da Mãe Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. Éirmã para todos os crentes, companheira na vocação comum, companheirade viagem e apoio. Assim se indica a idéia da comunidade, da “solida-riedade” e da suplência. É esposa do Senhor e por isso motivo de alegria,sinal irradiante de esperança para a humanidade. 9.5. Uma contemplação iluminada Na contemplação, Clara tem um ponto bem interessante de comunhãocom Francisco: Eles contemplam com os olhos. Ambos falam intensamentede experiências visuais do seu desejo de ver Deus. É nessa linha que vai asua contemplação do Cristo Esposo, porque quem o vê está vendo o Pai quehabita numa altitude inacessível. Para dar o justo valor a esse particular é bom lembrar que os orientaisfalam em contemplação com o uso de todos os sentidos. Já recordamos que as Irmãs viam em Clara uma experiência parecidacom a de Moisés, que “via Deus face a face”. Repetimos os textos maisimportantes: “Era assídua na oração e contemplação. Quando saía da oração, seu rosto parecia mais claro e mais bonito que o sol e suas palavras exalavam uma doçura inenarrável, tanto que sua vida parecia toda celestial” (Irmã Amata de Corozano em ProcC Iv,4). “...quando ela saía da oração as Irmãs se alegravam como se ela estivesse vindo do céu” (Irmã Pacífica de Guelfúcio, em ProcC I,9). Isso nos faz lembrar que São Francisco chamou de belos os Irmãos Sol,Lua e estrelas no seu Cântico de Frei Sol, justamente porque eles sãoluminosos. E nos faz recordar esta importante citação: “Entre todas as criaturas carentes de razão, amava com afeição maior o sol e o fogo. Pois dizia: “De manhã, quando nasce o sol, todas as pessoas deveriam louvar a Deus que o criou para a nossa utilidade, porque é por ele 101
    • que nossos olhos são iluminados de o dia. À tarde, quando anoitece, todas as pessoas deveriam louvar a Deus pelo irmão fogo, pelo qual nossos olhos se iluminam de noite. Pois todos somos como cegos e, por estes nossos dois irmãos, o Senhor ilumina nossos olhos. E assim, devemos louvar o Criador particularmente por essas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias” (EP 119,1-3). É evidente que os “olhos iluminados” dos dois eram os “olhos doespírito” (cf. Adm 1), com os quais eles contemplavam Deus. Por isso, tinhamuma visão diferente de si mesmos, do próximo, das criaturas, do mundo eda história. Como lembra o Evangelho de Lucas: “A lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado. Mas, se ele está doente, o corpo também fica na escuridão. Portanto, veja bem se a luz que está em você não é escuridão” (Lc 1134-35). Chamo a atenção para o fato de que Clara, como Francisco, deve ter tidoexcelentes oportunidades de contemplar famoso ícone do Cristo de SãoDamião. Não podemos afirmar que eles tenham tido um conhecimentoteórico da teologia que está por trás dos ícones: a teologia da luz. Masdevem ter sido influenciados por ela através do ícone. A teologia da luz, também chamada de teologia da beleza representa asantidade de Deus como a Luz. É a luz de Deus que deixa os santosiluminados de santidade. É na contemplação da luminosidade dos santosque iconógrafos contemplam a luz que vão passar para os ícones: os seusquadros. E os fiéis tomam um banho de luz de Deus diante dos ícones. Clara e Francisco contemplativos estão passando para nós a Luz dasantidade de Deus. 102
    • 10. “Mãe de Jesus” Na FORMA DE VIDA que deu às Irmãs em 1212, Francisco chamou-as de“esposas do Espírito Santo”. Como já tivemos oportunidade de ver, essaforma de vida tem um forte paralelo com a ANTÍFONA DE NOSSA SENHORAdo Ofício da Paixão e com a CARTA AOS FIÉIS. Nesses outros dois documentos, o santo mantém o “esposa do EspíritoSanto” que, na Carta aos Fiéis, ele explica: “Somos esposos quando, pelaação do Espírito Santo, une-se a alma fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo”(1CtFi 8). Mas também diz que somos mães: “Somos mães de nosso Senhor Jesus Cristo quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6,20), pelo amor divino e pela consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo. Oh! Como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais desejável do que todas as coisas: Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Dessa forma, entramos em um dos grandes pontos da espiritualidadefranciscana: o grande acontecimento, que é a encarnação de Jesus, continuaa acontecer todos os dias, na Eucaristia e pelo nosso exemplo. Queremos fundamentar este capítulo final de nosso trabalho numacomparação de Clara com a “Esposa do Espírito Santo” do Apocalipse:aquela que é Maria e que é o Povo, pois “desceu do céu como uma noivavestida de sol, coroada de doze estrelas e com a luz embaixo dos pés”. Masela também era a Mãe, porque estava grávida. E com o Espírito Santochegará ao fim da história como o Povo Esposa clamando: “Vem, SenhorJesus! Vem!” 10.1. Clara como a Mãe de Jesus Não é tão importante que ela venha “a ser no céu coroada como aVirgem Maria”, como diz o Cântico de Francisco “Ouvi, pobrezinhas!” Ofato mais importante é que ela se reveste de Cristo, o homem novo, e quevai mostrando como continuar a dar à luz a imagem de Cristo que está emnós e em todas as pessoas, especialmente nos irmãos e irmãs mais pró-ximos. 103
    • Dessa maneira, Clara pode ser vista na tradição das “ammás”, as mãesespirituais do deserto. De fato, foi isso que ela recordou em sua bênção: “E as abençôo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com todas as bênçãos com que o Pai das misericórdias (cf. 2Cor 1,3) abençoou e abençoará seus filhos e filhas no céu (cf. Ef 1,3) e na terra, e com os quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais. Amém” (BSC 11-13). A Legenda de Santa Clara confirma essa visão em dois lugares: “Sigam os homens esses varões, novos discípulos do Verbo encarnado; as mulheres imitem Clara, vestígio da Mãe de Deus e nova guia das mulheres” (LSC, Prólogo). Hoje, a Igreja rebrota feliz com essas flores geradas por Clara (...) (LSC 11). As filhas gratas por sua bondade correspondiam com toda a dedicação. Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, (...) e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade completa (LSC 38). É bastante interessante que Tomás de Celano, o primeiro biógrafo deSão Francisco e autor da Legenda de Santa Clara, que em diversasoportunidades parece ser um misógino, tenha tido uma visão muito positivado papel feminino da mãe, como observou Valéria Fernandes da Silva 17. 17 Celano abre possibilidades interessantes para o estudo dos discursos sobre o feminino na IdadeMédia, ao identificar seu biografado com um papel que é especificamente feminino. Pois se até entãoera comum nos autores eclesiásticos uma supervalorização da virgindade e uma depreciação dasvirtudes femininas, Celano simplesmente irá anular qualquer caráter pejorativo na maternidade em seustextos. Ele irá apresentar um Francisco revestido de uma virtude feminina, a maternidade, que emnenhum momento será dissociada desse aspecto fundamental e estabelecida como desprovida dediretivas de gênero. A maternidade em Celano não é desprovida de gênero, assexuada como a alma para Santo Agostinho.Ao contrário, ela é elogiada naquilo que tem de feminino, que, nesse caso, não seria correspondente àincompletude ou ao mal. Nisso nosso autor irá se aproximar, de certa forma, de Juliana de Norwich,mística e reclusa inglesa, que no século XIV irá associar Jesus Cristo à figura materna, atribuindo-lhequalidades até então tidas como femininas. Ao valorizar a maternidade, estado que estava associado ao pecado e a uma vida no saeculum,valorizando a Maria-Mãe em detrimento da Maria Virgem, um maior número de mulheres puderam sereconhecer nos exemplos dados por Celano. Cumprindo de certa forma seu papel pedagógico, dehagiógrafo, suscitando a piedade, a penitência, a devoção e uma vida norteada pelos princípios da vitavere apostolica. Clara representa não só a mãe das Damas Pobres, como também é filha espiritual de Francisco. Damesma forma, ela seria identificada com a Mãe de Deus, por ser mãe simbólica e por ser virgem, mastambém seria a esposa do Cristo. Ela é mãe, filha, esposa, virgem; a materialização de Maria de acordocom os moldes franciscanos. VALÉRIA F. DA SILVA, A mãe como modelo de espiritualidade: discutindo o papel da maternidadenos escritos de Tomás de Celano, in Hagiografia e História, organizado por Andréia Cristina LopesFrazão da Silva. Rio de Janeiro 2008. 104
    • São Paulo dissera: “Eu... vos gerei em Cristo Jesus (1Cor 4,25). Toda vidacristã, aberta para Deus, manifesta-O e é portadora de vida. Quem faz issoestá na maior união com Cristo e gera outros Cristos. O que São Franciscodiz na Carta aos Fiéis é uma outra maneira de falar dos Esponsais e deEsposo-Esposa: falar de como estamos ajudando os outros a serem outrosCristos e nos tornando nós mesmos outros Cristos. Todo ser humano vindoa este mundo – se souber olhar pela perspectiva do Evangelho – saberá queprecisa fazer nesta vida um Processo de Cristificação. É assim que se une aDeus. Ser mãe de Jesus Cristo é algo parecido com “optar por uma vida deacordo com o Evangelho”. São Francisco usou essa expressão na Forma deVida para Santa Clara, que é idêntica à sua Antífona de Nossa Senhoraonde, no mesmo lugar, ele coloca “Mãe de Jesus”. Em outras palavras,“viver o Evangelho” não é apenas pautar-se por orientações dadas por Jesuse contidas nos quatro livros dos Evangelistas; viver o Evangelho é ser umoutro Cristo, é desenvolver o Cristo de si mesmo e ajudar a nascerem ecrescerem os Cristos que estão em todas as outras pessoas. É por isso queFrancisco e Clara, pessoas sem formalismos e sem rigorismos, têm umaveneração tão profunda pelas suas Regras. Não as viam como estatutos:eram uma forma de ser mães de Jesus e de saber ser filhos. Ser mãe não é apenas gerar, gestar e dar à luz. Tudo isso é estupendo,entretanto, mais importante ainda é saber fazer com que os filhos se sintamtotalmente bem acolhidos. Também é saber acompanhar desde os primeirospassos para que cada um realize em sua vida o que Deus sonhou para ele.Nosso próprio apostolado perde o sentido quando, mesmo anunciando combastante propriedade a Palavra de Deus, esquecemos de ter a melhorcompreensão materna para que o Cristo de cada um possa ser bemacolhido, possa crescer e amadurecer. 10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino Em Maria está “toda a plenitude da graça” (SdVM). Ela é a fonte cons-tante da graça porque sua intimidade única com a Trindade faz dela umafecundidade espiritual permanente. Eva, com Adão, “quis ser como Deus”. Nós somos Adão e Eva que nosperdemos nessa aventura porque rejeitamos Deus. Maria tornou efetivauma dimensão divina que já tínhamos uma vez que fomos criados “à ima- 105
    • gem e semelhança de Deus”, mas que, na prática, estava sem efeito peloafastamento da soberania de Deus. Maria não se tornou deusa. Foram as suas atitudes de ser uma filha re-conhecida do Pai, uma esposa consciente do Espírito Santo e a mãe con-creta de Jesus que lhe deram a dimensão do divino que nos elevou a umavida sobrenatural. Dessa maneira, ela manifestou a ternura de Deus em umaforma humana, permitindo que nela enxergássemos a ação do EspíritoSanto. Para Deus, Maria é o humano. Para nós, Maria é uma visão do divino.Mas nela há um grande intercâmbio entre o divino e o humano. NossaSenhora demonstra como Deus é terno e amoroso. Não muda Deus: mudanossa experiência de Deus. Em geral, costumamos apresentar uma religião longínqua e muito inte-lectualizada. É preciso ter uma fundamentação solidamente doutrinal, masuma comunicação bem fácil, alegre e concreta. Sem fazer antropomorfiasde Deus, temos que ver e demonstrar como nosso Deus, tão teórico edistante para muitos, pode ser humanizado. Precisamos lembrar que aspróprias palavras Javé, Jesus, Emanuel e Paráclito induzem a ver a presençade Deus no humano. Nossa Senhora deu a Jesus Cristo traços, gestos, atitudes, entonação...deu-lhe uma natureza humana verdadeira. É preciso lembrar que NossaSenhora não acolheu apenas a semente do corpo de Jesus. O ConcílioVaticano II ensinou, na Lumen Gentium, que Maria Santíssima recebeu oVerbo de Deus no coração e no corpo (LG 53). E abriu para nós — por obrade Deus, é claro — a possibilidade de continuar humanizando o divino edivinizando o humano. A Lumen Gentium também ensina que Nossa Senhora não foi mãe etambém virgem, mas foi uma Mãe virginal porque sua maternidade divinafoi certamente de ordem física mas, antes de tudo, foi “uma concepção nocoração pela fé” (LG 63). A virgindade no corpo foi apenas um sinal, umsacramento da sua virgindade no coração. Que é isso? O fato de ser só deDeus, sem deixar de ser humana. Aliás, sendo até mais plenamente hu-mana. Quando São Francisco a saúda como “Virgem feita Igreja” mostra-nosque também nós temos essa virgindade na fé, que prestamos ao Esposo.Imitando a Mãe de seu Senhor, pela virtude do Espírito Santo, a Igrejaconserva virginalmente uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma sinceracaridade (LG 64). “Como por ela era piedosamente movido para todas as 106
    • criaturas, especialmente, porém para as almas remidas pelo precioso sanguede Cristo, quando as via manchadas por alguma sujeira de pecado, deplo-rava com tanta ternura de comiseração, que todos os dias dava-as à luzcomo uma mãe em Cristo” (LM 8,3). Nós temos o papel de ajudar as pessoas a serem mais humanas:é assim que Deus vai continuando a se encarnar 10.3. Levar Jesus no coração e no corpo Santa Clara tem algumas preciosas passagens de suas cartas em quetambém ensina como ser mãe de Jesus: “Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina” (3CtIn 17-19). “Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu” (3CtIn 24-26). Levar no coração e no corpo é celebrar o fato de que somos imagem esemelhança, somos palavras originais e filhos adotivos, somos outroscristos. 10.4. Dar à luz pela santa operação Com muita beleza e mestria, Clara usa diversas vezes a imagem bíblicado espelho que, para ela, é Jesus. Ser espelho é uma expressão freqüente naliteratura mística da Idade Média, como podemos encontrar em São Ber-nardo, Guilherme de Saint-Thierry e nas místicas da “Brautmystik”. Nós aencontramos nas Cartas e no Testamento de Santa Clara. As citações são asseguintes: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória” (3CtIn 12).” “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15). 107
    • “Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humil- dade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar. Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio” (4CtIn 18-19). “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem- aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano” (4CtIn 22). “E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa. Assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar” (4CtIn 23-24). “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros” (TestC 19-21). Há uma coincidência em toda esta utilização da simbologia do espelho.Sempre se usa para indicar algo profundo que tem que recorrer a tal sim-bologia para expressar alguma coisa além da realidade em si. Isso se chamasacramentalidade. Cristo, Francisco, as Irmãs... são um sacramento em queClara se espelha ou para quem ela é espelho. Precisamente, em um ex-celente artigo sobre esta questão, Dino Dozzi traçou esta linha de com-preensão do “espelho de Clara” como sacramento de uma presença. DizDozzi que, nos Escritos de Clara, o espelho se refere a realidades diversas,mas sempre se trata de pessoas: Cristo, Francisco, Clara, Inês, as primeirasIrmãs, as Irmãs futuras. Os diversos “espelhos” de que Clara fala estãorelacionados até ser um sacramento, sinal e instrumento do outro, e assimaté chegar ao Espelho por antonomásia que é Cristo. Também se pode sublinhar a reciprocidade da presença que está porbaixo. Este espelho torna Cristo presente para Clara, mas também Clarapara Cristo e para si mesma; torna presente Francisco para Clara, mastambém Clara para Francisco; torna presente Clara para Inês, mas tambémInês para Clara; torna presente Clara para as primeiras irmãs. O espelhocomo sacramento de uma presença cria contemporaneidade, horizontesprofundos, faz de todos, para além de qualquer barreira cronológica, umasó família. Deste modo, quem se ensimesma no Espelho de Cristo Esposo,quem se reflete no espelho fraterno do amigo do Esposo (Francisco),convida Inês e as Irmãs a ser por sua vez “espelhos vivos”, isto é, sacra- 108
    • mentos de outra Presença para elas mesmas, para as Irmãs que virão nofuturo, para todos que puderem aproximar-se do mosteiro. Mas essa sacramentalidade exemplar (speculum et exemplum), não serefere unicamente a uma convivência sadia, bela e amável no recolhidoclaustro damianita. Há uma exemplaridade que se explica pela missãoeclesial que Clara e as Irmãs receberam, e que, portanto, tem uma projeçãoapostólica a partir desse mesmo locus charismaticus. Aqui torna a aparecero paralelismo entre Santa Clara e São Paulo. O apóstolo, que falou em ser“espelho da glória do Senhor”, ele que se espelhou em Cristo até ser neletambém transformado, disse igualmente que completava e supria o quefaltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversascomunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo. Esse é oteor das palavras de Clara a Inês a respeito da intercessão em favor daIgreja: “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar dopróprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável”(3CtIn 8). 10.5. Com Maria na missão da Igreja A contemplação esponsal de Clara e das Irmãs não era uma piedosa fugade todos os dramas em que os membros do Corpo inefável de Deus podemcair. É um binômio entre contemplação esponsal e missão eclesial, que nãosó não se opõem, mas se exigem reciprocamente. “A contemplação estáunida à missão, pois na medida em que se realizou o que é Deus, e seexperimentou até que ponto o fato de conhecer e amar a Deus é constitutivode um humanismo total e de uma existência completa, nessa medida sesofre e fica surpreso de que Deus não seja conhecido e não seja amado”.Por isso podemos afirmar que a delicada, profunda e extensa contemplaçãoesponsal de Clara, permitiu-lhe entrar em comunhão missionária com todosos “gemidos” da humanidade e da Igreja, nos membros que vacilam e caem(cadentium membrorum). Esse ardor missionário de partilhar as dores do Corpo de Cristo, levou-aa curar doenças de Irmãs ou de outros que iam a São Damião comsofrimentos físicos, psíquicos, e mesmo morais. E houve outro testemunhoeclesial muito concreto: quando os “membros que vacilam” não eram osenfermos de males físicos, psíquicos ou morais, mas os próprios pastoresque demonstravam fraqueza diante de sua missão. Era ao testemunho dahierarquia da Igreja que esta mulher, esposa de Cristo, atendia, para 109
    • sustentá-los em sua missão dentro e à frente da Igreja, esposa de Cristotambém. Hugolino nos dá testemunho disso, tanto quando era cardeal, comoquando foi eleito Papa. São dois textos cheios de agradecimento e afetopara com a esposa Clara, em quem se reconhece como irmã e mãe: “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguira do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de tanta devoção e abundancia de lágrimas”. “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo, como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como confiamos vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu, suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para os que foram confiados ao nosso governo”. A relação de afeto do Pastor Supremo da Igreja ficou marcada tambémem uma chave esponsal na carta circular que o cardeal Reinaldo enviounesse mesmo ano de 1228 (datada em 18 de agosto), para comunicar anomeação do novo visitador e assistente das damianitas (precioso docu-mento em que temos um primeiro elenco dos mosteiros das origens cla-rianas): Frei Filipe Longo. Mas no curso da carta, se diz explicitamente oque as Irmãs significavam para o Papa: “Ele fez seu vigário na terra aqueleque era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste dadiminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno econveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanhouniversal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescentesem cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo”. Podemos ver nesse relacionamento entre o Papado e Clara o que oteólogo H.U. Von Baltasar aplicava ao relacionamento a Igreja e Maria: 110
    • “Em Maria a Igreja tomou corpo antes de se organizar em Pedro. A Igreja é primeiro feminina, e esta prioridade é uma constante que subsiste quando recebe seu complemento masculino no ministério eclesiástico [...] E só para que não se esqueça dessa feminilidade primordial, só para que seja sempre receptáculo e não possessiva e dispositiva, incrustou nela o ministério masculino, que representa o Senhor administrador da Igreja, sempre dentro dos limites de sua receptividade feminina”. Neste sentido há uma complementaridade entre Instituição e Carisma,entre Pedro e Maria, entre Gregório IX e Clara. Devemos dizer que SantaClara representou para seu mundo e para sua Igreja esse espelho em que sepodia reconhecer a ternura e a bondade de Deus, precisamente porque elase espelhava no Espelho de Deus, até ser transformada nele. Essa foi à missão clariana a partir de uma contemplação esponsal: apro-ximar ao homem concreto, ao mundo concreto, à Igreja concreta o rosto deum Deus Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras eescuridões que pode haver nos membros desse grande corpo que representaa humanidade e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão comela, Clara foi speculum et exemplum, ícone vivo do que Deus quer de todosseus filhos. Ela mostrou assim uma pequena porção de terra (porciúncula)em que verdadeiramente se vivia como cristão. São Damião tornou-se dessemodo um lar aberto para todos: pobres, enfermos, frades, prelados. Cadaqual em sua medida ou necessidade, encontrou em São Damião a benção ea luz que Deus repartia pelas mãos daquela que foi esposa para Cristo, emãe e irmã para todos os que nele amou. “Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 36-37). Ao finalizar toda esta nossa consideração, é bom recordar um pensa-mento que encontramos ao estudar Orígenes: Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido demodo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boasações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, emque poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o pontoalto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação na-quele a quem amamos. A alma chega à perfeição quando pode cantar com a Esposa. 111
    • Índice1. O “Ponto de partida”........................................................................................................... 1 1.1. Espiritualidade ............................................................................................................ 4 1.2. Esponsais .................................................................................................................... 5 1.3. Linguagem simbólica ................................................................................................. 5 1.4. Sol e Lua..................................................................................................................... 6 1.5. Mística ........................................................................................................................ 7 1.6. A Trindade e o ser humano......................................................................................... 7 1.7. Um cântico de Amor .................................................................................................. 92. Santa Clara e o Cristo Esposo ........................................................................................... 11 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga ..................................................... 11 2.2. Clara Esposa de Cristo.............................................................................................. 13 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo.................................................................................... 173. Francisco, figura do Esposo .............................................................................................. 20 3.1. Francisco, o amigo do Esposo .................................................................................. 20 3.2. Eles viveram uma profunda amizade ........................................................................ 22 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? ........................................................................ 23 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus .............. 24 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. ......................................... 26 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram ......................................................................................................................... 28 3.4. Os Cânticos de São Francisco .................................................................................. 324. Clara e os Místicos do seu tempo ..................................................................................... 34 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara .................................................................. 35 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) ........................................................................ 36 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294)............................................................ 37 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) ................................................................... 38 4.2. Os cistercienses ........................................................................................................ 39 4.2.1. São Bernardo .................................................................................................... 39 4.2.2. Guilherme de Saint-Thierry.............................................................................. 43 4.2.3. Aelredo de Rievaulx ......................................................................................... 445. A Aliança Esponsal nos Santos Padres ............................................................................. 46 5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade................................................................. 47 5.1.1. Três temas na mística origineana ..................................................................... 49 5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União ......................................................... 51 5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”: a progressão para a semelhança divina .. 51 5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua imagem ....................................................................................................................... 546. O Esposo na Aliança Bíblica ............................................................................................ 56 6.1. O Cântico dos Cânticos ............................................................................................ 56 6.1.1. O amor é caminho divino do homem ................................................................ 57 6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum............................................ 57 6.2. A Aliança e os Profetas ............................................................................................ 59 6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo........................................................................... 63 6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo ............................................................................. 63 6.3.2. O amigo do Esposo .......................................................................................... 63 112
    • 6.3.3. A esposa ouve o Esposo ................................................................................... 64 6.3.4. A Igreja, Esposa do Verbo ............................................................................... 65 6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus ......................................................... 677. Clara saiu para estar com Ele............................................................................................ 70 7.1. O “não-lugar” ........................................................................................................... 70 7.2. Uma situação liminar ................................................................................................ 73 7.3. Companhia no “Não-Lugar” ..................................................................................... 74 7.4. Orar no “Não-lugar” ................................................................................................. 75 7.5. O Reino do “Não-Lugar” .......................................................................................... 76 7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus ............................................................ 77 7.7. Algumas considerações ............................................................................................ 778. As Irmãs-Esposas ............................................................................................................. 82 8.1. A vida das clarissas como Irmãs ............................................................................... 84 8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas ..................................................... 84 8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho......................... 86 8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs ......................................... 87 8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas para a Ordem e para a Igreja .............................. 899. Contemplando o Esposo ................................................................................................... 94 9.1. Contemplação dominada pela gratidão ..................................................................... 98 9.2. O processo é de fidelidade crescente. ....................................................................... 98 9.3. contemplação transformante ..................................................................................... 99 9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja ................................................ 100 9.5. Uma contemplação iluminada ................................................................................ 10110. “Mãe de Jesus” ............................................................................................................. 103 10.1. Clara como a Mãe de Jesus................................................................................... 103 10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino ........................................................... 105 10.3. Levar Jesus no coração e no corpo ....................................................................... 107 10.4. Dar à luz pela santa operação ............................................................................... 107 10.5. Com Maria na missão da Igreja ............................................................................ 109 113