Casa de bonecas

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Casa de bonecas

  1. 1. CASA DE BONECAS HENRIK IBSEN
  2. 2. 2 Nora está de pé diante de Helmer, seu marido. Vai partir. Inútil tentar detê-la em nome dos deveres de mãe e esposa: Nora acaba de descobrir que há um dever mais importante. “Eu preciso tentar educar a mim mesma. E você não é o homem que me pode ajudar nisso. Eu tenho que fazer isso sozinha.” Os espectadores do Teatro de Kristiania agitam-se nas suas poltronas. Os apelos de Helmer são inúteis. Nora abandona a casa, os filhos e o marido, porque se recusa a continuar a ser apenas uma boneca. O homem que ela abandona afunda numa cadeira e esconde o rosto entre as mãos. Um breve silêncio. Depois, o som de uma porta que acaba de se fechar: Nora se foi. O pano de boca se fecha sobre a última imagem da peça: uma casa de bonecas destroçada. Naquela sala bem arrumada, agora paira somente a esperança de que um dia Nora volte para casa. Nora voltará? Ibsen não responde à questão. Não existe um quarto ato contando como será o futuro de suas personagens. A platéia levanta-se, incomodada, e aos protestos juntam-se os aplausos. Casa de Bonecas — famosa peça de Ibsen na qual Nora é a principal personagem — é de 1879. Nessa época é inadmissível que uma mulher ouse colocar em primeiro plano qualquer outro dever que não o de mãe e esposa. O gesto de Nora não pode ser compreendido por uma sociedade bem comportada. Hoje, seu gesto poderia parecer superado. Mas não está. Vieram as sufragistas, houve duas guerras, e as mulheres obtiveram muitas de suas reivindicações, mas a figura de Nora continua viva e atual. A diferença é que nos nossos tempos as portas se fecham com freqüência cada vez maior, as mulheres que desertam das tarefas familiares são mais numerosas, e aumenta a cada dia a parcela dos que compreendem tais atitudes. E porque Nora é atual, Jane Fonda aceitou representá-la no filme de Joseph Losey, baseado na peça de Ibsen. Feminista e contestadora, exigente quanto aos papéis que interpreta, Jane Fonda percebeu na personagem traços de uma irrefutável modernidade. Nas últimas palavras de Nora — “Meu dever, meu sa- grado dever é em relação a mim mesma” — a atriz reconheceu que elas poderiam perfeitamente ser as palavras de ordem de sua contínua luta pelos direitos da mulher. UM NACIONALISTA ROMÂNTICO Ao entregar sua biografia ao conde Prozor, Henrik Ibsen observou: “Não dê muita importância às apreciações — haveria o que discutir a respeito —, mas recomendo-lhe discutir sobre minha ascendência. Ai encontrará de tudo: sangue dinamarquês, escocês, alemão, norueguês e isso talvez possa lhe explicar muita coisa”. Embora sempre enfatizasse essa ascendência tão diversificada, Ibsen foi profundamente marcado pelas contradições de seu pais de origem, a Noruega. Com exceção de Imperador e Galileu (1873), uma tragédia histórico-filosófica, todos os seus dramas se ambientam na Noruega. O país, sua época e seus problemas compõem a matéria básica de seu teatro.
  3. 3. 3 De 1523 a 1814 a Noruega constituiu uma província dinamarquesa. Em 1814, quando tentou se firmar como país independente, o Tratado de Kiel a colocou sob a tutela da Suécia. Embora cuidasse de sua política interna, os problemas de defesa e as questões diplomáticas eram resolvidos por Estocolmo. Paralelamente a essa dependência, desenvolveu-se um espírito nacionalista alimentado pelos intelectuais da época, desde escritores até folcloristas. E foi nesse pais romântico, nacionalista e puritano (em cuja população predominava o luteranismo) que Ibsen fez seu aprendizado literário. Henrik Ibsen nasceu em Skien, Noruega, a 20 de março de 1828. Filho de um dos maiores negociantes de madeira da região, teve uma vida de conforto até os oito anos, quando seu pai foi à falência. Conseqüentemente, sua família viu-se obrigada a trocar a luxuosa residência em que vivia pela modesta casa de campo onde viveu até 1842. Retornando a Skien, o velho Knud enviou o filho para Grimstad, como ajudante de farmácia. Foi um período penoso para Ibsen: sofrendo o isolamento, a pobreza e a solidão, ele se voltou para a poesia. Irritava-se com a vida hipócrita e provinciana e a criticava com observações mordazes. Defendia com vigor as idéias avançadas e apoiava todo movimento de revolta. Nesse sentido, o ano de 1848 foi fértil: revoluções na Alemanha, na Itália, na Hungria e na França. E a poesia de Ibsen acompanhou o tempo: odes, hinos patrióticos e revolucionários; e a peça Catilina, sua estréia na literatura dramática. No incipiente meio intelectual norueguês, Ibsen não poderia permanecer desconhecido por longo tempo. Em 1850, lançou sua segunda peça, Túmulo de Gigantes, drama em um ato, contando as aventuras dos vikings no Mediterrâneo. Com apenas três apresentações no Teatro de Kristiania (antigo nome da capital da Noruega), a apresentação da peça foi suficiente para que Ibsen se tornasse conhecido e abrisse as portas dos círculos boêmios e intelectuais da capital. Ligou- se a um grupo de estudantes socialistas e passou a colaborar num jornal operário. A carreira do jornal foi breve: houve intervenção da policia. Ibsen ainda colaborou no Andhrimner, um hebdomadário humorista, onde criticava a atuação dos deputados noruegueses. Mas, em 1851, irresistível, o apelo do teatro surgiu novamente. Nesse ano, o violinista Olle Bull retornava à Noruega, de volta de viagem por outros países da Europa, firmemente decidido a criar um teatro nacional. Escolheu Bergen como sede, pois sua população incluía ricos armadores e comerciantes, pessoas que poderiam financiar um empreendimento de tal estatura. Ibsen recebeu o cargo de diretor artístico e a incumbência de escrever uma peça por ano. Ele fizera um estágio no Teatro Real de Copenhague e completara sua formação em Dresden, Alemanha. Chegara, portanto, a grande oportunidade de realizar uma experiência concreta no teatro. Para honrar seu contrato, Ibsen empenhou-se na produção de uma dramaturgia romântica e nacionalista. A comédia Noite de São João abriu essa fase em 1853, seguida de O Tetraz de Jusdedalen no mesmo ano, D. Inger em Ostraat (1854), Uma Festa em Solhaug (1855) e Olaf Liljekrans (1856). O maior sucesso coube a Uma Festa em Solhaug, levada na Dinamarca e na Suécia.
  4. 4. 4 Em 1857 Ibsen assumiu o cargo de “instrutor dramático” do Teatro Norueguês de Kristiania, com um salário que lhe permitiu desposar Susanne Thorensen, filha de uma famosa poetisa norueguesa, Magdalena Thorensen. Em 1858 lançou Heróis em Helgeland. Mas parece que o tom da peça não agradou a seus contemporâneos. Acharam eles que Ibsen transformara os heróis mitológicos em camponeses comuns. Na mesma época, o dramaturgo Bjornstjerne Björnson (1832-1910), também empenhado em reviver cenicamente o passado patriótico dos vikings, escrevera Entre Batalhas, drama de apelos fáceis que ganhara o aplauso geral. Em 1858, irritado, Ibsen parou de produzir para o palco, limitando sua atuação ao campo jornalístico. Uma viagem à Alemanha e o convívio com o teatro alemão da época deram-lhe uma nova perspectiva do teatro norueguês: provinciano e quase ridículo em seu insistente ufanismo. O patriotismo impregnava a música, a literatura, o teatro, as artes em geral e, em 1864, quando a Prússia e a Dinamarca entraram em guerra, Ibsen exigiu coerência na ação. Lutava para que a Noruega e a Suécia fossem em socorro da Dinamarca e que a solidariedade escandinava não se resumisse apenas a palavras. Apesar disso, essa solidariedade só se fez sentir em vagos protestos diplomáticos. Quando a Dinamarca caiu, o romantismo escandinavo parecia algo sem sentido e o patriotismo apoiado no vazio. Mais do que ninguém, Ibsen percebeu a incoerência entre pensamento e ação. Nessa época, leu o filósofo Sören Kierke- gaard (1813-1855), e deixou-se influenciar por suas idéias marcadas por profundo sentido religioso. Sempre em busca da coerência e da verdade (reflexo do meio luterano), Ibsen pôde, por intermédio de Kierkegaard, ter consciência de si mesmo, valorizar-se como individuo portador de princípios em que acreditava firmemente e ousar erguer sua voz acima da razão dos outros. “A multidão é a negação da verdade”, dirá uma de suas personagens, anos mais tarde, em Um Inimigo do Povo, partindo de um princípio de Kierkegaard. Imbuído do compromisso consigo mesmo, Ibsen colocou em prática o sentido de um epigrama escrito nessa época e que, trinta anos depois, ele destacou para epígrafe de suas Obras Completas: “Vida significa lutar com os fantasmas no próprio cérebro e coração; poesia significa julgar-se a si próprio”. DESENCANTO E EXÍLIO Em 1862, Ibsen causa escândalo com a comédia, em versos, Comédia do Amor. Zombando das convenções da vida familiar, ele defende a tese de que um casamento por motivo de dinheiro pode ser mais feliz do que um amor pseudo- romântico. Sua abordagem caricatural não agradou aos espectadores: os conservadores ofenderam-se, os liberais irritaram-se. Nessa época o Teatro Norueguês de Kristiania fechava suas portas por insolvência e, apesar de a falência não se relacionar com a Comédia do Amor, o Parlamento norueguês aproveitou a situação para recusar a Ibsen a “pensão de poeta” concedida a outros.
  5. 5. 5 Apenas com as funções de jornalista Ibsen não podia sobreviver. Amargurado, cético, em seis semanas ele escreveu Os Pretendentes à Coroa (1863). Tirando o tema da história medieval norueguesa, Ibsen inseriu um penetrante estudo psicológico das personagens principais. A peça alcançou grande sucesso. Mas os aplausos não abrandaram seu desgosto para com a pátria: no auge da luta prusso-dinamarquesa, a Noruega ainda mantinha uma neutralidade que Ibsen considerava vergonhosa. Decidido a abandonar o país, escolheu a Itália para morar. Como todos os escandinavos que viviam em Roma, Ibsen procurou o Café del Greco, ponto de reunião de artistas nórdicos, e passou também a freqüentar assiduamente uma espécie de clube escandinavo onde sempre encontrava os últimos livros e jornais dinamarqueses, suecos, noruegueses e alemães. Ali, seu temperamento difícil e irritável ficou famoso. Dedicava-se ao trabalho como um soldado nas trincheiras. Seu alvo eram os oportunistas, que escondiam suas intenções sob frases bonitas, mas de um patriotismo mentiroso. Ibsen lhes deflagrou uma luta sem tréguas. Assim, com Brand (1866), ele reafirmou sua posição. Na peça desenvolve-se a luta de um pastor protestante contra os poderes constituídos. Brand se reveste de um rigor moral que reflete a consciência ética de Ibsen. Algumas cenas marcam suas preocupações da época, relacionadas ao drama político que se desenrola na Escandinávia, e ele critica a debilidade dos governos e dos indivíduos. Não é o cristianismo de Brand que Ibsen destaca, mas o seu caráter firme, o seu comportamento moral, que o levam até o fim em suas decisões, fazendo-o, por vezes, agir heroicamente. A essa firmeza da personagem Ibsen opõe a fragilidade de intenções dos povos nórdicos que assistiam à derrocada da Dinamarca diante da Prússia. Se Brand foi um forte, escreve Wilhelm Reich, Peer Gynt sentiu a vida. Para Reich, em Peer Gynt (1867) Ibsen dramatizou a miséria do sujeito não- convencional. E a história de um jovem incompreendido que, embora insuficientemente aparelhado, libertou-se das fileiras cerradas da turba humana. As pessoas riem dele quando está fraco e tentam destruí-lo quando está forte. Seu destino — a ruína — surge então como a conseqüência mais provável, quando alguém tenta libertar-se do pensamento tradicional, pois os homens práticos e cotidianos não admitem que sua paz de espírito seja perturbada; não aceitam o desconforto que lhes causa alguém que pensa e sente a vida. Na peça seguinte, A Aliança da Mocidade (1869), Ibsen investe diretamente contra os costumes políticos, criticando também o sistema eletivo da Noruega. Violenta, essa sátira suscitou forte oposição de muitas personalidades, inclusive de seu amigo Björnson. Segundo alguns biógrafos, isso fez com que Ibsen adiasse o retorno à Noruega. Por isso, em 1870, ele teria ido para Munique, retornando a seu país apenas em 1891. Durante esse período, Ibsen manteve farta correspondência com seu editor Georg Brandes e alguns intelectuais noruegueses. Numa carta enviada a Brandes ele coloca as opiniões que tinha em relação à política: “Nós vivemos das migalhas
  6. 6. 6 caídas da mesa da revolução do século passado; esse alimento está de há muito mastigado e remastigado... As idéias têm necessidade de alimentos e de desenvolvimento nossos. Liberdade, Igualdade e Fraternidade não são mais o que eram no tempo da defunta guilhotina. Os políticos se obstinam em não compreender e é esse o motivo pelo qual eu os odeio. Querem revoluções particulares, revoluções de superfície, de ordem política, etc. Tolice tudo isso. O que importa é a revolta do espírito humano...” Esse confessado individualismo jamais faria de Ibsen um homem de partido, ao contrário de seu colega Björnson, liberal e ligado à política. A grande questão para Ibsen “é alcançar a sinceridade, a verdade absoluta consigo mesmo”. - Em 1873 Ibsen escreve sua primeira obra na Alemanha, Imperador e Galileu. Sentindo que se operavam grandes mudanças nas nações da época e que se estava à beira de uma revolução, comenta numa carta, já em 1882: “Não sei o que sairá desta luta de morte entre duas épocas. Tudo, de preferência, à manutenção do que existe”. O CAMINHO PARA O REALISMO Em 1870 a Comuna de Paris assustara muita gente. A guerra franco-prussiana definira-se a favor da Prússia. Bismarck e o Segundo Reich constituíam uma permanente ameaça à Europa. Grandes transformações se operavam nas artes, na filosofia e na ciência. Sempre um solitário e já quase com cinqüenta anos, Ibsen em Munique entrega-se quase que exclusivamente à leitura de jornais. Parou de escrever e praticamente cessou de ler livros. Os jornais, em casa e no Café Maximilian, traziam-lhe as notícias do mundo. Ibsen passou então a refletir sobre a importância de atingir, por meio da dramaturgia, um público maior (não apenas o escandinavo); ao mesmo tempo, passou a almejar a que as peças orientassem opiniões e contribuíssem para a conscientização dos problemas sociais e morais. Todas essas idéias inspiraram a sua primeira obra francamente realista: Os Pilares da Comunidade (1877). Nesta peça, configurado na personagem de Bernick, um típico homem de negócios, está o moralismo que se apóia em base hipócrita, imoral e oportunista. No final, Bernick é denunciado por uma mulher corajosa. E, para o crítico literário Otto Maria Carpeaux, “Ibsen criara, magistralmente, o tipo do grande burguês; mas acreditava ainda, vagamente, em salvações morais e esperava a ação salvadora por parte daqueles membros da sociedade que viviam excluidos dos privilégios legais: as mulheres”. Em 1879 escreve Casa de Bonecas, onde defende a necessidade de independência do ser humano; em seguida, Os Espectros (1881). Ambas causam grandes polêmicas. Um Inimigo do Povo, escrita em 1882, foi, por sua vez, uma resposta aos que lhe vetaram Os Espectros. Novamente Ibsen mostra o homem contra o mundo, o homem que acaba sozinho, por querer a verdade onde a mentira é regra. Depois de Um Inimigo do Povo — espécie de apologia do heroísmo individual — Ibsen passa a se questionar sobre a solidão humana. No final da peça, o dr. Stockmann diz que o homem mais forte é aquele que está só. Ibsen,
  7. 7. 7 porém, mostra que o indivíduo que despreza o mundo, fechando-se na solidão, provavelmente está doente. E o que dirá o dr. Relling, personagem de sua peça seguinte. O Pato Selvagem (1884). A fé heróica é insuficiente, enquanto o sentido de vazio e de falência exprime-se no símbolo do pato selvagem. “É a fábula engenhosa do pato ferido que mergulha até o lodo, nele afunda o bico, detêm-se no sargaço e nunca mais reaparece na superfície, a menos que um cão hábil o faça subir”, escreve o conde Prozor, amigo e crítico de Ibsen. Em 1885 Ibsen já é o autor mais representado em toda a Europa. Rico, condecorado por vários governos, sai de Munique e, depois de longo tempo, decide ir à Noruega. Escreve Rosmersholm (1886), onde continua a projetar nos símbolos a realidade cotidiana, prosseguindo a tendência iniciada com O Pato Selvagem. Parecia então deixar de lado o realismo científico e polêmico. De fato, com sua próxima produção, A Dama do Mar, ele volta a um romantismo renovado ou, como afirmam alguns críticos, a uma dramaturgia simbolista. Em 1890 aparece uma de suas peças mais fascinantes — Hedda Gabler —, onde uma mulher insatisfeita, instável, ávida de poder, não consegue ligar-se afetivamente a ninguém, nem ao marido, com quem se casou por conveniência. Seu encontro com um antigo admirador, Lovborg, cuja esposa o anima em seu trabalho intelectual, acende em Hedda um profundo ciúme. Ela acaba seduzindo o amigo e precipita-o na desgraça, destruindo seu livro e levando-o ao suicídio. Resta-lhe o mesmo caminho: e ela se mata. Hedda é considerada uma personagem “fin de siècele”, decadente e instável, que se converte no arquétipo de um estado de alma muito difundido na época entre a classe social mais alta, onde a autoconsciência diante da opressão ou do desencanto freqüentemente conduzia ao suicídio. Em 1891, Ibsen volta a viver na Noruega, em Kristiania. Autor consagrado, influencia toda uma nova geração de dramaturgos: August Strindberg (1849- 1912), Gerhart Hauptmann (1862-1946), Bernard Shaw (1856-1950), Octave Mirbeau (1848-1917), entre os mais importantes. A fortuna não o torna diferente. Continua sendo um homem solitário. O grande apartamento é sua fortaleza. Nos seus últimos anos escreve O Pequeno Eyolf (1894), John Gabriel Borkman (1896) e Quando Nós Mortos Acordamos. Em março de 1898 a Noruega festejou o aniversario de Ibsen, que fazia setenta anos, homenageando-o com uma estátua diante do Teatro Municipal de Kristiania. Em 1902, vítima de congestão cerebral, ficou inválido. Paralisado, sem poder escrever, passou quatro anos tendo a distraí-lo apenas a janela de sua casa. Morreu a 23 de maio de 1906. A BONECA REBELDE DE UMA CASA DESTROÇADA A idéia matriz de Casa de Bonecas nasceu de um acontecimento real: Laura Kieler, uma norueguesa, fora acusada de falsificar uma letra de câmbio por ignorância da lei. A notícia correu pelos jornais da época — um período em que o feminismo travava suas batalhas contra as opiniões conservadoras.
  8. 8. 8 Fútil e vaidosa, Nora falsificou a assinatura de seu pai numa letra que lhe daria dinheiro para empreender uma viagem. Na época, seu marido estava gravemente enfermo e a viagem poderia salvar-lhe a vida. Nora não pensou no risco de sua atitude: amava o marido e visou apenas ao seu bem. Ela pensava que jamais alguma lei a puniria por isso. Mas Nora é uma criança: seu pai e seu marido, Torwald, sempre a trataram assim. Sua realidade são os filhos com quem brinca como se fossem bonecos; ela mesma é como um bibelô precioso que enfeita a sala. A sua maneira, sente-se heróica; orgulha-se de ter salvo a vida do marido, mas ao mesmo tempo oculta seu gesto. Torwald imagina que o dinheiro veio de seu sogro e jamais soube da gravidade da própria doença. Quando o agiota Krogstad lhe faz ameaças, Nora sente que seu paraíso doméstico está em perigo. Se Torwald souber de tudo, não mais a verá como uma jovem caprichosa, alegre, algo irresponsável — imagem que ela mantém porque percebe que o marido a quer assim. Torwald Helmer é um homem de sólidas qualidades profissionais e morais. Ama sua esposa e, sempre que possível, deixa-a distante dos problemas da vida — para poupar sua beleza. Mas Krogstad está decidido a chantagear e propõe a Nora, em troca de seu silêncio, que interfira junto ao marido para que ele não seja despedido do banco onde ambos trabalham. Nora, porém, não tem poderes para isso. O agiota envia então uma carta a Torwald, contando sobre o empréstimo e a falsificação. Vendo sobretudo a imprudência do gesto de Nora, Helmer nem considera o aspecto generoso que o motivou. Vê apenas um ato abjeto, ignóbil, que pode destruir sua brilhante carreira. Ele ignora que tudo acabaria naquela carta. Assim, paralisado por sua respeitabilidade e com medo do escândalo, Helmer despreza sua mulher e a proíbe até de encontrar-se com os filhos. Nora esperava — como a um milagre — uma atitude muito diversa. Mas esse milagre não aconteceu. Só, diante do egoísmo do marido, ela sente que aquele mundo estava destruído. Quando chega a segunda carta, onde Krogstad se revela arrependido e retira suas ameaças, Helmer percebe que não haverá escândalo, nem sua carreira corre perigo. Apressa-se então em perdoar a mulher. Trata-a como antes. Novamente ela é sua cotovia, sua bonequinha, e consegue achar circunstâncias atenuantes no gesto que antes condenara. Mas Nora já descobriu os fundamentos daquela moralidade: Helmer não admite que uma mulher possa realizar uma ação independente. Ele, de fato, jamais a viu como um ser pensante, pessoa inteira. Nora também percebe o que representou para seu pai e para o marido e os acusa de não tê-la amado, de a terem forjado segundo seus gostos e opiniões. Sente que é impossível continuar ali e afirma sua decisão de deixar a casa, o marido e os filhos, propondo-se a qualquer sacrifício para obter a sua independência. Diante da alegação de que tem obrigações como esposa e mãe, Nora retruca que sua maior obrigação é para com ela mesma. E importante educar-se; sem isso
  9. 9. 9 não poderá assumir tais tarefas. Helmer fica estupefato — e o espectador mais ainda, principalmente o do século XIX, para quem as razões de Nora jamais justificariam o abandono do lar e dos filhos. Embora Ibsen não se interessasse particularmente pela liberdade da mulher, mas pela liberdade do ser humano em geral, Casa de Bonecas acabou servindo à causa feminista. E se hoje o processo de emancipação feminina é um fato, em 1879 —quando foi montada pela primeira vez no Teatro Real de Copenhague — a peça foi considerada a obra mais revolucionária de Ibsen. Brand projetou seu nome na Escandinávia, mas Casa de Bonecas o projetou em toda a Europa e nos Estados Unidos. Os feministas se arregimentaram a seu redor; grandes atrizes disputaram o papel. Em 1880 montou-se a peça na Noruega; em 1882 nos Estados Unidos, no Teatro da Ópera de Milwaukee; em 1889 no Londres de Bruxelas; em 1892 em Paris, no Salão de Madame d’Aubernon e, em 1894, no Teatro Vaudeville. Entre as encenações mais importantes de Casa de Bonecas estão as de Lugné- Poe, no Théâtre de l’Ouvre, com Ludmilla e Geogers Pitöeff, em 1930; a de Eleonora Duse, que se apresentou em 1890 em São Petersburgo e excursionou pela Europa; a de Réjane, em 1893. Suzanne Deprés interpretou o papel em 1905 e também excursionou pela Europa; em 1930 Ludmilla e Georges Pitöeff interpretaram os principais papéis no Théâtre de l’Ouvre. Mais recentemente Casa de Bonecas foi montada no Playhouse Theatre de Nova York, em 1971, com Claire Bloom no papel de Nora e Colin Blakely no de Torwald Helmer, sob a direção de Patrick Garland. Em 1973 a mesma produção se apresentou no Criterion Theatre em Londres. Entre as encenações no Brasil, a mais significativa leve Tônia Carrero no papel de Nora, Rubens de Palco como Torwald Helmer e Napoleão Muniz Freire como dr. Rank. Apresentada no Teatro de Santo André em 1971, foi dirigida por Cecil Thiré. UMA RESPOSTA ESCANDALOSA Uma das maiores críticas a Casa de Bonecas era o fato de Nora ter abandonado o lar. “Pois bem” — teria dito Ibsen —“vou mostrar o que aconteceria se ela ficasse.” E escreveu, como resposta, Os Espectros. A personagem central é uma mulher que não abandona o casamento já falido apenas porque se submete às convenções sociais. E a vítima desse pecado é seu filho, que herda a sífilis do pai, acabando na loucura. Sabe-se hoje que a sífilis não se transmite por hereditariedade. Mas naquela, época, com o naturalismo emergindo e falando-se muito na influência da genética e do meio sobre os indivíduos, era natural que Ibsen também se tivesse deixado seduzir por idéias cientificistas. Claude Bernard e Émile Zola construíram teorias a partir da doutrina da hereditariedade, e Ibsen levou longe a audácia de falar sobre ela. Não apenas porque falava sobre ela, mas porque citava uma doença tão marginal que não faltou quem o acusasse de haver “emporcalhado o palco”. Além disso, o
  10. 10. 10 casamento como instituição intocável se viu abalado. Em conseqüência, a representação da peça ficou durante muito tempo proibida na Europa. Ibsen acreditava — e isso norteou sua vida e sua obra no compromisso da verdade que o indivíduo tem para consigo mesmo e para com a sociedade; na tarefa da auto-realização, independente de qualquer pressão — e isso significaria muitas vezes insurgir-se contra as mesquinhas e anacrônicas convenções sociais. A auto-realização foi a palavra de ordem de seu evangelho individualista. Ele considerava a liberdade como o valor máximo da vida, acima de qualquer imposição: somente o homem poderia fazer alguma coisa em beneficio de si mesmo. Até que a emancipação feminina se consumasse, a medicina e a ciência esclarecessem as leis da hereditariedade, o Ibsen da fase realista continuou escandalizando platéias. A sociedade que ele atacou em Casa de Bonecas e Os Espectros morreu em muitos paises com a Primeira Guerra Mundial. Mas o século XX descobriu o Ibsen romântico e simbolista, e sua influência no teatro alemão da década de 20 foi grande. PERSONAGENS TORVALD HELMER, advogado NORA HELMER, sua mulher CRISTINA LINDE DOUTOR RANK NILS KROGSTAD IVAR BOB filhos dos HELMER EMMY ANA MARIA, babá das crianças HELENA, criada dos HELMER UM ENTREGADOR A ação se passa no apartamento dos Helmer.
  11. 11. 11 ATO 1 Salão agradável, decorado com bom gosto, mas sem luxo. Uma porta no fundo, à direita, conduz ao vestíbulo; uma outra porta no fundo, à esquerda, conduz ao escritório de Helmer; entre as duas portas, um piano. No centro da parede da esquerda, uma porta, e uma janela mais afastada. Perto da janela uma mesa redonda, cadeiras de braço e um sofá. Na parede da direita, no fundo, outra porta; na mesma parede, mais próximo à ribalta, uma estufa de faiança e diante dela duas poltronas e uma cadeira de balanço. Uma mesinha entre a es- tufa e a porta lateral. Gravuras nas paredes; uma étagère com objetos de porcelana e outros objetos de arte, uma pequena estante com livros bem encadernados. O chão é atapetado e a estufa está acesa. Dia de inverno. Ouve-se a campainha do vestíbulo e, pouco depois, ouve-se a porta abrir. Entra Nora, cantarolando alegremente. Ela está de casaco e carrega vários pacotes, os quais deposita na mesa da direita. Deixa a porta aberta atrás de si, e vemos um entregador entrar carregando uma árvore de natal e uma cesta que ele entrega à criada que abriu a porta. NORA Esconda bem a árvore de Natal. Helena, não quero que as crianças a vejam agora, só à noite, quando já estiver enfeitada. (Ao carregador, enquanto puxa a carteira.) Quanto é? CARREGADOR Meia coroa. NORA Tome uma coroa. Não, pode ficar com o troco. (O carregador agradece e sai. Nora fecha a porta. Ela continua rindo para si mesma, enquanto tira o chapéu e o casaco. Tira do bolso um pacote de caramelos e come dois; depois, cautelosamente, vai à porta do escritório do marido e escuta.) Ele está em casa sim! (Novamente cantarolando, ela vai até a mesa da direita.)
  12. 12. 12 HELMER (falando de dentro do escritório) É a minha cotovia que está cantando aí na sala? NORA (abrindo alguns dos pacotes) É, é ela mesma. HELMER É o meu esquilo que está saltitando por aí? NORA É. HELMER Quando foi que o esquilo chegou? NORA Agora mesmo. (Guarda no bolso o pacote de caramelos e limpa a boca.) Venha cá, Torvald, venha ver o que eu comprei. HELMER Agora estou ocupado. (Um instante depois ele abre a porta e olha, de caneta na mão.) Você disse que comprou? Tudo isso? Minha perdulariazinha andou jogando dinheiro fora de novo? NORA É, Torvald. mas esse ano nós podemos relaxar um pouco. Esse é o primeiro Natal que a gente passa sem precisar de economizar tanto. HELMER Ah, mas você sabe que nós não podemos exagerar. NORA Podemos sim, Torvald, esse ano nós podemos exagerar um pouquinho, não podemos? Um pouquinhozinho só! Agora que você vai ter um ordenado enorme e vai ganhar muito, muito dinheiro. HELMER A partir do ano novo. E só recebo o primeiro pagamento depois de três meses. NORA Ah! Até lá a gente pode pedir emprestado. HELMER Nora! (Vai até ela e puxa-lhe a orelha brincando.) Sempre a mesma cabecinha
  13. 13. 13 de vento! Imagine que hoje eu peço um empréstimo de mil coroas e você gasta tudo na semana do Natal e aí, na semana do Ano Novo, cai uma telha na minha cabeça e eu morro. NORA (tapando a boca dele) Que horror! Não fale assim. HELMER Mas imagine que isso pode acontecer... e aí? NORA Se acontecesse uma coisa dessas, para mim ia dar na mesma ter dívidas ou não! HELMER E as pessoas que me tivessem emprestado o dinheiro? NORA Elas que se danassem! Gente que eu nem conheço. HELMER Você é bem mulher, mesmo! Nora, falando sério, você sabe o que eu penso a respeito disso. Nada de dívidas, nada de empréstimos, não há liberdade nem beleza numa vida baseada em dívidas. Nós dois agüentamos firme e com coragem até hoje, e é assim que deve ser por esse pouco tempo de dificuldades que ainda temos pela frente. NORA (andando em direção à estufa) Como você achar melhor, Torvald. HELMER (indo atrás dela) Ai... ai... ai... ai... ai... Não quero a minha pombinha de asa caída, o que é isso? Meu esquilinho está triste? (Puxando a carteira.) Nora, adivinhe o que é que eu tenho aqui? NORA (vira-se rapidamente) Dinheiro? HELMER Tome. (Dá dinheiro a ela.) Você pensa que eu não sei que no Natal a despesa é grande? NORA (contando) Dez... vinte... trinta... quarenta. Ah, obrigada, Torvald. Isso dá para bastante tempo.
  14. 14. 14 HELMER É bom que dê mesmo. NORA Vai dar sim, mas venha cá, deixe que eu lhe mostre tudo que eu comprei. É tão barato! Olhe, isso é uma roupa nova para Ivar. . . Isso, uma espada. Ali, um cavalinho e uma cometa para Bob. E isso, uma boneca e uma caminha de boneca para Emmy, são vagabundas, mas ela vai quebrar logo. E isso são cortes de fazenda e lenços para as criadas, a velha Ana Maria merecia coisa melhor. HELMER E o que é que tem nesse embrulho? NORA (gritando) Não, Torvald, isso você só vai ver hoje à noite. HELMER Está bem. E você, minha perdulariazinha, o que é que você escolheu para você? NORA Ah, para mim? Não, não quero nada, não. HELMER Claro que sim. Diga me alguma coisa razoável que você tenha vontade de ter. NORA Não, eu não tenho a menor idéia. — A não ser... Torvald... HELMER E então? NORA (brincando com o botão do paletó dele, sem levantar os olhos) Se você quer mesmo dar-me alguma coisa, você podia, você podia... HELMER Vai, fale. NORA (falando depressa) Você podia dar-me dinheiro, Torvald. Só o quanto você puder me dar; ai, um dia desses eu compro alguma coisa com ele. HELMER Mas, Nora.
  15. 15. 15 NORA Ah, faça isso, meu bem. Por favor, faça isso! Eu coloco num envelope dourado e penduro na árvore de Natal. Não é uma boa idéia? HELMER Na verdade é, quer dizer, se você realmente guardasse o dinheiro e realmente comprasse alguma coisa para você. Mas se você gastar tudo na despesa da casa ou em outras pequenas coisas, aí eu simplesmente vou ter que desembolsar tudo de novo. NORA Ah, que idéia, Torvald... HELMER Isso você não pode negar, não é, minha menininha? (Abraça-a pela cintura.) É incrível como um homem tem que pagar caro para ter uma bonequinha de luxo em casa! NORA Que exagero! Eu economizo tudo que eu posso! HELMER Isso é verdade! Tudo o que você pode. Mas o que você pode é nada. NORA (sorrindo calma e feliz) Você não faz idéia de quantas despesas os esquilos e as cotovias têm, Torvald. HELMER Você é urna pessoinha engraçada. Igualzinha a seu pai, sempre procurando uma nova maneira de me arrancar dinheiro, e, quando consegue, ele vira fumaça na sua mão. Evapora sem você saber como. Enfim, é preciso aceitar você como você é. Está no seu sangue. É sim, Nora, isso é hereditário. NORA Bem que eu gostaria de ter herdado várias das qualidades de papai. HELMER E eu não gostaria que você fosse nada diferente daquilo que você é, minha cotoviazinha. Mas sabe, só agora eu reparei que você hoje está com um ar meio... como é que se diz, meio... meio perturbado. NORA Você acha?
  16. 16. 16 HELMER Está parecendo sim. Olhe bem nos meus olhos. NORA (olha-o) Então? HELMER (ameaçando-a com o dedo) Dona gulosa não andou fazendo nada de proibido hoje na cidade? NORA Não, que idéia. HFLMER Dona gulosa não deu uma escapadinha até a confeitaria? NORA Não, palavra que não, Torvald. HELMER Não andou beliscando uns docinhos? NORA Claro que não. HELMER Nem andou mordiscando uns caramelos? NORA Não, Torvald, eu te garanto que não. HELMER Claro, claro, eu falei só de brincadeira. NORA (indo para a mesa da direita) Nem me passa pela cabeça fazer as coisas que você não gosta. HELMER Disso eu estou certo. Além do mais você me deu sua palavra. (Indo para ela) Pode guardar seus segredinhos de Natal em paz, meu amor. Nós vamos saber de tudo hoje à noite, quando a árvore estiver acesa. NORA Você se lembrou de convidar o doutor Rank?
  17. 17. 17 HELMER Não, não há necessidade, é óbvio que ele vem cear conosco. Em todo caso, assim que ele chegar eu o convido. Eu encomendei vinho do bom. Nora, você não imagina quanta coisa boa estou sonhando para hoje à noite. NORA Eu também, e as crianças vão ficar tão contentes, Torvald. HELMER Como é bom a gente saber que tem um emprego seguro e um bom ordenado. E uma grande alegria pensar nisso, não é? NORA É maravilhoso! HELMER Você se lembra do Natal passado? Durante três semanas você se trancava toda noite, até tarde, fazendo enfeites para a árvore de Natal e outras coisas que iam ser surpresas para nós. Foram as três semanas mais sem graça que eu passei na minha vida. NORA Eu não achei sem graça. HELMER (sorrindo) Mas o resultado não foi muito brilhante, Nora. NORA Não vai começar de novo a implicar comigo por causa dessa história. Que culpa tenho eu se o gato entrou lá e rasgou tudo? HELMER Claro que a culpa não foi sua, minha menininha. Você tinha a melhor das intenções que era alegrar a todos nós, e isso é o que importa. Mas como é bom que essa época difícil tenha passado. NORA É sim, é uma maravilha. HELMER Desta vez eu não tenho que ficar aqui sozinho me aborrecendo nem você tem que estragar esses olhinhos e essas mãozinhas.
  18. 18. 18 NORA (bate palmas) Não, Torvald, não preciso mais, não é mesmo? É tão bom ouvir você dizer isso! (Pegando-o pelo braço.) Agora deixe me contar a você como é que eu pensei em organizar as coisas. Assim que terminar o Natal... (Tocam a campainha do vestíbulo.) A campainha. (Ela ajeita um pouco o aposento.) Há alguém chegando. Que coisa mais aborrecida! HELMER Se for alguma visita, eu não estou em casa. HELENA (da porta) Há uma senhora aí que quer falar com a patroa. NORA Mande-a entrar. HELENA (a Helmer) E o doutor entrou na mesma hora que ela, patrão. HELMER Ele entrou direto para o meu escritório? HELENA Sim, senhor. (Helmer entra no escritório, Helena introduz a senhora Linde que está em trajes de viagem. Helena fecha a porta.) SENHORA LINDE (numa voz tímida e insegura) Como vai você, Nora? NORA (hesitante) Bem, obrigada. SENHORA LINDE Pelo jeito, você não está me reconhecendo. NORA Não, não sei... mas parece... é! Cristina! É você mesma? SENHORA LINDE Sou eu mesma.
  19. 19. 19 NORA Cristina! Como é que eu pude não reconhecer você! Mas, também, como é que eu podia... Como você está mudada, Cristina! SENHORA LINDE Estou sim, muito. Foram nove ou dez longos anos. NORA Faz tanto tempo assim que a gente não se vê? Acho que faz sim. Ah, você não pode imaginar como eu tenho sido feliz nesses últimos oito anos. Quer dizer então que você resolveu vir até a cidade e fazer essa viagem no inverno. É muita coragem sua. SENHORA LINDE Cheguei no vapor desta manhã. NORA Para aproveitar a noite de Natal, é claro! Nós vamos nos divertir tanto! Mas tire esse casaco ou você ainda está com frio? (Ajuda-a.) Agora nós vamos nos sentar e ficar bem à vontade. Não, você nessa poltrona aqui e eu aqui, na cadeira de balanço. (Segura as mãos dela.) Pronto, agora é bem você mesma, foi só no primeiro momento... você está um pouco mais pálida, Cristina, e talvez um pouco mais magra. SENHORA LINDE E muito, muito mais velha, Nora. NORA Talvez um pouco mais velha. Um pouquinho, não muito, de maneira nenhuma. (Interrompe-se bruscamente, num tom grave.) Que avoada que eu sou, tagarelando desse jeito. Cristina, meu bem, me desculpe. SENHORA LINDE Oque é que você quer dizer? NORA (em voz baixa) Pobre Cristina, você perdeu o marido. SENHORA LINDE É, já faz três anos. NORA Eu soube, li no jornal. Olhe, Cristina, eu tive vontade de escrever-lhe uma porção de vezes, é verdade, mas sempre eu adiava ou alguma coisa me impedia.
  20. 20. 20 SENHORA LINDE Minha querida, eu compreendo perfeitamente. NORA Não, Cristina, eu sei que fiz muito mal. Coitadinha, como você deve ter sofrido. E ele não lhe deixou nada. SENHORA LINDE Nada. NORA Nem filhos. SENHORA LINDE Não. NORA Então... nada, nada? SENHORA LINDE Nem uma saudade ou uma tristeza que pudesse preencher a minha vida. NORA (olhando incrédula para ela) Mas, Cristina, isso é possível? SENHORA LINDE (acariciando os cabelos dela) Isso às vezes acontece, Nora. NORA Então você está completamente sozinha, isso deve ser horrivelmente triste. Eu tenho três filhos maravilhosos. Não dá para eu lhe mostrar agora, saíram com a governanta. Mas você precisa contar-me tudo sobre você. SENHORA LINDE Não, não, eu quero saber de você. NORA Não, é você quem começa, hoje eu não quero ser egoísta. Hoje eu sé quero pensar nos seus problemas. Mas há uma coisa que eu preciso contar-lhe. Sabe que há poucos dias nos aconteceu uma coisa maravilhosa? SENHORA LINDE Não, o que foi?
  21. 21. 21 NORA. Imagine só, meu marido foi nomeado diretor do Banco de Investimentos. SENHORA LINDE Seu marido? Que sorte! NORA Extraordinária! A profissão de advogado é uma coisa tão incerta, principalmente para quem não aceita negociatas. Isso Torvald nunca fez e eu estou plenamente de acordo com ele. Você pode imaginar como nos estamos contentes. Ele assume o posto no Banco no ano novo. Aí vai ganhar um bom salário e uma porção de comissões. Daí em diante nós vamos poder viver uma vida bem diferente e fazer tudo que tivermos vontade. Oh, Cristina, como eu me sinto leve. Sim, porque é muito agradável ter bastante dinheiro e não precisar fazer economia, não é mesmo? SENHORA LINDE É. Pelo menos deve ser agradável ter o necessário. NORA Não, não só o necessário, mas muito, muito dinheiro. SENHORA LINDE (sorri) Nora, Nora, você ainda não criou juízo? Na escola você era uma esbanjadeira. NORA (ri docemente) É. Torvald acha que eu ainda sou. (Ameaça com o dedo.) Mas sua “Nora, Nora” não é tão maluquinha quanto você pensa... Oh! nossa situação nunca me permitiu esbanjar. Foi preciso que nós dois trabalhássemos. SENHORA LINDE Você também? NORA Também, pequenos trabalhos, costuras, crochê, bordados (baixando a voz) e muitos outros trabalhos. Você sabe que Torvald largou o Ministério, quando nos casamos? Não havia possibilidade de promoção na sessão dele, e era preciso ganhar mais do que antes. No primeiro ano ele se sobrecarregou terrivelmente. Precisava ganhar dinheiro de todas as maneiras, e teve que trabalhar noite e dia. Mas ele não resistiu, adoeceu gravemente, e os médicos disseram que era indispensável para a saúde dele uma viagem ao sul. SENHORA LINDE E, vocês passaram um ano na Itália, não?
  22. 22. 22 NORA É, mas asseguro-lhe que não foi nada fácil fazer essa viagem. Ivar tinha acabado de nascer, mas não podíamos deixar de ir. Foi uma viagem deliciosa, linda, e que salvou a vida de Torvald. Mas custou um dinheirão, Cristina. SENHORA LINDE Eu faço idéia. NORA Quatro mil e oitocentas coroas! É um bocado de dinheiro, não é? SENHORA LINDE E, mas numa hora dessas, já é uma sorte a gente ter o dinheiro. NORA Bem, na verdade foi papai quem nos deu. SENHORA LINDE Ah, sei. Foi por essa época que seu pai morreu, não foi? NORA Foi. E eu nem pude ir cuidar dele. Ivar estava para nascer a qualquer momento e eu ainda tinha que tratar de Torvald que estava doente. Meu bom e querido pai nunca mais vi o rosto dele, Cristina. Essa foi a época mais triste que eu passei depois de casada. SENHORA LINDE Eu sei o quanto você gostava dele. E aí vocês viajaram para a Itália? NORA Foi. Sabe, nós tínhamos o dinheiro e os médicos insistiram. Então, um mês depois, nós viajamos. SENHORA LINDE E seu marido voltou completamente curado? NORA Forte como um touro! SENHORA LINDE Mas... e esse médico? NORA Que médico?
  23. 23. 23 SENHORA LINDE Eu pensei que a criada tinha dito que era um médico, esse senhor que chegou ao mesmo tempo que eu. NORA Ah, é o doutor Rank. Mas ele não vem aqui como médico, é o nosso melhor amigo e vem aqui pelo menos uma vez por dia. Não, desde aquela vez Torvald nunca mais teve nada, e as crianças são fortes e eu também. (Salta e bate palmas.) Ah, meu Deus! Cristina, como é bom viver e ser feliz... Oh, mas que horror... - não faço outra coisa senão falar da minha vida. (Senta-se num tamborete perto de Cristina e se apóia nos joelhos dela.) Não se zangue comigo. Diga-me, é verdade mesmo que você não amava seu marido? Então por que você casou com ele? SENHORA LINDE Minha mãe ainda era viva, estava de cama e desenganada, e eu tinha que sustentar meus dois irmãos mais moços. Por isso eu achei que não havia razão para recusar a oferta dele. NORA É. Talvez você tivesse razão, então ele era rico na ocasião? SENHORA LINDE Acredito que ele estava bastante bem, mas os negócios dele eram precários, e quando ele morreu veio tudo abaixo. NORA E ai? SENHORA LINDE Bem, eu tive que recorrer ao que estivesse ao meu alcance: primeiro uma lojinha, depois uma escolinha, e assim por diante. Esses três anos foram como um longo dia de trabalho sem descanso e agora isso acabou, Nora, minha mãe morreu, os rapazes estão bem empregados e não precisam mais de mim. NORA Isso deve ser um alívio para você... SENHORA LINDE Não é não. O que eu sinto é um vazio indescritível. Ninguém mais por quem viver. (Levanta-se agitada.) Foi por isso que eu não agüentei mais viver lá naquele fim de mundo. Espero que aqui seja mais fácil encontrar alguma coisa que me absorva e ocupe meus pensamentos. Se eu tivesse a sorte de arranjar um emprego fixo. Algum trabalho de escritório.
  24. 24. 24 NORA Mas, Cristina, isso é tão cansativo, e você já está com um ar tão abatido. Seria melhor você passar uma temporada numa estação de águas. SENHORA LINDE (andando em direção à janela) Eu não tenho um pai que me pague a viagem, Nora. NORA (levantando-se) Desculpe-me. SENHORA LINDE (indo para ela) É você quem deve me desculpar, meu bem. O pior de uma situação como a minha é que ela faz a gente ficar amarga. Ninguém por quem trabalhar e, ainda assim, sendo obrigada a procurar uma oportunidade. A gente precisa viver, e então a gente se torna egoísta. Quando você me contou da mudança para melhor na vida de vocês — é difícil acreditar — eu fiquei mais contente por mim do que por vocês. NORA Como assim?... Ah, entendi. Você quer dizer que talvez Torvald pudesse arranjar alguma coisa para você. SENHORA LINDE É, é nisso que eu estava pensando. NORA Ele vai, Cristina, deixe por minha conta, eu vou tocar no assunto com habilidade. Vou pensar em alguma maneira que agrade a ele, eu vou ficar tão contente se puder ser útil a você. SENHORA LINDE Como você é boa, Nora, tem tanta vontade de me ajudar. E mais ainda porque você não conhece o lado feio da vida. NORA Eu? Não conheço? SENHORA LINDE (sorrindo) Meu bem! Uns trabalhinhos domésticos e outras coisas assim! Você é uma criança grande, Nora. NORA (levanta a cabeça e cruza a cena) Você não devia falar com esse ar de superioridade!
  25. 25. 25 SENHORA LINDE Não? NORA Você é igual aos outros. Todos pensam que numa hora decisiva eu não presto para nada! ... SENHORA LINDE Ora, ora. NORA ... Que eu nunca enfrentei um problema sério na vida. SENHORA LINDE Mas, Nora, meu bem, você acaba de me contar todos os seus problemas. NORA Bah! tudo bobagem. (Abaixando o tom da voz.) Eu não lhe contei a coisa mais importante. SENHORA LINDE Que coisa importante? O que você quer dizer? NORA Vocês todos me olham de cima, mas não deviam, Cristina. Você se orgulha não é por ter trabalhado tanto para sustentar sua mãe? SENHORA LINDE Absolutamente eu não olho ninguém de cima. Mas e verdade que eu me sinto satisfeita e orgulhosa quando penso que pude tornar quase felizes os últimos dias de minha mãe. NORA E você se sente orgulhosa quando pensa no que fez por seus irmãos. SENHORA LINDE Acho que tenho esse direito. NORA Também acho. Mas escute uma coisa, eu também tenho alguma coisa de que me orgulhar. SENHORA LINDE Não tenho a menor dúvida, mas de que se trata?
  26. 26. 26 NORA Fale baixo. Imagine se Torvald ouve isso! Ele não pode de maneira alguma, ninguém nesse mundo pode saber, Cristina, só você. SENHORA LINDE Mas o que é? NORA Venha cá. (A senhora Linde se senta no sofá ao lado de Nora.) Agora você vai ver que eu tenho também uma razão para ficar orgulhosa e satisfeita. Fui eu quem salvou a vida de Torvald. SENHORA LINDE “Salvou”? Como? NORA Eu te falei da viagem à Itália. Sem ela Torvald nunca teria sobrevivido. SENHORA LINDE É, mas seu pai deu o dinheiro necessário. NORA É, isso é o que Torvald e todos os outros pensam, mas... SENHORA LINDE Mas... NORA Papai não nos deu um níquel. Fui eu que arranjei o dinheiro. SENHORA LINDE Você? Uma quantia tão grande? NORA Quatro mil e oitocentas coroas. O que é que você me diz disso? SENHORA LINDE Mas, como você conseguiu? Ganhou na loteria? NORA (desdenhosamente) Na loteria? Não haveria nenhum mérito nisso. SENHORA LINDE Então como é que você conseguiu?
  27. 27. 27 NORA (murmurando e sorrindo enigmaticamente) Hum... Hum... Hum... Hum... SENHORA LINDE Porque você nunca teria conseguido emprestado. NORA Não? Por que não? SENHORA LINDE Não, uma mulher casada não pode pedir emprestado sem consentimento do marido. NORA (levantando a cabeça) Ah, mas se a mulher casada tem um pouco de cabeça para negócios... Se ela sabe se comportar com alguma habilidade... SENHORA LINDE Mas, Nora, eu não estou compreendendo nada! NORA Não precisa compreender. Eu não disse que tinha feito um empréstimo. Eu posso ter arranjado de outra maneira. (Deita-se no sofá.) Talvez eu tenha arranjado com algum admirador. Eu não sou de se jogar fora. SENHORA LINDE Você é louca! NORA Agora você está morrendo de curiosidade, Cristina. SENHORA LINDE Escuta aqui, meu bem. Será que não foi uma imprudência de sua parte? NORA Imprudência salvar a vida do meu marido? SENHORA LINDE Eu acho imprudência, sem que ele soubesse você... NORA Mas era indispensável que ele não soubesse! Meu Deus, você não compreende? Ele não podia de maneira nenhuma saber da gravidade do estado dele. Foi a mim que os médicos procuraram para dizer que a vida dele estava em perigo, e
  28. 28. 28 que a única salvação era uma temporada no sul. Você acha que eu não tentei, em primeiro lugar, conseguir o que eu queria como se fosse para mim mesma? Eu disse a ele como adoraria fazer uma viagem ao estrangeiro, como tantas mulheres fazem. Chorei e supliquei, lembrei a ele que no estado em que eu estava ele devia ser amável e condescendente, e depois eu sugeri que ele podia muito bem fazer um empréstimo. Isso quase o fez ficar bravo de verdade. Disse que eu era uma desmiolada e que era seu dever como marido não ceder às minhas fantasias e aos meus caprichos... Acho que foram bem essas as palavras que ele usou. Eu disse para mim mesma: muito bem, agora é preciso salvá-lo. Foi aí que eu arranjei o dinheiro... SENHORA LINDE E seu marido não soube por seu pai que o dinheiro não tinha vindo dele? NORA Não, nunca. Papai morreu exatamente naquela época. Eu tinha a intenção de contar a ele e pedir segredo. Mas ele já estava tão doente que... infelizmente nunca foi preciso contar a ele. SENHORA LINDE E até hoje você não contou nada a seu marido? NORA Não, graças a Deus! Você já imaginou? Logo ele que é tão radical a respeito dessas coisas! Além do mais, seria doloroso e humilhante para Torvald, com sua independência masculina, saber que me deve alguma coisa, isso iria perturbar a nossa relação, nossa adorável vida em comum não seria mais a mesma coisa. SENHORA LINDE E você não pretende contar nunca? NORA (reflexiva, com um meio sorriso) Talvez um dia, daqui a uns anos, quando eu não for mais tão bonita como agora. Não ria de mim! Eu quero dizer é que quando Torvald não achar mais tanta graça em me ver dançar, em me ver fantasiar e recitar, então pode ser que isso me sirva como um ponto de apoio... (Interrompendo) Que besteira! Esse dia nunca vai chegar. Bem, Cristina. o que é que você acha do meu grande segredo? Você ainda acha que eu não sirvo para nada? Pois fique sabendo que esse negócio me deu muita preocupação. Não foi nada fácil para mim pagar as prestações pontualmente. Fique sabendo também que existe em negócios uma coisa chamada juro trimestral e outra chamada amortização, e que é sempre terrivelmente difícil pagar. Então eu tinha que economizar um pouco daqui, um pouco de lá, você sabe, onde eu pudesse. Do dinheiro da despesa eu não podia tirar muita coisa, Torvald precisava alimentar-se bem. Não podia deixar meus
  29. 29. 29 filhos mal vestidos, todo o dinheiro que era para eles eu tinha que gastar com eles, os meus queridinhos! SENHORA LINDE Então você teve que sacrificar suas necessidades pessoais? Pobre Nora... NORA Claro. Além do mais, a responsabilidade era minha mesmo. Quando Torvald me dava dinheiro para vestidos novos e coisas assim, eu gastava no máximo a metade. Eu sempre comprei as roupas mais simples e mais baratas. Graças a Deus tudo me assenta bem, dai Torvald nunca ter reparado. Mas muitas vezes foi duro para mim, Cristina. É tão delicioso a gente estar bem vestida, não é? SENHORA LINDE Se é! NORA E depois eu descobri outras formas de ganhar dinheiro. No inverno passado eu dei a sorte de conseguir uma porção de cópias para fazer. Toda noite eu me trancava e escrevia até tarde. Muitas vezes eu me sentia exausta, mas ao mesmo tempo sentia um prazer enorme em estar ali sentada, trabalhando e ganhando dinheiro. Era como se eu fosse um homem. SENHORA LINDE Quanto você conseguiu pagar dessa maneira? NORA Não sei ao certo. Sabe, é muito difícil manter uma contabilidade de um negócio desse tipo. Só sei que paguei tudo que eu pude juntar. Às vezes eu não sabia mais o que fazer. (Sorri.) Eu costumava sentar-me aqui e imaginar que um senhor muito rico tinha se apaixonado por mim... SENHORA LINDE Quem? Quem foi? NORA Cale a boca!... E tinha morrido, e, quando abriram seu testamento, estava lá, escrito em letras bem grandes: “A encantadora senhora Nora Helmer deve receber todas as minhas posses, imediatamente e em dinheiro”. SENHORA LINDE Mas, minha querida Nora, quem poderia ser esse homem?
  30. 30. 30 NORA Pelo amor de Deus, você não entende? Não havia senhor nenhum, era só uma coisa que eu costumava imaginar sentada aqui, quando não tinha mais nenhuma idéia de como arranjar dinheiro. Mas agora estou pouco ligando. Esse velho aborrecido pode fazer o que bem entender, pouco me importa ele ou o seu testamento, pois agora eu não tenho mais preocupações! (Dá um pulo.) Meu Deus, isso é magnífico, Cristina! Livre das preocupações! Poder estar livre das preocupações, bem livre! Poder brincar e farrear com as crianças. Poder cuidar bem da casa e ter tudo exatamente como Torvald gosta! E logo vai chegar a primavera e o céu azul! Talvez a gente possa fazer uma viagenzinha, talvez eu possa ver novamente o mar! Oh! É uma coisa maravilhosa estar viva e ser feliz. (Tocam a campainha do vestíbulo.) SENHORA LINDE A campainha. Talvez seja melhor eu ir embora. NORA Não, não, não vai, não vem ninguém para cá, com certeza é para Torvald. HELENA (da porta do vestíbulo) Dá licença, madame. Há um senhor querendo falar com o patrão, e, como o doutor está com ele... NORA Quem é? KROGSTAD (na porta) Sou eu, senhora Helmer. (A senhora Linde, trêmula, anda para junto da janela.) NORA (dá um passo em direção a ele; fala em voz baixa, intrigada) O senhor? O que é? O que é que o senhor quer com meu marido? KROGSTAD Assuntos do banco, num certo sentido. Eu ocupo um pequeno cargo no banco e soube que seu marido vai ser nosso chefe agora. NORA Então é... KROGSTAD Apenas negócios, senhora Helmer. Absolutamente nada além disso.
  31. 31. 31 NORA Então tenha a bondade de passar para o escritório. (Cumprimenta-o com indiferença, fecha a porta e então volta e aviva o fogo da estufa.) SENHORA LINDE Nora, quem era esse homem? NORA Um advogado chamado Krogstad. SENHORA LINDE Então era mesmo ele. NORA Você o conhece? SENHORA LINDE Conheci, há muitos anos. Houve uma época em que ele foi escrivão na procuradoria de nossa cidade. NORA É, eu sei. SENHORA LINDE Como ele está mudado! NORA Ele teve um casamento muito infeliz. SENHORA LINDE Ele está viúvo agora, não está? NQRA E com uma porção de filhos. Pronto, agora o fogo está bom. (Fecha a portinhola da estufa e afasta a cadeira de balanço.) SENHORA LINDE Dizem que agora ele se dedica a negócios de toda espécie. NORA Verdade? Pode ser. Eu não ouvi falar nada a esse respeito. Mas chega de pensar em negócio, é tão cansativo.
  32. 32. 32 DOUTOR RANK (vindo pela porta do escritório, antes de fechar, fala para Helmer) Não, meu velho, de jeito nenhum. Eu não quero incomodá-lo. Prefiro fazer um pouco de companhia a sua mulher. (Fecha a porta e vê a senhora Linde.) Oh, perdão. Acho que aqui eu também estou incomodando. NORA Não, de modo algum. (Apresentando) Doutor Rank, senhora Linde. DOUTOR RANK Eu já ouvi muitas vezes o seu nome nesta casa. Creio que passei pela senhora na escada quando cheguei, não foi, senhora Linde? SENHORA LINDE Foi, eu subo muito devagar. Não me dou bem com as escadas. DOUTOR RANK Ah, um ligeiro estado de fraqueza. SENHORA LINDE Não, a verdade é que eu tenho trabalhado em excesso. DOUTOR RANK Nada além disso? Então eu suponho que a senhora veio a cidade para aproveitar um pouco as nossas diversões. SENHORA LINDE Eu vim procurar trabalho. DOUTOR RANK E será isso uma boa cura para excesso de trabalho? SENHORA LINDE A gente precisa viver, doutor Rank. DOUTOR RANK É, parece que existe uma opinião geral de que isso seja necessário. NORA Olhe aqui, doutor Rank, o senhor também quer viver, não quer? DOUTOR RANK Certamente. Por pior que seja o meu estado, eu quero prolongar a minha agonia. Todos os meus pacientes pensam assim e também as pessoas que sofrem de
  33. 33. 33 doenças morais, aliás, uma dessas, um caso grave, está precisamente neste momento no escritório de Helmer. SENHORA LINDE (com tristeza) Ah!! NORA De que o senhor está falando? DOUTOR RANK Um advogado chamado Krogstad, uma pessoa que a senhora absolutamente não conhece. Ele sofre de uma doença chamada falta de caráter, senhora Helmer, pois mesmo assim ele começou falando de como era importante para ele continuar vivendo. NORA Foi? De que assunto ele queria tratar com Torvald? DOUTOR RANK Não tenho idéia. Só o ouvi dizer que era alguma coisa a respeito do banco. NORA Eu não sabia que esse — como é o nome dele? Krogstad — tinha alguma coisa a ver como banco. DOUTOR RANK Sim, sim, parece que deram a ele um emprego por lá. (À senhora Linde) Não sei se na sua terra existe esse tipo de gente que vive farejando à procura de podridão moral, e, quando encontra, coloca o indivíduo em questão numa boa situação para poder ficar observando. Enquanto isso, os de bom caráter são deixados de fora. SENHORA LINDE Mas ainda assim me parece que são os doentes os que mais precisam de ajuda. DOUTOR RANK (dá de ombros) Aí está. É essa maneira de pensar que transforma a sociedade num imenso hospital. (Nora, que estava pensativa, irrompe numa gargalhada e bate palmas.) Por que a senhora ri disso? A senhora tem alguma noção do que realmente seja a sociedade? NORA Que me importa essa tal sociedade? Eu estou rindo de uma coisa muito diferente, de uma coisa extremamente divertida. Diga, doutor, todas as pessoas
  34. 34. 34 que trabalham no banco agora passam a depender de Torvald? DOUTOR RANK É isso que a senhora acha extremamente divertido? NORA (sorrindo e cantarolando) Isso é assunto meu! (Andando pela sala.) É glorioso pensar que nós, que Torvald tem tanto poder sobre tanta gente. (Tira o pacote do bolso.) Doutor Rank, que tal um caramelo? DOUTOR RANK O quê? Caramelos? Eu pensei que isso fosse mercadoria proibida por aqui. NORA É, mas foi Cristina quem me deu esses. SENHORA LINDE Eu?... NORA Não precisa ficar assustada! Você não podia adivinhar que Torvald tinha proibido. Ele acha que isso pode estragar meus dentes. Mas, ah, só uma vez ou outra, não é verdade, doutor Rank? Com sua licença. (Põe um caramelo na boca dele.) Você também, Cristina. E eu também vou comer um, só um pequenininho, ou no máximo dois. (Passeando.) Eu estou tremendamente feliz. Agora, só tem uma coisa no mundo que eu adoraria fazer. DOUTOR RANK Ah! E o que é? NORA É uma coisa que eu adoraria fazer na frente de Torvald. DOUTOR RANK E por que não faz? NORA Não posso, é muito feio! SENHORA LINDE Feio? DOUTOR RANK Então é melhor não fazer. Mas a nós a senhora poderia muito bem dizer o que
  35. 35. 35 é... O que é que a senhora tem tanta vontade de fazer na presença de Helmer? NORA Eu estou tão contente que minha vontade é dizer um bruto palavrão. DOUTOR RANK A senhora está louca? SENHORA LINDE Nora, meu bem!.. RANK Então diga, aí vem ele. NORA (escondendo o pacote) Pss, pss, pss. (Helmer de capote no braço e chapéu na mão sai do escritório e Nora dirige-se a ele.) Então, meu bem, você se livrou dele? HELMER Sim, ele acaba de sair. NORA Deixe-me apresentar-lhe. Essa é a Cristina, ela acaba de chegar à cidade. HELMER Cristina? Desculpe, mas eu não estou... NORA Senhora Linde, meu bem, Cristina Linde. HELMER Claro. Uma colega de escola de minha mulher, eu suponho? SENHORA LINDE Sim, somos amigas desde aquela época. NORA E imagine que ela fez toda essa viagem enorme só para falar com você. HELMER O que é que você quer dizer? SENHORA LINDE Não é bem isso, eu...
  36. 36. 36 NORA Cristina tem muito jeito para trabalho de escritório, e ela tem muita vontade de trabalhar sob as ordens de um homem experiente para se aperfeiçoar mais ainda... HELMER Muito bem pensado, minha senhora. NORA E quando ela soube que você foi nomeado diretor do banco — ela soube por telegrama viajou para cá o mais depressa que pôde. Torvald, eu estou certa de que você pode fazer alguma coisa por ela, como um favor para mim, não pode? HELMER Bem, não é de todo impossível, creio que a senhora é viúva, senhora Linde? SENHORA LINDE Sou. HELMER E a senhora tem alguma experiência em trabalhos de escritório? SENHORA LINDE Sim, razoável. HELMER Bem, é bastante provável que eu possa ter alguma coisa para a senhora ... NORA (batendo palmas) O que foi que eu lhe disse? HELMER A senhora chegou no momento oportuno. SENHORA LINDE Como é que eu posso lhe agradecer? HELMER Não é preciso. (Veste o casaco.) Mas por hoje a senhora vai ter que me desculpar... DOUTOR RANK Espere um pouco, eu vou com você. (Pega seu capote de pele no vestíbulo e o aquece diante da estufa.)
  37. 37. 37 NORA Veja se não demora, meu bem. HELMER Uma hora mais ou menos. NORA Você também já vai, Cristina? SENHORA LINDE (vestindo o casaco) É. Eu tenho que ir, preciso procurar um quarto. HELMER Então nós podemos descer à rua juntos. NORA (ajudando Cristina) Que pena a gente ter tão pouco espaço aqui em casa, acho que seria impossível... SENHORA LINDE Por favor, nem pense nisso. Adeus, minha querida, e muito obrigada. NORA Adeus não. até mais tarde. É claro que você vem aqui hoje à noite, e o senhor também, doutor Rank. O que é que o senhor me diz? Se o senhor estiver se sentindo bem? Ora, o senhor vai estar! Agasalhe-se bem. (Eles se dirigem à porta conversando, vozes de criança surgem na escada.) NORA Chegaram! Chegaram! (Corre e abre a porta. A governanta entra com as crianças.) Entrem logo! Entrem logo! (Abaixa-se e os beija.) Ah, meus amores. Olhe para eles, Cristina! Não são lindos? DOUTOR RANK Chega de conversa. Aqui há uma corrente de ar. HELMER Venha, senhora Linde, só uma mãe agüentaria ficar aqui agora. (Rank, Helmer e a senhora Linde saem, entram a governanta e as crianças. Nora fecha aporta.) NORA Vocês estão com umas carinhas ótimas! Tão rosadinhas! Parecem maçãs! (As crianças todas falam ao mesmo tempo que ela.) Vocês se divertiram muito? Que bom! O quê? Você sozinho puxou Emmy e Bob no trenó? Os dois ao mesmo
  38. 38. 38 tempo? Formidável! Isso é que é um garoto forte. Ivar. Deixe-me pegá-la um pouco, Ana. Minha bonequinha adorada. (Pega o bebê do colo da governanta e dança com ele.) Está bem, está bem. Mamãe vai dançar com Bob também. O quê? Vocês fizeram uma batalha de bolas de neve? Que pena que eu não estava lá! Não, não, eu tiro os casaquinhos deles, por favor Ana, deixe que eu faço isso, é tão gostoso. Pode ir lá para dentro, você parece congelada. Tem café quente no fogão. (A babá entra no aposento à esquerda. Nora tira os agasalhos das crianças, enquanto elas falam todas ao mesmo tempo.) NORA Foi mesmo? Um cachorrão correu atrás de vocês? Mas não mordeu vocês? Não, cachorro nenhum morde meus bonequinhos... Não pode mexer nos embrulhos, Ivar. O que é que tem aí? Ah, acho que você ia gostar de saber. Não, não, é uma coisa feia. Vem, vem, vamos brincar! De quê? De esconder? Está bem, nós vamos brincar de esconder. Bob vai se esconder primeiro. Eu é que vou? Muito bem, então eu me escondo primeiro. (Ela e as crianças riem, gritam e correm pela sala e pelo aposento à direita. Finalmente, Nora se esconde debaixo da mesa; as crianças entram correndo, procuram, mas não a encontram, escutam o riso abafado dela, correm em direção à mesa, levantam a tapeçaria e a encontram. Grande entusiasmo. Ela engatinha para eles fingindo assustá-los. Gargalhada. Enquanto isso, alguém bateu na porta de entrada, mas nenhum deles ouviu. A porta está entreaberta e Krogstad aparece. Ele espera um pouco, a brincadeira continua.) KROGSTAD Com licença, senhora Helmer. NORA (com um grito abafado, volta-se e ergue se nos joelhos) O que o senhor deseja? KROGSTAD Queira me desculpar, a porta da rua estava entreaberta, alguém deve ter esquecido de fechar. NORA (levantando-se) Meu marido saiu, senhor Krogstad. KROGSTAD Eu sei disso. NORA Então, o que é que o senhor quer aqui?
  39. 39. 39 KROGSTAD Uma palavrinha com a senhora. NORA Comigo? (Ás crianças) Vão ficar com Ana Maria. O quê? Não, o homem não vai fazer nenhuma maldade com mamãe. Depois que ele for embora a gente brinca mais. (Conduz as crianças aos aposentos da esquerda e fecha a porta atrás de si.) O senhor quer falar comigo? KROGSTAD Quero, sim senhora. NORA Hoje? Ainda não é primeiro do mês. KROGSTAD Não, é véspera de Natal, e vai depender somente da senhora o tipo de noite de Natal que a senhora vai passar. NORA Oque é que o senhor quer? Hoje é absolutamente impossível que eu possa... KROGSTAD Mais tarde falaremos nisso. É uma outra coisa. Creio que a senhora dispõe de um momento? NORA Sim... sim, disponho... se bem que... KROGSTAD Ótimo, eu estava no restaurante Olsen e vi seu marido passar, descendo a rua... NORA Sim. KROGSTAD Com uma senhora. NORA E daí? KROGSTAD Posso me atrever a perguntar se era a senhora Linde?
  40. 40. 40 NORA Era ela. KROGSTAD Recém-chegada à cidade? NORA Sim, hoje. KROGSTAD É uma grande amiga sua, não é? NORA É, mas eu não vejo... KROGSTAD Foi minha também, faz muito tempo. NORA Eu sei disso. KROGSTAD Sabe? Então a senhora está a par de tudo, foi o que eu supus. Sendo assim, eu posso perguntar à senhora sem rodeios: a senhora Linde vai ter um emprego no banco? NORA Que direito tem o senhor de me fazer perguntas, senhor Krogstad? O senhor, um subordinado de meu marido! Mas já que o senhor pergunta, terá uma resposta: a senhora Linde vai ter um emprego no banco. E fui eu quem interferi a favor dela, fique o senhor sabendo. KROGSTAD Então eu não me enganei. NORA (andando de um lado para outro) Às vezes as pessoas têm alguma influência, eu creio. Só porque se é mulher, isso não quer dizer que... E quando uma pessoa está na posição de subordinado, senhor Krogstad, devia evitar com muito cuidado a possibilidade de ofender alguém que... que... KROGSTAD Que tem influência.
  41. 41. 41 NORA Exatamente. KROGSTAD (mudando de tom) Senhora Helmer, poderia ter a bondade de usar sua influência em meu benefício? NORA O quê? O que o senhor quer dizer? KROGSTAD A senhora poderia ter a bondade de conseguir que eu permaneça na minha posição de subordinado no banco? NORA O que significa isso? Quem quer tirar o senhor de sua posição? KROGSTAD Oh! não precisa mais fingir ignorância. Eu compreendo perfeitamente que sua amiga não tenha muita vontade de se expor a um reencontro comigo. E eu compreendo perfeitamente também a quem eu devo minha demissão. NORA Mas eu lhe garanto que... KROGSTAD Como a senhora quiser. Mas, falando claramente, chegou o momento para eu aconselhar a senhora a usar sua influência para impedir a minha demissão. NORA Mas, senhor Krogstad. eu não tenho nenhuma influência. KROGSTAD Não tem? Parece-me que foi a senhora mesma quem disse isso, ainda há pouco. NORA Não foi nesse sentido que eu quis dizer. Eu! O que é que faz o senhor pensar que eu tenha esse tipo de influência sobre meu marido? KROGSTAD Ora, eu conheço seu marido desde nosso tempo de estudante. Não creio que ele seja mais difícil de convencer do que outros maridos.
  42. 42. 42 NORA Se o senhor insinuar alguma coisa contra meu marido, eu o ponho para fora desta casa. KROGSTAD A senhora tem coragem, senhora Helmer. NORA Eu não tenho mais medo do senhor. Depois do Ano Novo me verei livre disso tudo. KROGSTAD (controlando-se) Escute, senhora Helmer, se for preciso, eu lançarei mão de qualquer recurso para conservar meu posto no banco. NORA Está se vendo. KROGSTAD Não é só por causa do ordenado. A verdade é que isso é o que menos importa no caso. Há uma outra razão. Ora, eu posso muito bem lhe contar. Creio que a senhora, como todo mundo, sabe que uma vez, há muitos anos, eu cometi uma imprudência. NORA Acho que ouvi alguma coisa nesse sentido. KROGSTAD Ocaso nunca chegou a ir aos tribunais. Mas, depois disso, todos as portas se fecharam para mim. Então eu passei a me dedicar aos negócios que a senhora sabe quais são. Eu tinha que fazer alguma coisa e, honestamente, não acho que eu tenha sido dos piores no ramo. Mas agora tenho que me libertar de tudo isso. Meus filhos estão crescendo. Pelo bem deles eu preciso recuperar o máximo de respeito que eu puder nesta cidade. Este emprego no banco era como o primeiro degrau na minha subida — e agora seu marido vai me empurrar escada abaixo, novamente para a lama. NORA Mas, acredite em mim, eu não tenho nenhum poder para lhe ajudar. KROGSTAD Então é porque a senhora não tem vontade. Mas eu tenho um meio de forçá-la.
  43. 43. 43 NORA O senhor não está querendo dizer que vai contar ao meu marido que lhe devo dinheiro? KROGSTAD Hum!... e se eu contasse a ele? NORA Seria uma infâmia de sua parte. (Soluçante) Meu segredo, meu orgulho e minha alegria! E ele vir a saber, desta maneira feia e suja, através do senhor! E eu ficaria numa situação muito desagradável! KROGSTAD Só desagradável? NORA (impetuosamente) Então conte! E vai ser pior para o senhor. Meu marido vai ver bem que tipo de pessoa o senhor é, e aí com toda certeza o senhor fica sem seu emprego. KROGSTAD Eu perguntei se a senhora tinha receio apenas de uma situação desagradável em casa. NORA Se meu marido vier a saber, naturalmente ele vai pagar o que ainda lhe devemos e não teremos mais nada a ver com o senhor. KROGSTAD (aproximando-se um passo) Escute, senhora Helmer, ou a senhora tem uma memória muito fraca ou não entende nada de negócios. Eu me vejo obrigado a lhe recordar alguns detalhes. NORA O que é que o senhor quer dizer? KROGSTAD Quando seu marido estava doente, a senhora veio a mim para pedir quatro mil e oitocentas coroas. NORA Eu não tinha outra pessoa a quem recorrer. KROGSTAD E eu lhe prometi que lhe conseguiria aquela soma.
  44. 44. 44 NORA E conseguiu. KROGSTAD Eu prometi que conseguiria a soma mediante algumas condições. A senhora estava tão preocupada com a doença de seu marido e tão ansiosa em conseguir o dinheiro para a viagem que parece não ter prestado atenção às condições do nosso trato. Portanto me parece oportuno lembrá-las à senhora. Bem, eu prometi conseguir o dinheiro, mediante a assinatura de uma promissoria que eu mesmo redigi. NORA Sim, e que eu assinei. KROGSTAD Ótimo. Mas, abaixo da sua assinatura, havia algumas linhas em branco, onde seu pai devia assinar como avalista. NORA Devia? Ele assinou. KROOSTAD Eu havia deixado a data em branco. Isso significa que seu pai deveria escrever a data quando assinasse o papel. A senhora se lembra? NORA Acho que me lembro. KROGSTAD Eu lhe entreguei o documento para que a senhora enviasse a seu pai pelo correio. Não foi assim? NORA Foi. KROGSTAD E a senhora naturalmente fez isso em seguida, pois cinco ou seis dias depois a senhora me trouxe o documento com a assinatura de seu pai, e então eu lhe entreguei o dinheiro. NORA Bem, e eu não tenho pago regularmente?
  45. 45. 45 KROGSTAD Mais ou menos, sim. Mas, voltando ao assunto em questão, aquela deve ter sido uma época muito difícil para a senhora, senhora Helmer. NORA Realmente foi. KROGSTAD Seu pai estava muito doente, não estava? NORA Ele estava para morrer. KROGSTAD E morreu pouco depois? NORA Morreu. KROGSTAD Diga, senhora Helmer, a senhora, por acaso, se lembra em que dia seu pai morreu? Eu quero dizer, o dia do mês. NORA Papai morreu no dia 29 de setembro. KROGSTAD Correto. Eu já havia me certificado disso. E, portanto, eis ai uma discrepância (tirando um papel do bolso.) que eu não consigo entender. NORA Que discrepância? Eu não sei... KROGSTAD A discrepância consiste, senhora Helmer, no fato de seu pai ter assinado este documento três dias depois de morto. NORA O que é que o senhor quer dizer? Eu não estou entendendo. KROGSTAD Seu pai morreu no dia 29 de setembro. Mas, olhe aqui, seu pai datou a assinatura de 2 de outubro. E uma discrepância, não é? (Nora não responde.) Outra coisa que chama a atenção é o fato das palavras “2 de outubro” e também o ano não estarem escritas com a letra de seu pai, e sim com outra que creio que conheço.
  46. 46. 46 Bem, é claro que isso pode ser explicado. Seu pai pode ter esquecido de datar a assinatura, e alguma outra pessoa pode ter arbitrariamente datado por ele antes de saber de sua morte, não há nada de mais nisso. Tudo depende da assinatura do nome e esta é legitima, não é, senhora Helmer? Foi realmente seu pai quem assinou este documento? NORA (depois de uma curta pausa levanta a cabeça e olha desafiadora para ele) Não, não foi. Fui eu quem assinei o nome de papai. KROGSTAD A senhora tem idéia do quanto é perigosa essa confissão? NORA Em que sentido? O senhor logo vai receber seu dinheiro. KROGSTAD Deixe eu lhe perguntar uma coisa: por que a senhora não mandou este papel a seu pai? NORA Era impossível, papai estava tão doente. Se eu pedisse para ele assinar, eu ia ter que contar em que o dinheiro ia ser usado. E ele estava tão doente que eu não podia lhe contar que a vida de meu marido estava em perigo. Era impossível. KROGSTAD Então teria sido melhor desistir da viagem. NORA Eu não podia fazer isso. A viagem era para salvar a vida de meu marido. Eu não podia desistir dela. KROGSTAD Mas nunca ocorreu à senhora que estava cometendo uma desonestidade contra mim? NORA Eu não podia levar isso em consideração, não me preocupei nem um pouco com o senhor. Eu não podia tolerar o senhor, a frieza dos obstáculos que o senhor colocava no meu caminho, apesar de saber que meu marido estava em perigo de vida. KROGSTAD Senhora Helmer, é evidente que a senhora não se dá conta da gravidade da falta que cometeu. Mas eu posso lhe assegurar que o meu mau passo, que arruinou a
  47. 47. 47 mim e a minha reputação, não foi nada pior nem nada além do que a senhora fez. NORA O senhor? O senhor espera que eu acredite que o senhor teve a coragem de correr um risco para salvar a vida de sua mulher? KROGSTAD A lei não leva em consideração esses motivos. NORA Então deve ser uma lei estúpida. KROGSTAD Estúpida ou não, é a lei pela qual a senhora será julgada se eu entregar este papel à justiça. NORA Não acredito. Uma filha não tem o direito de poupar aborrecimentos ao pai agonizante? Uma mulher não tem o direito de salvar a vida do marido? Eu não conheço bem as leis, mas estou certa de que devem existir leis que assegurem esses direitos. Como é que o senhor não conhece essas leis, o senhor que é advogado? O senhor deve ser um péssimo advogado, senhor Krogstad. KROGSTAD Pode ser. Mas de negócios — de negócios do tipo que fizemos — a senhora acha que eu não entendo? Muito bem. Faça o que achar melhor. Mas fique sabendo de uma coisa, se eu cair pela segunda vez, a senhora e seu marido vão cair junto comigo. (Cumprimenta e sai pelo vestíbulo.) NORA (parece mergulhada em pensamentos por algum tempo. Levanta a cabeça) Besteira. Meter-me medo com isso! Eu não sou tão boba quanto ele pensa. (Começa a arrumar os agasalhos das crianças.) Mas será?... Não. É impossível! Eu o fiz por amor. AS CRIANÇAS (na soleira da porta esquerda) Mamãe, o homem já saiu pela porta da rua. NORA Eu sei, meu bem. Mas não contem a ninguém que esse homem veio aqui, nem ao papai. AS CRIANÇAS Está bem. Agora vamos brincar mais?
  48. 48. 48 NORA Não, agora não. CRIANÇAS Ah, mamãe, você prometeu. É, mas agora não posso. Vão lá para dentro, eu tenho tanto o que fazer. Vão lá para dentro, meus amorzinhos. (Ela os conduz ao quarto e fecha a porta; então senta-se no sofá, pega um bordado, dá uns pontos e pára.) Não! (Abandona o bordado, levanta, vai à porta do vestíbulo chama.) — Helena, traga-me a árvore. (Vai à mesa da esquerda, abre uma gaveta, pára de novo.) Não, não. E completamente impossível! HELENA (entrando com a árvore) Onde é que a senhora quer que eu ponha? NORA Aqui, no meio da sala. HELENA Quer que traga mais alguma coisa? NORA Não, obrigada. Aqui tem tudo que eu quero. (Sai Helena, Nora começa a enfeitar a árvore.) Uma vela aqui, flores ali.... Que homem horrível ! Tudo besteira... não tem nada de errado. A árvore vai ficar uma beleza! Eu vou fazer tudo para agradar-lhe, Torvald. Vou dançar para você, vou cantar para você. (Helmer entra com alguns papéis debaixo do braço.) Ah, você já voltou? HELMER Já. Veio alguém aqui? NORA Aqui? Não HELMER Estranho. Eu vi Krogstad saindo pelo portão NORA Você viu? Ah, é, eu me esqueci. Krogstad esteve aqui um instante. HELMER Nora, eu vejo pelo teu jeito que ele veio aqui para pedir a você que intercedesse a favor dele.
  49. 49. 49 NORA Foi. HELMER E você devia fingir que fazia isso por sua própria conta. Devia esconder de mim o fato de ter ele vindo aqui. Ele não pediu isso também? NORA Pediu, Torvald, mas... HELMER Nora, Nora, como você pôde concordar com uma coisa dessas? Falar com um homem dessa espécie e ainda prometer alguma coisa a ele? E ainda por cima mentir para mim? NORA Mentir?... HELMER Você não me disse que não tinha vindo ninguém? (Aponta o dedo para ela ameaçando.) Minha cotoviazinha não deve fazer isso nunca mais. Uma cotovia tem que ter o biquinho limpo para poder cantar sem desafinar. (Abraça-a pela cintura.) E assim que deve ser, não é? Isso, eu sabia. (Deixa-a.) E não se fala mais no assunto. (Senta-se perto da estufa.) Ah, como aqui está quentinho e gostoso. (Remexe os papéis.) NORA (depois de uma curta pausa durante a qual se ocupa da árvore de Natal) Torvald. HELMER Que é? NORA Eu estou louca para chegar logo a hora do baile a fantasia dos Stenborg, depois de amanhã. HELMER E eu estou louco de curiosidade para ver a surpresa que você vai me fazer. NORA Foi bobagem minha querer fazer surpresa. HELMER Por quê?
  50. 50. 50 NORA Eu não consigo ter nenhuma idéia boa. Tudo que eu penso parece bobo e insignificante. HELMER Ah, então agora minha Norinha reconhece isso? NORA (de pé atrás da cadeira dele, com os braços apoiados no encosto) Você está muito ocupado, Torvald? HELMER Bem... NORA O que são esses papéis? HELMER Negócios do banco. NORA Já? HELMER Eu consegui autorização do atual diretor para fazer a necessária renovação de pessoal e reorganizar o trabalho antes da minha posse e tenho que fazer isso na semana do Natal, assim tudo estará em ordem para o ano novo. NORA Então é por isso que esse pobre Krogstad... HELMER Hum! NORA (inclina-se sobre o espaldar da cadeira e toca no cabelo dele) Se você não estivesse tão ocupado, eu ia lhe pedir um favor enorme, Torvald. HELMER O que é? Diga. NORA Ninguém tem tanto bom gosto quanto você e eu queria tanto ficar bonita no baile a fantasia. Torvald, você não podia cuidar de mim, resolver de que é que eu vou me fantasiar e como é que vai ser a fantasia?
  51. 51. 51 HELMER Ah! Então minha mulherzinha teimosa não sabe o que fazer e precisa de socorro. NORA É, Torvald, se você não me ajudar eu não vou conseguir. HELMER Muito bem, eu vou pensar no assunto. Nós vamos arranjar uma boa idéia. NORA Você é um amor. (Vai até a árvore de Natal. Pausa curta.) Que lindas essas flores vermelhas!... Mas, conte para mim, o que esse Krogstad fez foi mesmo uma coisa muito grave? HELMER Ele falsificou uma assinatura. Você tem idéia do que significa isso? NORA Mas não pode ser que ele tenha feito isso num momento de necessidade? HELMER Pode, ou, como na maioria dos casos, por imprudência. Eu não seria insensível ao ponto de condenar o caráter de um homem apenas por um ato isolado. NORA Você não seria, não é, Torvald? HELMER Muitos homens já conseguiram reabilitar seu caráter, confessando abertamente sua falta e recebendo o justo castigo. NORA Castigo?... HELMER Mas Krogstad não agiu assim, ele usou de artimanhas e conseguiu safar-se. Foi isso que fez com que ele se perdesse moralmente. NORA Mas você acha que seria... HELMER Imagine como um homem assim tem que mentir e ser hipócrita com todo mundo, como ele tem que fingir com as pessoas mais chegadas e mais queridas.
  52. 52. 52 Até com a mulher e com os filhos. E na presença dos filhos isso é o mais terrível de tudo, Nora. NORA Como? HELMER Uma atmosfera de mentira infecciona e envenena uma casa, Nora. As crianças respiram o micróbio do mal. NORA (aproximando-se dele) Você tem certeza? HELMER Meu bem, eu já vi muitos desses casos na minha carreira de advogado. Quase todo criminoso jovem tem uma mãe desonesta. NORA Porque é que você diz só... mãe? HELMER A má influência da mãe é mais freqüente, se bem que um mau pai deve causar o mesmo resultado. Todo advogado sabe que isso é assim. Esse Krogstad vem envenenando constantemente seus próprios filhos com mentira e fingimento. É por isso que eu digo que ele tem o caráter arruinado. (Estende a mão para e/a.) É por isso que meu amorzinho vai me prometer não advogar a causa dele. Dê- me a mão e prometa. Vamos, vamos! O que é isso? Dê-me a mão. Pronto, está selado o compromisso. Garanto a você que seria impossível para mim trabalhar com ele. Eu sinto um verdadeiro mal-estar físico quando estou com gente dessa espécie. NORA (tira a mão da mão dele e passa para o lado oposto da árvore de Natal) Que calor está fazendo aqui, e eu tenho tanto o que fazer. HELMER (levantando-se e arrumando seus papéis) É. E eu tenho que ler um pouco isto antes do jantar. Vou pensar na sua fantasia. E quem sabe se eu já não tenho alguma coisa embrulhada em papel dourado para a árvore de Natal? (Põe a mão na cabeça dela.) Meu bichinho lindo. (Vai para o escritório e fecha a porta.) NORA (depois de uma pausa sussurra) Não, não. Não é verdade. É impossível. Tem que ser impossível. (A governanta abre aporta da esquerda.)
  53. 53. 53 ANA MARIA As crianças estão pedindo para vir brincar com a mãe. Posso deixá-las vir para cá? NORA Não, não. Não as traga para cá. Fique você com elas, Ana. ANA MARIA Está bem, patroa. NORA (pálida de terror) Corromper meus filhinhos — (curta pausa, e/a abaixa a cabeça.) — não é verdade, não pode ser verdade. ATO II O mesmo cenário. A árvore de Natal está no canto, perto do piano, despida dos ornamentos, com tocos de vela queimados nos galhos despencados. O casaco e o chapéu de Nora estão no sofá. Ela está sozinha na sala, andando agitada, pára perto do sofá e pega o casaco. NORA (larga o casaco) Há alguém chegando! (Vai até a porta e escuta.) Não, não é ninguém. Claro, não vai aparecer ninguém hoje, é dia de Natal. Nem amanhã. Mas talvez... (Abre a porta e olha para fora.) Não, nada na caixa do correio, ela está bem vazia. (Vem à frente.) Que bobagem! Claro que ele não falou sério. Uma coisa dessas não pode acontecer, é impossível. Eu tenho três filhos pequenos. (Entra a babá, vindo do quarto da esquerda, carregando uma grande caixa de papelão.) ANA MARIA Até que enfim achei a caixa da fantasia. NORA Obrigada. Ponha em cima da mesa. ANA MARIA (obedecendo) Mas está precisando muito de conserto. NORA Minha vontade é picar em pedacinhos essa fantasia.
  54. 54. 54 ANA MARIA Que idéia! É um conserto fácil, basta um pouco de paciência. NORA É, eu vou buscar a senhora Linde para vir ajudar-me nisso. ANA MARIA O quê? Sair de novo? Com esse tempo horrível? A senhora vai pegar um resfriado, vai acabar ficando doente. NORA Bem, podia acontecer coisa pior. Como é que estão as crianças? ANA MARIA As pobrezinhas estão brincando com os presentes de Natal, mas... NORA Elas perguntam muito por mim? ANA MARIA É, elas estão tão acostumadas a ficar com a mãe delas. NORA Pois é, mas escute, Ana Maria, agora eu não vou mais poder ficar tanto com elas. ANA MARIA Bem, criança pequena se acostuma logo com qualquer coisa. NORA Você acha mesmo? Você acha que elas iam se esquecer da mãe se ela fosse embora de repente? ANA MARIA Cruz credo! Fosse embora de repente? NORA Ana Maria, eu tenho pensado muito numa coisa que eu quero que você me explique: como é que você teve coragem para largar sua filha com pessoas estranhas? ANA MARIA Eu fui obrigada, se eu quisesse ser a babá de Norinha...
  55. 55. 55 NORA Sei, mas como é que você pôde querer isso? ANA MARIA O quê? Onde é que eu ia arranjar outro emprego tão bom? Uma moça pobre que tinha se metido em encrenca, só podia levantar as mãos para o céu. Além do mais, aquele malvado nunca fez nada por mim. NORA Mas com certeza sua filha se esqueceu de você. ANA MARIA Esqueceu, que nada. Ela escreveu para mim quando foi crismada e quando casou. NORA (abraçando-a pelo pescoço) Ana, minha querida, você foi uma mãe para mim quando eu era pequena. ANA MARIA A Norinha menina não tinha outra mãe que não fosse eu. NORA E se os meus filhinhos não tivessem outra mãe, eu tenho certeza de que você podia... Que besteira eu estou dizendo! (Abre a caixa.) Vá ficar com eles. Agora eu preciso... Você vai ver amanhã como eu vou ficar bonita. ANA MARIA Ah, eu tenho certeza de que não vai haver no baile nenhuma mulher tão bonita quanto a senhora, patroa. (Sai para o aposento da esquerda.) NORA (começa a abrir a caixa, mas logo a deixa de lado) Se pelo menos eu me atrevesse a sair. Se pelo menos não viesse ninguém. Se pelo menos eu pudesse ter certeza de que não ia acontecer nada aqui enquanto isso. Bobagem, não vai vir ninguém. Só preciso parar de pensar nisso. Vou escovar meu cabelo. Que luvas lindas, lindas! Esquecer, esquecer... (Grita.) Vem alguém aí... (Faz um movimento em direção a porta, mas fica indecisa.) (Entra a senhora Linde, vindo do vestíbulo, onde já deixou o casaco e o chapéu.) NORA Ah, é você, Cristina? Não há mais ninguém aí fora, há? Que bom que você veio! SENHORA LINDE Eu soube que você esteve procurando por mim.
  56. 56. 56 NORA É, eu estava passando lá por perto. Mas há uma coisa em que você poderia me ajudar. Vamos sentar aqui no sofá. Olhe aqui, amanhã à noite vai haver um baile a fantasia em casa dos Stenborg. Eles moram aqui no andar de cima e Torvald quer que eu vá fantasiada de pescadora napolitana e dance a tarantela, que eu aprendi em Capri. SENHORA LINDE Ah, quer dizer então que você vai fazer uma representação completa? NORA É. Torvald quer que eu faça. Olhe, aqui está o vestido. Torvald mandou fazer para mim quando estivemos lá, mas está todo rasgado, eu não sei como... SENHORA LINDE Está fácil de consertar, são só os enfeites que estão descosturados aqui e ali. Agulha e linha. Ah, aqui há tudo que a gente precisa. NORA Você é muito gentil. SENHORA LINDE (costurando) Então você vai fantasiar amanhã! Pois vou fazer uma coisa, eu dou um pulinho aqui e vejo você fantasiada. Ora, não é que me esqueci completamente de lhe agradecer pela deliciosa noite de ontem? NORA (levanta e atravessa a cena) Eu não achei a noite de ontem tão agradável como costuma ser. Você devia ter vindo a mais tempo. Torvald sabe receber muito bem, ele torna a casa alegre e acolhedora. SENHORA LINDE E você também, pelo menos é o que eu acho. Não é à toa que você é filha de seu pai. Mas, diga-me, o doutor Rank está sempre tão deprimido como ontem? NORA Não, ontem estava mais do que de costume. É preciso que eu lhe diga que ele sofre de uma doença muito perigosa. Ele tem tuberculose na coluna vertebral, coitado. O pai dele era um homem horrível, que se entregava à toda espécie de excessos, por isso o filho é doente desde a infância, você compreende? SENHORA LINDE (largando a costura) Mas, Nora, meu bem, como você sabe dessas coisas?
  57. 57. 57 NORA (passeando) Ora! Quando você tem três filhos, você recebe visitas de... de senhoras casadas, que conhecem um pouco de medicina e falam sobre uma ou outra coisa. SENHORA LINDE (continua costurando; pausa curta) O doutor Rank vem aqui todo dia? NORA Regularmente todo dia. Ele é o melhor amigo de Torvald desde a infância, e um grande amigo meu também. É como se fosse da família. SENHORA LINDE Mas diga-me uma coisa, ele é sincero? Quero dizer, não é do tipo de homem que está sempre se esforçando para ser agradável? NORA Nem um pouco. De onde você tirou essa idéia? SENHORA LINDE Ontem, quando você me apresentou a ele, ele disse que já tinha ouvido muito o meu nome nessa casa; mas depois eu reparei que seu marido não tinha a menor idéia de quem eu pudesse ser. Então como é que o doutor Rank sabia? NORA É isso mesmo, Cristina. Torvald gosta de mim de uma maneira tão exagerada que ele me quer inteira só para ele, como ele sempre diz. No começo ele chegava a ficar com uma espécie de ciúme quando eu mencionava alguma pessoa querida de casa, então naturalmente eu fui deixando de fazer isso. Mas com o doutor Rank eu converso sobre esses assuntos com freqüência, ele gosta. SENHORA LINDE Escuta, Nora, você é ainda muito infantil sob vários aspectos, e sob vários aspectos eu sou mais velha do que você, e tenho um pouco mais de experiência. Quero dizer-lhe uma coisa: você devia acabar com essa situação com o doutor Rank. NORA Que situação que eu devia acabar? SENHORA L1NDE Acho que são duas. Ontem você falou uma bobagem sobre um admirador que deveria deixar-lhe uma herança.
  58. 58. 58 NORA Um admirador que infelizmente não existe! Mas, o que mais? SENHORA LINDE O doutor Rank é um homem de posses? NORA É sim. SENHORA LINDE E não tem família? NORA Não, não tem, mas... SENHORA LINDE E vem aqui todo dia? NORA Vem, eu já lhe disse. SENHORA LINDE Mas como é que um homem tão educado pode ser tão indiscreto? NORA Eu não estou entendendo nada. SENHORA LINDE Chega de fingimento. Nora, você pensa que eu ainda não adivinhei quem foi que lhe emprestou as quatro mil e oitocentos coroas? NORA Você está louca? Como você pode pensar uma coisa dessas? Um amigo nosso que vem aqui todo dia! Você não vê em que situação horrível eu ficaria? SENHORA LINDE Então realmente não é ele? NORA Não, claro que não, isso nunca passou pela minha cabeça. Além do mais, na época ele não tinha dinheiro para emprestar, ele só herdou mais tarde. SENHORA LINDE Bem, acho que isso foi uma sorte para você.
  59. 59. 59 NORA Não, nunca passou pela minha cabeça pedir ao doutor Rank. Se bem que eu tenho quase certeza de que se tivesse pedido... SENHORA LINDE Mas é claro que você não vai. NORA Claro que não. Não vejo por que pensar na necessidade de fazer isso. Mas eu tenho certeza de que, se eu contasse a ele... SENHORA LINDE Escondido de seu marido? NORA Eu preciso liquidar a questão com a outra pessoa. E isso também tem que ser escondido de meu marido. Eu preciso liquidar essa questão. SENHORA LINDE Sim, foi isso que eu lhe disse ontem, mas... NORA (andando de um lado para o outro) Um homem pode resolver um assunto desses muito melhor do que uma mulher. SENHORA LINDE Um marido pode. NORA Bobagem! (Detém-se) Quando você paga uma dívida recebe a promissória de volta, não recebe? SENHORA LINDE Evidente que sim. NORA E eu posso picar em pedacinhos e queimar o maldito papel! SENHORA LINDE (olha para ela, abaixa a costura e levanta devagar) Nora, você está me escondendo alguma coisa. NORA Eu estou dando essa impressão?
  60. 60. 60 SENHORA LINDE Alguma coisa aconteceu de ontem para hoje. Nora, o que foi? NORA (aproximando-se dela) Cristina! (Escuta.) Psiu. Torvald está chegando. Será que você se importa de ir para o quarto das crianças? Ele detesta ver a gente costurando. Ana Maria pode ajudar você. SENHORA LINDE (ajuntando as coisas) Claro. Mas eu não vou embora sem antes ter uma conversa franca com você. (Sai pela porta da esquerda, enquanto Helmer entra pela porta do vestíbulo.) NORA (indo para Helmer) Eu te esperei tanto, meu bem. HELMER Era a costureira? NORA Não, era Cristina, ela está me ajudando a consertar o vestido. Você vai ver como eu vou ficar bem. HELMER Então, eu não tive uma boa idéia? NORA Ótima! Mas eu também não fui boazinha, fazendo a sua vontade? HELMER Boazinha? Por que faz a vontade do seu marido? Ora, ora, sua louquinha, eu sei que não era isso que você queria dizer. Mas eu não quero atrapalhá-la, com certeza você vai provar o vestido. NORA E você vai trabalhar? HELMER Vou. (Mostra a ela um monte de papéis.) Olhe só. Eu acabo de passar pelo banco. (Vira-se em direção ao escritório.) NORA Torvald.
  61. 61. 61 HELMER Que é? NORA Se o seu esquilinho pedisse uma coisa com muito carinho... HELMER O que há? NORA Você faria? HELMER Primeiro eu gostaria de saber o que é. NORA Oesquilinho ia pular de alegria, se você fosse bonzinho, ele ia pular pela casa toda. HELMER Fale claro. NORA Tua cotovia ia cantar o dia inteiro. HELMER Isso ela já faz. NORA Prometo fazer o que você quiser. Pode imaginar qualquer coisa. HELMER Nora, não é aquele pedido que você me fez hoje de manhã? NORA (chegando-se a ele) É sim, Torvald, eu lhe peço muito, imploro-lhe. HELMER Você tem mesmo coragem de voltar a tocar nesse assunto. NORA Sim, meu amor, você precisa fazer o que eu pedi. Você precisa deixar Krogstad continuar no banco.
  62. 62. 62 HELMER Meu bem, esse é o emprego que eu vou arranjar para a senhora Linde. NORA É, isso foi muita bondade sua. Mas você podia muito bem despedir um outro funcionário ao invés de Krogstad. HELMER Que obstinação incrível! Só porque você, sem pensar prometeu a ele que falaria comigo, eu tenho que... NORA Não é por isso, Torvald. É para o nosso bem. Esse homem escreve nos piores jornais, foi você mesmo quem me contou. Ele pode prejudicá-lo de uma maneira horrível. Eu morro de medo dele... HELMER Ah, agora eu entendi. São velhas lembranças que a fazem ter medo. NORA O que que você quer dizer? HELMER Você deve estar pensando em seu pai. NORA É... É claro. Não se esqueça do que aquela gente ruim escreveu de papai nos jornais, como ele foi caluniado. Eu acredito que ele teria sido demitido se o departamento não tivesse mandado você para fazer um inquérito e se você não tivesse sido tão benevolente e tão atencioso com papai. HELMER Minha Norinha, existe uma grande diferença entre seu pai e eu. Seu pai não era um funcionário inatacável, eu sou e espero continuar sendo, enquanto estiver no meu posto. NORA Ora, nunca se sabe as intrigas que essa gente pode inventar. Nós agora poderíamos ficar tão bem, tão tranqüilos e tão felizes na nossa casa, bem sossegados... Você, as crianças e eu, Torvald. É por isso que eu te suplico e insisto tanto. HELMER E é justamente pedindo por ele que você me obriga a mandá-lo embora. No banco já se sabe que eu quero despedir Krogstad. Se começassem a falar que o
  63. 63. 63 novo diretor mudou de opinião por influência da mulher. NORA Que é que tem? HELMER Claro! Desde que a minha teimosinha consiga o que ela quer!... Você acha que eu vou expor-me ao ridículo diante de todo o meu pessoal, deixar que pensem que eu sou um homem influenciável por uma pessoa estranha ao trabalho? Garanto-lhe que logo, logo eu sofreria as conseqüências e, além do mais, há um fato que torna impossível a permanência de Krogstad no banco enquanto eu for diretor. NORA O que é? HELMER Na verdade, talvez eu pudesse passar por cima de sua falta de caráter, se fosse preciso. NORA É, você podia, não podia? HELMER E também me disseram que ele é um bom funcionário. Mas eu e ele nos conhecemos desde o tempo de estudante. Uma dessas amizades passageiras que depois nos incomodam o resto da vida. Bem, falando claro, graças àquela época de amizade ele não me trata de “senhor”. E esse sujeito não usa do menor tato quando há outras pessoas presentes. Pelo contrario, ele se acha no direito de me tratar com a maior intimidade, e toda hora é “Helmer, escuta aqui, meu velho” e outras coisas desse tipo. Eu lhe garanto que é muito desagradável para mim. Ele faria com que minha situação no banco se tornasse insuportável. NORA Torvald, eu não acredito que você esteja falando sério. HELMER Não? Por que não? NORA Porque isso é uma razão mesquinha. HELMER O quê? Mesquinha? Você acha que eu sou mesquinho?
  64. 64. 64 NORA Não, pelo contrário, meu bem, e é exatamente por isso... HELMER Dá na mesma. Você diz que as minhas razões são mesquinhas, então eu também devo ser. Mesquinho! Muito bem, vou acabar com isso logo de uma vez. (Vai à porta do vestíbulo e chama Helena.) NORA Oque é que você vai fazer? HELMER (procurando entre os seus papéis) Resolver o caso. (Entra a empregada) Olhe aqui, pegue essa carta. Vá até a rua imediatamente. Arrume um mensageiro e mande entregar. E depressa. O endereço está escrito. Tome o dinheiro. HELENA Sim, senhor. (Sai com a carta.) HELMER (arrumando os papéis) E então, dona teimosona? NORA (sem fôlego) Torvald, o que era essa carta? HELMER A demissão de Krogstad. NORA Chame-a de volta, Torvald! Ainda dá tempo, Torvald, chame-a de volta. Você não sabe o mal que aquela carta pode nos fazer. HELMER Agora é tarde. NORA É, agora é tarde. HELMER Nora, meu amor, eu desculpo essa insegurança em que você está, se bem que no fundo seja um insulto para mim. É, é sim. É um insulto pensar que eu ia ter medo da vingança de um advogadozinho sem escrúpulos. Mas mesmo assim eu te desculpo, porque é uma grande prova do teu amor por mim. (Abraça-a.) E é
  65. 65. 65 assim que deve ser, meu amor, minha Nora. Aconteça o que acontecer, você pode ter certeza de que eu tenho coragem e força para quando for preciso. Você vai ver como eu sou homem o bastante para arcar com toda responsabilidade. NORA (com horror na voz) O que é que você quer dizer? HELMER Eu quero dizer toda. NORA (recuperando-se) Você nunca vai ter que fazer isso. HELMER Está bem. Então nós vamos compartilhar, como marido e mulher. É assim que deve ser. (Acariciando-a) Está contente agora? Ah, ah, nada desses olhos de coelhinha assustada! Tudo não passa de fantasia sem fundamento... Agora você precisa ensaiar a tarantela e praticar com o pandeiro. Eu vou para o escritório, fecho a porta e não escuto nada. Você pode fazer o barulho que quiser. (Vira-se em direção à porta.) E quando Rank chegar, diga a ele onde é que eu estou. (Faz um gesto com a cabeça, pega os papéis e vai para o escritório, fechando a porta atrás de si.) NORA (perturbada e ansiosa, fica como que pregada ao chão e sussurra) Ele seria capaz de assumir. É o que ele vai fazer. É o que ele vai fazer apesar de tudo — não, isso não! Nunca! Nunca! Qualquer coisa menos isso! Ah, preciso de ajuda, tenho que encontrar uma saída. (A campainha da porta toca.) Doutor Rank! Qualquer coisa menos aquilo, qualquer coisa, seja lá o que for! (Cobre o rosto com as mãos, recupera-se, vai à porta e abre. Rank está pendurando seu casaco. Durante a cena que se segue, começa a escurecer.) NORA Boa tarde, doutor Rank. Reconheci seu toque. Mas Torvald não pode receber o senhor agora, acho que ele está ocupado. DOUTOR RANK E a senhora? NORA (manda-a entrar e fecha a porta) Ora, o senhor sabe muito bem que eu sempre tenho tempo para o senhor. DOUTOR RANK Obrigado. E eu vou aproveitar o máximo que eu puder.

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