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Psicoterapia fenomenologica existencial

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  • 1. 1 Dr. Thomé Eliziário Tavares FilhoPsicoterapia Fenomenológica Existencial Organizador: Prof. Dr. Thomé Eliziário Tavares Filho Filósofo, Psicanalista, Teólogo, Psicopedagogo, Mestre e Doutor em Psicologia
  • 2. 2 Apresentação Temos o imenso prazer de apresentar aos alunos do 10º período do Curso de Psicologia Clínica da Faculdade Martha Falcão,o presente compêndio com recortes de textos, que se configuram como o ementário básico da disciplina Terapia Fenomenológica Existencial, que representa uma das ferramentas poderosa para a prática clínica psicoterápica, que de certo, alivia o sofrimento psíquico dos pacientes que convivem com as tensões psicossociais nas suas crises existenciais, desde a adolescência até a terceira idade. Autores como Rollo May, Abraham Maslow, Carl Rogers, Frederick Perls, Kiierkegaard, Russerl , Heidegger e Kurt Lewin entre outros, representam o que há de melhor nessa linha de pesquisa da Terapia Fenomenológica Existencial, cujas produções e saberes na área de Saúde Mental, muito contribui para a formação profissional dos alunos do Curso de Psicologia Clínica. Professor Doutor Thomé Eliziário Tavares Filho
  • 3. 3 SumárioCapítulos Assuntos Páginas Apresentação 1 Sumário 2 1 Terapia Existencial Humanista. 4 2 Fenomenologia Existencial 6 3 O Humanismo Existencial 9 4 A Psicologia Humanista 17 5 A Fenomenologia de Russerl 21 6 O Existencialismo de Martin Heidegger 25 7 O Existencialismo Moderno de Jean Paul Sartre 30 8 O Existencialismo de Soren Kiierkegaard 39 9 Gestalt na perspectiva Existencial 42 10 Gestalterapia de Frederick Persl 47 11 A Teoria do Campo de Kurt Lewin 57 12 A Psicologia da Consciência de William James 60 13 A Terapia Centrada no Cliente de Carl Rogers 70 14 A Psicologia da Motivação de Abraham Maslow 84 15 A Fenomenologia Psicanalítica de Alfred Adler 84 16 O Inconsciente Coletivo Carl Gustav Jung 89 17 O homem à procura de si mesmo, segundo Rollo May 96 18 A função dos Valores 110 19 Piaget e a Teoria do Desenvolvimento Moral 112 20 Erik Eriksson e o desenvolvimento Psicossocial 114 21 Considerações finais 116 22 Referências 117
  • 4. 4 Capítulo I TERAPIA EXISTENCIAL-HUMANISTA por Sergio M. de Miranda e Regina Sonia Rodrigues em 14/5/2008 Ao final da Segunda Guerra Mundial a Psicologia era dominada, nos E.U.A. pelo“behaviorismo” (conhecida como a “primeira força”) e, na Europa, pela psicanálise(conhecida como a “segunda força”). Contra a visão de um “homem doente” apresentadapela psicologia de então, surgiram uma série de vozes discordantes que buscavam novoscaminhos para a Psicologia, tendo como pontos essenciais: a) ênfase na experiência consciente; b) crença na globalidade do Ser Humano e em sua conduta; c) valorização do livre arbítrio, no poder criativo individual e na espontaneidade; d) abrangência global de todo os aspectos relevantes para o Ser Humano. Abraham. Maslow, Erich Fromm, Rollo May, Karen Horney, Gordon Allport, Angyal,Goldstein, Victor.Frankl, Carl R.Rogers, F. S. Perls e outros propõem uma visão alternativavalorizando as forças e virtudes positivas do homem. Em 1961 o novo movimento --conhecido como Psicologia Existencial–Humanista -- se formaliza com a fundação de umapublicação e, no ano seguinte, de uma Associação. Em menos de 10 anos, tornar-se-ia parteintegrante da Psicologia, conhecida como a “terceira força”. Afirmava Maslow que a Psicologia Humanista era “uma nova filosofia de vida, umanova concepção do homem”. Um ponto central na psicologia existencial-humanista é o respeito, a valorização do“homem em pessoa”, em contraste com como “homem em geral” valorizado por outrasabordagens (Nota 1). Essa ênfase sobre a pessoa humana, sobre o indivíduo em sua [SMM1] Comentário:totalidade e unicidade é uma característica central da Psicologia Existencial-Humanista [SMM2] Comentário:(Nota 2). Mais além do indivíduo, enfatiza a importância do relacionamento Eu-Tu no [SMM3] Comentário:crescimento da personalidade. [SMM4] Comentário: Matson (1975) destaca a importância de:  Abraham Maslow, considerado como o “pai espiritual” do movimento humanista;  Gordon Allport, o teórico da personalidade e herdeiro de William James;
  • 5. 5  Rollo May que introduziu a abordagem existencial na psicologia norte-americana;  Carl Rogers, com o “respeito incondicional” pelo cliente se assemelha a Paul Tillich;  Erich Fromm, que se mudou da psicanálise para a Filosofia Social;  Henry A Murray, mestre do humanismo;  Charlotte Bühler, que enfatizou a importância dos valores-metas no curso da vida humanaentre muitos outros.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  GREENING, T.C. (1975). Psicologia Existencial-humanista. Rio de Janeiro: Zahar.  MATSON, F. W. (1975). Teoria Humanista: a terceira revolução em Psicologia. IN Greening . Psicologia Existencial-humanista. Rio de Janeiro: Zahar. p.67-82
  • 6. 6 Capítulo II Fenomenologia Existencial Introdução. O Existencialismo difundiu-se como o pensamento mais radical a respeito do homem na época contemporânea. Surgiu em meados do século XIX com o pensador dinamarquês Kierkegaard ealcançou seu apogeu após a Segunda Grande Guerra, nos anos cinqüenta e sessenta,com Heidegger e Jean-Paul Sartre.A corrente existencialista assimilou ainda uma influência da fenomenologia cujafigura principal, Husserl, já citado, propõe a descrição dos fenômenos tais como elesparecem ser, sem nenhum pressuposto de como eles sejam na verdade. Para oexistencialismo, a fenomenologia de Husserl significou um interesse novo nofenômeno da consciência.Reunindo as sínteses do pensamento de cada um desses filósofos podemos listar ospostulados principais dessa corrente filosófica que são:1. A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias gerais sobre ohomem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo das vidas humanas, maisque com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, a experiênciainterior ou subjetiva - e aí está a influência da fenomenologia - é considerada maisimportante do que a verdade "objetiva", um fundamento igual à da filosofia oriental.2. O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objetos queo próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz em sua própriaexistência.3. O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está alémde nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato deele ser da maneira que é;4. A falta de sentido, a liberdade conseqüente da indeterminação, a ameaçapermanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e aodesespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedadehumana distintiva mais importante, da qual não pode fugirKierkegaard. O dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), encontra suaposição filosófica ao insurgir-se contra posições aristotélicas remanescentes nafilosofia, o que faz opondo-se à filosofia de Hegel (1770 - 1831). Kierkegaard não sórejeitou o determinismo lógico de Hegel (tudo está logicamente predeterminado paraacontecer) como sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhaslógicas ou ilógicas.Kierkegaard contribuiu com a idéia original do existencialismo de que não existequalquer predeterminação com respeito ao homem, e que esta indeterminação eliberdade levam o homem a uma permanente angústia.Segundo Kierkegaard, o homem tem diante de si várias opções possíveis, éinteiramente livre, não se conforma a um predeterminismo lógico, ao qual, segundoHegel, estão submetidos todos os fatos e também as ações humanas. A verdade não éencontrada através do raciocínio lógico, mas segundo a paixão que é colocada na
  • 7. 7afirmação e sustentação dos fatos: a verdade é subjetividade. A conseqüência de ser averdade subjetiva é que a liberdade torna-se ilimitada. Consequentemente não sepode, também, fazer qualquer afirmativa sobre o homem. O pensamento fundamentalde Kierkegaard, e que veio a se constituir em linha mestra do Existencialismo, é este:inexiste um projeto básico, para o homem verdadeiro, uma essência definidora dohomem porque cada um se define a si mesmo e assim é uma verdade para si. Daí omoto conhecido que sintetiza o pensamento existencialista: "no homem, a existênciaprecede a essência"No caminho da vida há várias direções, vários tipos de vida a escolher, dentro de trêsescolhas fundamentais: o modo de vida estético, do indivíduo que não busca senãogozar a vida em cada momento; o modo ético, do indivíduo que é maquinalmentecorreto com a família e devotado ao trabalho, e o modo religioso dentro de umaconsciência de fé.A liberdade, segundo ele, gera no homem a angústia que pode levá-lo, de váriasformas, ao desespero Então, cada decisão é um risco, o que deixa a pessoamergulhada na incerteza, pressionada por uma decisão que se torna angustiante.Como no modo de vida estético, ele escolhe fugir dessa angústia e do desesperoatravés do prazer e de buscar a inconsciência de quem ele é. Outra forma de fuga éignorar o próprio eu, tornar-se um autômato, apegar-se a um papel, como no modo devida ético.Heidegger. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) declarou-se uminvestigador da natureza do Ser. Heidegger contribuiu com seu pensamento sobre oser e a existência, de onde o nome dado à corrente filosófica de "Existencialismo".A angustia tem, no pensamento de Heidegger, origem diversa da liberdade. Para ele aangústia resulta da falta da precariedade da base da existência humana. A "existência"do homem é algo temporário, paira entre o seu nascimento e a morte que ele não podeevitar. Sua vida está entre o passado (em suas experiências) e o futuro, sobre o qualele não tem controle, e onde seu projeto será sempre incompleto diante da morteinevitável.Como uma filosofia do tempo, o existencialismo exorta o homem a existirinteiramente "aqui" e "agora", para aceitar sua intensa "realidade humana" domomento presente. O passado representa arquivos de experiências a serem usadas noserviço do presente, e o futuro não é outra coisa que visões e ilusões para dar ao nossopresente direção e propósito..Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, - existe -, em trêsfenômenos, três "existenciais" que caracterizam como as coisas do passado, dopresente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenômenosconstitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível. São aafetividade, com que se liga ao passado pelo seu julgamento; a fala, com que se ligaao presente, e o entendimento, que é a inteligência com que lida com o seu futuro,com a angústia de sua predestinação à morte. Não podemos nos submeter acondicionamentos de nosso passado; não podemos permitir que sentimentos,memórias, ou hábitos se imponham sobre nosso presente e determinem seu conteúdoe qualidade. Nós também não podemos permitir que a ansiedade sobre os eventosfuturos ocupem nosso presente, tirem sua espontaneidade e intensidade. Não podemospermitir que nosso "aqui e agora" seja liquidado
  • 8. 8Na angústia, o homem experimenta a finitude da sua existência humana. Todas ascoisas supérfluas em que estava mergulhado se afastam deixando-o a nú, como umaliberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um"estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Seinzum Tode). Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza dasestruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em quedesenvolve seus conflitos tornou-se sedutora para a psiquiatria.A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) enseja ohomem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.Sartre. Heidegger e Sartre foram os dois mais importantes filósofos da correnteexistencialista. Ambos foram profundamente influenciados pela filosofia de EdmundHusserl, a fenomenologia, e desenvolveram um método fenomenológico como basede suas respectivas posições filosóficas. Sartre contribuiu com mais pensamentossobre a liberdade e chefiou dentro do movimento uma corrente ateísta.Para Jean-Paul Sartre (1905-1980), a idéia central de todo pensamento existencialistaé que a existência precede a essência. Não existe nenhum Deus que tenha planejado ohomem e portanto não existe nenhuma natureza humana fixa a que o homem devarespeitar. O homem está totalmente livre é o único responsável pelo que faz de simesmo. E são para ele, assim como havia colocado Kierkegaard, esta liberdade eresponsabilidade é a fonte da angústia,Sartre leva o indeterminismo às suas mais radicais conseqüências. Porque não hánenhum Deus e portanto nenhum plano divino que determina o que deve acontecer,não há nenhum determinismo. O homem é livre. Não pode desculpar sua açãodizendo que está forçado por circunstâncias ou movido pela paixão ou determinadode alguma maneira a fazer o que ele faz.O pensamento de Sartre, contido em seus romances e peças de teatro e em escritosfilosóficos influenciou fortemente os intelectuais franceses, entre eles Gabriel Marcel,que desenvolveu sua filosofia no âmbito do catolicismo romano, tornando-se umexpoente do existencialismo cristão. Gabriel Marcel. Apesar do precursor doexistencialismo, Soren Kierkegaard, ser profundamente cristão, os principais filósofosque o desenvolveram e divulgaram, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, eram ateus,com uma filosofia materialista, bastante pessimista e atéia. Surgiu porém umacorrente existencialista cristã, sendo o principal filósofo dessa corrente o filósofoGabriel Marcel.A psicanálise e a terapia existencial. Ao definir causas de estados mentais como aangústia e o desespero, Kierkegaard criou um elo com a psicologia Este eloprevaleceria e se fortificaria no futuro, com as posições de Sartre e sua crítica àpsicanálise, com as posições de Gabriel Marcel e finalmente com a adesão a essasduas linhas, respectivamente, de psiquiatras ateus e psiquiatras cristãos. A partir dasidéias filosóficas existenciais, psicoterapeutas como Ronald David Laing, na correntematerialista de Sartre, e Viktor Emil Frankl, na corrente religiosa de Gabriel Marcel,propuseram práticas psicoterápicas originais.
  • 9. 9 Capítulo 3 O Humanismo Existencial 1 - O EXISTENCIALISMO COMO FILOSOFIA DA CRISE"A volatização progressiva da idéia de Deus e a divinização deformadora da idéia do Homemderam nesta visão falseada das coisas, responsável, no domínio profundo da inteligência, pelacrise da civilização contemporânea". Estas palavras lapidares, com que o Pe. Leonel Francasintetiza toda a etiologia da "Crise do Mundo Moderno"(1) são absolutamente válidas para aexplicação do Existencialismo como filosofia da crise, por que nascida sob o signo fatídico deduas profundas crises; a crise da pensamento filosófico ocidental e a crise da própriacivilização contemporânea.A primeira, que teve início em fins do século XIX, está representada pela Crise doRacionalismo. Este se impusera como concepção mecanicista ou logicista do Universo,expressa em soberbos sistemas filosóficos que, a partir de Descartes, dominaram o pensamentoocidental durante muitos anos. As Absolutização da Razão, que em Hegel identificaria oracional com real, haveria, entretanto, de ceder lugar a uma nova realidade cultural, marcadapela ausência do Absoluto e pela derrocada dos grandes sistemas filosóficos tradicionais. Aciência positiva, que preenche o espaço vazio deixado pela filosofia especulativa, negará ovigor causal da concepção mecanicista do Universo, já admitindo um certo grau deindeterminação nos fenômeno, cujo futuro comportamento apenas pode-se prever através demétodos estatísticos fundados na lei das probabilidades. Por outro lado, a rígida divisãodicotômicado pensamento filosófico entre idealismo e realismo mantenha o mistério daexistência humana "entre parênteses", o seu estudo a plano secundário. E o próprio homem édiversificado, pelas eliminação de seus aspectos subjetivos, em virtude de se lhe aplicarem osmétodos das ciências exatas. Isto evidenciava o que Husserl denominou de "Crise das CiênciasEuropéias".A crise das ciências, entretanto, era apenas projeção de uma crise maio: a crise da civilizaçãoocidental. Com efeito, o império da razão, que a Revolução Francesa julgara institucionalizadono "nouveau regime", cuja expressão mais altas era o culto da Humanidade e a crença numa erade justiça e progresso, cede lugar a uma realidade histórica estigmatizada pela guerra, no planointernacional, pela hipertrofia do poder estatal, pela radicalização do mundo no binômiodesenvolvimento-subdesenvolvimento e pelo conseqüente cepticismo do homem diante dosvalores tradicionais de nossa civilização cristã.Face à frustração causada pela disparidade entre as mistas expectativas e as desoladorasrealidades, só restariam ao homem um dilacerado sentimento de angustia, temor e desespero. Eassim, o "Nada tomava na transcendência o lugar deixado vago pela Razão e por Deus (2).Despojado, tão violentamente, da crença na razão e das artificiosas roupagens conceituais comque o pan-idealismo germânico lhe revestira o espírito, só restaria ao homem do século XXdobrar-se sobre si mesmo, imergindo na própria subjetividade e buscar na finitude da
  • 10. 10quotidiano aquele angustiado ponto de reflexão que lhe centraria o pensamento no mistérioda vida e da existência.É preciso voltar "sentimento da vida" dirá Dilthey é preciso voltar as coisas mesmas – "Zu denSachem Selbst" dirá Husserl; é preciso dissolver a tradicional dualidade epistemológica sujeito-objeto na unidade vivencial da correlação fenomenológica consciência – mundo. Deste modo,ao "sujeito puro" dos neo-kantianos, mais tarde hipostasiado na "Idéia absoluta" de Hegel,sobrepõe-se agora, o sujeito concreto, em sua dramática singularidade, historicamente engajadoe comprometido com problema da vida, do mundo, de seu próprio projeto existencial daprópria humanidade.A descoberta da existência, o estudo de seu caráter contigente e irracional constituirão adramática experiência filosófica que o homem deste século de crise rotulará com o nomesugestivo de "Existencialismo", para expressar e enfatizar o seu compromisso histórico commistério da vida e o "engagement" resultante da situação fática do seu "Ser no mundo". Estasituação, para todos os existencialistas, desde Kierkegard e Gabriel Marcel a heidegger e sartre,trará a marca inconfundível de um desespero e angústia existências, que os dois primeirosprocurarão superar com o sentimento da fé e do amor e os dois últimos com uma "ataraxia"digna dos estóicos, com que o homem aceita o determinismo heideggeriano de sua condiçãoteológica de um "ser-para-a-morte" (Sein-Zum-Tode).2 - CARATER GERAL DO EXISTENCIALISMOO existencialismo, enquanto filosofia da crise e por suas próprias origens Kierkegaardianas,deve ser historicamente entendido como um complexo de doutrinas eminentementeantirracionalistas ou, segundo Gabriel Marcel (3), como uma reação anti-hegeliana. Com efeito,desprezando o discurso especulativo da metafísica e o raciocínio frio das ciências positivas, oexistencialismo vai buscar na "intuição" de Bergson e na fenomenologia de Husserl o métodoou caminho que nos conduz "de retorno as coisas", à existência individual concreto, como algoprimordial, misterioso, irredutível e anterior à essência. Existência como símbolo de oficina ede arena onde o homem forja o seu projeto e trava a batalha quotidiana do seu próprio destino.Daí Jolivet conceituar o existencialismo como "o conjunto de doutrinas segundo as quais afilosofia tem como objetivo a analise e a descrição da existência concreto, considerada comoato de uma liberdade que se constitui afirmando-se e que tem unicamente como genese oufundamento esta afirmando de si".(4)2.1 - CARACTERÍSTICAS COMUNSEmbora diversas, as filosofias existencialistas temem comum as seguintes característicasfundamentais: o existência como objeto de investigação e de modelagem do projeto humano em permanente "devir"; o a vivência existencial, como fonte de angustia e fundamento de uma antropologia filosófica que, para os existencialistas cristãos, aponta o caminho da intersubjetividade (comunhão com os homens) e da transcendência (comunhão com Deus) e, para os existencialistas ateus, conduz à morte, à náusea, ao nada; o o homem como liberdade e subjetividade enquanto artífice de seu próprio projeto existencial, como realidade aberta aos outros e ao mundo; o finalmente, a dissolução do dualismo sujeito-objeto inerente à teoria clássica do conhecimento, na unidade interior de uma vivência que se exprime no amor ou
  • 11. 11 na angustia, considerada esta como consciência da finitude do homem, da sua gratuidade existencial e do seu ser para a morte. o3 - O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO3.1 - Sumário do Humanismo Sartreano3.1.1 - As Críticas ao Humanismo de SartreSartre opõe-se às críticas que lhe fazem cristãos e marxistas, ao acusarem-no de: o isolar o homem trancando-o numa subjetividade egoístas e burguesa; o incitar o homem ao quietismo num mundo absurdo totalmente desprovido de sentido; o acentuar o lado sórdido da existência humana; o libertar o homem de quaisquer condicionamentos morais, pela eliminação de Deus que é a fonte de todas os valores.A Resposta de Sartre como Definição de um humanismo Existencialista: o à critica do isolacionismo, Sartre responde com a tese da solidariedade universal, pela universalidade da condição humana, que define os limites "a priori" de sua situação no mundo, e pela universalidade do projeto humano pelo qual, ao se escolher, o homem escolhe a própria humanidade; o à critica do quietismo, Sartre responde com a afirmativa de que só há realidade na ação e de que o homem é projeto em permanente "devir", projeto que se vive subjetivamente mas que se supera a si próprio, na perseguição incessante de fins transcedentes; o à crítica de pessimismo, por ressaltar o lado sórdido da vida, responde ele com a tese da "dureza otimista" e que consiste em responsabilizar o homem pelo que ele é, como soma de todos os seus atos, concluindo que "não há doutrina mais otimista visto que o destino do homem está em suas mãos".(5) o à crítica de que "sem Deus o homem está livre para ser o que quiser", responde Sartre com o princípio moral kantiano, segundo o qual deve o homem agir de modo que possa a humanidade se regular pelos seus atos; e, assim, Sartre atribui ao homem a condição de um legislador sobre um mundo moral que é absolutamente seu e onde não existem "sinais" que lhe orientem a opção.4 - O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO (Desenvolvimento do tema)4.1 - Ontologia Fenomenológica e AteísmoO humanismo existencialista de Sartre desenvolve-se sobre as diretrizes teóricas de umaontologia fenomenológica de uma teologia atéia. As metafísicas tradicionais opuseram o ser àsaparências, as essências, ao fenômeno. Com Husserl, esta dualidade se dissolve na unidade deuma ontologia fenomenológica cujo objeto, o ser, se dá no fenômeno e o fenômeno, comoúnica realidade existente, está lastreado de pensamento, de "logos", de "intentio" no sentidobrentaniano.Partindo deste princípio, Sartre distingue no fenômeno o "ente en soi", o ser do mundomaterial, absolutamente idêntico a si, sem potência, porque "tout este en acte" (6). O enteentretanto é absurdo, pois não tem em si nem fora de si a sua razão de ser.
  • 12. 12Neste mundo material do "ensoi", hermético em si, sem liberdade, existe o "etre pour-soi", oser especificamente humano. Ele, o homem, que é consciência de si para-si, constitui o objetodo humanismo existencialista, como ser cuja existência precede à essência, como projeto que seescolhe a si próprio e se realiza num "devir" de criadora auto-superação.Diz Bochenski (7) que o pensamento de Sartre gira em torna de problemas teológicos, emboraem sentido ateu. E o próprio Sartre o confirma, quando declara que "o existencialismo não ésenão um esforço para tirar todas as conseqüências duma posição atéia coerente"(8). E essededutivismo lógico de um ateísmo apriorístico constitui a base do humanismo sartreano. Já emsua obra "Le Diable et le Bom Dieu" dissera Sartre: "se Deus existe, o homem é nada; se ohomem existe ... Deus não existe". Esta irredutibilidade entre o homem e Deus explica ametafísica do absurdo, em que se fundamenta o humanismo existencialista. Evidentemente,"senão há um ser necessário para explicar a existência, a contingência é o absurdo; tudo égratuidade perfeita, tudo é demais e o homem, o próprio homem, nasce sem razão, subsiste porfraqueza e morre por acaso"(9) diz Sartre. E nisto reside a origem da "náusea" do abandono edo desespero.4.2 A Existência Precede a Essência"Se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência; um ser queexiste antes de poder ser definido por qualquer conceito. E que este ser é o homem como dizHeidegger, a realidade humana" (10). Essa prioridade da existência sobre a essência tem suaexplicação na ontologia fenomenológica de Sartre. Evidentemente, se as essências são aracionalidade imanente do ser, enquanto sentido "a priori" que o dinamismo do espírito atribuiao mundo fenomênico, elas só existem na e para a consciência, o "pour soi". Sendo assim, aessência humana para anteceder à sua existência, necessitaria de um "Pour-soi" absoluto que apensasse. Daí afirmar que "não há natureza humana visto não haver Deus para a conceber". "OHomem primeiramente existe se descobre, surge no mundo e só depois se define".(11)4.3 O Projeto Humano e o Caráter Universal da EscolhaO homem, como o concebe Sartre, primeiramente não é nada, porque não é definível ouconcebível "a priori". A realidade primeira é a sua existência, seu ser-no-mundo, situação fáticaque ele descobre e assume conscientemente. Só depois então é que se definirá, através de umprojeto humano, concedido em sua subjetividade individual, projeto cuja realização plasmará otipo de homem que ele livremente escolher e se propõe ser.O projeto humano, entretanto, não se contém nos limites da subjetividade. "O homem estáconstantemente fora de si mesmo... projetando-se para fora de si... perseguindo finstranscedentes", diz Sartre (12). Mas "como não há outro universo senão o universo humano", oprojeto existencial que formulamos para nós transcende os limites da subjetividade e adquire ocaráter de uma escolha universal por nos compromissar e responsabilizar com a própriahumanidade. É que "ao escolher-se a si próprio o homem escolhe todos os homens", (13) poisele pre escolhe o melhor que também o é para toda a humanidade isto Sartre denomina "ocaráter absoluto do compromisso qual cada homem se realiza, realizando um tipo dehumanidade. Tal fato implica numa responsabilidade muito grande para o mem porque eleenvolve toda a humanidade.4.4 Angústia e Responsabilidade na Liberdade Moral da EscolhaAqui também, o ateísmo desempenha papel importante comonpedra angular do humanismoexistencialista de Sartre. "Se não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposiçõesque nos legitimem o comportamento" (14). Se, entretanto não há uma moral ou valores
  • 13. 13apriorísticos porque "não há consciência divina infinita e perfeita para pensá-los, e estamossós, sem justificativas para os nosso atos, porque, sinais" (15) que o balisem existencialmente eorientem. Estamos condenados a ser livres. Daí concluir Sartre que "o homem está condenado acada instante a inventar o próprio homem". (16)Nestas condições, o homem se sente esmagar sob o da responsabilidade de uma escolha feitasob condições de luto desamparo e abandono, o que o leva ao desespero.4.5 A Moral Existencialista e os demais Valores"Se suprimi o Deus Pai, é bem necessário que alguém invente os valores", diz Sartre (17). Einventar os valores significa para ele dar à vida, que não tem sentido "a priori",o humanismoclássico, que torna o homem como fim e valor superior pelo seu humanismo existencialista, emcada um se escolhe livremente sem se referir a valores. Esta escolha, porém, não é gratuita,pois a escolha moral para ele se assemelhe à constatação de uma obra de arte, a qual não seinspira em regras estabelecidas "a priori".O projeto humano traz portanto a marca essencial da liberdade, pois o homem se fazescolhendo a sua moral. Como, porém, esta escolha define um tipo de projeto que é válido paratodos os homens e épocas, eu devo agir segundo o axioma da moral kantiana, que eleva osmeus atos à condição de paradigma de ação para toda a humanidade.A liberdade moral da escolha rejeita qualquer idéia de determinismo, pois não existe umanatureza interior ao homem nem valores fora dele para preestabelecer rumos necessários àação. Assim, ninguém nasce covarde ou herói, diz Sartre, (18) mas cada um se faz conforme sualivre opção, tornando-se responsável pelo que é. Esta liberdade e reponsabilidade moral deopção caracteriza o que Sartre chama de "dureza otimista", a qual repugna aos que se refugiamna "má fé" de um pseudo-determinismo, dissimulando a autenticidade do livre compromisso.(19)4.6 O "Cogito" como Via para a IntersubjetividadeTemos de partir do "cogito" ou subjetividade, diz Sartre, por ser ele o único meio de atingirmosa verdade e salvar o homem como sujeito, evitando torná-lo objetivo.Pelo "cogito", atingimo-nos a nós próprios e aos outros que se nos apresentam como condiçãode nossa existência, "como uma liberdade posta em face de mim"(20). Descobrimos, assim, omundo da intersubjetividade.Não temos com os "outros" uma comunidade de natureza humana, uma essêncial universal,mas temos uma "universalidade de condição", que se define pelos limites "a priori" quecaracterizam a nossa situação fundamental no universo: e todo projeto humano, sem prejuízode sua individualidade, tem um valor universal porqur persegue objetivos relacionados com asuperação ou eliminação desses limites. Daí por que, escolhendo-me, eu construo o universal erealizo o absoluto, através de um projeto universalmente válido porque inteligível a todos oshomens.5. CRÍTICA AO HUMANISMO EXISTENCIALISTA DE SARTREO existencialismo de Sartre traduz, na angústia e no desespero, a crua dramticidade de umacivilização em crise, que perdeu o sentido da transcedência e se abismou, conseqüentemente,na absurda gratuidade de sua própria finitude. Nesta filosofia, dirá Bochenski, "podemos ver aexpressão de um homem sem fé sem família, sem amigos e sem finalidade na vida" (21).
  • 14. 14Fiel às suas raízes kierkegaardianas, a filosofia existencial de Sartre expressa a revolta anti-intelectualista do pensamento moderno contra aquela visão romântica e otimista do mundo comque a euforia racionalista do Renascimento plasmou o perfil ideológico da cultura ocidental.Como o Filósofo dinamarquês, Sartre vive o dram de sua finitude e do "nada que circunda a suacontigência". Falta-lhe, porém, o sentimento daquela fé abraâmica que, em Kierkegaard, éponte lançada sobre o abismo da existência, ligando o finito ao infinito, a subjetividade àTranscendência. Daí por que a angústia em Kierkegaard é caminho que eleva o homem a Deus,"par 1 ‘angoisse vers la hauteur" (22), e em Sartre é sentimento de abandono e solidão, em ummundo onde o homem assume a inteira responsabilidade de projetar e criar a sua própriaessência, sem valores "a priori" que lhe alisem e fundamentem a decisão.Paradoxalmente, o humanismo ateu de Sartre e sua própria ontologia estão centradas na idéiade Deus; não do seu Ser mas do seu não-ser. O nada-de-Deus é, assim, um postulado básico,apriorístico, necessário, universal, que fundamenta a absurdidade do ser, da existência, dasessências, do homem, dos valores, do absoluto.Parodiando Spinosa poder-se-ia dizer que Sartre desenvolve um filosofia atéia "moretheológico demonstrata". Seu pensamento desenvolve, paradoxalmente, princípios de umateologia atéia como base de uma ontologia fenomenista.Situando-se o ateísmo de Sartre no contexto de toda a sua filosofia existencial, conclui-se queele se reveste de três características essenciais: apriorismo, necessidade e universalidade.Quanto ao caráter apriorístico da negação de Deus, o próprio Sartre o confessa na seguintepassagem de sua obra "Sutuation": "O ateísmo de M. Naville não é a expressão de umaprogressiva descoberta, mas uma clara tomada de posição "a priori" perante um problema queexcede infinitamente a nossa experiência... Essa é a minha solução (23).Comentando o ateísmo apriorístico de Sartre, diz Romano Resek que "a recusa de Deus (que,para Sartre, poderia dispensar argumentos...) satura e orienta toda a sua obra, na qual ele tentaprovar a possibilidade de suprimir Deus e até construir sobre essa ausência um sistema coerentedo homem e do mundo"(24).Ocorre, porém, que uma tese, axioma ou princípio apriorístico nada provam, pois, "gratisaffirmatur gratis Negatur".Como explicar-se, porém, o caráter apriorístico do ateísmo sartreano? Certamente como um"estado de alma", segundo Merleau Ponty. Como uma irrupção subjetiva de traumas ligados auma infância religiosamente neutra, a uma educação deformadora de Deus: "eu precisava deum Criador, davam-me um Grande Patrão", declarava Sartre em seu artigo "Gide Vivant".(1951)No caso, o ateísmo de Sartre adquire o caráter de um "determinismo psicológico", pelo que setorna patologicamente necessário. A esta necessidade empresta ele características metafísicasque fundamentam a sua ontologia e a sua antropologia filosófica. Ontologicamente, "o ser ésem razão, sem causa e sem necessidade", declara Sartre em "L’être et Le Neant" (25). Masporque o ser é sem razão e sem causa? Porque necessitaria de uma essência preexistente, o euimplicaria na necesidade de um "Artífice" para lhe conceber tal essência, explica ele com oexemplo do corta-papel, "cuja essência – quer dizer o conjunto de receitas e características quepermitem produzí-lo e defini-lo precede a existência". E porque não se admitir esse Artífice,em cuja mente preexistiriam as idéias de tudo como arquétipos eternos segundo a belaconcepção augutiniana da criação?
  • 15. 15A resposta nós a temos na explicação antropológica de Sartre para a não existência de Deus– "Se Deus existe, o homem é nada, se o homem existe, Deus não é ..." (Le Diable et lebonDieux). Para ele é, portanto, humanamente necessário que Deus não exista. Cumpre destruí-lo,para que de suas cinzas possa nascer ou renascer a figura apolínea do homem sartreano, herói esemi-deus que se basta a si próprio, que projeta e cria a sua própria essência. Tal concepçãoconfigura um humanismo anti-humano, pois o homem, na ânsia de ser um Deus impossível um"etre-en-soi-pour-soi", termina sendo um nada, "uma paixão inútil" segundo o próprio Sartre.O ateísmo de Sartre reveste-se, também, de um caráter universal, pela amplitude de suasdeduções, pois ele próprio é quem declara que "O existencialismo não é senão um esforço paratirar todas as conseqüências duma posição atéia coerente". (26) Ocorre, porém, que sendoincoerente o seu ateísmo, porque apriorístico, incoerentes também o são as suas conseqüências.Em primeiro plano, avulta a incoerência de uma Ontologia fenomenista, pois reduz o ser dofenômeno a um fenômeno de ser, o que representa nada. Daí Jacques Maritain dizer que oequívoco original e irrmediável de Sartre está em ter ele permanecido no âmago dafenomenologia, pretendendo alcançar aí o ser, pois, "pelo simples fato que a fenomenologiacoloca o real extramental entre parêntesis, exclui a ontologia"(27).Outra é a incoerência da "universalidade da condição humana" sem a universalidade de umanatureza humana que lhe sirva de suporte metafísico. Sem esta natureza, a sua tese da"solidariedade universal"cai por terra ante a evidência de um isolacionismo hermeticamenteenclausurado na subjetividade do "cogito" cartesiano. Mesmo porque fora deste "cogitocartesiano todos os objetos são apenas prováveis e uma doutrina de possibilidade que não estáligada a uma verdade desfaz-se no nada"(28). Por outro lado, não aproveita a tese dauniversalidade individual centrada na idéia de que a nossa escolha envolve toda humanidade,por sempre escolhermos o que é bom para todos. Na verdade, se o valor da escolha está emescolher livremente, "só nos resta guiar-nos pelo instinto", pois não existem sinais que nosbalizem os atos e "nenhuma moral geral pode indicarmos o que fazer" (29) a nossa escolha seráabsolutamente individual como projeto, não podendo, por isso mesmo, sob pena de incoerentecontrasenso, adquirir o caráter universal que Sartre lhe empresta.Esta conclusão que vimos de fazer é premissa que nos conduz à conclusão de outra incoerênciado humanismo sartreano. Trata-se de sua moral de ação por ele concebida segundo o orgulhosoestilo da moral kantiana: "Tudo se passa como se, para todo homem, toda a humanidade tivesseos olhos postos no que ele faz e se regulasse pelo que ele faz" (30). Pura falácia, pois, para malde seus pecados, o próprio Sartre decalra que "estamos sós e sem desculpas", sofrendo em cadadecisão uma angústia, pois se Deus não existe, não encontramos diante de nós valores que noslegitimem o comportamento. E, assim, "fica o homem abandonado, já que não encontra em sinem fora de si uma possibilidade a que se apegue" (31).Vemos, aqui, ruir por terra a decantada moral sartreana, constituindo, assim, uma absurdaincoerência a sua afirmativa de que "só há esperança na ação". Que esperança? Esperança naangústia e no abandono é desespero.Para sair deste dilema em que o envolveu uma absurda moral de ação "ex-nihilo", porque semmotivações "a priori", Sartre formula, com inegável habilidade, a sua doutrina da liberdade: ohomem é absolutamente livre porque sua ação se desenvolve sem condicionamentos externosnem internos. Tratando-se de uma liberdade sem "antes" (motivação) nem "depois"(finalidade), ela passa a ser um fim supremo em si, pois justifica a ação pela ação. E assimpensa ele ter respondido à crítica de pessimista, que lhe fazem, declarando que "não há doutrinamais otimista visto que o destino do homem está em suas mãos" (32).
  • 16. 16É o "duro otimismo" do existencialista que assume a responsabilidade dos atos em queprojeta a sua essência. "Duro otimismo", concordamos nós, pois toda ação sem motivação éabsurda, como absurda e anti-humana é a liberdade quando a escolha em que ela se realiza temo caráter determinista de não poder ser evitada e a gratuidade de uma opção às cegas, porquesem critérios que a justifiquem. Finalmente, sobressai na antropologia filosófica de Sartre a suaabsurda concepção do homem como um ser que primeiramente é ou existe, surge no mundo,descobre-se, para depois escolher a sua essência, tentando realizá-la como um auto-projeto empermanente "devir". Tal concepção, porém, envolve uma radical contradição frente à filosofiaaristotélico-tomista, pois o ser que é (ser-existência) sem ser o (être-en-soi) da ontologiasartreana, um ser hermético em si mesmo, absolutamente idêntico a si, sem nenhumapotencialidade, porque "tout est en acte".Se, porém, o homem, na ordem ontológica do ser, apenas, é o que é, sem nenhuma outrapossibilidade, já é portanto tudo não podendo assim vir-a-ser. Neste caso, como pode um sercom tal estrutura ôntica projetar-se fora de si, buscar realizar uma essência que o transcende?Pela "subjetividade", responde Sartre cartesianamente, opondo ao mundo rígido e imóvel do"en soi" o mundo interior do "pour soi", onde se situa e se realiza existencialmente o serespecificamente humano, como consciência e liberdade cuja essência consiste no escolher otipo de homem que cada um tiver projetado ser.Embora Sartre não chegue a tanto, o homem existencialista que ele concebe tem, como vemos,a paradoxal e ambígua situação de um ser ao mesmo tempo heracliano e parmenidiano.Heracliano como "pour soi" – consciência e liberdade que se realizam na ação, no projetar-sefora de si, na vertiginosa perseguição de fins transcendentais. Parmenidiano pela condiçãofátida de sua primeira e original maneira de ser no mundo, absolutamente idêntico a qualqueroutro "en soi", cuja ausência de potencialidade o equipara ao "Ato Puro" aristotélico-tomista(Deus). Isto implica envolver o homem e tudo o mais numa percepção monista do Universo,onde a pluralidade dos seres se reduz à unidade ontológica de ser-em-si. Este seránecessariamente uno, porque tem como única determinação o existir e absolutamente imóvel,porque sem potência.Ser e não-ser, eis o homem existencialista de Sartre. Um nada de essência que projeta aessência de nada, porque "ex nihilo".Na vã tentativa de explicar estes aspectos contraditórios de sua ontologia, Sartre inspira-se maisuma vez na sua teologia atéia, declarando que o homem quer converter-se num em-si que sejaseu próprio fundamento, "causa sui", e, portanto, um "em-si-para-si". O homem qeur tornar-seDeus; mas como Deus é impossível, pois um em-si-para-si é uma contradição, "o homem éuma paixão inútil".Se Sartre houvesse sido fiel ao método fenomenológico de Husserl, ao postulado básico de queo fenômeno está lastrado de pensamento, de "logos" como se infere da própria etimologia dotermo (fenômeno+logia), teria ele certamene transcendido o mundo das aparências sensíveis eintuído, no cerne do fenômeno, o "Logos" Universal e Único, o próprio "Vebum Dei" que dásentido causal às coisas humanas. E, assim, ao invés de reeditar o mitológico Prometeu, napessoa do homem acorrentado a um mundo e destino absurdos, teria ele encontrado Cristo, alfae ômega da História, em cuja pessoa Deus se huamnizou para divinizar o homem.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS(1) FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. 4ª ed. Agir, p. 141.(2) JOLIVET, Régis. A Doutrina Existencialista. 1961, Livraria Tavares Martins, Porto, p.21.
  • 17. 17(3) RESEK, Romani. Deus ou Nada. Ed. Paulistas, 1975, p.147.(4) JOLIVET, Régis. Op. cit. p.27.(5) SARTRE, J. P. O Existencialismo é um Humanismo. Apud. Os Pensadores. Vol. XLV, Abril Cultural. p.09 a 28.(6) BOCHENSKI. A Filosofia Contemporânea Ocidental. EDUSP, 2ª ed., 1975.(7) BOCHENSKI. Op. cit. p. 165 e 166.(8) SARTRE, J. P. Op. cit. p. 09 a 28.(9) RESEK, Romani. Op. cit. p. 149.(10) SARTRE, J. P. Op. cit. p. 09 a 28.(20) Ibidem, p. 09 a 28.(21) BOCHENSKI. Op. cit. p. 165 e 166.(22) WAHL, Jean. Etudes Kierkegaardiennes. Librairie Philosophique J. Vrin, Deuxieme Editair, 1949, p.210.(23) RESEK, Romani. Op. cit. p. 168.(24) Ibidem, p. 169.(25) Ibidem, p. 188.(26) SARTRE, J. P. Op. cit. p. 09 a 28.(27) MARITAIN, Jacques. A Filosofia Moral. Agir, 1973, p. 210.(28) SARTRE, J. P. Op. cit. p. 09 a 28.(29) Ibidem, p. 09 a 28.(30) Ibidem, p. 09 a 28.(31) Ibidem, p. 09 a 28.(32) Ibidem, p. 09 a 28.BIBLIOGRAFIA CONSULTADABOCHENSKI. A Filosofia Contemporânea Ocidental. EDUSP, 2ª ed., 1975.FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. 4ª ed., Agir.JOLIVET, Régis. A Doutrina Existencialista. Livraria Tavares Martins, Porto, 1961.MARITAIN, Jacques. A Filosofia Moral. Agir, 1973.RESEK, Romani. Deus ou Nada. Ed. Paulistas, 1975.SARTRE, J. P. O Existencialismo é um Humanismo. Apud. Os Pensadores. Vol. XLV, Abril Cultural.WAHL, Jean. Etudes Kierkegaardiennes. Librairie Philosophique J. Vrin, Deuxieme Editair, 1949. Capítulo IV PSICOLOGIA HUMANISTA Apontamentos sobre Psicologia Humanista Profª. Teresa Cristina Barbo Siqueira1A Psicologia Humanista fundamenta-se nos pressupostos da Fenomenologia e FilosofiaExistencial; é centrada na pessoa e não no comportamento, enfatiza a condição de liberdadecontra a pretensão determinista. Visa à compreensão e o bem-estar da pessoa não o controle.Segundo esta concepção, a psicologia não seria a ciência do comportamento, seria a ciência dapessoa.Caracteriza-se também, por uma contínua crença nas responsabilidades do indivíduo e na suacapacidade de prever que passos o levarão a um confronto mais decisivo com sua realidade.Segundo esta teoria, o indivíduo é o único que tem potencialidade de saber a totalidade da1 Roteiro para estudo: Alguns apontamentos sobre o Humanismo.
  • 18. 18dinâmica de seu comportamento e das suas percepções da realidade e de descobrircomportamentos mais apropriados para si.Os principais constituintes deste movimento são: Carl Rogers (1902-1985) e Abraham Maslow(1908-1970).Um ponto fundamental da teoria de Rogers, é que as pessoas se definem por sua experiência.Segundo Rogers "todo indivíduo vive num mundo de experiência no qual é o centro. Estemundo particular é denominado de campo fenomenal ou campo experiencial que contém tudoque passa no organismo em qualquer momento, e que está potencialmente disponível àconsciência. Esse mundo inclui eventos, percepções, sensações e impactos dos quais a pessoanão toma consciência, mas poderia tomar se focalizasse a atenção nesses estímulos. É ummundo particular e pessoal que pode ou não corresponder à realidade objetiva".Segundo esta concepção, a atenção que o indivíduo focaliza em um certo evento é determinadapelo modo como cada um percebe o seu mundo, não na realidade comum. Deste modo, oindivíduo não reage a uma realidade absoluta, mas a uma percepção pessoal dessa realidade.Essa percepção é para cada um sua realidade. Partindo-se deste pressuposto, cada percepção éessencialmente uma hipótese - uma hipótese relativa à necessidade do indivíduo.Segundo Rogers, pelo fato de o organismo ser sempre um sistema total organizado em que, aalteração de qualquer das partes provoca uma alteração nas outras partes, reage ao seu campofenomenal como um todo organizado.O mesmo autor afirma que, há um aspecto básico da natureza humana que leva um indivíduoem direção a uma maior congruência e a um funcionamento realista.Segundo este, "o impulso evidente em toda a vida humana e orgânica, o impulso de expandir-se, estender-se, tornar-se autônomo, desenvolver-se, amadurecer-se, a tendência a expressar eativar todas as capacidades do organismo na medida em que tal ativação valoriza o organismoou o self". Sendo assim, cada indivíduo possui este impulso inerente em direção a sercompetente e capaz quanto está apto biologicamente.O comportamento de uma pessoa será voltado para a manutenção, a intensificação e areprodução do eu em direção à autonomia, oposto ao controle externo por forças externas. Issose aplica quer o estímulo venha de dentro ou de fora, quer seja o meio ambiente favorável oudesfavorável.A tendência para a realização plena das potencialidades individuais é expressa nos indivíduosatravés de uma variada gama de comportamentos, em resposta a uma gama variada denecessidades. A tendência do organismo, num momento, pode levar à procura de alimento ougratificação sexual. No entanto, a menos que essas necessidades sejam demasiadamente fortes,sua satisfação será procurada segundo uma forma que intensifique, e que, não diminua anecessidade de auto-estima, por exemplo. Outras atividades tais como, as necessidades deexplorar, produzir e a necessidade brincar, por exemplo, são basicamente motivadas, segundoeste pressuposto, pela tendência à realização.A conduta segundo Rogers, seria fundamentalmente um esforço dirigido à consecução de umobjetivo do organismo, para satisfazer as suas necessidades. A reação, o comportamento, não sedá em face da realidade mas, da percepção da realidade que o indivíduo possui.Consequentemente, a conduta não seria então causada por algo que aconteceu no passado,como postulado pela psicanálise mas, causada pelas tensões e necessidades presentes que oorganismo se esforça por reduzir ou satisfazer. Embora a experiência passada contribua para
  • 19. 19modificar o sentido que será dado as experiências atuais, só há conduta para enfrentar umanecessidade presente. A conduta é sempre intencional e em resposta à realidade tal como éaprendida. A melhor forma então para compreendê-la, é a partir do quadro de referência internado próprio indivíduo.Para Rogers, a estrutura do eu é formada como resultado da interação do indivíduo com oambiente e, de modo particular, como resultado da interação valorativa com os outros. Assim, oego é um modelo conceitual organizado, constituído de percepções, de características erelações do eu, juntamente com valores ligados a esses conceitos.O eu está dentro do campo da experiência, não sendo apenas uma mera acumulação denumerosas aprendizagens e condicionamentos. É uma configuração organizada de percepçõesque são acessíveis à consciência, formada por elementos tais como as percepções dascaracterísticas e capacidades próprias; os conteúdos perceptivos e os conceitos de si em relaçãocom os outros e com o ambiente. Basicamente é um conjunto de significações vividas sendosuscetível de mudar sensivelmente em consequência das mudanças ocorridas em seu meio. Emsíntese, é um conjunto organizado e consistente de experiências, num processo constante deformar-se e transformar-se à medida que as situações mudam.Os esquemas de autoconceito do indivíduo são estruturados à medida que o indivíduo começa avivenciar alguns eventos, incluindo tudo o que é experimentado por seu organismo,conscientemente ou não. Em decorrência a tudo o que está acontecendo em seu meio, oindivíduo começa gradativamente, a tornar-se atento às experiências que ele discrimina comosendo o eu. Pouco a pouco, forma-se um conjunto de conceitos organizados e coerentes,chamados de valores.Para Rogers, alguns fenômenos são ignorados e tidos como isentos de significado para apessoa. Outros fenômenos são percebidos conscientemente e organizados em sua estrutura.Alguns parecem impor-se a percepção consciente, outros fenômenos são negados oudistorcidos porque ameaçam a percepção organizada do eu.Em síntese, a teoria de Rogers afirma que, todo organismo tem uma tendência inerente enatural a auto-realização, sendo expressa nos seres humanos numa variada gama decomportamentos em resposta a uma variada gama de necessidades. Esta tendência doorganismo num momento pode levar à procura de alimento e gratificação sexual, em outro àprocura de status.Outro expoente do pensamento humanista foi Abraham Maslow. Maslow era psicólogo e foiconsiderado um dos fundadores da psicologia humanista. Durante toda a sua carreirainteressou-se profundamente pelo estudo do crescimento e desenvolvimento pessoais, e pelouso da psicologia como um instrumento de promoção do bem estar social e psicológico.O fato de ser considerado Humanista lhe desagradava, ao ponto de afirmar: "Nós nãodeveríamos ter que dizer Psicologia Humanista. O adjetivo deveria ser desnecessário. Eu souautodotrinário.... Eu sou contra qualquer coisa que feche portas e corte possibilidades".Maslow começou por estudar a questão da auto-realização mais profundamente através daanálise das vidas, valores e atitudes das pessoas que considerava mais saudáveis e criativas.Começou por estudar aqueles que achava que eram mais auto realizados, os que haviamalcançado um nível de funcionamento melhor, mais eficiente e saudável do que o homem ou amulher comuns. Assim, suas primeiras investigações sobre auto-realização foram inicialmenteestimuladas por sua vontade de entender de uma forma mais completa os dois professores quemais o influenciaram, Ruth Benedickt e Max Wertheimer. Maslow não somente os considerava
  • 20. 20cientistas brilhantes e extraordinários, mas seres humanos profundamente realizados ecriativos. Assim, iniciou seu próprio estudo para procurar tentar descobrir o que os fazia tãoespeciais.Maslow definia a questão da auto-realização como " o uso e a exploração pleno de talentos,capacidades, potencialidades, etc. Eu penso no homem que se auto-atualiza não como umhomem comum a que alguma coisa foi acrescentada, mas sim como um homem comum dequem nada foi tirado. O homem comum é um ser humano completo com poderes e capacidadesamortecidos e inibidos".Em seu livro, The Farther Reaches of Humam Nature (1971), Maslow faz algumasconsiderações a respeito dos modos pelos quais os indivíduos se auto-realizam:  Auto-realização significa experienciar de modo pleno, intenso e desinteressado, com plena concentração e total absorção. Em geral estamos alheios ao que acontece dentro de nós e ao nosso redor.  Se pensarmos na vida como um processo de escolhas, então a auto-realização significa fazer de cada escolha uma opção para o crescimento. Escolher o crescimento é abrir-se para experiências novas e desafiadoras, mas arriscar o novo e o desconhecido.  Auto-realizar é aprender a sintonizar-se com sua própria natureza íntima. Isto significa decidir sozinho se gosta de determinadas coisas, independente das idéias e opiniões dos outros.  A honestidade e o assumir responsabilidade de seus próprios atos são elementos essenciais na auto-realização.  Ao invés de, dar respostas calculadas para agradar outra pessoa ou dar a impressão de sermos bons Maslow pensa que as respostas devem ser procuradas em nós mesmos.  Auto-realização é também um processo contínuo de desenvolvimento das próprias potencialidades. Isto significa usar suas habilidades e inteligência para trabalhar e fazer bem, aquilo que queremos fazer.  Um passo para além da auto-realização é reconhecer as próprias defesas e então trabalhar para abandoná-las. Precisamos nos tornar mais conscientes das maneiras pelas quais distorcemos nossa auto-imagem e a do mundo exterior através da repressão, projeção e outros mecanismos de defesa.Maslow acentua que o crescimento ocorre através do trabalho de auto-realização. Auto-realização representa um compromisso a longo prazo com o crescimento e o desenvolvimentomáximo das capacidades. O trabalho de auto-realização envolve a escolha de problemascriativos e valiosos. Maslow afirma que, indivíduos auto-realizados são atraídos por problemasmais desafiantes e intrigantes, por questões que exigem os maiores e mais criativos esforços.Estão dispostos a enfrentar a incerteza e a ambiguidade e preferem o desafio à soluções fáceis.Maslow afirma que, o crescimento psicológico ocorre em termos de satisfação bem sucedida denecessidades mais elevadas. As primeiras necessidades, as fisiológicas (fome, sono..),segurança (estabilidade, ordem) geralmente são preponderantes, isto é, elas devem sersatisfeitas antes que apareçam aquelas relacionadas posteriormente, como; necessidade de amore pertinência (família,amizade), necessidade de estima (auto-respeito, aprovação) e necessidadede auto-atualização (desenvolvimento de capacidades).Portanto, a busca de auto-realização não pode começar até que o indivíduo esteja livre dadominação de necessidades inferiores, tais como fisiológicas e segurança.
  • 21. 21O desajustamento psicológico é definido como doenças de carência, causadas pela privaçãode certas necessidades básicas, assim como a falta de vitaminas causa doenças. Outrasnecessidades, segundo Maslow, também devem ser satisfeitas para manter a saúde.Maslow afirma que, um exame acurado do comportamento animal ou humano revela outro tipode motivação. Quando um organismo não está com fome, dor e medo novas motivaçõesemergem, tais como curiosidade e alegria. Sob estas condições, as atividades podem serdesfrutadas como fins em si mesmas, nem sempre buscadas apenas como meio de gratificaçãode necessidades. A este tipo de motivação denomina motivação do ser, pois, refere-seprincipalmente ao prazer e a satisfação no presente ou ao desejo de procurar uma metaconsiderada positiva. Por outro lado, a motivação de deficiência inclui uma necessidade demudar o estado da coisa atual porque este é sentido como insatisfatório ou frustrador.Maslow define o self como essência interior da pessoa ou sua natureza, inerente a seus própriosgostos, valores e objetivos. Compreender a própria natureza interna e agir de acordo com ela éessencial para atualizar o self.Maslow aborda a compreensão do self através do estudo daqueles indivíduos que estão emmaior harmonia com suas próprias naturezas, daqueles que fornecem os melhores exemplos deautoexpressão ou autoatualização.Em síntese, o trabalho de Maslow, ofereceu uma contribuição considerável tanto prática quantoteórica para os fundamentos de uma alternativa para o Behaviorismo e a Psicanálise, correntesestas que segundo ele, tendem a ignorar e ou deixar de explicar a criatividade, o amor, oaltruísmo e os outros grandes feitos culturais, sociais e individuais da natureza humana. Capítulo V A Fenomenologia de Edmund Russerl VIDA. Edmund Husserl, filósofo alemão fundador da Fenomenologia, um método para a descrição e análise da consciência através do qual a filosofia tenta alcançar uma condição estritamente científica. Nasceu a 8 de abril de 1859 em Prossnitz, Moravia, no então Império Austríaco, hoje Prostejov, na República Checa, e faleceu em 27 de abril a 1938 em Freiburg im Breisgau, na Alemanha. De origem judaica, completou os primeiros estudos em um ginásio público alemão, na cidade próxima, Olmütz (Olomouc), em 1876. Em seguida estudou física, matemática, astronomia e filosofia nas universidades de Leipzig, Berlim, e Vienna. Nesta última passou sua tese de doutorado em filosofia em 1882, com o tema Beiträge zur Theorie der Variationsrechnung ("Contribuição para a Teoria do cálculo de variáveis"). No outono de 1883, Husserl seguiu para Vienna para estudar com o filósofo e psicólogo Franz Brentano. Em Viena Husserl converteu-se à fé evangélica luterana e, um ano depois, em 1887, casou com Malvine Steinschneider, a filha de um professor do ensino secundário de Prossnitz. Esposa energética e competente, ela foi um indispensável apoio para Husserl até a morte dele. Em 1886 Husserl, com uma recomendação de Brentano, procurou Carl Stumpf, o mais velho dos estudantes de Brentano, do qual se tornaria amigo íntimo, e que era professor de filosofia e psicologia na universidade de Halle. Nesta universidade Husserl passou o concurso para professor conferencista em 1887.
  • 22. 22O tema da tese de habilitação foi Über den Begriff der Zahl: Psychologische Analysen("Sobre o conceito de número: análise psicológica"), o que mostra sua transição dapesquisa matemática para uma reflexão sobre as bases psicológicas dos conceitosbásicos da matemática. A tese foi uma versão desenvolvida depois no seu Philosophieder Arithmetik: Psychologische und logische Untersuchungen, cujo primeiro volumeapareceu em 1891.O título de sua conferência inaugural em Hale, onde ensinou de 1887 a1901, foi Überdie Ziele und Aufgaben der Metaphysik ("Sobre os objetivos e problemas dametafísica"). O objeto tradicional da metafísica é o estudo do Ser. O texto se perdeu,mas é provável que nele Husserl já apresentasse seu método de análise da consciênciacomo o caminho para uma nova e universal filosofia e uma nova metafísica.Para ele a base filosófica para a lógica e a matemática precisa começar com umaanalise da experiência que está antes de todo pensamento formal. Isto obrigou-o a umintenso estudo dos empiristas ingleses John Locke, George Berkeley, David Hume, eJohn Stuart Mill, e familiarizar-se com a terminologia da lógica e semântica derivadadaquela tradição, especialmente a lógica de Mill.Essa integração de suas idéias com o pensamento empirista levou-o às concepçõesapresentadas em sua famosa obra Logische Untersuchungen (1900-01; "Investigaçõeslógicas"), onde apresentou o método de análise que chamou "fenomenologico".Após a publicação do Logische Untersuchungen, Husserl foi convidado a lecionar nauniversidade de Göttingen, onde permaneceu de 1901 a 1916.Em seu esforço de pesquisa, Husserl chegou a um extremo: anotava todos osmovimentos de seu pensamento. Durante sua vida produziu mais de 40.000 páginasestenografadas no método Gabelberger.Nos seus anos em Göttingen, Husserl rascunhou as linhas gerais da fenomenologiacomo uma ciência filosófica universal. Seu princípio metodológico fundamental era oque chamou "redução fenomenológica". Preocupava-se com a experiência básica daconsciência, não interpretada, e a questão do que é a essência das coisas, a "reducãoeidética".Por outro lado, é também a reflexão sobre as funções pelas quais as essências setornam conscientes. Sob esse aspecto, a redução revela o Eu para o qual todas ascoisas têm sentido. Assim, a fenomenologia assumiu o caráter de um novo estilo dafilosofia transcendental, o qual repetia e aperfeiçoava, em uma maneira moderna, amediação de Kant entre o empirismo e o racionalismo.Husserl apresentou seu programa e delineamento sistemático em Ideen zu einerreinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie (1913;Idéias;Introdução geral à fenomenologia pura"), obra cuja segunda parte não podecompletar devido a romper a Primeira Guerra Mundial. Husserl pretendia que essetrabalho fosse um manual de estudo para seus alunos, mas estes ficaram indiferentes.A maior parte deles considerou a virada de Husserl para a filosofia transcendentalcomo um passo atrás, uma volta ao velho sistema de pensamento e o rejeitaram.Devido a essa reviravolta e à guerra, o movimento fenomenológico se desfez.Sua posição junto aos colegas em Göttingen era sempre difícil. Sua nomeação paracatedrático em 1906 havia resultado de uma decisão do ministro da educação contra a
  • 23. 23vontade do corpo de professores.Assim, quando foi convidado em 1916 para catedrático na universidade de Freiburg,isto significou um novo começo para Husserl sob todos os aspectos. Sua aula inicialsobre Die reine Phänomenologie, ihr Forschungsgebiet und ihre Methode("Fenomenologia pura, sua área de pesquisa e seu método") definia seu programa detrabalho.Neste sentido ele havia lançado em suas aulas sobre Filosofia Primeira (1923-24) atese de que a Fenomenologia, com seu método de redução, é o caminho para aabsoluta justificação da vida, ou seja, para a realização da autonomia ética do homem.Com essa tese, ele continuou a elucidação da relação entre a análise psicológica e aanalise fenomenológica da consciência e sua pesquisa quanto ao embasamento dalógica, que ele publicou como Formale und transzendentale Logik: Versuch einerKritik der logischen Vernunft (1929; Lógica formal e transcendental).Reconhecimento vindo de fora não faltou. Em 1919 a Universidade de Bonn conferiu-lhe o título de Doutor honoris causa. Muitos visitantes estrangeiros compareciam aosseus seminários, entre eles Rudolf Carnap, figura de proa do Círculo de Vienna, ondenasceu o Positivismo lógico.Fez palestras na Universidade de Londres (1922), na universidade de Amsterdã e,mais tarde, em 1930, na Sorbone. Deixou de aceitar um convite da prestigiosauniversidade de Berlim a fim de poder dedicar todas as suas energias àFenomenologia. Estas palestras foram aproveitadas em uma nova apresentação daFenomenologia, que então apareceu com tradução francesa sob o título Méditationscartésiennes (1931).Quando ele aposentou em 1928, Martin Heidegger, que haveria de tornar-se umexpoente do existencialismo e um dos mais importantes filósofos alemães, foi seusucessor. Husserl o havia considerado seu herdeiro legítimo. Somente mais tarde viuque a principal obra de Heidegger, Sein und Zeit ("O ser e o tempo"), de 1927, haviadado à Fenomenologia uma reviravolta que a levaria para um caminho totalmentediferente. Seu desapontamento fez que seu relacionamento com Heidegger esfriassedepois de 1930.Com a chegada ao poder de Adolf Hitler em 1933 ele foi excluído da universidade.Porém recebia a visita de filósofos e intelectuais estrangeiros. Condenado ao silênciona Alemanha, ele recebe, na primavera de 1935, um convite para falar para aSociedade Cultural em Viena, onde discursou por duas horas e meia sobre DiePhilosophie in der Krisis der europäischen Menschheit ("A filosofia na crise dahumanidade européia ") palestra que repetiu dois depois. Desta conferência e deoutras que fez em Praga surgiu seu último trabalho Die Krisis der europäischenWissenschaften und die transzendentale Phänomenologie: Eine Einleitung in diephänomenologische Philosophie ("A crise da ciência européia e a fenomenologiatranscendental: uma abordagem da filosofia fenomenológica"), de 1936, da qualsomente a primeira parte veio a público em um periódico para emigrantes.Enfermo a partir de 1937, disse desejar morrer de modo digno de um filósofo "Eu vivicomo um filósofo - disse -, e eu quero morrer como um filósofo". Por não sercomprometido com nenhum credo em particular, ele respeitava toda crença religiosaautêntica.
  • 24. 24Seu conceito de auto-responsailidade filosófica absoluta ficava perto do conceitoprotestante da liberdade do homem em sua relação imediata com Deus. Na verdade, éevidente que Husserl caracterizava a manutenção da redução fenomenológica nãoapenas como um método mas também como uma espécie de conversão religiosa. Elemorreu em abril de 1938 e suas cinzas foram enterradas no cemitério em Günterstal,perto de Freiburg.FILOSOFIAHusserl achava que os filósofos estavam complicando a teoria do conhecimento, emlugar de considerarem com objetividade o fenômeno da consciência como éexperimentado pelo homem. O que importava, para ele, era o que se passava naexperiência de consciência, através de uma descrição precisa do fenômeno. Por issodeu o nome de "fenomenologia" à sua teoria que deveria ser uma ciência puramentedescritiva, para somente depois passar a uma teoria transcendental à experiência, oseja, para além do método cientifico.As teorias do conhecimento de Descartes e de Kant tinham um defeito insanável, emseu entender. Era o fato de faltar qualquer certeza de que o que aparece naconsciência correspondesse inteiramente ao real. O que havia era uma"pressuposição" de que aquilo que estava na consciência guardava relação de algumasorte com os objetos correspondentes do mundo exterior. A filosofia, a maisfundamental das ciências, devia ficar livre de suposições. Pensar o mundo somentepoderia ser feito depois de bem examinado como esse mundo é matéria no campo daconsciência. Em sua opinião não adiantava em nada discutir uma teoria doconhecimento sem esse primeiro passo, pois o que tinha existência verdadeira eassegurada eram os fatos da consciência. Husserl colocaria qualquer problemafilosófico tradicional entre aspas, para ser examinado somente após estar completa adescrição fenomenológica. A isto chamou criar uma "época" para a questão emexame.Chamou "redução transcendental" a esta redução da coisa aos detalhes da suaapreensão como fenômeno da consciência propriamente; significava retirá-la de umavisão teórica, transcendente, para tomar conhecimento dela de modo preciso eobjetivo, analítico, como simples experiência de consciência. No entanto, na primeirafase do desenvolvimento da sua doutrina, Husserl não partia daí para descrever o"Eu" ou o que a consciência era, mas sim para estudar as idéias, os vários tipos deidéias, como as cores, a superfície, etc.. A esse detalhamento das idéias que se juntamcom outras idéias para formar a essência de cada coisa, deu o nome de "reduçãoeidética" (idéia, imagem, forma). Com este procedimento queria chegar a umametodologia perfeita para a filosofia, de modo a garantir a certeza absoluta, e buscouestudar o que John Locke já havia escrito a respeito. Somente mais tarde, no que foiconsiderada uma reviravolta em seu pensamento, Husserl passou ao estudo do Eu, doque existe no Eu que lhe faculta o conhecimento, o que foi considerado um retrocessoà filosofia transcendental de Kant. (Clique aqui em Fenomenologia, por favor, paraencontrar um artigo nosso mais detalhado sobre o assunto.). Rubem Queiroz Cobra Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia
  • 25. 25 Capítulo VI O Existencialismo de Martin HeideggerIntrodução. Filósofo alemão que escreveu sua filosofia em linguagem altamente cifrada e,apesar de que o dizem dificilmente compreensível, é romanticamente cultuado por um grandenúmero de admiradores de fragmentos poéticos do seu pensamento sobre o Ser. No entanto, elepróprio desistiu de suas idéias, preferindo não publicar o segundo volume de sua obra principal,o "O Ser e o Tempo". Fervoroso adepto do nazismo antes da derrota da Alemanha na segundaguerra mundial, para muitos foi um pensador original, um crítico da sociedade tecnológica doséculo XX. De sua obra ficou a designação de "Existencialismo" para a corrente de pensamentoanti-determinista fundada por Kierkegaard e à qual se filiou. Foi um escritor prolífico: calcula-se que reunir tudo que escreveu daria uns 70 volumesPrimeiros anos e juventude. Martin Heidegger nasceu a 26 de setembro de 1889 emMesskirch, na Schwarzwald (Floresta Negra), Alemanha, e faleceu em 26 de maio de 1976, namesma Messkirch, então parte da Alemanha Ocidental. Seu pai foi um sacristão católico,incumbido das vestes e dos objetos sagrados, de tocar os sinos e também de cavar as sepulturasno interior do templo. Heidegger mostrou uma preocupação religiosa precoce e teve seuinteresse despertado para a filosofia ainda ao tempo de seus estudos básicos, através da leiturado filósofo católico do final do século XIX Franz Brentano. Impressionou-o a psicologia "descritiva ", , como é apresentada no Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nachAristoteles ("Dos vários significados do Ser de acordo com Aristóteles"-1862) de Brentano. Deseu estudo inicial de Brentano procede também seu entusiasmo pelos gregos, especialmente ospre-Socraticos. Após terminar os estudos básicos, Heidegger entrou para a ordem dos Jesuítas.Como noviço, estudou a Escolástica (filosofia cristã medieval) e a teologia tomista, nauniversidade de Freiburg.Por toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade que há um sentidobásico do verbo "ser" que jaz atrás de sua variedade de usos. Suas concepções quanto ao queexiste, é uma Ontologia (o estudo do que é, do que existe: a questão do Ser) dependente dosfilósofos antes de Sócrates, da filosofia de Platão e de Aristóteles, e dos Gnósticos. Foiinfluenciado ainda por diversos filósofos do século 19 e do início do século 20, principalmentepelo pensador católico dinamarquês Søren Kierkegaard e pelos filósofos alemães FriedrichNietzsche (1844-1900) e Wilhelm Dilthey (1833-1911, e pelo seu mestre e fundador dafenomenologia (o estudo do modo como as coisas se manifestam), Edmond Husserl (1859-1938).Quando ainda em seus 20, Heidegger estudou em Freiburg com o filósofo Heinrich Rickert(1863-1936), mais tarde fundador da escola de Baden do pensamento neo-kantiano, e comHusserl, que era então já famoso. A fenomenologia de Husserl, e especialmente sua luta contraa inclusão da psicologia nos estudos essenciais do homem -- que ele sentiu que devia, em vez,ser conduzido no nível filosófico -- determinou o substrato da dissertação doutoral do jovemHeidegger (1914). Consequentemente, o que Heidegger mais tarde disse e escreveu sobre aansiedade, pensamento, perdão, curiosidade, angústia, cuidado, ou medo com certeza não sereferia a psicologia; e o que ele disse sobre o homem, não pretendeu que fosse sociologia,antropologia, ou ciência política. Suas proposições objetivavam descobrir maneiras de ser.Heidegger começou a lecionar na universidade de Freiburg durante o semestre acadêmico doinverno de 1915 e ganhou sua habilitação com um estudo do filósofo franciscano escocêsfalecido na Alemanha John Duns Scotus (1266-1308).
  • 26. 26Maturidade. Moço ainda e agora um colega de Husserl, era de esperar que Heideggerlevasse o movimento fenomenológico mais longe dentro do espírito de seu antigo mestre.Entretanto, de grande vocação religiosa, ele preferiu seu próprio caminho, e em 1927surpreendeu o mundo filosófico alemão com Sein und Zeit ("O ser e o tempo", 1962) -- umtrabalho que, embora quase impossível de se ler, foi imediatamente considerado ser da maiorimportância. O livro foi aclamado como um trabalho profundo e importante não somente empaíses de língua germânica mas também nos países latinos, onde a fenomenologia era já bemconhecida mas a língua alemã nem tanto.Ele Influenciou fortemente Jean-Paul Sartre, na França e outros existencialistas, e, apesar dosprotestos de fé do próprio Heidegger, ele foi considerado, por força deste livro, como um líderdo existencialismo ateu. Entretanto, entre os intelectuais ingleses, mais avessos aos modismos,sua recepção foi um tanto fria, e sua influência foi insignificante por várias décadas.Heideger começou a lecionar na universidade de Freiburg durante o semestre acadêmico doinverno de 1915 e ganhou sua habilitação com um estudo do filósofo franciscano escocêsfalecido na Alemanha John Duns Scotus (1266-1308).Em "O ser e o tempo", o propósito declarado de Heidegger é trazer à luz o que significa serpara o homem, ou "como é ser". Pode se dizer que o aspecto messiânico da sua filosofia estáem levar cada homem a fazer essa pergunta com o máximo envolvimento. Na crise atual dahumanidade, já seria bastante que o homem se detivesse nesta reflexão; e ele eventualmentechegará ou não a qualquer resposta definitiva, torna-se de importância secundária. Sem estareflexão, o homem segue uma maneira não autêntica de ser, em uma alienação que odesenvolvimento tecnológico agrava cada vez mais.Na ocasião da publicação de "O ser e o tempo", Heidegger era professor "ordinarius" emMarburg onde lecionou por diversos anos (desde 1923). Renunciou esse lugar e, em 1928, eretornou a Freiburg, desta vez como o sucessor de Husserl. Seu discurso de posse na cátedra foiWas ist Metaphysik?("Que é Metafísica?"-1929) no qual elabora um de seus temas favoritos,das Nichts; isto é, o nada.Adesão ao Nazismo. No início dos anos 30 ocorreu uma reviravolta no pensamento deHeidegger, um giro afastando-o do problema do ser e do tempo. Isto foi negado por Heideggerele mesmo, que insistiu que ele toda a vida, desde sua juventude, fazendo aquela mesmapergunta fundamental, mas em seus últimos anos tornou-se claramente mais relutante em voltarao assunto e oferecer qualquer resposta ao problema básico do ser e do tempo.Aproximadamente na época dessa reviravolta ocorreu também sua adesão ao nazismo, curtadevido certamente apenas ao desenlace desfavorável da guerra, mas nem por isso umaparticipação menos eloqüente. Sua participação na política cultural do terceiro reich teve iníciomesmo antes que Adolf Hitler assumisse o poder em novembro 1933. Com o crescimento dopartido e sua penetração nos meios intelectuais, as universidades alemãs foram expostas apesadas pressões. Esperava-se que apoiassem a "revolução nacional" e eliminassem osintelectuais judeus e suas doutrinas (tais como a da relatividade). O reitor em Freiburg, umcientista anti-nazista, renunciou como protesto, e a equipe de professores elegeu unanimementeo engajado Heidegger como seu sucessor.Como Heidegger aprendeu com Husserl, é o método phenomenological e não o métodocientífico que revella os modos de ser do homem. Assim, ao seguir este método, Heidegger caiem conflito com a dicotomia da relação sujeito-objeto, que implicou tradicionalmente quehomem, como cognescente, é algo (some-thing) dentro de um ambiente que ele confronta. Estarelação, entretanto, deve ser transposta. O Saber mais profundo, ao contrário, é matéria do
  • 27. 27phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a palavra da qual phenomenologia, comoum método, é derivada. Algo está exatamente "lá" na luz. Assim, a distinção entre o sujeito e oobjeto não é imediata mas vem somente mais tarde com a conceitualização, como nas ciências.O discurso de posse de Heidegger na reitoria ("A auto-afirmação da universidade alemã") foiuma ampla afirmação de Nazismo. Para garantir, ele dividiu as tarefas dos estudantes emserviço do trabalho, serviço militar, e serviço científico. Porém, para seus admiradores,ansiosos por livra-lo tanto quanto possível de compromissos com a ideologia nazista,Heidegger estava apenas copiando a política educacional autoritária de Platão, e afinal, alegam,o discurso sequer terminou com um "Heil, Hitler!", mas com uma citação da república dePlatão: "todas as grandes coisas se expõem ao perigo".No entanto, em seu discurso Heidegger não mostra adesão última à filosofia nazista. No textoele incita à pergunta "o que é ser?", coloca sua advertência contra perder-se alguém em "coisas"que o alienam do ser autêntico (Seiendes), e opõe-se à especialização científica. Porém, entroupara o partido nazista e apesar de renunciar à reitoria em 1934, em várias ocasiões pronunciousólidos discursos pro-Hitler. "o Führer ele mesmo," disse Heidegger, "e somente ele é arealidade alemã, presente e futura, e sua lei". Não é de se esperar que o defensor daautenticidade não fosse ele mesmo autêntico, inclusive enquanto nazista.A história do National Socialismo depois de 1934, e até o fim da II Guerra Mundial, pode serdividida em duas partes com aproximadamente igual duração de seis anos. É importante, paracompreender a adesão de muitas pessoas inteligentes e sensatas ao nazismo, reconhecer que oprimeiro período, foi de promessas que pareciam de realização justa e eminente, e,aparentemente, apenas o segundo foi marcado por inquestionáveis crimes cometidos pelopartido até a desilusão e a derrota final. Os anos entre 1934 e 1939, foram gastos pelo Partidoem estabelecer o inteiro controle em todos os níveis da vida na Alemanha. Durante aquelesanos Hitler e seu movimento ganharam o apoio e mesmo o entusismo da maioria da populaçãoalemã. Muitos alemães haviamn crescido conscientes dos conflitos políticos, da instabilidadeeconômica e política, e da desordem geral que caracterizou os últimos anos da República deWeimar. Eles saudaram com crescente esperança o forte, decisivo, e aparentemente competentegoverno implantado pelos nazistas. Após 1934 a interminável orda de ociosos na Alemanharapidamente diminui na medida que os desempregados eram colocados a trabalhar em projetosde obras públicas e nas fábricas de armamento que se multiplicavam rapidamente. Os alemãesforam arrastados para esse movimento de massas, ordeiro, poderosamente objetivo, destinado arestaurar a dignidade, o orgulho e a grandeza do seu país, e devolver-lhe o primeiro lugar nopalco europeu. A recuperação econômica dos efeitos da Grande Depressão e o fortenacionalismo alemão eram, assim, os fatores-chave no apelo do Nacional Socialismo para apopulação alemã. Finalmente, os êxitos constantes de Hitler no campo diplomático e suasconquistas externas a partir de 1934 até os primeiros anos da II Guerra garantiu o apoioincondicional da maioria dos alemães, inclusive, muitos que que haviam inicialmente se opostoa ele.Últimos anos. Em novembro 1944 Heidegger parou de lecionar. A invasão da Alemanhaderrotada pelas potências aliadas tornou difícil a situação dos nazistas mais destacados. Em1945 ele foi proibido de lecionar oficialmente e suas atividades nazistas foram investigadas.Não foi incriminado em nenhum dos crimes praticados pelos partidários de Hitler e por issonão perdeu seus direitos a uma aposentadoria. Deu regularmente influentes conferências nosanos 1951-58, e continuou um intelectual importante dentro do movimento fenomenológicointernacional até seu falecimento em 1976.
  • 28. 28O conhecimento. Tradicionalmente, o conhecimento implicava a dicotomia da relaçãosujeito-objeto, em que o homem, como cognoscente, é algo dentro de um ambiente que eleconfronta. Para Heidegger, esta relação deve ser transposta. O Saber mais profundo, aocontrário, é matéria do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a palavra da qualfenomenologia, como um método, é derivada. Algo está exatamente "lá" na luz. Assim, nesteconhecimento profundo, a distinção entre o sujeito e o objeto não é imediata mas vem somentedepois com a conceitualização, como nas ciências. Então o homem existe segundo certosfenômenos, que são os modos como ele está lá, na luz (Dasein, o "o ser" em alemão é,etimologicamente, a palavra da, que significa "lá" com a palavra sein, que significa "estar")Terminologia. Heidegger evita termos das ciências sociais ou da psicologia tanto quantopossível, em favor de uma terminologia ontológica. Viu-se então na necessidade de criar umaterminologia nova, palavras novas para exprimir seu pensamento. Foi criticado por desenvolverseu próprio alemão, seu próprio grego, e seu próprio tipo de etimologias. Inventa, por exemplo,aproximadamente 100 palavras complexas novas que terminam com "- sendo." Ao ler seustrabalhos se deve, assim, traduzir muitos de seus termos chaves de volta em palavras gregas afim de entender suas interpretações e etimologias. Isto faz um risco que, ao "interpretar" afilosofia de Heidegger, alguém esteja na verdade, criando, pelo menos em parte, "uma filosofiade Heidegger"Os existenciais. Heidegger divide a existência em três "estruturas existenciais": afetividade,fala e entendimento. São três fenômenos existenciais que caracterizam como as coisas dopassado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses trêsfenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível..1) a afetividade: as coisas do passado chegam ao homem como valores, afetando-lhe ossentimentos, que podem ser públicos, compartilhados, e transmissíveis.2) a fala: no presente, as coisas se traduzem em palavras da linguagem na articulação dos seussignificados3) o entendimento: as coisas do futuro, onde o projeto que define o homem encontrará a morte,são as coisas não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele o sentimento de que nãoestá em casa neste mundo, mesmo estando entre as coisas que lhe são mais familiares.Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, - existe -, nestes trêsfenômenos, nestes três "existenciais". Porém...A alienação. O homem está fora das coisas, diz Heidegger em "O ser e o tempo", nunca sendocompletamente absorvido por elas, mas não obstante não sendo nada, à parte delas. O homemvive, até o fim, em um mundo no qual ele foi jogado. Sendo algo jogado em meio às coisas,estando-lá (Da-sein), constitui algo à parte (Verfall) mas está no ponto de ser submergido nascoisas. É continuamente um projeto (ent-wurf); mas ocasionalmente, ou mesmo normalmente,pode ser submergido nas coisas a tal ponto que é absorvido nelas temporariamente (Aufgehenin). O homem encobre aqueles condicionantes existenciais, - aquilo que ele de fato é -,entregando-se a uma rotina de superficialidades "públicas" na vida cotidiana. Não é entãoninguém em particular; e uma estrutura que Heidegger chama das Man ("o eles ") é revelada,como uma tendência da alienação de si mesmo que leva o homem à tendência de se conhecerapenas através da comparação que faz de si mesmo com os outros indivíduos seus pares. Acaracterística do das Man é a conversa inócua (Gerede) e curiosidade (Neugier). No Gerede, oque fala e o ouvinte não estão em nenhuma relação pessoal genuína ou em qualquer relaçãointima com aquilo sobre o que falam, o que, portanto, conduz a superficialidade. A curiosidade
  • 29. 29é uma forma de distração, uma necessidade para o "novo," uma necessidade para algo"diferente," sem interesse ou capacidade de maravilhar.A angústia. Mas uma coisa pode acontecer que desperta o homem dessa alienação, a angústia(Angst). Ela resulta da falta de base da existência humana. A "existência" é uma suspensãotemporária entre o nascimento e a morte O projeto de vida do homem tem origem no seupassado (em suas experiências) e continuam para o futuro, o qual o homem não pode controlare onde esse projeto será sempre incompleto, limitado pela morte que não pode evitar.A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) como umapotencialidade. Ela enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.Na angústia, a relevância do tempo, da finitude da existência humana, é experimentada entãocomo uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um"estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zumTode). Na angústia, todas as coisas, todas as entidades (Seiendes) em que o homem estavamergulhado se afastam, afundando em um "nada e em nenhum lugar," e o homem então emmeio às coisas paira isolado, e em nenhuma parte se acha em casa (Un-heimlichkeit, Un-zu-hause). Enfrenta o vazio, a "nenhum-coisa-idade" (das Nichts); e toda a "rotinidade" desaparece-- e isto é bom, uma vez que então encontra a potencialidade de ser de modo autêntico.Assim, a angustia "sóbria" (nüchtern) e a confrontação implicada com morte são paraHeidegger primeiramente ferramentas, têm importância metodológica: certos fundamentos sãorevelados. A ansiedade abre o homem para o ser.Entre as estruturas reveladas estão as potencialidades do homem para ser alegremente ativo ("..conhecer a alegria [die wissende Heiterkeit] é uma porta para o eterno"). Isto não quer dizerque o Ser participa do lado negro do desespero, da angústia; o Ser é associado com a " luz " ecom " a alegria " (das Heitere). Pensar o ser é chegar ao verdadeiro lar.Por isso, dos três existenciais, Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projeção para oadvir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que o leva a pensar e àautoconscientização.O homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assimse apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico, não mais um entesem raízes. ParaEssa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a queestá condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos tornou-sesedutora para a psiquiatria, surgindo ai proeminentes terapeutas existencialistas comoBinswanger, Boss e Ronald Laing.=================================Início em 16/06/2001Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Martin Heidegger. Página de"Filosofia Contemporânea". Site cobra pages.nom, Internet, Brasília, 2001
  • 30. 30 Capítulo 7 O Existencialismo Moderno de JEAN-PAUL SARTREVida. Jean-Paul Sartre, novelista francês, teatrólogo, e maior intelectual doExistencialismo, - filosofia que proclama a total liberdade do ser humano. Foipremiado com o Nobel de literatura de 1964, que desconsiderou.Infância e juventude. Sartre nasceu em 21 de junho de 1905 e faleceu em 15 de abrilde 1980, em Paris. Ficou órfão de pai muito cedo. O pai, oficial da marinha, faleceuainda jovem, dois anos depois do nascimento do filho. Foi, com sua mãe, Anne-MarieSchweitzer, viver em casa de seu avô materno, Carl Schweitzer, de origem alsaciana eprotestante, professor de Alemão na Sorbone, em um apartamento no sexto andar deum edifício em Meudon, nos arredores da capital, nas proximidades do Jardim deLuxemburgo. O célebre pastor Albert Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1952, erasobrinho de seu avô, primo de sua mãe.Sartre estudou primeiro no Liceu Henrique IV, em Paris. Mais tarde estudou no liceuem La Rochelle, localidade onde, tendo sua mãe se casado segunda vez, a pequenafamília passou a residir.Após o liceu completou sua educação ingressando em 1924 na École NormaleSupériure, onde se graduou em 1929. Ainda estudante passou a viver com Simone deBeauvoir (1908-1986) de quem nunca se separou. Na École Normale foicontemporâneo de escritores que viriam a ser intelectuais de renome, como RaymondAron, Maurice Merleau-Ponty, Emmanuel Mounier, Jean Hippolyte, Claude Lévi-Strauss e a filósofa social esquerdista da escritora Simone Weil, (1909-1943) ativistana Resistência à invasão alemã e ao nazismo, cujas obras publicadas postumamentetiveram grande influência no pensamento social na França e na Inglaterra..Terminado o curso de filosofia, fez serviço militar em Tours, como meteorologista.Nos anos que precederam a grande guerra Sartre lecionou, entre 1931 e 1933, noLiceu do Havre; em 1933-34 esteve em Berlim, estudando fenomenologia. De 1934 a1939 continuou no Havre passando depois para Neuilly-sur-Seine.Na Alemanha Sartre iniciou a redação de "Melancolia", romance recusado peloseditores e mais tarde publicado com o título "A Náusea".Influências. No período de um ano passado em Berlim, Sartre estudou afenomenologia do filosofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), as teorias doexistencialismo de Heidegger e Karl Jasper (1883-1969) e a filosofia de Max Scheller(1874-1928). A partir desses autores, chegou a Soren Kierkegaard (1813-1855).Durante os anos que lecionou no Havre, Sartre publicou suas primeiras obras, "AImaginação" e "A Transcendência do Ego". Nelas, a começar por LImagination(1936 - "A Imaginação"), explora o método fenomenológico de Husserl, que propõe adescrição dos objetos como fenômenos mentais sem qualquer idéia preconcebida oupreconceituosa. Porém, foi a publicação do La Nausée (1938 - "A Náusea") que lhetrouxe fama. Esse romance, escrito em forma de um diário, revela os sentimentos derepugnância do personagem Roquentin, em relação ao mundo material inclusive pelaconsciência de seu próprio corpo. O romance contem em suas páginas grande partedas posições filosóficas que Sartre continuaria depois a desenvolver. Seu herói,Antoine Roquentin, desocupado, duvidoso de si mesmo, vive sozinho, sem amigos,
  • 31. 31sem amante, nada lhe importando, nem os outros homens, nem ele mesmo, descobre,na vida monótona de Bouville, o mistério metafísico do Ser: o mundo não temnenhuma razão de existir e é absurdo que exista. "Tudo é gratuito, a jardim, estacidade, e eu mesmo; quando acontece da gente se dar conta disso, isso atinge o cabeçae tudo começa a flutuar; eis a náusea". Em A Náusea, Sartre parece bastante próximode Heidegger.No ano seguinte, publicou "O Muro" (1939), uma coletânea de contos, e o ensaioEsquisse dune théorie des émotions (1939 - "Esboço de uma teoria das Emoções"). Omuro tem por personagem Pablo Ibietta, é uma denuncia do regime do ditador Franco,da Espanha, sob cujo poder o personagem Pablo Ibietta é preso e torturado. No anoseguinte publicou LImaginaire: Psychologie phénoménologique de limagination(1940 - "O Imaginário: Psicologia fenomenológica da Imaginação"), um ensaio.Período da II Grande Guerra. Na primeira fase da guerra mundial Sartre serviucomo meteorologista na Lorena, 1940. Caiu prisioneiro quando Hitler invadiu aFrança, e foi encerrado no campo de concentração de Trier (Treves), na Alemanhaocidental, cidade junto à fronteira com Luxemburgo que foi berço de Karl Marx. Noperíodo de sua prisão Sartre escreveu uma peça de teatro que depois não quis contarentre os títulos de suas obras, alegando que fora um trabalho dentro de um contextoparticular, e que a havia escrito apenas para levantar o ânimo de seus companheirosde infortúnio. É uma peça natalina, representada pelos prisioneiros no Natal de 1940,e publicada 30 anos mais tarde com o título Bariona, ou Le fils du tonnerre ("Bariona, ou O filho do trovão"). O drama, de inspiração religiosa, fala de Jesus e deMaria, Sua mãe, que "Trouxe-o no ventre durante nove meses, oferecer-Ihe-á o seio eo seu leite se tornará o sangue de Deus". Foi solto por razões médicas (por umalegado problema de visão) um ano mais tarde, na primavera de 1941. Em liberdade,voltou ao Liceu de Neuilly, passando depois a lecionar no Liceu Condorcet e noLiceu Pasteur, em Paris. Fundou então o grupo Socialismo e Liberdade a fim de atuarjunto à Resistência. O grupo produziu panfletos clandestinos contra a ocupação alemãe contra os colaboracionistas franceses.Em 1943, em plena fase da guerra, fez a primeira publicação de uma peça teatral, "AsMoscas", que envolve veladamente o comando alemão e os colaboracionistas, epublicou também o famoso LÊtre et le néant (1943 - "O Ser e o Nada"), obrafundamental da teoria existencialista. O "Ser e o Nada" subintitula-se "Ensaio deontologia fenomenológica" e nele Sartre aprofunda seu pensamento com respeito àconsciência humana, como "um nada" em oposição ao Ser. A consciência é "não-matéria", nada, e por isso mesmo escapa a qualquer determinismo. Sendo um "nada,ela "nadifica" seus objetos. A consciência é essencialmente negadora das coisas em-simesmas, na medida em que se encontra revestida da característica ontológica de ser,ela própria, o seu próprio nada.A teoria da negatividade da consciência não é senão uma das perspectivas dopensamento de Sartre. Outra é a de que o outro é o "mediador indispensável entremim e mim mesmo"; precisamos de outrem para conhecer plenamente a nós mesmos.Mas a relação primordial com outrem é o conflito. Todo tipo de relação humana estácondenado ao fracasso; através delas nunca atinjo o meu objetivo; a indiferença, osadismo, o ódio, o masoquismo, o amor, a linguagem, são diversas manifestações daminha tentativa, sempre fracassada, de conviver com outrem. Essas obras e mais"Entre 4 paredes" (1944), rapidamente fizeram dele a mais célebre dos escritoresfranceses de seu tempo.
  • 32. 32Segunda fase filosófica. Sartre lecionou até 1945. Nesse ano dissolveu o movimentoSocialismo e Liberdade e fundou com Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty (1908-1961), Raymnond Aron (1905-1983) e outros intelectuais, a revista de filosofia LesTemps Modernes ("Os Tempos Modernos"), deixando de lecionar para cuidar deste ede outros empreendimentos literários.Tendo em uma primeira fase exaltado a liberdade, que em suas obras anterioresparecia ter valor por si mesma, agora, após as lições da guerra, Sartre voltou suaatenção para o conceito de responsabilidade social. Nesta nova abordagem da questãoda liberdade ele planejou, em 1945, uma novela em quatro volumes sob o titulo LesChemins de la liberté ("Os Caminhos da Liberdade") dos quais publicou três: LÂgede raison (1945 - "Idade da razão"), Le Sursis (1945 - "Sursis"), e La Mort dans lâme(1949 - "Com a Morte na Alma").Em lugar do quarto volume de "Os Caminhos da Liberdade", Sartre decidiu que oromance poderia não ser o melhor veículo de suas mensagens e intensifica aprodução de peças de teatro. Ele já havia produzido nessa área durante a guerra, eagora escreve vários: Les Mouches (1943), Huis-clos (1944), "Entre Quatro Paredes"(1945), "Mortos sem Sepultura" (1946) e "A Prostituta Respeitosa" (1946), Les Mainssales (1948 - "As mãos sujas"), e continua com Le Diable et le bon dieu (1951 - "ODiabo e o Bom Deus"), Nekrassov (1955), e Les Séquestrés dAltona (1959 -Seqüestrados de Altona"), esta sobre o problema do colonialismo na AlgériaFrancesa. Todos essas peças fazem uma abordagem pessimista do relacionamentohumano, enfatizando a hostilidade natural do homem para com seu semelhante,porém deixam antever uma possibilidade sempre presente de remissão e salvação.De 1946 são os ensaios "O existencialismo é um Humanismo", escrito para esclarecero significado ético do existencialismo, e "Reflexões sobre a Questão Judaica". Outraspublicações da mesma época incluem um livro, Baudelaire (1947), um script para ocinema, "Os dadas estão lançados", na critica literária e psicológica "Baudelaire" eum estudo sobre o escritor e poeta francês Jean Genet, com o título Saint Genet,comédien et martyr (1952), "O Fantasma de Stalin (1956), e inúmeros artigos queforam publicados em seu jornal Les Temps Modernes. Porém em 1955 se desentendecom Merleau-Ponty, com quem mantinha o jornal, por motivos políticos.Atividades políticas. Após a II Guerra Mundial, Sartre havia continuado sua atividadepolítica (nascida ao tempo da Resistência aos alemães) com inclinaçãomanifestamente esquerdista, tornando-se um ativo admirador da União Soviética,apesar de nunca ter se filiado ao partido comunista. Em 1954 ele viajou pela Rússia,Escandinavia, África, Estados Unidos, e Cuba. Porém, a entrada de tanques soviéticosem Budapeste em 1956, deixaram Sartre desapontado com o comunismo. Eleescreveu no seu jornal Les Temps Modernes o artigo Le Fantôme de Staline, no qualcondenava veementemente a intervenção soviética e a submissão do PartidoComunista Francês aos ditames de Moscou. Essa atitude crítica ensejou mais umlivro, Critique de la raison dialectique (1960 - "Crítica da Razão Dialética") livrosobre afinidades do existencialismo com o marxismo. É também de 1960 o ensaio"Questão de Método", e de 1964 é Les Mots ("As Palavras"), uma análise psicológicae existencial de sua própria infância.Sartre acusava o marxismo de se ter ossificado e que, em lugar de adaptar-se asituações particulares, compelindo cegamente o particular a enquadrar-se em umuniversal predeterminado. Quaisquer que fossem seus princípios gerais, o Marxismoprecisava reconhecer circunstâncias existenciais concretas que diferem de uma
  • 33. 33comunidade para outra e respeitar a liberdade individual do homem. O projeto de umsegundo volume do Critique foi, no entanto, temporariamente suspenso, e publicadoem seu lugar o Les Mots, que mereceu o prêmio Nobel, que recusou.Últimos anos. Muito se tem conjecturado sobre as verdadeiras razões de haver Sartrerecusado o prêmio Nobel, as quais, aparentemente, não estariam tão claras para elemesmo, que acreditava na transparência da consciência. Porém, seria no seu própriosubconsciente, que ele negava existir, que talvez estivesse a resposta. Foi uma criançasuper-estimulada a ser inteligente e vencedora, o que no íntimo ele talvez nãoacreditasse ser, sentindo-se um impostor comparado ao célebre pastor, primo de suamãe, e ao seu próprio avô, figura solene, vastas barbas brancas, que "assemelhava-sea Deus Pai", figuras e exemplos em que pivotaram os estímulos de sua educaçãoinfantil. Comparado a esses que seriam para ele os verdadeiros merecedores doprêmio Nobel, - e um deles de fato recebeu o prêmio, - Sartre confessa um idealismo,não uma prática da generosidade, e um certo remorso por não ter sofrido, onde diz,em "As Palavras": "Meu idealismo épico compensará até a minha morte uma afrontaque não sofri, uma vergonha que não padeci..."De 1960 até 1971 a atenção de Sartre concentrou-se no preparo de um estudo emquatro volumes sobre o famoso escritor francês Gustave Flaubert. Dois volumes, comum total de 2.130 páginas apareceu no início de 1971, contendo minuciosas análisesfreudianas da infância e das relações familiares de Flaubert.Atividades como conferencias e passeatas como meio de apressar a Revoluçãosocialista passaram depois a ocupar boa parte do tempo de Sartre. Em 1961 viaja paraCuba e Brasil, e aqui foi festivamente recebido pelas esquerdas. Pouco escreveu em1971. Apesar de tudo, em 1972 publicou o terceiro volume do trabalho sobreFlaubert, com o título LIdiot de la famille ("O idiota da família"), igualmente denso ede leitura fastidiosa.Em seus últimos anos Sartre ficou cego e sua saúde declinou até seu falecimento emAbril de 1980 devido a um tumor pulmonar. Teve um funeral impressionante pelamassa popular que compareceu, estimada em 25.000 pessoas.Sobre o aspecto meramente literário de sua obra, se diz que poderia ter colocado suafilosofia de uma forma mais clara e mais breve do que fez em "O Ser e o Nada".============FILOSOFIA:"O Ser e o Nada" tornou-se, como dito, a obra fundamental da teoria existencialista.Nele está contida praticamente toda a filosofia de Jean-Paul Sartre, cujos principaistópicos são comentados abaixo. Porém, Sartre apresentou o seu existencialismo deuma forma muito mais clara e breve em "O Existencialismo é um Humanismo", umaconferência dada em Paris em 1945. Seus seguidores, no entanto, alegam que, nesseensaio, sua abordagem do assunto é popular e superficial, e não se pode confiar nelacomo uma exposição do seu pensamento. Mas é importante lembrar que Sartre não éo fundador do existencialismo. O pensador cristão dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) é geralmente considerado como o primeiro existencialista moderno.Existencialismo. Existir no sentido etimológico, é "sair de". "Por exemplo, - dizSartre em "A Nausea" -, eu me sinto triste; mas tomar consciência de meu desgosto é
  • 34. 34colocá-lo como um objeto a distancia de mim. Pois o eu que diz estou triste não émais, de modo algum, o eu que está triste. Assim o homem está por sua consciência,sempre além de si mesmo. Eis o sentido do ex-istencialismo."As filosofias existencialistas aparecem sob diversas formas, sendo que a divisão maisradical é entre o ponto de vista religioso e o ateu. Sartre é o fundador e principalpensador dessa última corrente.O nada. A influência do idealista G. W. F. Hegel em Sartre torna-se aparente quandoo filósofo tenta interpretar tudo pelo método dialético, isto é, através de uma tensãode opostos. A dialética do "ser-um-com-o-outro" do homem é central: ver e ser vistocorresponde a dominar e a ser dominado. Ser e não ser, como em "O Ser e o Nada" éoutro exemplo dessa influência hegeliana, em que o confronto é entre a consciência eo seu objeto..Como de resto todos os fenomenologistas, Sartre tem como ponto de partida o caraterintencional da consciência. Todo modo de consciência representa algo, revela algo,apresenta algo, está voltado e direcionado para algo fora dela mesma, daí dizer-se quea consciência é intencional. Ela não existe sem estar voltada, sem estar representando,criando a presença de um objeto. Os objetos da consciência são reais, ainda quealguns sejam ideais, eles existem como fenômenos, - como imagens -, e porqueexistem Sarte os considera "seres em si", completos, acabados, de fato existentes.Porém, há também um conhecimento ou consciência de que se é consciente, isto é,uma consciência da consciência. Então, diz Sartre, a consciência é um ser "para si".Sem seu objeto, a consciência é um nada, um não-ser, pois que somente existe narelação de si mesma com o "ser em si". Ela procura o "ser em si" para fundar a simesma, o que significa que ela destroi o "ser em si", transformando-o no seu próprionada. "O ser e o nada", título de seu livro, refere-se a esses dois tipos de ser: o "ser emsi" (fenômeno) e o "ser para si" (consciência).Esta concepção do nada como algo que existe, que é a consciência, é importante paraSartre. É preciso notar aqui que é esta constante separação daquilo que somos, queSartre chama o "nada", que obriga a realidade humana a se fazer ao invés de ser. Arealidade humana é nada precisamente no que ela não é, mas está a se fazerincessantemente: O "nada", em Sartre, não é uma constatação niilista. E, em suma, acategoria do ideal, dos objetos ideais.. É importante encontrar um lugar para o "nada",poder dar existência ao "nada", a fim de fazer real a possibilidade da negativa. "Acapacidade de conceber a negativa constitui a liberdade de imaginar outraspossibilidades"... O poder de negar é a possibilidade de escolher, é o princípio daliberdade do pensamento (de imaginar possibilidades) e da liberdade de ação (o tentarrealizá-las).Pode-se, no entanto, criticar o postulado de Sartre de que a consciência pode fazerjuízos negativos, como algo sem sentido. Os seus críticos apontam que um juízonegativo pode ser expresso em uma sentença negativa. "Pedro não está aqui" é tãoverdade quanto "Pedro está fora daqui". O juízo é sempre afirmativo. Mas Sartrepretende "a existência objetiva de um não-ser", do "Nada".É claro, porém, que a intencionalidade vem primeiro e, depois que se manifesta,alguma coisa foi escolhida, sem que nada seja previamente negado. É um paradoxoque a escolha dependa primeiro de negar determinadas possibilidades. Negar primeiro
  • 35. 35já é colocar a intencionalidade na negação.O homem. Como seres conscientes estamos sempre querendo preencher o "nada" queé a essência do nosso ser consciente; queremos nos transformar em coisas em vez depermanecer perpetuamente num estado em que as possibilidades estão sempreirrealizadas.É o principal postulado do existencialismo sartreano que não há afirmações geraisverdadeiras sobre o que os homens devem ser. Sartre leva esse indeterminismo àssuas mais radicais conseqüências; nega que haja uma natureza humana: não hánenhuma coisa como uma natureza humana que seja comum a todos os sereshumanos; nenhuma coisa como uma essência específica que defina o que seja serhumano existe!. Por exemplo, para Aristóteles, e os filósofos gregos, a essência de serhumano era ser racional. Mas para Sartre, a pessoa deve produzir sua própriaessência, porque nenhum Deus criou seres humanos de acordo com um conceito, umprojeto divino definido. - você é o que você faz de você mesmo.Quando diz "a existência do homem precede sua essência", ou "no homem, aexistência precede a essência", ele quer dizer que o homem se apresentou no mundosem qualquer projeto concebido previamente por um Criador. Não havendo talessência, todos são iguais e igualmente livres para se fazerem."Nojento", como salienta em "A Náusea" é exatamente aquele que esquece isso e seinveste de certa "superioridade essencial". Mas não existe "ladrão ou marginal emessência", assim como não há "gente honesta em essência". Transformar o outro emcoisa inferior, para se colocar numa essência superior, é negar simultaneamente a sualiberdade e a própria. Enquanto o olhar de alguém objetiva o outro em coisaessencialmente inferior, o outro, por sua vez, olha e constitui esse alguém numcarrasco e ele terá vergonha desse seu olhar.É no universo dos nojentos e dos covardes que vale a dolorosa constatação de "Entrequatro paredes": "o inferno são os outros". Assim, não há uma natureza humana, vistoque não há Deus para a conceber: o homem não é mais do que aquilo que ele faz de simesmo. Tal é o primeiro principio do existencialismo ateu. Mas Sartre salienta queaquilo que vulgarmente entendemos por querer, é uma decisão consciente que, para amaior parte de nós, é posterior ao que alguém já fez de si mesmo.Liberdade. No entender de Sartre, estamos "condenados à liberdade"; não há limitepara nossa liberdade, exceto o de que "não somos livres para deixarmos de sermoslivres." Porque não há nenhum Deus e portanto não há qualquer plano divino quedetermine o que deve acontecer, não há nenhum determinismo. O homem é livre.Nada o força a fazer o que faz. "Nós estamos sozinhos, sem desculpas." O homemnão pode desculpar sua ação dizendo que está forçado por circunstâncias ou movidopela paixão ou determinado de alguma maneira a fazer o que faz.A angústia. Seguindo a Kierkegaard, Sartre usa o termo "angústia" para descreveressa consciência da própria liberdade. Nós estamos livres porque nós não podemosconfiar em um Deus ou na sociedade para justificar nossa ação ou para nos dizer oque e quem nós somos. Nós estamos condenados porque sem diretrizes absolutas, nósdevemos sofrer a agonia de nossa tomada de decisão e a angustia de suasconseqüências. A angustia é, então, a consciência da própria liberdade... A angústia éa consciência dessa liberdade de escolha, a consciência da imprevisibilidade últimado próprio comportamento... Uma pessoa à beira de um penhasco perigoso tem medo
  • 36. 36de cair, e sente angustia ao pensar que nada o impede de se jogar lá embaixo, de selançar no abismo.. O pensamento mais angustioso de todos é quando, num dadomomento, nós não sabemos como nós iremos nos comportar no momento seguinte.Sartre descreve a vida humana como "uma consciência infeliz". O homem estásempre tentando alcançar um estado em que não restariam possibilidades irrealizadas,no qual diria: "eu não tinha outra escolha, situação em que seria um objeto em vez deum ser consciente, com opções e liberdade. Mas, argumenta, "Não podemos chegar aum estado em que não restem possibilidades irrealizadas", ou aí estaríamosdeterminados, sem escolha possível e portanto sem liberdade. Não há fuga possível daangústia da liberdade; fugir à responsabilidade é em si mesmo uma escolha.A "má fé". Às vezes nós escapamos da ansiedade fingindo que nós não estamoslivres, como quando nós fingimos que nossos genes ou nosso ambiente são a causa decomo nós agimos. Nós nos permitimos ser auto-enganados ou mentir para nósmesmos, especialmente quando isto toma a forma de responsabilizar as circunstânciaspor nosso fado e de não lançar mão da liberdade para realizar a nós mesmos na ação.Quando nós fingimos, nós agimos de má fé.A má fé é a tentativa de fugir da angústia fingindo que não somos livres. Tentamosnos convencer que as nossas atitudes e ações são determinadas pela nossapersonalidade, por nossa situação, ou por qualquer outra coisa fora de nós mesmos".Porém, diz Sartre, o que é aprendido, ou os propósitos, as experiências passadas, nãodeterminam o comportamento atual.. Segundo ele, "nenhum motivo ou resoluçãopassada determina o que fazemos agora". "Cada momento requer uma escolha novaou renovada".Negar a liberdade é, a seus olhos, uma tomada de posição covarde, a fim de fugir daangústia da escolha, e achar o repouso e a segurança na confortável ilusão de ser umaessência acabada.Sartre diz que, porque não existe Deus, o homem não foi criado para nenhumpropósito particular, essência alguma. Dizer que estamos obrigados por nossanatureza, nosso papel na vida, a agir de certo modo constitui "má fé".A Psicanálise Existencial. Sartre rejeita enfaticamente a idéia de causasinconscientes dos fatos psíquicos; para ele tudo que está na mente é consciente.Rompeu com a psicanálise por esta retirar a responsabilidade do indivíduo ao invocara ação de uma força subconsciente e estados mentais inconscientes, que, para Sartre,não existem. Sustenta que a consciência é necessariamente transparente para simesma. Todos os aspectos de nossas vidas mentais são intencionais, escolhidos, e denossa responsabilidade, o que é incompatível com o total determinismo psíquicopostulado por Freud.Teríamos de atribuir a repressão inconsciente a alguma instância dentro da mente (a"censura") que distingue entre o que será reprimido e o que pode ficar consciente, deforma que essa censura tem de estar a par da idéia reprimida a fim de não estar a pardela. Portanto, o inconsciente não é verdadeiramente inconsciente. Em algum nível euestou consciente, e escolho, o que vou e o que não vou permitir vir claramente àminha consciência. Por isso não posso usar "o inconsciente" como uma desculpa parameu comportamento. Mesmo que eu não possa admitir para mim mesmo, eu estouconsciente e escolhendo. Mesmo na decepção que sofro, eu sei que sou eu aquele queme decepciona, e o assim chamado "Censor" de Freud deve estar consciente para
  • 37. 37saber o que reprimir. Aqueles que usam o inconsciente como desculpa docomportamento acreditam que nossos instintos, nossas inclinações e nossoscomplexos constituem uma realidade que simplesmente é; que não é verdadeira nemfalsa em si mesma mas simplesmente real.Somos responsáveis por nossas emoções, visto que há maneiras que escolhemos parareagir frente ao mundo. Somos também responsáveis pelos traços duradouros danossa própria personalidade. Não podemos dizer "sou tímido", como se isto fosse umfato imutável, uma vez que nossa timidez representa a forma como agimos, e quepodemos escolher agir diferentemente.Nossos atos nos definem. Na vida, o homem se compromete, desenha seu próprioretrato e não há mais nada senão esse retrato. Nossas ilusões e imaginação a nossorespeito, sobre o que poderíamos ter sido, são decepções auto-infligidas.Permanentemente estamos a nos fazer do modo que somos. Uma pessoa "corajosa" ésimplesmente alguém que geralmente age com bravura. Cada ato contribui para nosdefinir como somos, e em qualquer momento podemos começar a agir de mododiferente e desenhar um retrato diferente de nós mesmos. Há sempre umapossibilidade de mundaça, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos opoder de nos transformar indefinidamente..O instrumento proposto por Sartre para que possamos conseguir um auto-conhecimento genuíno é a Análise Existencial. Ele chama "Psicanálise Existencial" a"Uma psicanálise que busca não as causas do comportamento de uma pessoa, mas oseu sentido" (O que o comportamento exprime como escolha). A função destapsicanálise não é procurar as causas inconscientes do comportamento de uma pessoa,mas o significado desse comportamento. A realidade humana identifica-se e se definepelos fins que busca e não por pretensas "causas" no passado.Nenhuma "essência" determinada de mim mesmo orienta a priori meucomportamento. Porém, há o que Sartre chama "Projeto Original". Como uma pessoaé essencialmente uma unidade, e não apenas um amontoado de desejos ou hábitossem relação, deve haver para cada uma delas uma escolha fundamental por um papelou script de vida, o "projeto original", o qual dá o significado de qualquer aspectoespecífico de seu comportamento.A radical oposição de Sartre à psicanálise influiu grandemente na psiquiatria de seutempo. Ronald David Laing (1927-1989), um conhecido psiquiatra inglês de origemescocesa, buscou um novo método de tratamento da loucura seguindo a filosofiaexistencialista. Entre suas principais obras está Reason & Violence: A Decade ofSartres Philosophy ("Razão e violência: uma década da filosofia de Sartre"), em co-autoria com D.G. Cooper, de 1971.Socialismo. Sartre rompeu com o socialismo e a psicanálise considerando o quanto oExistencialismo se opõe à teoria psicanalítica. A submissão ao inconscientesignificaria cerceamento da liberdade. O mesmo diz do socialismo. Depois derenunciar ele mesmo ao comunismo, denunciou que o planejamento social implicarestrição ou perda total da liberdade. Os existencialistas acreditam na capacidade detodo indivíduo de escolher as suas atitudes, objetivos, valores e formas de vida e seupostulado de liberdade representa obstáculo intransponível ao conformismo requeridopelo planejamento socialista e sua negação da individualidade em favor do social ecoletivo.
  • 38. 38Posteriormente Sartre adotou uma forma de marxismo que ele considerava como a"filosofia inescapável do nosso tempo", que só precisava ser refertilizada peloexistencialismo. Esta mudança de ponto de vista encontra-se na sua "Crítica da RazãoDialética", volume I, de 1960.Deus. Sartre é um existencialista ateu. Segundo Sartre, o homem está abandonado;Deus não existe e, para Sartre, a não-existência de Deus tem implicações extremadas.Aliás, alguns dos problemas principais que se levantam do abandono parecemtambém levantar-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. SeDeus realmente existe, nós "não estamos abandonados". O problema do abandonolevanta-se meramente do fato de nós não podermos saber se Deus existe. Suaexistência em tais condições equivale, para Sartre, em uma não-existência efetiva, quetem implicações drásticas. Primeiro, porque não há Deus, não há nenhum criador dohomem e nem tal coisa como um concepção divina do homem de acordo com a qual ohomem foi criado. Segundo, diz ele, louvando-se em Dostoiévski (na fala de IvanKaramazov, na famosa novela daquele escritor russo): Se Deus não existe, então tudoé permitido. Terceiro, "Não há um sentido ou propósito último inerente à vidahumana; a vida é absurda".Isto significa que o indivíduo, foi jogado de fato na existência sem nenhuma razãoreal para ser. "Simplesmente descobrimos que existimos e temos então de decidir oque fazer de nós mesmos.".Resta como o único valor para o existencialismo ateu a liberdade. Afirma que nãopode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor.Porque não há nenhum Deus, não há nenhum padrão objetivo dos valores. Com odesaparecimento dele desaparece também toda possibilidade de encontrar valores.Não pode então haver qualquer bem a priori porque se nós não sabemos se Deusexiste, então nós não sabemos se há alguma razão final porque as coisas acontecem damaneira que acontecem; não há nenhuma razão final porque qualquer coisa tenhaacontecido ou porque as coisas são da maneira que elas são e não de alguma outramaneira e nós não sabemos se aqueles valores que acreditamos que estão baseados emDeus têm realmente validade objetiva. Consequentemente, porque um mundo semDeus não tem valores objetivos, nós devemos estabelecer ou inventar, a partir daliberdade, nossos próprios valores particulares. Na verdade, mesmo se nóssoubéssemos que Deus existe e aceitássemos que os valores devessem basear-se emDeus, nós ainda poderíamos não saber que valores estariam baseados em Deus, nóspoderíamos ainda assim não saber quais seriam os critérios e os padrões absolutos docerto e do errado. E mesmo se nós sabemos quais são os padrões do certo e do errado(critérios), exatamente o que significam ainda seria matéria da interpretação subjetiva.E assim o dilema humano que resultaria poderia ser muitíssimo o mesmo como se nãohouvesse Deus.Ética. Sartre acredita na capacidade de todo indivíduo de escolher as suas atitudes,objetivos, valores e formas de vida. É uma ilusão a crença de que os valores existemobjetivamente no mundo, em vez de serem criados apenas pela escolha humana.Recomenda honestidade, ou seja, que façamos nossas escolhas individuais com plenaconsciência de que são autenticamente nossas e nada as determina por nós. Pareceassim que Sartre, a partir das próprias premissas, teria que elogiar o homem queescolhe devotar a vida à exterminação dos judeus, contanto que ele escolha isso complena consciência do que está fazendo. Porém, paradoxalmente, a "sinceridade" queiria contrapor-se à má fé, não é inteiramente possível. O ideal de sinceridade completa
  • 39. 39 parece condenado ao fracasso por dois motivos. Primeiro, uma vez que não podemos ser simplesmente objetos observados e corretamente descritos, não podemos ser considerados, nem por nós mesmos, como honestos. Segundo, por que se é sincero no mal. Assim sendo, o único valor fundamental e universal para o existencialismo é a liberdade. Diz Sartre "Não pode haver uma justificativa objetiva para qualquer outro valor". A única recomendação positiva que Sartre pode fazer é que deveríamos evitar a má fé e procurar fazer escolhas autênticas. Crítica. Sartre foi, sem dúvida, essencialmente um filósofo moralista e um psicólogo arguto, e contou com a simpatia de uma vasta imprensa esquerdista em todo o mundo. Porém, pouco do que disse foi concepção original sua. Ele tomou seu ponto de partida das filosofias de Husserl e Heidegger. Seu primeiro trabalho, LImagination (1936) e LImaginaire: Psychologie phénoménologique de limagination (1940), ficam completamente no contexto da análise da consciência que fez Husserl. O pensamento de Heidegger aparece com clareza em "A Náusea". A definição do homem como um ser de possibilidades que encontra ou perde a si mesmo nas escolhas que faz com respeito a si mesmo corresponde à definição de Heidegger do que chamou Dasein como o ser que tem que se fazer, se materializar. Segundo seus críticos, no LÊtre et le néant (1943), um ensaio de ontologia fenomenológica, está óbvio que Sartre copiou de Heidegger. Algumas passagens da obra de Heidegger Was ist Metaphysik? (1929- "Que é a Metafísica?"), na verdade foram literalmente copiadas. O significado do "Nada", objeto da investigação de Heidegger em suas aulas, foi a questão que guiou o pensamento de Sartre. Rubem Queiroz Cobra Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia Capítulo VIII O Existencialismo de Soren Kierkegaard Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência nodesenvolvimento da obra. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas emseus textos, incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo –herança de um pai extremamente religioso, que cultuava a maneira exacerbada os rígidosprincípios do protestantismo dinamarquês, religião de Estado.Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813, quando o pai, ricocomerciante de Copenhague, tinha 56 e a mãe 44 –, chamava a si mesmo de "filho da velhice" eteria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado eboêmio. Trocou a Universidade de Copenhague, onde entrara em 1830 para estudar filosofia eteologia, pelos cafés da cidade, os teatros, a vida social.Foi só em 1837, com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornarianoivo em 1840), que sua vida mudou. O noivado, em particular, exerceria uma influênciadecisiva em sua obra. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento,mais religioso. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia, e um ano depois apresentava"Sobre o Conceito de Ironia", sua tese de doutorado.Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. Em vez de pastor e pai de família,Kierkegaard escolheu a solidão. Para ele, essa era a única maneira de vivenciar sua fé.Rompido o noivado, viajou, ainda em 1841, para a Alemanha. A crise vivida por um homemque, ao optar pelo compromisso radical com a transcendência, descobre a necessidade dasolidão e do distanciamento mundano, está em Diários.
  • 40. 40 Na Alemanha, foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos maisimportantes. Volta a Copenhague em 1842, e em 1843 publica A Alternativa, Temor e Tremor eA Repetição. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. Um ano depois, éeditado As Etapas no Caminho da Vida e, em 1846, o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. Amaior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina, e a ele mesmo, osparadoxos da existência religiosa. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exameconcreto do homem religioso historicamente situado. Assim, a filosofia assume, a um só tempo,o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduodiante da verdade cristã.Polemista por excelência, Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca, com a qual travouum debate acirrado, e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário, de Copenhague. Em1849, publicou Doença Mortal e, em 1850, Escola do Cristianismo, em que analisa adeterioração do sentimento religioso. Morreu em 1855.Filósofo ou Religioso?A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráterfilosófico de seu pensamento. Pra elas, tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do quede um filósofo. Para além das minúcias que essa distinção envolveria, cabe verificar o que elapode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. Pode-se perguntar,por exemplo, quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão, ou, então, qual afinalidade que ele intencionalmente deu à sua obra.Estamos habituados a ver, na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história,razões da ordem da reforma do conhecimento, da política, da moral. Em Kierkegaard nãoencontramos, estritamente, nenhuma dessas motivações tradicionais. Isso fica bem evidenciadoquando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. Não se trata de questionaras incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. Trata-se muito mais de rebelar-secontra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa.Para Hegel, o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e naqual, ao mesmo tempo, ele encontra sua realização. O individual se explica pelo sistema, oparticular pelo geral. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo,de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. Não devemos buscar o sentidodo indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades, mas, sim, na afirmaçãoradical da própria individualidade.De onde provém, no entanto, essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de umacontraposição teórico-filosófica a Hegel, mas de uma concepção muito profunda da situação dohomem, enquanto ser individual, no mundo e perante aquilo que o ultrapassa, o infinito, adivindade. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como umconceito lógico, mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito peranteo infinito. A individualidade define a existência.Para Kierkegaard, o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização deuma totalidade infinita se compraz na finitude, porque a vê como uma etapa de algo maior, cujosentido é infinito. Ora, comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossacondição, é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por umafinalidade que, a partir de uma dimensão sobre-humana, dá coerência ao sistema e aplaca asvicissitudes do tempo.Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vêdiante de um sistema de idéias mas diante de fatos, mais precisamente de um fato fundamentalque nenhuma lógica pode explicar: a fé. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não possocompreender racionalmente; tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto nãose completam e fortalecem as luzes da razão. É, definitivamente, um modo de existir. E essemodo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. O paradoxo de Deusfeito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade.Cristo, enquanto Deus tornado homem, é o mediador entre o homem e Deus. É por meio deCristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. Cristo é portanto o fato primordial
  • 41. 41para a compreensão que o homem tem de si. Mas o próprio Cristo é incompreensível. Não háportanto uma mediação conceitual, algum tipo de prova racional que me transporte para acompreensão da divindade. A mediação é o Cristo vivo, histórico, dotado, e o fato igualmenteincompreensível do sacrifício na cruz. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do adventoda Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e dosistema. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. Oacesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo, naquilo que São Paulo já haviachamado de "loucura". No entanto, é o absurdo que possibilita a Verdade. Se permanecesse adistância infinita que separa Deus e o homem, este jamais teria acesso à Verdade. Foi amediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. Porisso devemos dizer: creio porque é absurdo. Somente dessa maneira nos colocamos nocaminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto.Não há, portanto, outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade, o aprofundamentoda subjetividade. Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa:sem esse sentimento, jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e,conseqüentemente, da mediação do Cristo.O Sofrimento NecessárioA subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário, somenteaprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos dacompreensão original de nossa natureza: o pecado original. E a compreensão irradia luz sobre aredenção e a graça, igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos, ouseja, de posse da verdade humana do cristianismo. A autêntica subjetividade, insuperável modode existir, se realiza na vivência da religiosidade cristã.A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolviasua época. Seu profundo significado a-histórico tem a ver, mais do que com essa característicado Romantismo, com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneosde Cristo. O fato da redenção, embora histórico, possui uma dimensão que o torna referênciaintemporal para se vivenciar a fé. O cristão é aquele que se sente continuamente em presençade Deus pela mediação do Cristo. Por isso a religião só tem sentido se for vivida comocomunhão com o sofrimento da cruz. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de suaépoca, principalmente o protestantismo dinamarquês, penetrado, segundo ele, de conceituaçãofilosófica que esconde a brutalidade do fato religioso, minimiza a distância entre Deus e ohomem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé.Essa angústia, no entender de Kierkegaard, estaria ilustrada no episódio do sacrifício deAbraão. Esse relato bíblico indica a solidão e o abandono do indivíduo voltado unicamente paraa vivência da fé. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrarsua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens.Não se trata, nesse caso, de optar entre dois códigos de ética, ou entre dois sistemas de valores.Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. Ele não possui razões paramedir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Tudo está suspenso, exceto a relação com Deus.O Salto da FéAbraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos(individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade, a comunidade), como no caso datragédia grega. Nada está em jogo, a não ser ele mesmo e a sua fé. Deus não está testando asabedoria de Abraão, da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou deAgamenon. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito.Mas, caso o sacrifício se tivesse consumado, Abraão ainda assim não teria como justificá-lo àluz de uma ética humana. Continuaria sendo o assassino de seu filho. Poderia permanecerdurante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. Do pontode vista humano, a dúvida permaneceria para sempre. No entanto Abraão não hesitou: a fé fezcom que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto, âmbito emque o entendimento é cego. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso.A fé representa um salto, a ausência de mediação humana, precisamente porque não pode haver
  • 42. 42transição racional entre o finito e o infinito. A crença é inseparável da angústia, o temor deDeus é inseparável do tremor.Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé, ela não pode ser elucidada peloconceito. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual.Existir é existir diante de Deus, e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que aconsciência vacile como diante de um abismo. Não se pode apreender racionalmente acontemporaneidade do Cristo, que faz com que a existência cristã se consuma num instante eao mesmo tempo se estenda pela eternidade. A fé reúne a reflexão e o êxtase, a procurainfindável e a visão instantânea da Verdade; o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo acondição de salvação, já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo.Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões, que afinal são derivadas de estar ofinito e o infinito em presença um do outro, não constituirá fundamento adequado da vida e daação. A filosofia deve ser imanente à vida. A especulação desgarrada da realidade concreta nãoorientará a ação, muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam porconceitos, mas por alternativas e saltos. Capítulo IX Gestalt A Gestalt surgiu nas primeiras décadas deste século como uma espécie de resposta ao atomismo psicológico, escola que pregava uma busca do todo psicológico através da soma de suas partes mais elementares; o complexo viria pura e simplesmente da reunião de seus elementos mais simples, era uma escola de adição. A Escola da Forma dizia o contrário: não podemos separar as partes de um todo pois dele elas dependem e não fazem sentido, pelo menos o mesmo, senão enquanto partes formadoras daquele todo. Em seu início, havia duas correntes na Gestalt, a dos dualistas e a dos monistas: os primeiros acreditavam existir uma percepção mental que diferiria da sensorial. Sendo assim, perceberíamos os elementos separadamente e só então eles formariam o todo através de uma ação do espírito, de uma percepção mental. Um desenho, por exemplo, não é um todo, mas o que estaria produzindo a forma total que percebemos, o que ligaria seus elementos seria o espírito. Encontram-se nessa corrente muitos resquícios do atomismo psicológico, enquanto que os monistas realmente romperam com eles, ao sustentarem que as partes dependem mais do todo que ele destas, que é ele quem as determina. Para os monistas o esquema da percepção seria, basicamente: estímulos sensoriais -> forma -> sensação. Para os monistas, forma e matéria não são separáveis, os elementos de uma forma não existem em si, singularmente, isso só seria possível através de abstração. Todos os elementos aparecem ao mesmo tempo, e um observar um ou outro, um tomar um ou outro como figura ou fundo tornaria a experiência diferente. Cada parte é percebida como elemento formador do todo, pertencente a ele. A Gestalt como teoria filosófica Em um âmbito filosófico (a Gestalt chegou a ser considerada uma filosofia da forma), pode- se dizer que foi deixado de lado o ego cogito cartesiano para, como Husserl (que foi, de fato, mestre de Koffka, um dos papas desta escola), adotar-se um ego cogito cogitatum: não há uma ruptura entre consciência - ou sensação, no caso da escola da forma - e mundo. O "resíduo" a que se pode chegar por uma redução, uma dissecação do real - ou de uma forma - não é o "eu penso", mas a correlação entre o eu penso e o objeto de pensamento (o ego cogito cogitatum).
  • 43. 43Em suma, não existiria consciência enquanto tal, mas toda consciência seria consciência de.Isso, porém, não se dá de forma separada, como pretendiam os associacionistas (escola dapsicologia que predominou no século XIX), mas concomitante: tomemos como exemplo umcarro na estrada, seguindo em direção contrária a você. Para os associacionistas, há umintervencionismo do pensamento, ou seja, suas sensações lhe dizem que o carro estádiminuindo à medida em que se afasta, mas, sendo conhecedor das leis da física, ou mesmo játendo passado por esta experiência, seu pensamento reagiria, corrigindo o equívoco. O dadosensorial seria menos real que a percepção, e interpretado de acordo com a experiência.Já para a Gestalt, isso tudo aconteceria de uma só vez e não através da experiência, mas deacordo com o que é dado na situação em si. Cada vez seria diferente, se apenas um doselementos formadores diferisse; o todo seria o que há de mais importante, o que vale aqui nãoé a experiência, todavia o agora e o que é dado nesse agora. Percebe-se de maneira diferentede acordo com o contexto em que o objeto/excitante está inserido, nossa sensação é global evaria dependendo do evento/forma.Essa foi a concepção que acabou, por assim dizer, "triunfante" em relação à outra, e seusdefensores, Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, acabaram por se tornar figurasde maior importância na Escola da Gestalt.Essa teoria da forma não se manteve apenas dentro dos limites da psicologia, mas pretendeu seestender à Física e à Filosofia, admitindo a existência de formas fisiológicas e de formasfísicas, além das formas psicológicas: as primeiras dizem respeito aos organismos vivos, quefuncionariam do todo para o uno; as células seriam dependentes do organismo e não ocontrário porque este teria a capacidade de se adaptar. As segundas tratam do mundo físico:este tenderia, também, a um equilíbrio total, uma busca da boa forma, mais homogênea esimétrica. Finalmente, as formas psicológicas, que são colocadas de uma maneira bemmaterialista: os gestaltistas não admitem a existência de um espírito, de alma, mas que tudo sereduz à matéria bruta, sendo as formas psicológicas o subjetivo das fisiológicas e estas apenasreduzidas às formas físicas.Organização Perceptual - Assimilação e Contraste; Figura e fundoSomos bombardeados por estímulos físicos todo o tempo e, para compreendê-los, formamosorganizações perceptuais (termo que se aplica tanto ao processo de organização quanto aoresultado em si). Há várias maneiras de se organizar esses estímulos, e, de fato, o fazemos,mas de tal modo que exista sempre apenas uma: nunca há dois tipos de organização em um sómomento. Esse empreendimento se dá de maneira espontânea, inerente ao indivíduo, porém oconsciente pode exercer um papel nesse processo, pois a organização perceptual ocorre dentroe fora da consciência: se a pessoa quiser, poderá criá-la conscientemente, mas se não o fizer, oinconsciente agirá.Um ponto importante no processo de organização perceptual é a diferenciação do campoperceptual. A maneira com que a forma é apresentada pode, por exemplo, suscitar fenômenoscomo a associação e o contraste.O primeiro destes princípios diz respeito a uma homogeneização das partes da forma a quesomos compelidos quando não há fronteiras entre elas, ou quando não as percebemos. Oscontornos se tornam importantes neste sentido: tendemos a tornar cada parte homogênea emmatéria de luz; a assimilação pode acontecer quando há proximidade, especialmente quandoestas áreas próximas não estão delimitadas. Já o contraste consiste em perceber-se umadiferença maior do que ela realmente é, e ocorre quando há uma separação das partes, quase demaneira contrária à assimilação.Porém deve-se sempre lembrar que, tanto assimilação como contraste são "regidos" pelaorganização perceptual total, podendo, até mesmo haver a ocorrência dos dois fenômenos emum mesmo objeto, dependendo de, por exemplo, qual o fundo sob o qual está a figura. Estesdois conceitos, fundo e figura, são os mais simples da forma de organização perceptual: em
  • 44. 44qualquer campo diferenciado, uma das partes sempre parece "saltar", se salientar em relação àsoutras. A ela damos o nome de figura, sendo o fundo todo o resto.O que nos permite diferenciá-los, enxergar uma separação entre ambos é o contorno: umafronteira física que mais parece pertencente à figura, conferindo forma a ela. Se há umainversão, se a figura passa a parecer fundo e vice-versa, então o contorno passará, logicamente,a parecer pertencer à nova figura. A figura sempre parece possuir o contorno. Se, em umaforma, não fica muito clara essa separação (sendo que sempre veremos uma parte como figurae outra como fundo; o que pode não ficar claro é o que qual das partes é definitivamente), háuma flutuação, percebemos alternadamente os elementos como figura e fundo; porém, sempreum de cada vez, e sempre um. Bom, nesse caso, ao acontecer essa flutuação, o contorno passaa nos parecer completamente diferente em cada um dos casos. Pode acontecer, também, dealgo ser definido como figura embora não haja um contorno, uma linha física que o delimite:esse fenômeno é conhecido como fechamento e é muito comum, posto que certas formas estãode uma maneira que nos pareça completa, não cabendo ali nenhum tipo de modificação; écomo se elas se bastassem, fossem suficientes, enfim, completas em si.Na determinação de o que é figura e fundo influem diversos fatores, como tamanho elocalização, ou, caso esses sejam os mesmos, a área que for menor ou mais fechada.Geralmente, o que pode ser agrupado com mais facilidade, pareça seguir uma "linha", for maishomogêneo, ou até mesmo o que for mais conhecido para quem observa (e aí entra a questãoda subjetividade na percepção) passará a ser visto como a figura. Há até mesmo a influênciado sistema nervoso e outros processos do tipo nessa determinação.Figura e fundo são diferenciados não só em formas visuais, vale lembrar; tendemos a separá-los em todas as experiências de percepção. Na chamada música pop, por exemplo, geralmentepercebemos a voz do cantor como figura e o instrumental como fundo, comoacompanhamento.Agrupamento Perceptual - WertheimerPode haver, e na maioria das vezes há, mais de dois elementos na forma: nesse caso, o queseria figura? E fundo? Por quê? Max Wertheimer, tido como o fundador da teoria da Gestalt,propõe em seu "Raciocínio Visual" certos princípios, a seguir:1) ProximidadeEm condições iguais, eventos próximos no tempo e espaço tenderão a permanecer unidos,formando um só todo:OO OO OO OO OO OO OOOO OO OO OO OO OO OOOO OO OO OO OO OO OO2) SemelhançaEventos semelhantes se agruparão entre si:OXOXOXOXOXOXOOXOXOXOXOXOXOOXOXOXOXOXOXOEssa semelhança se dá por intensidade, cor,odor, peso, tamanho, forma etc. e se dá emigualdade de condições.3) Semelhança + ProximidadeÉ a simples adição dos dois princípios anteriores, se em condições iguais:
  • 45. 45OO OX XO OOOO OX XO OOOO OX XO OO4) Lei da Boa ContinuidadeÉ o acompanhamento de uns elementos por outros, de modo que uma linha ou uma formacontinuem em uma direção ou maneira já conhecidas.____|____ = ________ |5) PregnânciaHá formas que parecem se impor em relação às outras, nos fazendo, por muito tempo, nãoconseguir ver outra forma de distribuição:OO OO OO OO OO OO OO OO OOOO OO OO OO OO OO OO OO OOOO OO OO OO OO OO OO OO OO6) Destino ComumHá certos elementos que parecem se dirigir a um mesmo lugar, se destacando de outros quenão o pareçam.7) Persistência do Agrupamento OriginalEm todos as formas, todos os estímulos, os elementos aproximam-se uns dos outros etendemos a fazer com que os grupos continuem os mesmos.8) Experiência Passada ou AprendizagemÉ a subjetividade do percebedor: para cada um a percepção pode ser diferente, de acordo coma experiência do indivíduo, de acordo com o que ele já viveu ou aprendeu, conheceu.Tomemos como exemplo um texto qualquer: para um analfabeto ou alguém que não conheça alíngua em questão, parecerá uma confusã completa, mas, para aquele que saiba ler ou conheçaa língua, parecerá inteiramente inteligível.9) Clausura ou FechamentoOs elementos de uma forma tendem a se agrupar de modo que formem uma figura mais totalou fechada.ConclusãoEssas tendências ou princípios, dependendo de sua intensidade podem produzir efeitosdiferentes, devemos sempre lembrar que, para a Escola da Forma, o todo não é apenas a somadas partes, sua essência depende da configuração das partes.A partir disso, podemos trazer ainda algumas considerações e conceitos finais: a transposiçãodas formas, por exemplo, é de um valor muito grande dentro do que foi dito no parágrafoanterior; podemos transpor a mesma forma a partir de elementos diferentes, de modo que aforma original ainda possa ser reconhecida, como em:OOXXOO, XXou em uma melodia cujas notas sejam aumentadas todas em um tom, ou seja, o todo é a
  • 46. 46configuração de seus elementos, mas também difere de acordo com os elementos em si.Porém, não podemos nos esquecer da parte-todo, isto é, que as partes dependem da naturezado todo.Por último, vale falar, mais uma vez, sobre a subjetividade na percepção: deve-se levar emconta a experiência vivida pelo sujeito, o seu nível de conhecimento ou familiaridade com oassunto tratado et sic per omnia.Enfim, a Escola da Gestalt não se limitou apenas à percepção, mas expandiu suas teorias avárias áreas de conhecimento, revolucionando a psicologia e influenciando diretamente muitospensadores. Pode-se dizer, por exemplo, que o behaviorismo de Skinner bebe basicamente dafonte da Gestalt.Esta foi e continua sendo uma escola revolucionária e de um imenso valor histórico.
  • 47. 47 Capítulo X Gestalterapia de Friederich PerlsA teoria da Gestalt desenvolveu-se como protesto contra a análise atomística vigente no finaldo século XIX. A análise atomística tentava compreender a experiência da pessoa de formaque os elementos dessa experiência eram reduzidos aos seus componentes mais simples,sendo que cada componente era analisado separadamente dos outros e, a experiência total eraentendida como uma soma destes componentes. A chamada Gestalt-terapia surge no início dadécada de 50, a partir das reflexões de Friederich Perls, um psicanalista nascido em Berlimem 1893, que emigrou durante a década de 40 para a África do Sul e posteriormente para osEstados Unidos da América, onde juntamente com um grupo de intelectuais norte-americanosdesenvolveu esta nova abordagem.1. Crescimento PsicológicoPerls definia a saúde e a maturidade psicológicas como sendo a capacidade de emergir doapoio e da regulação ambientais para um auto-apoio e uma auto-regulação. O processoterapêutico representa um esforço na direção desta emergência. O elemento crucial no auto-apoio e na auto-regulação é o equilíbrio. Uma das proposições básicas da teoria da Gestalt éque todo organismo possui a capacidade de realizar um equilíbrio ótimo consigo e com seumeio. As condições para realizar este equilíbrio envolvem uma conscientização desobstruídada hierarquia de necessidades, que descrevemos anteriormente. Uma apreciação plena destahierarquia de necessidades só pode ser realizada através da conscientização que envolve todoorganismo, uma vez que necessidades são experienciadas por cada parte do organismo e suahierarquia é estabelecida por meio de sua coordenação. Perls considera o ritmo decontato/fuga com o meio ambiente como componente principal do equilíbrio do organismo. Aimaturidade e a neurose implicam uma percepção impropria do que constitui este ritmo ouuma incapacidade de regular seu equilíbrio. Indivíduos auto-apoiados e auto-regulados secaracterizam pelo livre fluir e pelo delineamento claro da formação figura-fundo (definição desentido) nas expressões de suas necessidades de contato e retraimento. Tais indivíduosreconhecem sua própria capacidade de escolher os meios de satisfazer necessidades à medidaque estas emergem. Têm consciência das fronteiras entre e eles mesmos e os outros e estãoparticularmente conscientes da distinção entre suas fantasias sobre os outros (ou o ambiente)e o que experienciam através do contato direto.2. Psicologia da GestaltEmbora não haja equivalente preciso em português para a palavra alemã gestalt, o sentidomais geral que se pode dar ao termo seria uma espécie de disposição ou configuração de umaorganização específica das partes que constituiria um todo particular. O princípio maisimportante da abordagem gestáltica é a afirmação de que a análise das partes nunca podeproporcionar uma compreensão do todo, uma vez que o todo será definido pelas interações einterdependências das partes. As partes de uma gestalt não mantêm sua identidade quandoestão separadas de sua função e lugar no todo. Assim sendo, a teoria da Gestalt foiinicialmente formulada no final do século XIX na Alemanha e Áustria. Em 1912, MaxWertheimer publicou um trabalho considerado o fundamento da escola gestáltica, ondedescrevia um experimento executado por Wertheimer e seus colegas, planejado para explorarcertos aspectos da percepção do movimento. Numa sala escura, eles faziam reluzir em rápidasucessão dois pontos de luz próximos um do outro, variando os intervalos de tempo entre osclarões. Descobriram que quando o intervalo entre os clarões era menor que 3/100 desegundo, eles pareciam simultâneos. Quando o intervalo era de 6/100 de segundo, oobservador dizia ver o clarão mover-se do primeiro ponto ao segundo. Quando o intervalo erade 20/100 de segundo ou mais, os pontos de luz foram observados como o eram de fato, ou
  • 48. 48seja, dois clarões de luz separados. A descoberta crucial do experimento refere-se à percepçãode movimento quando os clarões estavam separados por aproximadamente 6/100 de segundo.O movimento aparente não era função dos estímulos isoladamente, mas dependia dascaracterísticas relacionadas à organização neural e perceptiva do campo. Os resultados desteexperimento levaram a algumas reformulações fundamentais no estudo da percepção e,durante as décadas de vinte, trinta e quarenta do nosso século, a teoria da Gestalt foi aplicadaao estudo da aprendizagem, resolução de problemas, motivação, psicologia social e, até certoponto, à teoria da personalidade. A escola gestáltica causou enorme impacto em todo o campoda Psicologia. Na metade do século XX, a abordagem desta escola tinha-se tornado tãointrínseca à corrente central da Psicologia que a noção de um movimento gestáltico por sipróprio e emancipado deixou de existir. Uma contribuição importante dos adeptos da Gestaltrefere-se à exploração da maneira como as partes constituem e estão relacionadas com umtodo. Além disso, a teoria da Gestalt ofereceu algumas sugestões a respeito dos modos pelosquais os organismos se adaptam para alcançar sua organização e equilíbrio ótimos. Umaspecto desta adaptação envolve a forma pela qual um organismo torna suas percepçõessignificativas, a maneira pela qual distingue figura do fundo. A escola gestáltica estendeu ofenômeno figura-fundo para descrever a maneira pela qual um organismo seleciona o que éou não é de seu interesse num dado momento. Para um homem sedento, um copo de águacolocado entre seus pratos favoritos emerge como figura principal contra o fundo menosimportante constituído pela comida. A percepção adapta-se à necessidade, capacitando-nos asatisfazer nossas necessidades. Uma vez satisfeita a sede do exemplo, sua percepção dapessoa sobre o que é figura e o que é fundo provavelmente se modificará, de acordo com asmudanças nos interesses e necessidades dominantes. Embora, por volta de 1940 a teoria daGestalt já tivesse sido aplicada em muitas áreas da Psicologia, foi em grande parte ignoradano exame da dinâmica da estrutura da personalidade e do crescimento pessoal. Além do mais,ainda não havia nenhuma formulação de princípios da Gestalt específicos para psicoterapia.Assim, a partir desse ponto podemos começar a ver o papel de Fritz Perls, responsável pelaampliação da teoria da Gestalt na psicoterapia e de uma teoria de mudança psicológica. Aabordagem gestáltica inspirou-se em formulações da Psicologia e da Filosofia, adotandoalguns referenciais, tais como, a percepção gestáltica de que "o todo é diferente da soma daspartes". A percepção gestáltica propõe que todo fenômeno psíquico seja visto como um todo,em suas relações e dinamismos. Por essa razão a Gestalt não considera o comportamento dapessoa isoladamente. Ela procura explorar a situação em que se deu, sua importância esignificado naquele momento e situação. Considera o homem como um ser em relação, seuorganismo é um sistema em equilíbrio, ou em constante busca de equilíbrio e auto-regulaçãoem sua relação com o meio. O terapeuta gestáltico é especialmente atento à forma como seexpressa o cliente, não só em termos de verbalização, mas também em termos de linguagemgestual, corporal. motora. Perls mostra que a agressividade também desempenha um papelconstrutivo na maneira como a pessoa se relaciona com o mundo e consigo mesma.3. Existencialismo e FenomenologiaPerls descreveu a Gestalt-terapia como uma terapia existencial, baseada na filosofiaexistencial e utilizando-se de princípios considerados existencialistas e fenomenológicos.Embora a Gestalt-terapia não se tenha desenvolvido diretamente a partir de antecedentesfenomenológicos e existenciais particulares, vários aspectos do trabalho de Perls equiparam-se àqueles desenvolvidos em muitas escolas do existencialismo e fenomenologia. A influênciadestas escolas foi difusa, porém substancial. Em geral, Perls contestava de forma ferrenha aidéia de que se poderia abranger o estudo do ser humano através de uma abordagemcientífico-natural-mecanicista inteiramente racional, como recomendava o positivismo. Apartir disso, Perls associou-se à maioria dos existencialistas, insistindo que o mundo vivencialde um indivíduo só pode ser compreendido por meio da descrição direta que o próprioindivíduo faz de sua situação única. Do mesmo modo, Perls sustentou que o encontro do
  • 49. 49terapeuta com um paciente, constitui um encontro existencial entre duas pessoas e não umavariante do clássico relacionamento médico-paciente. O primeiro livro publicado porFriederich Perls, antes mesmo do nascimento da Gestalt-Terapia, foi "The Ego, Hunger andAggression"(1942), onde expressa de forma condensada sua crítica à teoria de Freud. A idéiade que mente e corpo constituem dois aspectos diferentes da existência diferentes ecompletamente separados, era uma noção que Perls, assim como os existencialistas, achavamintolerável. De acordo com suas objeções, assim como não poderia haver cisão entre mente ecorpo, abandonou também a idéia da cisão entre sujeito e objeto e, mesmo, a da cisão entreorganismo e meio. Ao invés de considerar que cada ser humano encontra um mundo que eleexperiencia como sendo completamente separado de si mesmo, Perls acreditava que aspessoas criam e constituem seus próprios mundos. Dessa forma o mundo existe para um dadoindivíduo como sua própria descoberta do mundo. O conceito de intencionalidade é básico,tanto para o existencialismo e fenomenologia quanto para o trabalho de Perls. A mente ouconsciência é entendida como intenção e não pode ser compreendida à parte do que é pensadoou pretendido. Os sentidos dos atos psíquicos ou intenções devem ser alcançados em seuspróprios termos, fenomenologicamente, e em termos de sua própria intenção particular.Assim, a crítica existencialista da noção freudiana de instintos é a mesma de Perls, e a libidoconstitui um ato psíquico, nem mais básico nem mais universal que qualquer outro. Todo atopsíquico é intenção, e toda intenção deve ser compreendida em seus próprios termos, e nãoem termos de um ato psíquico mais básico. Entre o pensamento existencialista, dois temassão da maior importância; a experiência do nada e a preocupação com a morte e o medo. Aoexaminar a visão que Perls tem da neurose, veremos que esses mesmos temas tambémconstituem elementos importantes em sua teoria sobre o funcionamento psicológico. Ométodo fenomenológico de compreender através da descrição é básico no pensamento dePerls. Todas as ações implicam escolha, todos os critérios, de escolha são eles própriosselecionados e explanações causais não são suficientes para justificar as escolhas ou ações dealguém. Além disso, a confiança fenomenológica na intuição para o conhecimento dasessências assemelha-se à confiança de Perls naquilo que ele chama de inteligência ousabedoria natural do organismo. Finalmente, o próprio modo de Perls propor sua abordageminclui, como qualquer descrição fenomenológica, as características fenomenológicas eexistenciais descritas acima. Seus livros não são argumentações descrevendo um ponto devista particular, uma vez que, na estrutura fenomenológica, a argumentação perde o sentido anão ser que o leitor, fora do contexto de sua própria experiência, decida aceitar as premissasde Perls desde o início. O estilo de Perls é imaginativo e pessoal, e sua tentativa é existencialno sentido em que propõe uma teoria do desenvolvimento psicológico que é inseparável doenvolvimento de Perls com seu próprio desenvolvimento.4. O Organismo como um TodoUm conceito fundamental subjacente ao trabalho de Perls tem sua formulação explícita, comovimos, a partir do trabalho dos psicólogos da Gestalt. Na teoria de Perls, a noção deorganismo como um todo é central, tanto em relação ao funcionamento orgânico quanto àparticipação do organismo em seu meio para criar um campo único de atividades. Nocontexto do funcionamento intra-orgânico, Perls insistia em que os seres humanos sãoorganismos unificados e em que não há nenhuma diferença entre o tipo de atividade física emental. Perls definia atividade mental como atividade da pessoa toda que se desenvolve numnível mais baixo de energia que a atividade física. Esta concepção dos níveis de atividades docomportamento humano levou Perls a sugerir que qualquer aspecto do comportamento de umindivíduo pode ser considerado como uma manifestação do todo, do ser total da pessoa.Assim sendo, na terapia, o que o paciente faz ou como ele se movimenta, fala e assim pordiante, fornece tanta informação a seu respeito quanto o que ele pensa ou diz.Além do holismo ao nível orgânico, Perls acentuou a importância do fato de considerar oindivíduo como parte perene de um campo mais amplo, o qual inclui o organismo e seu meio.
  • 50. 50Assim como Perls protestava contra a noção de divisão corpo-mente, protestava tambémcontra a divisão interno-externo. Ele considerava que a questão das pessoas serem dirigidaspor forças internas ou externas não tinha nenhum sentido em si, uma vez que os efeitoscausais de um são inseparáveis dos efeitos causais do outro. Há, no entanto, um limite decontato entre o indivíduo e seu meio e é esse limite que define a relação entre eles. Numindivíduo saudável este limite é fluido, sempre permitindo contato e depois afastamento domeio. Contatar constitui a formação de uma gestalt e afastar-se representa seu fechamento.Num indivíduo neurótico as funções de contato e afastamento estão perturbadas, e ele seencontra frente a um aglomerado de gestalten que estão de alguma forma inacabadas ou nemplenamente formadas nem plenamente fechadas. Perls sugeriu que as pistas para este ritmode contato e afastamento são ditadas por uma hierarquia de necessidades. As necessidadesdominantes emergem como ou figura contra o fundo da personalidade total. A ação efetiva édirigida para a satisfação de uma necessidade dominante. Os neuróticos são freqüentementeincapazes de perceber quais de suas necessidades são dominantes ou de definir sua relaçãocom o meio, de forma a satisfazer tais necessidades. Assim, a neurose acarreta alterações nosprocessos funcionais de contato e afastamento, e acabam causando uma distorção naexistência do indivíduo enquanto organismo unificado.5. Ênfase no Aqui e AgoraA visão holística levou Perls a dar ênfase particular à importância da auto-percepção presentee imediata que um indivíduo tem de seu meio. Os neuróticos são incapazes de viver nopresente, pois carregam cronicamente consigo situações inacabadas (gestalten incompletas)do passado. Sua atenção é, pelo menos em parte, absorvida por essas situações e eles não têmnem consciência nem energia para lidar plenamente com o presente. Visto que a naturezadestrutiva destas situações inacabadas aparece no presente, os indivíduos neuróticos sentem-se incapazes de viver com sucesso. Assim, a Gestalt-terapia não investiga o passado com afinalidade de procurar traumas ou situações inacabadas, mas convida o paciente simplesmentea se concentrar para tornar-se consciente de sua experiência presente, pressupondo que osfragmentos de situações inacabadas e problemas não resolvidos do passado emergirãoinevitavelmente como parte desta experiência presente. À medida que estas situaçõesinacabadas aparecem, pede-se ao paciente que as represente e experimente de novo, a fim decompletá-las e assimilá-las no presente. Perls definiu ansiedade como a lacuna, a "tensãoentre o agora e o depois". A inabilidade das pessoas para tolerar essa tensão, sugeria Perls,leva-as a preencher a lacuna com planejamentos, ensaios e tentativas de tornar o futuroseguro. Isto não apenas desvia a energia e a atenção do presente, criando assim situaçõesinacabadas perpetuamente, mas também impede o tipo de abertura para o futuro, decorrentedo crescimento e da espontaneidade. Além da natureza estritamente terapêutica desteenfoque ligado à conscientização do presente, uma tendência subjacente ao trabalho de Perls éa apologia de viver com a atenção voltada para o presente, ao invés do passado ou futuro,como algo bom que leva ao crescimento psicológico. Aqui vemos mais uma vez como otrabalho psicológico de Perls está fortemente baseado num contexto filosófico, num tipo deweltanschauung que pressupõe que a experiência presente de uma pessoa, num dadomomento, é a única experiência presente possível e que a condição para se sentir satisfeito erealizado a cada momento da vida é a simples aceitação sincera desta experiência presente.6. A preponderância do Como sobre o PorquêUma conseqüência natural da orientação fenomenológica de Perls e de sua abordagemholística é a ênfase na importância da compreensão da experiência de uma maneira descritivae não causal. Estrutura e função são idênticas e se um indivíduo compreende como fazalguma coisa, esta pessoa está na posição de compreender a ação em si. Segundo Perls, odeterminante causal, ou seja, o porquê da ação, é irrelevante para qualquer compreensão plenada mesma. Perls considera que toda ação tem causas múltiplas, assim como toda causa temcausas múltiplas, e as explicações de tais causas nos distanciam mais e mais da compreensão
  • 51. 51do ato em si. Além disso, uma vez que todo elemento da existência de alguém só pode sercompreendido como parte de uma das várias gestalten, não há qualquer possibilidade desteelemento ser compreendido como sendo "causado" separadamente de toda a matriz de causasda qual participa. Uma relação causal não pode existir entre elementos que formam um todo;todo elemento causa e é causado por outros. Assim, na prática da Gestalt-terapia, a ênfase estáem ampliar constantemente a consciência da maneira como a pessoa se comporta, e não emesforçar-se para analisar a razão pela qual a pessoa se comporta de tal forma.7. ConscientizaçãoOs três principais conceitos da abordagem de Perls examinados até agora, o organismo comoum todo, a ênfase no aqui e agora, e a preponderância do Como sobre o Porquê, constituem osfundamentos para entender a conscientização, o ponto central de sua abordagem terapêutica.O processo de crescimento, nos termos de Perls, é um processo de expansão das áreas deautoconsciência e o fator mais importante que inibe o crescimento psicológico é a fuga daconscientização. Perls acreditava plenamente no que ele chamava de sabedoria do organismo.Considerava o indivíduo maduro e saudável um indivíduo auto-apoiado e auto-regulado. Viao cultivo da autoconscientização como sendo dirigido para o reconhecimento da naturezaauto-reguladora do organismo humano. Segundo a teoria da Gestalt, Perls sugeriu que oprincípio da hierarquia e necessidades está sempre operando na pessoa. Em outras palavras, anecessidade mais urgente, a situação inacabada mais importante, sempre emerge se a pessoaestiver simplesmente consciente da experiência de si mesma a todo momento. Perlsdesenvolveu a noção de um continuum de consciência como um meio de encorajar estaautoconscientização. Manter um continuum de consciência parece demasiadamente simples,apenas estar consciente do que estamos experienciando a cada instante. No entanto, a maioriadas pessoas interrompe o continuum quase de imediato, e esta interrupção em geral é causadapela conscientização de algo desagradável.Assim, estabelece-se a fuga em relação a pensamentos, expectativas, recordações eassociações de uma experiência à outra. Nenhuma dessas experiências associadas são de fatoexperienciadas, elas são tocadas de leve, em flashes sucessivos, sem que haja assimilação domaterial. O sujeito deixa a conscientização desagradável inicial tão fora do contexto quanto oresto do material. Esta fuga de uma conscientização contínua, esta auto-interrupção, impede oindivíduo de encarar e trabalhar com a conscientização desagradável. Ele ou ela permaneceempacado numa situação inacabada. Estar consciente é prestar atenção às figurasperpetuamente emergentes da própria percepção. Evitar a tomada de consciência é enrijecer olivre fluir natural do delineamento figura e fundo. Perls sugeria que para cada indivíduoexistem três zonas de consciência: consciência de si mesmo, consciência do mundo econsciência do que está "entre", um tipo de zona intermediária da fantasia. Ele considerava oexame desta última zona (que impede a conscientização das outras duas) como a grandecontribuição de Freud. Sugeriu, contudo, que Freud concentrou-se tão completamente nacompreensão desta zona intermediária que ignorou a importância de trabalhar para odesenvolvimento da capacidade de conscientizar-se nas zonas de si mesmo e do mundo. Emcontraste, a maior parte da abordagem de Perls inclui uma tentativa muito deliberada deampliar a conscientização e obter contato direto consigo e com o mundo. Ao acentuar anatureza do auto-apoio e da auto-regulação do bem-estar psicológico, Perls não quer dizer queo indivíduo pode existir, de algum modo, separado de seu meio ambiente. Na verdade, oequilíbrio orgânico supõe uma constante interação com o meio. O ponto crucial para Perls éque podemos escolher a maneira como nos relacionamos com o meio. Somos auto-apoiados eauto-regulados quanto ao fato de que reconhecemos nossa própria capacidade de determinarcomo nos apoiamos e regulamos dentro de um campo que inclui muito mais do que nósmesmos.Perls descreve vários modos pelos quais se realiza o crescimento psicológico. O primeiro
  • 52. 52envolve o completar situações ou resolver gestalten inacabadas. Ele também sugere que aneurose pode ser vagamente considerada como um tipo de estrutura em cinco camadas, e queo crescimento psicológico (e eventualmente a libertação da neurose) ocorre na passagematravés destas cinco camadas. Perls denomina a primeira camada de camada dos clichês ouda existência dos sinais. Ela inclui todos os sinais de contato: "bom dia", "oi", "o tempo estábom, não é?" A segunda camada é a dos papéis ou jogos. É a camada do "como se" em que aspessoas fingem que são aquelas que gostariam de ser. Assim, o homem de negócios semprecompetente, a menininha sempre bonitinha, a pessoa muito importante. Depois de termosreorganizado essas duas camadas, Perls sugere que alcançamos a camada do impasse, tambémdenominada camada da anti-existência ou do evitar fóbico. Aqui experienciamos o vazio, onada, é o ponto em que, geralmente, interrompemos nossa tomada de consciência eretrocedemos à camada dos papéis para evitarmos o nada. Se, no entanto, formos capazes demanter nossa autoconsciência neste vazio, alcançaremos a morte ou camada implosiva. Estacamada aparece como morte ou medo da morte, pois consiste numa paralisia de forçasopostas. Experienciando esta camada contraimo-nos e comprimimo-nos, ou seja, implodimos.No entanto, se pudermos ficar em contato com esta morte, alcançare-mos a última camada, acamada explosiva. Perls sugere que a tomada de consciência deste nível constitui aemergência da pessoa autêntica, do verdadeiro self, da pessoa capaz de experienciar eexpressar suas emoções. E Perls adverte: Agora, não se apavorem com a palavra explosão. Amaior parte de vocês sabe dirigir um carro. Existem milhares de explosões por minuto dentrodo cilindro. Isto é diferente da violenta explosão do catatônico: esta seria como a explosãonum tanque de gasolina. Outra coisa, uma única explosão não quer dizer nada. As assimchamadas quebras de couraça da teoria reichiana tem tão pouca utilidade quanto o insight dapsicanálise. As coisas ainda precisam ser trabalhadas. Existem quatro tipos de explosões queo indivíduo pode experienciar ao emergir da camada da morte. Existe a explosão em pesar,que envolve o trabalho com uma perda ou morte que não tinha sido previamente assimilada.Existe a explosão em orgasmo em pessoas sexualmente bloqueadas. Existe a explosão emraiva, quando sua expressão foi reprimida e, por fim, existe a explosão de alegria e riso,alegria de viver. A estrutura de nossos papéis é coesiva, pois destina-se a absorver e controlara energia destas explosões. A concepção errônea básica de que essa energia precisa sercontrolada deriva de nosso medo do vazio e do nada (terceira camada). Interpretamos aexperiência de um vazio como sendo um vazio estéril e não um vazio fecundo. Perls sugereque as filosofias orientais, a filosofia Zen em particular, têm muito a nos ensinar a respeito daexperiência do nada, positiva e geradora de vida, e a respeito da importância de permitirmos aexperiência do nada sem interrompê-la. Em todas suas descrições de como um indivíduo sedesenvolve, Perls mantém a idéia de que a mudança não pode ser forçada e que o crescimentopsicológico é um processo natural e espontâneo.8. Dinâmica PatológicaPerls considera a fuga da conscientização e a conseqüente rigidez da percepção e docomportamento como os maiores obstáculos ao crescimento psicológico. Os neuróticos(aqueles que interrompem seu próprio crescimento) não podem ver claramente suasnecessidades e tampouco podem distinguir de forma apropriada entre eles e o resto do mundo.Em conseqüência, são incapazes de encontrar e manter um equilíbrio adequado entre elespróprios e o resto do mundo. A forma que este desequilíbrio geralmente toma é a pessoasentir que os limites sociais e ambientais penetram muito fundo dentro dela mesma; a neuroseconsiste em manobras defensivas destinadas ao equilíbrio e proteção contra este mundoinvasor. Perls sugere que existem quatro mecanismos neuróticos básicos, ou distúrbios delimites capazes de impedir o crescimento: introjeção, projeção, confluência e retroflexão. (Naestrutura em cinco camadas da neurose, estes mecanismos de defesa operam basicamente nasegunda e terceira camadas). Entre as teorias de Freud e de Perls alguns dos correlatos podemser facilmente encontrados. Esses pontos de congruência podem ser vistos: na Catexia deFreud, correspondendo à figura-fundo de Perls; na libido de Freud, correspondendo à
  • 53. 53excitação básica de Perls; na associação livre de Freud, correspondendo ao continuum deconsciência de Perls; na consciência de Freud, conscientização de Perls, no enfoque de Freudna resistência e o enfoque de Perls na fuga da conscientização; na compulsão à repetição deFreud e as situações inacabadas de Perls; na regressão de Freud, correspondendo aoretraimento do meio ambiente de Perls; no terapeuta que permite e encoraja a transferênciaem Freud, e no terapeuta que é um "habilidoso frustrador" em Perls; na configuraçãoneurótica de defesa contra impulsos de Freud, e na formação rígida da gestalten de Perls; naprojeção transferencial de Freud e na projeção de Perls, e assim por dìante.9. IntrojeçãoIntrojeção ou "engolir tudo" é o mecanismo pelo qual os indivíduos incorporam padrões,atitudes e modos de agir e pensar que não são deles próprios e que não assimilam ou digeremo suficiente para torná-los seus. Um dos efeitos prejudiciais da introjeção é que os indivíduosintrojetivos acham muito difícil distinguir entre o que realmente sentem e o que os outrosquerem que eles sintam, ou simplesmente o que os outros sentem. A introjeção também podeconstituir uma força desintegradora da personalidade, uma vez que quando os conceitos e asatitudes engolidos são incompatíveis uns com os outros, os indivíduos introjetivos se tornarãodivididos.10. ProjeçãoOutro mecanismo neurótico é a projeção que, num certo sentido, é o oposto da introjeção. Aprojeção é a tendência de responsabilizar os outros pelo que se origina no self. Envolve umrepúdio de seus próprios impulsos, desejos e comportamentos, colocando fora o que pertenceao self. Perls chama a atenção para a distinção entre a projeção como processo patológico e asuposição baseada na observação, que é normal e saudável. Na doença a pessoa seriagovernada pelas projeções, falhando em reconhecê-las como hipóteses, perdendo os próprioslimites e confundindo-se em termos de identidade pessoal. O conceito de projeção enquantouma disfunção de contato do sujeito com o objeto, tem sido motivo de estudos aprofundadospor parte dos teóricos da Gestalt-terapia, desde que Perls a definiu como sendo uma tendênciapara se desapropriar dos próprios impulsos, uma inclinação em negar e não aceitar as partesda nossa personalidade que consideramos difíceis, ofensivas ou sem atrativos. Com aProjeção esperamos nos livrar de aspectos intoleráveis do self (de nós mesmos) e de nossosconflitos íntimos. A pessoa que projeta não pode aceitar seus sentimentos e ações e por issoos atribui a uma outra pessoa e aí, então, pode reconhecê-los e até criticá-los. O trabalho doterapeuta é ajudar a pessoa a recuperar pedaços de sua própria identidade, pedaços estes quese encontram projetados muito outros.11. ConfluênciaO terceiro mecanismo neurótico é a Confluência. Na confluência, os indivíduos nãoexperienciam nenhum limite entre eles mesmos e o meio ambiente. A confluência tornaimpossível um ritmo saudável de contato e de fuga, visto que tanto o primeiro quanto osegundo pressupõem um outro. Este mecanismo também impossibilita a tolerância dasdiferenças entre as pessoas, uma vez que os indivíduos que experienciam a confluência nãopodem aceitar um senso de limites e, portanto, a diferenciação entre si mesmo e as outraspessoas.12. RetroflexãoO quarto mecanismo neurótico é a retroflexão, que significa voltar-se de forma ríspida contra.As pessoa retroflexoras voltam-se contra si mesmas e, ao invés de dirigir suas energias paramudança e manipulação de seu ambiente, dirigem essas energias para si próprios. Dividem-see tornam-se sujeito e objeto de todas suas ações e passam a ser o alvo de seu comportamento.Perls diz que todos estes quatro mecanismos raramente agem isolados um do outro, embora aspessoas tendem a equilibrar suas tendências neuróticas entre esses mecanismos em variadas
  • 54. 54proporções. A função crucial desses mecanismos é preencher a confusão do neurótico nadiscriminação de limites. Dada esta confusão de limites, o bem-estar de um indivíduo, ouseja, sua capacidade de ser auto-apoiado e auto-regulado, estaria seriamente limitado. A visãode Perls destes quatro mecanismos é básica na maior parte de sua abordagempsicoterapêutica. Ele considerava a Introjeção como sendo central na luta entre o dominador eo dominado. O dominador se manifesta por um pacote de padrões e atitudes introjetados e,segundo Perls, enquanto o dominador (ou o Superego, de acordo com Freud) permaneceintrojetado e não assimilado, as exigências expressas pelo dominador continuarão a serirracionais e impostas a partir de fora. Perls sugeria que a Projeção é crucial na formação ecompreensão de sonhos. Sob seu ponto de vista, todas as partes de um sonho são projetadas,fragmentos desapropriados de nós mesmos. Todo sonho contém pelo menos uma situaçãoinacabada que envolve estas partes projetadas. Trabalhar com o sonho é recuperar tais partese, portanto, completar a Gestalt inacabada.13. CorpoPerls considera a cisão mente-corpo da maioria das psicologias como arbitrária e falaciosa. Aatividade mental é simplesmente uma atividade que funciona em nível menos intenso que aatividade física. Assim, nossos corpos são manifestações diretas de quem somos e pelasimples observação de nossos comportamentos físicos, tipo postura, respiração, movimentos,etc., podemos aprender muito sobre nós mesmos.14. Relacionamento SocialPerls considera o indivíduo como participante de um campo do qual ele é, emboradiferenciado, também inseparável. As funções de contato e fuga são cruciais na determinaçãoda existência de um indivíduo e esse aspecto de contato e fuga do meio ambiente inclui orelacionamento com outras pessoas. Na verdade, o sentido de pertencer a um grupo, segundoPerls, é o nosso principal impulso de sobrevivência psicológica. A neurose resulta da rigidezna definição do limite de contato em relação às outras pessoas e de uma inabilidade emencontrar e manter o equilíbrio com eles.15. VontadePerls acentua muito a importância da pessoa estar consciente de suas preferências e ser capazde agir sobre elas. O conhecimento de suas próprias preferências leva ao conhecimento desuas necessidades; a emergência da necessidade dominante é experienciada como preferênciapelo que satisfará a necessidade.A discussão de Perls sobre preferência está muito próxima doque se chama de vontade. Ao usar o termo "preferência", Perls está enfatizando a qualidadenatural e organísmica da vontade saudável. O "querer" é simplesmente uma das váriasatividades mentais; acarreta a limitação de consciência a certas áreas específicas a fim decompletar um conjunto de ações dirigidas para a satisfação de algumas necessidadesdeterminadas.16. EmoçõesPerls considera a emoção como a força que fornece energia a toda ação. Emoções são aexpressão de nossa excitação básica, as vias e modos de expressar nossas escolhas, assimcomo de satisfazer nossas necessidades. A emoção se diferencia de acordo com situaçõesvariadas, como por exemplo, pelas glândulas suprarenais em raiva e medo ou pelas glândulassexuais em libido. A excitação emocional mobiliza o sistema muscular. Se a expressãomuscular da emoção for bloqueada, criaremos a ansiedade, que é a contenção da excitação.Uma vez ansiosos, tentamos dessensibilizar nossos sistemas sensoriais a fim de reduzir aexcitação criada; é nesse ponto que sintomas como frigidez, se desenvolvem. Essadessensibilização emocional é a raiz da fuga da conscientização que Perls considera básica naneurose.
  • 55. 5517. IntelectoPerls acreditava que o intelecto foi supervalorizado e superutilizado em nossa sociedade, emparticular nas tentativas de compreender a natureza humana. Acreditava profundamente noque chamava de sabedoria do organismo, porém via esta sabedoria como sendo um tipo deintuição baseada mais na emoção que no intelecto, e mais em sistemas naturais do que emconceituais. Perls freqüentemente afirmava que o intelecto foi reduzido a um mecanismo decomputação usado para tomar parte numa série de jogos de encaixe. A preocupação emperguntar por que as coisas acontecem impede as pessoas de experienciarem como elasacontecem, assim sendo, a consciência emocional genuína é bloqueada em função dofornecimento de explicações. Explicar, de acordo com Perls, é propriedade do intelecto econstitui muito menos que compreender. Perls ridiculariza expressões do intelecto, como aprodução verbal, por exemplo. Achava esses elementos particularmente supervalorizados emnossa cultura. Ele sugeria existirem três níveis em tal produção: cocô-de-galinha (bate-paposocial), cocô-de-boi (desculpas ou racionalizações) e cocô-de-elefante (teorizar,especialmente de modo filosófico e psicológico).18. SelfPerls não tinha nenhum interesse em enaltecer o conceito de self a fim de incluir qualquercoisa além do cotidiano, manifestações óbvias de quem nós somos. Somos quem somos.Maturidade e saúde psicológica envolvem o sermos capazes de proclamar isto, ao invés desermos tomados pelo sentimento de que somos quem deveríamos ser ou quem gostaríamos deser. Nossos limites estão constantemente mudando na interação com nossos ambientes.Podemos, dado um certo nível de consciência, confiar em nossa sabedoria organísmica paradefinir estes limites e dirigir o ritmo de contato e fuga em relação ao meio ambiente. A noçãode "self ou "eu", para Perls, não é estática e objetivável. O "eu" é simplesmente um símbolopara uma função de identificação. O "eu" identifica-se com qualquer que seja a experiênciaemergente da figura em primeiro plano; todos os aspectos do organismo saudável (sensorial,motor, psicológico e assim por diante) identificam-se temporariamente com a gestaltemergente, e a experiência do "eu" é essa totalidade de identificações. Função e estrutura,como já vimos antes, são idênticas.19. TerapeutaPerls sugere que o terapeuta é, basicamente, uma tela de projeção na qual o paciente vê seupróprio potencial ausente; a tarefa da terapia é a recuperação deste potencial do paciente. 0terapeuta é sobretudo um habilidoso frustrador. Embora dê satisfação ao paciente dando-lheatenção e aceitação, o terapeuta frustra-o recusando-se a dar-lhe o apoio de que carece. Oterapeuta age como um catalisador que ajuda o paciente a passar pelos pontos da "fuga" e doimpasse; o principal instrumento catalisador do terapeuta consiste em ajudar o paciente aperceber como ele ou ela constantemente se interrompe, evita a conscientização, desempenhapapéis e assim por diante. (As projeções que estão envolvidas na relação do paciente com oterapeuta fornecem um aspecto bastante significativo da fuga daquele, mas, comomencionamos anteriormente, outros aspectos além dos elementos transferenciais da relaçãopaciente-terapeuta também são considerados importantes.). Finalmente, o terapeuta éhumano e seu encontro com o paciente envolve o encontro de dois indivíduos, o que incluimas também vai além do encontro definido de papéis terapeuta-paciente. Perls acreditava quea terapia individual era obsoleta, tanto ineficiente quanto via de regra ineficaz. Sugeria que otrabalho em grupos tinha muito mais a oferecer, quer o trabalho envolva explicitamente ogrupo inteiro, quer assuma a forma de uma interação entre o terapeuta e um indivíduo dentrodo grupo. Sugeria que o grupo pode ser extremamente valioso ao fornecer uma situação demundo microcósmica na qual as pessoas podem explorar suas atitudes e comportamentos unsem relação aos outros. O apoio do grupo na "emergência segura" da situação terapêuticatambém pode ser bastante útil ao indivíduo, assim como a identificação com os conflitos de
  • 56. 56outros membros e sua resolução dos mesmos.ReferênciaBallone GJ - Friederich Perls, in. PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br,revisto em 2005* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 parasaber mais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980
  • 57. 57 Capítulo XI Teoria do Campo de Kurt Lewin Em 1935, Kurt Lewin já se referia em suas pesquisas sobre comportamento social, aoimportante papel da motivação. Para melhor explicar a motivação do comportamento, elaboroua teoria de campo, que se baseia em duas suposições fundamentais.a) o comportamento humano é derivado da totalidade de fatos coexistentes;b) esses fatos coexistentes têm o caráter de um campo dinâmico, no qual cada parte do campodepende de uma inter-relação com as demais outras partes. O comportamento humano não depende somente do passado, ou do futuro, mas docampo dinâmico atual e presente. Esse campo dinâmico é "o espaço de vida que contém apessoa e o seu ambiente psicológico”. Lewin propõe a seguinte equação, para explicar ocomportamento humano: C = f (P,M)onde o comportamento (C) é função (f) ou resultado da interação entre a pessoa (P) e o meioambiente (M) que a rodeia. O ambiente psicológico (ou ambiente comportamental) é o ambiente tal como épercebido e interpretado pela pessoa. Mais do que isso, é o ambiente relacionado com as atuaisnecessidades do indivíduo. Alguns objetos, pessoas ou situações podem adquirir valência noambiente psicológico, determinado um campo dinâmico de forças psicológicas. Os objetos, pessoas ou situações adquirem para o indivíduo uma valência positiva(quando podem ou prometem satisfazer necessidades presentes do individuo) ou valêncianegativa (quando podem ou prometem ocasionar algum prejuízo). Os objetos, pessoas ou situações de valência positiva atraem o indivíduo e os devalência negativa o repelem. A atração é a força ou vetor dirigido para o objeto, pessoa ousituação; a repulsa é a força ou vetor que o leva a se afastar do objeto, pessoa ou situação,tentando escapar. Um vetor tende sempre a produzir locomoção em uma certa direção.Quando dois ou mais vetores atuam sobre uma pessoa ao mesmo tempo, a locomoção é umaespécie de resultante de forças. Lewin utilizou uma combinação de análise topológica (paramapear o espaço vital) e vetorial (para indicar a força dos motivos no comportamento),desenvolveu uma série de experimentos sobre a motivação, a satisfação e a frustração os feitosda liderança autocrática e democrática em grupos de trabalho etc. Lewin foi um profundo inspirador dos autores da Escola das Relações Humanas e dasdemais outras teorias desenvolvidas a partir desta.Ciclo Motivacional A partir da Teoria das Relações Humanas, todo o acervo de teorias psicológicas acercada motivação humana passou a ser aplicado dentro da empresa. Verificou-se que todocomportamento humano é motivado. Que a motivação, no sentido psicológico, é a tensão persistente que leva o individuo aalguma forma de comportamento visando à satisfação de uma ou mais determinadasnecessidades. O organismo humano permanece em estado de equilíbrio psicológico (equilíbriode forças psicológicas, segundo Lewin), até que um estímulo o rompa e crie uma necessidade.
  • 58. 58 Essa necessidade provoca um estado de tensão em substituição ao anterior estado deequilíbrio. A tensão conduz a um comportamento ou ação capazes de atingir alguma formade satisfação daquela necessidade. Quando satisfeita a necessidade, o organismo retoma ao seu estado de equilíbrio inicial,até que outro estímulo sobrevenha. Toda satisfação é basicamente uma liberação de tensão,uma descarga tensional que permite o retorno ao equilíbrio anterior. Equilíbrio Estímulo ou incentivo Satisfação Necessidade Tensão ComportamentoCiclo Motivacional Nem sempre a satisfação das necessidades é obtida. Pode existir alguma barreira ouobstáculo ao alcance da satisfação de alguma necessidade. Toda vez que alguma satisfação ébloqueada por alguma barreira, ocorre frustração. Havendo frustração a tensão existente não éliberada através da descarga provocada pela satisfação. Essa tensão acumulada no organismomantém o estado de desequilíbrio. Por outro lado, o ciclo motivacional pode ter outra solução além da satisfação danecessidade ou da sua frustração: a compensação ou transferência. Ocorre a compensação (outransferência) quando o indivíduo tenta satisfazer alguma necessidade impossível de sersatisfeita, através da satisfação de outra necessidade complementar ou substitutiva.
  • 59. 59 Assim, a satisfação de outra necessidade aplaca a necessidade mais importante ereduz ou evita afrustração. Desta forma toda necessidade humana pode ser satisfeita, frustradaou compensada.Ciclo Motivacional O homem frustrado pode se tornar agressivo. A liberação da tensão acumulada podeacontecer a agressividade física, verbal, simbólica, etc Tensão retida pela não-satisfação da necessidade pode provocar formas de reação, comoansiedade, aflição, estados de intenso nervosismo ou ainda outras formas de conseqüência,como insônia, distúrbios circulatórios, digestivos etc;Estilos de Comportamento MotivacionalParticipar: é o organizador do comportamento motivacional das pessoas que se preocupamespecialmente com o próprio desenvolvimento pessoal para poder fazer jus àsresponsabilidades que Ihes foram colocadas sobre os ombros. Elas têm uma atitude de grande cooperação e são reconhecidas como formadoras detalentos. Facilmente se põem em ação quando ouvem a frase: “Preciso da sua ajuda”.Agir: este estilo de comportamento motivacional se guia pela importância que dá aos desafios.Cheias de energia pessoal, essas pessoas agitam-se mais e são mais rápidas que a média daspessoas com as quais trabalha. No geral, esperam que sejam solicitadas a entrar em ação pormeio da frase que lhe faz mais sentido: “Sei que você é capaz.”Manter: é o organizador comportamental daqueles que se motivam especialmente pordesempenhar atividades que demandem análise, lógica, organização. Trata-se de alguém quetem os pés no chão e a cabeça acima dos ombros. Sensibiliza-se quando é solicitado adesenvolver cuidadosamente um trabalho.Conciliar: caracteriza aquele que tem grande habilidade de interação pessoal, sendo otimista eencorajando os demais a verem lados diferentes do problema que estão vivendo, sendodiplomatas e valorizando, sobretudo a harmonia no convívio, sente-se especialmente motivadoem situação nas quais é solicitado a vender uma idéia.Conclusão A compreensão mais ampla daquilo que foi definido como motivação não seráconseguida senão dentro da medida em que se esteja atento com relação à dimensão de ordeminterior ou intrínseca, devendo ser, por isso, um fenômeno comportamental qualitativamentediferente das ações condicionadas por estímulos externos. Esse entendimento vai influenciar necessariamente o caráter típico da filosofiaadministrativa que se assume com relação ao elemento humano dentro das organizações. A única coisa que se pode fazer para manter pessoas motivadas é conhecer suasnecessidades e oferecer fatores de satisfação de tais necessidades. O desconhecimento desse aspecto irá fazer com que paradoxalmente se consigadesmotivar as pessoas.
  • 60. 60 Portanto, a grande preocupação não reside em adotar estratégias que motivem aspessoas, mas principalmente criar um ambiente de trabalho no qual o trabalhador mantenha otônus motivacional que tinha em seu primeiro dia de trabalho.Referências BibliográficasARCHER, E. R. The myth "of motivation. The Personnel Administrator, EUA, Oec. 1978.BENNIS, W. A formação do líder. São Paulo: Atlas, 1996. BERGAMINI, C. Motivação no trabalho. São Paulo:Atlas, 1996.DRUCKER, P. Fator humano e desempenho. São Paulo: Pioneira, 1977.FAYOL, H. Administração industrial. São Paulo: Atlas, 1994. FROMM, E. A análise do homem. Rio de Janeiro:Zahar, 1978.GOLEMAN, O. A inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio deJaneiro: Objetiva, 1995. Capítulo XII A Psicologia da Consciência de William James William James escreveu sobre todos os aspectos da psicologia humana, do funcionamento cerebral até o êxtase religioso, da percepção espacial até a mediunidade psíquica. Ele freqüentemente argumentava de ambos os lados de uma questão com igual talento. Ele se concentrou na compreensão e explicação das unidades básicas do pensamento. Conceitos fundamentais, tais como as características do pensamento, atenção, hábito e sentimento de racionalidade, prenderam seu interesse. Ele se intrigava mais com a atenção em si mesma do que com os objetos aos quais se presta atenção e fascinava-se mais pelo hábito do que por constelações de hábitos específicos. A personalidade, para James, emerge da interação entre as facetas instintuais e habituais da consciência e os aspectos pessoais e volitivos. As patologias, as diferenças pessoais, os estágios de desenvolvimento, a tendência à auto- realização e todo o resto são redistribuições dos blocos de construção fundamentais fornecidos pela natureza e refinados pela evolução. Uma leitura cuidadosa de James revela contradições em suas considerações teóricas. Ele estava consciente disso, chamando-o de "pensamento pluralístico", raciocinando que é válido para alguns casos mas não para outros. James considerava que a Psicologia não era ainda uma ciência madura; não possuía suficiente conhecimento para formular leis consistentes sobre a percepção, a sensação ou a natureza da consciência. Consciência Pessoal Todo pensamento tende a ser parte de uma consciência pessoal, portanto, diz James, não existe tal coisa como uma "consciência" individual independente da pessoa a quem pertence essa consciência. Há apenas o processo de pensamento, assim como é experienciado ou percebido por um indivíduo. A consciência implica um tipo de relação externa; não é um tipo especial de substância ou de modo de ser. Mudanças de Consciência Dentro de cada consciência pessoal o pensamento está sempre se transformando. James achava que não podemos nunca ter exatamente o mesmo pensamento duas vezes. Podemos ver o mesmo objeto, ouvir o mesmo som, saborear a mesma comida, mas nossa consciência dessas percepções muda a cada vez. O que parece, numa inspeção apressada, ser um pensamento repetitivo é, na verdade, uma série em mudança continua, sendo que cada pensamento é único, parcialmente determinado por modificações prévias do pensamento original. Para justificar sua tese sobre a continuada mudança de consciência, James diz que "freqüentemente nós nos impressionamos com as estranhas diferenças em visões sucessivas de uma mesma coisa. Perguntamo-nos como pudemos ter opinado da forma que o fizemos no
  • 61. 61mês passado sobre um certo assunto. Superamos a possibilidade daquele estado de mente,embora não saibamos como. De um ano para outro vemos as coisas sob uma nova luz. O queera irreal tornou-se real, o que era excitante é agora insípido.Os amigos por quem costumávamos virar o mundo são deixados de lado; as mulheres, divinasem certo momento, as estrelas, as florestas e as águas, quão mundanas e comuns são agora; asgarotas que trouxeram uma aura do infinito são, no presente, existências dificilmentedistinguíveis; os quadros, tão vazios; assim como os livros, o que havia de tãomisteriosamente significativo em Göethe, ou de tão pesado em John Mill?"Pensamento ContínuoWilliam James dizia que, dentro de cada consciência pessoal, o pensamento é sensivelmentecontínuo. Enquanto alguns teóricos afastam-se do aparente paradoxo da personalidade comoalgo que é contínuo e que ao mesmo tempo passa por uma contínua mudança, James sugeriuuma resolução, baseada na maneira como o pensamento é experienciado.De acordo com James, cada onda de consciência momentânea, cada pensamento que passa,"sabe" de todos os que o precederam na consciência. Cada pulsação de pensamento, à medidaque se extingue, transmite o título de propriedade de seu conteúdo mental ao pensamentosucessor. O que está presente no momento, seja consciente ou não, é sempre a personalidade.Cada pensamento emergente toma parte de sua força, foco, conteúdo e direção dospensamentos precedentes. A consciência, então, não aparece a si mesma como retalhada empedaços. Palavras como "corrente" ou "caravana" não descrevem adequadamente a maneirapela qual ela se apresenta em primeira instância. Nada é desarticulado, ela flui. Um "rio" ouum "curso de água" são metáforas através das quais ela é mais naturalmente descrita. Ao falardela James a denomina curso de pensamento, consciência ou vida subjetiva.Este curso é contínuo. William James, assim como Freud, basearam muitas de suas idéiassobre o funcionamento mental nas suposições de um pensamento contínuo. Mesmo quando sepercebem brechas na consciência, não as acompanha o sentimento de descontinuidade. Porexemplo, quando acordamos pela manhã, não nos perguntamos quem está acordando, nós nãosentimos necessidade de correr a um espelho para verificar ou ver se somos nós mesmos.Você não precisa ser convencido de que a consciência com a qual acordamos é contínuaàquela com a qual fomos dormir.Escolhas de ConsciênciaA consciência é seletiva, e está sempre mais interessada em uma parte de seu objeto do queem outra e recebe, rejeita ou escolhe durante todo o tempo que pensa. O que determina umaopção sobre outra é o tema central da maior parte da Psicologia. James dirige sua atençãopara os principais determinantes do processo seletivo: atenção e hábitos.AtençãoEscritores anteriores a James assumiam que a mente é passiva e simplesmente experienciachuva sobre si. A personalidade, então, desenvolve-se na proporção direta da quantidade evariedade de experiência recebida. James considerava esta idéia ingênua e as conclusõespatentemente falsas. Antes que a experiência possa sei experienciada, precisa-se dar atenção aela. James dizia que minha experiência é aquilo a que eu concordo prestar atenção. Apenasaqueles itens que eu noto formam minha mente e sem um interesse seletivo, a experiênciaseria um caos absoluto.Somente o interesse dá acento e ênfase, luz e sombra, figura e fundo numa palavra, aperspectiva inteligível. Uma pessoa incapaz de manter a atenção é atacada pelas experiências,incapaz de ordená-las e pode ser que aja de uma maneira confusa ou caótica. Embora aatenção seja comumente predeterminada pelos hábitos mentais, é possível fazer uma opçãoreal mesmo contra estas correntes de respostas habituais.HábitosHábitos são ações ou pensamentos que aparecem aparentemente como respostas automáticasa uma dada experiência. Diferem dos instintos pelo fato da que um hábito pode ser criado,modificado ou eliminado pela direção consciente. Os hábitos são valiosos e necessários. O
  • 62. 62hábito simplifica o movimento necessário para obter um dado resultado, tornando-o maisacurado e diminuindo a fadiga. Neste sentido, os hábitos constituem uma faceta da aquisiçãode habilidades.Por outro lado, James achava que o hábito diminui a atenção consciente com a qual nossasações são realizadas. Se isto é vantajoso ou não, depende da situação. Retirar a atenção deuma ação toma-a mais fácil de ser executada, mas também a torna resistente à mudança. Ofato é que nossas virtudes são hábitos, tanto quanto nossos vícios. Toda a nossa vida, àmedida que tem forma definida, é nada mais que uma massa de hábitos práticos, emocionais eintelectuais, sistematicamente organizados, para nossa alegria ou pesar, impelindo-nos deforma irresistível para o nosso destino, qualquer que ele venha a ser.O Sentimento de RacionalidadePor que aceitamos uma idéia racional ou teoria e rejeitamos outra? James sugeriu que isto é,em parte, uma decisão emocional; aceitamos uma porque nos capacita a entender os fatos deuma forma emocionalmente mais satisfatória. James descrevia esta satisfação emocionalcomo um "intenso sentimento de tranqüilidade, paz, descanso. Esta falta total de necessidadede explicar, de discutir, de justificar é o que chamamos de sentimento de racionalidade".Antes que uma pessoa aceite uma teoria (por exemplo, qualquer das teorias expostas nestelivro), dois conjuntos diferentes de necessidades devem ser satisfeitos. Em primeiro lugar, ateoria deve ser intelectualmente agradável, consistente, lógica e assim por diante. Em segundolugar, ela deve ser emocionalmente atraente, deve encorajar-nos a pensar ou agir de formaque nos pareça satisfatória e aceitável ao nível pessoal.Outro exemplo pode ser visto na maneira como procuramos conselhos. Se, por exemplo,queremos informações sobre os efeitos de fumar maconha, aonde iríamos para obter taisinformações? Nós podemos predizer o tipo de informação e sugestões que seriam oferecidaspor nossos pais, amigos que não fumam maconha, amigos que o fazem, alguém que vendemaconha, um policial, um psiquiatra, um padre ou ministro ou um estudante que trabalha numcentro de aconselhamento universitário. É possível que possamos predizer antecipadamentetanto o tipo de informações que recebemos quanto se iríamos aceitá-las como racionais ounão.Este aspecto da tomada de decisão é via de regra ignorado. Gostamos de acreditar quetomamos decisões com bases puramente racionais, mas há sempre uma tendência emocional,outra variável crítica no processo. O sentimento de racionalidade de James é primo-irmão doconceito de racionalização de Freud. A racionalização envolve o processo de desejo e aprocura da razão para justificar um ato cometido por outras razões, freqüentementeirracionais. O sentimento de racionalidade é a carga emocional que emerge do relacionamentocom uma idéia antes que nos mobilizemos para aceitá-la ou não.Crescimento PsicológicoJames rejeitava absolutos, tais como "Deus", "verdade" ou "idealismo", em favor daexperiência pessoal e da descoberta do que funciona para o auto-aperfeiçoamento de umapessoa. Um tema freqüente em suas obras é que a evolução pessoal é possível e que todos têmuma capacidade inerente de modificar ou mudar comportamentos e atitudes. Ele conclui quehá um depósito de experiências latentes ou realizadas que subjaz ao impulso em direção aocrescimento. É esta a fundamentação das idéias práticas e sensíveis que James desenvolveupara serem usadas.A maior expressão deste núcleo subjacente é exemplificada, para James, nas experiênciasreligiosas. Essas expediências não têm uma saída intelectual própria, mas pertencem a umaregião mais profunda, mais vital e prática do que aquela ocupada pelo intelecto. Por isso sãotambém indestrutíveis a argumentos e críticas intelectuais... Tornamo-nos, portanto,convincentemente conscientizados da presença de uma esfera de vida maior e mais poderosado que nossa consciência habitual... As impressões, impulsos, emoções e excitações quedesde então recebemos ajudam-nos a viver, encontram uma segurança invencível em ummundo além dos sentidos, derretem nossos corações, transmitem significado e valor a tudo efazem-no, felizes.
  • 63. 63Formação de HábitosAs instruções de James a professores enfatizavam a importância de ensinar hábitos corretos.Recomendava para que, na aquisição de novos hábitos ou no abandono de velhos, nuncaenfrentemos uma reprovação até que o novo hábito esteja seguramente enraizado em nossavida. Cada lapso é como o deixa cair um rolo de barbante que está sendo cuidadosamenteenrolado, ou seja, um simples deslize desfaz muito mais do que várias voltas enrolarãonovamente. A continuidade do treinamento é o grande meio de fazer o sistema nervoso agirde forma infalivelmente correta.Desapego dos SentimentosEra um ponto de vista sustentado por James o de que um equilíbrio entre a indiferença aossentimentos e a expressão deles serve ao organismo da melhor forma. Para isso WilliamJames cita Hannah Smith: "Deixe que suas emoções venham ou deixe-as ir embora... e não asleve em conta de qualquer maneira.... Elas, na verdade, nada têm com a questão.... Não sãoindicadoras de nosso estado de espírito, mas meras indicadoras de nosso temperamento ou denossa condição física presente".Excitação EmocionalAo mesmo tempo que o desapego é um estado desejável, há também vantagens em estardominado pelos sentimentos. O transtorno emocional é um meio pelo qual hábitos duradourospodem ser rompidos, liberta as pessoas a tentarem novos comportamentos ou exploraremnovas áreas de percepção. O próprio James experienciou e pesquisou estados psicológicosemergentes de experiências místicas, hipnose, curas milagrosas, mediunidade, drogaspsicodélicas, álcool e crise pessoal. Ele concluiu que o evento precipitador não era o fatorcrítico, e sim a resposta que o indivíduo dava à excitação.Treinamento da VontadeMelhorar a atenção voluntária inclui treinar a vontade. Uma vontade desenvolvida permiteque a consciência atenda às idéias, percepções e sensações que não são imediatamenteagradáveis ou convidativas e que de fato podem ser difíceis ou até desagradáveis. Tente, porexemplo, imaginar-se comendo seu prato favorito. Guarde as imagens e sensaçõespredominantes em sua memória por vinte segundos. Você provavelmente não achará que issoé tão difícil.Agora, por vinte segundos, imagine que está cortando a superfície de seu polegar com umanavalha. Observe como sua atenção dispara em todas as direções assim que você tomaconsciência da sensação subjetiva da dor, da cor e umidade de seu próprio sangue, e damistura de medo, fascinação e repulsa. Apenas um ato de vontade pode inibir sua tentativainicial e instintiva de escapar da experiência.A não ser que uma pessoa desenvolva a capacidade de aprender, o conteúdo do ensino é depouca importância. O importante em toda a educação é fazer de nosso sistema nervoso umaliado ao invés de nosso inimigo. É financiar e capitalizar nossas aquisições e viverconfortavelmente dos juros do capital. Para isso, precisamos o mais cedo possível tomarautomáticas e habituais tantas ações úteis quanto pudermos, e guardamo-nos com cuidado dodesenvolvimento por caminhos provavelmente desvantajosos.A Psicologia da ConsciênciaApesar do trabalho inicial de James, o interesse pela consciência deixou de ser o centro dasbuscas da Psicologia. Em anos recentes, o pêndulo balançou de volta e o estudo daconsciência está florescendo. Associações profissionais, incluindo a Sociedade de Pesquisaem Biofeedback e a Associação de Psicologia Transpessoal, apareceram, publicando jornais eapoiando as novas linhas de pesquisa. Houve uma onda correspondente de interesse popular esurgiram artigos e best-sellers sobre a consciência.Algumas áreas têm implicações particulares para a teoria da personalidade. As pesquisas comdrogas psicodélicas, biofeedback, hipnose, meditação e percepção extra-sensorial forneceramdescobertas que questionam suposições básicas sobre a consciência e a natureza da realidadetal como nós a experienciamos. São utilizados novos métodos, novos instrumentos e uma
  • 64. 64renovada vontade de pesquisar fenômenos subjetivos num esforço de dar um fundamentocientífico às especulações filosóficas de James.Estados alterados de consciência podem ser provocados por hipnose, meditação, drogaspsicodélicas, preces profundas, privação sensorial e por um ataque de psicose aguda. Privaçãode sono ou jejum podem induzi-los. Epiléticos e pessoas que sofrem de enxaquecaexperienciam uma consciência alterada na aura que precede os ataques. A monotoniahipnótica, como vôos a elevadas altitudes feitos a sós, pode fazer emergir um estado alterado.A estimulação eletrônica do cérebro, o treinamento de ondas cerebrais alfa e teta, aclarividência ou penetrações telepáticas, o treinamento de relaxamento de músculos, oisolamento (como na Antártica) e a estimulação fótica (a luz piscando a determinadasvelocidades) podem trazer agudas modificações à consciência.Pesquisa PsicodélicaA maioria das culturas primitivas ou civilizadas tem usado ervas, sementes ou plantas a fimde alterar a química corporal, perspectivas emocionais e o nível de percepção consciente.James experimentou-o com óxido nitroso (gás hilariante) e ficou impressionado com suasexperiências.Embora de tempos em tempos aparecessem outros relatos sobre os efeitos não usuais dedrogas, estudos mais intensivos só começaram a partir da síntese da dietilamida-25 do ácidolisérgico (LSD-25), em 1943, pelo químico suíço Albert Hoffman. A viabilidade de ummaterial sintético mensurável deu margem a um amplo esforço de pesquisa internacional.O difundido uso de drogas pela cultura jovem ocasionou muitos argumentos acadêmicos,científicos e éticos que em grande parte não foram ainda resolvidos. Os efeitos reais daingestão de drogas psicodélicas eram quase ignorados numa onda de interesse a respeito dasvendas, manufatura e distribuição. Os resultados dos estudos iniciais receberam uma amplapublicidade e despertaram o interesse do público. Um efeito durável foi a introduçãodifundida de drogas na vida norte-americana.Milhões de jovens que pessoalmente experimentaram tais drogas vieram a concordar comJames de que "nossa consciência normal em vigília, nada mais é que um tipo especial deconsciência, enquanto que por toda ela, separada pela mais transparente das cortinas,repousam formas de consciência inteiramente diferentes.Implicações da Pesquisa Psicodélica para a Teoria da Personalidade1. A maioria dos teóricos da personalidade baseia-se na consciência normal em vigília. Umacaracterística desta consciência normal é a de se saber quem é, o sentido de identidade eindividualidade é estável e explícito. Estudos sobre a imagem corporal e as fronteiras do egoconcluíram que qualquer desvio de um limite seguro de ego é um sintoma psicopatológico.No estado de consciência "normal" ou usual, o indivíduo se experiencia como existindodentro dos limites de seu corpo físico (a imagem corporal), e sua percepção do meio ambienteé restringida pela extensão, fisicamente determinada, de seus órgãos de recepção externa;tanto a percepção interna quanto a percepção do meio ambiente estão confinadas dentro doslimites do espaço e tempo Em experiências psicodélicas transpessoais, uma ou várias dessaslimitações parecem ser transcendidas. Em alguns casos, o sujeito experiencia umafrouxamento de seus limites usuais de ego e sua consciência e autopercepção parecemexpandir-se para incluir e abranger outros indivíduos e elementos do mundo externo.Em outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade, mas num tempodiferente, num lugar diferente, ou num diferente contexto. Ainda em outros casos, o sujeitoexperiencia uma completa perda de sua própria identidade egóica e uma total identificaçãocom a consciência de uma outra identidade. Finalmente, nume categoria bastante ampladessas experiências psicodélicas transpessoais (experiências arquetípicas, encontros comdivindades jubilosas e coléricas, união com Deus etc.), a consciência do sujeito pareceabranger elementos que não têm nenhuma continuidade com sua identidade de ego usual eque não podem ser considerados simples derivativos de suas experiências no mundotridimensional.
  • 65. 65É possível que algumas das distinções que mantemos entre nós mesmos e o resto do mundosejam arbitrárias? A identidade pode estar mais próxima da noção de James de um campoconstantemente flutuante do que de um conjunto de limites estável e definível. Nossapercepção usual de nós próprios pode ser apenas um artifício da consciência normal.2. William James observou que experienciar aquela assim chamada "consciência mística" eraum evento raro e imprevisível. O uso amplo dos psicodélicos configurou tais estados, ou aomenos a impressão subjetiva de se ter experienciado tais estados, de forma mais acessível.Vários pesquisadores de drogas psicodélicas relatam que seus sujeitos vivem o que chamamde experiências religiosas, espirituais e transpessoais. Tornou-se importante determinar ovalor e a validade dessas experiências, agora que parecem ser mais comuns.Esta questão é de interesse para a comunidade religiosa. A conversão religiosa, asexperiências de oração, as visões e o falar em diferentes línguas, todos ocorrem em estados deconsciência alterados. A validade dessas experiências é o fundamento de muitas das diversasdoutrinas religiosas. A descoberta e o exame de substâncias usadas em rituais religiosos, queprovaram ser ativos agentes psicodélicos, reavivou o interesse dos teólogos a respeito daorigem e do significado da experiência religiosa quimicamente induzida.3. Qual o relacionamento do tempo e do espaço com a consciência? Físicos modernos evelhos místicos parecem cada vez mais próximos uns dos outros em suas tentativas dedescrever o universo conhecido. Os resultados das experiências psicodélicas sugerem que anatureza e a gênese da consciência podem ser mais realisticamente descritas por místicos efísicos modernos do que pela mais estável concepção utilizada dentro da psicologiacontemporânea.4. Weil (1972) oferece evidência de que os assim chamados "estados alterados" são não sónaturais como também necessários para o bem-estar e a saúde continuada da pessoa. Eleacredita que a menos que tenhamos oportunidade de mudar nosso estado de consciência,podem desenvolver-se sintomas emocionais graves. Ele viu o impulso para alterar apercepção consciente tal como expressa pelo uso exagerado de drogas, bebedeiras públicas,práticas religiosas, o ligar-se a alguma coisa dos adolescentes e a dança em êxtase, comoreflexo de um impulso fisiológico inato que se origina da estrutura do cérebro. Da mesmaforma que sabemos que há um impulso para a experiência sexual, pode haver um impulsoequivalente para a mudança de níveis de percepção.Vontade Livre"Meu primeiro ato de vontade livre será acreditar nela". James retorna sempre à sua própriaexperiência precoce. Ele descreve argumentos religiosos, científicos, neurológicos efilosóficos a favor e contra a existência da vontade livre, contudo, em sua conclusão, aresolução pragmática ultrapassa a maioria dos argumentos com um apelo ao senso comum.Parece ser mais útil, mais benéfico e mentalmente mais sadio acreditar na vontade livre doque não o fazer. Manter tal fé permite à pessoa tratar as decisões morais com seriedade."Todo o sentimento de realidade, toda a estimulação e o excitamento de nossa vida voluntáriadependem de nossa impressão de que nela as coisas estão sendo decididas a cada momento eque a vida não é o monótono ressoar de uma corrente que foi forjada há séculos".James argumenta que nós temos uma capacidade inata para fazer escolhas reais, apesar daslimitações genéticas, dos hábitos pessoais e de outras circunstâncias externas.Vontade de AcreditarQuando deveria a vontade determinar a fé? Quando é que é apropriado acreditar em algo semevidência bastante para justificá-lo? James apresenta dois casos em que é benéfico acreditar.Em primeiro lugar, aquelas vezes em que suspender o julgamento lhe trará uma oportunidade.Não agir, não tomar nenhuma decisão, não ocupar nenhuma posição, é um tipo de decisão emsi mesma. É uma decisão de deixar que os outros decidam por você.A segunda classe de situações inclui aquelas em que o efeito da convicção é trazer à tona ospróprios fatos que vão verificá-la... Acreditar, neste caso, é confiar, e a confiançafreqüentemente justifica a si mesma". James dá o seguinte exemplo:
  • 66. 66"Suponha, por exemplo, que você esteja escalando uma montanha e colocou-se numaposição da qual a única saída é um terrível salto. Tenha fé de que você pode fazê-lo comsucesso e seus pés serão enervados para esta façanha. Mas desconfie de si mesmo e pense emtodas as doces coisas que você ouviu os cientistas dizerem sobre os talvez e você hesitará portanto tempo que, ao final, totalmente nervoso e trêmulo ao se lançar num momento dedesespero, você rolará no abismo. Em tal caso (e ele pertence a uma enorme classe), a questãode sabedoria, assim como a de coragem, é acreditar no que está na linha de suas necessidades,pois só com esta fé a necessidade será preenchida. Recuse-se a acreditar e você poderá de fatoestar certo, pois poderá irrecuperavelmente perecer. Mas acredite, e novamente você talvezesteja certo, pois poderá salvar-se. Você torna um ou outro dos universos possíveis,verdadeiro por sua confiança ou desconfiança".Renúncia à VontadeEm tais ocasiões, ao invés de lutar para fortalecer a vontade, as pessoas devem estarpreparadas para colocá-la de lado, para renunciar a ela. Na vida religiosa, há ocasiões em quea vontade da pessoa é desarmada, outras facetas da consciência parecem assumir o controle.A vontade é necessária pata trazer a "pessoa para perto da completa unificação que é aspiradapara depois; parece que exatamente o último passo deve ser deixado para outras forças erealizado sem a ajuda de sua atividade". União mística, anulação do ego, transcendência delimitações, consciência cósmica ou consciência unificadora, são alguns dos termos usadospara descrever esta transformação. De acordo com James, ela pode ir além dos confins davontade e, em certo sentido, além das fronteiras da própria personalidade.Fortalecimento da VontadeSer capaz de fazer o que desejamos não é fácil. O desenvolvimento de uma vontadesuficientemente forte era um dos principais interesses de James em seus escritos. Ele sugeriaque um método fácil e acessível era realizar diariamente um exercício sem utilidade. "Sejasistematicamente heróico em pequenos pontos desnecessários, faça todo dia alguma coisatendo como única razão a sua dificuldade, de modo que, quando se aproximar a hora de umanecessidade terrível, eta não possa encontrá-lo desencorajado ou desarmado para suportar oteste. . . .O homem que tenha se disciplinado diariamente em hábitos de atenção concentrada, voliçãoenérgica e renúncia pessoal em coisas desnecessárias, erguer-se-á como uma torre quandotudo à sua volta se abater sobre ele; seus companheiros mortais mais fracos voarão comopalha numa rajada de vento". O ato em si mesmo não é importante, mas ser capaz de fazê-lo,apesar dele não ter importância, é o teste crítico para a vontade.SelfO Self é aquela continuidade pessoal que cada um de nós reconhece cada vez que acorda.James descreve várias camadas do self.Self MaterialA camada material do Self inclui aquelas coisas com as quais nos identificamos. O Selfmaterial abrange não apenas nossos corpos mas também nossas casas, posses, amigos efamília. Na medida em que uma pessoa se identifica com uma pessoa ou objeto externos, esteconstitui parte de sua identidade.No mais amplo sentido possível, entretanto, o Self de um homem é a soma total de tudo o queele PODE chamar de seu, não apenas seu corpo e suas forças psíquicas, mas suas roupas e suacasa, sua esposa e filhos, seus ancestrais e amigos, sua reputação e seu trabalho, suas terras eseus cavalos, os iates e as contas bancárias. Todas essas coisas lhe dão as mesmas emoções.Se elas crescem e prosperam, ele se sente triunfante; se elas minguam e desaparecem, ele sesente deprimido, não necessariamente no mesmo grau por cada coisa, mas na maioria dasvezes da mesma forma para todas.Teste você mesmo esta proposição. Imagine que alguém está ridicularizando uma pessoa,idéia ou coisa que importa a você. Você permanece objetivo avaliando os méritos do ataqueou será que você reage como se você mesmo estivesse sendo atacado? Se alguém insulta seusfilhos, seus pais, seu penteado, seu país, seu casaco, seu aparelho de som, será que você pode
  • 67. 67tomar consciência do quanto investe em cada uma dessas coisas? Algumas das confusõesentre a propriedade e a identificação podem ser esclarecidas desde que se entenda esteconceito expandido do Self.Self SocialO Self Social de um homem é o reconhecimento que ele tem por parte de seus companheiros.Constitui qualquer e todos os papéis que nós voluntária ou involuntariamente aceitamos. Umapessoa pode ter muitos ou poucos Selves Sociais, consistentes ou inconsistentes, mas, o quequer que eles sejam, ela se identifica com cada um deles na situação apropriada. James sugereque o curso adequado de ação é escolher um e sobre ele alicerçar a vida. Todos os outrosSelves daí em diante tornam-se irreais, mas o destino deste Self é real. Seus fracassos sãofracassos reais, seus triunfos, triunfos reais.Selt EspiritualO Self Espiritual é o ser interior e subjetivo de uma pessoa. É o elemento ativo de todaconsciência. Ele é a morada do interesse, não o agradável ou o doloroso, nem mesmo o prazerou a dor, como tais, mas aquilo dentro de nós para o qual falam o prazer e a dor, o agradável eo doloroso. É a fonte de esforço e atenção e o lugar do qual parecem emanar as ordens davontade. Ao fazer um exame cuidadoso, James descobriu que este Self Espiritual não é umfenômeno puramente espiritual mas que nosso sentimento total da atividade espiritual, ouaquilo que comumente recebe esse nome, é na verdade um sentimento das atividadescorporais cuja natureza exata é ignorada pela maioria dos homens.James permaneceu indeciso sobre a questão da alma pessoal, entretanto, ele realmente sentiaque havia algo além da identidade individual. Ele achava haver um continuum de consciênciacósmica, contra o qual nossa consciência apenas constrói cercas acidentais e dentro do qualnossas várias mentes mergulham como se dentro de um mar-mãe ou de um.Pesquisa em BiofeedbackBiofeedback é uma aplicação do conceito de feedback utilizado em engenharia, é o princípiomecânico que controla a maioria da maquinaria automática. Uma fornalha e seu termostato,por exemplo, formam um sistema de feedback autônomo. Biofeedback liga a vontade humanaa esse tipo de sistema. É o processo de monitorar um processo físico que ocorre em seupróprio corpo. Por exemplo, quando você usa seus dedos para sentir o pulso, você estárecebendo feedback sobre seu batimento cardíaco.Pesquisadores nessa área desenvolveram novos métodos de fornecer feedback imediato epreciso. À medida que mais processos fisiológicos eram monitorados, descobria-se que umavez que o indivíduo recebesse feedback sobre um processo, tornava-se freqüentemente capazde mantê-lo sob controle consciente. É seguro dizer que se uma pessoa tem informaçãoimediata e precisa sobre qualquer processo fisiológico, tal processo pode ser conscientementedirigido em qualquer direção desejada. O batimento cardíaco, a pressão sangüínea, atemperatura da pele, a freqüência das ondas cerebrais e a excitação sexual, todos podem serelevados ou diminuídos de forma voluntária.Os sujeitos podem não perceber que sistemas musculares ou neurais específicos estão seretesando e relaxando, mas isso não limita, de forma alguma, a efetividade do controle.Pessoas e animais podem literalmente "imaginar" sua temperatura baixa ou alta, retardar ouacelerar seu batimento cardíaco, ou mudar a freqüência de suas ondas cerebrais.As aplicações comuns incluem o controle voluntário da alta pressão sangüínea, cura deenxaquecas, intensificação das imagens visuais e o treinamento de pacientes cardíacos paracontrole de tais anormalidades como fibrilação atrial e contrações ventriculares prematuras.Implicações da Pesquisa em Biofeedback para a Teoria da Personalidade1. As capacidades do sistema nervoso estão sendo redefinidas. Costumávamos acreditar queexistia um sistema nervoso voluntário, sujeito ao controle consciente, e um sistema nervosoautomático ou involuntário que não era passível de controle consciente. Entretanto, estadistinção extinguiu-se totalmente. Hoje em dia é mais realista falar-se de um sistema nervosogrosseiro, apto para o controle consciente através de pouco ou nenhum treino e o sistema
  • 68. 68nervoso fino apto para o controle consciente através de treino especializado. Essasdefinições modificadas tornaram nossa concepção da fisiologia mais próxima da dos sistemasorientais, cujas idéias sobre personalidade estão baseadas exatamente nessas e em outrasdistinções físicas relacionadas.Todas as "maravilhas do misterioso Oriente", iogues descansando sobre uma cama deagulhas, santos sendo enterrados vivos, devotos capazes de caminhar lentamente sobre carvãoquente, eram proezas usadas pelos adeptos para demonstrar algo mais sobre a amplitude daspossibilidades humanas. Visto que hoje em dia somos capazes de replicar tais façanhas emnossos próprios laboratórios, cabe a nós olhar novamente para as implicações dessasexibições.O que significa estar "sob controle"? O controle físico subentende ou conduz ao controleemocional? Se for assim, quais as vantagens e desvantagens de se ensinar alguns tipos debiofeedback a crianças ou adultos perturbados ou a outros grupos com necessidades ouproblemas especiais?2. James definiu a vontade como a combinação de atenção e volição (desejo). Kimble ePerlmuter (1970) descobriram que o papel da vontade é crítico para a compreensão de como otreinamento de biofeedback realmente ocorre. Observam que o papel da atenção é crítico noprocesso de querer. Apresentam um exemplo trivial do que pode ocorrer se você deseja fazeralgo mas não presta atenção suficiente.VOCÊ ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO? PERGUNTA: Repita várias vezes a palavra ema.RESPOSTA: Ema, ema, ema, ema . . .PERGUNTA: Como se chama a parte branca do ovo? RESPOSTA:.... *Só se prestar muita atenção é que escapa do padrão estabelecido que tende a eliciar a respostaincorreta "gema". (Se quiser verificar isto posteriormente, tente propor a brincadeira para umamigo e pedir-lhe que responda). Podemos desejar a resposta correta, mas é a combinação deseu desejo (volição) mais sua atenção que torna possível fazer o que quer.3. A volição passiva é definida como a vontade de deixar que as coisas aconteçam. Refere-seao particular estado de consciência que os sujeitos aprendem a usar num treinamento debiofeedback bem sucedido. É atenção sem esforço. Um exemplo de uma tarefa da pesquisaem biofeedback poderia ser abaixar a temperatura da sua mão direita. Primeiramente ossujeitos "tentarão". A temperatura da mão direita vai aumentar. Então muitos sujeitos "nãotentarão mais". Isto costuma resultar num aumento da temperatura. Eventualmente, no cursodo treinamento, o sujeito aprende a parar de tentar e a "permitir" que a temperatura caia. Avolição passiva não é uma parte do treinamento cultural. Nós crescemos para sermosdogmáticos, bem sucedidos, para resistir às forças que nos impedem de fazer o quedesejamos.Uma das poucas situações em que desenvolvemos volição passiva é no ato de urinar. Quandourinamos, relaxamos e permitimos que a urina saia. A distinção de James entre o quererpassivo e ativo tomou-se uma importante variável no treinamento efetivo de biofeedhack.4. A maioria das teorias da personalidade especifica a gênese e as condições necessárias paravários tipos de doenças mentais. A pesquisa em biofeedback apresentou formas alternativasde induzir ou eliminar muitos sintomas "psicológicos" sem considerar as razões psicológicaspara o sintoma. Como sugeriram Green e Green (1971), uma vez que podemos nos tornarfisicamente doentes em resposta à tensão psicológica, talvez possamos eliminar a doençaaprendendo controlar a resposta fisiológica.MeditaçãoA meditação pode ser definida como o ato de dirigir, acalmar, aquietar ou focalizar aconsciência normal de uma maneira sistemática. A meditação pode ser praticada em silêncioou com barulho, com os olhos abertos ou fechados, sentado, andando ou quieto. Há centenasde técnicas, práticas e sistemas de meditação. A pesquisa está apenas começando a descobrircomo a meditação afeta comportamentos psicológicos ou fisiológicos. Embora grande partedos estudos detalhados de laboratório tenha sido realizado sobre um sistema de meditação
  • 69. 69específico, a meditação transcendental, é provável que os estudos desse sistema sejam deforma geral válidos para outros sistemas de meditação.Há uma ampla proliferação de grupos e professores que oferecem treinamento em meditaçãodiária. Grandes cidades e a maioria dos campus universitários abrigam diversas organizaçõesdedicadas a tal ensino. Há um interesse crescente na aplicação das práticas de meditação àpsicoterapia.Implicações da Pesquisa sobre Meditação para a Teoria da Personalidade1. Quais são os conteúdos da consciência? James propos que poderíamos considerarconsciência como um curso de água ou um rio. Relatos de pesquisas indicam que, para umadescrição mais completa, seria necessário considerar a consciência como tendo muitoscaminhos ou fluxos, todos correndo simultaneamente. A percepção consciente pode mover-sede um caminho para outro como um holofote deslocando-se sobre diferentes trilhos numaestação ferroviária.O que há na consciência além dos diferentes pensamentos? Relatos de meditadores sugeremalgo mais do que as variadas formas de pensamento que pairam na superfície da mente. Àmedida que se explora a consciência, ocorrem mudanças nas formas de pensamento, e nãoapenas em seus conteúdos.Tart, em 1972, incentivou os pesquisadores a considerar o fato de que o treino especializadopode ser necessário para atingir e observar esses estados específicos. Assim como um dentistaprecisa de treino especial para ser capaz de detectar pequenas irregularidades em Raios-X dosdentes, ou astronautas precisam de um treinamento especial para serem capazes de trabalharem situações onde não há força da gravidade. Assim também os cientistas que trabalhamnuma ciência de estados específicos deveriam receber treinamento apropriado. A queixa deJames de que o insight acessível sob o efeito de óxido nitroso "desapareceria gradualmente",pode refletir sua própria falta de treinamento, não apenas um efeito do gás.2. Que efeitos tem a meditação sobre os valores pessoais, o estilo de vida e a motivação? RamDass (1974) comenta que suas crenças anteriores, desenvolvidas quando ensinava apsicologia ocidental da motivação, foram seriamente ameaçadas por suas experiências emmeditação. Alguns dos sistemas com os quais trabalhou não assumiam sequer que os assimchamados impulsos "básicos" para afiliação, poder ou realização, ou mesmo os impulsosbiologicamente estabelecidos para comida, água ou sobrevivência, eram necessários para obem-estar pessoal. Os escritos de Ram Dass (1974), Sayadaw (1954) a outros tornam evidenteque há modelos de personalidade baseados em considerações diferentes daquelas que temosconsiderado até agora.HipnoseEmbora há cerca de cem anos a hipnose seja uma área de pesquisa, não é um fenômeno bemdefinido. Algumas de suas aplicações são a psicoterapia, ajudas no treino atlético, técnicas demodulação da dor e espetáculos de clubes noturnos. Sujeitos bem treinados demonstraramcapacidades físicas, emocionais, perceptuais e até mesmo psíquicas incomuns quando emestado hipnoticamente induzido. Visto que as induções hipnóticas conduzem a tantos estadosalterados, podemos considerar que a hipnose é um instrumento de exploração da consciênciae não apenas um meio de induzir um único e específico estado alterado.A realidade subjetivas as respostas dos sujeitos a estímulos externos são acentuadamentemodificadas na hipnose. Tart (1970) descreve algumas das séries desses efeitos. Um dostestes padrões que usamos, por exemplo, é contar à pessoa que ela não tem olfato e, então,segurar uma garrafa de amoníaco sob seu nariz e dizer "respire profundamente". Pode-seinduzir analgesia total para dor em operações cirúrgicas, por exemplo. Pode-se fazer com queas pessoas tenham alucinação. Se lhes contarmos que há um urso polar na esquina, verão umurso polar na esquina. Pode-se de alguma forma mexer na memória. Pode-se fazer com que aspessoas retrocedam no tempo, de forma que se sintam como se fossem crianças dedeterminada idade e assim por diante.
  • 70. 70Implicações da Pesquisa em Hipnose para a Teoria da Personalidade1. Quem tem o controle de nossa consciência? Na hipnose induzida em espetáculos pareceque o hipnotizador tem pleno controle, forçando o sujeito a fazer coisas idiotas eembaraçosas. A pesquisa de laboratório indica que o relacionamento é mais cooperativo doque geralmente parece ser. O sujeito confia no hipnotizador e irá, portanto, concordar comvários tipos de sugestões.Se a pessoa fizer o que lhe foi ordenado, será responsável por seus atos? A pessoa estáconsciente da fonte de sugestões? Até certo ponto, somos todos hipnotizados pelaspropagandas e pela televisão. Como este tipo de condicionamento se compara com a induçãohipnótica?2. Na hipnose dental, o paciente é ensinado a eliminar a dor do dente ou a "mandá-laembora". Como isto é feito? Não sabemos, mas a verdade é que há sucesso. Se a dor forsubjetiva, isto é, sujeita a controle voluntário, o que significa dizer que sinto dor ou mesmoque estou cansado ou com raiva? Todas essas sensações podem ser "ligadas" e "desligadas"por um hipnotizador. Arnold (1950) pediu a certos indivíduos para enrijecer seus músculos devárias maneiras. Os sujeitos relataram emoções correlacionadas com os tipos de tensõesmusculares requeridas. Para James, o trabalho de Arnold seria uma evidência adicional de queé a sensação física mais a atenção a ela que determinam o efeito sobre a consciência. Aevidência da hipnose sugere que a consciência pode ser altamente seletiva com relação ao queadmite que seja conscientizado.Uma abordagem diferente do controle da dor que pode ser tentada, baseia-se na tendêncianatural da mente a divagar. Da próxima vez em que sentir dor, de uma queimadura, picada deinseto ou de um tornozelo torcido, feche os olhos e conscientemente tente intensificar a dor.Concentre-se por completo apenas na dor e na parte afetada do corpo. Experiencie da formamais plena que puder. Tente e mantenha esta absorção total ao menos por trinta segundos.Quando relaxar, a dor terá em grande parte diminuído ou desaparecido.Em que medida nossa aceitação da estimulação externa é um simples resultado da nãocompreensão de formas alternativas de lidar com as sensações?3. Na chamada "hipnose profunda", a personalidade parece passar por uma série detransformações radicais. Um por um, os aspectos da identidade parecem ser postos de lado. Asensação da passagem do tempo, a percepção de nosso próprio corpo, a percepção da sala eda identidade pessoal em si mesma apagam-se gradualmente. Embora ainda hajacomunicação entre sujeito e experimentador, até mesmo esta percepção diminui, até que oexperimentador seja apenas uma voz distante.4. Que efeito tem a percepção na personalidade? A maioria dos teóricos assume que todos nósvemos aproximadamente o mesmo mundo, as mesmas cores, temos o mesmo sentido detempo e assim por diante.Para compreender o comportamento atual das pessoas, pode ser tão proveitoso investigar amaneira como percebem o universo quanto suas experiências infantis. Conhecemos pessoasque parecem sempre apressadas, que não possam nunca ir mais devagar? Conhecemospessoas que parecem melancólicas de forma pouco natural, ou perpetuamente alegres? Jamesachava possível que algumas dessas diferenças não seriam apenas "variáveis depersonalidade", mas pudessem ser devidas a variáveis perceptuais.Pesquisa ParanormalEmbora James tenha atraído estudantes que continuaram sua abordagem pragmática comrelação à educação e à filosofia, seus interesses paranormais não foram retomados após suamorte. A Psicologia, até recentemente, tentou ignorar o trabalho nesta área. A razão para arepugnância coletiva pode ser devida às dificuldades de muitos cientistas em aceitar aexistência da percepção extrasensorial é que ela não faz sentido em termos do queconhecemos sobre o universo físico. Não temos nenhuma teoria compreensiva, nenhum bommodelo ou tipo de explicação generalizadamente aceita do fenômeno. James estava mais
  • 71. 71interessado em investigar os exemplos disponíveis do que em desenvolver modelosteóricos. Estava também consciente, assim como os parapsicólogos da atualidade, de quefreqüentemente há fraude associada ao fenômeno genuíno.A onda nascente de pesquisa sobre estados alterados inclui o progresso das investigaçõesparapsicológicas. A tendência atual dirige-se às mensurações mais acuradas e à identificaçãomais concisa de variáveis críticas. A pesquisa inclui o treinamento de habilidadesparanormais em pessoas que não demonstraram tais capacidades antes. James, juntamentecom a maioria dos pesquisadores em Parapsicologia, aceitava a existência dos seguintesfenômenos paranormais:1. Telepatia: comunicação de uma mente a outra.2. Clarividência: obtenção de informações não disponíveis aos sentidos físicos, tal comoinformações de um livro fechado em outra sala.3. Premonição: obtenção de infamações do que ainda não existe; por exemplo, sonhar comum evento que ocorre dias depois.4. Psicocinese: influenciar objetos ou processos físicos sem qualquer contato físico. Há outrascapacidades paranormais sendo investigadas, mas essas quatro ilustram o alcance dessaatividade.Implicações da Pesquisa Paranormal para a Teoria da Personalidade1. Em que medida há uma ligação telepática entre a mãe e a criança? 0 ponto de vistabiológico supõe que a ligação entre a mãe e a criança é cortada no nascimento. Jamesacreditava que a evidência indica que este vínculo, em parte físico e em parte telepático,permanece ativo depois do nascimento. Isto é especialmente evidente quando a criança ou amãe passam por estimulações emocionais intensas.2. Uma questão mais geral, para James, é o problema de determinar se quaisquer de nossascapacidades de empatia com outros são devidas a sugestões telepáticas sutis. As ligaçõesentre parentes ou mesmo entre animais de estimação e seus donos são contínuas e nãolimitadas pela percepção consciente de cada um.3. James questionava que, se era possível obter infirmações da mente de outra pessoa, de umquarto trancado ou mesmo de um tempo futuro, como podemos definir os limites dapersonalidade? A identidade é restrita ao corpo, como costumamos assumir, ou é vagamentelocalizada nele com possíveis extensões? Assim como na literatura psicodélica, os resultadospublicados levantam questões sobre espaço e tempo. Se, como disse Einstein, "a distinçãoentre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, ainda que seja uma ilusão persistente",podemos então nos sentir seguros com relação aos nossos modelos presentes de causalidadepsicológica?4. Os dados sobre reencarnação levantam questões envolventes para todas as teorias dapersonalidade. Reencarnação é a crença de que, após a morte, a personalidade nãodesaparece, mas pode ser, em certo sentido, restabelecida numa criança recém nascida ou emoutra forma viva.Pesquisa PsicodélicaA maioria das culturas primitivas ou civilizadas tem usado ervas, sementes ou plantas a fimde alterar a química corporal, perspectivas emocionais e o nível de percepção consciente.James experimentou-o com óxido nitroso (gás hilariante) e ficou impressionado com suasexperiências.Embora de tempos em tempos aparecessem outros relatos sobre os efeitos não usuais dedrogas, estudos mais intensivos só começaram a partir da síntese da dietilamida-25 do ácidolisérgico (LSD-25), em 1943, pelo químico suíço Albert Hoffman. A viabilidade de ummaterial sintético mensurável deu margem a um amplo esforço de pesquisa internacional.O difundido uso de drogas pela cultura jovem ocasionou muitos argumentos acadêmicos,científicos e éticos que em grande parte não foram ainda resolvidos. Os efeitos reais daingestão de drogas psicodélicas eram quase ignorados numa onda de interesse a respeito dasvendas, manufatura e distribuição. Os resultados dos estudos iniciais receberam uma ampla
  • 72. 72publicidade e despertaram o interesse do público. Um efeito durável foi a introduçãodifundida de drogas na vida norte-americana. Milhões de jovens que pessoalmenteexperimentaram tais drogas vieram a concordar com James de que "nossa consciência normalem vigília, nada mais é que um tipo especial de consciência, enquanto que por toda ela,separada pela mais transparente das cortinas, repousam formas de consciência inteiramentediferentes.Implicações da Pesquisa Psicodélica para a Teoria da Personalidade1. A maioria dos teóricos da personalidade baseia-se na consciência normal em vigília. Umacaracterística desta consciência normal é a de se saber quem é, o sentido de identidade eindividualidade é estável e explícito. Estudos sobre a imagem corporal e as fronteiras do egoconcluíram que qualquer desvio de um limite seguro de ego é um sintoma psicopatológico.No estado de consciência "normal" ou usual, o indivíduo se experiencia como existindodentro dos limites de seu corpo físico (a imagem corporal), e sua percepção do meio ambienteé restringida pela extensão, fisicamente determinada, de seus órgãos de recepção externa;tanto a percepção interna quanto a percepção do meio ambiente estão confinadas dentro doslimites do espaço e tempo Em experiências psicodélicas transpessoais, uma ou várias dessaslimitações parecem ser transcendidas. Em alguns casos, o sujeito experiencia umafrouxamento de seus limites usuais de ego e sua consciência e autopercepção parecemexpandir-se para incluir e abranger outros indivíduos e elementos do mundo externo.Em outros casos, ele continua experienciando sua própria identidade, mas num tempodiferente, num lugar diferente, ou num diferente contexto. Ainda em outros casos, o sujeitoexperiencia uma completa perda de sua própria identidade egóica e uma total identificaçãocom a consciência de uma outra identidade. Finalmente, nume categoria bastante ampladessas experiências psicodélicas transpessoais (experiências arquetípicas, encontros comdivindades jubilosas e coléricas, união com Deus etc.), a consciência do sujeito pareceabranger elementos que não têm nenhuma continuidade com sua identidade de ego usual eque não podem ser considerados simples derivativos de suas experiências no mundotridimensional.É possível que algumas das distinções que mantemos entre nós mesmos e o resto do mundosejam arbitrárias? A identidade pode estar mais próxima da noção de James de um campoconstantemente flutuante do que de um conjunto de limites estável e definível. Nossapercepção usual de nós próprios pode ser apenas um artifício da consciência normal.2. William James observou que experienciar aquela assim chamada "consciência mística" eraum evento raro e imprevisível. O uso amplo dos psicodélicos configurou tais estados, ou aomenos a impressão subjetiva de se ter experienciado tais estados, de forma mais acessível.Vários pesquisadores de drogas psicodélicas relatam que seus sujeitos vivem o que chamamde experiências religiosas, espirituais e transpessoais. Tornou-se importante determinar ovalor e a validade dessas experiências, agora que parecem ser mais comuns.Esta questão é de interesse para a comunidade religiosa. A conversão religiosa, asexperiências de oração, as visões e o falar em diferentes línguas, todos ocorrem em estados deconsciência alterados. A validade dessas experiências é o fundamento de muitas das diversasdoutrinas religiosas. A descoberta e o exame de substâncias usadas em rituais religiosos, queprovaram ser ativos agentes psicodélicos, reavivou o interesse dos teólogos a respeito daorigem e do significado da experiência religiosa quimicamente induzida.3. Qual o relacionamento do tempo e do espaço com a consciência? Físicos modernos evelhos místicos parecem cada vez mais próximos uns dos outros em suas tentativas dedescrever o universo conhecido. Os resultados das experiências psicodélicas sugerem que anatureza e a gênese da consciência podem ser mais realisticamente descritas por místicos efísicos modernos do que pela mais estável concepção utilizada dentro da psicologiacontemporânea.4. Weil (1972) oferece evidência de que os assim chamados "estados alterados" são não sónaturais como também necessários para o bem-estar e a saúde continuada da pessoa. Eleacredita que a menos que tenhamos oportunidade de mudar nosso estado de consciência,
  • 73. 73podem desenvolver-se sintomas emocionais graves. Ele viu o impulso para alterar apercepção consciente tal como expressa pelo uso exagerado de drogas, bebedeiras públicas,práticas religiosas, o ligar-se a alguma coisa dos adolescentes e a dança em êxtase, comoreflexo de um impulso fisiológico inato que se origina da estrutura do cérebro. Da mesmaforma que sabemos que há um impulso para a experiência sexual, pode haver um impulsoequivalente para a mudança de níveis de percepção.ReferênciaBallone GJ - William James, in. PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br,revisto em 2005* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 parasaber mais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980
  • 74. 74 Capítulo XIII A Terapia Centrada no Cliente de Carl RogersUma premissa fundamental da teoria de Carl Rogers é o pressuposto de que as pessoas usam suaexperiência para se definir. Em seu principal trabalho teórico de 1959, Rogers define uma série deconceitos a partir dos quais delineia teorias da personalidade e modelos de terapia, mudança dapersonalidade e relações interpessoais. Os construtos básicos aqui apresentados estabelecem umaestrutura através da qual as pessoas podem construir e modificar suas opiniões a respeito de simesmas.O ConhecimentoO conhecimento objetivo é uma forma de testar hipóteses, especulações e conjecturas em relação asistemas de referência externos. Em Psicologia, os pontos de referência podem incluir observaçõesdo comportamento, resultados de testes, questionários ou julgamentos de outros psicólogos. Autilização dos colegas baseia-se na idéia de que se pode confiar nas pessoas treinadas em umadeterminada disciplina para aplicar os mesmos métodos de julgamento a um dado evento. Aopinião de um especialista pode ser objetiva mas também pode ser uma percepção coletiva errônea.Qualquer grupo de especialistas pode mostrar-se rígido e defender-se quando se lhes pede paraconsiderar dados que contradizem aspectos axiomáticos de sua própria formação. Rogers observaque teólogos comunistas dialéticos e psicanalistas exemplificam esta tendência. Rogers é o único aquestionar a validade do conhecimento objetivo, em especial na tentativa de compreender aexperiência de uma outra pessoa. A terceira forma de conhecimento é o conhecimento inter-pessoalou conhecimento fenomenológico, que é a essência da terapia centrada no cliente. É a prática dacompreensão empática. Penetrar no mundo subjetivo particular do outro para ver se nossacompreensão da opinião dele é correta, não apenas para ver se é objetivamente correta ou seconcorda com o nosso próprio ponto de vista, mas se é correta no sentido de compreender aexperiência do outro como ele a experiência. Esta compreensão empática é testada pela respostaàquilo que se entendeu, perguntando-se ao outro se foi ouvido corretamente. "Você está se sentindodeprimido esta manhã?", "Parece-me que você está contando ao grupo que seu choro é um pedidode ajuda", "Aposto que você está muito cansado para concluir isto agora".O Campo da ExperiênciaHá um campo de experiência único para cada indivíduo. Este campo de experiência ou "campofenomenal" contém tudo o que se passa no organismo em qualquer momento, e que estápotencialmente disponível à consciência. Inclui eventos, percepções, sensações e impactos dosquais a pessoa não toma consciência, mas poderia tomar se focalizasse a atenção nesses estímulos.É um mundo privativo e pessoal que pode ou não corresponder à realidade objetiva. De início aatenção é colocada naquilo que a pessoa experimenta como seu mundo, não na realidade comum. Ocampo de experiência é limitado por restrições psicológicas e limitações biológicas. Temostendência a dirigir nossa atenção para perigos imediatos, assim como para experiências seguras ouagradáveis, ao invés de aceitar todos os estímulos que nos rodeiam.SelfDentro do campo de experiência está o Self. O Self não é uma entidade estável, imutável,entretanto, observado num dado momento, parece ser estável. Isto se dá porque congelamos umasecção da experiência a fim de observá-la. Rogers concluiu que a idéia do eu não representa umaacumulação de inumeráveis aprendizagens e condicionamentos efetuados na mesma direção....Essencialmente é uma gestalt cuja significação vivida é suscetível de mudar sensivelmente (e atémesmo sofrer uma reviravolta) em conseqüência da mudança de qualquer destes elementos. O Selfé uma gestalt organizada e consistente num processo constante de formar-se e reformar-se à medida
  • 75. 75que as situações mudam. Assim como uma fotografia é uma "parada" de algo que está mudando, damesma forma o Self não é nenhuma das "fotografias" que tiramos dele, mas o processo fluidosubjacente. Outros teóricos usam o termo Self para designar aquela faceta da identidade pessoal queé imutável, estável ou mesmo eterna. Rogers usa o termo para se referir ao contínuo processo dereconhecimento. É esta diferença, esta ênfase na mudança e na flexibilidade, que fundamenta suateoria e sua crença de que as pessoas são capazes de crescimento, mudança e desenvolvimentopessoal. O Self ou auto-conceito é a visão que uma pessoa tem de si própria, baseada emexperiências passadas, estimulações presentes e expectativas futuras.Self IdealSelf Ideal é o conjunto das características que o indivíduo mais gostaria de poder reclamar comodescritivas de si mesmo. Assim como o Self, ele é uma estrutura móvel e variável, que passa porredefinição constante. A extensão da diferença entre o Self e o Self Ideal é um indicador dedesconforto, insatisfação e dificuldades neuróticas. Aceitar-se como se é na realidade, e não comose quer ser, é um sinal de saúde mental. Aceitar-se não é resignar-se ou abdicar de si mesmo. É umaforma de estar mais perto da realidade e de seu estado atual. A imagem do Self Ideal, na medida emque se diferencia de modo claro do comportamento e dos valores reais de uma pessoa é umobstáculo ao crescimento pessoal. Um trecho da história de um caso pode esclarecê-lo. Umestudante estava planejando desligar-se da faculdade. Havia sido o melhor aluno no ginásio e oprimeiro no colegial e estava indo muito bem na faculdade. Estava desistindo, explicava, porquehavia recebido um "C" num curso. Sua imagem de ter sido sempre o melhor estava em perigo. Aúnica seqüência de ações que ele vislumbrava era escapar, deixar o mundo acadêmico, rejeitar adiscrepância entre seu desempenho atual e sua visão ideal de si próprio. Disse que iria trabalharpara ser o "melhor" de alguma outra forma. Para proteger sua auto-imagem ideal ele desejavacortar pela raiz sua carreira acadêmica. Ele deixou a escola, viajou pelo mundo e, por vários anos,teve uma grande quantidade de empregos originais. Quando foi visto novamente era capaz dediscutir a possibilidade de que talvez não fosse necessário ser o melhor desde o começo, mas tinhaainda grandes dificuldades em explorar qualquer atividade na qual pudesse experimentar fracasso.Congruência e IncongruênciaCongruência é definida como o grau de exatidão entre a experiência da comunicação e a tomada deconsciência. Ela se relaciona às discrepâncias entre experienciar e tomar consciência. Um alto grauda congruência significa que a comunicação (o que se está expressando), a experiência (o que estáocorrendo em nosso campo) e a tomada de consciência (o que se está percebendo) são todassemelhantes. Nossas observações e as de um observador externo seriam consistentes.Crianças pequenas exibem alta congruência. Expressam seus sentimentos logo que seja possívelcom o seu ser total. Quando uma criança tem fome ela toda está com fome, neste exato momento!Quando uma criança sente amor ou raiva, ela expressa plenamente essas emoções. Isto podejustificar a rapidez com que a criança substitui um estado emocional por outro. A expressão total deseus sentimentos permite que elas liquidem a bagagem emocional que não foi expressa emexperiências anteriores. A congruência é bem descrita por um Zen-budista ao dizer: "Quando tenhofome, como; quando estou cansado, sento-me; quando estou com sono, durmo". A incongruênciaocorre quando há diferenças entre a tomada de consciência, a experiência e a comunicação desta.As pessoas que parecem estar com raiva (punhos cerrados, tom de voz elevado, praguejando) e quereplicam que de forma alguma estão com raiva, se interpeladas, ou as pessoas que dizem estarpassando por um período maravilhoso mas que se mostram entediadas, isoladas ou facilmentedoentes, estão revelando incongruência. É definida não só como inabilidade de perceber comprecisão mas também como inabilidade ou incapacidade de comunicação precisa. Quando aincongruência está entre a tomada de consciência e a experiência, é chamada repressão. A pessoasimplesmente não tem consciência do que está fazendo. A maioria das psicoterapias trabalha sobreeste sintoma de incongruência ajudando as pessoas a se tomarem mais conscientes de suas ações,pensamentos e atitudes na medida em que estes as afetam e aos outros. Quando a incongruência é
  • 76. 76uma discrepância entre a tomada de consciência e a comunicação a pessoa não expressa o que estárealmente sentindo, pensando ou experienciando. Este tipo de incongruência é muitas vezespercebido como mentiroso, inautêntico ou desonesto. Muitas vezes esses comportamentos tomam-se foco de discussões em terapias de grupo ou em grupos de encontro. Embora tais comportamentospareçam ser realizados com malícia, terapeutas e treinadores relatam que a ausência de congruênciasocial, aparente falta de boa vontade em comunicar-se, é com freqüência, uma falta de autocontrolee consciência pessoal. A pessoa não é capaz de expressar suas emoções e percepções reais emvirtude do medo e de velhos hábitos de encobrimento que são difíceis de superar. Por outro lado, épossível que a pessoa tenha dificuldade em compreender o que os outros esperam dela.A incongruência pode ser sentida como tensão, ansiedade ou, em circunstâncias mais extremas,como confusão interna. Um paciente internado em hospital psiquiátrico que declara não saber ondeestá, em que hospital, qual a hora do dia, ou mesmo quem ele é, está exibindo alto grau deincongruência. A discrepância entre a realidade externa e aquilo que ele está subjetivamenteexperienciando tomou-se tão grande que ele não é capaz de atuar. A maioria dos sintomas descritosna Literatura psiquiátrica podem ser vistos como formas de incongruência. Para Rogers, a formaparticular de distúrbio é menos crítica do que o reconhecimento de que há uma incongruência queexige uma solução. A incongruência é visível em observações como, por exemplo, "não sou capazde tomar decisões", "não sei o que quero", "nunca serei capaz de persistir em algo", A confusãoaparece quando você não é capaz de escolher dentre os diferentes estímulos aos quais se achaexposto. Considere o caso de um cliente que relata: "Minha mãe pede-me que cuide dela, é omínimo que posso fazer. Minha namorada recomenda que eu me mantenha firme para não serpuxado de todo lado. Penso que sou muito bom para minha mãe, mais do que ela merece. Às vezesa odeio, às vezes a amo. Às vezes é bom estar com ela, às vezes ela me diminui." O cliente estáassediado por estímulos diferentes. Cada um deles é válido e conduz a ações válidas por algumtempo. É difícil diferenciar, dentre estes estímulos, aqueles que são genuínos daqueles que sãoimpostos. 0 problema pode estar em reconhecê-los como diferentes e ser capaz de trabalhar sobresentimentos diferentes em momentos diferentes. A ambivalência não é Iara ou anormal; não sercapaz de reconhecê-la ou enfrentá-la pode ser uma causa de ansiedade.Tendência à Auto-AtualizaçãoHá um aspecto básico da natureza humana que leva uma pessoa em direção a uma maiorcongruência e a um funcionamento realista. Além disso, este impulso não é limitado aos sereshumanos; é parte do processo de todas as coisas vivas. É este impulso que é evidente em toda vidahumana e orgânica, expandir-se, estender-se, tornar-se autônomo, desenvolver-se, amadurecer atendência a expressar e ativar todas as capacidades do organismo na medida em que tal ativaçãovaloriza o organismo ou o Self. Rogers sugere que em cada um de nós há um impulso inerente emdireção a sermos competentes e capazes quanto o que estamos aptos a ser biologicamente. Assimcomo uma planta tenta tornar-se saudável, como uma semente contém dentro de si impulso para setomar uma árvore, também uma pessoa é impelida a se tomar uma pessoa total, completa e auto-atualizada. O impulso em direção à saúde não é uma força esmagadora que super., obstáculos aolongo da vida; pelo contrário, é facilmente embotado, distorcido e reprimido. Rogers o vê como aforça motivadora dominante numa pessoa que está funcionando de modo livre, não paralisada poreventos passados ou por crenças correntes que mantinham a incongruência. Maslow chegou aconclusões semelhantes; chamava esta tendência de uma voz interna e fraca que é facilmenteabafada. A suposição de que o crescimento é possível e central para o projeto do organismo écrucial para o restante do pensamento de Rogers. Para Rogers, a tendência à auto-atualização não ésimplesmente mais um motivo. É importante observar que esta tendência atualizante é o postuladofundamental da teoria rogeriana.
  • 77. 77Crescimento PsicológicoAs forças positivas em direção à saúde e ao crescimento são naturais e inerentes ao organismo.Baseado em sua própria experiência clínica, Rogers conclui que os indivíduos têm a capacidade deexperienciar e de se tomarem conscientes de seus desajustamentos. Isto é, você pode experienciaras incoerências entre seu auto-conceito e suas experiências reais. Esta capacidade que reside em nósé associada a uma tendência subjacente à modificação do auto-conceito, no sentido de estarrealmente de acordo com a realidade. Rogers postula, portanto, um movimento natural para aresolução e distante do conflito. Vê o ajustamento não como um estado estático, mas como umprocesso no qual novas aprendizagens e novas experiências são cuidadosamente assimiladas.Rogers está convencido de que estas tendências em direção à saúde são facilitadas por qualquerrelação interpessoal na qual um dos membros esteja livre o bastante da incongruência para estar emcontato com seu próprio centro de auto-correção. A maior tarefa da terapia é estabelecer talrelacionamento genuíno. Aceitar-se a si mesmo é um pré-requisito para uma aceitação mais fácil egenuína dos outros. Em compensação, ser aceito por outro conduz a uma vontade cada vez maior deaceitar-se a si próprio. Este ciclo de auto-correção e auto-incentivo é a forma principal pela qual seminimiza ns obstáculos ao crescimento psicológico.Obstáculos ao CrescimentoRogers sugere que os obstáculos aparecem na infância e são aspectos normais do desenvolvimento.O que a criança aprende em um estágio como benéfico deve ser reavaliado nos estágios posteriores:Motivos que predominam na primeira infância mais tarde podem inibir o desenvolvimento dapersonalidade. Quando a criança começa a tomar consciência do Self, desenvolve uma necessidadede amor ou de consideração positiva. Esta necessidade é universal, considerando-se que ela existeem todo ser humano e que se faz sentir de uma maneira contínua e penetrante. A teoria não sepreocupa em saber se é uma necessidade inata ou adquirida. Uma vez que as crianças não separamsuas ações de seu ser total, reagem à aprovação de uma ação como se fosse aprovação de simesmas. Da mesma forma, reagem à punição de um ato como se estivessem sendo desaprovadasem geral. O amor é tão importante para a criança que ela acaba por ser guiada, não pelo caráteragradável ou desagradável de suas experiências e comportamentos, mas pela promessa de afeiçãoque elas encerram. A criança começa a agir da forma que lhe garante amor ou aprovação, sejam oscomportamentos saudáveis ou não para ela. As crianças podem agir contra seu próprio interesse,chegando a se perceber em termos destinados, a princípio, a agradar ou apaziguar os outros.Teoricamente esta situação poderia não se desenvolver se a criança sempre se sentisse aceita ehouvesse aprovação dos sentimentos mesmo que alguns comportamentos fossem inibidos. Em talsituação ideal a criança nunca seria pressionada a se despojar ou repudiar partes não atraentes masautênticas de sua personalidade. Comportamentos ou atitudes que negam algum aspecto do Selfsão chamados de condições de valor. Quando uma experiência relativa ao eu é procurada ou evitadaunicamente porque é percebida como mais ou menos digna de consideração de si, diz Rogers que oindivíduo adquiriu um modo de avaliação condicional. Condições de valor são os obstáculosbásicos à exatidão da percepção e à tomada de consciência realista. Há vendas e filtros seletivosdestinados a assegurar um suprimento interminável de amor da parte dos parentes e dos outros.Acumulamos certas condições, atitudes ou ações cujo cumprimento sentimos necessário parapermanecermos dignos. Na medida em que essas atitudes e ações são idealizadas, elas constituemáreas de incongruência pessoal. De forma extrema, as condições de valor são caracterizadas pelacrença de que "preciso ser respeitado ou amado por todos aqueles com quem estabeleço contato".As condições de valor criam uma discrepância entre o Self e o auto-conceito. Para mantermos umacondição de valor temos que negar determinados aspectos de nós mesmos. Por exemplo, se falaram"Você deve amar seu irmãozinho recém-nascido, senão mamãe não gosta mais de você", amensagem é a de que você deve negar ou reprimir seus sentimentos negativos genuínos em relaçãoa ele. Se você conseguir esconder sua vontade maldosa, seu desejo de machucá-lo e seu ciúmenormal, sua mãe continuará a amá-lo. Se a pessoa admitir que tem tais sentimentos, se arriscará aperder o amor. Uma solução que cria uma condição de valor é rejeitar tais sentimentos sempre que
  • 78. 78ocorram, bloqueando-os de sua consciência. Agora a pessoa pode reagir de formas tais como: "Eurealmente amo meu irmãozinho, apesar das vezes em que o abraço tanto até ele gritar" ou, "Meu péescorregou sob o seu, eis porque ele tropeçou". Posso ainda lembrar-me da enorme alegriademonstrada por meu irmão mais velho quando lhe foi dada uma oportunidade de bater em mimpor algo que fiz. Minha mãe, meu irmão e eu ficamos todos assustados com sua violência. Aorecordar o incidente, meu irmão lembrou-se de que ele não estava especialmente bravo comigo,mas que havia compreendido que aquela era uma rara ocasião e queria descarregar toda a maldadepossível enquanto tinha permissão. Admitir tais sentimentos e permitir-lhes alguma expressão e,quando ocorrem é mais saudável, segundo Rogers, do que rejeitá-los ou aliená-los. Quando acriança amadurece, o problema persiste. O crescimento é impedido na medida em que a pessoanega impulsos diferentes do auto-conceito artificialmente "bom". Para sustentar a falsa auto-imagem a pessoa continua a distorcer experiências, quanto maior a distorção maior a probabilidadede erros e da criação de novos problemas. Os comportamentos, os erros e a confusão que resultamdão manifestações de distorções iniciais mais fundamentais. E a situação realimenta-se a si mesma.Cada experiência de incongruência entre o Self e a realidade aumenta a vulnerabilidade, a qual, porsua vez, ocasiona o aumento de defesas, interceptando experiências e criando novas ocasiões deincongruência. Por vezes as manobras defensivas não funcionam. A pessoa toma consciência dasdiscrepâncias óbvias entre os comportamentos e as crenças. Os resultados podem ser pânico,ansiedade crônica, retraimento ou mesmo uma psicose. Rogers observou que o comportamentopsicótico parece ser muitas vezes a representação externa de um aspecto anteriormente negado daexperiência. Em 1974 Perry corrobora essa idéia, apresentando evidência de que o episódiopsicótico é uma tentativa desesperada da personalidade de se reequilibrar e permitir a realização denecessidades e experiências internas frustradas. A terapia centrada no cliente esforça-se porestabelecer uma atmosfera na qual condições de valor prejudiciais possam ser postas de lado,permitindo, portanto, que as forças saudáveis de uma pessoa retomem sua dominância original.Uma pessoa recupera a saúde reivindicando suas partes reprimidas ou negadas.O CorpoEmbora Rogers defina a personalidade e a identidade como uma gestalt contínua, não dá ao papeldo corpo uma atenção especial. Mesmo no seu trabalho com encontros ele não promove ou facilitao contato físico nem trabalha diretamente com gestos físicos. Como Rogers mesmo assinala, "aminha formação não é das que me tornem especialmente liberto a esse respeito". Sua teoria ébaseada na tomada de consciência da experiência. Ela não seleciona a experiência física comodiferente em espécie ou valor das experiências emocionais, cognitivas ou intuitivas.Relacionamento SocialO valor dos relacionamentos é de interesse central nas obras de Rogers. Os relacionamentos maisprecoces podem ser congruentes ou podem servir como foco de condições de valor. Relaçõesposteriores são capazes de restaurar a congruência ou retardá-la. Rogers acredita que a interaçãocom o outro capacita um indivíduo a descobrir, encobrir, experienciar ou encontrar seu Self real deforma direta. Nossa personalidade torna-se visível a nós através do relacionamento com os outros.Na terapia, em situações de encontro e em interações cotidianas, o feedback dos outros oferece àspessoas oportunidade de experienciarem a si mesmas. Se pensamos em pessoas que não têmrelacionamentos, imaginamos dois estereótipos contrastantes. O primeiro é o do ermitão relutante,inábil para lidar com outros. O segundo é o contemplativo que se retirou do mundo para cumpriroutras tarefas. Nenhuma dessas imagens atrai Rogers. Para ele, os relacionamentos oferecem amelhor oportunidade para estar "funcionando por inteiro", para estar em harmonia consigo mesmo,com os outros e com o meio ambiente. Através dos relacionamentos, as necessidades organísmicasbásicas do indivíduo podem ser satisfeitas. A esperança desta satisfação faz com que as pessoasinvistam uma quantidade de energia incrível em relacionamentos, até mesmo naqueles que nãoparecem ser saudáveis ou satisfatórios.
  • 79. 79O CasamentoO casamento é um relacionamento não usual. É potencialmente de longo prazo, intensivo, e carregadentro de si a possibilidade de manutenção do crescimento e do desenvolvimento. Rogers acreditaque o casamento siga as mesmas leis gerais que mantém a verdade dos grupos de encontro, daterapia ou de outros relacionamentos. Os melhores casamentos ocorrem com parceiros que sãocongruentes consigo mesmos, que têm poucas condições de valor como empecilho e que sãocapazes de genuína aceitação dos outros. Quando o casamento é usado para manter umaincongruência ou para reforçar tendências defensivas existentes, é menos satisfatório e é menosprovável que se mantenha. As conclusões de Rogers sobre qualquer relação íntima a longo prazo,tal como o casamento, são focalizadas sobre quatro elementos básicos: compromisso contínuo,expressão de sentimentos, não-aceitação de papéis específicos e capacidade de compartilhar a vidaíntima. Ele resume cada elemento como uma promessa, um acordo sobre o ideal de umrelacionamento contínuo, benéfico e significativo.1. Dedicação e compromisso.Cada membro de um casamento deveria ver a união como um processo contínuo e não como umcontrato. O trabalho feito visa tanto a satisfação pessoal como a satisfação mútua. Uma relação étrabalho; é um trabalho tendo em vista objetivos separados ou comuns. Rogers sugere que estecompromisso seja expresso da seguinte maneira: "Nós dois nos comprometemos a cultivar juntos oprocesso mutável de nosso atual relacionamento, porque este relacionamento está enriquecendonosso amor e a nossa vida e nós queremos que ele cresça".2. Comunicação; expressão de sentimentosRogers insiste na comunicação total e aberta. "Arriscar-me-ei tentando comunicar qualquersentimento persistente, positivo ou negativo, ao meu companheiro, com a mesma profundidade comque o percebo em mim, como uma parte presente e viva em mim. Em seguida, arriscar-me-ei aindamais tentando compreender, com toda a empatia de que eu for capaz, a sua resposta, seja acusativae crítica, seja compartilhante e auto-reveladora". A comunicação tem duas fases igualmenteimportantes: a primeira é expressar a emoção. A segunda é permanecer aberto e experienciar aresposta do outro. Rogers não defenda simplesmente o colocar para fora os sentimentos Ele sugereque devemos nos comprometer tanto com os efeitos que nossos sentimentos causam em nossoparceiro quanto com a expressão original dos sentimentos em si mesmos. Isto é muito mais difícildo que simplesmente "desabafar" ou "ser aberto e honesto". É a disposição de aceitar os riscos reaisenvolvidos: rejeição, desentendimento, sentimentos feridos e retribuição. A crença de Rogers nanecessidade de instituir e manter este nível de troca contrapõe-se a posições que advogam o serpolido, diplomático, o contornar questões perturbadoras ou o não mencionar interesses emocionaisque aparecem.3. Não-aceitação de papéisNumerosos problemas desenvolvem-se na medida em que tentamos satisfazer as expectativas dooutro, ao invés de determinarmos as nossas próprias. Rogers dizia que "Viveremos de acordo comas nossas opções, com a sensibilidade orgânica mais profunda de que somos capazes, mas nãoseremos afeiçoados pelos desejos, pelas regras e pelos papéis que os outros insistem em impor-nos". Ele relata que muitos casais sofrem graves tensões na tentativa de fazer sobreviver suaaceitação parcial e ambivalente das imagens que seus pais e a sociedade impuseram a eles. Umcasamento efetuado com tal quantidade de expectativas e imagens irreais é inerentemente instável.e potencialmente pouco : recompensador.4. Tomar-se um Self separadoEste compromisso é uma profunda tentativa de descobrir e aceitar a natureza total da pessoa. É omais desafiador dos compromissos, é dedicar-se à remoção das máscaras tão logo elas se formem."Eu talvez possa descobrir mais do que sou realmente em meu íntimo e chegar mais perto dissosentindo-me, às vezes, encolerizado ou aterrado, às vezes amante e solícito, de vez em quando belo
  • 80. 80e forte ou desordenado e medonho, sem esconder de mim mesmo esses sentimentos. Eu talvezpossa estimar-me como a pessoa ricamente variada que sou. Talvez possa ser espontaneamentemais essa pessoa. Nesse caso, poderei viver de acordo com os meus próprios valoresexperimentados, conquanto tenha consciência de todos os códigos da sociedade. Nesse caso,poderei ser toda esta complexidade de sentimentos, significados e valores com meu companheirosuficientemente livre para dar o amor, a raiva e a ternura que existem em mim. É possível, então,que eu venha a ser um participante real de uma união, porque estou em vias de ser uma pessoa real.E espero poder incentivar meu companheiro a seguir o seu caminho na direção de umapersonalidade única, que eu gostaria imensamente de partilhar".EmoçõesO indivíduo saudável toma consciência de suas emoções, sejam ou não expressas. Sentimentosnegados à consciência distorcem a percepção e a reação às experiências que os desencadearam.Um caso específico é sentir ansiedade sem tomar conhecimento da causa. A ansiedade aparecequando uma experiência que ocorreu, se admitida na consciência, poderia ameaçar a auto-imagem.A reação inconsciente a estas subcepções alerta o organismo para possíveis perigos e acarretamudanças psicofisiológicas. Estas reações defensivas são uma forma do organismo manter crençase comportamentos incongruentes. Uma pessoa pode agir com base nestas subcepções sem tomarconsciência do por quê está agindo assim. Por exemplo, um homem pode sentir-se desconfortávelao ver homossexuais declarados. A informação que tem de si mesmo incluiria o desconforto, masnão mencionaria sua causa. Ele não poderia admitir seu próprio interesse, sua identidade sexual nãoresolvida, ou talvez as expectativas e medos que tem a respeito de sua própria sexualidade.Distorcendo suas percepções ele pode, em compensação, reagir com hostilidade aberta ahomossexuais, tratando-os como uma eterna ameaça ao invés de admitir seu conflito interno.IntelectoRogers não segrega o intelecto de outras funções. Ele valoriza-o como um tipo de instrumento quepode ser usado de modo efetivo na integração de experiências. Mostra-se cético em relação asistemas educacionais que dão ênfase exagerada a desempenhos intelectuais e desvalorizam osaspectos intuitivos e emocionais do funcionamento total. Em particular, Rogers pensa que cursosde graduação em campos diversos são exigentes, pouco significativos e desanimadores. A pressãopara a produção de trabalhos limitados e pouco originais, associada aos papéis passivos edependentes atribuídos aos estudantes de graduação, na realidade sufocam ou retardam suascapacidades criativas e produtivas. Cita a queixa de um estudante: "Essa coerção teve sobre mimum efeito tão desencorajador, que, depois que fiz o exame final, a consideração de qualquerproblema me repugnava, durante um ano inteiro". Se o intelecto, como outras funções, ao operarde forma livre, tende a dirigir o organismo à tomada de consciência mais congruente, então forçar ointelecto por vias específicas pode não ser benéfico. O ponto de vista de Rogers é de que as pessoasestão em melhor situação decidindo o que fazer por si mesmas, com o apoio de outros, do quefazendo o que os outros decidem por elas.SelfAutores de manuais de psicologia que dedicaram espaço a Rogers, geralmente classificam-no comoum teórico do Self. De fato, embora Rogers encare o Self como o foco da experiência, ele está maisinteressado na percepção, na tomada de consciência e na experiência do que num construtohipotético, o Self. Como já descrevemos a definição de Rogers sobre o Self, podemos agora voltarpara a descrição da pessoa de funcionamento integral: a pessoa que está mais plenamenteconsciente de seu Self contínuo. A noção de funcionamento ótimo é sinônimo das noções deadaptação psicológica perfeita, de maturidade ótima, de acordo interno completo, de abertura total àexperiência. Como estas noções têm a desvantagem de sugerir algum estado mais ou menosestático, final ou acabado, devemos ressaltar que todas as características que acabamos deenumerar, a propósito do indivíduo hipotético, não têm o caráter de estagnação, mas de umprocesso dinâmico. A personalidade que funciona plenamente é uma personalidade em contínuo
  • 81. 81estado de fluxo, uma personalidade constantemente mutável. A pessoa de funcionamento integraltem diversas características distintas, a primeira das quais é uma abertura à experiência. Há poucoou nenhum uso das "subcepções", estes primeiros sinais de alerta que restringem a percepçãoconsciente. A pessoa está continuamente afastando-se de suas defesas na direção da experiênciadireta. A pessoa está mais aberta a seus sentimentos de receio, de desânimo e de desgosto. Ficaigualmente mais aberto aos seus sentimentos de coragem, de ternura e de fervor. Torna-se maiscapaz de viver completamente a experiência do seu organismo, em vez de a impedir de atingir aconsciência.Uma segunda característica é viver no presente, realizar-se completamente cada momento. Esteengajamento contínuo e direto com a realidade permite dizer que o eu (Self) e a personalidadeemergem da experiência, em vez de dizer que a experiência foi traduzida ou deformada para seajustar a uma estrutura preconcebida do eu. Uma pessoa é capaz de reestruturar suas respostas àmedida que a experiência permite ou sugere novas possibilidades. Uma característica final é aconfiança nas exigências internas e no julgamento intuitivo, uma confiança sempre crescente nacapacidade de tomar decisões. Quando uma pessoa está melhor capacitada para coletar e utilizardados, é mais provável que ela valorize sua capacidade de resumir esses dados e de responder. Estanão é uma atividade apenas intelectual, mas uma função da pessoa inteira. Rogers sugere que napessoa de funcionamento integral os erros efetuados serão devidos à informação incorreta e não aoprocessamento incorreto. Isto se assemelha ao comportamento de um gato que é jogado ao chão deuma determinada altura. O gato não considera a velocidade do vento, o momentum angular ou otamanho da queda. Ainda assim, tudo isto está sendo levado em conta em sua resposta total. 0 gatonão reflete sobre quem poderia tê-lo empurrado, quais teriam sido seus motivos ou o que podeacontecer no futuro. O gato lida com a situação imediata, o problema mais gritante. Roda em meioao ar e aterriza em pé, ajustando na mesma hora a sua postura pua enfrentar o próximo evento.pessoa de funcionamento integral é livre para responder e experienciar suas respostas às situações.Esta é a essência do que Rogers chama de viver uma vida plena. Tal pessoa estará comprometidanum contínuo processo de atualização.Terapia Centrada no ClienteRogers foi um terapeuta praticante durante toda sua carreira profissional. Sua teoria dapersonalidade emerge de seus métodos e idéias sobre terapia e é integrada a eles. A teoriapsicoterápica de Rogers passou por diversas fases de desenvolvimento e mudanças de ênfase, eainda assim há alguns pontos básicos que se mantiveram inalterados. Rogers faz uma citação deuma palestra onde, pela primeira vez, descreveu suas novas idéias sobre terapia:1. Esta nova abordagem coloca um peso maior sobre o impulso individual em direção aocrescimento, à saúde e ao ajustamento. A terapia é uma questão de libertar o cliente para umcrescimento e desenvolvimento normais.2. Esta terapia dá muito mais ênfase ao aspecto afetivo de uma situação do que aos aspectosintelectuais.3. Esta nova terapia dá muito mais ênfase à situação imediata do que ao passado do indivíduo.4. Esta abordagem enfatiza o relacionamento terapêutico em si mesmo como uma experiência decrescimento.Rogers usa a palavra "cliente" ao invés do termo tradicional "paciente". Um paciente é em geralalguém que está doente, precisa de ajuda e vai ser ajudado por profissionais formados. Um cliente éalguém que deseja um serviço e que pensa não poder realizá-lo sozinho. O cliente, portanto, emborapossa ter muitos problemas, é ainda visto como uma pessoa inerentemente capaz de entender suaprópria situação. Há uma igualdade implícita no modela do cliente, que não está presente norelacionamento médico-paciente. A terapia atende a uma pessoa ao revelar seu próprio dilema comum mínimo de intrusão por parte do terapeuta. Rogers define a psicoterapia como a liberação decapacidades já presentes em estado latente. Isto é, implica que o cliente possua, potencialmente, a
  • 82. 82competência necessária à solução de seus problemas. Tais opiniões se opõem diretamente àconcepção da terapia como uma manipulação, por especialista, de um organismo mais ou menospassivo. A terapia é apontada como dirigida pelo cliente ou centrada no cliente, uma vez que équem assume toda direção que for necessária.A terapia centrada no cliente e a modificação de comportamento têm algumas semelhanças: ambasouvem as idéias do cliente sobre suas dificuldades e ambas aceitam o cliente como capaz decompreender seus próprios problemas. Entretanto, na terapia centrada no cliente, a pessoa continuaa dirigir e modificar as metas da terapia e iniciar as mudanças comportamentais (ou outras) quedeseja que ocorram. Na modificação de comportamento, os novos comportamentos são escolhidospelo terapeuta. Rogers sente de modo intenso que tais "intervenções do especialista", qualquer queseja a sua natureza, são em última instância prejudiciais ao crescimento da pessoa. Suas opiniõessobre a natureza do homem e sobre os métodos terapêuticos não somente amadureceram durantesua vida, passaram por uma inversão quase que total. "Espero ter deixado claro que, no decorrer dosanos, distanciei-me muito de algumas das coisas em que inicialmente acreditei: de que o homem éem essência pecador; de que, profissionalmente, ele é melhor tratado enquanto objeto; de que aajuda fundamenta-se na perícia; de que o perito pode aconselhar, manipular e moldar o indivíduo afim de produzir o resultado desejado".Terapeuta Centrado no ClienteO cliente tem a chave de sua recuperação mas o terapeuta deveria ter determinadas qualidadespessoais que ajudam o cliente a aprender como usar tais chaves. Estes poderes dentro do cliente,tornar-se-ão efetivos se o terapeuta puder estabelecer com o cliente um relacionamento de aceitaçãoe compreensão suficientemente caloroso. Antes do terapeuta ser qualquer coisa para o cliente, eledeve ser autêntico, genuíno, e não estar desempenhando um papel, especialmente o de umterapeuta, quando está com o cliente. Isto envolve a vontade de ser e expressar com minhas própriaspalavras e meus comportamentos, os diversos sentimentos e atitudes que existem em mim. Istosignifica que se precisa, na medida do possível, perceber os próprios sentimentos, ao invés deapresentar uma fachada externa de uma atitude enquanto na verdade mantém se outra. Terapeutasque estão se formando em terapia centrada no cliente por vezes perguntam, "como se comportar senão gostamos do paciente ou se estamos aborrecidos ou bravos?" Não serão estes sentimentosgenuínos justamente os que ele desperta em todas as pessoas que ofende? A resposta centrada nocliente a estas questões envolve diversos níveis de compreensão. Em um nível, o terapeuta servecomo modelo de uma pessoa autêntica. O terapeuta oferece ao cliente um relacionamento atravésdo qual este pode testar sua própria realidade. Se o cliente confia que vá receber uma respostahonesta, pode descobrir se suas antecipações ou defesas são justificadas. O cliente pode aprender aesperar uma reação real, não distorcida ou diluída, à sua busca interior. Este teste de realidade écrucial se o cliente quer se afastar das distorções e experienciar a si mesmo de modo direto. Numoutro nível, o terapeuta centrado no cliente proporciona uma relação de ajuda enquanto aceita e écapaz de manter uma consideração positiva incondicional. Rogers a define como uma preocupaçãoque não é possessiva, que não exige qualquer favor pessoal. É simplesmente uma atmosfera quedemonstra, "eu preocupo-me", e não "eu preocupo-me consigo se se comportar desta ou daquelamaneira". Não é uma avaliação positiva porque toda avaliação é uma forma de julgamento moral. Aavaliação tende a restringir o comportamento respeitando algumas coisas e punindo outras; aconsideração positiva incondicional permite à pessoa ser realmente o que é, não importando o quepossa ser.Esta atitude aproxima-se daquilo que Maslow denomina amor taoístico, um amor que não fazjulgamento prévio, que não restringe nem define. É a promessa de aceitar alguém simplesmentecomo ele revela ser. Para fazer isto, um terapeuta centrado no cliente deve ser sempre capaz de vero centro auto-atualizador do cliente e não os comportamentos destrutivos, prejudiciais e ofensivos.Se puder reter uma consciência da essência positiva do indivíduo poder-se-á ser autêntico com tal
  • 83. 83pessoa, ao invés de ficar aborrecido, irritado ou bravo com expressões particulares de suapersonalidade. Esta atitude é similar à dos mestres espirituais da tradição oriental que, vendo odivino em todos os homens, podem tratar a todos com igual respeito e compaixão. O terapeutacentrado no cliente mantém uma certeza de que a personalidade interior, e talvez não desenvolvidado cliente, é capaz de entender a si mesma. Na prática, isto é extremamente difícil. Terapeutasrogerianos admitem que são, com freqüência, incapazes de manter esta qualidade de compreensãoquando trabalham. A aceitação pode ser uma mera tolerância, uma postura não julgadora que podeou não incluir uma real compreensão. Esta aceitação é inadequada. A consideração positivaincondicional deve incluir também uma compreensão empática, captar o mundo particular docliente como se fosse o seu próprio mundo, mas sem nunca esquecer esse caráter de "como se".Esta nova dimensão permite ao cliente maior liberdade para explorar sentimentos internos. Ocliente está certo de que o terapeuta fará mais do que aceitá-lo, pois está engajado de maneira ativana tentativa de sentir as mesmas situações dentro de si próprio. O critério final para um bomterapeuta é que ele deve possuir a habilidade para comunicar esta compreensão ao cliente. O clienteprecisa saber que o terapeuta é autêntico, preocupa-se, ouve e compreende de fato. É necessário queo terapeuta seja claro apesar das distorções seletivas do cliente, das subcepções de ameaça e dosefeitos danosos de uma auto-consideração mal colocada. Desde que esta ponte entre terapeuta ecliente seja estabelecida, o cliente pode começar a trabalhar a sério.Grupos de EncontroA passagem de Rogers de terapeuta centrado no cliente para líder de encontros e pesquisador foiquase inevitável. Suas afirmações de que as pessoas, não especialistas, eram terapeutas, foramcorrelacionadas com os primeiros dados de encontro. Quando Rogers foi para a Califórnia, foicapaz de dedicar mais tempo para participar, estabelecer e pesquisar este tipo de trabalho de grupo.À parte da terapia de grupo, os grupo de encontro têm uma história que prenuncia seuressurgimento nas décadas de 1950 e 1960. Dentro da tradição protestante norte-americana e, numaextensão menor, no Judaísmo, tinha havido experiências de grupo elaboradas para alterar asatitudes de uma pessoa em relação a si mesma e para modificar seu comportamento para com osoutros. As técnicas incluíam pequenos grupos de colegas, insistência na honestidade e na abertura,ênfase no aqui e agora e manutenção de uma atmosfera calorosa, de apoio. Mesmo as maratonas(encontros de grupos durante o dia e a noite) não são invenções recentes. Características comuns atodos os grupos de encontro incluem um clima de segurança psicológica, o encorajamento àexpressão dos sentimentos imediatos e a resposta subseqüente por parte dos membros do grupo. Olíder, qualquer que seja sua orientação, é responsável por estabelecer e manter o tom e o enfoque deum grupo. Este pode estender-se desde a atmosfera funcional de negócios, até estimulaçãoemocional ou à excitação sexual, à promoção de medo, raiva ou mesmo violência. Há relatos degrupos de todas as descrições. A contribuição de Rogers e seu trabalho contínuo com grupos deencontro são aplicações de sua teoria. Em Grupos de Encontro ele descreve os principaisfenômenos que ocorrem nos grupos que se prolongam por vários dias. Embora haja muitos períodosde insatisfação, incerteza e ansiedade na descrição de encontros que se segue, cada um dessesperíodos conduz a um clima mais aberto, menos defensivo, mais exposto e mais confiante. Aintensidade emocional e a capacidade de tolerar a intensidade parecem aumentar à medida que ogrupo prossegue.Processo de EncontroUm grupo começa andando à volta, esperando que lhe seja dito como se comportar, o que esperar,como trabalhar com as expectativas sobre o grupo. Há uma crescente frustração à medida que ogrupo percebe que os próprios membros determinarão a forma pela qual o grupo funcionará. Háuma resistência inicial à expressão ou exploração pessoais. É o eu exterior que os membros têmtendência para mostrar e só gradual, tímida e ambiguamente vão revelando algo do eu íntimo. Estaresistência é visível na maioria das situações de grupo, como em coquetéis, bailes ou piqueniques,onde em geral há alguma atividade, além da auto-exploração, à disposição dos participantes. Umgrupo de encontro desencoraja a busca de qualquer outra atividade. À medida que as pessoas
  • 84. 84continuam a interagir elas compartilham sentimentos passados associados a pessoas ausentes nogrupo. Ainda que possam ser experiências importantes para o indivíduo, não passam de uma formade resistência inicial; as experiências passadas são mais seguras e é pouco provável que sejamafetadas por críticas ou apoio. As pessoas podem ou não responder ao relato de um evento passado,mas ainda assim é um evento passado. Quando as pessoas começam a expressar seus sentimentospresentes, o mais freqüente é serem as primeiras expressões negativas. "Não me sinto bem comvocê". "Você tem uma maneira de falar vulgar". "Não acredito que você na realidade queria dizer oque disse sobre sua esposa". Os sentimentos profundos positivos são muito mais difíceis eperigosos de exprimir que os negativos. Se digo que te amo fico vulnerável e exposto à maisterrível rejeição. Mas se digo que te detesto, fico quando muito sujeito a um ataque de que possodefender-me. A não compreensão deste paradoxo aparente levou a uma série de programas deencontro cujo fracasso era previsível. Por exemplo, a Força Aérea desenvolveu programas derelacionamento racial incluindo sessões de encontro entre brancos e negros, conduzidas por líderestreinados. O resultado final desses encontros, no entanto, sempre parecia ser uma intensificação dossentimentos racistas de ambos os lados. Em virtude das dificuldades de planejar horário para aspessoas inseridas no regime militar, tais encontros não duravam mais do que três horas, tempobastante para que as expressões negativas fossem expressas, mas insuficiente para desenvolver orestante do processo. Quando os sentimentos negativos são expressos e o grupo não se desintegra,divide-se ou desaparece no fogo do inferno, começa a aparecer um material com significadopessoal. Sendo ou não aceitável para os membros do grupo, o "clima de confiança" começa a seformar e as pessoas começam a assumir riscos reais.Quando o material significativo emerge, as pessoas começam a expressar umas às outras seussentimentos imediatos tanto positivos quanto negativos. "Acho bom que você estejacompartilhando isto com o grupo". "Toda vez que falo algo você me olha como se quisesse meestrangular." "Gozado, eu pensei que não iria gostar de você. Agora tenho certeza disso." Quantomais expressões emocionais vêm à tona e sofrem as reações do grupo, Rogers nota odesenvolvimento de uma capacidade terapêutica no mesmo. As pessoas começam a fazer coisas queparecem ser de grande auxílio, que ajudam os outros a tomar consciência de sua própria experiênciade uma forma não-ameaçadora. O que o terapeuta bem treinado aprendeu a fazer durante anos desupervisão e prática, começa a emergir de modo espontâneo da própria situação. "Esta espécie defaculdade manifesta-se tão freqüentemente em grupos, que me leva a considerar que a capacidadede tratamento ou terapêutica é muito mais freqüente do que supomos na vida humana. Muitasvezes, para se manifestar, apenas necessita da licença concedida, ou da liberdade tornada possível,pelo clima de uma experiência de grupo em liberdade. Um dos efeitos da disposição do grupo paraa aceitação e feedback é que os pessoas podem aceitar a si mesmas. "Creio que realmente tentoimpedir que as pessoas se aproximem de mim." "Sou forte e mesmo cruel às vezes." "Quero tantoser amado que chego a fingir ser meia dúzia de coisas." Paradoxalmente, esta aceitação de simesmo, incluindo suas falhas, inicia a mudança. Rogers nota que quanto mais perto estivermos dacongruência, mais fácil será de tomarmo-nos sadios. Se uma pessoa for capaz de admitir que é deuma certa maneira, será então capaz de considerar possíveis alternativas de comportamento. Senegar parte de si mesma, não fará qualquer esforço para mudar. A aceitação, no domínio dasatitudes psicológicas por vezes ocasiona uma mudança naquilo que foi aceito. É irônico, masverdadeiro. À medida que o grupo continua, há uma crescente impaciência para com as defesas. Ogrupo parece exigir o direito de ajudar, de curar, de provocar a abertura das pessoas que parecemconstrangidas e defendidas. Por vezes gentilmente, outras de forma quase que selvagem, o grupoexige que o indivíduo seja ele mesmo, isto é, que não esconda os sentimentos comuns. A expressãopessoal de alguns membros do grupo tornou evidente que é possível um encontro mais profundo eessencial, e o grupo parece procurar intuitiva e inconscientemente este objetivo. Em qualquer trocaou encontro há feedback. O líder está sendo informado a todo instante de sua eficiência ou da faltadela. Cada membro que reage a outro pode, por sua vez, obter um feedback à sua reação. Este podeser difícil de aceitar, mas uma pessoa, num grupo, não pode evitar facilmente o conflito com aopinião do mesmo. Rogers chama de confrontação às formas extremas de feedback. Conforme diz,
  • 85. 85"há momentos em que o termo feedback é excessivamente moderado para descrever as interaçõesque se processam, momentos em que é mais correto dizer que um indivíduo se confronta com outro,diretamente, em pé de igualdade. Tais confrontações podem ser positivas, porém são muitas vezesnitidamente negativas". A confrontação leva os sentimentos a uma intensidade tal que um tipo deresolução é exigida. Este é um momento perturbados e difícil para um grupo e, potencialmente,muito mais perturbador para os indivíduos envolvidos. Parece claro que toda vez que o grupodemonstra de modo efetivo que pode aceitar e tolerar os sentimentos negativos sem rejeitar apessoa que os expressa, os membros do grupo tomam-se mais confiantes e abertos uns com osoutros. Muitas pessoas relatam suas experiências em grupos como as experiências de aceitaçãomais positivas e empáticas de suas vidas. A popularidade das experiências de grupo repousa tantono calor emocional que geram como em sua capacidade de facilitar o crescimento pessoal. ReferênciaBallone GJ - Carl Rogers, in. PsiqWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/,revisto em 2005* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 para sabermais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980 Capítulo XIV A Psicologia da Motivação Humana de Abraham Maslow Vontade e motivação Os valores são especificações do bem. Por isso, devo perguntar-me: que considero valioso? É-o realmente? Somos seres que damos e nos damos, mas também temos necessidades. É muito conhecida a teoria sobre a motivação desenvolvida por Abraham Maslow, centrada nas necessidades. O homem é um ser indigente - afirma Maslow. - Mal uma das suas necessidades é satisfeita, aparece outra no seu lugar. Este processo é interminável. Dura desde o nascimento até à morte . Descobre que as necessidades humanas estão organizadas numa série de níveis, segundo uma hierarquia de importância. De menor a maior importância, existem cinco níveis de necessidades: fisiológicas, de segurança, sociais, do eu e de auto realização. As necessidades de cada nível são motivadoras enquanto não estão razoavelmente satisfeitas. Pelo contrário, uma necessidade satisfeita não é um motivador do comportamento humano. São necessidades fisiológicas a comida, a bebida, o descanso, o exercício, o abrigo, a protecção contra os elementos, etc. As necessidades adquiridas podem-se incluir neste nível. As necessidades de segurança são bem conhecidas e diversas; na actualidade gozam de um apreço muito especial. As necessidades sociais são as de pertencer, estar associado), ser aceite pelos companheiros, ter amizades, etc. As necessidades do eu são, por uma parte, as relacionadas com a auto estima (confiança em si mesmo, autonomia, sucesso, competência, preparação, etc.); por outra, são as que se relacionam com a própria reputação (gratidão, apreço, respeito, prestígio, etc.). As necessidades de auto realização (no vértice das necessidades do homem) são as de dar vida ás nossas potencialidades, de nos desenvolvermos ou aperfeiçoarmo-nos
  • 86. 86continuamente, de sermos criativos, de realizarmos um projecto pessoal de vida, de realizaraquilo que de melhor há em nós. Em muitos seres humanos as necessidades de quinto nível permanecemadormecidas, em grande parte por frustrações experimentadas no que se refere anecessidades de níveis inferiores ou por ter gasto as energias interiores na luta pelasatisfação dessas necessidades. O esquema de Maslow assinalou uma série deexcepções à hierarquia de necessidades. Por exemplo, em certas pessoas as necessidadesde auto estima parecem ser mais importantes que as necessidades sociais. Em pessoas altamente criativas, o impulso para criar parece ser mais importantedo que qualquer outra necessidade. É o caso de muitos artistas. Em algumas pessoas onível de aspiração parece ficar bloqueado num patamar muito baixo. Isto é frequente naspessoas que sofreram grandes privações. Em certas pessoas parecem não existir as necessidades sociais. Talvez nãotenham encontrado afecto nos primeiros meses da sua vida, e por isso não mostremdesejos de dar e de receber afecto. Além disso, convém ter em conta que Maslow, apesarda importância que atribui à satisfação das necessidades como condição para odesenvolvimento psíquico, reconhece que a satisfação desordenada das necessidadeshumanas pode ter consequências patológicas. O desenvolvimento de uma personalidadesã vai para além da questão da satisfação das necessidades básicas. Por outras palavras, apermissividade é patogénica. É precisa uma dose de firmeza, disciplina e frustração parafazer uma pessoa madura (Rodríguez Porras, 1988, p. 19). Maslow fez uma excelente análise das necessidades humanas. Os primeirosquatro níveis reterem-se a necessidades de carência. O quinto, ao contrário, incluinecessidades de realização. Em todo o caso, as necessidades apontam para valores oubens, materiais e imateriais.2 Motivação e valores Por outro lado, a auto realização não esgota as necessidades - ou melhor, asaspirações - do ser humano, como se pode ver na teoria da motivação de Victor Frankl.Este famoso psiquiatra viu com particular clarividência, a partir das sua experiência deatrozes sofrimentos em campos de concentração alemães, que o homem é um ser queprocura sentido para a vida e que esta mesma vontade de sentido o sustém na existência. A procura e a consecução de metas têm um efeito motivador na medida em quesão valiosos. (Quando o parecem, mas não são valiosos, podem motivar durante a suabusca, mas a sua consecução produz desencanto ou frustração). Frankl refere-se á metaúltima. A verdadeira meta da existência humana não se pode encontrar no que sedenomina auto realização. Esta não pode ser em si mesma uma meta, pela simples razãode que quanto mais o homem se esforçar por consegui-la, mais se lhe escapa, pois só namedida em que o homem se compromete no cumprimento do sentido da sua vida, nessamesma medida se auto realiza. Por outras palavras, a auto realização não se podealcançar quando se considera um fim em si mesma, mas quando acontece como efeitosecundário da própria transcendência (Frankl, 1986, p. 109). O esquema da motivação humana de Pérez López tem muitos pontos de contactocom Frankl. Pérez López distingue três tipos de motivações, que denominarespectivamente motivação extrínseca, intrínseca e transcendente. Esta diferenciaçãoapoia-se na observação de que toda a acção humana se realiza num ambiente - porexemplo, a organização - e que gera consequências em três dimensões diferentes.
  • 87. 87 Os motivos movem o ser humano pelas consequências que espera em virtude daacção executada. Na motivação extrínseca, pelas consequências que espera alcançardevido às reacções do ambiente; na motivação intrínseca pelo que espera que produzanele a sua própria acção; na motivação transcendente pelas que espera que a sua acçãoproduza em outra ou outras pessoas presentes à sua volta. São três motivações que se encontram em todas as pessoas humanas, embora emproporções distintas. Se predomina a motivação extrínseca a pessoa está dependente, decerto modo, das reacções dos outros e actua interesseiramente; se predomina a intrínseca,a pessoa pode decidir-se pela acção tendo em vista a sua melhoria pessoal; se predominaa transcendente a pessoa actua pensando ou abrindo-se às necessidades alheias ou àmelhoria pessoal dos destinatários da sua actividade. Este esquema das intenções das motivações é muito interessante, porque não secentra tanto_ no que o ser humano sente como no que a pessoa quer. Destaca asintenções do sujeito, os fins que se propõe. Está muito relacionada, portanto, comvontade humana. Mediante a acção educativa, os educadores podem ajudar os seusfilhos ou aluno(a)s a elevar o nível dos seus motivos, dando preferência à motivaçãointrínseca e à transcendente. Quando uma pessoa se move por uma motivação transcendente significa que seabre às necessidades alheias - independentemente da reacção do seu ambiente e da suaprópria satisfação pessoal -, o que implica uma maior liberdade e uma maior qualidadeda motivação. Abre-se não só às necessidades de outros, como também à sua melhoriacomo pessoa. Além disso, podemos avaliar a motivação de uma pessoa para uma ação,considerando a proporção em que entram cada uma destas motivações. Por sua vez,ajudanos a descobrir os valores preferentes ou prioritários de cada pessoa.3 Valores no âmbito da família Quando os valores prioritários são os valores ou bens materiais, como ocorre emamplos sectores da sociedade actual, ou quando os valores se confundem com os desejosou as apetências de um ser humano, como também acontece, a descoberta de verdadeirosvalores humanos tem uma grande importância para a motivação da vontade humana.Porquê? Porque a motivação humana remete sempre para valores humanos verdadeiros,materiais e espirituais - sempre que os primeiros sirvam os segundos e não ao contrário. A descoberta de valores corresponde aos imateriais, aos do espírito, aos quefazem referência à verdade (valores intelectuais), ao bem (valores morais) e à beleza(valores estéticos). São três tipos de valores estreitamente relacionados entre si, porqueverdade, bem e beleza são os termos inseparáveis de um trinómio. (Se alguém tentassesepará-los, encontrar-se-ia com uma verdade má e feia, com um bem feio e falso, comuma beleza falsa e má). Como descobrir estes valores? Cada qual deve tomar a iniciativa de os procurarporque lhe são muito importantes: são os elementos que aperfeiçoam o próprio ser;mediante eles, um indivíduo pode acabar por ser, chegar a ser aquilo que é: pessoa sermais e melhor pessoa.
  • 88. 88 Mas nem sempre que se procuram, se encontram. Também é verdade que às vezes,emergem de repente no nosso horizonte existencial, inclusivamente apesar da nossaresistência (...). Um dia qualquer. uma vida rotineira, e talvez sem relevo, pode sentir-sesacudida - e até invadida - pela descoberta de um novo valor que a transforma (Polaino eCarreño, l992, p. 75). Há algum âmbito onde a descoberta de valores seja menos difícil ou maisprovável? Em primeiro lugar, o âmbito vital da família. Se os pais optaram por certosvalores e se comprometeram com eles, cada filho que vem ao mundo não tem dedesenvolver a tarefa hercúlea e problemática de tratar de descobrir por que valores vale apena arriscar a vida (ibidem). Nem sempre acontece assim. Optar por certos valores significa escolher, entre osmelhores, aqueles que mais convenham, numa família concreta com as suascircunstâncias actuais, para o desenvolvimento pessoal de cada membro e para amelhoria familiar. Logicamente, serão prioritários os valores humanos mais cultivadospor ambos os cônjuges. Comprometer-se com uns valores e organizar a vida familiar em função delessupõe tê-los interiorizado profundamente. Só assim serão capazes de os pôr de moda nasua família, sendo eles próprios, para os seus filhos, portadores de valores. Esses valores, vividos pelos pais. com naturalidade e com graça, com bom humor,sabendo sorrir habitualmente, serão atractivos para os filhos e contagiosos. A família, sobesta perspectiva, aparece-nos como um museu vivo de valores. E não porque os paispendurem os valores nas paredes, como se se tratasse de um quadro que, passivamente,se deve admirar. Os valores familiares constituem, pelo contrário, um dado irrefutável,quase com cunho testemunhal, que vai unido ao comportamento diário dos pais (ibidem,p. 76). E também estarão presentes estes valores na conduta dos filhos, quando os pais,além de os viverem e de os fomentarem, promovem e mantêm vigentes algumas normase costumes familiares que mostram a presença viva destes valores preferenciais. Os valores familiares - em famílias cristãs não são só valores naturais, mastambém valores sobrenaturais - nenhuma criança inicialmente os questiona. Mais tardesim, porque, na medida em que cresce, emerge e amadurece a sua liberdade pessoal, há-de comprometer-se também nas escolhas que faz e que, obviamente, são sempre muitopessoais(...). Precisamente, por isso, os pais têm de preparar essa fase de referência -através do seu comportamento - que lhe sirva de orientação (ibidem). Isto será tanto menos difícil para os pais quanto mais cedo façam da sua famíliaum museu vivo de valores, quando os filhos são ainda muito pequenos. Será menosdifícil também a sua adolescência, quando o quadro de referência e um mínimo denormas e costumes tenham sido parte importante do seu ambiente familiar acolhedordesde a primeira infância. Deste modo, quando o filho adolescente ou o filho jovem dá prioridade a algunsvalores como fundamento para apoiar a sua vida, tem já, como em depósito, uns valoresque anteriormente assumiu e integrou, quase sem dar por isso, contagiados ouemprestados pelos seus pais. Estes valores familiares descobertos na convivência do lar paterno, nas relaçõesdiárias de pais e filhos, de irmãos de diferentes idades, traduzem-se - como efeito dedescoberta - em motivos. Em consequência, a conduta de cada filho estará motivada
  • 89. 89 desde o principio, a sua vontade estará motivada. Penso, por contraste, em tantos filhos desmotivados antes e durante a sua adolescência, quando os primeiros responsáveis da família não se propuseram ou não souberam criar este a ambiente familiar cimentado na sinceridade, na generosidade, na lealdade, na laboriosidade, no optimismo, na compreensão exigente, no respeito confiado, na disponibilidade, na gratidão, na amizade e noutros valores humanos. Capítulo XV A Fenomenologia Psicanalítica de Alfred AdlerAdler observou que pessoas com fraquezas orgânicas graves tentarão compensá-las e atravésdessa compensação órgãos antes fracos poderiam tornar-se fortemente desenvolvido por meiode treino e exercícios. Isso resultaria em maior habilidade ou força do indivíduo.Ele achava que em quase todas as pessoas encontramos alguma imperfeição orgânica, ficandocom a impressão de que essas pessoas foram dolorosamente testadas no início de suas vidas,mas lutaram e superaram as dificuldades.Inferioridade e CompensaçãoA idéia de Alfred Adler sobre a inferioridade orgânica apareceu pela primeira vez em 1907, etentava explicar por que a doença afeta as pessoas de formas diferentes. Ele sugeriu que emcada indivíduo certos órgãos são mais fracos que outros de algum modo, e isso tornaria apessoa mais suscetível à doenças envolvendo tais órgãos mais frágeis.Adler ampliou sua investigação sobre inferioridade orgânica para o estudo do sentimentopsicológico de inferioridade. Ele criou o termo "complexo de inferioridade" e afirmava quetodas as crianças são profundamente afetadas por um sentimento de inferioridade, conseqüênciainevitável do tamanho da criança e de sua falta de poder.Um forte sentimento de inferioridade, ou um complexo de inferioridade, impediria ocrescimento e desenvolvimento positivos. Entretanto, sentimentos de inferioridade maismoderados podem motivar os indivíduos para realizações construtivas. Desde a mais tenraidade, a criança passa a perceber que existem outros seres humanos capazes de satisfazercompletamente suas necessidades mais urgentes, melhor preparados para viver.A criança aprende então a dar um valor excessivo ao tamanho, atributo que possibilita a pessoaabrir uma porta, ou à força, a qual habilita a transportar objetos pesados, ou ao direito de darordens e exigir obediência. Esses sentimentos despertam na criança um desejo de crescer, deficar tão forte como os outros, ou mesmo mais forte ainda.A Luta pela SuperioridadeAdler ressaltava a grande importância da agressão e da luta pelo poder, e não equiparavaagressão com a hostilidade. Ele se referia à agressão no sentido de um vendedor agressivo, istoé, a agressão como incentivo para a superação de obstáculos. Sustentava que as tendênciasagressivas humanas têm sido cruciais para a sobrevivência individual e das espécies e talagressão pode se manifestar como vontade de poder. Salientava que mesmo a sexualidade é
  • 90. 90freqüentemente utilizada para satisfazer a ânsia de poder.Encarava a agressão e a vontade de poder como manifestações de um motivo geral, um certoobjetivo de superioridade ou perfeição, isto é, seria uma motivação para nos aperfeiçoar, paradesenvolvermos nossas capacidades e potenciais. Para Adler, a luta pela perfeição é inata, fazparte da vida, é um impulso, um algo sem o qual a vida seria inimaginável.Esse objetivo de superioridade poderia tomar uma direção tanto positiva quanto negativa.Quando ele inclui preocupações sociais e interesse pelo bem estar dos outros, desenvolve-senuma direção construtiva e saudável. Assume a forma de uma luta pelo crescimento, pelodesenvolvimento das capacidades e habilidades e pela procura de um modo de vida superior.Entretanto, algumas pessoas lutam pela superioridade pessoal. Elas tentam realizar umsentimento de superioridade dominando os outros, ao invés de se adequarem a eles. Para Adler,a luta pela superioridade pessoal seria uma perversão neurótica, resultado de um fortesentimento de inferioridade e uma falta de interesse social. Geralmente não consegue dar oreconhecimento e a satisfação pessoal que o indivíduo está buscando.A meta da superioridade tem suas raízes no processo evolutivo de adaptação contínua ao meioambiente. Todas as espécies devem evoluir no sentido de adaptar-se de forma mais efetiva, casocontrário extinguem-se e, assim, cada indivíduo é levado a lutar por um relacionamento maisperfeito com o meio ambiente. Se esta luta não fosse inata, nenhuma forma de vida poderia sepreservar.Objetivos de VidaAdler considerava o objetivo de dominar o meio ambiente como sendo muito abstrato parasatisfazer a necessidade de uma direção de vida. O objetivo de vida de cada indivíduo éinfluenciado por expediências pessoais, valores, atitudes e personalidade. Não é um alvo claro econscientemente escolhido. Enquanto adultos, podemos ter razões definidas e lógicas para aescolha de nossa profissão.No entanto, os objetivos de vida que nos guiam e motivam formaram-se antes, no início dainfância, e permaneceram um tanto obscuros e em geral inconscientes. Adler menciona, porexemplo, que muitos médicos escolhem suas profissões na infância, da forma como ele o fez,como um meio de enfrentar sua insegurança em relação à morte.A formação de objetivos de vida se inicia na infância como forma de compensação desentimentos de inferioridade, insegurança e desamparo num mundo adulto. Os objetivos devida, via de regra, funcionam como defesa contra sentimentos de impotência, como ponte deum presente insatisfatório para um futuro brilhante, poderoso e realizador, são sempre um tantoirreais e podem tornar-se neuroticamente super desenvolvidos se os sentimentos deinferioridade forem muito fortes. No caso do neurótico há, em geral, uma grande lacuna entrepropósitos conscientes e inconscientes, objetivos de vida auto-destruidores, que giram em tornode fantasias de superioridade pessoal e auto-estima, às custas de objetivos envolvendorealizações verdadeiras.Os objetivos de vida dão direção e finalidade para nossas atividades. Eles permitem que umobservador externo interprete vários aspectos do pensamento e comportamento em termosdesses objetivos. Por exemplo, alguém que luta pela superioridade buscando um poder pessoaldesenvolverá traços de caráter necessários para atingir esse objetivo, traços tais como ambição,inveja e desconfiança. Adler salienta que esses traços de caráter não são nem inatos nem
  • 91. 91imutáveis, mas foram adotados como facetas essenciais da direção do objetivo do indivíduo.Estilo de VidaAdler começa com uma proposta holística enfatizando a necessidade de analisar cada indivíduocomo um todo unificado e achava que o único caminho que um indivíduo escolhe para buscarseu objetivo era seu estilo de vida. Considerava um estilo integrado de adaptação e integraçãocom a vida em geral.Sua linha, chamada de Psicologia Individual, desenvolveu-se a partir do esforço paracompreender o misterioso poder criador da vida, o qual se expressa no desejo de sedesenvolver, de lutar e realizar. Esse poder seria teleológico e se expressaria na luta por umobjetivo e, nessa luta, todo o movimento corporal e psíquico é feito pata cooperar. É absurdoestudar movimentos corporais e condições mentais de forma abstrata ou sem relação com umtodo individual.Hábitos e traços de comportamento aparentemente isolados adquirem um significado dentro docontexto pleno da vida e dos objetivos do indivíduo e, dessa forma, os problemas psicológicos eemocionais não podem ser tratados isoladamente. Todo o estilo de vida está envolvido, uma vezque um dado sintoma ou traço não é senão uma expressão do estilo de vida integrado doindivíduo.O CorpoO corpo é a maior fonte de sentimentos de inferioridade na criança, rodeada que está poraqueles maiores e mais fortes ou que fisicamente atuam de forma mais efetiva. Adler tambémsalientava que o mais importante é nossa atitude em relação ao nosso corpo. Muitos homens emulheres atraentes nunca resolveram sentimentos de feiúra e não-aceitação que sentiram nainfância, continuam se comportando como se não tivessem atrativos depois de adultos. Poroutro lado, através da compensação, pode ocorrer que os que têm deficiências físicas lutemfirmemente e desenvolvam seus corpos além da média.Relacionamento SocialOs relacionamentos sociais são de importância central nas teorias de Adler. Constituem aexpressão direta do interesse social e são essenciais no desenvolvimento de um estilo de vidaconstrutivo e realizador.VontadeA Vontade é para Adler sinônimo de luta pela superioridade e realização de objetivos de vida.Como tal, é um elemento central em sua teoria.O Interesse SocialEmbora as teorias de Adler tenham sido simplificadas em demasia por muitos críticos, amaioria enfatizavando apenas a agressão e a luta pelo poder pessoal, os escritos mais recentesde Adler estão centrados no conceito de interesse social. Por interesse social Adler entendia o"senso de solidariedade humana, a relação de um homem com outro, a mais ampla conotação deum senso de fraternidade na comunidade humana.Em certo sentido, considerava todo comportamento humano social pois, segundo ele, crescemosnum meio social e nossas personalidades são socialmente ali formadas. O interesse social eramais do que a preocupação com a comunidade ou sociedade imediata de alguém, ele incluiasentimentos de afinidade para com toda a humanidade e fortes laços com a totalidade da vida.
  • 92. 92Adler definia o interesse social, em seu sentido mais amplo, como uma preocupação com acomunidade ideal de todo o gênero humano, como o último estágio da evolução de nossaespécie.CooperaçãoUm aspecto importante do interesse social é o desenvolvimento do comportamento cooperativo.De um ponto de vista evolutivo, a habilidade para cooperar na colheita de alimentos, na caça ena defesa contra predadores tem sido um dos fatores mais importantes na sobrevivência da raçahumana e a forma mais efetiva de adaptação ao meio ambiente.Adler acreditava que somente através da cooperação com outros, e operando como um valioso ecooperativo membro da sociedade, podemos superar nossas inferioridades reais ou nossosentimento de inferioridade. Ele escreveu que aqueles que têm dado as mais valiosascontribuições para a humanidade são os indivíduos mais colaboradores, e os trabalhos dosgrandes gênios sempre têm uma orientação social. Por outro lado, a falta de cooperação e umconseqüente sentimento de inadequação e malogro são as raízes de todo estilo de vida neuróticoou inadaptado.Crescimento PsicológicoO crescimento psicológico é principalmente uma questão de mover-se a partir de uma atitudeautocentrada e do objetivo de superioridade pessoal para uma atitude de domínio construtivo domeio ambiente e de desenvolvimento socialmente útil. A luta construtiva pela superioridade e oforte interesse social e cooperação são os traços básicos do indivíduo saudável.Tarefas da VidaAdler discute as três maiores tarefas com que o indivíduo se defronta: trabalho, amizade eamor. Elas, são determinadas pelas condições básicas da existência humana, e estes três laçosprincipais são estabelecidos pelo fato de vivermos num lugar específico no universo e devemosnos desenvolver dentro dos limites e possibilidades em que as circunstâncias nos colocam.Ressaltava o fato de vivermos entre outros de nossa espécie, outros a quem devemos aprender anos adaptar, que existia dois sexos e que o futuro da raça humana depende das relações entreeles.O trabalho, para Adler, inclui todas as atividades úteis à comunidade, e não apenas asocupações pelas quais recebemos um salário. Para Adler, o trabalho fornece um sentimento desatisfação e merecimento apenas na medida em que beneficia outros. A importância de nossotrabalho está essencialmente baseada em nossa dependência do meio físico. Achava queestamos vivendo neste planeta, unicamente com seus recursos, com a fertilidade de seu solo,sua riqueza mineral, seu clima e atmosfera.Sempre foi tarefa da humanidade encontrar a resposta certa para o problema que essascondições nos apresentam. Sempre, foi necessário lutar pelo aperfeiçoamento e maioresrealizações.A amizade expressa nossa pertinência à raça humana e nossa constante necessidade deadaptação e interação com outros de nossa espécie. Nossas amizades específicas estabelecemlaços essenciais com nossa comunidade, uma vez que nenhum indivíduo jamais se relacionacom a sociedade abstratamente. O empenho amistoso e cooperativo é também um elementoimportante para o trabalho construtivo.
  • 93. 93O amor é discutido por Adler em termos exclusivos de amor heterossexual. Ele envolve umaíntima união de mente e corpo e a máxima cooperação entre duas pessoas de sexos opostos. Oamor se baseia no fato de que cada ser humano é um membro de um sexo e não de outro e deque a intimidade entre os sexos é essencial para a continuação de nossa espécie. Adler escreveque o vínculo íntimo do casamento representa o maior desafio para nossa habilidade decooperar com outro ser humano. Um casamento bem sucedido criaria o melhor meio parapromover cooperação e interesse social nas crianças.Adler acentuava que esses três problemas, trabalho, amizade e amor, estariam sempre inter-relacionados. Pensava que a solução de um ajuda a solução de outros e, na verdade, podemosdizer que são todos aspectos da mesma situação e do mesmo problema essa necessidade do serhumano preservar a vida e favorecê-la no ambiente em que se encontra.Obstáculos ao CrescimentoAdler especifica três situações na infância que tendem a resultar em isolamento, falta deinteresse social e desenvolvimento de um estilo não-cooperativo, baseado no objetivo irreal desuperioridade pessoal. São eles: inferioridade orgânica, superproteção e rejeição.Crianças com inferioridade orgânica, ou seja, que sofrem de doenças ou enfermidades tendemse tornar fortemente auto-centradas. Fogem da interação com outros por um sentimento deinferioridade ou incapacidade de competir com sucesso com outras crianças. Adler salienta,contudo, que as crianças que superam suas dificuldades tendem a compensar sua fraquezaoriginal além da média e desenvolvem suas habilidades num grau incomum.Crianças superprotegidas e mimadas também têm dificuldades em desenvolver um sentimentode interesse social e cooperação. Falta-lhes confiança em suas próprias habilidades, uma vezque os outros sempre fizeram tudo por elas. Ao invés de cooperarem com outros, essas criançastendem a fazer exigências unilaterais aos amigos e à família. O interesse social é habitualmentemínimo e Adler descobriu que crianças mimadas em geral nutrem poucos sentimentos genuínosem relação aos pais, os quais manipulam muito bem.A rejeição é a terceira situação que tende a impedir fortemente o desenvolvimento de umacriança. Uma criança não desejada e rejeitada nunca conheceu o amor e a cooperação em casae, portanto, lhe é extremamente difícil desenvolver essas capacidades. Tais crianças não têmconfiança em suas habilidades para serem úteis e obterem afeição e estima dos outros. Quandoadultos. tendem á tornar-se frias e duras.Os traços de crianças não-amadas, em sua forma mais desenvolvida, podem ser observados noestudo das biografias de todos os grandes inimigos da humanidade. Neste caso, a única coisaque se destaca é que, quando crianças, foram maltratados. Desenvolveram, assim, dureza decaráter, inveja e ódio; não podiam suportar ver os outros felizes.Luta pela Superioridade PessoalQuando predominam sentimentos de inferioridade ou quando o interesse social ésubdesenvolvido, os indivíduos tendem a buscar superioridade pessoal pois lhes falta confiançaem sua habilidade para atuar efetivamente e trabalhar de forma construtiva com outros.Tais indivíduos não dão contribuições de real valor para a sociedade e tornam-se fixados emmodelos de comportamento autocentrados, levando inevitavelmente a um sentimento defracasso. Essas pessoas se desviaram dos problemas reais da vida e estão engajadas na luta com
  • 94. 94a própria sombra para reassegurarem-se de sua força.Fortalecimento do Interesse Social.A terapia é um trabalho cooperativo entre terapeuta e paciente, um relacionamento de apoio queajuda este último a desenvolver cooperação e interesse social. Alegava que a tarefa do médicoou psicólogo é oferecer ao paciente a experiência de contato com um companheiro e entãocapacitá-lo, para transferir este interesse social despertado para outras pessoas.Adler salientava que, freqüentemente, o terapeuta deve prover os cuidados, o apoio e o senso decooperação que o paciente nunca recebeu de seus próprios pais. Uma vez que Adler estavaconvencido do fato de que o interesse voltado para a própria pessoa ao invés de para os outros éo núcleo da maioria dos problemas psicológicos, sentia que a maior missão do terapeuta éafastar gradualmente o paciente do interesse exclusivo em si próprio, fazendo com que se voltepara um trabalho construtivo para os outros, como um membro de valor para a comunidade.ReferênciaBallone GJ - Alfred Adler, in. PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revistoem 2005* - baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 parasaber mais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980
  • 95. 95 Capítulo XVI A Psicologia do Inconsciente Coletivo de Carl Gustav JungDentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as maisusadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramenteorientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige emdireção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundoexterno. Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes aintroversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duasatitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo.Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisados dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquantoKant era introvertido por excelência. O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotarqualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.As Atitudes: Introversão e ExtroversãoOs introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, emseu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de formademasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo.O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suasreflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.Os extrovertidos, por suavez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais emais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominadospelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processosinternos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar seapoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas própriasopiniões.As Funções PsíquicasJung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento,sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto demaneira introvertida quanto extrovertida.O PensamentoJung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos etomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentosderivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a funçãodo Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores etendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditóriaevidência.O SentimentoTipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferememoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência eprincípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisõesdeve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom oudo mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógicaou eficiência, como faz o reflexivo.
  • 96. 96A SensaçãoJung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações,diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiênciadireta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoapode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou aanálise da experiência. Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, elidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempreprontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalhammelhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.A IntuiçãoA intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivosfuturos e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o queé possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma.Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via deregra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos.Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, aexperiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.ArquétiposDentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. TaisArquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o materialpsicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina ascaracterísticas do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparoos Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo - em cima formasarredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma semconteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou omeio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existemantecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas issodepende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais. Jung também chama os Arquétiposde imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos quereaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temaspodem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, osArquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto àsfantasias individuais quanto às mitologias de um povo. A história de Édipo é uma boa ilustraçãode um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípicaque lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situaçõesligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos paiscom os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante. O termoArquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivosmitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representaçõesconscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podemvariar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, oArquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas asfiguras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres(tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como aIgreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãeameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipoestava cristalizado na imagem da velha bruxa. Jung escreveu que cada uma das principaisestruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima(nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.
  • 97. 97SímbolosDe acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Emboranenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma semconteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconscienteorganizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmentecarregada. Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psiqueindividual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Alémdos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivosimportantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas deDavid e a roda da vida budista. Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitosque nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signorepresenta alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica eviva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dadomomento. Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até umaimagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significadoconvencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica algumacoisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspectoinconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.Os SonhosOs sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado ànossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagenssimbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somoscompelidos a prestar atenção neles.Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Ossonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vidaconsciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneirasfreqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos,para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material oníricoque reconstitui equilíbrio psíquico total. Jung abordou os sonhos como realidades vivas queprecisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentoudescobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonhoe, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica nalivre associação. Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de umsignificado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquertentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação dosonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter dasinterpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas comoválidas pelo analisando. Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato deexperienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossossonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processosinconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida suaprópria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado devaadaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar dessediálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo,com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.O EgoO Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece umsentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se aqualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos deque sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crerque o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o
  • 98. 98inconsciente. De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emergedele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente eo consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados daexperiência pessoal.A PersonaNossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos;através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipode roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona éderivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores nodrama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e"personalidade" também estão relacionadas a este termo. A Persona tem aspectos tanto positivosquanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificamcom sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de suafachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Personanão é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudessociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nosdramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia,ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada atorestava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante emnosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, adesempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção. Entre os símboloscomumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas,véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos destatus (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos comorepresentações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte podeaparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa comPersona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Personaextremamente inadequada seria o fato de não ter pele.A SombraPara Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimidoda consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que sãorejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideaissociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, maisrepudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramosinferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos emnós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, umvagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa. Em seu trabalho sobre repressão eneurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu queo material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certosentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos comouma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamenteretirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material daSombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido ede escuridão. A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso,o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pelaSombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele podedominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode sersimplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas umacaricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes emtodos nós. Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós noslimitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente. À medida que a
  • 99. 99Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos.Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito deconsiderável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossacriatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo epode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitadopelo Ego e pela Persona. No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombraaparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste emolhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.O SelfJung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e totalidade da personalidade.Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro,mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self. Jung descobriu oArquétipo do Self apenas depois de estarem concluídas suas investigações sobre as outrasestruturas da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de formaimpessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real,uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos datotalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos doprocesso de Individuação. O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmoestranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda acircunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro destatotalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhoscomo uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bempouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O desenvolvimento do Self nãosignifica que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, masagora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensãoe aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro dapersonalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.Crescimento Psicológico - IndividuaçãoSegundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a Individuação ou autodesenvolvimento. Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em quepor individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável,significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuaçãocomo tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo. Individuação é um processo dedesenvolvimento da totalidade e, portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Istoinclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego,Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-seindividuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais sutis e complexas. Quanto maisconscientes nos tornamos de nós mesmos através do auto conhecimento, tanto mais se reduzirá acamada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindouma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livreparticipação de um mundo mais amplo de interesses objetivos. Essa consciência ampliada não émais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, quesempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências inconscientes; tornar-se-á umafunção de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhãoincondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo. Do ponto de vista do Ego, crescimento edesenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência, o que inclui aaquisição de conhecimento a respeito do mundo e da prória pessoa. O crescimento, para o Ego, éessencialmente a expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é odesenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a união da consciência com oinconsciente. Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade davida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses
  • 100. 100primários centravam-se em realizações externas, no "emergir" como indivíduos e na consecuçãodos objetivos do Ego. Analisandos mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de formarazoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do quepelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique. O primeiro passo no processode Individuação é o desnudamento da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes,ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente. Ao analisarmos a Persona,dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; emoutras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem dereal; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguémparece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais mas, emrelação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez queresultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduoem questão. O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que nós aceitamos arealidade da Sombra e dela nos distinguimos, podemos ficar livres de sua influência. Além disso,nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente pessoal que éorganizado ao redor da Sombra. O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. EsteArquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade com quem se pode comunicare de quem se pode aprender. Jung faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolosoníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O indivíduo também se conscientiza deque a Anima (ou o Animus) tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade delainfluenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens eprojeções como se fossem deles mesmos. O estágio final do processo de Individuação é odesenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completaexpressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-seo novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e oinconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de todaa personalidade. Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos descobrir nossaprópria individualidade, aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e doinconsciente. Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza pareceestar nos dirigindo. Só a partir deste ponto podemos satisfazer nossas necessidades. É necessárioter em mente que, embora seja possível descrever a Individuação em termos de estágios, oprocesso de Individuação é bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada.Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas etemas antigos (espera-se que de uma perspectiva diferente). A Individuação poderia serapresentada como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se confrontando com asmesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinada. Este conceito está muito relacionadocom a concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo nunca termina um Koan, ouproblema espiritual, e a procura de si mesmo é vista como idêntica à finalidade.)Obstáculos ao CrescimentoA Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego precisa ser forte o suficientepara suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de Individuação, no entanto, as pessoasnão o sabem, esta é a única diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara ou umluxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados.Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo. A dificuldadedeste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado acabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que anatureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência,muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique e seusprêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade. Esta última será, na maioria dasvezes, recompensada postumamente. Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhadode dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a Persona. Aqueles que se
  • 101. 101identificam com a Persona podem tentar tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seuserros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada. Aqueles que seidentificam totalmente com a Persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam,e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidadenegativa reprimida. A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a Individuação.As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsosprejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomarconhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para aação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a Sombrapode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da Sombra em outros. Porexemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinadospelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudarcuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes. O confrontocom a Anima ou o Animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente ecom a psique coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade dehumor num homem. Nas mulheres, o Animus freqüentemente se manifesta sob a forma deopiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jungsobre Anima e Animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral.O conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa concepção consciente de nósmesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinadapor valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.) Quando o indivíduo é exposto aomaterial coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrênciapode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do Ego, na qual oindivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotênciado Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciênciaaguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim pordiante. Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão maispróximos do final. Quando o indivíduo lida com a Anima e o Animus, uma tremenda energia élibertada. Esta energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de desenvolver o Self. Jungreferiu-se a este fato como identificação com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento dapersonalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder queemana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta oumágica). O Ego identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia aquele que sabetudo. A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados nesteestágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles tendem aacreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas, na verdade, menos, porqueperderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamentesábio, infalível e sem defeitos. Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self oucom a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo e Individuação.A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossahumanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos eprecisamos fazer, e não na que deveríamos fazer ou ser. ReferênciaBallone GJ - Carl Gustav Jung, in. PsiqWeb, internet, disponível emhttp://www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005baseado no livro "Teorias da Personalidade"- J. Fadiman, R. Frager - Harbra - 1980 para sabermais: Tipos Psicológicos - C.G.Jung - Zahar Editores - RJ - 1980 .
  • 102. 102 Capítulo XVII O homem à procura de si mesmo, segundo Rollo MayIntroduçãoRollo May (1909-1994) nasceu em Ohio, cresceu em Michigan, faleceu na Califórnia.Graduou-se em artes, em 1930. Encantou-se com a arte clássica grega, decidindo ir àGrécia, logo ao término de seu bacharelado. Trabalhou na Grécia durante três anos. Emseguida, viajou para Viena e estudou um breve tempo com Alfred Adler, cuja influênciamarcou-o consideravelmente. DesenvolvimentoA visão trágica da Europa, de então, acerca da natureza humana impediu-o de aceitar umconceito mecânico de pessoa. Retornando aos Estados Unidos, a psicologia local lhe pareceu"ingênua e simplista". Tanto, que resolveu matricular-se no Seminário Teológico União deNova Iorque. Aí realizou investigações aprofundadas sobre o significado da desesperação,do suicídio e da angústia, questões estas, um tanto, ignoradas pelos psicólogos de lá.Apostava na possibilidade de com estes estudos pudesse aprender sua contrapartida: o valor,a alegria e a intensidade da vida (1983). No Seminário tornou-se discípulo e grande amigodo teólogo protestante Paul Tillich, ligação esta que enriqueceu a vida, a obra e os escritosde ambos.Os pais de May se divorciaram durante seu curso no União, fato que o obrigou a interromperseus estudos e voltar para Michigan para cuidar dos assuntos de família. Durante este tempo, foi conselheiroestudantil em um colégio estatal de Michigan. Mais tarde, pôde regressar a Nova Iorque econcluir sua licenciatura em teologia, isto em 1938. Durante os seus últimos anos noSeminário escreveu seu primeiro livro, The Art of Counseling (A arte do aconselhamentopsicológico). May trabalhou como ministro paroquial em Montclair, Nova Jersey, antes deretornar a Nova Iorque, e começar a dedicar-se aos estudos em psicanálise, no InstitutoWilliam Alanson White de Psiquiatria, Psicanálise e Psicologia. Inscreveu-se naUniversidade Columbia, e recebeu seu primeiro doutorado em Psicologia Clínica.Sua atividade de estudos e trabalho foi bruscamente interrompida quando adoeceu detuberculose, em torno dos trinta anos de idade. Não havia, então, os medicamentosespecíficos para esta infecção. May ficou internado por três anos no Sanatório Saranac.Durante a sua doença, leu, entre outras obras, The problem of Anxiety (O problema daangústia) de Freud, e The Concept of Dread (O conceito de angústia) de Sören Kierkegaard.Ficou admirado com as formulações cuidadosas de Freud, mas convenceu-se queKierkegaard "descrevia o que é experimentado de imediato pelos seres humanos em crise"(1969). A tuberculose em May ajudou-o a apreciar a importância do ponto de vistaexistencial. Seu livro, "The meaning of Anxienty" (O significado de ansiedade), de 1977, foiamplamente reconhecido como o primeiro escrito, nos Estados Unidos, a fomentar a uniãogenuína entre a psicologia e a filosofia, e em demonstrar a importância dos valores para a
  • 103. 103psicologia.A vida profissional de May foi muito produtiva. Exerceu a função de conselheiro paraestudantes universitários no City College de Nova Iorque, desenvolveu a prática particularem psicanálise e terapia existencial, e tornou-se membro do instituto White. Lecionou naEscola Nova para a Investigação Social, nas Universidades de Nova Iorque, Harvard, Yale ePrinceton. Escreveu uma grande quantidade de livros e artigos, e ganhou vários prêmios.May reconhece com clareza que a ciência deriva de pressupostos filosóficos e que dependefundamentalmente deles. Crê que a razão pela qual não entendemos a verdade acerca de nósmesmos, não é por não termos acumulado dados suficientes, realizado experimentos corretosou lido muitos livros, mas por "não termos o valor necessário". Os fatos científicos e asprovas técnicas raramente nos ajudam a responder as perguntas que realmente importam.Temos que "arriscar-nos" (1953). Na psicoterapia May irá desempenhar o papel do "amigoimplacável", insiste para que seus pacientes "lutem com as forças incapacitantes dentro delespara abrir caminho de novo para a vida" (Harris, 1969). Ele não tinha medo de arriscar-se areintroduzir conceitos recusados com veemência pela maioria dos psicólogos, como, aintencionalidade, a vontade etc. Reintroduz estes conceitos porque acredita que são vitaispara entender o que significa ser um ente humano na atualidade. Há uma nota profética emseus escritos, que lembra Erich Fromm, e seu pensamento, com freqüência, tem umatonalidade teológica. Há quem diga que May partiu de onde Paul Tillich parou (Harrys,1969). May reconhece que os grandes períodos na história não foram aqueles ondedominavam as preocupações psicológicas, mas nos quais prevaleciam as inquietudesfilosóficas e religiosas (1983).May não oferece uma série de hipóteses que possam ser comprovadas por procedimentosempíricos. Em seu lugar, nos dá um panorama filosófico do que significa ser uma pessoa nomundo atual. Expõem-se razões em apoio às suas afirmações, mas não servem como prova;cooperam como fragmentos de evidência a favor de uma certa descrição da realidade.Reduzir o entendimento da personalidade a termos científicos, causais e abstratos significaperder-se algo do conteúdo significativo e não se entender a realidade completa de um serhumano. May nos convida a examinar os supostos filosóficos do projeto científico de modoque se possa manter um diálogo criativo entre a ciência e a filosofia.Grande parte dos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas tende a ignorar o pensamento deMay por não poderem tratá-lo como uma hipótese científica. Conceitos, como aintencionalidade, são quase impossíveis de se definir de maneira operacional e de secomprovar de forma empírica, contudo, os achados de uma prova empírica não estabelecemum suposto filosófico; pode ser que nem se relacionem de maneira significativa com este.Não obstante, a mesma vantagem da teoria de May, o fato de que tem suas raízes em umaconcepção filosófica nova da vida humana, também pode ser seu maior inconveniente. Maycorre um grande risco de ser eliminado pelo psicologicamente estabelecido e ter poucoimpacto na teorização da personalidade.May assinalou, em 1967, que na segunda metade do século XX, o problema central a serenfrentado seria um sentimento de impotência, uma "convicção penetrante de que oindivíduo não pode fazer algo efetivo frente aos enormes problemas culturais, sociais eeconômicos". Os sentimentos de impotência são agravados pela ansiedade e pela perda dosvalores tradicionais. Vejamos seus conceitos mais relevantes:
  • 104. 104(1) ImpotênciaO problema da impotência é muito mais profundo que o fato de estarmos em uma época deincerteza e de agitação social. A guerra fria terminou há tempos, mas o mundo não está maisseguro, lembrem do 11 de setembro. De fato, o "mundo desenvolvido" freqüentemente agecomo se não houvesse problemas reais nos menos desenvolvidos apesar de sua pobreza esofrimentos massivos. Com o incremento na tecnologia, o poder se tornou impessoal, umaforça autônoma que age em seu próprio nome. Em princípios da década de 1950, Mayobservou que muitos dos pacientes que o procuravam sofriam de sentimentos intensos devacuidade. Notou que o neurótico com freqüência atua aquilo que os outros estãotemporalmente inconscientes. May antecipou que a experiência de vacuidade e impotênciaque havia registrado em seus pacientes com o tempo se tornaria epidêmica.(2) AnsiedadeTornou-se comum descrever nossa época como uma era de ansiedade. Contudo, antes de1950, foram escritos somente dois livros que apresentam de maneira específica umadescrição objetiva da ansiedade, e sugeriam formas construtivas para tratá-la: The problemof Anxiety de Freud, e The Concept of Dread de Kierkegaard. Depois de May ter escrito TheMeaning of Anxiety, publicado em 1950, surgiram centenas de livros sobre o tema. Algunspsiquiatras preferem usar o termo stress em lugar de ansiedade, May acha esta tendênciainfeliz e imprecisa. A palavra stress tornou-se popular devido a suas origens na engenharia ena física, onde pode ser definida com facilidade e medida com precisão. O problema com oconceito de stress é não descrever de forma adequada a apreensão à que se faz referência demaneira ordinária como ansiedade. May propôs a seguinte definição para ansiedade: "Aansiedade é a apreensão caracterizada por uma ameaça a algum valor que o indivíduoconsidera essencial para sua existência como pessoa" (1977).(3) A perda dos valoresA origem dos problemas reside na perda do centro de valores na sociedade. Desde oRenascimento, o valor dominante na sociedade ocidental tem sido o prestígio competitivomedido em termos de trabalho e êxito financeiro. Tais valores já não são efetivos, no mundopós-moderno no qual se tem que aprender a trabalhar com outras pessoas a fim desobreviver.(4) Quatro estados de consciênciaMay sugere que há quatro etapas na consciência do ego. A primeira é a etapa da inocência,antes que nasça a consciência do ego. Esta é característica do bebê. A segunda é a etapa darebelião na qual o indivíduo busca estabelecer alguma força interna. A criança que já anda, eo adolescente ilustram esta etapa, a qual pode implicar desafio e hostilidade. A terceira etapaé a consciência ordinária do ego. Esta é a etapa a que se refere a maioria das pessoas quandofalam de uma personalidade saudável. Implica ser capaz de aprender com os próprios erros eviver de modo responsável. May se refere à última etapa como a consciência criativa do ego.Implica a capacidade de observar algo fora do ponto de vista limitado usual da pessoa evislumbrar a verdade última como existe na realidade. Este nível abre caminho através da
  • 105. 105dicotomia entre a subjetividade e a objetividade. Nem todos conseguem atingir este nível deconsciência.May concebe o ser humano como consciente do ego, capaz de intencionalidade e com anecessidade de fazer eleições. Em sua análise existencial da personalidade, May buscasolapar o dualismo tradicional de sujeito e objeto que atormentou o auto-entendimentoocidental desde Descartes, quem disse que sermos conscientes de nós mesmos, já era comoser sujeito ou objeto. May considera o ego como uma unidade. Em lugar de abstrairconceitualizações, necessita reconhecer e enfrentar os paradoxos de nossas próprias vidas.Em um paradoxo duas coisas opostas são delineadas contra si e parecem negar-se, contudo,não podem existir, uma sem a outra. Portanto, o bem e o mal, a vida e a morte, a beleza e ofeio parecem estar brigados entre si, mas esta mesma confrontação inspira vida esignificação ao outro.(5) A possessão absolutaNeste mundo que se vangloria da racionalidade, May reintroduz o conceito de "possessãoabsoluta", e insiste em que podemos chegar até a adaptar-nos a isto. É "qualquer funçãonatural que tenha o poder de assumir o controle da pessoa inteira". O sexo, a ira, uma ânsiade poder, tudo isto pode converter-se em mal, quando se apodera do ego sem importar-lhesua integração. Pode-se reprimir o demoníaco, mas não evitar suas conseqüências. Odemoníaco é criativo e destrutivo em potência, ao mesmo tempo. Ao tornarmo-nosconscientes de sua existência, podemos integrá-lo em nós mesmos. Podemos aprender aquerer nossos demônios internos e permitir-lhes a nos dar o sal da vida. A possessão começacomo impessoal; ao trazê-la à nossa consciência, tornamos pessoais os seus impulsos. Apossessão absoluta nos empurra para a estrutura universal da realidade. Isto sucede de umadimensão impessoal para uma pessoal da consciência.(6) PoderCom efeito, um fator básico, na crise contemporânea, é o sentimento de insignificância eimpotência. A vida humana pode ser percebida como um conflito entre atingir um sentido designificação do próprio ego por um lado e o sentimento de impotência por outro. Tendemosa evitar ambos os lados, o primeiro devido às más conotações associadas com o serdemasiado poderoso e o último porque é demasiado doloroso suportar nossa impotência. Aviolência tem seu campo fértil na impotência e na apatia. Conforme as pessoas se tornamimpotentes, cresce sua violência em lugar de controlá-la. Os fatos violentos, tais como, aviolência urbana, são realizados por aqueles que buscam aumentar sua autoestima. Aspessoas impotentes, por vezes, partem para a exploração com o fim de se sentiremsignificativas ou buscam vingança em formas passivo-agressivas, tais como no uso dedrogas ilícitas e álcool. Certo é que a cultura tem efeitos poderosos sobre nós. Mas poderianão chegar a isto se estas tendências não estivessem já presentes conosco, pois somos nósque constituímos a cultura (1983).(7) Amor e sexoO amor poderia ser a grande resposta aos problemas humanos. No entanto, o amor mesmoconverteu-se em problema. A dificuldade real é chegar-se a ser capaz de amar. Nosso mundoé esquizóide, fora de contato, incapaz de sentir ou de participar de uma relação íntima. Acarência de afeto e a apatia são atitudes predominantes em nossas vidas, são formas de
  • 106. 106proteção contra o estímulo excessivo da sociedade moderna. Nossa liberdade sexualconverteu-se em uma forma nova de puritanismo: a emoção está separada da razão e o corpoé usado como uma máquina. A comercialização do sexo destrói os sentimentos verdadeirosde um modo tão grave como em certa época o fizeram os tabus tradicionais. Colocou-se osexo contra o Eros, o impulso de relacionar-se com outra pessoa e criar novas formas devida. May sugere que somente a experiência e a redescoberta do afeto, o oposto à apatia, nospermitirá resistir ao cinismo que caracteriza nossos dias. Os mitos do afeto parecem sinalizarpara a necessidade de se desenvolver uma moralidade nova de autenticidade nas relaçõeshumanas.(8) IntencionalidadeMay acredita na necessidade de usar da decisão e regressar ao centro de nossa descrição dapersonalidade. Sua intenção não é excluir as influências deterministas, senão incluí-las,introduzindo o conceito de intencionalidade, a qual subjaz na vontade e na decisão. Porintencionalidade May quer dizer "a estrutura que dá significado à experiência". Umacapacidade humana distintiva; a intencionalidade é uma atenção imaginativa que subjaz anossas intenções e informa nossas ações. É a atitude de participar no conhecer. A maneiraem que é percebido um pedaço de papel diferirá dependendo do uso que se lhe queira dar. Éo mesmo pedaço de papel que proporciona o estímulo, e a mesma pessoa que responde a ele,mas o papel e a experiência terão um significado diferente.(9) Liberdade e DestinoA atitude existencialista por ocasiões é criticada de maneira equivocada por descrever oindivíduo como livre em absoluto sem restrições de nenhuma classe. May, contudo, noslembra que a liberdade somente pode ser considerada juntamente com o destino. Liberdadesignifica "abertura, disposição a amadurecimento, tolerância e mudança na busca de valoreshumanos mais importantes". Implica nossa capacidade de intervir em nosso própriodesenvolvimento. A liberdade é básica para o entendimento existencialista da naturezahumana devido a que subjaz à nossa capacidade de eleição e aos valores. Por sua vez, Maydefine destino como o desenho vital do universo expresso em cada um de nós. Em sua formaextrema, nosso destino é a morte, mas também se expressa nos talentos individuais próprios,em nossas histórias pessoais e coletivas, na cultura e na sociedade em que temos nascido. Odestino nos estabelece limites, mas também nos proporciona meios para executar certastarefas. Fazer frente a estes limites gera valores construtivos.(10) Coragem e CriatividadeA coragem é a capacidade para avançar apesar da desesperação. Nos seres humanos, acoragem é necessária para poder existir e tornar-se possível. A coragem não é uma virtude,senão uma função que subjaz e dá realidade a todos os demais valores. O paradoxo dacoragem é que devemos estar comprometidos por completo, mas também, estarmos cientesao mesmo tempo de que poderíamos estar equivocados. A coragem criativa é a descobertade formas novas, símbolos e padrões sobre os quais pode ser construída uma novasociedade.(11) Psicoterapia
  • 107. 107O enfoque existencial da psicoterapia sustenta que o objetivo central da terapia é ajudar apromover o entendimento do ego e o próprio modo de ser no mundo. Os construtospsicológicos para entender os seres humanos são colocados, então, em uma base ontológicae tomam um significado da situação presente. Impulsos, dinamismos ou padrões de condutasão entendidos somente no contexto da estrutura da existência da pessoa individual. Mayassinala que Ser no sentido humano não é dado de uma vez e para sempre. Como humanostemos que estar conscientes, ser responsáveis por nós mesmos, e tornarmo-nos nós mesmos.Uma experiência "eu sou" é uma precondição para solucionar problemas específicos. Deoutro modo, somente trocamos um conjunto de defesas por outro. Tornar-se consciente dopróprio ser não significa ser explicado em termos sociais. A aceitação do terapeuta podefacilitar a experiência "eu sou", entretanto, não conduz de maneira autônoma a isto. "Aquestão crucial é que o indivíduo mesmo, em sua própria consciência e responsabilidade desua existência, dê com o fato de que pode ser aceito" (1983). O surgimento de umaexperiência "eu sou" tampouco é idêntica ao desenvolvimento do ego. Ocorre em um nívelmais básico, ontológico, e é uma precondição para o desenvolvimento do ego subseqüente.A fim de se compreender o que significa existir, é necessário entender também a opção denão-ser. A morte é uma forma óbvia de ameaça de não-ser, e o conformismo um modoalternativo que May encontra com muita freqüência em nossos dias. As pessoas abandonamsua identidade para ser aceitas pelos demais e evitar serem condenadas ao ostracismo ou àsolidão, mas assim fazendo perdem seu poder e seu caráter único. Enquanto que a repressãoe a inibição foram padrões neuróticos comuns na época de Freud, na atualidade oconformismo tem sido um padrão prevalente. Esta negação das potencialidades própriasconduz à experiência da culpa. A culpa ontológica não provém da proibição cultural, massurge do fato da consciência de si mesmo e do reconhecimento de que não temos realizadonossas potencialidades. Enfrentar esta culpa no processo da terapia conduz a efeitosconstrutivos.Portanto a tarefa central do terapeuta é buscar entender o modo de ser e de não-ser nomundo do paciente. É o contexto que distingue o enfoque existencial mais que qualquertécnica específica. O ser humano não á um objeto que possa ser manejado e analisado. Atécnica se segue ao entendimento. May entende que a associação livre é particularmente útilpara revelar a intencionalidade. A relação entre terapeuta e paciente é considerada comorelação real. May adverte contra o uso de fármacos na psicoterapia. Em sua maior parte, crêque têm um efeito negativo devido a que, eliminando a ansiedade do paciente, podem inibira motivação para a mudança e, em conseqüência, negar uma oportunidade à aprendizagem edestruir recursos vitais.O trabalho de Rollo May une a tradição psicanalítica e o movimento existencialista nafilosofia, pelo que se enfatiza a existência em lugar da essência. Sugere também que não háverdade nem realidade com exceção daquela na qual participamos. O conhecimento é um atode fazer. A descrição filosófica da natureza humana desenvolvida por May é coerente erelevante, global e irresistível. Evita com êxito os dualismos da filosofia de Descartes. Omarco de referência existencial, que influi sua teoria, é mais compatível com nosso mundo,que os supostos filosóficos da ciência do século XIX, que influenciaram o trabalho de Freud.Uma filosofia existencial proporciona um plano útil para discutir o que Freud queria dizeracerca da natureza do funcionamento psíquico. Ainda que Freud não fosse umexistencialista, esta corrente de pensamento proporciona categorias que esclarecem as idéiase a intenção freudianas. Portanto, May reconcebe de forma frutífera, muitos conceitosfreudianos o que se constitui em um aporte inegável à psicologia e à sociedade atual.
  • 108. 108A obra de May abre as cadeias que atam os próprios marcos culturais e sociais da época naqual confluem. A liberdade, a existência, assim como, também os valores inseridos nestaobra, geram um espaço de reflexão que é necessário quando tratamos de seres humanos. Estaobra reúne em poderosos enlaces todos os conceitos essenciais das bases epistemológicasnas quais se apóia. É gratificante encontrar coerência e capacidade em seu pensamento, maisainda, extremamente útil achá-las em seu trabalho na prática. O caráter profético de May éproduto da pós-modernidade na qual postula achar-se, mas se valida empiricamente atravésdo sentido comum. Embora sejam poucas as informações a respeito de seu trabalho privado,que, provavelmente, deveu-se ao seu rompimento do âmbito das ciências, é clara amensagem filosófica e analítica que ele deixou. * * *Obras de Rollo May publicadas em português: O homem à procura de si mesmo, 3ª ed.,1953. Psicologia existencial, 2ª ed., 1960. Psicologia e dilema humano, 3ª ed., 1967. Poder einocência, 1972. A coragem de criar, 2ª ed., 1975. Eros e repressão: Amor e vontade, 1978.O significado de ansiedade, 1980. A arte do aconselhamento psicológico, 4ª ed., 1982.Liberdade e destino, 1987. A descoberta do Ser, 1988. A procura do mito, 1992. Minhabusca da beleza, 1992. Em espanhol: Existencia, 1977 (obra de grande importância). Capítulo XVIII A FUNÇÃO DOS VALORES Rokeach (1973), nos assegura que os valores possuem componentes cognitivos, afetivos e queatuam diretamente na conduta individual. O mesmo conceito é defendido por Mischel (1973), e nos confirma aidéia de que os valores são auto-reguladores da conduta e que desempenham múltiplas funções napersonalidade, como veremos:Função Motivacional Segundo Jones e Gerard (1967), os valores se constituem uma classe ampla de fenômenosmotivacionais. Segundo os autores, qualquer estímulo que satisfaça os desejos de uma pessoa se constitui numvalor positivo, e todo estímulo que é evitado por uma pessoa, se constitui num valor negativo. Em suaclassificação de valores, Maslow (1954), os relaciona como motivos de suprimentos das necessidades que vão sehierarquizando desde as necessidades primárias para a sobrevivência do organismo, até as necessidadessuperiores-cognitivas para propiciar a auto-estima e a auto-realização. Murray (1978), em seu esquema Valor-Vetor, assegura que as necessidades motivacionais estãorelacionadas às pressões e a outras necessidades. Assim, as necessidades são motivos intrínsecos da consecuçãovalorativa. Na classificação das necessidades, Murray considera como mais significativos os Valores que suprema personalidade em seus aspectos de desenvolvimento psicossocial, em vista das expectativas de relacionamentointra-pessoal e inter-social. Kluckhohn (1951), reforça os pressupostos de Maslow e Murray, considerando que osvalores surgem das necessidades motivacionais. Se valoriza aquilo que se necessita, e que também os Valorespodem ser fontes de necessidade e desejos. Rokeach (1973), confirma a relação entres as necessidades motivacionais e valores,contribuindo com um pressuposto significativo, de que os Valores são representações cognitivas das necessidadesindividuais e das demandas sociais ou institucionais. Através dos valores , as necessidades individuais podem sertransformadas em modos de conduta socialmente desejáveis. Em seu estudo sobre as funções motivacionais dosvalores , Rokeach assegura que os Valores Instrumentais são motivantes em função da instrumentalidades que sedá entre estes valores e os finais. O desenvolvimento dos valores instrumentais se regulam com a realização dosestados finais desejados. Os valores finais representam metas últimas, ideais que os indivíduos tende a alcançar,sem nunca poder alcançar totalmente. O indivíduo se sente obrigado a atuar para poder lograr esses modos de
  • 109. 109conduta e esses estados finais da existência também desejáveis. Assim, tal definição se enquadra nopressuposto fenomenológico de Carl Rogers (1977), em que tornar-se pessoa é o estado de busca e de lutaconstante que o ser humano empreende para dar sentido a sua existência. Kluckhohn (1951), define a diretividade dos Valores em Função de que os mesmos estabelecemetas e objetivos que o indivíduo deve alcançar, como também as representações cognitivas das necessidadesindividuais e sociais que obrigam o indivíduo a atuar. Os Valores dão sentidos de direcionalidades e de buscapermanentes da autenticidade. Segundo Rogers (1961), o comportamento valorativo do homem é distintamenteracional, movendo-se com complexidade sutil em direção aos objetivos que seu organismo se empenha em atingir. Interpretando a função diretiva dos Valores no pensamento existencial de Frankl (1978), se ressalta anecessidade de tomada de consciência da própria existência, da importância da direcionalidade existencial, daaceitação da responsabilidade pela própria existência. Heidegger (1962), afirma que uma das mais expressivas qualidades valorativas do homem é asua capacidade de autoconsciência que lhe permite ter acesso aos fenômeno de sua consciência e aos eventos queos influenciam, e a tomar uma posição face a esse conhecimentos em termos direcionais na perspectiva de tempofuturo. Segundo o autor, isso torna possível as escolhas autênticas e o assumir a responsabilidade livre econsciente pela direcionalidade da existência, a definição de Valores que, uma vez estruturados , transcendem asua própria existência.Função para resolver conflitos Rokeach (1973), afirma que os Valores se organizam em forma de sistemas hierarquizados eque alguns possuem mais importância do que outros, e que se ordenam prioritariamente. Segundo Vera(1995), ante a situações de conflitos e de tomadas de decisões, comparadas a uma dissonância cognitiva(Festinger, 1967), os valores em seu sistema geral podem atuar como parâmetros comparativos, desde quedevidamente ativados. Na concepção de Vera, o sistema de valores se mostra como uma estrutura aprendida deprincípios e regras que servem de ajuda para decidir-se, eleger e resolver conflitos entre as mais diversas opçõesde comportamento ligados a diferentes valores. Isto não significa que os valores em seu conjunto se mantenhamativados ante a qualquer circunstancia, normalmente só uma parte deles é que será relevante para atuar comoresposta ante a situações, variando em grupos de valores ativados em função da natureza da situação. Luengo (1982), apresenta os valores como normas para resolver conflitos e tomar decisões. Nesseaspecto, segundo a autora, os componentes cognitivos e afetivos, são representações fundamentais dos valores noestabelecer de normas para a solução de conflitos e de tomar decisões. Em experiências dissonantes, a intervençãodesses valores com conotações cognitivas e afetivos, são decisivos para as mudanças de atitudes e para a soluçãodos conflitos.Função Normativa Williams (1979), assinala que os Valores são grupamentos de normas preferenciais que guiamnão somente as ações, mas também o juízo, as atitudes e a racionalização. Segundo o autor, a própria sociedadese organiza com normas, princípios e regras obrigatórias a serem cumpridas pelos cidadãos, e que se constituemem valores convencionalmente aceitáveis pelo contexto social.Os valores podem atuar como controle internopara a aceitação e manutenção dessas normas. Os valores também podem funcionar como normas dejuízo e a avaliação pessoal de juízo e avaliação pessoal, como um sistema de critério em que o indivíduo julga oque é certo ou errado, o que é justo ou injusto, ou seja, para julgar a conduta de si mesmo ou de outrem. Williams (1979), apresenta a função dos valores como norma de racionalização, em que osmesmos são guia de conduta antecipatória e dirigida a um fim, servindo para se justificar e explicar a condutapassada. Rokeach (1973), assegura que podemos racionalizar crenças e atitudes de ação pessoal e socialmenteaceitáveis. Aprofundando os estudos sobre o caráter normativo dos valores, Luengo (1982), os caracterizanuma perspectiva funcionalista, definindo os valores como normas de ações, como normas de juízo e avaliação,como normas de racionalização, e como normas para resolver conflitos e tomar decisões. Os valores são altamenteinstrumentais na medida em que funcionam como normas de ações, determinando regras como formas de condutasdesejáveis e preferenciais no contexto social, e nesse sentido, as normas modelam o comportamento emconsonância com os valores compartilhados com o grupo social. Ordem social, bons modos, auto-respeito,reciprocidade de valores, auto-disciplina, amizade verdadeira, preservar o meio ambiente, ser honesto, serobediente, ajudar, são exemplos clássicos dos valores citados por Schwartz (1987), em sua escala, quedeterminam essas normas de ações que se constituem em regras de condutas preferenciais, desejadas ou não pelosujeito, mas que compõem regras e normas de ações padronizadas pelo contexto social.
  • 110. 110 Ao dar destaque aos Valores como normas de juízo e avaliação, Luengo (1982), reconhecea funcionalidade do componente cognitivo dos valores, que capacita o homem a desenvolver o senso deautocrítica sobre as suas próprias atitudes. Nessa mesma perspectiva de auto-avaliação, Rokeach (1979), nosassegura que os valores funcionam como critérios que o eu socializado amplia-se para avaliar a eficácia de simesmo, como um ser competente e um eu moral. Rokeach (1973) reconhece que a definição dos chamadosfocos de valores de uma forma hierarquizada, pode atuar como um conjunto de regras ou princípios que servempara definir as tomadas de decisões. Também para Rogers (1965), a direção que toma a pessoa que está carregadade valores, está na linha de resolver seus próprios conflitos. Segundo ele, quando um ser humano éinteriormente livre para escolher o que valoriza profundamente, tende a valorizar aqueles objetos, experiências efins, que estão na linha da sua sobrevivência, crescimento e desenvolvimento e ao mesmo tempo na linha docrescimento, desenvolvimento e sobrevivência dos outros”.Função de Ajustamento Baseado na escala de valores de Maslow (1959), consideramos que a consecução dos valoresapreendidos é caracterizado por um estado de extrema satisfação e com um sentido de auto-realização pessoal.O ato terapêutico da culminação da consecução dos valores se desenvolve nesse sentido de relacionamentocom essas aquisição das metas que foram alcançados, enriquecendo o Self para satisfação com experiênciaculminantes. Nesse contexto foi que, Andrés J. Consoli (1990), elaborou estudos sobre Valores e Psicoterapia,questionando os novos conceitos de Valores livres, e exigindo um resgate da exploração dos Valores envolvidosna prática empírica. E foi assim que promoveu uma recente pesquisa na Argentina, investigando diferentesabordagens teóricas e suas influências sobre os sistemas de Valores na Sociedade, com objetivos de serelacionar a teoria com a praticidade. Em seu estudo, Consoli (1990), fundamenta alguns pressupostos básicos sobre a relação entrevalores e Saúde Mental, e mais uma vez questiona as condições de pesquisas , cujas conclusões tem se prendidomuito mais nos pontos de vista teórico, e não no ponto de vista empírico. Também introduzido por Vera (1995),nesse contexto, certos valores desempenham uma função de ajuste ou utilidade, tais como a cortesia, oautocontrole, o conforto material, o êxito, o prestígio, a lei e a ordem. Essa função serve para preparar o indivíduoa viver de conformidade com a pressão e às exigências sociais, dando um sentido de conformidade social. Vera(1995), argumenta que, em certas situações, os valores podem atuar como mecanismos de defesa, em casosquando certas necessidades , sentimentos e condutas são socialmente inaceitáveis. Segundo o autor, os valores seoferecem como conceitos já elaborados para facilitar essa conversão, sem grandes dificuldades. Nesse aspecto, Vera (1995), dá especial destaque aos valores que desempenham essa função deconhecimento e de auto-realização, a exemplo de sabedoria, sentido de complemento, consistência, independência,competência etc. Entendemos que o componente cognitivo é quem determina essa função específica incrementadopor Veras, cujas idéias mais aprofundadas são argumentadas por Maslow (1954), em sua teoria da auto-atualização.ReferênciaTAVARES FILHO, Thomé E. Padrões de Valores e Expectativas de Futuro dos Menores Marginalizados emManaus. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 2002.
  • 111. 111 Escala de ValoresInstruções:Neste questionário você terá que perguntar-se: “Que valores são importantes para mim, como princípios que guiam minha vida e que valoressão menos importantes para mim?” Nas páginas seguintes, apresentamos duas (2) listas de valores. Estes valores foram obtidos em diferentesculturas. Nos parenteses que se encontram, a continuação de cada valor há uma explicação que pode ajudar a compreender o significado dessevalor. Sua tarefa consiste em avaliar o quanto é importante cada valor para você, como princípio que guia sua própria vida. Para isso, utilize aseguinte escala: 0: Significa que o valor não é importante; não é relevante como princípio guia para voçê. 3: Significa que o valor é importante. 6: Significa que o valor é muito importante.3. Você pode observar que quanto mais alto é numero entre 0 e 6, mais importante é o valor como princípio que guia sua vida. Contudo, paraindicar situações extremas, utilize os números 1 e 7. 1: Significa que o valor é oposto aos princípios que lhe servem de guia. 7: Significa que o valor é de suprema importância como princípio que guia sua vida. Normalmente não há mais de dois valores destetipo (-1 e 7).4. No espaço que antecede à cada valor escreva um dos 9 números (-1, 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6 ou 7) para indicar a importância que este valor tempara você pessoalmente. Trate de diferenciar o máximo possível entre os valores usando todos os números. Por hipótese você terá que usarcada numero mais de uma vez.COMO PRINCÍPIO QUE GUIA MINHA VIDA, este valor é:Oposto a Nada Importante Muito Suprema meus Importante Importante ImportanciaValores -0 0 1 2 3 4 5 6 7 Antes de começar leia todos os valores da lista número um, escolha o que será mais importante para você, e indique no espaço correspondente o seu grau de importância. Na continuação escolha o valor que será oposto a seus valores e marque com -1. Se nenhum valor da lista é oposto em seus próprios valores, escolha o menos importante para você e marque com um 0 ou 1, segundo sua importância. Logo, avalie o resto dos valores da lista número um até completar todos sem exceção.Lista de Valores Finais_____ IGUALDADE (igualdade de oportunidade para todos)_____HARMONIA INTERIOR (estar em paz comigo mesmo)_____ PODER SOCIAL (controle sobre os demais, domínios)_____PRAZER (satisfação de desejos)_____LIBERDADE (Liberdade de ação e pensamentos)_____VIDA ESPIRITUAL( ênfase em questões espirituais, não em questões materiais)_____SENTIDO DE PERTINÊNCIA(sentir que os outros se preucupam por mim)_____ORDEM SOCIAL(estabilidade na sociedade)_____UMA VIDA EXCITANTE(viver experiências estimulantes)_____TER SENTIDO EM MINHA VIDA(possuir uma razão de viver)_____BONS MODOS (cortesia, boas maneiras)_____RIQUEZAS (possessão material, dinheiro)_____SEGURANÇA NACIONAL ( proteção de minha nação contra inimigos)_____AUTO-RESPEITO(crer nos meus próprios valores)_____ RECIPROCIDADE DE FAVORES(evitar dever favores a outros)_____CRIATIVIDADE (originalidade, imaginação)_____UM MUNDO EM PAZ(livre de guerras e conflitos)_____RESPEITO PELA TRADIÇÃO (conservar os costumes familiares e sociais ao longo dos tempos)_____AMOR MADURO(profunda intimidade emocional e espiritual)_____AUTO-DISCIPLINA(auto controle, resistir tentações)_____DESAPEGO(de preucupações mundanas)_____SEGURANÇA FAMILIAR(segurança para as pessoas amadas)_____RECONHECIMENTO SOCIAL(receber respeito e aprovação dos outros)_____UNIÃO COM A NATUREZA(integração com a natureza)_____UMA VIDA VARIÁVEL(cheia de desafios, novidades e mudanças)_____SABEDORIA(uma compreensão madura da vida)_____AUTORIDADE(ter direito de dirigir)_____AMIZADE VERDADEIRA( ter amigos próximos que me apoiem)_____UM MUNDO DE BELEZA(valorizar a beleza da natureza e das artes)_____JUSTIÇA SOCIAL(corrigir injustiças, cuidar dos debilitados)
  • 112. 112Lista de Valores InstrumentaisOrientações:Agora avalie quanto importante é cada um dos valores seguintes como princípios que guiam sua própria vida.Esses valores são expressados como modo de comportar-se que podem ser mais ou menos importantes para você.Novamente, trate de diferenciar o máximo possível entre os valores, utilizando todos os números da escala. Antesde começar, leia todos os valores da lista n.2, escolha os que são mais importante para você e indique o seu graude importância. A seguir, escolha o valor que será mais oposto a seus valores, ou se não existe tal valor, escolha omenos importante e assinale -1 ou 1 segundo sua importância. Depois avalie o resto dos valores da lista no. 2, atécompletar todos, sem exceção.COMO PRINCÍPIO QUE GUIA MINHA VIDA, este valor é:Oposto a Nada Importante Muito Suprema meus Importante Importante ImportânciaValores -0 0 1 2 3 4 5 6 731._____SER INDEPENDENTE(não depender dos outros, ser auto suficiente)32_____SER MODERADO(evitar sentimento e ações extremas)33_____SER LEAL(ser fiel a meus amigos e a meu grupo)34_____SER AMBICIOSO(ser um trabalhador incansável, com aspirações)35_____SER TOLERANTE(respeitar diferentes idéias e crenças)36_____SER HUMILDE(modesto)37_____SER AUDACIOSO(buscar aventuras)38_____PRESERVAR O MEIO AMBIENTE(preservar a natureza)39_____SER INFLUENTE(influenciar nas pessoas e nos acontecimentos)40_____HONRAR AOS PAIS E AOS MAIORES(mostrar respeito)41_____ESCOLHER MINHAS PRÓPRIAS METAS(selecionar meus próprios objetivos)42_____TER SAÚDE(não estar enfermo físico e mentalmente)43_____SER CAPAZ(competente, efetivo, eficiente)44_____ACEITAR A VIDA COMO É(aceitar as circunstâncias da vida)45_____SER HONESTO (genuíno e sincero)46_____PRESERVAR MINHA IMAGEM PÚBLICA(cuidar de meu prestígio diante dos outros)47_____SER OBEDIENTE(cumprir com meus deveres e obrigações)48_____SER INTELIGENTE(lógico, racional)49_____AJUDAR(trabalhar pelo bem estar dos demais)50_____GOZAR A VIDA(desfrutar de boa alimentação, sexo, ociosidade, prazer, etc.)51_____SER DEVOTO(sustentar crenças e fé religiosa)52_____SER RESPONSÁVEL(confiável)53_____SER CURIOSO(estar interessado por tudo, explorar e investigar)54_____NÃO SER RANCOROSO(estar disposto a perdoar aos demais)55 ____SER OTIMISTA(alcançar metas)56_____SER LIMPO(organizado, asseado). Capítulo XIX Piaget e a Teoria do Desenvolvimento Moral O conceito de moralidade se relaciona basicamente com o componentecondutual da personalidade, pois para se conviver no contexto social, a exigência damoralidade individual é fundamental para se manter a ordem, a disciplina, a segurança e aorganização da sociedade em vista do cumprimento de seus padrões convencionais socialmenteaceitáveis. A moralidade é tema que originalmente fora discutida através do pensamentofilosófico, em que a Ética apresenta um conjunto de regras, de normas e princípios de bonscostumes, etiquetados nominalmente por meio dos padrões sociais. A moralidade é umaconduta qualitativa do caráter e pode se constituir em valor individual, e a sua prática semprefoi instruída e incentivada por educadores nas mais diversas áreas institucionais. Ao analisar odesenvolvimento cognitivo, Piaget (1976), classifica alguns estágios e nos quais se incluialgumas características da conduta moral. A primeira etapa é conhecida como MoralidadeHeterogênea, em que as normas se percebem como realidades concretas advindas do mundo
  • 113. 113adulto, em que se requer um respeito, uma conformidade e seus conteúdos condutuaisaltruísticos. A segunda etapa é conhecida como Moralidade Autônoma e que acontece em tornodos 11 ou 12 anos. Nessa fase de socialização, as regras e as normas são produtos do meiosocial. Nessa fase o sujeito já possui um senso crítico capaz de perceber, de assimilar, deanalisar, de compreender e de julgar o sentido das normas e o papel que elas desempenhamem sua vida, independente de qualquer opinião ou interferência alheia. Na concepção dePiaget, caso haja um desenvolvimento inadequado na primeira fase, na segunda etapa podehaver aparição de problemas de adaptação social. Nessa mesma perspectiva Kohlberg(1963,1964,1976), apresenta um modelo teórico do desenvolvimento moral, que em cada etapase apresentam com características qualitativamente diferentes, e evolutivamente maiscomplexas e abstratas. Essas etapas estão hierarquicamente organizadas, dando ao sujeito umaconsciência plena de seus direitos, de seus deveres e de sua relação com outras pessoas. Segundo Kohlberg, cada etapa é pré-requisito para a outra. O aperfeiçoamentomoral se dá de acordo com o nível de maturidade alcançado em cada etapa.Kohlberg estabelece3 níveis de desenvolvimento moral, e nos quais se pode distinguir as suas etapas, cabendo duasetapas em cada nível. O primeiro nível é conhecido como Pré-Convencional, em que as normassão percebidas pelo sujeito no meio externo, quando os valores assimilados serão somenteaqueles que proporcionam o bem-estar, principalmente no estabelecer da interação interpessoal.Esse nível revela a primeira etapa em que a conduta se caracteriza pela revelação do medo docastigo. Na segunda etapa desse nível a preferência pelos valores instrumentais se tornam ospreferidos, pela necessidade de se obter uma gratificação imediata. Nesse aspecto, as normassão aceitas na medida em que elas atendem aos interesses pessoais. No nível Convencional, os interesses morais são de conformidade com ocontexto social. Nesse plano, a consciência cognitiva manterá o nível dos objetivos morais.Nesse nível Convencional se manifesta a terceira etapa do desenvolvimento moral, em que ainterpretação dos valores se dá de conformidade com a mensuração de outrem na definição daaprovação ou da reprovação, quando o sujeito procurará ajustar-se nas expectativas dos outros.Na quarta etapa desse nível Convencional, os interesses morais se caracterizam pela ordem,pela defesa institucional, pela organização e a disciplina, que representam os principais valoresdessa etapa maturacional.O nível Pós-Convencional, segundo Kohlberg, é o mais evoluído, eque somente é alcançado por uma minoria de adultos, por considerar se como um nívelestabelecido e dirigido pôr um crivo de princípios altamente evoluídos. Esse é o nível damaturidade plena em que se desenvolve o senso crítico de conjuntura social, em função doscostumes, das regras, dos direitos humanos, dos preceitos éticos e culturais. Nesse nível Pós-Convencional se manifesta a quinta etapa do desenvolvimento moral, caracterizado pela ênfaseaos princípios legalistas, aos direitos individuais, a liberdade individual e a justiça social. E porfim, nesse nível se desenvolve a sexta etapa, em que a moralidade prima pelos princípios éticoscom relação ao respeito, aos princípios éticos, a cidadania, a justiça, a igualdade e aoajustamento social. Afim de colocar em prática a sua postulação teórica, Kohlberg (1984),elaborou um questionário com entrevistas de juízo moral, com um procedimento metodológicoapresentado por dilemas hipotéticos, em que a obediência à autoridade conflitua com asnecessidades ou bem-estar de outras pessoas. Esse questionário serve para mensurar o nível dodesenvolvimento moral, e tem sido muito aplicado na investigação da conduta delinquencial(Fodor, 1973; Higgins e Albrecht (1977); Jurkovic e Prentice, 1974). No que tange aorelacionamento da moralidade com a conduta delinquencial, Kohlberg argumenta que, a faltade aperfeiçoamento moral nos estágios estabelecidos, e a preferencia pelos interesses pessoaisde bem-estar, são fatores que influenciam o desenvolvimento de uma conduta anti-social.Asteorias do desenvolvimento moral, apresentadas por Piaget e Kohlberg , enfatizam aspectossócio-cognitivo da natureza pessoal que incidem sobre a conduta anti-social. As investigaçõesque se sucedem na área da delinqüência juvenil conferem o baixo nível de conduta moral dosdelinqüentes, com justificativas de uma prática de socialização comprometida em termos dos
  • 114. 114antecedentes familiares, onde o nível educativo é limitadíssimo e comprometido. Naspostulações de Piaget (1976) e de Kohlberg (1984), se observa que os valores morais seadquirem em convivência com o meio social em termos de assimilação e apreensão da cultura.No contexto da marginalização social em que o processo da socialização não possibilita aoindivíduo a ambientação propícia a aquisição dos valores, deduz-se que o desenvolvimentomoral é limitado, e a falta de aperfeiçoamento nas etapas evolutivas implica emempobrecimento moral, o que possibilita o desvio social.ReferênciasTAVARES FILHO, Thomé E. Padrões de Valores e Expectativas de Futuro dos menoresmarginalizados em Manaus. Manaus, EDUA, 2002. Capítulo XX Erik Eriksson e o desenvolvimento PsicossocialErik Eriksson pertence a uma tradição psicanalítica, mas ele concentra sua atenção sobre o ego,sobre o eu consciente, e ao invés dos impulsos e instintos inconscientes. Ele sempre estevemais interessado nas demandas culturais e sociais sobre a criança do que sobre o instintosexual. Eriksson se interessou em como a criança desenvolve seu senso de identidade.Podemos descrever sua teoria considerando os seguintes pontos:  Durante o ciclo vital, cada individuo passa por uma série de períodos desenvolvimentais distintos, onde há uma tarefa desenvolvimental específica a enfrentar. A tarefa central de cada período é o desenvolvimento de uma qualidade do ego específica, como a confiança, autonomia ou intimidade.  Os períodos desenvolvimentais são parcialmente definidos pela sociedade na qual a pessoa cresce. Um estágio pode começar com 6 anos em nossa cultura porque é com essa idade que a criança vai para a Escola. Numa cultura na qual a escolarização começa mais tarde, o momento da mudança desenvolvimental muda também.  Qualquer tarefa desenvolvimental que não pe completada com sucesso deixa um resíduo que interfere na tarefa posterior. Na verdade, Eriksson considera que nenhuma tarefa é totalmente completada. Há sempre um pedacinho inacabado. Mas o número e o tamanho desses pedaços pode ser crítico pára a saúde posterior. Um adolescente que não completa a tarefa de desenvolver sua identidade sexual e ocupacional, por exemplo, terá dificuldade em encarar umna relação de intimidade aos 20 ou 25 anos. Nesta proposição, Eriksson é muito semelhante a Freud, que também considerava que o funcionamento adulto verdadeiramente maduro requeria a resolução bem sucedida de todos os estágios anteriores.A seguir, passamos a analisar cada um dos estágios psicossociais, segundo Eriksson,consideradas como as oito (8) idades do homem:Confiança básica versus desconfiança básica – do nascimento ao 1o ano de vida -A primeira tarefa (ou crise) como Eriksson diz, ocorre durante o primeiro ano de vida (oestágio Oral de Freud). O que está em jogo para a criança é o desenvolvimento de um sentidode confiança básica na presibilidade do mundo e na sua habilidade de afetar os acontecimentosao seu redor. Eriksson acredita que o comportamento da pessoa que cuida primordialmente dacriança ( geralmente a mãe)m é crítico para a resolução bem sucedida desta crise pela criança.As crianças que emergem do primeiro ano com um firme sentido de confiança são aquelascujos pais são amorosos e respondem previsível e prontamente à criança. A criança quedesenvolve um sentido de confiança irá para os outros relacionamentos humanos levando esse
  • 115. 115sentido consigo; mas aqueles bebês que viveram um relacionamento com alguém oscilanteou áspero, podem desenvolver a desconfiança; e eles também levarão consigo este sentimentonas suas relações posteriores.Autonomia versus Vergonha e Dúvida – 2-3 anos –Eriksson considera que a maior mobilidade da criança é a principal mudança dessa época.Agora ela pode andar por si própria e isso forma a base do sentido de independência ouautonomia. Mas se os essforços de independência da criança não forem guiadoscuidadosamente pelos pais e ela experimentar repetidos fracassos ou ridículo, o resultado detodas essas novas oportunidades de mobilidade e exploração pode ser a vergonha ou ridículo, oresultado de todas essas novas oportunidades de mobilidade e exploração pode ser a vergonha ea dúvida, ao invés de um sentido básico de autocontrole e valor próprio. Como o treino àtoalete ocorre durante esse período, ele pode criar dificuldades adicionais para os pais, pois hánesta área tabus e mais oportunidades para o surgimento do fracasso e ridículo.Iniciativa versus Culpa: 4-5 anosEsta fase corresponde ao estágio fálico de Freud e ocorre em torno dos 4 ou 5 anos; Uma vezmais, Eriksson mostra-se menos preocupado com o tipo de desenvolvimento sexual quepreocupava Freud , embora ele o admitisse, e mais interessado no impacto de novas habilidadese capacidades da criança. Nesta idade, a criança é capaz de realizar algum planejamento, tomara iniciativa no atingimento de objetivos específicos. Tendo alcançado essas novas capacidadescognitivas, a criança então as explorará e tentará conquistar o mundo ao seu redor. Ela tentaráandar sozinha pela rua; ela pode desmontar um brinquedo, descobrir depois que não conseguereconstruí-lo e devolve-lo, em todas as suas partes para sua mãe. Esta [e uma época de açõesvigorosas e de comportamentos que os pais podem considerar agressivos. O isco aqui é que acriança pode ir excessivamente longe com sua força. Ela Poe quebrar um brinquedo favorito oumachucar seu pai ou sua mãe. Quando isso acontece a criança pode ser invadida pela culpa. Oque os pais precisam fazer é ajudar a criança a voltar-se para coisas adequadas, dirigir toda suaenergia e iniciativa para atividades aceitáveis, de modo que a culpa seja minimizada.Produtividade versus Inferioridade: 6-12 anos.A escolarização é a maior força neste estágio. A criança enfrenta agora a necessidade deconseguir aprovação através da produtividade, através da aprendizagem da leitura, escrita,cálculos aritméticos e outras capacidades específicas. A tarefa desse período é, portanto,desenvolve o repertório de habilidades sociais. O perigo óbvio é que por alguma razão acriança possa ser incapaz de desenvolver as capacidades esperadas e desenvolva então umsentimento de inferioridade.Identidade versus Confusão de Papéis: 13-18 anosA puberdade – o estágio genital de Freud, é a tarefa que faz com que o adolescente reexaminesua identidade e os papéis que deverá ocupar.Eriksson sugere que estão envolvidas duasidentidades – a identidade sexual e a identidade ocupacional. O que deve emergir desse períodoé um senso de integridade do eu, do que se deseja ser ou fazer, e um papel sexual adequado. Orisco é o da confusão, proveniente da profusão de papéis à frente do adolescente.Intimidade versus Isolamento: 19-25 anos.Este é o primeiro dos três (3) estágios adultos. O foco central desse período é a necessidade deintimidade, de unir a própria identidade com a de outrem. Isso só é possível se você já definiuum firme sentido de identidade. Se sua identidade básica não for suficientemente forte parasuportar a intimidade real, então pode surgir um sentimento de isolamento.
  • 116. 116Generatividade versus Estagnação: 26-40 anosEriksson considera que nesta idade, a maturidade e intimidade sexual com um parceiro não ésuficiente. Cada adulto também sente uma necessidade de gerar em algum sentido, de ter e criarcrianças, criar algo útil num trabalho, treinar os outros, produzir trabalhos artísticos, ouqualquer outra coisa. Qualquer adulto que não seja bem sucedido em algum dos aspectos dageneratividade pode viver um sentimento de estagnação. E é exatamente o sentimento deestagnação – “o que eu fiz com minha vida?” – o que está no núcleo da crise da meia idade nos40 anos.Integridade do Ego versus Desesperança: 41 anos em diante...O último passo é reunir tudo, é aceitar o que você é, o que tem feito e o que pode fazer.Eriksson considera que para alcançar uma identidade real do ego, você deve ter sidorazoavelmente bem sucedido nas sete crises anteriores. Se você não foi, se deixou muitas coisaspor resolver, você provavelmente experimentará o desespero, rancor e desesperança em seusúltimos anos de vida.TAVARES FILHO, Thomé E. Fundamentos da Educação Inclusiva. Manaus, EDUA, 2002. Capítulo XXI Considerações Finais As concepções da natureza humana, aqui apresentadas pelos autores queconsideramos como os principais precurssores da Psicologia Fenomenológica, otimizama natureza humana, facilitando o entendimento entre o cliente e o terapêutica,considerando o potencial inato, latente e manifesto dos fenômenos inerentes de cadapessoa, e que servem como ferramentas para a auto-realizações. Nessa perspectiva, o terapeuta atua como mediador, facilitador da produção dosinsights, conscientizando aqueles que por determinados momentos passam pela crise,considerada como um rito de passagem para a superação, e como um continuum, atendência natural da pessoa é sempre em direção ao crescimento, à socialização sadia, aoajustamento intra e interpessoal, e à autonomia social. Num mundo em crise, em que as pessoas perderam o senso de sua própriaidentidade e self, quando as tensões psicossociais criam um ambiente dessolador, aTerapia Fenomenológica Existencial, surge como uma ferramenta poderosa pararecrudescer nas pessoas a sua auto-estima, facilita o equilíbrio emocional, e por fim,promove a saúde mental, levando em conta a possibilidade real das pessoas superaremseus limites.
  • 117. 117 Capítulo XXII ReferênciasReferência BásicaFEIJOO, A. M. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial.São Paulo: Vetor, 2000.FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica. Fundamentos, Métodos ePesquisa. São Paulo: Pioneira, 2004.ANGERAMI-CAMON, V. A. Psicoterapia fenomenológico-existencial. São Paulo: Pioneira,2002.Referência SuplementarFEIJOO, A. M. A escuta e a fala em psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial.São Paulo: Vetor, 2000.FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomenológica. Fundamentos, Métodos ePesquisa. São Paulo: Pioneira, 2004.ANGERAMI-CAMON, V. A. Psicoterapia fenomenológico-existencial. São Paulo: Pioneira,2002.

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