0
Uma abordagem na área da Psicologia
Psicologia A
Prof. Paulo Gomes
O Filme Salt, não se tratando duma obra-prima cinematográfica, permite ,
contudo, levantar uma série de questões cuja abor...
Aqui surge o primeiro problema que vale a pena investigar a partir do visionamento do
filme: até que ponto uma pessoa cons...
Será que um ser humano “normal” suportaria a
pressão de tantos anos de dissimulação?

A identidade dum indivíduo consolida...
No filme contactamos com uma série de
personagens que, tal como Salt,
passaram pelo programa soviético
criado por Orlov.
T...
O facto de Evelin se ter casado com um
homem por quem se apaixonou, depois
de se ter aproximado dele por razões
profission...
No fundo, Evelin é uma mulher que se tornou fiel a si própria. A sua
Pátria é a sua própria identidade. Tendo crescido div...
Pode dizer-se que um programa desse género só poderia ter sentido se
contrariasse a tendência dos seus ‘alunos’ para o ind...
No caso dos ‘irmãos’ de Evelin Salt parece que foi isso que aconteceu.
Mas qual é o colectivo cujo destino eles incarnam?
...
Ora, o problema que se coloca aqui é o de saber se um programa
como o de Orlov pode existir na vida real. Ou seja, a Psico...
É bem conhecida a provocação de Watson:
"Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem constituídas e a
espécie de mundo que p...
Mas na realidade as coisas são bem mais complexas.
O ser humano não é um mero produto do meio.
É essa a mensagem do constr...
Salt
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Salt

3,986

Published on

Published in: Education
0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
3,986
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
24
Actions
Shares
0
Downloads
17
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Transcript of "Salt"

  1. 1. Uma abordagem na área da Psicologia Psicologia A Prof. Paulo Gomes
  2. 2. O Filme Salt, não se tratando duma obra-prima cinematográfica, permite , contudo, levantar uma série de questões cuja abordagem pode ser muito útil na disciplina de Psicologia. O enredo é relativamente pobre, perdendo-se em muitos momentos na acção pela acção, uma vez que se trata duma história linear, praticamente sem densidade, mas que prende o espectador. E isso acontece devido à ambiguidade com que nos é apresentada a personagem principal, Evelyn Salt, interpretada por Angelina Jolie: uma espiã americana, apresentada no início do filme como uma heroína, mas que cedo deixa de figurar entre os bons da história, para passar a ser encarada como uma traidora ao serviço dos serviços secretos russos. Nós como espectadores ficamos na dúvida sobre a personalidade de Evelyn e toda a história gira em torno desta dúvida.
  3. 3. Aqui surge o primeiro problema que vale a pena investigar a partir do visionamento do filme: até que ponto uma pessoa consegue dissimular a sua verdadeira personalidade? Evelyn aparentemente engana todos os seus colegas da CIA. Mas há mais personagens cuja personalidade se vai revelar como falsa, uma vez que fazem parte duma conspiração dos serviços secretos russos para atacarem a América a partir de dentro. Neste caso, temos a personagem Ted Winter (protagonizada por Liev Shreiber), chefe de Evelyn. Ted Winter vai revelar-se como traidor, numa reviravolta totalmente inesperada para o espectador. Durante muitos anos Evelyn e Ted Winter passaram por testes de personalidade bastante exaustivos, sem que a CIA suspeitasse da sua lealdade.
  4. 4. Será que um ser humano “normal” suportaria a pressão de tantos anos de dissimulação? A identidade dum indivíduo consolida-se durante a infância e constrói-se, de forma determinante, na adolescência. De acordo com Erikson a tarefa fundamental da adolescência é a construção da identidade No caso destas personagens, dado que se trata de indivíduos que foram ‘programados’ desde a infância para assumirem o papel de espiões russos dentro da sociedade americana (com a agravante de o fazerem na agência de espionagem americana, a CIA), o condicionamento a que foram sujeitos na infância e na adolescência terá sido forte o suficiente para moldar a sua personalidade futura?
  5. 5. No filme contactamos com uma série de personagens que, tal como Salt, passaram pelo programa soviético criado por Orlov. Todas elas se mostram fiéis ao seu mentor, excepto Salt. Porquê? A explicação não é simples. A personalidade dos indivíduos é um todo dinâmico que está constantemente a sofrer mutações. Embora exista um núcleo que permanece estável (mas não imune a mudanças), há factores que podem continuar a influenciar a forma como os indivíduos se encaram a si próprios e, dessa forma, a sua personalidade.
  6. 6. O facto de Evelin se ter casado com um homem por quem se apaixonou, depois de se ter aproximado dele por razões profissionais pode ser uma das razões pelas quais ela se terá libertado do condicionamento a que foi sujeita na sua infância, contrariando a perspectiva behaviorista (ou pavloviana) que terá estado na origem da criação do programa secreto de Orlov. Os indivíduos não são totalmente moldáveis pelo meio social. A educação é muito mais do que um mero processo de condicionamento. A experiência do amor e do casamento, contrária à programação de Orlov, tornou Salt numa mulher plenamente segura de si e da sua identidade.
  7. 7. No fundo, Evelin é uma mulher que se tornou fiel a si própria. A sua Pátria é a sua própria identidade. Tendo crescido dividida entre a fidelidade à Rússia ou à América, o que aconteceu é que conseguiu centrar-se e assumir uma identidade autónoma, não manipulável. Trata-se duma mulher independente que sempre procurou ser a melhor em tudo o que fazia: é este desejo de ser a melhor (mesmo quando isso olhe valia castigos severos) que acabou por sabotar o seu condicionamento através do programa de Orlov.
  8. 8. Pode dizer-se que um programa desse género só poderia ter sentido se contrariasse a tendência dos seus ‘alunos’ para o individualismo e para a independência. É isso que acontece, por exemplo, com a formação de bombistas suicidas, há uma despersonalização que leva a que os indivíduos deixem de ser motivados nas suas acções por motivos de ordem pessoal, para passarem a assumir-se como representantes dum colectivo que urge defender e exaltar.
  9. 9. No caso dos ‘irmãos’ de Evelin Salt parece que foi isso que aconteceu. Mas qual é o colectivo cujo destino eles incarnam? A União Soviética colapsou dando lugar a uma Rússia em busca da grandeza perdida, mas que não se assume como herdeira do passado soviético. Orlov parece pretender que a Rússia ressuscite sob a forma duma superpotência sem concorrência a nível planetário. Mas parece que os seus ‘discípulos’ são movidos apenas pelo seu apego ao seu mestre, encarado como um pai que os criou e é a sua razão de ser. Há um sentido de família que os mantém unidos e fiéis ao propósito que esteve na base do seu condicionamento.
  10. 10. Ora, o problema que se coloca aqui é o de saber se um programa como o de Orlov pode existir na vida real. Ou seja, a Psicologia permite fundamentar um programa deste tipo? Aparentemente, de acordo com o behaviorismo de Watson e com a reflexologia de Pavlov isso seria possível.
  11. 11. É bem conhecida a provocação de Watson: "Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem constituídas e a espécie de mundo que preciso para as educar, e eu garanto que, tomando qualquer uma delas, ao acaso, prepará-la-ei para se tornar um especialista que eu seleccione: um médico, um comerciante, um advogado e, sim, até um pedinte ou ladrão, independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, aptidões, assim como da profissão e da raça dos seus antepassados."
  12. 12. Mas na realidade as coisas são bem mais complexas. O ser humano não é um mero produto do meio. É essa a mensagem do construtivismo de Piaget, por exemplo. E é isso que se pode ver na seguinte passagem de Paulo Freire, um dos maiores pedagogos lusófonos: “Exactamente porque somos programados, somos capazes de pôr-nos diante da programação e pensar sobre ela, indagar e até desviar-nos dela. Somos capazes de interferir até na programação da qual somos resultado . A vocação humana é a de “saber” o mundo através da linguagem que fomos capazes de inventar socialmente. Tornamo-nos capazes de desnudar o mundo e de “falar” o mundo. Só podemos falar do mundo porque transformamos o mundo, e o processo não poderia ser ao contrário.” |Paulo Freire, À sombra desta mangueira, Olho de d’Água, São Paulo, 1995.
  1. Gostou de algum slide específico?

    Recortar slides é uma maneira fácil de colecionar informações para acessar mais tarde.

×