Lendas negras
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    Lendas negras Lendas negras Document Transcript

    • LENDAS NEGRAS Júlio Emílio Braz e Sami Dansa Sumário Histórias dos povos africanos Tsu’goab ou A Batalha contra a Morte Quem perde o corpo é a língua O homem-leão e o gado A menina e o barril O demônio que engolia vidas Kigbo e os espíritos do mato O homem que carrega a morte nas costas A Viúva Velha Origem das lendas Sempre me ressenti como afro-descendente da existência de livros que falassem sobre a África ou que contassem suas histórias. Sem procurar muito, até hoje é bem mais fácil encontrar livros com lendas européias, vikings, celtas, russas, japonesas. Nada contra. O homem é a somatória de suas experiências e de tudo o que lê. Quanto maior e mais diversificada sua leitura, melhor. De qualquer forma, a máxima não se aplica às lendas, histórias e culturas africanas. Isso sempre me incomodou. Incomodava ontem, quando eu era criança – a minha cor tanto quanto a minha etnia eram olhadas com indiferença por mim mesmo – e, hoje, quando ela tem muita importância para mim que, como escritor, visitando escolas, encontro jovens como eu que até sentem vergonha dela. Acho interessante e ainda mais importante que conheçam sua origem. Quantas histórias sobre os tuaregues, o lendário povo nômade do norte da África, já ouviram ? Qualquer um deles conhece a história de reinos tão poderosos quanto desconhecidos como os de Ghana e Achanti ? e sobre o império Mali ? O que ouviram ? Songai ? Kanem-Bornu ? Bambara ? Pouco ou nada se falou sobre a África para os jovens de hoje, afrodescendentes ou não. E quando se falou, buscou-se mais a discussão sobre as religiões ou o folclórico, quando não o estereótipo. Para muitos a África ainda é um mistério ou, pior ainda, quando aparece nos noticiários, é como palco de terríveis guerras civis, epidemias pavorosas ou de países muito próximos da barbárie, onde a civilização parece não existir (na verdade, herança de séculos de colonização predatória que deixou como legado a divisão artificial e, por isso mesmo, conflituosa de todo um continente, onde povos de mesma origem histórica foram separados e inimigos seculares passaram a viver num mesmo país). Mas a África é bem mais do que isso. Na verdade, não existe apenas uma África, mas incontáveis, ricas em histórias e tradições. Do norte islamizado até o sul dividido em incontáveis crenças e religiões, muitas delas fruto dos anos de colonização européia, passando por uma surpreendente
    • diversidade ecológica e geográfica que vai dos desertos escaldantes como o Saara e Kalahari às maravilhas florestais como Okavango e as extensas savanas em países como o Quênia. A riqueza étnica é impressionante, responsável por uma herança cultural e artística que, penso, muitos de nós, inclusive os afro-descendentes, desconhecem, apesar de a África ter uma influência ter uma influência decisiva nos hábitos e nos costumes mesmo daqueles brasileiros que não são afro- descendentes. Seja na musicalidade, no fator, na culinária ou no temperamento do brasileiro, o Brasil e a sua história, direta ou indiretamente, estão ligados aos milhares de africanos que entraram neste país com a escravidão. Podemos falar o mesmo de países como os Estados Unidos, Cuba e outros tantos no continente americano. Não pensei em nada além disso, ou seja, resgatar, a partir de uma poucas lendas de várias partes do continente africano, um pouquinho dessa herança esquecida ou premeditadamente ignorada, apresentando-a a todos os dispostos a conhecer esse rico folclore e, quem sabe, despertar outros tantos a escrever mais sobre ele. TSUI’GOAB OU A BATALHA CONTRA A MORTE País: Botsuana Capital : Gaborone O povo Kói ( ou Cói) ocupa parte do deserto do Kalahari e pode ser encontrado em ouros países da região, como Namíbia e África do Sul. Muitos dos representantes desse povo lutaram ao lado de tropas do antigo regime sul-africano contra os guerrilheiros pró-independência Namíbia. Tidos como os primeiros habitantes do sul da África, dominaram durante séculos todas a região entre o rio Zambeze e o cabo da boa Esperança, do Atlântico ao Índico. Pastores, também são conhecidos como bosquímanos, apesar de serem considerados apenas como seus “primos”. Os colonos europeus que aportaram no sul da África hpa 350 anos, considerando-os “indomáveis” e uma ameaça para o gado, trataram-nos como seres desprezíveis e os exterminaram em grande número. Há muitos e muitos anos o povo Kói, que vive no grande deserto no sul da África, conta a história de um homem que viria a ser conhecido como Tsui’goab. Naqueles tempos, vivia-se uma grande seca. Não chovia fazia muitos e muitos meses e, como todos os homens da aldeia, Tsui’goab estava preocupado. - Quando será que teremos chuva novamente ? – se perguntava, o sol castigando aterra e os homens, a água cada vez mais escassa como a comida. Para onde quer que olhasse, não conseguia sequer avistar uma nuvem. Os poços secavam e todos eram obrigados a ir cada vez mais distante para encontrar qualquer animal para caçar e saciar a fome das crianças, que choravam noite adentro, as barrigas vazias, os corpos que eram apenas pele e osso.
    • Quase todo gado morrera. As plantações haviam se transformado em galhos e folhas secas que se misturavam à poeira quando o vento quente soprava do deserto e varria as cabanas silenciosas. Apenas um poço sobrara depois de tantos meses sem chuva, mas a cada dia que passava os baldes eram obrigados a serem descidos cada vez mais baixos para encontrar o líqüido precioso. Vivia-se um grande dilema: beber água e saciar a sede ou dá-la ao gado, Mas se dessem ao gado, sofreriam terrivelmente e, pior, não teriam como regar as plantações.. sem gado e sem colheitas, morreriam de fome. O sol, antes olhado com admiração e encantamento, transformara-se no grande inimigo, destruidor de tudo e de todos, Tsui’goab chorava, atormentado pelas dúvidas e pela dor de ver aqueles que amava sofrerem tanto sem poder fazer nada para ajudá-los. Certo dia, um desconhecido entrou na aldeia logo depois de uma pavorosa ventania que soprou por horas no deserto, acabou sendo levado e acolhido na casa dos mais velhos, pois, apesar do sofrimento da provação a que eram submetidos pela seca, hospitalidade era hospitalidade e todo visitante sempre se via bem recebido e convidado a partilhar do pouco que tinham. Apesar de ter o rosto escondido por um capuz e o corpo coberto por uma longa capa, Tsui’goab pôde perceber que era um homem extremamente saudável, musculoso e aparentando grande força física, deferente de todos por aquelas bandas, quase sempre magros e de aparência envelhecida. -De onde vêm ? – quis saber, os olhos observando-o com desconfiança. - De perto e de longe – respondeu o desconhecido. - A seca anda muito grande e espalhou-se para bem longe... - É verdade... - Deve ter visto a morte muitas vezes pelo caminho... - Por onde quer que eu vá, a morte me acompanha... - Mas, apesar disso, me parece bem saudável. Bastante saudável, na verdade... – O homem sorriu misteriosamente, mas nada disse, o que levou Tsui’goab a perguntar: - tem alguma explicação para isso ? -Explicação ? Que explicação ? - Qual é o seu segredo ? - Segredo ? Do que está falando, homem? - Já esteve outras vezes nesta aldeia, não é verdade ? Os olhos do desconhecido brilharam de modo estranho. -Sim e não – respondeu, a voz sumida. Tsui’goab levantou-se num salto e o desafiou: - Vamos ! Tire seu capuz e mostre-nos o seu rosto, pois não há mais o que esconder ! Todos sabemos muito bem quem você é ! 0 desconhecido sorriu, fazendo pouco-caso das palavras de Tsui’goab. -Sabem mesmo ? - Ouvimos quando disse que vem de longe e de perto e bem sabemos que a morte está por todo lado. Por isso a iu por onde passou, pois a verdade é que você é a Morte. O desconhecido despiu o capuz e a capa e admitiu: -É verdade. Sou Gaunab e há muitos que me chamam de Morte.
    • - Deixa-me muito feliz estar aqui aquele que se apresentava como a Morte. – E posso saber por quê ? -Assim eu terei alguma chance de tentar salvar o meu povo. - Do que fala ?Enlouqueceu ?A falta de água e de comida tirou-lhe o juízo ? - Pelo contrário, nunca estive tão feliz... - Não entendo... - Somos uma gente orgulhosa e nenhum de nós tem medo de enfrentar a Morte. Mas como enfrentar o que sabemos existir mas não vemos ? - Enlouqueceu... - Agora temos a oportunidade, Apresenta-se diante de mim em forma humana, a forma mais cruel, aquela que se alimenta da dor dos infelizes e dos ventres vazios e inchados, dos lábios ressequidos pela sede e das nuvens de moscas que perseguem os corpos daqueles que irão morrer ? - Não tem medo de mim ? - Fico feliz em tê-lo agora diante de mim... - Por quê ? Deseja morrer ? Quer que eu o leve comigo ? - O que quero é desafiá-lo para um duelo – afirmou Tsui’goab. – Um combate leal... A Morte sorriu. - Acha memso que pode me derrotar ? - Tentarei e, se ganhar, espero arrancar de você uma promessa... - Que promessa ? - A de que partirá daqui para sempre e deixará meu povo viver em paz. Gaunab, que se dizia ser a Morte, sorriu: - Então é isso ? Sonha banir-me ? É disso que fala ? Banir a Morte ? -É! - Mas e se a derrota for sua ? O que ganharei ? - Levará minha vida e a de todos que encontrar em seu caminho de destruição. - Não me parece um grande prêmio, não é mesmo ? Mais cedo ou mais tarde, eu ficarei com a vida de todos... - Aceita meu desafio ? - Acredita que serei leal ? - certamente, pois você é a Morte e seu único adversário é a Vida, A grandiosidade de ambos impede que sejam desleais. Não há como ser diferente. - Pois então aceito seu desafio ! – e, dizendo isso, Gaunab, aquele que se apresentava como a Morte, atirou-se sobre ele e os dois rolaram pelo chão. A batalha estendeu-se por dias. Rapidamente a notícia espalhou-se pela aldeia. - Tsui’goab está lutando contra a Morte! – gritavam. Em muito pouco tempo, todos rumaram para aquele local. Não houve homem sadio ou homem doente, forte ou fraco, que não se dispusesse a ir até lá para encoraja-lo. Ganab, mais forte, parecia vencer a batalha, mas, um pouco depois, todos viam Tsui’goab, que lutava com a força dos
    • desesperados e por aqueles e por aqueles que amava, se superar e a luta se prolongava por dias. Gaunab tinha a vontade de vencer, mas Tsui’goab era sempre mais rápido e conhecia mais golpes, pois desde que se entendia como gente lutara contra tudo e contra todos para continuar vivo. À Morte interessava vencer e era por isso que lutava. Tsui’goab lutava com a força maior que alimentava o espírito humano, que era o amor e a solidariedade para com todos que sofriam naquele deserto. Por isso era bem mais feroz e muito mais determinado. Perdeu-se no tempo a duração da luta. Ninguém mais se lembrava. Falava-se em horas, mas havia quem garantisse que se estendera por semanas inteiras. No entanto, uma coisa certa: ao fim do poderoso combate. Gaunab, aquele que se apresentava como a Morte, jazia estendido no chão, empoeirado, ferido e inegavelmente vencido. – Estou morrendo... – gemeu, os olhos enormes, como se não acreditasse no que dizia. – Você derrotou a Morte... – Porque lutou com lealdade – admitiu Tsui’goab. No entanto, orgulhosa, a Morte não podia nem queria se dar por vencida. Num golpe ágil e cruel, deu um pontapé no joelho de Tsui’goab, partindo-o com um som assustador, /Ele tombou gritando de dor e desmaiou ao cair por terra. Muitas vozes soavam em seu ouvidos quando Tsui”goab finalmente voltou a si. Achou estranho, pois, apesar de ouvi-las nitidamente, não via ninguém. - Tsui’goab derrotou a Morte – disse alguém – e estmos muito agradecidos. No entanto, a Morte tem muitas faces e a verdade é que está entre nós. Como Tsui’goab ainda não era seu nome, ele estranhou a menção de tal nome por aquelas vozes que reconheceu serem de sua gente. - Mas nunca nenhum homem lutou contra a Morte e a venceu e temos que ser gratos – afirmou outra voz. – devemos reconhecer tão grande bravura e cobri-los de presentes. Foi nesse instante que aquele que viria a ser conhecido a partir daquele dia como Tsui’goab esfregou os olhos com força e percebeu algo surpreendente: Não se encontrava entre os seus , dentro da aldeia, mas antes flutuava bem alto sobre ambos. Estava no céu. Desesperou-se e tentou toca-los. Nesse momento, esfregou os dedos no corpo e, para sua surpresa ainda maior, deles começou a sair água. Seus olhos encheram-se de lágrimas, que caíram sobre a terra. Via, de um momento para o outro, a terra tornar-se mais escura à medida que a água caía de seus dedos e de seus olhos. Ele ia molhando a terra com a chuva – chuva que criara. Rostos molhados levantavam-se para o céu e gritavam agradecidos pela água que retornava para salva-lhes as vidas. Daquele dia em diante, ninguém mais o chamou ou o reconheceu por outro nome que não fosse Tsui’goab, um deus da chuva, o que significava “joelho ferido”.
    • QUEM PERDE O CORPO É A LÍNGUA País: Angola Capital: Luanda Lenda muito conhecida entre os vários grupos quimbundo, estudiosos já encontraram versões da mesma lenda entre as batongas, da Zambézia, os nupês, do Sudão, e até mesmo no nordeste do Brasil. Conta-se em Angola que há muito tempo um caçador, voltando para sua aldeia, encontrou uma caveira num oco de pau. Assustado, olhou desconfiadamente de um lado para o outro., temendo alguma armadilha ou uma das muitas artimanhas dos espíritos que faziam da floresta o seu lar. Mesmo ainda muito espantado, tomou coragem e se aproximou para observar. Nesse momento, a caveira chamou-o e pediu: - Chegue mais perto, caçador, que eu não mordo, não ! Mas quem diz que ele a atendeu. Mais desconfiado do que propriamente assustado, o caçador ficou onde estava e somente depois de mais algum tempo juntou um restinho de coragem e perguntou; - Quem a pôs nesse lugar, Caveira ? - Foi a Morte, caçador – apressou-se ela a responder: - E quem a matou ? - Enigmática, os olhos brilhando nas órbitas vazias, a Caveira voltou a responder: - Quem perde o corpo é a língua !... O caçador voltou para casa e contou aos companheiros o que acontecera. Ninguém acreditou, mas conversa vai, conversa vem a história da Caveira que falava no meio da floresta foi se espalhando, até que muita gente dela falava. Dias mais tarde o caçador passou pelo mesmo pedaço escuro e sombrio da floresta e tornou a ver a Caveira no mesmo lugar, ajeitada caprichosamente num oco de uma enorme e igualmente assustadora árvore. Tornou a fazer as mesmas perguntas e, como era de esperar, ouviu as mesmas respostas. Mais que depressa o caçador correu para a aldeia e, todo orgulhoso de si mesmo, pois afinal era o único que encontrava e conversava com a misteriosa Caveira, teimou em contar a história aos companheiros. A verdade é que tanto ele contou que muitos começaram a ficar com raiva dele... Afinal de contas, que Caveira era aquela que só falava com ele ? E por quê ? Seria mentira ? Por fim, acabaram dizendo: -Vamos ver essa tal Caveira de que fala tanto, mas ouça bem: se ela não disser coisa alguma que se pareça com tudo isso que você tem dito a
    • nós, vamos lhe dar lá mesmo a maior surra de pau que você já levou pra deixar de ser mentiroso, ouviu bem ? Certo de que a Caveira não o decepcionaria, mais do que depressa o caçador os conduziu até a sua estranha companheira. Vendo-a, apressou- se em lhe fazer as tais perguntas de que tanto falara, mas a Caveira não murmurou sequer qualquer coisa. Calada estava, calada ficou. Mais o caçador perguntava e mais ela ficava calada. Nem um “ai”, quanto mais uma resposta. Diante dos olhares ameaçadores dos companheiros, ele ainda tentou argumentar, dizer qualquer coisa, encontrar um jeito de ... Mas ninguém quis saber de conversa e muito menos de explicação. Caíram sobre ele com toda a raiva do mundo e deram-lhe uma grande surra. A maior que já levara. Foram embora reclamando muito e gritando: - Mentiroso ! - Pobre caçador ! Todo machucado, o corpo dolorido, ficou estirado no chão, gemendo. Só com muito esforço, conseguiu se encostar na árvore, procurando forças para ficar de pé. Quando finalmente conseguiu se levantar, olhou cheio de raiva para a Caveira e resmungou : - Olha bem, coisa do diabo, o que fez comigo ! Os olhos dela cintilaram quase zombeteiramente e, depois de algum tempo, ela afirmou: - Quem perde o corpo é a língua, meu amigo, é a língua... E cá entre nós, com toda razão ! O caçador, bem machucado, foi para casa e, dessa vez, calou-se, guardando para si aquilo que somente ele ouvira. MUKUENDA NGÓ, MUKÚFUA NGÓ; MUKUZUELA NGÓ, MUKULA NGÓ. (Por andar à toa, morre-se à toa; por falar à toa, vai-se à toa!) O HOMEM-LEÃO E O GADO País:Mali Capital: Bamako O rio Niger, com 4.184 metros de extensão, atravessa o país de nordeste a sudoeste, desempenhando o mesmo papel que o Nilo no Sudão ou no Egito: via de comunicação e elemento fertilizador das terras planas às suas margens. Assim, a escassa população do pa´si concentra-se no sul, sobretudo na fértil planície atravessada pelo Níger. No entanto, credita-se aos dogons, população de origem sudanesa que vive no planalto de Bandiagara, a origem dessa lenda. Há muito que os pastores naquela região esquecida do Mali, bem na parte central da África, tinham perdido a paciência com aquele estado de
    • coisas. Um leão vinha atacando seus rebanhos e, nos últimos dias, três de suas vacas tinham sido mortas. - Desse jeito, acabaremos sem rebanho – resmungou um deles, sem saber exatamente o que fazer. - O pior é que não há muito o que fazer – admitiu outro, infeliz. – Não podemos tirar os rebanhos do vale e, mesmo que conseguíssemos, nada nos garante que o leão não viria atrás... - Podemos arranjar mais homens – opinou um terceiro. - Duvido muito que conseguíssemos. – A apatia era geral. – Existem poucos como nós dispostos a se colocar entre um leão faminto e sua presa. Realmente parecia não haver nada o que fazer contra aquela criatura demoníaca que vinha atacando seus rebanhos. Por fim, um deles sugeriu que fossem procurar o feiticeiro. - A troco de quê ? – resmungou outro pastor. - Que mal fará ? – contra-argumentou seu companheiro. – Quem sabe ele conheça algum feitiço ou possua um amuleto que nos ajude a afugentar esse leão de nós e de nossos rebanhos... Não havia muito mais o que fazer e naquele dia mesmo o feiticeiro veio ao vale ver o gado. - Há um meio... – garantiu ele, misterioso, coçando a longa barba. - Há ? – a pergunta apareceu ao mesmo tempo na boca de vários dos pastores, embalada por certo tom de descrença. - ... mas nada além de um mês ! - Bom, um mês de proteção é melhor do que nada, não é mesmo ? – afirmou um dos pastores mais velhos. Todos sacudiram a cabeça. - Mas essa magia é bem cara e terá um preço bem alto para todos... - Quanto é ? O feiticeiro apontou para a maior e mais gorda entre as vacas do rebanho. - Mas é a vaca mais valiosa que temos ! – protestou um dos pastores. - Mas amanhã o leão pode matá-la, e muitas outras, e você não terão nada. Os pastores reuniram-se por uns instantes e discutiram a condição imposta pelo feiticeiro. - Está bem – finalmente concordou o mais velho entre os pastores, - Ela Serpa sua se realmente conseguir proteger nosso gado com sua magia. - Durante um mês – salientou o feiticeiro. - Por um mês... Feito o acordo, o feiticeiro apanhou uma grande sacola e dela retirou alguns amuletos, coisa verdadeiramente impressionante, que agitou no ar, balançou na direção do rebanho e dos pastores, ao mesmo tempo em que recitava um punhado de incompreensíveis palavras mágicas. Terminado o trabalho, apanhou o pagamento e rumou para sua aldeia, onde a vaca gorda era olhada com admiração e cobiça por seus vizinhos: até o dia em que se transformou no prato principal de um grande banquete.
    • Com o tempo e com a tranqüilidade retornando ao rebanho e ao coração de cada um dos pastores, perguntas bem interessantes começaram a ser feitas. - Que leão mais estranho o nosso, não ? Caça e mata três dias seguidos... - Que apetite ! - Talvez tenha uma ninhada muito numerosa para alimentar e por isso cace tanto... - Pode ser. Mas que é estranho, ah, isso é... Todos concordaram. Tais perguntas iam e vinham, mas quase sempre acabavam esquecidas. A tranqüilidade proporcionada pelo feitiço deixara a todos encantados. A magia do velho feiticeiro, apesar de cara, realmente funcionava e aqueles dias de paz eram preciosos para todos. Durou um mês, como ele garantira e, ao fim desse mês, como poucos esperavam, o leão voltou a atacar. Ao contrário das outras vezes, agora o mais velho entre os pastores o viu, um animal enorme, de longas e afiadas garras, vasta juba dourada esvoaçante, derrubando uma das vacas e rasgando-lhes as carnes com incrível rapidez e ferocidade. Ele correu ao seu encontro, brandindo a longa lança, tentando afugenta-lo. Inutilmente, pois o leão nem sequer se preocupou em voltar-se e urrar para enfrenta-lo. Depois que a vaca parou de se debater, arrastou-a para dentro da escuridão e desapareceu. O alvoroço foi geral. Todos os outros pastores que vieram em seu auxílio tinha a mesma opinião: deveriam procurar o feiticeiro e pagar-lhe para manter os leões afastados, mesmo que fosse por mais um mês. Mais uma vez o feiticeiro foi chamado e mais uma vez levado ao rebanho. O mais velho entre os pastores ainda chegou a lhe perguntar se não haveria um feitiço tão poderoso para manter o leão distante por mais tempo, mas o feiticeiro não lhe deu muitas esperanças, afirmando: - Eu não tenho poderes para proteger seu rebanho por mais de três meses. A verdade é que para feitiço tão poderoso eu preciso recorrer magias muito fortes e dispendiosas... - Não se preocupe. Nós estamos preparados para lhe dr três vacas... - Três das maiores e mais gordas – salientou o feiticeiro, os olhos brilhantes de cobiça. - Nós concordamos com isso – disse o velho pastor. E mais uma vez o feiticeiro executou o ritual mágico que viria proteger o rebanho, dessa vez por mais três meses. Acontece que, feita a magia, os pastores acharam que o preço dobrado era alto demais... - Dar três de nossas vacas maiores e mais gordas? Absurdo ! Outros concordaram e alguns até foram mais longe, afirmando: - Mataram um leão ainda ontem lá no rio. Talvez tenha sido por esse motivo que não atacaram o rebanho ontem e não por causa do feitiço de qualquer um... Claro que o feiticeiro ficou com muita raiva ao saber que os pastores não pretendiam cumprir com o prometido e sua raiva foi tamanha que
    • alguns pastores, preocupados, chegaram a dizer que seria melhor pagar a ele. A maioria, no entanto considerou que era tarde demais e o melhor a se fazer seria atravessar o rio Níger e assim mudar o acampamento e o rebanho para a outra margem. O feiticeiro foi atrás dele rogando pragas e ameaçando-os com toda sorte de feitiços, mas não atravessou o rio. Todos estranharam. - Por que ele não entra no rio ? – perguntou um deles. - Alguns feiticeiros perdem os seus poderes nos rios... – explicou o mais velho entre os pastores. - Então estamos salvos ! – gritou um dos mais jovens entusiasmado. - Não por muito tempo – disse o velho, preocupado. – Existem barcaças que atravessam o rio e eu tenho certeza de que logo ele estará numa delas. Não tiveram que esperar muito. Mal tinham acabado de se estabelecer num novo acampamento e viram o feiticeiro embarcar numa barcaça. Além de barqueiro, seu proprietário era conhecido como o patrono do rio. Possuía poderes mágicos com os quais zelava pelos pescadores das aldeias ribeirinhas, bem como por todos os que necessitavam atravessar as águas traiçoeiras do grande Níger. Logo que o feiticeiro embarcara, o barqueiro notara os seus olhos estranhamente dourados e seus dentes muito aguçados. Também não lhe escapara aos olhos penetrantes a pele inquieta do velho – como se por baixo dela houvesse algo como pêlo. A vasta cabeleira dele lembrava a juba despenteada de um leão. O barqueiro observou-o a viagem inteira e, ao se aproximarem da margem, notou a sua inquietação, como fungava impacientemente o ar ao perceber o cheiro do gado. Em dado momento, o feiticeiro chegou até mesmo um rugido de satisfação. Não um rugido qualquer, mas o rugido de um...um... um... Leão ! Não havia mais dúvida, pensou o barqueiro. Aquele era o homem- leão que vinha apavorando todas as vilas ribeirinhas e atacando com tanta ferocidade os rebanhos. Dito e feito. Foi só o barco se aproximar da margem e feiticeiro saltar para a terra já se transformando num enorme e assustador leão. O barqueiro sabia que tinha que fazer alguma coisa. Ao mesmo tempo, acreditava que um animal tão estranho quanto poderoso como aquele só poderia ser morto de duas maneiras: com uma bala de metal, disparada por uma arma, ou com uma seta mágica especial cujo encanto somente ele conhecia. Depois de caçar e comer mais uma vaca, o grande leão voltou à sua forma humana e deitou-se à sombra de um enorme baobá para descansar. Dizem as lendas contadas a seu respeito que foi exatamente ali que um caçador, certamente enviado pelo banqueiro, o alcançou e o matou com uma pequena mas mortal seta mágica. O fato é que depois daquele dia nunca mais se ouviu falar no leão ou no velho feiticeiro. Mas também é fato que um pouco depois quem quer que
    • passasse próximo da grande árvore conseguia ouvir o rugido indignado da enorme fera, como se ela estivesse ali aprisionada, os rugidos maiores e mais assustadores assombrando particularmente as noites de lua cheia. A MENINA E O BARRIL País: Tanzânia Capital : Dodoma A presente lenda sudíli possui versões em xosa e lesoto, povos que vivem na África do Sul. Lesoto também dá o nome a um pequeno país na mesma região. Na verdade, o termo suaíli identifica não um povo, mas uma língua falada principalmente por povos em diversos países da África oriental, chamada de “inglês da África” por sua abrangência. Entre os vários grupos tribais tal lenda possui várias versões, notadamente em seu final, em que, por exemplo, o país da menina aprisionada põem dentro do barril cobras venenosas que acabam por matar o duende. Ninguém sabe mais há quanto tempo aconteceu, mas conta-se na aldeia que numa certa ocasião havia entre nós uma jovem muito bonita. Ela e as amigas costumavam brincar na praia e por vezes lá passavam grande parte do dia. Numa dessas manhãs, no vaivém das ondas, encontraram uma bonita concha. Imaginando que poderiam encontrar outras tão ou mais bonitas do que aquela, passaram um bom tempo procurando-as. De tal maneira entregaram-se àquela tarefa que quando perceberam já se fazia noite e as primeiras estrelas brilhavam no céu. Preocupadas, todas partiram de volta para a aldeia. No entanto, no meio do cantinho, a jovem lembrou-se da concha que deixara sobre algumas pedras e pediu às amigas que voltassem à praia com ela. Temendo os espíritos que costumavam vagar pela floresta com a chegada da noite, todas se recusaram. Teimosa e encantada com a beleza da concha, a jovem resolveu ir sozinha. Tinha medo da escuridão, era bem verdade, e, para afugentar seus temores, passou a cantar. Ao ver a praia, caminhou depressa para as pedras onde , segundo se lembrava bem, deixara a concha. No entanto qual não foi a sua surpresa ao encontrar no lugar não a concha, mas um duende, uma criança pequena e de sorriso manhoso, que, ao vê-la, apressou-se em dizer: - Você tem uma voz muito linda, menina... Cante para mim ! - Minha concha... – A jovem, com medo, quis correr. - Cante para mim e eu lhe digo onde está a sua concha. Ainda assustada, mas igualmente interessada em reaver a bela concha, ela o atendeu.
    • - Chegue mais perto para que eu possa ouvir melhor – pediu o duende. A jovem se aproximou e foi só se aproximar que ele, muito agilmente, agarrou-a e meteu-a dentro de um barril. Em vão, ela gritou, suplicou e chorou, pedindo que ele a soltasse, presa estava e presa continuou. Mais que depressa, o duende colocou o barril nas costas e pôs-se a vagar de aldeia em aldeia, trocando uma refeição por um bocado de boa música. Era sempre assim: ele chegava à aldeia, fazia a sua proposta e, aceita a proposta, batia no barril. Imediatamente, mesmo sem saber o que estava acontecendo, mas com medo do que o duende poderia fazer-lhe de ruim, a jovem punha-se a cantar. Todos ficavam encantados com aquela voz melodiosa mas triste que emergia do barril. Aliás, o encantamento era tamanho que as pessoas ofereciam mais e mais comida para que ele não se fosse com o barril. O duende se enchia de comida até não poder mais e apenas as sobras ficava para a jovem, isto, quando havia sobras. O duende continuou indo de um canto para o outro durante certo tempo. Sempre com o barril nas costas e sempre tirando dele aquela música que encantava a todos e o empanturrava de comida. Certo dia, os dois, duende e barril, acabaram chegando à aldeia onde nascera e vivera a jovem prisioneira. Desta vez e, como vinha acontecendo desde que colocara o barril sobre os ombros e começara a ir de aldeia em aldeia, não foi nem preciso fazer a proposta. As pessoas pediram-lhe para serem entretidas. Cheio de si e já antevendo uma farta refeição, o duende apressou-se em atende-los. No entanto, os pais da jovem estavam entre os que ouviam e, mal ela começou a cantar, eles reconheceram sua voz. - É a nossa filha ! – disse a mãe, emocionada, a alegria dando lugar à preocupação. – Como vamos fazer para tira-la daquele barril ? Rapidamente o pai teve a idéia de, como a aldeia cobrira o duende de comida para que ele não parasse a música, dar-lhe uma comida bem forte. Assim, fizeram com que ele bebesse até que dormisse. Enquanto ele dormia, os pais da jovem a salvaram e em seu lugar dentro do Brasil colocaram abelhas e formigas guerreiras, das mais ferozes que encontraram. E lá se foi o duende sem de nada suspeitar, até que, entrando na próxima aldeia e feita a sua proposta, ele bateu no barril. Formigas e abelhas lançaram-se furiosamente sobre a infeliz criatura e mordera, morderam , morderam. O duende fugiu para a mata e, depois disso, nem ele nem o barril foram vistos. O DEMÔNIO QUE ENGOLIA VIDAS País : África do Sul Capital : Cidade do Cabo (legislativa) Essa história é contada entre os zulus, população banta da África do Sul, que ocupa a costa oriental da província de natal, estimada em 3,5 milhões de indivíduos. Traz o nome do clã dirigido por Chaka (1818- 1828) que deu a
    • esse povo de pastores uma estrutura social coerente baseada na guerra.A nação zulu resistiu ao protetorado britânico que se estabeleceu em 1887 e se revoltou em 1906-1908. Contam os zulus que há muito tempo vivia um monstro muito feio e peludo num rio temido e evitado por todos. Um dia a filha do chefe resolveu tomar banho naquele rio com as amigas e, bastante teimosa, recuou-se ao ouvir o conselho dos pais, que em vão a alertaram sobre os riscos que correriam ao se banhar em tal rio. - Meu pai é o homem mais poderoso desta terra- dizia ela, com orgulho, - Por que terei eu de temer esse ou qualquer outro monstro ? As jovens passaram boa parte do dia dentro das águas. Quando resolveram voltar para a aldeia, qual não foi a surpresa delas ao descobrirem que suas roupas haviam desaparecido. A surpresa cedeu lugar rapidamente ao medo no momento em que viram que estavam nas mãos peludas do monstro. Uma a uma, e mesmo apavoradas, elas pediram e todas receberam as roupas de volta. Menos a filha do chefe que, sempre orgulhosa, se perguntava: - Por que eu, a filha do homem mais poderoso desta terra, terei que me rebaixar e pedir qualquer coisa a criatura feia? Eu não peço. Mando. Devolva minhas roupas, monstro infernal ! O monstro enfureceu-se. Agarrando-a pelo braço, arrastou-a para dentro do rio de onde não saiu mais. Desesperadas, as companheiras da jovem princesa voltaram correndo para a aldeia e contaram tudo o que havia ocorrido ao chefe. Preocupado, mas ainda mais indignado com a ousadia da horrenda criatura, ele reuniu seus melhores guerreiros e mandou que atacassem o monstro e salvassem sua filha. Rapidamente todos marcharam para o rio e lançaram-se com coragem contra o monstro. Todos foram devorados e ainda mais cheia de ódio a criatura rumou para a aldeia, onde novamente comeu tudo o que encontrou pelo caminho, fossem ou não humanos. Nem os cães e o valioso gado da aldeia escaparam. Apenas o pai de dois belos gêmeos sobreviveu a tão impiedoso ataque e jurou vingar-se. Carregando apenas um cajado e uma lança, partiu à procura do monstro que, depois do ataque à aldeia, desapareceu do rio. Prometendo a si mesmo que não descansaria enquanto não o encontrasse, caminhou em várias direções. A todos que encontrava pelo caminho perguntava pelo monstro. Uns búfalos lhe indicaram uma direção. O leopardo lhe garantiu que aquele era o caminho certo e o mandou seguir em frente. Finalmente um elefante lhe indicou onde estava o monstro. Acontece que a criatura peluda não era boba, não, e escondeu-se no alto das árvores e, protegido pela escuridão da noite, tentou se passar por um macaco. Acreditando que podia enganá-lo, quis porque quis mandá-lo seguir em frente, para bem longe. - Pensa que me engana ? – disse ele. – Você é a criatura que procuro ! E exigiu: - Vai, devolva meus filhos de uma vez ! A criatura tentou uma vez engana-lo, afirmando:
    • - Não seu do que está falando, homem ! Nada sei sobre monstros e muito menos de seus filhos ! - Sabe sim ! trata de devolvê-los ! - Não ! O homem foi se irritando, irritando e, num dado momento, golpeou-o violentamente na corcunda com o cajado. A pancada foi mortal e o monstro morreu. Surpreendentemente, ao cair para trás, o monstro abriu-se de cima a baixo e de dentro dele saíram todas as pessoas, o gado, os cães, os filhos do homem. Por último, veio a filha do chefe que ele apressou-se em devolver ao pai. Depois disso, nunca mais se soube de outro monstro que resolvesse transformar aquele rio em seu lar. KIGBO E OS ESPÍRITOS DO MATO País: Nigéria Capital Abuja Essa lenda é originária do povo ioruba, povo sudanês que habita o antigo reino de Ioruba, atualmente parte da Nigéria. Nos séculos XVIII e XIX, algumas centenas de milhares de iorubas foram trazidos como escravos para o Brasil. Sua cultura predominou sobre a de outros grupos africanos e influenciou diversos aspectos da cultura brasileira, como, por exemplo, o religioso. Entre os iorubas, ainda hoje se conta a história de Kigbo e de sua mulher, Dolapo. Os dois eram muito jovens e, até se casarem, haviam vivido com os pais, o que significava que não possuíam terras. Por isso, quando se aproximava a época de preparar os campos para o plantio, seu pai, preocupado, procurou-º - Agora você é um homem casado, meu filho – disse ele. – Vai precisar de terras para alimentar sua família. É para isso que estou aqui; vamos procurar um lugar fora da aldeia e eu o ajudarei você a limpa-lo. Se tudo der certo, teremos uma colheita farta... - Não quero ! – afirmou Kigbo arrogantemente. - Como não quer ? – espantou-se seu pai. – Você precisa cultivar alimentos... acaso quer ver sua família morrendo de fome ? Ou pensa que iremos alimentar vocês ? Agora você é casado... - Nem uma coisa nem outra. - Então eu não entendo... - O que estou querendo dizer é que não pretendo arranjar um terreno aqui perto da aldeia... - E onde vai conseguir terras? - Vou plantar no mato – informou Kigbo. - No mato ? Não acredito ! Você enlouqueceu, meu filho ! - Por quê ? - Isso é loucura !
    • - Não vejo... - Como não vê, filho ? o mato fica longe de tudo e é perigoso. - Mas é exatamente por isso que vou pra lá ! - Isso é loucura ! - Pode até ser, meu pai, mas lá eu terei terras do tamanho que quiser ! - Não acredito... Mas Kigbo, cujo nome queria dizer exatamente “homem teimoso”, não deu ouvidos ao que o pai dizia e ainda acrescentou: - Não perca tempo, É pra lá que eu vou e está acabado ! No dia seguinte, Kigbo marchou para o mato. Inutilmente muitos tentaram faze-lo desistir de tal idéia: - Há muitos perigos no mato, Kigbo! – repetiam. - Pense bem ! – pediam. Perda de tempo. Teimoso como era. Kigbo não deu ouvidos a ninguém, Para o mato que ia e para lá foi, abrindo o campo com a foice e a enxada, trabalhando duro e cheio de confiança. Pelo menos até que um grupo de espíritos que morava na floresta escura veio procura-lo. - Somos os espíritos do mato – apresentou-se aquele que dava impressão de ser o mais velho deles. – Saiba que somos os donos desta terra. Kigbo olhou-os desconfiada mas desafiadoramente. - Tem terra pra todo mundo aqui – disse. - Eu só quero um pedaço para plantar o meu milho. Assim disse e ficou esperando pelo pior. No entanto, surpreendentemente, os espíritos não só o expulsaram da floresta como o ajudaram a lavrar uma grande extensão de terra que Kigbo bateu no peito dizendo ser sua. Mal-educado como era, nem sequer agradeceu aos espíritos pela ajuda e rumou para a aldeia, onde passou o resto do dia gabando-se do que havia feito e conseguido. O pai, que ainda estava muito preocupado, o procurou e insistiu: - Não acredite nesses espíritos da floresta, meu filho. São criaturas traiçoeiras e podem lhe fazer muito mal... - Qual o quê, meu pai! O senhor se preocupa à toa. Eles até me ajudaram no trabalho... - Essa sua teimosia ainda vai levar você pra coisa muito ruim, meu filho... como aqueles espíritos ! - Que nada ! Eles me ajudaram bem mais do que esses medrosos da aldeia e amanhã, se eu tiver sorte, talvez até conte com a ajuda deles para semear minhas terras ! E ria-se a valer, gabando-se de sua esperteza e da maneira como conseguira que os espíritos do mato trabalhassem para ele. Na manhã seguinte, antes que qualquer um tivesse acordado, abandonou a aldeia e rumou para a floresta, um pesado saco de milho nas costas. Mal pôs os pés na terra preparada para o plantio e o mesmo grupo de espíritos apareceu na sua frente, mais uma vez repetindo: - Nós somos os espíritos do mato e esta terra nos pertence.
    • - Bem sei disso – disse Kigbo, fingindo humildade. - Então o que pretende vindo aqui ? - Preparo a terra para plantar minhas sementes. - Pois vamos fazer o mesmo que você. E assim dizendo, os espíritos puseram-se a imitar Kigbo, que lavrava a terra e mais adiante, enchendo a mão de grãos, punha-se a semear. Ele mal cabia em si de contentamento. Um trabalho que levaria semanas para ser feito, graças à ajuda dos espíritos apareceu na sua frente, mais uma vez repetindo: - Nós somos os espíritos do mato e esta terra nos pertence. - Bem sei disso – disse – disse Kigbo, fingindo humildade. - Então o que pretende vindo aqui ? - Preparo a terra para plantar minhas sementes. - Pois vamos fazer o mesmo que você. E assim dizendo, os espíritos puseram-se a imitar Kigbo, que lavrava a terra e mais adiante, enchendo a mão de grãos, punha-se a semear. Ele mal cabia em si de contentamento. Um trabalho que levaria semanas para ser feito, graças à ajuda dos espíritos do mato, via-se terminado de um dia para o outro e, melhor, sem que tivesse que dar qualquer coisa de volta. Julgava-se muito esperto. Rapidamente se tornaria o homem mais rico e o maior proprietário de terras da aldeia. Todos o invejariam. Falariam da sua coragem. Iriam olha-lo com respeito, pois, ao contrário dos outros homens da aldeia, não tinha medo dos espíritos da floresta e, melhor ainda, dominara-os. Fazia planos. Muito em breve construiria uma grande casa em suas terras no mato e para lá levaria o filho e a amada Dolapo. A riqueza tirada da grande propriedade na floresta o tornaria um homem poderoso e respeitado. Talvez o novo rei... Como sonhava e como eram grandiosos os sonhos de Kigbo !... Bem antes do amanhecer, acabara de semear e, como fizera da primeira vez, não agradeceu aos espíritos, rumando bem depressa para a aldeia. E assim segui a vida de Kigbo. Mesmo que tivesse de andar mais para vigiar sua extensa faixa de terra na floresta, ao contrário dos outros, cujas terras, apesar de menores, ficavam nos arredores da aldeia, sentia-se feliz, antevendo os grandes lucros que obteria com a plantação de milho que vicejava longe dos olhos e da cobiça dos vizinhos, um verdadeiro mar dourado na escuridão da floresta. Muitas vezes, encantado com seus grandes milharais, passava até dias longe de casa, contemplando-os, fazendo planos e mais planos, sonhando com riqueza e prazeres inimagináveis. Tão grandioso era seu orgulho que certa manhã ele resolveu voltar à aldeia para buscar a mulher e o filho. Mal sabia ele que a esposa também pensava em ir ao seu encontro, tomada de remorso por abandoná-lo em lugar tão distante e, como dizia a gente da aldeia, perigoso.
    • - Seu pai trabalha tanto para nos dar uma vida melhor – disse Dolapo ao filho – que o mínimo que podemos fazer é ir visitá-lo. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu, mas os dois acabaram não se encontrando pelo caminho. Já entardecia quando Dolapo chegou à plantação com o filho. Cansada, aborreceu-se com a teimosia do marido que insistia em ter uma plantação tão distante da aldeia. Para piorar ainda mais, o filho de Dolapo começou a chorar. - Tá com fome ? – perguntou, irritada, olhando de um lado para o outro e arrependendo-se de não ter trazido nada para comer com o marido. Parou os olhos no milharal e resmungou: - De que me adianta tanto milho se ainda está verde ? Acontece que a criança continuou chorando e chorando até que ela, não suportando tamanha choradeira, arrancou uma das espigas e deu ao filho, pedindo : - Toma ! Coma isso e me deixe em paz ! Qual não foi a surpresa dela ao ver, como que saídos do nada, o mesmo grupo de espíritos que ajudara Kigbo na preparação e no plantio do milho. - Nós somos os espíritos do mato e esta terra nos pertence! – gritaram. – Por isso, faremos o mesmo que você faz! Antes que Dolapo tivesse tempo de dizer ou fazer qualquer coisa, todos se atiraram sobre a plantação e cortaram até a última espiga de milho. O chão cobriu-se com montes delas, todas irremediavelmente verdes, o que significava que toda a plantação estava perdida. Dolapo não sabia exatamente o que havia feito. Estava assustada e confusa. Sentia-se culpada. - O que foi que eu fiz ? – perguntava-se de tempos em tempos. Chorava, abraçada ao filho, temendo aqueles espíritos que iam e vinham de um lado para o outro, arrancando o que restava da plantação, repetindo que eram os donos da terra, e a impediam de ir embora, para bem longe de toda aquela confusão. Logo a criança também começaria a chorar e o choro de ambos alcançaria Kigbo ainda na estrada, a caminho de casa. Reconhecendo as vozes angustiadas da mulher e do filho, ele voltou correndo: apenas para encontra-los fugindo dos espíritos em meio ao milhara completamente destruído. - O que aconteceu > - quis saber. - O nosso filho chorava com fome... eu achei que podia, que não tinha importância... eu só arranquei uma espiga bem pequenininha... Kigbo entendeu de imediato. Os espíritos imitaram-no ao vê-lo preparar e, depois, semear a terra. Ao verem Dolapo arrancando a espiga... Enfureceu-se. - Criança estúpida ! – gritou, agarrando o filho e sacudindo-o com raiva. Antes que se desse conta do que estava fazendo, os espíritos se aproximaram e repetiram: - Nós somos os espíritos do mato. A terra nos pertence, e como você faz, nós fazemos.
    • Rapidamente rodearam Kigbo e, antes que ele tivesse tempo de fazer qualquer coisa, arrancaram o filho de suas mãos e passaram a sacudi-lo da mesma maneira. A criança gritava e Kigbo, enlouquecido e incapaz de fazer qualquer coisa para ajudá-la, culpou a mulher pelo que estava acontecendo. - Você não tinha nada que trazer meu filho para cá ! – berrou, esbofeteando-a.. Horrorizou-se logo em seguida, percebendo a bobagem que fizer ao ver os espíritos da floresta atirando-se sobre Dolapo, gritando: - Nós somos os espíritos do mato e essa terra nos pertence, O que você faz, nós fazemos ! E assim dizendo, passaram a golpeá-la com bofetadas, enquanto Kigbo, assustado e cheio de arrependimento, batia com as mãos na cabeça e repetia: - Burro ! Como fui burro ! Por que não ouvi meu pai ? Mais uma vez os espíritos da terra se voltaram para ele e, aos gritos, diziam: - Somos os espíritos do mato e essa terra nos pertence. O que você aqui faz, nós também fazemos ! Kigbo apanhou demais. Apanhou de nunca mais esquecer. Enquanto fugia com a mulher e o filho, dava para ouvi-lo gritando: - Eu nunca mais volto aqui ! Eu nunca mais volto aqui ! E, segundo dizem, ele cumpriu a promessa. Ah, é... e deixou de ser tão teimoso ! O HOMEM QUE CARREGA A MORTE NAS COSTAS País: Quênia Caítal : Nairobi Existem outras histórias contadas com imensas variantes no Malavi e em Zâmbia, sendo, portanto, praticamente impossível identificá-las ou associá- las apenas a este ou aquele grupo. Acredita-se, no entanto, que essa versão tenha originado entre tribos bantu. Há muito tempo existia uma bela jovem que não queria casar. Por mais que lhe aparecessem pretendentes, e esses somavam-se mais de uma dezena, ela resistia à idéia de se casar com qualquer um deles. Inconformados e com o passar do tempo e o ir-e-vir de pretendentes sem que desses saísse o escolhido pela filha, realmente aborrecidos, seus pais afirmaram que a ofereceriam ao primeiro que se apresentasse na aldeia. Para tal, organizaram uma grande festa na qual vieram homens de várias aldeias vizinhas. Entre tantos, um deles, um homem alto e elegante, com uma bela tiara à volta da cabeça, atraiu imediatamente os olhares de todos, inclusive o da jovem. As danças duraram vários dias e ela dançou com ele muitas vezes, acabando por se apaixonar.
    • - Quero casar-me com aquele homem, meu pai ! – disse a jovem. - Mas ele quer casa com você, minha filha ? – preocupou-se o pai. - Ele disse que vai pedir-me em casamento no final da festa. Todos ficaram felizes, menos o irmão dela que descobrira que o simpático jovem tinha uma segunda boca na parte de trás da cabeça e apressou-se em prevenir a mãe do perigo que corriam. - Uma segunda boca ? – espantou-se o pai de ambos. – Mas que bobagem está dizendo, filho ? Não houve um que não o tivesse ridicularizado. Riram e riram muito dele. - Se não acreditam em mim, então peçam a ele para mostrar a cabeça por trás e todos verão que tenho razão. Ele é um espírito mau da floresta ! Ninguém deu ouvidos. Quer porque todos considerassem a história absurda, quer porque esperassem ansiosamente ver a filha casada, os pais da jovem não quiseram fazer tal pedido ao convidado. - Seria um descortesia – afirmou o pai. Na verdade, nenhum deles acreditava que aquele rapaz tão atraente pudesse ser algum tipo de demônio. Por isso , quando ele pediu a mão da filha em casamento, os pais concordaram cheios de alegria e apressaram-se em celebrá-lo dias depois. A festa foi bonita mas rápida, pois o noivo, dizia, tinha pressa em apresentar a jovem a seus pais e à casa em que viveriam por toda a vida. No entanto, o irmão da noiva ainda continuava muito desconfiado... Não podia estar enganado. O noivo realmente tinha uma segunda boca atrás da cabeça. ... E, por isso, os seguiu ! O casal caminhava sem pressa pela mata quando o marido virou-se para a mulher e perguntou : - Você ainda consegue ver a fumaça da casa de seus pais, minha querida ? E ela respondeu que sim, via perfeitamente. Mais adiante e nova pergunta: - Então ? Ainda pode ver as colinas por detrás da casa de seus pais ? Sim, ela ainda as via. Passou-se certo tempo antes que ele perguntasse novamente: - Então ? O que pode ver daqui ? - Já não os vejo – respondeu ela. Um sorriso cruel arreganhou a boca do noivo quando ela disse : - Chore as últimas lágrimas da sua vida, mulher... E ela, espantada, perguntou : - Por quê ? - ... pois eu vou devora-la agora mesmo ! Dito isso, o belo homem foi perdendo a sua forma humana, adquirindo pelos, a boca enchendo-se de dentes afiados, agitando-se, mais parecendo uma enorme hiena. - Não faça isso, meu marido ! – ela implorou. Mas quem diz que a criatura cada vez menos humana e cada vez mais assustadora lhe deu ouvidos ?
    • Com as duas bocas praticamente se tornando uma só de tão grande que se transformava, ele avançou sobre ela, como dissera, para devora-la. Porém, nesse instante, o irmão que os seguia saiu de dentro da mata e atingiu-o com uma flecha envenenada. - Venha, minha irmã ! – pediu ele, agarrando-a pela mão e puxando-a para dentro da floresta. Os dois correram e correram ainda mais que ouviram os gritos horríveis da fera enquanto morria. E nunca mais voltaram àquele lugar enquanto viveram. A VIÚVA VELHA País : Angola Capital : Luanda Essa lenda é originária dos chagas, povo de origem quimbundo, um dos muitos vivendo no território de Angola. Como muitas lendas, tem incontáveis versões entre outros grupos tribais do país e de países vizinhos, podendo ser encontradas versões mesmo em Cabinda, onde prevalecem os grupos quicongo. Há muitos e muitos anos, conta-se que viva entre o povo chaga uma viúva muito velha e triste. Enquanto na maioria das casas de sua aldeia reinavam a alegria e a felicidade, em parte por conta das muitas crianças que nelas viviam, em sua casa reinava o mais triste e melancólico dos silêncios. E por quê ? A pobre mulher casara-se muito cedo com um homem que amou demais. Infelizmente tal homem morreu bem cedo e os dois não tiveram a oportunidade de ter filhos. A mulher, extremamente infeliz diante de tão grandiosa perda, jurou que jamais voltaria a se casar. Foi se afastando de todos e o tempo passou, passou e passou e, quando se deu conta, estava velha e sem filhos e por isso mesmo sem netos.. A única coisa que restaria para si seria a solidão de uma casa vazia de alegria e felicidade. A bem da verdade, tudo o que ainda lhe dava alegria na vida era um pequeno terreno junto de sua casa onde costumava cultivar frutas e legumes. Plantava com carinho, não se via erva daninha onde quer que se olhasse. Passava quase todo o dia arrancando-a e espantando os animais que porventura se aproximassem da plantação. Dedicava-se especialmente às cabaças. Por conta disso, os outros aldeões zombavam dela, dizendo que tratava as cabaças como se fossem os filhos e os netos que jamais teria. O espírito que vivia na montanha e protegia o povo chaga, penalizado com a sua situação, resolveu ajuda-la. No dia seguinte, quando a Viúva Velha cuidava de sua roça, um mensageiro do espírito veio até ela e lhe disse: - Cuida muito bem das próximas quatro cabaças que retirar desta terra, pois elas serão os quatro filhos que você nunca teve ! Achando-se mais uma vez vítima de alguma brincadeira perversa dos aldeões – o sol brilhava forte àquela hora do dia batia nas costas do mensageiro e a impedia de ver-lhe o rosto - , a velha perguntou :
    • - Do que está falando, homem? Como posso dar carinho e cantar canções de ninar para uma cabaça ? Acaso me toma por louca ? - Confia em mim – pediu o mensageiro, e nada mais disse, desaparecendo bem diante de seus olhos. A Viúva Velha, mesmo acreditando que se tratava realmente de um enviado do espírito da montanha, ainda continuava cheia de dúvidas, incapaz de crer no que ouvira, Atendendo ao seu pedido, recolheu quatro cabaças, a quarta lhe parecendo realmente estranha e excepcionalmente grande. Por isso, apenas as três menores pendurou nas vigas que tinha em sua pequena casa. A quarta era tão grande que nenhuma das vigas seria capaz de suporta-la. Para que ela secasse como as outras, achou por bem deixa-la junto ao fogo que lhe aquecia o corpo envelhecido. No dia seguinte, logo que a velha partiu para o mercado, o mensageiro do espírito entrou em sua casa e tocou nas três cabaças penduradas nas vigas e em seguida tocou naquela deixada junto do fogo. Como que por encanto, as quatro se transformaram em crianças que mais do que depressa puseram-se a correr pela casa inteira, rindo, gritando e saltando de intensa felicidade. Depois de algum tempo, aquela que fora a quarta cabaça e considerada pelos outros três o irmão mais velho voltou-se e propôs que cuidassem um pouco da casa, naqueles tempos muito suja e abandonada. Todos concordaram e mais do que depressa trataram de varrer, limpar, arrumar, colocar cada coisa em seu devido lugar. Feito isso, o irmão mais velho tratou de colocar os outros três mais uma vez pendurados no alto da casa e se ajeitou ao lado do fogo, imediatamente voltando a ser as cabaças de antes. Quando a velha voltou ... Minha nossa ! Estava tudo arrumado, a casa limpa e um monte de lenha cortada e ajeitada com todo capricho junto do fogo. Nem de longe imaginava que aquelas quatro cabaças haviam sido as responsáveis por tudo. No dia seguinte, quando uma de suas vizinhas veio perguntar quem eram as crianças que brincavam e trabalhavam em sua casa, arregalou os olhos e perguntou : - Que crianças ? Não sabia o que responder. A aldeã falara das crianças e de como arrumaram tudo na casa, de como, apesar de serem apenas três, aparentavam ser bem mais. Falou também do quarto menino, bem maior, que parecia chefiar toda aquela atividade frenética. A Viúva Velha não sabia o que dizer e, muito menos, o que responder. Finalmente, depois de alguns dias pensando e pensando, algo lhe veio à mente. Lembrou-se daquele que se apresentara como mensageiro do espírito da montanha, mas antes de mais nada em suas palavras sobre as cabalas que ela deveria recolher cuidadosamente e que , segundo ele, se transformariam em seus filhos. Nisso pensando, certa manhã, fingiu que ia ao mercado, mas retornou à casa para investigar sobre tais crianças que segundo seus vizinhos, mal ela virava as costas, punham-se a brincar e trabalhar em sua casa. O que viu a surpreendeu. Realmente havia quatro crianças brincando e trabalhando dentro de sua casa, Essas, ao vê-la, assustaram-se, o mais velho apressando-se em pegar os
    • irmãos e pendura-los nas vigas, onde se transformaram mais uma vez em cabaças, - Esperem ! Esperem! – pediu ela, fazendo com que o mais velho, depois de se ajeitar junto ao fogo, também não se transformasse em cabaça. – Sejam meus filhos e mão meus empregados ! Dêem-me a oportunidade de amá-los e cuidar de vocês ! Por favor ! ... Ouvindo isso, as cabaças que estavam penduradas nas vigas voltaram a ser crianças e juntaram-se ao irmão mais velho quando se aproximou da Viúva Velha. Ela os abraçou carinhosamente, os olhos cheios de lágrimas. Daquele dia em diante, todos a veriam sempre junto daqueles que ela viria a chamar de “seus filhos”. Por seu lado, as crianças, muito provavelmente animadas por tanto carinho e afeição, puseram-se a trabalhar mais e mais, razão pela qual a plantação da Viúva Velha começou a prosperar. O trabalho era tão bom e as colheitas tão abundantes que em muito pouco tempo a velha começou a ter dinheiro, muito dinheiro para comprar mais terras e até plantações vizinhas. Depois vieram algumas cabras, que logo, logo se transformaram num rebanho inteiro. Em muito pouco tempo, a velha transformou- se na fazendeira mais rica do lugar e nunca mais precisou trabalhar. Apenas uma coisa ela ainda gostava de fazer : cozinhar. Cozinhava para ela e para os filhos até que um dia tropeço no filho mais velho que, como de costume, ficava sentado junto ao fogo, observando o trabalho dos outros três irmãos. A panela enorme que carregava espatifou-se no chão e o guisa que transportava derramou-se por inteiro, sujando tudo em seu caminho. -Quantas vezes eu já disse para não ficar aí igual a um... um... igual ao vegetal inútil que sempre foi ! – rugiu ela, furiosa, - Não sei por que perco meu tempo cozinhando para um bando de vegetais como você e seus irmãos ! Afinal de contas agora eu sou uma mulher rica e não preciso mais de... de... Ela nem teve tempo de dizer sequer mais uma palavra, pois no mesmo instante o irmão mais velho transformou-se numa cabaça bem diante de seus olhos. Horrorizada, a Viúva Velha correu para a roça onde trabalhavam os outros três. Não ouvia mais risos nem suas vozes alegres cantando enquanto trabalhavam. Encontrou apenas mais três cabaças pequenas. - Voltem, meus filhos ! ... – gemeu, desesperada. – Me desculpem ! Eu... eu ... eu .... Tarde demais. ? Eles nunca mais voltaram. Durante muito tempo, quem passasse pela casa da viúva Velha podia ouvir nitidamente o seu choro e as súplicas inúteis pela volta dos quatro filhos. Tão inúteis quanto as quatro cabaças com as quais ela viveu abraçada até o último de seus dias, mais uma vez infeliz e sozinha.