UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE          PRIMEIRA VERSÃO                ...
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O Museu do Estado guarda exemplares de sapatos e sacos para viagem, produzidos nos seringais a partir da goma elástica e q...
mesma cor. Antes das festas, elas escolhiam a cor que seria a roupa. Por exemplo, se a cor era verde, todas iam de verde, ...
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A moda é como Barthes coloca, “uma ordem da qual se faz uma desordem”. Aqui no norte, não se pode deixar de entrever as ma...
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Milena Magalhães                                                                                                          ...
presentes no monumento literário”. É importante confidenciar desde já que é quase heresia chamar Barthes de teórico, uma v...
em oposição. Barthes parece aproximar-se do receptor, dando-lhe importância: “Este retorno da palavra ‘prazer’, é porque e...
saem voando todas as virtualidades da linguagem”, Barthes imagina também um novo receptor que a devore com “uma curiosidad...
Na cidade de Vilhena, onde se consegue ler com meia no pé (sempre achei o máximo essa imagem), iniciei a leitura de uma bi...
Na estante repousa Sade, Fourier, Loyola (por que ainda não me animei a lê-lo?). O óbvio e o obtuso também espera. Acabei ...
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Alberto Lins Caldas                                                                                                       ...
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BLOCH, Marc. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA. Europa-América, Sintra, 1976.BURKE, Peter (Org.). A ESCRITA DA HISTÓRIA. UNESP, São Pa...
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Maria Do Socorro Dias Loura                                  A MARGINALIZAÇÃO DA SEMÂNTICA E DA PRAGMÁTICA NA SALA DE AULA...
Não há dúvida de que, com tais procedimentos, o professor não desenvolverá, no aluno, pelo menos adequada e satisfatoriame...
Volume viii 2003
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Volume viii 2003

  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 113 ANO II, Nº113 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VIII ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS – História - UFRO CLODOMIR S. DE MORAIS – Sociologia - IATTERMUND ARTUR MORETTI – Física - UFRO CELSO FERRAREZI – Letras - UFRO HEINZ DIETER HEIDEMANN – Geografia - USP JOSÉ C. SEBE BOM MEIHY – História – USP MARIO COZZUOL – Biologia - UFRO MIGUEL NENEVÉ – Letras - UFRO SILVIO A. S. GAMBOA – Educação - UNICAMP VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia - UFSC RONDÔNIA: VESTIDA PARA TIRAR FOTOSOs textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte TimesNew Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br NILZA MENEZES & CÉLIO LINO CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
  2. 2. Nilza Menezes e Célia Lino RONDÔNIA: VESTIDA PARA TIRAR FOTOSCoordenadora do Centro de Documentação do TJ-RO / Jornalista Pós-graduada em Modacendoc@tj.ro.gov.br / célia.menezes@ig.com.br O vestir é a reprodução da condição social e da visão de mundo. O vestir reproduz o que somos ou que gostaríamos de ser. Através das vestes expressamos asnossas posturas sociais, culturais e os momentos históricos. Cada povo ao seu tempo vestiu-se das suas realidades e dos seus sonhos. Conforme observa EricaPalomino: “...a moda tem muito mais a ver com a vida real do que as pessoas pensam” (Palomino, 2000). Muitas vezes, o mundo não se dá conta dessa historicidade da moda ou, também muitas vezes, não percebe que a moda termina por completar o quadrohistórico das sociedades (Palomino, 2000) As vestimentas apresentam os momentos históricos vividos por cada comunidade, cada povo. Através das roupas, vamospercebendo as suas relações e transformações. As fotos e gravuras são as fontes principais para observarmos essas imagens que são inseridas no roteiro histórico. Rondônia apresenta ao longe uma imagem desnuda. Essa imagem é construída pelos relatos dos viajantes, pelos cartões postais exibindo nativos em pêlo.Ainda há quem pense que índios andem nus pelas ruas atirando fechas. Imagem construída pelas fotos de Rondon distribuindo roupas aos nativos. Desse vestir-separa tirar fotos desnudamos as imagens regionais. Geograficamente o que antes era um pedaço do Amazonas e uma grande porção de terras do Mato Grosso passou a ser o Território do Guaporé (1947), apósTerritório Federal de Rondônia (1956) onde hoje conhecemos por Estado de Rondônia, criado em 1982. A historia do lugar pode ser divida em três tempos, dos três períodos três fortes figuras fardadas Mal. Cândido Rondon, Cel. Aluísio Ferreira e Cel. JorgeTeixeira fazem parte da galeria dos que representam os momentos de rupturas políticas e culturais da região. Em Rondônia, uniforme escolar é também chamadofarda, resquícios dos seus momentos históricos marcados pelo comando de militares ainda não apagados. A cidade de Porto Velho, feita com as locomotivas e estrangeiros surgiu do ponto de partida da Ferrovia Madeira Mamoré construída no começo do século XX(Hardmann, 1988) e falamos dela sempre a partir do ponto de onde parte a sua locomotiva. Como se antes fosse o caos, partimos sempre no trem da Madeira Mamorépara contarmos a história da região. Antes era só a selva e não Rondônia. No entanto a maneira de vestir-se e de adornar-se dos habitantes da floresta e beira de rios ficou registrada por muitosviajantes. Os enfeites coloridos feitos de penas com dentes de animais, peles, com todas as suas tendências foram mostrados por Alexandre Rodrigues Ferreira em seurelatório de viagem realizado no século XVII e deixaram de existir para a história a partir do apito da locomotiva. Ao embarcarmos no trem, no momento da sua partida inicial, vamos nos encontrar com diversos povos. As fotografias da época mostram distintasformas de vestimentas de acordo com o país de origem dos trabalhadores.
  3. 3. O Museu do Estado guarda exemplares de sapatos e sacos para viagem, produzidos nos seringais a partir da goma elástica e que eram usados pelostrabalhadores dentro da floresta, objetos ainda encontrados nas comunidades que vivem nos seringais. Têm-se também desses tempos referências de Euclides da Cunha e de Manuel Carneiro da Cunha dos procedimentos efetuados pelo Marechal Cândido Rondonprovidenciando calções, camisas e cintos para os povos indígenas durante a instalação da linha telegráfica. Antes da locomotiva da modernidade, registros documentais mostram-nos que mulheres judias já se encontravam com seus maridos comerciantes empequenos povoados como Presidente Marques, Generoso Ponce e, em número mais acentuado, em Santo Antônio do Rio Madeira. Os judeus, assim comomais tarde os árabes, estabeleceram na região uma rede comercial que, partindo de Belém para Manaus cobria a região da hinterlândia. As listas de mercadorias dos comerciantes do começo do século XX na região trazem junto com o bacalhau, vinho do porto e chumbo, as sedas, brins, chitas,fitas e pó de arroz. Todo o comércio era feito por esses estrangeiros o que foi mantido até os anos 80, conforme recorda Labibe Aiech: “Tínhamos as lojas, aqui tinhamuito estrangeiros e as lojas foram se estendendo. Tudo chegava de navio” (Aiech: 2001) Do ponto de partida do trem, as primeiras mulheres a chamarem a atenção pela maneira de vestir-se e que encontramos registradas em fotografiasão as Barbadianas, negras caribenhas que chegaram em Porto Velho por volta de 1912. Nas fotos oficiais da ferrovia são apresentadas como enfermeiras e lavadeiras. Elas foram observadas e comentadas pelo uso do chapéu, hábitobritânico que trouxeram para a floresta e que preservaram, sendo assim registradas e lembradas. Em sua visita à Porto Velho e Guajará-Mirim em 1929, Mario de Andrade não deixou de observar essas mulheres: Mulher do povo e de chapéu, já sabe, ébarbadiana. (Andrade,1983) . Eduardo Barros Prado registrou-as como verdadeiras belezas de ébano. Pinto Pessoa, em Selva Selvagem, também notou essas mulheres e assim asdescreveu: As mulheres tem um hábito interessante de conversar sempre mettido na cabeça um chapéo. Vemol-as em ruidosos grupos pelas ruas ás horas dedescanso, engrolando um máo inglez, exhibindo chapéos de todos os feitios. Muitas levam tão longe tal habito que se conservam de chapéo, em casa, ao serviço(Apud: Lopes, 1995). Com a modernidade na selva, marcada pela construção da Estrada de Ferro e pela afluência de trabalhadores e efervescência econômica da borracha, mesmoao calor de 38 graus, as damas da sociedade exibiram chapéus e casacos ao longo das primeiras décadas do século XX. Vestir-se na selva com algo de Londres foi imperativo. Gilberto Freiry, em sua obra “Modos de homem & Modas de mulher”, esbraveja contra essecostume, “não só extravagante para o Brasil, como terrivelmente anti-higiênico, antiecológico e antitropical” Freyre,1987). As mulheres que viveram esse período como a Srª Labibe Aiech, descendente de libaneses e que chegou em Porto Velho no ano de 1912, hoje com92 anos, conta que as roupas para as festas do Clube Internacional onde freqüentava a alta sociedade portovelhense eram feitas por costureiras. Com apeculiaridade dos antigos, o saudosismo fala dos famosos “soiarées” que eram as noitadas onde as mulheres costumavam comparecer vestidas todas da 3
  4. 4. mesma cor. Antes das festas, elas escolhiam a cor que seria a roupa. Por exemplo, se a cor era verde, todas iam de verde, podendo variar a tonalidade e osmodelos dos vestidos. Observamos que os primeiros comerciantes a trazerem o fascínio dos fetiches femininos para os rios Madeira, Mamoré e Guaporé foram os árabes com seusregatões que, a partir do Porto de Belém, passando por Manaus, escorriam por estradas líquidas e junto com o sal, o açúcar e os enlatados levavam os leques, rendas,perfumes e água de colônia. Os anúncios de jornais da época apresentam as mercadorias oferecidas à sociedade de Porto Velho, sendo que a maior parte das lojaspertencentes a árabes tinha um toque francês no nome da loja. As mulheres que presenciaram ou que ouviram de suas mães e avós sobre o período falam de barcos ao longo dos rios trazendo um quase “shopping”ambulante: móveis, alimentos, roupas, objetos de necessidade e de fetiche para o consumo dos que produziam a borracha. Mesmo após a queda, durante as décadasde 20 a 60, em ritmo menor, a vida ao longo dos rios e nas duas únicas cidades (Porto Velho e Guajará-Mirim) manteve-se guardando as tradições e uma espécie desaudosismo, esperança de retorno. Muita gente ainda insistiu no sonho. A artista plástica Rita Queiroz, filha de seringalista, vivendo nas margens do Rio Madeira durante as décadas de 40, 50 e 60, fala desses barcos como sendo ogrande sonho de consumo dos moradores das beiras dos rios no período. Lembra ainda que seu pai, originário do Estado de Alagoas, quando viajava para o Nordestetrazia algumas roupas diferentes para a família, mas que a grande maioria dos trabalhadores usava roupas feitas de tecido de algodão e morim colorido comprados dosmascates. Através dos procedimentos de arrolamento ou inventário, entre os pertences das mulheres que morriam na região encontramos quase sempre uma máquina decostura. Pelo que se observa esse objeto de trabalho foi muito utilizado. Mulheres solitárias que viviam nas vilas ao longo da ferrovia, salvo outras informações, poderiam pelacaracterística dos pertences e da condição social ser classificadas como se observa dos documentos judiciais da época de mulheres de vida fácil ou mundana. Elas tinham entreseus bens algumas jóias, cortes de tecidos, fitas, espelhos, perfumes, leques, e materiais de costura, além da máquina de costurar, é claro. O clube internacional que abrigava a alta sociedade assim ficou registrado: ... o salão elegante de seu clube Internacional, repleto de almofadinhas emelindrosas, cheio de senhoras e cavalheiros distintos, que se agitam coreograficamente ao som do on-step, do fox trot, dos lanceiros, e onde se vê o inglês deLondres e a francesa de paris... (Moraes, 1969, p. 175). Conforme observa Labibe Aiech, hoje as coisas tornaram-se mais fáceis. A moda no meu tempo era um bocado difícil. Hoje você encontra tudo. Só faltadinheiro, o resto você encontra, mas naquela época tudo era preciso fazer. Era tudo com costureira (Aiech:2001). O olhar de Miguel Roumiê sobre os hábitos culturais da região e sobre o comportamento na década de 70, período causador de grandes mudanças, está ligadoa um costume da época de que as pessoas que viviam nas cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim viajavam muito para a cidade do Rio de Janeiro. Esse costume sedeu em face de que, sendo um Território Federal, se encontrava fortemente ligada à capital brasileira, no caso o Rio de Janeiro. Esse costume foi mantido ainda após atransferência do centro político para Brasília. As pessoas de alguma posse da região tinham o hábito de viajar para o Rio de onde traziam as novidades: Embora não 4
  5. 5. tivéssemos televisão, tínhamos o rádio. Já chegavam as revistas e outras coisas mais e o pessoal viajava muito. Era o “must” daqui o pessoal viajar para o Rio deJaneiro passar as férias no Rio. Hoje se viaja muito para o Nordeste, antes era para o Rio de Janeiro. Belém do Pará como no meu caso. Apesar de ter isso já a outroslugares, mas era a situação que se vivia naquele momento. Quem viajava para o Rio voltava de lá influenciado. Em moda, em costumes, em mentalidade, em tudo(Roumiê: 1999). Hoje, em tempos de globalização, tudo está em todos os lugares ao mesmo tempo. No entanto, as regiões possuem suas características trazidas e adaptadas. Assim como os viajantes observaram as barbadianas e seus chapéus no começo do século, ainda é comum observarmos uma sulista comentando sobre hábitosdas mulheres das camadas populares, chamadas de rondonienses, como por exemplo, o costume de lavar roupa nos igarapés ou mesmo nos tanques nas áreas deserviço de suas casas apenas de roupas íntimas. Esse hábito proporcionado pelo clima quente em que o corpo pede pouca roupa, é aproveitado também para umbronzeamento que o clima regional proporciona durante todo o ano. De modo geral, as nossas mulheres, principalmente das classes populares, usam pouca roupa eexibem um bom bronzeado durante todo o ano. Em Rondônia, a moda produzida resume-se ainda a uma grande utilização de costureiras e a existências de malharias para produção de uniformes escolares ecamisetas. O grosso da demanda das lojas vem dos grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia. Tudo compõe as características da população múltipla que vive no Estado. Apesar de todas as variações e gostos, as vitrines exibem e as mulheres desfilambotas e roupas pretas feitas para o consumo do sul do país, obedecendo a um imperativo da moda. Práticas observadas por Gilberto Freiry em “Modos de Homem &Modas de mulher” (Freyre, 1997) são comentadas por Erica Palomino: Assim, traziam-se da França vestidos de todos os tipos (das roupas de festa às do dia-a-dia),sapatos, meias, espartilhos e roupas íntimas, perfumes, maquiagem (rouge), acessórios e luvas. Na Belle Époque, uma brasileira que saísse sem luvas não seriaconsiderada “bem vestida”. A sombrinha completava o conjunto. As cores eram escuras: pretos, pardos e cinzentos – como era moda em Paris. Levando em conta ocalor do Brasil, dá para imaginar o tormento pelo qual passavam as mulheres da época, mas ainda assim era possível ver aberrações como, por exemplo, capas de peleem pleno verão carioca (Palomino, 2000). Essas características, observadas no Brasil com relação à Europa durante o século XIX e parte do século XX, (Freyre, 1987), fizeram parte da vida das pessoasque consumiam o que vinha para o Rio de Janeiro e outras capitais e se reproduzem ainda hoje em Rondônia. Tais atitudes são impostas pelos meios de comunicaçãoe pela falta de indústrias de moda nessa região onde o calor é mais acentuado. As tendências são impostas e aceitas. A moda ditada pelo sul do país para o inverno éusada por muitas mulheres do norte, impondo seus corpos ao sacrifício das botas e roupas escuras. Ainda hoje a demanda comercial é atendida pelos grandes centros. Considerando as distintas classes sociais, hoje se compra tanto nas lojas populares pelas principais ruas do comércio como nas feiras populares e no expressivonúmero de hippies e camelôs. Lojas de franquia alcançam o consumidor antenado com a moda divulgada pela televisão e revistas, além das lojas chiques ou exóticas quetrabalham com clientela específica, e a exemplo do que ocorreu no início do século XX, com a moda trazida do Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. 5
  6. 6. A moda é como Barthes coloca, “uma ordem da qual se faz uma desordem”. Aqui no norte, não se pode deixar de entrever as marcas regionais que se vãosendo colocadas no que se reproduz: em olhar diferente, um corte que se faz no modo de usar. Em tudo acabam transparecendo as particularidades do resultadodessa grande mistura cultural. Para Françoise Vicente-Ricard, “a moda parece feita de rupturas sucessivas, no entanto, por sua evolução fundamental, revela-se a nossos olhos comoexpressão de múltiplas representações do mundo em diferentes níveis de intensidade”. Aqui, de uma primeira fase de nativos, caboclos, estrangeiros, depoisnordestinos e sulistas, formou-se todo esse caldeirão multicutural que ajuda a contar a história de um povo.Fontes Primárias: Foram utilizadas partes de entrevistas com Labibe Aiech, Rita Queiroz e Miguel Roumiê que estão arquivadas e fazem parte do Acervo de HistóricaOral do Centro de Documentação Histórica do TJRO.BibliografiaANDRADE, Mario de. O Turista Aprendiz. Duas Cidades. São Paulo. 1983.BENCHIMOL, Samuel. Amazônia-Formação Social e Cultural. Valer. Manaus. 2000.BARTHES, Roland. O Sistema da Moda. Ed. Nacional/Ed. da Universidade de São Paulo. São Paulo. 1979.CUNHA, Manoel Carneiro. História dos Índios no Brasil. Companhia das Letras. São Pa0ulo. 1998.CUNHA, Euclides da. A Margem da História. Martins Fontes. São Paulo. 1999.FREIRY, Gilberto. Modos de Homem Modas de Mulher. Record. Rio de Janeiro. 1987.KÖHLER, Carl. História do Vestuário. Martins Fontes. 2001.HARDMANN, Francisco Foot. O Trem Fantasma. Companhia das Letras. São Paulo. 1988.LOPES, Evandro da Rocha. Súditos e Cassacos: os trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. (1907-1931) Mimeo. Porto Velho. 1995.MAIA, Álvaro. Gente dos Seringais. Rio de Janeiro. 1956.MORAES, Raimundo. Na Planície Amazônica. Itatiaia. Belo Horizonte. 1987.PALOMINO, Erica. A Moda. Folha. São Paulo. 2000.VICENTE-RICARD, Françoise. As Espirais da Moda. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1989. 6
  7. 7. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 114 ANO II, Nº114 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VIII ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS – História - UFRO CLODOMIR S. DE MORAIS – Sociologia - IATTERMUND ARTUR MORETTI – Física - UFRO CELSO FERRAREZI – Letras - UFRO HEINZ DIETER HEIDEMANN – Geografia - USP JOSÉ C. SEBE BOM MEIHY – História – USP MARIO COZZUOL – Biologia - UFRO MIGUEL NENEVÉ – Letras - UFRO SILVIO A. S. GAMBOA – Educação - UNICAMP VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia - UFSCOs textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte TimesNew Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: PORQUE (AMO) BARTHES? nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 MILENA MAGALHÃES CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 7
  8. 8. Milena Magalhães POR QUE (AMO) BARTHES?Professora de Literatura Brasileirae-mail: milena@ronet.com.br Desde que encontrei por acaso um pequeno livro de Alain Robbe-Grillet, intitulado Por que amo Barthes, sinto vontade de escrever algo com o mesmo título. Tal livrochama-me a atenção por dois motivos: primeiro, porque trata-se de um ficcionista falando sobre um teórico - e não é muito comum “amar” um teórico; segundo, porque, deuma forma ou de outra, é sempre essa a pergunta que faço desde que li pela primeira vez um livro de Roland Barthes. Lê-los, para mim, não se trata de obrigaçãoacadêmica, mas de uma curiosidade sempre renovada por essa escritura que é, em essência, a busca da escritura. Por isso, este artigo, mais do que abordar alguns pontos dotexto barthesiano, faz um relato dos meus encontros com os livros de Barthes. Toda aparição de um livro tem sua história. Não causa estranheza um leitor eleger algum ficcionista como seu autor preferido, embora não seja de bom tom na crítica literária – sempre em busca depalavras estéreis que indiquem objetividade e imparcialidade – usar expressões que demonstrem que essa preferência passa por razões que só podem ser explicitadasse palavras subjetivas se deixarem pronunciar. Conheço uma moça que afirma que, apesar de vez ou outra lê outros autores, ao menos uma vez por mês precisa releralgum dos livros de García Márquez. Compreendo-a perfeitamente. No entanto, creio que “amar” um teórico exige um pouco mais de explicações, principalmentequando não é um impulso “teórico” que me move, mas o simples e ingênuo prazer de identificar-me de tal forma com um autor que sinto vontade de lê-lo nosmomentos mais inoportunos: quando estou muito feliz (para “levantar os olhos” do que está sendo lido), muito triste (para esquecer as razões da tristeza), muitoocupada com outras leituras obrigatórias (nada melhor do que lê Barthes quando se escreve uma dissertação sobre Umberto Eco), e daí por diante. O contato com a sua obra ocorreu no 2º ano do curso de Letras. O livro era Aula. Inicialmente, pareceu-me aterrador, complexo e praticamenteincompreensível, o que não me impediu de descobrir ali, dentre tantas definições do que seja literatura, a que me parece mais sedutora até hoje: “Essa trapaçasalutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto amim: literatura”. É também em Aula que Barthes se denomina um sujeito incerto. Autodenominar-se um “sujeito incerto” pareceu-me – e continua parecendo – umato de coragem, pois como ele mesmo afirma em outro momento: “O público exige uma fidelidade. Ela não é possível, o escritor só conhece a fidelidade às formas”.Essa infidelidade corajosa acaba por subverter o que geralmente entendemos por literatura: “Entendo por literatura não um corpo ou uma seqüência de obras, nemmesmo um setor de comércio ou de ensino, mas o grafo complexo das pegadas de uma prática: a prática de escrever”. Barthes, dessa forma, ao escolher como sua“língua natural” a literatura não se contenta em observar os seus contornos já definidos, e sim perscruta, questiona e expõe o traço mais definidor desta: a linguagem. Ainda não sabia, mas a indicação foi a mais acertada. No mesmo livro, Perrone-Moisés nos alerta que a aula funciona como um caleidoscópio de toda a obrade Barthes. Este apresenta seu envolvimento visceral com a literatura e também com outras artes a ponto de afirmar: “Se, por não sei que excesso de socialismo oude barbárie, todas as nossas disciplinas devessem ser expulsas do ensino, exceto numa, é a disciplina literária que devia ser salva, pois todas as ciências estão
  9. 9. presentes no monumento literário”. É importante confidenciar desde já que é quase heresia chamar Barthes de teórico, uma vez que sua escrita é atravessada poruma linguagem que está muito distante da que geralmente concebemos como texto teórico. Mais do que dissertar sobre, o que ele propõe é um modo de fazer, umtipo de saber perpassado pela lógica subjetiva. Seus argumentos são feitos de humores. Sua escritura é uma luta contra o reducionismo do sujeito. Embora o discursoproferido na aula revele o tom solene que o momento exige, acaba por deixar transparecer, pelo seu conteúdo anti-dogmático, uma vontade de não se aliar ao poder(mesmo admitindo que ele está emboscado em todo e qualquer discurso). O saber instituído não lhe interessa. A academia, na maioria das vezes, prima por coerência teórica e obriga a demarcação de posições. A ordem é não “misturar” teóricos de pensamentos antagônicos,manter uma certa unidade na diversidade teórica que nos constitui. Em meio a essas exigências, Barthes parece-me “inclassificável” (para empregar uma palavra que melembra outro texto). As suas contradições são marcadas pelo apelo vibrante dos desejos, do gozo e do subjetivo: “devo reconhecer que produzi tão-somente ensaios, gêneroincerto onde a escritura rivaliza com a análise”. Essa infidelidade à objetividade, como era de se esperar, causou-lhe transtornos e também inimigos. A aceitação da diferençaé, muitas vezes, apenas um mito teórico. Acusaram-no de não ter posição definida, escrevendo sempre o que pedia o momento teórico. Mesmo sendo considerado a figura-mãe do estruturalismo por François Dosse – “sua encarnação ondulante e sutil, feita mais de humores do que de rigor” –, também é ele visto como pós-estruturalista, o queenfatiza a idéia de um trabalho em progressivas transformações. Quem é o escritor Barthes? O que considerar: os seus primeiros escritos ou os últimos? Colocada assim, essadiscussão é estéril, pois, embora esteja ligado ao estruturalismo, ele atravessa o rigor exigido, revelando uma linguagem segunda que se pretendia liberta de toda ordem eque, assim como a linguagem primeira (literatura), estava situada num topos subversivo. Por que não aceitar um estruturalista que sonha com a ausência de sentido e umpós-estruturalista apaixonado pelos clássicos como Balzac e Gide? Foi envolvida por essas idéias, então novas e instigantes, que li S/Z e fiz da sua estrutura a estrutura da minha monografia final de curso. Em S/Z, os recortesoperados no texto interpretado são grade e libertação: o despedaçar aleatório não tem uma lógica previamente definida pela estrutura, e sim a partir da imaginaçãodo leitor, embora o que se veja ainda seja uma tentativa de estruturar a partir de um sistema de códigos (sempre podemos dizer que os códigos ali são somentepontes para o imaginário fluir). Por isso, a sua ligação com o estruturalismo, neste livro, começa a esgarçar-se, uma vez que a idéia de interpretação ganha novoscontornos. Consolida-se em mim a idéia de que o texto de Barthes se constitui sobre o signo da subversão, ampliando os limites do que seja a crítica literária. Nesta,para ele, deve haver espaço para o escritor (“aquele que trabalha a sua palavra”) e o amador (aquele que ama). Tanto a concepção do que seja leitor – “o que estáem jogo no trabalho literário ... é fazer do leitor não mais um consumidor, mas um produtor do texto” – como a do que seja interpretação – “Interpretar um texto nãoé dar-lhe um sentido (mais ou menos embasado, mais ou menos livre), é, ao contrário, estimar de que plural é feito” – se constrói sobre a convicção de “afirmar o serda pluralidade”, ferindo de morte o desejo de impor a verdade como condição da interpretação. Prevalece a validade. No grupo de estudo que participei na Universidade, um dos primeiros livros comentados foi O prazer do texto. A discussão não foi das mais fortuitas, menos aindaminha leitura. Somente depois, reli-o. Brincando com os significantes/significados, Barthes opera a distinção entre prazer e fruição. Para ele, alguns textos provocamprazer (satisfação), enquanto outros fruição/gozo (desfalecimento). Os textos ficam emboscados entre esses dois momentos distintos de recepção que, por vezes, estão 9
  10. 10. em oposição. Barthes parece aproximar-se do receptor, dando-lhe importância: “Este retorno da palavra ‘prazer’, é porque ela permite uma certa exploração do sujeitohumano”, embora a ênfase seja dada ao Texto. Ainda é a busca pelo grau zero da escrita, um lugar atópico por excelência em que os signos possam revelar-se eesconder-se. A alforria da palavra é exposta e desvirtuada, e o gozo deixa de ser apenas prazer: é como um coito proibido e desejado. Senti isso quando li agoraGraciliano, Hilda Hilst e Calvino: quase entendo, mas algo sobra e escapa-me, o que não senti quando li outros: o texto do prazer é dizível, o texto da fruição opera nointerdito: “texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável de leitura. Textode fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta ..., faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência de seus gostos,de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem”. A partir dessa diferenciação, no primeiro momento, parece ser possível afirmarque Barthes faz a opção pelos textos de vanguarda em detrimento dos clássicos. No entanto, não creio que seja isso. A consciência histórica do já-dito e do já-feito abre oleque para o que está sendo feito à sua época (como os textos de vanguarda de Alain Robbe-Grillet), sem deixar de perceber que há todo um lastro textual que vem dosclássicos pronto para ser recortado na produção de novos textos. É o que ele faz com o texto legível de Balzac - Sarrasine - em S/Z. Se não é mais possível reescrevertextos realistas como os de Balzac, Zola e Proust (é o que ele diz em Roland Barthes por Roland Barthes) é porque estamos diante de um novo mundo que se transformacontinuamente: “O mundo como objecto literário, escapa-se; o saber deserta a literatura que já não pode ser nem Mimesis nem Matesis mas simplesmente Simiosis, aaventura do impossível linguageiro, numa palavra: Texto”. O par prazer/fruição não é o único estabelecido por Barthes. Para deixar falar a contrariedade com a voz daciência, outros pares lhe fazem companhia: studium/punctum – óbvio/obtuso. Nos livros da seleção de mestrado, Crítica e Verdade era um dos que precisava ser lido. Por isso, numa viagem às pressas, ele passeou comigo pelas estradasdo Nordeste e foi lido em uma noite, uma manhã ensolarada na casa da irmã e um vôo de volta a Porto Velho. O Barthes incisivo, que responde a provocações,produz alguns textos que se tornaram referência em qualquer discussão sobre o papel da crítica, como “Escritores e Escreventes” e “Crítica e Verdade”. Como aindavemos até hoje, a batalha trava-se num campo de guerra em que de um lado estão os defensores da objetividade, da unidade e da clareza em oposição a um deslizarcontínuo da linguagem. A crítica proposta por Barthes não quer esclarecer, não quer comentar, quer apenas o direito de produzir nova linguagem que possibilite outra:“fazer uma segunda escrita com a primeira escrita da obra é com efeito abrir a via de prolongamentos imprevisíveis, o jogo infinito dos espelhos, e é esta escapadaque é suspeita”. Há certos livros que sempre me fazem pensar que toda cidade merece uma Livraria da Rose. Para quem como eu fantasia poder deitar em qualquer lugar paraler, é numa livraria como essa que podemos alimentar as nossas paixões literárias. E digo isso porque foi sempre essa livreira-mito que materializou meus mais loucosdesejos bibliográficos, como, por exemplo, O Grau Zero da Escrita. Este é o primeiro livro lançado por Barthes. Um dos artigos mais contundentes é o que designa asua concepção de literatura: O que é escrita? Se fosse uma tradução brasileira, certamente seria O que é escritura? Nas palavras do crítico José Augusto Seabra, estelivro é “O germe da subversão barthesiana”, pois a literatura já é vista essencialmente como linguagem, desligada das ortodoxias. Outro artigo que me chamou aatenção, envolvida que estava com minha “iniciação” em poesia, foi Existe uma escrita poética?. Comparando a palavra poética a “uma caixa de Pandora de onde 10
  11. 11. saem voando todas as virtualidades da linguagem”, Barthes imagina também um novo receptor que a devore com “uma curiosidade particular, uma espécie degulodice sagrada”. A palavra poética não é inocente nem ingênua, é, ao contrário, “uma palavra terrível e desumana”. A afirmação de que o Texto é basicamentelinguagem - a consciência da linguagem como mola e mote para o que pode ser dito depois - é fundamental para compreender o pensamento de Barthes e, a meuver, embrenhar-se pela escritura. Encontrei Fragmentos de um discurso amoroso numa livraria da cidade de Araraquara. Ao lê-lo, a partir de uma certa página, passei a sentir-me uma daspersonagens de Calvino em Se um viajante numa noite de inverno, pois, para minha surpresa, as páginas começaram a repetir-se, os caracteres abraçavam-se decabeça para baixo, com duas escritas superpostas uma à outra. Precisei esperar alguns meses até chegar um novo exemplar em que os caracteres não desejassemocupar o mesmo espaço. Tendo escrito tantos pedaços, recortes, quadros, como a dizer que não acreditava numa totalidade fechada, um título como Fragments d’unDiscours Amoureux expande a sedução plena de que se valeu Barthes para enunciar uma nova crítica ou a desnecessidade desta, se percebida como um velho modode olhar os textos. Fragmentos já não é metalinguagem. O uso da primeira pessoa quase compactua com o texto romanesco, mas a ausência de enredo, o argumentoque persegue cada figura nos diz que, se estamos diante de um romance, sua forma ainda nos é totalmente desconhecida. O que mais me seduz nesse livro é a suamontagem que pode ser comparada a um grande Frankenstein, visto ser um texto feito de pedaços de outros textos, em que as citações, alusões, ganham novosentido no eu que se pronuncia: “... um discurso cuja instância não é outra coisa senão a memória de lugares (livros, encontros) onde tal coisa foi lida, dita, ouvida”. No ano passado, Rose apareceu com dois livros de Barthes raros no Brasil (edição portuguesa): fiquei apenas no desejo de Sistema da Moda, muito caro parameus padrões. Sobrou-me Incidentes, seu livro póstumo, comprido e fininho, em forma de diário. A vontade de que sua escrita evoluísse para uma espécie de diário, àmoda de André Gide, um dos seus escritores essenciais, já tinha sido proferida em Roland Barthes por Roland Barthes, ele mesmo uma espécie de diário escrito emterceira pessoa. Em Incidentes, a sua face mais humana – já imposta em outros livros – deixa de ser mascarada e observamos pelo “buraco da fechadura” suas tardesimprodutivas, seu desagrado com as conversas “sempre as mesmas” dos intelectuais, suas aflições com as paixões breves e intensas e com sua falta de memória.Seus aforismos, as paisagens e passagens rápidas são como fotografias que ele nos vai mostrando. Identifico-me numa série de lamúrias: “Sempre esta dificuldadeem trabalhar de tarde...”. No sebo da Carlos Gomes, embaixo das prateleiras, encontrei por acaso - como encontramos todos os livros em sebos - três exemplares de O Grão da Voz, livro quereúne suas entrevistas em língua francesa. Comprei os três, dei de presente os outros dois e, junto com o livro 40 escritos, de Arnaldo Antunes, é a minha primeiraexperiência de ler no banheiro. Talvez por ter horror a entrevistas, Barthes deriva sobre os pontos que causam mais controvérsia e curiosidade na sua obra sem deixar de ladoo teatro de vozes plurais que assegura a sua liberdade teórica. Perguntado se as coisas significam alguma coisa, ele responde fazendo uma síntese do seu pensamento: “Oque toda a minha vida me apaixonou foi o modo como os homens tornam o mundo inteligível. ... a escritura cria um sentido que as palavras não possuem de início. É isso queeu tento exprimir”. A pluralidade de sentidos quase se transforma em ausência de sentido, desejo manifesto em vários de seus textos. 11
  12. 12. Na cidade de Vilhena, onde se consegue ler com meia no pé (sempre achei o máximo essa imagem), iniciei a leitura de uma biografia de Roland Barthes, masli apenas algumas partes. Fiquei enjoada como se estivesse rompendo um acordo, transgredindo uma norma de conduta. As biografias, na maioria das vezes,exploram a privacidade causando-me a estranha impressão de que retornamos ao tempo em que era um espetáculo público o banho do rei. As especulações sobre asua vida me pareceu ser de importância menor diante do dito que constitui sua obra. Como diz Antunes, a “vida contém cenas explícitas de tédio nos intervalos daemoção”. Não é isso que me interessa. Assim como a ele, é a sua escritura que me seduz. O que como leitores precisamos saber da vida de R. B. pode ser encontradonos seus livros. Nestes, a realidade é desvirtuada pelo imaginário que passa a ser mais interessante do que o real a ponto de este se camuflar em várias virtualidades.No livro Roland Barthes por Roland Barthes, “arrancado à força da insistência” de minha melhor amiga que teve a sorte de encontrá-lo em um sebo antes de mim, aprojeção em terceira pessoa desvela o desejo que percorre o seu autor: “O esforço vital deste livro é pôr em cena o imaginário”. Também em Vilhena, assisti à palestra de uma professora que fez sua tese de doutorado tendo como suporte teórico as idéias de studium e punctum queestão no livro A Câmara Clara, último dos livros publicados em vida. Quando retornei, a primeira ação foi relê-lo. Para mim, mais do que em O prazer do texto, é em ACâmara Clara que Barthes faz a opção pelo leitor, no caso, o observador (spectator) das imagens. Em cada fotografia, é o ínfimo que ganha relevância; e aquilo que éausência (ou quase) para outrem é o que transtorna o observador solitário. A ironia reside no fato de ser justamente no que nos parece mais objetivo (a fotografia)que ele impõe com maior dinamismo a força da subjetividade. Talvez os autores que verdadeiramente amamos não devam ser estudados, mas apenas lidos. Explico assim o excesso de covardia que me impediu de fazerminha pesquisa de mestrado com a obra de Roland Barthes. Imagino as horas de fruição das quais me furtei, embora recorra a suas idéias em várias passagens dadissertação. Dou início à conclusão com as suas palavras para afirmar: até mesmo Barthes foi contraditório quando falou sobre o leitor (com tudo pronto, meuorientador falou: “por que não disse antes que queria pesquisar Barthes? Teríamos diminuído vários impasses. No mínimo, teríamos discutido menos”). Silencieiporque não queria admitir naquele momento de realização que talvez não me sinta à altura de escrever sobre ele. Em um daqueles dias de zanga em que se colocaem xeque até a quem se admira, escrevi: “Não sei se gosto tanto assim da Leyla Perrone-Moisés. Ela pesquisa Barthes, mas a sua escrita é desprovida de poesia, porisso quando eu a leio penso naquele trecho da música dos Paralamas do Sucesso: ‘tendo a lua aquela gravidade onde o homem flutua merecia a visita não demilitares, mas de bailarinos e de você e eu...’. Barthes merecia poetas estudando-o e não uma crítica com escrita de cientista”. Talvez por isso eu só tenha coragem deescrever sobre Barthes inserindo-o na minha vivência. Há um medo de escancarar de vez a cientista que habita em mim – não dizem que fazemos projeções? À medida que vou escrevendo este ensaio, às vezes euforicamente, outras dando longas pausas relegando-o ao esquecimento, a possível razão de Por queamo Barthes vai delineando-se. Anima-me a idéia de a razão de amá-lo residir no fato de, para mim, ele ser um dos poucos escritores que permite ao seu leitorencontrar e recriar as próprias razões de ser um leitor que por vezes sente necessidade de ser também escritor. Sem ser rebelde ou marginal (estar à margem),Barthes assegura-me a possibilidade de ser as duas coisas e está num entre-lugar que confirma a necessidade da inquietude para a produção. 12
  13. 13. Na estante repousa Sade, Fourier, Loyola (por que ainda não me animei a lê-lo?). O óbvio e o obtuso também espera. Acabei de ganhar do meu companheiroSistema da Moda, encontrado em sebo numa edição brasileira bem mais acessível ao nosso bolso. Logo após, comprei Mitologias e Michelet, dois dos seus livros maisimportantes. De olhos arregalados, leio agora Michelet. Muito ainda falta para ser lido e tudo para ser relido. Mesmo quando minha escrita cessar, fugaz como boa parte daprodução de hoje, anima-me pensar que a de Barthes continuará atravessando as gerações. Sempre haverá um dia em que algum graduando vai topar com Barthes, bater oolho e encontrar. E encontrar-se. Por que amo Barthes? Porque amo a leitura. Talvez seja esta a razão primeira de amar um autor. BibliografiaBARTHES, Roland. Sistema da moda. Trad. L. L. S. Mosca. São Paulo: Editora da USP, 1979.________. A câmara clara. Trad. J. C. Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.________. Sobre Racine. Trad. A. C. Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.________. Incidentes. Trad. T. Coelho e A. Melo. Lisboa: Quetzal Editores, 1987.________. O rumor da língua. Trad. M. Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, 1988.________. O óbvio e o obtuso. Trad. L. Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.________. S/Z. Trad. L. Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.________. O grão da voz. Trad. A. Skinner. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.________. Aula. Trad. L. Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1996.________. Crítica e verdade. Trad. L. Perrone-Moisés. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1999.________. Mitologias. Trad. R. Buongermino e P. de Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.________. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1999.________. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. H. Santos. RJ: Francisco Alves, 2000.________. O grau zero da escrita. Trad. M. Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.________. Sade, Fourier, Loyola. Trad. M. Laranjeira. São Paulo: Brasiliense, s/d.________. Roland Barthes por Roland Barthes. Lisboa: edições 70, s/d.ROBBE-GRILLET, Alain. Por que amo Barthes. Trad. S. Santiago. RJ: Ed. UFRJ, 1995.SEABRA, José Augusto. Poiética de Barthes. Porto: Brasília Editora, 1980. 13
  14. 14. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 115 ANO II, Nº115 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VIII ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS – História - UFRO CLODOMIR S. DE MORAIS – Sociologia - IATTERMUND ARTUR MORETTI – Física - UFRO CELSO FERRAREZI – Letras - UFRO HEINZ DIETER HEIDEMANN – Geografia - USP JOSÉ C. SEBE BOM MEIHY – História – USP MARIO COZZUOL – Biologia - UFRO MIGUEL NENEVÉ – Letras - UFRO SILVIO A. S. GAMBOA – Educação - UNICAMP VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia - UFSCOs textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte TimesNew Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” O JUDICIÁRIO NO PERÍODO MILITAR deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br NILZA MENEZES CAIXA POSTAL 775 & CÉLIA LINO CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 14
  15. 15. Nilza Menezes e Célia Lino O JUDICIÁRIO NO PERÍODO MILITARCoordenadora do Centro de Documentação do TJ-RO / Jornalista Pós-graduada em Modacendoc@tj.ro.gov.br / célia.menezes@ig.com.br Fazendo uso de informações em entrevistas que fazem parte do Acervo de História Oral do Centro de Documentação Histórica do Tribunal de Justiça doEstado de Rondônia, serão feitas algumas reflexões sobre a posição do judiciário e dos juizes dentro de um período marcante da história brasileira no século XX. Operíodo que ficou conhecido como os anos de chumbo, ou período do regime militar, demarcado pelos anos que vão de 1964 até o final dos anos 70, lembrado comoum tempo de acontecimentos marcantes para a história contemporânea brasileira. São tomados por base depoimentos de juízes federais, que à época, prestavam serviços nos territórios Federais de Roraima, Amapá e Rondônia e também emobservações feitas por advogados sobre a postura dos juízes no período, o que nos oportunizou observar como era o entendimento de uma classe que praticamentenão se manifestou, mas que possuía uma posição sobre o momento político brasileiro. Os magistrados são tidos como uma classe não afeita à exposição, uma instituição até pouco tempo completamente fechada. Entretanto,recentemente, começaram a aparecer pesquisas feitas a partir da documentação do judiciário, surgindo também na última década, em vários Estados, osCentros de Memória e Documentação, em alguns casos museus, disponibilizando fontes que proporcionam novas leituras e colocam a disposição dospesquisadores documentos antes inacessíveis. Essa mudança ocorre em razão de mudanças nos focos de interesse da historiografia e dos pesquisadores e historiadores que passam a fazer uso de umafonte antes não utilizada, os documentos judiciais, havendo por parte do próprio Poder Judiciário o interesse em oferecer essa documentação, o que faz parte de umapolítica de abertura adotada que busca afrouxar a aparência formal, num processo de transparência para que se possa melhor conhecer a instituição. Sem nos aprofundarmos na questão, ela ocorre por iniciativa do Poder Judiciário, abrindo seus Centros de Memória e Museus dando a possibilidade deutilização de documentos antes não de interesse de historiadores e não disponibilizados pela Justiça. Assim, surge o interesse da história por essas abordagens,apresentando novas possibilidades de diálogos e de interpretações. Sobre o período de análise que se caracterizou pela tomada do poder, o que aconteceu com o apoio da classe média, o país vai viver os anos mais dolorososda nossa história. Conforme Boris Fausto, a partir do golpe em 64, o país passa a viver sob normas dos Atos Institucionais que atingiam os direitos dos cidadãos etambém o Congresso e o Judiciário. No caso do Judiciário, no período completamente a serviço dos interesses do governo, só no ano de 64 foramexpurgados 49 juízes (Fausto: 2000).
  16. 16. Com a comemoração dos 30 anos do estranho ano, em 1998, quando os participantes do processo foram considerados “demonizados”, as vozes começaram ase soltar proporcionando uma visão mais ampla dos fatos (Reis: 2000). Os projetos de História Oral trazem para a cena vozes desconhecidas. No caso presente, as vozes dos juizes de Direito, à época Juizes Federais a serviço nosterritórios, que nos permitem observar o olhar que eles tinham sobre a situação e a posição que mantinham para sobreviverem dentro de um regime autoritário. O colaborador Desembargador Aldo Castanheira, que exerceu o cargo de Promotor de Justiça no Território Federal de Roraima de 1962 a 1972 e em Rondôniade 1972 a 1982, quando foi nomeado Desembargador na criação do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia em razão da transformação de Território em Estado daFederação, informa: “a estrutura judicial funcionava com juízes e promotores vinculados à Justiça do Distrito Federal” (Castanheira: 1999) O Desembargador Hélio Fonseca, que chegou em Rondônia no ano de 1959 para ser promotor público e que assumiu como Desembargador na criação do PoderJudiciário comenta sobre o período: Naquele tempo a justiça daqui era subordinada ao Rio de Janeiro e, depois de 1960, passou para Brasília. O Tribunal ficava muito distantee não dava a menor confiança para a justiça local. Tinham a justiça dos territórios como de segunda classe. Isso desestimulava os juízes e promotores. Quem vinha para cánão tinha nem o direito de promoção. Era nomeado Juiz e jamais chegaria a Desembargador do Tribunal de Justiça e o promotor daqui jamais seria promovido para Brasíliapara chegar ao cargo de Procurador. Então a carreira morria aqui. Não se tinha um apoio psicológico, desanimavam (Fonseca: 1999). A postura do judiciário com relação ao regime foi de estar a serviço do governo, o que não impedia de muitos juízes de terem opinião própria e mesmo de, emalgumas ocasiões, manifestarem suas idéias em decisões. Quando essas idéias não eram de interesse do Estado, podiam ser punidas severamente. Mesmo não se manifestando, ou não contrariando os interesses do Estado, eles tinham consciência do papel que ocupavam. Aqueles que ousaram tomarqualquer atitude que veio desagradar à elite sofreu as penalidades que faziam parte do sistema naquele momento. No caso dos juízes que passaram pela judicaturano então Território Federal de Rondônia, a pena foi a de cassação. Dois juízes foram cassados. O Dr. Joel Quaresma de Moura na década de 60 e o Dr. Antônio Alberto Pacca na década de 70. Ambos já faleceram. Sobre o assunto nada se registrou na documentação do judiciário, mas, conforme comenta o advogado Pedro Origa, sobre a cassação do Juiz Antonio AlbertoPacca, o fato ocorreu por meio de um procedimento completamente inquisitorial. Não houve para a sua cassação um processo com ampla defesa. Eu digo, aquilo não foi defesa. Você responder as indagações de um inquisitor ouinquisidor, ardentemente preparado para punir (conseguir a confissão,) não pode ser processo legal. Sem que se soubesse o que realmente existia de provacontra a pessoa (depoimentos, documentos). Ninguém assistia os depoimentos, eles eram feitos de forma secreta, quer dizer inquisição mesmo (Origa,1999) Com relação à cassação do Dr. Joel Quaresma de Moura, quem comenta o assunto é o Desembargador Aldo Castanheira que assim o descreve: Em 1972quando cheguei aqui, já conhecia de nome o Dr. Joel Quaresma de Moura, que foi juiz por muitos anos e era um cidadão de respeitabilidade impressionante, uma 16
  17. 17. figura extraordinária, apesar de viver em uma região isolada, era um gênio. Eu o conheci quando cheguei aqui, ele estava como advogado porque tinha sido cassadopor conta da revolução. Quanto ao processo de cassação dele, até hoje não sei o que aconteceu (Castanheira,1999). Todos os colaboradores fizeram comentários sobre o período militar e a cassação dos dois magistrados no Território Federal de Rondônia. Todos afirmam queeles foram cassados por conta do regime militar, no entanto não possuem informações detalhadas sobre o fato, o que é natural. Observamos que os dois juízes federais estavam exercendo as funções no Território Federal de Rondônia e que foram cassados no período. Tanto AntônioAlberto Pacca como o Joel Quaresma de Moura apresentam pela documentação uma atuação forte quanto à quantidade de trabalho. Não tendo, portanto sido aincompetência o motivo da exoneração, mas possivelmente tenha sido provocada por questões ideológicas, podendo isso ser observado na fala do colaboradorDesembargador Aldo Alberto Castanheira e Silva que observa: Quando eu cheguei aqui, já conhecia de nome o Dr. Joel Quaresma de Moura, que foi juiz por muitosanos era um cidadão de respeitabilidade impressionante, uma figura jurídica extraordinária, apesar de viver em uma região isolada era um gênio. Eu conheci quandocheguei aqui como advogado, porque tinha sido cassado por conta da revolução (Castanheira, 1999). Algumas informações dão conta de divergências desses juízes nas decisões tomadas com relação ao INCRA, outros falam em improbidade, mas, medianteobservações feitas por juízes aposentados e advogados que à época exerciam as atividades vamos perceber que dentre os membros do judiciário havia discordância eatitudes contrárias que foram punidas. Ao lembrar o Juiz Antonio Alberto Pacca, o advogado Pedro Origa, que chegou na região no ano de 1971 e tomou conhecimento dos fatos, esses se derampelos seguintes motivos: Sua visão era dos juizes da época, era um magistrado positivista. Existia a lei, e ele tinha que cumpri-la. O INCRA achava que a lei era ele.Como o processo revolucionário vinha se acumulando, ele foi objeto de um processo altamente inquisitorial que culminou com a sua cassação. (Origa:1999) Explicando melhor a questão, comenta: Com a chegada do desenvolvimento, o INCRA entendia que não havendo o título ele podia fazer o assentamento. ODr. Pacca entendia que a posse tinha de ser respeitada, que o INCRA não podia chegar como dono. Então, ele tinha noção que o papel dele como magistrado era o depreservar o direito individual, mesmo estando num período autoritário, altamente autoritário, Veja bem: ele era um homem de origem da direita, mas que resolveupreservar valores que aprendeu na vida e se tornou aquilo que todos os perseguidos da revolução tornaram (Origa, 1999) Joel Quaresma de Moura exerceu as funções na década de 60 e Antônio Alberto Pacca na década de 70. Sem juízo de valor, observamos nos dois casos umaprodução expressiva em sentenças, despachos, uma atividade notável tanto em quantidade como em rapidez. Eles aparecem exatamente no momento derenascimento do judiciário da região, o que se dá em razão do incentivo da migração no início dos anos 60, conforme política adotada pelo governo federal. Possuíam, segundo informações de advogados, personalidade forte, não se dobravam aos interesses políticos. O advogado Pedro Origa, que militava naadvocacia no tempo em que Pacca era magistrado, comenta: “ele era uma pessoa que pensava nos pobres, que ficava do lado dos mais fracos, desagrava aosinteresses dos grandes proprietários” (Origa, 1999). 17
  18. 18. O Desembargador aposentado Clemenceau Pedrosa lembra o período militar como um tempo que se os juizes não fizessem a vontade dos grandes sofreriam adegola, e comenta a interferência em decisões. Fala que naquele tempo, tempo do AI-5 a magistratura não tinha estabilidade e que ficavam a mercê da simpatia doPoder, não havendo garantias para o Magistrado que, no geral, acabava fazendo o jogo do poder. Nas suas palavras podemos perceber a carga que isso acarretava:Minha vivência nos Territórios era difícil porque eu era só, não tinha contatos com outros juízes. Meus diálogos eram feitos em Belém do Pará com osDesembargadores do Tribunal de Justiça e alguns juízes. Naquela época, foi excepcional, estava em pleno desenvolvimento o Ato Institucional nº 5. Todas asgarantias constitucionais da magistratura estavam suspensas. Qualquer juiz podia ser cassado com base no AI-5. As garantias da Magistratura, ou seja: vitaliciedade,inamobilidade e retroatividade de vencimentos estavam suspensas, conseqüentemente se contrariássemos os “poderosos” que eram os militares da época, estávamossujeitos a sofrer uma degola. Recebíamos pressões a toda hora, mas graças a Deus nunca me submeti a essas pressões, sempre decidi com independência, mesmosofrendo pressões tanto no Amapá como em Roraima. Em Rondônia nenhuma, graças a clarividência e o espírito público do governador Jorge Teixeira de Oliveira(Clemenceau, 1999) Sobre a cassação do Juiz Antônio Alberto Pacca, ele observa: “O Dr. Antonio Alberto Pacca, havia sido cassado pelo AI-,5 o que foi uma grande injustiça aquiem Porto Velho...” (Clemenceau, 1999). O advogado Pedro Origa, ao falar sobre a cassação do Dr. Pacca, informa: O problema que ele enfrentou foi o de ter sido na época do arbítrio,apesar da seleção de juizes ser uma seleção onde o conteúdo ideológico era mensurado, isso não se tem como esconder, evidentemente quem tivesseparticipado do processo de 64 não seria juiz no período revolucionário. Quem quiser esconder, esconde, porque não está com vontade de dizer. Então,evidentemente, o Dr. Antonio Pacca não era um homem que se pudesse dizer de esquerda, mas era um homem com um senso muito grande de justiça, comuma percepção muito grande para decidir e com uma concepção muito grande do papel que desempenhava. O confronto básico dele foi em razão derepresentar um poder que era o Poder Judiciário, encarregado de dirimir conflitos naquela visão mesmo sua, e dos juizes da época, de um magistradopositivista. (Origa, 1999). Sobre a cassação do Juiz Alberto Pacca, o Desembargador Aldo Alberto Castanheira informa: O Dr. Pacca foi colega de concurso do Dr. César Montenegro e doDr. Clemenceau Pedrosa Maia. Trabalhei com ele muito tempo aqui em Porto Velho, era exclusive muito trabalhador, mas por um motivo ou outro, talvez seja umprocesso muito longo tocar nessa questão, ele foi se indispondo com o Capitão Silvio Gonçalves de Farias, o executor do INCRA em Rondônia. O Capitão era umhomem forte na época, era ligado ao Conselho de Segurança Nacional. Por essas questões, os ânimos foram se exacerbando e parece que foi se complicando. Nasdefesas que ele andou fazendo, segundo consta, não se saiu muito bem. A situação ficou complicada e ele acabou sendo cassado (Castanheira,1999). As duas falas, tanto a do advogado Pedro Origa como do Desembargador Clemenceau Pedrosa Maia, trazem referências aos problemas políticos da época. Deixamclaro que a questão que deu causa as cassações foram problemas relacionados à postura desses magistrados frente ao INCRA que através do seu executor o Capitão SilvioGonçalves de Farias, representava o Poder. O Desembargador Clemenceau Pedrosa Maia, em sua fala deixa transparecer de forma clara o que representava contrariar o 18
  19. 19. poder naquele período: Naquela época, foi excepcional, estava em pleno desenvolvimento o Ato Institucional nº 05, o AI-5. Todas as garantias constitucionais da magistraturaestavam suspensas. Qualquer juiz podia ser cassado. Vitaliciedade, inamobilidade e retroatividade de vencimentos estavam suspensas, conseqüentemente se contrariássemosos “poderosos” que eram os militares da época, estávamos sujeitos a sofrer uma degola (Clemenceau, 1999). Sobre a estrutura do Judiciário nos territórios, o Desembargador Aldo Alberto Castanheira e Silva, conta que: “O Judiciário existia nos territórios, e os juizeseram vinculados ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal”. Falando sobre os processos de cassação observa: Na época tinha o CGI - Comissão Geral de Investigaçãono âmbito da justiça, cada Estado tinha uma sub CGI, geralmente comandada por um militar. Eram processos sigilosos, eles faziam coletas de depoimentos, às vezesnem isso e era mandado para Brasília, é claro que isso era negócio de regime forte. Muitas cassações talvez tenham sido até corretas, mas desta forma eram absurdas(Castanheira, 1999). As falas nos possibilitam um outro olhar sobre o Judiciário. Conforme observamos na introdução o Poder Judiciário permaneceu hermético ao longo da suahistória, estando nos últimos anos a procura de novas formas de posicionar-se. Isso se apresentou latente conforme observamos em recente Seminário na cidade dePorto Alegre no Rio Grande do Sul, cujo tema era memória e historiografia institucional, organizado pelo do Memorial do Judiciário. Além de discutir as questõesligadas aos problemas de arquivo e preservação de documentos, falou-se na questão de que muitas vezes a imprensa divulga notícias e o Poder Judiciário permanecesilente, sendo um órgão do qual pouco se sabe, o que demonstra a preocupação deste em mostrar-se mais receptivo ao público. Nos últimos anos, através dos museus e memoriais, o Poder Judiciário começa a disponibilizar sua documentação aos pesquisadores surgindo possibilidades denovas interpretações. Os Estados do Mato Grosso do Sul, do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, Rondônia, entre outros, já possuem seus acervosdisponibilizados. Alguns casos ainda se encontram em fase de organização, sistematização e tratamento dos documentos, no entanto com a documentação sendoorganizada, e a construção de acervos de História Oral, oferecem novas oportunidades de pesquisas e novas leituras em diversas áreas do conhecimento.Fontes: Depoimentos dos Desembargadores, Clemenceau Pedrosa Maia, Hélio Fonseca, Aldo Alberto Castanheira e Silva e com o advogado Pedro Origa. Asentrevistas encontram-se arquivadas no Centro de Documentação do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia.BibliografiaFAUSTO, Boris, História do Brasil. Edusp. São Paulo. 2000.MEIHY, Jose Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. Loyola. São Paulo. 1999.REIS, Daniel Aarão. Ditadura Militar, esquerdas e sociedade. Jorge Zahar. Rio de Janeiro. 2000.THOMPSON, Paul. A Voz do Passado. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1998. 19
  20. 20. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA ANO II, Nº116 - SETEMBRO - PORTO VELHO, 2003 ISSN 1517-5421 lathé biosa 116 VOLUME VIII ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS – História - UFRO CLODOMIR S. DE MORAIS – Sociologia - IATTERMUND ARTUR MORETTI – Física - UFRO CELSO FERRAREZI – Letras - UFRO HEINZ DIETER HEIDEMANN – Geografia - USP JOSÉ C. SEBE BOM MEIHY – História – USP MARIO COZZUOL – Biologia - UFRO MIGUEL NENEVÉ – Letras - UFRO ROMUALDO DIAS – Educação - UNICAMP VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia - UFSCOs textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte TimesNew Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: METODOLOGIA DA HISTÓRIA nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 ALBERTO LINS CALDAS CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES 20
  21. 21. Alberto Lins Caldas METODOLOGIA DA HISTÓRIAProfessor de Teoria da História - UFROwww.unir.br/~caldas/Alberto - caldas@unir.br “... cada vez mais historiadores estão começando a perceber que seu trabalho não reproduz ‘o que realmente aconteceu’ ...” Peter Burke Este é um texto estritamente heurístico: sua função deve se esgotar “na sala de aula”. Sua meta é reunir determinadas “experiências” para discussão e estímulo à pesquisa em História. Seu âmbito érestrito e aberto exatamente para permitir os desdobramentos da individualidade na pesquisa historiográfica e os debates em sala de aula. Suprindo deficiências, não sendo “usado”, não se tornando “manual”:sua forma de existência é de instigamento e estímulo preliminares. Suas incompletudes e erros devem estimular, na prática do debate e na pesquisa, um processo de “resposta” ativa e criativa.O PROJETO O projeto é rascunho inicial de pretensões, intuições, articulações imprevistas, desejos, paixões. Não é “modelo”, devendo se apresentar preliminarmente como imaginação seduzida, espaço dedevaneio que se ajusta para agir, para se pôr a criar ou arrebanhar seu “objeto de desejo”. O momento inicial, o que levará ao projeto, não é nem deve ser acadêmico: ele é pessoal, é obsessão, escolha,dúvida, querer saber, não saber, um querer completar, o desenvolvimento de um “quadro de questionamentos” que precisam se corporificar num primeiro esboço. Esse esboço é o projeto: guia no caminhoinicial, jamais algo a ser realizado em sua plenitude, algo que force os documentos, a escrita, a ação ou o pensamento na pesquisa. O projeto é condensação de princípios não “planilha de execuções”, uma“delimitação de objeto” e uma “definição de direção”. Esboçaremos aqui um “modelo de projeto”, idéias esparsas, bases, estímulos. Dele podemos fazer quantas modificações for preciso, acrescentando, retirando,refazendo ao gosto do desejo e da matéria, e à cada matéria um projeto específico. Na Justificativa desenvolve-se por que se pretende realizar a pesquisa. Busca-sefalar do “problema”, da “idéia”, da “imagem” que conduziram ao projeto que se pretende realizar e onde (na bibliografia, na vida, no sonho, no desejo e porquê) seoriginou o problema central do trabalho. Também se fala sobre a relevância da pesquisa e inicia sua defesa numa explicação dos motivos de viabilidade da execução,as referências à originalidade e, principalmente, relacionar em grandes linhas os marcos teóricos com o tema. Os Objetivos apontam com o para que da investigação,com o que se quer pesquisar, definindo os problemas, devendo-se, nesse momento, se inter-relacionar intimamente com o tema da pesquisa. No Quadro Teóricodelimita-se a série de marcos teóricos que sustentam a pesquisa, situando-a dentro do campo teórico principal. Na Metodologia desenvolve-se a metodologia geral,nascida dos quadros teóricos e dos problemas específicos do assunto, relacionando essa metodologia geral com uma metodologia específica (procedimentos) geradosa partir do tema ou da área de conhecimento. Mas deve-se lembrar que um projeto de História não deve ter Hipóteses (que não são questões ou problemas mas umtipo de visão de mundo), o que seria reposicionar o conhecimento para um tempo onde se queria prever, materializar, objetificar tanto os documentos quanto aatividade do historiador. Podemos também desenvolver uma parte de Recursos Financeiros e Humanos, onde se põe as despesas, os financiamento e as necessidades com material, eaté mesmo a quantidade de pessoal para realização da pesquisa, mas isso em casos muito específicos, principalmente quando envolve projeto institucional com bolsa,
  22. 22. relatório, etc, o que exigiria também um Cronograma, que é estrutura temporal geral da pesquisa: princípio e fim, uma estimativa das ações no tempo, as etapas aserem seguidas numa seqüência lógica. A Bibliografia deve pôr, num mesmo conjunto, textos específicos sobre o tema tratado, textos gerais onde se desenvolve otema e seus correlatos imediatos, textos gerais da fundamentação teórica, demonstrando conhecimento e leitura tanto sobre a questão quanto daquilo que a envolve.A desenvoltura bibliográfica é fundamental em todo o processo de pesquisa.MÉTODO Toda pesquisa flui em contradições. Deve-se assumir estão as contradições como componentes da existência, do pensamento, das teorias, dos conceitos, das idéias e, principalmente, do pensamentohistórico. Os elementos contraditórios devem ser compreendidos e enfrentados, não anulados ou afastados. Os elementos contraditórios, os conjuntos contraditórios não exigem mediações lógicas para serestabelecer numa harmonia falsa. O sistema será compreensível mesmo sem as mediações forçadas, sejam pelas teorias sejam pelo estilo inconsciente de si mesmo. As contradições não devem serexpurgadas, "superadas" ou pensadas separadamente: elas nascem da relação, da dialogicidade geral. Uma pretensa pureza esconde as fissuras, as incomunicabilidades, as imperfeições necessárias aoentendimento. As contradições pedem somente a não-conciliação para se mostrarem vivas. Não há a-realidade e suas-contradições, mas contradições criadas enquanto realidade, contradições históricas. A pesquisa deve se apropriar em pormenor da matéria, criando tanto as relações internas quanto os próprios elementos e a relação dialética dos elementosentre si. Após a investigação (análise) vem a exposição, que é sintética, modo de narrar, sem esquecer que a análise é também processo sintetizante. A análise atingeos elementos e a exposição (síntese e estilo) reconstitui a estrutura. Cada mediação e configuração têm as suas contradições, deformações e historicidades peculiares. Portanto o método deve subordinar-se ao conteúdo, àmatéria em estudo, à vontade, critério e criatividade do historiador. Depois que a análise cria os elementos mais simples, os conceitos, as realidades mais elementares, não pode a pesquisa ficar satisfeita e parar. O nívelanalítico comporta tipos de "reconstrução sintética" que, falsamente, criam a ilusão de haver-se chegado ao final. A análise é apenas um dos primeiros momentos dapesquisa. Em seguida é preciso percorrer o caminho em sentido contrário. Do simples ao complexo e do complexo ao simples. Cada elemento é "revisto" pelo conjuntoenquanto o fundamenta. A matéria é exposta a partir dos seus elementos, compreendidos como complexos, ricos em facetas, múltiplos em determinações, contradição sobrecontradição, polifonia em processo. Dessa maneira, a matéria historiográfica só pode resultar da análise crítica e criativa de uma escritura. Assim como a realidade é osonho-real de determinada sociedade, a história é o sonho do método, o sonho da História. Desta maneira, o método não é neutro, mas crítico, político, totalizador, histórico, vivo, negativo, pessoal, devendo ser constantemente renovado edesenvolvido, sem se tornar saber somente instituído, sem se tornar estrutura estável. É preciso também uma auto-avaliação do historiador com relação a sua posição de classe, sua função social, o lugar da sua fala e com qual sistema de podersua fala se compromete, suas metas teóricas e uma consciência que o capacite a compreender a geração de homens, coisas e idéias na sua formação social: issonormalmente “escapa” aos “professores de história”, abismados na reprodução banal e ideológica (periculosa) dos acontecimentos. 22
  23. 23. O método não é analítico ou sintético, indutivo ou dedutivo. Superação desses componentes numa perspectiva crítica, onde um se converte no outro, na própriarealidade, no historiador, no seu contrário, num limite e num deslimite, criação/invenção, o método como eterna superação de si mesmo, sonho desta realidade. A historicidade (resultado da escrita) deve comungar com a literatura a abertura infinita das interpretações e dos sentidos. A relação sujeito (historiador)objeto (documentos) não é relação simples, principalmente porque os “objetos” parecem autônomos, reais mais que o real: sua dimensão de resultante da práxis edimensão imaginária desaparecem. Os documentos possuem astúcias: não são objetos, como algo "dado naturalmente": os documentos são "sujeitos". Por outro lado,o historiador, sujeito, deve avaliar sua condição de "objeto" e a própria objetificação. Os documentos não falam por “si mesmos”. Além de serem "testemunhos", são "escolhidos" pelo pesquisador por interesses do presente e não por "algo" "no"e "para" o passado: sua existência é somente relacional: aos discursos, aos saberes, ao pesquisador, aos procedimentos. Somente o confronto, o diálogo entre o historiador e os documentos (luta de mundos, concepções, tempos, realidades, eixos) é que realiza e supera a teoria,o método, os procedimentos. Nada substitui essa luta, onde interpretação e realidade se digladiam, se estimulam, se delimitam, se criam, florescem, explodem oumorrem. Os documentos não são inocentes: eles fazem parte da rede seletiva que os fez existir e se perpetuar: todo documento é político: sua língua é ideológica esua matéria é ficcional, sua razão é disciplinar. História é diálogo, é reflexão, é negatividade. É selecionar determinando quais documentos são relevantes à pesquisa e os que não são, mas é a criação do historiador e a realidade em estudo oselementos que definirão esses cortes, não teorias pré-concebidas ou aspectos incontroláveis de métodos e procedimentos.A PESQUISA 1 - O “levantamento bibliográfico” é ação inespecífica, isto é, foi atividade que levou ao assunto, ao tema, ao desejo e, ao mesmo tempo, acompanha a produção geral da pesquisa, fazendo parte dasedução e não das obrigações ou das regras. Seu lugar não é nem pode ser definido; 2 - A pesquisa é, inicialmente, um procurar, um produzir, um preparar, um reunir a documentação num processo de “viver o assunto”, encontrar o desejado,vivendo o risco do encontro, do fragmento e das perdas, mas a história não é encontrada, ela será produzida, escrita, inscrita: sua dimensão de existência é um apriori; 3 - A organização da documentação é fundamental (por pessoa, instituição, época, assunto, região, etc): sem esse ordenamento constitutivo toda a pesquisa pode desmoronar, mas essa ordem édocumental, instrumental, não “ontológica”; 4 - Ler e reler exaustivamente a documentação como um todo, selecionando os documentos que irão fazer parte do corpus (já exige uma visão de conjunto,uma pré-ideação e uma idéia de história, de texto final); 5 - Cozinhar os documentos (eles não são comidos crus: são transformados em notas, fichas, resenhas, comentários, artigos, fragmentos, imagens):intimidade progressiva e julgamento dos documentos: articulações e desarticulações; 6 - Crítica das fontes (exige leituras mais vastas: a História é um domínio múltiplo): a) crítica externa (de autenticidade): verifica o valor extrínseco dodocumento. É uma perícia material do documento. Como o documento foi produzido; quem redigiu o documento; em que momento se redige o documento; para qual 23
  24. 24. destinatário; sob que forma se apresenta; como chegou até os que o detêm; qual discurso elabora; questões de letra, suportes, escrita, etc; b) crítica interna: é umahermenêutica buscando saber as intenções de fundo do documento; 7 - Procedimentos críticos: a) análise do documento: atomização de seus elementos (avaliação psicológica, social, econômica, institucional dos elementos dodocumento); b) controle das fontes do documento (se observado pelo narrador ou se contado a ele por outro): foco narrativo; c) comparação dos documentos e doselementos internos; 8 - O historiador é prisioneiro dos quadros teóricos de referência, da sua classe social, da posição política, dos discursos envolvidos, dos métodos escolhidos: um dosmovimentos teóricos será tomar consciência dessas “referências” e não projeta-las inocentemente sobre sua escrita, como se fizessem parte da “realidade histórica”; 9 - Comparar, reagrupar, afastar, extrapolar, selecionar, solicitar, torcer a documentação em busca de respostas às perguntas e questionamentos: a “naturezadiscursiva” dos documentos exige um mergulho “lingüístico”, não a espera por um “encontro”: ali nada existe: ali é o lugar da nossa criação; 10 - Construir um “modelo”, uma “idéia”, uma “imagem” do conjunto documental (história, trama, narrativa): primeiro passo da escrita: constituir uma visãode conjunto provisória, pois será modificada pela escrita: isso advirá das leituras e da feitura das fichas, notas, textos; 11 - Com as notas, os resumos, as fichas, as resenhas iniciar a escrita buscando realizar a “visão de conjunto” passo a passo, como se escrevesse um textoliterário (um conto, uma novela, um romance: história é ficção: perder essa dimensão é meio caminho andado para uma ideologia deslavada), compondo ospersonagens em seus lugares, escrevendo sua psicologia, seus embates, suas idéias, suas razões, suas ações, suas relações, criando o ambiente, o lugar, o espaço devida onde se desenrolará a história; 12 - Com-pondo as vozes enquanto carne a escrita da História materializa teatralmente numa simbiose onde as vozes compostas e as vozes do historiador searticulam inseparáveis; 13 - Articular o desarticulado, separar o unido, perguntar ao informe, fazer mover o imóvel, imaginar nos vazios, perguntar aos silêncios, reviver os mortos, dar corpo e movimento aos vestígios,dizer mais e sempre muito menos que o vivido; 14 - O método geral tanto da feitura de notas e fichas quanto da escrita do texto é um ir e vir constantes: das perguntas ao documento e do documento àsperguntas: dos documentos à escrita e da escrita aos documentos.NOTAS SOBRE HISTÓRIA 1 - O vivendo (o imediato do presente) desaparece na medida do seu acontecer, sendo impossível apreendê-lo tanto em sua totalidade quanto em suasrelações; o viver deixa vestígios (documentos), mas esses vestígios só se tornam documentos depois de raptados por discursos que lhe dão não somente visibilidade(não existem vestígios-em-si) mas sentido e estrutura; o historiador (com todas as questões do sujeito) irá transformar os vestígios em documentos para a História,isto é, lhe dará uma dimensão dentro do conhecimento, trabalhando para constituir sua existência estruturada e significativa; o resultado desse trabalho, dessa escrita 24
  25. 25. que é a História (atividade que produz a história) é chamada fato (que a “história de segundo grau” acredita ser-o-que-aconteceu). A História produz a história:dimensões fundamentais: escrita e ideologia. 2 - Separar o “discurso dos historiadores” da questão passado. Enquanto o primeiro se liga aos conceitos de discurso, escrita, ideologia, o segundo faz partedo ambiente ontológico junto com tempo, presente, memória. 3 - Dessa maneira, a história migra para a História, e esta deve enfrentar sua produção, as ilusões decorrentes dessa produção e os poderes advindos dessaconstrução enquanto ideologia (idéia, sistema de idéias que se pretende dizer-o-real, serem o próprio real). 4 - As questões próprias da História devem ceder o lugar a uma preocupação mais ampla, não a partir de um ponto cego no presente, mas uma articulação de“várias disciplinas” na reflexão-tempo. 5 - Partir da tese marxista de “que o objeto, a realidade, o mundo sensível” deve ser compreendido “enquanto atividade humana concreta”: nos cabe agorapensar a forma de existência desse “mundo sensível”, como ele é criado/reproduzido, como essa atividade concreta transformada em vestígios aparece ao historiador.“Objetivamente” (dimensão do imediato do presente) a história está inscrita somente na História, isto é, nos livros, na escrita, nos complexos imaginários que são otempo. É preciso enfrentar esse “primeiro momento”, essa dimensão de escrita, de imaginário; em segundo lugar a dimensão que a primeira instância abre enquantoteoria e alienação das questões, ou materialização do teórico enquanto realidade. A primeira questão metodológica da História é a compreensão desses mecanismos,desses fluxos, dessas substituições: essa vontade obscura em ser Ciência. 6 - No imediato do presente não há história (a origem, o linear, o destino), mas o simples vivendo. A história (coletiva ou pessoal) só aparece, sempreenquanto discurso, com uma torção do imediato do presente, onde discursos (historiográfico, psicológico, sociológico, antropológico) se põe a se preencher com umareflexão pós-mortem. Essa reflexão é um simulacro daquilo que exercitamos vivamente para sermos no imediato do presente, isto é, o tempo. 7 - História é ou deve ser uma filosofia das realidades básicas e fundantes. Sua matéria é o tempo. 8 - A relação entre a Literatura e a História pode ser muito mais produtiva do que normalmente se espera. São duas dimensões da narrativa, mesmo que uma alardeisua ficcionalidade enquanto a outra esconda sua dimensão de criação literária. O contato poderia abrir para a História um arsenal moderno para sua escritura, trazendoestratégias literárias para o enfrentamento de uma realidade não mais compatível com “narrativas judiciárias e policiais” tornadas princípio historiográfico. 9 - A narrativa histórica esconde os vazios do viver, as incompletudes, os silêncios, as faltas, as repetições, as in-articulações, sua própria atividade escritural:o resultado é sempre muito mais e muito menos que o vivendo: faz parte da mesma matéria imaginária e ficcional da existência: a História, que poderia tocar opróprio centro do existir, se conforma com uma escrita alienada e ideológica.BIBLIOGRAFIA 25
  26. 26. BLOCH, Marc. INTRODUÇÃO À HISTÓRIA. Europa-América, Sintra, 1976.BURKE, Peter (Org.). A ESCRITA DA HISTÓRIA. UNESP, São Paulo, 1992.CALDAS, Alberto Lins. HISTÓRIA E CIÊNCIA. Boletim/Labogeo/UFRO, nº 1, setembro, Porto Velho, 1993a.__________. COMPREENSÃO HISTÓRICA. Jornal O ESTADÃO, p. 2, Porto Velho, 29 de maio de 1993b.__________. HISTÓRIA E ESQUECIMENTO. Jornal O ESTADÃO, p. 2, Porto Velho, 10 de julho de 1993c.__________. A INVENÇÃO DA HISTÓRIA. Jornal O ESTADÃO, p. 2, Porto Velho, 12 de junho de 1993d.__________. HISTÓRIA E CAPITALISMO. Jornal O ESTADÃO, p. 2, Porto Velho, 20 de junho de 1993e.__________. O ENSINO DE HISTÓRIA. Caderno de Criação/UFRO, nº 6, março, Porto Velho, 1995a.__________. HISTÓRIA E MÉTODO. Caderno de Criação/UFRO, nº 8, novembro, Porto Velho, 1995b.__________. O PAPEL SOCIAL DA HISTÓRIA. Caderno de Criação/UFRO, nº 9, novembro, Porto Velho, 1995c.__________. O HORROR DA HISTÓRIA. Caderno de Criação/UFRO, nº 9, novembro, Porto Velho, 1995d.__________. A CRIAÇÃO DA HISTÓRIA. Caderno de Criação/UFRO, nº12, março, Porto Velho, 1997.__________. HISTÓRIA E VIRTUALIDADE. Caderno de Criação/UFRO, nº18, junho, Porto Velho, 1999a.__________. ORALIDADE, TEXTO E HISTÓRIA. Loyola, São Paulo, 1999b.__________. NAS ÁGUAS DO TEXTO. Edufro, Porto Velho, 2001.CARDOSO, Ciro Flamarion. UMA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA. Brasiliense, São Paulo, 1981.__________. NARRATIVA, SENTIDO, HISTÓRIA. Papirus, Campinas, 1997.__________. ; BRIGNOLI, Héctor Pérez. OS MÉTODOS DA HISTÓRIA. Graal, Rio de Janeiro, 1983.__________; VAINFAS, Ronaldo (Org.). DOMÍNIOS DA HISTÓRIA: ENSAIOS DE TEORIA E METODOLOGIA. Campus, Rio de Janeiro, 1997.CERTEAU, Michel de. A ESCRITA DA HISTÓRIA. Forense Universitária, Rio de Janeiro, 2002.DOSSE, François. A HISTÓRIA EM MIGALHAS. Ensaio/Unicamp, São Paulo, 1992.ECO, Humberto. COMO SE FAZ UMA TESE. Perspectiva, São Paulo, 1985.FERNANDES, Florestan. FUNDAMENTOS EMPÍRICOS DA EXPLICAÇÃO SOCIOLÓGICA. Livros Técnicos e Científicos, Rio de Janeiro, 1978.FLEISCHER, Helmut. CONCEPÇÃO MARXISTA DA HISTÓRIA. Edições 70, Lisboa, 1978.GAY, Peter. O ESTILO NA HISTÓRIA. Companhia das Letras, São Paulo, 1990.GLÉNISSON, Jean. INICIAÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1961.JAPIASSU, Hilton. INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO EPISTEMOLÓGICO. Francisco Alves, Rio de Janeiro.LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (org.). HISTÓRIA: NOVOS PROBLEMAS, NOVAS ABORDAGENS, NOVOS OBJETOS. Francisco Alves, 3 vol., Rio de Janeiro,1976.MARROU, Henri-Irénée. SOBRE O CONHECIMENTO HISTÓRICO. Zahar, Rio de Janeiro, 1978.REIS, Jose Carlos. NOUVELLE HISTOIRE E TEMPO HISTÓRICO. Ática, São Paulo, 1994._________. A HISTÓRIA: ENTRE A FILOSOFIA E A CIÊNCIA. Ática, São Paulo, 1996.RODRIGUES, José Honório. TEORIA DA HISTÓRIA DO BRASIL: INTRODUÇÃO METODOLÓGICA. Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1969.__________. FILOSOFIA E HISTÓRIA. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981.SCHAFF, Adam. HISTÓRIA E VERDADE. Martins Fontes, São Paulo, 1978.VEYNE, Paul. COMO SE ESCRIBE LA HISTORIA. Editorial Fragua, Madrid, 1972.VIEIRA, Maria do Pilar (et al.). A PESQUISA EM HISTÓRIA. Ática, Série Princípios/159, São Paulo, 1989.WHITE, Hayden. TRÓPICOS DO DISCURSO. EDUSP, São Paulo, 1994.__________. META-HISTÓRIA. EDUSP, São Paulo, 1995. 26
  27. 27. UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 117 ANO II, Nº117 - OUTUBRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VIII ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS – História - UFRO CLODOMIR S. DE MORAIS – Sociologia - IATTERMUND ARTUR MORETTI – Física - UFRO CELSO FERRAREZI – Letras - UFRO HEINZ DIETER HEIDEMANN – Geografia - USP JOSÉ C. SEBE BOM MEIHY – História – USP MARIO COZZUOL – Biologia - UFRO MIGUEL NENEVÉ – Letras - UFRO ROMUALDO DIAS – Educação - UNICAMP VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia - UFSCOs textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte TimesNew Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” A MARGINALIZAÇÃO DA SEMÂNTICA E DA deverão ser encaminhados para e-mail: PRAGMÁTICA NA SALA DE AULA nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 MARIA DO SOCORRO DIAS LOURA CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 27
  28. 28. Maria Do Socorro Dias Loura A MARGINALIZAÇÃO DA SEMÂNTICA E DA PRAGMÁTICA NA SALA DE AULA Professora e Mestra em Linguistica dias-so@uol.com.br O homem sempre se preocupou com a linguagem. Na Grécia antiga, os pensadores já se deixavam seduzir por questionamentos como: as palavras imitam ascoisas? Como se dá os nomes às coisas? Como a linguagem se organiza? Somente no século XX, essas e outras curiosidades começam a ter forma científica, com objeto, objetivo e método. Surge a Lingüística Moderna com o Cursode Lingüística Geral do suíço Ferdinand de Saussure, o qual propôs a língua como objeto específico de estudo da ciência. A língua é conceituada pelo mestre como um"sistema de signos", ou seja, um conjunto de unidades que estão organizadas formando um todo. Vários lingüístas surgiram após Saussure. Modernamente, Cagliari(1990, p.42) apresenta uma divisão da Lingüística: "Podemos dividir a Lingüistica em Fonética, Fonologia, Morfologia,, Sintaxe, Semântica, Análise do Discurso,Pragmática, Sociolingüística, Psicolingüística, etc. " A relação entre algumas destas ramificações, muitas vezes, é muito direta, o que dificulta a delimitação do campo de uma ou outra. Tomemos, por exemplo, aPragmática e a Análise do Discurso: o que distingue, na prática, a primeira da segunda, não fica muito evidente. Outro caso, é a tênue diferença entre a Semântica e aPragmática. Ambas têm características comuns. Para diferenciá-las, teoricamente, podemos listar alguns aspectos inerentes a uma e não a outra., entretanto, assituações apresentadas em cenários diversos nem sempre nos deixam uma perfeita distinção: isto é Semântica, isto é Pragmática. A escola ainda privilegia a Morfologia, a Sintaxe e a Fonética, apesar das constantes críticas à gramática tradicional. Esse privilégio contribui para que muitas aulas deportuguês ainda sejam silenciosas, sistemáticas e opressoras. Silenciosas, porque o aluno pouco ou nada se manifesta como falante da língua nativa, uma vez que a gramáticainternalizada é subestimada. Não sendo a fala do aluno valorizada, ele se retrai . Sistemáticas, haja vista os professores seguirem, à risca, e sem critérios a gramática tradicional,obrigando o aluno a decorar regras e exceções impostas pela norma padrão. Além disso, os professores limitam-se a trabalhar exercícios mecanizados e leituras sem objetivospedagógicos pré-estabelecidos. Opressoras, por manipular os alunos com ideologias, geralmente, através do livro didático ou apostilas. Pode-se comprovar esta afirmaçãoconsiderando-se o resultado de uma pesquisa que, embora tenha sido realizada em São Paulo, mostra a realidade do país. A professora Maria Helena Neves pesquisou seis gruposde professores de língua portuguesa no ensino fundamental e médio . Neves (1999, ps. 12, 13) constatou que: “As aulas de gramática consistem numa simples transmissão de conteúdos expostos no livro didático em uso”. Verifica-se que os grupos de quatro exercícios mais aplicados, que são os relativos ao reconhecimento (e classificação) das classes de palavras e das funções sintáticas é responsável por 62% das ocorrências: somando-se a esse grupo as ocorrências que ocupam o quinto lugar e o sexto, que também se referem a classes de palavras e a "análise sintática", respectivamente, chega-se a um percentual de mais de 70%, o qual se eleva, se considerados os exercícios que se encontram nas posições 9, 10, 25 e 26, todos relativos a funções sintáticas."
  29. 29. Não há dúvida de que, com tais procedimentos, o professor não desenvolverá, no aluno, pelo menos adequada e satisfatoriamente, a habilidades oral e a escrita.Neste caso, é ilusória a prática pedagógica da aprendizagem do ensino de língua em que o processo ensino-aprendizagem não seja um constante interagir. Esse não interagir,impossibilita o aluno perceber que a língua tem relação com o poder, com o social, podendo ser um instrumento de opressão ou libertação nos diversos grupos sociais com osquais ele convive. Neste momento, é pertinente lembrarmos Bourdieu (1983, p. 160):"A língua não é somente um instrumento de comunicação ou mesmo de conhecimento,mas um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, acreditados, respeitados, reconhecidos." Bourdieu foi feliz ao fazer a afirmação acima. É verdade que usamos a língua como principal meio de comunicação para expressamos sentimentos, emoções,como também perpetuar conhecimentos adquiridos. Entretanto, ela é muito mais: é instrumento de poder. Tem o poder de persuadir, negativa ou positivamente,poder de influir em mudanças de comportamento e valores já pré-estabelecidos pelo falante; poder de discriminar. Gnerre (1987, p.3) retoma as palavras de Bourdieu:"As pessoas falam para serem "ouvidas", às vezes para serem respeitadas e também para exercer umainfluência no ambiente em que realizam os atos lingüísticos." Tanto Bourdieu quanto Gnerre, são enfáticos ao referir-se à relação língua e indivíduo, língua e poder, língua e sociedade, como também ao fato de que as pessoasfalam não somente para se comunicar, simplesmente, isto é, a interação que deve acontecer entre aluno e professor tem que ultrapassar o simples ato informativo. Devepartir do eu para o outro, para a coletividade, levando em conta todo o contexto da realização da enunciação. Como diz Bakhtin (1999, p. 113):"Toda palavra serve deexpressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie deponte lançada entre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor."Da marginalização da semântica e da pragmática Infelizmente, a palavra, durante quase toda a convivência entre o professor e o aluno, não é território comum. Não é ponte. Ao contrário, distancia, por nãoter o espaço devido em muitas aulas de Português. O que chega a ser uma ironia: a palavra, principal instrumento das aulas de português, é ignorada ! Não se tratasomente de uso do vocabulário obscuro ou muita formalidade por parte do docente. Isso acontece, mas não é uma regra geral. Trata-se de aplicação de conteúdos,exemplos, textos - quando ocasionalmente são trabalhados - em grande parte, distantes do aluno, descontextualizados do seu mundo, da sua prática social. Embora esteja enfatizando a habilidade da fala, sabe-se que a escrita é a preocupação maior dos nossos professores e professoras de Português, haja vistaser ela a privilegiada pela norma padrão. Entretanto, já há uma significativa porcentagem que valoriza a oralidade do aluno, pois, como afirma Castilho (1998: 13), (...) não se acredita mais que a função da escola deve concentrar-se apenas no ensino da língua escrita, a pretexto de que o aluno já aprendeu a língua falada em casa. Ora, se essa disciplina se concentrasse mais na reflexão sobre a língua que falamos, deixando de lado a reprodução de esquemas classificatórios, logo se descobriria a importância da língua falda, mesmo para a aquisição da língua escrita. Atenuou-se, também, a convicção de que o único papel da escola é a transmissão da norma culta. Essas novas convicções apontam para o ensino da Língua portuguesa como uma reflexão sobre a língua como atividade, não apenas como estrutura”. 29
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