1. O “Ponto de partida”    Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortaçãopremente: “Não perca de vist...
Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não éamoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a...
Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que     “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seg...
Para isso, devemos recordar alguns pontos:   Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 emorreu nessa...
Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminhoe ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresent...
A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática ena química, na poesia, na mística. O símbolo era origin...
humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, umcasamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso in...
nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (oPai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírit...
c). Carta aos Fiéis     “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem     essas coisas e nelas per...
A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição.Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós c...
2. Santa Clara e o Cristo Esposo   Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o MovimentoFranciscano foi a man...
“Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração,    porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Je...
minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...”        (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escreve...
Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre issoporque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros...
E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida aviver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se ao...
desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais     eternos” (LSC 6).   Logo depois de sua mor...
...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos,     enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede par...
frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente aodescobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Pa...
vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal comDeus na pessoa de Jesus Cristo.   Proponho algumas re...
3. Francisco, figura do Esposo    Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial:fizeram da amizade um lu...
maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajudados Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento.   ...
seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM).Por este paralelismo com Maria, Clara é para F...
se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelopapa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se à...
Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre aamizade”. Também encontramos páginas interessantes em Sant...
amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mastambém como um dom, um carisma, dado em benefício deles...
muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudoe, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada u...
“Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião,    embora indigna, e verdadeira plantinha do san...
bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer     o bem no Senhor” (TestC 18-22).   Mas tamb...
ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer umaconfusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego p...
que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro.E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez. ...
Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço porchegar a essa terra nunca alcançada, pela qual ...
indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois écomplementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo.   ...
cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação aoEsposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5):    “E porq...
4. Clara e os Místicos do seu tempo    Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe-riência mística de...
fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dosautores espirituais. Místicos e poetas contemplar...
A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensãode Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queri...
os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muitosensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia ...
Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht derGottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete l...
humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Paraisso, todo esforço humano deve estar ao serviço do a...
necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom deDeus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é ...
fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhançaperfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne...
Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. Oamor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito S...
Abrace o-cristo-pobre
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  1. 1. 1. O “Ponto de partida” Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortaçãopremente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11). Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em contaque essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inêssobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para quetivesse propriedades. Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer terpropriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromissode amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papaGregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se oseu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e possodispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meuSenhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza,mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que nãose achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até serencontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2). Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos daespiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguiros passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre? São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Franciscodiz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizerque “Deus é o Amor”. Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada.Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nuncavamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nestaterra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer apessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai eFilho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se darinteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porquehumana – que não sobra nada. Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco eClara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre. Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres.Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos 1
  2. 2. Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não éamoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade. Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o DeusAmor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando oAmor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade,quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras:usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é. Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nosensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres. Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco nãoentendia a obediência como um cumprir ordens, mas como umcorresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Franciscoquiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto maiseles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-semais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus. Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuorelacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta deJesus Cristo. *** Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somossedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em quevivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal –com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar. Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar. Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seuspais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido edistribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como umavirgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês dePraga, que fora agraciada pela mesma vocação. Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos deque para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade eraentendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como seela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro demim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre comouma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido oponto de partida. 2
  3. 3. Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança” (2CtIn 12). A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logoadiante: “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 14,17-18). De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera poucoantes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9). Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua“espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoalcada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo.Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo”(2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5),exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais beloentre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos,desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio dasangústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus,irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é seruma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nasSagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que aprecederam, como vamos ver. “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinhadorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudoaprofundado que queremos fazer. 3
  4. 4. Para isso, devemos recordar alguns pontos: Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 emorreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordemposteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, queesteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas estásendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final doséculo XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneirasucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri-tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre seconheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios.Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidadedo movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis-clariana. Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua-lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais. 1.1. Espiritualidade A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro,vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dosesponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor. Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa-mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele erao Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: narevelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficarconosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma funçãoque tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e oFilho. Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão queoutras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força queperpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” atéquando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au-têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, acarmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va-mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dosesponsais. 4
  5. 5. Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminhoe ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aqueleque disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir osvestígios de Jesus crucificado e pobre”. 1.2. Esponsais Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele-bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a uniãomais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente parafalar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu-manidade e com cada um de nós. Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, játinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em temposmais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como sequisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Nãoé isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa,é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoasconsagradas” no batismo, também nós somos esposos. Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo doPovo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povoe como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. Oimportante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder aDeus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco éde amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foisempre envolvido de afeto e de carinho. A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e detoda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque“Deus vai ser tudo em todos”. 1.3. Linguagem simbólica Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagemsimbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamentoentre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usandolinguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símboloque Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico-demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisseexpressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes. 5
  6. 6. A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática ena química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinalpara reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Porisso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re-solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela nãoconsegue explicar. O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente detodos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seumundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando.Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal.Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o quepensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá paraexpressar: são inefáveis. 1.4. Sol e Lua Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossarelação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. Éhistórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-semuitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério.Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulherem segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão épositiva: dela nasce vida. Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre serhomem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: nãosomos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é paranos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algomasculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram omasculino de Sol, e o feminino de Lua. Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua(palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbriosolar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamentehumana. Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol(palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbriolunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamentehumano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente 6
  7. 7. humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, umcasamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior. O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante dooutro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposiçãopolar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula.São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, masnão podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidadeinteira a partir de seu sexo. Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em umrelacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus. 1.5. Mística Diante do mistério que o transborda, o homem expressa suaincapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidadessecretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar osolhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncioé saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nosmovemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem nãodescobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, ohomem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quandoo mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor ede que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E ofato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumasexplicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamosnos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais queviveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara deAssis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re-lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento.Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai sernada”. 1.6. A Trindade e o ser humano Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem-pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas, 7
  8. 8. nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (oPai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo). O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convitepara se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para otranscendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em todarelação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eternoe infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que aprópria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema decomunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam emDeus, a quem buscam juntos e amam juntos. Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amorentre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação deDeus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vidana perspectiva da espiritualidade dos esponsais. Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamentodesde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Formade Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, istoé, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É umaproposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramosoutros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que elecolocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis. Os textos são os seguintes: a). Forma de Vida “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,3-4). b). Antífona de Nossa Senhora “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu- lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, Amém!” 8
  9. 9. c). Carta aos Fiéis “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50). Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13). *** Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou osdiversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez emquando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos serhumanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar oCristo pobre como uma virgem pobre. 1.7. Um cântico de Amor A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numaintensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico. Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco. Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhefalaram do Cântico dos Cânticos. Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres. Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia. Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo, Vestiu-se de Sol, Coroou-se de estrelas, Apoiou-se na Lua, E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem! Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação. 9
  10. 10. A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição.Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos.Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos paracelebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade. Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa parasempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado. 10
  11. 11. 2. Santa Clara e o Cristo Esposo Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o MovimentoFranciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nosensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar umaperspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que,em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em JesusCristo. Vamos considerar três perspectivas: 1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo. 2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo. 3). Clara celebrou o Cristo Esposo. 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidadedos esponsais 1. Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavrasEsposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões comque ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo. Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês: “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7). Também chama Inês de esposa duas vezes: 1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância daHungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusiveao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros ecortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, quechegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel daHungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que haviaum hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com granderepercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerempessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade. Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre JesusCristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em umavirgindade cada vez maior. 11
  12. 12. “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12). “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24). Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes:A primeira: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20). E a segunda: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). E também chama Inês de esposa de Jesus: “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza” (2CtIn 1-2). Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembradacomo sua esposa: “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se referenecessariamente a Inês: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 30). Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes: “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a 12
  13. 13. minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...” (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17). Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadastreze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposoe esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida queJesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outrasexpressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta: “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7). Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludidoao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possívelcasamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazeruma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas,especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falarde Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento daespiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nessesesponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico,patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade.Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos. 2.2. Clara Esposa de Cristo As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara comoEsposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logode início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clarapensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveramantes que ela entrasse na Ordem: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem” (LSC 5,5-6). 2 Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210. 13
  14. 14. Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre issoporque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentesjá achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava oparticular amor que ela tinha por Jesus Cristo: “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se, desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já pudera provar...” (LgV 5 214). Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logodepois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” emque dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”,como ela recorda em sua Regra: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona doOfício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressõesidênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha eserva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nossoJesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2). O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandouabrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa edecidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nemdemorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, masimediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suascoisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seuEsposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente,com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lheespecialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e ovoto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3). O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial,para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, apertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e porfora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve,filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai,porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2). 14
  15. 15. E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida aviver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejadosabraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4). Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar daMãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santapenitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasseCristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8). Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completadacom solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quandoClara estava no final de sua carreira: “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras... que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado” (LSC 46). O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo ofundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs:“Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável,deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável norodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha ocorpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20). Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe-chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC10). Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amordo Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra,regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre oseu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a quebeijava” (LSC 19). Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo,Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam delauma mestra de espiritualidade: “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa- drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu 15
  16. 16. desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais eternos” (LSC 6). Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião,algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todosos mosteiros das Damianitas: “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial” (CcNm). E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de SãoFrancisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente,o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs deClara, destacando, entre outras, com a maior admiração: “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da vida passada...” (1Cel 19). Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa deCristo, escreveu: “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38). Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tantoque desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa: “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24). “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm). O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsaiscom Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara àesposa do Cântico dos Cânticos 2,5: 16
  17. 17. ...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos, enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs, apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367). Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa: “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial” (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga. 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde sedescobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar umexemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nosmeios de comunicação. Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriuser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável.Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é umarealidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nemuma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável deonde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de quevenha a faltar. Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suasIrmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano.Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deusfeito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desseconhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para elamesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade. Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensarque tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papaGregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que nãoqueria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza erapara ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar naprimeira Carta a Inês de Praga. Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de CristoEsposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveucartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada 17
  18. 18. frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente aodescobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nosmísticos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisõesmuito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinhaescolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com oque ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossoshorizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e defelicidade. A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sidoincapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre JesusCristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos sãonumerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode serplenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14). Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmode um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o CristoEsposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesmadescoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico decelebração. Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe-ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Pragao que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro epé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante ealegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e“abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é,cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8),tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior. Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo comouma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co-mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em 18
  19. 19. vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal comDeus na pessoa de Jesus Cristo. Proponho algumas reflexões: 1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca algumareação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel,mesmo que seja só para o seu uso particular? 2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa deJesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não,você acha que isso não faz falta? Ou está buscando? 3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca algumavontade de cantar? 19
  20. 20. 3. Francisco, figura do Esposo Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial:fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocaçãoúnica e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres-ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos.Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essabusca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa deDeus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com oque o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”. 3.1. Francisco, o amigo do Esposo “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheirosdo noivo na celebração do casamento. O principal deles era quemorganizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio doReino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. NaLegenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus (Cf. LSC 5-6, passim)”. A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo apalavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego esignificava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nosesponsais. Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque semprerejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor daunião com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin-cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, aconhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de 20
  21. 21. maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajudados Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento. Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri-tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceuque Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es-ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade deDeus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra-ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mastambém para crescer nela: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14). Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre asIrmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que elaouviu e haveria de seguir para sempre: “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem- aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou” (TestCl 15-17). E também: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele-mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dosFrades Menores. Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta omistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidadepara chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e servado Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo 21
  22. 22. seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM).Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do EspíritoSanto”. Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco oseu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens doseu Testamento. “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl 6-7). “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”. Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santaPobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”.Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda(plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposadoo Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que oPoverello escreveu na Carta aos Fiéis: Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo (1CtFi 8). 3.2. Eles viveram uma profunda amizade Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender SãoFrancisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhorSanta Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois 22
  23. 23. se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelopapa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas: “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela, imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes Clarianas, págs. 397-398). Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos aimpressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observadoentre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendaspopulares antigas apresentam os dois como namorados. Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain-da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san-tidade. Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre eFrancisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quandonão tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis.Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vidaconsagrada havia diversos anos. João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” deJesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre aamizade espiritual. 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”(Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Ossábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizadecomo algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entreo homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveupáginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e 23
  24. 24. Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre aamizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinhoe em Santo Tomás de Aquino. Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred deRievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, nãomuito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livrossobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegriada vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são aprópria essência do mundo que há de vir. De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiroamor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus dizque seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso éleve está falando do amor fraterno. Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas tambémo remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós aimagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações eadvertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar averdadeira amizade. Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveuantes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas oumais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nashumanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizeracolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que nãoexiste amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal. Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritualsempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada umdescobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e amamelhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi ditopelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler. É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordaçõesde Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual. 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual ecarismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fezeco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a 24
  25. 25. amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mastambém como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e daIgreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temosque falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de umcarisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhãoque não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu paraacolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom docompanheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em queencontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, equal é o nosso último destino. Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriramque estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estavacomeçando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que elesforam vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro epuderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas háoito séculos. Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram queeram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, emque Deus vai ser tudo em todos. A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com umaamizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só aoAltíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que seesvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma-namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar?No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizadeentre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com umcoração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso-lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientesreligiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito decontradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou demenos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra-ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não“contra” eles. Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suasvidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nósuma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor,onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Elesmostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira 25
  26. 26. muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudoe, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outroacreditasse nesse caminho. Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional dapertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus emcontraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração eao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga,a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém,possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meucoração, que pertence totalmente ao Senhor. Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso noscompreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelounão soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentrodele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer quesomos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade comDeus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionadacom o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial. Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizadeum lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é oespelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e noqual descansam eternamente unidos. Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós comolar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas,como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação,que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que aprofundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário. 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo,descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porqueera um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deuscontinuaria a chamar. Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitaçõesque sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. Eescreveu em seu Testamento: 26
  27. 27. “Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39). Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasiãoe que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brechaque a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhorlhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 aaprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e paramulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco,a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textosfundamentais que Francisco lhe dera: A “Forma de Vida”, que já vimos acima: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RgCl 6,3-4). E a sua “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9). E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras: “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou- nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a 27
  28. 28. bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor” (TestC 18-22). Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan-temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor desua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de SantaClara Virgem: “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda... (LSC 45). Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel deFrancisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi-ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento: “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44). Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a suaLegenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”. 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os quefazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessanteobservar que ele não está falando de nossas “penitências” como asentendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá osentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazempenitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazempenitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não obuscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos 28
  29. 29. ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer umaconfusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha osignificado de “agüentar a pena” 3. Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na suabusca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca doSanto Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo.Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para oque Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Elesprecisavam do Esposo. Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saberhumilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do quedesejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suaspretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca ummomento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível quearranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vidaem transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência comtudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmoe se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta noprestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado adescobrir Deus como seu Tudo. Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse: “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa”. Ele diria no fim da vida: “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo” (Test 3). A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho damissão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio doEspírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro,é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Sófaltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto,uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o 3 Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586. 29
  30. 30. que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro.E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez. Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casano domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconheciao que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixalevar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES-tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban-donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terranova, a prometida? Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve umprocesso de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda-deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de umaforma de vida que era uma notável novidade. Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado domovimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, etambém não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o dasbeguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheresreclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço. Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás-tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca-minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vidacontemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintoniacom as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seucarisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dospossíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com avida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lovivendo-o. Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria suavocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es-peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências.Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam abuscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação paraFrancisco. Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham quechegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoandoo que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, quedefine o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fimde todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de 30
  31. 31. Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço porchegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que secomeçou a caminhar. Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem: “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50). É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre emenor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram paraencontrar a concreta vontade de Deus... O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs teremescolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começaa forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito.Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme edelicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüênciade uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Essessão os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessalembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre oEspírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexofundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa deFrancisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus.Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador deDeus em sua vida: Francisco. Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve quediscernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é,na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para osprimeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do quesignifica buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesseitinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara eClara para Francisco serão mediação recíproca. Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “sevia toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão domesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto doPoverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração oanimaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está 4 Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10. 31
  32. 32. indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois écomplementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo. “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di-mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, comotestemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez,sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquantotrabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonhaem realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5. 3.4. Os Cânticos de São Francisco No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da-mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteirode Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecidoCântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó-brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs. Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céucomo a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectosnotáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebraJesus Cristo com Clara: Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: odos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. OSol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ouFrei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs:Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara,sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. Ecada Frate forma um par com uma Sora. Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também seruma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem temnome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor esuportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a“perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outraspalavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria eserão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. Omesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse 5 Chiara Augusta Lainatti 32
  33. 33. cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação aoEsposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5): “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”. 33
  34. 34. 4. Clara e os Místicos do seu tempo Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe-riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto departida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livree crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me-dievais. Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o quedissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos. Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa-cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do gregoμυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É abusca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamadade Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva. Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbogrego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para nãorevelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala-vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecerimpreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada deforça e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas domistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas nãofoge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor ede que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fatode muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumasexplicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamosnos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais queviveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara deAssis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor érelação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda-mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ounão vai ser nada”. Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Forammuitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foimarcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro- 34
  35. 35. fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dosautores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério quesempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. Aterminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova-dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amorrecíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal-conjugal. Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII?Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservadoe estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a serconsiderado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges,ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval. Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzidano Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Osmísticos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân-tico da Bíblia. Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicasmedievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister-cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, namaioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podemajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumasmulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in-fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possívelque Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bonspregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seuProcesso de Canonização. 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”,e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram asprotagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem. Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor deDeus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e osAutores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dosCânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisarreivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pelaarrogância e agressividade de alguns eclesiásticos. 35
  36. 36. A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensãode Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era umcaminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver ede partilhar o que nelas e para elas significava Deus. Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério:uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e oslevou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se dequalquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina(Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva noMistério, usando uma simbologia nupcial 6. A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor edas bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência doDeus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, asatividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens,intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer. A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da línguaà gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha demulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar apalavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momentocultural e religioso de especial importância: a conjunção entre opensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração. Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de SantaClara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentaralgumas personalidades que se destacaram: 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duascorrentes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Háuma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor. É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimentoa amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e deRievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde queesta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve 6 A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER –D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile. 36
  37. 37. os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muitosensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade daamizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo comJesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração. Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara aFrancisco e Clara a Inês de Praga. Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver suaposição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Sevenmanieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta umanarração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá umasíntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis inDeum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne. O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à suaimagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interiordo amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IVcomeça a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau Vtornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam naverdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta uniãoamorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimentodo gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhumainteligência pode compreender. Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede avida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deusverdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestraexperimentada nos problemas mais árduos da teologia mística. A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi-nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida etransformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nasmulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidadeesponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara. 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294) É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerárioespiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por voltade 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos.Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com umprogressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica. 37
  38. 38. Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht derGottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos emduas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro deHelfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano. Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontradomais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igrejaenferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência doclero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura eáspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas setransforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desseseclesiásticos. Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência dafluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seucanto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essasimagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processoespiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da“metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch eMargarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vinculaas quatro. Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios dadivindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vidaíntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a místicavisionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo. 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou aconsagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aospobres e aos enfermos. Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração demulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode tersofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos debeguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada noséculo XX. Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor.Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural emetafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmandotambém que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade 38
  39. 39. humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Paraisso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si eem plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversosaspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino emflamengo e em alemão). Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijchcomo uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor. As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiênciaspara-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbriamaturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor,experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: teracesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele.Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e aalma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela. 4.2. Os cistercienses No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foio herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deuforma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários aoCântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, narelação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova aohomem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da ReformaGregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção àhumanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo issocomo uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva.Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos,principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamosdestacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx. 4.2.1. São Bernardo4.2.1.1. A centralidade do amor Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro detudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com oCriador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é 7 Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar olivro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo, 39
  40. 40. necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom deDeus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor queestá em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo.Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus nohomem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medodo Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus. A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade deJesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação doEspírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu umaautêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidadefrancisclariana.4.2.1.1.2. O processo Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou umprocesso que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatrodegraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo: 1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. 2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça 3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade da alma se amplia. 4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os Esponsais.4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dosCânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontosfundamentais: “O semelhante busca o seu semelhante” Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes aDeus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal sefundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe-Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren,Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. BuenosAires 1981. 40
  41. 41. fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhançaperfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne. A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos-trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri-cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amouprimeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni-dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não ànatureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas comesperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deusacompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. OVerbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem quetrabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni-tude, ao matrimônio espiritual. “O Beijo da tua boca” São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva aomistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1).Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com adoutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação. O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT paraque o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos deMoisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem osde Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dosprofetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo parao qual nascemos. O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus seencarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele. No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessanatureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador.Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem. O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade doVerbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todossouberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab eHerodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade doVerbo na humanidade. Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam aomesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardoapresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos 41
  42. 42. Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. Oamor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do EspíritoSanto é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou eque representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho. A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender comsabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi-dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder aquem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende. Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprousobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é oEspírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação navida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar-nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade. A “Unidade do espírito” Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo tambémlembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito comEle”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência dacomunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a sera pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. Oamor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação napessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-laem um ato de nova criação, de um novo nascimento. “A casa espiritual” No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde-jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são onosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelasatitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todobem. Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegarà união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma-esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus,mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessarelação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu-sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus. 42

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