Justiça e esperança para hoje a mensagem dos profetas meno

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  • 1. 2 Dionísio Pape JUSTIÇA E ESPERANÇA PARA HOJE A Mensagem dos Profetas MenoresPrimeira Edição – 1982Todos os direitos reservados pelaABU EDITORA S.C.Caixa Postal 30.50501.000 – São Paulo - SPA ABU EDITORA é a publicadora daAliança Bíblica Universitária do Brasil – ABUB Digitalizado por Amigo Anônimo www.semeadoresdapalavra.net Nossos e-books são disponibilizados gratuitamente, com a única finalidade de oferecer leitura edificante a todos aqueles que não tem condições econômicas para comprar. Se você é financeiramente privilegiado, então utilize nosso acervo apenas para avaliação, e, se gostar, abençoe autores, editoras e livrarias, adquirindo os livros. SEMEADORES DA PALAVRA e-books evangélicos
  • 2. 3 DEDICAÇÃO À minha mui querida e fiel companheira ELAINE que por 25 anos a meu lado tem interpretado a meiguice do amor de Cristo, não somente por mim, mas para todos os que o Senhor tem mandado ao nosso lar feliz.Conteúdo1. O Profeta de Coração Quebrantado.............................................................................................................................. 5 OSÉIAS..................................................................................................................................................................................... 52. A MENSAGEM DA SECA.................................................................................................................................................. 10 JOEL........................................................................................................................................................................................ 103. O VAQUEIRO PROFETA.................................................................................................................................................. 16 AMÓS...................................................................................................................................................................................... 164. O SENHOR DA SEARA...................................................................................................................................................... 25 JONAS..................................................................................................................................................................................... 255. JUSTIÇA E ESPERANÇA................................................................................................................................................... 30 MIQUÉIAS............................................................................................................................................................................. 306. CONTRA O TOTALITARISMO MILITAR.................................................................................................................... 35 NAUM..................................................................................................................................................................................... 357. O AGENTE PUBLICITÁRIO DO SENHOR................................................................................................................... 37 HABACUQUE....................................................................................................................................................................... 378. TEMPO DE APOSTASIA................................................................................................................................................... 44 SOFONIAS............................................................................................................................................................................. 449. O PROFETA NUM MUNDO RACISTA.......................................................................................................................... 47 OBADIAS............................................................................................................................................................................... 4710. O PROFETA PRÓ-CONSTRUCÃO DO TEMPLO.................................................................................................... 49 AGEU...................................................................................................................................................................................... 4911. O PROFETA IDEALISTA............................................................................................................................................... 52 ZACARIAS............................................................................................................................................................................. 5212. O ÚLTIMO PORTA-VOZ DO MESSIAS...................................................................................................................... 58 MALAQUIAS........................................................................................................................................................................ 58
  • 3. 4INTRODUÇÃO O observador mais superficial do conteúdo da Bíblia verificará que quase 80% do livro sacroé o Velho Testamento. Se a Bíblia toda é realmente a palavra de Deus aos homens, torna-se patenteque o Velho Testamento merece muito mais atenção do que normalmente recebe. Em todos ospaíses, inclusive no Brasil, o povo de Deus precisa redescobrir a significação e a atualidade do VelhoTestamento. É verdade que a escola dominical oferece certo ensino nesta área, mas se limitageralmente ao conhecimento dos dados históricos. A interpretação desses dados é o trabalho doexegeta. Acontece, porém, que a maioria dos sermões oferecidos ao povo de Deus se baseia, quaseexclusivamente, no Novo Testamento. Os Salmos gozam de grande popularidade e representamtalvez a leitura mais conhecida do Velho Testamento. A parte mais negligenciada parece ser osprofetas menores, e por esta razão o autor preparou estudos bíblicos baseados neles, que foramapresentados aos estudantes da ABU e da ABS. O interesse suscitado no meio estudantil levou oautor a preparar, em forma permanente, este livrinho para o público maior. O conhecimento das condições sócio-econômicas, políticas e religiosas da época dos profetasé indispensável à compreensão da mensagem profética. Quando as referidas condições seassemelham às nossas, não obstante a passagem dos séculos, então os profetas de ontem falam hoje,e o Velho Testamento se atualiza de uma maneira notável e também proveitosa. Neste opúsculo segue-se quase sem mudança a ordem dos livros dos profetas menoresadotada na Bíblia. Desde o século VIII a.C. até o século V a.C., os profetas menores exerceram um ministériodirigido ao povo de Deus, no período das maiores crises. Cinco deles profetizaram antes da queda deSamaria em 722 a.C., quando a nação ao norte, Israel, foi levada para o exílio na Assíria. Nestemesmo período antes do exílio de Israel na Assíria, Deus levantou Isaías, o mais sublime de todos osprofetas. Depois da queda de Samaria, o profeta Naum predisse a destruição de Nínive, capital daAssíria, o que se cumpriu em 612 a.C. A pequena nação ao sul, Judá, não aprendeu a lição de Israel, por razões semelhantes, elaseria invadida e destruída pelos babilônicos cerca de 140 anos depois. Pelo fato de ser custódia dosagrado templo do Senhor, Judá achava absolutamente inacreditável a profecia ameaçadora daqueda de Jerusalém. Jeremias, o profeta chorão, apoiado pelos dois profetas menores, Habacuque eSofonias, advertiu debalde o povo de Deus, e em 587 a.C. Jerusalém e o templo foram arrasados. No período de 70 anos de exílio na Babilônia que se seguiu, Daniel e Ezequiel, profetasmaiores, foram os principais porta-vozes do Senhor. O livrinho de Obadias tem o seu lugar nocomeço desse período exílico, e por conseguinte o capítulo dedicado neste livro à sua profecia écolocado depois de Sofonias, e não no lugar tradicional entre Amós e Jonas. Os três últimos profetas menores, Ageu, Zacarias e Malaquias, pertencem ao período pós-exílico, isto é, após o ano 538 a.C., em que Ciro permitiu a volta dos judeus para a terra dapromissão. Neste período os três profetas prepararam o povo para a realização da maior de todas aspromessas divinas, a vinda do Messias. Em certos casos é difícil estabelecer uma data segura para a composição de uma profecia. Oslivros de Joel, de Jonas e de Naum são exemplos disso. Sendo a evidência cronológica interna àsvezes inadequada, os eruditos adotam datas variadas baseadas no estilo utilizado e emconsiderações críticas. Embora sendo um assunto altamente relevante, a questão da data nãodiminui a significação espiritual e moral do recado profético. Para fins deste estudo, o autor adotouas datas conservadoras. No cânon hebraico do Velho Testamento, os doze profetas menores formam um livro, oucoleção de escritos sacros denominada “Os Doze”. Na versão grega da Septuaginta, a mesmacoletânea tem como título “Os Doze Profetas”. Nos séculos que precedem o nascimento de JesusCristo, os judeus piedosos se alimentavam das gloriosas promessas messiânicas contidas no livro“Os Doze”. Assim o Velho Testamento termina com “Os Doze” e sua refulgente esperança nummessias todo-poderoso. É altamente sugestivo que, após o longo silêncio do período
  • 4. 5intertestamentário, o Novo Testamento se abre com Jesus Cristo e a escolha dos doze apóstoloscomo pregoeiros da boa nova da Salvação. Esta relação histórica, entre as promessas dos Doze nofim do Velho Testamento, e a sua realização através da missão dos Doze no início do NovoTestamento, deve despertar no povo de Deus o afã de conhecer mais profundamente os escritosinspirados dos doze profetas menores, que ainda nos falam hoje. E então a palavra dos profetasmenores será uma mensagem de justiça e esperança para hoje, para o homem deste final de séculoXX. ESQUEMA CRONOLÓGICO APROXIMADOOs 4 Profetas Os 12 Profetas AcontecimentosMaiores Menores Políticos DOMINAÇÃO DA ASSÍRIA Oséias Queda de Samaria, 722 a.C. Joel Exílio de Israel na Assíria Amós Queda de Nínive, 612 a.C.JEREMIAS Jonas Fim do Império Assírio Miquéias Naum DOMINAÇÃO DA BABILÔNIA Habacuque Queda de Jerusalém, 587 a.C.JEREMIAS Sofonias EXÍLIO DE JUDÁEZEQUIEL Obadias Na Babilônia durante 70 anosDANIEL Queda da Babilônia, 539 a.C. DOMINAÇÃO DA PÉRSIA Ageu O rei persa Ciro toma a Babilônia, e em 538 Zacarias a.C. autoriza a volta do exílio. Restauração do Malaquias templo, 517 a.C. Espera do Messias, 450 a.C. 1. O PROFETA DE CORAÇÃO QUEBRANTADO OSÉIAS Os períodos de grande prosperidade são geralmente acompanhados de declínio moral. Era ocaso do reinado de Jeroboão II, rei de Israel, uns 800 anos antes de Cristo. O país experimentava umdesenvolvimento econômico como nunca antes, desde o tempo de Salomão. Foram construídasmuitas casas de veraneio iguais às melhores residências urbanas. Produtos estrangeiros encheram omercado. A vida luxuosa tornou-se a obsessão dos israelitas. Acontecia, porém que apenas umaminoria tinha acesso à vida boa e burguesa. A maioria esmagadora lutava para sobreviver. Umsalário mínimo irrisório condenava o povo trabalhador a uma vida de verdadeira escravidãoeconômica. A religião era popular. Cultos cheios e impressionantes. No entanto, a ênfase bíblica eracoisa do passado. A linha mais tolerante do sincretismo dominava o pensamento dos líderesreligiosos. Toda religião era boa. Era popular falar na fé no Senhor, e, ao mesmo tempo, dos valorescomuns a todas as crenças, sem julgar-se nenhuma como sendo errada. Sem uma insistência nos absolutos bíblicos, o povo não achava tanta necessidade deinterpretar os dez mandamentos como imprescindíveis. O sétimo mandamento, em particular, eraconsiderado um bonito ideal, mas afinal de contas não tão praticável em tempos modernos...
  • 5. 6 Naqueles dias o pastor Oséias sentiu na carne o impacto da nova sociedade. Casado com abela Gomer, viveu o drama da surpreendente infidelidade da mulher. Para qualquer homem da féisso seria um abalo angustioso, mas para um pregador da Palavra de Deus foi o mais profundosofrimento imaginável. Oséias tentava conciliar a sua fé num Deus bondoso com a realidade da suacrise doméstica. Como entender a vontade de Deus, face ao desmoronamento do lar pastoral? Alguns comentaristas consideram os primeiros versículos do livro de Oséias como sendouma reflexão madura, posterior à tragédia, anos depois do acontecimento. “Vai, toma uma mulherde prostituições...” (v.12). destarte, Oséias chegou a entender que o soberano Deus sabia de antemãoque Gomer seria infiel. Deus conhece o fim desde o princípio. Sabia que Gomer lhe seria infiel.Permitiu a vasta tragédia na vida de Oséias para que ele compreendesse o profundo pesar nocoração divino: “porque a terra se prostituiu, desviando-se do Senhor” (1.2). este Deus é Senhor detodas as circunstâncias, inclusive das que parecem ser totalmente contra a sua vontade. Oséias sesubmeteu à realidade nua e crua das circunstâncias, para aprender que “todas as coisas contribuempara o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28). O profeta do Senhor é sempre a sua mensagem. Proclama a mensagem verbalmente, mastambém a vive na carne. Nas entrelinhas do primeiro capítulo vemos como Oséias vivia diariamentea mensagem do Senhor. Nasceram-lhe três filhos aos quais ele deus os nomes mais esquisitos dadosnuma família de pastor! Ao primeiro ele deu o nome de Jezreel, cidade famosa por uma atrocidadenela praticada. Seria como se um pastor moderno chamasse seu filho de “Belsen” ou “Hiroshima”.Foi por ordem divina que o pastor Oséias colocou esse repugnante nome no seu primogênito.Imaginemos o triste pastor Oséias, sem mulher em casa, andando com o pequeno Jezreel, e oconstante diálogo na rua: — “Pastor Oséias, diga-me uma coisa: por que é que o seu filho tem este nome?” — “Meu irmão”, responderia Oséias, “porque Israel será também destruída da mesmamaneira como a casa de Acabe em Jezreel!” Quando nasceu uma filhinha, Oséias deu-lhe o nome de Desfavorecida (1.6). Coitada, comoiria sofrer mais tarde na mesma roda com as meninas Graça, Linda e Piedade... Imaginemos maisuma vez o diálogo perto da casa pastoral: — “Pastor, que linda menina o senhor tem! Por que o senhor lhe deu um nome que nãomerece, este de Desfavorecida?” — “Meu irmão”, diria o Pastor Oséias, “ela é filha de uma nação que não receberá mais ofavor perante o Senhor!” Oséias ficou profundamente abalado com a terceira gravidez de sua mulher, Gomer. Sabiabem que não era criança dele. Depois do parto, Oséias deixou seus amigos boquiabertos quando deua esse último filho o nome de Não-meu-povo. Imaginemos a conversa repetida inúmeras vezes entreOséias e seus paroquianos: — “Pastor Oséias! Como se chama o nenê?” — “Chama-se Não-meu-povo, irmão”. — “Desculpe, pastor, mas o Senhor está falando sério?” — “Sim, irmão, sei que este não é meu. É de outro, infelizmente. Coitado dele. Não é meu,como este povo não é mais povo de Deus. Pense nisto, irmão, que nosso Deus declara a todos: vósnão sois meu povo, nem eu serei vosso Deus” (1.9). E por onde Oséias andasse, todo o mundo estranhava os nomes feios das suas crianças. Oprofeta e seus filhos eram literalmente a mensagem de Deus àquele povo superficial que tratava aPalavra de Deus levianissimamente. Anunciava-se o julgamento através da agonia doméstica deOséias. Mas Deus é misericordioso. O profeta vê além do juízo, até o dia feliz da restauração, quandoIsrael será chamado “Meu Povo” e “Favorecido” pelo Deus que o chamara (2.1). Notamos nas pregações de Oséias a analogia entre a sua mulher infiel e a nação de Israel.Gomer foi seduzida pelas atrações do mundo, e pelos artigos de luxo obtidos com os seus favoressexuais (2.5). Quando ela não achou mais fregueses, resolveu voltar-se para o marido “porquemelhor me ia então do que agora” (2.7). Como ela, Israel foi orientada exclusivamente pelos
  • 6. 7interesses materiais, em prejuízo da vida espiritual. Os sacrifícios oferecidos pelos israelitas no cultoa Baal eram realmente atos de adultério espiritual contra o Senhor (2.8). Deus sempre queria queIsrael fosse como esposa fiel para Si. O profeta Oséias não cessava de chamar o seu povo a reatarrelações com o Senhor. “Desposar-te-ei comigo em fidelidade” diz o Senhor (2.20). “Desposar-te-eicomigo em justiça e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias” (2.19). A palavra“misericórdias” traduz o hebraico chesed, que significa o amor constante e leal. Na atitude de Oséiaspara com Gomer vemos até que ponto o amor constante do Senhor pode-se reproduzir no homem. A vergonhosa infidelidade de Gomer não tinha limites. Seguindo a vida boêmia ela sofreunecessidades, a ponto de se vender como escrava-concubina (3.2). O amor leal e o perdão ilimitadode Oséias foram tamanhos que ele a comprou do seu senhor. Este amor redentor a levou novamentepara a casa do profeta,onde ela foi obrigada a ficar, mas sem gozar de todos os privilégios de mulher.Sem dúvida a vizinhança cochichava o fato de que os dois não dormiam no mesmo quarto. Issotambém fazia parte da mensagem divina! Pela sua infidelidade, Gomer não vivia propriamente comoesposa, mas como encarregada dos assuntos domésticos. Semelhantemente,Israel infiel iria perderos seus privilégios no exílio. Não haveria mais rei, nem família real, nem religião, nem culto (3.4).Somente “nos últimos dias” os filhos de Israel se aproximariam do Senhor (3.5). A perfeitacomunhão com o Senhor é o alvo de toda a obra da redenção. “Permanecei em mim, e eupermanecerei em vós”, prometeu o Senhor Jesus (João 15.4). Nos capítulos 4 a 8 da profecia, Oséias revela até que ponto Israel se tinha corrompido morale espiritualmente. Não havia nem verdade, nem amor leal (chesed), nem conhecimento de Deus(5.1). Quando o povo se separa de Deus, as conseqüências morais são inevitáveis: “o que sóprevalece é perjurar, mentir, matar, furtar, e adulterar” (4.2). Para obter-se o máximo lucro, ohomem pecador arruína a própria natureza. O desequilíbrio ecológico segue a exploração egoísta daterra. “Por isso a terra está de luto, e todo que mora nela desfalece, com os animais do campo e comas aves do céu; e até os peixes do mar perecem” (4.3). Há uma relação direta entre o conhecimentoda Palavra de Deus a responsabilidade sócio-econômica em qualquer país. Israel se gabava dasuntuosidade dos cultos religiosos, mas o seu coração estava vazio do amor leal, e corrompido pelodestemor da justiça. A religião divorciada da moral se define biblicamente como prostituição espiritual (5.4).Deus não permite que o seu povo se aproxime dele naquele estado. Por mais incrível que parecesseaos israelitas, Oséias lhes advertiu do castigo divino, em que o Senhor os despedaçaria como umleão. Longe de os proteger, Deus os destruiria (5.14). Em todas as épocas o povo de Deus nuncaentende que Deus trata o seu povo com mais severidade e não com menos. Em resposta à pregação de Oséias, alguns professaram a conversão (6.1). Mas oarrependimento de Israel era tão passageiro como a nuvem da manhã, ou como o orvalho damadrugada (6.4). É bem fácil dizer: “Tornemos para o Senhor. Depois de dois dias ele nosrevigorará”. O mal dentro da sociedade estava tão arraigado na prática da exploração econômica, naimoralidade, e na avidez de riquezas luxuosas, que tais profissões de conversão eram vazias.Olhando para os imponentes sacrifícios e os solenes cultos litúrgicos sema pregação da Lei doSenhor, Oséias não pôde se conter, e bradou o recado divino: “Pois misericórdia (chesed) quero, e não sacrifício! e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.” (6.6) Israel observava a sua religião, mas onde estava o amor leal? Oferecia abundantessacrifícios, mas onde o conhecimento de Deus? Este versículo traduz fielmente a mensagem centraldo profeta. Ele contemplava a dicotomia na vida do seu povo. Muita religiosidade e muitaimoralidade; muita profissão de fé, e muita corrupção; como óleo e água não se misturam. Oséiasconsidera Israel como um pão não virado no forno: de um lado queimado pelas suas paixões, e dooutro massa mole que não resiste ao tato, portanto completamente imprestável (7.8). Deus chama oseu povo a uma vida íntegra. Não agrada a Deus a nossa proclamação da salvação pela fé se não há acorrespondente transparência de vida moral e social. O hipócrita engana a si mesmo. “As cãs se
  • 7. 8espalham sobre ele, e ele não o sabe” (7.9). Todo o mundo percebe a sua incoerência, menos ele. A religião não salva. O Deus cultuado por Israel mandou embocar a trombeta do juízo (8.1).Deus viria como a águia contra a casa do Senhor. Aqui, “águia” bem pode ser traduzido por “urubu”que se alimenta de animais mortos. Deus os chamava, pois Israel estava para morrer! Houve também várias facetas da apostasia de Israel. Israel rejeitou o bem (8.3). Israelabandonou os absolutos da lei do Senhor. O que era errado no tempo de Moisés, também o era noperíodo de Oséias, e também o é hoje. A “ética da situação” em voga nestas últimas décadas doséculo XX representa uma tentativa filosófica de fugir da exigência moral duma lei irredutível. ComoIsrael, a nossa sociedade quer uma religião acomodatícia, que não imponha restrições à vida social,econômica ou sexual. Os israelitas eram “crentes de fim-de-semana”; eram fervorosos para comoSenhor no sábado, mas nos outros dias da semana eram opressores dos pobres, gananciosos edesenfreados nos desejos sensuais. A dinastia real em Israel, que levou a nação para o mal, não era a descendência de Davi, aquem Deus tinha prometido o trono em perpetuidade (1Cr 17.12). Quando, depois da morte deSalomão, o reino se dividiu, dez tribos tomaram como rei a Jeroboão, chefe dos engenheirosresponsáveis pela obra de terraplanagem de Jerusalém (1Reis 11.27). Jeroboão I não era, portanto,rei da parte do Senhor. Agora, duzentos anos mais tarde, no reinado de Jeroboão II, Oséias apontapara a grave irregularidade na direção do país. “Estabeleceram reis, mas não da minha parte” (8.4).Toda aquela dinastia tinha usurpado o poder. A religião em Israel protestava fé no Senhor Javé, mas não obedecia à Palavra do Senhor!“Não farás para ti imagem de escultura” (Ex 20.4) reza a lei. No entanto, em Samaria cultuava-se aimagem de um bezerro. Ao mesmo tempo em que o povo invocava o Senhor, dizendo: “Nosso Deus”Nós, Israel, te conhecemos”, Deus respondia através do profeta Oséias, dizendo: “O teu bezerro, óSamaria, é rejeitado; a minha ira se acende contra eles!” (8.5). Manifesta-se no cristianismo doséculo XX o mesmo tipo de religião. Fala-se em nome do Senhor. Celebram-se cultos e missassolenes. Dominam a atenção da multidão as imagens dos santos. Como disse Oséias: “Da sua prata edo seu ouro fizeram ídolos para si, para serem destruídos” (8.4). A veneração concedida às belasimagens incrustradas de pedras preciosas é tida como mais importante que a Palavra de Deus. Osegundo mandamento é claro. E inúmeras vezes na Bíblia Deus reitera a proibição de imagens noculto. Mais uma vez o Senhor falou pela boca do seu servo: “Embora eu lhe escreva a minha lei emdez mil preceitos, estes seriam tidos como cousa estranha” (8.12). Oséias, de coração quebrantado por causa de Gômer, chegou a entender o sofrimento divinoocasionado pela apostasia de Israel. Outrossim, a infidelidade de Gômer não era apenas um lapso.Repetidas vezes ela traiu os votos matrimoniais. E o profeta contemplava o triste fato de que ainfidelidade de Israel para com Deus não era um desvio temporário. A história de Israel está repletade graves infrações contra a lei do Senhor. Logo de início na sua história idólatra, Israel fabricou obezerro de ouro, no deserto. E antes de chegar na terra da promissão, na aldeia de Baal Peor, osprimeiros israelitas, salvos pela graça de Deus. namoraram as belas moabitas, e abandonaramincontinente a lei recém-recebida. Sob o efeito dessa sedução inesperada, "se consagraram àvergonhosa idolatria" (9.10). A idolatria e a imoralidade são gêmeas. "E se tornaram abomináveiscomo aquilo que amaram" (9.10). O culto anti-bíblico os arrastou facilmente para as orgias e asbacanais. A festa do boi custou cara. O duplo deslize,espiritual e moral, foi julgado, e morreram vinte equatro mil israelitas (Números 25). Deus nos chama ao amor leal (chesed): à fidelidade absoluta à Palavra de Deus, não somentena observação religiosa do culto evangélico, mas também na mais casta prática do amor no lar.Quem quebra uma aliança, facilmente abandona a outra. No ocaso do reino de Israel, Oséias advertiu o povo das conseqüências de talcomportamento: "O meu Deus os rejeitará, porque não o ouvem; e andarão errantes entre asnações" (9.17). Poucos anos depois, em 722 a.C, realizou-se o inesperado desastre. Por não terprestado atenção à advertência, a nação deixou de existir. O judeu errante data daquele
  • 8. 9acontecimento fatídico. E passaria muitos séculos peregrinando, sem pátria, sem identidadenacional e sem a bênção do Senhor, cuja voz ele recusara tantas e tantas vezes. Por que é que os homens não mudam de direção? Por que marcham em linha reta para adestruição? "Porque o seu coração é falso; por isso serão culpados" (10.2). O coração do homemdetermina a sua conduta. Quartas vezes ocorre que alguém conhecedor da Palavra de Deus, sendotentado a cometer o adultério, não consegue resistir á tentação, porque o coração é falso! "Sobretudo o que se deve guardar, guarda o teu coração" (Provérbios 4.23). De Deus não se zomba. A liçãode Israel é esta: o que semeia para a sua própria carne, da carne colherá corrupção. Tanto os líderescomo o povo iriam sofrer as conseqüências da desobediência à Palavra sagrada. E o rei de Samaria,tão seguro na sua prosperidade fabulosa, seria dentro em breve "como lasca de madeira, nasuperfície das águas" (10.7). Deus é amor. O seu amor não tem condição nem limite. Ele ama o seu povo apesar de toda arebeldia, de toda a idolatria e de toda a imoralidade. O seu amor é chesed, amor imutável. Quandocastiga, é por puro amor que o faz. Deus sente saudades do primeiro amor do seu povo. "QuandoIsrael era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho" (11.1). Israel era como criança que eletomava nos braços. Como menino travesso, a jovem nação não queria obedecer-lhe. Recusou-se aconverter-se (11.5). Deus não hesitou em disciplinar o seu povo, porque "o Senhor corrige a quemama, e açoita a todo filho a quem recebe" (Hebreus 12.6). Deus é diferente dos pais que nuncadisciplinam os seus filhos. Quem não disciplina o seu filho, não o ama. Oséias, que tanto sofreu nolar, entendeu o coração de Deus quando descreveu o amor divino nestes termos: "Meu coração estácomovido dentro de mim, as minhas compaixões a uma se acendem" (11.8). Ainda que o castigoviesse com certeza. Deus não destruiria totalmente o seu povo, "Eu os remirei do inferno e osresgatarei da morte; onde estão ó morte as tuas pragas? Onde está, ó inferno, a tua destruição?"(13.14). O propósito de Deus permanece firme. É imprescindível que Deus castigue o mal. Noentanto não seria o fim total de Israel. De outra maneira seria o Diabo e não Deus que ganharia estaguerra espiritual de proporções cósmicas. O fim da história da raça humana e de Israel estáassegurado, porque Deus é soberano. Oséias conseguiu reconstituir o seu lar com Gômer e seus três filhos. Tamanho amortriunfou. E o amor divino, chesed, triunfará também. Oséias, o vidente de coração perdoador, previua restauração final de Israel num belíssimo trecho que remata a sua obra. Concitou o povo de Deus auma genuína conversão. "Tende convosco palavras de arrependimento, e convertei-vos ao Senhor"(14.2). Num sentido, o crente no Senhor deve arrepender-se e converter-se ao Senhorconstantemente, e não apenas uma vez na hora da entrega inicial. Quase todos os apelos à conversãona Bíblia são lançados aos que professam fé no Senhor! Quando o povo de Deus se converteconstantemente ao Senhor, então o mundo começa a arrepender-se. O arrependimento do povo de Deus é o segredo de todo reavivamento espiritual. "Curarei asua infidelidade, eu de mim mesmo os amarei, porque a minha ira se apartou deles" (14.4). Asegurança nacional de Israel de pendia não duma aliança política com a mais poderosa nação deentão, a Assíria (14.3), mas da sua relação com Deus. Os rios de bênçãos começam a jorrar quando opovo de Deus julga o seu próprio pecado! Uma vez arrependido e perdoado, Israel se tornaria umatestemunha eficaz no mundo. "Serei para Israel como orvalho" (14.5). O Deus que cada dia unge bilhões de folhas epétalas com pérolas de orvalho é o mesmo que visita, pelo Espírito Santo, todos os seus filhosespalhados nos cinco continentes! Para a sobrevivência das plantas, Deus repete fielmente, e emtodo lugar, o pequeno milagre, mandando a cada folhinha o precioso líquido sustentador. Quantomais Deus deseja tocar com vida nova cada um de seus filhos na terra! Feliz o crente em Cristo quejá aprendeu este princípio de sobrevivência espiritual, e que busca no frescor da alvorada a unçãodo Espírito, cada dia. Realiza-se a conversão diária do crente à vontade de Deus, quando novamentese entrega ao Senhor, reafirmando os votos de consagração absoluta Àquele que o comprou com oseu sangue. As plantas em terra ressecada, alimentadas pelo orvalho vitalizador, brotam, criambotões e exalam a sua fragrância. Flores perfumadas no sertão! Eis o quadro pintado pela pena
  • 9. 10do vidente, para descrever a vida realmente entregue ao Espírito do Senhor. "Serei para Israel comoorvalho, ele florescerá como o lírio, e lançará as suas raízes como o cedro do Líbano. Estender-se-ãoos seus ramos" (14.5, 6). A vida arraigada na Palavra de Deus, irrigada pela graça divina, eungida pelo orvalho sacro do Espírito, estende os seus ramos, oferecendo ao viajor a sombrarefrescante no sertão causticante. "Os que se assentam de novo à sua sombra voltarão" (14.7). Apessoa cheia do Espírito se torna um ímã para os que procuram a vida verdadeira, e não precisabuscar contatos com os outros. Os famintos do espírito reconhecem intuitivamente a autênticaespiritualidade dos que recebem diariamente o orvalho do Espírito. O contato com o homemespiritual se torna frutífero. "Serão vivificados, e florescerão como a vide" (14.7). Nós, o povo doSenhor, cantamos "quero ser um vaso de bênção". Este desejo tão louvável se realizará através doEspírito Santo, a água viva oferecida por Jesus. "A água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrarpara a vida eterna" (João 4.14). Oséias nunca viu o cumprimento da sua profecia final, mas pela fé aceitou que um dia oSenhor triunfaria na vida de Israel. Deus lhe tinha dado a vitória no seu lar, pelo triunfo do amorinabalável. Gomer estava de volta ao lar. Os filhos não levavam mais os nomes feios. Foramtransformados em nomes abençoados. A família estava unida novamente. Com toda serenidade,Oséias aguardava o desenrolar do drama de Israel, com a certeza de que um dia Deus restauraria oseu povo. O profeta de coração quebrantado chegou a aprender que o coração do Senhor é tambémassim. 2. A MENSAGEM DA SECA JOEL Joel morava na santa terra de Israel, terra da promissão, terra que mana leite e mel. Tudoindicava que Deus queria colocar naquela parcela de terra privilegiada uma variedade exuberantede frutas, de cereais e de legumes. Em toda a superfície do mundo seria difícil descobrir uma região,tão pequena como a de Israel, em que houvesse tanta diversidade climática. Eram cultivadas frutastropicais na região do vale do Jordão, enquanto todo o litoral gozava de um clima mediterrâneoideal que favorecia o cultivo altamente lucrativo da laranja, do pomelo e de outras frutas. Mais aonorte, perto da Galiléia, o vale de Esdraelom produzia uma abundância farta de cereais ecomestíveis de toda espécie para as feiras das cidades. Como crente em Javé, Joel atribuía sempre ao Senhor esta riqueza maravilhosa. Por ser aterra do Senhor, era natural esperar que ela produzisse como nenhuma outra. A bênção de Deusdeveria cair sobre a terra banhada tanto de suor israelita como de preces piedosas. Joel percebia a relação íntima entre a vida espiritual e a prosperidade material em Israel. Éverdade que nem sempre é assim, como a história do justo patriarca Jó e seus sofrimentos nosensina, mas, em geral, quem serve ao Senhor fielmente prospera materialmente. Joel sabia que ahistória do seu povo exemplificava o princípio, uma história que concorda com o ensinofundamental enunciado no famoso discurso final de Moisés: "Se ouvires a voz do Senhor teu Deus, bendito serás ... Será, porém, se não deres ouvido à voz do Senhor, maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira . . . Os teus céus sobre a tua cabeça serão de bronze e a terra debaixo de ti será de ferro." (Dt 28.15-23) Joel amava ao Senhor, e tentava viver de maneira a receber as prometidas bênçãos para os
  • 10. 11fiéis, evitando qualquer desvio do caminho da verdade que acarretasse a maldição divina. Acordou Joel numa madrugada de verão com o zumbir de um inseto. Levantando-se dacama, descobriu que quem perturbava o seu sono era um gafanhoto num hibisco, fora da janela.Com um rápido gesto da mão, Joel afugentou-o e foi deitar-se novamente. Momentos depois ouviu omesmo som irritante, mas desta vez muito mais agudo. Voltando à janela, espantou-se ao observar oque parecia ser uma espessa nuvem negra no céu azulado. De relance, entendeu Joel que era umanuvem de gafanhotos. Não perdeu tempo em acordar todos da casa, reconhecendo que estava emperigo iminente toda a plantação da fazenda. Em poucos minutos, os insetos vorazes esconderam aluz do sol pela densidade incrível de milhões de corpinhos em vôo. Em desespero, os agricultoreschamaram homens, mulheres e crianças para tentarem afugentar o exército inumerável degafanhotos. As mandíbulas minúsculas dos insetos devoraram metodicamente cada folha de cada planta,de cada árvore. No momento em que a invasão atingiu a sua força máxima, o som da mastigação demilhões de insetos se assemelhou ao de um motor de usina. Em vão os habitantes horrorizadostentaram salvar as plantações, mas inexoravelmente o exército de gafanhotos digeriu incólume ainteira safra da região, deixando apenas os tristes esqueletos de árvores, de arbustos, de vides e dehortaliças. Passado o flagelo destruidor, a negra fome deu na vista dos agricultores desesperados. Joelcontemplou a destruição total da fonte de renda, e finalmente o horror da situação provocou neleuma indagação religiosa. Por que aconteceu tamanho desastre? Por que Deus permitiu que istoacontecesse? Qual o significado do acontecimento? Joel convidou todos os habitantes da terra a querefletissem sobre o desastre: "Ouvi isto, vós, velhos, e escutai, todos os habitantes da terra . . . Narrai isto a vossos filhos, e vossos filhos o façam a seus filhos, e os filhos destes a outra geração." (1.3, 4) Joel não deixou o sinistro roubar-lhe a fé. Tentou desvendar a razão por que Deus permitiuque o seu povo sofresse tanto prejuízo. E o fruto das suas cogitações foi conservado para toda aposteridade no livrinho que leva o seu nome. No Oriente Médio o flagelo do gafanhoto não era novidade. O que impressionou Joel foi ofato de gafanhotos de diferentes tamanhos e espécies chegarem juntos como em aliança maldita: "O que deixou o gafanhoto cortador comeu-o o gafanhoto migrador; o que deixou o migrador comeu-o o gafanhoto devorador; o que deixou o devorador comeu-o o gafanhoto destruidor." (1.4) O camponês Joel reconheceu quatro novidades de bicho na armada aérea que aniquilara afazenda. Nunca houve caso parecido na História. A perda total da safra causou o maior desespero em toda a região aflita. No entanto, na suadesolação profunda, alguns se lembraram com otimismo das próximas chuvas de verão. A naturezasempre procura recuperar o seu aspecto verdejante. Os que nutriam esta esperança profetizavam achegada, quer cedo quer tarde, das chuvas estivais, que anualmente irrigavam a região. Joel contemplou a vide desfolhada no quintal, e a figueira desnuda, que pareciam silhuetasimplorando algumas gotas vivificadoras dum céu de bronze. "Fez da minha vide uma assolação, destroçou a minha figueira, tirou-lhe a casca, que lançou por terra; os seus sarmentos se fizeram brancos." (1.7)
  • 11. 12 Os camponeses aguardaram estoicamente as chuvas. Paulatinamente os dias se tornaramsemanas. A terra requeimada rachou-se sob o calor do sol impiedoso. O gado morria nos campos. Opovo começou a arrumar as malas, em demanda de qualquer lugar que tivesse escapado do flageloduplo dos gafanhotos e da seca. Mas as chuvas aneladas não chegavam. "Também todos os animais do campo bramam suspirantes por ti; porque os rios se secaram e o fogo devorou os pastos." (1.20) Como judeu piedoso, acostumado a dar o dízimo da safra do Senhor, Joel não estava emcondições de trazer as tradicionais ofertas de manjares à casa do Senhor em Jerusalém. Porconseguinte, os sacerdotes e ministros iriam passar fome, e as solenidades exigidas pela santa leinão seriam mais observadas. Por isso Joel exclamou tristemente: Uivai, ministros do altar! . . . Passai a noite vestidos de sacos; porque da casa do vosso Deus foram cortadas a oferta de manjares e a libação." (1.13) Nesta situação crítica, Joel pediu que se anunciasse um santo jejum e oração (1.14). Tanto noVelho como no Novo Testamento, a Bíblia recomenda o jejum como indicação da sinceridadeinegável de quem oferece sua prece ao Senhor. Quem jejua afirma tacitamente que a resposta divinaà oração é mais importante que o sustento do corpo. É a subordinação do físico ao espiritual, quecaracteriza todos os gigantes da fé. Moisés e Jesus jejuaram durante quarenta dias. O apóstolo Paulojejuava regularmente. O século XX, século do materialismo, já convenceu a igreja da atualidade que ojejum não é para os nossos dias. Ela depende mais de campanha financeira e de organização paraevangelizar o mundo do que de jejum e oração. Às vezes, só uma calamidade de enormesproporções, como a do tempo de Joel, convence o homem a orar e jejuar. Pela oração e jejum o profeta conseguiu adivinhar o enigma do porquê da devastação daterra do Senhor. Joel esperou no Senhor, e recebeu uma visão que o esclareceu acerca do desastre. Adesolação que o Senhor permitira na sua terra da promissão representava algo mais cósmico, quehaveria de ocorrer no fim dos tempos. Simbolizava os acontecimentos estarrecedores do Dia doSenhor! A descida dos gafanhotos sobre uma pequena região da Palestina dá uma pálida idéia doque será a destruição quando o Senhor vier na sua glória como o Juiz do mundo! O vidente começoua entender o porquê da perda da safra e, acrisolada a sua alma no sofrimento, recebeu umamensagem para todo o mundo. "Perturbem-se todos os moradores da terra, porque o dia do Senhor vem, já está próximo, dia de escuridade e densas trevas, dia de nuvens e negridão!" (2.1, 2) Na visão, Joel percebeu que a multidão dos gafanhotos representava um exército invencívelcom todos os seus aparelhos de guerra, destruindo tudo à sua frente. "Diante dele a terra é como o jardim de Éden, mas atrás dele um deserto assolado. Nada lhe escapa". (2.3) O Dia do Senhor será um dia de juízo, e não de alegrias. Em Israel, o povo de Deus esqueceu-se deste aspecto da verdade. Era praxe falar do Dia do Senhor, como dia em que o povo do Senhorseria vitorioso. Esta interpretação triunfalista é popular na igreja de hoje. Esquece-se de que "nossoDeus é fogo consumidor" (Romanos 12.29). Não se preocupa com a revelação solene de Pauloquando diz: "todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo para que cada um recebasegundo o bem ou o mal que tiver feito no corpo" (2 Co 5.10). Quem aceita Cristo é salvo da perdiçãoeterna, e não entrará em condenação Não irá para o inferno. Mas ao mesmo tempo, deve-sereconhecer que haverá um julgamento do povo de Deus no Dia do Senhor. Falando daquele dia,
  • 12. 13Pedro afirma que "a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vempor nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?" (1 Pedro 4.17). Assim como todos os profetas e apóstolos, Joel aprendeu que Deus julgará o seu povo.Portanto exclamou: "Sim, grande é o dia do SENHOR, e mui terrível! Quem o poderá suportar?" (2.11) À luz desta revelação, Joel conclamou o povo a se arrepender e a se converter: "Ainda assim, agora mesmo diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e pranto." (2.12) Não era suficiente ser povo do Senhor. Não bastava morar na terra santa. Era necessária aconversão integral ao Senhor. Os apelos à conversão na Bíblia se dirigem quase que exclusivamenteao povo de Deus! A genuína conversão significa a aceitação plena da vontade de Deus. Éimprescindível manter,a atitude de constante obediência ao Senhor. Destarte, a conversão se renovaa cada dia. Há pessoas que se dizem convertidas ao Senhor, mas cujas vidas não mostram evidênciaprática de submissão a Cristo. Se elas continuam na desobediência, há a possibilidade de nuncaterem sido salvas, pois a condição para a salvação é a obediência a Cristo como Senhor. Por estarazão, as Escrituras repetem o convite impreterível: convertei-vos! Não é chocante ler no evangelhoas palavras de Jesus ao apóstolo Pedro, depois de três anos de apostolado?: "Quando te converteres, fortalece os teus irmãos." (Lucas 22.32) Joel entendeu que a desastrosa visita dos gafanhotos prefigurava algo pior ainda, a invasãodum exército inimigo. É "o exército que vem do norte" (2.20), estrondeando como carros. Tão vividaé a descrição da incursão militar, que se aplica perfeitamente ao método do blitzkrieg nazista comtanques, canhões blindados e todo o aparelhamento bélico dos nossos dias. "Cada um vai no seu caminho e não se desvia da sua fileira. Não empurram uns aos outros. Cada um segue o seu rumo; arremetem contra lanças, e não se detêm no seu caminho. Assaltam a cidade, correm pelos muros, sobem às casas; pelas janelas entram como ladrão. Diante deles treme a terra e os céus se abalam." (2.7-10) Não se sabe em que época viveu Joel. O texto não revela o contexto da época. Possivelmenteo profeta exerceu o seu ministério antes da invasão assíria que findou a história do reino de Israelem 722 a.C. Outros optam pelo período antes da queda de Jerusalém em 587 a.C, e neste caso "oexército que vem do norte" seria o da Babilônia. Seja como for, o vidente inspirado enxergou alémda calamidade militar, e perscrutou os segredos recônditos da futura história do povo de Deus. O dia chegará em que o Senhor restabelecerá o seu povo novamente na terra santa comtodos os privilégios e bênçãos divinos. "Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto . . . Comereis abundantemente e vos fartareis, e louvareis o nome do Senhor vosso Deus . . .
  • 13. 14 e o meu povo jamais será envergonhado." (2.25, 26) O clarividente servo do Senhor reconheceu na promessa da chuva temporã e a seródia algomuito mais sublime do que a restauração da terra devastada pela seca. Para Joel as chuvasrepresentam o derramamento torrencial do Espírito de Deus sobre a humanidade sequiosa. Numtrecho luminoso, citado pelo apóstolo Pedro no dia de Pentecostes, Joel prenunciou o glorioso diaem que o Espírito Santo encheria cada coração, dando-lhe sonhos e visões. Qual chuva no sertão emtempo de seca, assim o Espírito do Senhor irriga a alma sedenta do homem. Com Jesus, os céus seabrem para derreter a plenitude do Espírito sobre todo aquele que crê. Feliz o dia para toda ahumanidade quando João Batista testemunhou, dizendo: "Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele!" (João 1.32) Cumpriu-se ao pé da letra a profecia de Joel, quando Jesus prometeu a todos: "Quem crer em mim, como diz a escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem." (Jo 7.38,39) Que maravilha inédita que um simples homem do campo profetizou com exatidão osacontecimentos dos séculos vindouros! Mais maravilhoso ainda é o fato de que vislumbroufenômenos que acompanharão o desdobramento do drama humano, ainda futuro nos últimosdecênios do século XX! A promessa do dom do Espírito foi citada por Pedro em Atos 2.17. Incluiu na citação aprofecia sobre os sinais e prodígios que acompanharão o Dia do Senhor: "Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor!" (Atos 2.19, 20) Não há nenhuma indicação de que o sol se converteu em trevas, ou a lua em sangue, no diade Pentecostes. Aquela parte da profecia de Joel não se cumpriu no tempo dos apóstolos, nem atéhoje. Ainda são acontecimentos futuros. Serão os sinais da vinda de Cristo em poder e glória! Outroprofeta, o santo apóstolo João, exilado em Patmos, escreveu anos depois do dia de Pentecostes,sobre a profecia de Joel! "Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda como sangue." (Ap 6.12) O Espírito de Deus revelou a Joel coisas que aconteceriam mais de vinte e cinco séculosdepois! Certamente, o verdadeiro Autor dos livros da Bíblia é o mesmo Espírito de Deus, queinspirou homens santos que, segundo Pedro, "falaram da parte de Deus movidos pelo EspíritoSanto" (2 Pedro 1.21). O Dia do Senhor será terribilíssimo. Bem deve o homem pecador tremer com a vinda doSenhor da justiça e da glória. Mas Joel não deixou o homem atormentado pela expectativa da vindado Juiz do mundo. Anunciou também o caminho da salvação! Pois Deus é amor, e quer o nosso bem,não desejando a morte do ímpio. "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!" (2.32)
  • 14. 15 Como dizia Santo Agostinho a respeito dos dois testamentos da Bíblia: "O Novo estáescondido no Velho, e o Velho explicado no Novo". E aqui, num pequeno livro dum profeta menor, seencontra o mais puro evangelho! Verdade citada séculos depois por Paulo (Romanos 10.13),continua sendo verdade. Basta invocar o nome do Senhor Jesus para ser salvo. Para invocá-lo, épreciso crer que ele ressuscitou de entre os mortos. Só assim se pode pedir com palavras a salvaçãogratuita que ele oferece na sua maravilhosa graça. Nos dias de Joel, como nos de Paulo, e tambémnos nossos, eis o único caminho da salvação! O que começa como notícia de um desastre agrícoIa num quinhão da herança dos israelitasse torna um quadro em miniatura dos acontecimentos globais dos fins dos tempos. Inspiradonovamente pelo Espírito de Deus, o vidente Joel ampliou a visão dada no capítulo 2. Rematando asua mensagem de dimensões cósmicas ele passou a desofuscar mais o futuro remoto. Falou dagigantesca luta entre as nações, reunidas em redor da terra santa. Deus se vingará de todas asinjustiças e atrocidades praticadas contra o seu povo (3.2-6). Será o tempo de guerra mundial,quando as nações forjarão espadas das reIhas de arado, e lanças das podadeiras (3.10). Somentedepois do conflito global haverá paz na terra, a paz do Senhor presente para reinar! O profeta Isaíaspredissera o tempo da glória futura em termos exatamente opostos: "Converterão as suas espadas em relhas de arados, e suas lanças em podadeiras." (Isaías 2.4) O que parece ser contradição na Bíblia se explica pela compreensão da escatologia: primeiroo Armagedom, com a mobilização de todos os recursos para fins bélicos, e depois a vitória final doSenhor, quando a paz voltará à terra em permanência. Desde o tempo de Joel, cada geração considera a possibilidade de estar próximo o fim domundo. No ocaso do segundo milênio da era cristã existe, pela primeira vez na história da raçahumana, a possibilidade real de aniquilar-se o homem. Os Estados Unidos possuem mais de 10.000bombas nucleares. O bombardeiro americano B-52 é capaz de entregar quatro bombas nucleares,equivalentes a 7.385 bombas parecidas com a bomba A lançada sobre Hiroshima! A União Soviéticafabrica uma bomba nuclear cada 36 horas. Com este potencial mortífero, essas duas superpotênciassão capazes de aniquilar toda a vida na terra 15 vezes. Estes fatos nos levam a pensar que a profeciade Joel não tardará a cumprir-se . . . Rematando a mensagem da última visão, Joel se projetou até o conflito fatídico do fim dostempos: A possibilidade dessa guerra estourar leva o homem a refletir sobre o porquê da vida, damorte, e do além-túmulo. Morre o homem apenas como animal? Joel lhe deu a resposta. "Sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus, que habito em Sião, meu santo monte!" (3.17) A crise do fim do século XX não se resolverá nem pela política internacional, nem peloprogresso científico. O homem moderno precisa buscar a Deus, o Deus de Joel, o Deus da Bíblia. Pormais inteligente que seja, o homem não conseguiu ainda explicar sua própria razão-de-ser, masconseguiu aumentar seu poder de tal forma que sua auto-destruição é uma possibilidade real. Adimensão espiritual abre-lhe novos horizontes, e o seu espírito, agriIhoado pelo materialismo, sobefinalmente nas asas da fé, para alcançar o mais alto zênite da espiritualidade, olhando para JesusCristo, o Senhor do universo. É este mesmo Senhor que o redime pela sua morte expiatória na cruz,ponto central do encontro entre o homem e Deus. O Espírito do Senhor inspirou Joel a salientar estaverdade básica na sua derradeira palavra profética: "Eu expiarei o sangue dos que foram expiados." (3.21) Abandonando teorias inadequadas para o encontro inevitável com a morte, aceitemos aúnica solução do problema humano, Jesus Cristo o Senhor e Salvador, que pela sua morte expiou o
  • 15. 16nosso pecado na cruz, e nos garantiu a vida eterna pela sua ressurreição. "Multidões, multidões, no vale da decisão!" (3.14) 3. O VAQUEIRO PROFETA AMÓS Amós vivia num período histórico de grande prosperidade ilusória. A nação de Israel, nonorte da Palestina, tinha experimentado no reinado do inteligente monarca Jeroboão II umdesenvolvimento inigualado. Em Samaria, a metrópole, havia a frenética construção de novosprédios; dinheiro era gasto à toa, e a sociedade era entregue à vida de estonteante luxúria. Amós nãoera natural de Israel. Nascera num lar humilde no reino de Judá, no Sul. Viu a luz do dia na pobrealdeia de Tecoa, na região árida do sertão que se estende até o Mar Morto, ao Leste, e até o desertode Negev ao Sul. O povoado não gozava de nenhum prestígio, sendo apenas uma encruzilhada nasestradas utilizadas pelas inúmeras caravanas que atravessavam o Oriente Médio. Naquele lugarejoinóspito Deus preparou um rude pregoeiro da justiça. Desde a meninice, Amós aprendeu a digladiar-se com as forças ingentes da natureza fera dosertão. Conseguiu algum pasto para as poucas cabeças de rês que dificilmente eram sustentadas naaridez requeimada do sertão judaico. Raras eram as frutas que apareciam naquelas plagaspedregosas, mas o menino Amós sabia onde colher os pequenos figos dos sicômoros espalhados napouca sombra de penhascos seculares. Provavelmente vendia as frutinhas aos árabes queacompanhavam as caravanas, ou na feira de Belém, que distava apenas dez quilômetros. Arrancava o jovem Amós uma existência sacrificada do sertão. Muitas vezes pouco se comiaentre a alvorada sobre o deserto oriental e o pôr-do-sol rosado, atrás dos píncaros lúgubres dasmontanhas da Judéia. A fome, a sede e o cansaço eram os seus companheiros constantes. Ao mesmotempo, o jovem Amós sabia que as caravanas levavam a farta opulência oriental para a grandemetrópole de Samaria. Tinha ouvido falar daquela sociedade urbana, onde muitos nem trabalhavam,onde a gangrena da luxúria desenfreada roía a medula da nação. Tinha aprendido que no paço real,e nos círculos sociais da elite, não se observava mais aos pé da letra a lei de Moisés. Aprendia quegrassava a mais devassa podridão entre os mais privilegiados. Não ignorava o fato de que a maioriado povo, explorado e frustrado como ele, sustentava aquela minoria opressora. Sentia crescer noseu coração o desejo de falar sobre o assunto. Passavam diariamente as caravanas portadoras de artigos de luxo. Quando os camelos, demarcha lenta, paravam na encruzilhada de Tecoa, Amós se informava da fabulosa carga destinada àdistante metrópole israelita. Sedas finíssimas, tapetes felpudos, louças fragílimas, pedras preciosas,móveis luxuosos, vinhos raros, frutas cristalizadas, e uma infinidade de artigos de luxoatravessavam a pobre aldeia na encruzilhada. Estes produtos não chagavam às cálidas mãos dossertanejos rudes de Tecoa. Os tecoanos silenciosos nunca entendiam por que o destino os tinhaeleito para a labuta opressiva, enquanto outros tinham o direito de viver sem trabalhar, e usufruirda opulência fantástica dos empórios orientais. Nas casas toscas de adubo na circunvizinhança de Tecoa, a vida nunca melhorava. As vezes,depois do labor do dia, sob o sol causticante que requeimava o solo infértil do sertão, os habitantesrecebiam notícias dos palacetes em construção em Samaria, dos jardins e pomares, das alamedas epraças públicas. Em contraste com a cidadezinha sertaneja, a longínqua metrópole parecia ser umacidade paradisíaca. Amós amava a Deus, o Deus da justiça, o Deus que ampara o pobre e necessitado. Comoconciliar esta contradição na terra santa do Senhor Deus de Israel? O jovem crente no Senhor não
  • 16. 17pôde silenciar frente à desigualdade social. Começou a pregar com o vocabulário simples e direto devaqueiro, falando do Deus verdadeiro e justo que ama o seu povo, e anunciando um juízo divinocontra uma sociedade materialista e opressora. Por mais inverossímil que pareça, dois anos depoisde Amós iniciar sua nova carreira de pregador leigo, houve um sinal confirmador da sua mensagem.Ocorreu um abalo sísmico de severidade inédita (1.1). Os pobres desabrigados das casas de taipaperderam pouco, mas a demolição das mansões e dos palacetes representou uma perdaestarrecedora. Para o pregador sertanejo, não podia haver indicação mais clara da intervençãodivina. "O Senhor rugirá de Sião!" (1.2), bradou o profeta. Confirmado na sua convicção de que Deusiria julgar a nação vizinha, Amós não perdeu mais tempo entre os seus. Ele não precisava pregar ajustiça aos tecoanos, oprimidos pelo sistema desumano de crassa exploração ao próximo. Despediu-se depressa, e se dirigiu à nação de Israel, ao norte. Com a ingenuidade do entusiasmo juvenil, Amós se lançou no ministério profético, sem semergulhar nos estudos teológicos. Várias escolas de profetas atraíam jovens sisudos em cada época,mas Amós soube ler os sinais dos tempos, e para ele a palavra do Senhor se comparava ao rugido doleão (1.2). Nunca chegou a estudar hermenêutica, nem exegese textual. Não pretendia imitar o estilopolido de um Isaías. Sabia que um julgamento pior do que o terremoto viria, e que o povo estavainconsciente do perigo. Amós começou o seu ministério em Samaria, anunciando os juízos do Senhor contra asnações ímpias. Sem muita experiência didática, o profeta inculto aproveitou um método aindautilizado em regiões de pouca oportunidade escolar, e cantava a sua mensagem. A Bíblia conservamiraculosamente oito estrofes deste cancioneiro primitivo (1.3 — 2.16). Antes da invenção daimprensa, as nações dependiam deste método para insuflar um povo contra o inimigo. São muitas ascanções de desprezo patriótico conservadas no Velho Testamento. Como trovador medieval, Amóscantava ao ar livre, para deleite dos transeuntes curiosos, atraídos pelo espetáculo incomum de umcantor sertanejo, vestindo trajes típicos. O cantor rústico denunciou na primeira estrofe o inimigo tradicional de Israel: "Quebrarei o ferrolho de Damasco! "(1.5) Não houve quem se opusesse a este sentimento nacionalista. Amós conseguiu aprovaçãototal da sua mensagem. Deus que julgasse Damasco! Amós continuou cantando, enquanto outros seuniam aos espectadores. A segunda estrofe prometeu fogo divino sobre a detestada Gaza, cidade dosfilisteus. Mais uma vez, todos concordaram plenamente com sentimentos tão justos (1.7). Depoisveio a vez de Tiro, cidade cosmopolita, rainha do Mediterrâneo, e rival de Samaria quanto à vidaluxuosa (1.9). Todos desejavam que Deus minasse a economia dela. E a canção castigou depoisEdom (1.11). Quem podia simpatizar com o reino que controlava todo o tráfego norte-sul nodeserto? Quem podia se esquecer de que foi Edom que interditou aos primeiros israelitas a entradaem Canaã? Deus que os consumisse com fogo! Gritos de apoio acompanhavam a canção. Amém,irmão! Amós continuou cantando mensagens de juízo. Chegou a vez de Amom, na Transjordânia,cujos soldados mereciam a censura de todo povo civilizado, por causa das atrocidades inenarráveisperpetradas em guerra. Que Deus fosse como turbilhão contra eles! (1.13) Amós não se esqueceu do julgamento de Moabe, cujos líderes mandaram queimar os restosmortais dum rei inimigo. Que Deus matasse os seus príncipes! (2.3) A esta altura a multidão dos ouvintes aguardava a próxima estrofe. O rude sertanejo já tinhajulgado todos os inimigos vizinhos de Israel. E agora? A multidão atenta ficou surpresa ao ouvir aestrofe que seguiu: "Assim diz o Senhor: por três transgressões de Judá, e por quatro . . ." (2.4) Todo mundo reconhecia Amós como natural de Judá. Como se explicava que anunciava um
  • 17. 18julgamento contra o seu próprio povo? Por que o julgava? Não por ter cometido atrocidade, nem poródio infrene. Amós continuou cantan- "Porque rejeitaram a lei do Senhor, e não guardaram os seus estatutos, antes as suas próprias mentiras os enganaram, e após elas andaram seus pais". (2.4) Amós abandonou o argumento político, a favor do religioso. Judá seria julgada pela suainfidelidade ao SENHOR! O povo não tinha guardado a Palavra de Deus. Esquecera-se dos seusensinos. E, logo em seguida, a vida nacional perdeu as características bíblicas de piedade ehonestidade. A canção de Amós não era mais modinha popular. De repente se tornou corinho decrente. A multidão aclamou a honestidade intrépida do jovem de Judá, que ousava falar de fogodivino consumindo a santa cidade de Jerusalém, cidade capital do profeta. O trovador do Senhorprendeu a atenção indivisa dos ouvintes. Começou a entoar firmemente a última estrofe: "Assim diz o SENHOR: por três transgressões de Israel e por quatro . . ." (2.6) Nem bem pronunciado o nome da capital samaritana, sentiu-se um calafrio nos ouvintes.Aos olhos deles, o genial cantor sertanejo se transformava imediatamente na figura desprezível eridícula de um matuto injurioso. Os elegantes cidadãos da capital silenciaram, enquanto Amósapontava para as injustiças berrantes praticadas contra os humildes. "Os juizes vendem o justo por dinheiro, e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias! (2.6) Ninguém podia negar que os tribunais sempre favoreciam os que se serviam de meios venaispara ganhar a causa. Assim sendo, havia duas leis, uma para o rico, e outra para o pobre. Amósprosseguiu cantando a mensagem acusadora: "Suspiram pelo pó da terra sobre a cabeça dos pobres!" (2.7) Os donos das grandes fazendas não queriam entregar aos pobres nem uma nesga de terrapara o seu próprio uso. Com ironia Amós declarou que os ricos cobiçavam até o pó da terra, coladoàs frontes suadas dos trabalhadores! A canção profética continuava a alfinetar as consciências: "Um homem e seu pai coabitam com a mesma jovem e assim profanam o meu santo nome." (2.7) Todos os homens sabiam que, não obstante a profissão de fé no Senhor, a licenciosidade doslupanares e a doce sedução de corpos bronzeados na praia constituíam o principal interessemasculino. Na luta titânica entre a carne e o espírito, este perdia e aquela ganhava. Com olhar severo, o rude pregoeiro da justiça prosseguiu, relembrando os grandes atosintervenientes do Senhor na história do povo. Deus fê-lo subir da terra do Egito, destruindo os seusinimigos, e levantando profetas dentre os filhos de Israel. "Mas vós aos nazireus destes a beber vinho, e aos profetas ordenastes, dizendo: Não profetizeis." (2.12) O nazireu fazia voto de não tomar bebida alcoólica, e de não cortar o cabelo. Os israelitas
  • 18. 19enfraqueciam os que tinham assumido esses solenes votos ao Senhor, animando-os a agircontrariamente. Dos profetas nada se pedia nos cultos, senão uma cerimônia empolgante. Nada depregação da Palavra de Deus! O culto cantado bastava. O profeta era benquisto se dirigisse oprograma especial, sem mensagem nenhuma. Religião sem Palavra de Deus. Culto sem pregação. Deus falou pela boca de Amós, como rugido de leão: "Eis que farei oscilar a terra debaixo de vós como oscila um carro carregado de feixes." (2.13) As palavras de advertência profética ecoaram na esplêndida praça pública da lindametrópole. Alguns se lembraram logo do terremoto que sacudira a terra em tempos recentes.Outros passaram a ludibriar do sertanejo desprestigioso. Uns poucos refletiram com evidentesobriedade. E a maioria ficou indiferente, e o humilde mas intrépido filho de Tecoa rematou o refrãofatídico: "E o mais corajoso entre os valentes fugirá nu naquele dia, disse o Senhor." (2.16) Criou manchetes a canção de Amós na bela cidade de Samaria. Na capital, tudo exalava paz eprosperidade. Exímio na diplomacia, o rei Jeroboão II reatara alianças com os tradicionais inimigosde Israel, conseguindo um clima de paz inaudita. Seu tino administrativo garantia para a capital epara a classe privilegiada uma vida nababesca. E agora chegava esse forasteiro doido proclamando ofim do mundo. Com certeza, o sábio rei seria altamente competente no futuro como no presente. Porque temer? Amós se atreveu a falar em público novamente. Desta vez não cantou mas, falando olinguajar de sertanejo, apelou para o raciocínio dos ouvintes irrefletidos. A sorte não existe para opovo de Deus! Tudo se explica por causa e efeito. "Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?" (3.3) Dois negociantes se encontram porque marcam a hora. Dois namorados andam de mãosdadas porque de antemão já marcaram o lugar do encontro. A rapaziada de Samaria entendiaperfeitamente bem a lógica de Amós "Rugirá o leão no bosque, sem que tenha presa?" (3.4) Mesmo os que não se interessavam pela caça, preferindo ficar nas elegantes mansões dametrópole, sabiam que o leão silencia enquanto anda à procura da rapina. Só ruge depois de tomá-la. "Tocar-se-á trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça?" (3.6) Claro que não. O estremecimento se explica pela causa, a trombeta que anuncia a guerra. Osmais velhos cidadãos na cidade real de Samaria nunca se esqueciam do pânico que tomou posse dacidade quando exército sírio a invadiu. Amós prendeu a atenção de todos ao pronunciar a fraseseguinte: "Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?" (3.6) "Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?" (3.8) Agora o profeta declarava nitidamente que um inimigo cercaria a cidade para destruí-la, e
  • 19. 20com elas seriam derrubadas as casas de inverno e as casas de verão (3.15). A causa dessa destruiçãoera a chocante injustiça e a opressão perpetradas contra os humildes e os pobres. Não se poderiadar um jeito. Nem era questão de sorte na vida. Teriam que colher o que haviam semeado. As belas damas da corte passeavam nas alamedas da cidade maravilhosa de Samaria.Andavam vestidas com as últimas criações, nas mais leves sedas importadas do estrangeiro. Seguia-as, como incenso celeste, a delicada fragrância de perfumes exóticos, tão caros que o trabalho de umagricultor durante o ano todo nem daria para adquirir um frasquinho do precioso líquido. Em Tecoa,Amós não ganharia num mês o suficiente para comprar uma daquelas bolsas de senhoras feitas decouro finíssimo, com prendedor de prata trabalhado como asa de pássaro. A lembrança da pobreza do sertão escaldou o espírito do jovem profeta abnegado. Cadasenhora levava consigo dinheiro suficiente para alimentar uma família inteira no interior, pormuitas semanas ou meses. Na cidade, tanto dinheiro esbanjado. No sertão, tanta penúria. Na capital,uma festa por dia. No interior, a fome, a cada dia. Amós não conseguiu conter a crescente onda deprotesto dentro do seu coração. Em alta voz, pediu a palavra: "Ouvi esta palavra, vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, oprimis os pobres, esmagais os necessitados, e dizeis a vossos maridos: dai cá, e bebamos." (4.1) Um arrepio de indignação atônita se registrou com estas palavras tão grosseiras. Pelo menoso pregador descortês captou a atenção das belas senhoras por um momento. Nada sabendo dehomilética, Amós misturou as metáforas, pois continuou dizendo: "Jurou o Senhor Deus pela sua santidade, que dias estão para vir sobre vós, em que vos levarão com anzóis e as vossas restantes com fisga de pesca." (4.2) Amós comparou as damas da alta sociedade a vacas gordas no pasto. Elas, no entanto,seriam semelhantes a peixes tomados com anzóis, naquele dia da tomada da tão próspera cidadepelos seus inimigos, quando elas iriam para o cativeiro. Existia na nação um espírito profundamente religioso. Israel se gabava de sua culturareligiosa e de seu espírito moderno de ampla tolerância. Em matéria de fé, achava que toda religiãoera boa, e que não se devia condenar qualquer crença praticada com sinceridade. Para mostrar aomundo que a religião nacional tinha raízes históricas profundas, o clero organizava uma romariaanual, visitando os lugares santos. Os peregrinos em festa chegavam primeiro em Betei, onde opatriarca Jacó tivera a visão da escada celestial. A próxima parada era Gilgal, lugar do encontro deSamuel com Deus. Em seguida, os romeiros iam até Berseba, oásis no deserto do Negev, pararelembrar a presença do pai Abraão naquele lugar santo,séculos antes. Em verdade, a romaria anual tinha mais o aspecto de festa do que de ato religioso. Oscomerciantes aproveitavam o ensejo com preços inflacionados. Muitos peregrinos passavam maistempo visitando amigos e parentes do que participando das orações. E, felizmente, não haviapregações incômodas. Na ocasião da visita de Amós, todos se preparavam, como sempre, para a romaria. Achavamque isso servia como demonstração positiva da sua fé, face às acusações do jovem pregador. Parasurpresa geral de todos, o profeta do sertão ergueu a voz nos seguintes termos: "Assim diz o SENHOR à casa de Israel: Buscai-me e vivei. Porém não busqueis a Betei, Nem venhais a Gilgal, nem passeis a Berseba, ... Buscai ao SENHOR e vivei, para que não irrompa na casa de José como um fogo que a consuma!" (5.4-6)
  • 20. 21 Sem uma relação pessoal com o Senhor, sem buscá-lo, a religiosidade da romaria nadavaleria em termos espirituais, e os lugares santos seriam destruídos. Deus contemplava astransgressões sociais em Israel: "... afligis o justo, tomais suborno, e rejeitais os necessitados." (5.12) A religião divorciada da moral e da compaixão é anátema; aos olhos do Senhor. Ele prometeestar com o seu povo somente quando este busca o bem e aborrece o mal (5.15). O profeta conheciaa índole do povo de Israel, e previu as conseqüências da rejeição da mensagem: "Em todas as praças haverá pranto." Como no dia de hoje, muitos naquela época falavam do Dia do Senhor como solução final detodos os problemas, sem perceber que a sua vinda marcaria o julgamento do povo do Senhor. "Ai de vós que desejais o dia do Senhor! Para que desejais vós o dia do Senhor? É dia de trevas e não de luz." (5.18) Israel pensava que a vinda do Senhor marcaria o julgamento das nações ímpias e oreconhecimento por elas da supremacia de Israel. Tragicamente, a nação não entendeu que o Dia doSenhor seria o julgamento do próprio povo de Deus. Em nossos dias, sai do prelo uma abundânciade livros sobre a segunda vinda de Cristo. Porém, a maioria tenta interpretar os acontecimentospolíticos à luz da profecia, sem mencionar o fato de que a volta de Cristo iniciará o julgamento da igreja! Como diz Paulo, "todos compareceremos perante otribunal de Deus" (Rm 14.10). E Pedro afirma: "A ocasião de começar o juízo pela casa de Deus échegada; ora, se vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?" (1Pedro 5.17). Tanto no Novo como no Velho Testamento, os judeus nunca acreditaram que fosse possívelDeus julgar o seu povo. A destruição de Samaria em 722 a.C. e o exílio babilônico de Judá em 587 a.C.são advertências contra toda presunção. Dificilmente aprendemos as lições da História. É salutarlembrar que a matança de um milhão de judeus, fervorosos para com a Bíblia, mas desobedientes aela, no ano 70 de nossa era, é mensagem para nós. Deus julgará o crente desobediente severamente.O fato de ser salvo eternamente não lhe exclui o comparecimento perante o tribunal de Cristo, com apossibilidade da perda do galardão. Escrevendo sobre "o dia", isto é, sobre o dia do Senhor, Paulorevela que: "... qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará ... se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo." (1 Co 3.13, 15) Com a vinda de Cristo, toda a nossa vida, todo o nosso testemunho (ou a falta dele) serãoavaliados pelo SENHOR, e muitos descobrirão que as coisas pelas quais viviam não tinham valorpermanente. Serão queimados. Desaparecerão. As coisas feitas para Cristo o Senhor permanecerãopara toda a eternidade. Para evitarmos a tolice de gastar a vida inutilmente, é preciso ter os olhosfitos sempre na segunda vinda de Cristo. Amós lamentou a triste cegueira dos israelitas, pois não percebiam a relação entre o seucomportamento e o dia do Senhor. Lançou mão de um exemplo tirado da sua própria vida decamponês para salientar o perigo em que jaz o povo indiferente. "Como se um homem fugisse de diante do leão, e se encontrasse com ele o urso; ou como se,
  • 21. 22 entrando em casa, encostando a mão à parede, fosse mordido duma cobra." (5.19) A parábola do vaqueiro dispensava esclarecimento. O homem da parábola escaparia do leão,e fugiria do urso, mas seria destinado à destruição, não evitando a serpente. Assim seria Israel. Acompassiva mão do Senhor a poupara diversas vezes, mas chegaria a hora do julgamento divino,contra as injustiças sociais e a devassidão moral no país. Os habitantes da sofisticada metrópole adotaram uma filosofia religiosa dicótoma,separando corpo e alma de tal maneira que praticavam a libidinagem mais desenfreada do corpodurante a semana, para assumirem ares de pomposa religiosidade solene no sábado do Senhor, parao bem da alma. O corajoso profeta Amós repulsou essa hedionda aberração da verdade: "Aborreço, desprezo as vossas festas, e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer . . . Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras." (5.21, 23) A mocidade israelita não gostou desse pregador matuto. Não estavam os jovens semprepresentes no culto, e alguns até mesmo no coral? Não respeitavam bem as campanhas? Não faziamparte de várias atividades religiosas? E agora vinha esse sertanejo forasteiro alegando que todoaquele tempo gasto em culto nada valia, sem uma consagração como nunca houvera. Esse Amósnunca ouvira falar da necessidade biológica do homem? Não sabia que, afinal de contas, não se podeser perfeito aqui em baixo na terra? A Bíblia não diz também que o rei Davi teve muita experiênciaerótica? Os argumentos e os protestos se proliferaram contra as acusações moralizadoras de Amós.Nos círculos respeitados da elite era inaceitável esse tipo de pregação de juízo, e condenação dopecado lascivo. Amós se sentiu sem apoio. A juventude israelita gostava de cantar hinos, masgostava também de divertir-se com os amigos que não eram inibidos por tanto ensino da Bíblia. Umpé na igreja, o outro no mundo. Amizade com todos era o seu ideal, e não a intransigência moraldesse pregador de fora. Uma gargalhada de desprezo irrompeu no meio da rapaziada. O pregadorsertanejo, imperturbável, lançou-lhes a última palavra: "Por isso vos desterrarei, para além de Damasco, diz o SENHOR, cujo nome é o Deus dos exércitos." (5.27) Tal pai, qual filho. Amós observava os costumes corrompidos dos pais em Samaria. Os "filhosde papai" se guiam fielmente a vida de materialismo crasso e de luxúria infrene que testemunhavamem casa. Amós dirigiu-se agora aos genitores da juventude transviada: "Vós, que imaginais estar longe o dia mau, e fazeis chegar o trono da violência; que dormis em camas de marfim, e vos espreguiçais sobre os vossos leitos, e comeis os cordeiros do rebanho, e os bezerros do cevadouro . . . que bebeis vinho em taças, e vos ungis com o mais excelente óleo;. . . Portanto, agora ireis em cativeiro! " (6.3-7) Encolerizado, Amós apontou para o mau uso do dinheiro na sociedade. Na região de Tecoa,muita gente deitava-se no chão. Alguns possuíam uma cama primitiva, ou rede. Mas aqui, nariquíssima capital de Israel, os burgueses conciliavam o sono em camas de marfim. O valor só domarfim pagaria um agricultor no sertão por mais de um ano! Amós se lembrou do gado de casa, e a
  • 22. 23luta sacrificada para salvar um cordeiro ou bezerro ameaçado pelas feras, os ladrões e os próprioselementos da natureza. Mas, aqui em Samaria, os donos de rês nem se preocupavam se os animaisnão chegassem à maturidade. Em vez de conservar os rebanhos, os senhores se alimentavam todosos dias de filé-mignon, e das melhores carnes, dizimando o patrimônio nacional. Quem sealimentasse com tais quitutes no sertão seria considerado louco. Na cidade opulenta os pratos requintados eram servidos com rios de vinho, em taças em vezde copos. No sertão somente na ocasião de um casamento ou de um enterro se servia às vezes umcopinho de vinho, mas não em circunstâncias normais. Na metrópole, porém, o vinho corria comoágua. Nos seus palacetes suntuosos, os habitantes da cidade capital tinham festa diária, sendo cadarefeição o fruto do suor e labor dos paupérrimos irmãos de Amós, labutando vida bastante sofrida. Enão somente as damas, mas os homens também se perfumavam como galantes ociosos num paçoem ocaso, gastando uma fortuna com os mais excelentes perfumes importados de países exóticos.Amós calculou rapidamente a despesa diária numa só mansão, e a soma atingia o salário de um anono sertão. Rijo de ânimo, Amós profetizou em praça pública num dos bairros mais esnobes dacidade: "Eis que o SENHOR ordena e será destroçada em ruínas a casa grande, e a pequena, feita em pedaços!" (6.11) A notícia perturbadora da pregação de juízo correu rapidamente da rua para os círculosmais elegantes e exclusivos. Chegou a notícia na capela real, onde Amazias, capelão de S.M. JeroboãoII, franziu a testa. A comunicação pareceu-lhe ser conspiração perigosa, visto que Amós já anunciaraa queda da cidade e o exílio do povo. Embora despretenciosa, a mensagem do rude sertanejo pôdeabalar algumas pessoas nervosas, e o capelão resolveu denunciar incontinenti o impertinentepregador-vaqueiro. Pior ainda, o audacioso profeta do sertão tinha tido a temeridade de vaticinar amorte do próprio monarca. Tudo indica que o rei Jeroboão II pouco se importunou com a notícia. Provavelmenteconsiderou Amós como um desses visionários messiânicos que em cada geração se levantam entreos analfabetos dos sertões, arrastando um punhal de adeptos para o seu inevitável fim desastroso.Fosse como fosse, o rei não mandou prender o pregador sedicioso. Bastou mandá-lo para fora dopaís, pela instrumentalidade do capelão. Amazias encontrou o sertanejo dentro da própria capelareal, e não perdeu tempo em entregar o recado do rei: "Vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá e ali come o teu pão, e ali profetiza; mas em Betei, daqui por diante, já não profetizarás, porque é o santuário do rei e o templo do reino" (7.12, 13) Com desprezo mordaz, respondeu Amós: "Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sicômoros!" (7.14) Amazias recebia um gordo salário pelas suas funções como capelão real. Amós não recebiamercê alguma. Se haveria de comer pão em Judá, não seria provimento de cargo religioso que osustentaria. Era boieiro, e visto que o dinheiro nem dava para se viver do trabalho, era obrigado aaumentar a pitança miserável pela venda, a um preço irrisório, das pequenas frutas de sicômoropalestino colhidas durante umas poucas semanas de verão. Amós não era pregador assalariado.Pregava por conta própria, sacrificando-se para falar a verdade, nua e crua, dizendo que a profissãode fé no SENHOR, sem vida moral e sem compaixão para os pobres, é uma revoltante nulidade! Terminou o diálogo entre o capelão magnificamente paramentado e o humilde profeta doSenhor, delgado de talhe, e vestindo o trajo tradicional de couro. Nunca mais se encontrariam. Como olhar místico de vidente, Amós proferiu sua última sentença:
  • 23. 24 "Assim diz o SENHOR, tua mulher se prostituirá na cidade, e teus filhos e tuas filhas cairão à espada, e a tua terra será repartida a cordel, e tu morrerás na terra imunda, e Israel certamente será levado cativo para fora da sua terra! " (7.17) Amós cumpriu a sua missão ingrata e perigosa. Antes de deixar a nação de Israel, sua terramissionária, ele não perdeu a ocasião de advertir o povo do perigo em que jazia enquanto nãovoltasse ao Senhor. Quão solenes são os juízos do Altíssimo! Quão soberbo é o coração humano quenão acredita num juízo final para todos, inclusive para o povo de Deus! Quão presunçoso aquele quepensa que uma profissão de fé, alguma assistência aos cultos, alguma contribuição ocasional aoscofres sacros compensam a falta de pureza moral, de honestidade, e de compaixão! No caminho de volta, Amós anunciou as suas visões apocalípticas, chamando o povo aoarrependimento e à fé no SENHOR. Mas o povo, desde o rei no trono até o homem na rua da capital,endureceu o coração. A cidade parecia tão segura, tão rica, e a vida tão aprazível, que a mensagemde Amós foi tida como a alucinação de um alienado. Nada de conversão em massa. Aparente fracassoda campanha. No entanto, Amós não se desanimou. Como todos os profetas do SENHOR, Amós vivia na esperança certa do triunfo final doSenhor. A apostasia materialista de Israel não podia ofuscar os raios rutilantes da glória vindoura dodia do Senhor. Quantos profetas anelaram a sua chegada, falando "daquele Dia!" E assim é que Amósrematou a sua obra monumental, erguendo os olhos para ver um Israel restaurado, um povo deDeus purificado: "Naquele dia levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas." (9.11) Jeroboão II não era da linhagem de Davi, a quem o Senhor prometera o reino emperpetuidade. Séculos de pois, o apóstolo João, escrevendo a respeito de Jesus, testificou: "E o Verbose fez carne, e habitou entre nós" (João 1.14). A palavra "habitou" traduz o grego eskenosen quesignifica literalmente "levantou tenda" ou "levantou tabernáculo". Foi por Jesus que Deus levantou otabernáculo de Davi, e assim se cumpriu a profecia messiânica escrita por Amós uns sete séculosantes. Sob o futuro reino de Cristo haverá a verdadeira prosperidade. Não o privilégio de umaminoria que explora a maioria, mas a conseqüência de todos praticarem a justiça, a compaixão e oamor para com o próximo, seja quem for. "Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão." (9.13) Em nosso mundo do século XX, em que opera ainda a maldição proferida na hora da quedado homem, há uma abundância adequada para todos os quatro bilhões que habitam no planeta. Acobiça, esta praga humana que exige lucros cada vez maiores, faz com que a metade da humanidadetenha fome, enquanto a outra metade vive fartamente, jogando fora milhares de toneladas decomida cada dia. Mas não será sempre assim. Um dia, "naquele dia", quando Cristo tomar conta domundo, quando houver novos céus e nova terra, cumprir-se-á o último sonho do heróico compeãodo Senhor, Amós de Tecoa no sertão, que prometeu: "Plantá-los-ei na sua terra, e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados,
  • 24. 25 diz o SENHOR teu Deus." (9.15) 4. O SENHOR DA SEARA JONAS A profecia de Jonas difere de todas as demais profecias bíblicas. A sua profecia falada selimita a apenas sete palavras: "Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida" (3.4). Num sentidoreal, o profeta é a sua mensagem. Quantas vezes Deus fala muito mais através do drama existencialdos seus servos do que pelas próprias palavras deles! Disto são exemplos Oséias, Jeremias e tantosoutros servos do Senhor. Deus ensina não tão somente por instrução verbalmente comunicada, mastambém pelos acontecimentos, nus e crus, vividos no crisol da experiência humana. Todo o mundose lembra bem da experiência de Jonas. Quantos sabem citar a sua mensagem falada? Muitos comentaristas modernos rejeitam a historicidade da narrativa, considerando o livrocomo alegoria, ou parábola comparável à do Filho Pródigo. Contra esta opinião, levanta-se a objeçãode que nenhum outro livro da Bíblia é exclusivamente parabólico. Outrossim, Jonas, filho de Amitai,é mencionado em 2 Reis 14.25 como profeta. De importância capital é a citação de Jonas por JesusCristo (Mateus 12.38-42). Neste trecho o Senhor Jesus não somente fala dos ninivitas no dia dojuízo, mas também menciona logo em seguida a Rainha de Sabá e Salomão. Ora, se estas são pessoashistóricas, Jonas e os ninivitas também o são. Para negar a historicidade de Jonas e sua experiênciano peixe seria necessário negar a veracidade de Jesus como Filho de Deus. Para muitos, o único ponto de interesse na história é o problema do peixe que engoliu Jonas.A inverossimilhança baseia-se no fato de que a baleia possui uma garganta estreita. No entanto, ocachalote, semelhante à baleia, grande mamífero cetáceo das águas européias, dispõe de umagarganta do tamanho que permite a passagem de um corpo humano. Além disso, o texto bíblicoafirma categoricamente que "deparou o Senhor um grande peixe, para que tragasse Jonas". Seriadifícil para o Criador do universo criar um cachalote com garganta incomum? Do autor do livro, nada se sabe. O livro pode ser de autoria de Jonas, ou obra de um biógrafodesconhecido. Do profeta, pouco se sabe além do que o narrado no livro que leva o seu nome. 2 Reis15 revela com precisão o período histórico do ministério de Jonas. Ele vivia no reinado de JeroboãoII, e portanto era contemporâneo de Oséias e Amós. Jonas previu a expansão territorial de Israel sobesse monarca. O mesmo trecho identifica Jonas como natural de Gate-Hefer, povoado no territóriode Zebulom. No tempo de Cristo, Zebulom fazia parte da Galiléia. Gate-Hefer era perto de Nazaré, esem dúvida os galileus guardavam com afinco a história maravilhosa de um dos seus antecedentesfamosos. Quando Cristo escolheu "o sinal de Jonas", talvez ele tenha aproveitado o único profeta daantigüidade com origens na região. Seria mais uma razão para os galileus nele crerem. No tempo de Jonas, o poderio da Assíria estava se impondo do Oriente Médio. A crueldadeassíria era lendária. Todos os povos detestavam as práticas desumanas de suas tropas vitoriosas.Jonas tipificava o judeu que nunca entenderia como seria possível Javé amar os assírios. Como povoeleito, os judeus esperariam que o seu Deus Javé arremetesse contra eles. O livro de Jonas mostra aresistência deste profeta ao propósito divino de evangelizar a raça mais cruel e mais odiada domundo. O ódio racial de Jonas e a sua conseqüente desobediência ao mandado divino explicam adepressão espiritual da qual Jonas se tornou vítima. O inexplicável amor de Deus para todas asnações, sem distinção nenhuma, não encontrou eco no coração de Jonas.A Atitude de Desobediência (Cap. 1.1-3) O nome de Jonas significa em hebraico "pomba". "Gavião" teria sido mais apropriado! O nome do pai, Amitai, significa "minha verdade".
  • 25. 26 A cidade de Nínive, capital da Assíria, situava-se no rio Tigre, a uma distância de mais de1000 km do Mediterrâneo. Deus mandou o seu servo Jonas como missionário a um povo ímpio ecruel. Como Governador moral do mundo, Deus era cônscio do mal que fervilhava nas cidades domundo. Jonas recusou-se a ir, pelo ódio que sentia para com os assírios. Esta atitude de rejeição davontade de Deus explica o desenrolamento dramático da história, e também a depressão cada vezmais profunda do profeta Jonas. Muitas vezes uma depressão tem a sua origem na recusa específicada clara vontade de Deus. Em vez de palmilhar o deserto em missão, o profeta embarcou numaviagem turística nas águas azuis do Mediterrâneo! Ia para Társis, a Espanha moderna, sem dúvidasonhando com as belas praias ibéricas. Jonas fugia da presença do Senhor. Quando o crente rejeita a vontade de Deus, não é queDeus não está mais presente. Davi aprendeu que ninguém escapa da presença dele: "Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também." (Salmo 139.7, 8) Deus sempre está presente, mas se esconde. O mesmo Davi bradou: "Até quando ocultarás de mim o teu rosto?" (Salmo 13.1) A desobediência nos rouba o gozo da presença de Deus. Esta perda provoca logo depressãoespiritual. Foi o castigo que Caim levou. "Da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra." (Gênesis 4.14) Quem anda com o Senhor sente e sabe que todas as coisas cooperam para o bem daquelesque amam a Deus (Romanos 8.28). O Senhor controla tudo, inclusive a misteriosa direção da vida.Quando, porém, alguém rejeita o caminho indicado pelo Senhor, torna-se fugitivo e errante, a bel-prazer, vítima da sua própria vontade.O Senhor de Todas as Circunstâncias (Cap. 1.4-17) O Deus de Jonas é Senhor de toda a terra e mar. Por isso, a fuga de Jonas acarretou muitoprejuízo, tanto para ele como para outros. Mais ainda, Jonas foi cercado num quadro decircunstâncias contra as quais não pôde lutar. Sem violar o livre arbítrio de Jonas, Deus moveu o céue a terra para que a sua vontade prevalecesse tanto na vida de Jonas, como no seu propósito deevangelizar Nínive. Aprendemos aqui uma lição importante. A evangelização do mundo é efetuadapor agentes humanos. E se eles falharem? O plano de Deus vai falhar? Nunca! Deus dispõe de todosos recursos, e se o servo humano recusar a chamada divina, Deus se servirá de outro. O único aperder será aquele que desobedecer. De todas as embarcações navegando no Mediterrâneo, a mais visível do trono do céu foiaquela em que Jonas viajava. Deus mandou sobre ela um forte vento (v. 4) ao ponto de ela sedespedaçar. Quem foge da vontade de Deus logo se sente cercado por circunstâncias que parecem serfatais. A viagem toda azul se torna negra. Quem viaja sem Deus está a caminho duma grandetempestade. As conseqüências da desobediência de Jonas são impressionantes. Outras pessoas inocentesforam envolvidas. Os próprios marinheiros, acostumados à fúria do mar, se atemorizaram.Clamavam, no seu temor, aos deuses falsos, por não serem conhecedores do Deus vivo e verdadeiro.Lançaram no mar a preciosa carga, causando enormes prejuízos ao dono. No século XX as
  • 26. 27conseqüências são parecidas. O cristão verdadeiro, fora da vontade de Deus, espalha, por onde quer ande,graves prejuízos para outros. E, pior de tudo, naquela hora em que a morte ameaçava, Jonas era umcrente de boca fechada. Em vez de falar do Senhor, estava dormindo. Parece incrível que dormia. A insensibilidade de Jonas para com os companheiros de viagemchocava-os. Ele não se importava. Face ao perigo de naufrágio, que podia ter sido a última hora desua vida, Jonas se calava, sem cuidar das almas perdidas na idolatria. O crente fora do caminho não ébom evangelista! Jonas dormia profundamente (1.5). Em sua fuga da realidade, entregou-se aos braços deMorfeu. As vezes o sono é para o cristão desviado o que o álcool ou a droga são para o mundano, oveículo da evasão. A rejeição da vontade de Deus cria facilmente a tensão nervosa e o cansaço físico. Acordado do sono inoportuno, Jonas foi interrogado pelos marujos, à procura do auxílio dodesconhecido Deus do passageiro. Os adeptos dos falsos deuses estavam rezando com mais zelo queo crente no verdadeiro Deus Javé! Quando lançaram sortes para identificar o objeto da ira dosdeuses, a sorte caiu sobre Jonas. A soberania do Senhor controlou o movimento do dado na mãocálida do marujo pagão. A sorte não existe para o servo do Senhor! Os mínimos detalhes da vidaobedecem ao plano divino. Sendo interrogado, Jonas revelou qual a sua religião, porém não lhes revelou a sua ocupaçãode pregador. Pregadores desviados também existem ainda hoje. A essa altura, Jonas cedeu à condenação da consciência. Profundamente abalado pelasconseqüências da sua desobediência, contemplou a fuga final do suicídio. Pediu que os marinheiroso lançassem no proceloso mar, talvez como expiação para todo o mal causado. 6 um consoloobservar que Deus não abandonou esta alma tão desesperada. A humanidade comum dosmarinheiros não aceitou a solução fatal, sem primeiro tentar alcançar a costa. Aqui há uma lição. Nomundo inteiro não há quem possa livrar-se do processo circunstancial posto em movimento peloSenhor. Jonas ficou preso nas malhas tecidas pelas mãos do Pai celestial. Em vão os homensremavam, esforçando-se por alcançar a terra. Custasse o que custasse, o passageiro Jonas teria deaprender que servia ao Senhor de todas as circunstâncias. E instrutivo observar que a desobediência de Jonas não agravou o estado espiritual dosespectadores do drama. Ao contrário, os marinheiros chegaram a conhecer o Senhor. Adoraram esseDeus tão pessoal que podia controlar os elementos a fim de circunscrever a vida de um só homem. Adisciplina do Senhor despertou neles o reverente temor. O primeiro capítulo termina num xeque-mate. No jogo da vida, Jonas era livre para fazer qualquer movimento, mas o adversário divino pôstermo à partida com a última peça jogada: "Deparou o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas." (1.17) O crente desviado jamais ganha uma partida contra o Senhor das circunstâncias. Para Jonas,três dias e três noites na espessa escuridão das entranhas do monstro marítimo bastaram pararender-se incondicionalmente. Deus mandou o grande peixe no momento exato em que Jonas foientregue às ondas. O plano divino é sempre perfeito. O profeta experimentou a mais profundadepressão espiritual, antes de voltar ao caminho da obediência. Apesar das muitas falhas notestemunho de Jonas, sua experiência apontou para Jesus, sua sepultura e ressurreição. Quemaravilha que Deus manifesta a glória de Jesus Cristo em vasos de barro insubmissos e indignos detamanha honra!A Oração de Arrependimento e a Volta à Obediência (Cap. 2) "Então Jonas do ventre do peixe orou ao Senhor". (2.1) Até este momento na narrativa, Jonas não tinha orado. A desobediência sempre enfraquece avida de oração. Na sua angústia ele clamou ao Senhor. Muitas vezes o Senhor permite que o
  • 27. 28desviado sofra, para que clame novamente a ele em oração. A depressão espiritual de Jonas foi tãoprofunda que a sua linguagem antevê a descrição dos horrores sofridos por Cristo na cruz. Dentrodo peixe, Jonas reconheceu finalmente que Deus estava manobrando todas as suas circunstâncias eorou: "Tu me lançaste no profundo." (2.3) Este reconhecimento da autoridade absoluta do Senhor foi o primeiro passo no caminho devolta. Como judeu piedoso, Jonas mandou a sua oração para o templo na cidade santa de Jerusalém(2.7). O profeta que se queixara da comissão missionária que lhe fora entregue, agora agradeceu aoSenhor! (2.9). E prometeu fazer sacrifícios, e cumprir as suas promessas ao Senhor. Isto, sim, ésalvação. Arrependido da sua desobediência, Jonas recebeu incontinenti a resposta graciosa deDeus. O peixe vomitou a Jonas na terra. Como neste caso notável, as nossas circunstâncias são umaprisão para nós até que voltemos ao espírito de plena obediência.A Obediência sem Amor (Cap. 3) "Veio a palavra do Senhor segunda vez." (3.1) Deus é paciente e misericordioso. Quantas vezes ele renova a sua chamada para com os querecusaram com insistência o privilégio de cooperar com ele! Assim foi que Jonas se levantou e foi a Nínive. Da costa do Mediterrâneo até Nínive seria umaviagem de uns 1500 km. Naquela época a viagem levaria algumas semanas. Quando finalmenteJonas chegou, percorreu a grande cidade. Só para atravessar a área municipal era necessário andarpor três dias. A periferia da cidade teria talvez uns 100 km. Jonas obedeceu ao pé da letra. Foi até à cidade odiada, e entregou a mensagem fatídica: "Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida." (3.4) Jonas odiava os ninivitas. Portanto, sentia uma satisfação íntima em vaticinar a destruiçãodessa cidade. Embora obedecendo à ordem divina, ele obedecia sem amor ao próximo. O pregadordeprimido não tinha compaixão. Pregava o juízo, mas sem uma lágrima nas faces. Prenunciavasadicamente o fogo e o enxofre. Por conseguinte, havia uma ausência total de gozo na suapersonalidade. Surpreendentemente, todos os habitantes, até o rei no trono, se arrependeram. Asinceridade do rei pagão se externou num edito real chamando o povo ao jejum, à oração e àmudança de vida. Deus tomou conhecimento do real arrependimento dos ninivitas, e os poupou.Nínive não foi destruída. E, assim, a profecia de Jonas não se cumpriu. Este fato desanimou Jonas,por duas razões. Primeiro, porque ele desejava a destruição de Nínive. Segundo, porque a suareputação como profeta seria comprometida entre os judeus. Sobre esse segundo ponto,observemos a diferença entre a profecia e o apocalíptico. A profecia é sempre condicional, dando aohomem a oportunidade ou de aceitar ou de rejeitar o recado divino. A obediência acarreta a bênção,e a desobediência a maldição. Este princípio fundamental foi entregue a Israel por Moisés(Deuteronômio 28). O apocalíptico, porém, é incondicional e há de se cumprir. O livro de Daniel éapocalíptico, revelando as coisas já determinadas, cujo desenvolvimento não depende de decisõeshumanas. Esta distinção entre profecia e literatura apocalíptica deve ser considerada.Obediência Sem Amor (Cap. 4) Jonas sentiu um terrível desgosto por ver o povo de Nínive perdoado da sentença por eleproclamada. Sua depressão espiritual ainda não estava curada. Orou zangado com Deus. Umaexplosão de ira não poucas vezes indica uma obediência imperfeita, ou uma queixa interior contra oSenhor. Em sua oração, protestou contra a grande misericórdia divina:
  • 28. 29 "Eu sabia que és Deus clemente." (4.2) Jonas tinha um conhecimento teórico do amor de Deus. Teologicamente admitia que Deus éamor. O problema crucial foi a aplicação da teologia ortodoxa à realidade vivencial. O seu ódio paracom os ninivitas era maior do que o seu amor para com a mensagem da graça divina. O ministério de Jonas foi instrutivo. Ele pregava com satisfação a mensagem do fogo eenxofre. Mandava para o inferno. Obedecia, mas sem amor. Nenhuma lágrima descia em suas faces.Tinha mais interesse pela sua reputação como pregador do que pela salvação dos perdidos. Para ele,as palavras pregadas eram mais importantes que as pessoas. Este egoísmo crasso, estainsensibilidade desumana servem como lição para todos os pregadores. Tamanho orgulho levouJonas mais uma vez a desejar o suicídio. "Melhor me é morrer do que viver." (4.3) Não é difícil o verdadeiro crente ceder à tentação da autodestruição, uma vez que se tenhaafastado do Senhor, ou que lhe tenha obedecido maquinalmente, mas sem amor. Deus dialogou com Jonas com imensa paciência. Jonas não lhe respondeu, assentou-se forada cidade de Nínive, "até ver o que aconteceria à cidade." (4.5) Tão duro foi o coração do profeta, que este ainda esperava que Deus mudasse depensamento e destruísse a cidade odiada! Ele quis salvar a sua reputação de profeta até o fim. Queos peritos em escatologia se lembrem dele . . . A única vez que lemos que Jonas se alegrou ocorreu quando uma planta lhe ofereceu sombrano calor do dia. Talvez não exista em todas as Escrituras um exemplo de egoísmo espiritual tãomarcante como Jonas. Devemos admitir, no entanto, que muitas vezes somos semelhantes a ele.Interessamo-nos por alguma coisa passageira, de valor insignificante, mas que nos dá prazer àexclusão de todo interesse pelas almas que perecem ao nosso redor. O mesmo Deus que lançou sobre o mar um forte vento, que deparou um grande peixe, e quefez subir uma planta frondosa, enviou também um minúsculo verme. Na verdade, "todas as coisascooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Romanos 8.28). Deus não poupa esforços paraensinar a seus servos as suas verdades. Deus é sempre Senhor das circunstâncias, contornandoqualquer situação humana a fim de impor a sua vontade. A planta confortadora murchou, e Jonas foi exposto ao desconforto do siroco, ventoabrasador que sopra no Oriente Médio. O sol causticante fê-lo desmaiar. Mais uma vez a depressãoespiritual levou Jonas ao caminho da autodestruição. "Melhor me é morrer do que viver." (4.8) Deus não tinha atendido às expectativas do profeta. Em vez de vingar-se, mostroumisericórdia para com o povo crudelíssimo de Nínive. E em vez de proteger o seu profeta, deixou-osofrer, abalando-o com o siroco. Jonas foi tão egoísta que não aprendeu a lição. Foi necessário que oSenhor lhe explicasse. "Tens compaixão da planta! " (4.10) Finalmente Jonas aprendeu. Deus tem compaixão dos pecadores. Por isso foi que mandouJonas em primeiro lugar para Nínive. É a compaixão, o amor na prática que é o recado divino. Jonasentão não sentia esse amor para com os perdidos, especialmente do estrangeiro, e maisparticularmente da Assíria. Quem prega sem compaixão, sem amor, não articula bem o recado deDeus. O amor de Jonas se limitava a si mesmo. A sua compaixão ora egocêntrica. Mesmo assim, comogrão de mostarda, aquela compaixão que sentiu para com a planta pôde servir-lhe de um pequeninoexemplo. Como a compaixão de Deus é grande!
  • 29. 30 "Não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive?" (4.11) Deus não ama uma nação mais do que outra. O seu amor é infinito. Sabe amar os pioreshomens com um perfeito amor, até o ponto de dar o seu único Filho para salvá-los. Deus não éracista. Com Deus não há distinção de pessoas. Em Nínive, viviam 120.000 pessoas "que não sabiam discernir entre a mão direita e a mãoesquerda" uma referência às crianças. Com este número de crianças, havia com certeza mais demeio milhão de habitantes, todos precisando da salvação. Deus ama as crianças como Pai celestial.Será possível que o coração insensível de Jonas não responderia ao apelo tocante de criancinhasinocentes? Quem evangeliza uma criança ganha uma pessoa inteira. Quem evangeliza o adulto ganhauma vida já gasta pela metade. A cegueira espiritual de Jonas vedou-lhe os olhos, para não perceberquão grande era a oportunidade da sua missão. Ganhando as crianças, a futura geração seria bemdiferente da dos pais. O Senhor conhece os seus servos. Sem dúvida Jonas era de uma família de agricultores. Dariavalor aos rebanhos de bois e de ovelhas, riqueza principal da época. Mais uma vez o Senhorraciocinou com o profeta sem amor. Para que sacrificar animais de tanta utilidade e de tanto valor?Deus tem compaixão até dos animais como Criador. A lição é clara. Quem ama, deve amar toda a criação de Deus: as plantas, os animais e oshomens. Deus ama o mundo. Para nós sermos porta-vozes do Evangelho de Jesus Cristo é precisoaprender a amar. Não basta pregar a verdade, toda a verdade e somente a verdade. O livro de Jonasnos ensina que a obediência ao apelo evangelístico e missionário não é válida sem a demonstraçãode amor real. 5. JUSTIÇA E ESPERANÇA MIQUÉIAS Miquéias vivia num período privilegiado quando o mais famoso pregador do mundo daépoca, Isaías, empolgava todo o mundo com os seus belíssimos sermões a respeito do glorioso reinovindouro do Messias. Na sombra deste gigante da fé, o jovem Miquéias confirmava as mesmaspromessas maravilhosas do seu ilustre contemporâneo. Houve, porém, muita diferença entre osdois homens. Isaías, o pastor de língua melíflua, era de estirpe fidalga. Tinha acesso ao paço real.Corria em suas veias sangue azul. A sua grande cultura e a sua profunda espiritualidade produzirama obra mais majestosa de toda a profecia bíblica. Viu o futuro Messias, como Servo do Senhor, que dáa sua vida em resgate de muitos, para depois receber o reino eterno. Viu-o, com tanta clarividência edetalhe, que o seu livro merece o justo título de "O Quinto Evangelho". Em contraste com ele,Miquéias era moralista, nativo da modesta vila de Moresete-Gate, de pouca importância, e cujaexistência seria totalmente desconhecida, se não fosse pelo fato da ligeira menção de que nelanasceu o profeta. Os séculos limparam do mapa esse local sem prestígio, deixando para osarqueólogos futuros a tarefa árdua de analisar os seus escombros no subsolo rochoso da região deTell el-Judeidah, a uns 30 km a sudoeste de Jerusalém. Outros contemporâneos eram Oséias e Amós, que denunciaram a vil opressão do pobre, e afatal corrupção moral e espiritual que estava minando os alicerces da nação. O eco dessasadvertências proféticas se ouviu também no recado veemente do campesino iluminado, Miquéias,cujo nome significa "Quem é como Javé?"Profecia contra Israel e Judá (Cap. 1) Não obstante a separação política entre Israel ao norte e Judá ao sul, Miquéias percebeu que
  • 30. 31os dois povos irmãos estavam se preparando para o mesmo destino fatal. A sua visão era sobreSamaria e Jerusalém, as duas capitais ameaçadas pela ira do Senhor Deus (1.2). Em grande contrastecom os deuses pagãos, o Deus vivo é o Deus da criação, o Deus que manda terremotos e dilúvios(1.4). Ele age segundo os reconhecidos princípios de justiça imediata com a vida moral e espiritualdo povo. A espantosa queda das duas capitais teria como causa "a transgressão de Jacó e o pecadode Samaria" (1.5). A lei de causa e efeito tem a sua máxima expressão na história espiritual dosjudeus. O dilúvio, a destruição de Jerusalém e o exílio demonstram com grande alarde este princípio:"O salário do pecado é a morte!" (Rm 6.23). O profeta previu até mesmo que, num futuro remoto, osarqueólogos procurariam nos escombros das duas belas cidades capitais vestígios duma civilizaçãodesaparecida. A própria natureza retomaria a área geográfica onde outrora havia esplêndidashabitações (1.6). A grande ofensa religiosa de Israel foi a famosa estátua de um boi dourado em Samaria, acapital. O profeta denunciou a festa do boi, e a prostituição que a acompanhava (1.7). O reino deJudá iria experimentar maravilhosos reavivamentos espirituais com bons reis como Ezequias eJosias, mas mesmo na nação mais privilegiada a contagiosa idolatria chegaria até Jerusalém,assegurando o cumprimento da profecia quanto ao seu fim. Miquéias, sulista que era, lamentou a futura destruição da sua cidade capital, a belaJerusalém, e previu que a queda alegraria os inimigos dela. Com tristeza ele vaticinou a tomada dasua cidade natal, Moresete-Gate, que tanto amava e que seria dada de presente ao invasor caldeu(1.14). Nos tempos primitivos, os judeus que faziam voto ao Senhor tinham o costume de mandarrapar a cabeça, como sinal da sua promessa (Números 6.18). Era também sinal de luto (Jeremias16.6). Miquéias viu em visão todos os habitantes da sua cidade calvos como águia por causa dadestruição que levaria os filhos, ou para a morte, ou para o exílio (1.16).Profecia contra os Opressores (Cap. 2) No primeiro capítulo Miquéias aponta para o pecado perpetrado contra o Senhor pelo cultoidólatra instalado em Samaria, e que alcançaria Jerusalém. Aqui, no segundo capítulo, ele frisa opecado cometido contra o próximo. A exploração econômica e a violência (2.1) acarretariam ojulgamento divino do exílio (2.3). A maioria dos pregadores daquela época não aceitava essa mensagem de julgamento. Paraeles a pregação de Miquéias era babugem (2.6). Os pregadores populares negavam redondamente orecado fatídico de Miquéias. Prevalecia a idéia de que Deus é tão bom que nunca julgaria o seu povo(2.7). No século XX, também, não é difícil achar os que não acreditam que haverá um julgamentopara os que crêem. Bradam: "Somos salvos. Deus não vai nos julgar!" De fato, não haverá juízoeterno para quem crê em Cristo para a salvação. Mas quantas vezes as Escrituras advertem oscrentes do julgamento para eles! Paulo confirma o fato de que todos nós compareceremos "peranteo tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio docorpo" (2 Co 5.10; Rm 14.10; 1 Pe 4.17). Em todos os séculos o pregador fiel é obrigado a entregaresta mensagem impopular. Miquéias foi obrigado a pregar sobre as conseqüências do pecado navida dos que crêem. "Ide-vos embora, porque não é lugar aqui de descanso; ide-vos por causa da imundícia que destrói, sim, que destrói dolorosamente." (2.10) O pecado no seio do povo de Deus é destrutivo! Mesmo quando o crente peca e pede perdão,Deus de fato perdoa, mas as conseqüências são irreversíveis. Deus perdoou Davi de seu pecado comBate-Seba, quando ele se arrependeu, mas Deus não impediu o dramático desenrolar dasconseqüências, envolvendo uma guerra civil em que pereceram vinte mil pessoas (2 Samuel 18.7).Deus perdoa, mas não remove as cicatrizes. Miquéias deu esta advertência quanto às conseqüênciasdo pecado, mas a severa palavra foi temperada com a mensagem da misericórdia divina. O Senhor
  • 31. 32guardaria um restante fiel (2.12), e num relance inspirado Miquéias perscrutou o futuro, ereconheceu a vinda do Messias como um pastor indo adiante das ovelhas (2.13). Previu ele assim oBom Pastor de João 10, que dá a sua vida pelas ovelhas.Profecia contra as Autoridades (Cap. 3) Os dirigentes da nação, os políticos, os sacerdotes, e os pregadores eram responsáveis pelainversão dos valores morais: aborreciam o bem e amavam o mal (3.2). Amós denunciou essasituação, dizendo: "Buscai o bem e não o mal" (Amós 5.14). Se ousassem, os pobres e os inocentes daterra teriam muito que dizer sobre os ricos fazendeiros que oprimiam os trabalhadores braçais(3.3). Hipocritamente, os fazendeiros rezavam ao Senhor, mas por causa da sua exploração sobre ospobres, ele não os ouvia Outrossim, os profetas falsos pregavam, mas para o seu próprio benefício.Quando eles tinham de tudo, pregavam sermões sobre a paz (3.5). Quando não recebiam gordascontribuições, apregoavam "guerra santa". Por isso, para eles tampouco não haveria resposta deDeus, no dia angustioso da sua ira (3.7). Quão diferente era o ministério do fiel pregador Miquéias! Ele estava cheio de poder doEspírito do Senhor (3.8). Ele reprovou corajosamente o materialismo interesseiro, a crassa injustiça,e a religiosidade falsa dos líderes da nação, que persistiam em dizer que o Senhor estava com eles, eque nenhum mal aconteceria (3.11). Miquéias predisse exatamente o contrário, e vaticinou odesmoronamento da santa cidade e do templo, que se tornariam montões de ruínas cobertas demato (3.12).Profecias dum Futuro Remoto (Cap. 4) Os primeiros versículos deste capítulo são idênticos a Isaías 2.2-4. Sendo Isaías o maisilustre e famoso dos dois, é provável que Miquéias tenha copiado essa profecia. Seja como for, amensagem foi inspirada originalmente pelo Espírito Santo. A profecia é muito notável nisto, que serefere a um período ainda futuro hoje. Fala-se da soberania espiritual de Israel sobre todas asnações, e o reino universal da paz (4.3). O quadro panorâmico pinta a restauração final de todas ascoisas (ver Atos 1.6) É o tema predileto dos profetas: o triunfo absoluto do Senhor ao fim da históriahumana. Num rápido relance, o profeta viu o exílio na Babilônia, e a volta para a terra prometida,como dores de parto, antes que Israel desse à luz o Filho esperado, o Messias. Viu também oArmagedom (4.11) e o triunfo final de Cristo, o Senhor (4.13). Essa profecia abrange quase 3000anos de História! Dentro do esquema profético, Miquéias colocou a vinda de Cristo como pontocentral da sua revelação.Profecia acerca do Messias (Cap. 5) O Velho Testamento contém literalmente centenas de profecias a respeito do Messias queviria. A probabilidade de que todas elas se cumprissem seria como uma chance num bilhão. Eis aglória de Jesus Cristo, que ele não deixou de cumprir nenhuma profecia a seu respeito. O filósofofrancês, Blaise Pascal (1623-1662), no seu famoso livro "Pensées", utiliza o argumento documprimento das profecias bíblicas como evidências da fidedignidade do Evangelho, em contrastecom outras religiões: a diferença entre "Jesus Cristo e Maomé é que Maomé não foi predito,enquanto que Jesus Cristo foi, sim."* Salienta Pascal o fato interessante de que nem os profetas nemos santos foram preditos: eles só predisseram; mas "Jesus Cristo predisse e foi predito." 1 O Espírito Santo inspirou Miquéias a identificar a pequena cidade natal do futuro Messias.Com centenas de cidades na região, a escolha de Belém se torna uma profecia notável. E se Mariativesse demorado apenas mais 24 horas na viagem de Nazaré a Belém, Jesus teria nascido fora dacidade proferida pela profecia messiânica (Mt 2.5). Se esta profecia de Miquéias não se tivessecumprido, toda a estrutura profética do Velho Testamento teria caído com ela! Miquéias, humilde cidadão de uma vila inexpressiva, alegrou-se com a revelação divina deque o Cristo nasceria numa cidadezinha parecida com a sua, e não na imponente capital. A revelação1 Pensées, Pascal, "Livre de poche", pp. 191, 263.
  • 32. 33confirmou que o futuro nenê de Belém reinaria e, mais ainda, que ele seria um ser que existe "desdeos dias da eternidade"; seria o próprio Filho de Deus! (5.2) Ele teria o coração de pastor, paraapascentar o povo, e a força necessária para cumprir o propósito de Deus (5.3). Não é que ele viriasimplesmente para impor a paz: Miquéias disse que ele será a paz (5.5). Uma paz universal, uma pazimplantada no coração humano, e não o resultado de uma pressão externa. Que maravilha que Deusescolheu o humilde campesino Miquéias para ser o porta-voz de acontecimentos que se cumpriramsete séculos depois! Depois da longa demora, o mundo ouviu a proclamação angélica: "Glória a Deusnas alturas, e paz na terra entre os homens". Nascia Jesus, o Príncipe da paz, que no seu ministériodeclarou: "A minha paz vou dou" (João 14.27). Não é a paz instável da política humana, mas a pazduradoura da reconciliação com Deus pelo sangue do Calvário. "Temos paz com Deus, por meio donosso Senhor, Jesus Cristo (Rm 5.1). Antes da vinda do Messias, porém, haveria a invasão pela Assíria (5.5), mas o Senhorprometia guardar para si um restante de Jacó (5.8). A sobrevivência dos judeus é um fenômenoextraordinário da História, que confirma a veracidade das profecias bíblicas. Outros povos e naçõesdesapareceram, mas Deus não permite, mesmo no século XX, o aniquilamento dos judeus. É um ditado certo que o judeu assiste ao enterro de qualquer potência que tente destruí-lo. Paulo nutre estemesmo otimismo para com o seu povo segundo a carne em Romanos 11. Miquéias previu também oreino glorioso do Messias, quando ele fará uma limpeza radical do mundo. Profetizou que não maishaverá exército, nem carro blindado, nem fortalezas (5.10, 11); que serão eliminados o espiritismo,a bruxaria, a umbanda e os adivinhadores (5.12). Todas as imagens religiosas serão destruídas.Desaparecerá o "poste-ídolo", símbolo sexual do culto à fertilidade cananéia, que atraía tantosadeptos, em nome da religião. No fim do século XX, que parece marcar o ocaso da civilizaçãoocidental, a preocupação com o sexo substitui a religião como assunto de importância suprema.Miquéias percebeu o nexo entre o abuso do sexo e a "ira e furor" do Senhor (5.15). De igual modo,há uma relação entre a preocupação sexual moderna e a segunda vinda de Cristo. A aberraçãosexual dos dias de Ló foi castigada pela chuva de enxofre e fogo. E significativa a militância doshomossexuais até mesmo na América do Norte, com a sua tradição bíblica e ética puritana. Ohomossexualismo é condenado na Bíblia (Romanos 1.26, 27). No entanto, existem igrejas parahomossexuais nos Estados Unidos, e denominações menos conservadoras teologicamente admitemhomossexuais no sagrado ministério! ... Tal desregramento sexual nos países "cristãos" do ocidenteconvida um Deus santo a agir em juízo novamente.O Povo de Deus em Xeque (Cap. 6) Neste capítulo Miquéias desafiou Israel, apresentando o argumento do Senhor contra anação, como se houvesse litígio entre eles. Foram chamados de "testemunhas" os montes e osouteiros, para testificar da imutabilidade do Senhor. Como evidência, o Senhor citou casosespecíficos do passado quando mostrou o seu poder em favor de Israel. Fez lembrar do prodígio dasaída do Egito sob Moisés, e da sua proteção contra as maquinações de Balaque, rei de Moabe.Foram atos de justiça (6.5). O Senhor, entristecido pela infidelidade de Israel, protestou que nãomuda. É Israel que mudou de atitude para com ele. Miquéias tomou em seguida palavras que queriacolocar na boca do povo rebelde. Por acaso Deus desejava milhares e milhares de animaissacrificados em holocausto? Ele requereria a morte de um filho para expiar o pecado de Israel? (6.7)Não, Deus não exigiria tamanho sacrifício externo. O que Ele deseja acima de tudo é a mudança deatitudes morais e espirituais. Os sacrifícios não têm valor quando o coração não obedece ao Senhor.Nisto Miquéias confirmou a mensagem de Oséias e Amós: "Pois misericórdia (chesed) quero, e nãosacrifício" (Oséias 6.6). É um conceito essencialmente pagão que a quantidade de sacrifício oferecidainflui diante de Deus. A oferta de milhares de carneiros (v. 7) conseguiria mais favores da divindade,segundo esse pensamento. Como Jesus ensinou, as duas pequenas moedas da viúva representaramuma oferta "maior" do que as vultosas ofertas dos ricos (Marcos 12.43). Também o paganismoexalta o valor intrínseco para influenciar a benevolência do seu deus. O pagão oferecia o própriofilho, como expressão máxima de culto, a Moloque, e os israelitas tinham caído nesta prática
  • 33. 34revoltante! Antes de relegar tais práticas ao passado remoto, merece consideração o fato de que, emcertos casos, crentes em Jesus Cristo querem compensar um pecado não abandonado, dando umagenerosa oferta especial para qualquer campanha da igreja. Pode-se também "sacrificar" o filho,mandando-o para o seminário, com a idéia de ganhar pelo menos um pouco de crédito. "Vou mandaro meu filho para ser pastor. Deus me pagará! " Deus não procura tais sacrifícios e ofertas. Deus quer que o homem adote três atitudes.Primeiro, que pratique a justiça (6.8). No Velho Testamento o conceito de justiça é o cumprimentodas exigências da lei. O decálogo sendo o prumo da justiça, o homem deve agir em conformidadecom ela. Com esta ênfase, Miquéias chamou o povo de Israel a uma volta à Palavra de Deus, e ao seupadrão ético. Segundo, que ame a misericórdia. A palavra "misericórdia" traduz o hebraico chesed, que significa amor leal. É como vimoscom o profeta Oséias (6.6). E bem mais fácil colocar muito dinheiro no gazofilácio da igreja, do queagir em amor leal para com Deus e o próximo! Terceiro, que ande humildemente com o seu Deus. Oorgulho é o pecado original. A sua pior manifestação, e a mais sutil, é o orgulho espiritual, tendocomo exemplo clássico o farisaísmo. Eis o perigo de quem se considera "mais espiritual" do que osseus irmãos! Qualquer movimento religioso que coloca seus adeptos numa posição desuperioridade, como cidadãos de primeira classe no reino de Deus, desfavorecendo os demais nasegunda classe, não entende o sentido desta verdade profética. Quanto mais o homem conhece aDeus, tanto mais ele sabe que não é nada (Gálatas 6.3). A aquisição dos grandes conhecimentosbíblicos, o dom da eloqüência na pregação, e as maravilhosas experiências místicas nutrem com amaior facilidade a soberba espiritual. A humildade é virtude rara, e por isso Jesus a coloca emprimeiro lugar, como a primeira das bem-aventuranças (Mt 5.3). Tendo insistido na prioridade absoluta da justiça, Miquéias passou a especificar exemplosconcretos da injustiça na nação. Os comerciantes e revendedores usavam balanças falsas. Na feira, oagricultor se servia duma pedra escondidinha, que caía na balança na hora da venda de frutas ...(6.11). Os ricos ameaçavam os pobres, tomando posse violentamente dos seus casebres miseráveisquando o dinheiro não dava para pagar o aluguel. Hoje também, a mentira é aceita como"necessária" no comércio, especialmente quando se preenche a declaração do imposto de renda. Adesculpa dada é que o governo sabe que todo o mundo faz assim. Mais ainda, o governo esbanja odinheiro! Chega-se à conclusão que, com a inflação, é preciso fazer como todo o mundo para terlucro razoável . . . No entanto, Deus olha para o comércio, para ver como o seu povo se comporta nos negócios.Ele vê a incoerência entre a profissão de fé articulada no Dia do Senhor no seu santo templo, e amaneira puramente mundana com que o seu povo faz os negócios durante a semana, extorquindoum gordo lucro injustificável, e mantendo dois registros de venda: o oficial para o fiscal do governo,e o real para o comerciante tão religioso (no dia do Senhor). Deus detesta esta duplicidade, eanunciou o seu castigo severo que haveria de cair sobre o povo chamado pelo seu nome. O Deus daverdade julgará o povo, e a sua prosperidade desaparecerá e virá a desolação final. Deus nãopermite uma dicotomia entre a ética da verdadeira religião e a vida prática do dia-a-dia (6.16).Deus Ama com Amor Eterno (Cap. 7) O campesino Miquéias comparou Israel a um pomar ou a uma videira depois da época dacolheita, quando não se encontram mais frutas (7.1). Por analogia, desapareceu da sociedade ohomem piedoso e honesto que produz bons frutos (7.2). Em escala nacional, praticava-se o mal. Oschefes da nação estavam de mãos dadas para cometer injustiça, suborno e cobiça (7.3). A falta deconfiança era geral, e se extendia até o seio da família (7.6). A situação de Israel era desesperadora. No entanto, Miquéias confiava no Senhor. O profetase identificou com o seu povo, confessando o pecado que merecia o julgamento divino (7.9). Comclarividência, olhou além da derrota certa do povo de Deus, e discerniu o dia distante, mas seguro,quando Sião, reedificada e ampliada, atrairá todas as nações do Oriente Médio (7.12). O Senhor será
  • 34. 35o seu pastor, e as nações respeitarão finalmente o povo de Israel (7.14). Miquéias louvou o Senhorque perdoará o seu povo, "lançando todos os nossos pecados nas profundezas do mar" (7.19). Elebaseou esta confiança na aliança que Deus fez com os patriarcas, a quem revelou a sua"misericórdia", ou amor leal. Cumprir-se-á a promessa do Senhor, e Israel, e as nações, saberão queDeus ama com amor eterno (7.20). 6. CONTRA O TOTALITARISMO MILITAR NAUM No ano 722 antes de Cristo, as profecias de Isaías, de Oséias e de Amós se cumpriram, e apequena nação de Israel, ao norte da Palestina, desapareceu. Os golpes cruéis do exército assírioesmagaram a cidade de Samaria, capital de Israel, e o seu exército. Logo em seguida, o povo passoupela humilhação de ser levado para o exílio na Assíria. A amada terra de Israel foi praticamenteabandonada, tornando-se uma região selvagem onde as feras eram as donas da terra. Comoescravos, os israelitas foram servir o monstruoso sistema totalitário instalado pelo exército maiscruel da história antiga. A crueldade dos assírios foi notória, e os países na circunvizinhança sempreviviam com medo de uma invasão pelas forças invencíveis da Assíria. Com a passagem dos anos, o Império Assírio chegou ao apogeu do seu poder. Muitos paísesforam assimilados no imenso império. Ninguém conseguiu resisti-lo. Uma notável exceção fora ainvasão de Judá em 703 a.C. por Senaqueribe, o famoso general assírio. O piedoso rei de Judá,Ezequiel, apresentou-se publicamente no templo de Jerusalém, pedindo em oração ao Senhor a suaproteção. Veio a resposta, fulminante como um raio: "Então naquela mesma noite saiu o anjo doSenhor, e feriu no arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil" (2 Reis 19.35). Não se sabe qualfoi a epidemia com que o anjo do Senhor dizimou o exército assírio. A Bíblia narra laconicamenteque "Senaqueribe, rei da Assíria, se foi: voltou e ficou em Nínive". Uns cem anos depois da desastrosa queda de Samaria ao norte, o pequenino país satéliteJudá, ao sul, temia novamente as incursões expansionistas dos assírios. Naum, cujo nome significa"consolação", trouxe uma mensagem confortadora para o seu povo ameaçado, afirmando que amaior potência mundial seria completamente destruída. A sua profecia, escrita como poema, deveter sido considerada excessivamente/otimista, não obstante o fato de que o país de Judá tivesseexperimentado a salvação miraculosa do Senhor no tempo do bom rei Ezequias. O livro de Naummerece o seu lugar entre Os Doze, pois o inacreditável ocorreu. A Assíria, esgotada pelas inúmerascampanhas de agressão militar, foi vencida inesperadamente em 612 a.C. O exército da Babilônia,com o dos medas, conseguiu penetrar em Nínive, e a cidade foi incendiada. Mais uma vez vemoscomo a profecia bíblica se cumpre, mesmo quando menos se espera. A Palavra de Deus é a verdadeindestrutível. Ela não contém mentira nenhuma. A nossa fé é fortalecida quando lemos de centenasde profecias detalhadas cumpridas ao pé da letra. Eis o valor da leitura de Naum e demais profetasmenores. O mesmo Deus soberano que defendeu os pequenos países contra os agressores daantigüidade olha também para o mundo do século XX, quando países fracos como a Etiópia, aAngola, o Moçambique e o Afeganistão caem perante a agressão brutal das forças totalitárias eatéias do imperialismo marxista.Deus Reina entre as Nações (Cap. 1) O autor da profecia é "Naum, elcosita". Não há certeza quanto à identidade de Elcos, quedeve ter sido uma cidade da Palestina. Existem quatro teorias a respeito da cidade natal de Naum. 2 Asua profecia se dirigiu à nação de Judá, e por isso é razoável concluir que ele fosse natural daquelaregião do sul.2 Ver o Novo Comentário da Bíblia, artigo "Naum"
  • 35. 36 A poesia é escrita em forma de acróstico, nos versículos de 1 a 15. Que coragem tinha Naumde publicar uma poesia que começava com a frase "sentença contra Nínive", contra a capital do paísmais poderoso do mundo! Era corajoso, pois ele confiava num Deus todo-poderoso que é, ao mesmotempo, o Governador moral do universo. Deus toma vingança contra os seus adversários. Parece, àsvezes, que ele é tardio em irar-se (1.2). No contexto histórico de Naum, já tinham passado quase cemanos desde o saque impiedoso de Samaria, capital de Israel, e Deus não fizera nada. Permitiu que umpovo ruim, excessivamente cruel e idólatra destruísse o povo de Israel, descendentes de Abraão, deIsaque, e de Jacó, com os quais de tinha uma aliança eterna! Esta inatividade divina parece ser maisestranha ainda, quando Deus é conhecido pelo seu poder criador. As tempestades, os rios, os montessão todos obras das suas mãos. Quando ele se ira, até as rochas se fendem (1.6). O caráter moral deDeus é que ele é bom. Por isso é o refúgio dos que confiam nele, e o desespero dos que se lhe opõem(1.7). Este princípio fundamental da bondade do Deus todo-poderoso inspirou Naum. Este Deusreina entre as nações. Ainda que a Assíria possuísse a maior máquina bélica do mundo, os princípiosdivinos da justiça são inalteráveis (1.12). O jugo que pesava sobre o país de Judá, avassalado daAssíria, seria quebrado (1.13). Deus destruiria toda a hierarquia política da Assíria, e protegeria oseu povo que, embora insignificante, confiasse nele. O rei de Judá no tempo de Naum era Josias, oBom, que introduziu reformas religiosas maravilhosas, e devido a este reavivamento espiritual Deusos defendeu (2 Reis 22 e 23). Quando Naum chamou o povo de Judá a celebrar as suas festas (1.15),sem dúvida ele relembrou a famosa celebração da páscoa nos dias de Josias. Segundo 2 Reis 23.21,"Nunca se celebrou tal páscoa como esta desde os dias dos juizes que julgaram a Israel, nem nos diasdos reis de Judá." Perto do fim duma época. Deus sempre prepara um povo que o teme, para quesobreviva na terra como testemunha, seja qual for o sistema político. O vibrante otimismo e fé deNaum, face ao militarismo desumano dos seus dias, devem nos inspirar neste fim de séculoinseguro, quando as forças de agressão nua ameaçam todos os países pacíficos, para que sejamosrealmente o povo do Senhor, com um espírito de consagração e vitória.Profecia contra Nínive (Cap. 2) No segundo capítulo da profecia, Naum se dirigiu diretamente ao inimigo odiado pela suacrueldade, proclamando a sua derrota final. O profeta chamou o exército assírio a se preparar para aluta em termos irônicos (2.1). Tudo seria em vão, pois o Senhor tinha determinado a destruição deNínive. Fez até mesmo uma descrição acurada do que iria acontecer quando os exércitos babilônicoe meda invadissem a cidade. Os caldeus usavam uniformes vermelhos (2.3), fato notado pelo profetaEzequiel (Ez 23.14). Segundo o historiador grego Diodoro Sículo, o muro de Nínive possuía mil equinhentas torres numa extensão da uns 13 quilômetros, oferecendo uma defesa inexpugnável(2.5). Deus revelou a Naum que a vitória contra ela seria obtida através do Rio Tigre, que irrigava acidade. As forças do general Nabopolassar da Babilônia não conseguiam furar as imensas defesas deNínive, até que Deus mandou pesadas chuvas que inundaram as imediações da cidade, quebrandoos alicerces do muro (2.8). Os grandes diques que normalmente serviam de trincheiras de defesaforam tomados pelas águas, e em vão os comandantes deram ordem às tropas de parar (2.8). Agorao profeta chamava o inimigo de Nínive para que aproveitasse a oportunidade de recuperar dariquíssima cidade os tesouros fabulosos que ela tinha roubado de inúmeros países por elaesmagados (2.10). O orgulhoso símbolo do Império Assírio era o leão, mas agora a cova era invadidae os filhotes vorazes eram mortos (2.11). Atrás dos exércitos que cercaram e destruíram Níniveestava o SENHOR, soberano rei da terra (2.13).A Ruína Seria Completa (Cap. 3) A poesia épica termina com uma recapitulação da mensagem fatídica do profeta do Senhor.A cidade que se ufanava do seu exército invencível sofreria a mesma sorte das suas vítimas. Oscomandantes assírios, nas suas campanhas, amontoavam as cabeças de seus inimigos comomonumento de sua superioridade militar. Agora Nínive contemplaria o espetáculo atroz doscadáveres das suas tropas amontoados dentro da cidade! (3.3). Em nosso século o nazismo que
  • 36. 37massacrou 6 milhões de judeus indefesos nas câmaras de gás sofreu a mesma sorte quando suascidades foram reduzidas a escombros. Deus toma a responsabilidade moral da situação descrita: "Euestou contra ti", diz o Senhor (3.5). Uma das maiores cidades do Egito fôra Tebas ou Nô-Amom (3.8) sobre o Rio Nilo, conhecidapelos templos de Karnak e de Luxor, imensas construções que existem até hoje. Em 661 a.C. ogeneral assírio Assurbanipal a destruiu, apesar da aparente indestrutibilidade de defesa oferecidapelo rio. Os vencedores assírios esmagaram os corpinhos das crianças e lançaram sortes paradecidir quem teria os oficiais egípcios como escravos (3.10). Naum sabia que a mesma sorteaguardava Nínive, no futuro. As tropas que causavam espanto em todo o Oriente Médio agora setornariam fracas como mulheres (3.13). Ainda que Nínive chamasse todos os reservistas,numerosos como gafanhotos, todas as tropas iriam voar para fora, nada deixando atrás (3.16). Naum descreveu o excesso de confiança dos chefes militares da Assíria, que dormiamtranqüilos sem reconhecer o perigo. O povo da Assíria seria destruído e espalhado (3.18). Toda ahumanidade que sofrera a sua crueldade impiedosa bateria palmas no dia da sua derrota, poisreconheceria o triunfo da justiça sobre o militarismo desumano (3.19). 7. O AGENTE PUBLICITÁRIO DO SENHOR HABACUQUE Em todos os anais da história do Oriente Médio, nunca haviam sido registradosacontecimentos políticos tão assustadores. O império assírio chegava ao apogeu do seu poderiomilitar, esmagando com crueldade desumana todas as nações do crescente fértil formado pelosvales dos Rios Tigre e Eufrates a leste, e pelo vale do Rio Jordão a oeste. Em 612 a.C, esse impérioaparentemente invencível foi atolado pelo temível exército caldeu, oriundo da Babilônia, que logoassumiu a posição inconteste de superpotência no berço da civilização. A outra superpotência, oEgito, sentiu-se ameaçada, e em 605 a.C. enviou um poderoso exército ao norte, para refrear oprograma expansionista caldeu. O pequenino reino de Judá, país satélite na órbita do Egito, viu com satisfação as unidadesblindadas egípcias atravessarem a sua terra santa, para se lançarem contra as famigeradas divisõesdos caldeus. Assustado, Judá sentiu de perto o drama de sua forçosa participação na gigantesca lutaentre as superpotências mundiais. Que tragédia que, em cada século e em cada década, algum paíspequeno tenha que conhecer o horror de achar-se entre o quebra-nozes das superpotências! Como aHungria em 1956, a Tchecoslováquia em 1968, e o Afeganistão em 1980, Judá teve que enfrentar aperda da sua autonomia no grande jogo da política mundial. A Bíblia nos ensina que o Senhor não tem favoritos. Ele não poupa o seu povo da duraexperiência da condição humana. A fé no Senhor não é apólice de seguro contra os males comuns. Ocrente sofre tanto quanto o descrente. Surge então a pergunta: por que é que Deus não age em favordos seus? Eis o problema do crente Habacuque, que vivia mergulhado no remoinho causado pelostrágicos acontecimentos políticos da época. O magnífico exército egípcio, sob o comando do Faraó Neco, atravessou o deserto do Sinai.Passando por Judá, seguiu a estrada principal ao norte, e chegou a Carquemis na Síria, ondeenfrentou as forças babilônicas. Numa batalha decisiva em 605 a.C, os egípcios foram derrotados, erecuaram para a sua terra. Os vencedores babilônicos não perderam tempo em seguir os egípcios,ocupando toda a região de Israel e Judá. A cidade santa de Jerusalém foi cercada, e no mesmo anoestudantes judaicos foram levados como reféns para a Babilônia. Entre os exilados se encontravamDaniel e seus famosos colegas Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Daniel 1.1). Embora fossem osmais espirituais de todos os estudantes de Judá, Deus não os poupou, mas permitiu que sofressem amesma sorte angustiante que os demais estudantes descrentes de Judá, tecendo assim na sua
  • 37. 38soberania um plano todo especial para eles no cativeiro. Pregador já conhecido como "o profeta" (1.1), Habacuque não sofreu a mesma sorte por sermais idoso. Como observador do drama da destruição da pátria, este servo de Deus, na suaperplexidade, tentou conciliar a sua fé num Deus bondoso com a realidade cruel da invasão da Terrada Promissão. Se Deus é realmente o Soberano moral do universo e ao mesmo tempo o Deus deJudá, por que é que ele permitiu que a ímpia Babilônia prosperasse e o povo eleito de Judá fosse porela calcado?O Profeta Protestou a Deus (Cap. 1) Como homem de fé, Habacuque orou ao Senhor em tempo de angústia, mas Deus não lherespondeu. No passado ele conhecia a delícia da comunhão a dois com Deus. Mas agora Deussilenciava, e isto quando o profeta contemplava o desmoronamento da pátria amada. O Governadormoral do mundo devia preocupar-se com as infrações à sua santa lei. No entanto, em meio aoscuidados de uma situação perigosa e violenta, o profeta afirmava que Deus nem ouvia nem salvava: "Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não escutarás? Gritar-te-ei: Violência! e não salvares?" (1.2) Se Deus permite todas as coisas, por que é que ele não faz cessar a guerra? Há iniqüidade,opressão, destruição e violência na terra, e os males não são julgados por este Deus todo-poderosoque se declara santo e justo (v. 3). Habacuque sentia que a inoperância das leis de Deus levava opovo a abandoná-las: "Por esta causa a lei se afrouxa." (1.4) Em conseqüência, há uma inversão nos valores morais: "O perverso cerca o justo, e a justiçaé torcida." O triunfo do mal no mundo arrastou o profeta perplexo a um profundo pessimismo. Quando Deus lhe respondeu, afinal, a resposta parecia ser inacreditável. Ele advertiuHabacuque que a verdade sobre a situação era pior do que ele pensava, e dava para ele desmaiar! "Desvanecei, porque realizo em vossos dias obra tal que vós não crereis, quando vos for contada." (1.5) A Babilônia, essa nação amarga e impetuosa, foi suscitada, não por Satanás, mas por Deus: "Eis que eu suscito os caldeus." (1.6) Longe de ignorar a maldade opressora dos caldeus, Deus descreveu objetivamente aquelanação como "pavorosa e terrível" (1.7). Ela mesma criou o seu direito, não reconhecendo os direitosdos outros. A descrição divina da invencibilidade absoluta dos caldeus se lê quase como um elogioao povo inimigo. Se os caldeus "reúnem os cativos como areia, ... escarnecem dos reis, ... e riem-se detodas as fortalezas" (1.9-10), o profeta só podia entender que o povo de Judá, junto com o seu rei nafortaleza de Jerusalém cairia nas garras dos caldeus, com a inteira aquiescência do Senhor. Habacuque não pôde conter-se perante tamanha injustiça. Dirigiu uma prece ao Senhor,protestando-lhe a passividade divina: "Não és tu desde a eternidade, ó Senhor meu Deus, ó meu Santo?" (1.12) Se Deus é eterno, por conseguinte é imutável. O Deus santo não permitiria o extermínio doseu povo, com os demais povos subjugados. O profeta bradou com fé:
  • 38. 39 "Não morreremos!" (1.12) Embora fosse um castigo severo que Deus permitia, o profeta confiava na salvação final dopovo de Deus. Mas este Deus é tão santo que não via o mal perpetrado contra Judá: "Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal." (1.13) Surgiu no coração perplexo do profeta a grande pergunta: por quê? Por quê? Por que umDeus santo não contempla a miséria do seu povo? "Por que fazes os homens como os peixes do mar?" (1.14) Com ousadia Habacuque acusou o Senhor de tratar o seu povo como meros peixes. Osrépteis não têm quem os governe, mas os homens de Judá reconheciam o Senhor como oGovernador moral da nação. Judá fora tirado com anzol, e estava na rede varredoura dos caldeus(1.15). A Babilônia, como pescador, se alegrava e se regozijava, atribuindo o seu êxito às divindadespagãs. Corajosamente, Habacuque lançou a última palavra de desafio ao Santo Deus de Israel: "Acaso continuará, por isso, esvaziando a sua rede, e matando sem piedade os povos?" (1.17) A angustiante tensão entre a fé num Deus de amor e a realidade de uma situação política deinjustiça berrante e de violência imerecida não é fenômeno só do período de Habacuque. É umproblema básico de todos os séculos. No século XX, desde o fim da II Guerra Mundial, mais de umbilhão de almas — quase a terça parte da população do nosso planeta — tiveram que submeter acerviz ao jugo comunista ateu. Certamente o Afeganistão não será o último país a perder a suaindependência e a sua liberdade religiosa. A metade do mundo vive sob regimes ateus que oprimemtoda e qualquer religião. E milhões de almas piedosas, crentes num Deus soberano e bondoso,respiram com Habacuque: "Por quê?" "Os ateus continuarão matando sem piedade os povos?"O Profeta Procura Entender o Senhor (Cap. 2) É patente que Habacuque entendia os princípios básicos da oração. Procurou um lugarafastado, tranqüilo, uma torre de vigia, onde esperava e escutava. A oração não é apenas o falar. É Oescutar também. Como diz o salmista: "O Senhor me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo." (2.2) Naquela época remota quando o papel não era usado ainda, escrevia-se sobre tábuas debarro. Foram descobertas pelos arqueólogos modernos algumas tábuas antigas que remontam aoperíodo de Habacuque. Para fins de publicidade, Deus mandou escrever manchetes em tábuasenormes, tão grandes que "a possa ler até quem passa correndo". Esse primeiro cartaz evangelísticodo mundo serve ainda hoje como estímulo para nós no século de publicidade, da "mass-media".Deus quer que todos os homens saibam que ele os ama. "Deus tem falado muitas vezes e de muitasmaneiras " (Hebreus 1.1). No tempo de Habacuque Deus falou pelos meios publicitários do grandecartaz num lugar público. Habacuque era precursor de muitos crentes humildes do interior doBrasil que pintam, com letra tosca, versículos bíblicos nos rochedos à beira das estradas.Atualizando mais a idéia, quem sabe se não se tornará moda colocar bonitos cartazes bíblicos emtodos os ônibus e trens? Por que não colocar mensagens bíblicas iluminadas no cume dos arranha-
  • 39. 40céus das nossas cidades modernas? Habacuque, pioneiro da publicidade bíblica, preparou a imensa tábua de barro, e escreveuem manchetes o recado que Deus lhe revelara na torre de vigia: "Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé." (2.4) "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus." (Salmo 46.10) Os mais entendidos na vida espiritual sabem que leva tempo para conhecer a Deus, o Deusque habita a eternidade. O silêncio reverente faz parte essencial da oração: A voz divina o advertia que a palavra não se cumpriria imediatamente, "mas se tardar,espera-o" (2.3). Que significação tem esta mensagem nos dias de hoje? Primeiro, nos assegura que Deus jáfez uma avaliação da situação mundial. Sabe que o mundo é dominado pela soberba arrogânciahumana. E o Senhor já julgou o espírito do mundo: "Sua alma não é reta." (2.4) Em qualquer país se pode achar injustiça, opressão e exploração. Os cristãos conscientizadosclamam ao Senhor da justiça que intervenha logo. E quantas vezes ficam perplexos, frustrados, e ?finalmente desanimados, pois o Deus da Bíblia não lhes dá ouvidos: Não destrói o iníquo. Não tira otirano do poder. Não faz parar miraculosamente os tanques invasores. E neste momento em que asdúvidas invadem a alma, e assaltam o raciocínio, quando o homem piedoso é tentado a abandonar afé num Deus bom, vem como trovão a mesma resposta dada a Habacuque, séculos antes de Cristo: "O justo viverá pela sua fé! " (2.4) Mas fé em quê, e em quem? Fé no Senhor da História, fé no Senhor do universo, que um diahá de reinar sobre esta terra. Fé naquele que nos ensinou a orar: "Venha o teu reino", e mais ainda,"pois teu é o reino" (Mateus 6.10-13). O apóstolo Paulo aproveitou esta mensagem, fazendo dela suamaior tese teológica, a Epístola aos Romanos. Os raios rutilantes da frase simples iluminaram oconvento do monge alemão Martinho Lutero, "transformando-o em paladim do Evangelho. JoãoWesley também agarrou a quintessência do recado, e tornou-se salvador da sua pátria, a Inglaterra,que jazia na inglória da descrença, da volúpia infrene, e da bebedice destruidora. Do apóstolo Paulo aprendemos que o mundo sofredor geme na angústia (Romanos 8.22).Nós também, os remidos, gememos em nosso íntimo (Rm 8.23), aguardando a redenção final detoda a criação. Como é importante saber que neste ardente desejo de um mundo restaurado etransformado, um mundo de justiça e de amor fraternal, o Espírito Santo também geme comgemidos inexprimíveis, desejando esta metamorfose global muito mais do que nós (Rm 8.26). Deusnão descansará até que este mundo por ele criado reflita a glória do seu Filho, Jesus Cristo, paraquem foi criado (Colossenses 1.16). Portanto, o crente em Jesus Cristo contempla o mundo contemporâneo com um otimismonascido da fé. Não recai no fatalismo, afirmando que tudo há de piorar inevitavelmente. Emborasabendo que o mundo nunca será restaurado sem o Príncipe da Paz presente para reinar, não sedesanima por causa do triunfo do mal no mundo. O Reino de Deus já está presente nele! O justo,vivendo num mundo de injustiça, só pode viver pela fé. Como diz o apóstolo Pedro, ele espera"novos céus e nova terra, nos quais habita justiça." (2 Pedro 3.13). Nenhum sistema político oferecea perfeita justiça. Corrompeu-se a humanidade na Queda. No entanto, o homem novo em Cristo,praticando a justiça dentro de um sistema imperfeito, anuncia de antemão a vinda do Reino de Deus. Habacuque considerou a soberba arrogância da Babilônia, que afastava a justiça da terratirando a liberdade de todas as nações vizinhas, escravizando todos os povos. O profeta comparou a
  • 40. 41arrogância babilônica à do bêbado! "... como o vinho é enganoso, tão pouco permanece o arrogante." (2.5) O profeta reconheceu ter necessidade de paciência. "Se a visão tardar, espera-o", rezava orecado divino. A reflexão séria sobre o problema do triunfo do mal no mundo o levou a considerar averacidade de cinco provérbios bem conhecidos na época. A sabedoria milenar o convenceu dotriunfo final do bem: (1) "Ai daquele que acumula o que não é seu." (2.6) Nas guerras expansionistas, a Babilônia tinha tomado como presa de guerra reféns, objetosde arte, dinheiro, e tudo quanto podia ser levado para casa. A lei da retribuição exige que quemoprime, que seja oprimido. E a lex talionis, "olho por olho, dente por dente". O profeta predisse asorte dos cruéis caldeus: "Visto como despojaste a muitas nações, todos os mais povos te despojarão a ti." (2.8) Como o indivíduo, as nações também ceifam o que semeiam. Eis o princípio fundamental quecontrola o destino humano. "De Deus não se zomba, pois aquilo que o homem semear, isso tambémceifará" (Gálatas 6.7). Habacuque sabia que cedo ou tarde o opressor sofreria a mesma sorte de suasvítimas. A história confirma a veracidade do provérbio, pois dentro de poucas décadas o impériobabilônico caiu perante as forças dos medo-persas sob Dario (Daniel 5.30,31). (2) "Ai daquele que ajunta em sua casa bens mal adquiridos, para pôr em lugar alto o seu ninho." (2.9) O segundo "ai" condena a aquisição réproba dos bens alheios. Depois de suas conquistasmilitares, a Babilônia pilhava os países invadidos. Do templo em Jerusalém o seu exército levou paraa Babilônia os sagrados tesouros, e os utensílios de ouro. Arrastou blocos de pedra e madeiramentode cidades arrombadas, para embelezarem a capital à beira do Eufrates. Ora, a cidade de Babilônia gozava de fama universal pelos jardins suspensos, umaconstrução tão extraordinária que foi conhecida como uma das sete maravilhas do mundo antigo.Provavelmente Habacuque se referiu a esses jardins suspensos quando falou dos bens maladquiridos, colocados em lugar alto, no seu "ninho". Por serem saqueadas de cidades invadidas, "aprópria pedra clamará da parede e a trave lhe responderá do madeiramento" (2.11). Emborasustentando a glória da cidade capital do império caldeu, as pedras e a madeira estrangeiras eramtestemunhas que protestavam o vergonhoso saque de outros povos. (3) "Ai daquele que edifica a cidade com sangue." (2.12) No desenrolar da história humana, nunca cessam as guerras de agressão. O crudelíssimoNabucodonosor foi protótipo de uma longa lista de invasores famosos pelo derramamento desangue: Júlio César, Genghis Kahn, Napoleão, Hitler, Stalin e Idi Amin. Ainda hoje, depois de tantosséculos de dura experiência, e de progresso cultural, as invasões continuam: em Angola, no Laos, noAfeganistão. O espectador tem a impressão de que Deus escreve a História lentamente, além deescrever certo com linhas tortas. Mas a perspectiva cósmica do drama humano permite-nosperceber que Deus de fato julga as. nações edificadas com sangue. Todos os impérios do mundochegam à maré alta, recuam, e desaparecem no oceano da humanidade. O único impériopermanente é o Reino de Deus que o profeta Habacuque tanto anelava. Ele previu o tempomaravilhoso do reino da justiça e da paz, quando disse:
  • 41. 42 "... a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar." (2.14) Deus não dará a sua glória ao homem pecador. Os reis da terra, os presidentes e os ditadoreshão de passar, e finalmente Jesus Cristo será proclamado o Senhor do universo. "Todo joelho sedobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor para a glória de Deus Pai." (Cf. Fp 2.11) (4) "Ai daquele que dá de beber ao seu companheiro." (2.15) As estrondosas vitórias do exército caldeu eram ocasiões para marchas triunfais ecelebrações festivas. Com brinde ao imperador invencível, as tropas se lançavam na bebedicedesenfreada. Na embriaguez, abandonavam o pudor, expondo-se vergonhosamente (2.15). Habacuque estava certo de que o Senhor lhes daria um outro cálice a beber, o cálice da suaira, que os lançaria na ignomínia total, quando a Babilônia, exposta e nua, seria humilhada pelosseus inimigos. Por ter destruído as florestas do Líbano e as feras, sem falar dos homens, a Babilôniacairia, pois à crueldade humana ela acrescentou um crime ecológico contra a própria natureza.Quantos desertos foram criados pela guerra! (2.17) (5) "Ai daquele que diz ao pau: Acorda! e à pedra muda: Desperta! (2.19) O quinto e último "ai" se dirigiu contra a idolatria. Os caldeus adoravam imagens deescultura "em cujo interior não havia fôlego nenhum" (2.19). Quão absurdo é o homem rezar a umpedaço de pau ou de pedra! O segundo mandamento diz claramente: "Não farás para ti imagem deescultura" (Êxodo 20.4). Não obstante, milhões de chamados "cristãos" hoje se curvam cadadomingo perante imagens de santos, tal como os pagãos. O imperador Nabucodonosor tinha mandado fazer na cidade da Babilônia uma imensaestátua de si mesmo, toda em ouro. Baixou um decreto obrigando todos os cidadãos a rezar a estaimagem. De toda a população, três judeus exilados, crentes no Senhor, recusaram-se a inclinarperante o ídolo. Os corajosos contemporâneos de Habacuque foram lançados na fornalha ardente,de onde saíram ilesos miraculosamente (Daniel 3). Assim foi que o imperador Nabucodonosoraprendeu que só o Deus de Israel, Javé, deve ser adorado, e arrependeu-se. No fim, todas as religiões falsas, todo culto prestado às imagens, o que é vedado no decálogo,desaparecerão; e todos os homens saberão que o SENHOR é o único Deus desta terra. "O Senhor, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra." (2.20) A séria reflexão do profeta Habacuque sobre os alicerces morais do mundo o convenceu deque o mal não prevalecerá contra o bem. O Senhor há de reinar, e os que confiam nele, os justos quevivem pela fé, verão o triunfo do Reino de Deus aqui na terra, quando, afinal, a justiça seráestabelecida entre os homens pelo Senhor. Cumprir-se-á a grande aspiração da oração dominical:"Livra-nos do mal, pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém."O Profeta Canta o Triunfo da Fé (Cap. 3) Habacuque chegou a conciliar a razão com a fé. Em seu universo pessoal, não havia maistensão, não havia mais dicotomia entre a fé e o raciocínio. Por conseguinte, experimentou aliberdade interior, a verdadeira liberdade do espírito, que sobrepuja todas as barreiras do intelecto.E como expressão desta nova liberdade ele compôs um belíssimo poema, um hino de louvor queconstitui uma jóia do saltério hebraico. O profeta-poeta, agora convencido de que Deus é sempre justo para com todos os homens,apelou para o Senhor dos seus antepassados, o Senhor da aliança com Israel. Pediu-lhearrojadamente que avivasse novamente a sua obra. O Deus que no passado se manifestara aosisraelitas primitivos deveria agir agora na defesa dos seus descendentes. Habacuque se lembrou das
  • 42. 43gloriosas façanhas do grande Deus de Israel em Temã e Parã (3.2). Tema era Edom, a leste doJordão. Parã se situava entre o Sinai e Edom. Os dois lugares recordavam intervenções do Senhor, naépoca da caminhada do povo de Israel, desde o deserto até Canaã. "Deus vem de Temã, e do monte de Parã vem o Santo. A sua glória cobre os céus ..." (3.3) No Sinai, a glória do Senhor cobrira o monte, e a terra tremera quando Deus entregou a lei aMoisés. O profeta cria que Deus, por ser eterno, não muda. Se se manifestasse da mesma maneiranovamente, como antes, Israel não poderia temer. Os inimigos de Israel é que deveriam tremerdiante dele, pois "... a pestilência segue os seus passos." (3.5) O Deus de Israel destruíra o poderoso Egito, no tempo de Moisés, mediante as pestilênciasdas rãs, dos piolhos, das moscas e dos gafanhotos, antes da praga final da morte dos primogênitos. Odesejo estava nos lábios de Habacuque: "Oxalá que se repetissem hoje sobre os caldeus". O poeta relembrava também a vitória de Israel contra Midiã, chamado Cusã no tempo deHabacuque (Números 31). E quem podia esquecer o milagre da separação das águas do MarVermelho, quando Deus salvou do Egito o seu povo escravizado? (3.8). Deus não se irou contra aságuas mas, sim, contra os inimigos de Israel, quando "os cavalos do Senhor" marcharam pelo mar(3.15). A história de Israel como nação é Heilsgeschichte, a história da salvação, por ser Israel "oungido do Senhor" (3.13). E a única maneira por que se pode explicar as vitórias do pequeno Israelcontra os seus poderosos inimigos, vitórias essas tipificadas pelo triunfo do jovem Davi na lutacontra o gigante Golias, degolado com a sua própria espada. Por isso Habacuque se regozijava: "Traspassas a cabeça dos guerreiros do inimigo com as suas próprias lanças." (3.14) Comovia-se o profeta, contemplando a invencibilidade do Senhor. Convenceu-se de que asforças irresistíveis de Deus esmagariam para sempre os invasores caldeus "no seu dia de angústia"(3.16). O hino foi concluído com a mais absoluta afirmação de fé. O profeta confiava cabalmente nasoberania do Senhor, a ponto de aceitar quaisquer circunstâncias como sendo dentro da boa eperfeita vontade de Deus para ele. No seu contexto agrícola, Habacuque contemplava a possível perda da safra de frutas, e aextinção dos rebanhos como conseqüência de uma nova invasão. No entanto, o profeta reafirmou asua alegria no Senhor: "Ainda que a figueira não floresce . . . e nos currais não há gado, todavia eu me alegro no Senhor." (3.17) Como Jó, Habacuque estava pronto a perder tudo, menos a sua fé no Senhor. Habacuque falaalto à nossa sociedade de consumo, com os seus exagerados valores materiais, e o seu desprezo aosvalores espirituais. A posse de bens materiais não é necessariamente sinal da bênção e da vontadedivinas! A fé em Cristo não garante, de maneira nenhuma, a entrada na vida opulenta e luxuosa ...Nos países latino-americanos, com os seus milhões de seres humanos vivendo precariamente, hámuitos Habacuques modernos, que passam fome e sede, que não possuem nem casa nem terras,mas que têm fé, e por isso exultam no Deus da sua salvação. No quadro sombrio da tragédia em quevivem nossos povos nesta hora de inquietação espiritual, de confusão religiosa, de decadência morale de convulsões sociais e políticas, são eles sal da terra, luz do mundo; nada tendo, mas possuindo
  • 43. 44tudo. Eis a voz profética ao mundo alucinado com o crasso materialismo do século XX: "Ainda queperca tudo, todavia eu me alegro no SENHOR". E quem possui o Senhor tem a única riqueza queperdura para sempre. Isto também se aceita pela fé. Nesta certeza, nascida da fé, o profeta rematoua bela canção com palavras cheias de fé inabalável: "O SENHOR Deus é a minha fortaleza e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente." (3.19) Sim, o justo viverá pela sua fé. E esta fé no Senhor triunfante, ressuscitado e glorioso,transmite à vida diária uma vitalidade vibrante. Quem pela fé vê Cristo sentado no trono douniverso, aguardando o momento supremo da revelação empolgante da sua glória aqui na terra, nãose desanima com a situação mundial! Sabe que Cristo voltará para reinar eternamente, "porqueconvém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus pés" (1 Co 15.25). Quemtem esta fé em Cristo já é súdito do reino eterno, vivendo segundo os princípios da justiça, da paz edo amor. O reino chega com o crente, no limitado contexto da sua atuação entre os homens. Ele ésinal e penhor, dado aos homens pelo Santo Espírito, da sociedade a vir. Por isso, "anda com alegria,como corça nas montanhas." A sua plena aceitação pela fé da vontade de Deus, sejam quais forem ascircunstâncias externas por ele permitidas, é o segredo, único e perene, duma vida harmoniosa eabundante! 8. TEMPO DE APOSTASIA SOFONIAS Para entender a profecia de Sofonias, é essencial aprender algo do período de uns 135 anosque separam a queda de Samaria em 722 a.C. e o conseqüente desaparecimento da nação de Israel, ea destruição de Jerusalém em 587 a.C. e o exílio de Judá na Babilônia. A história da nação de Judáoscila neste período, segundo a influência boa ou má dos seus reis. Os reinados de Ezequias e deJosias se destacaram pela sua piedade, e pelo vigor das suas reformas religiosas. Sofonias foi profetadurante o reinado de Josias, o bom, mas tudo indica que a profecia foi pronunciada antes da gloriosareforma introduzida pelo jovem rei. Não obstante a espiritualidade do rei Ezequias, no fim da vida ele não aceitou o recadodivino que indicava a sua morte. Não aceitou a vontade de Deus. Embora crente no Senhor, nãotinha pressa nenhuma para entrar nas mansões celestiais. Chorou como criança. Deus acedeu ao seudesejo, concedendo-lhe mais 15 anos de vida. Neste período de graça, Ezequias gerou um filho tãoruim que teria sido melhor se o rei tivesse morrido antes de gerá-lo. Este filho, de nome Manasses,reinou durante 55 anos, e abandonou por completo os bons costumes do pai, entregando a nação àapostasia. Reintroduziu na terra a idolatria que o pai Ezequias havia destruído. Mandou montar o"poste-ídolo", vil símbolo sexual do culto à fertilidade dos cananeus. Acompanharam este culto assacerdotisas prostitutas, cujos "serviços" influenciariam Baal a benzer os rebanhos e as colheitas.Manasses mandou erguer imagens de todas as divindades pagãs, inclusive o sol, a lua e as estrelas.Tornou-se adepto do espiritismo, servindo-se de médiuns, dos sinais de zodíaco e de todas as decep-ções da bruxaria. Foi o maior escândalo quando introduziu dentro do sagrado templo o enormesímbolo sexual do machismo! (2 Reis 21.3-7). Assim foi que Jerusalém se tornou capital do sincretismo religioso, com o conhecido lema"toda religião é boa". Era como acontece hoje por todo o Brasil em que Orixá convive com "NossoSenhor do Bom Fim", e a Santa Virgem e lemanjá se unem na mesma parede; onde pernas e braçosde cera, amuletos, e crucifixos são todos símbolos da "fé sincretista", tão odiada pelo Deus vivo. Manassés chegou ao ápice da apostasia "queimando o seu filho como sacrifício", no culto aMoloque, como informa 2 Reis 21.6. Nesta repugnante prática pagã, os pais ofereciam os recém-
  • 44. 45nascidos, deitados sobre uma grade de ferro, e queimados vivos perante a imagem de Moloque. Aschamas consumiam "o fruto do corpo pelo pecado da alma" (Miquéias 6.7). Há uns anos atrás,apareceu no Brasil uma seita que praticava o infanticídio, como ato religioso! A imprensa divulgou anotícia da prática revoltante. Antes de registrarmos os nossos protestos, convém lembrar que 80%dos falecimentos no Brasil são de crianças de 5 anos para baixo. Cada ano, o Moloque da fome, dadoença e do abandono, devora literalmente milhões de crianças! E o que dizer do Moloque do abortoprovocado, que cada vez mais sacrifica milhões de seres humanos, antes mesmo de virem à luz? O Brasil recebe aplausos do mundo inteiro pela maneira inteligente com que está vencendoo problema da gasolina. Mas para o carro brasileiro sobreviver, é preciso plantar milhões dehectares de cana-de-açúcar. Porém, a mãe e a criança brasileiras não recebem tanta atenção como ocarro brasileiro. O fusca amado tem mais chance de sobreviver que o filho abandonado. Não existeainda um plano nacional de plantação de comida sadia para a sobrevivência da criança. Tudo indicaque o culto a Moloque continuará. Certamente, a igreja do Senhor deve conscientizar a nação,procurando meios práticos para salvar a criança brasileira. Na situação sócio-econômicacontemporânea, a mensagem de Sofonias a uma sociedade sincretista e insensível aos direitos dosinocentes indefesos se torna altamente relevante! A nação de Judá suspirou de alívio quando Manassés faleceu. Após meio século de corrupçãoe de violência pelas autoridades, o povo esperava que a limpeza fosse feita ... No entanto, isso não serealizou. Assumiu o trono o jovem príncipe Amom. Tal pai, qual filho. Ele mantinha em tudo o"status quo" odiado. Um golpe foi organizado, e Amom foi assassinado. Os revolucionários ins-talaram o filho de Amom, Josias, com 8 anos de idade, para ser rei em 638 a.C. Uma boa educação fezdele um ótimo monarca e reformador religioso. O seu reinado de 30 anos foi marcado por umreavivamento espiritual, começando com a descoberta da Palavra de Deus, escondida durantemuitos anos no templo. Este acontecimento, em 621 a.C, acendeu uma luz pura, depois de um meioséculo de trevas e apostasia. Sofonias profetizou justamente neste período esperançoso. Torna-se claro, porém, que amaravilhosa reforma de Josias era um tanto superficial. O povo, embora obedecendo às instruçõesreligiosas do rei, ficou apegado às práticas pagãs do espiritismo, do culto sexual, e do sincretismoacomodatício. Faltou-lhe a experiência do genuíno arrependimento, e fé num só Senhor. Sofoniaspredisse o julgamento de todas as nações, inclusive a do povo eleito, mas terminou a profecia com aesperança messiânica da restauração, no fim dos tempos. Sofonias era trineto do bom rei Ezequias. O rei Josias era bisneto de Ezequias. De sangueazul, e com bons antecedentes espirituais, Sofoniais tinha livre acesso ao paço real, e exerceu umaautoridade profética que calou bem no coração do jovem rei consagrado ao Senhor (1.1).O Dia do Senhor (Cap. 1) Sofonias, mais do que qualquer outro profeta dentre os Doze, usava a expressão "o Dia doSenhor", para significar o dia da ira vindoura. Toda a humanidade será julgada, e o profeta previu oextermínio, não somente da raça humana, mas de toda vida, como no tempo do dilúvio (1.3). Judá, opovo eleito, não escaparia, devido à sua apostasia, seguindo a idolatria pagã, num espíritosincretista, adorando ao Senhor e a Milcom, o mesmo que Moloque. O homem não pode servir a doissenhores. Deus odeia o culto em que ele não é o único e supremo Deus. Sofonias anunciou o castigo divino que haveria de cair sobre todos os oficiais e filhos deManassés, que praticaram tanta violência (1.9). O julgamento do mundo começaria, não com ospagãos, mas com Jerusalém! Como diz o apóstolo Pedro: "A ocasião de começar o juízo pela casa deDeus é chegada" (1 Pedro 4.17). A ilusão trágica dos judeus foi esta, que não perceberam que oSenhor é Governador moral do universo. Os habitantes de Jerusalém diziam: "O Senhor não faz bem,nem faz mal" (1.12). Segundo este parecer, não existe causa e efeito na esfera moral. Não haveriarelação entre a obediência à lei, e os acontecimentos políticos e sócio-econômicos. "Por isso serãosaqueados os seus bens, e assoladas as suas casas" (1.13). O profeta seria vindicado somente pelodesenrolar da história da nação.
  • 45. 46 Todo judeu sempre pensava no Dia do Senhor como dia de vitória, de alegria e de paz. Aocontrário, replicou Sofonias, será dia de indignação, de alvoroço, e de escuridade (1.15). Por causado pecado do próprio povo de Deus, a vinda do Senhor será dia de julgamento e não de alegria. Aigreja acomodada do século XX precisa refletir mais sobre os fatos históricos concernentes a Israel.A segunda vinda do Senhor é anunciada com grande entusiasmo, mas o dia marcará ocomparecimento de toda a igreja ao tribunal de Cristo. A igreja será julgada naquele dia, como Israeldo Velho Testamento foi julgado, segundo as suas obras, quer sejam boas ou más.O Julgamento das Nações (Cap. 2) Em comum com a maioria dos profetas, Sofonias anunciou o julgamento de todas as nações.Esta proclamação chama os homens ao arrependimento, como passo da maior urgência. "Buscai ao Senhor", e não às imagens dos falsos deuses. "Buscai a justiça",deixando a corrupção e a violência (2.2). Se assim fizerem, Sofonias estendeu-lhes algumaesperança: "Porventura lograreis esconder-vos". As cidades pagãs da circunvizinhança, Gaza, Ascalom, e Asdode, são mencionadas comomerecendo a destruição. O restante de Judá herdaria toda a região do litoral mediterrâneo (2.7).Moabe e Amom, inimigos inveterados de Judá, se tornariam como Sodoma e Gomorra (2.9). Ojulgamento se estenderia até os confins da terra. Ninguém escaparia. Ao extremo sul do Egito haviaum país aqui denominado Etiópia, que hoje é o Sudão. Para Sofonias isto representava o limite suldo mundo conhecido. Ao outro extremo do mundo antigo, o limite setentrional era a Assíria, cujojulgamento foi também prometido (2.13). Nínive, a famosa capital da Assíria, símbolo de opressão ede crueldade, se tornaria uma vasta ruína, habitada somente pelos animais e as aves de rapina. Defato, ela se tornou uma desolação poucos anos depois, em 612 a.C, segundo a palavra segura doprofeta.A Visão de um Mundo Restaurado (Cap. 3) Terminada a profecia contra as nações, Sofonias voltou a ameaçar Jerusalém, a cidadeapóstata, outrora santa. Ela rejeitou a disciplina da lei, e desconfiou completamente no recado dejulgamento divino (3.2). Desde o tempo desatroso de Manassés, o rei ímpio, a liderança do paíscontinuava afastada das normas bíblicas. A benéfica influência do jovem rei crente Josias nãoconseguiu refrear a torrente de maldade solta pelo seu avô Manassés. Os príncipes da época eram oschefes políticos, e eles se caracterizavam pela avareza. O profeta os comparou aos leões e aos lobos.Os líderes religiosos eram levianos. Em vez de ensinarem sistematicamente a Palavra de Deus,falavam levianamente. Sem dúvida, preparavam os seus "sermões" em 10 minutos. Quem fala emnome do Senhor precisa dedicar muito tempo ao estudo, à reflexão, e à oração. Quantas igrejas háque sofrem porque o responsável não dá o tempo necessário para a preparação! No entanto, oSenhor está presente com o seu povo. Ele é justo, no meio dele (3.5). Este Senhor da justiça espera que o seu povo Judá aprenda a lição vivida por muitas cidadese nações. Apesar das advertências dos profetas, o povo de Israel ao norte viu a sua cidade capital,Samaria, cair no ano 722 a.C, em conseqüência direta da sua apostasia idólatra. Quando a Assíriainvadiu o pequeno Judá no tempo de Ezequias, a superpotência foi vencida pela fé e oração domonarca. A justiça de Deus se expressa em manchetes através da história humana. O nazismo queassassinou nas câmaras de gás 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, e que foiarrombado depois, ensina a mesma lição em nosso século. Deus é Senhor e Juiz das nações. Chegando ao fim da sua profecia, Sofonias contemplou com otimismo o fim de todo o dramahumano. Deus destruirá o mundo com fogo, castigando o pecado das nações. O apóstolo Pedroconfirma isto em 2 Pedro 3.7. Num mundo purificado e restaurado, as nações louvarão ao Senhor(3.9). Israel será modelo de humildade e veracidade. O Senhor será o Rei de Israel (3.15). Ele sedeleitará no seu povo com alegria. A mais perfeita harmonia e comunhão existirá. Israel se renovaráno seu amor. To dos voltarão para as festas do Senhor, que eles não podiam celebrar, quandoexilados (3.18). As duas nações de Israel e Judá serão reunidas, e terão um só nome como povo de
  • 46. 47Deus, e gozarão do prestígio das demais nações (3.20). Esta visão milenar de um mundo restauradoem paz e justiça nunca se cumpriu. A Igreja do século XX aguar da a restauração do reino de Israelesperado pelos após tolos (Atos 1.6), e os "tempos de refrigério" prometidos pelo apóstolo Pedro, eque certamente chegarão "da presença do Senhor" (Atos 3.20). Até aquele dia, a nossa oração éaquela do grande apóstolo do amor, aliás a última oração da Bíblia toda: "Vem, Senhor Jesus! " (Ap22.20). 9. O PROFETA NUM MUNDO RACISTA OBADIAS Dos livros do Velho Testamento, Obadias é o menor, contendo apenas 21 versículos. O nomedo profeta significa "Servo de Javé". Fiel ao seu nome, Obadias cumpriu o seu papel pela maneiracom que ele nos fez lembrar que haverá para toda a humanidade um juízo final. Obadias vivia numa época caótica, após a destruição de tudo quanto representasse averdadeira religião. O texto indica que ele testemunhou o saque total da cidade santa de Jerusalémem 587 a.C, por isso presume-se que tenha tomado parte no exílio na Babilônia, que durou 70 anos.É de se supor que Obadias tenha escrito o seu livro durante o exílio. Longe da pátria, ele se lembravado horror da devastação praticada pelas hordas cruéis de Nabucodonosor. Na hora em que o invasorimpiedoso esmagou a pequena nação de Judá, o povo vizinho de Edom veio colaborar com o inimigo.Além de burlar-se dos habitantes de Jerusalém, os edomitas ajudaram os babilônios a pilhar os bensdos infelizes judeus e, pior ainda, entregaram ao exército de Nabucodonosor os refugiadosapavorados que buscaram asilo no território vizinho de Edom. Assim foi que ninguém escapou dasgarras do mais temível exército de então. Refletindo sobre a enormidade do crime perpetrado por Edom, Obadias percebeu que tudose explicava ao período patriarcal, no início da história da Bíblia. Começou com o nascimento dosfilhos gêmeos de Isaque (Gn 25), Esaú e Jacó. Dos dois, nasceu primeiro Esaú, que perdeu a herançade primogenitura, vendendo-a a seu irmão Jacó pelo preço ínfimo de um prato de feijoada. A vendadesprezível levou os dois rapazes a brigar constantemente, e quando Jacó conseguiu por do Io abênção paternal do velho pai cego, Isaque, a ira de Esaú irrompeu, e Jacó fugiu de casa. Passaram-seos anos, mas Esaú nutria ainda sentimentos de ódio contra o seu irmão, cuja morte anelava. Umabreve reconcialiação ocorreu (Gn 33), mas os dois irmãos fundaram duas nações destinadas aperpetuar a rixa. Os descendentes de Esaú se estabeleceram na região desértica perto do Mar Morto,com a cidade capital aninhada entre montes inóspitos, enquanto que os descendentes de Jacóocuparam a boa terra a oeste do Jordão, tendo como capital a cidade de Jerusalém. A Bíblia narra resumidamente a trágica história do ódio implacável entre as duas nações.Logo na entrada dos judeus em Canaã, Edom recusou-lhe passagem (Números 20). O profeta Balaãovaticinou a subjugação de Edom por Israel, quando pregou a Balaque, rei de Moabe, vizinho deEdom. Duzentos anos mais tarde, o ódio mútuo continuava, e o rei Davi tentou pôr fim ao constanteproblema mandando massacrar todos os homens machos d6 Edom (1 Reis 11.15). Esta políticaselvagem de liquidação do inimigo tradicional não se cumpriu, e um sobrevivente edomita levou orestante do seu povo a renovar a guerra contra Judá (1 Reis 11.17). Num salmo de vingança, Davi serefere a Edom em termos de desprezo absoluto, quando diz: "Sobre Edom atirarei a minha sandália"(Sl 60.8). Vê-se como as atitudes de intolerância racial não somente se perpetuam, mas ampliam odesentendimento mútuo para alcançar gerações futuras. Não é surpreendente que 400 anos depoisde Davi o povo de Edom ainda se lembrasse do tratamento desumano recebido das mãos dele. Porisso, alegrou-se sobremaneira quando a Babilônia mandou o seu exército invencível contra o odiadopaís vizinho de Judá. A vingança, embora tendo demorado tantos séculos, era saboreada em Edom. E
  • 47. 48o mesmo espírito existia no tempo de Jesus. O rei Herodes, de descendência edomita, mostrou ainsensibilidade dos seus antepassados quando condenou Jesus injustamente. O nosso Senhor, porseu lado, nem lhe proferiu uma palavra sequer (Lucas 23.8, 9). Oxalá que o nosso mundo moderno aprendesse a lição! As inimizades e preconceitoscontinuam entre os povos. Por tradição, mais do que por razão, uma nação odeia outra. Lembram-seguerras de agressão séculos depois. Os netos e bisnetos conservam as mesmas atitudes insensatasdos avós e bisavós. Um exemplo disto é a relação entre a França e a Alemanha, com três guerras emtrês gerações seguidas (1870, 1914 e 1939). Na época nuclear, o racismo contra qualquer país éuma insensatez cujo preço bem pode ser o suicídio de toda a raça humana. A profecia de Obadias começou com a visão de uma futura guerra, à qual o Senhor chamatodas as nações. O vidente inspirado previu o fim do mundo e a soberania gloriosa do Senhor. Comonação, Edom seria destruída. Deus desprezou a nação por causa do seu orgulho exagerado (v. 2). Acidade capital era situada "nas fendas das rochas", tão inacessível ao inimigo que os habitantesconsideravam a defesa indefectível. Com a elevação vertiginosa da cidade, as luzes nas janelas dascasas pareciam ser estrelas (v. 4). Ainda que o adversário humano não a alcançasse, o Senhor aderrubaria pelo seu poder irresistível (v. 4). O profeta se serviu de analogias comuns para salientar a futura destruição total de Edom. Oladrão furta o que precisa, deixando muitas coisas de valor. Semelhantemente, os vinicultoresmandam vindimar uvas, mas depois da colheita sempre sobram alguns cachos (v. 5). Não seriaassim no julgamento de Edom. Não sobraria coisíssima alguma, mas tudo seria levado. Nesse diafatídico, os seus aliados o abandonariam, negando tratados de paz (v. 7). Deus controla tudo, nãosomente as circunstâncias políticas e militares, mas até o pensamento dos habitantes de Edom. Ossábios se tornariam tolos, e os valentes amedrontados, antes do extermínio da raça (v. 10). Cumprir-se-ia ao pé-da-letra a maldição divina contra os que perseguem o seu povo eleito. O Deus de Israel distingue os babilônios dos edomitas nisto, que Edom tinha herança comumcom Israel em Abraão. Judá era irmão (v. 12). O mesmo sangue patriarcal irrigava as suas veias.Sendo irmão, não devia olhar com prazer a calamidade de Judá, nem se alegrar na ruína deJerusalém, quanto menos roubar a vítima de guerra ou impedir a sua fuga! Vê-se a atualidade daBíblia numa situação contemporânea. Os vietnamitas, fugindo do comunismo, pagaram onze onçasde ouro, cada um, a outros vietnamitas como preço de "passagem" de três ou quatro dias a bordo deum navio sem comida, sem bebida, sem toilete ... Obadias fala hoje! A pequena profecia terminou com a promessa da restauração e felicidade de Israel no fim dostempos. Não é o homem que resolverá os seus problemas. Somente o Rei dos Reis e o Senhor dosSenhores é capaz de pôr em ordem este mundo com as suas tensões e hostilidades. Aguardamos oDia do Senhor que "está prestes a vir sobre todas as nações". Jesus confirmou pessoalmente ogrande acontecimento, falando aos discípulos pouco antes da sua crucificação: "Quando vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória, e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros." (Mateus 25.31, 32) O monte Sião, devastado pelo rei da Babilônia, ajudado por Edom, seria restaurado (v. 17).Esta esperança da restauração final de Israel é proclamada no Novo Testamento, maisparticularmente pelo apóstolo Paulo em Romanos 9 a 11. É claro que Paulo não aplica esta e outrasprofecias à Igreja, mas continua esperando a salvação final de Israel (Romanos 11.26). Antes do fimdo drama humano, cumprir-se-á a promessa divina, e o Senhor há de reinar sobre este mundo ondeele foi crucificado. Se ele não fizer assim, haveria no universo de que ele é o SENHOR, um planetaonde o diabo seria rei. Com a segunda vinda de Cristo, o mundo conhecerá, pela primeira vez, a plena realização davontade de Deus em resposta à incansável prece do seu povo: "Que a tua vontade seja feita aqui naterra, como no céu!" O povo de Deus vive hoje nesta expectativa. Na antecipação segura que a fé emJesus Cristo permite, repetimos o Pai Nosso até o fim, bradando triunfantemente "pois teu é o reino,
  • 48. 49e o poder, e a glória, para sempre, Amém" Neste mesmo espírito de confiança absoluta no triunfofinal da vontade de Deus na terra, Obadias escreveu esta última frase: "O reino será do Senhor." (v.21) No nosso mundo, com a capacidade de autodestruição multiplicada por vinte, não há maiorconsolação para o crente em Cristo do que esta, a certeza inabalável de que o nosso Deus reinasoberanamente sobre todas as nações e todos os povos, e que, aconteça o que acontecer, JesusCristo, o Senhor, há de restaurar todas as coisas, para a glória do Pai. 10. O PROFETA PRÓ-CONSTRUCÃO DO TEMPLO AGEU Cumpriram-se, de maneira impressionante, todas as profecias concernentes ao povo deJudá. Na sua misericórdia. Deus não permitiu nem a destruição de Jerusalém, nem o exílio naBabilônia, sem graves advertências prévias na política externa. Em 605 a.C, Nabucodonosor, rei daBabilônia, sitiou Jerusalém e depôs o rei apóstata Jeoaquim, neto de Josias, o Bom. Na ocasião,Nabucodonosor levou para o cativeiro a elite da juventude judaica, para integrá-la no corpodiplomático imperial. Neste grupo saíram Daniel e os três jovens que iriam ser provados na fornalhaardente (Daniel 1-3). Porém, na data em apreço, Jerusalém não foi destruída, mas a nação tornou-sevassala da Babilônia. Em 598 a.C. Nabucodonosor voltou, e mandou tirar muito ouro do templo.Segundo um escritor judeu convertido a Cristo, o ouro utilizado no forro do Santo dos Santos notemplo de Jerusalém valeria hoje mais de US$ ... 20.000.000,00. 3 Assim Judá recebeu mais umaadvertência mas não se arrependeu da sua apostasia. Quando o último rei de Judá, Zedequias,revoltou-se contra a Babilônia, Nabucodonosor voltou novamente para destruir a cidade rebelde deJerusalém. Incendiou o templo, de onde tirou o restante dos seus tesouros sagrados, e levou o povopara o exílio. A narração detalhada do acontecimento encontra-se em 2 Crônicas 36. Setenta anos de exílio se passaram, até que o benévolo rei persa, Ciro, vencedor daBabilônia, baixou um edito permitindo aos judeus voltar para a sua terra. Dois anos depois, em 536a.C, um grupo de judeus sob a liderança de Zorobabel chegou em Jerusalém. Assim se cumpriu aopé-da-letra a profecia de 70 anos de cativeiro dada por Jeremias (Jr 25.11). A obra de reconstrução do templo começou logo em 535 a.C, mas com a oposição dossamaritanos os judeus foram obrigados a desistir. O império de Ciro estava inseguro ainda, e osinimigos dos judeus aproveitaram esta insegurança para opor-se ao edito imperial que autorizava aobra. Durante quase vinte anos a reconstrução ficou parada. Então Deus levantou dois profetas,Ageu e Zacarias, para incentivar novamente a construção. A situação política externa se haviatornado mais estável sob o novo imperador Dario, de modo que não houve empecilho. A exortaçãodos dois profetas deu êxito; e o segundo templo, o de Zorobabel, foi erguido em apenas cinco anos. Entende-se o entusiasmo religioso para reconstruir o templo pelo fato de que uma pessoa,em cada sete dos exilados que voltaram, era sacerdote. A maioria dos judeus ficara na Babilônia,gozando de prosperidade. Os elementos mais piedosos voltaram com a idéia de formar um estadosacerdotal, e foi isto que preparou o espírito farisaico do período de Cristo.Exortação para Construção do Templo (Cap. 1) São quatro as profecias de Ageu, dadas no curto período de quatro meses, no ano de 520 a.C.Cada uma começa com a fórmula literária "veio a palavra do Senhor" (1.1; 2.1; 2.10; 2.20). Naqueletempo Judá não tinha mais rei, mas o governador era Zorobabel, bisneto de Josias, o último dos reispiedosos. O sumo-sacerdote chamava-se Josué, a forma hebraica do nome Jesus, que significa3 C. Feinberg, The Minor Prophets Moody, Chicago
  • 49. 50salvador. Os judeus que voltaram do exílio já estavam bem cômodos em Jerusalém. Moravam em casasboas, com quartos apainelados em madeira. A prosperidade aumentava. Todo o mundo achava queo templo deveria ser restaurado um dia, mas não tão já (1.2). Assim foi que os enormes blocos depedra do templo do Senhor, arrombados por mãos ímpias, jaziam em pleno centro da cidade. Oscrentes no Senhor estavam gastando dinheiro para embelezar as suas residências elegantes, semfazer nada para o templo do Senhor. A demora dos Judeus é típica. Quantas vezes o Senhor nos desafia com um projetoevangélico, e demoramos, dizendo como os judeus: "Não veio ainda o tempo" Exemplifiquemos. Háanos atrás Deus desafiou brasileiros (inclusive jovens da ABU) com a oportunidade de ser vi-lo naÁfrica Portuguesa, onde, naquela época, o brasileiro tinha entrada franca. Infelizmente passou ahora. E a Africa, em vez de receber jovens profissionais motivados pelo espírito de Cristo, recebeu20.000 cubanos armados, espalhando a violência e a morte. Os discípulos de Marx estavam maisdispostos do que os do Nazareno ... Que contraste em engajamento Como é preciso reconhecer otempo, o "kairós" do Senhor O profeta Ageu desafiou os judeus que estavam dando prioridade à melhoria de suas casasem prejuízo à do Senhor (1.4). Exortou-os duas vezes a se lembrarem do passado, pois a miséria dopassado se explicava justamente pela negligência do testemunho comunitário. Quantas vezes osnossos sofrimentos pessoais estão ligados à nossa desobediência ao Senhor! O profeta insistiu que opovo devia trazer madeira, não para embelezar as residências, mas para o templo do Senhor (1.8). OProfessor Ellison, também convertido do judaísmo, sugere que o templo sofrera mais do incêndio doque do desmoronamento.4 As chamas deixaram os blocos de pedra íntegros, enquanto consumiramtotalmente o madeiramento. Em conseqüência, o material mais necessário para a restauração era amadeira, e os crentes estavam forrando os seus palacetes com madeira de lei, sem contribuir umaripa para o templo! De vez em quando o tesoureiro de uma igreja moderna se sente como Ageu. Ele vê os crentesprosperando cada vez mais, construindo casas chiques, alguns já com casa de veraneio também,enquanto o templo do Senhor fica arcaico, às vezes tosco, sem ter recebido uma demão de tinta nosúltimos dez anos ... Em muitos casos, os crentes no Senhor Jesus Cristo teriam vergonha de manter asala de visita em casa no mesmo estado em que está o templo onde adoram o Senhor que lhes deutanta prosperidade. Ageu afirmou que a fraca safra e a queda nos negócios eram relacionadas com a negligênciado povo quanto ao testemunho público do templo (1.10, 11). O livro de Ageu revela que o povorespondeu energicamente à exortação. Apenas vinte e três dias depois da pregação de Ageu a obrafoi reiniciada, para a glória de Deus (1.15). O povo foi inspirado pela promessa da presença doSenhor. "Eu sou convosco!", diz o Senhor (1.13). Que inspiração também para nós, saber que o Deustodo-poderoso é realmente conosco em nosso serviço para ele! Se DEUS é por nós, quem será contranós? (Rm 8.31).A Glória do Novo Templo (Cap. 2.1 -9) Passou apenas um mês, e Deus mandou o segundo recado profético por intermédio de Ageu(2.1). O profeta apelou para o testemunho dos velhinhos entre eles, que ainda se lembravam daprimeira casa do Senhor em toda a sua glória. Era natural que sentissem desânimo, comparando aobra-prima de Salomão com a velha ruína existente. "Como a vedes agora? Não é ela cousa de nada aos vossos olhos?" (2.3) Os velhos sentiram a dor da saudade. A única solução seria uma nova obra. Deus sempre fazcoisas novas. A esperança suplanta a saudade. Por isso o profeta insistiu que aquele que crê deve4 H. L. Ellison. Men spake from God , Paternoster
  • 50. 51enfrentar com realismo o desafio atual. O passado com a sua negligência culpada deve dar lugar aopresente com a maravilhosa oportunidade de construir algo no nome do Senhor. O povo tinhaprometido consagrar-se à obra, e Ageu o chamou a ser forte: "Sê forte, Zorobabel . . . Sê forte, Josué . . . Tu, povo, ... sê forte! " (2.4) Sabiamente Ageu soube desafiar todo o povo de Deus, e não somente os líderes religiosos eos poderosos. A obra de construção precisava da dedicação abnegada de toda a comunidade da fé,do esforço ingente dos grandes e dos pequenos. Nesta segunda profecia Deus prometeu abalar todas as nações, quando encheria de glóriaaquela casa (2.7). O templo que os judeus iriam reconstruir seria aquele em que o Messiascompareceria! E de fato, Cristo andou naquele templo. Herodes o embelezou com obras durante 46anos (João 2.19), mas era a mesma construção. Neste sentido, a glória da última casa foi a presençade Jesus Cristo nosso Salvador, cuja glória é bem maior do que a da lei (2.9).Zelo para com o Senhor (Cap. 2.10-19) Dois meses mais tarde veio uma terceira profecia em forma parabólica. Ageu interrogou ossacerdotes com respeito à lei cerimonial da impureza. Rezava a lei mosaica que quem tocasse umcadáver seria impuro por sete dias (Números 19.11-22). O santuário desmoronado se comparava aum cadáver. Quem o tocasse naquele estado e oferecesse sacrifícios nele seria imundo, e o efeito doculto seria nulificado: "tudo é imundo" (2.14). Logicamente, para o templo voltar a ser um corpovivo era imprescindível restaurá-lo à perfeição anterior. Só assim Deus aceitaria o culto solene. O povo tinha o compromisso sagrado de construir, mas estava falhando no dever. Deusdispõe de toda a pra- ta e ouro no mundo inteiro (2.8). Ele entrega riquezas ao seu povo, principalmente para finsde auxiliar a obra e o testemunho, e não para permitir uma vida luxuosa da parte dos seus servos.Foi isto o grave erro dos judeus. Por terem abandonado o projeto de construção, os agricultoresreceberam somente 50% da safra esperada (2.10). Não reconheceram que as doenças que afetavama plantação tinham vindo do Senhor (2.17). Agora com a nova promessa de trabalhar, Deus prometeuma colheita abundante (2.19). Como é solene prometer algo ao SENHOR! "Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras." (Ec 5.4,5) Quantas promessas vãs faz o povo de Deus! Votos feitos na hora da doença, e não cumpridosna saúde; promessa esquecida de contribuir para alguma campanha; votos feitos depois de umsermão de consagração, e logo esquecidos; promessa vã de tornar-se dizimista fiel. Se todos osnossos votos se cumprissem, haveria meios suficientes para todos os projetos evangélicos: aconstrução de templos, de escolas, de clínicas e de hospitais. Não faltariam fundos para missões,para a obra estudantil e para orfanatos. E o doador seria ricamente compensado! (2.19)Profecia Escatológica (Cap. 2.20-23) A quarta e última profecia de Ageu foi recebida do Senhor no mesmo dia em que a terceira.Que maravilha quando Deus fala pessoalmente a um dos seus servos duas vezes no mesmo dia! Estaúltima profecia rasga novos horizontes perante o olho da fé. O vidente, como tantos outros dos Doze
  • 51. 52Profetas menores, enxergou de longe acontecimentos ao fim da história humana; portanto, aindanão realizados em nossos dias. Esta profecia prediz o momento quando o Senhor "abalará o céu e aterra." (2.21). E a confirmação do conflito cósmico de Armagedom, que destruirá as nações e osreinos, e que terminará com o triunfo absoluto do Senhor dos Exércitos. Zorobabel, da linhagemeleita de Davi, levava nas veias o sangue que foi transmitido ao seu famoso descendente, o NossoSenhor Jesus Cristo (Mt 1.13, Lc 3.24). No dia do Senhor, quando a trombeta do arcanjo soar,Zorobabel, homem de fé e de ação na obra do Senhor, será levantado de entre os mortos. Ele serácomo "um anel de selar", objeto de inestimável valor. Os reis da antigüidade usavam o anel de selarpara autorizar todos os editos e leis promulgados. O anel confirmava a vontade do soberano. Paulo,o apóstolo, afirma que nós somos selados com o Espírito Santo. Como Zorobabel temos aresponsabilidade e o privilégio de expressar pelas nossas vidas a vontade do Pai, quanto à extensãodo seu Reino aqui na terra. Uma parte daquela vontade concerne o nosso uso dos bens materiais queele nos confia. Fomos predestinados às boas obras para que as praticássemos. No ocaso do séculoXX depois de Cristo, como no ano 520 antes dele, Deus busca a cooperação material de cada um. Porquê? "Porque te escolhi, diz o Senhor dos Exércitos" (2.23). 11. O PROFETA IDEALISTA ZACARIAS O livro de Zacarias é o mais longo e o mais enigmático dos Doze Profetas menores. Zacariasera contemporâneo de Ageu, e os dois exerceram ministérios complementares em Jerusalém entreos exilados que tinham voltado da Babilônia. Embora tendo o mesmo objetivo de incentivar arestauração do templo depois do exílio, os dois eram. bem diferentes no estilo. Ageu era pragmático,usando palavras diretas e incisivas, como se fosse anglo-saxão. Zacarias era idealista e visionário,dado à eloqüência, servindo-se de uma linguagem imaginativa e poética, igual ao latino-americano.Deus se serviu das duas personalidades distintas, mostrando assim a multiformidade ministerial aoserviço do seu povo. O apóstolo Paulo comenta a mesma situação na igreja: "Mas Deus dispôs osmembros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve" (1 Coríntios 12.18). Dos Doze Profetas menores, Zacarias se destaca pelo estilo apocalíptico, e pelas profeciaspormenorizadas a respeito do Messias. Usa um vocabulário riquíssimo, e diversos dos seus termosapocalípticos foram apropriados pelo Apóstolo João no Apocalipse do Novo Testamento; porexemplo: os quatro cavalos, o candelabro de ouro, os sete olhos do Espírito de Deus, e os anjos-intérpretes. O simbolismo e mensagem de Zacarias prenunciam o recado do Apocalipse de João, asaber, que o triunfo do Senhor na terra é absolutamente certo. Nenhum dos Doze oferece tantas profecias detalhadas sobre o futuro Messias como Zacarias.Prometeu um Messias que seria bom pastor, traído por trinta moedas de prata, rejeitado por Israel;tornar-se-ia fonte para a purificação de pecado, e seria morto pela permissão do Pai, a fim dereceber um reino eterno. Dos Doze, somente Ageu e Zacarias observam a exatidão cronológica de historiadoresmodernos, mencionando não somente o reinado em que profetizaram, mas também o ano doreinado, o mês, e até o dia do calendário. Desta maneira podemos verificar que Zacarias começou oseu ministério em 520 a.C, entre o tempo da segunda e terceira profecias de Ageu, o seu colega(Ageu 2.1, 10). O ministério dos dois é confirmado em Esdras 5.1, 2. Parece bem provável queZacarias e o seu avô Ido fossem os sacerdotes exilados que voltaram, mencionados em Neemias12.16. Divide-se em duas partes o livro de quatorze capítulos. A primeira (1-8) concerne visõesrelativas à reconstrução do templo, e a segunda (9-14) concentra-se na esperança da vinda doMessias.
  • 52. 53As Duas Primeiras Visões (Cap. 1) A primeira profecia de Zacarias é uma exortação ao arrependimento muito no estilo deAgeu, e que cabe bem entre as do seu colega. Parece ser uma ampliação e comentário da primeiramensagem de Ageu: "Considerai o vosso passado!" (Ageu 1.5). Zacarias salienta a imutabilidade daPalavra de Deus, que chama todas as gerações ao arrependimento (.1.6). Depois desta palavra inicialconfirmando a mensagem central de Ageu, o livro desenvolve uma série de oito visões misteriosas.Foram reveladas exatamente dois meses depois de Ageu entregar o seu último recado divino (1.7).Na primeira visão noturna Zacarias vê quatro cavaleiros montados em cavalos de cores diferentes,que percorrem a terra. Obedecem à vontade do Senhor, dando-lhe notícias da tranqüilidade da terra(1.11). É a opressiva tranqüilidade do domínio da terra pelas forças do mal (1.15). O Senhorexercerá a sua soberania no mundo através dos poderosos seres angélicos montados nos cavalossimbólicos, que garantirão as condições necessárias para a reedificação do templo (1.16). Esta visãoapocalíptica foi aproveitada por João no Novo Testamento, para enfatizar a mesma mensagem dairresistibilidade da soberana vontade do Senhor (Ap G.2). Os ouvintes de Zacarias entenderiam pelavisão que nenhuma nação poderia impedir o plano de construção entregue a um gruporelativamente insignificante de exilados. Enquanto a primeira visão contempla o futuro imediato, a segunda interpreta o passado. Avisão de quatro chifres simboliza os meios militares utilizados por Deus para castigar Israelprimeiro, e depois Judá (1.19). Os quatro ferreiros simbolizam os chefes militares que destruíram osimpérios ímpios de que Deus se serviu para castigar o seu povo. Destarte, os instrumentos decastigo por sua vez são castigados (1.21). O judeu nunca podia entender como o Deus de Israel podiase servir de nações pagãs e cruéis para punir o seu povo privilegiado. O livro de Habacuque expressaeloqüentemente este dilema. A justiça de um Deus santo se vê no fato de ele castigar finalmente oscastigadores do seu povo.A Terceira Visão (Cap. 2) Na terceira visão Zacarias prevê a hora de reconstrução do templo como objeto de interesseparticular de seres celestiais. Não somente o templo mas a cidade toda de Jerusalém há de serrestaurada (2.2). Um anjo comunica-se com o profeta — não profeta de barba branca, mas com carade jovem! (2.4) O Senhor se serve de jovens nos seus planos para um mundo melhor. Em sonhoZacarias vê os habitantes de Jerusalém, não mais o grupo inexpressivo de exilados desanimados,mas uma vasta multidão que se espalha seguramente além dos limites da cidade, protegida não pelomuro de pedra, mas pelo fogo protetor da presença divina! (2.5). O Deus da coluna de fogo nodeserto sinaítico vive e age em todos os tempos em favor do seu povo amado. Logo depois da terceira visão, o profeta recebe uma mensagem para os judeus que nãoquiseram voltar da Babilônia (2.6). Deus se lhes dirige em termos de grande ternura. O povo é "amenina do seu olho" (2.8). Por isso, ele revela de antemão que haverá guerras em toda a região daBabilônia, onde eles se sentem tão seguros e acomoda dos. Os judeus acham arriscada uma voltapara Jerusalém ainda em ruínas. Na realidade, o risco maior é ficar no exílio. É sempre melhor ficardentro da vontade de Deus1 É o único lugar de perfeita segurança. Para convencer o povo destaverdade, Zacarias sobe nas asas dum lirismo poético e enxerga de longe o triunfo final de Deus, comtodas as nações submissas a ele, e Judá firmemente estabelecida na "terra santa" (2.12). Esta é aúnica vez que a Bíblia usa o termo com referência à Palestina. Tamanha revelação das decisõesinalteráveis do Senhor deve obrigar o homem, por mais desanimado que seja, a calar-se (2.13).A Quarta Visão (Cap. 3) Como no Apocalipse de João, na quarta visão Satanás é desmascarado como o implacávelinimigo do homem e de Deus. Aparece no palco Josué, o sumo sacerdote em Jerusalém (3.1). A cenarelembra o diálogo entre Deus e Satanás sobre Jó (Jó 2). Josué veste "roupas sujas" (3.3), o quesugere a sua impureza cerimonial. Ageu já tinha convencido o povo de que o culto estava "imundo"
  • 53. 54enquanto o templo não fosse restaurado (Ageu 2.14). Segundo este argumento, tudo era imundo,inclusive o próprio sumo sacerdote, o homem mais chegado a Deus. Mas com a recente decisão dopovo de reedificar o templo, tudo está mudado, e Deus apresenta o seu servo Josué ao diabo comolimpo, desde a cabeça até os pés (3.5). Que alegria indescritível quando o homem pecador édeclarado puro e justo perante Deus, mercê da obra e sacrifício de Jesus Cristo Satanás silenciaquando Deus declara: "Sois justificados pela fé! " (Romanos 5.1). Num trecho altamente simbólico e misterioso, Josué recebe a promessa de um sumosacerdote maior do que ele, "o Renovo", que levará o mesmo nome de Josué. O nome Jesus é a formagrega do hebraico Josué. Este tirará a iniqüidade da terra num só dia. Eis porque o anjo que faloucom José em Nazaré, antes de Cristo nascer, lhe disse: "E lhe porás o nome de Jesus (Josué), porqueele salvará o seu povo dos pecados deles." (Mt 1.21). No dia em que Jesus morreu na cruz, dia mil vezes abençoado, ele carregou os nossospecados, trazendo-nos a paz com Deus. O profeta Zacarias descreve esta paz em termos simbólicos.Usa a ilustração convencional do morador que descansa debaixo da vide, ou debaixo da figueira(3.10).A Quinta Visão (Cap. 4) Como no Apocalipse de João, as visões de Zacarias são interpretadas por anjos. Na quintavisão o vidente contempla um candelabro de ouro com sete lâmpadas, comparável àquele visto emPatmos por João (Ap 1.12). Desde o tabernáculo no deserto, o candelabro era símbolo da luz dotestemunho do povo de Deus. Até hoje é símbolo usado pelo novo estado de Israel. Sem arestauração do templo, não haveria lugar para o candelabro que, segundo a lei, deveria ser móvelpermanente no lugar santo (ÊX 25). Para restaurar-se a ordem bíblica do culto, o candelabro seriaindispensável. As duas oliveiras, vistas na visão como fornecedoras de azeite para o candelabro,representam os dois paladins que lideram o povo, Zorobabel o governador, e Josué o sumosacerdote (4.14).A Sexta e Sétima Visões (Cap. 5) O vidente inspirado percebe a sexta visão na forma dum rolo voante. Desenrolado no céucomo tapete, o seu tamanho enorme de cinco metros por dez permite a leitura fácil do texto neleinscrito. As dimensões correspondem às do pórtico do templo, onde a lei devia ser lida ao povo!Como cartaz publicitário aéreo, o rolo flutua no ar. De um lado do rolo está escrita a lei contra oroubo, e do outro a lei contra o juramento falso (5.3). Quem jura falsamente pelo nome do Senhorpeca contra o terceiro mandamento do decálogo. Quem rouba quebra o oitavo mandamento (Êx20.7, 15). Ora, o povo de Deus tinha jurado a Zorobabel que completaria a reconstrução do templodo Senhor. Se não o fizesse, quebraria estes dois mandamentos, mentindo ao Senhor, e roubando osfundos que deveriam ser consagrados àquele fim. A visão termina com o rolo destruindo todas ascasas dos culpados (5.4). Talvez a mais enigmática de todas as visões de Zacarias seja a sétima, em que ele enxergauma mulher dentro de um cesto, do volume de um efa, com tampa de chumbo (5.7). O anjo-intérprete explica a Zacarias que o cesto ou efa simboliza a iniqüidade (5.6/), e que a mulherpersonifica a impiedade. Quase todas as religiões pagãs da antigüidade adoravam divindadesfêmeas, como Astarté, Diana, e Isis. O verdadeiro Deus é o Pai dos céus. Os judeus sempre eramarrastados ao culto à encantadora deusa pelas nações pagas. Na visão do vidente, a mulher sedutoraé levada no cesto para Sinear, onde uma casa será edificada para ela. Sinear é o nome de toda aregião da Mesopotâmia, berço das religiões antiquíssimas. O culto à divindade fêmea pertencesomente aos desconhecedores do verdadeiro Deus e Pai. O culto a ela tem que ser banido, uma vezpara sempre, do arraial do povo de Deus. Adeus, lemanjá! Adeus, Filomena! "Ao Senhor teu Deusadorarás, e só a ele darás culto" (Mt 4.10). Assim falou o divino Mestre, nosso Salvador, ao diabo,inventor de toda religião falsa.
  • 54. 55A Oitava Visão e o Renovo (Cap. 6) Na oitava e última visão aparecem quatro carros puxados por quatro cavalos. A primeiravisão era de quatro cavalos, sem carros, voltando de uma missão, como patrulha divina. Nestaúltima visão, os outros quatro cavalos, equipados com carros de guerra, saem para uma novamissão. Partem para os quatro pontos cardeais, assim dominando toda a terra. O anjo-intérpreteexplica que cumprem a soberana vontade de Deus na terra. Por trás dos acontecimentos políticos,vê-se a segura mão divina controlando tudo. O Senhor dos Exércitos reina desde Sião! O comentárioTyndale sugere que os dois montes de bronze, dentre os quais saem os carros, representam as duascolunas de bronze no templo (1 Reis 7.13-22). 5 Os planos de Deus no mundo inteiro estavam ligadosintimamente com o projeto de reconstrução do testemunho visível do templo. Como nos dias deZacarias, também no século XX, Jerusalém é a mola mestra da situação política mundial. A vontadede Deus se impõe irresistivelmente! Os seus "cavalos" são "ventos" (6.5) ou espíritos. João se servedo mesmo simbolismo no Apocalipse (7.1). Segue-se uma mensagem profética a respeito de Josué, o sumo sacerdote, para quem se devefabricar uma coroa de ouro e prata, fornecidos por um novo grupo de abastados exilados voltando(6.10, 11). Num sentido restrito, Josué merece o nome de "o Renovo" (6.12), pela liderança dada naedificação do templo. Como tantas profecias, esta tem um sentido duplo, e é fácil reconhecer nela adimensão messiânica. Jesus é o nosso Sumo Sacerdote, coroado de honra e glória, que é também reiassentado no trono dos céus (Hb 8.1).Tradição Só, Não Tem Valor (Cap. 7) Passam-se dois anos, durante os quais a obra de reconstrução prosseguiu. É de se supor queo culto cerimonial e os sacrifícios eram celebrados como antes do exílio. Praticava-se também ojejum. A data da queda de Jerusalém era celebrada com muita solenidade e pranto durante os anosdo exílio. Com a rápida restauração do templo, o povo quer saber se a prática ainda é necessária.Observa-o como tradição de grande significação histórica, mas agora que o templo se ergue dosescombros, e os cultos são celebrados segunda reza a lei, o povo indaga quanto à sua necessidade. Opovo jejua por tradição. Vem a resposta pela boca de Zacarias que o jejum, como tradição só, nãotem valor. O Senhor não gosta, nem quer, o culto praticado apenas por dever. As vezes, em nossasigrejas, mantemos as atividades por rotina, e ninguém ousa perguntar se o SENHOR as quer. Muitasatividades continuam por tradição só. Fazem parte do programa evangélico. Uma igreja precisa dacoragem para avaliar o seu programa, indagando qual é a vontade do Senhor. É patente que o cultopraticado só por rotina não tem muito valor aos olhos do Senhor. Em seguida, Zacarias prega uma mensagem simples e clara sobre os pecados sociais deIsrael. Ele ecoa as mensagens de Amós e Oséias. O Senhor dos Exércitos, que levanta e destróinações e impérios, exige do seu povo a justiça social, e a prática do bem (7.9). A exploração dosindefesos na sociedade é citada como a razão principal por que Deus mandou o turbilhão da invasãoda terra santa, e o conseguinte exílio (7.14). Nunca se deve separar a mensagem espiritual da social:são as duas faces da mesma medalha.A Restauração de Sião (Cap. 8) A primeira parte do livro termina com este capítulo. Nele Zacarias reafirma aimprescindibilidade dos planos de Deus. Apesar dos pesares, Sião, outrora rebelde, se tornará acidade fiel, o monte do Senhor dos Exércitos, monte santo (8.3). Nela haverá velhos se alegrando, ejovens brincando (8. 4,5). Por mais incrível que parecesse aos poucos exilados já de volta, Jerusalémtornar-se-ia o centro mundial. O testemunho visível do templo reconstruído seria essencial aocumprimento do plano, e por isso o Senhor declarou aos habitantes: "Sejam fortes" (8.9). Sãoprometidas colheitas abundantes para um povo obediente que responde ao desafio de construir. E opovo, em vez de ser comentado como exemplo de maldição pelas outras nações, será o caso clássicode uma nação abençoada (8.13).5 J. Baldwin, Tyndale O. T. Commentary.
  • 55. 56 O capítulo termina com a esperança da supremacia de Israel entre as nações, sob o Messias.Como os judeus daquela época, nós também esperamos a restauração de todas as coisas, e "ordem eprogresso" perfeitos, alcançáveis somente com a vinda de Cristo, o Senhor, em poder e glória.Zacarias aguardava o dia em que muitos povos e poderosas nações se uniriam para buscar o Senhor(8.23). Esta esperança de um mundo perfeito, governado pelo Messias, se encontra em quase todosos profetas. O último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, relata o mesmo triunfo aqui na terrade Jesus Cristo, nosso Senhor, Senhor da Igreja de todos os tempos, e Senhor deste mundo.O Rei Vitorioso Virá (Cap. 9) A segunda parte do livro (capítulos 9 a 14) é tão diferente no estilo da primeira (1-8), quemuitos comentaristas consideram que o autor tenha sido um outro e não Zacarias, cujo nome não seencontra nestes últimos capítulos. Não há mais menção da restauração do templo, tema principal daprimeira parte. Não há mais visões, nem anjos, nem poesia apocalíptica. A ênfase da segunda parte émessiânica, com a esperança de um reino eterno. Merece menção a citação de Zacarias 11.12 peloevangelista Mateus, que atribui a profecia a Jeremias e não a Zacarias (Mt 27.9). (Alguns estudiososconcluem que Jeremias foi o autor dos capítulos 9 a 14). Esta hipótese é atraente, pois elimina umaaparente contradição nas Escrituras. Outros propõem dois autores, um de 9 a 11, e outro de 12 a 14.O comentarista conservador, Prof. H. L. Ellison, 6 apóia esta opinião. Os eruditos não chegaram a umaconclusão unânime quanto à autoria do livro. Este fato não detrai em nada a sua inspiração peloSanto Espírito. O capítulo 9 delata as nações vizinhas por suas abominações. Os sobreviventes do horrendocastigo divino serão integrados em Judá (9.7). Deus defenderá a sua casa, a casa que ele abandonoupor causa do pecado dos crentes (9.8). A profecia inspirada ultrapassa em tempo o período do vidente, que vê em espírito oMessias prometido como rei vitorioso, humildemente andando num jumentinho! (9.9). Cumpriu-seao pé-da-letra esta profecia com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mt 27.9). O profetapromete que este rei anunciará a paz às nações, e terá domínio de mar a mar (9.10). Como eranatural, o povo no tempo de Jesus ficou desiludido quando ele não cumpriu a segunda parte daprofecia, subindo logo no trono, em lugar de Pilatos! Com lirismo poético, o profeta é levado aanunciar o triunfo final de Deus na história humana, quando os remidos serão como as "pedras nasua coroa" (9.16).A Bênção do Senhor (Cap. 10) O Senhor de Israel é Senhor não somente da História, mas também da natureza. Ele controlaas chuvas. O profeta atribui as secas à idolatria e ao espiritismo entre o povo. Que mensagemrelevante para o Nordeste do Brasil! O Deus vivo contempla a mistura de crendice supersticiosa, depromessas aos santos, de romaria venerando o Padre Cícero ou Nossa Senhora de Aparecida, deumbanda, de espiritismo segundo Allan Kardek, e retém a sua bênção, porque ele aborrece essasmentiras enganosas. O povo de hoje, como no tempo dos profetas, segue líderes que são "bodesguias" (10.3). Como é bom poder dizer: "O SENHOR é o meu pastor!" (Sl 23.1). Ele é a "pedraangular" prometida (10.4). O Deus de Israel que espalhou o seu povo entre as nações promete reuni-lo novamente(10.10). Hoje, no século XX, o judeu, peregrino durante muitos séculos, lê trechos como este comesperança. Os que escaparam do holocausto nazista sentem que a sua sobrevivência e entrada noIsrael moderno faz parte do cumprimento de profecias antigas como esta.O Bom Pastor (Cap. 11) Este capítulo começa com um curto poema lírico, pintando o quadro da destruição dostiranos. Os poderosos reis são comparados aos enormes cedros do Líbano. Quando o gigantescocedro cai, o pequeno cipreste teme! (11.2). Deus já destruiu os imperadores "invencíveis". É hora6 Men spake from God (Paternoster), p. 124.
  • 56. 57para os reis inferiores da circunvizinhança reconhecerem o Senhorio do Deus de Judá. Segue-se uma parábola do bom pastor. Na época do Velho Testamento, um rei era chamado"pastor" da nação. Este é o sentido do versículo 3. Não obstante várias teorias, a referência aos três"pastores" no versículo 8 resiste a todas as tentativas de identificá-los. O profeta sonha com umpastor realmente bom, um rei que ame a justiça social, que se oponha à hipocrisia do v. 5, que proíbaa exploração do pobre. Seria com certeza odiado por aqueles que vivem e prosperam pela injustiça ea opressão do indefeso! Quando o Bom Pastor, o verdadeiro Rei, chegar, ele será vendido pelo"magnífico preço" de trinta moedas de prata. De fato, quando Jesus Cristo compareceu, ele foiodiado pela sua incorruptibilidade transparente, e a sua ferrenha oposição à hipocrisia e corrupçãodos líderes em Israel. Foi traído conforme esta profecia escrita séculos antes (11.13). A profeciainclui até o detalhe minucioso da compra de um campo de oleiro com o dinheiro maldito da traição(Mt 27.7). Com a morte de Jesus, Deus anulou a sua velha aliança de graça com Israel (11.10), eIsrael perdeu a magnífica oportunidade de recuperar a sua união nacional sob a direção do Messias(11.14). Ao fim da parábola sobre o bom pastor, o profeta recebe a instrução do Senhor de seapresentar com um "pastor insensato", que não cuida das ovelhas. Este pastor inútil representa umrei qualquer. Houve muitos reis que não cuidaram dos interesses do povo de Israel! Se, porém,Jeremias é realmente o autor desta segunda parte do livro, a referência bem podia aplicar-se ao reiapóstata, Zedequias, último rei de Israel. Este abandonou o seu povo cercado em Jerusalém, e tentoufugir miseravelmente (2 Reis 25.4). Capturado logo pelo exército babilônico, este lhe vazou os olhos,atando-o com duas cadeias de bronze. A sua condição trágica corresponde perfeitamente à palavrado profeta: "A espada lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o braço completamente se lhesecará, e o olho direito de tudo se escurecerá" (11.17).A Salvação de Jerusalém (Cap. 12) O grande tema dos capítulos 12 a 14 é a salvação e libertação final de Jerusalém, peloestabelecimento do reino do Messias. O Senhor há de intervir na situação política mundial paracumpri-lo. Num trecho apocalíptico, o vidente descreve o cerco de Jerusalém por todos os povos domundo. Esta profecia não pode aludir à destruição posterior de Jerusalém em 70 d.C, pelo generalromano Tito, pois naquela guerra outras nações não foram envolvidas. Por esta razão conclui-se queo trecho descreve a última batalha para Jerusalém, a de Armagedom. Os atacantes serão feridos decegueira, o que relembra as conseqüências do uso de gases venenosos na Primeira Guerra Mundial.A minoria insignificante de defensores de Jerusalém triunfará sobre a vasta multidão dos exércitosdas nações unidas contra a cidade santa (12.8, 9). Um com Deus sempre constitui uma maioria! A esta altura, os judeus reconhecerão que Jesus Cristo era de fato o Senhor, o Messiasprometido, e se arrependerão, e chorarão amargamente (12.10). Perceberão finalmente quem foi ounigênito traspassado por eles.O Ferimento do Bom Pastor (Cap. 13) Com o arrependimento do povo, manifesta-se a Judá a fonte para remover o pecado (13.1).Jesus Cristo, o Messias, pelo seu sangue derramado na cruz, abriu uma fonte inesgotável demisericórdia e de graça. Com a sua segunda vinda em glória, não haverá mais idolatria, nem falsaprofecia. Todo falso profeta esconderá a sua identidade, por vergonha (13.4). As feridasmencionadas no v. 6, longe de ser alusão às feridas de Cristo, referem-se às dum falso profeta. Aparece agora no palco o profeta fiel, o pastor verdadeiro de Judá. Voltando em tempo, ovidente vê o Messias como o Bom Pastor ferido por nossos pecados. O Pai permite que o seu Filho"companheiro" morra em nosso lugar (13.7). Com a sua morte, as ovelhas ficam dispersas. Mateuscita este versículo como exemplo de uma profecia cabalmente cumprida (Mt 26.31). A rejeição doMessias acarreta o extermínio de grande número de judeus (13.6). De fato, desde a morte de Cristo,o judeu tem sido alvo de inúmeras perseguições, de pogroms, e de holocaustos, tendo a suaculminação no extermínio de seis milhões na Segunda Guerra Mundial. No entanto. Deus promete
  • 57. 58que sobreviverá um restante de judeus, crentes no Senhor (13.9).O Dia do Senhor (Cap. 14) O último capítulo deste livro fascinante corresponde aos últimos capítulos do Apocalipse deJoão, onde o triunfo final do Senhor é assegurado. Chega-se aqui ao clímax do Armagedom, quando avitória das forças do mal parece estar certa, e Jerusalém estará tomada. No momento da derrota,aparece o Senhor no Monte das Oliveiras (de onde ele subiu depois da sua ressurreição, Atos 1.12).Ocorre um terremoto, aplainando a região circunvizinha, abrindo um caminho de escape para ossitiados (14.5). O terremoto afeta o clima, e a retração da luz do sol. Um rio jorra de Jerusalém,dividindo-se para o Mediterrâneo a oeste, e para o Mar Norte a leste. Já é fato conhecido que há umrio subterrâneo embaixo da cidade de Jerusalém. A profecia termina exaltando o Senhor que reina sem rivais (14.9). Todas as nações servemao Senhor, e os rebeldes são visitados com o castigo mais horrível imaginável (14.12). As riquezasdas nações inimigas são apropriadas por Judá (14.12). Segue-se a paz mundial, e todas as naçõessobem para adorar ao Senhor. As que não participam sofrem na forma de não receberem chuva nassuas terras (14.18). A cena de paz e de santidade é pintada em termos de idealismo poético. Oscavalos, outrora de guerra, são enfeitados com campainhas gravadas com o lema: Santo ao Senhor(14.20). Até as bacias e panelas de uso doméstico são enobrecidas com o mesmo lema. Não haverámais religião comercializada: "Não haverá mercador na casa do Senhor" (14.21). Com razão, São Jerônimo achou "obscuríssimo" este livro profético. 7 Seria presunção denossa parte pontificar sobre o sentido real de todas as profecias e sonhos nele contidos. É um livromisterioso. As maiores inteligências evangélicas concordam com isto. Agora vemos como emespelho, obscuramente; então veremos face a face; agora conhecemos em parte, entãoconheceremos como também somos conhecidos (1 Co 13.12). O Espírito Santo inspirou o livro, epode abrir a nossa inteligência para desemaranhar algo de valor nele, mesmo no século XX. Se nelepodemos ver com maior clareza a glória refulgente de Jesus Cristo, e os pormenores da sua vida, desua morte, e de sua ressurreição, vaticinados séculos antes, a leitura do livro não será vã. E sereconhecermos nele os sinais da sua segunda vinda como SENHOR de todo ser, e de todo o universo,estaremos melhor preparados para arregaçar as mangas, a fim de trabalhar com o zelo de Zacarias eAgeu, no serviço privilegiadíssimo do Reino de Deus. 12. O ÚLTIMO PORTA-VOZ DO MESSIAS MALAQUIAS Nos dias de Malaquias, a volta dos judeus da Babilônia já era fato histórico do tempo dosavós. Os octogenários ainda se lembravam com emoção da dedicação do templo reconstruído, e ospoucos centenários contavam a história inolvidável da volta à cidade arruinada. A história épica dachegada dos judeus em Jerusalém em 537 a.C, onde o famoso templo de Salomão jazia emescombros, desde o seu saque impiedoso em 587 a.C. pelas forças babilônicas, estava escritaindelevelmente na memória do povo de Israel. Os avós não cansavam de narrar para os netos comoeles arregaçaram as mangas e começaram a reconstruir a cidade santa e o santuário de Deus, nãoobstante a hostilidade aberta dos seus inimigos. Com a ajuda do Senhor, a obra foi levada a cabodepois de esforços ingentes, e o povo heróico, com lágrimas nas faces, contemplou a belezafulgurante do segundo templo, o de Zorobabel. Completou-se em 516 a.C, exatamente 70 anosdepois da destruição do primeiro, conforme a palavra do Senhor. A volta foi acompanhada por uma renovação espiritual de notável vigor. Os sacerdotespregavam a necessidade imperiosa de uma vida santificada. A leitura pública da Palavra de Deus7 P. Lamarche, Zacharie (Gabalda, Paris, 1961):
  • 58. 59durante horas inteiras tornou-se popular. Nunca mais seria o povo de Israel réu da idolatria. Ajustiça prevalecia e todos trabalhavam para a causa com espírito abnegado. No entanto, com a passagem do tempo, o fervor da renovação se perdeu, e o elevado padrãomoral cessou de dominar a maioria. Sessenta anos depois da dedicação do segundo templo, aterceira geração de crentes se acomodara às práticas religiosas, sem se importar tanto para a vidainterior. As lutas do passado eram lembradas principalmente pelos avós. A nova geração de netosvia as coisas sob um novo prisma. Tendo o templo restaurado, e os cultos estabelecidosnormalmente, que mais precisavam fazer? Entre os mais antigos sempre se falava da vinda do Messias, que iria garantir a supremaciaindisputa dos judeus permanentemente. Mas a sua vinda demorava. E com a demora, o fervorreligioso da nova geração decrescia. Não é que os cultos não fossem freqüentados. Tudo corria comum programa bem elaborado, segundo reza a lei. E que o povo não praticava mais a religião pessoalcom tanto afã. Por conseguinte, os alicerces do lar começaram a ruir. O divórcio estava se tornandomais comum entre o povo da aliança. Tornou-se socialmente aceitável no arraial dos crentes umsegundo casamento com uma das belas mulheres estrangeiras que não seguiam ao Senhor. Os avósachavam que tudo estava muito mudado desde os grandes dias de Daniel, de Ezequiel, e dos demaisgigantes da fé. Nessa época de fé acomodatícia, e de valores tradicionais questionados, vivia Malaquias, oúltimo dos profetas do Velho Testamento. O seu nome significa em hebraico "Meu Mensageiro". Onome não ocorre em nenhum outro livro da Bíblia, somente neste que leva o seu nome. É bempossível que seja um pseudônimo, como opinam São Jerônimo, Calvino e outros. O leitor nota com facilidade o estilo indutivo do autor. O livro de quatro capítulos contémnada menos que 27 perguntas. Em diversos trechos do livro, Deus fala diretamente com Israel naprimeira pessoa, num diálogo profundamente pessoal. Malaquias enfatiza a aliança sagrada entreDeus e o seu povo. Nove vezes ele menciona o nome sacrossanto de Deus. O povo que voltou do exílio babilônico esperava a prosperidade material como recompensapela sua obediência em voltar. Isso não ocorreu, e por conseguinte muitos sentiram que a busca deDeus era perda de tempo (3.14). Malaquias se dirigiu a este e a outros problemas espirituais. Depoisda sua mensagem, seguiu-se um silêncio de quatro séculos, no período chamado intertestamentário.Por mais de 400 anos o povo de Israel esperou o cumprimento do recado profético de Malaquias.Aconteceram as horrendas guerras dos Macabeus, mas o Messias não surgiu da famosa famíliaMacabeu. Rompeu-se o silêncio com João Batista, com a voz daquele que clamou no deserto:"Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt 3.3). Malaquias previu a vinda doprecursor, a quem aplicou o sugestivo título do livro: "Meu Mensageiro".O Amor do Senhor (Cap. 1) Malaquias proferiu sua mensagem aos seus contemporâneos no estilo tradicional dosgrandes profetas do passado. Era profecia contra Israel! (1.1). Israel, apesar de tanto sofrer noexílio, não aprendera a lição espiritual. A desobediência a Deus acarreta infalivelmente o sofrimentoe o juízo divino. Mesmo assim, Malaquias reafirmou logo de início que Deus ama o seu povo. "Eu vostenho amado", diz o Senhor. Isto, sim, é uma boa nova em todos os séculos: apesar dos pesares, Deusnos ama. Quão trágico é quando o povo eleito nutre dúvidas quanto a esse amor infinito! "Em quenos tem amado?", inquiriu Israel. Como se não bastasse Deus tê-lo libertado da escravidão daBabilônia, Israel ficou insatisfeito, desejando uma prosperidade maior. Deus devia dar muito mais!Assim raciocinava a terceira geração de crentes. Davam mais valor às coisas materiais,negligenciando as espirituais. A escolha de Deus se entende nestes termos. Esaú, o primogênito, foi rejeitado, e Jacó aceito.Deus indaga: "Não foi Esaú irmão de Jacó? Todavia, amei a Jacó" (1.2). Toda a história subseqüenteda descendência de Esaú se explica pelo sistema de valores dele. No palco deste mundo, a vidahumana interpreta os princípios fundamentais da Bíblia, os quais a história das nações corrobora.Edom (1.4), terra dos descendentes de Esaú, nunca poderia inverter as conseqüências dos
  • 59. 60princípios estabelecidos pelo eterno Deus. Israel achou muito certo o julgamento de Edom, por ter se unido à Babilônia contra Israel,no tempo da queda de Jerusalém. O povo achava certo que Deus julgasse Edom conforme os seusestatutos inquebráveis, mas não se conformava com a idéia de que seria justo o julgamento de Israelpelas mesmas leis. E sempre mais cômodo apelar para o juízo divino contra "os pecadores": oscorruptos, os tubarões, os lascivos, mas nunca contra nós! O mesmo Deus que julgará o mundo,também chamará a igreja ao tribunal de Cristo (Rm 14.12). São poucas as pregações baseadas em 1Coríntios 3.15! O povo de Deus não quer saber do julgamento do Senhor para si, só para os outros.Todo verdadeiro profeta adverte o povo de Deus, tanto como "os pecadores", que seremos todosjulgados. Em Israel, todo o mundo sabia repetir de cor os dez mandamentos. O primeiro mandamentocom promessa é o quinto: "Honra a teu pai e a tua mãe". Através do seu servo Malaquias Deus sequeixou dos dirigentes do povo que se diziam ser "os filhos de Deus". Se Deus era de fato o pai deles,como se explicava a triste verdade que eles não lhe davam a honra que merecia? Os filhos de Deusnão estavam dando honra ao Pai do céu! (1.6). Fingindo inocência, lhe replicaram: "Em quedesprezamos nós o teu nome?" Neste diálogo com o Senhor, Deus apontou para o tipo de animal queeles lhe ofereciam como sacrifício. Animais coxos e enfermos eram trazidos, que eles nuncaousariam oferecer ao digníssimo governador do estado de Israel. Vinham assim indignamente àmesa do Senhor (1.7). No Novo Testamento, Paulo indica o mesmo perigo: "Examine-se pois ohomem a si mesmo e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir ocorpo, come e bebe juízo para si (1 Co 11.28, 29). Em todas as épocas existe o perigo de pecar contrao Senhor pela maneira como o cultuamos. Não é verdade que em geral há muita irreverência, muitasuperficialidade e até leviandade nos cultos mais solenes? A Igreja de hoje se assemelha ao povo deIsrael nisso, que em bom número de casos está disposta a adotar atitudes de mais respeito e honrapara com a presença de chefes políticos do que para a celebração da santa ceia do nosso SenhorJesus Cristo. Com franqueza perturbadora, Deus declarou a Israel: "Eu não tenho prazer em vós"(1.10). A falta de reverência em Israel levou o Senhor a afirmar que Seu nome é grande entre asnações (1.11). Se Israel não satisfizer o coração do seu Deus, ele chamará os desprezados pagãos, osgentios, para que o honrem. Mais uma vez, a promessa da entrada dos gentios no plano da salvaçãoé revelada. Os planos divinos não admitem a menor possibilidade de fracasso. Se Israel falhar na suamissão, então Deus levantará os gentios para cumprir a sua invencível vontade. E se uma igrejaqualquer não cumprir a vontade dele, ele suscitará outra para fazê-la. É evidente que nos dias de Malaquias os netos dos crentes que saíram da escravidãobabilônica eram de outra laia. Os avós ainda choravam de gratidão, lembrando os primeiros cultosmaravilhosos, e os grandes sacrifícios oferecidos em Jerusalém, reerguida dos escombros. Era umasalvação tão grande! Mas, agora, os netos, acomodados, achavam os cultos enfadonhos. Nãoagüentavam as pregações que os velhos apreciavam tanto. Bocejavam no culto, anelando o fim,resmungando: "Que canseira!" (1.13) Discordavam altaneiramente com muita coisa, e davammuxoxos de desaprovação. "E me lançais muxoxos, diz o Senhor dos Exércitos". Nas ofertas, o que sedava não representava o melhor. Dava-se um pouco, do que a gente não sentia falta. Que contrastecom o sacrifício desmedido dos avós, que tudo deram para reconstruir o testemunho! E possívelcontribuir para a obra do Senhor e ser enganador! Quando a cédula de Cr$ 500,00 é da mesma corda de Cr$ 5.000,00 é fácil ... E Deus diz: "Maldito seja o enganador" (1.14). Ananias e Safiraaprenderam esta verdade séculos depois de Malaquias. Pois Deus é um grande Rei! É o Senhor dosexércitos. E seu nome é terrível.Os Líderes Reprovados (Cap. 2) O exílio de 70 longos anos foi o cumprimento da palavra de Deus. Já no tempo de Moisés, uns700 anos antes. Deus tinha estabelecido o princípio de que a obediência traz a bênção divina,enquanto que a desobediência acarreta a maldição (Dt 28. 2, 15). A lei adverte especificamente a
  • 60. 61respeito do exílio: "O Senhor vos espalhará entre todos os povos" (Dt 28.64). Na Babilônia, cumpriu-se ao pé-da-letra essa profecia severa. Menos de cem anos depois da volta do exílio, Deus é obrigadoa advertir o seu povo novamente sobre a maldição (2.2). Era necessário que o povo de Israelaprendesse a verdade que ele poderia perder a sua bênção pela segunda vez. Achavam que o maisimportante era o culto, mas Deus, como sempre, se preocupava com o coração. Deus se lembrou dos sacerdotes do passado que eram homens de Deus com quem elemantinha uma aliança de vida e de paz (2.5). Eles ensinavam a verdade, e suas vidas eram retas. Masa nova geração de líderes espirituais não era tão consagrada. Tinham se desviado do caminho (2.8).Em nossos dias também não é tão incomum o triste espetáculo de líderes cujas vidas nãocorrespondem mais às elevadas normas evangélicas. Pastores e missionários desviados violam aaliança, e fazem tropeçar a muitos (2.8). Todo servo do Senhor deve ser realmente "Mensageiro doSenhor" (2.7), como foi o último profeta do Velho Testamento. Deus queixou-se contra a parcialidade dos seus pastores na aplicação da lei (2.9). Certa vezeu fui cientificado de um caso de adultério cometido por um crente de uma igreja no sertão. Quandofalei com o pastor a respeito, este não quis fazer nada. Como desculpa disse que diversos oficiais daigreja estavam na mesma situação, e se agisse contra eles, iria perdê-los! ... Deus declara serdesprezível e indigna tal parcialidade. Depois de falar aos líderes espirituais, o Senhor se dirigiu ao povo. O abandono do cônjugeestava ameaçando o desmoronamento do lar em Israel. Malaquias continuou apresentandoperguntas retóricas. Se Deus é realmente Pai e Criador, então, como filhos e criaturas dele numarelação vertical, os israelitas deviam mostrar lealdade uns para com os outros, na relação horizontal.O profeta antecipou-se ao apóstolo João, que escreveu o seguinte: "Se alguém disser: Amo a Deus, eodiar a seu irmão, é mentiroso " (1 João 4.20). A infidelidade marital profana a aliança com Deus(2.10). Os crentes em Israel estavam abandonando as esposas, e contratando o segundo matrimôniocom mulheres não convertidas, "adoradoras de deuses estranhos". O casamento misto entre crentee descrente ocasionara a eliminação da congregação (2.12). Nisto Malaquias confirmou a disciplinapraticada por seu contemporâneo Neemias (Ne 13. 23-26), e ensinada mais tarde pelo apóstoloPaulo em 2 Coríntios 6.14: "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos". Os judeuschoravam e gemiam no culto (2.13), mas "o chorar não salva". Deus quer a obediência da fé. Averdade nua e crua é que a Bíblia não permite o divórcio para o seu povo. Num casamento, atestemunha principal é o próprio Senhor (2.14). São feitos os votos no seu santo nome. Por isso, odivórcio é perjúrio abominável. Malaquias apelou para "o bom senso" do leitor (2.15). São inúmerosos exemplos de sofrimento e de infelicidade causados pelo divórcio. As principais vítimas são osfilhos. Nos Estados Unidos o divórcio já atingiu 50% dos casamentos na Califórnia. Torna-se cadavez mais comum encontrar pessoas divorciadas nas igrejas norte-americanas. No Brasil a lei dodivórcio está aí. Por isso, é preciso escrever em manchetes a palavra de Malaquias 2.16: DEUSODEIA O DIVORCIO. Em palavras figuradas, o profeta fala do divórcio como ato de violência. De fato,toda vítima do divórcio é violentada psicologicamente. Os golpes psicológicos precedem à separaçãofísica. Eis porque a Bíblia repete a solene exortação: "não sejais infiéis" (2.16).O Juízo do Senhor (Cap. 3) A religião vã, de palavras vazias, e divorciada da moral, desafia o Senhor Deus do juízo(2.17). Os judeus, voltados do exílio, esperavam o Messias como "Deus do juízo", que iria julgar asnações opressoras. Antes da vinda do Senhor chegaria o "meu mensageiro" (no hebraico, Malaquias), e aqui háuma profecia que se refere a João Batista. O "anjo da aliança" se refere a Cristo. Os judeus sempreachavam que o Messias estaria do seu lado contra os inimigos pagãos. Na realidade sua vinda setornaria insuportável para Israel, devido à desobediência deste. Malaquias prometeu um Messiasque seria o refinador do seu povo (3.2). A igreja pode cair no mesmo erro, quanto à segunda vindade Cristo. O Dia do Senhor anunciará o julgamento da igreja. A igreja, como Israel do passado, éresponsável pela sua mordomia e dará contas ao Senhor no dia da vinda dele. Compete-nos no
  • 61. 62século XX dar ouvidos à pergunta de Malaquias: "Quem pode suportar o dia da sua vinda?" Embora praticando a sua religião escrupulosamente, os judeus não tinham um testemunhocoerente. O Senhor tinha que condenar diversos pecados no seio do seu povo. O espiritismo atraíaalguns. O adultério era tolerado. Contratos eram quebrados. O salário mínimo não era pago. A obrasocial era negligenciada. Os estrangeiros eram explorados. E tudo isto pela simples razão que o povode Deus não temia o Senhor. Ainda hoje o horóscopo, a zona, a exploração econômica, a mentira e oracismo minam o testemunho dos "filhos de Deus" que não temem o Juiz do mundo, que não muda(3.6). Tal pai, qual filho, os novos crentes estavam andando na devassidão. Negligenciavam a leiturada Palavra de Deus que contém os seus estatutos. Pecavam contra o Senhor mais ainda nisto, queestavam roubando-o (3.8). Segundo a lei de Moisés, o judeu devia dar o dízimo dos seus bens comooferta principal, e depois as ofertas voluntárias. O não dar o dízimo é roubo, pois pertence aoSenhor. Nunca pertencia àquele que ganha o salário. O homem não dá o dízimo. Ele o devolve. Emordomia. Para o judeu, toda transgressão da lei trazia uma maldição. Por ser o dízimo parte da lei,quem não entregava o dízimo caía automaticamente na maldição: "Com maldição soisamaldiçoados" (3.9). O propósito de Deus é patente. Ele estabeleceu o dízimo como meio de cooperação com ohomem, pelo qual ele pudesse abençoá-lo. Todo dizimista testifica o fato de que Deus é fiel. Quantashistórias comoventes provam a maravilhosa verdade que Deus, ainda hoje, abre as janelas do céu, ederrama bênçãos sem medida sobre aqueles que são fiéis na sua mordomia, dando 10% para a obrado Senhor! Ao mesmo tempo, é importante lembrar que a lei do dízimo se aplicava a um povo terrestredo Senhor, e bênçãos terrestres lhe eram garantidas. A igreja é povo celeste, e as nossas bênçãos sãoprincipalmente celestiais (Ef 1.3). A prosperidade material não é garantida ao crente. A suficiência,sim. Paulo recomendou: "tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes" (1 Timóteo6.8). Na sociedade de consumo, estamos realmente longe daquele contentamento apostólico. Deusabençoa materialmente conforme a situação e a necessidade de cada um de seus servos. O que é"suficiência" varia muito. Se Deus precisa de alguém em Copacabana, para evangelizar os cariocas, o"suficiente para este servo talvez seja bem diferente do de um evangelista em Xique Xique,alcançando o pessoal do Rio São Francisco. Nunca se deve pensar no dízimo como uma apólice que assegura a prosperidade material.Não é "investimento". Muitos dizimistas fiéis têm sido chamados pelo Senhor a viver com menosrecursos, e não mais. Foi precisamente a atitude materialista que Malaquias condenou nos judeusque diziam: "É inútil servir a Deus, Que nos aproveitou (isto é, materialmente) termos cuidado emguardar os seus preceitos?" (3.14). A religião dos judeus era um negócio: "quem pagasse o dízimodeveria ter um lucro maior nos negócios! " Como mencionado acima, não se dá o dízimo, pois odízimo do salário nunca foi nosso; muito menos ele não se paga". O dízimo pertence sempre aoSenhor. Devolve-se o dízimo ao seu legítimo dono. Por esta razão, Deus não tem obrigação nenhumade nos recompensar com bênçãos materiais por sermos honestos com a propriedade dele, a não sera obrigação de cumprir a sua promessa graciosa. Os contemporâneos de Malaquias queixavam-se do fato de que os descrentes, nada dando aoSenhor, prosperavam materialmente, sem sofrerem castigo: "felizes os soberbos"; que felicidade!(3.15). Quem rouba a Deus não é capaz de amá-lo. Em contraste, os fiéis falam bem deleconstantemente. Deus grava a sua conversa como memorial. Aquele que ama ao Senhor, quecontribui materialmente para a causa do Evangelho com alegria, é considerado o "particulartesouro" do Senhor, tornando-se objeto do seu amor e proteção (3.17). Só o Dia do Juízo revelaráquem foi fiel, e quem foi mesquinho, na mordomia do dízimo do Senhor.O Encontro com Deus (Cap. 4) A profecia termina com a promessa da vinda do "Sol da Justiça". Sob o símbolo de umafornalha, Malaquias descreveu o dia do juízo. "Nosso Deus é um fogo consumidor" (Hebreus 12.29).Naquele dia, derreter-se-á o orgulho dos soberbos e dos perversos (4.1). Deus destruirá totalmente
  • 62. 63da terra todo mal, sem deixar nem raiz nem ramo. Para Malaquias, a longa noite de espera precede agloriosa alvorada do Messias, o sol da justiça, que nascerá para ser a luz do mundo (João 8.12). Eletrará a salvação nas suas asas (4.2). O termo usado sugere a ressurreição maravilhosa do SenhorJesus, o que garante a salvação comprada na ensangüentada cruz do Calvário. Os que aceitam asalvação são comparados poeticamente com os bezerros soltos da estrebaria, que saem e saltam naalegria da vida. A exuberância espontânea e desinibida caracteriza aquele que conhece o Cristoressuscitado como seu Senhor e Salvador pessoal. E com a sua segunda vinda, em poder e glória, anossa alegria será completa. O mesmo sol que afugenta as espessas trevas da noite, e dá o conforto do calor depois do frionoturno, também pode queimar. Este Senhor Deus do universo virá para castigar os perversos: "sefarão cinzas debaixo das plantas de vossos pés naquele dia que prepararei, diz o SENHOR dosExércitos" (4.3). A segunda vinda de Cristo marcará a alegria indizível do crente, e a calamidadeirreversível do ímpio. A lei do Senhor é claríssima quanto ao fim do drama da raça humana. DesdeGênesis até Malaquias a Bíblia adverte e exorta o homem a respeito do fim. "Lembrai-vos da lei!"(4.4). Antes do dia de juízo, "o grande e terrível dia do Senhor", vem o dia da graça, o dia da salvação.Este dia começaria com a vinda do profeta Elias (4.5). Isto é, um novo Elias haveria de vir. JesusCristo, falando de João Batista, confirmou categoricamente: "E, se o quereis reconhecer, ele mesmo éElias, que estava para vir" (Mt 11.14). Ele teria um ministério de reconciliação dentro do lar,convertendo o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais (4.6). O bendito evangelhocomeça no lar. Se o Evangelho não funcionar no lar, não funcionará em parte nenhuma. E curiosoque muitas vezes a gente se esquece desta verdade fundamental. Há pregadores tão ocupados,salvando o mundo, que negligenciam os seus próprios filhos. A mais bela expressão do evangelho é olar feliz, onde os pais entendem os filhos e têm tempo para eles, onde os filhos, cercados de amor,crescem no conhecimento de Jesus. Se os raios benditos de luz e amor que emanam do Sol da Justiçanão transformarem o lar do pregoeiro do recado divino, o mundo cético não acreditará. Ficará sob amaldição, última palavra de Deus, que assim prepara o mundo para a nova palavra, revelada noNovo Testamento, o Verbo, a palavra perfeita do nome de Jesus.